Ana Gerschenfeld, in Público on-line
Entre 2000 e 2010, a maioria dos países ocidentais viu diminuir o número de fracturas do colo do fémur nas mulheres idosas – um grave problema de saúde pública que pode ser evitado. Mas pelo menos em Portugal, esta melhoria não terá beneficiado por igual todas as classes sociais.
As desigualdades sociais, exacerbadas pela crise económica mundial cujos efeitos começaram a fazer-se sentir já em 2007, tiveram um efeito nefasto imediato – mas só agora posto em evidência – na saúde óssea das mulheres idosas portuguesas das classes menos favorecidas, concluem três investigadoras portuguesas num estudo publicado na revista Journal of Epidemiology and Community Health.
Pode parecer um truísmo afirmar que as pessoas mais pobres são mais vulneráveis perante a doença. As autoras do estudo – Fátima Pina, Carla Oliveira e Sandra Alves, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto – sublinham aliás esta realidade: “É sabido que os factores sócio-económicos determinam disparidades nos comportamentos relacionados com a saúde e na incidência de doenças e a mortalidade”, escrevem no seu artigo.
Contudo, no início da última década, diversos estudos revelaram pelo menos uma excepção a esta “regra”: na sequência de uma iniciativa internacional, na maioria dos países ocidentais, incluindo Portugal, o número de fracturas do colo do fémur (vulgo fractura da anca) nas mulheres idosas começou a estabilizar ou diminuir em todas as classes sociais.
As fracturas da anca devem-se ao alastramento da osteoporose, decorrente do substancial aumento da esperança de vida nos países mais desenvolvidos ao longo do século passado. A osteoporose surge com a idade e, como o seu nome indica, torna os ossos porosos, “rendilhados” – e portanto, mais propensos à quebra. E essa fragilidade óssea faz com que mesmo um traumatismo normalmente sem gravidade possa ter consequências desastrosas.
“As fracturas do fémur são uma consequência da osteoporose e a grande maioria é causada por impactos de pequena ou média energia, como por exemplo uma queda da cama, da cadeira, quedas por tropeções”, explicou ao PÚBLICO Fátima Pina, que liderou o estudo e é especialista da epidemiologia das doenças osteoarticulares. “A osteoporose é mais frequente nas mulheres do que nos homens porque as mulheres têm uma grande perda de massa óssea após a menopausa. Até aos 50-55 anos de idade, o risco de osteoporose é semelhante entre homens e mulheres, mas após a menopausa o risco aumenta muito entre as mulheres. Por terem mais osteoporose e também por terem maior propensão às quedas, as mulheres têm um risco de fracturas aproximadamente três vezes maior do que os homens.”
Ora, não só os custos financeiros da hospitalização e dos procedimentos cirúrgicos associados são enormes, como estas fracturas causam, primeiro uma perda de autonomia e de qualidade de vida e depois a uma mortalidade muito elevada, segundo Fátima Pina: 35% dos homens e 20% das mulheres morrem no ano que se segue a uma fractura do colo do fémur.
Mas o mais irónico disto tudo é que grande parte das fracturas da anca poderia ser prevenida: “As fracturas da anca [são] das causas mais evitáveis de incapacidade nos idosos”, lê-se ainda no artigo agora publicado.
Seja como for, na viragem do milénio, as projecções da evolução desta autêntica epidemia eram tão catastróficas que foi lançada a inciativa Década do Osso para a travar, explicou-nos ainda Fátima Pina. Entre outras acções, começou-se a administrar medicamentos contra a osteoporose e a sensibilizar a população idosa para a necessidade de aprender a evitar as quedas.
E de facto, os resultados não se fizeram esperar. Logo no início dos anos 2000, verificou-se um decréscimo das fracturas da anca na maioria dos mais de 60 países ocidentais que, como Portugal, tinham aderido à iniciativa. Aliás, Fátima Pina e colegas mostraram, já em 2013, num artigo publicado na revista Bone, que essa diminuição estava em parte associada ao aumento da venda de medicamentos contra a osteoporose.
Diferenças geográficas
Entretanto, em 2008, a equipa da investigadora também tinha descoberto que, em Portugal, entre 2000 e 2002 – ou seja, antes da melhoria associada ao recurso à medicação, que neste país começou em 2003 –, existia um padrão geográfico na incidência das fracturas da anca. Uma “desigualdade” flagrante que fazia com que certas regiões do país fossem muito mais vulneráveis do que outras à osteoporose. “Portugal até tem um baixo risco nesta matéria quando comparado com certos países do Norte”, disse-nos Fátima Pina, mas em certas regiões de Portugal, como o Algarve ou Trás-os-Montes, o risco revelava-se altíssimo. “E nós queríamos saber a origem dessas diferenças geográficas”, acrescenta. Tratar-se-ia de factores ambientais, de factores sociais, de factores genéticos? Estariam as estatísticas globais que mostravam, desde 2003, uma diminuição das fracturas da anca a mascarar situações desiguais conforme o local de residência das pessoas? As três autoras do actual estudo decidiram portanto “dissecar” o fenómeno em termos de classes sócio-económicas.
Para realizar o estudo, as investigadoras analisaram os casos de 96.905 pessoas com mais de 50 anos (77% de mulheres) constantes do Registo Nacional de Altas Hospitalares e que foram hospitalizadas, entre 2000 e 2010, devido a fracturas da anca causadas por impactos fracos ou moderados. E desta vez, tiveram em conta o local de residência das pessoas, à escala dos municípios de Portugal continental, distribuindo-os por três categorias: pobres, médios e ricos. As disparidades geográficas do impacto da iniciativa da Década do Osso surgiram logo.
“A vantagem do nosso estudo é que, ao desagregarmos por grupos sócio-económicos, percebemos padrões que ficam ‘escondidos’ quando se analisa a totalidade dos dados”, frisa Fátima Pina. “Por exemplo, já era sabido que as taxas de incidência de fracturas [da anca] apresentam uma tendência de decréscimo em vários países e em Portugal também se vinha a observar esse padrão, mas não se sabia que esse decréscimo não ocorre em todas as regiões.”
“Nós mostrámos [agora] que existem desigualdades acentuadas: quando analisamos [a evolução desta incidência nas várias] faixas etárias de acordo com o grupo sócio-económico, nas mulheres de áreas mais pobres não existe tendência de decréscimo e, pelo contrário, a partir de 2007, a tendência é de crescimento [do número de fracturas da anca].” Segundo Fátima Pina, este tipo de desigualdades também poderá vir a revelar-se noutros países se forem realizados estudos deste tipo, o que ainda não aconteceu.
O resultado talvez mais marcante desta análise por área de residência verificou-se entre as mulheres com 65 a 79 anos: nas regiões “ricas”, confirmaram-se os resultados obtidos a nível nacional. E mais: houve uma diminuição contínua das fracturas da anca, de 1,7% por ano, ao longo de todo o período 2000-2010, explicam as autoras. Mas nas regiões “médias”, verificou-se “uma tendência abrupta para diminuírem (4,7% por ano)” durante um curto período (2004-2007), “seguida de uma tendência para aumentarem (3,4% por ano)”, lê-se no artigo. E nas regiões “pobres”, não houve qualquer diminuição da incidência das fracturas da anca e “só foi observada uma tendência para aumentarem entre 2006 e 2010, com um incremento de 3,3% por ano”, escrevem ainda as cientistas.
“Não podemos afirmar com certeza que foi o abandono da medicação nos grupos mais pobres e mais velhos que fez com que estes grupos tivessem um aumento das fracturas do fémur, mas essa é uma hipótese válida, porque há uma mudança brusca na tendência nestes grupos", diz-nos Fátima Pina. “As taxas de incidência vinham a diminuir e, de repente, passaram a aumentar, por volta do ano 2007.”
E não foi nesse ano por acaso. “O ano 2007 marcou o início da crise económica mundial, que teve um impacto forte no país e na vida das pessoas”, argumenta a cientista, lembrando que foi em 2007 que começou a haver algumas reduções nos rendimentos em Portugal, nomeadamente “ligeiros cortes nas pensões das pessoas idosas”. Ora, como a prevenção da osteoporose não é vista como uma prioridade face a doenças como a hipertensão ou a diabetes, os medicamentos anti-osteoporose terão sido dos primeiros a ser abandonados pelas mulheres de menores recursos financeiros.
Mas por que é que o efeito da interrupção da medicação foi tão imediato? Não deveria ter demorado mais tempo a verificar-se um aumento visível das fracturas da anca? Não, responde-nos Fátima Pina, porque os medicamentos anti-osteoporose têm, justamente, efeitos imediatos – e basta uma interrupção do tratamento de três meses para cancelar os seus benefícios.
Contudo, a austeridade e a troika só chegaram a Portugal anos mais tarde. Será que a situação piorou ainda mais nitidamente desde então? A equipa está agora a analisar dados que vão até 2015, responde Fátima Pina. No entanto, ela acredita desde já que as disparidades terão piorado e se terão estendido a outros grupos populacionais. Os novos resultados deverão ser conhecidos daqui a uns meses.
Todavia, este estudo só responde parcialmente à questão da origem das diferenças regionais em termos de fracturas da anca evidenciado pelo estudo de 2008, que é o que motivou a equipa em primeiro lugar. “As desigualdades sócio-económicas explicam parte desse padrão geográfico, mas não explicam tudo” diz Fátima Pina, “e continuamos à procura de entender por que existem diferenças geográficas tão acentuadas em Portugal”.
Há de facto uma variável ambiental que poderá fornecer um substancial elemento de resposta, salienta: a composição da água. Não se trata da qualidade da água, mas sim da sua composição química natural, que, apesar de respeitar as normas de qualidade, varia conforme as regiões do país. “A composição química da água poderá explicar grande parte das diferenças geográficas”, diz Fátima Pina. “Alguns elementos da água estão associados ao risco de fracturas, porque ao longo da vida alguns minerais presentes na água e nos alimentos vão-se depositando nos ossos, tornando-os mais frágeis.”
A confirmar-se a relevância deste factor ambiental, poderá ser possível gerir melhor os esforços de combate à osteoporose – e as suas nefastas consequências.
25.2.16
Doentes crónicos aviam receitas na farmácia sem ir a consultas
Diana Mendes, in Diário de Notícias
Pacientes poderão dar os seus dados para renovar medicação.
Os doentes crónicos vão deixar de precisar de ir a uma consulta no centro de saúde para aviar uma receita. Para isso, basta irem a uma farmácia e darem os dados necessários para levantar a sua medicação habitual. O anúncio foi ontem feito pelo secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, que acredita que "até ao final do primeiro semestre, grande parte dos locais esteja a utilizar esta metodologia".
Esta medida, que deverá ser generalizada, será possível com o recurso à receita eletrónica e à chamada desmaterialização da receita. Desta forma, o médico destes utentes poderá renovar as receitas no sistema e o utente adquire os medicamentos. "Os doentes mais necessitados, mais idosos ou que vivam mais longe dos centros de saúde não têm de voltar lá para ir buscar uma receita", referiu o governante, durante a apresentação da estratégia nacional para a reforma dos cuidados de saúde primários.
Até agora, nos cuidados de saúde primários, o utente tinha de pagar uma taxa moderadora de três euros para ir levantar estas receitas. O Ministério da Saúde não soube esclarecer, no entanto, se nestes casos vai deixar de ser cobrada taxa moderadora ou, eventualmente, ser transferido este custo para as farmácias, que o poderiam cobrar como ato farmacêutico. Ainda recentemente, a recém-empossada bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Ana Maria Martins, defendeu esta possibilidade.
Durante a apresentação da estratégia, foi ainda anunciada o objetivo de cobrir todo o país com unidades de saúde familiar, em substituição dos tradicionais centros de saúde. O modelo inovador dentro dos cuidados primários, em que os profissionais são pagos pelo desempenho e são abrangidos mais utentes por médico, "é o melhor, traz melhores resultados para a saúde, poupanças e satisfação para os profissionais. Mesmo os utentes apontam taxas de satisfação acima de 80%", diz ao DN Henrique Botelho, o coordenador da reforma.
Fernando Araújo também fala em "generalizar" e em criar formas de levar os profissionais a aderir às USF. Neste ano poderão ser criadas "25 a 30 USF em modelo A e outras 30 em modelo B". Neste caso, passando de modelo A para o B, há prémios para as equipas. Nas restantes unidades de saúde está previsto o alargamento do pagamento de incentivos às equipas.
Os dados já estão disponíveis no Portal do Serviço Nacional de Saúde, que dá conta de uma enorme carência de clínicos na região de Lisboa, que tem 733 mil dos cerca de um milhão de utentes sem médico. Faltam 616 médicos de família no SNS para que todos os doentes tenham acesso a um médico de família. Quanto a especialistas, o reforço necessário seria de 403 clínicos.
Segundo Carlos Nunes, um dos membros do grupo de trabalho para a reforma dos cuidados de saúde primários, "só a região de Sintra tem quase a mesma necessidade do que toda a administração regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo", disse durante a apresentação da estratégia para os cuidados primários. Faltam 46 médicos para a população do agrupamento de centros de saúde, um quarto do total que seria desejável (cerca de 200). No Norte faltam 65.
As soluções para este problema, que o governo estima resolver a médio prazo, passam pelo alargamento do número de unidades de saúde familiares (USF) ou pela contratação de médicos reformados a título transitório, pagando-lhes 75% do vencimento além da reforma.
Pacientes poderão dar os seus dados para renovar medicação.
Os doentes crónicos vão deixar de precisar de ir a uma consulta no centro de saúde para aviar uma receita. Para isso, basta irem a uma farmácia e darem os dados necessários para levantar a sua medicação habitual. O anúncio foi ontem feito pelo secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, que acredita que "até ao final do primeiro semestre, grande parte dos locais esteja a utilizar esta metodologia".
Esta medida, que deverá ser generalizada, será possível com o recurso à receita eletrónica e à chamada desmaterialização da receita. Desta forma, o médico destes utentes poderá renovar as receitas no sistema e o utente adquire os medicamentos. "Os doentes mais necessitados, mais idosos ou que vivam mais longe dos centros de saúde não têm de voltar lá para ir buscar uma receita", referiu o governante, durante a apresentação da estratégia nacional para a reforma dos cuidados de saúde primários.
Até agora, nos cuidados de saúde primários, o utente tinha de pagar uma taxa moderadora de três euros para ir levantar estas receitas. O Ministério da Saúde não soube esclarecer, no entanto, se nestes casos vai deixar de ser cobrada taxa moderadora ou, eventualmente, ser transferido este custo para as farmácias, que o poderiam cobrar como ato farmacêutico. Ainda recentemente, a recém-empossada bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Ana Maria Martins, defendeu esta possibilidade.
Durante a apresentação da estratégia, foi ainda anunciada o objetivo de cobrir todo o país com unidades de saúde familiar, em substituição dos tradicionais centros de saúde. O modelo inovador dentro dos cuidados primários, em que os profissionais são pagos pelo desempenho e são abrangidos mais utentes por médico, "é o melhor, traz melhores resultados para a saúde, poupanças e satisfação para os profissionais. Mesmo os utentes apontam taxas de satisfação acima de 80%", diz ao DN Henrique Botelho, o coordenador da reforma.
Fernando Araújo também fala em "generalizar" e em criar formas de levar os profissionais a aderir às USF. Neste ano poderão ser criadas "25 a 30 USF em modelo A e outras 30 em modelo B". Neste caso, passando de modelo A para o B, há prémios para as equipas. Nas restantes unidades de saúde está previsto o alargamento do pagamento de incentivos às equipas.
Os dados já estão disponíveis no Portal do Serviço Nacional de Saúde, que dá conta de uma enorme carência de clínicos na região de Lisboa, que tem 733 mil dos cerca de um milhão de utentes sem médico. Faltam 616 médicos de família no SNS para que todos os doentes tenham acesso a um médico de família. Quanto a especialistas, o reforço necessário seria de 403 clínicos.
Segundo Carlos Nunes, um dos membros do grupo de trabalho para a reforma dos cuidados de saúde primários, "só a região de Sintra tem quase a mesma necessidade do que toda a administração regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo", disse durante a apresentação da estratégia para os cuidados primários. Faltam 46 médicos para a população do agrupamento de centros de saúde, um quarto do total que seria desejável (cerca de 200). No Norte faltam 65.
As soluções para este problema, que o governo estima resolver a médio prazo, passam pelo alargamento do número de unidades de saúde familiares (USF) ou pela contratação de médicos reformados a título transitório, pagando-lhes 75% do vencimento além da reforma.
Portugal ainda discrimina ciganos e pessoas de origem africana
in Visão
Os ciganos do bairro das quintinhas foram proibidos pela Câmara Municipal de Monsaraz de frequentar as piscinas de Estremoz depois de um grupo de individuos desta etnia ter, alegadamente, violado as normas
Tiago Miranda
As pessoas de etnia cigana e as de ascendência africana continuam a ser discriminadas em Portugal, denuncia a Amnistia Internacional (AI), que refere que voltaram a existir episódios de uso excessivo de força por parte das forças policiais.
No retrato que a AI faz de Portugal, no Relatório Anual 2015/2016, a organização salienta que voltaram a existir episódios de discriminação contra as pessoas das comunidades ciganas.
"Em julho, o presidente da Câmara de Estremoz proibiu as pessoas da comunidade cigana, que viviam no bairro das Quintinhas, de usar as piscinas municipais devido a relatos por parte de alguns moradores sobre atos de vandalismo", exemplifica a AI, acrescentando que continua pendente uma decisão sobre a contestação apresentada pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.
Em relação às pessoas de ascendência africana, a AI refere que durante o ano passado continuaram as denúncias de agressões de cariz racial e de uso desnecessário de força pela polícia.
"Em fevereiro, cinco jovens de ascendência africana denunciaram ter sido agredidos e sujeitos a comentários racistas por polícias da esquadra de Alfragide, depois de terem reclamado relativamente ao uso excessivo da força durante uma detenção efetuada naquele dia no Bairro do Alto da Cova da Moura", lê-se no relatório.
De acordo com a AI, os jovens tiveram de receber tratamento médico por causa das agressões, tendo sido depois acusados de resistência e coação em relação a um polícia. Entretanto, e até ao final de 2015, decorriam as investigações relativamente às denúncias de maus-tratos.
O organismo diz que durante o ano passado "ocorreram denúncias de uso desnecessário ou excessivo da força pela polícia e as condições prisionais continuaram a ser inadequadas" e lembra o caso do "polícia filmado a espancar um homem à frente dos dois filhos e do seu pai nas imediações do estádio de futebol de Guimarães".
Outro dos aspetos focados pela AI diz respeito aos tribunais e ao sistema de Justiça, referindo que, em janeiro, após uma visita a Portugal, a relatora especial das Nações Unidas sobre a independência dos juízes e advogados manifestou-se preocupada com o aumento dos encargos legais e das custas dos tribunais.
De acordo com a AI, a relatora da ONU apontou que esse aumento está "a impedir o acesso à justiça de um número superior de pessoas em situação de pobreza devido à crise económica".
Lembra, por outro lado, que o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade de algumas medidas governamentais que atentavam contra direitos económicos e sociais.
A crise dos refugiados é igualmente referida na análise feita a Portugal, com a Amnistia Internacional a apontar que o país acolheu apenas 39 dos 44 refugiados previamente selecionados para reinstalação em 2014 e que até ao final do ano passado não tinha chegado nenhum dos selecionados para reinstalação em 2015.
"Portugal comprometeu-se a receber 4.574 requerentes de asilo que, nos próximos dois anos, serão transferidos da Grécia e de Itália ao abrigo do programa de recolocação da UE [União Europeia]. Contudo, até ao fim do ano, só tinham sido recolocadas 24 pessoas", aponta a AI.
A violência contra mulheres e raparigas merece igualmente uma referência neste relatório e, com base em dados da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), até ao dia 20 de novembro, 20 mulheres tinham sido mortas e outras 33 foram vítimas de tentativa de homicídio.
Por outro lado, e tendo por base um estudo da Universidade de Lisboa, refere que 1.830 meninas residentes em Portugal já tinham sido ou corriam o risco de ser submetidas a mutilação genital feminina (MGF), elogiando que, em setembro, o país tenha passado a incluir a MGF como crime específico no Código Penal.
Pela positiva, a AI fala da aprovação, em dezembro, de legislação que permite a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.
com Lusa
Os ciganos do bairro das quintinhas foram proibidos pela Câmara Municipal de Monsaraz de frequentar as piscinas de Estremoz depois de um grupo de individuos desta etnia ter, alegadamente, violado as normas
Tiago Miranda
As pessoas de etnia cigana e as de ascendência africana continuam a ser discriminadas em Portugal, denuncia a Amnistia Internacional (AI), que refere que voltaram a existir episódios de uso excessivo de força por parte das forças policiais.
No retrato que a AI faz de Portugal, no Relatório Anual 2015/2016, a organização salienta que voltaram a existir episódios de discriminação contra as pessoas das comunidades ciganas.
"Em julho, o presidente da Câmara de Estremoz proibiu as pessoas da comunidade cigana, que viviam no bairro das Quintinhas, de usar as piscinas municipais devido a relatos por parte de alguns moradores sobre atos de vandalismo", exemplifica a AI, acrescentando que continua pendente uma decisão sobre a contestação apresentada pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.
Em relação às pessoas de ascendência africana, a AI refere que durante o ano passado continuaram as denúncias de agressões de cariz racial e de uso desnecessário de força pela polícia.
"Em fevereiro, cinco jovens de ascendência africana denunciaram ter sido agredidos e sujeitos a comentários racistas por polícias da esquadra de Alfragide, depois de terem reclamado relativamente ao uso excessivo da força durante uma detenção efetuada naquele dia no Bairro do Alto da Cova da Moura", lê-se no relatório.
De acordo com a AI, os jovens tiveram de receber tratamento médico por causa das agressões, tendo sido depois acusados de resistência e coação em relação a um polícia. Entretanto, e até ao final de 2015, decorriam as investigações relativamente às denúncias de maus-tratos.
O organismo diz que durante o ano passado "ocorreram denúncias de uso desnecessário ou excessivo da força pela polícia e as condições prisionais continuaram a ser inadequadas" e lembra o caso do "polícia filmado a espancar um homem à frente dos dois filhos e do seu pai nas imediações do estádio de futebol de Guimarães".
Outro dos aspetos focados pela AI diz respeito aos tribunais e ao sistema de Justiça, referindo que, em janeiro, após uma visita a Portugal, a relatora especial das Nações Unidas sobre a independência dos juízes e advogados manifestou-se preocupada com o aumento dos encargos legais e das custas dos tribunais.
