29.8.22

Há mais uma mercearia social. Pedidos de ajuda alimentar sobem

Joana Gorjão Henriques Texto e Nuno Alexandre Fotografia, in Público online

Desde Junho que houve um aumento de 60 agregados nas listas de pedidos de apoio ao Centro Padre Alves Correia, que trocou os cabazes por uma nova mercearia social. No Banco Alimentar números de utentes estão estáveis mas há mais instituições a pedir ajuda. Cáritas prevê maior pressão e está preocupada com diminuição da qualidade alimentar.

Há sete anos que Mariama Baldé, 68 anos, é apoiada pelo Centro Padre Alves Correia (CEPAC), em Lisboa, e todos os meses vem da Amadora à Estrela, onde fica a sede, para buscar alimentos. Leva nos sacos, que irá carregar de transportes públicos, cereais, azeite e óleo, arroz, leguminosas, chocolate, bolachas… Tudo isto vai dar para cerca de uma semana, diz, porque em sua casa vivem nove pessoas; a filha trabalha numa empresa de limpezas, mas ganha o ordenado mínimo, que não chega para sustentar todos. Mariama veio por razões de saúde, é uma das várias pessoas apoiadas no CEPAC com esta condição.

Também Maria Mendes, 61 anos, igualmente da Guiné-Bissau, vai regularmente ao CEPAC há vários anos; primeiro para buscar os cabazes, agora, desde que abriu a Mercearia Sabura, na Estrela, que é ela quem escolhe o que levar, dentro do que é definido segundo o seu agregado familiar. Hoje tem nos sacos arroz, massa, leite, iogurte, salsicha, legumes congelados, manteiga, maionese, chocolate.

A viver com a sobrinha que teve um bebé de seis meses, Maria Mendes tem um problema nos joelhos e custa-lhe andar; está neste momento sem emprego por causa disso; tem trabalhado com uma empresa a cuidar de idosos e a fazer limpezas. “Pagavam mal, 400 euros”, e nem sempre tinham trabalho, às vezes “diziam para não ir”. É ajudada pelo CEPAC, vive em casa da cunhada e aqui e ali vai fazendo salgados que vende na rua. Maria precisa de descontar para a Segurança Social para conseguir ter a autorização de residência e sem a autorização de residência não consegue arranjar um bom trabalho, nem recorrer aos apoios sociais. “Vim procurar uma vida melhor. Na Guiné, hoje é bom, amanhã é mau, há problemas políticos”, explica.

Antes, Maria e outros utentes iam ao CEPAC buscar os cabazes já feitos para um mês ou 15 dias, consoante os agregados; os funcionários dividiam os produtos por sacos e era comum algumas pessoas levarem coisas de que não precisavam. Maria Mendes prefere assim: “Há uma ou outra coisa que não comia”, diz. “Assim escolho apenas o que preciso.” Ana Mansoa explica que há produtos que os guineenses, o seu maior público, não consomem; com a possibilidade de escolha, evita-se desperdício.

O caso de Maria Mendes é comum a muitos que são apoiados pelo CEPAC; pessoas que estão sem autorizações de residência há vários anos, que vão tendo trabalhos precários e pessoas que já têm os seus processos no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), mas há anos que estão à espera de serem chamados para a entrevista que lhes dará a autorização de residência só que não abrem vagas, contextualiza Ana Mansoa, directora do CEPAC.

Listas de espera aumentam

Neste pequeno espaço recém-inaugurado tudo ainda está como novo; as prateleiras, os armários, as caixas onde se colocam os legumes (que neste mês de Agosto não vieram). Os produtos distribuem-se por tipos, há vários pacotes de massas, arroz, feijão e grão, açúcar e farinha, leite, sumos, bolachas, enlatados, mas também molhos, chocolates, gelatina em pó ou um frigorífico com sopas, iogurtes, queijo, margarina, massa folhada. No armazém, contíguo, ainda há mais destes produtos, e alguns congelados, como legumes e bolos.

As obras do espaço e a estrutura foram patrocinadas por um grupo de restauração, a Portugália, mas os bens que ali estão são enviados pelo Banco Alimentar, pela Refood e por uma cadeia de supermercados, a Auchan. Foi inaugurada a 4 de Julho e o objectivo é promover um acesso “digno e inclusivo” aos imigrantes apoiados pelo CEPAC, deixando que as pessoas escolham os bens alimentares dentro de uma tabela específica.

