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27.3.23

Governo cria símbolo que atesta preço "justo" nos produtos alimentares

Por Lusa, in CNN

A ministra da Agricultura e da Alimentação divulgou esta quarta-feira que será criado um símbolo que ateste que os produtos alimentares cheguem aos consumidores com um preço justo, refletido em todas as etapas da cadeia nacional.

Segundo Maria do Céu Antunes, a medida, que se corporizará na colocação desse selo nos produtos ou nas respetivas embalagens, insere-se na iniciativa do Observatório de Preços, tutelado pelo ministério, que avalia a transparência em toda a cadeia de valor no setor agroalimentar.

“Temos de identificar os problemas e ter medidas que tornem toda a cadeia alimentar num sistema justo para os agricultores, para a transformação, transportes, grandes e pequenas superfícies e para o consumidor”, disse a governante à margem de uma vista às instalações da Agros, União de Cooperativas do setor do leite, na Póvoa de Varzim, distrito do Porto.

A ministra apontou que esse símbolo que atesta o preço justo, que avançará depois de conhecidas as avaliações do Observatório, ainda este ano, vai garantir “que ninguém tem prejuízo e que foram criadas condições de sustentabilidade de toda a cadeia alimentar”.

“Acreditamos que, com isto, o consumidor, quando for ao supermercado comprar os seus produtos, pode escolher com a convicção de que não deixou ninguém para trás”, completou a governante.

Maria do Céu Antunes garantiu que o Governo continua a trabalhar para “criar uma cadeia justa”, mesmo reconhecendo que ainda existem algumas assimetrias, nomeadamente com a perda de rendimentos dos agricultores, que o ministério promete apoiar.

“Os dados mostram que na produção há uma quebra de rendimento nos agricultores, sobretudo devido ao aumento dos custos de produção, de cerca 14%. Já houve um aumento nos apoios dados ao setor, de 2,6 %, mas que ainda não é suficiente para impedir essa diminuição do rendimento”, analisou a responsável da tutela.

A governante garantiu que continuam a ser negociadas, com a Comissão Europeia, verbas suplementares de apoio para combater a crise da inflação, que também afeta o setor, e que estas serão complementadas com dotações do Orçamento de Estado.

“Além dos apoios regulares, sabemos que estas ajudas extraordinárias podem não ser suficientes para anular o efeito destas crises sucessivas na produção e no consumidor. Por isso, estamos a mobilizar tudo o que está ao nosso alcance para mitigar esses efeitos”, garantiu Maria do Céu Antunes.

Sobre a possibilidade de criar uma proteção extra para os consumidores, fixando, por exemplo, um congelamento dos preços dos bens essenciais, a ministra considerou ser “muito prematuro falar em medidas em concreto”.

“Não podemos criar expectativa a que não possamos responder. Além disso, pode criar condições para afastar os diversos elementos da cadeia alimentar e colocá-los uns contra os outros. É um problema de todos, que nos tem de mobilizar a todos, para termos respostas sustentáveis”, completou.

Nesse âmbito de uma mobilização conjunta, a ministra da Agricultura e da Alimentação divulgou que no próximo dia 22 de março, haverá uma reunião da Plataforma de Acompanhamento das Relações da Cadeia Alimentar (PARCA), com representação das áreas governativas da Agricultura e Economia e todos os elementos da cadeia, desde a produção à distribuição.

A governante referiu, ainda, que no âmbito da PARCA será criada uma subcomissão permanente, com representação de vários organismos, para “se olhar para o que está a acontecer em toda a cadeia [agroalimentar] e fazer propostas concretas que levem a medidas políticas”.

1.3.23

Poder de compra. Famílias cortaram a fundo na comida que levam para casa

Luís Reis Ribeiro, in DN

Investimento começou a vacilar na reta final de 2022 e inflação suavizou, menos no segmento alimentar, onde já supera os 20%, segundo os novos dados do INE.

As famílias residentes em Portugal foram reduziram de forma significativa (maior corte de que há registo) o volume de alimentos comprados em 2022, mas, no entanto, o valor da fatura dos lares com comida subiu a um ritmo recorde puxado pela inflação galopante e atingiu o maior valor das séries oficiais, indicou ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Ou seja, há sinais inequívocos de que muitas famílias -- sobretudo as mais pobres, com menos rendimento disponível, e as mais vulneráveis à subida das taxas de juro porque têm dívidas bancárias a aumentar com o avanço das taxas de juro -- estão mesmo a cortar na alimentação para conseguir poupar mais um pouco

É isso que indica a quebra no volume. Segundo o novo destaque do INE, que fecha o ano de 2022 em contas nacionais, se não houvesse inflação, a despesa com alimentos teria caído na mesma.

