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30.7.18

População cigana aumentou 79% nos últimos oito anos no distrito de Beja

in o Observador

Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) refere que a população cigana no distrito de Beja, no Alentejo, passou de 2048 ciganos em 2010 para 3666 este ano.

A população de etnia cigana aumentou 79% nos últimos oito anos no distrito de Beja, onde, atualmente, vivem 3.666 ciganos e que representam 2,4% do total de habitantes, segundo dados divulgados este domingo.
Num comunicado enviado à agência Lusa, a Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) refere que a população cigana no distrito de Beja, no Alentejo, passou de 2.048 ciganos em 2010 para 3.666 este ano, o que representa mais 1.618 e um aumento de 79%.

Os dados resultam da comparação entre o estudo de caracterização da população cigana realizado em 2010 pelo Centro Distrital de Segurança Social e o mapeamento das comunidades ciganas no distrito de Beja feito no terreno este mês pela AMEC.

Segundo a associação, os 3.666 ciganos contabilizados através do mapeamento representam 2,4% do total de 152.758 habitantes do distrito de Beja, segundo os dados do Censos de 2011.

Em declarações à Lusa, o presidente da AMEC, Prudêncio Canhoto, disse que o aumento da população cigana no distrito de Beja pode explicar-se com o crescimento da natalidade.

Os ciganos casam-se e constituem família e têm filhos cedo e as famílias ciganas são numerosas”, disse, referindo que, “em muitos casos, numa só casa vive uma família de três gerações – pais, filhos e netos”.

Por outro lado, Prudêncio Canhoto admitiu que os dados do estudo realizado em 2010 estivessem “abaixo” dos números reais, ao contrário do mapeamento feito este mês e que recolheu dados no terreno, contando os habitantes de etnia cigana “família por família”.

Segundo o mapeamento, atualmente, a população cigana no distrito é constituída por 2.065 crianças e jovens, que são a maioria, e 1.601 adultos, distribuídos por 767 famílias.

No pódio dos concelhos do distrito onde vivem mais ciganos e, em números absolutos, a população cigana mais aumentou, Beja ocupa o primeiro lugar, com 1.399 habitantes de etnia cigana, mais 828 do que os 571 em 2010.

Seguem-se os concelhos de Moura, em segundo lugar, com 983 ciganos, mais 257 do que os 726 em 2010, e de Serpa, em terceiro lugar, com 469, mais 164 do que os 305 em 2010.

Segundo o mapeamento, além de Ourique, que, tal como em 2010, “continua sem comunidades ciganas”, Odemira, com oito, Almodôvar com 19 e Barrancos com 24 são os concelhos do distrito de Beja com menos habitantes de etnia cigana.

Cuba é o único dos 14 concelhos do distrito onde a população cigana diminuiu, passando de 90 habitantes em 2010 para 69 este ano.

De acordo com a AMEC, o mapeamento incluiu o recenseamento quantitativo e o registo fotográfico habitacional para comprovar as condições habitacionais da comunidade cigana.

“Brevemente”, a AMEC irá divulgar, através de uma exposição, registos fotográficos do parque habitacional da comunidade cigana no distrito de Beja e “de acordo com o trabalho realizado no terreno”.

O mapeamento foi feito no âmbito do projeto “Nós damos o passo para o impulso”, do Programa de Apoio ao Associativismo Cigano 2018 e contou com o apoio do Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza e das redes sociais do distrito.

27.7.18

Comunidade cigana volta a aumentar no Baixo Alentejo

in Rádio Campanário

No distrito de Beja residem atualmente mais de 3600 pessoas de etnia cigana (2065 dos quais crianças), que correspondem a 2,4% da população do Baixo Alentejo, distribuídas por 737 famílias.

Destas, 70% vivem em casas de alvenaria, 17% em barracas e 13% em tendas ou rulotes, segundo dados do Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza, divulgados em julho de 2018.

Beja e Moura surgem como os concelhos que concentram o maior número de cidadãos desta etnia e onde estes representam uma maior percentagem da população. No concelho de Moura, os 983 cidadãos ciganos representam 6,48% da população, enquanto em Beja representam 3,89% da população total, com 1399 residentes de etnia cigana.

No que concerne às condições de habitação, o concelho de Alvito (40 cidadãos ciganos) é o concelho mais afetado em termos percentuais, com 60% da sua população cigana a residir em barracas e 40% em habitações de alvenaria, seguindo-se Moura (983), Serpa (469) e Cuba (69) em que são registados 50% em ambas as condições.
Em termos absolutos, destaca-se Beja com 65% dos 1399 residentes a morarem em habitações de alvenaria, 32% em barraca e 3% em tenda.

Em Mértola, Barrancos e Ferreira do Alentejo, 100% da população cigana encontra-se a residir em habitações de alvenaria, e em Almodôvar, 90%, sendo que os restantes 10% habitam em tendas.
Não existe registo de qualquer família cigana a residir no concelho de Ourique.

Segundo a Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC), esta comunidade era composta por 2048 pessoas em 2010, tendo aumentado 79% até 2018, segundo os dados agora revelados. Contudo, anteriormente em declarações à RC, Pudêncio Canhoto, enquanto mediador municipal de Beja, da Associação de Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC), apontara falta de precisão nos dados.

17.7.18

Casamentos ciganos: tradição ou crime? Ritual da virgindade: violação ou honra?

Carolina Branco, in o Observador

São cada vez menos comuns. Os ciganos estão satisfeitos pelas mudanças (mas temem o ritual da virgindade). Ainda existem casos a chegar às autoridades. A PJ pode atravessar a linha dos costumes?

“Ó Luísa, não sabias fugir?”. A jovem de 18 anos já tinha sido resgatada e estava de volta à instituição. Paula, uma das funcionárias, continuava sem conseguir perceber porque é que ela não tinha fugido. Para a jovem, a resposta era óbvia: “Eu tinha tanto medo. Não sabia nada”. Tinha sido obrigada a mendigar em locais públicos, na cidade de Coimbra. A funcionária recorda o desabafo de Luísa (nome fictício): “Tinha tanta vergonha, disse-me ela. Coitadinha!” Sem telemóvel nem documentos, não tinha forma de contactar ninguém nem sequer de se identificar. Era vigiada à distância e controlada à vista pelos pais do marido. Em casa, era obrigada à servidão doméstica. Não era agredida pelos sogros e tinha direito a alimentação. Para todos os efeitos, era a mulher do filho.

Tinha sido levada para o apartamento da família do marido, em Coimbra. Vivia com os sogros, cunhados e primos — “todos com antecedentes criminais e cumprimento de pena de prisão”, revelou fonte da Polícia Judiciária (PJ) do Porto ao Observador. Durante as duas semanas que seguiram o casamento, viveu também com o marido, 12 anos mais velho. No final dessas duas semanas, ele foi recapturado pelas autoridades. Tinha saído da prisão, em licença precária, para passar o Natal com a família e só voltou quando a polícia o foi buscar, no início de janeiro. Mas o Natal fora só um pretexto para executar o plano que já estava em curso: casar com Luísa. Plano esse, pensado pelo pai da noiva, que a raptou para o pôr em prática.


Luísa fora retirada à família quando tinha 16 anos. A mãe tinha fugido, quando a filha ainda era pequena. O pai tinha sido preso por roubo e tráfico de estupefacientes. Vivia com os avós maternos num acampamento na zona de Braga e sofria maus tratos. Foi retirada pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) e institucionalizada. “Quando cá chegou, não sabia nem ver as horas. Não sabia nada”, recordou a funcionária ao Observador. Dizia que aquela instituição era a sua “casinha”. Lá vivia e estudava. E pretendia continuar. “Agora já não sou cigana. Não quero casar”, costumava dizer.

Tinha até um namorado “branco”. Chegou a enviar uma carta ao pai a pedir-lhe autorização. Na altura, ele disse que sim. Mas a família nunca aceitou verdadeiramente a relação e o afastamento de Luísa da comunidade. Queriam que ela se casasse com alguém de etnia cigana. “A avó chegava volta e meia com um cigano. Chegou a vir com dois ou três. Mas ela foi dando indicação que não queria casar. Aquele ritual de perder a virgindade com o pano branco fazia-lhe confusão”, revelou a funcionária, que chegou a enfrentar a avó: “Ela não falava. Gritava”. Após todas essas tentativas de arranjar um marido para Luísa, as ameaças das funcionárias da instituição resultaram e conseguiram afastar a avó. Até àquele Natal de 2017.

Luísa e três primos — dois meninos de dois e oito anos e uma menina de cinco — que viviam com ela na instituição foram passar a consoada com a família, no acampamento. Foi a própria instituição a levá-los, no dia 24 de dezembro. A condição era regressarem no dia seguinte, até às 17h30. Aproximava-se essa hora e Luísa ligou à instituição a informar que estavam à espera de boleia. Mais tarde, os três primos regressaram e traziam os pertences de Luísa. Mas a jovem não vinha com eles. “Ela estava no carro a chorar. Estava com o pai”, relatou o primo de oito anos. “Sabíamos que alguma coisa se estava a passar. Através das câmaras de vigilância, percebemos o que era”, recordou uma funcionária ao Observador.

“A avó chegava volta e meia com um cigano. Chegou a vir com dois ou três. Ela própria foi dando indicação que não queria casar. Aquele ritual de perder a virgindade com o pano branco fazia-lhe confusão.”
Funcionária da instituição

Foi o pai de Luísa, que também estava em licença precária para passar o Natal fora da prisão, que deu a tal boleia aos quatro primos. À porta da instituição, não deixou a filha sair do carro. Luísa tentou mas foi agredida e puxada para dentro. O que as imagens da câmara de vigilância não mostravam era que o pai de Luísa tinha-lhe arranjado um noivo e a filha ia casar. “O facto de saberem que ela tinha uma relação séria, estável e com alguém que não era da mesma etnia, acelerou ainda mais a vontade de a reinserir no meio”, explicou a fonte da PJ do Porto. Acelerou de tal maneira que, em dois dias, o pai concretizou o seu desejo de ver a filha casada com um cigano. Num dia saiu da prisão, combinou o casamento com os progenitores do noivo, com quem tinha laços familiares. No outro, impôs o casamento à filha — que aconteceu a tempo de voltar para a prisão antes do fim da licença precária.

A instituição não tardou a ligar aos familiares à procura da jovem. Disseram que Luísa tinha fugido. Os funcionários ameaçaram chamar a polícia. “A madrasta ligou aos gritos”, recorda uma funcionária. Ligou para a tia, a mãe dos três primos de Luísa que estavam naquela instituição. “Se não disserem a verdade, não te deixo mais ver os teus filhos”, disse-lhe a funcionária. Acabou por dizer que o irmão tinha levado a filha para Aveiro. Luísa ligou mais tarde para a instituição. “Disse que ia casar com um cigano. Ó Luísa, tu queres mesmo casar com um cigano? Diz-me só: sim ou não? Ela disse que não”, recorda a funcionária. Depois, deixaram de ter contacto com a jovem. O telemóvel estava desligado. No dia seguinte, 26 de dezembro, denunciaram o caso às autoridades. Luísa já estava casada.

“Disse que ia casar com um cigano. Ó Luísa, tu queres mesmo casar com um cigano? Diz-me só: sim ou não? Ela disse que não."
Funcionária da instituição

A PJ abriu uma investigação de crimes de rapto, casamento forçado e violação. “A primeira violação aconteceu na consumação do casamento mas foi uma prática continuada, pelo menos, nas duas semanas em que Luísa teve de conviver com o marido”, explicou fonte da PJ do Porto ao Observador. Quarenta investigadores estiveram envolvidos em operações e seis buscas domiciliárias que contaram com o apoio logístico da PJ de Coimbra e de Aveiro. A PJ do Porto conseguiu deter mais seis pessoas — todos familiares –, além de interrogar o pai e do marido de Luísa que já estavam presos: os sogros, duas pessoas que “colaboraram de forma direta ou indireta no rapto”, o patriarca e a sua mulher que os acolheram no acampamento em Aveiro e deram “apoio logístico na consumação do casamento”. Os detidos, com idades entre os 30 e 50 anos, “alguns deles com antecedentes criminais”, foram também alvo de interrogatório e aplicação de medidas de coação consideradas adequadas.

Luísa tinha foi resgatada menos de um mês depois da denúncia. Ficou a viver na instituição no mês que se seguiu. Agora, vive com o namorado “branco”, para quem acabou por voltar. “Acredito que se continuasse naquele casamento, ainda lá estava”, lamenta a funcionária.

“Pode casar com branco, com preto. É igual. Chineses e tudo”
Não é a única a lamentar. “Obrigaram-na a casar com um cigano à força! Isto acho mal. Isto de casar as pessoas. Acho mal”. Maria do Sameiro ou apenas Sameiro é irmã de um dos detidos, o tio do noivo. O laço familiar não é suficiente para concordar com o casamento forçado de Luísa: “Eles não tinham nada a ver com isso. Se ela estava com um rapaz, não tinham nada que a obrigar a casar com um cigano”.

Sameiro tinha 11 anos quando casou, mas reconhece que agora “é tudo diferente”. O homem com quem vive no Bairro da Biquinha, em Matosinhos, “não é marido, é companheiro”. Também era viúvo quando se conheceram. O marido de Sameiro foi assassinado num acampamento no Porto, há vários anos. Não se lembra há quantos. Teve o primeiro filho dele com “13 ou 14 anos”. Depois, vieram mais seis. Estão todos em Madrid. “Foram para lá porque casaram. Na altura, eu estava detida porque o meu marido era consumidor”, explicou ao Observador.

