Mostrar mensagens com a etiqueta Bispo do Porto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bispo do Porto. Mostrar todas as mensagens

16.11.20

Bispo do Porto: "Quando se fizer a história desta pandemia vamos descobrir que ela só não se transformou numa mortalidade total devido às instituições sociais"

Henrique Cunha, in RR

D. Manuel Linda acaba de publicar o livro “Construtores da Cidade Feliz”, um conjunto de textos com o seu pensamento sobre temas sociais. Edição deste livro do Bispo do Porto surge na semana em que a Igreja celebra o Dia Mundial dos Pobres

Este livro surge num momento em que, infelizmente, muitas das situações sociais estão encobertas pela pandemia. É um grito de alerta por altura do dia mundial do pobre?

Nesta circunstância como as estatísticas tem demonstrado há ricos são ainda mais ricos e não tenho nada contra, mas há pobres que estão muito pobres. E é uma espécie de grito também na sociedade portuguesa para que preste atenção a esta desigualdade. Por outro lado, foi a própria pandemia que permitiu algum tempo livres para se organizarem alguns textos que estavam em depósito.

Ao longo desta crise foi denunciando situações de maior carência. Elas persistem, como se percebe pelas suas palavras, encontrou outras?

Temos apenas dados, dados estatísticos que nos dizem por exemplo que aquelas pessoas que estavam ligadas direta ou indiretamente ao turismo foram os que mais pagaram esta crise.

Quem analisado muito bem a situação para lhe dar resposta têm sido as instituições sociais.

Quando se fizer a história desta pandemia há-de-se descobrir que os dramas grandes, só não são totais, devido em grande parte grande parte a estas instituições presentes na proximidade com os mais pobres, os mais carentes, os mais débeis.

Sejam os nossos centros sociais paroquiais, sejam outros que não são da Igreja, mas que são também muito responsáveis de forma geral têm sido os grandes garantes de que a pandemia não se transforme numa mortalidade coletiva.

O sr. Bispo tem um olhar sobre a realidade, sobre a sociedade e sobre como o governo e o poder local têm gerido esta crise. Ainda se situa mais ou menos naquele pensamento que me transmitiu em meados de abril de que aqueles que nos são próximos têm estado melhor?

Neste momento não queria pôr o dedo em riste para acusar ninguém. Julgo que todos mais ou menos têm feito a sua função com competência, embora às vezes fosse previsível agora às vezes posso previsível que dos grandes poderes nacionais esperássemos algum poder de antecipação. Porque eles têm normalmente um conjunto de técnicos, de inteligência que lhes permitiria dizer vai-se aproximar isto, o futuro caminhará nesta direção ou naquela; coisa que evidentemente num regime de proximidade não é possível.

Uma última pergunta: na construção desta cidade feliz que pilares é necessário continuarmos a preservar?

Em primeiro lugar a centralidade da pessoa humana. Não é possível mais uma civilização contruída à base do dinheiro, como o Papa Francisco tantas vezes acentua... uma economia que mata: não pode ser. O Papa tanto insiste que as vacinas quando chegarem devem ser distribuídas pela humanidade toda. E em segundo lugar, como derivado deste primeiro - da centralidade da pessoa - são os direitos humanos. Os direitos humanos que não podem confinar-se aquela noção genérica e absolutamente fria e às vezes quase provocatória da liberdade.

O Ocidente parece que não conhece mais nada que não seja a reivindicação da liberdade e ela é bonita. Sem liberdade nem sequer há valor moral. Agora, as energias que nós gastamos a reivindicar a liberdade - a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão - se gastássemos uma energia relativamente semelhante por exemplo a reivindicar o papel central do pobre, politicas mais de acordo com a pobreza, o ir ao encontro daqueles que não tem capacidade de caminhar pelos seus próprios pés ficam para trás na estrada da vida. Mas isso é mais difícil, isso empenha mais. Reivindicar liberdade é facílimo, reivindicar presença junto do pobre, do débil, supõe muito mais presença o que se torna difícil.

