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28.8.23

Produtores de gado reduzem animais para fazer face à crise

Glória Lopes, in JN

A subida dos custos de produção deixou os produtores de gado transmontanos numa situação aflitiva e muitos estão a reduzir o número de animais nas explorações para aguentar a crise.


O aumento dos preços da alimentação, decorrentes da carência no mercado e de dois anos de seca, criaram problemas transversais a todas as raças, principalmente as autóctones, como a de bovinos de raça Mirandela, a de ovinos Churra da Terra Quente e a Cabra Serrana, entre outras.


No caso dos bovinos de raça Mirandesa muitos criadores já começaram a vender animais, para baixar o efetivo nas explorações. “Dois anos maus, com seca e de má produção de forragens, deixou os produtores de gado com problemas. Este ano não há falta de água para os animais beberem, mas devido à seca as forragens não cresceram, porque as sementeiras de outono e inverno tiveram um ano mau”, explicou Válter Raposo, secretário técnico da Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa.

O preço da palha este ano está a cerca de 20 cêntimos/fardo quando nos anos anteriores era vendida a quatro ou cinco cêntimos. Ainda assim, há produtores que já comparam palha a 80 cêntimos o fardo. “Não há onde comprar porque os principais fornecedores são espanhóis e não tem stock, pois também tiveram maus anos agrícolas”, acrescentou Válter Raposo.


Os criadores pedem mais ajudas à produção. “Com a mudança do Quadro Comunitário de Apoio as ajudas pouco aumentaram. Só subiram 10 euros nas agroambientais, que nem paga os custos de produção”, deu conta o secretário técnico da associação.

A redução do efetivo põe em causa a raça autóctone que ainda é considerada em risco de extinção. “O efetivo andava na casa dos cinco mil, mas já reduziu bastante. Os criadores optaram por retirar animais. Nestes últimos dois anos tem havido pouca recria e o efetivo tem diminuído. Em vez de um produtor ter 60 animais passou a ter 40”, referiu Válter Raposo.


O cenário pode agravar-se porque nos últimos dois meses os criadores têm contado com as forragens da campanha agrícola deste ano e que deviam ser para consumo no inverno. “Ficam sem armazenamento para o tempo frio”, observou o responsável.


Os agricultores dizem que a carne de bovinos de raça Mirandesa se vende bem, mas que o preço é baixo face aos gastos para a produzir. “Seria necessário que o preço da carne subisse. Neste momento os agricultores estão em grandes dificuldades porque gastam muito para criar os animais”, admitiu Licínio Martins, produtor de gado.


Também na Terra Quente os pastores estão a optar por ter menos ovelhas. Prevê-se que esta raça perca 15% do efetivo a curto prazo. Atualmente conta com cerca de 11.800 fêmeas. “Esta raça autóctone alimenta-se nas pastagens, mas por causa da seca há menos alimento”, referiu uma fonte da Associação Nacional de Criadores de Ovino de Raça Churra da Terra Quente (ANCOTEQ), em Torre de Moncorvo.

A falta de pastos obriga os pastores a comprar forragens, o que representa mais um encargo nas explorações.

28.7.23

Plataforma para seguir preços alimentares do produtor ao consumidor está para breve

Isabel Aveiro, in Público


Informação que permitirá ao consumidor aceder à formação do preço desde a produção é fruto do contrato de 230 mil euros com a Euroteste, da Kantar. Governo está a ultimar a plataforma.


A plataforma que irá disponibilizar publicamente a evolução dos preços da produção até ao consumidor final, que o Ministério da Agricultura e Alimentação está a desenvolver, poderá vir a ser “lançada ainda durante o mês de Julho”, espera a tutela.


De acordo com gabinete do ministério liderado Maria do Céu Antunes, até agora “os dados sobre os preços no consumidor, recolhidos através do serviço contratualizado com a Euroteste, ainda não foram disponibilizados publicamente”. A Euroteste, que pertence ao grupo Kantar, foi contratada, por 230 mil euros, no final de Março, para o fornecimento de dados sobre os preços ao consumidor do cabaz alimentar.


O que o Ministério da Agricultura e Alimentação explica agora, em resposta escrita ao PÚBLICO, é que foi preciso “criar uma plataforma web específica” para o “Observatório de preços da cadeia alimentar”.

Será um complemento do Observatório de Preços – Nacional é Sustentável, que já está a fornecer, desde Outubro de 2022, “informação sobre os preços na primeira venda”, ou na produção. E que é um sucedâneo do observatório criado em 2015 que, como a legislação sobre as Práticas Individuais Restritivas do Comércio (PIRC), nasceu na sequência do aumento das promoções na distribuição cujo evento do 1 de Maio de 2012 (na cadeia Pingo doce) evidenciou. A PARCA - Plataforma de Acompanhamento das Relações na Cadeia Alimentar) tinha-os antecedido, em finais de 2011.


Explica agora a tutela que a plataforma que está a ser ultimada irá permitir ao utilizador, “sempre que os dados estejam disponíveis, acompanhar a evolução dos preços nas várias etapas da cadeia de valor da fileira”.

Será o GPP – Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral do Ministério da Agricultura, que está a “receber, através do serviço contratualizado com a Euroteste – Marketing e Opinião, informação sobre os preços no consumidor do cabaz” alimentar previamente identificado, que irá ser o gestor da plataforma, assegurar o apoio logístico e administrativo e suportar “os custos desta contratação”, estando a “aquisição dos serviços de desenvolvimento da plataforma” incluída “no projecto Rede Rural Nacional PDR2020 aprovado”.


Completo agora com a nova plataforma a ser lançada, o Observatório de Preços (OP) tem como objectivo "proporcionar maior transparência e coerência de informação para todo o mercado agro-alimentar, com informação desde o produtor ao consumidor”. A meta do ministério, explica o seu gabinete de imprensa, é que o OP constitua “uma fonte de informação, transparente e credível" que sirva "para disponibilizar dados factuais dos preços e margens em cada elo de todas as fases da cadeia” e “recolher e analisar informação ao nível da estrutura de custos”.


“Estrutural”, não “conjuntural”, o OP não foi criado “para responder ao problema inflacionário que atravessamos”, salienta ainda fonte oficial do Ministério da Agricultura, separando a criação deste mecanismo da situação de inflação elevada que levou o executivo a escolher 46 bens alimentares sujeitos a redução do imposto sobre o valor acrescentado, através do IVA Zero, em vigor desde 18 de Abril.


A criação do observatório “e a contratação dos serviços de consultoria é anterior ao Pacto [para a Estabilização e redução de Preços dos Bens Alimentares] e não tem qualquer relação com este”. Razão suficiente, explica o ministério, para a informação que está a ser recolhida não ser utilizada pela Comissão de Acompanhamento prevista no pacto que o Governo estabeleceu com a produção agrícola e agro-pecuária, através da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal, e com os operadores de redes de super e hipermercados no país, através da APED - Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição.

[...]

A 30 de Março de 2023, o Governo assinou um contrato no valor de 230,01 mil euros com a Euroteste (187 mil euros mais IVA) para a “aquisição de serviços de informação e acompanhamento dos preços, pagos pelos consumidores, de um conjunto de produtos representativos do cabaz alimentar em Portugal Continental”, compreendendo a “recolha semanal” desses dados para este ano e o próximo, além do “histórico de informação relativamente aos anos de 2019, 2020, 2021 e 2022”.

[...]
Consulai já analisou fileira do leite

Havendo “informação disponível” de “preços ao produtor agrícola” – respondeu o ministério sobre o porquê de contratar uma outra empresa privada por mais de 50 mil euros quando já existem os serviços do ministério, o GPP, a PARCA, o INE e a academia para fornecer informação –, "o que estava em falta ou existia de forma reduzida, e foi necessário contratar, era a informação na fase de transformação e pouco significativa no consumidor”, bem como informação que permitisse “uma análise detalhada de componentes de formação de valor em todas as fases da fileira, de forma comparável”.
[...]

Contactada, a Consulai explica que uma parte do trabalho já foi entregue. “Nesta fase, e após termos concluído a análise da primeira fileira (leite UHT), estamos a trabalhar sobre as fileiras do trigo e do arroz”. São oito as “fileiras abrangidas” no contrato do Estado com a consultora especializada em agricultura: além das três já mencionadas, a Consulai irá analisar ainda a fileira da pêra e da maçã, das carnes de aves, dos ovos, da carne de suíno e do azeite, explica Pedro Miguel Santos, director-geral da empresa, em resposta escrita ao PÚBLICO.


Ressalva o gestor que a componente da Consulai “não se centra sobre a iniciativa do IVA Zero nem sobre o acompanhamento de preços”.

“Os relatórios são entregues ao GPP, que os apresentará e discutirá no âmbito da PARCA, antes de os divulgar no site”. E conclui o gestor: “da nossa parte, os trabalhos seguem como previsto, em estreita colaboração com os operadores de cada fileira”.
[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

27.6.23

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE

in Público online

Os aumentos mais acentuados no preço médio da produção agrícola registaram-se em Portugal e em Espanha, com a seca a prejudicar a oferta.

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE
A subida homóloga dos preços dos produtos agrícolas de base abrandou, no primeiro trimestre, para os 17% na União Europeia (UE), com Portugal e Espanha a apresentarem o maior aumento (33%), divulgou nesta segunda-feira o Eurostat.

A avaliação agora divulgada pelo Eurostat recai sobre o preço pago à saída da produção, não sendo o valor final ao consumidor, que é ainda intermediado pelas actividades de transporte, logística e distribuição (retalhista ou grossista).

[artigo disponível só para assinantes]

26.6.23

Portugal vai receber 11 milhões para apoios a agricultores

in RR

Comissão Europeia vai distribuir um total de 330 milhões de euros pelos Estados-membros.