A quebra real (descontando a inflação) foi de 2,3%, a maior das séries oficiais do instituto, que remontam a 1995. É o equivalente a menos 573 milhões de euros em comida face a 2021.

É preciso recuar aos anos de chumbo do programa de ajustamento do governo PSD-CDS e da troika para encontrar um encolhimento nos gastos reais com alimentos. Mas nem nessa altura foi tão grande: caíram 0,7% em 2011 e 1,3% em 2012, mostra o INE.

Já em valor, a fatura disparou de forma exorbitante, claro, e com maior expressão entre o segundo e o quarto trimestre do ano passado. A guerra da Rússia contra a Ucrânia começou a 24 de fevereiro de 2022.

Assim, o valor despendido pelas famílias residentes aumentou uns expressivos 9,7% (a preços correntes, já com o efeito da inflação), atingindo o maior valor destas séries: quase 29 mil milhões de euros em 2022, refere o INE.

Mas economia cresceu muito na mesma, quase 7%

Já a economia como um todo cresceu muito. "No conjunto do ano 2022, o PIB (produto interno bruto) registou um crescimento de 6,7% em volume [em termos reais, descontando a inflação], o mais elevado desde 1987, após o aumento de 5,5% em 2021 que se seguiu à diminuição histórica de 8,3% em 2020, na sequência dos efeitos adversos da pandemia na atividade económica", refere o INE.

Em valor (a preços correntes, com inflação), a economia portuguesa aumentou de tamanho, claro, e também ao ritmo mais elevado desde 1996, pelo menos (mais 11,5%), uma expansão explicada em larga medida pela subida dos preços, que permitiu aumentar temporariamente a faturação das empresas, o valor dos bens e dos serviços transacionados e ainda os impostos e contribuições incorporados no valor acrescentado interno.

"A procura interna apresentou um contributo positivo expressivo para a variação do PIB, embora inferior ao observado no ano anterior, verificando-se uma aceleração do consumo privado e uma desaceleração do investimento".

Dualidade no consumo das famílias

Então, o consumo privado total até avançou. O que aconteceu? Enquanto a despesa real em bens alimentar caiu, os gastos das famílias com bens duradouros (tendencialmente mais comprados pelos grupos com rendimentos superiores, que estão mais resguardados face ao embate da inflação) disparou quase 12%.

A despesa real com os restantes bens correntes (não alimentares) e serviços também andou bem, subiu 7,4% em 2022, diz o INE.

Estes comportamentos ao nível do consumo serviram para compensar o retrocesso no segmento alimentar, colocando o consumo privado a crescer 5% no ano passado.

Além disso, "o contributo da procura externa líquida passou a positivo em 2022, tendo-se registado uma aceleração das exportações de bens e de serviços mais intensa que a das importações de bens e serviços".

As exportações totais registaram o maior aumento da série do INE (16,7%), acima do ritmo das importações (11%), apesar do choque energético que encareceu brutalmente a fatura com petróleo e gás.

A nota mais desfavorável, se assim se pode dizer, vai para o investimento (FBCF - formação bruta de capital fixo), que abrandou de 8,7% em 2021 para apenas 2,7%.

O investimento em construção quase estagnou (0,8%), mas o segmento dos equipamentos de transporte acabou por salvar a face deste agregado do PIB, avançando quase 10% em termos reais, no ano passado.

Os dados trimestrais, também ontem revelados pelo INE, mostram que o investimento fixo (novo investimento) ficou praticamente estagnado no último trimestre de 2022 face a igual período do ano precedente.

E que o investimento total (que conta com a variação de existências, indicador que reflete apreciações ou depreciações dos bens de investimento em armazém) começou a cair na reta final do ano.

Não havia uma contração neste agregado do PIB desde o tempo da pandemia, quando a economia quase parou, tendo entrado numa severa e histórica recessão.

Teresa Gil Pinheiro, economista do departamento de estudos do BPI, observa que "o contributo da procura interna diminuiu 1,1 pontos percentuais (p.p.) face a 2021, situando-se em 4,7 p.p., resultado da forte desaceleração da FBCF, sobretudo em maquinaria e na construção".

"Por seu turno, o consumo privado - que vale 65% do PIB - cresceu 5,7%, mais 3 p.p. do que em 2021, resultado da recuperação do consumo de bens duradouros, nomeadamente na componente automóvel e também de uma ligeira aceleração da despesa com bens não alimentares e serviços", diz a analista numa nota rápida sobre os dados do INE.

