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22.2.18

Africanos e ciganos vivem em condições degradantes em Portugal, denuncia a Amnistia

Patrícia Fonseca, in Visão on-line

No seu relatório anual sobre o respeito pelos Direitos Humanos no mundo, divulgado esta quinta-feira, a Amnistia Internacional aponta ainda o dedo a Portugal no que diz respeito à integração de refugiados e à violência contra as mulheres

As demolições vão avançando no Bairro 6 de Maio, na Amadora, apesar dos protestos dos moradores, em luta contra a Câmara Municipal há dois anos. Das três mil pessoas que viviam no bairro, restam hoje poucas dezenas. Mas se antes viviam nas suas pequenas casas abarracadas, hoje resistem no meio de escombros, montes de lixo e rios de esgoto, com a água e a luz cortadas. Muitos têm dado o peito às retro-escavadoras, conseguindo adiar o inevitável - mas esta é uma guerra com um vencedor há muito anunciado.

O problema, queixam-se os moradores do bairro (na sua maioria de origem africana), é que o município não lhes apresenta alternativas. Apenas afixam um papel na porta dizendo que a casa vai ser demolida. "Estas pessoas não podem continuar a viver nestas condições nem podem ficar sem-abrigo", considera a Amnistia Internacional no seu relatório anual, divulgado esta quinta-feira, 22 de fevereiro, e a que a VISÃO teve acesso.

Nas três páginas dedicadas a Portugal - o relatório analisa a situação em 159 países - referem-se ainda as más condições de vida das comunidades ciganas, nomeadamente em Torres Vedras, apelando-se a novos programas governamentais que permitam o realojamento destes cidadãos.

É igualmente referido que Portugal recebeu menos refugiados da Grécia e Itália do que se tinha comprometido internacionalmente - em 2017 chegaram 1 518 pessoas, cerca de metade da quota prevista -, e é também digno de nota o facto de 720 destes refugiados já ter abandonado Portugal, entretanto.

O caso dos juizes do Porto que, em outubro passado, num julgamento de um homem que raptara e espancara a mulher consideraram "atenuante" o facto de ela o ter traído com outro homem, o que atingiria a honra e a dignidade do marido, não escapou também à análise da organização não-governamental, sempre atenta aos números da violência doméstica em Portugal. Esse é um problema que já era focado no relatório do ano passado, tal como a violência policial ou o racismo contra as comunidades ciganas.

Numa nota positiva, refere-se a acusação de 18 polícias da Amadora pelo abuso de poder e tortura de seis cidadãos de origem africana, a apresentação, por parte do governo, de uma proposta de lei que garantirá uma maior proteção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, pessoas transgénero e intersexuais (LGBTI), e a aprovação no Parlamento, em agosto, de nova legislação com penas mais duras para o incitamento ao ódio, à violência e outras condutas discriminatórias.

4.3.15

Cáritas registou 21.549 novos casos de pessoas em situação de pobreza em 2014

in o Observador

A Cáritas Portuguesa registou, no ano passado, 21.549 novos casos de pessoas em situação de pobreza, um aumento de 15,4% face a 2013, segundo dados da instituição divulgados hoje à agência Lusa.

A Cáritas Portuguesa registou, no ano passado, 21.549 novos casos de pessoas em situação de pobreza, um aumento de 15,4% face a 2013, segundo dados da instituição divulgados hoje à agência Lusa.

No total, a Cáritas apoiou 160.608 pessoas carenciadas, o ano passado, o que representou uma média de 440 por mês, adiantam os dados do Núcleo de Observação Social, um instrumento que permite à instituição conhecer o número de atendimentos que as vinte Cáritas diocesanas prestam às comunidades.

O número de famílias apoiadas também aumentou, passando de 52.967 em 2013, para 63.059 em 2014, o que significou uma subida de 19% (mais 10.092 famílias).

Segundo os dados, avançados à Lusa a propósito da Semana Nacional da Cáritas, que decorre até domingo, os baixos rendimentos e as questões relacionadas com o trabalho são os principais motivos que levaram as pessoas e as famílias a pedirem ajuda à instituição.

Os dados especificam que os baixos rendimentos, as dívidas com água, gás e alimentação representaram 35% dos atendimentos prestados pelas 20 Cáritas diocesanas em 2014, um valor igual do ano passado.