A Comissão Europeia propôs um apoio de 11 milhões de euros para os agricultores em Portugal, de um total de 330 milhões de euros para 22 Estados-membros da União Europeia (UE) afetados por fenómenos climáticos adversos, como seca.

“A Comissão propõe a mobilização de financiamento comunitário adicional para os agricultores da UE afetados por fenómenos climáticos adversos, custos elevados dos fatores de produção e diversas questões relacionadas com o mercado e o comércio”, anuncia a instituição numa nota à imprensa, esta segunda-feira.

Ao todo, o novo pacote de apoio (que é mobilizado com base numa reserva de crise) consistirá em 330 milhões de euros para 22 Estados-membros e, desta verba, cerca de 11,6 milhões de euros dizem respeito a Portugal e à sua situação de seca.

“Os agricultores da UE da Bélgica, República Checa, Dinamarca, Alemanha, Estónia, Irlanda, Grécia, Espanha, França, Croácia, Itália, Chipre, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Áustria, Portugal, Eslovénia, Finlândia e Suécia beneficiarão deste apoio excecional de 330 milhões de euros do orçamento da Política Agrícola Comum”, explica o executivo comunitário.

Caberá às autoridades nacionais distribuir estas verbas “diretamente aos agricultores para os compensar pelas perdas económicas devidas às perturbações do mercado, às consequências dos elevados preços dos fatores de produção e da rápida descida dos preços dos produtos agrícolas e, se for caso disso, pelos prejuízos causados pelos recentes fenómenos climáticos, particularmente graves na Península Ibérica”, indica a instituição.

Além disso, “os países podem complementar este apoio da UE até 200% com fundos nacionais”, adianta.

A proposta surge depois de os Estados-membros terem partilhado com Bruxelas as suas avaliações das dificuldades enfrentadas pelos respetivos setores agrícolas.

Por se tratar de uma reserva de crise, a medida será votada pelos países na próxima reunião do comité para a organização comum dos mercados agrícolas.

Também hoje, no Conselho de Agricultura, os ministros da UE aprovaram um pacote de apoio de 100 milhões de euros para os agricultores da Bulgária, Hungria, Polónia, Roménia e Eslováquia, com base numa outra proposta de Bruxelas.

“Várias outras medidas, incluindo a possibilidade de pagamentos antecipados mais elevados, deverão apoiar os agricultores afetados por fenómenos climáticos adversos”, de acordo com a Comissão Europeia.

O setor agrícola tem estado sob pressão desde a pandemia de covid-19 e o aumento dos preços da energia e dos fatores de produção agrícola, como os fertilizantes, na sequência da invasão russa da Ucrânia, cenário ao qual se tem juntado a severa seca na Península Ibérica.

26.5.23

Se a meloa está isenta de IVA, porque não está a melancia? A resposta está na lei

Pedro Crisóstomo, in Público


Fisco emitiu novos esclarecimentos sobre a aplicação do IVA de 0%, com exemplos práticos — do tamanho do porco à variedade de melão.


A Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) actualizou os esclarecimentos sobre a aplicação do IVA de 0% para clarificar se determinados produtos são, ou não, abrangidos pela isenção temporária.

Uma das curiosas dúvidas que a administração fiscal sentiu necessidade de esclarecer tem que ver com a taxa a aplicar à meloa e à melancia. Nenhuma das frutas está na lista dos 46 tipos de bens abrangidos pela isenção, mas a verdade é que os supermercados e lojas podem aplicar o IVA de 0% à meloa mas não à melancia, que continua a ter de ser vendida com o IVA de 6%.

[Artigo exclusivo para assinantes]


22.5.23

A seca prolongada na Europa já chegou, décadas antes do previsto

Bloomberg, in Público online

A Europa aqueceu mais rápido do que o resto do mundo e o sector agrícola é o mais afectado. Medidas para combater a seca são debatidas em Espanha, mas desagradam a agricultores e conservadores.

Uma rede de poços escavados na Idade Média permite aos agricultores da aldeia de Letur, no Sul de Espanha, cultivar oliveiras, tomates e cebolas numa das regiões mais áridas da Europa. Agora, a seca, que se alastra por todo o continente, ameaça até mesmo este antigo oásis.

Um complexo sistema tem mantido a terra da aldeia húmida e fresca ao longo de guerras, invasões estrangeiras e desastres naturais. Mas os 200 agricultores que dele dependem começam a preocupar-se pela primeira vez, à medida que os níveis de água em múltiplas e gigantescas barragens espanholas descem para mínimos sem precedentes e os canais construídos nos anos 70, que transformaram a região circundante numa potência agrícola, começam a secar.

Se a seca se prolongar por muito mais tempo, Luis López, um olivicultor de 43 anos, receia que as explorações industriais vizinhas, que utilizam o moderno sistema de irrigação para cultivar culturas com grande consumo de água, como a alface e a melancia, comecem a explorar as reservas preservadas de Letur.

“Sinto-me como se fôssemos a última aldeia gaulesa da banda desenhada Astérix”, diz López, referindo-se à saga de ficção sobre a aldeia que resiste à ocupação dos romanos. “Preocupa-me que, quando eles ficarem sem água, venham buscar a nossa.”

A seca só vai intensificar esta batalha pela água. Alfonso Sánchez, professor de matemática e ambientalista

A Espanha, uma região desértica da União Europeia, sofre com a seca mais severamente e por mais tempo do que outras grandes economias da UE. A sua proximidade com África coloca-a directamente no caminho das correntes de ar quente que se dirigem a norte, vindas do deserto do Sara.

Mas o calor não abranda em Espanha; o tempo mais quente e seco torna-se a norma em toda a Europa. A batalha da água que se trava em Letur é um presságio de conflitos que se vão desenrolar noutros locais e o que quer que aconteça à indústria agrícola espanhola — uma das principais fontes de abastecimento dos seus vizinhos — será sentido em toda a região.

“A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência”, defende Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique do Mónaco. “Torna-se também um problema financeiro, porque é preciso gastar mais dinheiro na procura de alimentos.”
O sector agrícola é um dos mais afectados

Os anos seguidos de seca podem ser devastadores, pois sectores como a agricultura não têm tempo para recuperar, pelo que os impactos se acumulam estação após estação, crescendo exponencialmente. A produção espanhola de azeite — que representa 45% da oferta mundial — deverá reduzir-se para mais da metade nesta estação, enquanto a de cereais como o trigo e a cevada cairá até 60%, segundo Gabriel Trenzado, director das Cooperativas Agro-alimentares de Espanha, um grupo da indústria agrícola.

A situação ainda não é tão grave noutras partes da UE, onde a previsão oficial é de que a colheita de cereais, no seu conjunto, recupere cerca de 7% em relação à época passada. A precipitação em França, o principal produtor de cereais da União, melhorou desde o período de seca do Inverno, e as classificações das culturas para a colheita de trigo de 2023 são as mais elevadas para esta altura em mais de uma década. Em algumas zonas, a chuva é excessiva, acarretando um atraso nas plantações de cevada e de beterraba-sacarina em partes da Alemanha devido ao mês de Março mais chuvoso desde 2001.

A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência. Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique de Monaco.

Os agricultores da região não têm de enfrentar apenas a seca, mas também um clima menos previsível. Em 2022, a Espanha viveu uma onda de calor semelhante à que assolou o país em Abril deste ano, até que a tempestade Ciril provocou uma descida invulgar das temperaturas, levando a perdas de milhões de euros por parte dos produtores de frutos e nozes. “O facto de haver seca não significa que não chova, significa que as chuvas, por vezes, chegam em alturas inesperadas”, disse Trenzado. “Tudo é muito sensível.”

Os preparativos da Europa para um futuro mais seco esforçam-se para acompanhar o ritmo das rápidas mudanças climáticas. O continente aqueceu quase duas vezes mais depressa do que o resto do mundo nas últimas três décadas, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e o impacto económico tem sido significativo.

A interrupção da passagem de mercadoria devido aos rios estarem nos níveis mais baixos de sempre causou perdas de milhares de milhões de euros. Além disso, também prejudicou a produção de electricidade a partir de centrais hidroeléctricas e nucleares, agravando a escassez de energia causada pela invasão russa na Ucrânia e contribuindo para a pior crise de custo de vida que a Europa enfrentou nas últimas gerações. As quebras nas colheitas provocadas pela seca podem ainda contribuir para a subida dos preços dos alimentos.

A diminuição do escoamento para os lagos e mares da Europa também agrava os riscos ambientais, aumentando a temperatura da água e prejudicando os ecossistemas, segundo o programa europeu Copernicus Climate Change Service (C3S). E há ainda a maior probabilidade de incêndios florestais, que, no ano passado, queimaram paisagens europeias com dimensões três vezes maior do que o Luxemburgo.

É o segundo ano consecutivo de condições extremamente secas e quentes no Sudoeste da Europa, impulsionadas por uma onda de calor antes do Verão que começou três meses mais cedo do que o habitual. A Espanha acaba de registar o mês de Abril mais quente e mais seco da história.

Por outro lado, a neve acumulada nos Alpes, uma das principais fontes de água para França e Itália, é a mais baixa em mais de uma década, agravando anos de chuvas e queda de neve abaixo da média. Mais a norte, a Alemanha e o Reino Unido registaram anomalias pluviométricas tão graves como as de Espanha.

As alterações climáticas correspondem a projecções científicas de menos precipitação e temperaturas mais elevadas na Europa num planeta mais quente, declarou Andrea Toreti, investigador sénior do Centro de Investigação Comum (JRC, na sigla em inglês) da União Europeia, um órgão científico independente que aconselha as autoridades da UE. Mas a ocorrência regular deste nível de seca era prevista ocorrer só em 2043. “Se nada for feito, prevemos que este evento possa ocorrer quase todos os anos”, disse.

Em Itália, onde a escassez de água afecta a região agrícola mais produtiva do país, a crise tornou-se uma prioridade governamental gerida por uma unidade especial liderada pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini. A França, que este ano sofreu o mais longo período de Inverno sem chuva de que há registo, estabeleceu um novo objectivo para reduzir o consumo de água em 10% até ao final desta década.

