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25.9.23

Chegaram as clementinas

Miguel Esteves Cardoso, opinião, in Público


Até eu, que sou um fanático das tângeras e das tangerinas, gostei de comer um gomo de clementina.
Chegaram as clementinas

Domingo de manhã: estava tudo doido a comprar clementinas. Só quatro ou seis por pessoa, porque ninguém estava à espera de que estivessem boas, ainda o mês de Setembro não acabou.

Também compro, claro. Odeio clementinas, mas isso é irrelevante. As caixas com as primeiras clementinas vêm do MARL já carregadas com folhas verde-escuras, para enfeitar a morte das saudades.


Algumas clementinas ainda têm as folhas agarradas, mas todas têm o pé comprido: quem as apanhou teve o cuidado de cortar os pés o mais longe possível da fruta, para sabermos que foram acabadas de apanhar.


Estas pequenas celebrações não vêm nos livros nem nas agendas – ainda na semana passada foi a vez dos dióspiros –, mas são mais verdadeiras do que as oficiais, porque são verdadeiramente celebradas por toda a gente, pela calada, com os dedos todos ao mesmo tempo, a tentar separar a casca das costas dos gomos.

Até eu, que sou um fanático das tângeras e das tangerinas, e que vivo em permanente desgosto até ter ao colo um par de boas laranjas da Baía, gostei de comer um gomo de clementina: era seco e muito doce, com pouco sabor, mas tinha uma acidez temporã que nunca tinha encontrado nas irmãs.


Estive para não provar, para não me desencantar. Mas descasquei duas, só para me deliciar com o perfume das cascas. E deixei-me ir.


É para dar mais valor às tangerinas, quando aparecerem, se eu tiver a sorte de encontrar algumas.

Afinal, a cor do Outono é cor de laranja. A castanha também é castanha, mas a cor não se chama “castanha” nem “cor de castanha”: ora toma!


É laranja porque cresceu com o sol do Verão e a cor foi fixada pelos primeiros arrepios nocturnos. Com os Invernos cada vez mais quentes, as próprias laranjas são cada vez menos cor de laranja.


A fruta bonita e perfumada, como é o caso das clementinas – uma unha é perfeita para espoletar aquele cheirinho –, é mais decorativa, mais barata e mais duradoura do que muitas flores.

Sejam bem-aparecidas.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

14.9.23

IVA zero: frutas e carnes estão mais caras, legumes e peixes mais baratos

Rafaela Burd Relvas, in Público

IVA zero não teve um efeito homogéneo, registando-se baixas de preços nalguns produtos, mas aumentos noutros. A variação média dos preços é negativa, mas a queda fica aquém do esperado.


Vários dos produtos alimentares abrangidos pelo IVA de 0% subiram de preço imediatamente após a implementação da medida lançada pelo Governo para dar resposta à crise inflacionista e aliviar as despesas das famílias. Contudo, alguns meses depois deste corte fiscal que as principais retalhistas se comprometeram a reflectir nos preços finais, o custo destes produtos acabou por baixar e, em geral, estão hoje mais baratos do que o que se verificava no início deste ano. Mas há excepções, sobretudo nas carnes, azeite e frutas, que estão agora mais caros, mesmo sem IVA.

Os dados foram recolhidos pelo Observatório de Preços do sector agro-alimentar, uma iniciativa conjunta do Ministério da Agricultura e Alimentação e do Ministério da Economia e Mar. Criado ainda em Outubro do ano passado, oito meses depois do início da guerra na Ucrânia, que veio agravar a aceleração da inflação que já então se verificava, este observatório tinha como objectivo contribuir para uma "maior transparência" na cadeia de valor do sector agro-alimentar, permitindo às entidades competentes que monitorizem a evolução dos preços de um cabaz de produtos e definam políticas públicas com base nestes dados.


Já depois da criação deste observatório, o Governo lançou o IVA Zero para um conjunto de produtos alimentares, medida que entrou em vigor a 18 de Abril deste ano e que isentou de IVA um cabaz de 46 alimentos considerados essenciais, com o objectivo de mitigar o impacto da inflação sobre o rendimento disponível das famílias e fazer baixar os preços finais destes bens alimentares. Na altura, recorde-se, as principais cadeias de supermercados garantiram que iriam fazer reflectir esta medida nos preços, tendo mesmo lançado várias campanhas para identificar, nas suas superfícies, os produtos que eram abrangidos pelo IVA de 0% e que, portanto, passavam a ter preços mais baixos.


Desde então, a monitorização dos preços tem sido feita pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), que, periodicamente, tem divulgado dados sobre a evolução dos preços dos 46 produtos abrangidos pela medida.

Agora, há uma nova fonte onde essa evolução pode ser consultada, ainda que nem todos os produtos sem IVA estejam a ser analisados. Quase um ano depois da publicação em Diário da República do despacho que oficializou a criação do Observatório de Preços, a iniciativa do Governo chega, finalmente, ao terreno, com o lançamento, nesta quarta-feira, da plataforma online na qual pode ser consultada a evolução dos preços dos produtos observados. São 26 os produtos alimentares deste cabaz, incluindo carnes, peixes, azeite, lacticínios, frutas, hortícolas, cereais e ovos. Os dados são recolhidos pela empresa de análise de mercado Kantar, que disponibiliza, para cada produto, o preço médio apurado em períodos de quatro semanas, tendo em conta grandes superfícies, mas, também, pequenos comerciantes.

Preços sobem antes de cair

O PÚBLICO analisou 23 destes produtos, incluindo na análise apenas aqueles que são abrangidos pela medida do IVA de 0%: azeite virgem, carne de frango, carne de porco, arroz, esparguete, pão (bolas de carcaça), banana, laranja, maçã, pêra, alface, batata, cebola, cenoura, couve, curgete, tomate, leite UHT, manteiga, queijo flamengo, ovos, dourada e pescada. E concluiu que, ainda que a evolução dos preços seja díspar nas várias categorias de produtos, o padrão aponta para uma subida de preços no período imediatamente a seguir à implementação do corte de IVA, mas para uma posterior queda nas semanas que se seguiram.

Para esta análise, considerou-se como o período anterior à implementação do IVA de 0% o conjunto de quatro semanas terminado a 26 de Março, enquanto o período imediatamente posterior à medida é o conjunto de quatro semanas terminado a 21 de Maio (o período de quatro semanas que termina a 23 de Abril não foi considerado, uma vez que inclui dias com e sem a medida em vigor). Já o último período para o qual o Observatório de Preços tem dados disponíveis é o conjunto de quatro semanas terminado a 13 de Agosto.


Dos 23 produtos analisados, os preços médios aumentaram em cerca de um terço dos produtos logo após a implementação do IVA zero, em relação ao período anterior à entrada em vigor desta medida. Os maiores aumentos verificaram-se nas frutas, onde se registaram subidas superiores a 10%, mas também no azeite, que encareceu em 12%, e nas carnes, que sofreram aumentos, embora inferiores a 5%. Em sentido contrário, nessa altura, os preços dos hortícolas e dos peixes já caíam, sobretudo produtos como a curgete ou o tomate, cujos preços recuaram a dois dígitos.


Já nos meses seguintes, a trajectória de subida de preços inverteu-se em alguns dos produtos, ao mesmo tempo que a descida se acentuou noutros. É esse o caso, sobretudo, dos hortícolas, nos quais, entre Março e Agosto, os preços chegaram a cair mais de 40% (curgete e tomate) ou em torno de 20% (cebola e alface). Mas também nos lacticínios se verificam quedas em torno de 8%, enquanto o preço médio da dourada caiu perto de 10%. Por outro lado, o quilo de carne de frango ou carne de porco estava mais caro em Agosto do que antes da isenção de IVA nestes produtos (com o aumento a chegar quase aos 4% no caso do frango e 2% no porco), assim como o das frutas, com destaque para a laranja, que encareceu quase 40% neste espaço de quatro meses.

Mesmo assim, a descida geral de preços fica aquém do que seria esperado com o corte do IVA de 6% e 23% para 0%. Considerando todos os 23 produtos analisados, a variação média dos preços entre Março e Agosto deste ano foi de cerca de -5,5%.

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25.7.23

O segredo para viver mais tempo? Oito mudanças no seu estilo de vida, sugerem investigadores

in Público


Investigadores sugerem que poderíamos viver mais 20 anos se fizéssemos algumas “pequenas” mudanças de rotinas, mesmo que a adopção de hábitos mais saudáveis só aconteça após os 50 anos de idade.

Ter uma alimentação saudável, evitar os cigarros e o stress, fazer exercício e ter relacionamentos sociais positivos. Um grupo de investigadores sugere que estas e outras mudanças do seu estilo de vida (num total de oito) podem ajudar a que viva mais tempo - pelo menos mais vinte anos. Dormir bem, evitar bebidas em excesso e não consumir opióides são os restantes hábitos sugeridos pelos investigadores se quiser ter uma vida mais longa.

O estudo, apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Nutrição em Boston, nos EUA, baseou-se em dados de questionários e registos médicos recolhidos entre 2011 e 2019. No total, a base deste estudo foi feita com informações de mais de 700 mil veteranos de guerra dos EUA com idades compreendidas entre os 40 e os 99 anos.

Os investigadores sugerem que as pessoas poderiam viver mais se fizessem algumas "pequenas" mudanças nas suas rotinas, mesmo que a adopção destes hábitos mais saudáveis ​​só aconteça depois dos 50 anos. “As nossas descobertas sugerem que adoptar um estilo de vida saudável é importante tanto para a saúde pública quanto para o bem-estar pessoal”, refere Xuan-Mai T Nguyen, especialista em ciências da saúde e uma das investigadoras envolvidas no estudo ao The Guardian. “Quanto mais cedo melhor, mas mesmo que façam uma pequena mudança aos 40, 50 ou 60 anos, esta ainda será benéfica”.

Nguyen e a sua equipa colegas analisaram os dados para identificar quais factores estavam associados a uma expectativa de vida mais longa. “Homens e mulheres que adoptem estas oito mudanças podem ganhar 23,7 ou 22,6 anos de expectativa de vida, respectivamente, aos 40 anos, em comparação com quem não adoptou nenhuma mudança”, escrevem os autores.

Sem surpresas, ser fisicamente inactivo, usar opióides e fumar são os factores com associações mais fortes à morte precoce. Os participantes com estes hábitos tiveram um risco acrescido de morte de 30% a 45% durante o período do estudo. Por outro lado, o stress, o consumo excessivo de álcool, dormir mal e ter uma má alimentação foram associados a um risco acrescido de 20%.




10.7.23

8,3% dos europeus não consegue pagar uma refeição adequada

in JN


Em Portugal, proporção de população que não consegue fazer uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias subiu para os 3%.


No ano passado, 8,3% da população da União Europeia não conseguia pagar uma refeição contendo carne, peixe ou um equivalente vegetariano de dois em dois dias. Proporção que sobe para os 19,7% se se analisar apenas os europeus em risco de pobreza. Em Portugal, os valores fixaram-se, respetivamente, nos 3% e 7,2%.


De acordo com os dados nesta segunda-feira divulgados pelo Eurostat, gabinete de estatísticas europeu, dentro os 27 Estados-membros, Roménia (22,1%), Bulgária (21,6%) e Eslováquia (15,8%) são os países que registaram maiores dificuldades no indicador em análise. Em sentido inverso estão a Irlanda (1,4%), o Chipre (1,5%) e o Luxemburgo (1,85). Os dados para Portugal mostram que, no ano passado, 3% da população não conseguiu ter acesso a uma refeição adequada, contra 2,4% em 2021.