Já o desemprego, o emprego clandestino, o trabalho precário, os salários baixos ou em atraso totalizaram 23% dos apoios dados, um número que se manteve face a 2013.

Os problemas relacionados com a família, como mães adolescente, família monoparental, orfandade, criança em risco, disfuncionalidade familiar, violência ou conflitos entre familiares, motivaram 9% dos atendimentos da organização.

Nove por cento dos atendimentos destinaram-se a ajudar a resolver problemas com a habitação (casa degradada, sobrelotação, custo excessivo da habitação, rendas amortizações em atraso, sem abrigo) e 8% para apoiar problemas ligados à escola (analfabetismo, baixa escolaridade, abandono ou insucesso escolar).

Os dados adiantam que 7% dos atendimentos foram para apoiar questões de saúde (doença, deficiência, alcoolismo, toxicodependência) e 4% para ajudar pessoas com problemas de autoestima, dificuldades de relacionamento, entre outros problemas, a adquirirem competências pessoais.

Os dados do Núcleo de Observação Social dão indicações sobre o atendimento que é feito e sobre as áreas sociais que requerem intervenção das Cáritas Diocesanas, permitindo “desenhar não apenas o rosto das carências sociais” em Portugal, “mas também perceber a melhor forma de agir para melhorar a condição de vida dos portugueses”, adianta a Cáritas.

2.2.15

Risco de pobreza subiu em 2013. Maior risco entre os mais novos

in O Observador

O risco de pobreza continuou a aumentar em Portugal em 2013, afetando quase dois milhões de portugueses, de acordo com os dados do INE.

O risco de pobreza continuou a aumentar em Portugal em 2013, afetando já quase dois milhões de portugueses, de acordo com os dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Segundo os dados do INE, 19,5 por cento das pessoas estavam em risco de pobreza em 2013 face aos 18,7 por cento do ano anterior, apesar de ter existido um aumento dos apoios sociais às situações de doença e incapacidade, família ou desemprego.

As estatísticas do INE assinalam ainda que, apesar de o aumento do risco de pobreza ter abrangido todos os grupos etários, foi maior nos casos dos menores de 18 anos, tendo o risco de pobreza passado de 24,4 por cento em 2012 para 25,6 por cento em 2013.

“A presença das crianças num agregado familiar está associada ao aumento do risco de pobreza, sendo de 23,0 por cento para as famílias com crianças dependentes e de 15,8 por cento para as famílias sem crianças dependentes”, adianta o INE.

16.12.14

Protocolo de cooperação entre Governo e setor social atribui 50 milhões à segurança social

in O Observador

Governo vai atribuir 50 milhões de euros à área da Segurança Social, no âmbito do Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário.

Verbas estão previstas no âmbito do Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário, que é assinado nesta terça-feira

O Governo vai atribuir 50 milhões de euros à área da Segurança Social, no âmbito do Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário, que é assinado terça-feira, segundo a União das Mutualidades Portuguesas (UMP). A cerimónia de assinatura do terceiro Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário é presidida pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e conta com a presença dos ministros da Educação e Ciência, Saúde e da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

Da parte do setor solidário, vão estar presentes os presidentes da União das Mutualidades, a União das Misericórdias Portuguesas e a Confederação das Instituições de Solidariedade Social (CNIS). Segundo nota da União das Mutualidades Portuguesas (UMP), o protocolo para 2015-2016 prevê a atribuição de 50 milhões de euros à área da Segurança Social, “de forma a dar prioridade à contratualização de um conjunto de equipamentos sociais que têm vindo a ser construídos”.

“Também o Fundo de Reestruturação do Setor Social (FRSS) vai contar com uma verba de 30 milhões de euros para apoiar a reestruturação e a sustentabilidade financeira das IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] e equiparadas”, diz a União das Mutualidades.

Neste compromisso de cooperação o apoio é alargado, pela primeira vez, aos setores da saúde e da educação, estando previsto, no âmbito dos cuidados de saúde, a “abertura de mais unidades de Cuidados Continuados Integrados pertencentes ao setor social e solidário”, para além da transferência de mais três hospitais para a gestão das Misericórdias.