5.6.20

Porto: Bispo alerta para a «pandemia da pobreza» e a realidade da «fome» e apela à solidariedade

in Ecclesia

Sacerdotes, diáconos e «todos os fiéis» da diocese «mobilizados contra todas as pandemias»

Porto, 29 mai 2020 (Ecclesia) – O bispo do Porto escreveu uma carta onde mobiliza a diocese “contra todas as pandemias”, nomeadamente a da “pobreza”, agora que vão “celebrar a fé de maneira comunitária” e retomar a vida económico-social “em condições relativamente normais”.

“Esta pandemia da pobreza e das dificuldades de todo o género, ao contrário da virológica, não se combate com isolamento social mas com a proximidade pessoal, afetiva e efetiva”, afirma D. Manuel Linda.

Na carta enviada hoje à Agência ECCLESIA, o bispo do Porto pede a cada pessoa da diocese que “procure responder, como ser humano e como cristão, a esta emergência social”, “de acordo com as suas circunstâncias e possibilidades”, movidos pela consciência pessoal e, “ainda mais, pela responsabilidade originada na fé”.

Na carta ‘Mobilizados contra todas as pandemias’, aos sacerdotes e diáconos e a todos os fiéis da Diocese do Porto, D. Manuel Linda contextualiza que a pandemia do novo coronavírus Covid-19 “continua aguda” em muitas partes do mundo e “deixou enormes situações de pobreza e debilitou ainda mais os que já eram débeis”.

“A pobreza nunca esteve ausente do nosso contexto social. Mas a situação que vivemos, além dos abalos na saúde e vida de tantos, fez enormes estragos, entre outros, na sustentabilidade financeira de muitas pessoas e de famílias inteiras. A fome é uma realidade”, desenvolveu.

Para o bispo do Porto é preciso pensar no contexto local e nacional mas também a nível internacional e observa que se o coronavírus atingir África “em força” a sociedade tem de se “comprometer com esses que, de forma habitual, já são os mais pobres dos pobres”.

“Sem querer instrumentalizar este apelo, também não se esqueça que a família paroquial – a paróquia, com as suas estruturas e servidores – está, em muitos casos, entre estes necessitados”, acrescentou, recordando que “não se vão realizar as festas patronais de verão” e os dinheiros que se pensava gastar podem ser encaminhados “para as grandes necessidades sociais, concretamente para os sem-abrigo”.

No contexto do regresso das celebrações comunitárias com presença de fiéis, a partir deste sábado, D. Manuel Linda começa a sua carta a afirmar que vão levar “a dimensão religiosa muito a sério”.

“Aproveitaremos esta circunstância que abalou o mundo para tentar corrigir aspetos que necessitam de humanização, especialmente no campo das relações familiares e sociais e na economia”, explica o bispo do Porto.

Este domingo, D. Manuel Linda vai presidir à Eucaristia da Solenidade de Pentecostes, a partir das 11h00, na Sé, e à noite à Oração do Terço nas ruas, com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, entre a igreja do Marquês e o Hospital de Santo António, encerrando o mês mariano de maio, a partir das 20h30.
CB

13.9.17

"Os pobres não podem esperar": 14 frases de D. António Francisco dos Santos

in RR

Atento aos grandes dramas da actualidade, preocupava-se sobretudo com os mais frágeis. O bispo do Porto morreu esta segunda-feira de manhã.

