in Lifestyle ao Minuto
A Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu recentemente o comportamento sexual compulsivo como um transtorno mental. O sinal de alarme surge quando o prazer desaparece e dá lugar à ansiedade.
Comportamento sexual compulsivo foi incluído como um distúrbio de saúde mental na lista da Classificação Internacional de Doenças (CID) da OMS. É definido como "um padrão persistente de falta de controlo sobre os desejos sexuais ou intensos e repetitivos impulsos sexuais que resultam num comportamento sexual repetitivo".
Ainda não foi considerado um transtorno ou um vício, e o polémico debate ainda está em aberto, como relata a publicação El País.
A verdade é que para o ser humano tudo o que gera prazer é suscetível de criar um comportamento compulsivo e viciante. Tal é comum com drogas, álcool, açúcar ou tabaco. O sexo também. Para todos, a tentação pode estar lá. Há pessoas mais sexuais do que outras, e ser mais ou menos capaz de controlar o impulso sexual é algo que preocupa a todos.
Todavia, onde o vício e o descontrolo começam?
Quando o prazer sexual não é mais o motor que o leva a repetir o comportamento, mas a evitar o desprazer. Quando não ‘consumir’ produz sofrimento intenso: ansiedade e angústia. Quando a sua vida começa a ser afetada porque a sua meta de consumo se torna uma prioridade.
Uma pessoa viciada em sexo pode tornar-se extremamente insistente com o parceiro ou masturbar-se com mais frequência. Dedica mais tempo ou dinheiro à pornografia todos os dias. Pode começar a negligenciar tarefas em casa e no trabalho, ou trancar-se numa divisão e deixar de brincar com os filhos ou jantar com a família. Chegar sempre atrasado ao trabalho ou assistir a pornografia no escritório. Pode gastar todo o dinheiro em prostituição e abandonar completamente as suas obrigações. Em suma uma pessoa viciada em sexo tem um comportamento profunda e perigosamente auto-destrutivo.
A patologia do foro íntimo afeta cerca de 6% da população ocidental e é mais frequente nos homens.
Parecem ser mais vulneráveis aqueles que já tiveram outros vícios, como o jogo ou drogas.
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18.3.19
15.1.19
Três em cada quatro portugueses têm dificuldade em compreender informações sobre saúde
Rita Marques Costa, in Público on-line
Situação piora com a idade. Ensinar os profissionais de saúde a comunicar com os doentes é fundamental. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas", diz investigadora.
Se comer toda a embalagem de gelado quantas calorias está a consumir? Se lhe for permitido consumir 60 gramas de hidratos de carbono numa sobremesa, que quantidade de gelado pode comer? Estas são duas das seis perguntas que, acompanhadas de um rótulo fictício de gelado, compõem o Newest Vital Sign (NVS), o teste utilizado pela médica Dagmara Paiva e outros cinco investigadores para avaliar o nível de literacia em saúde dos portugueses. Conclusão: estima-se que 73% da população portuguesa entre os 16 e os 79 anos não saiba responder correctamente a questões como estas e que, por isso, tenha dificuldade em aceder, compreender e utilizar informação sobre saúde.
A situação piora com a idade. E, como seria de esperar, quanto menor for o nível de escolaridade, menos competências. Dados: na população entre os 16 e os 44 anos, a proporção daqueles que mostram níveis de literacia inadequados oscila entre os 62% e os 65% (as estimativas têm um intervalo de confiança de 95%). Essa percentagem vai aumentando e, na faixa etária entre os 65 e 79 anos, corresponde a 94% da população. Quanto ao nível de escolaridade, entre os que têm menos do que o 4.º ano, 97,5% têm um nível de literacia em saúde inadequado. Já entre a população com pelo menos uma licenciatura completa essa proporção desce para 44,5%.
“Pessoas com mais de 64 anos têm 21% maior probabilidade de ter limitações do que quem tem menos de 25 anos”, detalha ainda o estudo publicado no final de 2017 na revista Acta Médica Portuguesa e que faz parte da tese de doutoramento que Dagmara Paiva apresentou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em Dezembro de 2018 (o foco principal da tese é a literacia nos cuidados aos doentes com diabetes tipo 2, mas a médica apresenta vários estudos de contexto). Já para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano. Não há diferenças de género.
Para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano.
Continue connosco. Temos muitos outros artigos para si
Esta metodologia não avalia directamente a forma como os pacientes compreendem as informações que lhes são dadas em contexto clínico. Mas Dagmara Paiva explica que pode dar algumas pistas. “A penúltima pergunta do NVS é: ‘Suponha que é alérgico à penicilina, amendoins, látex e picadas de abelha. É seguro para si comer esse gelado?’. Aí a pessoa tem de conseguir perceber que um dos ingredientes do gelado é o amendoim e que não pode [comê-lo] e porquê. Dá para ter uma ideia de como é que são essas competências de uma pessoa em particular.”
O pequeno questionário foi aplicado em 2012 no âmbito de um inquérito nacional que tinha como objectivo perceber o grau de conhecimento da população sobre problemas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e sobre comportamentos saudáveis. A amostra, representativa da população portuguesa, tinha 1624 pessoas. Entre os entrevistados, 79 não sabiam ler nem escrever, pelo que foram excluídos da análise. Sobram 1544 indivíduos na amostra final. Se a população que não sabe ler nem escrever fosse incluída nas estimativas nacionais então o nível de literacia inadequada em saúde seria ainda maior: 74,5%.
Portugal atrás de Espanha e da Holanda
A metodologia tem limitações. O NVS, explica-se no estudo, “foi desenhado para avaliar competências individuais de compreensão de leitura e cálculo, uma pequena parte do conceito de literacia em saúde”. Mesmo assim, não é por isso que os seus resultados são menos importantes. “A avaliação das habilidades numéricas dos pacientes pode ter um papel fundamental na melhoria do uso apropriado de medicamentos e na prevenção de erros de dosagem, alinhando-se aos objectivos do Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados.”
Além disso, outras mais-valias são o facto de já ter sido usado noutros contextos, correlacionar-se bem com instrumentos mais complexos, ser visto como algo “aceitável” pelos pacientes e permitir comparações internacionais.
Em 2011, o NVS já tinha sido aplicado noutros países, no âmbito do Inquérito Europeu de Literacia em Saúde. A Holanda, onde só 23,7% dos entrevistados revelaram ter literacia inadequada em saúde, teve a taxa de sucesso mais elevada. Por outro lado, Espanha, onde se estima que 63,1% da população tenha este tipo de limitações, foi o país com piores resultados na altura. “Dada a proximidade entre educação e a componente de numeracia na literacia para a saúde, os resultados [distintos entre países] podem ser explicados pelas diferenças na educação”, explica o estudo.
A prevalência da falta de literacia em saúde estimada no âmbito deste estudo é superior aos 49% que outro grupo de investigadores estimou em 2016. Dagmara Paiva e os restantes autores explicam esta diferença: com o NVS “a numeracia é analisada objectivamente e esta é uma competência crucial para lidar com as exigências complexas da doença crónica”. O trabalho de 2016 avaliava o grau de dificuldade do paciente em realizar tarefas associadas a cuidados de saúde. Mesmo assim, “são complementares”, diz Dagmara Paiva.
Ensinar os profissionais de saúde a comunicar
Uma coisa é certa: a literacia inadequada em saúde é um problema em Portugal. E se a longo prazo a forma de melhorá-la é através do investimento na educação dos cidadãos, no imediato, atenuar os seus efeitos pode passar por “melhorar as competências de comunicação dos profissionais de saúde”, defende Dagmara Paiva.
Outro dos trabalhos que integra a tese desta médica especialista em Medicina Geral e Familiar (são cinco no total) foca-se nos factores que facilitam e inibem a comunicação entre pacientes com diabetes tipo 2 e profissionais de saúde. E conclui que os doentes identificam a comunicação agressiva no consultório como uma “barreira à comunicação”, mas os profissionais encaram-na como um aspecto “facilitador” no sentido de apelar à mudança de comportamentos dos pacientes. O estudo baseia-se na entrevista a 33 utentes e a 12 profissionais de saúde.
“Não há nenhuma sociedade nem associação que dê recomendações para tratamento e gestão da diabetes tipo 2 que recomende comunicar de uma forma agressiva para assustar as pessoas. Todas as indicações são no sentido de usar técnicas de entrevista motivacional, ajudar os doentes a identificar as principais barreiras à mudança de comportamentos e, dentro do seu contexto de vida, tentar ajudá-los a decidir sobre as pequenas mudanças para melhorar a sua saúde”, nota Dagmara Paiva. Mesmo assim, “há muitos médicos” que utilizam a abordagem agressiva.
O problema está no ensino. “Na maioria das faculdades de medicina, o treino em comunicação ainda não faz parte do currículo [obrigatório]. É uma coisa que os próprios profissionais de saúde assumem que lhes faz falta”, nota a médica. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas”, aponta. “As políticas de saúde têm mesmo de começar a investir nisso a sério.”
Situação piora com a idade. Ensinar os profissionais de saúde a comunicar com os doentes é fundamental. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas", diz investigadora.
Se comer toda a embalagem de gelado quantas calorias está a consumir? Se lhe for permitido consumir 60 gramas de hidratos de carbono numa sobremesa, que quantidade de gelado pode comer? Estas são duas das seis perguntas que, acompanhadas de um rótulo fictício de gelado, compõem o Newest Vital Sign (NVS), o teste utilizado pela médica Dagmara Paiva e outros cinco investigadores para avaliar o nível de literacia em saúde dos portugueses. Conclusão: estima-se que 73% da população portuguesa entre os 16 e os 79 anos não saiba responder correctamente a questões como estas e que, por isso, tenha dificuldade em aceder, compreender e utilizar informação sobre saúde.
A situação piora com a idade. E, como seria de esperar, quanto menor for o nível de escolaridade, menos competências. Dados: na população entre os 16 e os 44 anos, a proporção daqueles que mostram níveis de literacia inadequados oscila entre os 62% e os 65% (as estimativas têm um intervalo de confiança de 95%). Essa percentagem vai aumentando e, na faixa etária entre os 65 e 79 anos, corresponde a 94% da população. Quanto ao nível de escolaridade, entre os que têm menos do que o 4.º ano, 97,5% têm um nível de literacia em saúde inadequado. Já entre a população com pelo menos uma licenciatura completa essa proporção desce para 44,5%.
“Pessoas com mais de 64 anos têm 21% maior probabilidade de ter limitações do que quem tem menos de 25 anos”, detalha ainda o estudo publicado no final de 2017 na revista Acta Médica Portuguesa e que faz parte da tese de doutoramento que Dagmara Paiva apresentou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em Dezembro de 2018 (o foco principal da tese é a literacia nos cuidados aos doentes com diabetes tipo 2, mas a médica apresenta vários estudos de contexto). Já para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano. Não há diferenças de género.
Para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano.
Continue connosco. Temos muitos outros artigos para si
Esta metodologia não avalia directamente a forma como os pacientes compreendem as informações que lhes são dadas em contexto clínico. Mas Dagmara Paiva explica que pode dar algumas pistas. “A penúltima pergunta do NVS é: ‘Suponha que é alérgico à penicilina, amendoins, látex e picadas de abelha. É seguro para si comer esse gelado?’. Aí a pessoa tem de conseguir perceber que um dos ingredientes do gelado é o amendoim e que não pode [comê-lo] e porquê. Dá para ter uma ideia de como é que são essas competências de uma pessoa em particular.”
O pequeno questionário foi aplicado em 2012 no âmbito de um inquérito nacional que tinha como objectivo perceber o grau de conhecimento da população sobre problemas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e sobre comportamentos saudáveis. A amostra, representativa da população portuguesa, tinha 1624 pessoas. Entre os entrevistados, 79 não sabiam ler nem escrever, pelo que foram excluídos da análise. Sobram 1544 indivíduos na amostra final. Se a população que não sabe ler nem escrever fosse incluída nas estimativas nacionais então o nível de literacia inadequada em saúde seria ainda maior: 74,5%.
Portugal atrás de Espanha e da Holanda
A metodologia tem limitações. O NVS, explica-se no estudo, “foi desenhado para avaliar competências individuais de compreensão de leitura e cálculo, uma pequena parte do conceito de literacia em saúde”. Mesmo assim, não é por isso que os seus resultados são menos importantes. “A avaliação das habilidades numéricas dos pacientes pode ter um papel fundamental na melhoria do uso apropriado de medicamentos e na prevenção de erros de dosagem, alinhando-se aos objectivos do Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados.”
Além disso, outras mais-valias são o facto de já ter sido usado noutros contextos, correlacionar-se bem com instrumentos mais complexos, ser visto como algo “aceitável” pelos pacientes e permitir comparações internacionais.
Em 2011, o NVS já tinha sido aplicado noutros países, no âmbito do Inquérito Europeu de Literacia em Saúde. A Holanda, onde só 23,7% dos entrevistados revelaram ter literacia inadequada em saúde, teve a taxa de sucesso mais elevada. Por outro lado, Espanha, onde se estima que 63,1% da população tenha este tipo de limitações, foi o país com piores resultados na altura. “Dada a proximidade entre educação e a componente de numeracia na literacia para a saúde, os resultados [distintos entre países] podem ser explicados pelas diferenças na educação”, explica o estudo.
A prevalência da falta de literacia em saúde estimada no âmbito deste estudo é superior aos 49% que outro grupo de investigadores estimou em 2016. Dagmara Paiva e os restantes autores explicam esta diferença: com o NVS “a numeracia é analisada objectivamente e esta é uma competência crucial para lidar com as exigências complexas da doença crónica”. O trabalho de 2016 avaliava o grau de dificuldade do paciente em realizar tarefas associadas a cuidados de saúde. Mesmo assim, “são complementares”, diz Dagmara Paiva.
Ensinar os profissionais de saúde a comunicar
Uma coisa é certa: a literacia inadequada em saúde é um problema em Portugal. E se a longo prazo a forma de melhorá-la é através do investimento na educação dos cidadãos, no imediato, atenuar os seus efeitos pode passar por “melhorar as competências de comunicação dos profissionais de saúde”, defende Dagmara Paiva.
Outro dos trabalhos que integra a tese desta médica especialista em Medicina Geral e Familiar (são cinco no total) foca-se nos factores que facilitam e inibem a comunicação entre pacientes com diabetes tipo 2 e profissionais de saúde. E conclui que os doentes identificam a comunicação agressiva no consultório como uma “barreira à comunicação”, mas os profissionais encaram-na como um aspecto “facilitador” no sentido de apelar à mudança de comportamentos dos pacientes. O estudo baseia-se na entrevista a 33 utentes e a 12 profissionais de saúde.
“Não há nenhuma sociedade nem associação que dê recomendações para tratamento e gestão da diabetes tipo 2 que recomende comunicar de uma forma agressiva para assustar as pessoas. Todas as indicações são no sentido de usar técnicas de entrevista motivacional, ajudar os doentes a identificar as principais barreiras à mudança de comportamentos e, dentro do seu contexto de vida, tentar ajudá-los a decidir sobre as pequenas mudanças para melhorar a sua saúde”, nota Dagmara Paiva. Mesmo assim, “há muitos médicos” que utilizam a abordagem agressiva.
O problema está no ensino. “Na maioria das faculdades de medicina, o treino em comunicação ainda não faz parte do currículo [obrigatório]. É uma coisa que os próprios profissionais de saúde assumem que lhes faz falta”, nota a médica. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas”, aponta. “As políticas de saúde têm mesmo de começar a investir nisso a sério.”
Abuso psicológico pode afectar um quinto dos idosos. Os mais pobres, sós, doentes
Margarida David Cardoso, in Público on-line
Idosos que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sozinhos revelam-se mais vulneráveis. As mulheres são as principais vítimas, identificou um estudo da Universidade do Porto.
Na velhice, a violência tende a coexistir com a debilidade socioeconómica e de saúde das vítimas. Como em qualquer idade, a afectar os mais dependentes. Um estudo da Universidade do Porto aponta para uma prevalência de 20% de abuso psicológico entre os mais velhos. Aqueles que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sós relevam-se mais vulneráveis. E as mulheres são as principais vítimas.
Estas conclusões têm por base as respostas de 677 pessoas com 60 ou mais anos residentes no Porto a um extenso questionário e as entrevistas mais aprofundadas feitas a 45 delas por uma equipa de investigadores do Instituto de Sociologia (ISUP) e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), no âmbito do projecto HARMED: o abuso de idosos: determinantes sociais, económicas e de saúde. Estas são as primeiras conclusões.
O abuso psicológico é o mais prevalente – um quinto (19,9%) dos inquiridos declarou ser alvo – e é o motivo por que a socióloga Isabel Dias, investigadora responsável, fala na necessidade de melhorar a detecção destes abusos, mais vísiveis mas quase sempre silenciosos, mas “tão incapacitantes como a violência física”. São insultos, maus tratos verbais, humilhações, situações de isolamento forçado e privação de direitos de gestão da própria vida.
As vítimas são principalmente as mulheres (22,7% das entrevistadas). A ausência de redes familiares e de conforto financeiro tende a agravar a exposição a abusos psicológicos: reconhecem-se como vítimas 23,8% dos inquiridos na casa dos 70 anos, 20,8% dos que vivem sozinhos, 23,8% dos que consideram o seu rendimento insuficiente ou muito insuficiente.
“Considerando a experiência de abuso, de qualquer tipo, são as vítimas de abuso psicológico que apresentam os menores níveis de suporte social (62,7%) e maior ocorrência de sintomas depressivos”, aponta a socióloga Isabel Dias. Também são mais negativas na avaliação do seu estado de saúde geral e tendem a manter-se longe dos serviços de saúde, mesmo quando precisam deles. Genericamente têm uma menor expectativa de vir a ser felizes.
Para António Fonseca, professor na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, a principal questão é a dependência. “A pessoa idosa só por si não é necessariamente mais vulnerável. Estar dependente de outros, em qualquer idade, limita a reacção, a queixa, fragiliza-a imediatamente.”
Compreende-se, por isso, o peso que assume a segurança alimentar (determinada neste estudo, por exemplo, pelo número de refeições que a pessoa faz e o motivo por que deixa de comer). Uma percentagem esmagadora – 72,7% – dos que declararam ter muitas dificuldades em colocar comida na mesa viam-se também vítimas de violência psicológica.
Os mais escolarizados estão igualmente expostos: 22,8% das vítimas de abuso psicológico inquiridas completou o ensino secundário. Este dado deve ser lido com cautela, frisa Isabel Dias. Pode ser produto das escolhas metodológicas ou da capacidade de se reconhecer como vítima. “Percebemos que o abuso psicológico é transversal. Mas idosos mais escolarizados têm condições para melhor reconhecer o que é ou não abuso psicológico”, acautela a socióloga.
“Temos muita dificuldade que as pessoas falem”, torna António Fonseca. “O berrar, o dar ordens, o não retirar de casa: há uma série de comportamentos que uma pessoa com algum grau de incapacidade, fragilizada encara como natural. O que não se distancia muito das situações de abuso ou mau trato no namoro ou [relações] conjugais.”
À violência psicológica segue-se o abuso financeiro (5,8%) – apropriação indevida de bens e propriedades, por exemplo –, o abuso físico (2,5%) e sexual (1,9 %). Em geral, o perfil dos mais vulneráveis repete-se. À excepção do abuso físico, que o estudo mostrou ser mais prevalente entre os idosos pouco escolarizados.
As redes sociofamiliares e a inserção na comunidade são vistas como factores protectores do abuso. Quem vive sozinho – cerca de 407 mil pessoas com mais de 65 anos em 2011; hoje serão muito mais – tende a estar mais exposto nos vários contextos. É comum que a vítima identifique alguém próximo como agressor – um cônjuge ou companheiro (32,6%), filhos (22,9%), irmãos (14,1%), vizinhos (14,1%) –, mas os abusos e situações de neglicência acontecem também em contexto de cuidados informais e em instituições.
“A vigilância, o controlo, a repressão sobre os idosos, frequentemente em contexto institucional, poderá também ser considerado mau trato”, aponta António Fonseca. A ausência de estímulo, de cuidado, de contacto pode deprimir as vítimas. “O contexto que não as ajuda a expressar-se, dificulta a própria reclamação do que está a acontecer.” Há o medo de que a queixa piore a situação. Muitas vezes também não há outra alternativa de cuidados.
"Conseguir dar o salto é um passo extremamente doloroso, para além da dificuldade em chegar às instâncias oficiais", nota Teresa Morais, procuradora do Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto, que coordena uma secção dedicada à investigação dos crimes de violência doméstica e maus tratos. Quando o faz, "depois dos obstáculos interiores que teve que ultrapassar, depara-se com um muro", aponta. "Afasta-se o cuidador agressor e a alternativa é a institucionalização, a desenraização do idoso? O sistema não lhe responde."
Há um novo indicador de violência contra as mulheres e Portugal não está tão mal
“Temos que ser muito mais vigilantes no modo como as institucionais e as famílias cuidam das pessoas”, alerta António Fonseca.
Os abusos, principalmente psicológicos, tendem a ser contínuos.
Podem, por isso, agravar os factores considerados de risco e gerar novos, nota Isabel Dias. “Estes dados evidenciam a necessidade de colocar no centro das agendas das políticas sociais e de saúde a problemática dos abusos a idosos, tendo em conta a acumulação de vantagens de natureza socioeconómica, ligadas à condição de saúde e à vulnerabilidade de género [ver texto ao lado].”
Os investigadores estão agora a aprofundar estas questões. Procuram compreender o impacto do contexto de crise socioeconómica dos últimos anos, 2008 a 2014 sobretudo, no agravamento dos factores de exposição e vulnerabilidade de pessoas idosas a abusos. E estabelecer relações de casualidade entre eles.
Os centros de dia atraem cada vez menos idosos, mas os lares estão cheios
O projecto de três anos, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, termina no final do ano. Participam as investigadoras Alexandra Lopes e Rute Lemos, do ISUP, e Diogo Costa e Sílvia Fraga, do ISPUP.
A amostra com que trabalham tem origem na base EPIPorto, uma coorte populacional do ISPUP, que acompanha 2485 maiores de idade residentes no Porto, desde 1999. Desde então esta tem sido avaliada. O projecto integra a terceira reavaliação desta população, feita em 2017 e 2018.
Idosos que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sozinhos revelam-se mais vulneráveis. As mulheres são as principais vítimas, identificou um estudo da Universidade do Porto.
Na velhice, a violência tende a coexistir com a debilidade socioeconómica e de saúde das vítimas. Como em qualquer idade, a afectar os mais dependentes. Um estudo da Universidade do Porto aponta para uma prevalência de 20% de abuso psicológico entre os mais velhos. Aqueles que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sós relevam-se mais vulneráveis. E as mulheres são as principais vítimas.
Estas conclusões têm por base as respostas de 677 pessoas com 60 ou mais anos residentes no Porto a um extenso questionário e as entrevistas mais aprofundadas feitas a 45 delas por uma equipa de investigadores do Instituto de Sociologia (ISUP) e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), no âmbito do projecto HARMED: o abuso de idosos: determinantes sociais, económicas e de saúde. Estas são as primeiras conclusões.
O abuso psicológico é o mais prevalente – um quinto (19,9%) dos inquiridos declarou ser alvo – e é o motivo por que a socióloga Isabel Dias, investigadora responsável, fala na necessidade de melhorar a detecção destes abusos, mais vísiveis mas quase sempre silenciosos, mas “tão incapacitantes como a violência física”. São insultos, maus tratos verbais, humilhações, situações de isolamento forçado e privação de direitos de gestão da própria vida.