Por outro lado, segundo a União das Mutualidades, vai ser reforçada a oferta pública de cuidados de saúde primários e vão ser realizadas experiências piloto na área da saúde mental com vista à implementação de respostas de cuidados continuados integrados específicos. De acordo com a UMP vão ser criadas “regras que permitam igual acesso ao serviço de transporte de doentes aos diferentes operadores” e a alteração legislativa relativa às farmácias sociais será prosseguida.

No que diz respeito à educação, a UMP adianta que o protocolo de cooperação prevê, para a educação pré-escolar e para o ensino básico, “continuar a pautar-se pelo princípio da igualdade de oportunidades no acesso e frequência dos estabelecimentos”. Significa isso que “serão redefinidos os mecanismos e critérios de prioridades de seleção, bem como dos apoios financeiros para os acordos de cooperação, tanto para a componente letiva como familiar”.

Em relação às crianças com necessidades educativas especiais, o acordo de cooperação define a “salvaguarda do processo de transição dos jovens com idade igual ou superior a 18 anos, que terminem o percurso escolar obrigatório e que tenham necessidades educativas especiais de caráter permanente, para preparar o seu futuro para soluções ajustadas ao seu perfil e aptidões”.

11.11.14

Estudo sobre pobreza em Lisboa revela que situação piorou em três anos

in o Observador

Um estudo do Observatório da Luta contra a Pobreza, que acompanha 57 residentes desde 2011, revela que a maioria viu a situação agravada nos últimos três anos.

Um estudo do Observatório da Luta contra a Pobreza que acompanha desde 2011 o percurso de 57 residentes em Lisboa com poucos recursos económicos, revela que mais de metade viu a sua situação agravada em três anos.

Segundo o “Barómetro de pessoas que se encontram em situação vulnerável – Fase II”, que é apresentado esta segunda-feira em Lisboa, das 57 situações analisadas, 17 mantêm a mesma situação de pobreza de 2011, mas para 30 a situação de fragilização em que se encontravam agravou-se e, para 10, a situação melhorou. “Três anos depois, uma parte substancial destas pessoas está pior, o que não é uma conclusão muito estranha dado o recuo das respostas das políticas públicas, das prestações sociais”, disse à agência Lusa o diretor do Observatório da Luta contra a Pobreza da Cidade de Lisboa, Sérgio Aires.

O agravamento da situação de vulnerabilidade em todos os perfis estudados é resultado em larga medida da ausência de respostas às necessidades mais básicas: rendimento, habitação e saúde. Sérgio Aires explicou que este estudo longitudinal, cuja primeira fase decorreu em 2011 e a segunda em 2013/2014, prevendo-se que se mantenha, pelo menos, até 2020, tem como “principal objetivo” perceber “o impacto das respostas existentes e das políticas públicas face à pobreza e exclusão num determinado grupo de pessoas residente em Lisboa”. Este grupo “não é representativo da sociedade portuguesa”, mas é “representativo de um conjunto de perfis de pessoas que vivem em situação de pobreza”, explicou.

O estudo envolveu 17 trabalhadores pobres, dez idosos, dez incapacitados para o trabalho por motivos de doença, nove desempregados, sete desfiliados, dois trabalhadores e duas cuidadoras informais. A maioria dos entrevistados (39 em 57) tem uma situação de pobreza (persistente, ou ocasional) há mais de oito anos, e esta situação é transversal a todos os grupos, embora atinja mais frequentemente os mais velhos. No grupo onde a pobreza é mais recente (menos de oito anos) metade vem de grupos familiares com pobreza geracional. “A incidência da pobreza geracional num grupo tão significativo de pobreza recente faz temer a sua passagem a um estádio permanente à medida que avança a idade e/ou que aumenta o tempo sem encontrar trabalho”, salienta o estudo.

Para os que consideram que melhoraram a sua situação, o que mudou foi que arranjaram uma ocupação remunerada ou melhoraram a situação de saúde. Já o piorar da situação está associada a fatores imprevisíveis, como a morte de familiares que faz perder a habitação e o rendimento, ou problemas de saúde. “A estabilidade na manutenção da situação de pobreza parece estar, sobretudo, associada àqueles que vão mantendo uma relação com o mercado de trabalho, mesmo que precária, ou que acabaram por conseguir manter um apoio social” que lhes permite garantir a subsistência.

