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9.11.18

A definição do amor, segundo Júlio e Inês

Natália Faria, in Público on-line

O amor é ter disponibilidade. E sim, ainda é possível - resumem o psiquiatra Júlio Machado Vaz e a jornalista Inês Meneses, no livro O Amor é. Numa mimetização dos diálogos que mantêm há dez anos na rádio, falam de morte, das fugas, da solidão, do eterno retorno.

São dez conversas em que uma jornalista e um psiquiatra falam de como a solidão ameaça tornar-se uma epidemia pior do que a obesidade, de como se pode estar só dormindo na mesma cama, dos amores felizes, da adolescência, das rupturas, da culpa judaico-cristã, de como se sacrificam os amigos no altar do amor. O mote é sempre dado por uma canção ou por um poema, escalpelizados até à vírgula, numa escolha tão ecléctica que nela cabem nomes como Carlos Tê, Jacques Brel, Fausto, Leonard Cohen e Hanif Kureishi, entre outros. A linguagem dispensa jargão “psi”. Corre rente aos sentimentos, com espaço para gargalhadas sonoras ou o psiquiatra em causa não fosse Júlio Machado Vaz, em relação estável com a jornalista Inês Meneses, juntos há dez anos no programa radiofónico “O Amor é”.

Um retrato do “último sopro de Trás-os-Montes”
Apesar da coincidência temática, são inéditas as conversas transcritas no livro O Amor É – Para Memória Futura, lançado esta sexta-feira, com prefácio de Manuel Sobrinho Simões. “Fui ter com o Júlio ao Porto, levava cinco temas – quatro canções e um poema – e ele propôs outros cinco, e fechamo-nos numa sala, durante vários dias. O livro resulta desta longa conversa, partida em dez momentos”, explica Inês Meneses, para quem “pensar o outro é das coisas mais fascinantes da vida”.

Na maior parte das vezes, a jornalista fica-se pelo papel de perguntadora, mas os papéis invertem-se, por vezes, ou não se classificasse o interlocutor como “um machista lúcido”, que soma óbvias diferenças geracionais (ele tem 69 anos, ela 47) e cuja amostra pode estar enviesada porque se compõe em boa parte das questões que lhe levam os que o procuram no consultório. “Quando eu, por exemplo, ainda dou uma visão da mulher como a grande cuidadora, a Inês diz ‘atenção, Júlio, as coisas já não são bem assim’, o que me dá muita segurança, porque eu, mesmo não querendo, estou a expressar uma opinião relacionada com a minha geração ou baseada na clínica. Esta diferença etária é muito útil, e leva a um equilíbrio que pode ser difícil, porque a Inês também sabe – e não o questiona – quando lhe digo ‘cuidado com esses discursos muito optimistas porque o duplo padrão esmaeceu mas não desapareceu. Não se deixe enganar pelo paleio politicamente correcto’”, relata Júlio Machado Vaz.