As vítimas são principalmente as mulheres (22,7% das entrevistadas). A ausência de redes familiares e de conforto financeiro tende a agravar a exposição a abusos psicológicos: reconhecem-se como vítimas 23,8% dos inquiridos na casa dos 70 anos, 20,8% dos que vivem sozinhos, 23,8% dos que consideram o seu rendimento insuficiente ou muito insuficiente.
“Considerando a experiência de abuso, de qualquer tipo, são as vítimas de abuso psicológico que apresentam os menores níveis de suporte social (62,7%) e maior ocorrência de sintomas depressivos”, aponta a socióloga Isabel Dias. Também são mais negativas na avaliação do seu estado de saúde geral e tendem a manter-se longe dos serviços de saúde, mesmo quando precisam deles. Genericamente têm uma menor expectativa de vir a ser felizes.
Para António Fonseca, professor na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, a principal questão é a dependência. “A pessoa idosa só por si não é necessariamente mais vulnerável. Estar dependente de outros, em qualquer idade, limita a reacção, a queixa, fragiliza-a imediatamente.”
Compreende-se, por isso, o peso que assume a segurança alimentar (determinada neste estudo, por exemplo, pelo número de refeições que a pessoa faz e o motivo por que deixa de comer). Uma percentagem esmagadora – 72,7% – dos que declararam ter muitas dificuldades em colocar comida na mesa viam-se também vítimas de violência psicológica.
Os mais escolarizados estão igualmente expostos: 22,8% das vítimas de abuso psicológico inquiridas completou o ensino secundário. Este dado deve ser lido com cautela, frisa Isabel Dias. Pode ser produto das escolhas metodológicas ou da capacidade de se reconhecer como vítima. “Percebemos que o abuso psicológico é transversal. Mas idosos mais escolarizados têm condições para melhor reconhecer o que é ou não abuso psicológico”, acautela a socióloga.
“Temos muita dificuldade que as pessoas falem”, torna António Fonseca. “O berrar, o dar ordens, o não retirar de casa: há uma série de comportamentos que uma pessoa com algum grau de incapacidade, fragilizada encara como natural. O que não se distancia muito das situações de abuso ou mau trato no namoro ou [relações] conjugais.”
À violência psicológica segue-se o abuso financeiro (5,8%) – apropriação indevida de bens e propriedades, por exemplo –, o abuso físico (2,5%) e sexual (1,9 %). Em geral, o perfil dos mais vulneráveis repete-se. À excepção do abuso físico, que o estudo mostrou ser mais prevalente entre os idosos pouco escolarizados.
As redes sociofamiliares e a inserção na comunidade são vistas como factores protectores do abuso. Quem vive sozinho – cerca de 407 mil pessoas com mais de 65 anos em 2011; hoje serão muito mais – tende a estar mais exposto nos vários contextos. É comum que a vítima identifique alguém próximo como agressor – um cônjuge ou companheiro (32,6%), filhos (22,9%), irmãos (14,1%), vizinhos (14,1%) –, mas os abusos e situações de neglicência acontecem também em contexto de cuidados informais e em instituições.
“A vigilância, o controlo, a repressão sobre os idosos, frequentemente em contexto institucional, poderá também ser considerado mau trato”, aponta António Fonseca. A ausência de estímulo, de cuidado, de contacto pode deprimir as vítimas. “O contexto que não as ajuda a expressar-se, dificulta a própria reclamação do que está a acontecer.” Há o medo de que a queixa piore a situação. Muitas vezes também não há outra alternativa de cuidados.
"Conseguir dar o salto é um passo extremamente doloroso, para além da dificuldade em chegar às instâncias oficiais", nota Teresa Morais, procuradora do Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto, que coordena uma secção dedicada à investigação dos crimes de violência doméstica e maus tratos. Quando o faz, "depois dos obstáculos interiores que teve que ultrapassar, depara-se com um muro", aponta. "Afasta-se o cuidador agressor e a alternativa é a institucionalização, a desenraização do idoso? O sistema não lhe responde."
Há um novo indicador de violência contra as mulheres e Portugal não está tão mal
“Temos que ser muito mais vigilantes no modo como as institucionais e as famílias cuidam das pessoas”, alerta António Fonseca.
Os abusos, principalmente psicológicos, tendem a ser contínuos.
Podem, por isso, agravar os factores considerados de risco e gerar novos, nota Isabel Dias. “Estes dados evidenciam a necessidade de colocar no centro das agendas das políticas sociais e de saúde a problemática dos abusos a idosos, tendo em conta a acumulação de vantagens de natureza socioeconómica, ligadas à condição de saúde e à vulnerabilidade de género [ver texto ao lado].”
Os investigadores estão agora a aprofundar estas questões. Procuram compreender o impacto do contexto de crise socioeconómica dos últimos anos, 2008 a 2014 sobretudo, no agravamento dos factores de exposição e vulnerabilidade de pessoas idosas a abusos. E estabelecer relações de casualidade entre eles.
Os centros de dia atraem cada vez menos idosos, mas os lares estão cheios
O projecto de três anos, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, termina no final do ano. Participam as investigadoras Alexandra Lopes e Rute Lemos, do ISUP, e Diogo Costa e Sílvia Fraga, do ISPUP.
A amostra com que trabalham tem origem na base EPIPorto, uma coorte populacional do ISPUP, que acompanha 2485 maiores de idade residentes no Porto, desde 1999. Desde então esta tem sido avaliada. O projecto integra a terceira reavaliação desta população, feita em 2017 e 2018.
Uma casa no Porto onde a dor das crianças se alivia em família
Daniela Carmo, in Público on-line
Ainda no perímetro do Hospital São João, a casa Ronald McDonald acolhe famílias de crianças internadas que, com carinho, cama e roupa lavada minimizam o impacto que a doença tem nas suas vidas e rotinas
“Uma criança doente é uma família doente”. E no perímetro do hospital de São João há uma casa, e voluntários, dispostos a minimizar a angústia e o desconforto de quem tem um filho em tratamentos. Aberta há cinco anos, pela Casa Ronald McDonald do Porto já passaram mais de 500 famílias, que ali encontram bem mais do que cama e roupa lavada, garante a gestora do espaço, Isabel Aragão.
Quando uma doença ou acidente apanha uma criança, toda a família sai lesada. Por isso, o acolhimento gratuito às famílias que se vêem muitas vezes obrigadas a ter que percorrer vários quilómetros para que os seus filhos possam receber tratamento é essencial. Este é um dos objectivos que norteiam a actuação das casas Ronald McDonald, espalhadas por todo o mundo. Na do Porto, percebe-se rapidamente quando vemos os pequenos chegar, acompanhados pela mãe, a uma casa que já é deles.
Tuzolana está em tratamento no Hospital São João, onde nasceu há três anos. Há sete meses, foi recebida na casa juntamente com a mãe, Helena Bemba, e o irmão mais velho, Kihami. Vêm de Luanda, em Angola. “Esta menina, quando chegou cá, não falava e agora já está toda à vontade”, comentava Isabel. de facto, estamos junto ao hospital, mas o espírito que se respira em nada lembra hospitais: é uma casa como todas as outras - com quartos, cozinha, sala de jantar e de estar, lavandaria e muitos brinquedos, ou não fosse esta uma casa para as crianças e as suas famílias.
Manter rotinas, se possível
A intenção é, igualmente, que as famílias prossigam as suas vidas, e Helena conta que, de facto, “é como se estivesse em casa”. “Vou levar os meninos para o infantário, volto, arrumo uma ou outra coisa, faço a comida, lavo, passo. Mantenho a minha rotina”, assegura.
Há três anos, a história de Helena e dos seus dois filhos foi diferente. Na altura do nascimento da mais nova, a mãe ainda tinha condições para pagar um apartamento e, por isso, não precisou de recorrer à ajuda da casa, apesar de já saber da sua existência. Hoje, e com os preços do alojamento no Porto a disparar, se não fosse aquela instituição, não sabe como seria. “Sem esta casa não viria para o Porto, ou seja, a Tuzolana seria operada e seríamos obrigadas a regressar sem dar continuidade ao tratamento porque eu não tenho capacidades para alugar um sítio para ficar”, explicou.
Essa é a realidade de inúmeras famílias que, além de não conseguirem pagar um quarto, muitas vezes nem conhecem a cidade para onde vão. Com o intuito de contornar essa realidade, à chegada, recebem um guia com informação útil sobre a zona.
A verdade é que ali se deixa de lado a simples prestação de serviços e se entra num outro campo: o do coração. “No aspecto emocional não tenho adjectivos para descrever esta casa. Os funcionários são muito acolhedores tanto para os momentos bons como para os menos bons. Estão lá para dar um colo, um abraço, uma palavra de encorajamento e isso não há valor que pague”, explica Helena, acrescentando que a filha até já chama tio João a um dos funcionários.
Ana Rita Costa tem 22 anos, estuda Medicina e, além disso, é voluntária num lugar que, também para ela, acaba por ser “uma segunda casa”, diz. É o seu segundo ano de voluntariado aqui, e desde que começou “nunca mais quis parar”. “Sempre que estou com estas crianças aprendo com elas. Há coisas que marcam e a força destas crianças, que são autênticos heróis e heroínas, é uma delas”, lembra já enternecida. Tendo em conta que virá a ser uma profissional na área da saúde, a voluntária garante que a experiência na casa a sensibilizou para o impacto que a doença de um filho tem na família”.
Como é ser médico humanitário em zonas de conflito?
Maria da Conceição veio de Esmoriz, em Aveiro, para que o filho de 15 anos pudesse receber tratamento. A casa Ronald McDonald é o seu tecto desde Março. Aqui recebeu o apoio de que precisava para continuar a lutar pelo futuro do Simão. “Ao conviver com as outras famílias, esqueço um bocadinho o meu problema, foi uma bênção que me apareceu”, confirma. Segundo a própria, neste momento a sua casa é esta. “Tem que ser esta, a outra está lá em Esmoriz e eu tenho que estar aqui com o Simão”, remata.
Segundo a gestora da casa, os “voluntários e os utentes tornam-se numa família.” “As mães que vêm sozinhas encontram aqui uma família para as acolher, acho que o conceito da casa está aí bem patente. A nossa grande preocupação não é só com as crianças que estão doentes, mas sim estarmos centrados na família como um todo”.
Fazer sentir em casa todas as famílias que por ali passam, acarinhar e garantir que continuam sãs para conseguirem ultrapassar uma das fases mais complicadas de gerir nas suas vidas é um dos pontos-chave da Fundação. Nesse sentido, todos os anos, em Setembro, fazem recrutamento e, consoante os interesses de cada voluntário, direccionam a sua actuação na casa.
Os voluntários que estudam ou trabalham em Psicologia acabam por prestar esse tipo de serviços às famílias, assim como alguém da área da Fisioterapia poderá fazer massagens, como estava a acontecer no dia em que fomos conhecer a casa. “É uma questão de vontade”, explica Isabel. Vontade de querer fazer tudo o que for possível com o simples intuito de ajudar o próximo, seja só a “brincar, a fazer um desenho, a jogar um jogo ou a ler uma história”, como refere a voluntária Ana Rita Costa.
Com o objectivo de angariar fundos, as casas Ronald McDonald têm um catálogo de “presentes solidários únicos e cheios de significado”: a Maria e o Pedro que são as “mascotes” da fundação. “São o presente ideal para quem ainda não sabe o que oferecer este Natal”, sustenta Isabel Aragão. Os produtos podem ser adquiridos em qualquer casa Ronald McDonald ou no site da fundação.
Os artigos são feitos de uma forma artesanal e usam a reutilização de tecidos 100% portugueses. A Maria e Pedro representam muitas das crianças que passam pela casa, porque, segundo Isabel Aragão “há muitas Marias e muitos Pedros em Portugal”.
O catálogo solidário inclui ainda marcadores de livros, porta-chaves, fitas para chaves, lápis, porta-moedas ou estojos alusivos às duas personagens. Além disso, este ano foram desenvolvidos calendários e agendas em parceria com a Sonae, em que parte do valor reverte a favor da associação. Estes produtos podem ser encontrados também nas casas Ronald, no site e nas lojas note it, apesar de estarem esgotadas e não se saber quando voltarão a estar disponíveis.
O voluntariado ou o donativo são outras formas de ajudar a Fundação Ronald McDonald.
Na Casa do Porto estão disponíveis 12 quartos. Por norma, estão sempre ocupados, num entra e sai movido pela melhoria das crianças (doentes), assim mesmo entre parênteses, porque, como diz Isabel Aragão, “antes de serem crianças doentes, são crianças”.
Texto editado por Abel Coentrão
Ainda no perímetro do Hospital São João, a casa Ronald McDonald acolhe famílias de crianças internadas que, com carinho, cama e roupa lavada minimizam o impacto que a doença tem nas suas vidas e rotinas
“Uma criança doente é uma família doente”. E no perímetro do hospital de São João há uma casa, e voluntários, dispostos a minimizar a angústia e o desconforto de quem tem um filho em tratamentos. Aberta há cinco anos, pela Casa Ronald McDonald do Porto já passaram mais de 500 famílias, que ali encontram bem mais do que cama e roupa lavada, garante a gestora do espaço, Isabel Aragão.
Quando uma doença ou acidente apanha uma criança, toda a família sai lesada. Por isso, o acolhimento gratuito às famílias que se vêem muitas vezes obrigadas a ter que percorrer vários quilómetros para que os seus filhos possam receber tratamento é essencial. Este é um dos objectivos que norteiam a actuação das casas Ronald McDonald, espalhadas por todo o mundo. Na do Porto, percebe-se rapidamente quando vemos os pequenos chegar, acompanhados pela mãe, a uma casa que já é deles.
Tuzolana está em tratamento no Hospital São João, onde nasceu há três anos. Há sete meses, foi recebida na casa juntamente com a mãe, Helena Bemba, e o irmão mais velho, Kihami. Vêm de Luanda, em Angola. “Esta menina, quando chegou cá, não falava e agora já está toda à vontade”, comentava Isabel. de facto, estamos junto ao hospital, mas o espírito que se respira em nada lembra hospitais: é uma casa como todas as outras - com quartos, cozinha, sala de jantar e de estar, lavandaria e muitos brinquedos, ou não fosse esta uma casa para as crianças e as suas famílias.
Manter rotinas, se possível
A intenção é, igualmente, que as famílias prossigam as suas vidas, e Helena conta que, de facto, “é como se estivesse em casa”. “Vou levar os meninos para o infantário, volto, arrumo uma ou outra coisa, faço a comida, lavo, passo. Mantenho a minha rotina”, assegura.
Há três anos, a história de Helena e dos seus dois filhos foi diferente. Na altura do nascimento da mais nova, a mãe ainda tinha condições para pagar um apartamento e, por isso, não precisou de recorrer à ajuda da casa, apesar de já saber da sua existência. Hoje, e com os preços do alojamento no Porto a disparar, se não fosse aquela instituição, não sabe como seria. “Sem esta casa não viria para o Porto, ou seja, a Tuzolana seria operada e seríamos obrigadas a regressar sem dar continuidade ao tratamento porque eu não tenho capacidades para alugar um sítio para ficar”, explicou.
Essa é a realidade de inúmeras famílias que, além de não conseguirem pagar um quarto, muitas vezes nem conhecem a cidade para onde vão. Com o intuito de contornar essa realidade, à chegada, recebem um guia com informação útil sobre a zona.
A verdade é que ali se deixa de lado a simples prestação de serviços e se entra num outro campo: o do coração. “No aspecto emocional não tenho adjectivos para descrever esta casa. Os funcionários são muito acolhedores tanto para os momentos bons como para os menos bons. Estão lá para dar um colo, um abraço, uma palavra de encorajamento e isso não há valor que pague”, explica Helena, acrescentando que a filha até já chama tio João a um dos funcionários.
Ana Rita Costa tem 22 anos, estuda Medicina e, além disso, é voluntária num lugar que, também para ela, acaba por ser “uma segunda casa”, diz. É o seu segundo ano de voluntariado aqui, e desde que começou “nunca mais quis parar”. “Sempre que estou com estas crianças aprendo com elas. Há coisas que marcam e a força destas crianças, que são autênticos heróis e heroínas, é uma delas”, lembra já enternecida. Tendo em conta que virá a ser uma profissional na área da saúde, a voluntária garante que a experiência na casa a sensibilizou para o impacto que a doença de um filho tem na família”.
Como é ser médico humanitário em zonas de conflito?
Maria da Conceição veio de Esmoriz, em Aveiro, para que o filho de 15 anos pudesse receber tratamento. A casa Ronald McDonald é o seu tecto desde Março. Aqui recebeu o apoio de que precisava para continuar a lutar pelo futuro do Simão. “Ao conviver com as outras famílias, esqueço um bocadinho o meu problema, foi uma bênção que me apareceu”, confirma. Segundo a própria, neste momento a sua casa é esta. “Tem que ser esta, a outra está lá em Esmoriz e eu tenho que estar aqui com o Simão”, remata.
Segundo a gestora da casa, os “voluntários e os utentes tornam-se numa família.” “As mães que vêm sozinhas encontram aqui uma família para as acolher, acho que o conceito da casa está aí bem patente. A nossa grande preocupação não é só com as crianças que estão doentes, mas sim estarmos centrados na família como um todo”.
Fazer sentir em casa todas as famílias que por ali passam, acarinhar e garantir que continuam sãs para conseguirem ultrapassar uma das fases mais complicadas de gerir nas suas vidas é um dos pontos-chave da Fundação. Nesse sentido, todos os anos, em Setembro, fazem recrutamento e, consoante os interesses de cada voluntário, direccionam a sua actuação na casa.
Os voluntários que estudam ou trabalham em Psicologia acabam por prestar esse tipo de serviços às famílias, assim como alguém da área da Fisioterapia poderá fazer massagens, como estava a acontecer no dia em que fomos conhecer a casa. “É uma questão de vontade”, explica Isabel. Vontade de querer fazer tudo o que for possível com o simples intuito de ajudar o próximo, seja só a “brincar, a fazer um desenho, a jogar um jogo ou a ler uma história”, como refere a voluntária Ana Rita Costa.
Com o objectivo de angariar fundos, as casas Ronald McDonald têm um catálogo de “presentes solidários únicos e cheios de significado”: a Maria e o Pedro que são as “mascotes” da fundação. “São o presente ideal para quem ainda não sabe o que oferecer este Natal”, sustenta Isabel Aragão. Os produtos podem ser adquiridos em qualquer casa Ronald McDonald ou no site da fundação.
Os artigos são feitos de uma forma artesanal e usam a reutilização de tecidos 100% portugueses. A Maria e Pedro representam muitas das crianças que passam pela casa, porque, segundo Isabel Aragão “há muitas Marias e muitos Pedros em Portugal”.
O catálogo solidário inclui ainda marcadores de livros, porta-chaves, fitas para chaves, lápis, porta-moedas ou estojos alusivos às duas personagens. Além disso, este ano foram desenvolvidos calendários e agendas em parceria com a Sonae, em que parte do valor reverte a favor da associação. Estes produtos podem ser encontrados também nas casas Ronald, no site e nas lojas note it, apesar de estarem esgotadas e não se saber quando voltarão a estar disponíveis.
O voluntariado ou o donativo são outras formas de ajudar a Fundação Ronald McDonald.
Na Casa do Porto estão disponíveis 12 quartos. Por norma, estão sempre ocupados, num entra e sai movido pela melhoria das crianças (doentes), assim mesmo entre parênteses, porque, como diz Isabel Aragão, “antes de serem crianças doentes, são crianças”.
Texto editado por Abel Coentrão
14.1.19
Três em cada quatro portugueses têm dificuldade em compreender informações sobre saúde
Rita Marques Costa, in Público on-line
Situação piora com a idade. Ensinar os profissionais de saúde a comunicar com os doentes é fundamental. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas", diz investigadora.
Se comer toda a embalagem de gelado quantas calorias está a consumir? Se lhe for permitido consumir 60 gramas de hidratos de carbono numa sobremesa, que quantidade de gelado pode comer? Estas são duas das seis perguntas que, acompanhadas de um rótulo fictício de gelado, compõem o Newest Vital Sign (NVS), o teste utilizado pela médica Dagmara Paiva e outros cinco investigadores para avaliar o nível de literacia em saúde dos portugueses. Conclusão: estima-se que 73% da população portuguesa entre os 16 e os 79 anos não saiba responder correctamente a questões como estas e que, por isso, tenha dificuldade em aceder, compreender e utilizar informação sobre saúde.
A situação piora com a idade. E, como seria de esperar, quanto menor for o nível de escolaridade, menos competências. Dados: na população entre os 16 e os 44 anos, a proporção daqueles que mostram níveis de literacia inadequados oscila entre os 62% e os 65% (as estimativas têm um intervalo de confiança de 95%). Essa percentagem vai aumentando e, na faixa etária entre os 65 e 79 anos, corresponde a 94% da população. Quanto ao nível de escolaridade, entre os que têm menos do que o 4.º ano, 97,5% têm um nível de literacia em saúde inadequado. Já entre a população com pelo menos uma licenciatura completa essa proporção desce para 44,5%.
“Pessoas com mais de 64 anos têm 21% maior probabilidade de ter limitações do que quem tem menos de 25 anos”, detalha ainda o estudo publicado no final de 2017 na revista Acta Médica Portuguesa e que faz parte da tese de doutoramento que Dagmara Paiva apresentou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em Dezembro de 2018 (o foco principal da tese é a literacia nos cuidados aos doentes com diabetes tipo 2, mas a médica apresenta vários estudos de contexto). Já para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano. Não há diferenças de género.
Esta metodologia não avalia directamente a forma como os pacientes compreendem as informações que lhes são dadas em contexto clínico. Mas Dagmara Paiva explica que pode dar algumas pistas. “A penúltima pergunta do NVS é: ‘Suponha que é alérgico à penicilina, amendoins, látex e picadas de abelha. É seguro para si comer esse gelado?’. Aí a pessoa tem de conseguir perceber que um dos ingredientes do gelado é o amendoim e que não pode [comê-lo] e porquê. Dá para ter uma ideia de como é que são essas competências de uma pessoa em particular.”
O pequeno questionário foi aplicado em 2012 no âmbito de um inquérito nacional que tinha como objectivo perceber o grau de conhecimento da população sobre problemas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e sobre comportamentos saudáveis. A amostra, representativa da população portuguesa, tinha 1624 pessoas. Entre os entrevistados, 79 não sabiam ler nem escrever, pelo que foram excluídos da análise. Sobram 1544 indivíduos na amostra final. Se a população que não sabe ler nem escrever fosse incluída nas estimativas nacionais então o nível de literacia inadequada em saúde seria ainda maior: 74,5%.
Portugal atrás de Espanha e da Holanda
A metodologia tem limitações. O NVS, explica-se no estudo, “foi desenhado para avaliar competências individuais de compreensão de leitura e cálculo, uma pequena parte do conceito de literacia em saúde”. Mesmo assim, não é por isso que os seus resultados são menos importantes. “A avaliação das habilidades numéricas dos pacientes pode ter um papel fundamental na melhoria do uso apropriado de medicamentos e na prevenção de erros de dosagem, alinhando-se aos objectivos do Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados.”
