in Dinheiro Vivo
As vantagens e os desafios de ter equipas compostas por várias vozes e visões do mundo esteve no centro do debate que juntou a Randstad Portugal, o BPI, a Airbus Portugal e a Associação Salvador "À Mesa do Trabalho", iniciativa da Randstad Portugal em parceria com o Dinheiro Vivo e a TSF.
1de fevereiro de 2023 poderia ser uma data como outra qualquer, não fosse o facto de marcar um grande avanço na diversidade e inclusão do setor privado. A partir dessa data, as empresas com mais de 100 trabalhadores passaram a ter de respeitar a lei das quotas para pessoas com deficiência. Quer isto dizer na prática que essas organizações têm de cumprir as quotas para a contratação de pessoas portadoras de deficiência, mas estarão preparadas?
No BPI, onde trabalham "cerca de 4.400 empregados", a quota é de 2% e já foi ultrapassada, afirma Ana Vasconcelos, Diretora da Área de Seleção, Aprendizagem e Gestão de Talentos do banco. E por detrás das percentagens estão vários casos de sucesso "de integração de pessoas com capacidades diferentes, às vezes até em funções que parecem improváveis", diz. Um deles é o de "um colaborador num balcão no Algarve que é surdo", que "está a fazer tesouraria-caixa há muitos anos e interage com os clientes de forma naturalíssima".
Porém, nada se conquista sem trabalho. O BPI criou um "curso obrigatório para todos os colaboradores", para aprenderem a "interagir com pessoas com capacidades diferentes", e tem "cursos de enviesamento inconsciente para líderes". Além disso, está a trabalhar com a Associação Pais21 - Down Portugal com o objetivo de formar jovens para trabalharem na nova loja BPI All in One Lisboa.
Uma mudança na direção certa
O caso do BPI é exemplo de uma mudança cada vez mais visível por quem trabalha no terreno. A Associação Salvador, que se dedica há vários anos a integrar pessoas portadoras de deficiência motora no mercado de trabalho, tem somado parcerias no setor privado. Além de colaborar desde 2014 com a Randstad Portugal, trabalha com o banco Santander, onde já tem cinco candidatos colocados, afirma Joana Frederico, Gestora do Projeto de Apoio à Empregabilidade.
Mais do que apenas contratar estes candidatos, as empresas devem saber acolhê-los. Foi o que aconteceu na Marcelo Design, que, para receber um candidato portador de deficiência da Associação Salvador, decidiu procurar um local de trabalho mais acessível. Um passo significativo tendo em conta que a "falta de acessibilidades" continua a "ser um grande obstáculo" para a contratação e para a mobilidade de pessoas portadoras de deficiência, garante Joana Frederico.
A partir de 1 de fevereiro, as empresas com mais de 100 trabalhadores passaram a ter de respeitar a lei das quotas para pessoas com deficiência
O problema, porém, não são só as "acessibilidades a nível arquitetónico e dos transportes", embora não deixem de ser um obstáculo. A ausência de ferramentas e de software, que muitas vezes facilitam o trabalho de pessoas, por exemplo, com deficiência visual, é uma questão ainda por resolver em muitas empresas, aponta.
E será que os desafios se ficam pelos obstáculos materiais? Na opinião da Gestora do Projeto de Apoio à Empregabilidade da Associação Salvador, não podemos esquecer "o preconceito que ainda existe de que as pessoas com deficiência não são qualificadas". "Temos pessoas com muito boas qualificações a todo o nível".
Quando a diferença é abraçada, todos ganham
Vários estudos demonstram que empresas que apostam realmente na diversidade e na inclusão são mais competitivas no mercado. Um deles é o Randstad Employer Brand e os seus dados não enganam: 39% dos trabalhadores inquiridos valorizam a diversidade e a inclusão na hora de aceitar uma oferta de trabalho. "A geração Z é a que dá mais valor a este tema, com 47%" e "os baby boomers estão logo a seguir, com 45%", afirma Marlene Fernandes, Diretora Comercial e Operações da Randstad Portugal.
