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4.8.23

A economia alemã está outra vez doente e a Europa sofre

Sérgio Aníbal, in Público online

Numa conjuntura de inflação alta e juros a subir, a Alemanha vê ainda o seu modelo económico baseado na indústria exportadora revelar sérias fragilidades.

É na sua maior economia que a Europa tem o maior problema para fugir a uma recessão. A Alemanha está há cinco trimestres estagnada e as perspectivas para os próximos meses não são melhores, fruto não só da conjuntura difícil de preços e taxas de juro, mas também das fragilidades estruturais que estão a abalar o modelo de crescimento baseado na força da sua indústria exportadora.

O medo, entre os alemães, é que se esteja a voltar a uma situação semelhante à vivida nos últimos anos do século passado. A economia alemã, depois de um período de expansão pós-pandemia, tinha caído num cenário de estagnação e de desemprego muito elevado que levou a revista The Economist a classificar o país como “o homem doente da Europa” (“the sick man of Europe”, em inglês).


Nessa altura, foram postas em prática reformas significativas no mercado de trabalho e, com a ajuda preciosa do lançamento do euro, que permitiu ao sector exportador alemão ganhar competitividade face aos seus parceiros comerciais, a economia alemã ficou novamente mais forte, reforçando ainda mais o seu estatuto de maior economia europeia.

(...)

Presa na estagnação

A economia alemã é neste momento a única, entre as maiores do planeta, para a qual o Fundo Monetário Internacional está a prever uma variação negativa do PIB no total deste ano, já que as expectativas são, na segunda metade, tão negativas ou mesmo piores do que aquilo que tem vindo a acontecer nos últimos trimestres.

“Não existem neste momento dados a apontar para uma recessão profunda, mas a verdade é que a Alemanha está presa numa estagnação. E existe o risco de que esta estagnação continue até ao próximo Inverno, com ameaças então ainda a pairar sobre o fornecimento de gás ao país”, explica ao PÚBLICO o presidente do instituto de análise económica Ifo, Clemens Fuest.

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O mesmo cenário é antecipado por Veronika Grimm, que pertence desde 2020 ao Conselho Alemão de Especialistas Económicos.

“A Alemanha irá provavelmente permanecer num período de estagnação durante algum tempo. Não espero uma recessão profunda, mas uma recuperação vai ser difícil”, afirma a economista.

De facto, os indicadores já conhecidos e que dão pistas sobre a forma como a economia está a evoluir têm apresentado resultados desanimadores em Julho, indiciando um prolongamento da apatia da economia no terceiro trimestre do ano.

Em particular, os indicadores de actividade industrial registaram uma deterioração, apontando para uma contracção da produção na indústria que pode ser o suficiente, apesar de uma maior resistência dos serviços, para empurrar a actividade global da economia novamente para terrenos negativos.


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Em Julho, de acordo com os dados publicados esta semana, o indicador PMI que avalia a evolução da actividade no sector industrial e dos serviços caiu de 50,6 para 48,5 pontos, o que significa que se estará agora numa fase de contracção (algo que acontece quando este indicador fica abaixo dos 50 pontos).
A travar a Europa

A economia alemã está, como a generalidade dos países europeus, com a conjuntura difícil de taxas de inflação ainda altas e taxas de juro que não param de subir. Isso afecta a confiança de empresas e famílias e limita a sua capacidade financeira para investir e consumir.

Ainda assim, a Alemanha, com níveis de endividamento dos agentes económicos relativamente baixos e com empréstimos maioritariamente feitos a taxa fixa, não é, no panorama europeu dos países mais afectados pela política monetária mais restritiva do Banco Central Europeu (BCE). Não é isto que explica que a maior economia da zona euro seja neste momento aquela que menos cresce.

O problema da Alemanha é que junta a esta conjuntura desfavorável para o crescimento uma série de problemas de carácter estrutural, que fazem com que o seu modelo de crescimento baseado numa enorme indústria exportadora, que muitos sucessos deu à economia do país, esteja agora sob ameaça.

“A questão estrutural mais importante que a Alemanha enfrenta é o foco do país na sua indústria automóvel e em outras indústrias muito intensivas em energia, como a química. A transformação do sector automóvel em direcção aos carros eléctricos põe em causa as vantagens competitivas da Alemanha e os segmentos de energia mais intensiva da indústria química vão sentir dificuldades em lidar com os preços da energia na Alemanha, que deverão permanecer altos por muito tempo”, assinala Clemens Fuest.

Há ainda mais alguns desafios a acrescentar à lista de dificuldades que a economia alemã terá de enfrentar nos próximos anos. A evolução demográfica do país faz com que a escassez de mão-de-obra, apesar de se reflectir numa contenção significativa da taxa de desemprego, crie obstáculos ao crescimento da economia. E a falta de investimento das últimas décadas, especialmente em infra-estruturas, não ajuda a economia a aumentar agora a sua produtividade.