Além disso, outras mais-valias são o facto de já ter sido usado noutros contextos, correlacionar-se bem com instrumentos mais complexos, ser visto como algo “aceitável” pelos pacientes e permitir comparações internacionais.
Em 2011, o NVS já tinha sido aplicado noutros países, no âmbito do Inquérito Europeu de Literacia em Saúde. A Holanda, onde só 23,7% dos entrevistados revelaram ter literacia inadequada em saúde, teve a taxa de sucesso mais elevada. Por outro lado, Espanha, onde se estima que 63,1% da população tenha este tipo de limitações, foi o país com piores resultados na altura. “Dada a proximidade entre educação e a componente de numeracia na literacia para a saúde, os resultados [distintos entre países] podem ser explicados pelas diferenças na educação”, explica o estudo.
A prevalência da falta de literacia em saúde estimada no âmbito deste estudo é superior aos 49% que outro grupo de investigadores estimou em 2016. Dagmara Paiva e os restantes autores explicam esta diferença: com o NVS “a numeracia é analisada objectivamente e esta é uma competência crucial para lidar com as exigências complexas da doença crónica”. O trabalho de 2016 avaliava o grau de dificuldade do paciente em realizar tarefas associadas a cuidados de saúde. Mesmo assim, “são complementares”, diz Dagmara Paiva.
Ensinar os profissionais de saúde a comunicar
Uma coisa é certa: a literacia inadequada em saúde é um problema em Portugal. E se a longo prazo a forma de melhorá-la é através do investimento na educação dos cidadãos, no imediato, atenuar os seus efeitos pode passar por “melhorar as competências de comunicação dos profissionais de saúde”, defende Dagmara Paiva.
Outro dos trabalhos que integra a tese desta médica especialista em Medicina Geral e Familiar (são cinco no total) foca-se nos factores que facilitam e inibem a comunicação entre pacientes com diabetes tipo 2 e profissionais de saúde. E conclui que os doentes identificam a comunicação agressiva no consultório como uma “barreira à comunicação”, mas os profissionais encaram-na como um aspecto “facilitador” no sentido de apelar à mudança de comportamentos dos pacientes. O estudo baseia-se na entrevista a 33 utentes e a 12 profissionais de saúde.
“Não há nenhuma sociedade nem associação que dê recomendações para tratamento e gestão da diabetes tipo 2 que recomende comunicar de uma forma agressiva para assustar as pessoas. Todas as indicações são no sentido de usar técnicas de entrevista motivacional, ajudar os doentes a identificar as principais barreiras à mudança de comportamentos e, dentro do seu contexto de vida, tentar ajudá-los a decidir sobre as pequenas mudanças para melhorar a sua saúde”, nota Dagmara Paiva. Mesmo assim, “há muitos médicos” que utilizam a abordagem agressiva.
O problema está no ensino. “Na maioria das faculdades de medicina, o treino em comunicação ainda não faz parte do currículo [obrigatório]. É uma coisa que os próprios profissionais de saúde assumem que lhes faz falta”, nota a médica. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas”, aponta. “As políticas de saúde têm mesmo de começar a investir nisso a sério.”
Situação piora com a idade. Ensinar os profissionais de saúde a comunicar com os doentes é fundamental. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas", diz investigadora.
Se comer toda a embalagem de gelado quantas calorias está a consumir? Se lhe for permitido consumir 60 gramas de hidratos de carbono numa sobremesa, que quantidade de gelado pode comer? Estas são duas das seis perguntas que, acompanhadas de um rótulo fictício de gelado, compõem o Newest Vital Sign (NVS), o teste utilizado pela médica Dagmara Paiva e outros cinco investigadores para avaliar o nível de literacia em saúde dos portugueses. Conclusão: estima-se que 73% da população portuguesa entre os 16 e os 79 anos não saiba responder correctamente a questões como estas e que, por isso, tenha dificuldade em aceder, compreender e utilizar informação sobre saúde.
A situação piora com a idade. E, como seria de esperar, quanto menor for o nível de escolaridade, menos competências. Dados: na população entre os 16 e os 44 anos, a proporção daqueles que mostram níveis de literacia inadequados oscila entre os 62% e os 65% (as estimativas têm um intervalo de confiança de 95%). Essa percentagem vai aumentando e, na faixa etária entre os 65 e 79 anos, corresponde a 94% da população. Quanto ao nível de escolaridade, entre os que têm menos do que o 4.º ano, 97,5% têm um nível de literacia em saúde inadequado. Já entre a população com pelo menos uma licenciatura completa essa proporção desce para 44,5%.
“Pessoas com mais de 64 anos têm 21% maior probabilidade de ter limitações do que quem tem menos de 25 anos”, detalha ainda o estudo publicado no final de 2017 na revista Acta Médica Portuguesa e que faz parte da tese de doutoramento que Dagmara Paiva apresentou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em Dezembro de 2018 (o foco principal da tese é a literacia nos cuidados aos doentes com diabetes tipo 2, mas a médica apresenta vários estudos de contexto). Já para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano. Não há diferenças de género.
Esta metodologia não avalia directamente a forma como os pacientes compreendem as informações que lhes são dadas em contexto clínico. Mas Dagmara Paiva explica que pode dar algumas pistas. “A penúltima pergunta do NVS é: ‘Suponha que é alérgico à penicilina, amendoins, látex e picadas de abelha. É seguro para si comer esse gelado?’. Aí a pessoa tem de conseguir perceber que um dos ingredientes do gelado é o amendoim e que não pode [comê-lo] e porquê. Dá para ter uma ideia de como é que são essas competências de uma pessoa em particular.”
O pequeno questionário foi aplicado em 2012 no âmbito de um inquérito nacional que tinha como objectivo perceber o grau de conhecimento da população sobre problemas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e sobre comportamentos saudáveis. A amostra, representativa da população portuguesa, tinha 1624 pessoas. Entre os entrevistados, 79 não sabiam ler nem escrever, pelo que foram excluídos da análise. Sobram 1544 indivíduos na amostra final. Se a população que não sabe ler nem escrever fosse incluída nas estimativas nacionais então o nível de literacia inadequada em saúde seria ainda maior: 74,5%.
Portugal atrás de Espanha e da Holanda
A metodologia tem limitações. O NVS, explica-se no estudo, “foi desenhado para avaliar competências individuais de compreensão de leitura e cálculo, uma pequena parte do conceito de literacia em saúde”. Mesmo assim, não é por isso que os seus resultados são menos importantes. “A avaliação das habilidades numéricas dos pacientes pode ter um papel fundamental na melhoria do uso apropriado de medicamentos e na prevenção de erros de dosagem, alinhando-se aos objectivos do Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados.”
Além disso, outras mais-valias são o facto de já ter sido usado noutros contextos, correlacionar-se bem com instrumentos mais complexos, ser visto como algo “aceitável” pelos pacientes e permitir comparações internacionais.
Em 2011, o NVS já tinha sido aplicado noutros países, no âmbito do Inquérito Europeu de Literacia em Saúde. A Holanda, onde só 23,7% dos entrevistados revelaram ter literacia inadequada em saúde, teve a taxa de sucesso mais elevada. Por outro lado, Espanha, onde se estima que 63,1% da população tenha este tipo de limitações, foi o país com piores resultados na altura. “Dada a proximidade entre educação e a componente de numeracia na literacia para a saúde, os resultados [distintos entre países] podem ser explicados pelas diferenças na educação”, explica o estudo.
A prevalência da falta de literacia em saúde estimada no âmbito deste estudo é superior aos 49% que outro grupo de investigadores estimou em 2016. Dagmara Paiva e os restantes autores explicam esta diferença: com o NVS “a numeracia é analisada objectivamente e esta é uma competência crucial para lidar com as exigências complexas da doença crónica”. O trabalho de 2016 avaliava o grau de dificuldade do paciente em realizar tarefas associadas a cuidados de saúde. Mesmo assim, “são complementares”, diz Dagmara Paiva.
Ensinar os profissionais de saúde a comunicar
Uma coisa é certa: a literacia inadequada em saúde é um problema em Portugal. E se a longo prazo a forma de melhorá-la é através do investimento na educação dos cidadãos, no imediato, atenuar os seus efeitos pode passar por “melhorar as competências de comunicação dos profissionais de saúde”, defende Dagmara Paiva.
Outro dos trabalhos que integra a tese desta médica especialista em Medicina Geral e Familiar (são cinco no total) foca-se nos factores que facilitam e inibem a comunicação entre pacientes com diabetes tipo 2 e profissionais de saúde. E conclui que os doentes identificam a comunicação agressiva no consultório como uma “barreira à comunicação”, mas os profissionais encaram-na como um aspecto “facilitador” no sentido de apelar à mudança de comportamentos dos pacientes. O estudo baseia-se na entrevista a 33 utentes e a 12 profissionais de saúde.
“Não há nenhuma sociedade nem associação que dê recomendações para tratamento e gestão da diabetes tipo 2 que recomende comunicar de uma forma agressiva para assustar as pessoas. Todas as indicações são no sentido de usar técnicas de entrevista motivacional, ajudar os doentes a identificar as principais barreiras à mudança de comportamentos e, dentro do seu contexto de vida, tentar ajudá-los a decidir sobre as pequenas mudanças para melhorar a sua saúde”, nota Dagmara Paiva. Mesmo assim, “há muitos médicos” que utilizam a abordagem agressiva.
O problema está no ensino. “Na maioria das faculdades de medicina, o treino em comunicação ainda não faz parte do currículo [obrigatório]. É uma coisa que os próprios profissionais de saúde assumem que lhes faz falta”, nota a médica. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas”, aponta. “As políticas de saúde têm mesmo de começar a investir nisso a sério.”
8.1.19
Abuso psicológico pode afectar um quinto dos idosos. Os mais pobres, sós, doentes
Margarida David Cardoso, in Público on-line
Idosos que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sozinhos revelam-se mais vulneráveis. As mulheres são as principais vítimas, identificou um estudo da Universidade do Porto.
Na velhice, a violência tende a coexistir com a debilidade socioeconómica e de saúde das vítimas. Como em qualquer idade, a afectar os mais dependentes. Um estudo da Universidade do Porto aponta para uma prevalência de 20% de abuso psicológico entre os mais velhos. Aqueles que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sós relevam-se mais vulneráveis. E as mulheres são as principais vítimas.
Estas conclusões têm por base as respostas de 677 pessoas com 60 ou mais anos residentes no Porto a um extenso questionário e as entrevistas mais aprofundadas feitas a 45 delas por uma equipa de investigadores do Instituto de Sociologia (ISUP) e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), no âmbito do projecto HARMED: o abuso de idosos: determinantes sociais, económicas e de saúde. Estas são as primeiras conclusões.
O abuso psicológico é o mais prevalente – um quinto (19,9%) dos inquiridos declarou ser alvo – e é o motivo por que a socióloga Isabel Dias, investigadora responsável, fala na necessidade de melhorar a detecção destes abusos, mais vísiveis mas quase sempre silenciosos, mas “tão incapacitantes como a violência física”. São insultos, maus tratos verbais, humilhações, situações de isolamento forçado e privação de direitos de gestão da própria vida.
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As vítimas são principalmente as mulheres (22,7% das entrevistadas). A ausência de redes familiares e de conforto financeiro tende a agravar a exposição a abusos psicológicos: reconhecem-se como vítimas 23,8% dos inquiridos na casa dos 70 anos, 20,8% dos que vivem sozinhos, 23,8% dos que consideram o seu rendimento insuficiente ou muito insuficiente.
“Considerando a experiência de abuso, de qualquer tipo, são as vítimas de abuso psicológico que apresentam os menores níveis de suporte social (62,7%) e maior ocorrência de sintomas depressivos”, aponta a socióloga Isabel Dias. Também são mais negativas na avaliação do seu estado de saúde geral e tendem a manter-se longe dos serviços de saúde, mesmo quando precisam deles. Genericamente têm uma menor expectativa de vir a ser felizes.
Violência contra idosos é cada vez mais visível
A dependência que fragiliza
Para António Fonseca, professor na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, a principal questão é a dependência. “A pessoa idosa só por si não é necessariamente mais vulnerável. Estar dependente de outros, em qualquer idade, limita a reacção, a queixa, fragiliza-a imediatamente.”
Compreende-se, por isso, o peso que assume a segurança alimentar (determinada neste estudo, por exemplo, pelo número de refeições que a pessoa faz e o motivo por que deixa de comer). Uma percentagem esmagadora – 72,7% – dos que declararam ter muitas dificuldades em colocar comida na mesa viam-se também vítimas de violência psicológica.
Os mais escolarizados estão igualmente expostos: 22,8% das vítimas de abuso psicológico inquiridas completou o ensino secundário. Este dado deve ser lido com cautela, frisa Isabel Dias. Pode ser produto das escolhas metodológicas ou da capacidade de se reconhecer como vítima. “Percebemos que o abuso psicológico é transversal. Mas idosos mais escolarizados têm condições para melhor reconhecer o que é ou não abuso psicológico”, acautela a socióloga.
“Temos muita dificuldade que as pessoas falem”, torna António Fonseca. “O berrar, o dar ordens, o não retirar de casa: há uma série de comportamentos que uma pessoa com algum grau de incapacidade, fragilizada encara como natural. O que não se distancia muito das situações de abuso ou mau trato no namoro ou [relações] conjugais.”
À violência psicológica segue-se o abuso financeiro (5,8%) – apropriação indevida de bens e propriedades, por exemplo –, o abuso físico (2,5%) e sexual (1,9 %). Em geral, o perfil dos mais vulneráveis repete-se. À excepção do abuso físico, que o estudo mostrou ser mais prevalente entre os idosos pouco escolarizados.
Guia com 81 formas de ajudar a envelhecer em casa e na comunidade
Cônjuge ou companheiro
As redes sociofamiliares e a inserção na comunidade são vistas como factores protectores do abuso. Quem vive sozinho – cerca de 407 mil pessoas com mais de 65 anos em 2011; hoje serão muito mais – tende a estar mais exposto nos vários contextos. É comum que a vítima identifique alguém próximo como agressor – um cônjuge ou companheiro (32,6%), filhos (22,9%), irmãos (14,1%), vizinhos (14,1%) –, mas os abusos e situações de neglicência acontecem também em contexto de cuidados informais e em instituições.
“A vigilância, o controlo, a repressão sobre os idosos, frequentemente em contexto institucional, poderá também ser considerado mau trato”, aponta António Fonseca. A ausência de estímulo, de cuidado, de contacto pode deprimir as vítimas. “O contexto que não as ajuda a expressar-se, dificulta a própria reclamação do que está a acontecer.” Há o medo de que a queixa piore a situação. Muitas vezes também não há outra alternativa de cuidados.
"Conseguir dar o salto é um passo extremamente doloroso, para além da dificuldade em chegar às instâncias oficiais", nota Teresa Morais, procuradora do Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto, que coordena uma secção dedicada à investigação dos crimes de violência doméstica e maus tratos. Quando o faz, "depois dos obstáculos interiores que teve que ultrapassar, depara-se com um muro", aponta. "Afasta-se o cuidador agressor e a alternativa é a institucionalização, a desenraização do idoso? O sistema não lhe responde."
Há um novo indicador de violência contra as mulheres e Portugal não está tão mal
“Temos que ser muito mais vigilantes no modo como as institucionais e as famílias cuidam das pessoas”, alerta António Fonseca.
Os abusos, principalmente psicológicos, tendem a ser contínuos.
Podem, por isso, agravar os factores considerados de risco e gerar novos, nota Isabel Dias. “Estes dados evidenciam a necessidade de colocar no centro das agendas das políticas sociais e de saúde a problemática dos abusos a idosos, tendo em conta a acumulação de vantagens de natureza socioeconómica, ligadas à condição de saúde e à vulnerabilidade de género [ver texto ao lado].”
Os investigadores estão agora a aprofundar estas questões. Procuram compreender o impacto do contexto de crise socioeconómica dos últimos anos, 2008 a 2014 sobretudo, no agravamento dos factores de exposição e vulnerabilidade de pessoas idosas a abusos. E estabelecer relações de casualidade entre eles.
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Estudo conclui que 13% dos idosos sofreram violência psicológica no último ano
Os centros de dia atraem cada vez menos idosos, mas os lares estão cheios
O projecto de três anos, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, termina no final do ano. Participam as investigadoras Alexandra Lopes e Rute Lemos, do ISUP, e Diogo Costa e Sílvia Fraga, do ISPUP.
A amostra com que trabalham tem origem na base EPIPorto, uma coorte populacional do ISPUP, que acompanha 2485 maiores de idade residentes no Porto, desde 1999. Desde então esta tem sido avaliada. O projecto integra a terceira reavaliação desta população, feita em 2017 e 2018.
Idosos que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sozinhos revelam-se mais vulneráveis. As mulheres são as principais vítimas, identificou um estudo da Universidade do Porto.
Na velhice, a violência tende a coexistir com a debilidade socioeconómica e de saúde das vítimas. Como em qualquer idade, a afectar os mais dependentes. Um estudo da Universidade do Porto aponta para uma prevalência de 20% de abuso psicológico entre os mais velhos. Aqueles que têm dificuldades em pôr comida na mesa, os mais pobres, os que têm sintomas depressivos e os que vivem sós relevam-se mais vulneráveis. E as mulheres são as principais vítimas.
Estas conclusões têm por base as respostas de 677 pessoas com 60 ou mais anos residentes no Porto a um extenso questionário e as entrevistas mais aprofundadas feitas a 45 delas por uma equipa de investigadores do Instituto de Sociologia (ISUP) e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), no âmbito do projecto HARMED: o abuso de idosos: determinantes sociais, económicas e de saúde. Estas são as primeiras conclusões.
O abuso psicológico é o mais prevalente – um quinto (19,9%) dos inquiridos declarou ser alvo – e é o motivo por que a socióloga Isabel Dias, investigadora responsável, fala na necessidade de melhorar a detecção destes abusos, mais vísiveis mas quase sempre silenciosos, mas “tão incapacitantes como a violência física”. São insultos, maus tratos verbais, humilhações, situações de isolamento forçado e privação de direitos de gestão da própria vida.
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As vítimas são principalmente as mulheres (22,7% das entrevistadas). A ausência de redes familiares e de conforto financeiro tende a agravar a exposição a abusos psicológicos: reconhecem-se como vítimas 23,8% dos inquiridos na casa dos 70 anos, 20,8% dos que vivem sozinhos, 23,8% dos que consideram o seu rendimento insuficiente ou muito insuficiente.
“Considerando a experiência de abuso, de qualquer tipo, são as vítimas de abuso psicológico que apresentam os menores níveis de suporte social (62,7%) e maior ocorrência de sintomas depressivos”, aponta a socióloga Isabel Dias. Também são mais negativas na avaliação do seu estado de saúde geral e tendem a manter-se longe dos serviços de saúde, mesmo quando precisam deles. Genericamente têm uma menor expectativa de vir a ser felizes.
Violência contra idosos é cada vez mais visível
A dependência que fragiliza
Para António Fonseca, professor na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, a principal questão é a dependência. “A pessoa idosa só por si não é necessariamente mais vulnerável. Estar dependente de outros, em qualquer idade, limita a reacção, a queixa, fragiliza-a imediatamente.”
Compreende-se, por isso, o peso que assume a segurança alimentar (determinada neste estudo, por exemplo, pelo número de refeições que a pessoa faz e o motivo por que deixa de comer). Uma percentagem esmagadora – 72,7% – dos que declararam ter muitas dificuldades em colocar comida na mesa viam-se também vítimas de violência psicológica.
Os mais escolarizados estão igualmente expostos: 22,8% das vítimas de abuso psicológico inquiridas completou o ensino secundário. Este dado deve ser lido com cautela, frisa Isabel Dias. Pode ser produto das escolhas metodológicas ou da capacidade de se reconhecer como vítima. “Percebemos que o abuso psicológico é transversal. Mas idosos mais escolarizados têm condições para melhor reconhecer o que é ou não abuso psicológico”, acautela a socióloga.
“Temos muita dificuldade que as pessoas falem”, torna António Fonseca. “O berrar, o dar ordens, o não retirar de casa: há uma série de comportamentos que uma pessoa com algum grau de incapacidade, fragilizada encara como natural. O que não se distancia muito das situações de abuso ou mau trato no namoro ou [relações] conjugais.”
À violência psicológica segue-se o abuso financeiro (5,8%) – apropriação indevida de bens e propriedades, por exemplo –, o abuso físico (2,5%) e sexual (1,9 %). Em geral, o perfil dos mais vulneráveis repete-se. À excepção do abuso físico, que o estudo mostrou ser mais prevalente entre os idosos pouco escolarizados.
Guia com 81 formas de ajudar a envelhecer em casa e na comunidade
Cônjuge ou companheiro
As redes sociofamiliares e a inserção na comunidade são vistas como factores protectores do abuso. Quem vive sozinho – cerca de 407 mil pessoas com mais de 65 anos em 2011; hoje serão muito mais – tende a estar mais exposto nos vários contextos. É comum que a vítima identifique alguém próximo como agressor – um cônjuge ou companheiro (32,6%), filhos (22,9%), irmãos (14,1%), vizinhos (14,1%) –, mas os abusos e situações de neglicência acontecem também em contexto de cuidados informais e em instituições.
“A vigilância, o controlo, a repressão sobre os idosos, frequentemente em contexto institucional, poderá também ser considerado mau trato”, aponta António Fonseca. A ausência de estímulo, de cuidado, de contacto pode deprimir as vítimas. “O contexto que não as ajuda a expressar-se, dificulta a própria reclamação do que está a acontecer.” Há o medo de que a queixa piore a situação. Muitas vezes também não há outra alternativa de cuidados.
"Conseguir dar o salto é um passo extremamente doloroso, para além da dificuldade em chegar às instâncias oficiais", nota Teresa Morais, procuradora do Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto, que coordena uma secção dedicada à investigação dos crimes de violência doméstica e maus tratos. Quando o faz, "depois dos obstáculos interiores que teve que ultrapassar, depara-se com um muro", aponta. "Afasta-se o cuidador agressor e a alternativa é a institucionalização, a desenraização do idoso? O sistema não lhe responde."
Há um novo indicador de violência contra as mulheres e Portugal não está tão mal
“Temos que ser muito mais vigilantes no modo como as institucionais e as famílias cuidam das pessoas”, alerta António Fonseca.
Os abusos, principalmente psicológicos, tendem a ser contínuos.
Podem, por isso, agravar os factores considerados de risco e gerar novos, nota Isabel Dias. “Estes dados evidenciam a necessidade de colocar no centro das agendas das políticas sociais e de saúde a problemática dos abusos a idosos, tendo em conta a acumulação de vantagens de natureza socioeconómica, ligadas à condição de saúde e à vulnerabilidade de género [ver texto ao lado].”
Os investigadores estão agora a aprofundar estas questões. Procuram compreender o impacto do contexto de crise socioeconómica dos últimos anos, 2008 a 2014 sobretudo, no agravamento dos factores de exposição e vulnerabilidade de pessoas idosas a abusos. E estabelecer relações de casualidade entre eles.
Ler mais
Quantas pessoas se indignam com a frase "não aguentava mais a velha, meti-a num lar"?
Estudo conclui que 13% dos idosos sofreram violência psicológica no último ano
Os centros de dia atraem cada vez menos idosos, mas os lares estão cheios
O projecto de três anos, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, termina no final do ano. Participam as investigadoras Alexandra Lopes e Rute Lemos, do ISUP, e Diogo Costa e Sílvia Fraga, do ISPUP.
