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27.6.23

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE

in Público online

Os aumentos mais acentuados no preço médio da produção agrícola registaram-se em Portugal e em Espanha, com a seca a prejudicar a oferta.

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE
A subida homóloga dos preços dos produtos agrícolas de base abrandou, no primeiro trimestre, para os 17% na União Europeia (UE), com Portugal e Espanha a apresentarem o maior aumento (33%), divulgou nesta segunda-feira o Eurostat.

A avaliação agora divulgada pelo Eurostat recai sobre o preço pago à saída da produção, não sendo o valor final ao consumidor, que é ainda intermediado pelas actividades de transporte, logística e distribuição (retalhista ou grossista).

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28.3.23

Governo chama Autoridade da Concorrência a fiscalizar IVA de 0% nos alimentos

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Ovos, leite, pão, arroz, fruta, legumes, carne e peixes ficarão isentos de IVA. Acordo com produtores e retalho implica transparência nos preços.

Assim que a redução do IVA dos bens alimentares entrar em vigor, as cadeias de supermercados terão 15 dias para fazer repercutir a baixa nos preços finais, anunciou esta segunda-feira o primeiro-ministro, António Costa, ao explicar os contornos do pacto assinado com representantes dos produtores agrícolas e do retalho alimentar destinado a estabilizar e a reduzir os preços dos bens alimentares através de uma isenção temporária do IVA.

Ao longo de cerca de seis meses em que o IVA estiver a zero para uma gama de 44 produtos alimentares, algures entre Abril e Outubro, os preços serão alvo de monitorização. A medida terá um custo de 600 milhões de euros, entre impacto na receita fiscal e os apoios à produção.

O acordo assinado por Costa com a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) e com a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) pressupõe, por outro lado, a criação de uma comissão de acompanhamento constituída por entidades públicas e privadas. As partes irão partilhar informação capaz de avaliar o cumprimento dos objectivos desse acordo e uma das entidades que receberá informação é, além da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), a Autoridade da Concorrência (AdC).

A participação desta entidade administrativa independente tem um significado importante, porque, nos últimos anos, a AdC fiscalizou o sector da distribuição alimentar e encontrou suspeitas de violação da lei da concorrência. Desde 2017, as investigações culminaram em decisões condenatórias em quatro processos, com coimas a algumas das principais cadeias de distribuição, em casos que visaram, por exemplo, a Auchan, a Modelo Continente (detida pela Sonae, também dona do PÚBLICO) e o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) por alinhamento de preços de venda ao consumidor (designadamente de bebidas alcoólicas, produtos alimentares, de higiene pessoal, cuidado da casa, consoante os processos).

Com a inclusão nesta comissão de monitorização, a AdC poderá executar as atribuições legais a partir de informação partilhada de forma tempestiva, em concreto sobre a forma como as empresas estão a reduzir efectivamente o preço dos bens alimentares isentos do IVA.

Além de ter poderes de supervisão para realizar estudos e auditorias, a AdC tem também poderes sancionatórios quando identifica práticas restritivas que violem a legislação de concorrência nacional e europeia.

Além da AdC e da ASAE, esta comissão de acompanhamento inclui, do lado público, a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), a Direcção Geral das Actividades Económicas (DGAE), a Direcção Geral do Consumidor (DGC) e o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral do Ministério da Agricultura (GPP). Do lado das entidades privadas chamadas a partilhar informação estão os subscritores do acordo, a APED e a CAP.
Lista a validar no Parlamento

Tecnicamente, o “IVA 0%” anunciado pelo Governo funcionará como uma isenção de IVA com direito à dedução do imposto, à semelhança do que Portugal já aplica aos fertilizantes, correctivos de solo e rações de forma temporária, desde o ano passado, em vigor até Dezembro deste ano.

Ao apresentar os resultados do acordo assinado no centro de Lisboa, no Palácio Foz, o primeiro-ministro, António Costa, disse esperar que o pacto leve a uma estabilização dos preços. E mostrou-se convicto de que haverá uma descida, tendo em conta a “vontade” que disse ter encontrado em todos os subscritores do compromisso.