A economista repara ainda que "a despesa com bens alimentares contraiu 2,3%" e que "o comportamento das várias componentes do consumo privado evidencia, por um lado, o impacto da inflação na despesa das famílias de menor rendimento - contração do consumo de bens alimentares - e por outro, a percetível concentração de poupanças excedentárias nas famílias de maior rendimento, permitindo a sua canalização para a aquisição de outros bens e serviços".

Inflação suaviza, mas na comida, não

Ontem, o INE também publicou dados novos sobre a inflação. Esta continua acima dos 8%, mas dá sinais de abrandamento. "A taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor (IPC) terá diminuído, pelo quarto mês consecutivo, para 8,2% em fevereiro de 2023, taxa inferior em 0,2 pontos percentuais (p.p.) à observada no mês anterior".

No entanto, continua o INE, "o indicador de inflação subjacente (índice total excluindo produtos alimentares não transformados e energéticos) terá acelerado para uma variação de 7,2% (7% no mês precedente)".

Se por um lado, a taxa de variação homóloga do índice relativo aos produtos energéticos diminuiu para 2% em fevereiro (menos 5,1 p.p. face ao valor homólogo de janeiro), já o custo dos alimentos não dá sinais de tréguas. "O índice referente aos produtos alimentares não transformados terá acelerado para 20,1%", diz o INE. Em janeiro, o aumento tinha sido de 18,5%.
Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

21.10.22

“As pessoas estão desesperadas, escondem latas de atum e leite para comer ou dar aos filhos”: furtos de alimentos disparam nos supermercados

Joana Pereira Bastos, Rui Gustavo, Bernardo Mendonça, in Expresso

Supermercados estão a colocar alarmes em produtos alimentares básicos, como latas de atum ou garrafas de azeite. Os furtos estão a aumentar “desde o início de setembro” por “pessoas que já não conseguem sobreviver só com o seu salário e pensão”. Quase 2 milhões de portugueses vivem com menos de €554

Vários supermercados estão a colocar alarmes em produtos alimentares básicos, como o bacalhau ou o salmão congelados, e até em garrafas de azeite ou latas de atum. Segundo a Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), que representa o sector, o investimento na instalação de mais sistemas de segurança é justificado pelo aumento dos furtos de alimentos, que se acentuou nos últimos meses, com o agravamento do custo de vida.

“É um fenómeno que está efetivamente a subir bastante, sobretudo desde o início de setembro e em particular nos grandes centros urbanos de Lisboa e do Porto”, diz o diretor-geral da APED, Gonçalo Lobo Xavier, adian­tando que o leite e a comida enlatada, como as salsichas e o atum, estão entre os produtos mais visados. “Não há nenhuma dúvida que são roubos para comer. É o primeiro sintoma de uma grave crise social”, alerta.

Cláudio Ferreira, presidente da Associação Nacional de Vigilância e Segurança Privada, sector que garante o patrulhamento dos supermercados, confirma: “Nos últimos dois a três meses nota-se um aumento muito significativo dos furtos de alimentos por parte de pessoas que já não conseguem sobreviver com o seu salário ou pensão. Estão desesperadas e escondem na mala ou no casaco pacotes de leite ou latas de atum para comer ou dar aos filhos.”

Os dados da PSP só vão até junho, mas já mostram a tendência. Só nos primeiros seis meses deste ano foram participados à polícia 452 furtos em super e hipermercados, a uma média de 2,5 por dia. Se o ritmo se mantivesse, no final do ano o volume de ocorrências seria pelo menos 40% superior ao registado no ano passado. Mas o crescimento de casos acelerou neste segundo semestre, quando mais disparou a inflação.

Muitas situações, no entanto, não chegam a ser participadas às autoridades. “São casos de necessidade que dão muita pena. E quando assim é, não costumamos chamar a polícia”, relata Edson Alves, que trabalha como segurança num supermercado da Areo­sa, no Porto. Nos últimos meses, o vigilante, de 49 anos, tem detetado cada vez mais tentativas de furto de alimentos. “Temos apanhado muitos idosos a tentar levar pão, salsichas ou atum. Há pouco tempo vi um idoso a tentar roubar batatas e uma senhora de idade a esconder pastéis de bacalhau no bolso. Quando a abordei, pediu muita desculpa e explicou que tinha fome. E há mulheres com filhos que dizem que já não têm como lhes dar de comer. É muito triste. Chego a dizer-lhes: ‘Prefiro que me peçam. Não sou rico, mas posso oferecer alguma coisa.’ E eu próprio vou à caixa pagar”, conta.