“A seca do ano passado foi excepcional em comparação com o que já vivemos, mas não será excepcional em comparação com o que viveremos”, disse o Presidente francês Emmanuel Macron num discurso em Março. “Ninguém está a dizer que esta situação vai melhorar.”
Agricultores e políticos discordam das medidas adoptadas pelo Governo

O Governo espanhol tem-se esforçado por encontrar soluções. Apesar de ter gastado milhares de milhões para melhorar o seu sistema de gestão da água, os reservatórios espanhóis ainda têm cerca de metade da sua capacidade. Numa recente reunião de emergência do Conselho de Ministros, as autoridades deram luz verde a um pacote de 2,2 mil milhões de euros que inclui reduções fiscais e ajuda aos agricultores, a juntar às medidas já anunciadas que custarão 22 mil milhões de euros.

O mais controverso é o facto de o Governo espanhol limitar a quantidade de água utilizada na irrigação das culturas. A medida enfureceu os agricultores e encorajou os políticos conservadores antes das eleições autárquicas do final do mês, vistas como um termómetro para as perspectivas do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, que procura a reeleição em Dezembro. Sánchez, que tem insistido em medidas mais fortes para combater as alterações climáticas, também entrou em conflito com os legisladores de direita que pretendem alargar os direitos à água dos agricultores numa das zonas húmidas mais protegidas da Europa, localizada no Sul de Espanha.

Sánchez reconheceu não haver uma resposta fácil. “O debate em torno da seca vai estar no centro do debate político e territorial do nosso país nos próximos anos”, disse aos deputados em Abril.

A competição pelo acesso à água em Espanha já está a colocar vários grupos uns contra os outros: grandes empresas agrícolas e pequenos agricultores, activistas ambientais e lobistas empresariais, políticos locais e o Governo central.

As tensões estão à vista em Almería, uma província que regista regularmente as temperaturas mais elevadas da Europa. A terra costumava ser tão seca e árida que ali foram filmados filmes de Western, como O Bom, o Mau e o Vilão, protagonizado por Clint Eastwood. Tudo mudou em 1979, quando o Governo construiu cerca de 300 quilómetros de canais e gasodutos — conhecidos como transvase Tejo-Segura — que trouxeram água da planície central para o deserto do Sul.

Mais de quatro décadas depois, a terra fértil de Almería abriga tantas estufas que o “mar de coberturas de plástico” pode ser visto do espaço. Tornou-se o coração do sector espanhol de frutas e legumes frescos, que movimenta 18 mil milhões de euros. Durante todo o ano, as explorações agrícolas fornecem frutos que necessitam de água em abundância para crescer, como as laranjas e os limões, às cadeias de supermercados de toda a Europa.

Mas esta proeza da engenharia não protegeu o abastecimento de água da região da seca crescente. Em Pulpí, uma cidade de Almería, as grandes explorações agrícolas tiveram de reduzir as áreas cultivadas, comprar água a outras cidades e arrendar terras mais a norte com acesso à água suficiente para manter a produção. Há dois anos, a Barragem de Negratin, que fornece o maior volume da água de Pulpí, teve de parar de bombear devido à descida do nível da água.

Os produtores de alimentos de Pulpí reagiram ferozmente ao plano do Governo espanhol de limitar a água retirada do transvase Tejo-Segura. “Sem água, Almería vai regredir décadas”, declarou José Caparrós, executivo de uma grande quinta, que pertence a um grupo responsável por gerir sistema de irrigação da cidade. “Precisamos de opções para ter acesso à água e alimentar o país.”

A reacção estendeu-se a toda cadeia alimentar espanhola — que engloba as zonas do Sudeste de Almería, Valência e Múrcia — com um grupo de pressão a afirmar que as restrições podem custar à indústria cerca de 6 mil milhões de euros e 15.000 postos de trabalho.

Alguns políticos aproveitaram o descontentamento nas suas campanhas para as eleições locais de 28 de Maio. Ximo Puig, presidente de Valência e membro do partido socialista de Sánchez, discordou abertamente do Governo central a respeito do plano de restrição do acesso à água. Em vez disso, repetiu a retórica dos candidatos da oposição que também tentam conquistar os votos dos agricultores. A vitória destes candidatos pode aumentar a resistência às políticas ambientais e de conservação da água de Sánchez antes das eleições gerais de Dezembro.
A luta para evitar novos poços ilegais

Alfonso Sánchez, um professor de Matemática do liceu que se tornou ambientalista e que vive em Múrcia, viu como a agricultura em grande escala — possibilitada pela captação de água subterrânea e de rios próximos — remodelou a sua cidade natal, Caravaca de la Cruz. Na década de 1990, centenas de pequenos agricultores não tiveram outra opção senão vender as suas terras a grandes empresas ou juntar-se a elas na produção de culturas que necessitam de muita água. Anos de agricultura mecanizada reduziram os recursos hídricos em até 60% na região, de acordo com um relatório do grupo verde de Sánchez.

Em vez de mudarem as suas práticas e de se adaptarem às condições mais secas dos últimos anos, muitos agricultores abriram poços ilegais para explorar água subterrânea. A Greenpeace estima que existam mais de um milhão de poços não autorizados em Espanha, utilizados principalmente para irrigar as culturas. Sánchez está a trabalhar para evitar que surjam mais, mas teme que a situação só piore à medida que a água se torna menos disponível. “Estamos a nadar contra a corrente”, salientou. “A seca só vai intensificar esta batalha pela água.”

15.5.23

Seca: a “maior catástrofe de sempre” já está à nossa espera na bacia do Sado

Carlos Dias (texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público


Espera-se o pior na produção de cereais e na pecuária. Os animais não têm alimento e os produtores pecuários já enfrentam a escassez de água. As searas estão perdidas. Nem a palha se aproveita.


Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.

Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.

Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.

É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.

Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.

No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.

Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.

O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.

Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz

Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.

Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.

Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.

Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.

“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral


De 30 para dois fardos de forragem por hectare

O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”

A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”

Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.

Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”

Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"

Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

Barragens no vermelho

Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.

Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.


O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.

Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”

O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.

“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.

Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.

Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.

11.5.23

Para já, ministro do Ambiente diz que não vai limitar uso de água nas nossas casas

por Lusa, in Público


No Sul de França, a proibição de piscinas, rega e lavagem de carros entrou em vigor a 10 de Maio. Por cá, o ministro Duarte Cordeiro diz que ainda não é necessário impor “uma cultura de proibição”.


O ministro do Ambiente e da Acção Climática, Duarte Cordeiro, descartou, para já, a adopção de medidas proibitivas relativamente ao consumo de água, como por exemplo para piscinas, face à situação de seca que se vive sobretudo no sul do país.

"Não vale a pena estarmos a introduzir uma cultura de proibição quando ela, neste momento, ainda não é necessária. Quando ela é necessária, nós não hesitamos, como aconteceu quando limitámos, por exemplo, em determinadas barragens da zona Monte da Rocha, ou a decisão que foi tomada pela ministra da Agricultura, de limitar novas culturas na zona do [rio] Mira", disse aos jornalistas, no Porto, Duarte Cordeiro, à margem do lançamento do concurso público para a construção da Linha Rubi do metro.

O ministro tinha sido questionado acerca de eventuais proibições, por exemplo, em piscinas privadas e, anteriormente, sobre medidas excepcionais tomadas na sequência da situação de seca sobretudo no sul do país, cuja declaração foi feita na segunda-feira.

A venda de piscinas de jardim vai ser proibida numa região do sul de França devido ao agravamento da escassez de água. Em declarações à rádio RTL, o ministro francês da Transição Ecológica, Christophe Béchu, disse que os Pirenéus Orientais, que fazem fronteira com a Catalunha espanhola, serão oficialmente declarados em situação de "crise" de seca a partir de 10 de Maio. "A proibição de lavar os carros, regar os jardins e encher as piscinas será igualmente aplicada a partir da mesma data", acrescentou.

"Já foram tomadas algumas medidas excepcionais", disse, após ter sido convocada uma comissão interministerial de seca "no final do mês de Abril" referiu Duarte Cordeiro aos jornalistas. Segundo o ministro, nessa reunião foram identificadas as zonas mais críticas: a do Barlavento algarvio e a zona do litoral alentejano, "nomeadamente a zona do [rio] Mira, associada à barragem de Santa Clara".

"Há restrições que nós aplicámos relativamente a um conjunto de barragens, quer no Alentejo quer na zona do Barlavento, e há restrições de novas culturas para a zona do Mira, porque neste momento temos que captar a água a uma cota abaixo daquilo que é a cota a que habitualmente vamos buscar água", explicou, referindo-se à medida tomada pela ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes.

Duarte Cordeiro relembrou ainda que actualmente, "na generalidade do país, neste momento, o país tem mais água disponível do que tinha no ano passado", com um nível médio de 80% de água nas albufeiras.

"Neste momento temos uma situação assimétrica, nalgumas zonas do país não antecipamos que tenhamos, neste momento, um problema de abastecimento de água. Temos duas zonas do país, litoral alentejano e a zona do Barlavento, em que tivemos que aplicar medidas para gerir de forma racional os recursos que temos disponíveis", explicou.

A situação de seca meteorológica agravou-se em Portugal continental no mês de Abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, segundo o IPMA.

Na segunda-feira, a ministra da Agricultura e Alimentação, Maria do Céu Antunes, informou ter assinado o despacho que reconhece a situação de seca em 40% do território nacional, no sul do país.

Lusa/Fim

10.5.23

Há quem contorne a seca no Algarve com uma agricultura que regenera

Idálio Revez, in Público online

“Temos de permitir que a natureza faça o seu caminho, e abandonar as plantas mais exigentes em água.” Há agricultores no Algarve que optaram por respeitar os escassos recursos existentes. Com sucesso.