Apesar de ter casado nova, casou com quem queria. Ainda assim, defende que se devia casar “só aos 20”. Não vê problema em casamentos com pessoas fora da comunidade cigana. “O meu irmão está casado com uma branca. A minha prima tem um preto. Não há problema. Isso era antes. Agora já não. Pode casar com branco, com preto. É igual. Chineses e tudo”, diz Sameiro às gargalhadas. Só vê um problema. “Antigamente, as mulheres eram mais fiéis para os homens. Agora estão com uns e estão com outros. Perdem a cabeça na internet, com os computadores, com os jogos”, lamenta enquanto acena com a cabeça. “Eu não arranjo amante porque não sei ler nem escrever. Se não perdia também a cabeça”, admite novamente às gargalhadas.

Uns fugiram ao ritual de perder a virgindade. Outros dizem que é “o melhor que os ciganos têm”
Ivone e José testemunharam a mudança. Sentados em cadeiras de plástico ao lado um do outro, à porta de casa, recordam que casaram há mais de 50 anos. Tiveram nove filhos e já não sabem quantos netos têm. Casaram numa idade já avançada, tendo em conta as tendências da altura: ela tinha 16 e ele tinha 19. Mas tiveram que fugir para casar. “Conhecemo-nos, fugimos e ficámos juntos”, recorda Ivone. O marido, mais envergonhado, justifica, enquanto encolhe os ombros: “Os nossos pais não queriam que nós ficássemos juntos”. É que o casamento cigano é consumado com um ato sexual e, quando um casal foge, a comunidade parte do princípio que houve uma relação sexual antes. Como com Ivone e José.

A filha, Maria da Conceição, que entretanto se sentou ao pé dos pais à porta de casa, também teve que fugir. Queria casar com um homem que não era cigano, o Augusto. Mas a razão não foi essa. Os pais, Ivone e José, aceitaram a escolha da filha. “Somos todos iguais. Somos todos filhos de Deus. No princípio foi complicado. Tinha medo que as pessoas falassem. Depois foi passando e já está há trinta e tal anos com ele”, conta Ivone. Maria da Conceição queria era fugir ao tal ritual: o arrontamento.

Neste ritual que prova a virgindade da noiva, uma mulher mais velha e respeitada introduz um pano branco na vagina da noiva. Acontece durante a festa do casamento, numa zona reservada só à noiva, às mães dos noivos e às mulheres mais velhas. “O pano com sangue mostra-se aos ciganos e depois dá-se à mãe do noivo. Muitas ainda o têm”, explicou Sameiro ao Observador. “É para mostrar que somos virgem para os homens. Se a gente não for, os noivos não querem a gente”, diz. Depois ri-se e encolhe os ombros: “Às vezes faz-se um corte no dedo de alguém e põe o sangue no pano e está feito.” Sameiro não concorda com o ritual: “Está mal feito. Muitas têm medo.”
Outras têm orgulho. A própria nora de Maria da Conceição é uma delas: “É o melhor que os ciganos têm”. Tem 27 anos. Casou há 12 com Almerindo, que tem 30. Não fugiram. Susana submeteu-se a esse ritual. Não teve medo e sentiu-se orgulhosa. “Não faz sentido ser o marido a tirar a virgindade à mulher. Se é bonito para a tradição…”, defende. “É um orgulho para os pais”, interrompe o marido.


Susana e Almerindo são primos direitos e, por isso, ambos netos de Ivone. Cresceram juntos, apaixonaram-se e casaram. Também não concordam com casamentos forçados e reconhecem que tudo mudou: “Agora já está tudo moderno. Antigamente, era muito fechado. Havia mais regras. Foi bom para os jovens a mudança”. Ainda não têm filhos porque “não têm a vida composta” mas querem ter — não lhes interessa o que a comunidade pensa disso. “Queremos aproveitar a vida!”, diz Susana que trabalha num restaurante de sexta-feira a domingo.

Conseguem perceber o arrontamento mas não percebem porque é que tem de ser a mulher a sair de casa, caso o casal se separe. Se Susana se quisesse divorciar, Almerindo não via problema: “As pessoas falar, falavam. Falam sempre. Mas da minha parte não havia problema”. Já Susana torce o nariz: não seria capaz de arranjar outro marido. “Ela está a falar mas se essa mulher deixasse o meu filho, nem um fio de cabelo dela ficava aqui. Ela não ficava cá. Não a queria aqui”. Maria da Conceição, que tinha aparecido à porta da sala e ouviu a conversa, não resistiu a comentá-la. Acabou por sair. “Ela pensa como os antigos”, diz Susana mal a sogra virou costas. “Nunca mudam”, disse Almerindo, alto o suficiente para a mãe ouvir.

“Ela está a falar mas se essa mulher deixasse o meu filho, nem um fio de cabelo dela ficava aqui. Ela não ficava cá. Não a queria aqui.”
Maria da Conceição, mãe de Almerindo e sogra de Susana

Almerindo pode considerar que “nunca mudam”. Mas as coisas vão mudando. O casamento forçado já é muito pouco comum na comunidade cigana. A maioria dos jovens que casam são maiores de idade e fazem-nos de uma forma consciente, livre e com um projeto de vida. “O casamento forçado acontece em comunidades menos desenvolvidas que, muitas vezes, vivem em acampamentos. Na sociedade, a mulher está mais ativa. Isso também acontece nos ciganos. Apesar de sermos uma cultura, estamos inseridos numa sociedade”, explica Hélia Maia ao Observador.

Hélia tem 27 anos e nunca casou. Deixou a escola muito cedo — “nunca chumbei” –, mas agora está a acabar o ensino secundário. “Acabamos por nos influenciar pela cultura. Não é que os nossos pais não deixem. Quando somos adultos é que pensamos”. E Hélia pensou. Agora, foi convidada para ser mediadora da Associação para o Planeamento e Família (APF). “No fundo, faz aquilo que nós fazemos, só que para ela é mais fácil porque é cigana”, explica o coordenador Nuno Teixeira ao Observador.

No Bairro da Biquinha, a APF têm um espaço onde desenvolve um projeto que apoia a comunidade cigana dali, desde 2004. “Parte de perceber que o casamento forçado é errado é perceber que o papel da mulher não é aquele que lhe é atribuído. Têm de perceber que a mulher tem de ter liberdade para se projetar enquanto profissional, estudante ou mesmo enquanto mãe”, defende Nuno. Para isso, a APF optou por não questionar os padrões culturais mas “introduzir comportamentos protetores”. Dão apoio a vários níveis. Têm até uma parceria com o centro de saúde para poderem ter um gabinete médico ali: “As mulheres não tinham liberdade para ir ao Centro de Saúde nem para tomar a pílula. Agora, os homens têm papel mais ativo: vêm buscar contraceção ou tratam da saúde dos filhos.”

E resultou: Nuno Teixeira garante que, no Bairro da Biquinha, não existem casamentos forçados. E explica: os que existem fora dos limites daquele bairro social de Matosinhos são “situações pontuais” e estão “relacionados com grupos de pessoas que estão mais isoladas. Pessoas que não vão à escola ou pessoas que vivem em acampamentos”. Tratam-se de “casamentos intrafamiliares, com pessoas da relação de confiança e pessoas de dentro que não são vistas como uma ameaça”. O objetivo? “Tornarem mais coesos e impermeáveis.”

Casos estão a diminuir mas existem cifras negras. Quando a PJ se depara com a tradição
Luísa não fugiu. “Genericamente, neste tipo de situações, pergunta-se: ‘porque é que não fugiu ou pediu ajuda?’”. A PJ podia prever a pergunta da funcionária da instituição onde a jovem estava: “Ó Luísa, não sabias fugir?”. Quem investiga casos destes (embora poucos) há vários anos, sabe a resposta a essa pergunta. “As vítimas estão condicionadas. Acabam por se resignar e ter receio das consequências de tentar alguma coisa”, explica fonte da PJ do Porto. Por medo, por desconhecimento ou porque não se sentem vítimas.

São as chamadas cifras negras: casos que nunca chegam a ser participados às autoridades porque as vítimas não se queixam.“As crianças são educadas para determinado projeto de vida, principalmente nas pessoas que estão em acampamentos (são grupos com menor aculturação e menor contacto com o exterior). Portanto, para elas nunca é forçado. É natural porque cresceram naquele padrão”, explica Nuno Teixeira. Carina, grávida do quarto filho, conta que a filha, de 12 anos, costuma dizer que não quer casar cedo. Mas duvida: “Elas dizem que não. Mas depois se aparecer alguém…”

Casos de casamentos forçados dificilmente chegam às autoridades. De acordo com dados fornecidos pela direção nacional da PJ, em 2017, só três chegaram à polícia, e não só da comunidade cigana. No ano anterior, foram dois. Em 2015, apenas um.

O casamento forçado é punido por lei, desde 2015. Por isso, não é preciso haver violência, rapto ou violação para haver um crime. Se houver um casamento forçado, a PJ pode e deve atuar. “Basta que a situação nos chegue e temos de atuar e participar ao Ministério Público”, explicou fonte da PJ de Coimbra ao Observador.
Mas o crime de casamento forçado “é complicado provar. Não se detetando que a pessoa está ali contra a sua vontade, já não tem nada a ver connosco. A pessoa é livre de decidir o que quer fazer”, defende fonte da PJ de Lisboa e Vale do Tejo, que não se recorda de algum caso desse tipo de crime que tenha chegado àquela diretoria nos últimos anos. “São questões culturais nas quais a Polícia Judiciária não consegue interferir. Não nos podemos esquecer: quando há um choque cultural, tudo é mais difícil”, acrescentou.

“São questões culturais nas quais a Polícia Judiciária não consegue interferir. Não nos podemos esquecer: quando há um choque cultural, tudo é mais difícil.”
Fonte da Polícia Judiciária de Lisboa e Vale do Tejo

Ainda assim, “se a comunidade estiver alertada para isto, pode denunciar”, alerta fonte da PJ do Centro. Uma denúncia de casamento forçado pode levar a que sejam descobertos outros crimes: violação, rapto ou agressões. “É crime. É um crime público e temos de atuar. Embora as pessoas não interpretem o casamento forçado como crime”, acrescentou a mesma fonte, que lamenta: “A Segurança Social, por exemplo, deveria ter obrigação de nos comunicar. Atribuem subsídios. Podiam questionar: ‘Como é que esta criança de 14 anos foi mãe. O que aconteceu ali?’ A partir do momento em que o estado tem conhecimento disto, tem de atuar.” O Observador tentou contactar a Segurança Social para perceber se denunciam casos que lhes chegam, mas não obteve resposta até ao momento de publicação desta reportagem.

Quando a ausência na escola é suspeita de casamento: “Vítimas conseguem libertar-se e não são responsabilizadas”
A família disse que Mariana (nome fictício) estava na casa dos tios. Teria ido para lá durante uns dias “de livre vontade” porque o casal tinha uma filha da mesma idade com quem podia brincar. Quando a PJ de Aveiro contactou os familiares, a menina de 13 anos já tinha casado com um jovem de 16 anos e estava grávida dele. O casamento foi combinado pelo avô do noivo de forma “pacífica” e “sem rapto”. Mariana, que vivia num acampamento em Õia, em Oliveira do Bairro, foi levada para um bairro social em Vila Nova de Gaia, onde vivia a família do futuro marido.

Quando o caso chegou à PJ, os pais de Mariana foram contactados pela CPCJ: “O primeiro que se faz é salvaguardar os interesses da criança”. Em simultâneo, foi aberto um inquérito. Seguiram-se operações de buscas domiciliárias com o apoio da PJ do Porto, em que se apreendeu documentos tratados pela mãe do noivo para acrescentar Mariana ao agregado familiar. Foram detidas cinco pessoas: o marido, os pais dele e os pais de Mariana “por terem consentido o casamento”. “Subjacente ao casamento forçado há sempre abuso sexual de crianças. Os pais, permitindo que isso aconteça, tornam-se coautores do crime”, explicou fonte da PJ de Aveiro.
“São questões culturais nas quais a Polícia Judiciária não consegue interferir. Não nos podemos esquecer: quando há um choque cultural, tudo é mais difícil.”

Fonte da Polícia Judiciária de Lisboa e Vale do Tejo
Foi a escola que Mariana frequentava que deu o alerta depois de se ter apercebido que ela não ia à escola há alguns dias. As escolas assumem um papel importante em dar a conhecer casos como o de Mariana às autoridades. Mas também em prevenir: “Quando confrontadas na escola e garantindo-lhe que serão salvaguardadas, as próprias vítimas admitem. Elas são conscientes mas não tem meios nem capacidade de se opor”, explica fonte da PJ de Aveiro. As escolas permitem que as vítimas sejam libertadas por “intervenção de terceiros”. “Sentem-se aliviadas porque sabem que não foi iniciativa da própria vítima. Isso esvazia a responsabilidade perante a comunidade. Conseguem libertar-se e não são responsabilizadas”, justifica a mesma fonte ao Observador.