Para Sérgio Aires, é “extremamente preocupante” não se conseguir quebrar o ciclo vicioso da pobreza, porque faz com que se mantenha e agrave. Sobre o que está a falhar nesta luta, o responsável disse que é não haver “uma estratégia de combate à pobreza que ataque de facto as causas do problema”. “Tentamos amenizar as consequências, assistir a alguns casos mais urgentes e complicados, mas em poucos casos conseguimos quebrar esse ciclo de pobreza”, lamentou.

6.12.13

INE: condições materiais de vida dos portugueses diminuíram, mas qualidade de vida melhorou

in iOnline

Dos 10 domínios que integram o índice, o Trabalho e remuneração e a Vulnerabilidade económica foram os que apresentaram a “evolução foi mais desfavorável”

As condições materiais de vida dos portugueses evoluíram negativamente entre 2004 e 2011, enquanto a qualidade de vida apresentou uma “evolução continuamente positiva”, revela hoje o Índice de Bem-Estar para Portugal (IBE), do Instituto Nacional de Estatística.

Realizado pela primeira vez, o estudo foi desenvolvido ao longo dos últimos três anos e abrange o período de 2004 a 2011 apresentando resultados preliminares para 2012, sendo objeto de atualização e divulgação anual.

O IBE “evoluiu positivamente” entre 2004 e 2011, atingindo o valor de 108,1 em 2011, estimando-se uma redução para 107,6 em 2012 devido à “quebra das condições materiais de vida”.

Dos 10 domínios que integram o índice, o Trabalho e remuneração e a Vulnerabilidade económica foram os que apresentaram a “evolução foi mais desfavorável”, ao contrário da Educação, da Saúde e do Ambiente que apresentam a evolução mais favorável.

As duas perspetivas de análise do bem-estar - os índices sintéticos “Condições materiais de vida” e “Qualidade de vida” - evoluíram em sentidos opostos, com o primeiro a evidenciar uma tendência decrescente, que se acentuou de 2010 para 2012, e o segundo a apresentar uma tendência crescente.

O índice das condições materiais de vida atingiu o valor de 89,2 em 2011 (na comparação com o ano-base de 2004 = 100), enquanto o da Qualidade de vida atingiu em 2011 o valor de 116,2.

Os dados preliminares de 2012 “reforçam esse contraste”: o índice das Condições materiais de vida – que avalia o bem-estar económico dos portugueses, a vulnerabilidade económica, trabalho e remuneração – “teve novo agravamento com uma desvalorização de 13,2 pontos percentuais entre 2004 e 2012”.

“Dada a forte associação existente entre muitas das variáveis” deste indicador e o funcionamento do sistema económico, “a sua evolução reflete o baixo crescimento da economia no período pré-crise e é particularmente sensível aos efeitos do aprofundamento da crise económica”.

A evolução positiva da Qualidade de vida entre 2004 /2008 (9,5 pontos percentuais) continuou no período 2008/2012, mas com menor intensidade (7,0 p.p.), estimando-se para 2012 uma variação de 16,5 p.p. face ao ano base de 2004.

Saúde, balanço vida-trabalho, relações sociais, participação cívica, segurança pessoal e ambiente são os indicadores avaliados neste índice.

A vulnerabilidade económica é a que apresenta “a evolução mais desfavorável”, traduzindo “uma progressiva vulnerabilidade das famílias fortemente induzida” pelo seu afastamento do mercado de trabalho, pelos elevados níveis de endividamento e pela intensificação da dificuldade em pagar os compromissos com a habitação.

O índice relativo à proporção de indivíduos com 15 e mais anos residentes em agregados onde todos os ativos se encontravam desempregados agravou-se entre 2004 e 2011 (43,2 neste último ano).

“Este progressivo afastamento de um número significativo de famílias do mercado de trabalho, particularmente pronunciado desde 2009, traduz o acentuar do processo de envelhecimento e o forte agravamento do desemprego” no país.

A variação no domínio Trabalho e Remuneração entre 2004/2011 foi a que teve a evolução mais negativa (-24,2 p.p.), com quebras mais pronunciadas a partir de 2009.

Para esta situação terá contribuído os indicadores relacionados com a condição perante o trabalho e, em particular, a evolução do desemprego a partir de 2009.