Cada família tem pontos de acordo com o seu agregado familiar, que pode trocar por produtos. Os beneficiários têm que estar inscritos no CEPAC. Além do apoio, a ideia é promover uma alimentação saudável e implementar medidas de gestão sustentável. As pessoas inscrevem-se e vão em dias específicos buscar as suas “compras”. Este não é um modelo novo, mas está-se a popularizar.

Quem antes fazia os cabazes no CEPAC, hoje está a orientar as pessoas sobre o que podem ou não ter nos sacos: Guilhermino Tavares, o funcionário, está em Portugal há 14 anos depois de ter vindo por causa de um acidente de mota no Príncipe, de onde é natural. Acha que este modelo de mercearia funciona melhor porque as pessoas vêem o que levam.

Dina Gonçalves, no atendimento ao público, explica que a quantidade nunca chega para todas as famílias. “O que temos vai-se num instante. Tem acontecido haver donativos específicos para a mercearia e aí compramos o que achamos mesmo essencial.”

Desde Junho que houve um aumento de 60 agregados nas listas de pedidos de apoio. São pessoas que chegam a esta resposta por causa do aumento dos preços, dos custos dos bens essenciais e outros, que vão tendo trabalhos informais e que “estão numa situação muito volátil”, diz Ana Mansoa. Neste momento apoiam cerca de 600 agregados, e na mercearia cerca de 400. Alguns retomaram a procura. O perfil principal dos utentes do CEPAC são famílias monoparentais imigrantes, sobretudo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), com menores a cargo, ou agregados de várias gerações - em que uma das pessoas tem rendimentos mas não é suficiente para todos; a maior parte são doentes e estão em idade activa.

Esta é também altura em que aparecem mais pedidos de apoio para material escolar porque não tendo autorização de residência também não têm acesso ao serviço de acção social. Ana Mansoa prevê que os pedidos irão aumentar e que será necessário recorrer a mais apoios porque a perspectiva económica não é animadora.

De resto, está a aumentar a lista de espera no CEPAC de pessoas que querem ser beneficiárias e ter acesso ao apoio alimentar: no mais recente balanço eram 160 os agregados à espera. “Uns querem apoio na procura de emprego, outros no processo de regularização e outros estão em risco de ficar em situação de sem-abrigo” - mas estes passam à frente para “não ficarem em situação de maior vulnerabilidade”, explica Ana Mansoa.

No centro estão a aumentar as campanhas de angariação porque o que recebem não chega para a resposta; estão também à procura de parceiros até com outro tipo de bens que não alimentares: “Uma das necessidades que identificamos são os bens de higiene íntima da mulher, muito caros, e muitas das famílias que acompanhamos não têm orçamento para eles”, explica.
Pressão já existe

Esta não é a única instituição que está a verificar um aumento dos pedidos de ajuda. Segundo Isabel Jonet, do Banco Alimentar contra a Fome, que abastece muitas organizações como o CEPAC, “há mais pedidos das instituições porque têm mais pedidos” e porque “têm que responder a custos de energia e combustível”, que aumentaram.

Directamente ao Banco Alimentar os novos pedidos têm-se mantido estáveis, nas 20 famílias diárias, para um total de 400 mil pessoas que apoiam. São sobretudo famílias monoparentais, idosos com pensões “muito baixas”, em que qualquer aumento é “significativo”, contextualiza.

Rita Valadas, presidente da Cáritas, afirma que já se sente “claramente uma pressão”, mas que ela será maior, “mais para a frente”. A crise vai-se sentindo de forma gradual até chegar aos bancos alimentares: “As pessoas começam a substituir marcas por marcas brancas, depois trocam uns alimentos por outros e depois deixam de comprar determinados alimentos - só depois recorrem a programas alimentares”, contextualiza. Preocupa-a a diminuição da qualidade alimentar das refeições das famílias, que é um dos reflexos mais imediatos destas crises.

Na Cáritas tem sentido um aumento dos pedidos mas considera que “os números não são o mais importante”: “O pior são as pessoas que nos procuraram durante a pandemia, que não desapareceram e não conseguiram fazer a retoma.”

Às instituições como a Cáritas vai ser exigida criatividade porque cada vez “há mais pessoas para apoiar e menos pessoas com capacidade para ajudar”.