O número de casamentos forçados que chegam à PJ de Aveiro têm vindo a diminuir e são cada vez menos. “Depois de o crime do casamento forçado se ter tornado público e de, em 2017, o crime de abuso sexual de crianças passou de semi-público a público, tivemos um aumento de denúncias dessa natureza que resultaram em várias detenções”, explicou fonte da PJ de Aveiro. A comunidade cigana daquela região ficou alerta. Inicialmente “pensavam que a lei não se aplicava a eles” mas depois “começaram a consumar o casamento após os 14 anos”. “Os crimes continuam a existir, as cifras negras é que aumentaram. Há uma preocupação em esconder das outras entidades, escolas etc. passaram a ter mais cuidado na ocultação”, defende a mesma fonte.

Quando a própria comunidade denuncia por “vingança”
Conheceu um rapaz numa festa de carnaval em Alcabideche, em Cascais, há três anos. Por iniciativa dele, começaram a trocar mensagens. Sara, de 13 anos, fugiu. Foi ter com ele, de 20 anos, a Proença-a-Nova. Depois de várias tentativas por parte dos pais de entrar em contacto com a filha, Sara disse-lhes que ia passar umas férias na zona. Mas todos sabiam que a menina ia casar, incluindo ela. A família foi buscá-la.
Mas os factos que chegaram à PJ de Coimbra são bem diferentes. A participação criminal foi feita pelo advogado dos pais de Sara. Nela, acusam os pais do noivo de a ter raptado e levado para um hotel, em Proença-a-Nova. De a terem levado para o quarto 17 e de o já marido a ter violado. De a terem fechado no quarto. De a obrigarem a trabalhar. Sara terá conseguido fugir e ligado aos pais através de uma cabine de telefone. Tinham-lhe tirado o telemóvel.

“Confirmámos que ela [Sara] esteve no tal quarto 17 durante quatro dias. Mas estiveram a festejar o casamento”, revelou fonte da PJ de Coimbra. Os pais do noivo confirmaram que tinha havido uma relação, mas não da forma como estava a ser dito. A menina de 13 anos estava de acordo e tinha tomado a iniciativa. “Diziam que ela fugiu porque não estava habituada à cidade e, em Proença-a-Nova tinha de ir trabalhar para as feiras”, adiantou a mesma fonte.

“Quando a denúncia parte comunidade, muitas vezes, é vingança de uma das partes. Mas temos sempre de fazer um despiste. Acima de tudo, falar com a vítima. Falando com ela, percebemos logo.”

Fonte da Polícia Judiciária de Lisboa
As versões da história são duas e as contradições são várias. Mas a participação criminal chegou à PJ quase um ano depois dos factos, quando “a família de Proença-a-Nova vai a Alcabideche por causa das ameaças por telefone” da família de Sara, o que levou a um tiroteio. “Quando a denúncia parte da comunidade, muitas vezes, é vingança de uma das partes. Mas temos sempre de fazer um despiste. Acima de tudo, falar com a vítima. Falando com ela, percebemos logo”, explica fonte da PJ de Coimbra, onde só chegaram (poucos) casos “quando há problemas entre eles: dotes que não foram pagos ou desentendimentos que já havia antes e que pensavam que o casamento ia resolver mas não resolveu”. Depois há a vingança: “Vão buscar aquilo que sabem que é crime para que a outra parte seja responsabilizada”.

O marido de Sara está agora acusado de sequestro, violação agravada e abuso sexual de crianças. O julgamento está a decorrer. “Será interessante ver a posição do juiz. Pode ser sensível aos argumentos da defesa, de que faz parte da tradição, de que não há violação”, diz fonte da PJ de Coimbra, não deixando de alertar: “Muitas vezes as testemunhas em tribunal dão o dito como não dito, porque já fizeram um acordo.”

Paulinha tem 6 anos. É afilhada de Nuno Teixeira, coordenador da Associação para o Planeamento e Família
Os casos que chegam à PJ são cada vez menos. Tal não significa que não aconteçam. Mas a comunidade cigana defende que não. “Muita coisa mudou”. Elisa Monteiro é mais uma a defendê-lo. Casou aos 18 anos por que se apaixonou. Teve se passar pelo arrontamento: “Eu queria casar com ele e a única maneira era assim. Não tive medo. Senti-me orgulhosa. Se não as pessoas depois falavam”. Tem dois filhos. O de 15 anos não quer casar porque “as mulheres são chatas”. A mãe conta que “às vezes as pessoas falam porque há meninos de 15 anos que já são pais”. Mas prefere que o filho estude. A filha, de 6 anos, diz que não com a cabeça quando perguntam se quer um marido. “A Paulinha vai casar aos 45 anos. Vai estudar, vai para a faculdade, vai trabalhar“, diz o padrinho, Nuno Teixeira.

28.6.18

“Não podemos deixar que a história da humanidade fique nas mãos de gente xenófoba e egoísta”

Lurdes Ferreira, in Público on-line

O bispo de Leiria-Fátima será cardeal eleitor a partir de quinta-feira. O padre que foi operário defende os “pactos globais” com que o Papa Francisco quer mobilizar o mundo, governos, organizações e sociedade, para responder a uma “catástrofe humanitária” e aos “mediterrâneos” de onde a solidariedade desapareceu

A tese com que o estudante António Marto se doutorou em 1977 foi premonitória do que viria a ser a sua vida, desde o tempo como padre-operário numa fábrica de metalurgia, inspirado no Vaticano II, até à missão que lhe pede agora o Papa Francisco, “um homem de esperança”, que admira. “Esperança cristã e futuro do homem. Doutrina escatológica do Concílio Vaticano II” intitulava-se a tese.

Na próxima quinta-feira, e quarenta e um anos depois desse tempo, o actual bispo de Leiria-Fátima é empossado cardeal pelo Papa Francisco, um acto que considera ser por Fátima e por confiança pessoal. “Se soubesse que eu era contrário à reforma da Igreja não me escolheria. Nesse sentido, ele sabe perfeitamente que tem um apoiante”, diz em entrevista ao PÚBLICO realizada a uma semana da posse.

Hoje, num tempo diferente, um padre é “operário de outra maneira”, considera. “É estar no meio do povo e caminhar com ele de modo evangélico”. D. António Marto nasceu há 71 anos em Tronco, concelho de Chaves.
No espaço de poucos dias, milhares de crianças foram separadas dos pais na fronteira dos EUA, a Itália recusou receber migrantes e anunciou o recenseamento de ciganos, e a Hungria vai criminalizar a ajuda aos migrantes.

Onde está o limite?
É uma surpresa, isto a que estamos a assistir, do ponto de vista de mudança de mentalidade. Assemelha-se a uma catástrofe humanitária sem precedentes próximos.
Ontem [20 de Junho] assinalou-se o Dia Mundial do Refugiado, de 17 a 24 decorre uma acção internacional de sensibilização a favor dos refugiados e migrantes, promovida pela Caritas, com o título “Partilhar a Viagem”. O próprio Papa tomou posição a favor dos pactos globais mundiais. Embora não sejam vinculativos, são todavia para assumir quer através das Nações Unidas, quer através dos governos, em ordem ao acolhimento e protecção dos migrantes e dos refugiados.

O escândalo dos abusos sexuais "nos países anglo-saxónicos foi terrível"

Como passa a ser possível fazer-se pactos globais quando os EUA saem do Conselho de Direitos Humanos da ONU?
Não podemos ficar de braços cruzados. Temos de fazer uma outra acção, alternativa, de sentido positivo, não podemos deixar que a história da humanidade fique nas mãos só de gente xenófoba, egoísta e individualista, que olha só para a sua comodidade, expulsa e não recebe os que são forçados a emigrar por motivos de conflito, de guerras, como acontece na Síria, de perseguições, de miséria, de fome, de desastres ambientais.
E depois não os deixam entrar, como aconteceu em Itália.

Veja-se a Itália, que acolheu tantos imigrantes. Estamos a assistir aos nossos mediterrâneos - já não é um Mediterrâneo, é uma metáfora. Navegam no mar da falta da nossa hospitalidade e da solidariedade, seja a nível mundial ou europeu.

A conferência episcopal dos EUA tomou uma posição crítica sobre a separação das crianças das respectivas famílias, dizendo que se tratava de uma imoralidade. Também admitiu a aplicação de penas canónicas aos católicos

que participassem nessas acções. Concorda?
Essa ideia não está concretizada. Para mim, o mais significativo é que tenha sido tomada uma posição firme [por parte dos bispos dos EUA] e tenha sido avalizada pelo próprio Papa, que disse estar a favor da posição dos bispos e que era imoral e inumano separarem as crianças dos seus pais.

O que podem ser, em concreto, esses pactos globais?
Por exemplo, acções de sensibilização como esta [da Caritas] a nível global. Em primeiro lugar, para os governos assumirem uma responsabilidade própria e que tem de ser também solidária e generosa, de abertura, em ordem ao acolhimento, protecção, à promoção e à integração. Segundo lugar, para a sociedade civil, através das organizações não-governamentais, religiosas. As organizações católicas para a migração e refugiados fizeram um manifesto de solidariedade, com esta tomada de posição do Papa com os pactos globais.
E também para [o resto da] sociedade promover o acolhimento, o encontro com os migrantes, o intercâmbio cultural, como contributo de riqueza cultural, de fraternidade, partilha, que vá fazer face este preconceito, medo e xenofobia que se está a instalar.

Tem defendido que a igreja deve estar aberta a uma nova linguagem, no fundo, a uma nova forma de intervenção. É destas acções que fala?
É disto e de muita coisa. É da preocupação do Papa ir às periferias, humanas e existenciais, porque não são só geográficas, neste caso algumas até também o são. É sobretudo as periferias do sofrimento, da catástrofe, da indiferença em relação a todos estes problemas humanos. O fenómeno migratório e a pobreza a nível mundial, sobretudo o fosso entre os ricos e os pobres é um dos problemas dramáticos que a humanidade deste século XXI está a viver. Faz parte do próprio evangelho, a Igreja não pode ficar voltada para si mesma.

Naturalmente não se pode substituir às instituições do Estado, mas tem uma missão própria dentro da sociedade, de dar o exemplo do acolhimento. Por exemplo, quando se colocou o problema dos refugiados houve a plataforma cívica, em Portugal, que procurou a acção conjunta das várias organizações, umas não-governamentais, outras laicas, outras confessionais, mas foi uma acção de conjunto e procurou-se sensibilizar as diferentes dioceses.
Na diocese Leiria-Fátima recebeu-se na medida do possível. No santuário de Fátima tínhamos uma casa disponível preparada para receber uma família síria, para a qual arranjámos emprego dentro do próprio santuário. Ontem soube que já tinha saído. Foram para França, tinham lá familiares, mas estão lá sem emprego.

A Misericórdia recebeu na Marinha Grande uma família de refugiados, que também saiu para a Alemanha, e tem procurado dar trabalho a imigrantes, sobretudo ucranianos, há muitos nesta zona. As Irmãs Franciscanas Hospitaleiras do Imaculado Coração de Maria também prepararam uma casa para uma família, que está muito bem. Arranjaram-lhes emprego. Depois há uma outra, por conta da câmara da Batalha, mas não tenho informação sobre isso. Houve alguma mobilização. Às vezes também não há recursos, por exemplo, o santuário ofereceu a possibilidade de receber temporariamente bastantes refugiados. Não tínhamos casa para toda a gente, com as condições necessárias, mas havia a possibilidade de os receber até arranjarem a casa, mas isso não foi considerado.

O século XX foi o “século sem Deus”. O que está a ser o século XXI, para si?
O século sem Deus foi dos teorizadores da morte de Deus, sobretudo Marx, Nietzsche e Freud, os mestres do pensamento dominante, mas depois a ideologia caiu. Alguma coisa de positivo ficou, não sejamos maniqueus, dizendo que está tudo bem de um lado ou tudo mal do outro. Durante a atracção marxista, recordo-me, na minha juventude, que era até a grande alternativa ao cristianismo. Não podemos dizer que foi assim um século, sem mais. Foi dominante essa cultura, mas depois deixou uma decepção. Era a expressão das chamadas grandes narrativas de que o progresso seria ilimitado, a paz seria possível e a justiça se instauraria. Isso não aconteceu, sobretudo pelas duas grandes guerras mundiais que deitaram por terra essas promessas. Daí a chamada pós-modernidade que é, de certo modo, a rejeição da modernidade. Vem a atitude mais drástica, que é o niilismo.

Esse é o século XXI?
O niilismo é o vazio, o vazio interior, o vazio de ideias, de grandes causas, de compromissos, porque é a geração da indecisão. O século está a começar, não queria definir já que vai ser todo assim. É uma fase de mudança muito grande, é o que o Papa chama ‘mudança de época’, não é só época de mudanças. É uma mudança de época, um mundo novo que nasce e cujos contornos ainda não vemos definidos.
O pontificado do Papa Francisco é uma corrida contra o tempo de uma ‘mudança de época’, com tudo o que faz e diz?
O Papa Francisco fá-lo mais com gestos do que com palavras. Uma sua preocupação é uma igreja em saída, que vá ao encontro de todos, estabeleça pontes de diálogo com todos. Vivemos hoje numa sociedade muito dividida, na qual domina a cultura da indiferença, de quem não olha para o lado e, se olha, diz ‘não é comigo’. Domina a cultura do descarte daqueles que se pensa que são inúteis, não são produtivos, são um peso, são um fardo para a sociedade.