Analisando os indicadores para a população em risco de pobreza, 7,2% do portugueses naquela condição não conseguiam pagar uma refeição contendo carne ou peixe de dois em dois dias, que compara com os 5,9% registados em 2021. A Bulgária responde pela proporção mais elevada (44,6%) e a Irlanda pela mais baixa (5%).

27.6.23

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE

in Público online

Os aumentos mais acentuados no preço médio da produção agrícola registaram-se em Portugal e em Espanha, com a seca a prejudicar a oferta.

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE
A subida homóloga dos preços dos produtos agrícolas de base abrandou, no primeiro trimestre, para os 17% na União Europeia (UE), com Portugal e Espanha a apresentarem o maior aumento (33%), divulgou nesta segunda-feira o Eurostat.

A avaliação agora divulgada pelo Eurostat recai sobre o preço pago à saída da produção, não sendo o valor final ao consumidor, que é ainda intermediado pelas actividades de transporte, logística e distribuição (retalhista ou grossista).

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26.6.23

Refeições nas cantinas do Estado aumentam 80 cêntimos a partir de 1 de Julho

Raquel Martins, in Público online

Trabalhadores passam a pagar 4,90 euros por refeição. Também os aposentados vêem o preço aumentar para 2,45 euros.

O preço que os trabalhadores da Administração Pública terão de pagar por uma refeição nos refeitórios dos serviços e organismos públicos vai aumentar para 4,90 euros a partir de 1 de Julho, mais 80 cêntimos do que actualmente.

A Portaria 306/2023 publicada nesta segunda-feira prevê ainda que os aposentados ou reformados, assim como os cônjuges sobrevivos dos trabalhadores da Administração Pública titulares de pensão de sobrevivência que não aufiram rendimentos de trabalho, passem a pagar 2,45 euros por refeição. Ou seja, mais 40 cêntimos do que na portaria que se aplicava desde 2012 e que, entretanto, será revogada.

Inicialmente, a subida da refeição de 19,5% era superior ao aumento de 9% dado ao subsídio de refeição dos funcionários públicos. Com a actualização extra dos salários e com a subida do subsídio de 5,20 para seis euros (com efeitos desde o início do ano), essa diferença desapareceu e o subsídio aumentou mais (25,8%).

As cantinas dos serviços da administração pública servem 635 mil refeições por ano e o preço não era actualizado desde 2012.

O Governo justifica o novo valor com o aumento do preço das matérias-primas, a evolução do salário mínimo nos últimos anos e a “recente actualização da massa salarial dos trabalhadores em funções públicas (…), na qual se inclui a actualização do subsídio de refeição”.

Quando a proposta foi apresentada, os sindicatos manifestaram-se contra e defenderam que devia ser o Estado a suportar o aumento e não os trabalhadores.


22.6.23

Investigadores portugueses criam "vacina" para proteger frutos e legumes de doenças fúngicas

SIC Notícias e Lusa


A podridão cinzenta, oídio, míldio, antracnose e cladosporiose são o grupo-alvo de doenças fúngicas sobre as quais os investigadores se vão debruçar para diminuir as "quebras acentuadas de produção" e um "elevado desperdício alimentar".


Investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) estão a desenvolver uma "espécie de vacina" à base de substâncias naturais para aplicar e proteger frutos e legumes de doenças fúngicas, surgindo como alternativa aos pesticidas químicos.

Em comunicado, a FCUP destaca que "há cada vez mais doenças fúngicas em frutos e legumes", muitas das vezes provocadas pelas alterações climáticas, que originam "quebras acentuadas de produção" e um "elevado desperdício alimentar".

Para evitar as quebras de produção e o desperdício, os produtores usam, frequentemente, fungicidas sintéticos, mas a eficácia destes produtos "é cada vez mais reduzida devido às resistências desenvolvidas pelos fungos patogénicos", tendo também um impacto negativo na saúde humana e nos ecossistemas.

Com o intuito de desenvolver uma "alternativa" a estes pesticidas químicos, os investigadores da FCUP estão a trabalhar numa "espécie de vacina" baseada em substâncias naturais, no âmbito do projeto "BFree: Biocontrolo de Frutos e de Legumes".


"O nosso objetivo é contribuir para o desenvolvimento e implementação de um conjunto de produtos naturais à base de micro-organismos endófitos [isolados de frutos] como agentes de biocontrolo", afirma, citada no comunicado, a coordenadora do projeto e investigadora do GreenUPorto -Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável, Susana Carvalho.

Ao longo do projeto, os investigadores vão desenvolver "ferramentas sustentáveis" para diminuir o uso de produtos fitofarmacêuticos que "têm sido detetados com maior frequência nos produtos e legumes que chegam ao consumidor".

A podridão cinzenta, oídio, míldio, antracnose e cladosporiose são o grupo-alvo de doenças fúngicas sobre as quais os investigadores se vão debruçar.

Neste momento, a equipa está a trabalhar nos micro-organismos antagonistas, tendo já selecionado os que têm "maior potencial antifúngico sobre os agentes patogénicos que levam às principais doenças".


"Chegaram, aliás, a 12 diferentes formulações de diferentes micro-organismos", destaca a instituição, esclarecendo que os investigadores pretendem agora analisar o efeito destas formulações em campo e aplicando-as diretamente nas plantas por forma a perceber a interação entre o micro-organismo e o agente patogénico.

Numa segunda fase do projeto, a equipa vai monitorizar a eficácia destas formulações na prevenção e tratamento de doenças fúngicas ao longo do ciclo natural de diversas culturas como o morango, framboesa, mirtilo e tomate.

Já a terceira e última etapa do projeto visa o desenvolvimento das soluções encontradas "para condições comerciais", tendo como objetivo alcançar cerca de 135 produtores hortofrutícolas distribuídos pelo território nacional.

Susana Carvalho destaca ainda que a aplicação de agentes de biocontrolo "tem vindo a despertar uma elevada atenção" tanto no meio científico, como no meio empresarial "como uma alternativa promissora e sustentável às abordagens convencionais para a gestão de pragas e doenças".

Com um financiamento de 860 mil euros do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), o projeto conta com a colaboração do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, o Centro Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN), a Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP), a Proenol - Indústria Biotecnológica e mais 10 pequenas e médias empresas, nas quais se incluem organizações de produtores e produtores individuais.

7.6.23

Uma em cada 10 pessoas adoece por consumir alimentos em mau estado

Por Lusa, in SIC

Os alimentos contaminados são ainda responsáveis por mais de 200 doenças. Os dados são da ONU, que lançou um guia por ocasião do Dia Mundial da Segurança Alimentar.


Uma em cada dez pessoas do mundo adoece todos os anos por consumir alimentos contaminados, que são responsáveis por mais de 200 doenças, indicam dados da ONU.

Por ocasião do Dia Mundial da Segurança Alimentar, que se assinala esta quarta-feira, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) lançou um guia sobre segurança alimentar, promovendo boas práticas e alertando que a comida insegura mata.

Promovida, além da FAO, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a efeméride, tem este ano o tema "Normas alimentares salvam vidas" e destina-se a inspirar ações que permitam prevenir, detetar e gerir riscos de origem alimentar, contribuindo para a segurança alimentar, a saúde, o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável.

No último dia de maio morreram 15 pessoas de uma mesma família na Namíbia, depois de comerem uma papa de cereais, alimento básico para os pobres do país, havendo suspeita de intoxicação alimentar.

A propósito do dia que se assinala esta quarta-feira, a Lusa falou com duas organizações que contribuem para a segurança alimentar e lutam contra o desperdício, numa altura em que, segundo as Nações Unidas, 870 milhões de pessoas passam fome no mundo, onde um terço dos alimentos que se produzem é desperdiçado. Na Europa desperdiçam-se em cada ano 88 milhões de toneladas de alimentos.
Uma aplicação para salvar alimentos do desperdício

Para salvar alimentos do desperdício a empresa "Too Good To Go" (criada na Dinamarca em 2016 depois de um grupo de amigos ver ser deitada fora toda a comida que não tinha sido consumida num restaurante), faz, através de uma aplicação, a ligação entre consumidores e restaurantes, supermercados, mercearias e hotéis, permitindo aos utilizadores comprar a preços mais baixos produtos que não iam ser usados.

Mariana Banazol, diretora de marketing da empresa para a Península Ibérica, disse à lusa que a empresa está em Portugal desde outubro de 2019, tendo já a adesão de 1,5 milhões de utilizadores e de mais de 3.700 estabelecimentos. A "Too Good To Go" está hoje em 17 países, com mais de 80 milhões de utilizadores e 134.000 parceiros.

Em todos a ideia é a mesma: o estabelecimento ganha porque evita o desperdício alimentar e reduz perdas económicas, o consumidor ganha porque compra mais barato, e o planeta ganha porque se evitam impactos ambientais. Porque, lembra, "o desperdício alimentar é responsável por 10% das emissões de gases com efeito de estufa".

Até hoje, a empresa já evitou, a nível global, que 200 milhões de caixas de produtos fossem parar ao lixo, o equivalente a 500.000 toneladas de dióxido de carbono (CO2). "Tem um impacto ambiental equivalente a 100.000 bilhetes de avião à volta do mundo ou a um duche quente e contínuo durante mais de 2.400 anos", diz a responsável.

Em Portugal, a "Too Good to Go" já recuperou mais de 2,9 milhões de caixas, evitando o desperdício de mais de 2.900 toneladas de alimentos.

Frisando que o objetivo da empresa é "conseguir um planeta sem desperdício alimentar", Maria Banazol diz querer mais lojas e utilizadores a juntar-se à causa. E lembra o projeto da empresa chamado "Observar, Cheirar, Provar", de sensibilização e informação sobre datas de validade, já que a confusão sobre elas é responsável, diz, por 10% do desperdício alimentar na Europa.
Uma aplicação que dá uma última oportunidade aos produtos

Outra aplicação com o mesmo objetivo, esta nascida em França há uma década, é a Phenix. Em Portugal há sete anos, baseia-se também numa aplicação que faz a ligação entre as empresas e os consumidores. Supermercados ou restaurantes, frutarias, padarias ou talhos, floristas ou peixarias, vendem cabazes de produtos em fim de vida a preços mais baixos.


"Dão uma última oportunidade aos produtos mas também estão a divulgar o seu negócio", disse à Lusa Carlos Hipólito, o responsável em Portugal da empresa, explicando que o cliente ao ir buscar o cabaz que comprou acaba por conhecer a loja em questão.

Além de apoiar as grandes empresas de retalho por exemplo com ferramentas para controlar validade dos produtos a Phenix trabalha com essas empresas e com instituições. São atualmente mais de 1.300, segundo o responsável, que recebem produtos gratuitamente, tendo as empresas, com isso, benefícios fiscais.

São instituições de todo o país que usufruem de produtos que depois, por exemplo, distribuem por famílias carenciadas. E quando esses produtos já não podem ser doados para humanos a Phenix também tornou possível, consoante os casos, o aproveitamento para animais.