Desta dinâmica entre os dois – que muitos já sentem como “coisa lá de casa” de tanto os ouvirem aos microfones da Antena Um, onde o programa passa em versão curta todos os dias e em versão longa ao fim-de-semana, nascem reflexões sem qualquer pretensão de se tornarem verdades universais. “Aquilo de que gosto nas conversas é que às vezes encontro respostas para perguntas que eu nem sabia que estavam em cima da mesa”, avança Inês Meneses, para quem o livro cumprirá a sua missão se, “no ritmo tão sôfrego e tão veloz em que as pessoas vivem”, conseguir que as pessoas parem e “pensem um bocadinho, a partir de cada frase dos autores das canções ou dos poemas”.
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O amor é ter disponibilidade, que inclui cuidar, ouvir, animar. Eu posso admirar alguém, mas, se não tiver essa disponibilidade, não adianta nada a admiração. Com a idade aprendemos que não se pode estar com alguém se não quisermos verdadeiramente cuidar dessa pessoa.
Inês Meneses, jornalista
A paixão (segundo Nicolau da Viola)
A letra de Carlos Tê, tornada património nacional pela voz de Rui Veloso, dá o mote para o questionamento adolescente sobre se é ou não possível “amar alguém que não ouve a mesma canção”. “Há duzentos ou trezentos anos, a adolescência como nós a conhecemos não existia”, recua o psiquiatra, para quem a adolescência é a faixa etária “em que as pessoas estão escarranchadas num muro entre aquilo que é a nossa quase total dependência durante a infância e o sonho da vida adulta e da independência”. Esvanece-se aí aquela “certa agressividade em relação ao sexo oposto” – se estivermos a falar de heterossexuais – e começa-se a tactear o terreno em relação ao outro e acusam-se as primeiras dores do amor. Absolutas, claro. “Ele está apaixonadíssimo por aquela rapariga! Desde logo porque sofre. Se não é correspondido, sofre. Se é correspondido, tem inseguranças, sofre. Se os pais lhe moerem a cabeça, sofre. E tudo isto é completamente aceitável porque a sociedade judaico-cristã sempre associou o amor ao sofrimento”, analisa Machado Vaz, para a seguir discorrer sobre os malefícios dos filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers na cabeça dos que deles se serviram como ideais de uma certa noção de amor romântico; pouco compaginável, portanto, com as discussões quotidianas sobre quem leva os filhos à escola e os traz para casa.

“As mulheres estão mais preparadas para o amor”
Mas, antes disso, há tempo para que o verso “a saliva que eu gastei para te mudar” ajude a perorar sobre a forma como os egos conflituam numa relação amorosa. “A tentativa de mudar o outro, muitas vezes verdadeiramente tirânica e imperialista, surge amiúde quando a relação já está estabelecida”, reflecte o psiquiatra, para quem a postura “eu estou aqui, tu se quiseres é que tens de vir para ao pé de mim”, que atravessa toda a canção, dita a morte de muitas relações e para concluir que a concepção de amor enquanto fusão entre duas pessoas “é um exagero” que merece ser substituído por outra hipótese: “Aquela de que a soma de duas pessoas é igual a uma terceira coisa, algo diferente que se forma pela soma de ambos”. Logo, conclui Inês Meneses, uma definição possível de amor seria a disponibilidade. “Ela não teve disponibilidade para ficar – nem meia hora ficou. Mas, na verdade, e antes disso, ele também não teve disponibilidade para aceitar que ela pudesse não gostar da mesma musica que ele. Ele passa uma imagem dela como sendo a intolerante, a que não aceitou o concerto que ele lhe propôs com tanto sacrifício. Mas quando propomos alguma coisa a outra pessoa, além do risco que estamos a correr, estamos a entregar o embrulho bonito. Ele entregou-lhe o embrulho todo bonito, de uma coisa de que ele gostava, e o que ela fez foi dizer que não gostava. E ele não se permitiu dar-lhe um outro presente.”

Os velhos de Jacques Brel
A partir de uma canção de 1967, escrita por um cantor que já sentia o fim do amor ao fim de 38 anos de uma vida em que se manteve casado, apesar das inúmeras amantes, a jornalista e o psiquiatra demoram-se a tentar decifrar esse equilíbrio de trapezista de alguém que, não sendo capaz de abdicar do lugar seguro do casamento – da ligação à terra que este representa –, nunca deixou de ser alguém “permanentemente insatisfeito e com um gosto pela ferida”. E, como pano de fundo, uma certa ideia de velhice, a dificuldade em suportar as dificuldades físicas e psicológicas do passar dos anos. E, como pano do fundo, a tentação sempre inglória em que muitos caem de encarar um filho “como terapêutica para uma relação que coxeia”. “Em geral, isso não resulta”, vaticina Machado Vaz, à laia de aviso.