Para mim, a única figura de referência mundial para crentes e não crentes que luta contra esta onda é o Papa Francisco. É um homem de esperança e eu admiro isso: que um ancião seja o homem da esperança para as novas gerações. Eu também já sou da terceira idade. As grandes reformas da Igreja têm sido feitas pelos anciãos, gente que viveu uma vida, que é capaz de distinguir o essencial do secundário e do provisório, gente que deu um testemunho de vida, a quem ninguém pode dizer 'não sabes nada disto, não viveste', porque já o viveram. João XXIII, com 78 anos, foi eleito Papa e fez o concílio ecuménico do Vaticano II, um dom para a Igreja que se antecipou às mudanças que vieram logo de imediato e que estão a acontecer. Agora quando menos se esperava, o Papa Francisco veio lá de longe com a idade que tinha e trouxe uma lufada de ar fresco não apenas para a Igreja, mas para o mundo.

O que é ser um seguidor do Papa Francisco?
O Papa Francisco veio ajudar-nos a ler este mundo presente a uma luz evangélica e com outro tipo de cultura. O Ocidente preocupou-se muito com a elaboração de muitas ideias e até boas, mas depois no concreto fez pouco. O Papa Francisco veio da periferia e olhou para o centro a partir da periferia. O que ele diz é ‘uma coisa é olhar do centro para a periferia outra é da periferia para o centro’. Isso veio abrir-nos horizontes para os quais não estávamos sensibilizados.

Sentiu isso pessoalmente?
Senti, senti. Porque eu próprio me estava a deixar ficar fechado na cultura ocidental e também respirava um certo pessimismo e este Papa veio abrir um horizonte mundial, para olharmos para todos os lados. Por exemplo, ele privilegia as viagens às periferias e aos países periféricos para mostrar que o Ocidente e a Europa já não são o centro do mundo como até aqui.

Foi padre operário, no pós Vaticano II, num período da história em que a igreja foi para o mundo. Agora, quando o Papa Francisco diz que a igreja tem de voltar ao mundo, não é este o regresso do padre-operário ainda que num tempo diferente?
Sim, sim. É aquilo que o Papa diz do ‘pastor com cheiro a ovelha’, ou seja, que conhece a vida do povo, que conhece as pessoas, portanto, um padre que se distingue pela atitude de acolhimento, que acolhe a todos e os escuta, que ouve sem julgar imediatamente, que procura caminhar com as pessoas e não impor regras imediatas do crescimento, até chegar a descoberta da fé. É mais exigente do que antigamente, mas é mais desafiante. Nesse sentido será operário de outra maneira.
No meu tempo, era por causa de dizermos que o mundo operário se tinha afastado da Igreja e esta tinha de ir ao mundo operário e conhecê-lo. Foi essa a razão. Havia o movimento dos padres operários em França. Hoje essa dimensão já não é precisa, é estar no meio do seu povo e caminhar com ele de modo evangélico.

E o que vai ser o cardeal de Fátima?
Vai ser como os outros cardeais. Penso que o Papa quis fazer um dom, um presente a Fátima, nomeando-lhe um cardeal. Vi que saiu comovido, quando íamos no papamóvel, a cada passo dizia-me "tanta gente, tanta gente". Deve ter ficado surpreendido e aprendido que a mensagem de Fátima tem a ver com a história da humanidade. Não é uma coisa meramente privada para dentro da Igreja, é com a história da humanidade. Deve ter querido distinguir Fátima, nesse sentido. Não ponho também de parte que foi um acto de confiança pessoal, porque certamente se soubesse que eu era contrário à reforma da Igreja não me escolheria. Nesse sentido, ele sabe perfeitamente que tem um apoiante na reforma da Igreja.

26.6.18

Coimbra debate inclusão social e saúde mental das comunidades ciganas

in Sapo24

Ritmo de abertura de 20 Unidades de Saúde Familiar por ano "é escandaloso"

A inclusão social e a saúde mental das comunidades de etnia cigana são o tema da sessão que vai realizar-se, na quinta-feira, no polo B da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), em São Martinho do Bispo, Coimbra.

Promovida no âmbito da monografia final de licenciatura de estudantes da ESEnfC e das experiências de ensino clínico de enfermagem de saúde mental comunitária e reabilitação, desenvolvidas em articulação com a Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) Coimbra Saúde, a iniciativa pretende consciencializar a população, especialmente estudantes de enfermagem e enfermeiros, sobre a importância da inclusão social e da “redução do preconceito e da discriminação nos cuidados de saúde”.

Após a sessão de acolhimento (às 14:00, no auditório António Arnaut), terá lugar um painel com Bruno Gonçalves, da Associação Letras Nómadas, Maria João Pais, da Associação Social Recreativa Cultural Cigana de Coimbra, Janete Ferreira, da UCC Coimbra Saúde, e Maria José Vicente, do Gabinete de Desenvolvimento da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN)/Portugal.

O painel vai deter-se em questões relacionadas, designadamente, com ‘Saúde e comunidades ciganas’ (a partir da projeção de um vídeo), ‘Vivências da comunidade cigana em Coimbra – Inclusão social’, ‘Experiências de cuidar grupos minoritários’ e ‘Projetos de inclusão social em grupos minoritários’, refere uma nota da ESEnf

Alto Comissariado para as Migrações avança com planos de integração das comunidades ciganas

in Rádio Pax

Os “Planos Locais para a Integração das Comunidades Ciganas” foram lançados na semana passada pelo Alto Comissariado para as Migrações.

Os planos dirigem-se a municípios e instituições locais, “com o objectivo central de promover a intervenção local e a participação democrática das comunidades ciganas”.

O Auto Comissariado quer “viabilizar a concepção de 10 Planos Locais para a Integração destas comunidades e conceber um Guia para a elaboração de Planos Locais que possa, posteriormente, ser disseminado a outros municípios”.

Este projecto-piloto, financiado pelo Programa da União Europeia de Direitos, Igualdade e Cidadania (2014-2020), terá a duração de 12 meses.

O financiamento aos municípios para a elaboração do projecto será na ordem de 4 500 euros.

Os municípios interessados em participar, deverão expressar o seu interesse até dia 14 de Julho.

20.6.18

Comunidade cigana: inclusão social e saúde mental é tema em foco na ESEnfC

in Diário As Beiras

Colóquio debate a inclusão social nos cuidados de saúde

111 A inclusão social e a saúde mental das comunidades de etnia cigana constituem o tema da iniciativa Conversas Abertas que a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) acolhe e organiza, já amanhã, no polo B, em São Martinho do Bispo. A atividade, no âmbito da realização da monografia final de licenciatura de estudantes da ESEnfC e das experiências de ensino

clínico de Enfermagem de Saúde Mental Comunitária e Reabilitação, em articulação com a Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) Coimbra Saúde, pretende consciencializar a “população maioritária”, especialmente estudantes de enfermagem e enfermeiros, relativamente à importância da inclusão social e da redução do preconceito e da discriminação nos cuidados de saúde.

Às 15H15, falam Bruno Gonçalves (Associação Letras Nómadas), Maria João Pais (Associação Social Recreativa Cultural Cigana de Coimbra), Janete Ferreira (UCC Coimbra Saúde) e Maria José Vicente (Rede Europeia Anti-Pobreza EAPN Portugal). A comissão organizadora é composta por Joana Manco, Mariana Albino, Tânia Batista e Ana Paula Monteiro (professora).

13.6.18

Cerca de 70 autarquias interessadas em ter Equipas de Mediação Intercultural

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Até quinta-feira devem encontrar parceiros, definir necessidades e entregar candidaturas.

Cerca de 70 autarquias manifestaram o interesse em criar Equipas de Mediação Intercultural facilitadoras da integração das Comunidades Migrantes e das Comunidades Ciganas. As candidaturas terminam na quinta-feira.
O número foi avançado pela secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro. Até quinta-feira, as autarquias interessadas em ter equipas de facilitadores da integração das comunidades migrantes ou ciganas, de preferência estas últimas, devem encontrar parceiros, definir necessidades e entregar candidaturas.

A medida estava prevista na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas 2013-2020, que está a ser revista, e no Plano Estratégico para as Migrações 2015-2020. Em Abril, foi aberta esta linha de financiamento para equipas a operar nos municípios das regiões Norte, Centro e Alentejo.
As equipas terão um número variável de elementos. Competir-lhes-á fazer a ponte entre estudantes, escolas e famílias, para combater o insucesso, o absentismo e o abandono escolar, sobretudo entre raparigas.

Nestes três primeiros anos, estima-se um gasto de três milhões e quinhentos mil euros. A comparticipação da despesa elegível deverá ser repartida pelo Fundo Social Europeu (85%) e pela contribuição pública nacional (15%).
Algumas autarquias têm tido dificuldade em encontrar pessoas com a formação adequada. O Alto Comissariado para as Migrações (ACM) fez algumas sessões de esclarecimento.

Por email, o ACM recorda que “apoiou e financiou vários projectos de mediação intercultural e municipal”. Um dos mais conhecidos foi feito numa parceria com o Conselho da Europa. Entende, por isso, que “os mediadores afectos aos vários projectos têm formação e experiência adequadas”. Como agora há novos municípios interessados, anuncia que “serão avaliadas hipóteses de formação” para que possam preparar outras pessoas.
O ACM não será o único. “Nós estamos em negociações com alguns municípios e já apresentamos planos de formação”, revela Bruno Gonçalves, da Letras Nómadas, uma das mais activas associações formadas por pessoas de etnia cigana.

23.3.18

Associações ciganas apresentam cem queixas contra ódio na Net

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Grupo de associações entrega esta quinta-feira queixas à Comissão Contra a Discriminação Racial. Maior parte dos exemplos recolhidos remete para o tornado que no início do mês de Março deixou desabrigadas cerca de cem pessoas

As frases vão caindo como vergastadas nas redes sociais e nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social. “Não merecem nada, parasitas da sociedade”, escreve um homem. “Cemitério? Não?”, questiona outro. “Não desejando mal a (quase) ninguém, oh ira, venham mais tornados no sítio certo”, opina uma mulher. “Volta Hitler, estás perdoado”, diz um homem.

Só em dois dias, um grupo de associações de ciganos recolheu cerca de uma centena de comentários em páginas individuais e páginas de jornais. Vai entregá-los esta quinta-feira, em forma de queixas, à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR), o órgão especializado no combate à discriminação em razão da origem étnico-racial, a cor, a nacionalidade, a ascendência e o território de origem.

A maior parte dos exemplos recolhidos naqueles dias remete para o tornado que no início do mês de Março destruiu dois acampamentos em Faro, deixando desabrigadas cerca de cem pessoas. “Cambada de ratos de esgoto. Espero que consigam descontaminar o pavilhão destes lacraus”, comentou um homem depois de se saber que tinham sido alojadas temporariamente no pavilhão municipal. “Meu rico pavilhão. Será que ainda há cobre, alumínio e ferro?”, escreveu outro. “Ciganos malditos. O tornado não os levar todos para longe […]”, clamou uma mulher.

Foram dias singulares no activismo das comunidades ciganas, que tem estado a organizar-se nos últimos anos. Estiveram em contacto “quase permanente” activistas a título individual e membros de diversas organizações: a Letras Nómadas, a Associação dos Mediadores de Portugal, a Ribaltambição – Associação para a Igualdade de Género nas Comunidades Ciganas (Figueira da Foz), a Associação Cigana de Coimbra, a Associação para as Minorias Étnicas de Tomar, a Sílaba Dinâmica (Elvas) e a Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas (Seixal).

Enquanto reclamavam a atenção das entidades públicas, incluindo a do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para aquelas pessoas e solicitavam uma reunião à secretária de Estado da Habitação, Ana Pinho, iam falando, com grande desagrado, sobre os comentários que iam lendo nas várias redes socais e nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social.
“Surgiram algumas ideias de protesto”

Facebook e Twitter estão melhores a remover discurso de ódio
Sobravam exemplos de promoção do ódio e de incentivo à discriminação, à hostilidade e à violência. “Surgiram algumas ideias de protesto”, conta Bruno Gonçalves, dirigente da Letras Nómadas, mediador cultural, um dos mais activos membros deste movimento. “Talvez uma queixa colectiva surta mais efeito e ‘desperte’ a CICDR para a propagação do discurso de ódio na Internet”, pensaram.

Por lei, compete àquele organismo “manter um registo da prática de actos discriminatórios e das sanções aplicadas, publicitando os casos de efectiva violação da lei, de forma a prevenir e sensibilizar a opinião pública para as questões da igualdade e da não-discriminação”. Pode aplicar contra-ordenações ou, estando em causa um crime, remeter as queixas para o Ministério Público.

O discurso de ódio está longe de ser um assunto novo, mas tem assumido novos contornos e novas dimensões. “Desde que uso as redes sociais, nunca assisti a tanta maldade, racismo, discurso de ódio”, comenta Guiomar Sousa, membro da Ribaltambição. “Nem as crianças estão a salvo”, lamenta. “Sentem-se no direito de julgar, têm o ecrã a protegê-los. Poucos são os que fazem estes discursos pessoalmente.”

“As pessoas fazem este tipo de comentários apenas por ignorância”, diz, por sua vez, o activista Magno Silva Eça, estudante do ensino superior. “É triste, mas não aceitam as diferenças culturais que existem e odeiam de morte ‘o cigano’”, prossegue. “Cada vez que leio estes comentários fico triste, mas acima de tudo revoltado. Sinto-me traído pelo meu próprio país.”