A amostra com que trabalham tem origem na base EPIPorto, uma coorte populacional do ISPUP, que acompanha 2485 maiores de idade residentes no Porto, desde 1999. Desde então esta tem sido avaliada. O projecto integra a terceira reavaliação desta população, feita em 2017 e 2018.
22.11.18
Quase um quinto da população portuguesa sofre de doenças mentais
Ana Maia, in Público on-line
Quase um quinto da população portuguesa sofre de doenças mentais
Relatório Health at a Glance 2018 põe Portugal como o quinto país da União Europeia com mais casos de doenças mentais. Os problemas mais comuns são a depressão e a ansiedade.
Portugal é o quinto país da União Europeia com maior prevalência de problemas de saúde mental. De acordo com o relatório Health at a Glance 2018, divulgado esta quinta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), 18,4% da população portuguesa sofre de doença mental, onde se inclui ansiedade, depressão ou problemas com o consumo de álcool e drogas.
Quase um quinto da população portuguesa sofre de doenças mentais
Relatório Health at a Glance 2018 põe Portugal como o quinto país da União Europeia com mais casos de doenças mentais. Os problemas mais comuns são a depressão e a ansiedade.
Portugal é o quinto país da União Europeia com maior prevalência de problemas de saúde mental. De acordo com o relatório Health at a Glance 2018, divulgado esta quinta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), 18,4% da população portuguesa sofre de doença mental, onde se inclui ansiedade, depressão ou problemas com o consumo de álcool e drogas.
15.11.18
SNS 24 volta a ter linha sénior e vai contactar 65 mil idosos
Ana Maia, in Publico on-line
Serviço é dirigido a pessoas com 75 e mais anos em situação de vulnerabilidade. Projecto arranca já em Dezembro em dois agrupamentos de centros de saúde. Idosos que aceitem integrá-lo terão acompanhamento telefónico semanal.
A linha sénior, apoio telefónico prestado a pessoas com 75 ou mais anos pelo centro de contacto do Serviço Nacional de Saúde — SNS 24, vai ser reactivada três anos depois de ter deixado de funcionar. O "serviço biopsicossocial" vai arrancar em Dezembro. Começará por contactar 65 mil idosos de dois agrupamentos de centros de saúde (ACES), um no Norte e outro em Lisboa e Vale do Tejo.
A Palmilha subiu ao palco para fazer um manifesto
O novo arranque do serviço está previsto para a “primeira quinzena de Dezembro”, com os primeiros contactos a serem feitos aos idosos inscritos nos ACES Oeste Sul e ACES Porto Oriental, explicou ao PÚBLICO a responsável pelo SNS 24, referindo que a intenção é alargar o programa, “progressivamente, para outras zonas do país”. “O serviço iniciar-se-á com uma primeira fase de aferição de ‘fragilidade’ do idoso na qual serão contactadas 65.000 pessoas."
Micaela Monteiro adiantou que nesta primeira fase irão contactar toda a população com idade igual ou superior a 75 anos pertencente aos dois ACES que integram o projecto. “Com a autorização do próprio, será feita uma avaliação para aferir a sua vulnerabilidade.” Os idosos identificados como "vulneráveis" serão convidados para participar no programa.
“A partir daí, haverá um acompanhamento telefónico regular dos idosos vulneráveis pelo SNS 24, que articula sempre com os cuidados de saúde primários. Estes intervêm de acordo com as necessidades de saúde e, sempre que necessário, articulam com as forças de segurança em redes de intervenção local existentes”, acrescentou a responsável, referindo que quer os ACES como a GNR e a PSP foram envolvidos no desenho deste modelo de intervenção.
Os contactos com os idosos integrados no programa serão semanais. "Uma das peças basilares da nova estratégia é entender o SNS24 como prestador de serviços de saúde à distância, por telefone ou acesso digital, mas em estreita articulação com os serviços presenciais, como os cuidados de saúde primários, os hospitais, os lares, etc." Trabalhando em rede, acredita Micaela Monteiro, é mais fácil responder aos "problemas cada vez mais complexos de uma população em envelhecimento".
Cuidados para o Inverno
Telefonemas não atendidos nos centros de saúde serão encaminhados para o SNS 24
A linha sénior foi criada em Abril de 2014 e chegou a contactar 20 mil idosos, com chamadas quinzenais. Mas acabou suspensa em Dezembro de 2015. Na altura a Direcção-Geral da Saúde alegou necessidade de mobilizar recursos para fazer face ao aumento da procura da Linha Saúde 24 devido à gripe, mas também por questões orçamentais. Em Janeiro de 2016 uma resolução da Assembleia da República recomendou ao Governo a reactivação do serviço.
Nessa primeira versão cabia aos idosos tomarem a iniciativa de telefonar para o call center do SNS e dizerem que pretendiam passar a ser acompanhados. Agora será um pouco diferente. “Não se prevê que o próprio se inscreva, até porque queremos ser proactivos e identificar os que mais precisam: aqueles que se encontram num estado de maior vulnerabilidade.”
Os protocolos que os enfermeiros vão usar no novo "serviço biopsicossocial sénior" já estão desenvolvidos. Nesta fase inicial, “a intervenção irá incidir em conteúdos relacionados com os cuidados a ter durante o Inverno: nutrição, prevenção de acidentes, baixas temperaturas e síndrome gripal”. Micaela Monteiro ressalvou que este aconselhamento aos idosos não deve ser confundido com a triagem, aconselhamento e encaminhamento para centros de saúde ou hospitais que o SNS 24 faz de forma geral a toda a população, essencialmente em situações de doença aguda.
“Ao longo do projecto serão utilizados instrumentos de avaliação que permitirão sinalizar necessidades e riscos individuais do idoso. Possibilitarão, assim, uma intervenção dirigida e personalizada”, afirmou. O caderno de encargos, válido para os três anos de contrato que a Serviços Partilhados do Ministério da Saúde tem com a Altice (operadora vencedora), prevê que possam ser abrangidos por este apoio biopsicossocial até 100 mil idosos.
Será possível criar uma Netflix de saúde para idosos?
O mesmo caderno de encargos prevê também a criação de serviços de acompanhamento a grávidas e puérperas e a doentes com diabetes, podendo abranger até 20 mil utentes. Está igualmente previsto apoio aos fumadores que queiram deixar de fumar, que também poderá chegar aos 20 mil beneficiários. O SNS 24 já prestou este apoio, mas aquém do que era desejado.
Nenhum destes serviços está ainda em funcionamento. Micaela Monteiro explicou que “têm que ser pensados e desenhados de modo integrado com as restantes respostas do SNS”. E neste último ano “têm sido desenvolvidos outros serviços específicos que se enquadram dentro das tipologias previstas em caderno de encargos, nomeadamente serviços informativos de saúde oral, sobre sangue e transplantação e vale-cirurgia”. Houve também a integração do serviço de saúde pública que anteriormente estava com as administrações regionais de saúde.
Serviço é dirigido a pessoas com 75 e mais anos em situação de vulnerabilidade. Projecto arranca já em Dezembro em dois agrupamentos de centros de saúde. Idosos que aceitem integrá-lo terão acompanhamento telefónico semanal.
A linha sénior, apoio telefónico prestado a pessoas com 75 ou mais anos pelo centro de contacto do Serviço Nacional de Saúde — SNS 24, vai ser reactivada três anos depois de ter deixado de funcionar. O "serviço biopsicossocial" vai arrancar em Dezembro. Começará por contactar 65 mil idosos de dois agrupamentos de centros de saúde (ACES), um no Norte e outro em Lisboa e Vale do Tejo.
A Palmilha subiu ao palco para fazer um manifesto
O novo arranque do serviço está previsto para a “primeira quinzena de Dezembro”, com os primeiros contactos a serem feitos aos idosos inscritos nos ACES Oeste Sul e ACES Porto Oriental, explicou ao PÚBLICO a responsável pelo SNS 24, referindo que a intenção é alargar o programa, “progressivamente, para outras zonas do país”. “O serviço iniciar-se-á com uma primeira fase de aferição de ‘fragilidade’ do idoso na qual serão contactadas 65.000 pessoas."
Micaela Monteiro adiantou que nesta primeira fase irão contactar toda a população com idade igual ou superior a 75 anos pertencente aos dois ACES que integram o projecto. “Com a autorização do próprio, será feita uma avaliação para aferir a sua vulnerabilidade.” Os idosos identificados como "vulneráveis" serão convidados para participar no programa.
“A partir daí, haverá um acompanhamento telefónico regular dos idosos vulneráveis pelo SNS 24, que articula sempre com os cuidados de saúde primários. Estes intervêm de acordo com as necessidades de saúde e, sempre que necessário, articulam com as forças de segurança em redes de intervenção local existentes”, acrescentou a responsável, referindo que quer os ACES como a GNR e a PSP foram envolvidos no desenho deste modelo de intervenção.
Os contactos com os idosos integrados no programa serão semanais. "Uma das peças basilares da nova estratégia é entender o SNS24 como prestador de serviços de saúde à distância, por telefone ou acesso digital, mas em estreita articulação com os serviços presenciais, como os cuidados de saúde primários, os hospitais, os lares, etc." Trabalhando em rede, acredita Micaela Monteiro, é mais fácil responder aos "problemas cada vez mais complexos de uma população em envelhecimento".
Cuidados para o Inverno
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A linha sénior foi criada em Abril de 2014 e chegou a contactar 20 mil idosos, com chamadas quinzenais. Mas acabou suspensa em Dezembro de 2015. Na altura a Direcção-Geral da Saúde alegou necessidade de mobilizar recursos para fazer face ao aumento da procura da Linha Saúde 24 devido à gripe, mas também por questões orçamentais. Em Janeiro de 2016 uma resolução da Assembleia da República recomendou ao Governo a reactivação do serviço.
Nessa primeira versão cabia aos idosos tomarem a iniciativa de telefonar para o call center do SNS e dizerem que pretendiam passar a ser acompanhados. Agora será um pouco diferente. “Não se prevê que o próprio se inscreva, até porque queremos ser proactivos e identificar os que mais precisam: aqueles que se encontram num estado de maior vulnerabilidade.”
Os protocolos que os enfermeiros vão usar no novo "serviço biopsicossocial sénior" já estão desenvolvidos. Nesta fase inicial, “a intervenção irá incidir em conteúdos relacionados com os cuidados a ter durante o Inverno: nutrição, prevenção de acidentes, baixas temperaturas e síndrome gripal”. Micaela Monteiro ressalvou que este aconselhamento aos idosos não deve ser confundido com a triagem, aconselhamento e encaminhamento para centros de saúde ou hospitais que o SNS 24 faz de forma geral a toda a população, essencialmente em situações de doença aguda.
“Ao longo do projecto serão utilizados instrumentos de avaliação que permitirão sinalizar necessidades e riscos individuais do idoso. Possibilitarão, assim, uma intervenção dirigida e personalizada”, afirmou. O caderno de encargos, válido para os três anos de contrato que a Serviços Partilhados do Ministério da Saúde tem com a Altice (operadora vencedora), prevê que possam ser abrangidos por este apoio biopsicossocial até 100 mil idosos.
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O mesmo caderno de encargos prevê também a criação de serviços de acompanhamento a grávidas e puérperas e a doentes com diabetes, podendo abranger até 20 mil utentes. Está igualmente previsto apoio aos fumadores que queiram deixar de fumar, que também poderá chegar aos 20 mil beneficiários. O SNS 24 já prestou este apoio, mas aquém do que era desejado.
Nenhum destes serviços está ainda em funcionamento. Micaela Monteiro explicou que “têm que ser pensados e desenhados de modo integrado com as restantes respostas do SNS”. E neste último ano “têm sido desenvolvidos outros serviços específicos que se enquadram dentro das tipologias previstas em caderno de encargos, nomeadamente serviços informativos de saúde oral, sobre sangue e transplantação e vale-cirurgia”. Houve também a integração do serviço de saúde pública que anteriormente estava com as administrações regionais de saúde.
6.11.18
SNS 24 volta a ter linha sénior e vai contactar 65 mil idosos
Ana Maia, in Público on-line
Serviço é dirigido a pessoas com 75 e mais anos em situação de vulnerabilidade. Projecto arranca já em Dezembro em dois agrupamentos de centros de saúde. Idosos que aceitem integrá-lo terão acompanhamento telefónico semanal.
A linha sénior, apoio telefónico prestado a pessoas com 75 ou mais anos pelo centro de contacto do Serviço Nacional de Saúde — SNS 24, vai ser reactivada três anos depois de ter deixado de funcionar. O "serviço biopsicossocial" vai arrancar em Dezembro. Começará por contactar 65 mil idosos de dois agrupamentos de centros de saúde (ACES), um no Norte e outro em Lisboa e Vale do Tejo.
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Micaela Monteiro adiantou que nesta primeira fase irão contactar toda a população com idade igual ou superior a 75 anos pertencente aos dois ACES que integram o projecto. “Com a autorização do próprio, será feita uma avaliação para aferir a sua vulnerabilidade.” Os idosos identificados como "vulneráveis" serão convidados para participar no programa.
“A partir daí, haverá um acompanhamento telefónico regular dos idosos vulneráveis pelo SNS 24, que articula sempre com os cuidados de saúde primários. Estes intervêm de acordo com as necessidades de saúde e, sempre que necessário, articulam com as forças de segurança em redes de intervenção local existentes”, acrescentou a responsável, referindo que quer os ACES como a GNR e a PSP foram envolvidos no desenho deste modelo de intervenção.
Os contactos com os idosos integrados no programa serão semanais. "Uma das peças basilares da nova estratégia é entender o SNS24 como prestador de serviços de saúde à distância, por telefone ou acesso digital, mas em estreita articulação com os serviços presenciais, como os cuidados de saúde primários, os hospitais, os lares, etc." Trabalhando em rede, acredita Micaela Monteiro, é mais fácil responder aos "problemas cada vez mais complexos de uma população em envelhecimento".
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PUB
Os protocolos que os enfermeiros vão usar no novo "serviço biopsicossocial sénior" já estão desenvolvidos. Nesta fase inicial, “a intervenção irá incidir em conteúdos relacionados com os cuidados a ter durante o Inverno: nutrição, prevenção de acidentes, baixas temperaturas e síndrome gripal”. Micaela Monteiro ressalvou que este aconselhamento aos idosos não deve ser confundido com a triagem, aconselhamento e encaminhamento para centros de saúde ou hospitais que o SNS 24 faz de forma geral a toda a população, essencialmente em situações de doença aguda.
“Ao longo do projecto serão utilizados instrumentos de avaliação que permitirão sinalizar necessidades e riscos individuais do idoso. Possibilitarão, assim, uma intervenção dirigida e personalizada”, afirmou. O caderno de encargos, válido para os três anos de contrato que a Serviços Partilhados do Ministério da Saúde tem com a Altice (operadora vencedora), prevê que possam ser abrangidos por este apoio biopsicossocial até 100 mil idosos.
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tp.ocilbup@aiama
Serviço é dirigido a pessoas com 75 e mais anos em situação de vulnerabilidade. Projecto arranca já em Dezembro em dois agrupamentos de centros de saúde. Idosos que aceitem integrá-lo terão acompanhamento telefónico semanal.
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Vai um copo de vinho de ratinhos? Olho de cabra em conserva? Os pratos mais nojentos têm um museu
O novo arranque do serviço está previsto para a “primeira quinzena de Dezembro”, com os primeiros contactos a serem feitos aos idosos inscritos nos ACES Oeste Sul e ACES Porto Oriental, explicou ao PÚBLICO a responsável pelo SNS 24, referindo que a intenção é alargar o programa, “progressivamente, para outras zonas do país”. “O serviço iniciar-se-á com uma primeira fase de aferição de ‘fragilidade’ do idoso na qual serão contactadas 65.000 pessoas."
Micaela Monteiro adiantou que nesta primeira fase irão contactar toda a população com idade igual ou superior a 75 anos pertencente aos dois ACES que integram o projecto. “Com a autorização do próprio, será feita uma avaliação para aferir a sua vulnerabilidade.” Os idosos identificados como "vulneráveis" serão convidados para participar no programa.
“A partir daí, haverá um acompanhamento telefónico regular dos idosos vulneráveis pelo SNS 24, que articula sempre com os cuidados de saúde primários. Estes intervêm de acordo com as necessidades de saúde e, sempre que necessário, articulam com as forças de segurança em redes de intervenção local existentes”, acrescentou a responsável, referindo que quer os ACES como a GNR e a PSP foram envolvidos no desenho deste modelo de intervenção.
Os contactos com os idosos integrados no programa serão semanais. "Uma das peças basilares da nova estratégia é entender o SNS24 como prestador de serviços de saúde à distância, por telefone ou acesso digital, mas em estreita articulação com os serviços presenciais, como os cuidados de saúde primários, os hospitais, os lares, etc." Trabalhando em rede, acredita Micaela Monteiro, é mais fácil responder aos "problemas cada vez mais complexos de uma população em envelhecimento".
Cuidados para o Inverno
Telefonemas não atendidos nos centros de saúde serão encaminhados para o SNS 24
A linha sénior foi criada em Abril de 2014 e chegou a contactar 20 mil idosos, com chamadas quinzenais. Mas acabou suspensa em Dezembro de 2015. Na altura a Direcção-Geral da Saúde alegou necessidade de mobilizar recursos para fazer face ao aumento da procura da Linha Saúde 24 devido à gripe, mas também por questões orçamentais. Em Janeiro de 2016 uma resolução da Assembleia da República recomendou ao Governo a reactivação do serviço.
Nessa primeira versão cabia aos idosos tomarem a iniciativa de telefonar para o call center do SNS e dizerem que pretendiam passar a ser acompanhados. Agora será um pouco diferente. “Não se prevê que o próprio se inscreva, até porque queremos ser proactivos e identificar os que mais precisam: aqueles que se encontram num estado de maior vulnerabilidade.”
PUB
Os protocolos que os enfermeiros vão usar no novo "serviço biopsicossocial sénior" já estão desenvolvidos. Nesta fase inicial, “a intervenção irá incidir em conteúdos relacionados com os cuidados a ter durante o Inverno: nutrição, prevenção de acidentes, baixas temperaturas e síndrome gripal”. Micaela Monteiro ressalvou que este aconselhamento aos idosos não deve ser confundido com a triagem, aconselhamento e encaminhamento para centros de saúde ou hospitais que o SNS 24 faz de forma geral a toda a população, essencialmente em situações de doença aguda.
“Ao longo do projecto serão utilizados instrumentos de avaliação que permitirão sinalizar necessidades e riscos individuais do idoso. Possibilitarão, assim, uma intervenção dirigida e personalizada”, afirmou. O caderno de encargos, válido para os três anos de contrato que a Serviços Partilhados do Ministério da Saúde tem com a Altice (operadora vencedora), prevê que possam ser abrangidos por este apoio biopsicossocial até 100 mil idosos.
SNS 24 vai ajudar doentes a escolher hospital e marcar cirurgia
Universidade do Porto lança projecto para aumentar competências digitais de idosos
Será possível criar uma Netflix de saúde para idosos?
O mesmo caderno de encargos prevê também a criação de serviços de acompanhamento a grávidas e puérperas e a doentes com diabetes, podendo abranger até 20 mil utentes. Está igualmente previsto apoio aos fumadores que queiram deixar de fumar, que também poderá chegar aos 20 mil beneficiários. O SNS 24 já prestou este apoio, mas aquém do que era desejado.
Nenhum destes serviços está ainda em funcionamento. Micaela Monteiro explicou que “têm que ser pensados e desenhados de modo integrado com as restantes respostas do SNS”. E neste último ano “têm sido desenvolvidos outros serviços específicos que se enquadram dentro das tipologias previstas em caderno de encargos, nomeadamente serviços informativos de saúde oral, sobre sangue e transplantação e vale-cirurgia”. Houve também a integração do serviço de saúde pública que anteriormente estava com as administrações regionais de saúde.
tp.ocilbup@aiama
20.9.18
Um em cada 10 doentes em hemodiálise não tem rede de suporte
in o Observador
O estudo, que envolveu 3.114 doentes em tratamento em 25 clínicas de hemodiálise de todo o país em 2016, indica que a maioria da população em hemodiálise é masculina, com mais de 65 anos e casada.
Um em cada 10 doentes renais que faz hemodiálise não tem qualquer rede de suporte, concluiu um estudo sobre o perfil destes pacientes segundo o qual a maioria são homens com mais de 65 anos.
O estudo, realizado por um grupo de assistentes sociais, em coautoria com a investigadora Sónia Guadalupe do Instituto Superior Miguel Torga, adianta que quase 11% da população que faz hemodiálise não tem nenhuma rede de suporte. A maioria (72,2%) tem como principal fonte de apoio a família, os amigos e os vizinhos. Um grupo restrito destes doentes com insuficiência renal crónica depende exclusivamente de uma rede de apoio formal.
O estudo, que envolveu 3.114 doentes em tratamento em 25 clínicas de hemodiálise de todo o país em 2016, indica que a maioria da população em hemodiálise é masculina, com mais de 65 anos, casada, com casa própria e tem baixos níveis de escolaridade e pouca literacia em saúde.
Há, no entanto, um grupo de doentes que apresenta indicadores que apontam para situações de vulnerabilidade social, refere o estudo, que pretendeu “conhecer a fundo” a população em hemodiálise, disse à agência Lusa Marta Olim, assistente social e uma das autoras do estudo, a par de Sónia Guadalupe do Instituto Superior Miguel Torga.
O estudo, publicado no National Kidney Foundation of Nephrology Social Work, salienta que a percentagem de doentes desempregados, que residem em habitações precárias, que vivem sozinhos ou em famílias monoparentais e de pacientes que foram deslocados dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) ou que não têm nenhum apoio informal ou formal é “altamente relevante”. Entre os desempregados, destacavam-se os de longa duração, já sem benefícios sociais, o que se deve à dificuldade de encontrarem um trabalho compatível com as suas limitações e com os dias de tratamento.
Marta Olim adiantou que, tendo em conta que as dificuldades sociais têm um “impacto clínico determinante”, a investigação quis “perceber os perfis maioritários e minoritários” destes doentes para poder intervir “o melhor possível” junto desta população. “Isso tem que ver com o conhecimento das suas famílias, dos seus recursos económicos e de como, por exemplo, vivem”, disse a investigadora.
Segundo o estudo, o primeiro a retratar esta realidade em Portugal, 10% dos doentes são oriundos dos PALOP (Países de Língua Oficial Portuguesa), maioritariamente de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé. Vêm para Portugal ao abrigo de acordos de saúde e chegam em “condições muito frágeis”, precisando de ser “muito apoiados e suportados”, disse Marta Olim.
Chegam com uma “fragilidade psicossocial enorme e com um desenraizamento muito significativo”, sustentou a assistente social, contando que vêm a pensar que a sua estada em Portugal é “muito temporária e a maior parte das vezes é para a vida toda”. O facto de não terem apoios formais, de estarem deslocados do seu país, e as exigências do tratamento dificultam a criação laços sociais informais, o que os torna uma população vulnerável e um alvo especial para intervenções de assistência social, salienta o trabalho.