Na Quinta do Freixo, onde não há falta de água, não se plantaram pomares de abacateiros, como seria de esperar. “Essa seria a opção fácil”, diz o sócio-gerente da empresa agrícola, Luís Silva, defensor de uma visão holística para o futuro do mundo rural, em que todas as suas componentes – vegetais e animais – desempenham um papel fundamental. Assim sendo, como é que as ovelhas e outros animais podem ajudar a manter o ecossistema e a terra fértil? A resposta a esta questão serviu de tema para um congresso internacional, realizado no final de Abril e que contou com a presença de 110 pessoas oriundas de 30 países, desde a Nova Zelândia aos EUA, passando pela vizinha Espanha.

A Quinta do Freixo, uma propriedade com 700 hectares situada no interior do concelho de Loulé, foi o local escolhido para juntar agricultores e investigadores preocupados com futuro do planeta. “Estamos numa zona que não é o Alentejo da moda, nem o Algarve do turismo clássico”, diz o sócio-gerente de uma exploração que não segue as linhas clássicas da agricultura. Luís Silva mostra o resultado, no território, do trabalho de um rebanho com mil ovelhas e 600 borregos. “Comem as ervas e deixam o estrume.” O solo agradece o fertilizante natural nele depositado e a regeneração das sementes, sublinha, faz-se de forma espontânea. “A matéria orgânica comporta-se como uma esponja na absorção da humidade” e, a partir daí, tendo a água garantida, todos os seres – animais e vegetais – entram na cadeia reprodutiva, assegurando que a vida pulsa neste espaço.

O que é a agricultura regenerativa?

As alterações climáticas evidenciam os velhos problemas dos países da bacia do Mediterrâneo: chuvas cada vez menos frequentes e mais intensas. “O solo é o maior reservatório, mas para funcionar com esse objectivo precisa de ter práticas agrícolas compatíveis com a preservação dos ecossistemas”, diz o director Regional de Agricultura do Algarve, Pedro Monteiro, destacando a importância da agricultura regenerativa. O conceito, reconhece, “não sendo novo, está a ter uma nova abordagem pela necessidade de encontrar novas soluções para o problema da seca”. No país, adianta, são pouco mais de meia dúzia de projectos a serem ensaiados, dois dos quais estão no Algarve

Os solos em Portugal, diz Pedro Monteiro, também professor da Universidade do Algarve, são pobres e, como tal, têm pouca capacidade de retenção da água. O que a agricultura regenerativa preconiza é aumentar a matéria orgânica na terra para esta criar as condições para uma maior absorção da chuva. A pastorícia, tal como se fazia nos métodos tradicionais da agricultura, está no centro do processo, onde nada se perde e tudo se transforma. Os animais ficam durante um período de tempo numa parcela e ao deixarem na terra os dejectos proporcionam o fermento para que todo o ecossistema renasça. Depois, o gado roda para outro sítio e assim se vai formando um mosaico de biodiversidade, com a natureza a ganhar novas formas e cores.

O tipo de culturas utilizado na agricultura regenerativa é outra das formas de encarar os desafios que se colocam a um território, cada vez mais dependente dos escassos recursos hídricos. A figueira e a alfarrobeira, árvores pouco exigentes em água, readquiriram, neste contexto, uma nova importância e não apenas económica. Os pomares intensivos de citrinos e abacateiros estão nas antípodas do novo conceito que está a ser trilhado: A terra só dá ao homem se ele a souber cuidar e alimentar. Até agora, o recurso aos adubos químicos tem sido prática corrente, para garantir a política da produção máxima a custos menores. Mas até quando?

Os visitantes são convidados a subir para os reboques dos tractores. Os assentos, improvisados, são fardos de palha, amarrados por cordas. “O transporte está homologado [condições de segurança]?”, graceja o representante da Direcção Regional de Agricultura, João Santana. O veículo segue em velocidade lenta. Junto a uma mina de água, Gustavo Alés, espanhol, chama a atenção para a importância dos animais selvagens – raposas e javalis – para manter o equilíbrio das espécies. “Javalis?”, questiona a professora da Universidade do Algarve, Emília Madeira, considerando que os porcos selvagens “são uma praga” devido ao descontrolo da espécie que se verifica por várias regiões do país. “Tenho um vídeo de uma raposa que entrou pelo restaurante adentro”, revela Luís Silva, lembrando que os “animais andam a vaguear” pela quinta, em harmonia com os outros seres. Ao fim e ao cabo, explica, “a gestão holística é perceber como funciona a relação das plantas com os animais e as milhares de ligações que se estabelecem. Não podemos estar contra a natureza, que é o que temos feito”, sublinha.

O tractor sobe a encosta e os adeptos da visão “holística” aplicada ao mundo rural são convidados a observar o desempenho das ovelhas, enquanto estas se alimentam. Os animais, diz Gustavo Alés, “são indissociáveis da actividade do agricultor como sucede há milhares de anos”. O que há de novo, prossegue o consultor do projecto Quinta do Freixo, é o maneio dos animais.

O rebanho (1600 cabeças) fica confinado a 1,5 hectares durante uma semana, ao invés do que se passava no passado, em que se dispersava por dezenas hectares. Na semana seguinte, passa para outra parcela. De princípio, explica, os animais comem as ervas mais apetitosas, como se estivessem num restaurante self-service. “Uma refeição gourmet”, diz o agrónomo Luís Silva. Porém, o método ensaiado foi concebido para levar os animais a diversificar a alimentação, sem direito a escolha de ementa. Numa perspectiva de conservação do ecossistema, diz, não é aconselhável lavrar a terra e mandar abaixo as ervas. Por outro lado, a exposição da terra nua ao sol, enfatiza Luís Silva, “descontrola por completo a microbiologia”. Durante o Verão, exemplifica, a superfície da terra nesta zona algarvia chega a atingir os 50 a 60 graus. Se houver cobertura vegetal, “a temperatura reduz 15 a 20 graus”. As conclusões surgem a partir do resultado das amostras recolhidas em 20 pontos, onde é feita a análise do solo e avaliada a diversidade faunística.

O facto de a quinta se localizar junto ao sítio de Paisagem Protegida da Rocha da Pena e perto da Fonte Grande (Alte) confere-lhe uma situação privilegiada em recursos hídricos. No entanto, a área de regadio é feita com parcimónia. Do conjunto dos 700 hectares da propriedade, 300 são utilizados para pastagens e produção hortícola. Nas restantes parcelas, extrai-se o figo, alfarroba e cortiça. A exploração completa-se com sector da transformação: produção de compotas, queijo de figo e aguardente e ainda há uma unidade de alojamento de agro-turismo com 16 quartos. Do conjunto dos clientes regulares, diz o proprietário, destacam-se os amantes do birdwatching, percursos pedestres e cicloturistas.

O método da gestão holística, que se ensaia nesta quinta há três anos, leva mais de 50 anos de prática noutros países; porém, durante décadas os agricultores estiveram divorciados da academia. Com as alterações climáticas e a terra a dar sinais de cansaço, a “aproximação entre cientistas e agricultores tornou-se imprescindível”. Essa foi a conclusão do congresso, que contou com a presença de Allan Savory, de 88 anos de idade, presidente do Instituto Savory, com sede no Colorado (EUA), bem como alunos e investigadores da Universidade do Algarve.

A agricultura regenerativa, do ponto de vista técnico, disse Allan, “tem conhecidos benefícios ambientais – falta é convencer os políticos”. A Quinta do Freixo, entretanto, anunciou que, graças a este método, recuperou seis hectares de zona de mato (esteva) para pastagem e vai prosseguir com o projecto. No próximo ano, pretende alargar a experiência a mais duas dezenas de hectares, introduzindo a criação de porcos, galinhas e vacas. “Temos de permitir que a natureza faça o seu caminho, e ao mesmo tempo abandonar as plantas mais exigentes em água”, rematou Luís Silva. E deixou uma nota de satisfação: “O nosso carneiro Zambujo voltou a receber (pela segunda vez) a distinção do melhor exemplar da raça campaniça na Ovibeja.”

Sem recorrer ao regadio, Rosa produz os primeiros figos maduros da Europa

Os pássaros namoram os figos que vão crescendo. A fruta, ainda verde, daqui por um mês já estará madura é à venda nos mercados de Paris. “Tudo o que produzo é para exportação, somos os primeiros produtores a chegar à Europa com figos biológicos.” A jovem agricultora Rosa Dias, da Quinta da Fornalha (Castro Marim), decidiu trilhar um percurso contrário àquele que é seguido pelos vizinhos espanhóis do outro lado do Guadiana, onde não há água que chegue para tanto regadio. “Aprendi a fazer aquilo que os meus avós faziam: cultivar a terra respeitando a natureza.” A quinta, de 30 hectares, é outro dos exemplos, a juntar à Quinta do Freixo, onde se pratica a agricultura regenerativa. “Só não tenho é o rebanho das ovelhas”, comenta.

Rosa Dias, licenciada em Psicologia Social, não se deixou seduzir pela cultura dos campos de abacateiros e citrinos como se vê em redor da sua propriedade, exigentes em rega. Por isso optou pelas culturas tradicionais, de sequeiro. “A água é escassa, estamos no clima mediterrânico, ouvimos e lemos, mas ignora-se o que a história nos ensina”, enfatiza. Nesta altura, com mais um ano consecutivo de seca severa, diz, “devíamos estar a conservar a pouca humidade que existe no solo, em vez de aumentar as áreas de regadio”. Ali, à beirinha do rio, chegam as brisas do Guadiana, bênção divina nos dias de calor tórrido. No entanto, a suavidade do vento não chega para matar a sede da terra. Por vezes, sente-se um sopro de ar quente que vem do interior da serra do Nordeste algarvio, como se fosse um prenúncio de incêndio. A diferença de temperaturas entre o dia e a noite, dizem os agricultores, calibra os açúcares da fruta, quando o stress hídrico não deita tudo a perder.