Facebook promete reforçar moderação após campanha contra "discurso de ódio"

“Sou cigana portuguesa”, sublinha a activista Toya Prudêncio, que é casada, mãe de duas crianças, e está a estudar. “Porque me mandam para o meu país se eu já estou no meu país?”, questiona. “Gosto muito de viver em Portugal. É cá que tenho as minhas raízes. A minha língua é portuguesa.”

Não lhe parece que a propagação deste tipo de discurso possa produzir bons resultados, pelo contrário. “Cada vez mais as nossas culturas se distanciam”, lamenta. A comunidade cigana fecha-se ainda mais sobre si mesma. “Uma pessoa que vive sem condições mínimas, que se levanta para trabalhar todos os dias (ao contrário do que se diz) e vê os filhos sofrerem racismo, perde a fé na humanidade.”

"Palco de racismo"

“As redes sociais são o palco do racismo que temos e é claro que isso dificulta qualquer tentativa de integração”, corrobora Guiomar. Não costuma responder, mas às vezes não resiste. Guiomar Sousa mostra um exemplo de um comentário escrito por uma mulher, bombeira, que publica vários comentários a defender animais e a apelar à doação de sangue: “Querem casas!!! Eu também quero e de borla, com tudo pago e mais um subsídio. Uma vala comum e resolvia o problema desta gente.” Guiomar não resistiu: “Olá. Hummm. Vala comum? Fã e seguidora de Hitler.” E a mulher respondeu-lhe: “Leve-os para casa e dê de comer a todos.”
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Comissão quer mais acção do Facebook no combate ao ódio

Algumas das maiores empresas de tecnologias de informação – o Facebook, o Twitter, o Youtube e a Microsoft – assumiram um código de conduta. Denunciar os comentários, porém, isso nem sempre resulta. “A maioria em nada dá. Dizem que não viola os padrões”, lamenta Guiomar Sousa.

Não se ficarão por aí. “Temos consciência das limitações da CICDR para travar o discurso do ódio”, enfatiza Bruno Gonçalves. Estão já a trabalhar noutras hipóteses. Uma delas é “criar um mural com todos esses dizeres de ódio” ao qual chamarão "país de brando costumes". Também planeiam estampar t-shirts. E pedir reuniões aos directores dos media para os sensibilizar. “Não vergaremos, estaremos cá para construir um Portugal melhor, conscientes que o caminho é árduo”, remata.

19.3.18

Ensino. Professora da UMinho coordena Observatório das Comunidades Ciganas

in Semanário

Maria José Casa-Nova, professora do Instituto de Educação da Universidade do Minho, acaba de assumir a coordenação do Observatório das Comunidades Ciganas. Esta unidade informal está ligada ao Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e à secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Lopes Monteiro.

Para Maria José Casa-Nova, “este convite significa o reconhecimento de todo o trabalho científico e de intervenção politico-cívica” que tem desenvolvido com a população cigana desde 1991. “Para mim, aceitá-lo é o prolongamento do meu comprometimento com uma determinada mudança social, no sentido da humanização das sociedades”, considera.

O Observatório tem como missão o estudo e o acompanhamento estratégico e científico da população cigana em Portugal e o apoio ao ACM, sobretudo na produção de recomendações para a conceção de políticas públicas. Ã investigadora explica que o trabalho do Observatório se desenvolverá em torno de quatro dimensões fundamentais: realização e publicação de investigação científica nacional (e investigação internacional comparada); parcerias com centros de investigação e organizações não governamentais; participação em conferências, reuniões e redes nacionais e internacionais ligadas à população cigana e às problemáticas da desigualdade, da discriminação e dos Direitos Humanos; publicação de uma newsletter e realização de conferências nacionais e internacionais científicas e sobre os projetos do Observatório das Comunidades Ciganas.

“O desenvolvimento deste trabalho conjunto auxiliará a elaboração de políticas públicas teórica e empiricamente sustentadas, a visibilização positiva da população cigana na sociedade portuguesa e a projeção internacional do Observatório, da produção científica e das políticas públicas portuguesas neste âmbito”, resume a responsável.

Nota biográfica
Maria José Casa-Nova nasceu em Viana do Castelo em dezembro de 1963. Fez o mestrado em Educação Intercultural pela Universidade do Porto, o doutoramento em Antropologia Social pela Universidade de Granada, em Espanha, e é docente da UMinho há mais de duas décadas. Pesquisa no Centro de Investigação em Educação da UMinho e no Grupo de Investigação em Infância e Educação em Contextos Migratórios da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB), em Espanha. É conselheira do ACM, membro da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial e membro do Conselho Geral da UMinho, coordenando também o Núcleo de Educação para os Direitos Humanos.

A nível internacional, é membro da Rede Europeia de Estudos Romani, do Observatório Europeu das Políticas para Grupos Ciganos e, entre outros, faz parte da direção da Rede de Investigação “Relações étnicas, racismo e antissemitismo” da Associação Europeia de Sociologia. Realizou estadias na UAB, na Universidade de Greenwich e no University College London, ambos no Reino Unido. Liderou e participou em projetos de investigação nacionais e internacionais; atualmente coordena a equipa portuguesa do projeto “RISE-Roma Inclusive School Experiences”, financiado pela Comissão Europeia. Tem dezenas de publicações sobre Sociologia da Educação, Educação Intercultural, Políticas Educativas, Etnografia, Cultura Cigana, Género, Cidadania, Direitos Humanos e participa na imprensa e em iniciativas na sociedade.

Programa de rádio para dar voz e promover comunidade cigana de Belmonte

in RTP

Belmonte vai voltar a acolher um projeto que visa promover e integrar a comunidade cigana local e que terá como principal iniciativa a dinamização de um programa de rádio, foi hoje anunciado.

"O principal objetivo é dar voz à comunidade cigana de Belmonte, valorizar e dar a conhecer a cultura cigana e contribuir para a integração dos ciganos na sociedade. E este não será apenas um programa de rádio a falar sobre ciganos, mas sim um programa que também falará com os ciganos", afirmou em declarações à agência Lusa a coordenadora do projeto, Marisa Marques.

Com a denominação "SIM - Sensibilizar, Incluir e Mobilizar", este projeto tem como entidade promotora a "Beira Serra - Associação de Desenvolvimento Local" e avança com o apoio do Município de Belmonte, do Agrupamento de Escolas de Belmonte e envolverá na equipa técnica um membro da comunidade cigana.

Na apresentação daquela que será a segunda edição do projeto radiofónico, Marisa Marques especificou que a ideia é fazer um programa mensal de uma hora durante 12 meses, sendo que estão decorrer conversações no sentido de que o mesmo possa ser emitido na "Antena 1", de modo a que possa ir para além da emissão local e das redes sociais.
"A primeira edição mostrou-nos que é possível ir mais longe", apontou.

Segundo sintetizou, cada programa deve abordar uma temática específica relacionada com a cultura cigana, havendo também espaço para momentos musicais, entrevistas e convidados, entre os quais personalidades empenhadas no combate à discriminação ou figuras da comunidade cigana que se destaquem por histórias de vida singular.

A par disso, este projeto prevê ainda a realização de três fóruns subordinados ao tema da Saúde, Educação e Associativismo, bem como uma publicação com tiragem de 1.500 exemplares e que reunirá os principais momentos e resultados do programa de rádio.

Presente na cerimónia de apresentação, António Joaquim, que trabalha na autarquia local e que é um exemplo de integração, mostrou-se satisfeito com este projeto, deixando votos para que contribua para que as pessoas que não são ciganas possam deixar de lado os preconceitos.

"Espero que ajude as pessoas a perceberem que por sermos diferentes não temos de ser maus e pode ser que isso ajude a que alguns ciganos daqui também possam arranjar trabalho", apontou.

O presidente da Câmara de Belmonte, António Dias Rocha, destacou a importância do projeto para que os ciganos residentes no concelho sintam que fazem parte da sociedade local.

O autarca deste concelho do distrito de Castelo Branco, onde também reside uma das mais antigas comunidades judaicas do mundo, lembrou ainda que o programa pode contribuir para mostrar que Belmonte é efetivamente uma terra de tolerância e um exemplo da integração de diferentes culturas, religiões e credos.

O projeto "SIM - Sensibilizar, Incluir e Mobilizar" tem um orçamento total de 26.400 euros, 25 mil dos quais financiados pelo Alto Comissariado das Migrações e o restante pelo Município de Belmonte.

13.3.18

Ciganos de Pombal oferecem cabazes a 20 famílias carenciadas

in Jornal de Leiria

Comunidade participa no programa K'Escolhas.

Um grupo de famílias de etnia cigana vai entregar 20 cabazes com produtos alimentares a 20 famílias carenciadas do concelho de Pombal, numa acção designada de Cabazes Aceita, Inclui, que nasceu no âmbito do programa K’Escolhas do projecto 3I’s do Programa Escolhas 6.ª Geração, que em Dezembro de 2017 reuniu em Pombal representantes da comunidade cigana.

O primeiro cabaz foi entregue esta segunda-feira por um grupo de mediadores do projecto, que têm como função a definição conjunta de medidas de integração e apoio às crianças e jovens ciganos, refere a Câmara de Pombal numa nota de imprensa.

A recolha de alimentos decorreu em parceria com a Igreja Evangélica Filadélfia de Pombal, e o resultado foi agora distribuído por famílias carenciadas, que não pertencem à comunidade cigana, e que se encontram em situação de vulnerabilidade sócio-económica.

Segundo a autarquia, o Programa 3I´S.E6G (Intervir, Integrar e Incluir) pretende promover a inclusão social de crianças e jovens de contextos sócio-económicos vulneráveis, e resulta de uma parceria entre o Município de Pombal, a ADILPOM, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, o Agrupamento de Escolas de Pombal e o Agrupamento de Escolas Gualdim Pais.

Um dos objectivos deste programa passa pela promoção da consciencialização para a participação cívica ativa dos membros da comunidade cigana de Pombal – objectivo este que tem já resultados expressivos no que toca à envolvência demonstrada pelos seus membros.

É também no âmbito deste programa que têm vindo a ser realizadas um conjunto de acções, que visam a mitigação de problemas sócio-económicos, como o aumento do absentismo, do abandono escolar; de comportamentos desviantes e da discriminação e exclusão social que, directa e indirectamente, possam perpetuar ciclos de pobreza consolidados na baixa escolaridade, no desemprego e na dependência institucional.

12.3.18

Deputado do Bloco de Esquerda encontra-se com ciganos desalojados pelo tornado

Por Sul Informação

João Vasconcelos, deputado do Bloco de Esquerda eleito pelo círculo do Algarve, vai encontrar-se este sábado, às 10h00, no Pavilhão da Penha, em Faro, com a comunidade de famílias ciganas desalojadas devido ao tornado.
Depois deste encontro, João Vasconcelos irá visitar o Cerro do Bruxo, local onde estava instalada a comunidade cigana, e «outros locais do concelho de Faro, onde também se fizeram sentir os efeitos de temporal, com registo de dados materiais e desalojados», adianta o BE/Algarve.

Estas visitas estão condicionadas ao estado do tempo.

9.3.18

As mulheres ciganas existem. E resistem

Andreia Friaças, Pedro Soares Botelho, in Sapo24

São mulheres e ciganas. Sobrevivem a um duplo preconceito. Fazem-lhe frente. Contra as ideias que os outros têm para elas, criam o próprio destino. Da primeira mulher cigana a ter carta de condução em Portugal a um grupo de jovens que luta por um nome, estas são as histórias de quem existe, resiste e destrói preconceitos.

“Só tenho de pena que sejas uma mulher, se fosses um homem tudo seria mais fácil”, dizia-lhe o pai a caminho da escola. “Olhem aqui para a minha ciganinha, é tão bonita que não parece cigana”, repetia a professora primária às colegas, a julgar que se tratava de um elogio. Entre estes dois mundos crescia Sónia Matos.

Quando completa 10 anos, o equilíbrio altera-se e um dos lados ganha mais peso que o outro. “No quarto ano a minha rotina mudou. A professora para me incentivar dizia ‘se tu não te aplicas, não passas’. Entretanto, já estava desmotivada, já sabia que era o meu último ano na escola. A minha mãe tinha tido uma bebé pequenina e eu andava maluca com a minha irmã. Para mim era uma bonequinha. Então disse: ‘olha mãe, a professora diz que eu já não passo, já não vou no último mês'. E pronto. Foi assim que saí da escola”.

Longe das salas de aula, a infância de Sónia, tal como a de muitas meninas ciganas, é desenhada com os lápis da tradição. “Quando terminamos a quarta classe, retiram-nos da escola para nos prepararmos para sermos mães, esposas e domésticas. O mesmo que exigiam à mulher da comunidade maioritária há 40 anos atrás”. Assim, Sónia começa então a aprender as tarefas de casa, bem como a tomar conta dos irmãos mais novos. Nos tempos livres, encontrava as amigas na rua - que temporariamente se transformava num campo de futebol ou num palco de competição de saltos à corda.

Com o passar da idade e a adolescência a florescer, as brincadeiras mudam. “Com 15 anos, as minhas amigas começaram a receber pedidos de noivado e eu não me sentia preparada para casar”. Ainda que já soubesse de cor os afazeres que uma casa exigia, Sónia procurava qualquer coisa diferente. “Comecei a juntar todos os tostõezinhos que me sobravam das compras do almoço para comprar livros, o que me permitia entrar noutro mundo, num mundo imaginário”.