A maioria dos doentes (53,8%) tem o primeiro ciclo, mas ainda há muitos analfabetos (10,18%). Apenas 7% tinham o ensino superior. São pessoas que “têm pouco acesso, pouca informação, pouca literacia em saúde” e recorrem aos serviços em situações “muito mais avançadas de doença”, disse Marta Olim, explicando que existe uma associação direta entre a baixa escolaridade, o acesso aos cuidados de saúde e o facto de entrarem em situações de doença crónica.
Também por isso há uma população maioritária de homens em diálise. “Esta é uma doença silenciosa e os homens culturalmente vão ao médico muito mais tarde, só quando a dor aperta, a mulher começa a ir mais cedo”, por exemplo na gravidez, em que se deteta diabetes e hipertensão, que são as duas grandes patologias que desencadeiam a doença crónica.
Para as autoras do estudo, o conhecimento do perfil sociológico destes doentes é decisivo para melhorar programas específicos de intervenção de serviço social, bem como medidas de política organizacional e social capazes de satisfazer as necessidades dos doentes e de promover o seu bem-estar individual e social.
O estudo, que envolveu 3.114 doentes em tratamento em 25 clínicas de hemodiálise de todo o país em 2016, indica que a maioria da população em hemodiálise é masculina, com mais de 65 anos e casada.
Um em cada 10 doentes renais que faz hemodiálise não tem qualquer rede de suporte, concluiu um estudo sobre o perfil destes pacientes segundo o qual a maioria são homens com mais de 65 anos.
O estudo, realizado por um grupo de assistentes sociais, em coautoria com a investigadora Sónia Guadalupe do Instituto Superior Miguel Torga, adianta que quase 11% da população que faz hemodiálise não tem nenhuma rede de suporte. A maioria (72,2%) tem como principal fonte de apoio a família, os amigos e os vizinhos. Um grupo restrito destes doentes com insuficiência renal crónica depende exclusivamente de uma rede de apoio formal.
O estudo, que envolveu 3.114 doentes em tratamento em 25 clínicas de hemodiálise de todo o país em 2016, indica que a maioria da população em hemodiálise é masculina, com mais de 65 anos, casada, com casa própria e tem baixos níveis de escolaridade e pouca literacia em saúde.
Há, no entanto, um grupo de doentes que apresenta indicadores que apontam para situações de vulnerabilidade social, refere o estudo, que pretendeu “conhecer a fundo” a população em hemodiálise, disse à agência Lusa Marta Olim, assistente social e uma das autoras do estudo, a par de Sónia Guadalupe do Instituto Superior Miguel Torga.
O estudo, publicado no National Kidney Foundation of Nephrology Social Work, salienta que a percentagem de doentes desempregados, que residem em habitações precárias, que vivem sozinhos ou em famílias monoparentais e de pacientes que foram deslocados dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) ou que não têm nenhum apoio informal ou formal é “altamente relevante”. Entre os desempregados, destacavam-se os de longa duração, já sem benefícios sociais, o que se deve à dificuldade de encontrarem um trabalho compatível com as suas limitações e com os dias de tratamento.
Marta Olim adiantou que, tendo em conta que as dificuldades sociais têm um “impacto clínico determinante”, a investigação quis “perceber os perfis maioritários e minoritários” destes doentes para poder intervir “o melhor possível” junto desta população. “Isso tem que ver com o conhecimento das suas famílias, dos seus recursos económicos e de como, por exemplo, vivem”, disse a investigadora.
Segundo o estudo, o primeiro a retratar esta realidade em Portugal, 10% dos doentes são oriundos dos PALOP (Países de Língua Oficial Portuguesa), maioritariamente de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé. Vêm para Portugal ao abrigo de acordos de saúde e chegam em “condições muito frágeis”, precisando de ser “muito apoiados e suportados”, disse Marta Olim.
Chegam com uma “fragilidade psicossocial enorme e com um desenraizamento muito significativo”, sustentou a assistente social, contando que vêm a pensar que a sua estada em Portugal é “muito temporária e a maior parte das vezes é para a vida toda”. O facto de não terem apoios formais, de estarem deslocados do seu país, e as exigências do tratamento dificultam a criação laços sociais informais, o que os torna uma população vulnerável e um alvo especial para intervenções de assistência social, salienta o trabalho.
A maioria dos doentes (53,8%) tem o primeiro ciclo, mas ainda há muitos analfabetos (10,18%). Apenas 7% tinham o ensino superior. São pessoas que “têm pouco acesso, pouca informação, pouca literacia em saúde” e recorrem aos serviços em situações “muito mais avançadas de doença”, disse Marta Olim, explicando que existe uma associação direta entre a baixa escolaridade, o acesso aos cuidados de saúde e o facto de entrarem em situações de doença crónica.
Também por isso há uma população maioritária de homens em diálise. “Esta é uma doença silenciosa e os homens culturalmente vão ao médico muito mais tarde, só quando a dor aperta, a mulher começa a ir mais cedo”, por exemplo na gravidez, em que se deteta diabetes e hipertensão, que são as duas grandes patologias que desencadeiam a doença crónica.
Para as autoras do estudo, o conhecimento do perfil sociológico destes doentes é decisivo para melhorar programas específicos de intervenção de serviço social, bem como medidas de política organizacional e social capazes de satisfazer as necessidades dos doentes e de promover o seu bem-estar individual e social.
29.7.16
Mais de três mil doentes de hepatite C curados. É “a medicina da felicidade”
Alexandra Campos, in Público on-line
Portugal tem neste momento "duas das melhores coisas do mundo": o acesso generalizado aos fármacos inovadores para a hepatite C e os transplantes de fígado que chegam a 250 pessoas por ano, realça médico. Esta quinta-feira é Dia Mundial da Hepatite.
Num ano e meio, dos perto de oito mil doentes que iniciaram tratamento com medicamentos inovadores para a hepatite C em Portugal, mais de três mil estão oficialmente curados. “É a medicina da felicidade”, sintetiza Rui Tato Marinho, hepatologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia que, desde 1989, ano em que o vírus foi identificado e surgiu o teste de diagnóstico, tratou centenas de doentes, encaminhou vários para transplante de fígado, deu muitas más notícias mas agora já se habituou à sensação única de poder dizer: “Está curado”.
“Portugal tem neste momento duas das melhores coisas do mundo: toda a gente tem acesso ao tratamento, mesmo sem ter doença grave, e o transplante de fígado chega a cerca de 250 pessoas por ano”, enfatiza o médico. Entretanto, há mais medicamentos inovadores a chegar ao mercado, substâncias que prometem ser mais eficazes num período de tempo mais reduzido e que são mais baratas. Algumas poderão mesmo representar uma esperança para a estreita faixa de doentes que ainda não se cura.
Chegar a este novo paradigma não foi fácil, porém. O vocalista dos GNR, Rui Reininho, esperou quase três décadas pelos comprimidos que se revelaram “milagrosos” e esteve mesmo para desistir, depois de duas penosas tentativas para eliminar este vírus que vai destruindo o fígado e pode degenerar em cirrose e cancro. A poucos dias de fazer 60 anos, em Fevereiro do ano passado, o autor de Pronúncia do Norte começou a terapia com as substâncias inovadoras e negativou, como se diz na gíria médica. No final de 2015 foi declarado curado.
Tal como o vocalista dos GNR, são cada vez mais os doentes que em pouco tempo (12 semanas é o padrão) conseguem livrar-se do vírus. Os dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) são inequívocos: 7840 doentes tinham começado tratamento até ao início deste mês, e, dos que já o tinham finalizado, 3005 foram declarados "curados”. A taxa de cura é de 96%, sublinha o Infarmed, que se recusa a adiantar o montante da despesa com os novos fármacos.
7840 doentes estavam em tratamento em Portugal até 1 de Julho. Ao todo foram já curadas 3005 pessoas, sendo a taxa de cura de 96%
O acordo entre o Estado português e a biofarmacêutica Gilead Sciences — que comercializa o Solvadi (sofosbuvir) e o Harvoni (associação entre sofosbuvir e ledispavir) — “não contempla a divulgação dos preços praticados”, justifica. Estes dados incluem não só os tratamentos efectuados com os mediáticos comprimidos da Gilead mas também com moléculas de outros laboratórios que foram testadas em ensaios clínicos e que, por isso mesmo, não representaram despesa para o Estado.
Para a história ficam os tempos de incerteza, de espera e de ansiedade para os doentes e médicos. Em Portugal, foi necessário aguardar um ano (depois de o Infarmed aprovar o primeiro antivírico de acção directa a chegar ao mercado, o sofosbuvir, que se veio a provar curar a doença em mais de 90% dos casos) para que o Ministério da Saúde e o Infarmed assinassem um acordo então considerado revolucionário — o Estado português apenas paga pelos doentes curados. Este acordo vigora por dois anos, termina em Fevereiro de 2017 e aplica-se aos medicamentos da Gilead, mas já foi anunciado pelo actual ministro da Saúde que vai ser renegociado.
O preço inicialmente pedido, 48 mil euros por doente, foi classificado de “completamente imoral” pelo anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, e por isso as negociações foram-se arrastando. O acordo acabaria por ser assinado na semana em que um doente interpelou de forma emocionada o ministro no Parlamento, pedindo-lhe que não o deixasse morrer, e dias depois de ter sido noticiada a morte de uma mulher que aguardava pelo fármaco.
Os resultados alcançados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram sujeitos a tratamentos tão difíceis de aguentar que muitos desistiam a meio
Muitos doentes por diagnosticar
Agora, os resultados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e de doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram tratados com injecções de interferão e outras substâncias, como a ribavirina, com muitos efeitos secundários, alguns tão difíceis de aguentar que faziam com que vários pacientes desistissem a meio.
Emília Rodrigues, cujo marido foi diagnosticado com hepatite C após uma peritonite complicada em 2002, não se esquece dos terríveis efeitos secundários dos fármacos usados no passado. Em 2005, em conjunto com um doente, Lourival Neto, criou uma associação, a SOS Hepatites, para apoio dos pacientes que enfrentavam as mesmas “dificuldades, dúvidas e solidão”, descreve.
Lourival morreu em Dezembro desse ano com um cancro de fígado e, desde essa altura e até aos finais de 2011, recorda Emília, o tratamento para a hepatite C consistia na conjugação de injecções de interferão com ribavirina. A média de cura oscilava então entre 50 a 60%, mas os efeitos secundários eram difíceis de aguentar para muitos doentes. A depressão era o mais grave.
130 Um total de 130 a 150 milhões de pessoas serão portadoras crónicas de hepatite C a nível mundial. Em Portugal, haverá entre 50 mil a 100 mil infectados
Até que, no final de 2011, surgiram os chamados inibidores de protéase, que, em conjunto com o tratamento anterior, já proporcionavam entre 80 a 85% de hipótese de cura, mas com efeitos secundários também difíceis de suportar. Mesmo assim, estes fármacos só eram disponibilizados em Portugal aos doentes mais graves e após autorizações de utilização especial dadas caso a caso pelo Infarmed, recorda a presidente da SOS Hepatites.
Foi justamente a dificuldade na disponibilização destes medicamentos que começou a criar “ansiedade” entre os doentes, lembra Tato Marinho, que, ainda antes do mediático acordo com a empresa norte-americana, conseguiu, tal como outros colegas, curar dezenas de pacientes tratados em ensaios clínicos com moléculas desenvolvidas por vários laboratórios. Actualmente, aliás, são várias as empresas farmacêuticas a competir com a Gilead Sciences, pelo menos mais quatro, como a Abbvie, a Bristol-Myers Squibb, a Janssen e a Merck, elenca.
Ainda recentemente, em Maio, os cerca de mil doentes renais com hepatite C e co-infectados com VIH — que não respondiam ao tratamento padrão — passaram a ter acesso facilitado a uma combinação de fármacos da Abbvie e o Infarmed assinou um contrato com este laboratório que envolve os medicamentos Exviera e Viekirax. O pagamento passou a ser feito então através de uma linha de financiamento própria, à semelhança do que acontece com os fármacos da Gilead.
“Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”
Armando Carvalho, médico
Se a taxa de cura dos doentes se mantiver a este ritmo, é de prever que no início do próximo ano já estejam livres da infecção mais de metade dos pacientes inicialmente inscritos nos hospitais públicos — cerca de 13 mil. O grande desafio, agora, é fazer com que pessoas que estão infectadas sem o saberem — é preciso notar que a hepatite C é uma doença silenciosa, sem sintomas ao longo de muitos anos — se submetam ao teste de diagnóstico.
De resto, ninguém consegue precisar quantas pessoas estarão infectadas em Portugal e as estimativas são muito díspares, oscilando entre 50 mil, 100 mil e mesmo 150 mil pessoas no país. "O esforço tem de continuar porque ainda existem muitos doentes por diagnosticar e tratar", assinala, a propósito, Armando Carvalho, do Núcleo de Estudo das Doenças do Fígado, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.
Satisfeita com os resultados que mostram que Portugal “caminha de forma sustentada em direcção ao objectivo de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública”, Raquel Chantre, relações públicas da Gilead Sciences Portugal, não se pronuncia sobre a renegociação do acordo com o Estado português. Nem comenta o preço dos fármacos. Prefere recordar uma estimativa efectuada pelo Infarmed ainda em 2015 e que apontava para uma poupança em encargos para a saúde que "poderia chegar a 412,6 milhões de euros”, por se evitarem as complicações da hepatite C nos doentes curados, nomeadamente em transplantes hepáticos e cancro de fígado.
O problema do preço
O preço dos medicamentos da Gilead Sciences desencadeou uma enorme controvérsia. Nos EUA, o sofosbuvir até ficou conhecido como o “comprimido dos mil dólares” (era quanto custava então cada cápsula) e chegou a ser classificado por um economista como a terapêutica que estava “a levar a América à falência”.
20
mil euros será o preço acordado com a farmacêutica Gilead para tratar cada doente no país. O Infarmed continua a recusar-se a adiantar os valores do acordo
Sigiloso, o preço acordado variou de país para país, oscilando entre os mais de 80 mil dólares nos EUA e cerca de 800 euros no Egipto, o país com a maior prevalência de hepatite C em todo o mundo.
Em Portugal, o custo acordado terá sido da ordem dos 20 mil euros por doente, por um tratamento-padrão de 12 semanas (há pacientes que necessitam de mais tempo). Mas a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) continua a recusar-se a adiantar valores.
O preço já foi considerado elevado, quando se contabilizam os custos de produção, que investigadores ingleses calcularam oscilar entre 60 a 120 euros. Somando já os custos da investigação e os do marketing, deveria rondar os 300 euros, segundo outras contas de especialistas espanhóis.
O certo é que, apesar de não ter sido dos primeiros a aprovar o tratamento, Portugal é hoje um dos países em que o acesso aos fármacos inovadores é mais generalizado. “Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”, sublinha Armando Carvalho.
O que se sabe é que, em 2015, foram gastos 40 milhões de euros com o tratamento da hepatite C e, para este ano, está prevista uma despesa que ronda os 85 milhões de euros. Em Março, o actual ministro da Saúde adiantou que o acordo seria renegociado, mas nem a tutela nem a farmacêutica adiantam detalhes. O segredo é a alma do negócio.
Portugal tem neste momento "duas das melhores coisas do mundo": o acesso generalizado aos fármacos inovadores para a hepatite C e os transplantes de fígado que chegam a 250 pessoas por ano, realça médico. Esta quinta-feira é Dia Mundial da Hepatite.
Num ano e meio, dos perto de oito mil doentes que iniciaram tratamento com medicamentos inovadores para a hepatite C em Portugal, mais de três mil estão oficialmente curados. “É a medicina da felicidade”, sintetiza Rui Tato Marinho, hepatologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia que, desde 1989, ano em que o vírus foi identificado e surgiu o teste de diagnóstico, tratou centenas de doentes, encaminhou vários para transplante de fígado, deu muitas más notícias mas agora já se habituou à sensação única de poder dizer: “Está curado”.
“Portugal tem neste momento duas das melhores coisas do mundo: toda a gente tem acesso ao tratamento, mesmo sem ter doença grave, e o transplante de fígado chega a cerca de 250 pessoas por ano”, enfatiza o médico. Entretanto, há mais medicamentos inovadores a chegar ao mercado, substâncias que prometem ser mais eficazes num período de tempo mais reduzido e que são mais baratas. Algumas poderão mesmo representar uma esperança para a estreita faixa de doentes que ainda não se cura.
Chegar a este novo paradigma não foi fácil, porém. O vocalista dos GNR, Rui Reininho, esperou quase três décadas pelos comprimidos que se revelaram “milagrosos” e esteve mesmo para desistir, depois de duas penosas tentativas para eliminar este vírus que vai destruindo o fígado e pode degenerar em cirrose e cancro. A poucos dias de fazer 60 anos, em Fevereiro do ano passado, o autor de Pronúncia do Norte começou a terapia com as substâncias inovadoras e negativou, como se diz na gíria médica. No final de 2015 foi declarado curado.
Tal como o vocalista dos GNR, são cada vez mais os doentes que em pouco tempo (12 semanas é o padrão) conseguem livrar-se do vírus. Os dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) são inequívocos: 7840 doentes tinham começado tratamento até ao início deste mês, e, dos que já o tinham finalizado, 3005 foram declarados "curados”. A taxa de cura é de 96%, sublinha o Infarmed, que se recusa a adiantar o montante da despesa com os novos fármacos.
7840 doentes estavam em tratamento em Portugal até 1 de Julho. Ao todo foram já curadas 3005 pessoas, sendo a taxa de cura de 96%
O acordo entre o Estado português e a biofarmacêutica Gilead Sciences — que comercializa o Solvadi (sofosbuvir) e o Harvoni (associação entre sofosbuvir e ledispavir) — “não contempla a divulgação dos preços praticados”, justifica. Estes dados incluem não só os tratamentos efectuados com os mediáticos comprimidos da Gilead mas também com moléculas de outros laboratórios que foram testadas em ensaios clínicos e que, por isso mesmo, não representaram despesa para o Estado.
Para a história ficam os tempos de incerteza, de espera e de ansiedade para os doentes e médicos. Em Portugal, foi necessário aguardar um ano (depois de o Infarmed aprovar o primeiro antivírico de acção directa a chegar ao mercado, o sofosbuvir, que se veio a provar curar a doença em mais de 90% dos casos) para que o Ministério da Saúde e o Infarmed assinassem um acordo então considerado revolucionário — o Estado português apenas paga pelos doentes curados. Este acordo vigora por dois anos, termina em Fevereiro de 2017 e aplica-se aos medicamentos da Gilead, mas já foi anunciado pelo actual ministro da Saúde que vai ser renegociado.
O preço inicialmente pedido, 48 mil euros por doente, foi classificado de “completamente imoral” pelo anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, e por isso as negociações foram-se arrastando. O acordo acabaria por ser assinado na semana em que um doente interpelou de forma emocionada o ministro no Parlamento, pedindo-lhe que não o deixasse morrer, e dias depois de ter sido noticiada a morte de uma mulher que aguardava pelo fármaco.
Os resultados alcançados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram sujeitos a tratamentos tão difíceis de aguentar que muitos desistiam a meio
Muitos doentes por diagnosticar
Agora, os resultados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e de doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram tratados com injecções de interferão e outras substâncias, como a ribavirina, com muitos efeitos secundários, alguns tão difíceis de aguentar que faziam com que vários pacientes desistissem a meio.
Emília Rodrigues, cujo marido foi diagnosticado com hepatite C após uma peritonite complicada em 2002, não se esquece dos terríveis efeitos secundários dos fármacos usados no passado. Em 2005, em conjunto com um doente, Lourival Neto, criou uma associação, a SOS Hepatites, para apoio dos pacientes que enfrentavam as mesmas “dificuldades, dúvidas e solidão”, descreve.
Lourival morreu em Dezembro desse ano com um cancro de fígado e, desde essa altura e até aos finais de 2011, recorda Emília, o tratamento para a hepatite C consistia na conjugação de injecções de interferão com ribavirina. A média de cura oscilava então entre 50 a 60%, mas os efeitos secundários eram difíceis de aguentar para muitos doentes. A depressão era o mais grave.
130 Um total de 130 a 150 milhões de pessoas serão portadoras crónicas de hepatite C a nível mundial. Em Portugal, haverá entre 50 mil a 100 mil infectados
Até que, no final de 2011, surgiram os chamados inibidores de protéase, que, em conjunto com o tratamento anterior, já proporcionavam entre 80 a 85% de hipótese de cura, mas com efeitos secundários também difíceis de suportar. Mesmo assim, estes fármacos só eram disponibilizados em Portugal aos doentes mais graves e após autorizações de utilização especial dadas caso a caso pelo Infarmed, recorda a presidente da SOS Hepatites.
Foi justamente a dificuldade na disponibilização destes medicamentos que começou a criar “ansiedade” entre os doentes, lembra Tato Marinho, que, ainda antes do mediático acordo com a empresa norte-americana, conseguiu, tal como outros colegas, curar dezenas de pacientes tratados em ensaios clínicos com moléculas desenvolvidas por vários laboratórios. Actualmente, aliás, são várias as empresas farmacêuticas a competir com a Gilead Sciences, pelo menos mais quatro, como a Abbvie, a Bristol-Myers Squibb, a Janssen e a Merck, elenca.
Ainda recentemente, em Maio, os cerca de mil doentes renais com hepatite C e co-infectados com VIH — que não respondiam ao tratamento padrão — passaram a ter acesso facilitado a uma combinação de fármacos da Abbvie e o Infarmed assinou um contrato com este laboratório que envolve os medicamentos Exviera e Viekirax. O pagamento passou a ser feito então através de uma linha de financiamento própria, à semelhança do que acontece com os fármacos da Gilead.
“Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”
Armando Carvalho, médico
Se a taxa de cura dos doentes se mantiver a este ritmo, é de prever que no início do próximo ano já estejam livres da infecção mais de metade dos pacientes inicialmente inscritos nos hospitais públicos — cerca de 13 mil. O grande desafio, agora, é fazer com que pessoas que estão infectadas sem o saberem — é preciso notar que a hepatite C é uma doença silenciosa, sem sintomas ao longo de muitos anos — se submetam ao teste de diagnóstico.
De resto, ninguém consegue precisar quantas pessoas estarão infectadas em Portugal e as estimativas são muito díspares, oscilando entre 50 mil, 100 mil e mesmo 150 mil pessoas no país. "O esforço tem de continuar porque ainda existem muitos doentes por diagnosticar e tratar", assinala, a propósito, Armando Carvalho, do Núcleo de Estudo das Doenças do Fígado, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.
Satisfeita com os resultados que mostram que Portugal “caminha de forma sustentada em direcção ao objectivo de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública”, Raquel Chantre, relações públicas da Gilead Sciences Portugal, não se pronuncia sobre a renegociação do acordo com o Estado português. Nem comenta o preço dos fármacos. Prefere recordar uma estimativa efectuada pelo Infarmed ainda em 2015 e que apontava para uma poupança em encargos para a saúde que "poderia chegar a 412,6 milhões de euros”, por se evitarem as complicações da hepatite C nos doentes curados, nomeadamente em transplantes hepáticos e cancro de fígado.
O problema do preço
O preço dos medicamentos da Gilead Sciences desencadeou uma enorme controvérsia. Nos EUA, o sofosbuvir até ficou conhecido como o “comprimido dos mil dólares” (era quanto custava então cada cápsula) e chegou a ser classificado por um economista como a terapêutica que estava “a levar a América à falência”.