De acordo com a AI, a relatora da ONU apontou que esse aumento está "a impedir o acesso à justiça de um número superior de pessoas em situação de pobreza devido à crise económica".
Lembra, por outro lado, que o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade de algumas medidas governamentais que atentavam contra direitos económicos e sociais.
A crise dos refugiados é igualmente referida na análise feita a Portugal, com a Amnistia Internacional a apontar que o país acolheu apenas 39 dos 44 refugiados previamente selecionados para reinstalação em 2014 e que até ao final do ano passado não tinha chegado nenhum dos selecionados para reinstalação em 2015.
"Portugal comprometeu-se a receber 4.574 requerentes de asilo que, nos próximos dois anos, serão transferidos da Grécia e de Itália ao abrigo do programa de recolocação da UE [União Europeia]. Contudo, até ao fim do ano, só tinham sido recolocadas 24 pessoas", aponta a AI.
A violência contra mulheres e raparigas merece igualmente uma referência neste relatório e, com base em dados da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), até ao dia 20 de novembro, 20 mulheres tinham sido mortas e outras 33 foram vítimas de tentativa de homicídio.
Por outro lado, e tendo por base um estudo da Universidade de Lisboa, refere que 1.830 meninas residentes em Portugal já tinham sido ou corriam o risco de ser submetidas a mutilação genital feminina (MGF), elogiando que, em setembro, o país tenha passado a incluir a MGF como crime específico no Código Penal.
Pela positiva, a AI fala da aprovação, em dezembro, de legislação que permite a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.
com Lusa
Quando a mãe tem a 4.ª classe, só 19% das crianças têm um percurso limpo na escola
Andreia Sanches, in Público on-line
Mais um estudo mostra como escolaridade e rendimentos pesam no desempenho dos alunos. Ministério da Educação quer dar visibilidade a escolas que contrariam “determinismo socioeconómico”.
Várias análises têm vindo a reforçar a ideia de que há, em Portugal, uma relação muito forte entre o desempenho escolar dos alunos e o meio socioeconómico das suas famílias. Um novo estudo, da Direcção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC), do Ministério da Educação (ME), sublinha isso mesmo, com elementos novos. Começa por quantificar: “Entre os alunos cujas mães têm licenciatura ou bacharelato, a percentagem de ‘percursos de sucesso’ no 3.º ciclo é de 71%, enquanto entre os alunos cujas mães têm habilitação escolar mais baixa, equivalente ao 4.º ano, a mesma percentagem de ‘percursos de sucesso’ é de apenas 19%.”
Esta disparidade de resultados, diz, “é muito acentuada, especialmente tendo em atenção que uma das funções do ensino público é nivelar as oportunidades entre os alunos de diversas origens”.
A análise, que tem como título Desigualdades socioeconómicas e resultados escolares — 3.º ciclo do ensino público geral, foi publicada nesta quarta-feira no site da DGEEC. E mostra, também, que entre as mil escolas públicas do país há umas que contrariam mais este “determinismo socioeconómico” do que outras. Regista-se, aliás, um “grande fosso de resultados entre os vários grupos de escolas públicas”.
Para o ministério, um “percurso de sucesso” no 3.º ciclo do ensino básico (7.º, 8.º e 9.º anos) define-se do seguinte modo: o aluno tem positiva nos dois exames finais do 9.º ano (Português e Matemática) após um percurso sem chumbos nos 7.º e 8.º anos.
Ainda (ligeiramente) mais do que a escolaridade da mãe, os rendimentos da família fazem a diferença. “Constatamos que, entre os alunos que não recebem qualquer apoio da Acção Social Escolar (ASE), a percentagem de percursos de sucesso no 3.º ciclo é de 49%. Entre os alunos com maior apoio ASE (escalão A), portanto alunos oriundos de agregados familiares com condições económicas mais modestas, a mesma percentagem de percursos de sucesso é de apenas 20%”, prosseguem os autores.
Apesar de tudo isto, a DGEEC faz questão de sublinhar que as condições socioeconómicas “não equivalem a um destino traçado, pois existem outras influências e factores importantes em jogo”.
Fosso entre escolas
Há vários exercícios que os autores fazem que sustentam essa afirmação. Desde logo, uma análise dos resultados por distrito. A média nacional de "percursos de sucesso" no 3.º ciclo é 39%, diz-se no estudo. Mas distritos como Viana do Castelo (47%) ou Braga (44%) têm percentagens de percursos de sucesso “relativamente altas face à média nacional, apesar do nível de escolaridade das mães ser dos mais baixos do país”.
Como se explica? “O dinamismo das escolas e dos seus professores, como o grau de importância atribuído ao ensino das crianças e ao trabalho escolar na cultura da região, poderá, porventura, sobrepor-se localmente ao efeito do nível socioeconómico, justificando assim o facto de alunos de regiões com nível socioeconómico baixo poderem, não obstante, ter níveis de desempenho escolares no 3.º ciclo francamente superiores à média nacional.”
Outro exercício apresentado: compara-se o grupo das 100 escolas do país com melhor “indicador da promoção do sucesso escolar” (ou seja, as que têm significativamente mais percursos de sucesso do que a média das escolas que receberam alunos do mesmo nível) com o grupo das que pior se saem neste indicador. Nas “100 mais”, 29% dos alunos cujas mãe têm o correspondente à antiga 4.ª classe têm um percurso de sucesso; nas “100 menos” apenas 14% dos alunos cujas mãe têm esse mesmo nível de habilitações têm um percurso de sucesso.
E o que acontece se se dividir todas as mil escolas públicas em 10 grupos, sendo o primeiro grupo constituído pelas 100 escolas com percentagens mais altas de percursos de sucesso e último constituído pelas 99 com menos percursos de sucesso? “Entre os alunos das escolas do grupo G1 a percentagem de percursos de sucesso no 3.º ciclo é de 65%, enquanto no grupo de escolas G10, onde se agrupam as escolas com piores valores do indicador, a mesma percentagem de percursos de sucesso se reduz para uns diminutos 12%. A magnitude da diferença — cerca de 50 pontos percentuais — revela uma desigualdade de resultados entre escolas muito elevada.” Mais: esta análise mostra que em 99 escolas públicas, em média, apenas um em cada oito alunos consegue ter um percurso no 3.º ciclo limpo. “Um número extremamente baixo.”
O que diz o ME?
Em comunicado, nesta quarta-feira, o ME subinha que os resultados deste estudo “permitem centrar a reflexão sobre aquela que é uma das funções primordiais da escola pública — nivelamento de oportunidades entre crianças oriundas de diversos meios socioeconómicos e promoção da mobilidade social — expondo a importância do investimento no ensino público como via para ultrapassar lógicas deterministas”.
A equipa liderada por Tiago Brandão Rodrigues faz questão de enumerar prioridades: “aposta na qualificação das escolas para a identificação de estratégias locais de promoção do sucesso escolar”; investimento na ASE; investimento na formação de adultos, “tendo em vista uma valorização do conhecimento pelas famílias dos alunos”.
Elogiado o trabalho da DGEEC, o ministério promete agora apostar “na evidenciação das boas práticas que levam a que em algumas comunidades educativas os resultados gerados contrariem o determinismo socioeconómico”.
Recorde-se que já neste mês, um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico referia que Portugal era o 15.º país com maior diferença de desempenhos entre alunos de estratos carenciados e os de estratos favorecidos. Em Janeiro, um outro estudo, do Conselho Nacional de Educação, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, concluía que Portugal era o país da Europa que mais associava chumbar com um baixo estatuto socioeconómico e cultural da família.
Mais um estudo mostra como escolaridade e rendimentos pesam no desempenho dos alunos. Ministério da Educação quer dar visibilidade a escolas que contrariam “determinismo socioeconómico”.
Várias análises têm vindo a reforçar a ideia de que há, em Portugal, uma relação muito forte entre o desempenho escolar dos alunos e o meio socioeconómico das suas famílias. Um novo estudo, da Direcção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC), do Ministério da Educação (ME), sublinha isso mesmo, com elementos novos. Começa por quantificar: “Entre os alunos cujas mães têm licenciatura ou bacharelato, a percentagem de ‘percursos de sucesso’ no 3.º ciclo é de 71%, enquanto entre os alunos cujas mães têm habilitação escolar mais baixa, equivalente ao 4.º ano, a mesma percentagem de ‘percursos de sucesso’ é de apenas 19%.”
Esta disparidade de resultados, diz, “é muito acentuada, especialmente tendo em atenção que uma das funções do ensino público é nivelar as oportunidades entre os alunos de diversas origens”.
A análise, que tem como título Desigualdades socioeconómicas e resultados escolares — 3.º ciclo do ensino público geral, foi publicada nesta quarta-feira no site da DGEEC. E mostra, também, que entre as mil escolas públicas do país há umas que contrariam mais este “determinismo socioeconómico” do que outras. Regista-se, aliás, um “grande fosso de resultados entre os vários grupos de escolas públicas”.
Para o ministério, um “percurso de sucesso” no 3.º ciclo do ensino básico (7.º, 8.º e 9.º anos) define-se do seguinte modo: o aluno tem positiva nos dois exames finais do 9.º ano (Português e Matemática) após um percurso sem chumbos nos 7.º e 8.º anos.
Ainda (ligeiramente) mais do que a escolaridade da mãe, os rendimentos da família fazem a diferença. “Constatamos que, entre os alunos que não recebem qualquer apoio da Acção Social Escolar (ASE), a percentagem de percursos de sucesso no 3.º ciclo é de 49%. Entre os alunos com maior apoio ASE (escalão A), portanto alunos oriundos de agregados familiares com condições económicas mais modestas, a mesma percentagem de percursos de sucesso é de apenas 20%”, prosseguem os autores.
Apesar de tudo isto, a DGEEC faz questão de sublinhar que as condições socioeconómicas “não equivalem a um destino traçado, pois existem outras influências e factores importantes em jogo”.
Fosso entre escolas
Há vários exercícios que os autores fazem que sustentam essa afirmação. Desde logo, uma análise dos resultados por distrito. A média nacional de "percursos de sucesso" no 3.º ciclo é 39%, diz-se no estudo. Mas distritos como Viana do Castelo (47%) ou Braga (44%) têm percentagens de percursos de sucesso “relativamente altas face à média nacional, apesar do nível de escolaridade das mães ser dos mais baixos do país”.
Como se explica? “O dinamismo das escolas e dos seus professores, como o grau de importância atribuído ao ensino das crianças e ao trabalho escolar na cultura da região, poderá, porventura, sobrepor-se localmente ao efeito do nível socioeconómico, justificando assim o facto de alunos de regiões com nível socioeconómico baixo poderem, não obstante, ter níveis de desempenho escolares no 3.º ciclo francamente superiores à média nacional.”
Outro exercício apresentado: compara-se o grupo das 100 escolas do país com melhor “indicador da promoção do sucesso escolar” (ou seja, as que têm significativamente mais percursos de sucesso do que a média das escolas que receberam alunos do mesmo nível) com o grupo das que pior se saem neste indicador. Nas “100 mais”, 29% dos alunos cujas mãe têm o correspondente à antiga 4.ª classe têm um percurso de sucesso; nas “100 menos” apenas 14% dos alunos cujas mãe têm esse mesmo nível de habilitações têm um percurso de sucesso.
E o que acontece se se dividir todas as mil escolas públicas em 10 grupos, sendo o primeiro grupo constituído pelas 100 escolas com percentagens mais altas de percursos de sucesso e último constituído pelas 99 com menos percursos de sucesso? “Entre os alunos das escolas do grupo G1 a percentagem de percursos de sucesso no 3.º ciclo é de 65%, enquanto no grupo de escolas G10, onde se agrupam as escolas com piores valores do indicador, a mesma percentagem de percursos de sucesso se reduz para uns diminutos 12%. A magnitude da diferença — cerca de 50 pontos percentuais — revela uma desigualdade de resultados entre escolas muito elevada.” Mais: esta análise mostra que em 99 escolas públicas, em média, apenas um em cada oito alunos consegue ter um percurso no 3.º ciclo limpo. “Um número extremamente baixo.”
O que diz o ME?
Em comunicado, nesta quarta-feira, o ME subinha que os resultados deste estudo “permitem centrar a reflexão sobre aquela que é uma das funções primordiais da escola pública — nivelamento de oportunidades entre crianças oriundas de diversos meios socioeconómicos e promoção da mobilidade social — expondo a importância do investimento no ensino público como via para ultrapassar lógicas deterministas”.
A equipa liderada por Tiago Brandão Rodrigues faz questão de enumerar prioridades: “aposta na qualificação das escolas para a identificação de estratégias locais de promoção do sucesso escolar”; investimento na ASE; investimento na formação de adultos, “tendo em vista uma valorização do conhecimento pelas famílias dos alunos”.
Elogiado o trabalho da DGEEC, o ministério promete agora apostar “na evidenciação das boas práticas que levam a que em algumas comunidades educativas os resultados gerados contrariem o determinismo socioeconómico”.
Recorde-se que já neste mês, um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico referia que Portugal era o 15.º país com maior diferença de desempenhos entre alunos de estratos carenciados e os de estratos favorecidos. Em Janeiro, um outro estudo, do Conselho Nacional de Educação, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, concluía que Portugal era o país da Europa que mais associava chumbar com um baixo estatuto socioeconómico e cultural da família.
Portugal: Austeridade agravou pobreza e exclusão, revela estudo da Cáritas
in Agência Ecclesia
Organização católica vai apresentar relatório relativo ao último ano
Lisboa, 24 fev 2016 (Ecclesia) – A Cáritas revela no seu mais recente relatório sobre Portugal que as medidas de austeridade agravaram a pobreza e a exclusão, propondo medidas para “alcançar a inclusão ativa”.
“Este é um documento que deixa algumas recomendações para que os decisores políticos possam ultrapassar estes grandes desafios, provenientes das medidas de austeridade que enfraqueceram os pilares de inclusão ativa agravando a pobreza e a exclusão social em Portugal”, explica a Cáritas Portuguesa, em comunicado.
O secretário-geral da Cáritas Europa vai participar na apresentação do documento sobre os desafios da pobreza e inclusão social, o ‘Caritas Cares Country Report 2015’, a 3 de março, pelas 11h00, no espaço Atmosfera M, em Lisboa.
O documento indica os três “principais desafios” de Portugal relacionadas com a pobreza e a exclusão social: “Menos pessoas têm acesso a apoio adequado ao rendimento; a reforma do mercado de trabalho piorou as condições de trabalho; a disponibilidade e a acessibilidade territorial limitam atualmente o acesso a serviços de qualidade”.
Neste contexto, a Cáritas Portuguesa desenvolve recomendações ao Governo que passam por “apoio adequado ao rendimento”, “mercado de trabalho inclusivo e “acesso a serviços de qualidade”.
A organização católica revela ainda que “atingiu um total de 160 608 beneficiários”, em 2014, e alerta que os problemas que “mais preocupam” são as “novas formas de pobreza, pobreza no trabalho e pobreza rural”.
Neste âmbito, os grupos de risco com “maior necessidade” de uma ação política são as crianças, os desempregados de longa duração, as pessoas com deficiência; pessoas com maior necessidade de cuidados e os jovens.
A Cáritas Portuguesa denúncia também que o acesso aos direitos “é limitado” para as pessoas em risco de pobreza e exclusão social em Portugal, e exemplifica: “Direito a uma pensão; habitação; educação; aos cuidados de saúde; remuneração justa e a condições justas e favoráveis de trabalho; direito de acesso justiça”.
O braço caritativo da Igreja Católica sublinha que o ‘Caritas Cares Country Report 2015’ é “mais” do que uma apresentação dos “principais problemas” que afetam a sociedade portuguesa e dos grupos em “risco de pobreza e de exclusão social”.
O relatório anual da Cáritas Portuguesa vai ser apresentado pelo secretário-geral da Cáritas Europa, Jorge Nuño Mayer, o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, e Francisco Vaz, membro da direção nacional e responsável pela Unidade de Estudos e Instrumentos Sociais da instituição.
O Caritas Cares Country Report 2015, já pode ser consultado online, em inglês.
A Igreja Católica em Portugal está a celebrar a Semana Nacional da Cáritas com o lema ‘Coração da Igreja no Mundo’, até este domingo.
Neste âmbito, a instituição promove o peditório público a partir desta quinta-feira, “em todas as dioceses do país, nas capitais de distrito e em superfícies comerciais de norte a sul”, um tema desenvolvido na mais recente edição do Semanário digital ECCLESIA.
CB/OC
Organização católica vai apresentar relatório relativo ao último ano
Lisboa, 24 fev 2016 (Ecclesia) – A Cáritas revela no seu mais recente relatório sobre Portugal que as medidas de austeridade agravaram a pobreza e a exclusão, propondo medidas para “alcançar a inclusão ativa”.
“Este é um documento que deixa algumas recomendações para que os decisores políticos possam ultrapassar estes grandes desafios, provenientes das medidas de austeridade que enfraqueceram os pilares de inclusão ativa agravando a pobreza e a exclusão social em Portugal”, explica a Cáritas Portuguesa, em comunicado.
O secretário-geral da Cáritas Europa vai participar na apresentação do documento sobre os desafios da pobreza e inclusão social, o ‘Caritas Cares Country Report 2015’, a 3 de março, pelas 11h00, no espaço Atmosfera M, em Lisboa.
O documento indica os três “principais desafios” de Portugal relacionadas com a pobreza e a exclusão social: “Menos pessoas têm acesso a apoio adequado ao rendimento; a reforma do mercado de trabalho piorou as condições de trabalho; a disponibilidade e a acessibilidade territorial limitam atualmente o acesso a serviços de qualidade”.
Neste contexto, a Cáritas Portuguesa desenvolve recomendações ao Governo que passam por “apoio adequado ao rendimento”, “mercado de trabalho inclusivo e “acesso a serviços de qualidade”.
A organização católica revela ainda que “atingiu um total de 160 608 beneficiários”, em 2014, e alerta que os problemas que “mais preocupam” são as “novas formas de pobreza, pobreza no trabalho e pobreza rural”.
Neste âmbito, os grupos de risco com “maior necessidade” de uma ação política são as crianças, os desempregados de longa duração, as pessoas com deficiência; pessoas com maior necessidade de cuidados e os jovens.
A Cáritas Portuguesa denúncia também que o acesso aos direitos “é limitado” para as pessoas em risco de pobreza e exclusão social em Portugal, e exemplifica: “Direito a uma pensão; habitação; educação; aos cuidados de saúde; remuneração justa e a condições justas e favoráveis de trabalho; direito de acesso justiça”.
O braço caritativo da Igreja Católica sublinha que o ‘Caritas Cares Country Report 2015’ é “mais” do que uma apresentação dos “principais problemas” que afetam a sociedade portuguesa e dos grupos em “risco de pobreza e de exclusão social”.
O relatório anual da Cáritas Portuguesa vai ser apresentado pelo secretário-geral da Cáritas Europa, Jorge Nuño Mayer, o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, e Francisco Vaz, membro da direção nacional e responsável pela Unidade de Estudos e Instrumentos Sociais da instituição.
O Caritas Cares Country Report 2015, já pode ser consultado online, em inglês.
A Igreja Católica em Portugal está a celebrar a Semana Nacional da Cáritas com o lema ‘Coração da Igreja no Mundo’, até este domingo.
Neste âmbito, a instituição promove o peditório público a partir desta quinta-feira, “em todas as dioceses do país, nas capitais de distrito e em superfícies comerciais de norte a sul”, um tema desenvolvido na mais recente edição do Semanário digital ECCLESIA.
CB/OC
22.2.16
Ter uma conta no banco pode custar 100 euros por ano
Ana Margarida Pinheiro, in Jornal de Notícias
As comissões cobradas pela banca dispararam nos últimos anos. Ter uma conta no banco passou a custar, em termos redondos, cerca de 100 euros.
É que, além das comissões de abertura e manutenção, são cada vez mais frequentes as comissões por cartões de débito e crédito e valores cobrados por cheques ou transferências ao balcão.
Depois de analisar 71 contas em diversos bancos a operar em Portugal a Deco não tem dúvidas: "Por quase tudo aquilo que já pagava ao banco em 2007, antes de a última crise ter invadido o país, agora paga-se ainda mais", diz um estudo que será divulgado esta semana.
"O custo de uma conta, com tudo o que envolve, desde os cartões à manutenção, ronda hoje os 100 euros. Há bancos que praticam acima, outros abaixo, mas a média é uma centena de euros", contou Nuno Rico, da Deco, ao JN/Dinheiro Vivo. O responsável por esta análise disse ainda que, "numa utilização básica, a evolução do custo com uma conta subiu 60%" desde 2007.
Em alguns itens, os aumentos chegam aos três dígitos. Falamos, por exemplo, do agravamento das anuidades dos cartões de débito que, segundo a Associação de Defesa do Consumidor, passaram de uma média de 6,56 euros em 2007 para 14,63 euros este ano. O aumento foi de 123%. "Só a Caixa Geral de Depósitos, que tem a maior quota de clientes, cobra atualmente 18,72 euros", acusa a Deco, dizendo que é já "a segunda mais cara". O exemplo da Caixa volta a ser dado para falar de cheque. Em média, o aumento de preços foi de 130%, na CGD. A Deco admite que "o preço mais do que duplicou na última década".
Questionada pelo JN/Dinheiro Vivo, fonte oficial da CGD lembra que os aumentos percentuais mais elevados acontecem "porque a base era muito baixa". Mesmo assim, sublinha, o preçário "continua abaixo da média" do que é praticado nas outras instituições.
Fonte do mercado lembra que, "apesar dos aumentos nas comissões cobradas nos últimos anos pelos bancos, numa tentativa de melhorarem as suas rentabilidades, ainda há uma série de isenções que anulam as comissões praticadas, especialmente se a conta servir para domiciliar o ordenado ou a reforma".
Mas a Deco alerta que também estas isenções têm vindo a perder dimensão. Se, em 2007, todas as contas ordenado ou utilizadas para colocar a reforma estavam livres de custos, "hoje já nem todos os bancos as isentam", diz Nuno Rico, que contou "três instituições que já cobram comissões mesmo quando se trata de contas ordenado".
Isto acontece, explicou fonte do mercado, porque nos últimos anos registou-se uma "grande redução dos fatores que permitem redução das despesas com contas".
As comissões cobradas pela banca dispararam nos últimos anos. Ter uma conta no banco passou a custar, em termos redondos, cerca de 100 euros.