“O figo-lampo, preto, nos finais de Maio já está a sair.” As primeiras colheitas, recorda, podem atingir os 8 euros/quilo nos mercados de França e Alemanha. No pico da produção, Rosa Dias exporta, em média, uma tonelada por semana. “Se tivesse ficado em Lisboa, provavelmente, seria mais uma a fazer estudos de mercado”, diz, a olhar para o verde-escuro das folhas das figueiras. “Os figos são a minha cara”, diz a sorrir.

O regresso à terra onde nasceu, recorda, fê-la reviver os sonhos de criança. “Sou um bocadinho romântica”, admite. Sublinha que aprendeu também a ser gestora: “A quinta estava na falência, a exploração do meu pai não correu bem.” Livrou-se do garrote dos bancos, em 2016, ao fim de seis anos de actividade. A partir daí lançou-se num novo desafio. Em complemento à exploração agrícola, criou um alojamento local para 11 famílias. “Estamos a construir [literalmente] um projecto pedra a pedra.”

As folhas das árvores vão caindo, precipitadas por uma Primavera anormalmente quente. “Já o meu avô dizia: o solo precisa de ser alimentado e a água é vital.” A neta aprendeu a lição.
“Natureza em profundo sofrimento”

Quando chega o mês de Agosto, o Algarve turístico não se dá conta do que se passa na maior parte do território. A pouco mais de meia dúzia de quilómetros de distância das grandes cadeias de hotéis, mais para o interior, a água não corre nas torneiras como se fosse um bem infinito: “A natureza está em profundo sofrimento.” O stress hídrico, lembra Rosa Dias, faz parte da história dos povos do Sul, mas a aceleração do problema, obrigando todo o ecossistema a reagir causa apreensão. “Costumo dizer que, no Verão, vivemos a hibernação ao contrário: as cobras, sapos e outros bichos enfiam-se na terra para se protegerem do calor.”

Na quinta, mostra o pequeno bosque em redor da casa, como se fosse uma bolsa de oxigénio e frescura. As árvores, plantadas de forma a delinear percursos pedestres, têm apenas uma função: criar sombras e amenizar o clima.

A época dos fogos avizinha-se, como se fosse uma fatalidade que se repete ano após ano. O investimento nos meios de combate a incêndios, observa, não resolve todos os problemas. “Não se discutem as más práticas agrícolas, nem formas de melhorar a gestão do território.” As verbas do fundo ambiental, sugere, deveriam ser aplicadas em equipamentos públicos para triturar os sobrantes das podas, fornecendo assim mais matéria para fertilizar o solo. Na falta desse tipo de intervenção, critica, os agricultores, “fazem queimas ou oferecem [a madeira] aos espanhóis que a transportam para Huelva, transformando-a em pellets”.

A Quinta da Fornalha está integrada no perímetro de rega do sotavento algarvio, com água fornecida pelo sistema de barragens Beliche-Odeleite. A agricultura faz-se nas várzeas, seguindo a tradição da localidade. No resto da propriedade, além das culturas das leguminosas (ervilhas e favas), predomina o pomar de sequeiro (figueiras, oliveiras, alfarrobeiras) e ainda uma pequena parcela de citrinos. A quinta possui uma barragem com cerca de um hectare, que não está a ser utilizada. A função é servir de “reserva” e um lugar de repouso de aves e outros animais que ali encontram o seu habitat, como se fossem turistas a gozar férias.

2.5.23

Portuguesa lidera programa da ONU que garante alimentação escolar a 450 mil crianças

Por Lusa, in Público online

Laura representa a Venezuela no Programa Alimentar Mundial, uma agência da ONU com quem trabalha “há mais de 20 anos”

A portuguesa Laura Melo chegou à Venezuela há cerca de um ano e hoje representa no país o Programa Alimentar Mundial (PAM), uma agência da ONU que garante alimentação a 450 mil crianças carenciadas.

"Como PAM aqui na Venezuela, continuamos essencialmente a trabalhar e a apoiar crianças através da alimentação escolar. Estamos a trabalhar em oito estados do país, apoiando cerca de 450 mil pessoas mensalmente, essencialmente crianças, mas também professores e todo o pessoal que está nas escolas onde trabalhamos", disse à agência Lusa.

Laura Melo lembrou que o PAM é uma agência da ONU que promove a segurança alimentar e a nutrição das pessoas mais pobres e vulneráveis, em cerca de 120 países, com milhões de beneficiários "porque, lamentavelmente, do ponto de vista da fome no mundo, a situação está a piorar".

"Em Abril de 2021, o PAM assinou um acordo com o Governo da Venezuela para começar a trabalhar e dar apoio, do ponto de vista de segurança alimentar e nutrição no país", disse, precisando que já tinham estado no país, há muito tempo.

Três meses depois, em Julho, começaram as actividades locais, com a distribuição de comida em escolas até à pré-primária do estado de Falcón, a crianças dos 6 meses aos 6 anos de idade, e em "escolas especiais", a pessoas com deficiências.

"Os programas de alimentação e as actividades de apoio nas escolas existem numa diversidade de países na América Latina (...) apoiamos precisamente para complementar muitas vezes os esforços inclusive do próprio país, para alimentar e ajudar as pessoas mais vulneráveis a terem uma dieta nutritiva. Essencialmente para que as crianças possam ter um desenvolvimento saudável e possam cumprir com o seu potencial", frisou.

Laura Melo explicou que gosta muito do que faz e que tem "muito orgulho" em trabalhar para o PAM, organização com a qual trabalha "há mais de 20 anos".

"Estou apaixonada pela Venezuela. É um país maravilhoso, com gente maravilhosa, com um potencial incrível. E o nosso trabalho é essencialmente apoiar esse potencial, que todas essas oportunidades que há no país possam chegar ao seu máximo", disse.


A responsável frisou ainda que a Venezuela "é um país com uma enorme diversidade geográfica, com uma capacidade e um talento humano absolutamente fantástico": "O desejo de avançar, de conseguir coisas para o seu país é uma coisa extraordinária e dá-nos muito orgulho de poder apoiar a Venezuela."

Por outro lado, explicou que o PAM é uma agência financiada de forma absolutamente voluntária, que conta com países doadores, com uma componente importante do sector privado e outro tipo de organizações.

"Mas, o grande peso vem dos países doadores que estão sempre a financiar onde estão as maiores necessidades e, lamentavelmente, actualmente há muitas crises, muita competição por recursos. A crise da pandemia afectou muitíssimo quase todos os países do mundo e afectou também a situação alimentar desses países", lembrou.

Segundo Laura Melo, "também o conflito na Ucrânia está a afectar muitíssimo a produção de alimentos e de fertilizantes em praticamente todos os países do mundo: onde há produção agrícola, há um aumento de preços e isso traduz-se num aumento de preços dos alimentos para o consumidor e as populações, afectando a capacidade de compra de alimentos diversificados e de garantir uma dieta diversificada, fundamental para uma boa nutrição".

A portuguesa estudou em Portugal e fez um mestrado em Londres onde trabalhou como jornalista. "Depois o jornalismo levou-me a estas coisas do mundo humanitário e a determinada altura, entrei para o PAM, há mais de 20 anos", contou.

"Comecei a trabalhar em África e na última década na América Latina. Já trabalhei no Panamá, em Cuba, Guatemala e agora Venezuela", onde, disse, há também "uma comunidade portuguesa muito extensa".

"É sempre um prazer chegar a um país e ver que Portugal está bem representado (...) ver que os portugueses deixaram um contributo muito importante neste país. Ser portuguesa é sempre uma mais-valia. Somos um país bem visto no mundo em geral. Somos um país com muitíssimas boas relações com todos os países do mundo", disse.

Laura Melo está também, "como portuguesa, muito orgulhosa de poder representar a capacidade e o talento que os portugueses têm e que podem levar para o mundo": "Como portuguesa, tenho realmente muito orgulho de fazer parte da ONU, de poder ser identificada como uma representação de Portugal nas Nações Unidas."

Sobre a comunidade luso-venezuelana, congratulou-se por ser "muito unida, muito representativa" e que "trabalha muitíssimo para promover" os seus membros. "Muitos têm já uma história bastante longa aqui e sentem-se muito identificados também como venezuelanos", mas também como portugueses", acrescentou.

Laura Melo espera que um dia o trabalho que faz de "contribuir para pôr fim à fome no mundo (...) não seja necessário".

"Espero que um dia não haja necessidade de haver no mundo pessoas que lutam contra a fome, que não haja necessidade de nos enfrentarmos com as necessidades de tantas comunidades e tantas famílias. Espero que um dia não haja fome no mundo", concluiu.


2.9.22

Índice alimentar da FAO cai pelo quinto mês consecutivo

Isabel Aveiro, in Público online

Indicador que mede os preços dos bens alimentares essenciais nos mercados de exportação recuou 1,9% em Agosto.

O índice de preços alimentares da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO, na sigla inglesa) recuou 1,9% em Agosto, para 138 pontos, face a Julho.

Foi o quinto mês, consecutivo, em que houve uma redução do indicador que resulta numa média de cinco subíndices de preços de bens alimentares (carne, lacticínios, cereais, óleos vegetais e açúcar) ponderados pela média das quotas de exportação mundial de cada um dos grupos no período de 2014-2016.

O índice, que atingiu o valor mais elevado da sua história de 32 anos em Março passado – em consequência do impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia e dos efeitos que a guerra iniciada a 24 de Fevereiro teve nos mercados de cereais, óleos vegetais e fertilizantes –, terminou Agosto 7,9% acima de igual mês de 2021.

Diz a FAO (sigla em inglês para Food and Agriculture Organization of the United Nations), no seu comunicado emitido esta sexta-feira, que “todos os cinco subíndices” do índice agregado “caíram moderadamente em Agosto, com decréscimos percentuais mensais que variam entre 1,4% para os cereais e 3,3% para os óleos vegetais”.