Esta ligação entre grandes empresas e instituições é hoje o grosso do trabalho da Phenix. Carlos Hipólito lamenta que outros países não permitam, como Portugal, benefícios fiscais nestas doações.

Por eles existirem, afirma, a Phenix e os parceiros apoiaram no ano passado mais de 100 mil famílias (através das instituições) e foram doados bens equivalentes a 30 milhões de euros. ""Falamos de nove mil toneladas de alimentos doados, falamos de mais de 18 milhões de refeições, falamos de 63 mil toneladas de CO2 evitadas", diz.

O Dia Mundial da Segurança Alimentar visa chamar a atenção e inspirar ações para ajudar a prevenir, detetar e gerir os riscos alimentares.

A ONU estima que morram anualmente 600 milhões de pessoas por consumirem alimentos não seguros.

1.6.23

Marcas arranjam estratégias para contornar lei que restringe publicidade alimentar a menores de 16 anos

Ana Maia,  in Público


Estudo da DGS conclui que marcas estão a fazer adaptações como publicitar a marca em vez dos produtos e com a criação de sistemas de verificação de idade para aceder aos conteúdos.

As crianças com menos de 16 anos continuam a ser expostas a publicidade de bebidas e alimentos não saudáveis através de anúncios nas redes sociais, conclui um estudo da Direcção-Geral da Saúde (DGS). A análise ao marketing alimentar digital permitiu também perceber que as marcas estão a encontrar estratégias para contornar a lei aprovada em 2019, que proíbe a publicidade dirigida a menores de 16 anos, inclusive na Internet, a alimentos e bebidas que não cumpram o perfil nutricional definido pela DGS, com adaptações como publicitar a marca em vez dos produtos e com a criação de sistemas de verificação de idade para aceder aos conteúdos.

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29.5.23

Ajudar um é mais fácil do que 10 milhões

Gustavo Carona, opinião, in  Público


Contar uma história tem um poder enormíssimo, mas se as atenções, ajudas e donativos forem apenas usados em benefício de um, é batota emocional, e é perverso.

Falando da mesma quantia. Certamente que este fenómeno está bem estudado por quem se dedica à compreensão da mente humana, mas não pára de me surpreender. A crueldade do legado assassino de milhões por Estaline é uma vergonha para a história da humanidade, mas a sua famosa citação "uma única morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística" é aplicada sem vergonha por todos nós, quase sem excepções. Nós não os matamos, mas deixamo-los morrer. Existe uma diferença mas é ténue, activamente não os vamos lá matar, mas também não nos importamos muito que eles morram ou sofram o indizível.

Quando 12 rapazes ficaram encurralados por água em grutas do norte da Tailândia foram movidos milhões e milhões de euros, directa e indiretamente (com o que as TV gastaram para ter lá um jornalista à porta da gruta para não dizer “nada”), porquê? Porque as pessoas estavam preocupadas com a vida de 12 crianças de um país muito longínquo? Não. As pessoas agarraram-se emocionalmente à história, porque o enredo era espetacular, porque era inusitado, porque era limitado no tempo, porque de alguma forma sentimos que nos podia acontecer a nós, e porque a solução era palpável.

Sensivelmente um ano mais tarde, o Programa Alimentar Mundial ganha o Prémio Nobel da Paz, eu tentei trazer para aqui mais do que a notícia, a realidade que tem que ser combatida, mas o facto de quase 100 milhões de pessoas terem sido salvas em cerca de 80 países, num ano, foi apenas notícia de rodapé, e a atenção da opinião pública que foi suscitada, que é sempre proporcional aos donativos, foi quase nula – e não digo nula para não desmerecer os corajosos que tentam ir contra a corrente da perversão dos mecanismos da empatia da mente humana.

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19.5.23

Cabaz com IVA de 0% baixou 11 euros, mas há produtos essenciais mais caros

Pedro Crisóstomo, in Público


Peixes registam a maior descida. Preço do esparguete caiu, mas não o das espirais. Iogurtes líquidos, atum em óleo, laranjas e algumas maçãs encareceram, mesmo com isenção, diz a Deco Proteste.


A maior parte dos produtos alimentares abrangidos pelo IVA de 0% baixou de preço nas primeiras semanas de aplicação da medida, mas o custo de alguns bens de grande consumo aumentou, como os iogurtes líquidos, as massas espirais ou o atum enlatado em óleo vegetal, conclui a empresa Deco Proteste a parte de uma análise a 41 dos 46 tipos de produtos cobertos pela isenção de IVA, em vigor desde 18 de Abril.

Olhando para os preços registados a 17 de Abril (na véspera à entrada em vigor da isenção) e comparando os valores com os preços um mês depois (a 17 de Maio, a passada quarta-feira), a Deco Proteste verificou que dos 41 produtos em análise “há 33 que hoje estão mais baratos, enquanto oito aumentaram de preço, mesmo com a isenção de IVA”.

Em termos médios, a descida do cabaz dos produtos essenciais é de 10,96 euros, porque se no dia imediatamente anterior à aplicação da isenção nos supermercados os bens custavam, em média, 138,77 euros, agora, a conta está nos 127,81 euros, o que representa uma descida média de 7,9%.

Rita Rodrigues, directora de comunicação da Deco Proteste, nota ao PÚBLICO que, apesar de o custo dos bens reflectir hoje a descida do IVA e de a redução superior à que resultaria directamente da baixa do IVA de 6% para 0% para os produtos que dantes eram tributados com o IVA da taxa reduzida, “há produtos de grande consumo com um aumento de preço-base”, onde “o impacto fica aquém do que temos, em termos médios, no cabaz”.

Se, nalguns casos, há bens cujo preço baixou “mais do que os 6%”, noutros registou-se uma subida e, embora isso “não signifique que a medida não esteja a ser implementada”, assistiu-se a uma trajectória contrária à que se verificou na tributação, refere a representante da Deco Proteste, empresa que se dedica à produção de informação na área do consumo.

Todos os 41 tipos de produtos analisados pela empresa fazem parte da lista dos 46 abrangidos pela isenção temporária. A empresa já fazia uma monitorização dos bens alimentares desde Janeiro a um universo de 63 produtos e, com o anúncio da descida do IVA, começou a fazer uma subanálise em que segue a evolução dos preços num grupo abarcado pela medida do Governo.

Para elaborar o cabaz, a Deco Proteste calcula o preço médio de cada um dos produtos considerados na amostra tendo em conta várias marcas para cada um (por exemplo, ao monitorizar o preço dos iogurtes, não considera apenas uma marca, mas várias e, a partir dessa amostra, é calculada uma média); começa por calcular o preço médio por produto em todas as lojas online consideradas na monitorização nas quais os bens se encontram disponíveis para venda e, somando o preço médio de todos os produtos, obtém o custo do cabaz para um determinado dia.

Por exemplo, nos lacticínios, monitoriza a evolução do custo do queijo curado fatiado embalado, queijo-flamengo fatiado embalado, ovos, leite UHT meio gordo, iogurte de aroma, iogurte líquido e manteiga com sal. Na carne, analisa os preços de costeletas e febras de porco, do lombo de porco sem osso, da perna e do bife de peru, do frango inteiro e do novilho para cozer. Nos congelados, considera as ervilhas ultracongeladas; nas frutas e legumes, a alface frisada, a courgette, o tomate-chucha, a couve-flor, a cebola, a cenoura, brócolos, a banana importada, a batata-vermelha, a maçã-golden, a maçã-gala e a laranja.

Numa síntese divulgada nesta quinta-feira, a empresa refere que entre os produtos que mais desceram de preço destacam-se “a pescada fresca (-37,52%), a alface frisada (-20,24%), a courgette (-19,40%), o óleo alimentar (-14,24%) e o tomate (-14,09%)”. A empresa sublinha que, no caso do óleo, a descida foi “bastante inferior ao esperado” porque, ao contrário da esmagadora maioria dos bens, este produto era tributado com a taxa de IVA normal, de 23% e, nestas primeiras semanas, a redução não chegou aos 15%.

Outros bens “também tiveram descidas de preço muito inferiores” ao esperado, “como, por exemplo, o esparguete (-1,83%), a manteiga com sal (-1,61%) e o arroz-agulha (-1,41%)”.

Ao mesmo tempo, alguns produtos encareceram em relação a 17 de Abril: “O iogurte líquido (13,85%), pão de forma sem côdea (6,53%), atum posta em óleo vegetal (6,47%), brócolos (6,26%), massa espirais (4,66%), maçã-gala (2,98%), laranja (0,86%) e maçã-golden (0,48%)”.

Olhando para as categorias, a monitorização da Deco Proteste revela que a maior quebra de preços aconteceu no peixe (-15,98%), seguindo-se os congelados (-6,92%), as frutas e legumes (-6,85%) e a carne (-5,71%). Nos lacticínios, a quebra foi de apenas 1,98% e no grupo mercearia (onde se incluem produtos como as massas espirais, o azeite, o atum enlatado, o pão de forma ou o arroz) a descida foi de 4,25%.
Baixar preço na agricultura

Além da redução do IVA, o pacto que o Governo assinou com os produtores agrícolas e com os representantes da grande distribuição previu ajudas aos agricultores sob o compromisso de estes baixarem os preços logo à partida nesse ponto da cadeia, fazendo reflectir os apoios recebidos “nos preços dos produtos constantes no cabaz, de forma directa e indirecta, atendendo ao ciclo natural produtivo” e associando o apoio “a uma estabilização ou, sempre que possível, a uma redução dos preços à saída da exploração”.

O mesmo acordo prevê a criação de uma comissão de acompanhamento que, sob a coordenação do Governo, reúne representantes da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, da Autoridade da Concorrência, da Autoridade Tributária e Aduaneira, da Direcção-Geral das Actividades Económicas, da Direcção-Geral do Consumidor, do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração-Geral do Ministério da Agricultura e ainda dos das duas associações sectoriais que subscreveram o acordo, a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED).

As empresas de distribuição têm de partilhar com esta comissão dados estatísticos sobre a evolução dos preços, quer por sector, quer por produto.

A isenção estará de pé até 31 de Outubro e, antes disso, ao fim de três meses, o Governo e os parceiros farão uma “avaliação intercalar” da adopção da medida, o que ocorrerá no final de Junho, quando se cumprirem três meses da assinatura do pacto, a 27 de Março.

16.5.23

Governo prolonga apoio de 30 euros a beneficiários do cabaz alimentar

Patricia Carvalho, in Público online

Medida excepcional tem a duração de dois meses e é justificada pela dificuldade em se conseguir obter os produtos que compõem o cabaz.

O Governo decidiu prolongar por dois meses o apoio extraordinário de 30 euros destinado a cada um dos beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), por causa da dificuldade em se conseguir obter os produtos que compõem o cabaz alimentar previsto neste programa. A portaria que estabelece este prolongamento foi publicada esta segunda-feira em Diário da República.


[artigo disponível na integra só para assinantes]



2.5.23

Portuguesa lidera programa da ONU que garante alimentação escolar a 450 mil crianças

Por Lusa, in Público online

Laura representa a Venezuela no Programa Alimentar Mundial, uma agência da ONU com quem trabalha “há mais de 20 anos”

A portuguesa Laura Melo chegou à Venezuela há cerca de um ano e hoje representa no país o Programa Alimentar Mundial (PAM), uma agência da ONU que garante alimentação a 450 mil crianças carenciadas.