20
mil euros será o preço acordado com a farmacêutica Gilead para tratar cada doente no país. O Infarmed continua a recusar-se a adiantar os valores do acordo
Sigiloso, o preço acordado variou de país para país, oscilando entre os mais de 80 mil dólares nos EUA e cerca de 800 euros no Egipto, o país com a maior prevalência de hepatite C em todo o mundo.
Em Portugal, o custo acordado terá sido da ordem dos 20 mil euros por doente, por um tratamento-padrão de 12 semanas (há pacientes que necessitam de mais tempo). Mas a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) continua a recusar-se a adiantar valores.
O preço já foi considerado elevado, quando se contabilizam os custos de produção, que investigadores ingleses calcularam oscilar entre 60 a 120 euros. Somando já os custos da investigação e os do marketing, deveria rondar os 300 euros, segundo outras contas de especialistas espanhóis.
O certo é que, apesar de não ter sido dos primeiros a aprovar o tratamento, Portugal é hoje um dos países em que o acesso aos fármacos inovadores é mais generalizado. “Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”, sublinha Armando Carvalho.
O que se sabe é que, em 2015, foram gastos 40 milhões de euros com o tratamento da hepatite C e, para este ano, está prevista uma despesa que ronda os 85 milhões de euros. Em Março, o actual ministro da Saúde adiantou que o acordo seria renegociado, mas nem a tutela nem a farmacêutica adiantam detalhes. O segredo é a alma do negócio.
“Tratamento salvou-me a vida, foi a minha prenda dos 60 anos”
Alexandra Campos, in Público on-line
Rui Reininho, 61 anos, vocalista dos GNR, conviveu 26 anos com o vírus da hepatite C.
Habituado a viver com o vírus da hepatite C ainda antes de a infecção ter sido baptizada com o nome definitivo (“chamava-se então hepatite não-A, não-B”, lembra), o vocalista dos GNR, Rui Reininho, assume que esteve bem perto de ser mais uma das vítimas mortais da doença. Ao longo de 26 anos, foi aprendendo a viver com o vírus, obrigou-se a uma vida mais cuidada, até ao momento em que os médicos o avisaram de que estava quase no limite, na fronteira entre a vida e a morte.
Em 2014, Rui Reininho nem sequer estava na lista de espera para transplante de fígado em Portugal, apesar de ter pensado nessa hipótese, seguindo o exemplo do que tinha feito anos antes Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, que se curou sem necessidade dos novos medicamentos. O autor de Pronúncia do Norte estava a aguardar, tal como os outros doentes, pela aprovação e disponibilização dos novos antivíricos e sublinha que o homem que, no Parlamento, pediu ao ex-ministro Paulo Macedo para não o deixar morrer “foi bastante corajoso”.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu”
As novas substâncias chegaram assim para Reininho, que viu amigos e conhecidos a não resistir ao vírus enquanto esperavam, precisamente “na altura certa”. Faltavam alguns dias para completar 60 anos. “Foi a minha prenda”, brinca.
Começou a tomar os comprimidos em 9 de Fevereiro de 2015 (ele faz anos a 28 desse mês) e, na primeira análise, em Março, já tinha “negativado”. Para quem tinha ponderado antes a hipótese de fazer um transplante de fígado e chegado a equacionar a possibilidade de ir à Índia comprar os medicamentos inovadores, ficar sem sinais do vírus em apenas de um mês representou “algo de extraordinário”. “Salvou-me a vida”, remata o vocalista dos GNR que, no final de 2015, foi dado como curado.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu.” Reininho experimentou na pele a dureza do tratamento com interferão. “Era violentíssimo”, com injecções três vezes por semana, associado à ribavirina e outras variantes, durante um processo que durava “um ano e três meses”. Sentia-se “permanentemente arrasado”.
Em 2014, admite, ficou “desmoralizado” e pensou em desistir. “Estava à espera há um ano…” Nessa altura via o futuro a desintegrar-se. Estava, sintomaticamente, a compor o álbum Caixa Negra — era essa a cor com que via o mundo. “Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’”, descreve. “Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”, ironiza.
“Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco [Caixa Negra] sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’. Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”
Agora oficialmente curado, o lema do vocalista dos GNR é “nada de começar a estragar o fígado, de beber champanhe, acabou-se o bacalhau assado e os rojões”. Cortou completamente com o cloreto de sódio, com fritos, com carnes, tornou-se quase vegetariano. A dieta resultou. Se antes sentia “imensas dificuldades a nível orgânico”, agora consegue aguentar espectáculos “de hora e meia a duas horas com outra energia”. Os valores do fígado voltaram aos dos anos 1970. Ora, acontecer isto a alguém que tem 61 anos é fenomenal, até porque “os artistas não têm outras fontes de rendimento”, enfatiza.
A um ano de completar 40 anos de actividade, o vocalista afirma-se assim muito responsável e sabe que, apesar de considerado curado, tem que continuar com a vigilância e a cuidar de si. Até porque está a usufruir de uma espécie de segunda vida. “Agora tenho que ter muito cuidado a atravessar a rua…”
Rui Reininho, 61 anos, vocalista dos GNR, conviveu 26 anos com o vírus da hepatite C.
Habituado a viver com o vírus da hepatite C ainda antes de a infecção ter sido baptizada com o nome definitivo (“chamava-se então hepatite não-A, não-B”, lembra), o vocalista dos GNR, Rui Reininho, assume que esteve bem perto de ser mais uma das vítimas mortais da doença. Ao longo de 26 anos, foi aprendendo a viver com o vírus, obrigou-se a uma vida mais cuidada, até ao momento em que os médicos o avisaram de que estava quase no limite, na fronteira entre a vida e a morte.
Em 2014, Rui Reininho nem sequer estava na lista de espera para transplante de fígado em Portugal, apesar de ter pensado nessa hipótese, seguindo o exemplo do que tinha feito anos antes Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, que se curou sem necessidade dos novos medicamentos. O autor de Pronúncia do Norte estava a aguardar, tal como os outros doentes, pela aprovação e disponibilização dos novos antivíricos e sublinha que o homem que, no Parlamento, pediu ao ex-ministro Paulo Macedo para não o deixar morrer “foi bastante corajoso”.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu”
As novas substâncias chegaram assim para Reininho, que viu amigos e conhecidos a não resistir ao vírus enquanto esperavam, precisamente “na altura certa”. Faltavam alguns dias para completar 60 anos. “Foi a minha prenda”, brinca.
Começou a tomar os comprimidos em 9 de Fevereiro de 2015 (ele faz anos a 28 desse mês) e, na primeira análise, em Março, já tinha “negativado”. Para quem tinha ponderado antes a hipótese de fazer um transplante de fígado e chegado a equacionar a possibilidade de ir à Índia comprar os medicamentos inovadores, ficar sem sinais do vírus em apenas de um mês representou “algo de extraordinário”. “Salvou-me a vida”, remata o vocalista dos GNR que, no final de 2015, foi dado como curado.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu.” Reininho experimentou na pele a dureza do tratamento com interferão. “Era violentíssimo”, com injecções três vezes por semana, associado à ribavirina e outras variantes, durante um processo que durava “um ano e três meses”. Sentia-se “permanentemente arrasado”.
Em 2014, admite, ficou “desmoralizado” e pensou em desistir. “Estava à espera há um ano…” Nessa altura via o futuro a desintegrar-se. Estava, sintomaticamente, a compor o álbum Caixa Negra — era essa a cor com que via o mundo. “Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’”, descreve. “Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”, ironiza.
“Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco [Caixa Negra] sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’. Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”
Agora oficialmente curado, o lema do vocalista dos GNR é “nada de começar a estragar o fígado, de beber champanhe, acabou-se o bacalhau assado e os rojões”. Cortou completamente com o cloreto de sódio, com fritos, com carnes, tornou-se quase vegetariano. A dieta resultou. Se antes sentia “imensas dificuldades a nível orgânico”, agora consegue aguentar espectáculos “de hora e meia a duas horas com outra energia”. Os valores do fígado voltaram aos dos anos 1970. Ora, acontecer isto a alguém que tem 61 anos é fenomenal, até porque “os artistas não têm outras fontes de rendimento”, enfatiza.
A um ano de completar 40 anos de actividade, o vocalista afirma-se assim muito responsável e sabe que, apesar de considerado curado, tem que continuar com a vigilância e a cuidar de si. Até porque está a usufruir de uma espécie de segunda vida. “Agora tenho que ter muito cuidado a atravessar a rua…”
“Querida, faz as malas porque estás quase a partir”
Natália Faria, in Púbico on-line
Pouco depois de se ter descoberto portadora do vírus da Hepatite C, Mónica Oliveira, de 52 anos, recebeu um diagnóstico de morte certa. Andou dez anos a adiar essa sentença. No final do ano passado, foi dada como curada. Agora, o médico diz-lhe que vai morrer, sim, mas de velha.
Mónica Oliveira costumava dizer que não tinha tempo para estar doente até que, aos 42 anos, se sentiu empurrada de um precipício. “Tinha descoberto há pouco que era portadora de hepatite C e, ao fim de quatro meses de tratamento, a médica virou-se para mim e muito calmamente disse: ‘No seu caso não há nada a fazer, a senhora já sabia que o tratamento não funciona com toda a gente, vá a casa buscar os medicamentos que são muito caros e entregue-os na farmácia do hospital’. Assim, como quem diz: ‘Querida, faz as malas porque estás quase a partir’. Eu, que tenho medo de alturas, senti que me estavam a empurrar de um precipício e que só tinha algum tempo até chegar lá abaixo e morrer.”
Passaram-se dez anos. Mónica não só não morreu como está curada da doença. Graças ao sofosbuvir, mas também graças àquele que hoje aponta como “o homem da sua vida”, o hepatologista Fernando Ramalho, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Tinha-o ouvido numa entrevista na RTP1 e, quando entrei no consultório dele, a primeira coisa que me disse foi: ‘Ainda bem que está aqui porque podia ter morrido’. Percebi depois que o tratamento que tinha feito durante quatro meses no Hospital do Barreiro não tinha feito mais do que aumentar-me a carga viral, de 60 mil vírus por litro de sangue para 120 milhões. No fundo, foram quatro meses a ‘alimentar o bichinho’. E isto porque o tratamento tinha sido iniciado sem que me tivessem feito sequer uma biópsia para ver como estava o fígado.”
“O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”
Estávamos em 2006. Numa altura, portanto, em que a terapêutica clássica para o vírus consistia numa injecção de interferão uma vez por semana e na toma diária de comprimidos de ribavirina, durante seis a 12 meses. “O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”, recorda. Se a médica que a atendeu no Hospital do Barreiro lhe tivesse feito o estudo genético, teria percebido que Mónica tem uma mutação genética que torna o seu organismo resistente à quimioterapia.
No Hospital de Santa Maria, esse estudo foi das primeiras coisas a serem feitas. “O doutor Fernando Ramalho avisou-me logo que os tratamentos não iam curar-me. Mas a ideia era diminuir a carga viral para que o fígado aguentasse o maior número de meses e de anos, até que novos tratamentos fossem desenvolvidos. Ele era informado, tinha recebido formação nos Estados Unidos, sabia que isso era possível.”
Mónica andou assim vários anos a adiar a sua sentença de morte. “Não foi fácil. A minha filha tinha na altura 12 anos e passou a adolescência a ver a mãe doente, sempre deitada no sofá, o dinheiro a faltar…” O emprego como educadora de infância ficou em águas de bacalhau enquanto a doença fazia o seu caminho. O marido ficara entretanto desempregado. Para piorar o cenário, tinha ainda a cargo duas enteadas, uma das quais grávida de sete meses e que tinha sido abandonada pelo pai da criança.
“O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”
“A minha sorte é que, como nunca tinha tido comportamentos de risco, ou seja, nunca gostei de fumar nem de beber, o fígado levou mais tempo a ser agredido pelo vírus. E houve outra coisa que me ajudou: nunca me senti discriminada, nunca vi um olhar de reprimenda, nem mesmo por trabalhar com crianças.”
O ponto de viragem aconteceu em Dezembro de 2015. “Foi quando me disseram: ‘Está curada’. Tinha iniciado o tratamento em Junho desse ano e fi-lo durante três meses, mas, ao fim de duas semanas, já tinha o vírus indetectável.”
O tratamento provocava-lhe cansaço, mas nada a que não estivesse habituada. “Comparativamente com os tratamentos anteriores, que foram mesmo maus, este quase não teve efeitos secundários, a não ser o cansaço. Houve uma altura em que me esquecia das coisas, até achei que estava com Alzheimer, mas já estava tão habituada a sentir-me mal que desvalorizava as coisas. Depois, descobri que estava com falta de zinco. E agora também estou a fazer ferro injectável.”
Nada que se compare com uma sentença de morte a prazo. “O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”.
Pouco depois de se ter descoberto portadora do vírus da Hepatite C, Mónica Oliveira, de 52 anos, recebeu um diagnóstico de morte certa. Andou dez anos a adiar essa sentença. No final do ano passado, foi dada como curada. Agora, o médico diz-lhe que vai morrer, sim, mas de velha.
Mónica Oliveira costumava dizer que não tinha tempo para estar doente até que, aos 42 anos, se sentiu empurrada de um precipício. “Tinha descoberto há pouco que era portadora de hepatite C e, ao fim de quatro meses de tratamento, a médica virou-se para mim e muito calmamente disse: ‘No seu caso não há nada a fazer, a senhora já sabia que o tratamento não funciona com toda a gente, vá a casa buscar os medicamentos que são muito caros e entregue-os na farmácia do hospital’. Assim, como quem diz: ‘Querida, faz as malas porque estás quase a partir’. Eu, que tenho medo de alturas, senti que me estavam a empurrar de um precipício e que só tinha algum tempo até chegar lá abaixo e morrer.”
Passaram-se dez anos. Mónica não só não morreu como está curada da doença. Graças ao sofosbuvir, mas também graças àquele que hoje aponta como “o homem da sua vida”, o hepatologista Fernando Ramalho, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Tinha-o ouvido numa entrevista na RTP1 e, quando entrei no consultório dele, a primeira coisa que me disse foi: ‘Ainda bem que está aqui porque podia ter morrido’. Percebi depois que o tratamento que tinha feito durante quatro meses no Hospital do Barreiro não tinha feito mais do que aumentar-me a carga viral, de 60 mil vírus por litro de sangue para 120 milhões. No fundo, foram quatro meses a ‘alimentar o bichinho’. E isto porque o tratamento tinha sido iniciado sem que me tivessem feito sequer uma biópsia para ver como estava o fígado.”
“O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”
Estávamos em 2006. Numa altura, portanto, em que a terapêutica clássica para o vírus consistia numa injecção de interferão uma vez por semana e na toma diária de comprimidos de ribavirina, durante seis a 12 meses. “O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”, recorda. Se a médica que a atendeu no Hospital do Barreiro lhe tivesse feito o estudo genético, teria percebido que Mónica tem uma mutação genética que torna o seu organismo resistente à quimioterapia.
No Hospital de Santa Maria, esse estudo foi das primeiras coisas a serem feitas. “O doutor Fernando Ramalho avisou-me logo que os tratamentos não iam curar-me. Mas a ideia era diminuir a carga viral para que o fígado aguentasse o maior número de meses e de anos, até que novos tratamentos fossem desenvolvidos. Ele era informado, tinha recebido formação nos Estados Unidos, sabia que isso era possível.”
Mónica andou assim vários anos a adiar a sua sentença de morte. “Não foi fácil. A minha filha tinha na altura 12 anos e passou a adolescência a ver a mãe doente, sempre deitada no sofá, o dinheiro a faltar…” O emprego como educadora de infância ficou em águas de bacalhau enquanto a doença fazia o seu caminho. O marido ficara entretanto desempregado. Para piorar o cenário, tinha ainda a cargo duas enteadas, uma das quais grávida de sete meses e que tinha sido abandonada pelo pai da criança.
“O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”
“A minha sorte é que, como nunca tinha tido comportamentos de risco, ou seja, nunca gostei de fumar nem de beber, o fígado levou mais tempo a ser agredido pelo vírus. E houve outra coisa que me ajudou: nunca me senti discriminada, nunca vi um olhar de reprimenda, nem mesmo por trabalhar com crianças.”
O ponto de viragem aconteceu em Dezembro de 2015. “Foi quando me disseram: ‘Está curada’. Tinha iniciado o tratamento em Junho desse ano e fi-lo durante três meses, mas, ao fim de duas semanas, já tinha o vírus indetectável.”
O tratamento provocava-lhe cansaço, mas nada a que não estivesse habituada. “Comparativamente com os tratamentos anteriores, que foram mesmo maus, este quase não teve efeitos secundários, a não ser o cansaço. Houve uma altura em que me esquecia das coisas, até achei que estava com Alzheimer, mas já estava tão habituada a sentir-me mal que desvalorizava as coisas. Depois, descobri que estava com falta de zinco. E agora também estou a fazer ferro injectável.”
Nada que se compare com uma sentença de morte a prazo. “O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”.
19.7.16
Parlamento quer apoios para cuidadores informais. Direito a descanso é uma das medidas
Alexandra Campos, in Público on-line
Ministério da Saúde avisa que só deverá haver "medidas para discussão" no final do ano.
Criar o estatuto de cuidador informal, uma promessa repetida ao longo dos últimos anos mas que tem sido sempre adiada, e definir medidas de apoio às pessoas (familiares, vizinhos ou amigos) que cuidam dos dependentes em casa são as recomendações feitas ao Governo pela Assembleia da República em duas resoluções que esta segunda-feira foram publicadas em Diário da República.
Mas o Ministério da Saúde, que está a trabalhar nesta matéria em articulação com o Ministério do Trabalho e da Solidariedade e Segurança Social, adiantou ao PÚBLICO que apenas “será previsível” haver “medidas para discussão” no último trimestre deste ano.
As medidas de apoio sugeridas nas resoluções da Assembleia da República passam pela possibilidade de os cuidadores informais fazerem deduções fiscais em sede de IRS e pela garantia da possibilidade de internamento temporário de pessoas dependentes para que os cuidadores possam descansar, o chamado “direito ao descanso”.
As medidas que podem ter mais impacto na vida dos cuidadores informais terão, porém, que ser definidas em sede de Conselho Económico e Social. É o caso do alargamento das licenças para assistência a familiar dependente, de condições favoráveis de acesso à pré-reforma e da possibilidade de aplicação de horários de trabalho reduzidos, de jornada contínua ou meia jornada, além do teletrabalho, sem redução da remuneração.
Outra proposta passa pelo direito a baixa médica prolongada para assistência a pessoa sinalizada pelas redes de cuidados continuados integrados ou paliativos. Sugere-se ainda a formação básica dos cuidadores informais e preconiza-se mesmo a avaliação da possibilidade de atribuição de apoios directos, “atendendo a que a não institucionalização significa objectivamente uma poupança de recursos públicos”.
Mais de 48 mil pessoas acamadas
As resoluções da Assembleia da República resultam dos cinco projectos apresentados e aprovados em Maio pelo PS, PSD, BE, PCP, CDS-PP. Nesta matéria, os projectos de resolução apresentavam muitos pontos em comum. Na sua proposta, o PS citava um estudo do Observatório Português dos Sistemas de Saúde de 2015 que estimava que, nos 3.869.188 agregados familiares portugueses então existentes, haveria 110.355 pessoas com défice de auto-cuidado nos domicílios. Deste total, mais de 48 mil eram pessoas acamadas.
Os actuais responsáveis do Ministério da Saúde já anunciaram por diversas vezes que pretendem criar benefícios e apoios para as pessoas que cuidam dos seus idosos e pessoas dependentes em casa, mas lembraram que a criação do estatuto do cuidador informal é um trabalho que implica uma articulação da Saúde com a Segurança Social e as Finanças. E, apesar de enfatizarem que a aposta no apoio aos cuidadores informais é prioritária, avisaram que este estatuto, que já existe em vários países europeus, irá avançar por fases.
Para este ano, o que está nos planos dos responsáveis é avançar com a capacitação de alguns cuidadores, ensinando-os a desempenhar tarefas básicas, o que ficará a cargo das equipas de saúde que vão a casa dos dependentes. Já as medidas com repercussão orçamental, como por exemplo os benefícios fiscais e flexibilidade laboral, só avançarão em 2017.
Numa das recomendações esta segunda-feira publicadas reclama-se ainda o restabelecimento urgente do funcionamento da Linha Saúde 24 Sénior - que foi suspensa pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) no início deste ano. O PÚBLICO perguntou à DGS o que tenciona fazer sobre esta matéria, mas não obteve qualquer resposta. Já o Ministério da Saúde explicou que o restabelecimento da Linha Saúde Sénior está incluído no "projecto do futuro Centro de Atendimento do SNS", cujo concurso público será “brevemente lançado”.
Ministério da Saúde avisa que só deverá haver "medidas para discussão" no final do ano.
Criar o estatuto de cuidador informal, uma promessa repetida ao longo dos últimos anos mas que tem sido sempre adiada, e definir medidas de apoio às pessoas (familiares, vizinhos ou amigos) que cuidam dos dependentes em casa são as recomendações feitas ao Governo pela Assembleia da República em duas resoluções que esta segunda-feira foram publicadas em Diário da República.
Mas o Ministério da Saúde, que está a trabalhar nesta matéria em articulação com o Ministério do Trabalho e da Solidariedade e Segurança Social, adiantou ao PÚBLICO que apenas “será previsível” haver “medidas para discussão” no último trimestre deste ano.
As medidas de apoio sugeridas nas resoluções da Assembleia da República passam pela possibilidade de os cuidadores informais fazerem deduções fiscais em sede de IRS e pela garantia da possibilidade de internamento temporário de pessoas dependentes para que os cuidadores possam descansar, o chamado “direito ao descanso”.
As medidas que podem ter mais impacto na vida dos cuidadores informais terão, porém, que ser definidas em sede de Conselho Económico e Social. É o caso do alargamento das licenças para assistência a familiar dependente, de condições favoráveis de acesso à pré-reforma e da possibilidade de aplicação de horários de trabalho reduzidos, de jornada contínua ou meia jornada, além do teletrabalho, sem redução da remuneração.
Outra proposta passa pelo direito a baixa médica prolongada para assistência a pessoa sinalizada pelas redes de cuidados continuados integrados ou paliativos. Sugere-se ainda a formação básica dos cuidadores informais e preconiza-se mesmo a avaliação da possibilidade de atribuição de apoios directos, “atendendo a que a não institucionalização significa objectivamente uma poupança de recursos públicos”.
Mais de 48 mil pessoas acamadas
As resoluções da Assembleia da República resultam dos cinco projectos apresentados e aprovados em Maio pelo PS, PSD, BE, PCP, CDS-PP. Nesta matéria, os projectos de resolução apresentavam muitos pontos em comum. Na sua proposta, o PS citava um estudo do Observatório Português dos Sistemas de Saúde de 2015 que estimava que, nos 3.869.188 agregados familiares portugueses então existentes, haveria 110.355 pessoas com défice de auto-cuidado nos domicílios. Deste total, mais de 48 mil eram pessoas acamadas.
Os actuais responsáveis do Ministério da Saúde já anunciaram por diversas vezes que pretendem criar benefícios e apoios para as pessoas que cuidam dos seus idosos e pessoas dependentes em casa, mas lembraram que a criação do estatuto do cuidador informal é um trabalho que implica uma articulação da Saúde com a Segurança Social e as Finanças. E, apesar de enfatizarem que a aposta no apoio aos cuidadores informais é prioritária, avisaram que este estatuto, que já existe em vários países europeus, irá avançar por fases.