Na opinião de Marlene Fernandes, "num mundo cada vez mais volátil e em constante mudança, as empresas percebem o benefício de ter esta diversidade nos seus próprios quadros". Desde já, equipas inclusivas ajudam a enfrentar um dos maiores desafios atuais do mercado de trabalho. "A escassez de talento está a crescer a olhos vistos e claramente há aqui um potencial de pessoas [portadoras de deficiência] que estão disponíveis para agarrar estas oportunidades", explica.
Com equipas cada vez mais compostas por vozes e visões diferentes do mundo, as empresas mostram-se atrativas para futuros candidatos. E, enquanto se tornam mais competitivas, tornam-se mais humanas.
Exemplo disso é a Airbus Portugal, onde as iniciativas promotoras da diversidade e da inclusão também partem dos próprios colaboradores, conta Ana Soares, Diretora de Recursos Humanos da organização. Uma dessas iniciativas chama-se Grow Airbus e trata-se de um espaço onde os trabalhadores ouvem e debatem temas que vão desde a identidade à igualdade de género.
Vários estudos demonstram que empresas que apostam realmente na diversidade e na inclusão são mais competitivas no mercado
Esta proatividade prova que a diversidade já faz parte do âmago da Airbus Portugal. "Temos mais de 500 colaboradores, com 37 nacionalidades diferentes representadas", explica Ana Soares. Além disso, a nível de igualdade de género, "estamos neste momento com 52% de mulheres" contratadas.
Para chegarem ao patamar de empresas como a Airbus Portugal, o BPI e a Randstad Portugal, os líderes e profissionais de recursos humanos têm de começar por fazer um exercício muito simples: colocar-se no lugar do outro, tratando-o como gostaria de ser tratado. Como resume Joana Frederico, da Associação Salvador: "Se queremos contratar uma pessoa e se essa pessoa tem qualificações, temos de pensar em nós. Quando foi a nossa primeira oportunidade, o que é que precisávamos?".
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22.5.23
6.4.23
Trabalha no Hospital de Cascais e está a escrever um livro para “evitar que outros sofram com bullying” como ele sofreu. A trissomia 21 é impotente para travar a vida frenética de Luís.
António Pedro Pereira(texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público
dinâmica da relação entre Luís Farrolas, de 30 anos, portador de trissomia 21, e a mãe, Fernanda, é assente numa cumplicidade exuberante. Quem tem o privilégio de assistir aos debates acesos entre ambos, usualmente provocados pelo filho, facilmente percebe que Luís tem energia e argumentos inesgotáveis. A adrenalina permite-lhe manter o emprego como administrativo no Hospital de Cascais, gerir três canais no YouTube e praticar boxe enquanto escreve um livro para evitar que outros sofram bullying, como ele sentiu na pele (“tenho um trunfo na manga”, diz, desafiante, para não revelar muito do teor).O Luís é tão ávido de viver, construir, partilhar que a mãe, volta e meia, durante a conversa com o PÚBLICO, tem de lhe acalmar o ritmo, para que ele não se atrapalhe com as palavras. Estes momentos, para quem os aprecia de fora, são ternos, mas testam a paciência da progenitora a um ritmo galopante, um atrás do outro. Porque Luís não é de se ficar: tem sempre mais alguma coisa a acrescentar ao que a mãe contrapõe.
Um dragão que “protege” a família
Luís Filipe Basílio Farrolas nasceu a 20 de Novembro de 1992, na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, e cresceu em Mem Martins, onde vive. Os pais estão divorciados, tem uma irmã, mais velha, um sobrinho, um cão, de raça jack-russell, que se chama Jack, e vive na casa da mãe, também com a avó. E demonstra ter uma personalidade protectora.