É que, além das comissões de abertura e manutenção, são cada vez mais frequentes as comissões por cartões de débito e crédito e valores cobrados por cheques ou transferências ao balcão.
Depois de analisar 71 contas em diversos bancos a operar em Portugal a Deco não tem dúvidas: "Por quase tudo aquilo que já pagava ao banco em 2007, antes de a última crise ter invadido o país, agora paga-se ainda mais", diz um estudo que será divulgado esta semana.
"O custo de uma conta, com tudo o que envolve, desde os cartões à manutenção, ronda hoje os 100 euros. Há bancos que praticam acima, outros abaixo, mas a média é uma centena de euros", contou Nuno Rico, da Deco, ao JN/Dinheiro Vivo. O responsável por esta análise disse ainda que, "numa utilização básica, a evolução do custo com uma conta subiu 60%" desde 2007.
Em alguns itens, os aumentos chegam aos três dígitos. Falamos, por exemplo, do agravamento das anuidades dos cartões de débito que, segundo a Associação de Defesa do Consumidor, passaram de uma média de 6,56 euros em 2007 para 14,63 euros este ano. O aumento foi de 123%. "Só a Caixa Geral de Depósitos, que tem a maior quota de clientes, cobra atualmente 18,72 euros", acusa a Deco, dizendo que é já "a segunda mais cara". O exemplo da Caixa volta a ser dado para falar de cheque. Em média, o aumento de preços foi de 130%, na CGD. A Deco admite que "o preço mais do que duplicou na última década".
Questionada pelo JN/Dinheiro Vivo, fonte oficial da CGD lembra que os aumentos percentuais mais elevados acontecem "porque a base era muito baixa". Mesmo assim, sublinha, o preçário "continua abaixo da média" do que é praticado nas outras instituições.
Fonte do mercado lembra que, "apesar dos aumentos nas comissões cobradas nos últimos anos pelos bancos, numa tentativa de melhorarem as suas rentabilidades, ainda há uma série de isenções que anulam as comissões praticadas, especialmente se a conta servir para domiciliar o ordenado ou a reforma".
Mas a Deco alerta que também estas isenções têm vindo a perder dimensão. Se, em 2007, todas as contas ordenado ou utilizadas para colocar a reforma estavam livres de custos, "hoje já nem todos os bancos as isentam", diz Nuno Rico, que contou "três instituições que já cobram comissões mesmo quando se trata de contas ordenado".
Isto acontece, explicou fonte do mercado, porque nos últimos anos registou-se uma "grande redução dos fatores que permitem redução das despesas com contas".
Bebé requerente de asilo na Austrália enviado para centro de detenção de migrantes
in Jornal de Notícias
Ao abrigo da política de migração de Camberra, os requerentes de asilo que tentam chegar à Austrália por barco são enviados para centros na Papua Nova Guiné e em Nauru, onde ficam retidos enquanto transitam os seus pedidos.
O caso de Asha, uma menina de um ano filha de um casal de nepaleses requerentes de asilo, que foi levada para Brisbane (Austrália) depois de ter sofrido queimaduras no mês passado, desencadeou uma semana de protestos no exterior do Hospital Pediátrico Lady Cilento.
O pessoal médico recusou-se a dar alta à menina até ser identificado um ambiente familiar adequado.
O ministro da Imigração australiano, Peter Dutton, afirmou que a menina foi agora transferida para um centro comunitário, onde requerentes de asilo vivem enquanto esperam resposta aos seus processos.
"Ela está em detenção comunitária e é óbvio que vai ser providenciado apoio à família", disse Dutton ao Nine Network, embora deixando a ressalva de que o governo não vai voltar atrás na sua política de enviar a criança de volta para o centro de detenção 'offshore' uma vez resolvidas as questões médicas e jurídicas.
Defensores dos refugiados dizem que a menina foi secretamente transferida do hospital de madrugada para uma lugar cuja localização não foi revelada.
"Não nos foi dito o local onde a nossa cliente se encontra atualmente", disse o advogado da família, Daniel Webb.
"Solicitámos formalmente acesso à nossa cliente, repetidamente, ao longo das últimas três semanas, mas esse acesso foi negado", acrescentou.
Igrejas, governos estatais e até a Nova Zelândia ofereceram refúgio a Asha e a 266 outros requerentes de asilo que também se encontram na Austrália para receber assistência médica.
Contudo, Dutton afirmou que tal apenas encorajaria os traficantes de seres humanos.
"Temos a responsabilidade não apenas por este bebé, mas relativamente aos bebés que se afogam no mar antes e aos bebés que potencialmente se vão afogar novamente se os traficantes de pessoas voltarem ao negócio", disse.
Durante o anterior governo (Trabalhista), pelo menos 1200 pessoas morreram a tentar alcançar a Austrália por mar entre 2008 e 2013.
Ao abrigo da política de migração de Camberra, os requerentes de asilo que tentam chegar à Austrália por barco são enviados para centros na Papua Nova Guiné e em Nauru, onde ficam retidos enquanto transitam os seus pedidos.
O caso de Asha, uma menina de um ano filha de um casal de nepaleses requerentes de asilo, que foi levada para Brisbane (Austrália) depois de ter sofrido queimaduras no mês passado, desencadeou uma semana de protestos no exterior do Hospital Pediátrico Lady Cilento.
O pessoal médico recusou-se a dar alta à menina até ser identificado um ambiente familiar adequado.
O ministro da Imigração australiano, Peter Dutton, afirmou que a menina foi agora transferida para um centro comunitário, onde requerentes de asilo vivem enquanto esperam resposta aos seus processos.
"Ela está em detenção comunitária e é óbvio que vai ser providenciado apoio à família", disse Dutton ao Nine Network, embora deixando a ressalva de que o governo não vai voltar atrás na sua política de enviar a criança de volta para o centro de detenção 'offshore' uma vez resolvidas as questões médicas e jurídicas.
Defensores dos refugiados dizem que a menina foi secretamente transferida do hospital de madrugada para uma lugar cuja localização não foi revelada.
"Não nos foi dito o local onde a nossa cliente se encontra atualmente", disse o advogado da família, Daniel Webb.
"Solicitámos formalmente acesso à nossa cliente, repetidamente, ao longo das últimas três semanas, mas esse acesso foi negado", acrescentou.
Igrejas, governos estatais e até a Nova Zelândia ofereceram refúgio a Asha e a 266 outros requerentes de asilo que também se encontram na Austrália para receber assistência médica.
Contudo, Dutton afirmou que tal apenas encorajaria os traficantes de seres humanos.
"Temos a responsabilidade não apenas por este bebé, mas relativamente aos bebés que se afogam no mar antes e aos bebés que potencialmente se vão afogar novamente se os traficantes de pessoas voltarem ao negócio", disse.
Durante o anterior governo (Trabalhista), pelo menos 1200 pessoas morreram a tentar alcançar a Austrália por mar entre 2008 e 2013.
A fome e a greve que marcaram São Pedro da Cova em 1946
Abel Coentrão, in Público on-line
Há setenta anos, recusando “trabalhar com fome”, os mineiros desta freguesia conseguiram por via da greve impor aumentos salariais de 15%, apesar da repressão.
A guerra tinha acabado, mas dentro da mina não. Sujeitos a mobilização forçada desde 1943, em São Pedro da Cova, Gondomar, os quase 800 homens e mulheres que trabalhavam num dos mais importantes complexos de extracção de carvão do país ganhavam, naqueles anos de chumbo, dos salários mais baixos do sector. Incapazes de trabalhar “com fome”, muitos deles arriscaram, a 27 de Fevereiro de 1946, uma greve que acabaria por se prolongar por seis dias e que viria a obrigar a empresa concessionária a dar-lhes aumentos na ordem dos 15%. Passados 70 anos, um livro fixa, para memória futura, esse importante episódio da resistência de um povo cuja identidade é ainda moldada pelas memórias da exploração mineira.
Não Podiam Trabalhar Com Fome é a transposição, para livro, da tese de mestrado defendida em 2011 por Daniel Vieira, 30 anos, um militante comunista que preside à Junta de São Pedro da Cova, que passou a estar agregada a Fânzeres, desde 2009. Como estudo de caso, a obra, que será lançada na próxima sexta-feira, na véspera de mais um aniversário desse evento, é mais um contributo para a historiografia dos movimentos operários que, com sucessivas greves em vários sectores e pontos do país, abalaram o regime salazarista nos anos 40. Mas serve, principalmente, de testemunho da resistência do povo de São Pedro da Cova, cujo destino se cruzou com a extracção de antracite desde o final do século XVIII.
Em múltiplos aspectos descritos neste livro, a greve de 1946 não difere de outras desse período. Não foi sequer tão forte e participada como a de 1923, que, ao longo das suas dez semanas provocou uma onda de solidariedade nacional e até internacional para com os mineiros de São Pedro da Cova. Aliás, a censura conseguiu que a paralisação, e as detenções e outros esforços violentos para a reprimir, terminassem sem que uma linha fosse escrita na imprensa legalizada, explica Daniel Vieira. Só o clandestino Avante acompanhou, com detalhe, o esforço dos trabalhadores para conseguirem melhores condições, esforço esse que a 16 de Abril desse ano foi compensado, com aumentos salariais que variaram entre os 14 e os 16% para todos os mineiros. Uma das consequências mais relevadas por Daniel Vieira neste livro.
Como recordava a historiadora Irene Pimentel num artigo no PÚBLICO sobre o superavit registado pela economia portuguesa em 1943, um elemento do regime, Daniel Barbosa, ministro da Economia no pós-guerra, calculou que uma família, constituída por um operário, mulher e três filhos, precisaria, em 1943, de um salário mensal de 1650 escudos, para comprar o “estritamente” necessário e "viver com decência e na maior modéstia". Isto significava 64$30 diários, dos quais 28$09 para despesas de alimentação. Mas, nesse ano, o salário médio da maioria dos trabalhadores fabris portugueses era de pouco mais de 15$00 (entre 1941 e 46, a média era de 17$00).
Nos vários escalões, correspondentes a tarefas distintas, os trabalhadores de São Pedro da Cova ganhavam antes da greve precisamente entre 17 e 21 escudos por dia, valores aos quais eram ainda descontadas despesas e taxas para o sindicato corporativo. A exploração salarial, a par das péssimas condições de trabalho e as doenças a que estavam sujeitos os operários são apontados aliás, como motivo para a falta de mão-de-obra de que se vinha queixando a própria administração, que depois do pico de extracção de 1941, ano em que foi a mais importante mina de carvão do país, vinha verificando quedas de produção. Não encontrando, numa vila com fortes ligações a esta profissão e cuja população aumentava, interessados em entrar ao serviço.
Este problema foi parcialmente resolvido em 1943, com a entrada em vigor da mobilização forçada, que tratou como desertor quem não se apresentasse ao trabalho e obrigou mais de 200 antigos mineiros a abandonarem empregos melhor remunerados noutras localidades, e até noutras actividades, para regressarem à empresa, que passou a ser controlada por um delegado do Ministério da Guerra, António Miranda. E é este membro do regime que assume, num relatório, que uma das razões para o protesto que eclodiu no final de Fevereiro de 1946 residiria no incumprimento de “prometida melhoria ou actualização de salários”, que não acompanharam a carestia de vida desses anos da guerra, que fez explodir os preços de bens tão essenciais como o pão ou o peixe, o arroz ou a manteiga, entre muitos outros.
Outros dos objectivos de Daniel Vieira foi perceber até que ponto esta greve teve influência do PCP, como assumido em 2000 pelo antropólogo Jaime Moreira Guedes, na sua tese “Minas e Mineiros em São Pedro da Cova”. Ao PÚBLICO, no ano passado, um antigo responsável da organização central do PCP no distrito do Porto, José Carlos Almeida, garante que já nesse ano, “as pessoas mais activas não eram espontâneas, estavam organizadas partidariamente”, e que o “PCP tinha uma célula em São Pedro da Cova”. Mas após a análise de várias fontes escritas e orais, Daniel Vieira considerou não ser possível concluir que houve “uma acção determinante do PCP” na realização desta greve de classe, a que não aderiram capatazes ou outros trabalhadores de categorias superiores, e que teve como protagonistas gente com muito baixa instrução ou, na sua maioria, analfabetos.
Dos relatórios dos inquéritos aos 31 detidos pela PIDE, Daniel Vieira denota nos trabalhadores um esforço para vincar as motivações económicas do protesto. Numa entrevista que fez, para a tese, ainda em 2008, Serafim Marques, o Moliceira, activista do PCP que já trabalhava naqueles anos, disse-lhe que a questão da fome foi quase uma palavra-chave, a explicação que lhe foi dada à chegada à mina, no primeiro dia de paralisação. "A greve andava-se a formar. Tinha-se falado e a gente falava a este e àquele (…) eu já sabia, cheguei à mina e andavam alguns cá fora e eu perguntei: - O que é que se passa? E responderam: - É greve, é fome. E eu disse: - Então se é fome, eu também tenho fome, até nem almocei. E sentei-me a conversar”.
A opção, tomada pela “maioria”, como assumiu a empresa, e que segundo os documentos do arquivo do PCP terá sido seguida até por trabalhadores das instalações da empresa em Rio tinto (Gondomar) e no Monte Aventino (Porto), foi duramente reprimida. Chamada pelo delegado do Ministério da Guerra, a GNR passou a patrulhar a vila a cavalo, ia buscar os homens a casa e há relatos de espancamentos. Os detidos, que não tinham qualquer cadastro por antecendentes de contestação, passaram ainda a contar com ficha na PIDE e uma vigilância mais atenta da polícia política. E terminado o conflito, com a influência do PCP a crescer, a agressividade no trabalho, recrudesceu, à chicotada.
Se não instigou o arranque da greve – tese que o autor não põe de lado – o PCP, muito bem informado sobre as condições de trabalho e os salários praticados, acompanhou-a, como se verifica numa notícia do Avante, de Abril desse ano. E incentivou os trabalhadores das minas a prosseguirem o protesto, distribuindo um panfleto nos primeiros dias de Março onde se liam apelos à solidariedade dos portugueses para com os grevistas. “Que todos os portugueses apoiem esta luta, exigindo que parte dos lucros fabulosos da Companhia das Minas de São Pedro da Cova seja repartida pelos mineiros explorados. Os valentes mineiros precisam da ajuda de todos os portugueses honestos! Escrevam cartas de protesto às autoridades contra a exploração feita aos mineiros”, lia-se nesse prospecto clandestino.
A atenção do PCP, e o envolvimento do partido com esta comunidade mineira, foi, então, o prenúncio da politização desta comunidade e de uma ligação intensa que permanece até aos dias que correm e explica que o partido tenha aqui um raro bastião eleitoral no distrito. Mas ao contrário do que acontecera em 1923, em que famílias da cidade do Porto chegaram a cuidar dos filhos dos mineiros durante a longa paralização, em 1946 não houve nenhum movimento de solidariedade e a pressão policial, a par das dificuldades económicas e do medo de represálias, ditou o regresso, paulatino, dos grevistas ao trabalho. Sem o saberem, voltaram ao fundo das minas com uma vitória que haveria de lhes aparecer nas folhas salariais um mês depois.
Obra sobre a greve de 1923 a caminho
A frequentar neste momento o doutoramento em Ciência Política em Aveiro – com uma investigação em torno do efeito do efeito da austeridade no reaprofundamento das clivagens ideológicas no discurso político – Daniel Vieira promete não abandonar o seu interesse pela história local. O autarca de São Pedro da Cova e Fânzeres espera publicar um trabalho sobre a greve de 1923 nas minas, e vai acompanhando com atenção o que se vai escrevendo sobre a vila, cujo museu acaba de receber um exemplar de um álbum fotográfico do início da década de 40, mandado fazer, na altura, pelos donos da companhia (ver fotos). Para já, este neto de operários da mina e de um chapeleiro comunista e antigo preso político de São João da Madeira lança Não Podiam Trabalhar com Fome” na próxima sexta-feira, pelas 21h30, no Auditório da Escola Profissional de Gondomar, junto ao Museu Mineiro. A obra, editada pela chancela Lugar da Palavra, será apresentada por Manuel Loff, historiador, professor universitário e orientador da tese que deu origem ao livro.
Há setenta anos, recusando “trabalhar com fome”, os mineiros desta freguesia conseguiram por via da greve impor aumentos salariais de 15%, apesar da repressão.
A guerra tinha acabado, mas dentro da mina não. Sujeitos a mobilização forçada desde 1943, em São Pedro da Cova, Gondomar, os quase 800 homens e mulheres que trabalhavam num dos mais importantes complexos de extracção de carvão do país ganhavam, naqueles anos de chumbo, dos salários mais baixos do sector. Incapazes de trabalhar “com fome”, muitos deles arriscaram, a 27 de Fevereiro de 1946, uma greve que acabaria por se prolongar por seis dias e que viria a obrigar a empresa concessionária a dar-lhes aumentos na ordem dos 15%. Passados 70 anos, um livro fixa, para memória futura, esse importante episódio da resistência de um povo cuja identidade é ainda moldada pelas memórias da exploração mineira.
Não Podiam Trabalhar Com Fome é a transposição, para livro, da tese de mestrado defendida em 2011 por Daniel Vieira, 30 anos, um militante comunista que preside à Junta de São Pedro da Cova, que passou a estar agregada a Fânzeres, desde 2009. Como estudo de caso, a obra, que será lançada na próxima sexta-feira, na véspera de mais um aniversário desse evento, é mais um contributo para a historiografia dos movimentos operários que, com sucessivas greves em vários sectores e pontos do país, abalaram o regime salazarista nos anos 40. Mas serve, principalmente, de testemunho da resistência do povo de São Pedro da Cova, cujo destino se cruzou com a extracção de antracite desde o final do século XVIII.
Em múltiplos aspectos descritos neste livro, a greve de 1946 não difere de outras desse período. Não foi sequer tão forte e participada como a de 1923, que, ao longo das suas dez semanas provocou uma onda de solidariedade nacional e até internacional para com os mineiros de São Pedro da Cova. Aliás, a censura conseguiu que a paralisação, e as detenções e outros esforços violentos para a reprimir, terminassem sem que uma linha fosse escrita na imprensa legalizada, explica Daniel Vieira. Só o clandestino Avante acompanhou, com detalhe, o esforço dos trabalhadores para conseguirem melhores condições, esforço esse que a 16 de Abril desse ano foi compensado, com aumentos salariais que variaram entre os 14 e os 16% para todos os mineiros. Uma das consequências mais relevadas por Daniel Vieira neste livro.
Como recordava a historiadora Irene Pimentel num artigo no PÚBLICO sobre o superavit registado pela economia portuguesa em 1943, um elemento do regime, Daniel Barbosa, ministro da Economia no pós-guerra, calculou que uma família, constituída por um operário, mulher e três filhos, precisaria, em 1943, de um salário mensal de 1650 escudos, para comprar o “estritamente” necessário e "viver com decência e na maior modéstia". Isto significava 64$30 diários, dos quais 28$09 para despesas de alimentação. Mas, nesse ano, o salário médio da maioria dos trabalhadores fabris portugueses era de pouco mais de 15$00 (entre 1941 e 46, a média era de 17$00).
Nos vários escalões, correspondentes a tarefas distintas, os trabalhadores de São Pedro da Cova ganhavam antes da greve precisamente entre 17 e 21 escudos por dia, valores aos quais eram ainda descontadas despesas e taxas para o sindicato corporativo. A exploração salarial, a par das péssimas condições de trabalho e as doenças a que estavam sujeitos os operários são apontados aliás, como motivo para a falta de mão-de-obra de que se vinha queixando a própria administração, que depois do pico de extracção de 1941, ano em que foi a mais importante mina de carvão do país, vinha verificando quedas de produção. Não encontrando, numa vila com fortes ligações a esta profissão e cuja população aumentava, interessados em entrar ao serviço.
Este problema foi parcialmente resolvido em 1943, com a entrada em vigor da mobilização forçada, que tratou como desertor quem não se apresentasse ao trabalho e obrigou mais de 200 antigos mineiros a abandonarem empregos melhor remunerados noutras localidades, e até noutras actividades, para regressarem à empresa, que passou a ser controlada por um delegado do Ministério da Guerra, António Miranda. E é este membro do regime que assume, num relatório, que uma das razões para o protesto que eclodiu no final de Fevereiro de 1946 residiria no incumprimento de “prometida melhoria ou actualização de salários”, que não acompanharam a carestia de vida desses anos da guerra, que fez explodir os preços de bens tão essenciais como o pão ou o peixe, o arroz ou a manteiga, entre muitos outros.
Outros dos objectivos de Daniel Vieira foi perceber até que ponto esta greve teve influência do PCP, como assumido em 2000 pelo antropólogo Jaime Moreira Guedes, na sua tese “Minas e Mineiros em São Pedro da Cova”. Ao PÚBLICO, no ano passado, um antigo responsável da organização central do PCP no distrito do Porto, José Carlos Almeida, garante que já nesse ano, “as pessoas mais activas não eram espontâneas, estavam organizadas partidariamente”, e que o “PCP tinha uma célula em São Pedro da Cova”. Mas após a análise de várias fontes escritas e orais, Daniel Vieira considerou não ser possível concluir que houve “uma acção determinante do PCP” na realização desta greve de classe, a que não aderiram capatazes ou outros trabalhadores de categorias superiores, e que teve como protagonistas gente com muito baixa instrução ou, na sua maioria, analfabetos.
Dos relatórios dos inquéritos aos 31 detidos pela PIDE, Daniel Vieira denota nos trabalhadores um esforço para vincar as motivações económicas do protesto. Numa entrevista que fez, para a tese, ainda em 2008, Serafim Marques, o Moliceira, activista do PCP que já trabalhava naqueles anos, disse-lhe que a questão da fome foi quase uma palavra-chave, a explicação que lhe foi dada à chegada à mina, no primeiro dia de paralisação. "A greve andava-se a formar. Tinha-se falado e a gente falava a este e àquele (…) eu já sabia, cheguei à mina e andavam alguns cá fora e eu perguntei: - O que é que se passa? E responderam: - É greve, é fome. E eu disse: - Então se é fome, eu também tenho fome, até nem almocei. E sentei-me a conversar”.
A opção, tomada pela “maioria”, como assumiu a empresa, e que segundo os documentos do arquivo do PCP terá sido seguida até por trabalhadores das instalações da empresa em Rio tinto (Gondomar) e no Monte Aventino (Porto), foi duramente reprimida. Chamada pelo delegado do Ministério da Guerra, a GNR passou a patrulhar a vila a cavalo, ia buscar os homens a casa e há relatos de espancamentos. Os detidos, que não tinham qualquer cadastro por antecendentes de contestação, passaram ainda a contar com ficha na PIDE e uma vigilância mais atenta da polícia política. E terminado o conflito, com a influência do PCP a crescer, a agressividade no trabalho, recrudesceu, à chicotada.