O amor ainda é possível. E digo ainda porque ouço muita gente cheia de dúvidas. E porque leio os artigos sobre o Japão, onde 30% dos jovens dizem que não querem ter relações amorosas nem sexuais porque tiram tempo, dão chatices. E que , ao domingo, alugam uma rapariga ou um rapaz para irem almoçar com os pais e fingir que são namorados ou namoradas...
Júlio Machado Vaz, jornalista

A triangulação amorosa, primeiro, a propósito de Simone de Beauvoir e de Jean-Paul Sartre e dos respectivos amantes, mas ainda da vida sentimental de Brel, que em 1960, escreve, numa carta à mulher – não é difícil imaginar Júlio Machado Vaz, neste exercício de recitação soletrada, a partir do rádio lá de casa: “Sobretudo, tu merecias mais amor, minha Mie, ao passo que eu só consigo dar-te toda a gentileza e ternura de que sou capaz. Cem vezes esperei de ti uma frase dizendo que preferias deixar-me, mas talvez tu não sejas tão infeliz quanto eu penso, talvez também tu, como eu, não tenhas esta dupla necessidade de arder no amor que mata alguns homens. Mas talvez, hoje em dia, nós estejamos acima, ou melhor, para lá do amor. Cúmplices, gentis, ternos. Porque, enfim, nós devíamos detestar-nos e tu, creio, amas-me muito, e eu, mesmo se pratico aquilo a que os idiotas chamam ‘fraquezas culpáveis’, nunca faço nada que não seja em função de ti e dos nossos”.

Será ainda amor, aquilo que os une, Júlio? “Já perdi a conta das pessoas que ouvi dizerem-me: ‘Sabe que nós agora temos uma relação tão calma que até fico preocupado? Isto ainda será amor?’. As pessoas estranham a mudança e questionam-se se isso não será apenas comodismo. Brel está a afirmar que a paz é uma armadilha, que os amantes já não estão em movimento e que, eventualmente, se estão a tornar simples amigos. E prossegue: protegemos menos os nossos mistérios, damos menos oportunidades ao acaso. Ou seja, está a falar de rotinas. E, no fim, refere: mas a doce guerra não tem fim. Para Brel, há uma enorme nostalgia da ternura, mas também deve existir uma dimensão de combate. Se não houver combate, para ele já não é amor, pois já não consegue aguentar, aborrece-se.”

A velhice, agora. “Brel considera a velhice uma catástrofe. A velhice é o descalabro. Veja estas imagens que são fortíssimas: ‘Os velhos já não falam… Ou às vezes, apenas com a ponta dos olhos. Mesmo ricos, são pobres… Já não têm ilusões e só lhes resta um coração para dois’”, cita o psiquiatra, para quem a vida “a 200 à hora” do intérprete belga sublima essa omnipresença da iminência da morte e a recusa dos dias povoados por “livros cheios de sono”, pianos fechados, gatos mortos e deambulações limitadas pela distância que vai da cama à janela, da cama ao sofá. Da noção “breliana” de velhice à forma como esta tende a ser vivida nos dias de hoje, descontadas diferenças sócio-económicas, vão séculos de distância: “Passou o tempo em que a palavra ‘sexagenário’ assustava. (…). Pelo meu consultório, todos os dias passa gente que descreve quotidianos gratificantes, seja na saúde, ou no amor. (…) Os mais velhos namoram, casam, divorciam-se, pagam o preço, recebem os dividendos. Resistem a uma sociedade que tende a ver sexo e juventude como sinónimos e envolvem-se em relações com a mesma naturalidade que reservam às boleias dadas aos netos.”
Entre a velhice a adolescência, sobram páginas para responder ao SOS de Rui Reininho e dos seus “Homens temporariamente sós”, pretexto para se encarar a forma como a sociedade destigmatizou a solidão voluntária, e de como o próprio mercado imobiliário se adaptou a este segmento. Há tempo para exercícios de semiótica de frases como esta do Ruy Belo quando diz “No teu amor por mim há uma rua que começa”. E depois disto, pouco apetece acrescentar, a não ser que Júlio Machado Vaz e Inês Meneses podem ser interpelados esta sexta-feira, no El Corte Inglés de Lisboa, no lançamento do livro, às 18h30, e que o rendez vous se repete no dia 24, pelas 17h, na Biblioteca Almeida Garret, no Porto.