O domínio de bem-estar económico registou um crescimento significativo até ao início da crise económica, invertendo essa tendência após 2010.

Já o principal indicador dos recursos económicos das famílias (o rendimento disponível mediano por adulto equivalente) cresceu em termos reais 10 pontos percentuais entre 2004/2009, mas esses “ganhos foram perdidos na quase totalidade entre 2009/2011, ano em que o índice se situou em 100,3”.














12.2.13

O lugar do Pego Negro é uma quase-ilha onde se podia viver bem melhor

in Público on-line

Na Campanhã das fábricas que já não existem ficaram as ilhas, onde há rendas demasiado altas para a falta de condições evidente. Duas escolas tentam reabilitar estes locais do Porto e acabar com estigmas

José paga 280 euros de renda, mas dorme no chão. A casa que habita, num emaranhado de habitações na Rua do Pego Negro, em Campanhã (Porto), é tão pequena que não chega para mais. Casado e com três filhos, tem um colchão no chão do que seria uma sala pequena e é aí que passa as noites, com a mulher e o filho de um ano e meio. O único quarto da casa - que tem ainda uma cozinha e uma casa de banho exíguas - é para os outros dois filhos do casal, de 14 e 8 anos. O espaço não chega, claramente, mas ainda assim é melhor do que a opção anterior, quando a família se amontoava num único quarto, no bairro camarário onde morava a mãe de José.

A casa onde vive hoje a sua família não fica numa ilha, mas é como se ficasse. Não há um portão comum a vedar o acesso às habitações da rua, mas o isolamento a que o conjunto está votado, rodeado por vias rápidas, parece maior do que se houvesse o tal portão a fechar o caminho. Há casas espalhadas pela rua circular que termina no mesmo sítio onde começa e casas amontoadas em corredores com um acesso comum. É aí que vivem José, Mónica, Ana ou César. Na semana passada, Ana pediu ajuda à Junta de Campanhã para tentar obter uma habitação camarária, depois de a saúde do filho, de sete meses, se ter ressentido "da humidade e do gelo" que inundam a casa do Pego Negro. Quando uma equipa de técnicos chegou o local, para ajudar a moradora a instruir o processo, deparou-se com um grupo de vizinhos, que perguntava: "Então, e nós?".

No dia seguinte, os professores Fernando Matos Rodrigues e Berta Granja estavam no local, acompanhados de José António Pinto, assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã, e de um grupo de estagiárias do Instituto Superior de Serviço Social do Porto (ISSSP), que está a trabalhar na junta. São elas que estão a levar às ilhas da freguesia um questionário para tentar traçar o retrato dos principais problemas que os seus moradores vivem no dia-a-dia, para que seja possível construir soluções que permitam ultrapassá-los. Ao mesmo tempo que as estagiárias do ISSSP, a que pertence Berta Granja, traçam o retrato social dos moradores, Matos Rodrigues, da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), vai fazendo o perfil das necessidades físicas das ilhas, tentando perceber como é possível melhorar e, até, rentabilizar, estes espaços. Um trabalho que deverá ser sistematizado por um Laboratório da Habitação, que a ESAP e o ISSSP estão a criar em conjunto (ver texto ao lado).

No Pego Negro, os dois professores encontraram muitos dos problemas que existem noutras ilhas da cidade - casas sobrelotadas, com problemas de humidade e sem saneamento. "Há que repensar estas ocupações com condições de dignidade", defende Berta Granja. Matos Rodrigues acrescenta: "Está-se a investir muito no espaço público e não nas pessoas, na cidade real. É preciso investir nesta arquitectura, que constitui um património muito importante. Se isto não existisse, estas pessoas já não estariam na cidade. E o problema é que muitas delas já nem conseguem suportar as rendas de locais como este, que são muito elevadas para as condições que oferecem".

Um bom exemplo à porta

Entre as várias casas do Pego Negro, há um exemplo do que o futuro poderia ser. A casa de Odete, que pertence ao sogro, foi totalmente reabilitada. Por dentro, parece um apartamento moderno da zona central da cidade. "Com a porta fechada, até me esqueço de onde estou", diz a moradora. Investiu ali porque a casa pertence à família e porque gosta do sossego do lugar do Pego Negro, onde nasceu e casou. Por isso, diz, beneficia do melhor dos dois mundos - conforto e modernidade, dentro de portas; sossego, vizinhança e vista familiares, quando sai à rua.