Se não instigou o arranque da greve – tese que o autor não põe de lado – o PCP, muito bem informado sobre as condições de trabalho e os salários praticados, acompanhou-a, como se verifica numa notícia do Avante, de Abril desse ano. E incentivou os trabalhadores das minas a prosseguirem o protesto, distribuindo um panfleto nos primeiros dias de Março onde se liam apelos à solidariedade dos portugueses para com os grevistas. “Que todos os portugueses apoiem esta luta, exigindo que parte dos lucros fabulosos da Companhia das Minas de São Pedro da Cova seja repartida pelos mineiros explorados. Os valentes mineiros precisam da ajuda de todos os portugueses honestos! Escrevam cartas de protesto às autoridades contra a exploração feita aos mineiros”, lia-se nesse prospecto clandestino.
A atenção do PCP, e o envolvimento do partido com esta comunidade mineira, foi, então, o prenúncio da politização desta comunidade e de uma ligação intensa que permanece até aos dias que correm e explica que o partido tenha aqui um raro bastião eleitoral no distrito. Mas ao contrário do que acontecera em 1923, em que famílias da cidade do Porto chegaram a cuidar dos filhos dos mineiros durante a longa paralização, em 1946 não houve nenhum movimento de solidariedade e a pressão policial, a par das dificuldades económicas e do medo de represálias, ditou o regresso, paulatino, dos grevistas ao trabalho. Sem o saberem, voltaram ao fundo das minas com uma vitória que haveria de lhes aparecer nas folhas salariais um mês depois.
Obra sobre a greve de 1923 a caminho
A frequentar neste momento o doutoramento em Ciência Política em Aveiro – com uma investigação em torno do efeito do efeito da austeridade no reaprofundamento das clivagens ideológicas no discurso político – Daniel Vieira promete não abandonar o seu interesse pela história local. O autarca de São Pedro da Cova e Fânzeres espera publicar um trabalho sobre a greve de 1923 nas minas, e vai acompanhando com atenção o que se vai escrevendo sobre a vila, cujo museu acaba de receber um exemplar de um álbum fotográfico do início da década de 40, mandado fazer, na altura, pelos donos da companhia (ver fotos). Para já, este neto de operários da mina e de um chapeleiro comunista e antigo preso político de São João da Madeira lança Não Podiam Trabalhar com Fome” na próxima sexta-feira, pelas 21h30, no Auditório da Escola Profissional de Gondomar, junto ao Museu Mineiro. A obra, editada pela chancela Lugar da Palavra, será apresentada por Manuel Loff, historiador, professor universitário e orientador da tese que deu origem ao livro.
Desemprego em Portugal voltou a aumentar em janeiro
Jorge Horta, in Portugal Digital
Número oficial de desempregados em Portugal cresceu 2,7% entre dezembro e janeiro, de acordo com o Instituto do Emprego e Formação Profissional. São mais 15 mil cidadãos à procura de trabalho.
Lisboa - O Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) contabilizou em janeiro mais 15 mil desempregados em Portugal do que em dezembro, um aumento de 2,7%, de acordo com o mais recente boletim mensal do IEFP.
Na comparação com janeiro de 2015 o número de desempregados diminuiu em 45 mil, uma redução de 7,4%, variação que foi mais sentida entre os homens (descida do número de desempregados de 8,4%) do que nas mulheres (queda de 6,4%).
De acordo com o IEFP, no final de janeiro Portugal tinha oficialmente 570.380 cidadãos em situação de desemprego, sendo cerca de 274 mil homens e 296 mil mulheres. Os números não contabilizam as pessoas que estão sem trabalho mas não estão inscritas nos centros de emprego do IEFP.
Do total de casos de desemprego oficial, 12,8% dizem respeito a jovens com menos de 25 anos de idade. Os números do IEFP mostram ainda que mais de 46% dos desempregados estão sem trabalho há mais de um ano.
As estatísticas do IEFP mostram também que entre os desempregados inscritos nos centros de emprego apenas 13,4% têm formação superior. Há 24,8% com formação de ensino secundário. Os restantes casos (a maioria) são desempregados cuja escolaridade ficou pelo ensino básico ou sem nenhum nível de instrução (5,6% das situações).
Número oficial de desempregados em Portugal cresceu 2,7% entre dezembro e janeiro, de acordo com o Instituto do Emprego e Formação Profissional. São mais 15 mil cidadãos à procura de trabalho.
Lisboa - O Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) contabilizou em janeiro mais 15 mil desempregados em Portugal do que em dezembro, um aumento de 2,7%, de acordo com o mais recente boletim mensal do IEFP.
Na comparação com janeiro de 2015 o número de desempregados diminuiu em 45 mil, uma redução de 7,4%, variação que foi mais sentida entre os homens (descida do número de desempregados de 8,4%) do que nas mulheres (queda de 6,4%).
De acordo com o IEFP, no final de janeiro Portugal tinha oficialmente 570.380 cidadãos em situação de desemprego, sendo cerca de 274 mil homens e 296 mil mulheres. Os números não contabilizam as pessoas que estão sem trabalho mas não estão inscritas nos centros de emprego do IEFP.
Do total de casos de desemprego oficial, 12,8% dizem respeito a jovens com menos de 25 anos de idade. Os números do IEFP mostram ainda que mais de 46% dos desempregados estão sem trabalho há mais de um ano.
As estatísticas do IEFP mostram também que entre os desempregados inscritos nos centros de emprego apenas 13,4% têm formação superior. Há 24,8% com formação de ensino secundário. Os restantes casos (a maioria) são desempregados cuja escolaridade ficou pelo ensino básico ou sem nenhum nível de instrução (5,6% das situações).
Espírito competitivo e o sucesso dos empreendedores
Armando José Garcia Pires, in Público on-line
A crise económica e das finanças públicas que Portugal tem vindo a atravessar nos últimos anos teve duas consequências importantes a nível do emprego. Primeiro, o desemprego atingiu níveis historicamente altos. Segundo, o Estado perdeu parte da sua capacidade de criar emprego na economia, e, como tal, de absorver desequilíbrios no mercado de trabalho. Face a esta realidade, vários responsáveis políticos e empresariais passaram a ver no empreendedorismo uma das soluções possíveis para o problema do desemprego. Duas questões se levantam: Pode o empreendedorismo por si só criar condições para uma diminuição do desemprego? É o empreendedorismo uma solução apropriada para todos os que se encontram no desemprego?
Em relação à primeira questão, é de notar que, nas economias desenvolvidas, a taxa de actividade empreendedora (proporção de indivíduos adultos envolvidos num negócio em fase nascente ou na gestão de uma nova empresa) não costuma ultrapassar os 10% (ver dados do Global Entrepreneurship Monitor). A média da União Europeia é por exemplo 5,2%, e em Portugal é de 4,5%. Portugal teria como tal que apresentar um enorme aumento desta taxa para diminuir significativamente o desemprego. Tal não é expectável no curto, ou até mesmo no médio-prazo. Além do mais, só em países em desenvolvimento o empreendedorismo atinge valores significativos da população (acima dos 30%). No entanto, nestes países a razão para uma tão elevada taxa de empreendedorismo deve-se ao facto de não haver oportunidades de emprego noutros sectores.
Dito de outro modo, enquanto que em países em desenvolvimento os empreendedores são principalmente “empreendedores por necessidade”, em países desenvolvidos os empreendedores são maioritariamente “empreendedores por oportunidades”. Os “empreendedores por necessidade” são aqueles que se tornam empreendedores porque não têm outras alternativas de emprego, e esta actividade é para eles uma forma de “sobrevivência”. O exemplo típico é um empreendedor numa grande cidade em África, como Nairobi, que gere um quiosque de bebidas. Os “empreendedores por oportunidades” são os que estão sempre à procura de novas oportunidades de negócio, e que frequentemente se tornam empreendedores de sucesso. O exemplo típico é um empreendedor em Silicon Valley nos EUA com uma empresa de software. Neste sentido não basta promover o empreendedorismo, tem também que se criar condições para que o maior número possível de empreendedores se tornem “empreendedores por oportunidades”, porque só estes contribuem para o crescimento económico e criam emprego. Isto é especialmente relevante em Portugal, porque a primeira motivação para alguém que perde o emprego e se torna empreendedor é a “necessidade”.
Isto leva-nos à segunda questão: pode o empreendedorismo ser uma solução “one-fits-all”? A evidência empírica demonstra que os “empreendedores por oportunidades” aparentam ser “diferentes” das restantes pessoas, no que diz respeito aos traços psicológicos. Este aspecto já tinha sido destacado por Keynes, quando se referia aos “animal spirits” dos empreendedores. Segundo ele, os “animal spirits” reflectem-se no impulso que se observa nos empreendedores de sucesso em investir, procurar novas oportunidades e vencer a concorrência. Neste caso o exemplo normalmente dado nos dias que correm é o de Steve Jobs.
Num projecto sobre o empreendedorismo desenvolvido na Norwegian School of Economics analisamos a importância da vertente psicológica no empreendedorismo [1]. Neste estudo, incluiu-se empreendedores da Tanzânia pertencentes a uma instituição de microcrédito local. Este grupo é interessante porque eram todos no início do estudo “empreendedores por necessidade”. O objectivo do projecto era analisar quais destes empreendedores tinham potencial para se tornarem “empreendedores por oportunidades”, i.e. crescerem em termos de vendas, investimentos, criação de emprego e lucros. Para se medir o nível de sucesso de cada um destes empreendedores, recolheram-se dados destes ao longo de cinco anos. A alguns deles foi também oferecido treino de técnicas empresariais e um subsídio ao desenvolvimento do negócio. Aos restantes (grupo de controlo) não se atribuiu nenhum destes apoios.
As características psicológicas consideradas no estudo foram o nível de competitividade, preferências pelo risco, paciência em escolhas temporais, e autoconfiança. Estas últimas variáveis, que foram obtidas em laboratório através de técnicas da economia experimental comportamental, são apontadas na literatura como sendo centrais para o empreendedorismo.
Os resultados do estudo demonstraram que os empreendedores que atingiram maior crescimento (em termos de lucros, vendas, emprego e investimento) foram aqueles com maiores níveis de competitividade. Este factor revelou-se mais importante que as restantes características psicológicas (como risco, paciência e confiança) e outras características gerais do negócio (como nível de escolaridade do empreendedor, ou o facto de o empreendedor ter recebido ou não subsídio e/ou apoio ao desenvolvimento do negócio).
Estes resultados indicam como tal que o nível de competitividade é fundamental num empreendedor de sucesso. Neste sentido, os programas de incentivos ao empreendedorismo deveriam também ter em consideração os factores psicológicos, como o nível de competitividade. No entanto, estes programas tendem a centrar-se principalmente nos apoios financeiros e de negócio. Por exemplo em Portugal o IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação –, tem o programa FINICIA que facilita o acesso a financiamento e o Empreender+ que assiste jovens empreendedores a tornar ideias de negócio em empresas viáveis. Não há dúvida de que os aspectos psicológicos são de mais difícil aplicação em programas de apoio ao empreendedorismo, mas se tais factores forem descurados corre-se o risco que estes programas criem apenas “empreendedores por necessidade” e não “por oportunidades”. Dito de outro modo, estes programas devem também promover o “empreendedorismo por oportunidades”, pois só este fomenta a criação de emprego e crescimento económico.
Professor na Norwegian School of Economics
[1] Berge, L; Bjorvatn, K.; Garcia Pires, A. J. and Tungodden, B. (2015), Competitive in the Lab, Successful in the Field?, Journal of Economic Behavior & Organization, 118, 303-317.
A crise económica e das finanças públicas que Portugal tem vindo a atravessar nos últimos anos teve duas consequências importantes a nível do emprego. Primeiro, o desemprego atingiu níveis historicamente altos. Segundo, o Estado perdeu parte da sua capacidade de criar emprego na economia, e, como tal, de absorver desequilíbrios no mercado de trabalho. Face a esta realidade, vários responsáveis políticos e empresariais passaram a ver no empreendedorismo uma das soluções possíveis para o problema do desemprego. Duas questões se levantam: Pode o empreendedorismo por si só criar condições para uma diminuição do desemprego? É o empreendedorismo uma solução apropriada para todos os que se encontram no desemprego?
Em relação à primeira questão, é de notar que, nas economias desenvolvidas, a taxa de actividade empreendedora (proporção de indivíduos adultos envolvidos num negócio em fase nascente ou na gestão de uma nova empresa) não costuma ultrapassar os 10% (ver dados do Global Entrepreneurship Monitor). A média da União Europeia é por exemplo 5,2%, e em Portugal é de 4,5%. Portugal teria como tal que apresentar um enorme aumento desta taxa para diminuir significativamente o desemprego. Tal não é expectável no curto, ou até mesmo no médio-prazo. Além do mais, só em países em desenvolvimento o empreendedorismo atinge valores significativos da população (acima dos 30%). No entanto, nestes países a razão para uma tão elevada taxa de empreendedorismo deve-se ao facto de não haver oportunidades de emprego noutros sectores.
Dito de outro modo, enquanto que em países em desenvolvimento os empreendedores são principalmente “empreendedores por necessidade”, em países desenvolvidos os empreendedores são maioritariamente “empreendedores por oportunidades”. Os “empreendedores por necessidade” são aqueles que se tornam empreendedores porque não têm outras alternativas de emprego, e esta actividade é para eles uma forma de “sobrevivência”. O exemplo típico é um empreendedor numa grande cidade em África, como Nairobi, que gere um quiosque de bebidas. Os “empreendedores por oportunidades” são os que estão sempre à procura de novas oportunidades de negócio, e que frequentemente se tornam empreendedores de sucesso. O exemplo típico é um empreendedor em Silicon Valley nos EUA com uma empresa de software. Neste sentido não basta promover o empreendedorismo, tem também que se criar condições para que o maior número possível de empreendedores se tornem “empreendedores por oportunidades”, porque só estes contribuem para o crescimento económico e criam emprego. Isto é especialmente relevante em Portugal, porque a primeira motivação para alguém que perde o emprego e se torna empreendedor é a “necessidade”.
Isto leva-nos à segunda questão: pode o empreendedorismo ser uma solução “one-fits-all”? A evidência empírica demonstra que os “empreendedores por oportunidades” aparentam ser “diferentes” das restantes pessoas, no que diz respeito aos traços psicológicos. Este aspecto já tinha sido destacado por Keynes, quando se referia aos “animal spirits” dos empreendedores. Segundo ele, os “animal spirits” reflectem-se no impulso que se observa nos empreendedores de sucesso em investir, procurar novas oportunidades e vencer a concorrência. Neste caso o exemplo normalmente dado nos dias que correm é o de Steve Jobs.
Num projecto sobre o empreendedorismo desenvolvido na Norwegian School of Economics analisamos a importância da vertente psicológica no empreendedorismo [1]. Neste estudo, incluiu-se empreendedores da Tanzânia pertencentes a uma instituição de microcrédito local. Este grupo é interessante porque eram todos no início do estudo “empreendedores por necessidade”. O objectivo do projecto era analisar quais destes empreendedores tinham potencial para se tornarem “empreendedores por oportunidades”, i.e. crescerem em termos de vendas, investimentos, criação de emprego e lucros. Para se medir o nível de sucesso de cada um destes empreendedores, recolheram-se dados destes ao longo de cinco anos. A alguns deles foi também oferecido treino de técnicas empresariais e um subsídio ao desenvolvimento do negócio. Aos restantes (grupo de controlo) não se atribuiu nenhum destes apoios.
As características psicológicas consideradas no estudo foram o nível de competitividade, preferências pelo risco, paciência em escolhas temporais, e autoconfiança. Estas últimas variáveis, que foram obtidas em laboratório através de técnicas da economia experimental comportamental, são apontadas na literatura como sendo centrais para o empreendedorismo.
Os resultados do estudo demonstraram que os empreendedores que atingiram maior crescimento (em termos de lucros, vendas, emprego e investimento) foram aqueles com maiores níveis de competitividade. Este factor revelou-se mais importante que as restantes características psicológicas (como risco, paciência e confiança) e outras características gerais do negócio (como nível de escolaridade do empreendedor, ou o facto de o empreendedor ter recebido ou não subsídio e/ou apoio ao desenvolvimento do negócio).
Estes resultados indicam como tal que o nível de competitividade é fundamental num empreendedor de sucesso. Neste sentido, os programas de incentivos ao empreendedorismo deveriam também ter em consideração os factores psicológicos, como o nível de competitividade. No entanto, estes programas tendem a centrar-se principalmente nos apoios financeiros e de negócio. Por exemplo em Portugal o IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação –, tem o programa FINICIA que facilita o acesso a financiamento e o Empreender+ que assiste jovens empreendedores a tornar ideias de negócio em empresas viáveis. Não há dúvida de que os aspectos psicológicos são de mais difícil aplicação em programas de apoio ao empreendedorismo, mas se tais factores forem descurados corre-se o risco que estes programas criem apenas “empreendedores por necessidade” e não “por oportunidades”. Dito de outro modo, estes programas devem também promover o “empreendedorismo por oportunidades”, pois só este fomenta a criação de emprego e crescimento económico.
Professor na Norwegian School of Economics
[1] Berge, L; Bjorvatn, K.; Garcia Pires, A. J. and Tungodden, B. (2015), Competitive in the Lab, Successful in the Field?, Journal of Economic Behavior & Organization, 118, 303-317.
PAN sobre OE2016: “Não vemos respostas para o aumento do desemprego estrutural e tecnológico"
João Carlos Malta , Teresa Abecasis , Rodrigo Machado (grafismo, in RR
A novidade deste orçamento será também o primeiro voto do PAN. André Silva vê-lhe pontos positivos, mas critica-lhe a falta de visão de futuro.
Num exercício proposto pela Renascença (um questionário de cinco perguntas), o novo deputado na Assembleia da República André Silva, do PAN - Pessoas-Animais-Natureza, percorre os pontos mais importantes do Orçamento do Estado de 2016, que começa a ser discutido na generalidade esta segunda-feira, no Parlamento.
André Silva introduz as respostas com uma nota: “Para um deputado único, acabado de chegar à Assembleia da República, é um desafio épico estar a fazer em tão breve espaço de tempo uma análise ao Orçamento do Estado, mas está a ser absolutamente desafiante.”
O Governo privilegiar na tributação fiscal através dos impostos indirectos, isto é, através do consumo, podendo os portugueses escolher de que forma é que fazem os seus consumos.
O não acompanhar o programa do Governo nas medidas de protecção e bem-estar animal. Há 15 anos que a lei prevê que as entidades responsáveis pela recolha de animais errantes são os municípios e que há necessidade de construir e de melhorar os centros de recolha oficial e continua a não haver uma linha orçamental para esse efeito.
As medidas ambientais têm sido descuradas. Ainda há meia dúzia de dias tivemos a revogação da interdição de caça na Reserva Natural da Malcata, o que é, claramente, um retrocesso civilizacional.
Esperança. Uma eventual promessa de melhoria daquilo que serão as condições de alívio de austeridade para os portugueses e daquilo que será no futuro a posição deste Governo perante as alterações que o PAN irá propor ao Orçamento do Estado.
Sim, o orçamento e as medidas que foram apresentadas vêm no seguimento de uma redução da austeridade. Vamos ver se é uma redução ou se é um adiamento da austeridade, mas pelo menos há medidas que tornam mais confortável a vida daqueles que menos auferem e que mais têm sofrido nos últimos anos.
Não é um fim da austeridade, é uma outra forma de tributar. E pelo menos há algo aqui de positivo: a tributação através de impostos indirectos, através de impostos do consumo, que também o PAN irá acompanhar nas medidas que irá apresentar.
Iremos apresentar várias medidas relativamente a impostos indirectos, impostos através do consumo, nuns aumentando a receita – entendo que devem ser aumentados, as taxas de IVA nomeadamente –, noutras diminuindo. E, nesse aspecto, entendemos que é mais positivo haver uma tributação através do consumo e não, neste momento, através do rendimento.
É um orçamento de transição. Vamos ver se vira a página da austeridade, se a mantém ou se a adia. Agora, a nível daquilo que é a estratégia de fundo, nós não conseguimos vislumbrar isso, nem no que são medidas de longo prazo para os desempregados de longa duração, que não estão inscritos, nem para o desemprego estrutural e tecnológico que cada vez mais aumenta.
Há cada vez mais pessoas que não vão ter acesso ao trabalho e ao rendimento por via do trabalho. Não conseguimos perceber através deste Orçamento do Estado como é que o Governo irá lidar com estas situações a longo prazo.
Nos nossos compromissos para com a nossa casa comum, para com o ambiente, para com a Natureza, também não vislumbramos de forma clara que existe um compromisso.
A novidade deste orçamento será também o primeiro voto do PAN. André Silva vê-lhe pontos positivos, mas critica-lhe a falta de visão de futuro.
Num exercício proposto pela Renascença (um questionário de cinco perguntas), o novo deputado na Assembleia da República André Silva, do PAN - Pessoas-Animais-Natureza, percorre os pontos mais importantes do Orçamento do Estado de 2016, que começa a ser discutido na generalidade esta segunda-feira, no Parlamento.
André Silva introduz as respostas com uma nota: “Para um deputado único, acabado de chegar à Assembleia da República, é um desafio épico estar a fazer em tão breve espaço de tempo uma análise ao Orçamento do Estado, mas está a ser absolutamente desafiante.”
O Governo privilegiar na tributação fiscal através dos impostos indirectos, isto é, através do consumo, podendo os portugueses escolher de que forma é que fazem os seus consumos.
O não acompanhar o programa do Governo nas medidas de protecção e bem-estar animal. Há 15 anos que a lei prevê que as entidades responsáveis pela recolha de animais errantes são os municípios e que há necessidade de construir e de melhorar os centros de recolha oficial e continua a não haver uma linha orçamental para esse efeito.
As medidas ambientais têm sido descuradas. Ainda há meia dúzia de dias tivemos a revogação da interdição de caça na Reserva Natural da Malcata, o que é, claramente, um retrocesso civilizacional.
Esperança. Uma eventual promessa de melhoria daquilo que serão as condições de alívio de austeridade para os portugueses e daquilo que será no futuro a posição deste Governo perante as alterações que o PAN irá propor ao Orçamento do Estado.