"Como PAM aqui na Venezuela, continuamos essencialmente a trabalhar e a apoiar crianças através da alimentação escolar. Estamos a trabalhar em oito estados do país, apoiando cerca de 450 mil pessoas mensalmente, essencialmente crianças, mas também professores e todo o pessoal que está nas escolas onde trabalhamos", disse à agência Lusa.

Laura Melo lembrou que o PAM é uma agência da ONU que promove a segurança alimentar e a nutrição das pessoas mais pobres e vulneráveis, em cerca de 120 países, com milhões de beneficiários "porque, lamentavelmente, do ponto de vista da fome no mundo, a situação está a piorar".

"Em Abril de 2021, o PAM assinou um acordo com o Governo da Venezuela para começar a trabalhar e dar apoio, do ponto de vista de segurança alimentar e nutrição no país", disse, precisando que já tinham estado no país, há muito tempo.

Três meses depois, em Julho, começaram as actividades locais, com a distribuição de comida em escolas até à pré-primária do estado de Falcón, a crianças dos 6 meses aos 6 anos de idade, e em "escolas especiais", a pessoas com deficiências.

"Os programas de alimentação e as actividades de apoio nas escolas existem numa diversidade de países na América Latina (...) apoiamos precisamente para complementar muitas vezes os esforços inclusive do próprio país, para alimentar e ajudar as pessoas mais vulneráveis a terem uma dieta nutritiva. Essencialmente para que as crianças possam ter um desenvolvimento saudável e possam cumprir com o seu potencial", frisou.

Laura Melo explicou que gosta muito do que faz e que tem "muito orgulho" em trabalhar para o PAM, organização com a qual trabalha "há mais de 20 anos".

"Estou apaixonada pela Venezuela. É um país maravilhoso, com gente maravilhosa, com um potencial incrível. E o nosso trabalho é essencialmente apoiar esse potencial, que todas essas oportunidades que há no país possam chegar ao seu máximo", disse.


A responsável frisou ainda que a Venezuela "é um país com uma enorme diversidade geográfica, com uma capacidade e um talento humano absolutamente fantástico": "O desejo de avançar, de conseguir coisas para o seu país é uma coisa extraordinária e dá-nos muito orgulho de poder apoiar a Venezuela."

Por outro lado, explicou que o PAM é uma agência financiada de forma absolutamente voluntária, que conta com países doadores, com uma componente importante do sector privado e outro tipo de organizações.

"Mas, o grande peso vem dos países doadores que estão sempre a financiar onde estão as maiores necessidades e, lamentavelmente, actualmente há muitas crises, muita competição por recursos. A crise da pandemia afectou muitíssimo quase todos os países do mundo e afectou também a situação alimentar desses países", lembrou.

Segundo Laura Melo, "também o conflito na Ucrânia está a afectar muitíssimo a produção de alimentos e de fertilizantes em praticamente todos os países do mundo: onde há produção agrícola, há um aumento de preços e isso traduz-se num aumento de preços dos alimentos para o consumidor e as populações, afectando a capacidade de compra de alimentos diversificados e de garantir uma dieta diversificada, fundamental para uma boa nutrição".

A portuguesa estudou em Portugal e fez um mestrado em Londres onde trabalhou como jornalista. "Depois o jornalismo levou-me a estas coisas do mundo humanitário e a determinada altura, entrei para o PAM, há mais de 20 anos", contou.

"Comecei a trabalhar em África e na última década na América Latina. Já trabalhei no Panamá, em Cuba, Guatemala e agora Venezuela", onde, disse, há também "uma comunidade portuguesa muito extensa".

"É sempre um prazer chegar a um país e ver que Portugal está bem representado (...) ver que os portugueses deixaram um contributo muito importante neste país. Ser portuguesa é sempre uma mais-valia. Somos um país bem visto no mundo em geral. Somos um país com muitíssimas boas relações com todos os países do mundo", disse.

Laura Melo está também, "como portuguesa, muito orgulhosa de poder representar a capacidade e o talento que os portugueses têm e que podem levar para o mundo": "Como portuguesa, tenho realmente muito orgulho de fazer parte da ONU, de poder ser identificada como uma representação de Portugal nas Nações Unidas."

Sobre a comunidade luso-venezuelana, congratulou-se por ser "muito unida, muito representativa" e que "trabalha muitíssimo para promover" os seus membros. "Muitos têm já uma história bastante longa aqui e sentem-se muito identificados também como venezuelanos", mas também como portugueses", acrescentou.

Laura Melo espera que um dia o trabalho que faz de "contribuir para pôr fim à fome no mundo (...) não seja necessário".

"Espero que um dia não haja necessidade de haver no mundo pessoas que lutam contra a fome, que não haja necessidade de nos enfrentarmos com as necessidades de tantas comunidades e tantas famílias. Espero que um dia não haja fome no mundo", concluiu.


30.3.23

Faltam “alternativas” para vegetarianos ao cabaz com IVA zero, leite em pó para bebés “poderia ser incluído”

Mara Tribuna, in Expresso

O que faz falta no cabaz alimentar com IVA zero? “Todas as leguminosas” e mais hortícolas, responde a Associação Vegetariana Portuguesa. A “principal falha” da lista de 44 bens essenciais está no facto de não ter “alternativas vegetais aos laticínios”, diz uma nutricionista. Leite em pó e outros produtos consumidos pelos mais novos também “poderiam estar incluídos”

O cabaz de 44 bens alimentares com IVA zero, divulgado no início da semana, deveria incluir “todas as leguminosas e derivados, bem como um maior leque de vegetais”. Quem o diz é a Associação Vegetariana Portuguesa (AVP), alertando que o Governo não está a ter em conta o crescente número de pessoas que não consome produtos de origem animal.

“Recomendamos a anulação da taxa de IVA para mais variedades de vegetais e todas as leguminosas, ou seja, recomendamos que a atual medida inclua lentilhas, favas e restantes variedades de feijão e respetivos derivados, como tofu e bebida de soja”, diz a vice-presidente da AVP, Joana Oliveira, ao Expresso.

A lista de alimentos que estarão isentos do pagamento de IVA, entre abril e outubro, só inclui quatro leguminosas (feijão vermelho, feijão frade, grão-de-bico e ervilhas) e cinco frutas (maçã, banana, laranja, pera e melão). O número de hortícolas é superior (13) mas, ainda assim, a Associação Vegetariana Portuguesa considera que deveria ser maior, tendo em conta a “quantidade de produtos de origem animal abrangida”.

“Em Portugal, 28,6% reduziram o consumo de carne, o que significa que passaram a incluir no seu cabaz alimentar mais alimentos de origem vegetal, como leguminosas, vegetais e frutas”, afirma Joana Oliveira, citando um estudo de 2020 realizado pela Veganz, a primeira rede de supermercados veganos da Europa.

A “principal falha” do cabaz alimentar, na perspetiva da nutricionista Ana Isabel Monteiro, é não ter “alternativas vegetais aos lacticínios”, como a bebida e o iogurte de soja, que são especialmente importantes numa alimentação vegetariana para suprir as necessidades de cálcio, explica a autora da página “Laranja Lima”.

“Outra fonte deste mineral é o tofu, uma alternativa vegetal que também não está incluída no cabaz. Restam as leguminosas e hortícolas de folha verde (brócolos, couve, grelos e espinafres), bem como os laticínios (nos padrões ovolacto e lactovegetarianos)”, refere. Os vegetarianos não comem carne nem peixe, mas podem consumir produtos de origem animal, como laticínios e/ou ovos.

“OPORTUNIDADE” PARA PROMOVER ALIMENTAÇÃO MAIS SUSTENTÁVEL

“De uma forma geral” está um “cabaz ajustado”, diz a nutricionista, que elogia o facto de terem sido incluídas mais opções de pescado do que de carne (seis versus quatro). Desde cereais e derivados a gorduras e óleos, estão representados todos os sete grupos da roda dos alimentos nos 44 bens essenciais que constam na lista.

Ao Expresso, a bastonária da Ordem dos Nutricionistas elogiava, na segunda-feira, o cabaz, por reunir “os alimentos que mais importam para uma alimentação saudável”. Por outro lado, a AVP acha que esta medida, que faz parte do pacote anti-crise anunciado pelo Governo na última sexta-feira, deveria ser uma “oportunidade” para promover rotinas alimentares vegetais que são mais saudáveis e amigas do planeta.

“Além do benefício ambiental, a substituição de 3% da energia diária de proteína animal por proteína de base vegetal está associada a uma menor mortalidade por todas as causas”, sustenta Joana Oliveira, elencando os benefícios dos produtos derivados de leguminosas, como tofu e bebida de soja, para ajudar a prevenir as doenças cardiovasculares.

A vice-presidente da Associação Vegetariana Portuguesa alerta ainda para os custos ambientais para o planeta de um regime alimentar à base de carne e de peixe ,“em termos de uso dos recursos naturais, poluição, emissão de gases de efeito estufa e outras externalidades ambientais que acarretam elevados custos a médio-longo prazo”.

CABAZ GARANTE BOA NUTRIÇÃO DOS MAIS NOVOS?

Além dos vegetarianos e veganos, o cabaz de alimentos poderia ter mais em consideração as famílias com crianças pequenas, sobretudo bebés, por não incluir alguns dos bens consumidos pelos mais novos. “O leite em pó poderia estar incluído, mas não acho que lhe possamos chamar de alimento essencial (a menos que mãe não possa/queira amamentar)”, afirma Ana Isabel Monteiro.

Segundo as diretrizes da Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN na sigla em inglês), continua a nutricionista, um bebé pode fazer uma alimentação semelhante à da restante família a partir dos seis meses, desde que seja sem sal e com uma textura adequada ao seu desenvolvimento.

Assim, o cabaz tem “alimentos suficientes para garantir uma boa nutrição dos mais pequenos, desde hortofrutícolas a leguminosas, passando pelos cereais e alimentos de origem animal, caso a família os consuma”, diz ainda a autora da página “Laranja Lima”. O Expresso também contactou a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, mas não foi possível obter uma reação até à publicação do artigo.


Recorde a lista dos 44 bens essenciais que beneficiarão de IVA zero, por grupo alimentar:

Cereais e derivados, tubérculosPão
Batata
Massa
Arroz

HortícolasCebola
Tomate
Couve-flor
Alface
Brócolos
Cenoura
Curgete
Alho francês
Abóbora
Grelos
Couve portuguesa
Espinafres
Nabo

FrutasMaçã
Banana
Laranja
Pera
Melão

LeguminosasFeijão vermelho
Feijão frade
Grão-de-bico
Ervilhas

LaticíniosLeite de vaca
Iogurtes
Queijo

Carne, pescado e ovosCarne de porco
Frango
Carne de peru
Carne de vaca
Bacalhau
Sardinha
Pescada
Carapau
Atum em conserva
Dourada
Cavala
Ovos de galinha

Gorduras e óleosAzeite
Óleos vegetais
Manteiga

10.2.23

Mais de metade da inflação de 8,4% em Janeiro veio dos alimentos e bebidas

Sérgio Aníbal, in Público

Mês de Janeiro foi de recuo dos preços da energia, principalmente na electricidade. Os bens alimentares destacam-se como a principal fonte da inflação no país

Com os preços da energia já a recuarem dos máximos atingidos em Outubro do ano passado, os bens alimentares estão cada vez mais a destacar-se como a fonte do agravamento do custo de vida suportado pelos portugueses. Em Janeiro, mais de metade da taxa de inflação homóloga registada já é explicada pela subida de preços neste tipo de produtos.