Quando as primeiras inquietações se misturam com a vontade de ler dá-se, finalmente, o clique: “Comecei a questionar porque é que os rapazes podiam tudo e as raparigas não podiam estudar. Eu queria ter um trabalho, ter autonomia, poder escolher aquilo que queria ser, sem deixar de ser cigana. Isto abriu uma batalha dentro de mim”.

"O meu percurso escolar foi acompanhar o percurso escolar do meu irmão."

No verão, Sónia deixava a rotina por umas semanas para ir visitar os avós no Alentejo, e é também nas brincadeiras do tempo de meninice que conhece Alzinda Caramelo. “Éramos amigas de infância. Eu vivia no Alentejo e brincávamos lá. Depois vim também para o Seixal porque no Alentejo só havia feira de mês a mês e cá o negócio era melhor”, lembra Alzinda, que também deixou a escola no quarto ano.

Entre os seis irmãos — três rapazes e três raparigas — era tratada como a “menina” por ser a mais nova das meninas. Ainda que as lides domésticas recaíssem primeiro sobre as raparigas mais velhas, cedo Alzinda ficou encarregada de tomar conta do percurso escolar do irmão mais novo. “Todos os dias levantava-me, arranjava o meu irmão, dava-lhe o pequeno-almoço e levava-o à escola. Voltava para lhe levar o lanche, porque ele era o menino, e para o ir buscar para o almoço. O meu percurso escolar foi acompanhar o percurso escolar do meu irmão”.

Aos 22 anos, por ser beneficiária do Rendimento Social de Inserção, conhece uma assistente social que ousa perguntar: “E tu, Alzinda, o que gostavas de fazer?”. Surpreendida com a pergunta, que lhe tinha sido colocada pela primeira vez, confessa que sonhava “trabalhar, subir a escolaridade, tirar a carta, ser independente, e conseguir fazer algo que deixasse marca para outras mulheres”.
“Tinha outra prioridade. Empoderar-me e empoderar outras mulheres.”

Também Maria Noel Gouveia, ao contrário do que seria esperado pela comunidade, não fantasiava com o dia do casamento. “Tinha outra prioridade. Empoderar-me e empoderar outras mulheres”. Depois de, como as outras, ter sido retirada da escola no quarto ano de escolaridade, Noel ia treinando a leitura — e a imaginação — com os ‘calhamaços’ que faziam o lugar de amigos.

“Adorava ler. Sempre que podia ia à biblioteca, ou pedia livros às minhas vizinhas. Elas queriam-me oferecer vestidos mas eu pedia-lhes romances”. O gosto pela leitura tinha sido herdado da mãe, Olga Mariano, que, já em pequena, nos anos 1950 e 60, lia os “livros das meninas ciganas”, como os do espanhol Carlos de Santander. “Não íamos buscar outro tipo de leitura”, assegura.

Quando atravessava um período de luto pela morte do marido, com três crianças para cuidar, Olga não se pode resguardar na casa dos pais durante o primeiro ano de luto — como é costume na cultura cigana. Levantava-se, então, todos os dias para vender nas feiras, onde “tanto podia fazer 5 euros ao dia como 40”.

Contudo, ao contrário da maior parte das mulheres, Olga deslocava-se no próprio carro. “Fui a primeira mulher cigana em Portugal a ter a carta, nos anos 60”. Na altura, como os irmãos mais velhos já viviam nas suas casas e o pai precisava de ajuda na correria entre as feiras, calhou a Olga o “privilégio” de ter a carta, uma miragem para outras mulheres ciganas na altura.

No princípio do novo milénio, Sónia Matos e Alzinda Caramelo encontram-se com Maria Noel Gouveia e Olga Mariano. Foram chamadas a fazer testes para a integração do curso de mediação sociocultural. “O curso era administrado pelo centro de Estudos e Migrações. Era destinado a pessoas que recebiam o Rendimento Social de Inserção, como nós, e houve uma grande seleção. Nós acabámos por entrar todas para o curso, porque tivemos notas muito boas”, conta Noel.

Perante o contexto castrador de que eram alvo, urgia empoderar, dar força, às mulheres ciganas, pondo-lhes nas mãos as ferramentas para serem aquilo que quisessem, sem que isso implicasse deixar de fazer parte da comunidade. Era esta uma das principais bandeiras no plano de atividades da associação que, durante cinco anos, foi trabalhado e discutido nas reuniões que tinham lugar no porta bagagens de cada uma. A vontade férrea de ajudar outras mulheres não vergava, porém, confessa Olga, enquanto estivessem confinadas a este “escritório alternativo” era difícil “fazer fosse o que fosse”.

Em 2006, depois de alguma insistência, teimosia e jogo de cintura, a câmara municipal concede um espaço à AMUCIP, localizado no Bairro da Cucena, no Seixal. “Era um bairro muito problemático, mas nós queríamos resolver problemas reais. Não queríamos um espaço para ficar sossegadinhas”, clarifica Noel.

A AMUCIP ganha, assim, outra dimensão quando arranca com o primeiro projeto, o “Pelo sonho é que vamos”, com a duração de 4 anos. As portas estavam abertas a todos, com o objetivo de combater a segregação e isolamento das pessoas do bairro.

Começaram a organizar tertúlias para onde levavam diretores de várias entidades — centro de emprego, centro de saúde, câmaras municipais — para junto dos habitantes, para que eles pudessem expor diretamente as suas dúvidas. Além disso, para tornar a informação de vários serviços mais entendível para as pessoas com baixa escolaridade, elaboraram um documento que explicava vários processos de cidadania com uma linguagem mais simples e democrática.

“A falta de escolaridade faz com que as pessoas fiquem com uma auto estima baixa e que, com vergonha, não perguntem uma segunda vez algo que não perceberam. Este documento é uma das soluções para esse problema”, explica Alzinda.

Por outro lado, a associação não só ajudava as pessoas do bairro como procurava fazer daquela zona da Cucena um espaço mais cuidado, organizando limpezas das ruas com a colaboração da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal, e mais harmonioso, apaziguando o clima de disputa que se sentia entre os jovens e a polícia. “Organizámos jogos de futebol que traziam a polícia aos bairros e que levavam os miúdos à polícia”.
Sempre com as atenções viradas para os mais novos, a AMUCIP começa a tentar perceber como é que o absentismo escolar podia diminuir no bairro. “Começámos a fazer trabalho no terreno para perceber o porquê de tanto absentismo escolar. Reparámos que a escola mais próxima era a quatro quilómetros, que a maior parte das pessoas não tinha carro, que não existiam autocarros, que o caminho do bairro até à escola era em terra batida e que quando chovia as crianças ficavam todas sujas”.

Feito o diagnóstico, começaram a reunir-se com as escolas e a câmara municipal para escrutinar aquilo que podia ser feito. Com a colaboração de todas as entidades, o espaço da AMUCIP começa a oferecer acompanhamento escolar gratuito às crianças do bairro, com uma condição: para as crianças frequentarem o espaço, os pais tinham de garantir que elas não faltavam à escola.
Assim, resolviam-se dois problemas de uma só vez: as crianças ganhavam um novo incentivo para não faltar às aulas, e os pais ficavam descansados por saber que, quando terminava a última aula, os filhos iam para um local seguro. “As coisas começam a funcionar, vinham muitas crianças. Além de conseguirmos fazer com que fossem à escola, as crianças, como passavam cá algum tempo e tinham o acompanhamento, começavam a ter mais sucesso escolar”, continua Alzinda.

O absentismo escolar é um problema recorrente entre os jovens da comunidade cigana. Em 2014, o Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas indicava que, entre as 1.559 pessoas ciganas inquiridas, 52% revelava não ter frequentado o 1.º ciclo; e 27,1% não sabia ler nem escrever.

Por outro lado, só 0,1% dos inquiridos tinha ingressado no ensino superior — número que tem vindo a aumentar com o programa Opré Chavalé, que oferece bolsas de estudo a meninas ciganas. Em 2009, com a alteração dos anos de ensino obrigatório — a Lei n.º85/2009 estabeleceu que a escolaridade obrigatória devia aumentar do 9.º para o 12.º ano — as clivagens educacionais entre a sociedade maioritária e a comunidade cigana tornaram-se ainda mais gritantes, sendo que na última apenas 2,3% diz ter completado o 12.º ano.

Ainda que a escolaridade seja, no geral, baixa, verifica-se que as raparigas saem da escola mais cedo que os rapazes, sendo raros os casos em que vão além do ensino básico, como se lê no relatório. Uma das razões que leva as famílias a retirar as meninas da escola quando terminam o quarto ano de escolaridade é evitar que estas se relacionem com os rapazes da sociedade maioritária.
Na comunidade cigana, não é bem aceite que uma rapariga possa ter vários namorados; quando esta começa a ter um contacto com um rapaz, passam a ser considerados um par, o que, seguindo o percurso tradicional, tem como resultado natural o casamento. Segundo o mesmo relatório, os casamentos na comunidade cigana continuam a consagrar-se precocemente (51,9% casa entre os 15 e os 19 anos). Ainda que, ao contrário do que é perpetuado, as mulheres não sejam obrigadas a casar com ninguém escolhido por terceiros.

Contudo, mesmo tendo os rapazes maiores níveis de escolaridade que as raparigas, a abstinência escolar é uma realidade geral e incontornável dentro da comunidade cigana. Mais complexo do que pode parecer, este problema tem várias frentes por examinar.

Muito ligada ao negócio das feiras, a comunidade cigana não atribuía extraordinária importância à escola — situação que se tem vindo a alterar precisamente pelo facto de as feiras já não conseguirem sustentar uma família.

Assim, para além da valorização da escolarização na comunidade cigana ser algo novo e, por isso, muito vagaroso, quando existem casos de sucesso em que as crianças conseguem efetivamente continuar os seus estudos, estas são confrontadas como uma instituição “muito castradora de outras culturas, o que acaba por provocar um sentimento de rejeição”, como explica Olga Magano, professora e coordenadora da licenciatura de Ciências Sociais na Universidade Aberta e Investigadora do Centro de Investigação e Estudos em Sociologia e do Centro de Estudos e Migrações e Relações Interculturais
"Há professores que consideram um castigo ficar com a turma que tem os meninos ciganos."

Para Olga Magano, embora, do ponto de vista legal, sejamos uma sociedade democrática, que defende que todos os cidadãos e cidadãs são iguais perante a lei, na prática não estamos todos no mesmo degrau no que diz respeito ao acesso a certos direitos. “A sociedade, da forma como está estabelecida, define quase um tipo de padronização do que é o cidadão médio, o cidadão aceitável e os que não o são. Aqueles que cumprem as regras padrão, que se enquadram dentro daquilo que está previsto, são aqueles que conseguem fazer a escolarização com maior sucesso”, comenta Olga,. “Os jovens da comunidade cigana acabam por enfrentar outras dificuldades por não fazerem parte daquilo que se considera o padrão, o que acaba por conduzir a um maior insucesso escolar”.

A falta de abertura a outras culturas dentro do contexto escolar deve-se, desde logo, à formação deficitária dos professores. “Os manuais escolares e os professores estão muito formatados para fazerem a sua lecionação seguindo um determinado modelo de ensino. Quando são confrontados com uma turma em que têm meninos de várias proveniências, ciganos ou de outras culturas, torna-se mais complicado. Até porque os professores, muitas vezes, não têm formação noutras culturas. Os professores não conhecem a cultura cigana e não conseguem lidar com ela. Aliás, há professores que consideram um castigo ficar com a turma que tem os meninos ciganos”, acrescenta a investigadora.

Assim, as crianças ciganas que conseguem, excecionalmente, continuar os estudos não são valorizadas nem estimuladas pela comunidade escolar; ao contrário do que seria esperado numa sociedade igualitária, são recebidas e tratadas com “uma atitude castradora de culturas” que acaba por fazer com que se afastem da escola ou se concentrem em turmas PIEF (Programa Integrado de Educação e Formação) e cursos profissionais.
E, aqui, perpetua-se o preconceito. Se as crianças são conduzidas para percursos escolares alternativos, se são impedidas de aceder a educação superior, vão ter dificuldade em integrar-se. Se são postos em turmas especiais, se seguem programas especiais, não vão estar com a comunidade maioritária. E a comunidade maioritária não vai estar com eles.

"A cultura cigana é muitas vezes confundida com a cultura de bairro."

As críticas são apontadas ao Ministério da Educação “que podia estar a fazer muito mais”. “Na verdade, existem muitas políticas educativas no papel, mas isso não significa que sejam eficazes na prática. É preciso começar a divulgar e a promover a cultura cigana nas escolas, ter programas escolares mais inclusivos, porque a comunidade cigana é uma percentagem do povo português”.

Reconhecendo o mesmo problema, a AMUCIP avançou com o projeto Romano Atmo, um kit pedagógico que explica a cultura cigana às crianças, incluindo informação sobre contos tradicionais, os costumes, explicações da língua romano, e ainda um espaço para desvendar mitos e dar a conhecer várias curiosidades da cultura cigana. “O objetivo é que as crianças conheçam o lado bom da cultura cigana, que é muitas vezes confundida com a cultura de bairro”, explica Alzinda.