Sim, o orçamento e as medidas que foram apresentadas vêm no seguimento de uma redução da austeridade. Vamos ver se é uma redução ou se é um adiamento da austeridade, mas pelo menos há medidas que tornam mais confortável a vida daqueles que menos auferem e que mais têm sofrido nos últimos anos.
Não é um fim da austeridade, é uma outra forma de tributar. E pelo menos há algo aqui de positivo: a tributação através de impostos indirectos, através de impostos do consumo, que também o PAN irá acompanhar nas medidas que irá apresentar.
Iremos apresentar várias medidas relativamente a impostos indirectos, impostos através do consumo, nuns aumentando a receita – entendo que devem ser aumentados, as taxas de IVA nomeadamente –, noutras diminuindo. E, nesse aspecto, entendemos que é mais positivo haver uma tributação através do consumo e não, neste momento, através do rendimento.
É um orçamento de transição. Vamos ver se vira a página da austeridade, se a mantém ou se a adia. Agora, a nível daquilo que é a estratégia de fundo, nós não conseguimos vislumbrar isso, nem no que são medidas de longo prazo para os desempregados de longa duração, que não estão inscritos, nem para o desemprego estrutural e tecnológico que cada vez mais aumenta.
Há cada vez mais pessoas que não vão ter acesso ao trabalho e ao rendimento por via do trabalho. Não conseguimos perceber através deste Orçamento do Estado como é que o Governo irá lidar com estas situações a longo prazo.
Nos nossos compromissos para com a nossa casa comum, para com o ambiente, para com a Natureza, também não vislumbramos de forma clara que existe um compromisso.
Cáritas: desemprego de longa duração é "eutanásia social"
in TVI24
Presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, defendeu que, antes de se trazer para a discussão pública temas como a eutanásia, deve olhar-se para estes desempregados, que “estão a ver roubado um direito inalienável"
O presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, afirmou este domingo que o desemprego de longa duração é “uma eutanásia social” imposta às pessoas, que as faz sentir “inválidas” e “sem projeto de vida”.
“Não nos podemos conformar com isso, porque há gente que hoje tem 40, 45 anos e está há três ou quatro anos sem trabalho”, com compromissos familiares a assumir e cuja esperança de encontrar um emprego é “cada vez mais ténue”, disse Eugénio Fonseca, que falava à agência Lusa a propósito da Semana Nacional da Cáritas, que começa este domingo.
Eugénio Fonseca defendeu que, antes de se trazer para a discussão pública temas como a eutanásia, deve olhar-se para estes desempregados, que “estão a ver roubado um direito inalienável, o direito ao trabalho”, e não as deixar “morrer em termos societários e por falta de recursos”
“Por amor de Deus não chamemos como prioritário para a discussão pública temas que podem ficar para outra oportunidade, porque aquilo que está a acontecer em termos do desemprego de longa duração não é mais do que uma eutanásia social que se está a impor às pessoas, que sem trabalho perdem estatuto social, o ser lugar na sociedade e consideram-se inválidas, sem projeto de vida, perdidas.”
“Tudo isto são expressões de morte para estas pessoas”, lamentou Eugénio Fonseca.
Sobre o tema da eutanásia, o presidente da Cáritas disse que não vai tomar posição, porque considera “não ser a altura própria” para fazer este debate, mas se acontecer que seja “um debate alargado, muito sério e muito isento”.
Da análise que a Cáritas fez ao ano 2015 constatou que “o problema crucial” neste momento no país é o rendimento das famílias que não permitem aceder a bens de primeira necessidade e até a encargos muitas vezes impostos pelo Estado, como ”impostos que são criados e que as pessoas não podem deixar de assumir sob pena de se tornarem mais gravosos”.
Outra “preocupação muito séria” para a Cáritas é o facto de as pessoas continuarem a contrair empréstimos.
“Este empobrecimento das famílias que resulta da austeridade criada ao longos dos últimos anos leva a que as pessoas se continuem a endividar como faziam antes da crise e por isso caíram mais rapidamente na situação de pobreza que estão a viver.”
Para Eugénio Fonseca tem que haver “uma entidade reguladora deste procedimento”, que permite aceder a créditos sem ser feita uma “avaliação cuidada” das possibilidades das pessoas.
“O orçamento [do Estado] prevê o imposto de selo para obviar esse tipo de endividamento e resfriar mais a apetência das pessoas, mas chamo a atenção que isso será pouco se não houver uma regulação junto das entidades credoras, do sistema bancário ou outras”, salientou.
Alertou ainda que a “sedução muito apelativa” feita por estas entidades leva as pessoas a assinarem compromissos sem terem a plena consciência do que isso acarreta.
Nestes casos, defendeu Eugénio Fonseca, o risco tem de ser partilhado pelas partes que acordaram o empréstimo, cabendo também ao Estado “regular, fiscalizar e penalizar sempre que houver dolo nestes mecanismos”.
“Cáritas: Coração da Igreja no Mundo” é o lema da Semana Nacional, durante a qual decorrerá o Peditório Público, entre quinta-feira e domingo.
Presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, defendeu que, antes de se trazer para a discussão pública temas como a eutanásia, deve olhar-se para estes desempregados, que “estão a ver roubado um direito inalienável"
O presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, afirmou este domingo que o desemprego de longa duração é “uma eutanásia social” imposta às pessoas, que as faz sentir “inválidas” e “sem projeto de vida”.
“Não nos podemos conformar com isso, porque há gente que hoje tem 40, 45 anos e está há três ou quatro anos sem trabalho”, com compromissos familiares a assumir e cuja esperança de encontrar um emprego é “cada vez mais ténue”, disse Eugénio Fonseca, que falava à agência Lusa a propósito da Semana Nacional da Cáritas, que começa este domingo.
Eugénio Fonseca defendeu que, antes de se trazer para a discussão pública temas como a eutanásia, deve olhar-se para estes desempregados, que “estão a ver roubado um direito inalienável, o direito ao trabalho”, e não as deixar “morrer em termos societários e por falta de recursos”
“Por amor de Deus não chamemos como prioritário para a discussão pública temas que podem ficar para outra oportunidade, porque aquilo que está a acontecer em termos do desemprego de longa duração não é mais do que uma eutanásia social que se está a impor às pessoas, que sem trabalho perdem estatuto social, o ser lugar na sociedade e consideram-se inválidas, sem projeto de vida, perdidas.”
“Tudo isto são expressões de morte para estas pessoas”, lamentou Eugénio Fonseca.
Sobre o tema da eutanásia, o presidente da Cáritas disse que não vai tomar posição, porque considera “não ser a altura própria” para fazer este debate, mas se acontecer que seja “um debate alargado, muito sério e muito isento”.
Da análise que a Cáritas fez ao ano 2015 constatou que “o problema crucial” neste momento no país é o rendimento das famílias que não permitem aceder a bens de primeira necessidade e até a encargos muitas vezes impostos pelo Estado, como ”impostos que são criados e que as pessoas não podem deixar de assumir sob pena de se tornarem mais gravosos”.
Outra “preocupação muito séria” para a Cáritas é o facto de as pessoas continuarem a contrair empréstimos.
“Este empobrecimento das famílias que resulta da austeridade criada ao longos dos últimos anos leva a que as pessoas se continuem a endividar como faziam antes da crise e por isso caíram mais rapidamente na situação de pobreza que estão a viver.”
Para Eugénio Fonseca tem que haver “uma entidade reguladora deste procedimento”, que permite aceder a créditos sem ser feita uma “avaliação cuidada” das possibilidades das pessoas.
“O orçamento [do Estado] prevê o imposto de selo para obviar esse tipo de endividamento e resfriar mais a apetência das pessoas, mas chamo a atenção que isso será pouco se não houver uma regulação junto das entidades credoras, do sistema bancário ou outras”, salientou.
Alertou ainda que a “sedução muito apelativa” feita por estas entidades leva as pessoas a assinarem compromissos sem terem a plena consciência do que isso acarreta.
Nestes casos, defendeu Eugénio Fonseca, o risco tem de ser partilhado pelas partes que acordaram o empréstimo, cabendo também ao Estado “regular, fiscalizar e penalizar sempre que houver dolo nestes mecanismos”.
“Cáritas: Coração da Igreja no Mundo” é o lema da Semana Nacional, durante a qual decorrerá o Peditório Público, entre quinta-feira e domingo.
Leonor Teles: “Se vamos falar de coisas sérias, porque não de um modo divertido?”
Jorge Mourinha (em Berlim), in Público on-line
A jovem realizadora portuguesa confessa que nem a excelente recepção que Balada de um Batráquio teve no Festival de Berlim a faria esperar este resultado.
Leonor Teles está genuinamente surpreendida pela sua vitória na competição de curtas de Berlim. Mesmo ao telefone com o PÚBLICO, acabada de saír da curtíssima conferência de imprensa e pelo meio do turbilhão de felicitações habitual nestas ocasiões, confessa que nem a excelente recepção que Balada de um Batráquio teve no festival a faria esperar este resultado.
“Não, não, é mesmo completamente inesperado. Porque para mim este filme é uma parvoíce, é um filme com uma forma tosca, que tem um só objectivo: partir sapos. Ninguém me disse nada, estou eu ali sentada e de repente dizem o meu nome, e eu a pensar, não, isto não pode ser...”
É mesmo por isso que Balada de um Batráquio não é parvo nem tosco. Filha de pai cigano, a realizadora tem um especial interesse pela relação ainda muito tensa entre a etnia cigana e a sociedade – o filme debruça-se sobre a superstição de colocar sapos de louça à porta das lojas para impedir a entrada de ciganos, como maneira de lhes impedir o acesso a uma “vida normal”, e assume uma dimensão de farsa quase burlesca, com a própria equipa do filme a entrar em lojas com sapos na montra para os partir. Foi dessa ideia de “partir os sapos” - entendida como o quebrar de um tabu xenófobo – que Leonor Teles construiu todo o filme.
“O filme é bastante redondo,” explica, “foi bastante pensado e estruturado desde o início. Tivemos que pensar como fazer um filme em que se chegasse a esse pormenor de partir sapos. Mas era importante que o filme não fosse apenas um diagnóstico do problema mas sim também um pouco a sua resolução. E se vamos falar de coisas sérias, porque não fazê-lo de modo divertido?”
Filme que “não pretende ser mais do que aquilo que é”, feito de modo instintivo, Balada de um Batráquio já ultrapassou todas as expectativas que a sua realizadora tinha, e antes ainda do prémio interessara produtores estrangeiros em participar no próximo projecto, Terra Franca. Berlim já abrira portas a Leonor Teles, o Urso de Ouro das Curtas pode certamente abrir mais? “Espero que sim!”, diz antes de desligar.
A jovem realizadora portuguesa confessa que nem a excelente recepção que Balada de um Batráquio teve no Festival de Berlim a faria esperar este resultado.
Leonor Teles está genuinamente surpreendida pela sua vitória na competição de curtas de Berlim. Mesmo ao telefone com o PÚBLICO, acabada de saír da curtíssima conferência de imprensa e pelo meio do turbilhão de felicitações habitual nestas ocasiões, confessa que nem a excelente recepção que Balada de um Batráquio teve no festival a faria esperar este resultado.
“Não, não, é mesmo completamente inesperado. Porque para mim este filme é uma parvoíce, é um filme com uma forma tosca, que tem um só objectivo: partir sapos. Ninguém me disse nada, estou eu ali sentada e de repente dizem o meu nome, e eu a pensar, não, isto não pode ser...”
É mesmo por isso que Balada de um Batráquio não é parvo nem tosco. Filha de pai cigano, a realizadora tem um especial interesse pela relação ainda muito tensa entre a etnia cigana e a sociedade – o filme debruça-se sobre a superstição de colocar sapos de louça à porta das lojas para impedir a entrada de ciganos, como maneira de lhes impedir o acesso a uma “vida normal”, e assume uma dimensão de farsa quase burlesca, com a própria equipa do filme a entrar em lojas com sapos na montra para os partir. Foi dessa ideia de “partir os sapos” - entendida como o quebrar de um tabu xenófobo – que Leonor Teles construiu todo o filme.
“O filme é bastante redondo,” explica, “foi bastante pensado e estruturado desde o início. Tivemos que pensar como fazer um filme em que se chegasse a esse pormenor de partir sapos. Mas era importante que o filme não fosse apenas um diagnóstico do problema mas sim também um pouco a sua resolução. E se vamos falar de coisas sérias, porque não fazê-lo de modo divertido?”
Filme que “não pretende ser mais do que aquilo que é”, feito de modo instintivo, Balada de um Batráquio já ultrapassou todas as expectativas que a sua realizadora tinha, e antes ainda do prémio interessara produtores estrangeiros em participar no próximo projecto, Terra Franca. Berlim já abrira portas a Leonor Teles, o Urso de Ouro das Curtas pode certamente abrir mais? “Espero que sim!”, diz antes de desligar.
in Correia da Manhã
Roménia: 150 mil ciganos "não existem" para o Estado Autoridades com falta de interesse. Cerca de 150 mil romenos, na sua maioria de etnia cigana, vivem num limbo legal: não existem para o Estado, um resultado da falta de interesse das autoridades. Uma dessas pessoas é Stelian, um romeno de etnia cigana com 15 anos e que vive em Bucareste, capital da Roménia. Stelian não existe para as autoridades, nem para o sistema de saúde e nem para os serviços sociais. Não existe porque não tem e nem pode ter obter um cartão de identidade. "Tiram-me os meus direitos, como o acesso aos cuidados de saúde. E, pior ainda, a possibilidade de conseguir um trabalho decente com o qual possa sobreviver", disse Stelian à agência de notícias EFE, que se protege inverno duro dormindo num salão de cabeleireiro. Stelian mora nas ruas há dois anos.
Abandonado pela sua mãe, que era pedinte, quando tinha quatro anos, foi criado por uma vizinha até ter morrido. Ao completar 14 anos, tentou obter o cartão de identidade mas não conseguiu, por não dispor de uma certidão de nascimento ou de um morada fixa. Legislação exige morada A legislação romena exige uma morada para expedir o documento nacional de identidade. Mas sem um documento de identificação não é possível arrendar legalmente uma casa. "Chego a pensar que não nos dão um documento de identidade para assim sermos marginais e poderem economizar dinheiro com as ajudas sociais", acusou o jovem. A agência nacional para os ciganos, um organismo estatal, disse que há 621 mil romenos de etnia cigana (ainda que o Conselho da Europa estime que esse número seja três vezes maior). Um terço deles vive em casas ilegais, muitas vezes em bairros pobres, sobre as quais não tem títulos de propriedade. Segundo Adina Linca, assessora da agência, os trâmites para regularizar as casas são muito caros e os residentes não querem ou não podem custeá-los, deixando assim o problema nas mãos dos municípios. "Durante a época comunista, muitas famílias compraram casas, mas não chegaram a completar todos os trâmites de propriedade e nem a pagar os impostos. E assim perderam as suas casas depois da queda do regime em 1989", disse à EFE Gabriela Ene, assessora do distrito 1 do município de Bucareste. Falta uma fórmula Vinte e seis anos depois da chegada da democracia, ainda não foi encontrada uma fórmula para romper o círculo vicioso que mantém 150 mil pessoas como "não cidadãos". Essa número, aceite pelas autoridades, pode chegar a ser o dobro, segundo as estimativas de algumas organizações não-governamentais (ONG). Sem certidão de nascimento, sem morada registada ou se os próprios pais não têm documentos de identidade, o processo de identificação torna-se tão complexo que é necessário recorrer a uma instância judicial. Até 2006, o registo de cidadãos mencionava a etnia, algo que poderia dificultar a procura de trabalho num país com graves problemas de racismo. Não dispor de documento de identidade impede o direito ao voto ou ao trabalho legal, bem como receber subsídios e ajudas sociais, além de não terem acesso ao sistema de saúde. De acordo com as ONG, a falta do documento de identidade faz com que "a exclusão social se perpetue".
Roménia: 150 mil ciganos "não existem" para o Estado Autoridades com falta de interesse. Cerca de 150 mil romenos, na sua maioria de etnia cigana, vivem num limbo legal: não existem para o Estado, um resultado da falta de interesse das autoridades. Uma dessas pessoas é Stelian, um romeno de etnia cigana com 15 anos e que vive em Bucareste, capital da Roménia. Stelian não existe para as autoridades, nem para o sistema de saúde e nem para os serviços sociais. Não existe porque não tem e nem pode ter obter um cartão de identidade. "Tiram-me os meus direitos, como o acesso aos cuidados de saúde. E, pior ainda, a possibilidade de conseguir um trabalho decente com o qual possa sobreviver", disse Stelian à agência de notícias EFE, que se protege inverno duro dormindo num salão de cabeleireiro. Stelian mora nas ruas há dois anos.
Abandonado pela sua mãe, que era pedinte, quando tinha quatro anos, foi criado por uma vizinha até ter morrido. Ao completar 14 anos, tentou obter o cartão de identidade mas não conseguiu, por não dispor de uma certidão de nascimento ou de um morada fixa. Legislação exige morada A legislação romena exige uma morada para expedir o documento nacional de identidade. Mas sem um documento de identificação não é possível arrendar legalmente uma casa. "Chego a pensar que não nos dão um documento de identidade para assim sermos marginais e poderem economizar dinheiro com as ajudas sociais", acusou o jovem. A agência nacional para os ciganos, um organismo estatal, disse que há 621 mil romenos de etnia cigana (ainda que o Conselho da Europa estime que esse número seja três vezes maior). Um terço deles vive em casas ilegais, muitas vezes em bairros pobres, sobre as quais não tem títulos de propriedade. Segundo Adina Linca, assessora da agência, os trâmites para regularizar as casas são muito caros e os residentes não querem ou não podem custeá-los, deixando assim o problema nas mãos dos municípios. "Durante a época comunista, muitas famílias compraram casas, mas não chegaram a completar todos os trâmites de propriedade e nem a pagar os impostos. E assim perderam as suas casas depois da queda do regime em 1989", disse à EFE Gabriela Ene, assessora do distrito 1 do município de Bucareste. Falta uma fórmula Vinte e seis anos depois da chegada da democracia, ainda não foi encontrada uma fórmula para romper o círculo vicioso que mantém 150 mil pessoas como "não cidadãos". Essa número, aceite pelas autoridades, pode chegar a ser o dobro, segundo as estimativas de algumas organizações não-governamentais (ONG). Sem certidão de nascimento, sem morada registada ou se os próprios pais não têm documentos de identidade, o processo de identificação torna-se tão complexo que é necessário recorrer a uma instância judicial. Até 2006, o registo de cidadãos mencionava a etnia, algo que poderia dificultar a procura de trabalho num país com graves problemas de racismo. Não dispor de documento de identidade impede o direito ao voto ou ao trabalho legal, bem como receber subsídios e ajudas sociais, além de não terem acesso ao sistema de saúde. De acordo com as ONG, a falta do documento de identidade faz com que "a exclusão social se perpetue".
Cuidados paliativos. Unidades de promoção da autonomia vão finalmente avançar
in RR
Portugal continua sem uma boa cobertura de cuidados paliativos, mas vai dando passos para se aproximar dos objectivos definidos. Norte, Algarve e Alentejo são as zonas mais carenciadas.
A Rede Nacional de Cuidados Integrados vai contar em breve com unidades de dia e promoção de autonomia – locais onde as pessoas com alguma dependência e que necessitem, por exemplo, de cuidados médicos, podem receber apoio durante o dia.
A novidade é dada à Renascença pelo coordenador da Rede, segundo o qual estas unidades vão dar apoio a pessoas com diferentes níveis de dependência não reúnam condições para ser cuidadas no domicílio.
“A comparação mais próxima que podemos fazer é com o centro de dia, com uma grande diferença: os centros de dia não são obrigados a ter intervenções terapêuticas, mas essas unidades de dia são obrigadas a ter intervenções terapêuticas. É um local onde as pessoas dependentes podem passar o seu dia e onde cumprem um plano terapêutico. Ao final do dia, irão para as suas casas”, explica Manuel Lopes.
Estas unidades resultam da colaboração da saúde com a Segurança Social e estão previstas desde o início da rede, mas não saíram, até agora, do papel.
A par desta novidade, Manuel Lopes adianta que está a pedir às Administrações Regionais de Saúde (ARS) que avaliem a capacidade que têm para criar novas unidades de cuidados continuados integrados ou para aumentaram as competências das que já existem.
A resposta é esperada no início de Março e, em função dela, será possível determinar o aumento de resposta que está garantido.
Crianças e pessoas com perturbações mentais também vão ser beneficiadas
Depois de muitas promessas, Portugal vai ter cuidados paliativos e integrados para crianças e para pessoas com perturbações mentais. As primeiras unidades piloto vão arrancar este ano, numa altura em que o país continua com graves carências neste domínio.
“São duas áreas que, de todo, não tinham respostas e agora estamos a ultimar a portaria para que isso possa ser activado e a definir quais vão ser as unidades piloto que vão arrancar ainda este ano”, avança o coordenador da Rede.
Primeiro, será criada uma unidade em cada região, para que, depois, o serviço se estenda a todo o país. A aposta vai ser nos cuidados em casa.
“Não vamos apostar na criação de não sei quantas camas pelo país fora, até porque a maioria dos pais quer cuidar dos seus filhos. Portanto, vamos falar em condições de levar os cuidados até junto das pessoas”, esclarece Manuel Lopes.
Tanto no caso dos cuidados pediátricos, como para a saúde mental, essa responsabilidade pode ser dada às equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos, que vão ser reforçadas em pessoal, competências e meios.
Aposta nos cuidados domiciliários
Portugal continua muito longe dos objectivos definidos no campo dois cuidados paliativos. Mas o tempo é de avançar e os cuidados ao domicílio estão no topo das prioridades.
“A estratégia fundamental da expansão da Rede é à custa da domiciliação e das respostas comunitárias”, refere o coordenador da Rede Nacional de Cuidados Integrados.
A grande aposta deste Governo vai ser nestas equipas. Como sublinha Manuel Lopes, as camas existem, estão na casa das pessoas, precisam é que os cuidados lá cheguem.
“Sempre que possível, as pessoas devem permanecer nas suas casas. Obviamente, precisam que, para isso, os cuidados cheguem até elas”, acrescenta.
Neste momento, o Ministério da Saúde está a fazer o levantamento das equipas existentes, dado que muitas não estão registadas na rede e a outras era dada uma capacidade que não tinham.
Portugal continua sem uma boa cobertura de cuidados paliativos, mas vai dando passos para se aproximar dos objectivos definidos. Norte, Algarve e Alentejo são as zonas mais carenciadas.