Esta sexta-feira, o Instituto Nacional de Estatística (INE) apresentou os dados definitivos para a inflação do primeiro mês deste ano. Em comparação com a primeira estimativa realizada a 31 de Janeiro, registou-se uma ligeira correcção em alta das variações dos preços. Em vez de uma inflação homóloga de 8,3% e uma inflação mensal de -0,9%, os números finais de Janeiro são de 8,4% e -0,8%, respectivamente, para os dois indicadores.

É um resultado ligeiramente menos favorável do que o estimado inicialmente, mas que não impede que o mês de Janeiro tenha sido em Portugal (e também no resto da zona euro) de recuo da taxa de inflação. Em Dezembro, a taxa de inflação homóloga tinha-se cifrado em 9,6%, isto é, mais 1,2 pontos percentuais do que em Janeiro.

A principal explicação para este recuo da inflação homóloga (e para a taxa de inflação mensal negativa de 0,8%) em Janeiro está, já se sabia, na redução registada nos preços da energia, uma tendência que se verifica desde Outubro e que se acentuou no primeiro mês deste ano.

De acordo com os dados do INE, os preços dos produtos energéticos caíram 8,9% entre Dezembro e Janeiro, com destaque para a queda de 22,7% registada nos preços da electricidade doméstica. Os preços do gás caíram 5,6%, ao passo que os combustíveis para veículos automóveis voltaram a subir 1,5%.

A taxa de inflação homóloga dos bens energéticos caiu de 20,8% para 7,1%.

Isto fez com que os bens alimentares, onde não há sinais ainda de um recuo de preços, passassem a ficar destacados como os principais causadores da pressão inflacionista em Portugal.

Os números do INE mostram que, da taxa de inflação homóloga de 8,4% registada em Janeiro, 4,5 pontos percentuais, ou seja, mais de metade, resultam do contributo dado pela subida de preços da classe “Produtos alimentares e bebidas não alcoólicas”. O segundo contributo mais importante vem da classe “Restaurantes e hotéis”, mas não passa de um ponto percentual.

De facto, no que que diz respeito aos alimentos e bebidas, os preços continuaram a subir entre Dezembro e Janeiro, com a inflação mensal a cifrar-se em 1,9%. A taxa de inflação homóloga nesta classe de bens, por sua vez, passou de 19,9% em Dezembro para 20,6% em Janeiro.

O grupo de alimentos onde os preços subiram mais entre Dezembro e Janeiro foi o do "Açúcar, confeitaria e mel", com uma variação de 7,1%, mas quando se olha para a escalada de preços que ocorreu ao longo dos últimos doze meses, verifica-se que as taxas de inflação mais elevadas estão nos "Óleos e gorduras" (33,6%) e no "Leite, queijo e ovos" (30,8%) onde também ainda não se começou a verificar uma inversão da tendência de preços.

A evolução da taxa de inflação em Portugal durante o mês de Janeiro ficou em linha com o que aconteceu no resto da Europa. A taxa de inflação homóloga harmonizada em Portugal (aquela que é directamente comparável com os valores estimados para a zona euro pelo Eurostat) ficou em 8,6%, ligeiramente acima dos 8,5% registados na zona euro.

26.1.23

“As famílias não têm para onde se virar, cortam na comida e comem pior”: 1100 refeições são distribuídas todas as noites em Lisboa

Marta Gonçalves, in Expresso

Não são apenas pessoas em situação de sem-abrigo que procuram. Cada vez mais surgem pessoas com casa, mas que vivem no limiar da pobreza e têm de escolher “onde vão aplicar o dinheiro”: na renda ou em comida. Organizações alertam para o crescimento dos pedidos de ajuda

Cerca de 1100 refeições são distribuídas todas as noites pela cidade de Lisboa a pessoas carenciadas. O balanço é feito ao Expresso por organizações não governamentais como a Comunidade Vida e Paz, a CASA - Centro de Apoio ao Sem Abrigo e a Noor’Fatima Voluntariado – Projetonur Associação que, diariamente, com dezenas de voluntários, levam uma ceia quente a quem está nas ruas.

“A nossa previsão, até por aquilo que temos vindo a verificar ao longo das últimas semanas e meses, é que este número venha a aumentar”, refere ao Expresso Renata Alves, diretora-Geral da Comunidade Vida e Paz. Uma opinião também partilhada pela gestão das restantes organizações. “Têm aparecido mais pessoas nas ruas a pedir ajuda, e pessoas com casa ou algum local de dormida. Mais estrangeiros nas ruas a pedir apoio”, diz ainda Nuno Jardim do CASA. “Os números têm aumentado sobretudo devido a muitos imigrantes e pessoas com reformas e vencimentos baixos e com estas refeições [que distribuímos] já ajudam nas despesas. A situação é muito triste, todos deviam ter direito a uma refeição sentados à mesa”, acrescenta Nurjaha Tarmahomed, fundadora e presidente da Noor’Fatima.

Uma pessoa regressa a casa após ter recebido uma refeição

No caso da Vida e Paz, as carrinhas saem todas as noites em direção as ruas de Lisboa e na bagageira carregam entre 450 e 500 ceias, que estimam servir para alimentar “400 pessoas de diferentes nacionalidades”. Já a CASA entrega diariamente 400 refeições, enquanto a Noor’Fatima consegue chegar entre 150 e 200 pessoas, entregando água, sopa, comida quente, pão, fruta. Por vezes, há ainda “um bolo ou uma sandes como apoio para o dia seguinte”, refere Nurjaha Tarmahomed. “É um saco por pessoa, em alguns casos são dois porque há outra pessoa na casa onde vivem.”

Há várias semanas que quem procura este tipo de ajudas deixou de ser exclusivamente pessoas em situação de sem-abrigo. Cada vez mais, os voluntários notam haver famílias e pessoas com casa e a pagar rendas que precisam ajuda alimentar. “São pessoas em situação de grande vulnerabilidade social que, tendo casa, com o agravar da situação económica e com a inflação têm que optar onde vão aplicar o seu dinheiro. As refeições são muitas das vezes deixadas para trás, então recorrem às nossas equipas em busca de uma ceia”, explica Renata Alves.

Por outro lado, alerta também a Vida e Paz, as doações “não têm acompanhado” o aumento dos pedidos de ajuda. Esta é uma tendência transversal quer em donativos monetários ou espécie, quer vindo de particulares ou empresas. “Isto dificulta a nossa intervenção. Apelamos à ajuda de todos para podermos continuar a responder às necessidades das pessoas que nos procuram e confiam em nós.”

400 MIL PESSOAS APOIADAS PELO BANCO ALIMENTAR

Com dois balanços anuais, em maio e novembro, os números mais recentes do Banco Alimentar contra a fome dão conta de 400 mil pessoas apoiadas pela instituição através de 2600 organizações espalhadas por todo o país. “São dados referentes a novembro de 2022, quando as coisas ainda não estavam tão caras. Todos os dias temos mais pedidos de ajuda”, diz ao Expresso Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar. “A situação é muito difícil, sobretudo para famílias, que não têm para onde se virar e têm de cortar na comida e comem cada vez pior”, continua.

Jonet acredita ainda que o aumento da procura também aconteceu por antecipação e pela expetativa de que a inflação não fosse abrandar. “As famílias começaram a sentir na pele o acréscimo dos preços em produtos alimentares básicos, tal como as famílias que compraram casa sentem o acréscimo das taxas de juros dos empréstimos habitação. Os preços dos alimentos básicos aumentaram todos e vão continuar,”

O cabaz básico de alimentos custa €225. Nesta lista com 63 bens alimentares essenciais estão incluídos produtos como leite, queijo, manteiga e fiambre, arroz, farinha, massa e açúcar, além de carne, peixe, frutas e legumes. O valor em que agora o cabaz está fixado, refere a DECO/Proteste, representa um novo recorde desde o início do ano passado.

A pescada fresca, carapau, perca e peixe-espada estão no topo dos produtos que mais subiram no último balanço disponibilizado pela DECO/Proteste (entre 4 e 11 de janeiro). A mesma lista de compras custa mais 37 euros do que há um ano.

22.12.22

Vítimas da inflação: “Com sopa, fruta e pão ninguém morre”

Filipa Almeida Mendes (texto),Guillermo Vidal (fotografia) e Adriano Miranda (fotografia), in Público online

Com o aumento do custo de vida, os pedidos de apoio às instituições têm crescido. Do outro lado, cada vez mais pessoas se vêem obrigadas a pedir ajuda financeira pela primeira vez.

Um apoio financeiro para pagar as despesas de gás, luz e água “seria o ideal” para João (nome fictício), de 42 anos, conseguir “chegar ao final do mês pelo menos com o frigorífico abastecido”. O dinheiro nem sempre chega e, às vezes, é preciso “cortar” na comida, “principalmente à noite, em que a pessoa acaba por fazer umas refeições mais ligeiras”.

João é designer gráfico e reside em Carnide, Lisboa. Pela primeira vez, viu-se obrigado a pedir ajuda depois de o senhorio o ter informado que a renda mensal que paga pelo aluguer do T0 onde vive iria aumentar com a renovação do contrato, em Março, de 470 para 600 euros e confessa ter-se sentido “um bocadinho perdido”. Foi uma “surpresa”, diz, com um ligeiro sorriso no rosto, embora admita que este é “um preço aceitável dentro do mercado de Lisboa, que está muito caro”.

No início desta semana, dirigiu-se à sua junta de freguesia para solicitar apoio financeiro e aguarda agora uma resposta. “Com a conjuntura toda que estamos a viver e com os aumentos ao nível da energia, água e gás, prevê-se que 2023 seja um ano complicado. Auferindo um ordenado mínimo, começam a ser despesas incomportáveis”, explica, destacando ainda “um grande aumento [do preço] do cabaz mensal”.​

Antigamente, lembra, “bastava ter três televisões” para se pertencer à classe média. Hoje em dia, o panorama alterou-se e o facto de as pessoas “apresentarem um saldo negativo” no final do mês contribui para a perda desse “estatuto”, podendo ser “ainda mais difícil para um casal que tenha filhos” e outro tipo de despesas.

"Nunca precisei e, neste momento, tive mesmo de recorrer"Noelma Marques

João já esteve “do outro lado” a ajudar os “mais necessitados”. Agora, é ele quem precisa de ajuda e salienta que é essencial “não ter vergonha de pedir, quando é preciso”, e não fazer “um tabu do assunto, porque é uma realidade” que se vive devido ao agravamento da inflação.

​Tirar “de um lado para pagar no outro”

Noelma Marques, de 37 anos, viu-se também, pela primeira vez, “numa situação destas”. “Não sou pessoa de pedir ajuda, tento fazer pelas minhas coisas. Nunca precisei e, neste momento, tive mesmo de recorrer.”

Em Março, mudou-se para casa dos pais, no Bairro Padre Cruz, em Carnide, depois de o seu marido ter tido um AVC e a sua vida ter dado “uma volta enorme”. “Ele está com baixa e sou só eu a trabalhar em part-time no Pingo Doce, pelo que tive de recorrer à ajuda de vários sítios”, conta.