Para este ano, o que está nos planos dos responsáveis é avançar com a capacitação de alguns cuidadores, ensinando-os a desempenhar tarefas básicas, o que ficará a cargo das equipas de saúde que vão a casa dos dependentes. Já as medidas com repercussão orçamental, como por exemplo os benefícios fiscais e flexibilidade laboral, só avançarão em 2017.
Numa das recomendações esta segunda-feira publicadas reclama-se ainda o restabelecimento urgente do funcionamento da Linha Saúde 24 Sénior - que foi suspensa pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) no início deste ano. O PÚBLICO perguntou à DGS o que tenciona fazer sobre esta matéria, mas não obteve qualquer resposta. Já o Ministério da Saúde explicou que o restabelecimento da Linha Saúde Sénior está incluído no "projecto do futuro Centro de Atendimento do SNS", cujo concurso público será “brevemente lançado”.
27.4.16
Nova terapêutica da hepatite C curou 2050 doentes
in Público on-line
Mais de 9000 pessoas estão actualmente em tratamento em Portugal.
A presidente da Associação SOS Hepatites, Emília Rodrigues, disse nesta quarta-feira à agência Lusa que no espaço de um ano foram evitadas "cerca de 2050 mortes" prematuras de doentes com hepatite C, graças às novas terapêuticas disponibilizadas em Portugal.
"Até este mês de Abril, temos cerca de 9100 doentes em tratamento e temos cerca de 2050 curados", afirmou Emília Rodrigues.
Segundo explicou à Lusa, há doentes que estão a iniciar o tratamento e outros que eventualmente estão curados, mas "só seis meses após a conclusão do tratamento é que se pode ter essa certeza". Em relação aos 2050, já passaram os seis meses, pelo que se consideram curados.
O acordo entre o Estado e o laboratório que fornece os medicamentos inovadores para a hepatite C foi formalizado há um ano, tendo sido apresentado pelo então ministro da Saúde, Paulo Macedo, no dia 6 de Fevereiro de 2015.
Este acordo foi alcançado depois de meses de luta dos doentes para conseguirem obter o tratamento, processo que ficou marcado pela intervenção, na Assembleia da República, de um portador de hepatite C, José Carlos Saldanha, que interrompeu a audição do então ministro da Saúde pedindo-lhe que não o deixasse morrer.
"Termos estes doentes em tratamento e estes doentes curados para nós é uma vitória porque são pessoas que não vão morrer precocemente, é também uma vitória porque deixou de ser a 'doença dos divórcios' para passar a ser a doença da alegria. Com 97% de cura, é uma alegria", sublinhou.
Segundo a responsável, há um ano existiam 13 mil doentes com hepatite C nas consultas do Serviço Nacional de Saúde, mas "o número de infectados não diagnosticados deverá ser muito superior".
Investir no diagnóstico
A experiência nacional da terapêutica da hepatite C e as complicações da doença hepática crónica vão estar em análise no Congresso Português de Hepatologia 2016, que começa na quinta-feira, no Porto, organizado pela Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF).
Em declarações à Lusa, a presidente da APEF, Isabel Pedroto, referiu que "a terapêutica na hepatite C tem evoluído muito, têm sido tratados milhares de pessoas, mas há um grupo de doentes para os quais urgem novas terapêuticas e com melhor resposta, nomeadamente os doentes com doença muito avançada do fígado e os doentes com um subtipo muito específico, que é o tipo 3 do vírus da hepatite C".
"Estes doentes ainda estão sem uma terapêutica tão eficaz quanto os restantes, mas tem havido um grande avanço nesta área. Algumas terapêuticas estão em fase de desenvolvimento, ainda não estão aprovadas, mas vêm de facto preencher essa lacuna", sublinhou.
No congresso, segundo a especialista, pretende-se "reflectir sobre o problema", na medida em que "não chega só tratar os doentes que conhecemos, mais importante é identificar a percentagem de doentes que estão infectados, e são muitos, e que não sabem".
"Não podendo tratar esses doentes, não investindo no diagnóstico e no rastreio, dificilmente vamos conseguir ganhos em saúde, mesmo com as melhores terapêuticas do mundo. Temos de saber a quem dar essas terapêuticas e saber onde é que esses doentes estão", defendeu Isabel Pedroto.
"A situação de Portugal é excelente, tratamos milhares de doentes, mas também temos a consciência de que só conseguimos reduzir a transmissão da doença se formos procurar aqueles que estão numa fase inicial", disse.
Segundo dados da associação, em Portugal apenas 30% dos indivíduos infectados pelo vírus da hepatite C estão identificados.
"Em termos de saúde pública, a terapêutica para a hepatite C só pode ser considerada um bom investimento se se fomentar o diagnóstico, a prevenção, a vigilância dos grupos de risco e uma maior acessibilidade ao tratamento", frisou.
O tumor maligno do fígado encontra-se no ranking das dez causas de morte mais frequentes em Portugal, ocupando a 8.ª e a 9.ª posições nas faixas etárias dos 45-64 anos e dos 65-74 anos, respectivamente.
Mais de 9000 pessoas estão actualmente em tratamento em Portugal.
A presidente da Associação SOS Hepatites, Emília Rodrigues, disse nesta quarta-feira à agência Lusa que no espaço de um ano foram evitadas "cerca de 2050 mortes" prematuras de doentes com hepatite C, graças às novas terapêuticas disponibilizadas em Portugal.
"Até este mês de Abril, temos cerca de 9100 doentes em tratamento e temos cerca de 2050 curados", afirmou Emília Rodrigues.
Segundo explicou à Lusa, há doentes que estão a iniciar o tratamento e outros que eventualmente estão curados, mas "só seis meses após a conclusão do tratamento é que se pode ter essa certeza". Em relação aos 2050, já passaram os seis meses, pelo que se consideram curados.
O acordo entre o Estado e o laboratório que fornece os medicamentos inovadores para a hepatite C foi formalizado há um ano, tendo sido apresentado pelo então ministro da Saúde, Paulo Macedo, no dia 6 de Fevereiro de 2015.
Este acordo foi alcançado depois de meses de luta dos doentes para conseguirem obter o tratamento, processo que ficou marcado pela intervenção, na Assembleia da República, de um portador de hepatite C, José Carlos Saldanha, que interrompeu a audição do então ministro da Saúde pedindo-lhe que não o deixasse morrer.
"Termos estes doentes em tratamento e estes doentes curados para nós é uma vitória porque são pessoas que não vão morrer precocemente, é também uma vitória porque deixou de ser a 'doença dos divórcios' para passar a ser a doença da alegria. Com 97% de cura, é uma alegria", sublinhou.
Segundo a responsável, há um ano existiam 13 mil doentes com hepatite C nas consultas do Serviço Nacional de Saúde, mas "o número de infectados não diagnosticados deverá ser muito superior".
Investir no diagnóstico
A experiência nacional da terapêutica da hepatite C e as complicações da doença hepática crónica vão estar em análise no Congresso Português de Hepatologia 2016, que começa na quinta-feira, no Porto, organizado pela Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF).
Em declarações à Lusa, a presidente da APEF, Isabel Pedroto, referiu que "a terapêutica na hepatite C tem evoluído muito, têm sido tratados milhares de pessoas, mas há um grupo de doentes para os quais urgem novas terapêuticas e com melhor resposta, nomeadamente os doentes com doença muito avançada do fígado e os doentes com um subtipo muito específico, que é o tipo 3 do vírus da hepatite C".
"Estes doentes ainda estão sem uma terapêutica tão eficaz quanto os restantes, mas tem havido um grande avanço nesta área. Algumas terapêuticas estão em fase de desenvolvimento, ainda não estão aprovadas, mas vêm de facto preencher essa lacuna", sublinhou.
No congresso, segundo a especialista, pretende-se "reflectir sobre o problema", na medida em que "não chega só tratar os doentes que conhecemos, mais importante é identificar a percentagem de doentes que estão infectados, e são muitos, e que não sabem".
"Não podendo tratar esses doentes, não investindo no diagnóstico e no rastreio, dificilmente vamos conseguir ganhos em saúde, mesmo com as melhores terapêuticas do mundo. Temos de saber a quem dar essas terapêuticas e saber onde é que esses doentes estão", defendeu Isabel Pedroto.
"A situação de Portugal é excelente, tratamos milhares de doentes, mas também temos a consciência de que só conseguimos reduzir a transmissão da doença se formos procurar aqueles que estão numa fase inicial", disse.
Segundo dados da associação, em Portugal apenas 30% dos indivíduos infectados pelo vírus da hepatite C estão identificados.
"Em termos de saúde pública, a terapêutica para a hepatite C só pode ser considerada um bom investimento se se fomentar o diagnóstico, a prevenção, a vigilância dos grupos de risco e uma maior acessibilidade ao tratamento", frisou.
O tumor maligno do fígado encontra-se no ranking das dez causas de morte mais frequentes em Portugal, ocupando a 8.ª e a 9.ª posições nas faixas etárias dos 45-64 anos e dos 65-74 anos, respectivamente.
21.4.16
Com 15 anos, Elisabete curou-se como 75% das pessoas que têm cancro na infância
Ana Dias Cordeiro, in Público on-line
Quando tinha 14 anos, Elisabete Chança passava três semanas por mês no IPO, duas delas em isolamento. Ao fim de um ano curou-se e hoje vive uma vida normal. Como ela há pelo menos mais 1500 pessoas em Portugal.
Começado o tratamento depois de diagnosticada a doença, Elisabete Chança não teve dúvidas de que sobreviveria. “Sempre me deram certezas”, diz. Mas quando teve alta, soube que os médicos, em duas ou três ocasiões, duvidaram. “O coração estava fraco e eles não tinham a certeza que eu suportasse o tratamento. Mas sempre me foi dito: ‘Estamos no bom caminho.’ Fomos resguardados dessa incerteza.” Talvez por isso, sentiu-se quase sempre com força para acreditar. Tinha 14 anos. Aos 15 anos, estava curada e voltou a estudar. Emocionalmente teve um outro episódio em que o seu mundo desabou, mas foi fisicamente que se sentiu muito mal, recorda. “O caminho é mesmo para a frente.”
Hoje com 27 anos e a trabalhar na área do turismo em Sintra, onde vive, Elisabete é uma sobrevivente de cancro pediátrico, entre pelo menos 1500 pessoas na mesma situação em Portugal, diz Ana Teixeira, pediatra no Serviço de Pediatria do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, que em 2007 criou a consulta dos DUROS (Doentes que Ultrapassam a Realidade Oncológica com Sucesso), destinada a todos os doentes do serviço que tenham terminado a terapêutica há mais de cinco anos. Mas essa é apenas uma estimativa. Podem ser mais.
A consulta em Lisboa acompanha actualmente 744 pessoas, tendo a maioria (86%) entre dez e 30 anos. Nos Estados Unidos, serão mais de 40 mil sobreviventes de cancro pediátrico, diz a especialista. “O objectivo desta consulta é tentar melhorar e harmonizar a vigilância que é feita em toda a Europa, prevenir o aparecimento de efeitos secundários tardios que possam comprometer a vida ou a qualidade de vida”, explica.
Sobreviver a uma leucemia
A taxa de sobrevida das pessoas que tiveram um cancro na infância tem vindo a aumentar e rondou, nos últimos anos, os 75% em Portugal e noutros países. Não há estatísticas para fazer uma leitura de como a taxa de sobrevida evoluiu. Mas comparativamente aos anos 1960, por exemplo, uma criança não sobrevivia a uma leucemia e, agora, uma criança com leucemia tem uma elevada probabilidade de sobreviver (85%), explica a médica pediatra. A taxa de sobrevida ainda é mais elevada para os tumores renais ou os linfomas de Hodgkin (97%).
86%
das 744 pessoas seguidas na consulta dos DUROS têm entre dez e 30 anos
Os dados relativos aos últimos cinco anos em Portugal vão ser apresentados esta quinta-feira no 17.º Encontro da PanCare, a rede europeia de profissionais de saúde que se dedicam ao acompanhamento a longo prazo dos sobreviventes de cancro pediátrico, como os profissionais da consulta dos DUROS. O encontro, na Fundação Calouste Gulbenkian, começou ontem e termina nesta sexta-feira.
A infertilidade em resultado dos tratamentos “tem vindo a tornar-se um problema cada vez mais raro, com uma melhor adequação das doses de quimioterapia e radioterapia a aplicar”, salienta ainda Ana Teixeira. E refere que 42 sobreviventes de cancro pediátrico tiveram 48 filhos.
Os casos mais graves representam uma pequena minoria. Do conjunto de pessoas acompanhadas na consulta dos DUROS, houve 32 casos em que a pessoa sofreu um segundo cancro e cinco recidivas tardias. O risco de segundas neoplasias é seis vezes superior ao de uma pessoa que teve um cancro pediátrico. Mas, como diz Ana Teixeira, “é o preço a pagar por vivermos mais tempo” — o que se aplica a quem teve ou não um cancro na infância.
Quando estava doente, Elisabete passou muito tempo sozinha — a pintar, a ler, a ouvir música ou ver televisão. “Mas guardamos histórias para o resto da nossa vida, de pessoas que guardamos na memória, com carinho, algumas que infelizmente já não estão cá”
Por outro lado, existe um grupo mais vulnerável que, quando sobrevive, sobrevive com muitas sequelas. São normalmente pessoas que sofreram tumores no sistema nervoso central. “Ao irradiarmos o cérebro, estamos a comprometer uma série de funções, como as funções cognitivas ou endócrinas”, diz a pediatra do IPO. Também podem surgir problemas comportamentais ou cardíacos.
"Uma vitória muito grande"
Elisabete Chança começou por sentir uma forte dor nas costas. Um dia, durante as férias do Natal, tinha as pernas totalmente dormentes ao acordar. Horas depois não caminhava nem se equilibrava sozinha. Era uma adolescente. Na escola frequentava o 9.º ano. Rapidamente ficou paralisada, sem conseguir sentir os movimentos das pernas. Começou por ir à urgência de Pediatria do Amadora-Sintra, de onde foi transferida para o Garcia de Orta, e aí ficou internada para a ressonância magnética e outros exames. Na cirurgia, tiraram-lhe “uma massa instalada na medula” para análise. Era a fase das suspeitas e de nenhuma certeza, diz Elisabete. Inicialmente, os médicos suspeitaram de um linfoma. Depois confirmou-se um sarcoma de Ewing. Num ano de tratamentos intensivos, ficaria curada.
42
sobreviventes tiveram 48 filhos. A infertilidade como consequência das terapêuticas tem-se tornado um problema cada vez mais raro
“Foi um sofrimento muito grande, mas também uma aprendizagem muito grande e uma vitória muito grande”, diz a mãe, Preciosa Chança. “Foi andar para a frente”, acrescenta Elisabete. “Decidi rapar o cabelo, para não o ver cair.”
Foram 12 meses de tratamentos, em semanas alternadas de quimioterapia e radioterapia. Passava três semanas por mês no hospital, duas das quais em isolamento, onde só contactava com a mãe, médicos e enfermeiros. “Para que o tratamento fizesse mesmo efeito, e porque as nossas defesas vão completamente abaixo, somos levados para o isolamento, esperamos que os valores voltem a subir, e só depois podemos sair”, explica.
Passou muito tempo sozinha — a pintar, a ler, a ouvir música ou ver televisão. “Mas guardamos histórias para o resto da nossa vida, de pessoas que guardamos na memória, com carinho, algumas que infelizmente já não estão cá”, diz Elisabete.
Tudo isso acabou finalmente. Quando terminou o tratamento, passou a ser seguida no IPO uma vez por mês, depois de dois em dois meses, três, quatro, até a consulta passar a ser anual, cinco anos depois de estar curada. Nessa altura passou a ser seguida na consulta dos DUROS, onde lhe são feitas análises sanguíneas, raios-X (porque a radioterapia incidiu muito no coração e pulmões) e espaçadamente é submetida a novas ressonâncias magnéticas ou exames mais específicos.
“No meio disto tudo, sinto que tive sorte”, diz. Pela família, pelos amigos e pelos colegas que nunca deixaram de estar perto dela. “Quando estava em casa, amigos e colegas da escola reuniam-se para vir ver-me. E quando tinha algumas forças, eu própria ia à escola. Era bom para mim, e para eles, para saberem que eu ainda estava viva.”
Quando tinha 14 anos, Elisabete Chança passava três semanas por mês no IPO, duas delas em isolamento. Ao fim de um ano curou-se e hoje vive uma vida normal. Como ela há pelo menos mais 1500 pessoas em Portugal.
Começado o tratamento depois de diagnosticada a doença, Elisabete Chança não teve dúvidas de que sobreviveria. “Sempre me deram certezas”, diz. Mas quando teve alta, soube que os médicos, em duas ou três ocasiões, duvidaram. “O coração estava fraco e eles não tinham a certeza que eu suportasse o tratamento. Mas sempre me foi dito: ‘Estamos no bom caminho.’ Fomos resguardados dessa incerteza.” Talvez por isso, sentiu-se quase sempre com força para acreditar. Tinha 14 anos. Aos 15 anos, estava curada e voltou a estudar. Emocionalmente teve um outro episódio em que o seu mundo desabou, mas foi fisicamente que se sentiu muito mal, recorda. “O caminho é mesmo para a frente.”
Hoje com 27 anos e a trabalhar na área do turismo em Sintra, onde vive, Elisabete é uma sobrevivente de cancro pediátrico, entre pelo menos 1500 pessoas na mesma situação em Portugal, diz Ana Teixeira, pediatra no Serviço de Pediatria do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, que em 2007 criou a consulta dos DUROS (Doentes que Ultrapassam a Realidade Oncológica com Sucesso), destinada a todos os doentes do serviço que tenham terminado a terapêutica há mais de cinco anos. Mas essa é apenas uma estimativa. Podem ser mais.
A consulta em Lisboa acompanha actualmente 744 pessoas, tendo a maioria (86%) entre dez e 30 anos. Nos Estados Unidos, serão mais de 40 mil sobreviventes de cancro pediátrico, diz a especialista. “O objectivo desta consulta é tentar melhorar e harmonizar a vigilância que é feita em toda a Europa, prevenir o aparecimento de efeitos secundários tardios que possam comprometer a vida ou a qualidade de vida”, explica.
Sobreviver a uma leucemia
A taxa de sobrevida das pessoas que tiveram um cancro na infância tem vindo a aumentar e rondou, nos últimos anos, os 75% em Portugal e noutros países. Não há estatísticas para fazer uma leitura de como a taxa de sobrevida evoluiu. Mas comparativamente aos anos 1960, por exemplo, uma criança não sobrevivia a uma leucemia e, agora, uma criança com leucemia tem uma elevada probabilidade de sobreviver (85%), explica a médica pediatra. A taxa de sobrevida ainda é mais elevada para os tumores renais ou os linfomas de Hodgkin (97%).
86%
das 744 pessoas seguidas na consulta dos DUROS têm entre dez e 30 anos
Os dados relativos aos últimos cinco anos em Portugal vão ser apresentados esta quinta-feira no 17.º Encontro da PanCare, a rede europeia de profissionais de saúde que se dedicam ao acompanhamento a longo prazo dos sobreviventes de cancro pediátrico, como os profissionais da consulta dos DUROS. O encontro, na Fundação Calouste Gulbenkian, começou ontem e termina nesta sexta-feira.
A infertilidade em resultado dos tratamentos “tem vindo a tornar-se um problema cada vez mais raro, com uma melhor adequação das doses de quimioterapia e radioterapia a aplicar”, salienta ainda Ana Teixeira. E refere que 42 sobreviventes de cancro pediátrico tiveram 48 filhos.
Os casos mais graves representam uma pequena minoria. Do conjunto de pessoas acompanhadas na consulta dos DUROS, houve 32 casos em que a pessoa sofreu um segundo cancro e cinco recidivas tardias. O risco de segundas neoplasias é seis vezes superior ao de uma pessoa que teve um cancro pediátrico. Mas, como diz Ana Teixeira, “é o preço a pagar por vivermos mais tempo” — o que se aplica a quem teve ou não um cancro na infância.
Quando estava doente, Elisabete passou muito tempo sozinha — a pintar, a ler, a ouvir música ou ver televisão. “Mas guardamos histórias para o resto da nossa vida, de pessoas que guardamos na memória, com carinho, algumas que infelizmente já não estão cá”
Por outro lado, existe um grupo mais vulnerável que, quando sobrevive, sobrevive com muitas sequelas. São normalmente pessoas que sofreram tumores no sistema nervoso central. “Ao irradiarmos o cérebro, estamos a comprometer uma série de funções, como as funções cognitivas ou endócrinas”, diz a pediatra do IPO. Também podem surgir problemas comportamentais ou cardíacos.
"Uma vitória muito grande"
Elisabete Chança começou por sentir uma forte dor nas costas. Um dia, durante as férias do Natal, tinha as pernas totalmente dormentes ao acordar. Horas depois não caminhava nem se equilibrava sozinha. Era uma adolescente. Na escola frequentava o 9.º ano. Rapidamente ficou paralisada, sem conseguir sentir os movimentos das pernas. Começou por ir à urgência de Pediatria do Amadora-Sintra, de onde foi transferida para o Garcia de Orta, e aí ficou internada para a ressonância magnética e outros exames. Na cirurgia, tiraram-lhe “uma massa instalada na medula” para análise. Era a fase das suspeitas e de nenhuma certeza, diz Elisabete. Inicialmente, os médicos suspeitaram de um linfoma. Depois confirmou-se um sarcoma de Ewing. Num ano de tratamentos intensivos, ficaria curada.
42
sobreviventes tiveram 48 filhos. A infertilidade como consequência das terapêuticas tem-se tornado um problema cada vez mais raro
“Foi um sofrimento muito grande, mas também uma aprendizagem muito grande e uma vitória muito grande”, diz a mãe, Preciosa Chança. “Foi andar para a frente”, acrescenta Elisabete. “Decidi rapar o cabelo, para não o ver cair.”
Foram 12 meses de tratamentos, em semanas alternadas de quimioterapia e radioterapia. Passava três semanas por mês no hospital, duas das quais em isolamento, onde só contactava com a mãe, médicos e enfermeiros. “Para que o tratamento fizesse mesmo efeito, e porque as nossas defesas vão completamente abaixo, somos levados para o isolamento, esperamos que os valores voltem a subir, e só depois podemos sair”, explica.
Passou muito tempo sozinha — a pintar, a ler, a ouvir música ou ver televisão. “Mas guardamos histórias para o resto da nossa vida, de pessoas que guardamos na memória, com carinho, algumas que infelizmente já não estão cá”, diz Elisabete.
Tudo isso acabou finalmente. Quando terminou o tratamento, passou a ser seguida no IPO uma vez por mês, depois de dois em dois meses, três, quatro, até a consulta passar a ser anual, cinco anos depois de estar curada. Nessa altura passou a ser seguida na consulta dos DUROS, onde lhe são feitas análises sanguíneas, raios-X (porque a radioterapia incidiu muito no coração e pulmões) e espaçadamente é submetida a novas ressonâncias magnéticas ou exames mais específicos.
“No meio disto tudo, sinto que tive sorte”, diz. Pela família, pelos amigos e pelos colegas que nunca deixaram de estar perto dela. “Quando estava em casa, amigos e colegas da escola reuniam-se para vir ver-me. E quando tinha algumas forças, eu própria ia à escola. Era bom para mim, e para eles, para saberem que eu ainda estava viva.”