Mostra-o da forma mais singela, orgulhoso: arregaça a manga da camisa e exibe a tatuagem de um dragão. “Foi uma prenda da minha irmã e do meu sobrinho”, conta, com a mãe a ajudar a contextualizar – foi prenda do 30.º aniversário, celebrado no ano passado. “O dragão é um protector e protege a minha família. É uma homenagem à minha mãe e ao meu pai”, explica Luís.
E continua, como em quase tudo, porque a vontade de ir mais longe, mais além, está-lhe no sangue: “Quero fazer outra: uma árvore a criar raízes para o dragão se apoiar.” A simbologia é óbvia. Árvores e raízes, homenagem aos pais e à família. A família é o centro do mundo deste administrativo hospitalar. Resumindo, como repete um par de vezes durante a conversa, o Luís é um homem de “fé e esperança” e “o céu é o limite”.
As contrariedades na vida de Luís, e de quem o rodeia, apoia e orienta, começaram à nascença, com o diagnóstico de trissomia 21. Mas continuam vida fora, dos estigmas sociais que tem de enfrentar em conjunto com a família aos dramas quotidianos de tantas e tantas famílias.
“Estava na escola e fui vítima de bullying, roubaram-me”, dispara Luís, sobre um tema que mais à frente voltará a ser invocado. Depois de ter frequentado o Externato Rainha Santa Isabel até aos seis anos, fez a primária na escola pública de Algueirão e prosseguiu os estudos até ao 9.º ano na Escola Básica de 2.º e 3.º Ciclos Ferreira de Castro, sede do agrupamento. Este percurso decorreu todo em Mem Martins.
Desde pequeno que Luís é muito activo, envolvendo-se em várias actividades desportivas e artísticas. Praticou surf, em Carcavelos, equitação, natação e, por causa de uma rótula que salta, está agora no boxe, porque esta modalidade não exige tanta rotação dos membros inferiores.
Quando chegou à Cercica – Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Cascais, encontrou um professor de Matemática e de Ensino Especial que o introduziu na pintura. “Pinto o meu auto-retrato e, como é, mãe?... abstractos. Fiquei bastante contente de vender alguns”, sorri.
Na Cervica, tirou um curso de restauração e hotelaria, que terminou em 2012, embora sob protesto. O que queria, mesmo, era ser mecânico, um tema que, visivelmente, tem provocado conversas acaloradas com a mãe, que o tenta manter focado no emprego que tem, fará no dia 1 de Junho quatro anos, no Hospital de Cascais.
Entre sorrisos e algumas caretas perante a insaciável vontade de Luís em fazer mais, fazer diferente, a mãe, Fernanda, assente que o apoio ao filho não tem sido tão difícil quanto poderia ser, apesar dos enormes desafios, porque o Luís não tem nenhuma doença congénita. Entre os portadores de trissomia 21, são frequentes as complicações na saúde, sobretudo quando estão associadas doenças graves, como as do foro cardíaco.
Acabado o curso de três anos na Cervica, em 2012, Luís começou quase de imediato a trabalhar, aproveitando a formação como empregado de mesa e de balcão.
Intervém a mãe, mais bem preparada para datas e factos: “O Luís já teve dois empregos fixos.” Um deles foi numa chocolataria, no Mercado de Santa Clara: As Marias com Chocolate. “Amo chocolate”, atalha Luís. E confessa: “Eu comia o chocolate e deixava a embalagem vazia.”
Mais tarde, através da Associação Pais 21 – Down Portugal, e dos protocolos que esta organização mantém com empresas e instituições para empregar pessoas com trissomia 21, chegou a oportunidade no Hospital Dr. José Almeida, o hospital de Cascais.
E como tem sido o trabalho para o Luís? “Antes, tinha farda, mas com esta administração acabaram as fardas”, diz de rajada. O Hospital de Cascais tem sido gerido em regime de parceria público-privada (PPP), mas, entre o final do ano passado e o início deste, a exploração passou das mãos do Grupo Lusíadas Saúde para os espanhóis do Ribera Salud.