Actualmente, vivem naquela casa nove pessoas. As paredes estão decoradas com enfeites de Natal e há uma árvore repleta de luzinhas coloridas, esbanjando espírito natalício.

“Os meus pais têm suportado tudo, porque eu não os consigo ajudar. Eles é que cuidam do meu filho, para eu poder ir trabalhar, e tomam conta do meu marido”, conta Noelma, destacando que “não podia parar de trabalhar”, porque o “pouco” que ganha ajuda a orientar-se e “mesmo assim não chega”. “Com isto dos aumentos pior ainda.”

Há um ano, Noelma e o marido compraram uma casa em Sintra e a prestação mensal aumentou agora 165€. A casa “era um investimento” para o seu filho no futuro. “Dada a situação por que estamos a passar, não sei até que ponto vou conseguir pagar [e manter a casa]”, sublinha.

“Com o meu ordenado, antes, pagava a renda, os seguros da casa e ainda ficava com um dinheirinho para poder pagar água e luz. Neste momento, no final do mês, o meu ordenado só vai para a renda”, lamenta. “Recebi um subsídio de Natal, mas fiquei sem dinheiro, porque foi tudo para despesas.”

Através dos seus pais, conseguiu apoio da junta de freguesia de Carnide, há cerca de meio ano. “Deram-nos um cheque para comprar alimentos e pagar despesas.”

Noelma explica que tira “de um lado para pagar no outro”. Para resolver a sua situação era essencial conseguir uma junta médica que atribuísse “o grau de incapacidade” ao seu marido e lhe permitisse “tratar de seguros” e baixar prestações, mas uma primeira consulta está com “uma demora de três anos”. “Com as rendas, a comida e tudo a aumentar, alguma coisa vai ficar para trás”, diz, enquanto uma lágrima lhe escorre pelo rosto.

Suportar as despesas nesta casa lotada “tem sido muito difícil”, mas a entreajuda sobrepõe-se. Os banhos vão-se reduzindo sempre que possível e a alimentação é feita com o contributo de todos. “Ninguém vai para a cama de barriga vazia. Se não se comer bifes, come-se sopa. Com sopa, fruta e pão ninguém morre”, diz a mãe de Noelma, Maria Albertina Galvão.

“Infelizmente, a gente não sabe o dia de amanhã”, salienta Noelma. No hipermercado onde trabalha, todos os dias ouve dizer que “cada vez está a haver um aumento maior em tudo”. “As pessoas já não procuram luxos.”

"Ninguém vai para a cama de barriga vazia"Maria Albertina Galvão

No seu caso, além de todos os apoios que vai recebendo, tem tentado vender bens que foi adquirindo ao longo do tempo e que vão “ajudando a pagar contas”. “Coisas que eu fui conquistando são coisas de que eu me vou desfazendo”, afirma. “Até agora, não fiquei a dever nada, mas já não posso falar pelo final do mês.”

João acredita que a actual situação deriva também “muito” da guerra na Ucrânia e da pandemia de covid-19. “Todos temos noção que 2023 vai ser um ano de desafios. Infelizmente, sabemos o dia de amanhã”, diz. Foi exactamente essa noção que o fez “antecipar-se e pedir ajuda”. “É bom que as pessoas estejam atentas ao que aí vem para se precaverem e não tenham vergonha de procurar as instituições, que também vão precisar de ajuda”, observaa.
Famílias estão mais frágeis

Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade (LBV), destaca que a instituição tem vindo a registar um aumento dos pedidos de apoio, “principalmente de pessoas que estão com bastante vulnerabilidade a nível financeiro para fazer face a todas as despesas”. Passado o “boom da pandemia, as famílias acabaram por ficar mais frágeis ainda, porque os custos dos alimentos aumentaram”.

O perfil de quem procura ajuda tem-se também alterado. “Temos apoiado mais famílias que, embora estejam a trabalhar, o valor que recebem não é suficiente para colmatar as necessidades ou então em que um dos elementos do agregado está desempregado”, afirma Susana Veiga. A rede nacional Cáritas tinha já alertado, em Novembro, para “um aumento da procura por parte de famílias em situação de empregabilidade”.

Susana Veiga explica que as pessoas procuram “apoio mensal não só ao nível de alimentos, mas também de roupa, artigos de higiene e pontualmente de limpeza”. Actualmente, a LBV está a apoiar 250 famílias em Lisboa, 30 em Braga, 50 em Coimbra e até 270 famílias no Porto.

A ajuda que a LBV fornece depende também dos produtos que consegue arrecadar, contando com o apoio de várias empresas, hipermercados, colaboradores e benfeitores. “Fazemos aqui a triagem dos alimentos para que seja possível dar às nossas famílias um cabaz com a maior variedade possível.” No Natal, o cabaz “vai mais reforçado” e nas instalações da LBV as caixas de bolo-rei já estão preparadas para serem distribuídas.

"As famílias precisam deste apoio quase no imediato"Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade

Susana Veiga acredita que a procura vai continuar a aumentar e concorda que “as instituições têm de ter capacidade de se adaptar”, porque, quando vão ao seu encontro, as “famílias precisam deste apoio quase no imediato”.

“A vida está muito cara”

Lurdes Ferreira, de 63 anos, é uma das pessoas que a LBV ajuda mensalmente. Está desempregada há mais de uma década e vive há sete anos no Bairro do Regado, no Porto, cujos prédios, brancos e acinzentados, condizem com o dia que está chuvoso e igualmente pálido. No bloco 12, Lurdes abre a porta do prédio onde vive e começa a subir os andares até chegar ao seu apartamento. “Custa-me muito subir estas escadas”, confessa, ofegante.

A sua casa é pequenina, mas está impecavelmente decorada com naperões brancos, plantas e quadros que Lurdes foi arranjando. A vizinha do lado deu-lhe a cómoda e a mesa-de-cabeceira que estão no quarto, assim como um microondas. “Esse sofá também me deram. Aquele quadro encontrei na rua”, conta.

Lurdes recebe cerca de 143€ de rendimento mínimo e paga 11,40€ de renda, mais as contas da luz e da água. Vale-lhe a ajuda da LBV, que todos os meses lhe fornece as mercearias. “Dão-me arroz, massa, uns queijinhos, iogurtes, leite, carne, fruta, hortaliça, feijão e, na altura do Natal, também dão uns chocolatinhos e uns doces.”

Além disso, é “muito poupada”: “Quando eu tomo banho, meto a água num balde e ponho só um fio de água quando lavo as mãos e a cara. Só acendo a luz para ir à casa de banho e cozinhar à noite.”

O dinheiro que lhe sobra serve para comprar, “de vez em quando, leite, ovos ou uma coxa de frango”, assim como produtos de limpeza, mas o aumento dos preços não ajuda. “A vida está muito cara.” O que resta serve ainda para comprar comida para as duas gatas, pretas com manchas brancas, que resgatou da rua. “As minhas meninas são a minha companhia”, confessa, enquanto uma delas dorme no seu colo.

“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar. Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte"Lurdes Ferreira

A ajuda vem de vários sítios. A sua vizinha, por exemplo, “põe sempre um saco de batatas à porta” e deu-lhe autorização “para ir lá tirar quando quiser”. “Até tive necessidade de umas botas e uns ténis e a LBV também me deu”, afirma, enquanto suspira. A cada dois meses, Lurdes recebe também cerca de 40€ da Segurança Social para ajudar com a medicação.

“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar”, diz Lurdes. “Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte. O mundo está um caos, porque vê-se muita gente necessitada.”
Deixar contas para o mês a seguir

Voltando a Lisboa, Rita Vale de Almeida, assistente social da junta de freguesia de Carnide, admite que, nos últimos meses, tem assistido a um “aumento significativo dos pedidos de apoio”. Desde Setembro, faz “uma média de 50 atendimentos por mês”.

A junta distribui um cabaz mensal de alimentos (cedidos pelo Banco Alimentar de Lisboa e por alguns hipermercados da zona) a cerca de 60 agregados familiares e, embora “a esse nível não tenha aumentado muito — até porque os critérios são rigorosos, porque não podem ter um banco alimentar sem fim” —, observa-se um acréscimo no número de pessoas que lá se dirigem para pedir outros tipos de apoio. “As pessoas gastam mais no supermercado e evitam pagar aquelas coisas que podem deixar para o mês a seguir.”

A maioria dos que recebem já usufrui de apoios e habita nos bairros sociais da Horta Nova e Padre Cruz, nomeadamente “idosos, pessoas sozinhas e que ficaram de repente sem trabalho ou mais isoladas”. Mas também “aparece um caso ou outro que teve uma situação emergente na vida”, além de “muitas pessoas vindas da Ucrânia que estão sem chão”.

A Junta de Freguesia de Carnide trabalha em parceria com outras instituições, nomeadamente com a Santa Casa da Misericórdia, até mesmo para evitar que haja apoios duplicados. Neste momento, tem à disposição o Fundo de Emergência Social, um apoio financeiro para medicamentos, rendas, contas, alimentação, entre outros. Há cerca de dois meses, recebeu também um novo “apoio extraordinário e de transição” da câmara municipal ligado à parte alimentar “para apoiar as pessoas que, nesta fase, estão a sentir alguma dificuldade, dado o problema da inflação”. Este novo apoio está ainda em fase inicial e “não vai passar só pelo Banco Alimentar”, havendo a possibilidade de serem atribuídas “refeições confeccionadas ou recorrer a parceiros da freguesia”.

"O mundo está um caos porque vê-se muita gente necessitada" Lurdes Ferreira

“As conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”

Foi a Junta de Freguesia de Carnide que também valeu a Sérgio Cristino, de 48 anos, que reside no Bairro Padre Cruz. Era trabalhador independente, mas em Março deste ano cessou a actividade e foi então que o pesadelo começou. Tinha uma dívida à Segurança Social há cerca de cinco meses, “porque o dinheiro não chegava”, e suspenderam-lhe o subsídio de cessação de actividade, tendo estado oito meses sem qualquer tipo de rendimento.

Quando tal aconteceu, Sérgio começou “a disparar em todas as direcções”, para pedir ajuda financeira, e viu-se obrigado a pedir apoio alimentar pela primeira vez. “Nunca mais vinha subsídio nenhum e as conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”, explica.

A junta de freguesia entrou em contacto com uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia, que encaminhou Sérgio para o centro de dia no cimo do Bairro Padre Cruz, todos os dias à hora de almoço, para receber uma refeição. “Era uma ajuda que eu agradecia muito, mas [a obrigação de estar lá a determinadas horas] ia-me prender, porque eu precisava de procurar trabalho e resolver estas situações e tinha de me dirigir a montes de lugares”, afirma. E prossegue: “Se fosse chamado para algo do centro de emprego, ia falhar e ficar sem refeição.”

Durante este período difícil da sua vida, Sérgio teve “ajudas de amigos que têm outro apoio alimentar”. “Por incrível que pareça, às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam.” Entretanto, também foi arranjando “alguns trabalhos e uns trocos aqui e ali para ir conseguindo sobreviver” e pediu dinheiro emprestado. Em Novembro, quando voltou a receber finalmente o subsídio de cessação de actividade, “o dinheiro desapareceu logo”, porque teve de pagar as dívidas.