Apesar da atitude “castradora” de culturas diferentes, na escola, é entre os colegas, principalmente os mais novos, que as relações são desprovidas de preconceitos. Carolina, filha de Noel, “está completamente integrada e dá-se muito bem com os professores e com os amigos”. Ainda assim, Noel recorda o dia em que a filha contou aos colegas que era cigana. “Cigana? Mas os ciganos são lixo. Tu és lixo, Carolina?”, perguntou-lhe um colega. “Ela disse-me: ‘mãe, eu não quero mais dizer aos meninos que sou cigana porque eles não percebem’. Ou seja, ela entendeu que eles não tinham feito por mal, que eles tinham uma ideia errada do que ela era e que não tinham culpa, que é uma mensagem que lhes foi incutida. E minutos a seguir está a abraçar o amigo e é isso que eu gosto de ver nela”. Por outro lado, Noel também já recebeu “conselhos sem maldade” de várias pessoas da sociedade maioritária, que lhe dizem para não dizer a ninguém que a filha é cigana. “Ela nem parece”, justificam.

Como Carolina resulta de um casamento intercultural, acaba por ter um pé nos dois mundos. “Para os ciganos pode ser vista como não cigana, mas para a sociedade maioritária é sempre a ciganita”.
“Muitas vezes ouço ‘vão para o vosso país’, mas que país? Eu sou portuguesa."

Carolina trata as coisas com a leveza que os seus 9 anos lhe permitem. “Quando ela vai para algum lado, explico-lhe que há quem a possa tratar por cigana e ela diz logo ‘eu sei mãe, eu tenho as duas coisas. Qual era a piada de uma sandes só com queijo ou fiambre? Giro é uma sandes mista”, replica.

Ignorando as diferenças entre os dois mundos, Carolina dedica-se àquele que é o seu: a escola. “A minha filha vai poder ser tudo aquilo que ela quiser, e a escola vai ser sempre o primeiro mundo dela, sem deixar de ser quem é, sem deixar de transmitir os seus costumes e sabendo enfrentar com naturalidade as diferenças”.

“Devíamos matar os ciganos pelas crianças, que é para acabar com a espécie”
Uma das mais recentes explicações sobre as migrações de ciganos — que são originários das regiões do Punjal e Rajastão, no noroeste do subcontinente indiano — diz que começaram a emigrar em direção ao Ocidente sensivelmente entre 500 e 1000 d.c. A comunidade cigana chega a Portugal em 1510, há 508 anos. Os primeiros documentos que revelam a presença de ciganos no país são um poema de Luiz da Silveira, no Cancioneiro de Garcia de Resende, escrito no início do século XVI, que relata um episódio em que um cigano engana as outras pessoas e uma peça de Gil Vicente, escrita em 1521, chamada “A farsa das Ciganas”.
"Primeiro sou a Maria Alzinda, e depois é que sou cigana. Eu respondo por mim não por uma comunidade."

Hoje, a Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas estima que habitem por todo o país entre 40 e 60 mil ciganos. Ainda que vivam em Portugal há mais de 500 anos e que a maior parte seja português, os ciganos continuam a ser um grupo não reconhecido pela sociedade portuguesa maioritária. No estudo Nacional das Comunidades Ciganas, realizado em 2014, pode-se ler que “os ciganos não são reconhecidos nem como uma minoria nacional, nem como uma minoria étnica, assumindo-se, então, os ciganos como cidadãos nacionais sem direitos, garantias ou proteção do caráter especial”. “Muitas vezes ouço ‘vão para o vosso país’, mas que país? Eu sou portuguesa, os meus pais são portugueses, os meus avós são portugueses. Toda a minha família é portuguesa”.

Perante este cenário, os primeiros quatro anos da AMUCIP foram turbulentos, tendo o espaço sido assaltado e vandalizado. Queriam apenas empoderar as mulheres ciganas, que são esquecidas e desvalorizadas, mas ninguém as percebeu. Para a comunidade cigana, não eram ninguém para falar em nome dos outros; para a sociedade maioritária — que muitas vezes acusa a comunidade cigana de se fechar em si mesma — não havia espaço para elas.

Para além de a associação ter sido recebida com desconfiança e hostilidade por parte da sociedade maioritária, estas mulheres, no seu próprio país, calçam diariamente sapatos que não são fáceis de usar — e que provocam dores que só quem os calça sente. “Não é nada fácil ser cigana, ser mãe e ouvir um homem a dizer ‘devíamos era matar os ciganos pelas crianças, que é para acabar com a espécie’”, desabafa Noel, assumindo sentir muito mais racismo hoje do que antigamente.

Uma das razões para o aumento e perpetuação de preconceitos é a constante generalização do mal e a incapacidade de se conseguir olhar para as pessoas como um singular. “Eu primeiro sou a Maria Alzinda, e depois é que sou cigana. Eu respondo por mim, não por uma comunidade. Todas as comunidades têm o bom e o mau. Não podemos pôr tudo no mesmo saco. É a mesma coisa que se uma pessoa da sociedade maioritária matasse isso significasse que todas as pessoas eram assassinas”.

Alzinda conta que, quando as pessoas a conhecem e se apercebem de que a sua personalidade não condiz com os preconceitos que tinham, a resposta é sempre a mesma: “Mas tu és diferente. Não pareces cigana”. “É impressionante. Quando as pessoas nos conhecem e percebem que nós fazemos o bem, já não somos ciganos!”.
Enquanto não for possível encarar uma pessoa da comunidade cigana como um indivíduo que só responde por si, diz Alzinda, vai ser difícil as coisas mudarem. “Há mau e bom em todo o lado. Nós não podemos passar todos pelo mesmo. Porque por uns pagam outros”.

Em 2014, no Estudo Nacional das Comunidades Ciganas é referenciada a existência de “diferenças significativas entre as condições de vida dos ciganos portugueses e a população portuguesa em geral, persistindo as velhas e novas formas de desigualdade social expressas em pobreza, más condições de habitabilidade, baixos níveis de escolaridade, dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, rendimentos incertos e, por vezes, dependência de prestações sociais”. Mas, não obstante “as pessoas ciganas continuam a apresentar níveis de desfavorecimento assinaláveis face aos demais cidadãos nacionais, sobretudo no acesso e permanência na escola, no acesso à formação profissional, no acesso ao emprego e à habitação (mercado formal), nos serviços públicos e à justiça”.
Tudo isto aprofunda a distância entre a comunidade cigana e a sociedade maioritária. É que, sem acesso às mesmas condições de partida, os jovens ciganos não têm as mesmas oportunidades. E, sem elas, ficam arredados do resto dos direitos dos portugueses.

E se continuam a ser diferentes, continuam a não se integrar. Continuam a ser recusados para as vagas de emprego disponíveis, continuam a ser discriminados nas escolas, continuam a não ter acesso às mesmas oportunidades. E fecham-se.

Por se fecharem, são olhados de lado. São vítimas de preconceito, racismo. Cidadãos portugueses de, legalmente, pleno direito, que não são considerados — pelo poder, pela imprensa, pela sociedade maioritária — como tal.
Diante das desigualdades sociais colossais, os objetivos atuais da União Europeia em matéria de integração dos ciganos assentam em quatro domínios fundamentais: o acesso à educação, ao emprego, aos cuidados de saúde e à habitação, sem esquecer o empoderamento social e o combate ao anti-ciganismo. São as tais condições de partida.

Ainda que não sejam o público-alvo de nenhuma medida de política social, acabam por ser abrangidos por algumas delas, como acontece na saúde. O Sistema Nacional de Saúde assenta no princípio da universidade e gratuitidade no acesso aos serviços e cuidados.

Contudo, ainda que na lei seja obrigatório um tratamento igualitário a todas as pessoas, Noel conta-nos que nem sempre isso acontece. “Uma vez a minha mãe sentiu-se mal e eu fui com ela ao hospital e mal chego ao hospital ouço logo vozes a dizer ‘devem pensar que é tudo vosso’. Eu já chego ao hospital com a minha mãe desmaiada, estou nervosa, e ouves comentários destes… eu só pensava ‘vou deixar passar se não quem sofre é a pessoa que está lá dentro’. Tens de calar e baixar a cabeça”.

“Há condomínios que já têm nos seus livros a dizer que nenhum dos condóminos pode vender a casa a um cigano."
No que diz respeito à habitação, ainda que em 1993 se tenha implementado o Plano Especial de Realojamento, concebido como uma solução face às carências habitacionais e com a intenção de realojar as famílias de bairros sociais e não só, ainda há aspetos críticos no contexto habitacional da comunidade cigana.

Olga Mariano conta-nos que existe uma atitude discriminatória para com os ciganos quando se trata de lhes conceder uma coisa. “Há condomínios que já têm nos seus livros a dizer que nenhum dos condóminos pode vender a casa a um cigano e isso é inconstitucional”.

Olga Magano clarifica que além de grande parte da comunidade cigana ser colocada em bairros sociais, com casas “com pouca qualidade” e que “ficam facilmente sobre ocupadas”, continuam a existir vários acampamentos ciganos, nomeadamente em Paredes, Agrijó, Damaia, Alentejo, Beja, Évora ou Algarve.

Essa realidade chegou à imprensa pelas mãos do vento. No passado domingo, 4 de março, o tornado que atingiu a cidade de Faro, no Algarve, desalojou uma comunidade cigana de 100 pessoas, numa zona conhecida como Cerro do Bruxo, localizado numa das entradas da cidade.

Estas famílias viviam em estruturas precárias, construídas com madeira e telhas. E vão continuar a viver nessas condições. É que, depois de terem sido provisoriamente realojadas num pavilhão desportivo, a autarquia argumenta que, sem condições para dar uma casa a estes munícipes, vai dar-lhes madeira e outros materiais para que reconstruam as barracas. “Logo que as condições o permitam, vão ter que regressar aos locais onde permanecem há muitos anos — estamos a estudar soluções para o futuro, mas não temos nenhuma solução para todas as comunidades ciganas que temos no concelho”, disse à imprensa Rogério Bacalhau, presidente da autarquia.

“As pessoas que recebem o Rendimento Social de Inserção não podem vender nada nas feiras nem ter outro tipo de negócio. Isto conduz a que as pessoas não façam nada, fiquem ali à espera a viver da prestação. Há uma indução à inatividade”.

“Espero um dia ter soluções que não serão para todas as comunidades [uma dúzia, no concelho], mas pelo menos para algumas”, acrescentou o autarca, que sucede a Macário Correia. Este último foi o presidente que, há oito anos, quando um temporal destruiu também as estruturas onde estas famílias estavam alojadas, entregou tábuas para que as pessoas refizessem as construções.

A Constituição da República Portuguesa prevê, no artigo 65.º, que “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.” E responsabiliza-se a, entre outros, “promover, em colaboração com as regiões autónomas e com as autarquias locais, a construção de habitações económicas e sociais”.
Para além da dificuldade no acesso ao direito constitucional à habitação, também o direito ao emprego (igualmente previsto na lei portuguesa) levanta vários problemas.

Com a escolarização baixa, a maior parte das pessoas da comunidade cigana não consegue concorrer com o resto da população na entrada no mercado de trabalho, o que faz com que dependa de subsídios, como o Rendimento Social de Inserção. Contudo, Olga Magano também aponta defeitos ao modo de funcionamento do Rendimento Social de Inserção. “Em primeiro lugar, as pessoas que recebem o Rendimento Social de Inserção não podem vender nada nas feiras nem ter outro tipo de negócio. Isto conduz a que as pessoas não façam nada, fiquem ali à espera a viver da prestação. Há uma indução à inatividade”.

Ainda existe outro problema estrutural: o enorme desfasamento entre a realidade e as ofertas do IEFP. “A Segurança Social obriga as pessoas a estarem inscritas no centro de emprego, o que podia ser uma boa solução, contudo, uma vez que as pessoas ciganas não têm qualificações, estão no centro de emprego mas não podem ser chamadas quando surgem propostas, que exigem sempre o cumprimento da escolaridade obrigatória”, explica. “O IEFP pode oferecer formações às pessoas da comunidade cigana, mas estas formações não dão equivalência a um diploma escolar. Assim, temos um instituto de emprego e formação profissional que não tem ofertas de trabalho que se coadunam com as qualificações daquelas pessoas. E vamos continuando aqui um bocadinho ao jogo do empurra”.