A Rede Nacional de Cuidados Integrados vai contar em breve com unidades de dia e promoção de autonomia – locais onde as pessoas com alguma dependência e que necessitem, por exemplo, de cuidados médicos, podem receber apoio durante o dia.
A novidade é dada à Renascença pelo coordenador da Rede, segundo o qual estas unidades vão dar apoio a pessoas com diferentes níveis de dependência não reúnam condições para ser cuidadas no domicílio.
“A comparação mais próxima que podemos fazer é com o centro de dia, com uma grande diferença: os centros de dia não são obrigados a ter intervenções terapêuticas, mas essas unidades de dia são obrigadas a ter intervenções terapêuticas. É um local onde as pessoas dependentes podem passar o seu dia e onde cumprem um plano terapêutico. Ao final do dia, irão para as suas casas”, explica Manuel Lopes.
Estas unidades resultam da colaboração da saúde com a Segurança Social e estão previstas desde o início da rede, mas não saíram, até agora, do papel.
A par desta novidade, Manuel Lopes adianta que está a pedir às Administrações Regionais de Saúde (ARS) que avaliem a capacidade que têm para criar novas unidades de cuidados continuados integrados ou para aumentaram as competências das que já existem.
A resposta é esperada no início de Março e, em função dela, será possível determinar o aumento de resposta que está garantido.
Crianças e pessoas com perturbações mentais também vão ser beneficiadas
Depois de muitas promessas, Portugal vai ter cuidados paliativos e integrados para crianças e para pessoas com perturbações mentais. As primeiras unidades piloto vão arrancar este ano, numa altura em que o país continua com graves carências neste domínio.
“São duas áreas que, de todo, não tinham respostas e agora estamos a ultimar a portaria para que isso possa ser activado e a definir quais vão ser as unidades piloto que vão arrancar ainda este ano”, avança o coordenador da Rede.
Primeiro, será criada uma unidade em cada região, para que, depois, o serviço se estenda a todo o país. A aposta vai ser nos cuidados em casa.
“Não vamos apostar na criação de não sei quantas camas pelo país fora, até porque a maioria dos pais quer cuidar dos seus filhos. Portanto, vamos falar em condições de levar os cuidados até junto das pessoas”, esclarece Manuel Lopes.
Tanto no caso dos cuidados pediátricos, como para a saúde mental, essa responsabilidade pode ser dada às equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos, que vão ser reforçadas em pessoal, competências e meios.
Aposta nos cuidados domiciliários
Portugal continua muito longe dos objectivos definidos no campo dois cuidados paliativos. Mas o tempo é de avançar e os cuidados ao domicílio estão no topo das prioridades.
“A estratégia fundamental da expansão da Rede é à custa da domiciliação e das respostas comunitárias”, refere o coordenador da Rede Nacional de Cuidados Integrados.
A grande aposta deste Governo vai ser nestas equipas. Como sublinha Manuel Lopes, as camas existem, estão na casa das pessoas, precisam é que os cuidados lá cheguem.
“Sempre que possível, as pessoas devem permanecer nas suas casas. Obviamente, precisam que, para isso, os cuidados cheguem até elas”, acrescenta.
Neste momento, o Ministério da Saúde está a fazer o levantamento das equipas existentes, dado que muitas não estão registadas na rede e a outras era dada uma capacidade que não tinham.
"Somos um país de medrosos"
Carlos Vaz Marques, in Público on-line
É provavelmente o nome mais respeitado da psicanálise em Portugal. António Coimbra de Matos, 86 anos, dedicou grande parte da sua actividade ao estudo da depressão. Admite que estaremos provavelmente a viver um período de depressão colectiva. Deitámos o país no divã do psicanalista.
Entra-se no consultório e dá-se de caras com uma curva do Douro. A vista assombrosa de São Leonardo de Galafura transporta-nos para uma espécie de tempo mítico. Pendurada na parede em frente à porta, aquela fotografia é uma janela para as origens de Coimbra de Matos. Ao longo de duas horas de conversa, o psiquiatra e psicanalista, nascido em 1929, evoca por diversas vezes episódios da infância para ilustrar o que diz. Embora se tenha afastado da importância que a teoria psicanalítica clássica dá ao passado. António Coimbra de Matos é um ávido consumidor da ideia de futuro. A papelada que se amontoa na secretária a que nos sentamos, um de cada lado, revela o tipo de organização muito pessoal de quem privilegia a actividade à arrumação obsessiva. Fuma incessantemente e concede-se a si próprio o tempo necessário para responder a cada pergunta. Como se fosse a primeira vez que algumas das questões se lhe colocassem.
Pode-se falar em estados de depressão colectiva?
Pode. A depressão é uma coisa individual mas há situações em que aparecem mais casos depressivos. Em momentos de crise. Como agora.
Diria que estamos a passar por uma depressão colectiva?
Há uma maior incidência de depressões. Em certos momentos podemos falar de uma depressão colectiva. Isso foi muito evidente naquele caso muito falado da France Telecom.
Em que houve uma série de suicídios de trabalhadores da empresa.
Sim. Isso foi muito noticiado.
Há pouco tempo foram divulgados números que revelam um aumento dos casos de suicídio em Portugal.
Sim. Há um trabalho célebre, um trabalho seminal, em que o pai da Sociologia, o Durkheim, verificou que quando há guerras e revoluções a depressão e os suicídios diminuem porque as pessoas se revoltam. Quando as pessoas não se revoltam, é que se suicidam; quando se sujeitam, quando não têm condições para protestar com mais veemência.
Na sua definição, segundo li, o que distingue a depressão normal da depressão patológica é justamente a capacidade de revolta.
Sim.
Em Portugal, não somos lá muito bons nisso, na capacidade de revolta colectiva, pois não?
Não, somos um bocado passivos. Os espanhóis são muito mais agressivos, revoltam-se muito mais.
Sim, nas imagens das manifestações em Espanha ou na Grécia vemos um grau de revolta que não identificamos em Portugal.
Isso é verdade. Noto isso na área científica. Aqui em Portugal, vamos a um congresso e se dizemos: “Não estou nada de acordo com isso” dizem-nos logo: “Foste muito agressivo com aquele tipo”. Isso, num congresso internacional, é a coisa mais banal do mundo e ninguém leva a mal, nem diz que está a ser agredido.
Somos mais susceptíveis?
Sim. E mais delicados, mais medrosos. Somos um país de medrosos.
É a velha ideia dos brandos costumes?
Dos brandos costumes mas também da atitude do poder. O poder em Portugal sempre foi menos violento. Isso não facilita a revolta. O Salazar não matava, mandava prender. Franco matava mesmo e isso cria uma revolta maior.
Somos um bocado passivos. Somos um país de medrosos.
Manifestação contra a presença da troika em Outubro de 2012 Enric Vives-Rubio
E considera isso mais negativo do que positivo?
Sim, há uma sujeição maior. Umas vezes é mais negativo, outras vezes mais positivo. A nossa colonização foi muito melhor do que a colonização de outros países, nomeadamente de Espanha. Fizemos uma colonização mais respeitadora, mais suave.
É capaz de haver gente nos estudos coloniais de cabelos em pé com essa ideia de que a colonização portuguesa terá sido branda; também houve grandes atrocidades.
Mas não foi tão agressiva como a dos espanhóis, pelo menos na América Latina.
Não tivemos um Cortés.
Os espanhóis liquidavam aqueles indivíduos. Nós escravizávamo-los e tal.
Vê uma continuidade de carácter ao longo dos séculos no povo português?
Repare na nossa luta contra os árabes, no princípio da nacionalidade: conseguimos conquistar território mais facilmente porque o Afonso Henriques e os outros não matavam os árabes. A maior parte dos alcaides foram feitos governadores civis. Já os espanhóis chegavam lá e liquidavam os alcaides: substituíam-nos logo e às vezes até os matavam. Nós fomos mais diplomatas.
Identifica nisso um traço de continuidade?
Sim. Percebi-o muito cedo, ainda na instrução primária. Fiz a instrução primária numa aldeia do Douro e ouvia dizer que o Afonso Henriques era um mata-mouros. Eu inventei uma outra designação: não era um mata-mouros, era um fode-mouras [risos]. Eles conquistavam as mouras e não precisavam de liquidar os mouros. Na maior parte das vezes aproveitaram a estrutura montada pelos árabes. Os espanhóis não fizeram isso e tiveram muito mais dificuldade em conquistar.
O facto de nos revoltarmos menos do que outros povos, significa que somos mais atreitos à depressão?
Não sei dizer ao certo mas haverá vários factores para isso. Um dos factores é a nossa história, a expansão, as descobertas, os pais que saíam. Os homens iam para a guerra, iam para as colónias, para os descobrimentos, e os filhos ficavam com as mães. Nas famílias em que o pai está ausente, isso cria uma menor agressividade, fica-se mais passivo. Há um trabalho interessante da Professora Celeste Malpique, do Porto, precisamente sobre o pai ausente. Fez esse estudo nas zonas de Ovar e de Aveiro, onde os homens iam para a pesca do bacalhau.
Na psicanálise estou mais interessado no futuro do que no passado. A psicanálise clássica está sempre muito ligada ao passado: o que aconteceu com a mãezinha, com o paizinho. Eu ando mais ligado àquilo que a pessoa projecta no presente e para o futuro.
Isso lembra-me uma frase sua a explicar a diferença entre os papéis do pai e da mãe: quando a criança tem medo, a mãe dá-lhe a mão...
...e o pai dá-lhe um pontapé no cu. O meu pai fez-me isso uma vez, tinha eu para aí uns dez, onze anos. Tinha montado um cavalo que lá havia e que era um bocado arisco. Estávamos no quintal da casa e o cavalo começa a empinar-se. Fiquei com medo e gritei pelo meu pai. Ele veio ter comigo e julguei que ia segurar-me o cavalo. Mas não. Pegou no chicote e dá duas porradas no animal. O cavalo largou-se, sai pelo portão da casa, pela estrada fora. Sei que perdi os estribos, agarrei-me ao selim, e ia a chamar ao meu pai filho da puta, cá por dentro [risos]. Mas nunca mais tive medo dos cavalos.
Essa distinção de papéis entre o pai e a mãe ainda é assim tão clara?
É. O homem, em relação à criança, tem uma atitude diferente da da mulher. O homem faz mais movimentos extensivos, para fora, periféricos, centrífugos. As mulheres fazem mais movimentos centrípetos. O homem pega no bebé e tem tendência para o pôr assim [demonstra, afastando os braços do corpo].
Há até pais que atiram a criança ao ar.
Sim. As mulheres raramente fazem isso. Isto induz a um tipo de relação diferente. Os homens falam de uma forma mais grave, as mulheres de maneira mais melódica.
Diria que essas características são inatas ou culturais?
São inatas. Isto faz-se em todas as culturas. Em algumas será mais forçado.
Como é que enquadra isso em realidades novas como a dos casais homossexuais com filhos?
É difícil responder. Os casais homossexuais não são patogénicos. Não há perigo nenhum na adopção por casais homossexuais. Agora, é uma situação com um risco um bocadinho maior.
A que nível?
Mais facilmente pode haver dificuldades adaptativas.
Por causa dos diferentes papéis que não estão preenchidos?
Sim. E não só. Os casais heterossexuais são mais harmónicos. Nos casais homossexuais há mais frequência de conflitos, de separações. São menos estáveis, de uma maneira geral.
Diz isso com base na sua experiência empírica ou em estudos publicados?
Há estudos sobre isso. E depois é a experiência que temos de clínica.
Tem detectado alterações a esse nível?
Ocorrem mudanças na medida em que isso existe, é aceite, é cultural. As coisas melhoram. Os casais homossexuais tornam-se mais harmónicos por causa da aceitação. Numa cultura em que a homossexualidade não é aceite os casais envergonham-se, escondem-se, são criticados, há reparos. Portanto reagem a isso. Se são aceites sentem-se integrados.
Voltando à ideia de depressão colectiva: sente-a no seu consultório?
Não sinto muito. A clínica do consultório é de classe alta. Nos hospitais vê-se mais, há mais depressões. Parece-me que será assim, mas não tenho estatística nenhuma que o comprove.
Com tanta coisa em transformação na sociedade, o que é que lhe parece mais comum a nível individual: o que permanece ou o que se altera?
Mais do que a mudança nos quadros clínicos ou nas coisas que aparecem, é a mudança em mim próprio. São as coisas novas que vou descobrindo ou que vou investigando.
Os homens iam para a guerra,para as colónias, para os descobrimentos, e os filhos ficavam com as mães. Nas famílias em que o pai está ausente, isso cria uma menor agressividade, fica-se mais passivo.
bruno lisita
De que tipo?
A minha técnica hoje é muito diferente do que era há 20 ou 30 anos.
O que é que mudou?
Muita coisa. Até as concepções teóricas. A inovação, a investigação são a base de todo o movimento. Se a pessoa se fixa naquilo que descobriu ou que aprendeu, às tantas está fossilizada.
É fácil ficar fossilizado nesta actividade?
Em todas as actividades é fácil. Na nossa talvez mais porque é mais complexa, e as pessoas aprendem sempre muita coisa e depois repetem aquilo que já sabiam. As pessoas dizem-me isso: “Não percebo, você agora vem com umas ideias completamente diferentes”. Não sou nenhum maluco, fui vendo umas coisas, algumas ideias que tinha e que não estavam muito certas e entretanto fui trilhando outros percursos.
Dê-me o exemplo de uma dessas alterações.
Por exemplo, aprendi, e durante muito tempo procedi assim, que os sonhos nocturnos eram uma coisa muito importante, que nos davam grandes indicações. Hoje a minha teoria é que os sonhos nocturnos pouco nos dizem porque são um trabalho de memória.
Portanto, a interpretação dos sonhos já não lhe interessa.
Não. É muito mais importante aquilo a que chamo o sonho-projecto, os devaneios diurnos que temos. Esses é que estão virados para o futuro. Diz-se muitas vezes que o homem é um animal de hábitos, mas não é verdade. O macaco é um animal de hábitos, o homem é um animal criador, está sempre a criar coisas novas. E por isso criou uma civilização. O ser humano é de tal modo criador – e eu sou ateu! – que até criou um deus. Deus é uma criação do homem. Na psicanálise estou mais interessado no futuro do que no passado. A psicanálise clássica está sempre muito ligada ao passado: o que aconteceu com a mãezinha, com o paizinho. Eu ando mais ligado àquilo que a pessoa projecta no presente e para o futuro.
No seu divã não lhe interessa aquilo que foram as vivências e as memórias recalcadas?
Isso também é importante. Costumo dizer aos meus alunos, na brincadeira, que os analistas clássicos me fazem lembrar um condutor de automóveis que vai sempre a olhar para o retrovisor; depois espeta-se no primeiro eucalipto. Não é isso que me interessa. Dá-se uma vista de olhos de vez em quando mas olha-se em frente, fundamentalmente.
Imagino que isso lhe valeu algumas antipatias ou mesmo inimizades dentro do meio da psicanálise.
Sim, sim. E críticas.
Porque é que há uma tão grande animosidade entre escolas terapêuticas?
Como é uma ciência mais difusa, com menos certezas, é mais fácil formar essas escolas e crenças. Religiões, quase; seitas. Mas a propósito disso, há uns anos recebi um prémio nos Estados Unidos, e um dos analistas de lá, com quem depois me correspondi bastante, mandou-me um mail: “Mas isso que você disse é uma mudança total de paradigma, não é?” “Pois é”, disse-lhe eu.
A que é que ele se referia?
Precisamente a isto de que estávamos a falar, porque na psicanálise clássica o paciente repete muito as coisas que aprendeu na infância. A minha teoria é que ele, ao longo da vida, vai aprendendo coisas novas e vai mudando. E isso é que é o importante.
Também reconstruímos e reinventamos o passado.
Sim, mas vivemos do futuro, não do passado. Infelizmente nem sempre é assim, mas é assim que deve ser. Veja na política portuguesa: foi o problema do Sócrates, e antes do Sócrates do Guterres... Noutro dia dizia a um amigo meu: naturalmente, a culpa foi do Afonso Henriques, que conquistou isto aos mouros em vez de ir para a Galiza.
Andamos a olhar demasiado para o espelho retrovisor?
Andamos. De uma maneira geral, nos países europeus. Há um estudo que já tem uns 30 anos, de psicólogos e psicanalistas americanos, que se limitaram a investigar a década de 70. Foram buscar 400 artigos que vêm de duas revistas de psicanálise bastante conhecidas, seleccionaram 200 artigos escritos por psicanalistas europeus, e 200 artigos escritos por psicanalistas americanos. E só foram investigar uma coisa: o número de vezes que citavam Freud. A diferença era de dez vezes mais para os europeus. [risos] É o peso da história. E também a coisa cultural: os europeus são mais conservadores. É frequente ir-se a uma conferência sobre filosofia e ter de se ouvir falar no Aristóteles e no Platão.
Vivemos do futuro, não do passado. Infelizmente nem sempre é assim. Veja na política portuguesa: foi o problema do Sócrates, e antes do Sócrates do Guterres... A culpa foi do Afonso Henriques, que conquistou isto aos mouros em vez de ir para a Galiza
Sente-se mais americano, nisso?
Muito mais. Aliás, tenho muito mais contacto com analistas americanos do que com analistas europeus. Esse prémio que me deram nos Estados Unidos, na Europa não mo davam. Deram-mo voluntariamente, foram eles que me seleccionaram, pelos meus escritos. Na Europa achavam que aquilo não tinha muito interesse.
Revê-se mais no pragmatismo americano.
No caso da análise, sim. Noutras coisas não. Noutros aspectos têm muitos defeitos. Mas os filósofos são muito mais pragmáticos. Os filósofos europeus estão presos às abstracções todas.
Com a sua idade seria natural que o peso da experiência já tivesse uma prevalência maior do que o da tentativa de descobrir.
As coisas evoluem investigando, não é acumulando conhecimentos.
Como é que se dá, por exemplo, com a revolução tecnológica? Não vejo aqui nenhum computador.
Não, porque os computadores já chegaram tarde demais e eu já não tinha muita paciência para aprender a lidar com aquilo. A minha secretária é que trata disso. Mas acho que é importante, aquilo é bom.
Nunca usa computador?
Não. Mesmo o telemóvel, uso-o mal.
Sabe o que é o Instagram?
Sei [risos].
Sabe o que é o Facebook?
Também sei, mais ou menos.
As redes sociais são apenas novas formas de comunicação ou parece-lhe que há o risco de mexerem com características fundamentais das pessoas?
Penso que se não forem em excesso, não. Como tudo.
A instantaneidade da comunicação terá alterado algumas das características relacionais que existiam na sua juventude?
Não sei. Ouço os meus colegas, na faculdade de psicologia, dizerem: “Esta malta hoje não presta, no nosso tempo é que era bestial”. Pois, eu acho que os alunos agora são muito melhores do que eram no meu tempo. Muitíssimo melhores. Mais ávidos, mais interessados. A evolução é positiva. No meu tempo de estudante a maior parte dos colegas só pensava em futebol e em beber copos. Hoje vêem-se vários alunos e alunas interessados em filosofia, política, história.
Não se reconhece, portanto, no discurso da crise de valores.
Não, de maneira nenhuma. Os valores é que são outros. Em relação aos valores da religião, do pecado, são outros.
Quais diria que são hoje os valores estruturantes?
O primeiro de todos é a liberdade. E por outro lado o de haver menos proibições. A minha liberdade só acaba quando perturba a liberdade do outro. É a única proibição. Depois a moral: há um tipo de moral, a que chamo exógena, ou heterónoma, que vem ditada pelo outro. Pela religião, pelo partido político, pela cultura. E há uma moral endógena e autónoma, que depende simplesmente de o indivíduo ter empatia e compaixão pelo sofrimento do outro. Se me ponho no lugar do outro e fico preocupado se ele não está bem, construo a minha moral. Aquela que me é ensinada não tem interesse nenhum. Por exemplo, há uma coisa que é muito discutida e em que várias pessoas não estão de acordo comigo: continua-se a dizer que é preciso impor limites às crianças. Não é preciso impor limites nenhuns às crianças, é preciso simplesmente mostrar-lhes que a realidade tem limites; a realidade física e a realidade social. Se a criança bate com a cabeça na parede magoa mais a cabeça do que a parede [risos]. Se chama filho da puta ao pai, se calhar o pai fica chateado e deixa de brincar com ele, já não lhe apetece jogar à bola. É só isto.
Continua-se a dizer que é preciso impor limites às crianças. Não é preciso impor limites nenhuns às crianças, é preciso simplesmente mostrar-lhes que a realidade tem limites.
pedro cunha
Há agora uns pediatras que dizem que as crianças ganharam um tal controlo, e uma tal atenção das famílias que se tornaram pequenos ditadores.
Ah, isso é aquele idiota do Urra. Um cretino.
O espanhol Javier Urra.
Sim. Só diz idiotices [risos]. Mas tem cargos importantes: é professor catedrático na Universidade Complutense de Madrid e é, ou foi, o provedor dos menores em Espanha. Os livros dele têm várias edições mas é um homem execrável. Numa entrevista que li dele, acaba dizendo que castigava os filhos porque gostava muito deles. Bestial! [risos]
Está mais próximo, nesse aspecto, do Dr. Spock.
O Spock era muito melhor.
Ou de Berry Brazelton.
Esse é bom. Mas tem uma teoria com a qual não estou totalmente de acordo: diz que o bebé precisa de amor e disciplina. O bebé não precisa de disciplina, precisa de um ambiente ordenado, de um ambiente disciplinado. É diferente. Se um dia lhe derem a refeição às três horas, no dia seguinte às seis da tarde, noutro dia deitam-no às oito, e depois às onze...
Isso é desestruturante.
É. Se o ambiente for ordenado a criança integra-se nisso. Se eu, como professor, protesto por os alunos chegarem tarde à aula, não dá em nada. Agora, se eu chego a horas, ele habituam-se a chegar a horas.
E o que é que faz quando há prevaricadores?
No Centro de Saúde Mental e Infantil tínhamos dez ou onze equipas e fazia uma reunião por semana com cada uma delas, e uma vez por mês uma reunião geral com toda a gente. Essas reuniões eram às nove da manhã; das nove às onze. E as pessoas chegavam sempre atrasadas. Fiz várias coisas até que simplesmente escrevi num quadro, “quem chegar depois das nove e dez é favor não interromper”. Começaram a ir a horas. As pessoas protestam quando é imposto, mas se for dito com jeito acabam por colaborar. E há outra coisa: a ideia do nosso governo anterior era a de que as sociedades progridem por competição. Não, as sociedades progridem por colaboração. Não é nos períodos de guerra que se fazem as grandes descobertas, é nos períodos de paz.