19.3.18

Há cada vez mais homens a cuidar sozinhos dos filhos

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Sentem as mesmas dificuldades que as mulheres na conciliação da vida laboral com a vida familiar e pessoal, mas são encarados como pessoas especiais. “Era como se valorizassem mais o facto de eu ter a dupla jornada de trabalho que quase toda a mulher tem”, diz um deles.

A primeira vez que Mariana Faria de Oliveira se viu com o período, deu um grito. O pai já lhe tinha falado naquilo, mas ela não estava à espera daquela mistura de sangue, muco e secreções vaginais. “Assustei-me. O meu pai explicou-me o que se estava a passar, disse-me que era normal, que eu não ia morrer.”

Encontra no pai o suporte financeiro, mas também afectivo e emocional. É com ele que fala sobre conquistas e derrotas, amores e desamores, anseios e receios. E depara-se com espanto sempre que alguém descobre que vive com ele. Tem 16 anos. Percebe a reacção. “Quando os pais se separam, os filhos vão viver com as mães ou ficam uma semana com um e uma semana com outro”.

Ainda que com oscilações, está a aumentar desde a década de 80 o número de famílias monoparentais, isto é, constituídas por um pai ou uma mãe e os filhos. As masculinas seguem a tendência, mas permanecem muito abaixo das femininas, o que quer dizer que ainda não mudou o regime padrão de residência (com a mãe) e de contacto (com o pai). Em 2017, havia 387.320 famílias monoparentais femininas e 52467 monoparentais masculinas.

Que homens são estes que assumem a 100% os cuidados parentais? Os últimos censos “sugerem que a monoparentalidade no masculino tende a ser mais frequente quando os filhos já são mais velhos e numa fase mais tardia do percurso de vida”, explica Sónia Vladimira Correia, docente da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração da Universidade Lusófona. Analisando o estado civil, nota que “é menor o peso relativo dos homens que entram na monoparentalidade por via de nascimentos fora da conjugalidade ou por via da ruptura de uniões de facto, sendo maior o peso relativo dos homens que entram na monoparentalidade pela viuvez”.

O processo de Mariana foi tranquilo. O actor Pedro Oliveira estava a pensar propor à ex-mulher ficar com a guarda e ela antecipou-se. “Ela tinha um trabalho instável. Mudava de casa muitas vezes. Eu moro na casa onde a Mariana sempre viveu, em Paço de Arcos. Ela podia ter um quarto, estar perto da escola, ter mais estabilidade”, conta.

Mariana não tem grandes memórias dessa mudança. “Perguntaram-me se queria viver com o meu pai. Eu disse que sim. Passado pouco tempo, estava a viver com o meu pai. Não me fez confusão. Não era muito bom viver com a minha mãe e o com o meu irmão. Era muita pressão para a minha mãe.”

Filho, Portugal é lindo e... está cheio de burocratas
Por trás dos pais sós estará uma variedade de situações: num extremo, o reconhecimento de que um pai pode cuidar tão bem de um filho ou de uma filha como uma mãe (e aí sobressairá a guarda conjunta e a residência alternada); no outro, mães consideradas inaptas para a função.

Quando o engenheiro informático José Soares se separou, sugeriu a guarda partilhada da filha de três anos. Parecia-lhe natural que continuassem ambos a ter total responsabilidade pelos cuidados a prestar e pela educação a dar. Ficou admirado quando ouviu a juíza dizer: “Não, os filhos têm de ficar com as mães.”

De repente, a ex-mulher afundou-se no consumo abusivo de drogas. “A situação estava muito deteriorada. Já não havia electricidade dentro de casa…” A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens acabou por remeter o caso para o Tribunal de Família e Menores, que decretou uma medida de emergência. José foi buscar a filha à creche. Quando a ex-mulher lá chegou já não a encontrou.