Resumindo: por não terem acesso a educação em condições de igualdade (por opção cultural, no caso das raparigas, e por consequência da discriminação nas próprias escolas, nos restantes casos), estas pessoas ficam em posição desigual no acesso ao emprego. Por não terem emprego, são obrigadas a recorrer ao RSI. Para beneficiar do RSI não podem trabalhar e têm de estar inscritas no IEFP. Mas, sem a escolaridade mínima obrigatória e sem equivalências, ficam arredados das oportunidades de emprego disponibilizadas pelo próprio Instituto do Emprego e Formação Profissional, o que lhes podia resolver o desfasamento inicial. É uma bola de neve.
1 solução, 8 mulheres, 16 braços
Depois de atravessar um mau período, onde foi confrontada com todo o tipo de problemas, a associação volta a ganhar força em 2010. “A AMUCIP para mim é o filho que nunca tive. Entre nós percebemos que não podíamos deixar a AMUCIP morrer”.
Mantendo a missão de empoderar as mulheres, começam a organizar atividades com um grupo de mulheres ciganas mais velhas, com idades a partir dos 30, que “não conheciam o próprio concelho onde viviam”. Organizavam passeios de barco pelo Seixal, idas à biblioteca ou piqueniques, onde aproveitavam para falar da importância do voto. “Conseguimos que a maior parte destas mulheres fossem votar [nas autárquicas] do dia 1 de outubro”, diz Alzinda.
Para as mulheres assumirem uma cidadania mais ativa, foi também organizado um curso de “empreendedorismo no feminino” que ensinava a 11 mulheres, por exemplo, como se podia preencher a declaração de IRS ou como se pedia autorização para abrir um espaço público de vendas.
Entre todos os projetos que marcaram o renascimento da AMUCIP, destacou-se o “Levar o sonho à ação”, que tinha a duração de quatro anos. Financiado pela Calouste Gulbenkian e com a Rede Jovem para a Igualdade como entidade promotora. O objetivo era trabalhar com as mulheres ciganas, oferecendo-lhes a oportunidade de aumentar a escolaridade. Como a mediação neste projeto era crucial para o respetivo sucesso, a AMUCIP foi chamada a fazer parte, sendo Alzinda o “elo de ligação” entre a comunidade e o projeto.
Desde então, na avenida Carlos de Oliveira, na Arrentela, há um espaço dedicado às formações e atividades com as mulheres ciganas. “Queríamos oferecer um espaço onde as mulheres pudessem ter um momento para elas, onde elas são protagonistas, onde podem intercambiar informações e onde podem encontrar um conjunto de conhecimentos novos”, conta-nos Carolina Leão, formadora da Rede Jovem para a Igualdade.

Com as portas abertas, era necessário arranjar quem quisesse por lá entrar. “Comecei a arranjar jovens que tinham entre os 18 e os 30 anos, a maioria delas era casada e com filhos, tive de fazer a mediação com as famílias e os maridos, para poderem participar no projeto. Eu ia aos bairros falar. Dizia-lhes ‘não há compromisso nenhum. É uma coisa diferente, vais lá uma vez e vês, experimentas, se não gostares és livre de sair, agora quero que saibas que isto existe e que tu podes beneficiar disso”, conta Alzinda. Todo o contacto estabelecido era feito com cautela para nunca as pressionar. “Pelo contrário, eu queria aliviar. As miúdas ciganas já têm uma carga em cima muito grande, são mães, donas de casa e vendedoras”.

O projeto começava logo por uma formação externa de três dias num hotel na Costa da Caparica, o que implicava uma tarefa difícil: fazer com que 11 mulheres tivessem de passar dias fora de casa. “Aquilo teve de ser muito bem mediado. Eu assegurava as deslocações e as crianças”, continua Alzinda.

Vitória tem 22 anos e foi uma das raparigas que beneficiou da formação. Reconhece enorme importância às sessões de estudo que ocupavam os dias. Porém, aquilo que recorda com mais nostalgia é a ida à praia. “Alguma vez eu pensei ir para a Costa, sozinha, sem marido, sem filhos, só com as raparigas do curso? Nós estávamos lá e estávamos malucas. Sozinhas num hotel! Quando acabavam as sessões de estudo, íamos passear, íamos à praia todas juntas. Nós ali quebrámos uma barreira”. Na verdade, para Vitória, não era comum andar na rua sem a família — mesmo com 17 anos, era raro andar de autocarro sozinha ou apenas com amigas.

“As coisas da vida”, como diz Alzinda, fizeram com que algumas raparigas fossem abandonando a associação, ficando apenas oito a fazer parte do espaço e das atividades.

Estas mulheres procuravam o espaço para desabafar, partilhar os seus problemas, aumentar a escolaridade, procurar emprego ou resolver qualquer problema que lhes tivesse aparecido. “Por exemplo, quando a assistente social ameaça cortar o rendimento [RSI] porque diz que os miúdos têm faltas na escola. E a escola, por outro lado, diz que o miúdo não tem faltas. Este é um problema. Elas falam connosco e nós ajudamos a digitalizar documentos, a fazer uma carta. Acompanhamos a situação para as ajudar”.

Como as oito mulheres mostravam vontade de aumentar a escolaridade, o projeto conseguiu interligá-las, este ano, ao Programa Qualifica, que tem como objetivo melhorar os níveis de educação e formação de todos.
"Sei que o meu futuro está aqui. Eu quero marcar a diferença.”

Manuela, de 24 anos, também beneficiária do projeto, diz estar “entusiasmada” com a oportunidade e espera conseguir tirar o nono ano. “Eu gostava mesmo muito de ter o 12.º, mas já sei que isso já é um bocadinho mais complicado”. Em casa, conta, a vontade de querer estudar não levantou problemas. "Eu tenho autoridade para dizer: ‘olha, marido, vou estudar’ — e foi isso que aconteceu. E ele até me perguntou ‘mas para que é quer queres isso?’ — e eu disse: ‘quero, quero ter escolaridade’. Ele disse-me logo: 'está bem, faz o que quiseres'”. Se calhar as meninas solteiras não têm tanta liberdade, mas também tem a ver com os nossos maridos que têm mentes abertas. São assim uns ciganinhos mais modernos”.

Já Cláudia, também beneficiária do programa, reforça a atitude moderna com que os maridos tem lidado com a vontade de serem escolarizadas. “Eu sou casada e o meu marido é cigano, vivemos a vida do cigano, estamos integrados na comunidade e eu disse-lhe disse: 'olha vou-me juntar à Zinda [Alzinda], vamos criar ali qualquer coisa nova'. ‘Estás com a Zinda estás bem’, foi logo o que ele me disse. Ele nem me perguntou o que eu ia fazer, só disse se ‘estás com a Zinda estás bem, estás em boas mãos”.
Andreia tem 35 anos e uma vida que não dá tempo para descanso. Vida que a leva a reforçar a vontade necessária para fazer parte do projeto. “Eu já tenho netos, tenho um filho pequenino com ano e meio, tenho o meu marido, as minhas tarefas de casa, sou pastora evangélica, mas não abandono este projeto, porque sei que o meu futuro está aqui. Eu quero seguir com isto. Eu quero marcar a diferença”.
Nos encontros, na Arrentela, as mulheres falam de sonhos e de fantasias. Entre as oito, perceberam que existiam três pontos de interesse. Umas gostavam de cuidar de crianças, outras de cozinhar e ainda havia quem gostasse de ter um salão de estética. Comum aos três, existia a mesma vontade: ter um espaço, ter um local de trabalho, uma fonte de rendimento própria, independente do salário do marido.
"Eu não fui educada para ser doutora."
No dia 22 de janeiro, o sonho chegou à ação e estas mulheres abriram o Espaço Romi — que significa cigano. No dia da inauguração, a casa estava cheia e entre os vários convidados estavam Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade de Género e Manuela Tavares, presidente da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta).

Um enorme arco de balões marcava o dia de festa. Comida e bebida davam conta dos festejos do estômago. As atenções, porém, não saíam destas raparigas. Cláudia, presidente do Espaço Romi, apresenta-o aos convidados. “Este espaço é aberto a todos. Existe uma área dedicada às crianças, temos uma cozinha onde fazemos fabrico próprio e um espaço de estética”. Ainda que, no dia da abertura, não existissem espaços vazios, Cláudia alerta para a necessidade de dinamizar o espaço. “Abrimos agora o espaço, mas ele continua muito vazio. Ainda está tudo no início. Vamos começar a organizar coisas para acontecer aqui”, como um desfile com raparigas ciganas, mostrando a todos as roupas que, convencionalmente, só são vistas em festas privadas ou em casamentos.
Com as crianças a correr de um lado para o outro, os discursos não podem tomar demasiado tempo. Quando Rosa Monteiro se alonga nas palavras, a inquietação das crianças, em murmurinhos que segredam junto das pernas das mães, avisa que está na hora de o encurtar. E, no fim das diplomacias protocolares, há tempo precisamente para elas: um teatro infantil com a peça do patinho feio.

Na plateia, juntas e em fila, as crianças escutavam a história do patinho feio — parábola da discriminação. Lá estava o filho de Vitória a ver a mãe representar; ela que é conhecida por ser o “Filipe Lá Féria do sítio” e para quem este dia representa uma enorme felicidade e uma viragem. “O nosso sonho enquanto mulheres [ciganas] é casar e ter filhos. Como mulher estou realizada porque foi para isso que eu fui educada. Eu não fui educada para ser doutora. Nós fomos educadas para isto. O sonho da mulher é ser mãe, ter filhos e casar. Os nossos limites eram estes, não tínhamos outros, nem podíamos ter outros. Hoje já penso diferente. Eu posso ser mãe, ser casada mas posso estar aqui, posso sonhar mais alto. Posso tirar a carta, posso ter este espaço, posso ter dinheiro próprio e não depender do ganho do meu marido”.
"Não sou a ciganinha da sociedade maioritária, nem a doutora da comunidade cigana. Sou simplesmente Sónia Matos."

Ainda que sejam aplaudidas por grande parte da comunidade cigana, Cláudia sabe que há quem lhes aponte o dedo. “Nós dizemos que numa casa a cabeça é o homem, a mulher é só o pescoço. A mulher só ajuda, é o encosto. Quando uma mulher é falada, quem se envergonha é o homem. E para nós a opinião do outro conta muito. Às vezes tenho medo de aparecer na televisão e algum amigo do meu marido diga alguma coisa, que critique, e que ele não goste de algum comentário. Ele pode não gostar, pode sentir-se mal. Mas nós temos a noção de que não estamos a fazer mal nenhum e eles também. Tanto que nos permitem estar aqui todas juntas”.

Passados 17 anos “a levar com o pão que o diabo amassou”, o reconhecimento começa a florescer, ainda que vagarosamente. Provaram o que sempre prometeram: não romper com nenhuma cultura, não ocupar o lugar de ninguém, apenas ajudar as mulheres a poderem ser aquilo que quiserem. “Agora, já somos procuradas pela comunidade cigana, já nos pedem ajuda. E a sociedade maioritária também já nos vê de outra forma”, conta Alzinda.
A mudança, dentro da comunidade cigana, vai acontecendo devagarinho, quase tão devagarinho quanto a abertura de mentalidades da sociedade maioritária. Ainda assim, Alzinda, agora com 40 anos, sublinha as boas exceções. “Com a AMUCIP e não só, com outras associações como o Opré Chavalé, começo a ver mulheres empoderadas, mulheres nas faculdades, mulheres viúvas a trabalhar, mulheres ciganas com um percurso escolar muito diferente do meu”. “Tudo valeu a pena, a AMUCIP é o filho que eu nunca tive”.

Sónia, que balanceava entre os dois mundos, sabe agora perfeitamente quem é. “Eu encontrei-me. Não sou a ciganinha da sociedade maioritária, nem a doutora da comunidade cigana. Sou simplesmente Sónia Matos”. A Sónia Matos que se faz de si, sem existir outra igual e sem carregar uma cultura às costas. Agora, casada e com dois filhos, continua a dedicar a atenção aos mais novos, trabalhando em programas de ação educativa. Conseguiu tirar o 12.º quando completou 28 anos, com a ajuda do pai. “Ele sempre viu algo mais em mim. Ele disse-me ‘já que enveredaste por esse caminho, gostava muito de te ver com o canudo na mão. É algo que quero fazer por ele”.

Noel Gouveia, que sonha em ver a mudança na filha, continua a achar que a educação é a solução para todos os males. A estudar à noite, conseguiu tirar o 12.º e tirar um curso de formação de formadores, onde transmitiu a sua “experiência com a igualdade de género e cultura cigana”. Com um currículo sem espaços vazios e uma média de 16,7 valores, conseguiu, em fevereiro deste ano, entrar para o curso de Sociologia do ISCTE-IUL. “É um sonho tornado realidade”.

Muito “achincalhada” no início, Olga Mariano, agora com 68 anos, é uma mulher muito respeitada pela comunidade. Depois de conseguir tirar o 12.º através do programa Novas Oportunidades, ingressou na licenciatura em Educação Social da Universidade Aberta. Contudo, só conseguiu terminar um semestre, afastando-se por questões de saúde. Além de pertencer à AMUCIP, Olga preside a associação Letras Nómadas, onde trabalha diariamente com raparigas ciganas, o que fez com que se voltasse a candidatar. “Foi mais por causa das raparigas. Eu queria mostrar às mães que, se eu já tenho esta idade e sendo viúva podia estudar, elas não tinham de estar preocupadas com as suas filhas”.

Quem a veja não lhe reconhece fragilidade. O rosto é ríspido e a voz não treme. Aprendeu a ser assim, a nunca exteriorizar o que se acumula. “Perdi o meu marido muito cedo. A partir daí há sempre uma falha. Não se dividem as fraquezas, as incongruências da vida, os obstáculos. Para os meus filhos eu só dou o bom, não partilho o mau”. A partilha, essa, só é feita quando está rodeada de pessoas e de barulho. Não é que partilhe com ninguém, mas a azáfama fá-la transportar-se para um outro mundo, que se faz de papel e tinta.


“A poesia para mim é um escape de tudo, é a única forma de me exprimir”. Escreve sobre os seus estados da alma, sobre o que gostava de fazer e não fez, sobre o que fez mas não devia ter feito. Não raras as vezes, a sua poesia teima em tentar encontrar o fundo das gavetas que julgava fechadas. Destas gavetas se faz uma vida. De todas as lutas e de todas as mulheres se faz um poema. Principalmente este, escrito há 17 anos. No momento em que as flores floriram, romperam o chão, para que hoje todos pudéssemos crescer.