Enquanto o Laboratório de Habitação não se instala, José António Pinto e as estagiárias do ISSSP já lançaram mãos à obra e o assistente social tem ideias muito concretas sobre os próximos passos a dar no Pego Negro: "É preciso dinamizar a comissão de moradores, fazer um levantamento fotográfico e de vídeo do que existe hoje", diz. Na forja está também um convite a todos os candidatos à Câmara do Porto para que visitem o local, com o alerta para que o núcleo habitacional tenha o tratamento devido a quem vive paredes-meias com o Parque Oriental. E, das fotografias que se vão tirar, poderá nascer uma exposição a ser instalada na sede da antiga associação de moradores do Pego Negro, actualmente ao abandono.

É também aí que os envolvidos neste trabalho - que Berta Granja descreve como "economia social e habitacional" - querem ver desenvolvidas outras iniciativas cívicas e culturais, para levar aos moradores uma dinâmica que hoje lhes foge. O objectivo final é que, com o apoio dos senhorios das habitações e dos próprios moradores, se possa melhorar a qualidade de vida de todos. Para que Mónica deixe de ter de partilhar a cama com os quatro filhos no único quarto da casa ou de sair à rua para ir à casa de banho da habitação, que fica no exterior (180 euros de renda). Para que César, que paga 250 euros de renda, não tenha de ter o berço do filho encostado a uma parede de tijolo, construída por ele e ainda por pintar, para substituir a madeira podre da divisão. Para que as águas residuais de todos não continuem a ir parar ao rio Tinto, que corre ali ao lado.

6.6.12

Um em cada cinco portugueses tem menos de 300 euros para as férias

Por Erika Nunes, in Dinheiro Vivo

A maioria dos portugueses (62%) não vai fazer férias este ano, de acordo com a sondagem realizada pela Universidade Católica Portuguesa para o Jornal de Notícias. Entre os restantes, 24% planeiam fazer férias em Portugal, 6% vai viajar para o estrangeiro e 3% fará férias cá dentro e no estrangeiro também.

Entre os portugueses que vão fazer férias este ano, 10% vão ficar alojados em apartamento/casa de familiares ou amigos e 5% em apartamento/casa de férias do próprio, diminuindo assim o montante que conta gastar este ano: 16% vão gastar o mesmo que noutros anos e 14% vão gastar menos. Só 2% estão dispostos a gastar mais.

Um em cada cinco portugueses vai fazer férias com menos de 300€, 28% conta gastar entre 301€ e 600€ e 20% vai gastar entre 605€ e 995€. Acima de mil euros é quanto vai gastar 20%.

O turismo nacional terá de partilhar este mercado interno emagrecido e poupado. As ofertas e promoções especiais multiplicam-se e dispersam-se, simultaneamente, sem uma promoção do turismo interno tão forte como em 2010. A campanha "Descobrir Portugal" custou três milhões de euros e obteve resultados comparáveis aos melhores de sempre.

A secretária de Estado do Turismo, Cecília Meireles, anunciou que, este ano, há um milhão de euros para a promoção interna, com utilização de recursos já existentes. As imagens que o Turismo de Portugal levou à Bolsa de Turismo de Lisboa foram as da campanha "Descobrir Portugal". Também o portal criado na altura (descubraportugal.com.pt) é o atual veículo de promoção na internet.

No próximo fim de semana, entrará no ar uma "campanha na TV com filmes promocionais que apelam ao turismo interno em várias regiões do país, através do testemunho de caras conhecidas do grande público (uma por cada região)", segundo revelou fonte do Turismo de Portugal, ao JN.

As entidades regionais de Turismo, cujos orçamentos foram, também, encolhidos têm o papel principal na promoção interna.

O Alentejo investiu 350 mil euros na campanha "O Alentejo dá-lhe tudo" e que oferece voucher para incentivar os portugueses a visitar a região.

O Algarve tem "em preparação uma campanha de divulgação dos eventos da região, a anunciar em breve, além de novos materiais de observação de aves, percursos pedestres e de Turismo de Natureza".