16.2.16
Mães que matam porque querem morrer
in Público on-line
Na noite de segunda-feira, uma mulher atirou-se ao rio Tejo com as duas filhas, de 4 anos e 18 meses. Não é a primeira que leva os filhos para a morte.
Janeiro de 2016
Uma mulher de 55 anos, doente oncológica e desempregada, envenenou o filho de 11 anos e suicidou-se de seguida, na Ponta do Sol, Madeira. Muito doente, enfraquecida pelos tratamentos, com dificuldades de locomoção, a mulher tinha-se separado do pai dos filhos há quatro anos. O seu último companheiro suicidara-se cerca de um mês antes.
Fevereiro de 2013
Manuela Paçó, uma professora de 47 anos, alojou-se com o filho de 12 anos num hotel de Bragança, atirou-o pela janela e saltou de seguida. O rapaz sofria de autismo. No quarto do hotel foram encontradas pizzas, refrigerantes e restos de embalagens de antidepressivos. Casada com o presidente da Assembleia Municipal de Vinhais, Manuela estaria há algum tempo com uma depressão.
213 544 545 SOS Voz Amiga Lisboa Atendimento das 16 às 24h. Outros números 912 802 669; 963 524 660
Janeiro de 2013
Eliana Sanches, 40 anos, professora de Educação Visual, envenenou os dois filhos, de 13 e 12 anos, e a seguir suicidou-se com um saco de plástico na cabeça. Os menores foram encontrados pela polícia no interior de um carro estacionado na mata do Jamor, Oeiras. O cadáver da mãe estava a poucos metros da viatura. Dois dias antes, o tribunal decidira entregar a guarda dos dois menores ao pai, de quem Eliana estava divorciada há cinco anos, e limitar as suas visitas aos filhos. Com uma depressão profunda, Eliana já tinha alertado os amigos: nunca entregaria as crianças ao pai.
112 Serviço Nacional de Socorro
Dezembro de 2012
Kelly Oliveira, 32 anos, aproveitou a ausência momentânea do companheiro para deitar fogo à casa, em Preces, Alenquer. Os dois filhos do casal luso-brasileiro, um com dois anos e outro com 11 meses, morreram asfixiados com o fumo. Em tribunal, Kelly, que vivia com muitas dificuldades económicas, justificou-se com os problemas de relacionamento com o companheiro, que temia poder ficar com a guarda das crianças em caso de separação. A família estava sinalizada desde Julho pelas autoridades, porque as crianças evidenciavam falta de cuidados. Na altura, a Segurança Social explicou que a situação dos menores tinha sido sinalizada à Comissão de Protecção de Crianças de Alenquer pelo centro de saúde e que, como os pais não autorizaram qualquer intervenção, o processo foi remetido para tribunal. Kelly foi condenada, em primeira instância, a 24 anos de prisão.
Agosto de 2012
Luciana Gioso, dentista de nacionalidade brasileira, 40 anos, provocou um incêndio e explosão na vivenda em que vivia em Castro Marim, no Algarve. Esperou que o marido saísse de casa, regou a cama e os armários com gasolina, fechou o quarto dos filhos à chave e pegou-lhes fogo. Morreu com os dois filhos, de 13 e 11 anos. A tomar antidepressivos, Luciana já tinha avisado alguns amigos mais próximos que tencionava suicidar-se.
Na noite de segunda-feira, uma mulher atirou-se ao rio Tejo com as duas filhas, de 4 anos e 18 meses. Não é a primeira que leva os filhos para a morte.
Janeiro de 2016
Uma mulher de 55 anos, doente oncológica e desempregada, envenenou o filho de 11 anos e suicidou-se de seguida, na Ponta do Sol, Madeira. Muito doente, enfraquecida pelos tratamentos, com dificuldades de locomoção, a mulher tinha-se separado do pai dos filhos há quatro anos. O seu último companheiro suicidara-se cerca de um mês antes.
Fevereiro de 2013
Manuela Paçó, uma professora de 47 anos, alojou-se com o filho de 12 anos num hotel de Bragança, atirou-o pela janela e saltou de seguida. O rapaz sofria de autismo. No quarto do hotel foram encontradas pizzas, refrigerantes e restos de embalagens de antidepressivos. Casada com o presidente da Assembleia Municipal de Vinhais, Manuela estaria há algum tempo com uma depressão.
213 544 545 SOS Voz Amiga Lisboa Atendimento das 16 às 24h. Outros números 912 802 669; 963 524 660
Janeiro de 2013
Eliana Sanches, 40 anos, professora de Educação Visual, envenenou os dois filhos, de 13 e 12 anos, e a seguir suicidou-se com um saco de plástico na cabeça. Os menores foram encontrados pela polícia no interior de um carro estacionado na mata do Jamor, Oeiras. O cadáver da mãe estava a poucos metros da viatura. Dois dias antes, o tribunal decidira entregar a guarda dos dois menores ao pai, de quem Eliana estava divorciada há cinco anos, e limitar as suas visitas aos filhos. Com uma depressão profunda, Eliana já tinha alertado os amigos: nunca entregaria as crianças ao pai.
112 Serviço Nacional de Socorro
Dezembro de 2012
Kelly Oliveira, 32 anos, aproveitou a ausência momentânea do companheiro para deitar fogo à casa, em Preces, Alenquer. Os dois filhos do casal luso-brasileiro, um com dois anos e outro com 11 meses, morreram asfixiados com o fumo. Em tribunal, Kelly, que vivia com muitas dificuldades económicas, justificou-se com os problemas de relacionamento com o companheiro, que temia poder ficar com a guarda das crianças em caso de separação. A família estava sinalizada desde Julho pelas autoridades, porque as crianças evidenciavam falta de cuidados. Na altura, a Segurança Social explicou que a situação dos menores tinha sido sinalizada à Comissão de Protecção de Crianças de Alenquer pelo centro de saúde e que, como os pais não autorizaram qualquer intervenção, o processo foi remetido para tribunal. Kelly foi condenada, em primeira instância, a 24 anos de prisão.
Agosto de 2012
Luciana Gioso, dentista de nacionalidade brasileira, 40 anos, provocou um incêndio e explosão na vivenda em que vivia em Castro Marim, no Algarve. Esperou que o marido saísse de casa, regou a cama e os armários com gasolina, fechou o quarto dos filhos à chave e pegou-lhes fogo. Morreu com os dois filhos, de 13 e 11 anos. A tomar antidepressivos, Luciana já tinha avisado alguns amigos mais próximos que tencionava suicidar-se.
“A depressão nos seus piores momentos é a mais terrível das solidões”
Andreia Sanches, in Público on-line
“Uma falha do cérebro.” “Uma “doença de solidão.” A “imperfeição do amor”. Chega a Portugal O Demónio da Depressão — Um Atlas da Doença, de Andrew Solomon. Sintomas da doença atingem 25,4% dos portugueses.
“Tomo cerca de 12 comprimidos por dia para evitar ficar demasiado deprimido”, escreve Andrew Solomon. “Nas últimas fases da escrita deste livro, tive ataques de pânico e de solidão. Não eram sintomas depressivos, mas por vezes escrevia uma página e tinha de me ir deitar durante meia hora para recuperar das palavras que tinha escrito. Por vezes, chorava; por vezes, ficava ansioso e passava um ou dois dias na cama.” No fim, o seu O Demónio da Depressão — Um Atlas da Doença, que chega a Portugal 15 anos depois de ter sido publicado pela primeira vez nos Estados Unidos, foi vencedor do National Book Award e finalista do Pulitzer. Está traduzido em 24 línguas, do chinês ao turco.
Ao longo de cerca de 800 páginas (mais de 150 são bibliografia e notas), Solomon cita dezenas de entrevistas a médicos, terapeutas e investigadores. Revela testemunhos, na primeira pessoa, de doentes — homens e mulheres com carreiras, mães e pais de família, assistentes sociais, professores, indigentes. “A depressão não tem fronteiras sociais, mas os tratamentos da depressão têm-nas. Isso significa que a maioria das pessoas que são pobres e deprimidas se mantêm pobres e deprimidas”, escreve.
Alguns dos entrevistados escondem a depressão da família, dos maridos, das mulheres (“Pensariam que sou fraco”, disse-lhe um homem que atingiu um enorme sucesso profissional, apesar da doença). Outros somam internamentos em hospitais psiquiátricos. Tentativas de suicídio.
Passam-se em revista estudos e estatísticas — a edição portuguesa, da Quetzal, nas livrarias desde sexta-feira, inclui um capítulo onde o autor faz uma actualização do estado da arte até 2015. E os números são gigantes. Explica o escritor, membro do conselho consultivo do Columbia Medical Center: “A depressão é a principal causa de incapacidade nos EUA e no mundo em pessoas com mais de cinco anos.” Cerca de 15% das pessoas deprimidas acabarão por se suicidar.
A doença ocorre em idades cada vez mais jovens, “surgindo pela primeira vez quando as suas vítimas têm em média 26 anos, dez anos mais cedo do que na geração anterior”.
Em Portugal, o último Inquérito Nacional de Saúde, feito pelo Instituto Nacional de Estatística, em colaboração com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, concluiu que 25,4% da população residente com 15 ou mais anos tinha, em 2014, sintomas de depressão.
Actualmente, “é tratável; tomam-se antidepressivos como se fazem radiações para o cancro”. Por vezes, “obtêm-se resultados milagrosos, mas nunca é fácil e os resultados são inconsistentes”.
O fio condutor do livro é a experiência do autor, hoje com 52 anos, a sua própria depressão, as melhoras e as crises (a primeira aconteceu há 20 anos, quando a vida parecia correr bem), a terapia (“não vá a um terapeuta de quem não goste”, aconselha ele, que chegou a tentar 11, em seis semanas, até acertar), os métodos alternativos, das massagens aos chás, e os medicamentos — não se imagina sem medicamentos como não se imagina sem comer ou sem dormir. “A depressão é uma falha do cérebro e, se o nosso cortisol [conhecida como a hormona do stress] está fora de controlo, temos de tratar disso.”
Perguntam-lhe muitas vezes quando deixa de tomar remédios. “Mas parece estar perfeitamente bem!”, dizem-lhe. “A isso respondo invariavelmente que pareço estar bem porque estou bem e que estou bem em parte graças aos medicamentos.” Mas “é horrível estar assim dependente”, insistem. Para ele, seria pior o regresso do “inferno”, não comer, não dormir, não se mexer.
“Nunca trataríamos a diabetes ou a hipertensão de forma descontínua; porque haveremos de o fazer com a depressão? De onde vem esta estranha pressão social? Esta doença tem um rácio de recaída de 80% num ano sem medicação”, diz John Greden, director do primeiro centro nacional para a depressão que abriu nos EUA (na Universidade de Michigan), em 2006, numa entrevista a Solomon.
O escritor prossegue: “Se nos mostrarem a imagem de um cérebro deprimido (colorido para indicar as taxas de metabolismo) ao lado da imagem de um cérebro normal (colorido de forma semelhante), o efeito é extraordinário: as pessoas deprimidas têm o cérebro cinzento e as pessoas felizes têm um cérebro em Technicolor. A diferença tanto é perturbadora quanto tem um ar científico, e apesar de ser totalmente artificial (as cores reflectem as técnicas da imagiologia e não cores reais), essas imagens valem mais que mil palavras e tendem a convencer as pessoas de que necessitam de tratamento imediato.”
Contudo, nos EUA, mais de metade das pessoas com depressão que procuram ajuda não recebem tratamento. E só 6% dos doentes recebem “um tratamento adequado”. De resto, sublinha Solomon, apenas 50% das pessoas medicadas respondem bem à primeira medicação. É preciso ajustar, mudar, reajustar. É preciso ter um médico que o faça bem.
Solomon também viajou até regiões longínquas, como a Gronelândia (a depressão afecta cerca de 80% dos esquimós), ou o Camboja — “Em conversas com pessoas que sofreram atrocidades às mãos do Khmer Vermelho, notei que a maioria preferia olhar para o futuro [...]. Todos os adultos que encontrei no Camboja tinham sofrido tais traumas físicos que teriam levado muitos de nós à loucura ou ao suicídio.”
Que doença é esta? Não estamos a falar de um exclusivo do mundo ocidental, nem de uma doença moderna, faz questão de sublinhar. “Sono excessivo, alimentação inadequada, pulsões suicidas, afastamento de interacções sociais e desespero permanente são tão antigos como as tribos dos montes, se não tão antigos como os montes.” Há um capítulo, neste livro, que aborda a história da depressão. Hipócrates, o “pai da Medicina”, nascido 460 anos antes de Cristo, é descrito como uma espécie de antepassado dos antidepressivos inventados apenas nos anos 1950 do século XX. Dizia ele que a melancolia, que tanto podia ser fruto de “uma longa dor de alma” como não ter causa aparente, se curava com remédios orais (plantas). E umas mudanças na dieta, já agora.
Solomon concluiu, após toda a sua pesquisa, toda a sua experiência, que “a depressão é a imperfeição do amor” — “Quando surge, degrada o indivíduo e acaba por eclipsar a capacidade de dar ou receber afecto.” É também “uma doença de solidão” — “A depressão nos seus piores momentos é a mais terrível das solidões” —, o que, na sua opinião, releva a importância de ter alguém que sabe ouvir. “A necessidade de tomar medicação faz as pessoas sentirem-se incompletas; a terapia faz as pessoas sentirem-se completas. Além disso, há indícios sólidos que sustentam a conclusão de que em média a combinação terapia e medicação funciona melhor do que cada uma delas individualmente.”
Não há duas depressões iguais. “Algumas pessoas sofrem de depressão ligeira e ficam totalmente incapacitadas; outras sofrem de graves depressões e continuam mesmo assim a levar uma vida normal.”
Nos últimos anos, a indústria farmacêutica abrandou a pesquisa de novos medicamentos, sublinha o autor. “A onda de optimismo da Big Pharma após o lançamento do Prozac desvaneceu-se.” Já “a pesquisa na área da electricidade, luz e magnetismo avançou”. Há, por exemplo, “muito trabalho experimental na área da estimulação por electroterapia craniana” em doentes com depressão — sendo que já em 1804 foi usada estimulação eléctrica de baixa voltagem no córtex para tratar a melancolia, recorda. E há também quem esteja a desenvolver novos tipos de intervenção cirúrgica (não sem polémica). Na Universidade de Emory, em Atlanta, Helen Mayberg concebeu algo que se assemelha a “um pacemaker” para o cérebro. Estas tendências, diz, são de algum modo sinais de uma nova visão da depressão: “Uma perturbação do circuito, não simplesmente um desequilíbrio químico.”
Seja como for, o autor confessa que “gostava de ter notícias mais animadoras” sobre o que foi descoberto nos últimos 15 anos. Não tem. Mas tem sobre o que aconteceu a muitas das pessoas que entrevistou para O Demónio da Depressão, desde que o livro saiu em 2001. Umas estão bem. “Outras ainda lutam.” Como ele.
“Uma falha do cérebro.” “Uma “doença de solidão.” A “imperfeição do amor”. Chega a Portugal O Demónio da Depressão — Um Atlas da Doença, de Andrew Solomon. Sintomas da doença atingem 25,4% dos portugueses.
“Tomo cerca de 12 comprimidos por dia para evitar ficar demasiado deprimido”, escreve Andrew Solomon. “Nas últimas fases da escrita deste livro, tive ataques de pânico e de solidão. Não eram sintomas depressivos, mas por vezes escrevia uma página e tinha de me ir deitar durante meia hora para recuperar das palavras que tinha escrito. Por vezes, chorava; por vezes, ficava ansioso e passava um ou dois dias na cama.” No fim, o seu O Demónio da Depressão — Um Atlas da Doença, que chega a Portugal 15 anos depois de ter sido publicado pela primeira vez nos Estados Unidos, foi vencedor do National Book Award e finalista do Pulitzer. Está traduzido em 24 línguas, do chinês ao turco.
Ao longo de cerca de 800 páginas (mais de 150 são bibliografia e notas), Solomon cita dezenas de entrevistas a médicos, terapeutas e investigadores. Revela testemunhos, na primeira pessoa, de doentes — homens e mulheres com carreiras, mães e pais de família, assistentes sociais, professores, indigentes. “A depressão não tem fronteiras sociais, mas os tratamentos da depressão têm-nas. Isso significa que a maioria das pessoas que são pobres e deprimidas se mantêm pobres e deprimidas”, escreve.
Alguns dos entrevistados escondem a depressão da família, dos maridos, das mulheres (“Pensariam que sou fraco”, disse-lhe um homem que atingiu um enorme sucesso profissional, apesar da doença). Outros somam internamentos em hospitais psiquiátricos. Tentativas de suicídio.
Passam-se em revista estudos e estatísticas — a edição portuguesa, da Quetzal, nas livrarias desde sexta-feira, inclui um capítulo onde o autor faz uma actualização do estado da arte até 2015. E os números são gigantes. Explica o escritor, membro do conselho consultivo do Columbia Medical Center: “A depressão é a principal causa de incapacidade nos EUA e no mundo em pessoas com mais de cinco anos.” Cerca de 15% das pessoas deprimidas acabarão por se suicidar.
A doença ocorre em idades cada vez mais jovens, “surgindo pela primeira vez quando as suas vítimas têm em média 26 anos, dez anos mais cedo do que na geração anterior”.
Em Portugal, o último Inquérito Nacional de Saúde, feito pelo Instituto Nacional de Estatística, em colaboração com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, concluiu que 25,4% da população residente com 15 ou mais anos tinha, em 2014, sintomas de depressão.
Actualmente, “é tratável; tomam-se antidepressivos como se fazem radiações para o cancro”. Por vezes, “obtêm-se resultados milagrosos, mas nunca é fácil e os resultados são inconsistentes”.
O fio condutor do livro é a experiência do autor, hoje com 52 anos, a sua própria depressão, as melhoras e as crises (a primeira aconteceu há 20 anos, quando a vida parecia correr bem), a terapia (“não vá a um terapeuta de quem não goste”, aconselha ele, que chegou a tentar 11, em seis semanas, até acertar), os métodos alternativos, das massagens aos chás, e os medicamentos — não se imagina sem medicamentos como não se imagina sem comer ou sem dormir. “A depressão é uma falha do cérebro e, se o nosso cortisol [conhecida como a hormona do stress] está fora de controlo, temos de tratar disso.”
Perguntam-lhe muitas vezes quando deixa de tomar remédios. “Mas parece estar perfeitamente bem!”, dizem-lhe. “A isso respondo invariavelmente que pareço estar bem porque estou bem e que estou bem em parte graças aos medicamentos.” Mas “é horrível estar assim dependente”, insistem. Para ele, seria pior o regresso do “inferno”, não comer, não dormir, não se mexer.
“Nunca trataríamos a diabetes ou a hipertensão de forma descontínua; porque haveremos de o fazer com a depressão? De onde vem esta estranha pressão social? Esta doença tem um rácio de recaída de 80% num ano sem medicação”, diz John Greden, director do primeiro centro nacional para a depressão que abriu nos EUA (na Universidade de Michigan), em 2006, numa entrevista a Solomon.
O escritor prossegue: “Se nos mostrarem a imagem de um cérebro deprimido (colorido para indicar as taxas de metabolismo) ao lado da imagem de um cérebro normal (colorido de forma semelhante), o efeito é extraordinário: as pessoas deprimidas têm o cérebro cinzento e as pessoas felizes têm um cérebro em Technicolor. A diferença tanto é perturbadora quanto tem um ar científico, e apesar de ser totalmente artificial (as cores reflectem as técnicas da imagiologia e não cores reais), essas imagens valem mais que mil palavras e tendem a convencer as pessoas de que necessitam de tratamento imediato.”
Contudo, nos EUA, mais de metade das pessoas com depressão que procuram ajuda não recebem tratamento. E só 6% dos doentes recebem “um tratamento adequado”. De resto, sublinha Solomon, apenas 50% das pessoas medicadas respondem bem à primeira medicação. É preciso ajustar, mudar, reajustar. É preciso ter um médico que o faça bem.
Solomon também viajou até regiões longínquas, como a Gronelândia (a depressão afecta cerca de 80% dos esquimós), ou o Camboja — “Em conversas com pessoas que sofreram atrocidades às mãos do Khmer Vermelho, notei que a maioria preferia olhar para o futuro [...]. Todos os adultos que encontrei no Camboja tinham sofrido tais traumas físicos que teriam levado muitos de nós à loucura ou ao suicídio.”
Que doença é esta? Não estamos a falar de um exclusivo do mundo ocidental, nem de uma doença moderna, faz questão de sublinhar. “Sono excessivo, alimentação inadequada, pulsões suicidas, afastamento de interacções sociais e desespero permanente são tão antigos como as tribos dos montes, se não tão antigos como os montes.” Há um capítulo, neste livro, que aborda a história da depressão. Hipócrates, o “pai da Medicina”, nascido 460 anos antes de Cristo, é descrito como uma espécie de antepassado dos antidepressivos inventados apenas nos anos 1950 do século XX. Dizia ele que a melancolia, que tanto podia ser fruto de “uma longa dor de alma” como não ter causa aparente, se curava com remédios orais (plantas). E umas mudanças na dieta, já agora.
Solomon concluiu, após toda a sua pesquisa, toda a sua experiência, que “a depressão é a imperfeição do amor” — “Quando surge, degrada o indivíduo e acaba por eclipsar a capacidade de dar ou receber afecto.” É também “uma doença de solidão” — “A depressão nos seus piores momentos é a mais terrível das solidões” —, o que, na sua opinião, releva a importância de ter alguém que sabe ouvir. “A necessidade de tomar medicação faz as pessoas sentirem-se incompletas; a terapia faz as pessoas sentirem-se completas. Além disso, há indícios sólidos que sustentam a conclusão de que em média a combinação terapia e medicação funciona melhor do que cada uma delas individualmente.”
Não há duas depressões iguais. “Algumas pessoas sofrem de depressão ligeira e ficam totalmente incapacitadas; outras sofrem de graves depressões e continuam mesmo assim a levar uma vida normal.”
Nos últimos anos, a indústria farmacêutica abrandou a pesquisa de novos medicamentos, sublinha o autor. “A onda de optimismo da Big Pharma após o lançamento do Prozac desvaneceu-se.” Já “a pesquisa na área da electricidade, luz e magnetismo avançou”. Há, por exemplo, “muito trabalho experimental na área da estimulação por electroterapia craniana” em doentes com depressão — sendo que já em 1804 foi usada estimulação eléctrica de baixa voltagem no córtex para tratar a melancolia, recorda. E há também quem esteja a desenvolver novos tipos de intervenção cirúrgica (não sem polémica). Na Universidade de Emory, em Atlanta, Helen Mayberg concebeu algo que se assemelha a “um pacemaker” para o cérebro. Estas tendências, diz, são de algum modo sinais de uma nova visão da depressão: “Uma perturbação do circuito, não simplesmente um desequilíbrio químico.”
Seja como for, o autor confessa que “gostava de ter notícias mais animadoras” sobre o que foi descoberto nos últimos 15 anos. Não tem. Mas tem sobre o que aconteceu a muitas das pessoas que entrevistou para O Demónio da Depressão, desde que o livro saiu em 2001. Umas estão bem. “Outras ainda lutam.” Como ele.
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