No supermercado onde trabalha, o aumento dos furtos levou a gerência a instalar alarmes em alimentos como o polvo congelado e a picanha e a diminuir as quantidades de produtos expostos nas prateleiras, como acontece com o café. A par das conservas, o café “é neste momento um dos artigos mais suscetíveis de furto”, segundo disse ao Expresso fonte do Continente, sem, no entanto, adiantar números quanto à dimensão do fenómeno.

Nas grandes cadeias de distribuição, cada loja tem autonomia para decidir a instalação de alarmes nos produtos em que se registem maiores quebras de stock, o que significa que os artigos com alarme podem variar de estabelecimento para estabelecimento. A instalação deste sistema de segurança é dispendiosa e só é feita quando o custo compensa o que se perderia em furtos. E nos últimos meses têm sido cada vez mais os supermercados a avançar para este investimento.

“Está a haver um problema grave de quebra de stock por furto, sobretudo nas lojas de rua e não tanto nos hipermercados”, justifica o responsável de uma das maiores cadeias, que prefere não ser identificado. Em causa já não estão apenas artigos de perfumaria e álcool premium, tradicionalmente os que mais desapareciam e que já era costume terem alarmes, mas cada vez mais “produtos alimentares básicos, como o bacalhau e o atum”, diz.

Ao Expresso, o Auchan garante que “não tem verificado aumento de furtos em nenhuma das lojas” e que a instalação de alarmes não passa de uma “prática preventiva de há já vários anos”. Mas a verdade é que não há memória de ver alarmes em latas de atum, por exemplo, como acontece, desde há pouco tempo, em algumas lojas de rua desta marca. Contrariando as declarações oficiais, dois funcionários de um supermercado desta cadeia, no centro de Lisboa, explicaram o motivo do recente reforço de segurança: “Estamos a colocar alarmes nas latas de atum, nas garrafas de azeite e no bacalhau porque ultimamente têm sido muito roubados. Há quem os leve em mochilas para depois os vender a preço mais baixo no mercado negro.”

O crescimento de mercados paralelos, onde os produtos são vendidos mais baratos do que no comércio legal, é comum em períodos de crise, sobretudo em países atingidos por uma inflação galopante, como acontece historicamente em África e na América Latina. Em Portugal, como um pouco por toda a Europa, o início da guerra na Ucrânia provocou uma escalada de preços, em particular nos bens alimentares. No mês passado a taxa de inflação destes produtos chegou aos 16,9%, o valor mais elevado desde julho de 1990 (ver gráfico).

MAIS PEDIDOS DE AJUDA ALIMENTAR

“Há produtos essenciais que efetivamente começam a ter um preço inacessível para as famílias mais caren­ciadas. Neste momento há muito mais pessoas que já não estão a conseguir assegurar a sua alimentação básica. Admito que, em desespero, recorram a tudo, até a roubar para comer”, vinca Rita Valadas, presidente da Cáritas.

Quase dois milhões de portugueses vivem com menos de €554 por mês e a população em risco de pobreza está a aumentar. Cerca de 500 mil pessoas dependem de apoio alimentar e o número de pedidos está a subir de forma acentuada, alerta a presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome, Isabel Jonet. “Só o leite, por exemplo, aumentou 35%. A escalada de preços é brutal e as famílias mais pobres, que já viviam no limite, não têm nenhuma margem para suportar estes aumentos”, confirma.

Perante o crescimento dos pedidos de ajuda, há o risco de a própria rede de emergência colapsar e de as institui­ções no terreno não chegarem a todos os que precisam. E mesmo os cabazes distribuídos não são suficien­tes para satisfazer as necessidades básicas de uma família, resultando sobretudo de doações de excedentes dos produtores agrícolas, da indústria alimentar e dos supermercados.

“Os nossos associados apoiam com distribuição de alimentos mais de mil IPSS, mas estas já não estão a conseguir dar resposta e chegam-nos cada vez mais pedidos de ajuda”, revela o presidente da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição.

Perante a dimensão do problema, Gonçalo Lobo Xavier defende que é urgente aumentar os apoios do Estado às famílias. Mas garante que as cadeias de supermercados — cujos lucros dispararam nos últimos meses — querem contribuir para a solução. “Estamos a pensar em mecanismos para ajudar as pessoas mais caren­ciadas”, informa.