Para “não criar falsas ilusões”, o primeiro-ministro lembrou que, estando em causa a legislação de um imposto, a medida terá de ser aprovada pelo Parlamento, o que implica que a redução temporária avançará quando o processo legislativo estiver terminado. A expectativa é que a solução avance ainda em Abril, prevendo-se que esteja de pé durante seis meses.

O acordo pressupõe que as cadeias de distribuição repercutam a descida e é isso que as empresas se comprometem a fazer. No Palácio Foz, onde assinou o acordo em nome da APED, o director-geral desta associação, Gonçalo Lobo Xavier, assegurou que os vendedores irão repercutir a descida “nas proporções indicadas pelo Governo”. Mas para não criar expectativas de que essa diferença se sentirá já, recordou que o imposto “não desce amanhã”, apenas quando a lei entrar em vigor, ou seja, dentro daquele prazo de 15 dias proposto pelo executivo.

Segundo a informação divulgada pelo Governo, o entendimento assinado prevê que os retalhistas prestem informação clara e precisa aos consumidores em relação à redução “efectiva” do preço dos bens isentos e ainda que realizem campanhas comerciais para promover a venda dos produtos da lista de bens abrangidos.

A lista dos 44 produtos faz parte do anexo do pacto. Aí incluem-se, por exemplo, pão, batatas, massa, arroz, carnes, alguns peixes, ovos de galinha, azeite, manteiga, leite de vaca, iogurtes, queijo, hortícolas e frutas (como a cebola, a couve portuguesa, os brócolos, a cenoura, o tomate, a maçã, a laranja e a banana).

Neste momento, há uma série de produtos essenciais que pertencem à lista de IVA de 6%, a taxa reduzida. Terá sido a partir daí que o Governo operacionalizou a lista dos bens isentos, uma vez que, desse leque, fazem parte, por exemplo, os cereais, os ovos, o leite, o arroz, o pão, as carnes, o peixe fresco ou os produtos hortícolas e frutas.

O preço de venda final de um bem, sublinhou Costa, não depende apenas do imposto, resulta também do preço da cadeia de produção, daí que, além do compromisso com o sector do retalho, o entendimento preveja apoios à produção. O entendimento, disse, “é feito na boa-fé entre todos”. Neste âmbito, o Governo preparou um “apoio de 140 milhões à produção agrícola através do reforço de verbas para os sectores da suinicultura, aves, ovos, bovinos, pequenos ruminantes e culturas vegetais", bem como a "renovação imediata do apoio extraordinário ao gasóleo agrícola e do apoio para mitigar os aumentos dos custos com fertilizantes e adubos”.

Foi uma revisão da directiva do IVA a nível europeu, realizada já depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, passou a permitir aos países da União Europeia aplicar uma isenção do imposto a um conjunto limitado de produtos ou prestações de serviços (a apenas sete grandes grupos de uma lista mais vasta).

Para a solução chegar ao terreno em breve em Portugal, o Conselho de Ministros reuniu-se ainda na segunda-feira por via electrónica para aprovar a proposta de lei, de forma a que o documento possa ser enviado para a Assembleia da República nesta terça-feira. A palavra final cabe aos deputados e a aprovação está garantida, tendo em conta que o PS tem maioria absoluta no Parlamento.



29.12.15

A política de igualdade como reforma estrutural

Renato Miguel do Carmo, in Público on-line

É fundamental conceber a política de igualdade como a verdadeira reforma estrutural.