“Trabalhava numa sala com o Nuno e o Tiago, e fiquei só com o Tiago. Distribuía o correio. Houve a pandemia e deram-me uma sala”, relata Luís, que tem como principais funções separar o correio e distribuí-lo pelas salas dos serviços administrativos, além de muitas outras tarefas de escritório, como a plastificação de documentos. E, pelo meio, foi criando relações fortes, como fica demonstrado quando responde sobre a relação com os colegas de trabalho. “A Anabela e a Cristina, eu amo, porque considero minhas mães”, declara sobre as secretárias da administração.
O céu é o limite
Tal como foi referido acima, a vida quotidiana de Luís está longe de ficar confinada à rotina casa-trabalho-casa. Além das actividades desportivas e artísticas, há a faceta de comunicador nato, que o leva a gerir três canais de YouTube.
A propósito de um deles, sobre uma das fixações deste adepto do Sporting, que não gosta de acompanhar futebol porque “as pessoas discutem muito e andam à pancada”, surgem temas mais transcendentais.
Ou mais terrenos, como o evidente orgulho no trabalho de actor de teatro que fez na LX Factory, em Lisboa. “Fiz teatro e conheço quase toda a gente da novela A Única Mulher [transmitida pela TVI entre Março de 2015 e Janeiro de 2017], só me falta conhecer um ou dois actores”, diz, ainda com a esperança de que isso venha a acontecer.
A esperança está na base do mote de vida de Luís, que a apregoa, e à fé, tendo o céu como limite. “Deus é muito importante para mim”, vinca. Desta vez, é a mãe que aproveita para o provocar. “Acreditas no além e estás sempre a ver vídeos sobre fantasmas e espíritos”, diz-lhe. Tocou num ponto nevrálgico das crenças em que investe tanto de si. Fernanda, pedagogicamente, atalha a conversa, que Luís eternizaria: “A psicóloga já te disse que não podes acreditar em tudo.” Luís assente, contrariado, porque garante que os espíritos e fantasmas são reais, existem e está “comprovado”.
A psicóloga é Marta Silva, que começou a acompanhar o Luís no Diferenças – Centro de Desenvolvimento Infantil e que, já não colaborando com aquela associação, mantém a relação terapêutica com Luís. Fernanda explica que “o protocolo da Pais 21 prevê um acompanhamento psicológico no local de trabalho para resolver conflitos, porque nem sempre é fácil”.
Um exemplo das dificuldades que Luís coloca em quem o rodeia, pela sua persistência, é o impulso que o tema dos espíritos e dos fantasmas lhe dá. Aliás, um dos seus canais no YouTube é dedicado ao sobrenatural – a mãe aproveita para lhe dizer que passa demasiado tempo naquela plataforma a ver vídeos esotéricos. Mas o Luís não desarma: “Sou youtuber. Tenho uma câmara a mostrar o meu dia-a-dia, a minha vida. E tenho mais dois canais”, acrescenta. Fernanda não perdoa a oportunidade: “É a ver se enriqueces, esse é o objectivo.” Riem-se os dois, manifestando a tal cumplicidade.
Enriquecer, para Luís, tem outro significado, já agora. Basicamente, chega-se lá devolvendo aos outros o que se recebeu. E como o Luís tem recebido algo da vida, quer ajudar terceiros a evitarem passar por situações negativas. E voltamos ao bullying de que confessa ter sido vítima na escola, quando o intimidavam e roubavam.
“Estou a escrever o meu livro”, anuncia, a dado momento, pomposamente. Instigado a desenvolver o tema, mostra e esconde, com doses iguais de ingenuidade e provocação. “É sobre a minha vida. E para as pessoas não passarem pelas mesmas coisas que eu passei”, destapa. Fernanda compõe: “São as tuas memórias.” Riem-se ambos, mais uma vez.