Há uma ideia muito difundida de que é o investimento militar que tem providenciado grandes avanços...
Não.
...até na área da psicologia.
O Hitler é que dizia mais ou menos isso: que a guerra trazia desenvolvimento.
Como é que encara a questão com que todos temos de nos confrontar: a ideia da morte?
Fiz uma conferência aqui há tempos num congresso de filosofia em que me convidaram para falar sobre isso. Primeiro recusei, depois insistiram muito comigo. Pus uma condição: “Só se for falar ao mesmo tempo da sexualidade e da morte” [risos]. Todos temos uma angústia, que não é propriamente a angústia de morte, essa é comum nos animais; a angústia perante a morte imediata, o risco. Os homens e os macacos superiores - o orangotango, o gorila, o chimpanzé - já têm alguma consciência disso, têm aquilo a que chamo a angústia essencial. Uma angústia perante a finitude da vida. Têm consciência de que a vida tem um limite. Essa angústia não é totalmente resolvida, mas é resolvida em parte pelo que se chama a imortalidade simbólica. Sei que vou morrer daqui a uns anos, mas também sei que fiz algumas coisas que ficaram, que foram úteis. Ensinei algumas coisas porreiras a umas pessoas. Sei que vou morrer mas diverti-me mais ou menos. Fiz umas asneiras, mas também fiz algumas coisas bem feitas. Há uma certa satisfação, não vou vazio e insatisfeito.
Essa consciência aumenta com o passar do tempo, ou nem tanto?
Nem tanto. Temos é de ter sucesso em algumas coisas que fazemos. Se só se tem insucesso isso deprime, causa mau estar. Os americanos falam muito dos três “g”, a propósito do amor. Good, giving and game. Bom, generoso e divertido. O mundo deve ser bom, generoso e divertido.
Isso é aplicado ao amor?
Sim, ao amor e às relações em geral. Mas eles falam disto a propósito do amor. O bom amor é aquele que é good, giving and game (jogo, mas que eu traduzo para divertido).
Sei que vou morrer mas diverti-me mais ou menos. Fiz umas asneiras, mas também fiz algumas coisas bem feitas. Há uma certa satisfação, não vou vazio e insatisfeito.
Também temos de aprender a viver com os momentos menos divertidos para não desistirmos à primeira contrariedade.
Isso é outra teoria. A teoria da psicanálise clássica é a de que as dores são boas, que é preciso sofrer para ficar mais forte, para enrijecer o carácter. Não é nada a minha teoria. A dor é inevitável, não é boa. Há sempre insucessos, há sempre dores.
Eu estava a referir-me à chamada gratificação imediata, cuja necessidade, segundo se diz frequentemente, tem vindo a crescer.
Pois, a teoria clássica é a de que a gratificação imediata é má e que se deve educar para a frustração. Reduzir a frustração lenta e progressivamente, é o que ensinam os clássicos. Não é de facto a minha teoria. A frustração é sempre má e deve evitar-se. O que se deve fazer é outra coisa: é desenvolver a capacidade de espera, o que é diferente. Estou suado, vim a correr, apetece-me beber uma cerveja gelada. Mas percebo que se descansar um bocado a cerveja me vai saber muito melhor. Não é a mesma coisa que manter a frustração, ou que considerar a frustração útil.
Há hoje patologias mentais novas?
É difícil dizer mas há algumas.
O DSM [o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais] agora é maior.
O DSM é uma porcaria. Aquilo é um catálogo condicionado pela indústria farmacêutica para venderem mais medicamentos.
Todos temos lá um lugarzinho.
Sim, sim. E um medicamento apropriado.
Quais são então as novas patologias?
Há uma maior quantidade de traços de psicose, narcisismo, borderline. Porque há uma menor intimidade entre as pessoas. As relações são mais superficiais, menos íntimas, menos vinculadas, mais anónimas. De maneira que não há familiaridade. Deixou de haver a confiança, a colaboração mútua.
Isso é um efeito da vida urbana por contraponto à vida rural?
Claro, das grandes cidades. E do estilo de vida que as pessoas levam, também. Hoje as pessoas só são íntimas entre dois ou três amigos. No meu tempo era íntimo de todas as pessoas da minha aldeia. Mesmo nas cidades havia aquela coisa de bairro, as pessoas iam a casa uns dos outros. Hoje temos mais conhecidos do que amigos. Há uma diminuição da espessura afectiva dos laços.
Não haverá, por outro lado, uma maior liberdade? Porque essa situação de antigamente era também de um grande controlo sobre os indivíduos.
Sim. Nesse aspecto, sim.
O que é que é preferível?
Bom, os extremos serão sempre maus. Mas não sei se a situação de antigamente era assim de tanto controlo. As pessoas respeitavam mais os segredos, por exemplo. Hoje respeitam menos. Se pedir a um amigo seu para respeitar um segredo, ele di-lo logo na primeira esquina.
Não tem grande confiança na natureza humana, pelos vistos.
A vida actual é mais insegura.
Existe isso da natureza humana?
Existe, é um bocado diferente da natureza dos macacos, por exemplo [risos].
Mas reconhece a existência de padrões de comportamento, independentemente da cultura, da origem, do meio em que se cresceu?
O problema dos valores é um problema posto do ponto de vista moral, quase religioso. Do ponto de vista ético, estético, também. Mas o importante é aquilo que tem valor para a vida, aquilo que é vital. O que acontece é que para o homem, por comparação com o macaco, é importante a beleza de uma rosa, o perfume de uma mulher. O que tem valor para a nossa vida não é só o cheiro a cio.
Ou seja, não é só o aspecto pragmático.
Também é pragmático: isto permite escolher melhor, saber quem é a pessoa. A selecção é muito mais complexa porque o número de dados que recolhemos é muito maior.
Há muito mais variáveis em jogo.
Muitíssimo mais. Para um macaco interessa que a fêmea esteja receptiva. Para o homem interessa que a mulher seja simpática, que goste dele; uma série de coisas. Agora, o que acho que tem pouco interesse são esses valores com sentido ético e moral. Como dizia um amigo meu que já faleceu: “O que interessa na mulher são as características morais, mas se for bonita ajuda”.
Pode dizer-se que é um optimista?
Sou.
Acha que estamos a aperfeiçoar-nos?
Sim, não tenho dúvidas. Apesar de todos os defeitos, cada vez se vive melhor. A curva da civilização é isto [desenha no papel uma curva], é ascendente. Mas a ascensão na subida não é contínua, há ciclos. E depois há a visibilidade social. Aqui há uns anos numa conferência com o Dr. Jorge Macedo – o historiador que foi director da Torre do Tombo –, houve uma coisa que não me agradou: ele falou muito da violência, referindo que a violência era muito grande nas cidades. E eu disse-lhe: “Parece impossível um professor de História estar a dizer-me isso; sabe melhor do que eu que no tempo do Marquês de Pombal a média de assassinatos era de um ou dois por dia em Lisboa, e Lisboa tinha cento e tal mil habitantes. Hoje tem 600 mil e se calhar são dois ou três por mês”. Há aqui um problema interessante: no tempo do Marquês de Pombal matava-se uma pessoa no Rossio e em Alfama ninguém sabia; hoje matam uma pessoa em Nova Iorque e logo à noite já sabemos. É uma ilusão, é um problema de visibilidade social.
A visibilidade social tem a ver com um papel progressivamente maior dos media; os media são indutores de ansiedade?
Não. Isso é outra história. Fiz parte de um grupo de trabalho organizado pela Maria Barroso, da Fundação Pro Dignitate. Fui um dos fundadores daquilo. E ela tinha essa ideia: porque se mostram as mortes, as revoluções? Isso não tem mal nenhum, a informação elucida as pessoas. Mas ainda há tempos ouvi o professor Daniel Sampaio, que é um tipo inteligente, dizer que não se podia falar do suicídio dos jovens porque isso contaminava, induzia outros. Pelo contrário; sabendo as pessoas os perigos que existem, não vejo perigo nenhum nisso. O perigo é não informar.
Não vê sequer a possibilidade de isso contribuir para um acréscimo da ansiedade?
Aí, o que acho é que o grande modelo é a própria natureza. O que não podemos é dar um acidente de automóvel e mostrar só o carro todo esborrachado, um tipo a deitar sangue. É mostrar a cena toda, mostrar a vida. Salientar só aquilo é que pode ser prejudicial e provocar grande ansiedade.
Hoje temos a ameaça terrorista, a ameaça dos vírus, agora a ameaça do mosquito. Estamos a receber permanentemente estas doses de alarme…
Já pensou que em vez de estarmos aflitos com o mosquito que transmite o Zika, devíamos pensar que isso pode ser um processo de resolver as dificuldades de proteínas, e começar a comer esses mosquitos num prato especial? [risos]. Com manteiga, um bocadinho de mel...
Por qualquer razão não é nas proteínas do mosquito que as pessoas pensam em primeiro lugar.
Mas podem começar a pensar nessa vantagem.
Se por absurdo tivesse à disposição uma máquina do tempo, para onde escolheria viajar?
Para o futuro. O passado passou, que é que ia fazer com o passado? Não gostava nada de voltar atrás, gostava de ter mais 100 anos à frente. O bife que me interessa é o que vou comer logo à noite, não é o que comi ontem [risos].
É provavelmente o nome mais respeitado da psicanálise em Portugal. António Coimbra de Matos, 86 anos, dedicou grande parte da sua actividade ao estudo da depressão. Admite que estaremos provavelmente a viver um período de depressão colectiva. Deitámos o país no divã do psicanalista.
Entra-se no consultório e dá-se de caras com uma curva do Douro. A vista assombrosa de São Leonardo de Galafura transporta-nos para uma espécie de tempo mítico. Pendurada na parede em frente à porta, aquela fotografia é uma janela para as origens de Coimbra de Matos. Ao longo de duas horas de conversa, o psiquiatra e psicanalista, nascido em 1929, evoca por diversas vezes episódios da infância para ilustrar o que diz. Embora se tenha afastado da importância que a teoria psicanalítica clássica dá ao passado. António Coimbra de Matos é um ávido consumidor da ideia de futuro. A papelada que se amontoa na secretária a que nos sentamos, um de cada lado, revela o tipo de organização muito pessoal de quem privilegia a actividade à arrumação obsessiva. Fuma incessantemente e concede-se a si próprio o tempo necessário para responder a cada pergunta. Como se fosse a primeira vez que algumas das questões se lhe colocassem.
Pode-se falar em estados de depressão colectiva?
Pode. A depressão é uma coisa individual mas há situações em que aparecem mais casos depressivos. Em momentos de crise. Como agora.
Diria que estamos a passar por uma depressão colectiva?
Há uma maior incidência de depressões. Em certos momentos podemos falar de uma depressão colectiva. Isso foi muito evidente naquele caso muito falado da France Telecom.
Em que houve uma série de suicídios de trabalhadores da empresa.
Sim. Isso foi muito noticiado.
Há pouco tempo foram divulgados números que revelam um aumento dos casos de suicídio em Portugal.
Sim. Há um trabalho célebre, um trabalho seminal, em que o pai da Sociologia, o Durkheim, verificou que quando há guerras e revoluções a depressão e os suicídios diminuem porque as pessoas se revoltam. Quando as pessoas não se revoltam, é que se suicidam; quando se sujeitam, quando não têm condições para protestar com mais veemência.
Na sua definição, segundo li, o que distingue a depressão normal da depressão patológica é justamente a capacidade de revolta.
Sim.
Em Portugal, não somos lá muito bons nisso, na capacidade de revolta colectiva, pois não?
Não, somos um bocado passivos. Os espanhóis são muito mais agressivos, revoltam-se muito mais.
Sim, nas imagens das manifestações em Espanha ou na Grécia vemos um grau de revolta que não identificamos em Portugal.
Isso é verdade. Noto isso na área científica. Aqui em Portugal, vamos a um congresso e se dizemos: “Não estou nada de acordo com isso” dizem-nos logo: “Foste muito agressivo com aquele tipo”. Isso, num congresso internacional, é a coisa mais banal do mundo e ninguém leva a mal, nem diz que está a ser agredido.
Somos mais susceptíveis?
Sim. E mais delicados, mais medrosos. Somos um país de medrosos.
É a velha ideia dos brandos costumes?
Dos brandos costumes mas também da atitude do poder. O poder em Portugal sempre foi menos violento. Isso não facilita a revolta. O Salazar não matava, mandava prender. Franco matava mesmo e isso cria uma revolta maior.
Somos um bocado passivos. Somos um país de medrosos.
Manifestação contra a presença da troika em Outubro de 2012 Enric Vives-Rubio
E considera isso mais negativo do que positivo?
Sim, há uma sujeição maior. Umas vezes é mais negativo, outras vezes mais positivo. A nossa colonização foi muito melhor do que a colonização de outros países, nomeadamente de Espanha. Fizemos uma colonização mais respeitadora, mais suave.
É capaz de haver gente nos estudos coloniais de cabelos em pé com essa ideia de que a colonização portuguesa terá sido branda; também houve grandes atrocidades.
Mas não foi tão agressiva como a dos espanhóis, pelo menos na América Latina.
Não tivemos um Cortés.
Os espanhóis liquidavam aqueles indivíduos. Nós escravizávamo-los e tal.
Vê uma continuidade de carácter ao longo dos séculos no povo português?
Repare na nossa luta contra os árabes, no princípio da nacionalidade: conseguimos conquistar território mais facilmente porque o Afonso Henriques e os outros não matavam os árabes. A maior parte dos alcaides foram feitos governadores civis. Já os espanhóis chegavam lá e liquidavam os alcaides: substituíam-nos logo e às vezes até os matavam. Nós fomos mais diplomatas.
Identifica nisso um traço de continuidade?
Sim. Percebi-o muito cedo, ainda na instrução primária. Fiz a instrução primária numa aldeia do Douro e ouvia dizer que o Afonso Henriques era um mata-mouros. Eu inventei uma outra designação: não era um mata-mouros, era um fode-mouras [risos]. Eles conquistavam as mouras e não precisavam de liquidar os mouros. Na maior parte das vezes aproveitaram a estrutura montada pelos árabes. Os espanhóis não fizeram isso e tiveram muito mais dificuldade em conquistar.
O facto de nos revoltarmos menos do que outros povos, significa que somos mais atreitos à depressão?
Não sei dizer ao certo mas haverá vários factores para isso. Um dos factores é a nossa história, a expansão, as descobertas, os pais que saíam. Os homens iam para a guerra, iam para as colónias, para os descobrimentos, e os filhos ficavam com as mães. Nas famílias em que o pai está ausente, isso cria uma menor agressividade, fica-se mais passivo. Há um trabalho interessante da Professora Celeste Malpique, do Porto, precisamente sobre o pai ausente. Fez esse estudo nas zonas de Ovar e de Aveiro, onde os homens iam para a pesca do bacalhau.
Na psicanálise estou mais interessado no futuro do que no passado. A psicanálise clássica está sempre muito ligada ao passado: o que aconteceu com a mãezinha, com o paizinho. Eu ando mais ligado àquilo que a pessoa projecta no presente e para o futuro.
Isso lembra-me uma frase sua a explicar a diferença entre os papéis do pai e da mãe: quando a criança tem medo, a mãe dá-lhe a mão...
...e o pai dá-lhe um pontapé no cu. O meu pai fez-me isso uma vez, tinha eu para aí uns dez, onze anos. Tinha montado um cavalo que lá havia e que era um bocado arisco. Estávamos no quintal da casa e o cavalo começa a empinar-se. Fiquei com medo e gritei pelo meu pai. Ele veio ter comigo e julguei que ia segurar-me o cavalo. Mas não. Pegou no chicote e dá duas porradas no animal. O cavalo largou-se, sai pelo portão da casa, pela estrada fora. Sei que perdi os estribos, agarrei-me ao selim, e ia a chamar ao meu pai filho da puta, cá por dentro [risos]. Mas nunca mais tive medo dos cavalos.
Essa distinção de papéis entre o pai e a mãe ainda é assim tão clara?
É. O homem, em relação à criança, tem uma atitude diferente da da mulher. O homem faz mais movimentos extensivos, para fora, periféricos, centrífugos. As mulheres fazem mais movimentos centrípetos. O homem pega no bebé e tem tendência para o pôr assim [demonstra, afastando os braços do corpo].
Há até pais que atiram a criança ao ar.
Sim. As mulheres raramente fazem isso. Isto induz a um tipo de relação diferente. Os homens falam de uma forma mais grave, as mulheres de maneira mais melódica.
Diria que essas características são inatas ou culturais?
São inatas. Isto faz-se em todas as culturas. Em algumas será mais forçado.
Como é que enquadra isso em realidades novas como a dos casais homossexuais com filhos?
É difícil responder. Os casais homossexuais não são patogénicos. Não há perigo nenhum na adopção por casais homossexuais. Agora, é uma situação com um risco um bocadinho maior.
A que nível?
Mais facilmente pode haver dificuldades adaptativas.
Por causa dos diferentes papéis que não estão preenchidos?
Sim. E não só. Os casais heterossexuais são mais harmónicos. Nos casais homossexuais há mais frequência de conflitos, de separações. São menos estáveis, de uma maneira geral.
Diz isso com base na sua experiência empírica ou em estudos publicados?
Há estudos sobre isso. E depois é a experiência que temos de clínica.
Tem detectado alterações a esse nível?
Ocorrem mudanças na medida em que isso existe, é aceite, é cultural. As coisas melhoram. Os casais homossexuais tornam-se mais harmónicos por causa da aceitação. Numa cultura em que a homossexualidade não é aceite os casais envergonham-se, escondem-se, são criticados, há reparos. Portanto reagem a isso. Se são aceites sentem-se integrados.
Voltando à ideia de depressão colectiva: sente-a no seu consultório?
Não sinto muito. A clínica do consultório é de classe alta. Nos hospitais vê-se mais, há mais depressões. Parece-me que será assim, mas não tenho estatística nenhuma que o comprove.
Com tanta coisa em transformação na sociedade, o que é que lhe parece mais comum a nível individual: o que permanece ou o que se altera?
Mais do que a mudança nos quadros clínicos ou nas coisas que aparecem, é a mudança em mim próprio. São as coisas novas que vou descobrindo ou que vou investigando.
Os homens iam para a guerra,para as colónias, para os descobrimentos, e os filhos ficavam com as mães. Nas famílias em que o pai está ausente, isso cria uma menor agressividade, fica-se mais passivo.
bruno lisita
De que tipo?
A minha técnica hoje é muito diferente do que era há 20 ou 30 anos.
O que é que mudou?
Muita coisa. Até as concepções teóricas. A inovação, a investigação são a base de todo o movimento. Se a pessoa se fixa naquilo que descobriu ou que aprendeu, às tantas está fossilizada.
É fácil ficar fossilizado nesta actividade?
Em todas as actividades é fácil. Na nossa talvez mais porque é mais complexa, e as pessoas aprendem sempre muita coisa e depois repetem aquilo que já sabiam. As pessoas dizem-me isso: “Não percebo, você agora vem com umas ideias completamente diferentes”. Não sou nenhum maluco, fui vendo umas coisas, algumas ideias que tinha e que não estavam muito certas e entretanto fui trilhando outros percursos.
Dê-me o exemplo de uma dessas alterações.
Por exemplo, aprendi, e durante muito tempo procedi assim, que os sonhos nocturnos eram uma coisa muito importante, que nos davam grandes indicações. Hoje a minha teoria é que os sonhos nocturnos pouco nos dizem porque são um trabalho de memória.
Portanto, a interpretação dos sonhos já não lhe interessa.
Não. É muito mais importante aquilo a que chamo o sonho-projecto, os devaneios diurnos que temos. Esses é que estão virados para o futuro. Diz-se muitas vezes que o homem é um animal de hábitos, mas não é verdade. O macaco é um animal de hábitos, o homem é um animal criador, está sempre a criar coisas novas. E por isso criou uma civilização. O ser humano é de tal modo criador – e eu sou ateu! – que até criou um deus. Deus é uma criação do homem. Na psicanálise estou mais interessado no futuro do que no passado. A psicanálise clássica está sempre muito ligada ao passado: o que aconteceu com a mãezinha, com o paizinho. Eu ando mais ligado àquilo que a pessoa projecta no presente e para o futuro.
No seu divã não lhe interessa aquilo que foram as vivências e as memórias recalcadas?
Isso também é importante. Costumo dizer aos meus alunos, na brincadeira, que os analistas clássicos me fazem lembrar um condutor de automóveis que vai sempre a olhar para o retrovisor; depois espeta-se no primeiro eucalipto. Não é isso que me interessa. Dá-se uma vista de olhos de vez em quando mas olha-se em frente, fundamentalmente.
Imagino que isso lhe valeu algumas antipatias ou mesmo inimizades dentro do meio da psicanálise.
Sim, sim. E críticas.
Porque é que há uma tão grande animosidade entre escolas terapêuticas?
Como é uma ciência mais difusa, com menos certezas, é mais fácil formar essas escolas e crenças. Religiões, quase; seitas. Mas a propósito disso, há uns anos recebi um prémio nos Estados Unidos, e um dos analistas de lá, com quem depois me correspondi bastante, mandou-me um mail: “Mas isso que você disse é uma mudança total de paradigma, não é?” “Pois é”, disse-lhe eu.
A que é que ele se referia?
Precisamente a isto de que estávamos a falar, porque na psicanálise clássica o paciente repete muito as coisas que aprendeu na infância. A minha teoria é que ele, ao longo da vida, vai aprendendo coisas novas e vai mudando. E isso é que é o importante.
Também reconstruímos e reinventamos o passado.
Sim, mas vivemos do futuro, não do passado. Infelizmente nem sempre é assim, mas é assim que deve ser. Veja na política portuguesa: foi o problema do Sócrates, e antes do Sócrates do Guterres... Noutro dia dizia a um amigo meu: naturalmente, a culpa foi do Afonso Henriques, que conquistou isto aos mouros em vez de ir para a Galiza.
Andamos a olhar demasiado para o espelho retrovisor?
Andamos. De uma maneira geral, nos países europeus. Há um estudo que já tem uns 30 anos, de psicólogos e psicanalistas americanos, que se limitaram a investigar a década de 70. Foram buscar 400 artigos que vêm de duas revistas de psicanálise bastante conhecidas, seleccionaram 200 artigos escritos por psicanalistas europeus, e 200 artigos escritos por psicanalistas americanos. E só foram investigar uma coisa: o número de vezes que citavam Freud. A diferença era de dez vezes mais para os europeus. [risos] É o peso da história. E também a coisa cultural: os europeus são mais conservadores. É frequente ir-se a uma conferência sobre filosofia e ter de se ouvir falar no Aristóteles e no Platão.