D. António Francisco dos Santos. O bispo do diálogo e "sem planos prévios"

“Não compete à Igreja educar nem para o medo, nem para a proibição.” 2010

“O diálogo entre a Igreja e a sociedade passa necessariamente pelos caminhos abertos da cultura, em que a Igreja soube tantas vezes ser pioneira.” Abril de 2010

“O bispo não trabalha sozinho. É bispo de todos, mas é irmão com todos.” À Renascença, na primeira entrevista depois da tomada de posse como bispo do Porto, Abril de 2014

"Sejamos ousados, criativos e decididos. Sobretudo onde estiverem em causa os frágeis, os pobres e os que sofrem. Os pobres não podem esperar.” Primeira homilia como bispo do Porto, Abril de 2014

Novo bispo do Porto diz que "pobres não podem esperar”

“O diálogo será timbre do meu viver e caminho do meu encontro com todos." Primeira homilia como bispo do Porto, Abril de 2014

“Precisamos de uma forma nova de ser líder e de ser protagonista, de ser governante e de ser responsável deste país.” A propósito da austeridade, Fevereiro de 2015

“Não podemos ser uma Igreja que apenas recebe, que apenas diz ‘vem’. Temos de ser uma Igreja que sabe ir, que sabe estar e que sabe encontrar-se com todos.” Fevereiro de 2015

“É necessário que a Igreja saiba ir ao encontro de todos, sem medo de perder algo de si.” Fevereiro de 2015

“Se tivéssemos feito pela paz aquilo que temos feito pela guerra, se tivéssemos feito pelo diálogo aquilo que temos feito pela separação e pelos conflitos, isto não teria acontecido.” Na sequência dos atentados de Paris, Novembro de 2015]

“Quando adoramos o Senhor nosso Deus, temos de respeitar e adorar o Deus das pessoas, dos nossos irmãos, independentemente da sua origem, cultura, credo ou ideologia.” Na sequência dos atentados de Paris, Novembro de 2015

“Vai ser felizmente diferente para eles este Natal, mesmo que seja outra a sua fé, porque encontraram casa junto de nós, abrigo na cidade e acolhimento humano em terra de gente de paz e de bem.” Uma referência ao primeiro Natal dos refugiados acabados de chegar, Dezembro de 2015

“Uma ofensa à dignidade humana e aos direitos fundamentais da dignidade humana. Isso não há povo que o possa fazer, nem há responsável que o possa assumir.” A propósito da eleição de Donald Trump, Novembro de 2016]

“[Apelo] à sociedade civil, às autarquias e ao próprio Estado, para encontrarem respostas estruturais e soluções definitivas que tirem estas pessoas das ruas.” Mensagem no Jubileu dos Sem-Abrigo, Novembro de 2016

“O Porto não é apenas um monumento erguido; é alma, é vida, é gente.” Sobre o crescimento do turismo na cidade do Porto, em entrevista à Renascença, Julho de 2017

Bispo: "O Porto não é um monumento, é alma, vida e gente"

12.9.17

Morreu o bispo do Porto, um homem "a quem ninguém ficava indiferente"

in Santo Tirso TV

D. António Francisco dos Santos tinha 69 anos e sofreu ataque cardíaco na manhã desta segunda-feira. Corpo estará em câmara ardente a partir das 17h00 na Catedral do Porto e o funeral será às 15h00 de quarta-feira.

O bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, morreu nesta segunda-feira aos 69 anos, avançou a agência Ecclesia. Fonte oficial da diocese do Porto adiantou à Lusa que o bispo morreu às 9h30, após sofrer um ataque cardíaco. O corpo estará em câmara ardente a partir das 17h00 e a Câmara do Porto já decretou três dias de luto para assinalar a morte de um homem "a quem ninguém ficava indiferente", como resumem os que lhe eram próximos.

O padre Américo Aguiar, que lidera a Irmandade dos Clérigos, confirmou ao PÚBLICO que D. António estava no Paço Episcopal quando, na manhã desta segunda-feira, morreu de problemas cardíacos. O INEM ainda esteve no local, mas já não foi possível salvar o bispo do Porto. “O Porto vive este assalto pela segunda vez. Em 2007, foi com D. Armindo [Lopes Coelho, que sofreu uma hemorragia cerebral enquanto era bispo da cidade] e em 2017 com D. António”, disse o padre Américo Aguiar, que, numa curta declaração sobre o que foram os três anos de bispado de D. António Francisco, afirma: “Concluo que em relação ao Porto, a bondade faz mal à saúde. A bondade era a palavra que o definia e só posso dizer que a bondade faz mal à saúde”.