O livro é um assunto sério, mas também tem, para Luís, um lado divertido como mote de conversa. Sobretudo quando é questionado sobre se já tem um título para a obra. “Tenho, mas não sei se o hei-de dizer”, começa por dizer, abrindo a porta a mais perguntas.
Provocado sobre se tinha receio de que lhe pudessem roubar a ideia, responde à letra: “O título é O meu Primeiro Livro.” E se alguém lê e decide usar esse título? Luís sorri, respira suavemente e dispara, com charme, a sua faceta provocadora, aquela que sobressai na forma como encara a vida: “Tenho uma carta na manga”, anuncia, e acrescenta sorridente: “Posso alterar o título, tenho outras ideias.”
Esta carta na manga é concreta: é sobre como vai chamar ao seu livro. Mas bem podia ser sobre muitas das outras facetas da sua vida, do trabalho às mil actividades desportivas e artísticas com que preenche o seu imenso mundo.
2.2.21
Depois de anos de experiência de rua, Ana encontrou trabalho, amor e casa
Ana Cristina Pereira (texto) e Effe.News (ilustração), in Público on-line
Fez parte do projecto-piloto de Formação para Pessoas Sem Abrigo que arrancou no Porto no final de 2014. Hoje, trabalha na retaguarda do apoio domiciliário. Sexto capítulo da série sobre inclusão laboral, em dose dupla.
Há um antes e um depois da Plataforma + Emprego na vida de Ana Alves. Antes da P+E, dias devotados às drogas e noites mal dormidas em vãos de escada, entradas de prédios, prédios devolutos, pensões de fim de linha. Depois da P+E vieram os dias de trabalho árduo, primeiro precário, agora estável, e noites de descanso na pequena casa que partilha com o companheiro.
“Perdi muitos anos da minha vida”, diz a mulher, de 46 anos, toda vestida de branco, encolhendo-se num cadeirão azul. Entre os 18 e os 40 anos, uma intermitência de drogas, desintoxicações, recaídas, sem que a mãe desistisse dela, lhe trancasse a porta. “Se fosse hoje em dia, não fazia nada, nada, nada do que fiz. Fazia tudo, tudo, tudo como faço agora.”
O que Ana faz agora é trabalhar na associação mutualista Benéfica e Previdente. Estreou-se na lavandaria, passou para a cozinha, na retaguarda do serviço de apoio domiciliário e outras valências. “Adoro estar aqui. Além de gostar de cozinhar, gosto de aprender.” Todos os anos, ali mesmo, horas de formação. “Aprendi a fazer bolo de chocolate, bolo de laranja, formigos, tanta coisa!”
Competências para a integração
Tudo começou na primeira Estratégia Nacional para a Integração da Pessoa Sem Abrigo (2009-2015). Na rede interinstitucional que então se montou no Porto, surgiu a ideia de seleccionar pessoas com perfil de empregabilidade e identificar empresas ou instituições que lhes pudessem dar trabalho.
A P+E envolvia várias entidades do Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem-Abrigo (NPISA) do Porto e era coordenada por Jorge Mayer, voluntário e gestor da EDP, Alfredo Figueiredo Costa, então coordenador da Welcome Home, e Olga Rocha, técnica da Segurança Social. A adesão do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) permitiu ir além da agência de emprego, desenvolver um projecto-piloto de formação adaptada.
“Houve grande abertura do IEFP, que assumiu o desafio de, connosco, fazer pela primeira vez uma formação dedicada aos sem-abrigo”, recorda Mayer. Atendendo à motivação frágil, ao medo de assumir compromissos de longo prazo, à dificuldade em cumprir horários e regras, idealizaram um percurso curto, a que chamaram “Competências para a integração”. Combinaram essa formação, centrada na expressão corporal e teatral, com formação em jardinagem. “Havia muita flexibilidade. Os horários eram combinados com as pessoas. Elas não perdiam o apoio se faltassem.”