Sorrindo de nervoso, Sérgio admite que um sentimento de revolta se apoderou de si e critica toda a burocracia e a forma como algumas instituições o trataram — “ajuda todos podemos precisar”. Além disso, destaca a demora em reavaliarem o seu caso, mesmo depois de ter conseguido pagar a dívida à Segurança Social por volta de Maio. Neste momento, a sua situação está mais estabilizada e a sua “luta agora é outra: arranjar um emprego”.

"Às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam"Sérgio Cristino

Mas a vida tem sido difícil para muitos. “Acho que há gente a precisar e que tem vergonha de pedir; gente que pede e, se calhar, não tem a ajuda d que precisa; gente que tem ajuda e que a desperdiça; e gente que precisa de ajuda e não sabe como pedir”, afirma Sérgio. A conclusão é uma: “Estamos todos no mesmo barco.”

19.12.22

Vítimas da inflação: “Com sopa, fruta e pão ninguém morre”

Filipa Almeida Mendes (texto),Guillermo Vidal (fotografia) eAdriano Miranda (fotografia), in Público online

Com o aumento do custo de vida, os pedidos de apoio às instituições têm crescido. Do outro lado, cada vez mais pessoas se vêem obrigadas a pedir ajuda financeira pela primeira vez.

Um apoio financeiro para pagar as despesas de gás, luz e água “seria o ideal” para João (nome fictício), de 42 anos, conseguir “chegar ao final do mês pelo menos com o frigorífico abastecido”. O dinheiro nem sempre chega e, às vezes, é preciso “cortar” na comida, “principalmente à noite, em que a pessoa acaba por fazer umas refeições mais ligeiras”.

João é designer gráfico e reside em Carnide, Lisboa. Pela primeira vez, viu-se obrigado a pedir ajuda depois de o senhorio o ter informado que a renda mensal que paga pelo aluguer do T0 onde vive iria aumentar com a renovação do contrato, em Março, de 470 para 600 euros e confessa ter-se sentido “um bocadinho perdido”. Foi uma “surpresa”, diz, com um ligeiro sorriso no rosto, embora admita que este é “um preço aceitável dentro do mercado de Lisboa, que está muito caro”.

No início desta semana, dirigiu-se à sua junta de freguesia para solicitar apoio financeiro e aguarda agora uma resposta. “Com a conjuntura toda que estamos a viver e com os aumentos ao nível da energia, água e gás, prevê-se que 2023 seja um ano complicado. Auferindo um ordenado mínimo, começam a ser despesas incomportáveis”, explica, destacando ainda “um grande aumento [do preço] do cabaz mensal”.​

Antigamente, lembra, “bastava ter três televisões” para se pertencer à classe média. Hoje em dia, o panorama alterou-se e o facto de as pessoas “apresentarem um saldo negativo” no final do mês contribui para a perda desse “estatuto”, podendo ser “ainda mais difícil para um casal que tenha filhos” e outro tipo de despesas.

João já esteve “do outro lado” a ajudar os “mais necessitados”. Agora, é ele quem precisa de ajuda e salienta que é essencial “não ter vergonha de pedir, quando é preciso”, e não fazer “um tabu do assunto, porque é uma realidade” que se vive devido ao agravamento da inflação.

​Tirar “de um lado para pagar no outro”

Noelma Marques, de 37 anos, viu-se também, pela primeira vez, “numa situação destas”. “Não sou pessoa de pedir ajuda, tento fazer pelas minhas coisas. Nunca precisei e, neste momento, tive mesmo de recorrer.”

Em Março, mudou-se para casa dos pais, no Bairro Padre Cruz, em Carnide, depois de o seu marido ter tido um AVC e a sua vida ter dado “uma volta enorme”. “Ele está com baixa e sou só eu a trabalhar em part-time no Pingo Doce, pelo que tive de recorrer à ajuda de vários sítios”, conta.

Actualmente, vivem naquela casa nove pessoas. As paredes estão decoradas com enfeites de Natal e há uma árvore repleta de luzinhas coloridas, esbanjando espírito natalício.

“Os meus pais têm suportado tudo, porque eu não os consigo ajudar. Eles é que cuidam do meu filho, para eu poder ir trabalhar, e tomam conta do meu marido”, conta Noelma, destacando que “não podia parar de trabalhar”, porque o “pouco” que ganha ajuda a orientar-se e “mesmo assim não chega”. “Com isto dos aumentos pior ainda.”

Há um ano, Noelma e o marido compraram uma casa em Sintra e a prestação mensal aumentou agora 165€. A casa “era um investimento” para o seu filho no futuro. “Dada a situação por que estamos a passar, não sei até que ponto vou conseguir pagar [e manter a casa]”, sublinha.

“Com o meu ordenado, antes, pagava a renda, os seguros da casa e ainda ficava com um dinheirinho para poder pagar água e luz. Neste momento, no final do mês, o meu ordenado só vai para a renda”, lamenta. “Recebi um subsídio de Natal, mas fiquei sem dinheiro, porque foi tudo para despesas.”

Através dos seus pais, conseguiu apoio da junta de freguesia de Carnide, há cerca de meio ano. “Deram-nos um cheque para comprar alimentos e pagar despesas.”

Noelma explica que tira “de um lado para pagar no outro”. Para resolver a sua situação era essencial conseguir uma junta médica que atribuísse “o grau de incapacidade” ao seu marido e lhe permitisse “tratar de seguros” e baixar prestações, mas uma primeira consulta está com “uma demora de três anos”. “Com as rendas, a comida e tudo a aumentar, alguma coisa vai ficar para trás”, diz, enquanto uma lágrima lhe escorre pelo rosto.

Suportar as despesas nesta casa lotada “tem sido muito difícil”, mas a entreajuda sobrepõe-se. Os banhos vão-se reduzindo sempre que possível e a alimentação é feita com o contributo de todos. “Ninguém vai para a cama de barriga vazia. Se não se comer bifes, come-se sopa. Com sopa, fruta e pão ninguém morre”, diz a mãe de Noelma, Maria Albertina Galvão.

“Infelizmente, a gente não sabe o dia de amanhã”, salienta Noelma. No hipermercado onde trabalha, todos os dias ouve dizer que “cada vez está a haver um aumento maior em tudo”. “As pessoas já não procuram luxos.”

No seu caso, além de todos os apoios que vai recebendo, tem tentado vender bens que foi adquirindo ao longo do tempo e que vão “ajudando a pagar contas”. “Coisas que eu fui conquistando são coisas de que eu me vou desfazendo”, afirma. “Até agora, não fiquei a dever nada, mas já não posso falar pelo final do mês.”

João acredita que a actual situação deriva também “muito” da guerra na Ucrânia e da pandemia de covid-19. “Todos temos noção que 2023 vai ser um ano de desafios. Infelizmente, sabemos o dia de amanhã”, diz. Foi exactamente essa noção que o fez “antecipar-se e pedir ajuda”. “É bom que as pessoas estejam atentas ao que aí vem para se precaverem e não tenham vergonha de procurar as instituições, que também vão precisar de ajuda”, observaa.
Famílias estão mais frágeis

Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade (LBV), destaca que a instituição tem vindo a registar um aumento dos pedidos de apoio, “principalmente de pessoas que estão com bastante vulnerabilidade a nível financeiro para fazer face a todas as despesas”. Passado o “boom da pandemia, as famílias acabaram por ficar mais frágeis ainda, porque os custos dos alimentos aumentaram”.

O perfil de quem procura ajuda tem-se também alterado. “Temos apoiado mais famílias que, embora estejam a trabalhar, o valor que recebem não é suficiente para colmatar as necessidades ou então em que um dos elementos do agregado está desempregado”, afirma Susana Veiga. A rede nacional Cáritas tinha já alertado, em Novembro, para “um aumento da procura por parte de famílias em situação de empregabilidade”.

Susana Veiga explica que as pessoas procuram “apoio mensal não só ao nível de alimentos, mas também de roupa, artigos de higiene e pontualmente de limpeza”. Actualmente, a LBV está a apoiar 250 famílias em Lisboa, 30 em Braga, 50 em Coimbra e até 270 famílias no Porto.

A ajuda que a LBV fornece depende também dos produtos que consegue arrecadar, contando com o apoio de várias empresas, hipermercados, colaboradores e benfeitores. “Fazemos aqui a triagem dos alimentos para que seja possível dar às nossas famílias um cabaz com a maior variedade possível.” No Natal, o cabaz “vai mais reforçado” e nas instalações da LBV as caixas de bolo-rei já estão preparadas para serem distribuídas.
"As famílias precisam deste apoio quase no imediato"Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade

Susana Veiga acredita que a procura vai continuar a aumentar e concorda que “as instituições têm de ter capacidade de se adaptar”, porque, quando vão ao seu encontro, as “famílias precisam deste apoio quase no imediato”.

“A vida está muito cara”

Lurdes Ferreira, de 63 anos, é uma das pessoas que a LBV ajuda mensalmente. Está desempregada há mais de uma década e vive há sete anos no Bairro do Regado, no Porto, cujos prédios, brancos e acinzentados, condizem com o dia que está chuvoso e igualmente pálido. No bloco 12, Lurdes abre a porta do prédio onde vive e começa a subir os andares até chegar ao seu apartamento. “Custa-me muito subir estas escadas”, confessa, ofegante.

A sua casa é pequenina, mas está impecavelmente decorada com naperões brancos, plantas e quadros que Lurdes foi arranjando. A vizinha do lado deu-lhe a cómoda e a mesa-de-cabeceira que estão no quarto, assim como um microondas. “Esse sofá também me deram. Aquele quadro encontrei na rua”, conta.

Lurdes recebe cerca de 143€ de rendimento mínimo e paga 11,40€ de renda, mais as contas da luz e da água. Vale-lhe a ajuda da LBV, que todos os meses lhe fornece as mercearias. “Dão-me arroz, massa, uns queijinhos, iogurtes, leite, carne, fruta, hortaliça, feijão e, na altura do Natal, também dão uns chocolatinhos e uns doces.”

Além disso, é “muito poupada”: “Quando eu tomo banho, meto a água num balde e ponho só um fio de água quando lavo as mãos e a cara. Só acendo a luz para ir à casa de banho e cozinhar à noite.”

O dinheiro que lhe sobra serve para comprar, “de vez em quando, leite, ovos ou uma coxa de frango”, assim como produtos de limpeza, mas o aumento dos preços não ajuda. “A vida está muito cara.” O que resta serve ainda para comprar comida para as duas gatas, pretas com manchas brancas, que resgatou da rua. “As minhas meninas são a minha companhia”, confessa, enquanto uma delas dorme no seu colo.
“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar. Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte"Lurdes Ferreira

A ajuda vem de vários sítios. A sua vizinha, por exemplo, “põe sempre um saco de batatas à porta” e deu-lhe autorização “para ir lá tirar quando quiser”. “Até tive necessidade de umas botas e uns ténis e a LBV também me deu”, afirma, enquanto suspira. A cada dois meses, Lurdes recebe também cerca de 40€ da Segurança Social para ajudar com a medicação.

“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar”, diz Lurdes. “Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte. O mundo está um caos, porque vê-se muita gente necessitada.”
Deixar contas para o mês a seguir

Voltando a Lisboa, Rita Vale de Almeida, assistente social da junta de freguesia de Carnide, admite que, nos últimos meses, tem assistido a um “aumento significativo dos pedidos de apoio”. Desde Setembro, faz “uma média de 50 atendimentos por mês”.