Para o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, o seu sucessor no cargo de bispo do Porto "foi uma belíssima imagem do que é Cristo Bom Pastor que continua presente na Igreja e na sociedade em geral". Citado pela agência Ecclesia, o cardeal-partriarca recorda o falecido bispo como "alguém que viveu sempre com muita sabedoria, sempre com muita proximidade de toda a gente, um enorme coração".

O padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), ainda está a recuperar da surpresa da notícia da morte de D. António, com quem estivera, no sábado, em Fátima, onde o bispo do Porto presidira à peregrinação diocesana. “Ele estava muito feliz, com muitos milhares de pessoas, foi um grande momento. Estava bem, sereno, feliz. Nada faria prever isto”, disse o padre.

Lino Maia recorda que, há cerca de dois anos, o bispo passou por um momento mais difícil, numa altura em que andava “bastante preocupado e muito triste” com situações relacionadas com a vida da diocese, nomeadamente, por causa do mediático caso de substituição do padre de Canelas, em Vila Nova de Gaia. Mas, nos últimos tempos, afirma, o bispo “andava muito bem”. “Era um homem muito próximo, muito atento, muito preocupado com todas as situações da diocese e andava muito feliz”, refere o padre.

O presidente da CNIS deixa o que foram para ele as principais marcas do prelado no Porto: “A proximidade, a solicitude e um grande espírito eclesial. Era sempre o primeiro a aparecer em qualquer situação e encontrava sempre soluções. A Igreja para ele era uma comunidade de todos e não apenas de alguns. Vai ser difícil substituí-lo”.

Proximidade é também a característica mais destacada pelo padre Agostinho Jardim Moreira, pároco do centro histórico do Porto e presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, para se referir a D. António. "Ele falava com as pessoas, ouvia-as, era muito próximo. E isto era muito notado e assumido como uma característica de proximidade, fraternidade e simplicidade, contraposta a um poder mais distante. Era de facto uma marca dele", diz.

O padre Jardim Moreira também esteve em Fátima no sábado, onde se recorda de ter visto o bispo do Porto "radiante, cheio de entusiasmo e com planos de futuro". Agora, diz, a diocese fica "numa situação bastante preocupante", pois está "em suspenso", perante esta morte inesperada. "Ninguém estava a ponderar uma substituição e agora estamos em suspenso, até que o espírito santo nos envie um outro bispo para agradar ao povo e conduzi-lo". O clérigo deixa, por isso, "um apelo de unidade a toda a Igreja do Porto com sofre neste momento". "Resta-nos agradecer o bispo que tivemos", conclui.

Alguém que "unia pontas"

Nascido a 29 de Agosto de 1948, na freguesia de Tendais, concelho de Cinfães, licenciou-se em Filosofia, em 1977. Os anos seguintes, passou-os em Paris, onde se diplomou em Sociologia Religiosa. Antes disso, em 1972, tinha sido ordenado sacerdote. Voltou a Paris onde foi responsável pastoral por uma comunidade de emigrantes, na paróquia de S. João Baptista de Neuilly-Sur-Reine.

De regresso a Portugal, foi professor no seminário de Lamego e, entre 1992 e 1998, chegou a ser chefe de redacção do jornal diocesano Voz de Lamego. Em Dezembro de 2004, foi nomeado bispo auxiliar de Braga pelo papa João Paulo II, de onde transitou para Aveiro, para se fazer bispo, pela mão de Bento XVI. Durante os oitos anos que permaneceu em Aveiro, D. António Francisco dos Santos deixou raízes fortes ou, como ele próprio descreveu, encontrou "barcos e remos à sua medida".