Vivemos do futuro, não do passado. Infelizmente nem sempre é assim. Veja na política portuguesa: foi o problema do Sócrates, e antes do Sócrates do Guterres... A culpa foi do Afonso Henriques, que conquistou isto aos mouros em vez de ir para a Galiza
Sente-se mais americano, nisso?
Muito mais. Aliás, tenho muito mais contacto com analistas americanos do que com analistas europeus. Esse prémio que me deram nos Estados Unidos, na Europa não mo davam. Deram-mo voluntariamente, foram eles que me seleccionaram, pelos meus escritos. Na Europa achavam que aquilo não tinha muito interesse.
Revê-se mais no pragmatismo americano.
No caso da análise, sim. Noutras coisas não. Noutros aspectos têm muitos defeitos. Mas os filósofos são muito mais pragmáticos. Os filósofos europeus estão presos às abstracções todas.
Com a sua idade seria natural que o peso da experiência já tivesse uma prevalência maior do que o da tentativa de descobrir.
As coisas evoluem investigando, não é acumulando conhecimentos.
Como é que se dá, por exemplo, com a revolução tecnológica? Não vejo aqui nenhum computador.
Não, porque os computadores já chegaram tarde demais e eu já não tinha muita paciência para aprender a lidar com aquilo. A minha secretária é que trata disso. Mas acho que é importante, aquilo é bom.
Nunca usa computador?
Não. Mesmo o telemóvel, uso-o mal.
Sabe o que é o Instagram?
Sei [risos].
Sabe o que é o Facebook?
Também sei, mais ou menos.
As redes sociais são apenas novas formas de comunicação ou parece-lhe que há o risco de mexerem com características fundamentais das pessoas?
Penso que se não forem em excesso, não. Como tudo.
A instantaneidade da comunicação terá alterado algumas das características relacionais que existiam na sua juventude?
Não sei. Ouço os meus colegas, na faculdade de psicologia, dizerem: “Esta malta hoje não presta, no nosso tempo é que era bestial”. Pois, eu acho que os alunos agora são muito melhores do que eram no meu tempo. Muitíssimo melhores. Mais ávidos, mais interessados. A evolução é positiva. No meu tempo de estudante a maior parte dos colegas só pensava em futebol e em beber copos. Hoje vêem-se vários alunos e alunas interessados em filosofia, política, história.
Não se reconhece, portanto, no discurso da crise de valores.
Não, de maneira nenhuma. Os valores é que são outros. Em relação aos valores da religião, do pecado, são outros.
Quais diria que são hoje os valores estruturantes?
O primeiro de todos é a liberdade. E por outro lado o de haver menos proibições. A minha liberdade só acaba quando perturba a liberdade do outro. É a única proibição. Depois a moral: há um tipo de moral, a que chamo exógena, ou heterónoma, que vem ditada pelo outro. Pela religião, pelo partido político, pela cultura. E há uma moral endógena e autónoma, que depende simplesmente de o indivíduo ter empatia e compaixão pelo sofrimento do outro. Se me ponho no lugar do outro e fico preocupado se ele não está bem, construo a minha moral. Aquela que me é ensinada não tem interesse nenhum. Por exemplo, há uma coisa que é muito discutida e em que várias pessoas não estão de acordo comigo: continua-se a dizer que é preciso impor limites às crianças. Não é preciso impor limites nenhuns às crianças, é preciso simplesmente mostrar-lhes que a realidade tem limites; a realidade física e a realidade social. Se a criança bate com a cabeça na parede magoa mais a cabeça do que a parede [risos]. Se chama filho da puta ao pai, se calhar o pai fica chateado e deixa de brincar com ele, já não lhe apetece jogar à bola. É só isto.
Continua-se a dizer que é preciso impor limites às crianças. Não é preciso impor limites nenhuns às crianças, é preciso simplesmente mostrar-lhes que a realidade tem limites.
pedro cunha
Há agora uns pediatras que dizem que as crianças ganharam um tal controlo, e uma tal atenção das famílias que se tornaram pequenos ditadores.
Ah, isso é aquele idiota do Urra. Um cretino.
O espanhol Javier Urra.
Sim. Só diz idiotices [risos]. Mas tem cargos importantes: é professor catedrático na Universidade Complutense de Madrid e é, ou foi, o provedor dos menores em Espanha. Os livros dele têm várias edições mas é um homem execrável. Numa entrevista que li dele, acaba dizendo que castigava os filhos porque gostava muito deles. Bestial! [risos]
Está mais próximo, nesse aspecto, do Dr. Spock.
O Spock era muito melhor.
Ou de Berry Brazelton.
Esse é bom. Mas tem uma teoria com a qual não estou totalmente de acordo: diz que o bebé precisa de amor e disciplina. O bebé não precisa de disciplina, precisa de um ambiente ordenado, de um ambiente disciplinado. É diferente. Se um dia lhe derem a refeição às três horas, no dia seguinte às seis da tarde, noutro dia deitam-no às oito, e depois às onze...
Isso é desestruturante.
É. Se o ambiente for ordenado a criança integra-se nisso. Se eu, como professor, protesto por os alunos chegarem tarde à aula, não dá em nada. Agora, se eu chego a horas, ele habituam-se a chegar a horas.
E o que é que faz quando há prevaricadores?
No Centro de Saúde Mental e Infantil tínhamos dez ou onze equipas e fazia uma reunião por semana com cada uma delas, e uma vez por mês uma reunião geral com toda a gente. Essas reuniões eram às nove da manhã; das nove às onze. E as pessoas chegavam sempre atrasadas. Fiz várias coisas até que simplesmente escrevi num quadro, “quem chegar depois das nove e dez é favor não interromper”. Começaram a ir a horas. As pessoas protestam quando é imposto, mas se for dito com jeito acabam por colaborar. E há outra coisa: a ideia do nosso governo anterior era a de que as sociedades progridem por competição. Não, as sociedades progridem por colaboração. Não é nos períodos de guerra que se fazem as grandes descobertas, é nos períodos de paz.
Há uma ideia muito difundida de que é o investimento militar que tem providenciado grandes avanços...
Não.
...até na área da psicologia.
O Hitler é que dizia mais ou menos isso: que a guerra trazia desenvolvimento.
Como é que encara a questão com que todos temos de nos confrontar: a ideia da morte?
Fiz uma conferência aqui há tempos num congresso de filosofia em que me convidaram para falar sobre isso. Primeiro recusei, depois insistiram muito comigo. Pus uma condição: “Só se for falar ao mesmo tempo da sexualidade e da morte” [risos]. Todos temos uma angústia, que não é propriamente a angústia de morte, essa é comum nos animais; a angústia perante a morte imediata, o risco. Os homens e os macacos superiores - o orangotango, o gorila, o chimpanzé - já têm alguma consciência disso, têm aquilo a que chamo a angústia essencial. Uma angústia perante a finitude da vida. Têm consciência de que a vida tem um limite. Essa angústia não é totalmente resolvida, mas é resolvida em parte pelo que se chama a imortalidade simbólica. Sei que vou morrer daqui a uns anos, mas também sei que fiz algumas coisas que ficaram, que foram úteis. Ensinei algumas coisas porreiras a umas pessoas. Sei que vou morrer mas diverti-me mais ou menos. Fiz umas asneiras, mas também fiz algumas coisas bem feitas. Há uma certa satisfação, não vou vazio e insatisfeito.
Essa consciência aumenta com o passar do tempo, ou nem tanto?
Nem tanto. Temos é de ter sucesso em algumas coisas que fazemos. Se só se tem insucesso isso deprime, causa mau estar. Os americanos falam muito dos três “g”, a propósito do amor. Good, giving and game. Bom, generoso e divertido. O mundo deve ser bom, generoso e divertido.
Isso é aplicado ao amor?
Sim, ao amor e às relações em geral. Mas eles falam disto a propósito do amor. O bom amor é aquele que é good, giving and game (jogo, mas que eu traduzo para divertido).
Sei que vou morrer mas diverti-me mais ou menos. Fiz umas asneiras, mas também fiz algumas coisas bem feitas. Há uma certa satisfação, não vou vazio e insatisfeito.
Também temos de aprender a viver com os momentos menos divertidos para não desistirmos à primeira contrariedade.
Isso é outra teoria. A teoria da psicanálise clássica é a de que as dores são boas, que é preciso sofrer para ficar mais forte, para enrijecer o carácter. Não é nada a minha teoria. A dor é inevitável, não é boa. Há sempre insucessos, há sempre dores.
Eu estava a referir-me à chamada gratificação imediata, cuja necessidade, segundo se diz frequentemente, tem vindo a crescer.
Pois, a teoria clássica é a de que a gratificação imediata é má e que se deve educar para a frustração. Reduzir a frustração lenta e progressivamente, é o que ensinam os clássicos. Não é de facto a minha teoria. A frustração é sempre má e deve evitar-se. O que se deve fazer é outra coisa: é desenvolver a capacidade de espera, o que é diferente. Estou suado, vim a correr, apetece-me beber uma cerveja gelada. Mas percebo que se descansar um bocado a cerveja me vai saber muito melhor. Não é a mesma coisa que manter a frustração, ou que considerar a frustração útil.
Há hoje patologias mentais novas?
É difícil dizer mas há algumas.
O DSM [o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais] agora é maior.
O DSM é uma porcaria. Aquilo é um catálogo condicionado pela indústria farmacêutica para venderem mais medicamentos.
Todos temos lá um lugarzinho.
Sim, sim. E um medicamento apropriado.
Quais são então as novas patologias?
Há uma maior quantidade de traços de psicose, narcisismo, borderline. Porque há uma menor intimidade entre as pessoas. As relações são mais superficiais, menos íntimas, menos vinculadas, mais anónimas. De maneira que não há familiaridade. Deixou de haver a confiança, a colaboração mútua.
Isso é um efeito da vida urbana por contraponto à vida rural?
Claro, das grandes cidades. E do estilo de vida que as pessoas levam, também. Hoje as pessoas só são íntimas entre dois ou três amigos. No meu tempo era íntimo de todas as pessoas da minha aldeia. Mesmo nas cidades havia aquela coisa de bairro, as pessoas iam a casa uns dos outros. Hoje temos mais conhecidos do que amigos. Há uma diminuição da espessura afectiva dos laços.
Não haverá, por outro lado, uma maior liberdade? Porque essa situação de antigamente era também de um grande controlo sobre os indivíduos.
Sim. Nesse aspecto, sim.
O que é que é preferível?
Bom, os extremos serão sempre maus. Mas não sei se a situação de antigamente era assim de tanto controlo. As pessoas respeitavam mais os segredos, por exemplo. Hoje respeitam menos. Se pedir a um amigo seu para respeitar um segredo, ele di-lo logo na primeira esquina.
Não tem grande confiança na natureza humana, pelos vistos.
A vida actual é mais insegura.
Existe isso da natureza humana?
Existe, é um bocado diferente da natureza dos macacos, por exemplo [risos].
Mas reconhece a existência de padrões de comportamento, independentemente da cultura, da origem, do meio em que se cresceu?
O problema dos valores é um problema posto do ponto de vista moral, quase religioso. Do ponto de vista ético, estético, também. Mas o importante é aquilo que tem valor para a vida, aquilo que é vital. O que acontece é que para o homem, por comparação com o macaco, é importante a beleza de uma rosa, o perfume de uma mulher. O que tem valor para a nossa vida não é só o cheiro a cio.
Ou seja, não é só o aspecto pragmático.
Também é pragmático: isto permite escolher melhor, saber quem é a pessoa. A selecção é muito mais complexa porque o número de dados que recolhemos é muito maior.
Há muito mais variáveis em jogo.
Muitíssimo mais. Para um macaco interessa que a fêmea esteja receptiva. Para o homem interessa que a mulher seja simpática, que goste dele; uma série de coisas. Agora, o que acho que tem pouco interesse são esses valores com sentido ético e moral. Como dizia um amigo meu que já faleceu: “O que interessa na mulher são as características morais, mas se for bonita ajuda”.
Pode dizer-se que é um optimista?
Sou.
Acha que estamos a aperfeiçoar-nos?
Sim, não tenho dúvidas. Apesar de todos os defeitos, cada vez se vive melhor. A curva da civilização é isto [desenha no papel uma curva], é ascendente. Mas a ascensão na subida não é contínua, há ciclos. E depois há a visibilidade social. Aqui há uns anos numa conferência com o Dr. Jorge Macedo – o historiador que foi director da Torre do Tombo –, houve uma coisa que não me agradou: ele falou muito da violência, referindo que a violência era muito grande nas cidades. E eu disse-lhe: “Parece impossível um professor de História estar a dizer-me isso; sabe melhor do que eu que no tempo do Marquês de Pombal a média de assassinatos era de um ou dois por dia em Lisboa, e Lisboa tinha cento e tal mil habitantes. Hoje tem 600 mil e se calhar são dois ou três por mês”. Há aqui um problema interessante: no tempo do Marquês de Pombal matava-se uma pessoa no Rossio e em Alfama ninguém sabia; hoje matam uma pessoa em Nova Iorque e logo à noite já sabemos. É uma ilusão, é um problema de visibilidade social.
A visibilidade social tem a ver com um papel progressivamente maior dos media; os media são indutores de ansiedade?
Não. Isso é outra história. Fiz parte de um grupo de trabalho organizado pela Maria Barroso, da Fundação Pro Dignitate. Fui um dos fundadores daquilo. E ela tinha essa ideia: porque se mostram as mortes, as revoluções? Isso não tem mal nenhum, a informação elucida as pessoas. Mas ainda há tempos ouvi o professor Daniel Sampaio, que é um tipo inteligente, dizer que não se podia falar do suicídio dos jovens porque isso contaminava, induzia outros. Pelo contrário; sabendo as pessoas os perigos que existem, não vejo perigo nenhum nisso. O perigo é não informar.
Não vê sequer a possibilidade de isso contribuir para um acréscimo da ansiedade?
Aí, o que acho é que o grande modelo é a própria natureza. O que não podemos é dar um acidente de automóvel e mostrar só o carro todo esborrachado, um tipo a deitar sangue. É mostrar a cena toda, mostrar a vida. Salientar só aquilo é que pode ser prejudicial e provocar grande ansiedade.
Hoje temos a ameaça terrorista, a ameaça dos vírus, agora a ameaça do mosquito. Estamos a receber permanentemente estas doses de alarme…
Já pensou que em vez de estarmos aflitos com o mosquito que transmite o Zika, devíamos pensar que isso pode ser um processo de resolver as dificuldades de proteínas, e começar a comer esses mosquitos num prato especial? [risos]. Com manteiga, um bocadinho de mel...
Por qualquer razão não é nas proteínas do mosquito que as pessoas pensam em primeiro lugar.
Mas podem começar a pensar nessa vantagem.
Se por absurdo tivesse à disposição uma máquina do tempo, para onde escolheria viajar?
Para o futuro. O passado passou, que é que ia fazer com o passado? Não gostava nada de voltar atrás, gostava de ter mais 100 anos à frente. O bife que me interessa é o que vou comer logo à noite, não é o que comi ontem [risos].
Linha de Apoio à Vítima atendeu 17 chamadas por dia
in Público on-line
Maioria das chamadas recebidas na APAV diz respeito a situações de violência doméstica.
A Linha de Apoio à Vítima da APAV atendeu, entre Novembro de 2014 e Dezembro de 2015, uma média de 17 chamadas por dia, a maioria por maus-tratos físicos e psíquicos, no âmbito da violência doméstica.
Neste período, o serviço da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima atendeu 3819 chamadas e abriu 2303 novos processos de apoio, segundo as "Estatísticas da Linha de Apoio à Vítima (LAV)" divulgadas nesta segunda-feira para assinalar o Dia Europeu da Vítima de Crime.
Os dados, a que agência Lusa teve acesso, mostram que o crime contra as pessoas motivou 95,1% das chamadas, 66,4% das quais foram por maus-tratos físicos e psíquicos, no âmbito da violência doméstica, 3,7% por ameaça/coacção e 3,1% por ofensas à integridade física.
O stalking (assédio persistente) motivou 1,9% das chamadas, o bullying 1,1%, os crimes patrimoniais 1,4% e a burla 0,4%, referem os dados, sublinhando que o tempo médio de cada chamada é de 13,5 minutos.
Considerando as 1973 vítimas de crimes registados neste período, a APAV conseguiu traçar o perfil da vítima e do autor do crime.
A maior parte das vítimas (84%) são mulheres, com uma média de idade de 46 anos, casadas ou a viver em união de facto (59%), sendo que a maioria (51%) vive numa família nuclear com filhos, 47% têm o ensino superior e 43% estão empregadas.
Dos 310 casos em que a vítima era homem, a APAV constatou que tinham uma média de idade de 44 anos, 46% eram casados ou viviam em união de facto, 44% viviam numa família nuclear com filhos.
Os dados indicam ainda que 48,8% destes homens tinham abaixo dos 12 anos de escolaridade e 31,5% estavam empregados.
Relativamente às 103 crianças e jovens que foram vítimas de crime, 60% eram meninas, com uma média de idades de 11 anos, sendo que um quarto frequentava o primeiro ciclo, 13%, o segundo ciclo e 7%, o terceiro ciclo.
No caso dos idosos, que totalizaram 286 casos, 81% eram mulheres, com uma média de idade de 77 anos, 62% eram casados ou viviam em união de facto e 25% viúvos.
Segundo as estatísticas, 41% viviam numa família nuclear com filhos, 86% tinham o ensino superior e 93% estavam reformados.
Sobre o perfil do agressor, a APAV refere que 83% são homens, com uma média de idade de 45 anos, 67% são casados ou vivem em união de facto, 54% tinham o ensino superior, 55% estavam empregados, 67% não tinham antecedentes criminais e 28,9% eram cônjuges da vítima.
A maior parte das chamadas para a LAV, um serviço de atendimento telefónico, gratuito e confidencial, foi feita pela vítima (68,1%), seguindo-se os familiares (21,2%), os amigos e conhecidos (13,3%).
Lançada a 17 de Novembro de 2014, a linha, que corresponde ao número de apoio à vítima europeu (116 006), trabalha numa rede de parcerias com entidades judiciárias e policiais, possibilitando um encaminhamento rápido da vítima para as entidades competentes.
O projecto "pretendeu criar, a nível nacional, um sistema integrado que permita uma triagem eficaz e uma resposta ajustada às necessidades das vítimas", aos seus familiares e amigos.
Para assinalar o Dia Europeu da Vítima de Crime e promover a LAV, a associação lança uma campanha de sensibilização com o tema A violência esconde-se no silêncio.
O Dia Europeu da Vítima de Crime foi instituído pelo Victim Support Europe para recordar os direitos das vítimas de crime.
Maioria das chamadas recebidas na APAV diz respeito a situações de violência doméstica.
A Linha de Apoio à Vítima da APAV atendeu, entre Novembro de 2014 e Dezembro de 2015, uma média de 17 chamadas por dia, a maioria por maus-tratos físicos e psíquicos, no âmbito da violência doméstica.
Neste período, o serviço da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima atendeu 3819 chamadas e abriu 2303 novos processos de apoio, segundo as "Estatísticas da Linha de Apoio à Vítima (LAV)" divulgadas nesta segunda-feira para assinalar o Dia Europeu da Vítima de Crime.
Os dados, a que agência Lusa teve acesso, mostram que o crime contra as pessoas motivou 95,1% das chamadas, 66,4% das quais foram por maus-tratos físicos e psíquicos, no âmbito da violência doméstica, 3,7% por ameaça/coacção e 3,1% por ofensas à integridade física.
O stalking (assédio persistente) motivou 1,9% das chamadas, o bullying 1,1%, os crimes patrimoniais 1,4% e a burla 0,4%, referem os dados, sublinhando que o tempo médio de cada chamada é de 13,5 minutos.
Considerando as 1973 vítimas de crimes registados neste período, a APAV conseguiu traçar o perfil da vítima e do autor do crime.
A maior parte das vítimas (84%) são mulheres, com uma média de idade de 46 anos, casadas ou a viver em união de facto (59%), sendo que a maioria (51%) vive numa família nuclear com filhos, 47% têm o ensino superior e 43% estão empregadas.
Dos 310 casos em que a vítima era homem, a APAV constatou que tinham uma média de idade de 44 anos, 46% eram casados ou viviam em união de facto, 44% viviam numa família nuclear com filhos.
Os dados indicam ainda que 48,8% destes homens tinham abaixo dos 12 anos de escolaridade e 31,5% estavam empregados.
Relativamente às 103 crianças e jovens que foram vítimas de crime, 60% eram meninas, com uma média de idades de 11 anos, sendo que um quarto frequentava o primeiro ciclo, 13%, o segundo ciclo e 7%, o terceiro ciclo.
No caso dos idosos, que totalizaram 286 casos, 81% eram mulheres, com uma média de idade de 77 anos, 62% eram casados ou viviam em união de facto e 25% viúvos.
Segundo as estatísticas, 41% viviam numa família nuclear com filhos, 86% tinham o ensino superior e 93% estavam reformados.
Sobre o perfil do agressor, a APAV refere que 83% são homens, com uma média de idade de 45 anos, 67% são casados ou vivem em união de facto, 54% tinham o ensino superior, 55% estavam empregados, 67% não tinham antecedentes criminais e 28,9% eram cônjuges da vítima.
A maior parte das chamadas para a LAV, um serviço de atendimento telefónico, gratuito e confidencial, foi feita pela vítima (68,1%), seguindo-se os familiares (21,2%), os amigos e conhecidos (13,3%).
Lançada a 17 de Novembro de 2014, a linha, que corresponde ao número de apoio à vítima europeu (116 006), trabalha numa rede de parcerias com entidades judiciárias e policiais, possibilitando um encaminhamento rápido da vítima para as entidades competentes.
O projecto "pretendeu criar, a nível nacional, um sistema integrado que permita uma triagem eficaz e uma resposta ajustada às necessidades das vítimas", aos seus familiares e amigos.
Para assinalar o Dia Europeu da Vítima de Crime e promover a LAV, a associação lança uma campanha de sensibilização com o tema A violência esconde-se no silêncio.
O Dia Europeu da Vítima de Crime foi instituído pelo Victim Support Europe para recordar os direitos das vítimas de crime.
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