Reinício das exportações da Ucrânia alivia preço dos cereais

“Em Agosto”, explica a FAO, “os preços internacionais do trigo caíram 5,1%, marcando o terceiro decréscimo mensal consecutivo”, que se justifica com “melhores perspectivas de produção, especialmente no Canadá, Estados Unidos da América e Federação Russa”; por uma “maior disponibilidade sazonal à medida que as colheitas prosseguiam no hemisfério norte”; e pelo retomar das “exportações dos portos do Mar Negro na Ucrânia, pela primeira vez em mais de cinco meses de interrupção”.

“Contudo”, sublinham os responsáveis da agência da ONU para a alimentação mundial, “os preços globais do trigo permaneceram 10,6% acima dos seus valores em Agosto do ano passado”.

A queda mais expressiva, de 3,3%, ocorreu no índice que mede o preço dos óleos vegetais disponíveis para exportação nos mercados internacionais. E, aqui também, há um efeito directo da guerra: “os valores mundiais do óleo de girassol diminuíram” devido a uma menor procura de importação global, “que coincidiu com a retomada gradual dos carregamentos dos portos marítimos da Ucrânia”.

Além disso, o recuo “contínuo do índice foi impulsionado pelos preços mundiais mais baixos dos óleos de palma, girassol e colza”, que “mais do que compensaram as cotações mais elevadas do óleo de soja”. Os preços internacionais do óleo de palma, acrescenta a organização, “caíram pelo quinto mês consecutivo em Agosto”, impulsionados pelo aumento da oferta da Indonésia, “principalmente graças a impostos de exportação mais baixos”, conjugado com o aumento sazonal da produção no Sudeste Asiático.

Nos lacticínios (leite, manteiga e queijo), o recuo do subíndice foi de 2% e na carne de 1,5%. O indicador que monitoriza os preços internacionais do açúcar registou uma queda de 2,1%, em cadeia, face a Julho passado, situando-se agora no patamar mais baixo desde Julho de 2021, acrescenta a FAO.


31.8.22

Hotelaria e restauração, agricultura e construção com falta de trabalhadores

in JN

Proprietários recorrem a mão de obra estrangeira devido ao envelhecimento e despovoamento do interior do país (Leonel de Castro/ Global Imagem)

A agricultura, construção civil, hotelaria e restauração enfrentam a escassez de recursos humanos, defendendo medidas que mitiguem este problema, sendo que a imigração faz parte de uma solução abrangente, de acordo com os responsáveis contactados pela Lusa.

Em declarações à Lusa, o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Oliveira e Sousa, defende que Portugal "precisa de ter programas de qualificação mais adequados ao setor", estimando-se que nesta área de atividade faltem cerca de "cinco milhares" de recursos humanos diferenciados.

Eduardo Oliveira e Sousa criticou a "ausência de políticas públicas consistentes e adequadas" para o setor agrícola, apontando que "há muitos anos" que o Estado português, com algumas exceções, "não encara" a agricultura "com a devida consideração".

Para o presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), Manuel Reis Campos, são necessárias medidas que permitam promover "uma maior mobilidade transnacional dos trabalhadores". Estima-se que neste setor falte cerca de 80 mil trabalhadores.

"Estamos a falar da criação de mecanismos que permitam às empresas fazer uma gestão mais dinâmica e eficiente dos seus recursos humanos e estamos a aguardar a publicação da alteração da nova legislação relativa aos vistos, a qual se espera poder dar um contributo positivo para a resolução dos problemas que temos identificado", refere o responsável.

Por exemplo, o diretor-geral da GesConsult, Nuno Garcia, defende a criação de incentivos para atrair profissionais da construção civil que estão fora do país, setor que sofre "transversalmente com a falta de recursos humanos".

A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) manifesta-se preocupada com a escassez de recursos humanos no turismo, nomeadamente nos setores que representa, e recorda que já apresentou propostas neste âmbito.

A AHRESP acredita que a "imigração faz parte de uma solução abrangente de medidas" para mitigar a falta de recursos humanos no turismo, com a secretária-geral, Ana Jacinto, a congratular-se "com os passos dados pelo Governo", nomeadamente no que respeita à "agilização dos vistos para os imigrantes" provenientes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Para a responsável, "a solução para a escassez de trabalhadores no turismo não é uma via de sentido único, mas sim uma responsabilidade partilhada por todos e que é preciso agir em várias frentes", sendo que "é fundamental que as empresas tenham capacidade para gerar riqueza, para poderem oferecer melhores condições aos seus colaboradores, pois apesar da retribuição financeira não ser o único tópico a ter em conta no leque de soluções para o problema, é sem dúvida um ponto incontornável".

29.7.22

BE critica falta de proteção para migrantes e para o clima

Enzo Santos, in JN

O Bloco de Esquerda esteve esta manhã em Odemira, distrito de Beja, para estar ao lado dos imigrantes que trabalham na agricultura intensiva e "garantem a Portugal que o país funciona e que a agricultura está a funcionar", disse a líder do BE. Discursando na marcha integrada no "Roteiro pela Justiça Climática", Catarina Martins exigiu que as explorações agrícolas que recorrem ao método intensivo e superintensivo sejam submetidas a "avaliações de impacto ambiental" e laboral, que tratem "não só do ambiente, mas também das pessoas".

O BE acusou o Governo de "não mudar nada" para evitar o crescimento das estufas e melhorar os direitos dos trabalhadores e as questões da água e exigiu mais medidas. Porque "sabemos que lutar pelo clima e lutar pelos direitos do trabalho, pelas condições do trabalho, é uma e a mesma coisa", justificou Catarina Martins.

O BE estabeleceu também como objetivo combater "todo o abuso laboral e todo o trabalho forçado" e defendeu que devem ser considerados culpados todos aqueles que lucram com este tipo de práticas.

"Não podemos condenar os trabalhadores a viver em contentores, ou a viver em amontoados em quartos sem condições. As pessoas não podem continuar a pagar tanto para viver tão mal e não podemos ter tanta gente a viver em sítios onde faltam as condições médicas e de educação", disse.

Gestão pública da água

"Se nada for feito e se esta lei não mudar, as estufas vão continuar a aumentar, a água vai ser cada vez menos e os trabalhadores vão continuar a ser explorados", afirmou a coordenadora bloquista, instando o Governo a rever as políticas de gestão da água - ponto que também marcou a agenda da marcha bloquista que decorreu em Odemira, na parte da Costa Vicentina.

O BE bate-se também "para que a água seja gerida de forma pública e não pelos senhores do agro-negócio. Porque é a única forma de ser gerida de uma forma que respeite todas as pessoas e que dê o direito à agua numa altura em que o nosso país sofre tanto com as secas - todo o território nacional esta já em seca", acrescentou Catarina Martins, que discursou "numa das zonas onde a seca é mais visível".

Dirigindo-se aos migrantes presentes, a líder do BE falou em inglês e comprometeu-se a lutar pelos seus direitos.

13.7.22

Medidas para travar a seca em Portugal são “paliativas”

Cláudia Carvalho Silva, in Público

Há anos que a seca assombra o território português e a realidade é só uma: continuará a acontecer e serão mais prolongadas e intensas. Para a combater, há que pensar com tempo e não agir de forma “reactiva”, dizem os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO. Os desperdícios são muitos e há que saber gerir a água, nunca esquecendo que se trata de um bem escasso.

As imagens já corriam e assustavam. O pior confirmou-se quando o Governo decidiu suspender a produção de energia hidroeléctrica em algumas barragens do país. Sem chuva e com pouca água nessas barragens, Portugal voltou a encarar um problema que não é de agora – e que continuará a ser um problema no futuro: a seca. Mas estas medidas, diz a geógrafa Maria José Roxo, são “paliativas”. “Aquilo que nós sempre fazemos e parece que não aprendemos nada com o passado é termos atitudes reactivas. Estamos sempre a reagir ao prejuízo”, comenta, em conversa com o PÚBLICO.

“As secas têm vindo a ser tratadas muitas vezes como se tratou o terramoto de 1755, como se fosse uma coisa esporádica que não acontece mais”, compara também o engenheiro Joaquim Poças Martins, especialista em Hidráulica. Concorda com a suspensão da actividade hidroeléctrica para garantir água para consumo humano, mas acredita que é necessário olhar para a escassez de água de forma diferente. “Vêm aí mais secas, mais severas e mais prolongadas. Essa é a única certeza que temos; portanto, temos de nos adaptar a isso”, vaticina o antigo secretário de Estado do Ambiente.

A parte menos má desta falta de água – e que pode fazer com que não olhemos para as notícias com a gravidade que deveríamos olhar – é que “esta seca não chega à torneira das pessoas”, analisa Poças Martins. Mas já atinge os agricultores e a produção eléctrica.

A principal prioridade do Governo agora é precisamente garantir que “não falta água nas torneiras dos portugueses”, tem dito o ministro do Ambiente e Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes. Mesmo que não chovesse nos próximos dois anos – “algo impensável”, diz –, haveria garantia de água para consumo humano durante esse período.

Vêm aí mais secas, mais severas e mais prolongadas. Essa é a única certeza que temos, portanto temos de nos adaptar a isso

Depois de ter apresentado uma série de medidas para combater a seca em 2018, o ministro afirmou que foi feito um investimento de 500 milhões de euros na renovação dos sistemas de abastecimento de água para diminuir as perdas nas condutas e que tem de haver “práticas agrícolas consentâneas com a disponibilidade de água”. Certo, diz, é que “não podemos contar com a água que não temos”. O que mais pode, então, ser feito?