Aliás, na véspera da sua nomeação como bispo do Porto, quatro párocos de Aveiro estavam em Lisboa, junto do núncio Rino Passigato, a tentar evitar a sua saída. "Ele fez um grande trabalho em Aveiro", recorda agora ao PÚBLICO um desses padres, João Gonçalves: "Conseguiu unir as pontas todas. Preocupou-se desde o princípio com o sentido renovador da diocese, mantendo-a de portas abertas e realmente atenta aos mais frágeis".

Enquanto bispo de Aveiro, juntava-se aos sem-abrigo nas vésperas de Natal e aos universitários no dia seguinte. Foi dele a ideia de importar do Brasil a Cristoteca, iniciativa com que assinalou os 75 anos da diocese e que aproveitou como pretexto para se misturar com os jovens, entre DJ's, música, máquinas de fumo e bebidas alcoólicas. "Quando estava com alguém, fosse quem fosse, parava-lhe o relógio, dava às pessoas todo o tempo de que elas precisavam", recua ainda o padre João Gonçalves.

Em Aveiro como no Porto, D. António Francisco dos Santos passeava-se na rua, entrava nos cafés, cumprimentava todos. "Era inexcedível na relação com os outros, na simpatia, no sorriso. Ninguém lhe era indiferente e ele não era indiferente a ninguém", continua, para resumir: "Era um homem bom. De um coração extraordinário".

Assumiu a liderança da diocese do Porto no dia 5 de Abril de 2014, alertando que "os pobres não podem esperar". Na Conferência Episcopal Portuguesa ocupava o cargo de presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana e era vogal da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé.

As exéquias fúnebres foram marcadas para quarta-feira, dia 13, às 15h00 na catedral do Porto. Até lá, e já a partir das 17h00 desta segunda-feira, o corpo de D. António Francisco dos Santos estará em câmara ardente. E, num comunicado enviado às redacções, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, anunciou que decretava três dias de luto. Decisão similar foi posteriormente anunciada pelas câmaras de Vila Nova de Gaia e da maia. Para o autarca portuense, a morte de D. António é “uma enorme tristeza e uma perda terrível para toda a cidade e toda a enorme diocese”. Rui Moreira descreve o bispo como "um homem de tolerância” e que mantinha com as pessoas “uma relação de enorme afectividade”. “Estava a desenvolver um trabalho extraordinário junto dos mais necessitados”, refere na declaração escrita o presidente da Câmara do Porto, garantindo que D. António vai “fazer muita falta”. “A cidade merecia ter um bispo como Sr. D. António Francisco. Ele esteve cá muito pouco tempo, mas deixa uma obra notável”, conclui Rui Moreira.

Rui Moreira cancelou todas as iniciativas de campanha até à tarde de quinta-feira, mantendo apenas a presença no debate de quarta-feira na RTP. Também Álvaro Almeida, da coligação PSD/PPM, e Manuel Pizarro, candidato socialista à presidência da Câmara do Porto, nas eleições autárquicas de 1 de Outubro próximo, anunciaram o cancelamento de todas as iniciativas de campanha. Álvaro Almeida parará três dias, Pizarro dois. Já a CDU fez saber que irá "retirar os elementos festivos das acções de campanha eleitoral até quarta-feira", com a candidata Ilda Figueiredo a manifestar "as sentidas condolências à diocese do Porto e a toda a família e amigos" do bispo. Manuel Pizarro emitiu um comunicado, classificando a notícia da morte de D. António como “brutal e inesperada”. “Aprendi a admirá-lo pela sua permanente e empenhada preocupação com os mais fracos. É uma perda enorme para a Igreja, para o Porto e para o país”, refere. Pizarro descreve D. António Francisco dos Santos como “uma figura incontornável da luta contra as desigualdades, um homem que, também por isso, deixa marcas profundas na sociedade portuguesa”.