Como tem sido claramente demonstrado por vários estudos nacionais e internacionais, Portugal é um dos países mais desiguais da Europa e da OCDE. Este dado não tem nada de novo e é sobejamente conhecido. Todavia, apesar desta evidência, o elevado nível das desigualdades nunca foi encarado em Portugal como o alvo primordial das políticas públicas. Em certos períodos elegeu-se a atenuação e a redução pobreza num dos objetivos fundamentais de atuação. Políticas como o Rendimento Social de Inserção e, particularmente, o Complemento Solidário para Idosos alcançaram resultados relevantes. Contudo, o efeito que estas políticas tiveram na redução da desigualdade, apesar de importante, foi relativamente circunscrito. E isso é perfeitamente natural, já que estas não foram concebidas para diminuir a desigualdade. É claro que pobreza e desigualdade são fenómenos parcialmente relacionados que se alimentam mutuamente. Mas uma coisa é certa: a desigualdade não se resolve somente com políticas de combate à pobreza. Um dos problemas fundamentais que decorre do nível de desigualdade atingido em Portugal tem a ver com a sua persistência, como se tratasse de um ciclo inquebrável que não cessa de reproduzir fortes assimetrias e divisões entre a população.

Nas investigações desenvolvidas e publicadas no âmbito do Observatório das Desigualdades, temos alertado para o facto das desigualdades deterem um caráter multidimensional e sistémico. Na verdade, identificam-se fortes desigualdades na distribuição dos rendimentos, designadamente na dispersão salarial, que tem sido um dos principais motores do tal ciclo. Mas também a desigualdade que aumenta a desproporção entre os rendimentos provenientes do trabalho, que se comprimem, face a outras fontes de rendimento e de riqueza, como o capital, que se expandem. No entanto, para se perceber como o ciclo da desigualdade se reproduz é fundamental ir para além do rendimento e enquadrar outras dimensões.

A este respeito posso nomear algumas: as desigualdades educacionais, que continuam a ser determinantes num país que mantém os maiores défices de escolarização da Europa; as desigualdades territoriais, que aprofundam a distância entre as periferias e as maiores cidades, mas que simultaneamente polarizam diferentes territórios no interior das áreas metropolitanas; as desigualdades perante a mobilidade, onde quem detém meios de transporte particular leva menos tempo nas deslocações diárias; as desigualdades de género, que são transversais e se desenvolvem tanto nos locais de trabalho, onde a disparidade salarial a favor dos homens se mantém, como no espaço doméstico, onde as mulheres continuam a assegurar a maior parte das tarefas; as desigualdades nas práticas de cidadania e de ação coletiva, nas quais os menos escolarizados e qualificados tendem a estar mais arredados. Poderia continuar, contudo, grande parte destas dimensões estão identificadas e relativamente bem estudadas.

Uma leitura transversal destes estudos concluirá sem grande dificuldade que a desigualdade é um dos principais pilares que estruturam a sociedade portuguesa. Um pilar perverso que tem de ser removido por intermédio da construção de uma reforma estrutural que atinja diferentes dimensões e setores. Esta reforma terá de incidir na política de rendimento quer no que diz respeito à sua devolução e recuperação, quer na implementação de políticas de maior progressividade fiscal sobre os escalões de rendimento do topo, capazes de, simultaneamente, englobar as diversas componentes do rendimento e da riqueza, como o capital e a propriedade. Mas uma reforma estrutural deverá ser mais do que uma reforma fiscal. Tem de ser uma reforma que aprofunde a escolarização nas diferentes gerações; uma reforma que invista no transporte público para todos; uma reforma que aumente o salário mínimo, equipare as remunerações entre homens e mulheres, e resolva os problemas da precariedade laboral; uma reforma que invista nos equipamentos e serviços públicos, como a rede pré-escolar ou o apoio à população idosa; uma reforma que integre as pessoas com deficiência nos vários domínios da vida social e profissional; uma reforma que contemple a equidade entre territórios como um princípio básico de intervenção. Estas e outras políticas necessárias não representam slogans vazios, como certos políticos e comentadores se apressam a classificar. Pelo contrário, são os vazios que se perpetuam na sociedade portuguesa que têm de ser urgentemente preenchidos. E, para tal, é fundamental conceber a política de igualdade como a verdadeira reforma estrutural.

Sociólogo do ISCTE-IUL e do Observatório das Desigualdades