Não há uma solução – há muitas

A estratégia de Portugal para combater a seca e a falta de água é sempre reactiva, critica a professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa, Maria José Roxo, especialista em Seca e Desertificação. É por aí que se tem de começar: pensar com tempo, “falar antes de as coisas acontecerem” e haver preparação para as evitar, com uma “visão integrada”. Mas “não há uma só solução – há muitas”.

Que medidas poderiam ser tomadas em concreto? Maria José Roxo começa por elencar “medidas mais estruturais”: limpar as barragens, rever sistemas de distribuição de água que estão danificados, “muitos deles no perímetro do Alqueva”, aumentar a capacidade de armazenamento de água, pensar numa agricultura de irrigação mais eficiente na utilização de água.

“Sabemos que os desperdícios são muitos e vamos ser realistas: vamos ter de começar a dizer as coisas tal como elas são, custe o que custar.” Há também que avaliar quais as barragens do país mais assoreadas, com mais materiais depositados, e retirar sedimentos, avaliando o uso do solo e a quantidade de materiais causados por incêndios que podem ir parar às barragens, diz Maria José Roxo. “A limpeza das barragens em 2017 teria sido crucial, até porque depois tivemos anos razoavelmente húmidos”, acredita a académica.

1931

Este é o sexto Janeiro mais seco desde 1931 e o segundo mais seco desde 2000


Outra possibilidade é recuperar as águas da chuva através de “um conhecimento tradicional antigo e modernizá-lo e torná-lo eficiente”. Além disso, há que ter em conta as características do território e da geografia. “Uma medida implementada no Norte do país pode ser um desastre brutal no Sul do país e vice-versa.” As campanhas de sensibilização também são importantes, ainda que aconteçam de forma “esporádica” – o que não ajuda a ver-se a água como um bem escasso, quando parece estar sempre disponível de forma barata.

Manuela Moreira da Silva, investigadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, alerta que os usos não-potáveis “correspondem à maior parte da água que o país consome”, como a rega, usos industriais ou a lavagem de carros, espaços públicos, bocas-de-incêndio e afins. Ainda que a precipitação média tenda a diminuir nos próximos anos, haverá também mais fenómenos de precipitação intensa – as alterações climáticas causam, aliás, uma maior frequência destes eventos extremos. Assim, “será da maior relevância começarmos a captar e armazenar esta água da chuva para posterior utilização”, defende a investigadora e professora no Instituto Superior de Engenharia da Universidade do Algarve.

Sabemos que os desperdícios são muitos e vamos ser realistas: vamos ter de começar a dizer as coisas tal como elas são, custe o que custar Maria José Roxo

E dá o exemplo de um recurso desperdiçado: “Portugal trata actualmente mais de 92% das suas águas residuais urbanas em ETAR, que foram construídas e optimizadas durante os últimos 30 anos, mas reutiliza menos de 2% desses efluentes tratados”. Há também lamas nestas ETAR urbanas que poderão ser “excelentes fontes de fósforo para culturas agrícolas”.

O Ministério do Ambiente e da Acção Climática diz ao PÚBLICO que estão em curso no Algarve projectos para melhorar o tratamento das águas residuais para reutilização (em rega de campos agrícolas ou campos de golfe, por exemplo) para “dotar a região de maior resiliência a fenómenos de escassez de água” e que está em curso a elaboração de planos de gestão de seca para o continente.

Sabendo-se que episódios de seca acontecerão com mais frequência, é “essencial arranjarmos estratégias mais globais, soluções mais duradouras que nos permitam lidar com os fenómenos das alterações climáticas”, acredita Catarina Miranda, coordenadora do projecto Rios Livres, do GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente). A ambientalista acredita que “apostar em alternativas com grande dependência dos recursos hídricos, como as barragens hidroeléctricas e de regadio”, não é a solução, pois só “estimulam o uso de um bem que nós não temos: a água”.

Usar menos água, repensar as formas de agricultura e promover o uso eficiente de água é o caminho a seguir. Outra alternativa pode até ser menos evidente: aumentar a eficiência energética nas casas, por exemplo, permitiria reduzir o gasto de água nas barragens para produção de energia, já que grande parte da energia provém das barragens. Outra é encontrar estratégias que “promovam uma agricultura mais sustentável e menos dependente de barragens de regadio”, com culturas adaptadas ao clima e às regiões. A construção de mais barragens destas, argumenta, poderá levar a ainda mais consumo de água.

Há também que “remover as barragens e barreiras que estão obsoletas”, quando Portugal “está a promover a estratégia contrária, que é uma pressão enorme para construção de barragens de regadio”. “Estamos a andar para trás”, considera Catarina Miranda. A construção da Barragem do Pisão “é um exemplo claro de como o Governo não está a seguir o caminho correcto para a mitigação da seca”.

As barragens podem ser úteis tanto em situações de seca como em situação de cheias e “têm de fazer parte da solução: elas já lá estão, então vamos utilizá-las bem – e vamos cuidar delas”, refere a geógrafa Maria José Roxo. “Tem é de haver uma gestão verdadeiramente eficaz”, havendo manutenção dos canais de rega, uma maior monitorização e cuidado com os solos nas redondezas das barragens.

Joaquim Poças Martins acredita que a construção de mais barragens não é solução. “Não há espaço para elas – e não interessa fazer barragens se elas depois ficam vazias. Fazer barragens não resolve o problema, é preciso ter água...”

No fundo, resume, há três soluções na lista: a dessalinização​, a reutilização de águas e uma boa gestão da água. Mas, ressalva, “não se poupa aquilo que não se mede nem se paga”. Há grandes desperdícios na distribuição e na agricultura, e a solução passa por “responsabilizar o consumo dos utilizadores pelo bem que estão a utilizar, e assim gerem-no bem”, considera. “Temos um discurso de escassez, mas temos uma prática de não valorizar. Como é que se valoriza? Em euros, em cêntimos...”

Na agricultura, que usa cerca de 70% da água em Portugal, a seca pode ser grave sobretudo nos agricultores “que plantam não tendo a certeza de que vão ter água suficiente”. Aí, poderá ser necessário envolver as universidades para que haja uma mudança nas culturas escolhidas: “Nos sítios em que há menos água, há culturas que têm de ser abandonadas.” Regar milho em Agosto, no Alentejo, por aspersão, por exemplo, “é um desperdício de água”.

Seca dura e durará

Com Fevereiro a adivinhar-se seco e sem grande chuva, a preocupação aumenta. As alterações climáticas estão em jogo na equipa adversária, mas “ninguém toma atenção àquilo que os cientistas dizem”, lamenta a especialista Maria José Roxo.

Os dados dizem-nos que a seca meteorológica – causada pela falta de chuva – se “mantém e agravou” no território continental no final de Janeiro de 2022, segundo os números mais recentes do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Todo o território português está em seca: 11,5% em seca extrema, 34,2% em seca severa, 53,7% em seca moderada e 0,6% em seca fraca. O mês de Janeiro foi o sexto mais seco desde 1931 e o segundo mais seco desde 2000 – só ultrapassado pelo ano de seca de 2005.

A falta de chuva tem reflexos na quantidade de água que o país consegue reter com as suas barragens: segundo os dados do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH), no último dia de Janeiro havia 15 albufeiras com disponibilidades inferiores a 40% do volume total. Em comparação com o mês anterior (final de 2021), houve uma descida do volume armazenado em dez bacias hidrográficas.

Maria José Roxo teme que, assim que chover, os ânimos se acalmem e volte tudo ao mesmo. “Quando começar a chover, vamos ficar todos tranquilos. Já choveu. Para o ano, volta-se a não se ter feito nada do ponto de vista estrutural e até de divulgação, de chamar à atenção da população.”

Por agora, segundo o Ministério do Ambiente, não há receio de que faltem recursos para consumo humano. Mas as previsões sobre o que aí vem são menos optimistas. Um relatório apresentado no final de 2021 indica que, nos últimos 20 anos, a disponibilidade de água em Portugal se reduziu cerca de 20% – e os cenários para o futuro são “preocupantes”.

15.6.22

“Queremos uma agricultura que dê resposta ao mercado, que contribua para a segurança alimentar e que crie rendimento para as famílias”

António Monteiro, in Expresso das Ilhas

Com as medidas de desconfinamento as Festas do Município e de Santo António das Pombas iniciadas no dia 2 de Maio decorrem este ano num ambiente mais descontraído, ainda que sem o brilho das festividades anteriores à pandemia. “Não vai haver actividades tão fortes como em outros tempos, mas já é um começo”, relativiza António Aleixo.

Em conversa com o Expresso das Ilhas o edil paulense fala dos efeitos dos quatro anos de seca e da pandemia no município, elenca as medidas do governo e da autarquia para debelar a crise e regozija-se com o lançamento do concurso internacional para a requalificação da orla marítima da Cidade das Pombas até agora uma das grandes preocupações dos moradores da urbe.

Santo Antão enfrenta quatro anos de seca consecutivos, sendo a de 2022 a mais difícil de todos. Qual tem sido o efeito no município?

Realmente o ano de 2022 tem sido difícil se tivermos em consideração a alta taxa de desemprego que ainda perdura, sobretudo entre a camada jovem. Tivemos todo aquele tempo de pandemia em que a economia estava parada, com o desemprego aumentando. Isso preocupou-nos muito e continuamos preocupados com toda esta situação. Portanto, temos que resolver este problema, a Câmara Municipal (CM) com os seus parceiros, neste caso o governo. Claro que há boas perspectivas para o ano de 2022, não apenas através da CM com todos os seus projectos, mas também em parceria com o governo para mudar aquilo que nós entendemos que pode ser mudado, pois mesmo nesta situação de seca e de pandemia há coisas que nós podemos fazer.

Que medidas, naquilo que é da responsabilidade da Câmara Municipal, têm sido implementadas para atenuar os efeitos da pandemia e da seca junto das famílias mais afectadas?