9.4.14

“Os pobres não podem esperar”, avisa novo bispo do Porto

Natália Faria, in Público on-line

Passeia-se na rua, janta todos os anos com os sem-abrigo, importou a Cristoteca para chamar os jovens à Igreja. António Francisco dos Santos celebra hoje a primeira missa como bispo do Porto.

Se a vontade de Aveiro contasse, D. António Francisco dos Santos não estaria este domingo a celebrar a missa que assinala a sua tomada de posse como bispo do Porto. Na véspera do anúncio da sua nomeação, a 20 de Fevereiro, quatro párocos de Aveiro estavam em Lisboa, junto do núncio Rino Passigato, a tentar evitar a sua saída.

“É um homem próximo, dialogante, humilde. Embora nos alegre que o tenham tomado como capaz de tomar conta da maior diocese do país, entristece-nos que deixe de estar entre nós” admitiu ao PÚBLICO o padre João Gonçalves, um dos que foi a Lisboa, para tentar evitar ter que remoer a saudade.

Apesar de nascido numa pequena aldeia de Cinfães, nos confins do Alto Douro, António Francisco dos Santos encontrou, como ele próprio disse, “barcos e remos” à sua medida em Aveiro, de cuja diocese foi nomeado bispo em Setembro de 2006. “É uma pessoa muito informal, anda a pé na rua, entra nos cafés como toda a gente. A sua presença é humilde. Quando pára a falar com alguém, pára-lhe o relógio também: dá às pessoas o tempo de que elas precisam”, esboça ainda o padre João Gonçalves.

Enquanto bispo de Aveiro, costumava jantar todas as vésperas de Natal com os sem-abrigo, primeiro, e com universitários, no dia seguinte. Foi dele a ideia de importar do Brasil a Cristoteca, que serviu para assinalar os 75 anos da diocese de Aveiro, cumpridos no ano passado. E, mais uma vez, na sua busca por “outra pedagogia de evangelização”, o bispo misturou-se entre os jovens, animados por DJ, música, luzes, máquinas de fumos e bebidas alcoólicas. Como numa discoteca normal, enfim, porque não compete à Igreja educar “nem para o medo nem para a proibição”, como sustentou então.

O homem que (juntamente com o administrador apostólico, D. Pio Alves, e os bispos auxiliares D. António Taipa e D. João Lavrador) vai liderar a diocese do Porto tem currículo vasto. Nascido a 29 de Agosto de 1948, na aldeia de Tendais, concelho de Cinfães, licenciou-se em Filosofia, em 1977. Os anos seguintes, passou-os em Paris, onde se diplomou em Sociologia Religiosa. Antes disso, em 1972, tinha sido ordenado sacerdote. Voltou a Paris onde foi responsável pastoral por uma comunidade de emigrantes. Em 2004, foi nomeado bispo auxiliar de Braga, de onde transitou para Aveiro, para se fazer bispo.

Sobre a sua missão à frente da maior diocese do país (dois milhões de habitantes, 3010 quilómetros quadrados, 26 concelhos…), disse à agência Ecclesia que chega com a certeza da sua proximidade com todos. “A melhor maneira, se não mesmo a única, de impulsionar o cuidado pastoral pelas classes desfavorecidas, pelos desempregados (e o desemprego é um dos dramas maiores hoje), pelos pobres e marginalizados, pelas famílias em dor, ruptura ou provação, pelos doentes ou pelos reclusos, é cuidar de todos e de cada um individualmente”, declarou ao semanário diocesano Voz Portucalense, ainda antes de ter tomado posse perante o Colégio de consultores da diocese no paço Episcopal do Porto, numa cerimónia privada realizada ontem. E, depois, ressalvou, em jeito de aviso: “Cuidar é agir sem demora, sem arrastar ou retardar respostas sociais, porque os pobres não podem esperar”.