A primeira edição, de que Ana fez parte, decorreu em 2014/2015. Naquela altura, já não dormia onde calhava. Com a ajuda da Arrimo – Organização Cooperativa para Desenvolvimento Social e Comunitário, trocara a heroína pela metadona e passara a dormir numa pensão, que pagava com o Rendimento Social de Inserção (RSI) e a acção social. Não consumia cocaína havia dois meses. E, desta vez, não haveria de voltar atrás. Estava cansada daquela servidão.
O luxo de ter uma casa
Eram 20 pessoas com fraca escolaridade e pouca experiência de trabalho. “Era para a gente ter a responsabilidade de se levantar, de aparecer a horas.” E Ana “até gostava de ir, de ter horários, de ter aquelas pessoas a apoiar”. Dava por ela a pensar: “Eu não tenho nada, mas se começar a construir alguma coisinha devagarinho...”
Só 15 chegaram ao fim. Ana e outros três assinaram um Contrato Emprego Inserção +, um programa de trabalho socialmente necessário destinado a beneficiários de RSI. Dois seguiram para trabalho temporário, dois para o Centro de Reabilitação Profissional, um para um curso de educação e formação, três para comunidades terapêuticas.
Durante um ano, Ana arrancou ervas daninhas e fez pequenas podas em troca de uma bolsa. Naquelas tarefas conheceu o companheiro, que também integrava um CEI+ na Câmara do Porto. Ele nunca consumiu drogas e isso encorajou-a. “Pedi ao enfermeiro para me reduzir a metadona. Quando cheguei às duas gotas, deixei. Graças a Deus, até hoje.”
Arrendaram um pequeno apartamento. “Nunca tinha tido uma casa!” Um luxo meter a chave na porta e entrar quando quer. Não têm muitas horas para namorar. Ela trabalha das 7h às 15h ou das 8h30 às 16h. Ele vai trabalhar antes das 20h e volta depois das 4h. “Tanto anda com a carrinha a apanhar lixo como anda a varrer.” Aproveita as horas que têm. Nunca tinha tido uma relação assim, em que pudesse ser ela e pudesse ser parte de uma união, partilhar a vida, imaginar um futuro, construí-lo. “Eu hoje sou uma pessoa feliz.”
Não a largaram. Findo o CEI+, os membros da P+E desdobravam-se em contactos para a recolocar e aos colegas. Ela ainda cumpriu um contrato temporário na Agência de Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro, regressou ao RSI e assinou um CEI+ com a Benéfica antes de ficar efectiva.
O seu grupo não foi o único. Seguiram-se outras três edições da formação destinada a pessoas sem-abrigo – com mais horas, estágio integrado, menos sucesso. Em 2018, uma candidatura a fundos europeus foi preparada pelos parceiros e encabeçada pela Santa Casa da Misericórdia do Porto. A P+E passou a ter dois técnicos a tempo inteiro.
IEFP “tem estado ausente"
Ao que diz Jorge Mayer, na primeira fase, 42 pessoas assinaram contratos de trabalho. Nesta segunda, 30. E correu bem. “Em 72 pessoas, tivemos problemas com duas. Uma ficou a trabalhar na mesma entidade, mas mudou de sector. Outra teve uma série de faltas injustificadas.”
Em 2018, quando a câmara assumiu a coordenação do NPISA, o eixo do emprego passou para a alçada do IEFP. Mayer aplaude a acção da autarquia, não do IEFP. “O IEFP tem estado ausente”, lamenta. “Há um ano que não há reunião. Deixaram de responder a emails e a telefonemas.” E isto “tem impacto na missão comum”. Um projecto com resultados perde eficácia por motivos que lhe são alheios. “Continuamos a tentar inserir pessoas no mercado de trabalho, mas queríamos fazer formação e não estamos a fazer. Esta formação precisa do IEFP”, esclarece.