Nós temos um grande projecto que é sobre o Fomento da Práticas Agrícolas Sustentáveis, onde nós elegemos um grupo de pequenos agricultores aos quais temos prestado assistência não só na formação, mas também com doação de equipamentos para rega gota-a-gota para os nossos agricultores não ficarem apenas na fabricação do grogue. Isso tem tido um grande impacto não só junto das famílias, mas também na economia de uma forma geral. Este projecto vem contribuir para a melhoria da condição de vida das famílias, para seu empoderamento e para a segurança alimentar, mas também tem uma componente da gestão da água. Para além disso, para dar confiança aos agricultores e produtores, estamos quase a concluir dois entrepostos agrícolas para também darmos uma contribuição naquilo que nós pensamos que deve ser a nossa cadeia de valores em termos agrícolas. Por outro lado, estamos no processo de aprovação do Selo de Garantia do Município do Paul. Isso tudo porque quando falamos em incentivar as pessoas para a agroindústria temos que dar o primeiro passo. Por isso eu acredito que esse projecto Fomento de Práticas Agrícolas Sustentáveis vai ao encontro daquilo que nós queremos e para além disso também os projectos lançados pelo governo nestes últimos dias, nomeadamente para a valorização das Aldeias Rurais, as obras de requalificação e reabilitação vão modificar tudo aquilo que nós pensamos para o município do Paul. Portanto, são projectos que nós acreditamos que vão melhorar todo o tecido económico e social no nosso município. Estou a dizer isso, porque nós já temos garantia de financiamento não só dos projectos de valorização das Aldeias Rurais, de requalificação dos caminhos bem como do projecto de Fomento de Práticas Agrícolas Sustentáveis. Evidentemente que temos também projectos a desenvolver no sector das pescas. Por isso acreditamos que estamos no bom caminho neste sentido.

O que espera do Plano de Retoma do Setor Privado Pós Covid-19 do governo, publicado em Janeiro deste ano?

É evidente que o Plano de Retoma só agora foi apresentado para dar conhecimentos às pessoas não só daquilo que são as oportunidades de financiamento. As pessoas estão optimistas e quando assim é, nós também ficamos satisfeitos, pois acreditamos que vai dar resultados positivos na dinamização da economia e para fixar as pessoas aqui no nosso município. É evidente que isso leva o seu tempo, mesmo nos dois projectos que referi anteriormente, nomeadamente a requalificação dos caminhos e a valorização das aldeias. São projectos com financiamento garantidos, não na totalidade, mas isso já é muito bom para aquilo que nós queremos, que é estarmos preparados para a retoma do turismo porque acreditamos que os municípios de Santo Antão terão uma resposta a dar nesta vertente do turismo através de coisas concretas que já temos garantia que vão acontecer.

Foi anunciado recentemente o arranque do ensino superior em Santo Antão no mês de Setembro, voltado para as Ciências Agrárias. O que significa este alargamento para o município do Paul?

Para nós é uma notícia que acolhemos com grande satisfação, porque acreditamos que muitas pessoas desta ilha que ainda não tiveram oportunidade de estudar, vão poder realizar os seus sonhos, pois nós sabemos o que é que custa a um estudante fora do seu habitat natural viajar para São Vicente, Praia ou para o exterior. É sempre muito mais custoso do que estudar aqui. Portanto, é sempre uma grande notícia e nós estamos satisfeitos, mas é evidente que não queremos que a universidade seja apenas na vertente agrícola, porque não faz muito sentido.

Segundo o governo, corresponde à vocação da ilha.

Pois, é a vocação da ilha, mas queremos muito mais do que sermos apenas uma ilha agrícola. Somos muito mais do que apenas uma ilha agrícola e acho que o tempo vai-nos dar razão. Mas estamos satisfeitos com esta notícia, os estudantes estão optimistas e agora é fazer a nossa parte para podermos dizer que valei a pena ter o ensino superior aqui em Santo Antão.

O alargamento do ensino superior a Santo Antão irá estancar a saída de jovens para outras ilhas?

Bom, nós não somos contra a saída de pessoas, mas queremos também propor alternativas, ou seja, criar mecanismos para reter aqui os jovens no nosso município, ou na ilha, mas os que quiserem sair por outros motivos, tudo bem. Agora, nós temos que nos esforçar cada vez mais para criar condições para que os jovens tenham opções de escolha. Ou seja, quando terminarem uma formação, terem emprego aqui, ou noutro ponto do país. Agora, da forma como estamos aqui ainda não existem alternativas para os jovens. Portanto, a situação é preocupante, mas acreditamos que com o ensino superior aqui, certamente que teremos maiores oportunidades para jovens formados conseguirem emprego aqui e não terão necessidade de sair. É que muitas vezes os jovens saem para estudar no Mindelo ou na Praia e depois surge uma oportunidade de emprego nestas cidades e depois não haverá essa vontade de regressar e assim ficamos cada mais pobres em termos de talentos. Esta fuga de talentos é preocupante para Santo Antão e seus municípios, pois estamos sempre a começar do zero justamente por causa do problema da oportunidade de formação e de emprego.

Segundo os agricultores, a falta de mão-de-obra está a afectar esta actividade sobretudo no tempo de azáguas. Quais as razões desta situação?

A agricultura nos últimos anos tem sido muito pouco cativante para os jovens. É que ainda praticamos uma agricultura do tempo dos nossos avós, ou mesmo bisavós. Aquilo que nós pretendemos é ter uma agricultura cada vez mais industrializada, porque só desta forma é que a economia ganha. É que praticando uma agricultura rudimentar, nós não vamos a lado nenhum. Por isso acreditamos que com o ensino superior poderemos mudar a forma de praticar a agricultura, mesmo também a questão da economia de escala, porque não havendo escala é também difícil. Como disse atrás, o projecto de Fomento de Práticas Agrícolas Sustentáveis vai ao encontro daquilo que nós queremos para a agricultura, apostando na transformação, conversação e embalagem dos produtos, criando assim toda uma logística para que as pessoas possam constatar no terreno que a agricultura está a dar resultados. Porque, caso contrário, vamos continuar com a monocultura da cana-de-açúcar, que, como se costuma dizer, é a lei do menor esforço. Ou seja, se não conseguirmos vender a nossa aguardente ela fica lá conservada no armazém até o dia em que conseguirmos vendê-la. Não é isso o que nós queremos, queremos que o agricultor tenha dinheiro disponível todos os dias. E isso só acontece se formos capazes de industrializar a nossa agricultura para podermos também darmos uma resposta no âmbito da demanda turística. Estamos optimistas quanto ao turismo, mas para isso temos que ter também produtos para colocarmos nos restaurantes, nos hotéis para não ficarmos sempre a importar tudo, quando aqui no nosso município temos potencialidades para enveredarmos para uma agricultura que dê realmente resposta ao mercado, que contribua para a segurança alimentar e que crie rendimento para as famílias.

A aposta na agroindústria seria uma forma inovadora de contornar o embargo, como afirmou a este semanário numa entrevista anterior?

É o que eu tinha dito então: não podemos ficar parados por causa do embargo. Temos que contornar o embargo. E contornar o embargo é apostar cada vez mais forte na agroindústria. E hoje com as oportunidades de financiamento proporcionadas pelo governo estaremos em melhores condições. Ou seja, apostar na agroindústria, aumento da escala, a valorização dos produtos, a conservação, a transformação e os entrepostos agrícolas, o de Janela e o do interior do vale vêm neste momento dar resposta àquilo que queremos que é contornar a praga dos mil pés e mostrar aos agricultores que mesmo com a situação de embargo, nós podemos fazer muito. Mas se ficarmos a escudar-nos com a praga dos mil pés, nós não vamos a lado nenhum.

Em relação à questão da mobilização da água a sua mensagem é para mudar, é para poupar a água. Explique.

De facto, a minha mensagem é para continuarmos a fazer uma melhor gestão da água. Porque é difícil acreditar que um município como Paul tenha problemas com escassez de água principalmente para rega. Em outros municípios que nada produzem em termos de água, estão a tirar melhor proveito, estão a conseguir produzir mais produtos agrícolas que o município do Paul, porque os agricultores insistem na rega por alagamento. Depois de quatro anos de seca não há água para todos desta forma e mais para frente, cada vez com menos chuvas, continuaremos a ter este problema. Portanto, o projecto Práticas Agrícolas Sustentáveis tem também a vertente de sensibilização das pessoas para a poupança de água através do sistema de rega gota-a-gota. Isto é preciso mesmo, porque se não qualquer dia não vamos ter água. Já estamos atrasados, mas ainda vamos a tempo de reverter a situação se tomarmos consciência que é preciso mudar.

A requalificação da orla marítima, por causa da segurança dos moradores da cidade é uma das grandes preocupações dos munícipes. Quando arranca o projecto?

A requalificação da orla marítima é, de facto, uma preocupação. Há bem pucos dias tivemos a notícia de que o governo lançou um concurso técnico internacional para o projecto de requalificação, porque não temos aqui no país técnicos para elaboração do projecto. Portanto, estamos todos satisfeitos com o lançamento do concurso, pois a situação continua preocupante e cada vez mais as casas mesmo na orla marítima estão em perigo de derrocada. Fez-se um trabalho de mitigação, mas isto não é suficiente para resolver o problema. Temos também uma grande preocupação que é o campo de futebol. Neste momento somos o único município que não tem um campo de futebol e isto já começa a ficar preocupante. Temos dialogado com o sr. primeiro-ministro que nos garantiu que vamos juntos dar essa resposta não através da construção de um estádio de raiz, mas através de uma construção faseada que com o tempo irá evoluir para um estádio. Mas neste momento do que nós precisamos são as condições mínimas para a prática do futebol aqui no nosso município, pois neste momento somos obrigados a levar os nossos atletas para Ribeira Grande para treinar e para jugar e é preciso dar essa resposta aqui no nosso município para podermos ter mais oportunidades e mais infraestruturas para ocupação do tempo livre dos jovens.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1071 de 8 de Junho de 2022.