A junta distribui um cabaz mensal de alimentos (cedidos pelo Banco Alimentar de Lisboa e por alguns hipermercados da zona) a cerca de 60 agregados familiares e, embora “a esse nível não tenha aumentado muito — até porque os critérios são rigorosos, porque não podem ter um banco alimentar sem fim” —, observa-se um acréscimo no número de pessoas que lá se dirigem para pedir outros tipos de apoio. “As pessoas gastam mais no supermercado e evitam pagar aquelas coisas que podem deixar para o mês a seguir.”

A maioria dos que recebem já usufrui de apoios e habita nos bairros sociais da Horta Nova e Padre Cruz, nomeadamente “idosos, pessoas sozinhas e que ficaram de repente sem trabalho ou mais isoladas”. Mas também “aparece um caso ou outro que teve uma situação emergente na vida”, além de “muitas pessoas vindas da Ucrânia que estão sem chão”.

A Junta de Freguesia de Carnide trabalha em parceria com outras instituições, nomeadamente com a Santa Casa da Misericórdia, até mesmo para evitar que haja apoios duplicados. Neste momento, tem à disposição o Fundo de Emergência Social, um apoio financeiro para medicamentos, rendas, contas, alimentação, entre outros. Há cerca de dois meses, recebeu também um novo “apoio extraordinário e de transição” da câmara municipal ligado à parte alimentar “para apoiar as pessoas que, nesta fase, estão a sentir alguma dificuldade, dado o problema da inflação”. Este novo apoio está ainda em fase inicial e “não vai passar só pelo Banco Alimentar”, havendo a possibilidade de serem atribuídas “refeições confeccionadas ou recorrer a parceiros da freguesia”.
"O mundo está um caos porque vê-se muita gente necessitada"Lurdes Ferreira
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“As conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”

Foi a Junta de Freguesia de Carnide que também valeu a Sérgio Cristino, de 48 anos, que reside no Bairro Padre Cruz. Era trabalhador independente, mas em Março deste ano cessou a actividade e foi então que o pesadelo começou. Tinha uma dívida à Segurança Social há cerca de cinco meses, “porque o dinheiro não chegava”, e suspenderam-lhe o subsídio de cessação de actividade, tendo estado oito meses sem qualquer tipo de rendimento.

Quando tal aconteceu, Sérgio começou “a disparar em todas as direcções”, para pedir ajuda financeira, e viu-se obrigado a pedir apoio alimentar pela primeira vez. “Nunca mais vinha subsídio nenhum e as conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”, explica.

A junta de freguesia entrou em contacto com uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia, que encaminhou Sérgio para o centro de dia no cimo do Bairro Padre Cruz, todos os dias à hora de almoço, para receber uma refeição. “Era uma ajuda que eu agradecia muito, mas [a obrigação de estar lá a determinadas horas] ia-me prender, porque eu precisava de procurar trabalho e resolver estas situações e tinha de me dirigir a montes de lugares”, afirma. E prossegue: “Se fosse chamado para algo do centro de emprego, ia falhar e ficar sem refeição.”

Durante este período difícil da sua vida, Sérgio teve “ajudas de amigos que têm outro apoio alimentar”. “Por incrível que pareça, às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam.” Entretanto, também foi arranjando “alguns trabalhos e uns trocos aqui e ali para ir conseguindo sobreviver” e pediu dinheiro emprestado. Em Novembro, quando voltou a receber finalmente o subsídio de cessação de actividade, “o dinheiro desapareceu logo”, porque teve de pagar as dívidas.

Sorrindo de nervoso, Sérgio admite que um sentimento de revolta se apoderou de si e critica toda a burocracia e a forma como algumas instituições o trataram — “ajuda todos podemos precisar”. Além disso, destaca a demora em reavaliarem o seu caso, mesmo depois de ter conseguido pagar a dívida à Segurança Social por volta de Maio. Neste momento, a sua situação está mais estabilizada e a sua “luta agora é outra: arranjar um emprego”.
"Às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam"Sérgio Cristino
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Mas a vida tem sido difícil para muitos. “Acho que há gente a precisar e que tem vergonha de pedir; gente que pede e, se calhar, não tem a ajuda d que precisa; gente que tem ajuda e que a desperdiça; e gente que precisa de ajuda e não sabe como pedir”, afirma Sérgio. A conclusão é uma: “Estamos todos no mesmo barco.”

15.11.22

Portugal pode sofrer problemas de comida devido à seca e já é dos piores na pobreza energética

Luís Reis Ribeiro, in Dinheiro Vivo

Bruxelas. Portugal ainda não entra em recessão no ano que vem, mas leva com o maior balde de água fria: ritmo da economia é o que mais cai na Europa entre 2022 e 2023.

A crise da energia e a inflação estão a colocar a economia portuguesa num ponto perigoso: o país já é um dos mais afetados da Europa pelo risco de pobreza energética, indicou ontem a Comissão Europeia (CE).

Mas em cima disto há um problema latente e grave a formar-se: devido à incerteza global e a um fenómeno "específico" que afeta a Península Ibérica, a seca, Portugal pode sofrer "repercussões prolongadas no abastecimento alimentar", alerta a CE no capítulo dedicado à economia portuguesa.

Ontem, sexta-feira 11, a Comissão apresentou as novas previsões de outono e o quadro é mau, seja para Portugal, seja para os restantes países da União Europeia (UE).

O caso de Portugal, uma economia que se destacou até 2019 pelo forte crescimento, boa parte dele puxado por um setor turístico muito forte, depois interrompido pela pandemia, voltou a crescer muito em 2022, mas por um motivo menos bom: a inflação insuflou a faturação das empresas e a receita fiscal.

Mas em 2023 a maior parte desse efeito deve desaparecer, colocando a economia numa rota da estagnação.

Ontem, sobre Portugal, a CE ainda disse que se pode esperar uma retoma na segunda metade de 2023, mas que no ambiente atual de guerra, inflação e enorme incerteza, isso pode não se concretizar.

Para já, o cenário central é que Portugal, depois de um crescimento anómalo em pleno ano de crise energética (puxado num primeiro momento pela inflação muito alta), que a CE estima possa chegar a 6,6% (melhor até do que a estimativa do governo, que é de 6,5% de expansão real da economia em 2022), o país deve travar a fundo.

A previsão de crescimento avançada agora por Bruxelas relativa a 2023 é de 0,7%, quase metade do que diz o governo (1,3%) na proposta de Orçamento do Estado do ano que vem (OE2023).

O maior balde de água fria no crescimento

Cálculos do Dinheiro Vivo com base nas novas previsões da Comissão mostram que Portugal não entra ainda em recessão, mas terá o maior balde de água fria no crescimento: a taxa de expansão da economia é a que mais vai cair na Europa entre o valor obtido em 2022 e o previsto em 2023: é um arrefecimento de 5,9 pontos percentuais, o maior da UE.

Eslovénia, Hungria, Grécia e Croácia também vão sentir bastante a travagem das suas economias (um abatimento de 5 pontos percentuais na taxa de crescimento verificada este ano), mas não tanto quanto Portugal.

Fora estes cinco casos de arrefecimento súbito em 2023, há já países que devem entrar em recessão: é o caso da enorme Alemanha, a maior economia da UE, da Suécia e da Letónia.

Problemas de comida e pobreza na energia

Mas um dos pontos mais raros no diagnóstico divulgado ontem é mesmo a menção a problemas prolongados na oferta de produtos alimentares em Portugal, muito por causa da seca, algo que pode prejudicar ainda mais a economia a prazo.

"Os riscos para as perspetivas de crescimento de Portugal permanecem significativamente do lado negativo à luz do ambiente global incerto e dos riscos específicos do país relacionados com a grave seca na Península Ibérica, que podem ter repercussões prolongadas no abastecimento alimentar doméstico", atira a Comissão.

Ou seja, a seca que leva a maus anos agrícolas em Portugal e Espanha (país que fornece abundantemente Portugal com bens alimentares, por exemplo) pode conduzir a um aumento dos custos destes bens importados. Mais valor em importações significa menos PIB, logo, menos crescimento real. É essa a ideia.



Excerto da análise a Portugal nas previsões económicas de outono, 11/nov/2022

© Comissão Europeia

Em cima disto, um novo tipo de pobreza que foi relevado pela inflação e a guerra. Segundo um estudo incluído nas novas previsões, Bruxelas indica que Portugal está em quinto lugar no ranking do risco de pobreza energética. Piores do que Portugal estão Lituânia, Croácia, Letónia e Roménia.

A CE define risco de pobreza energética sempre que a fatura da luz e restantes formas de energia levam 30% ou mais do orçamento familiar, algo que se transforma num problema grave a partir do momento em que as famílias deixam de conseguir pagar as contas e começam a atrasar pagamentos. Que, como sabemos, pode levar a anulação de contratos.

Esse é o ponto crítico definido no estudo. Em Portugal, cerca de 10% da população já estará nesta situação limite de pobreza energética. É cerca de um milhão de pessoas, basicamente. A percentagem é a quinta maior da Europa.

A CE faz uma projeção das condições atuais e conclui que, se nada for feito ou se alterar, a inflação e a debilidade da economia podem empurrar mais 5% da população para uma situação limiar de pobreza energética.

A Lituânia, um dos países mais vulneráveis e dependentes da energia da Rússia (assim como muitos Estados do leste europeu), pode vir a ter 35% da população em risco de pobreza energética se a situação atual não desanuviar. É o pior caso projetado no estudo.

Pobreza energética em % da população que vive no limite financeiro para conseguir pagar as contas

© Comissão Europeia

A CE diz que o efeito do aumento dos preços da energia pode criar pobreza energética, que é quando "as famílias não têm acesso aos serviços energéticos essenciais", estando previsto um "aumento da pobreza energética como resultado do aumento do custo de vida". Ou seja, há famílias que estão ou vão sentir "um aumento da dificuldade financeira devido ao aumento dos preços da energia".

Sobre o caso português, o comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, em resposta a uma pergunta da Lusa, disse reconhecer "o impacto substancial [dos apoios do governo a famílias e empresas] e penso que é importante abordar os riscos de pobreza energética, que, naturalmente, existem para vários Estados-membros".

"Não é fácil [acabar com apoios], mas é o nosso apelo", diz Gentiloni

Mas acrescentou logo que "o que sempre pedimos é que estas medidas sejam tão temporárias e direcionadas quanto possível; sabemos que não é fácil, mas é o nosso apelo", atirou o italiano.

A Comissão deixou ainda outros sinais. Por exemplo, a inflação prevista para este ano e o próximo em Portugal vai ser claramente mais elevada do que dizem governo e ministro das Finanças no OE2023.

Ou seja, a destruição do poder de compra das famílias portuguesas deve ser mais agressiva do que se anda a dizer, na leitura da CE.

O agravamento dos preços (inflação) deste ano deve disparar até uns históricos 8% e no ano que vem a inflação ainda se mantém muito elevada, suavizando apenas para 5,8%. Fernando Medina, no OE2023 entregue há cerca de um mês, previu uma inflação de 7,4% em 2022 e de apenas 4% em 2023.

Além disso, há a sombra da subida dos juros. Bruxelas teme que a inflação possa chegar a 6,1% em 2023, ou seja, mais do triplo do objetivo do BCE (2%), o que deve acelerar ainda mais as taxas de juro.