Ninguém, ali, quer deixar de ajudar a realizar histórias como a de Ana. “Nós podemos ser úteis para a sociedade”, enfatiza ela. “Falo por mim. Eu sou um exemplo. A gente tem de acreditar em nós, mas tem de haver alguém que também acredite… É preciso dar oportunidade”, diz ainda. “Há pessoas que são ajudadas, vão pedir trabalho aqui e acolá e, pelo anterior delas, não lhes dão trabalho. Deixam outra vez de acreditar em tudo.”
O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.
Fez parte do projecto-piloto de Formação para Pessoas Sem Abrigo que arrancou no Porto no final de 2014. Hoje, trabalha na retaguarda do apoio domiciliário. Sexto capítulo da série sobre inclusão laboral, em dose dupla.
Há um antes e um depois da Plataforma + Emprego na vida de Ana Alves. Antes da P+E, dias devotados às drogas e noites mal dormidas em vãos de escada, entradas de prédios, prédios devolutos, pensões de fim de linha. Depois da P+E vieram os dias de trabalho árduo, primeiro precário, agora estável, e noites de descanso na pequena casa que partilha com o companheiro.
“Perdi muitos anos da minha vida”, diz a mulher, de 46 anos, toda vestida de branco, encolhendo-se num cadeirão azul. Entre os 18 e os 40 anos, uma intermitência de drogas, desintoxicações, recaídas, sem que a mãe desistisse dela, lhe trancasse a porta. “Se fosse hoje em dia, não fazia nada, nada, nada do que fiz. Fazia tudo, tudo, tudo como faço agora.”
O que Ana faz agora é trabalhar na associação mutualista Benéfica e Previdente. Estreou-se na lavandaria, passou para a cozinha, na retaguarda do serviço de apoio domiciliário e outras valências. “Adoro estar aqui. Além de gostar de cozinhar, gosto de aprender.” Todos os anos, ali mesmo, horas de formação. “Aprendi a fazer bolo de chocolate, bolo de laranja, formigos, tanta coisa!”
Competências para a integração
Tudo começou na primeira Estratégia Nacional para a Integração da Pessoa Sem Abrigo (2009-2015). Na rede interinstitucional que então se montou no Porto, surgiu a ideia de seleccionar pessoas com perfil de empregabilidade e identificar empresas ou instituições que lhes pudessem dar trabalho.
A P+E envolvia várias entidades do Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem-Abrigo (NPISA) do Porto e era coordenada por Jorge Mayer, voluntário e gestor da EDP, Alfredo Figueiredo Costa, então coordenador da Welcome Home, e Olga Rocha, técnica da Segurança Social. A adesão do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) permitiu ir além da agência de emprego, desenvolver um projecto-piloto de formação adaptada.
“Houve grande abertura do IEFP, que assumiu o desafio de, connosco, fazer pela primeira vez uma formação dedicada aos sem-abrigo”, recorda Mayer. Atendendo à motivação frágil, ao medo de assumir compromissos de longo prazo, à dificuldade em cumprir horários e regras, idealizaram um percurso curto, a que chamaram “Competências para a integração”. Combinaram essa formação, centrada na expressão corporal e teatral, com formação em jardinagem. “Havia muita flexibilidade. Os horários eram combinados com as pessoas. Elas não perdiam o apoio se faltassem.”
A primeira edição, de que Ana fez parte, decorreu em 2014/2015. Naquela altura, já não dormia onde calhava. Com a ajuda da Arrimo – Organização Cooperativa para Desenvolvimento Social e Comunitário, trocara a heroína pela metadona e passara a dormir numa pensão, que pagava com o Rendimento Social de Inserção (RSI) e a acção social. Não consumia cocaína havia dois meses. E, desta vez, não haveria de voltar atrás. Estava cansada daquela servidão.