A menina, de quatro anos, perguntava-lhe pela mãe. Queria saber porque já não morava com ela. José dizia-lhe: “Tu estás só comigo porque a tua mãe está doente, ela vai ficar boa.” Não lhe parecia correcto dizer-lhe mais do que isso. “Os detalhes vão vindo com a idade, com naturalidade.”

Metade dos portugueses acha que pais sozinhos criam tão bem os filhos como casal
Os pais sós têm as mesmas dificuldades que as mães sós em conciliar a vida profissional com a vida familiar e pessoal. O maior ou menor esforço depende da rede de apoio (formal e informal) e dos recursos económicos que têm (o que permitir ampliar essa rede), como sublinha Sónia Vladimira Correia.

José não podia partilhar qualquer responsabilidade com a ex-mulher. Naquela fase, os contactos desta com a filha estavam reduzidos ao mínimo e só podiam ocorrer com a supervisão dos avós maternos. Os pais dele não lhe podiam valer (moram no Brasil), tão-pouco a irmã (que morava em Inglaterra). Teve de fazer uma gestão muitíssimo apertada do tempo e dos horários.

Mora em Matosinhos. “Tinha de começar o dia uma hora e meia ou duas horas mais cedo e de terminar o dia duas horas mais tarde”, recorda. Despertava às 5h ou 5h30. Cuidava de si. Despertava a filha, vestia-a, dava-lhe o pequeno-almoço. Saiam às 7h. “Às 8h tinha de estar na Maia à espera que a que a creche abrisse, porque tinha de voltar para Matosinhos para começar a trabalhar às 9h.” O corre-corre repetia-se ao final do dia. “Saía do trabalho às 18h em ponto. Tinha de estar na Maia antes das 19h, porque a creche fechava. Chegava a casa às 20h.”

Naquela estafa, faltava tempo para brincar. “No início, deixava a minha filha a ver desenhos animados enquanto preparava o jantar.” “Era pesado. Nem sei como conseguia”, diz. Tudo melhorou no momento em que conseguiu encontrar uma vaga num colégio privado perto de casa.

Pedro Oliveira também tem uma vida profissional muito preenchida. Além de actor, dirige uma cooperativa, colabora com uma associação. Quando se separou, Mariana tinha nove anos. Ia nos 11 quando veio viver com ele. “Tenho muito que fazer, mas conseguia gerir. Quando não conseguia, tinha o apoio do meu pai. Havia muitas noites em que o meu pai ficava com a Mariana.”
Sempre se sentiu visto como “um homem especial" por estar a criar a filha sozinho. E, num mundo em permanente mudança, sempre foi assaltado pelos receios próprios da condição de pai. Conseguiria ter uma criança a cargo sem receber apoio financeiro do outro progenitor? Estaria a educá-la bem?

José Soares também sempre se sentiu valorizado. “As pessoas elogiavam, mostravam empatia, tinham curiosidade em saber como eu fazia”, recorda. “Deve ser o tal machismo enraizado. Era como se o meu trabalho fosse uma coisa fora do normal. Era como se valorizassem mais o facto de eu ter a dupla jornada de trabalho que quase toda a mulher tem.”
A filha está muito mais autónoma. Já completou 12 anos. No princípio deste ano, a guarda tornou-se partilhada e a residência alternada. A mãe está recuperada. E o pai tem vida própria. Há dois anos, começou a viver com uma pessoa do mesmo sexo.

O pai sozinho tem de falar de tudo, incluindo sentimentos. Tem é de adequar as palavras à idade. Antes de assumir em público uma relação com outro homem, José falou com a filha: “Tenho uma coisa para te contar. Lembras-te daquele livro Ser diferente é bom, da Sónia Pessoa? É o caso do teu pai.” A menina também lhe quis contar que gosta de um menino lá da escola. “Eu achei tanta graça nela.” Parece-lhe que está a lidar bem com o assunto. “Ela também acaba por servir de exemplo na escola, na sociedade. Pode ajudar a perceber que o importante é as pessoas serem felizes.”