O luxo de ter uma casa
Eram 20 pessoas com fraca escolaridade e pouca experiência de trabalho. “Era para a gente ter a responsabilidade de se levantar, de aparecer a horas.” E Ana “até gostava de ir, de ter horários, de ter aquelas pessoas a apoiar”. Dava por ela a pensar: “Eu não tenho nada, mas se começar a construir alguma coisinha devagarinho...”
Só 15 chegaram ao fim. Ana e outros três assinaram um Contrato Emprego Inserção +, um programa de trabalho socialmente necessário destinado a beneficiários de RSI. Dois seguiram para trabalho temporário, dois para o Centro de Reabilitação Profissional, um para um curso de educação e formação, três para comunidades terapêuticas.
Durante um ano, Ana arrancou ervas daninhas e fez pequenas podas em troca de uma bolsa. Naquelas tarefas conheceu o companheiro, que também integrava um CEI+ na Câmara do Porto. Ele nunca consumiu drogas e isso encorajou-a. “Pedi ao enfermeiro para me reduzir a metadona. Quando cheguei às duas gotas, deixei. Graças a Deus, até hoje.”
Arrendaram um pequeno apartamento. “Nunca tinha tido uma casa!” Um luxo meter a chave na porta e entrar quando quer. Não têm muitas horas para namorar. Ela trabalha das 7h às 15h ou das 8h30 às 16h. Ele vai trabalhar antes das 20h e volta depois das 4h. “Tanto anda com a carrinha a apanhar lixo como anda a varrer.” Aproveita as horas que têm. Nunca tinha tido uma relação assim, em que pudesse ser ela e pudesse ser parte de uma união, partilhar a vida, imaginar um futuro, construí-lo. “Eu hoje sou uma pessoa feliz.”
Não a largaram. Findo o CEI+, os membros da P+E desdobravam-se em contactos para a recolocar e aos colegas. Ela ainda cumpriu um contrato temporário na Agência de Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro, regressou ao RSI e assinou um CEI+ com a Benéfica antes de ficar efectiva.
O seu grupo não foi o único. Seguiram-se outras três edições da formação destinada a pessoas sem-abrigo – com mais horas, estágio integrado, menos sucesso. Em 2018, uma candidatura a fundos europeus foi preparada pelos parceiros e encabeçada pela Santa Casa da Misericórdia do Porto. A P+E passou a ter dois técnicos a tempo inteiro.
IEFP “tem estado ausente"
Ao que diz Jorge Mayer, na primeira fase, 42 pessoas assinaram contratos de trabalho. Nesta segunda, 30. E correu bem. “Em 72 pessoas, tivemos problemas com duas. Uma ficou a trabalhar na mesma entidade, mas mudou de sector. Outra teve uma série de faltas injustificadas.”
Em 2018, quando a câmara assumiu a coordenação do NPISA, o eixo do emprego passou para a alçada do IEFP. Mayer aplaude a acção da autarquia, não do IEFP. “O IEFP tem estado ausente”, lamenta. “Há um ano que não há reunião. Deixaram de responder a emails e a telefonemas.” E isto “tem impacto na missão comum”. Um projecto com resultados perde eficácia por motivos que lhe são alheios. “Continuamos a tentar inserir pessoas no mercado de trabalho, mas queríamos fazer formação e não estamos a fazer. Esta formação precisa do IEFP”, esclarece.
Ninguém, ali, quer deixar de ajudar a realizar histórias como a de Ana. “Nós podemos ser úteis para a sociedade”, enfatiza ela. “Falo por mim. Eu sou um exemplo. A gente tem de acreditar em nós, mas tem de haver alguém que também acredite… É preciso dar oportunidade”, diz ainda. “Há pessoas que são ajudadas, vão pedir trabalho aqui e acolá e, pelo anterior delas, não lhes dão trabalho. Deixam outra vez de acreditar em tudo.”
O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.
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