“Não é tanto o desemprego, mas sim o investimento que vai ser o indicador-chave para o desempenho económico futuro”, afirma Veronika Grimm.

Por fim, há ainda a dificuldade que a Alemanha tem vindo a sentir com dois grandes clientes das suas exportações. A economia chinesa está a abrandar. O gigante asiático tem para a Alemanha uma importância crescente como cliente das suas exportações e a verdade é que já não se pode esperar que a China continue a crescer nos próximos anos ao mesmo ritmo que cresceu nas últimas décadas. E os EUA estão a implementar políticas cada vez mais proteccionistas, que procuram trazer para território norte-americano algumas das indústrias que a Alemanha se habituou a dominar.

Muito dependente da sua indústria exportadora, a Alemanha vê nas tensões crescentes que se vivem nas relações comerciais internacionais um risco de larga escala, a que está a tentar responder com um misto de cautela diplomática e de implementação progressiva de uma política de apoio à sua indústria que responda àquilo que está a ser feito pelos Estados Unidos da América (EUA).

As más notícias para a Alemanha na frente económica não podem deixar de ser más notícias para o resto da Europa. Como afirma o presidente do Ifo, “a Alemanha irá atrasar a recuperação económica na zona euro como um todo”.

Para a tarefa do BCE de trazer a inflação para perto da meta dos 2%, aquilo que está a acontecer na Alemanha até pode ajudar, porque para além da diminuição mais forte da procura, começa a ser evidente o efeito que a incerteza económica na indústria alemã já está a ter nas negociações salariais para os próximos anos. Os aumentos que poderiam resultar da actual escassez de mão-de-obra vão ser limitados pelo medo das empresas em aumentar os seus custos e dos trabalhadores de virem no futuro a perder os seus empregos.

A dúvida está em saber se, para lá da luta contra a inflação, não irão a Alemanha e o resto da Europa cair numa recessão mais profunda e longa.

“A Alemanha vai contribuir para travar o crescimento na UE. É importante que a Alemanha e os outros países juntem forças para agir em conjunto, por exemplo, no que diz respeito a aumentar a oferta de energia a nível europeu”, afirma Veronika Grimm.

Um pedido de ajuda alemão aos seus parceiros que surge numa altura em que ainda não foi possível na Europa chegar a um consenso relativamente às novas regras orçamentais ou à criação de um orçamento permanente da zona euro.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

27.6.23

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE

in Público online

Os aumentos mais acentuados no preço médio da produção agrícola registaram-se em Portugal e em Espanha, com a seca a prejudicar a oferta.

Preços dos alimentos na produção sobem 33% em Portugal, quase o dobro da UE
A subida homóloga dos preços dos produtos agrícolas de base abrandou, no primeiro trimestre, para os 17% na União Europeia (UE), com Portugal e Espanha a apresentarem o maior aumento (33%), divulgou nesta segunda-feira o Eurostat.

A avaliação agora divulgada pelo Eurostat recai sobre o preço pago à saída da produção, não sendo o valor final ao consumidor, que é ainda intermediado pelas actividades de transporte, logística e distribuição (retalhista ou grossista).

[artigo disponível só para assinantes]

23.5.23

Nascimento do primeiro filho aumenta despesa das famílias em 20%

Por Lusa, in Público



Instituto Nacional de Estatística publicou informação sobre as mudanças no padrão de despesa das famílias com o nascimento do primeiro filho.

Subida nas despesas de saúde

No mês do nascimento, há um pico nas despesas de saúde do agregado familiar, que representam "cerca de duas vezes mais do que o observado no período anterior ao início da gravidez", referiu o INE, acrescentando: "A magnitude do efeito nas despesas com saúde diminui nos seis meses seguintes ao nascimento, observando-se, em contrapartida, um aumento de 51,5% nas despesas em estabelecimentos do sector do retalho".


A partir do primeiro ano de vida, as despesas de saúde e no retalho estabilizam em torno de um aumento permanente de 26,9% e de 16,1%, respectivamente.

Nos meses que antecedem o nascimento do primeiro filho, observa-se uma tendência para o aumento das despesas com gás, electricidade, água e actividades financeiras e seguros, que se torna "expressivo" nos meses seguintes ao nascimento. Nos seis meses posteriores ao nascimento, as despesas com gás e electricidade aumentam, em média, 15,9%.

As despesas com transportes, alojamento e restauração começam a diminuir progressivamente a partir do terceiro mês de gravidez, "reduzindo-se drasticamente", segundo o INE, no mês de nascimento e no mês seguinte, quando a despesa com transportes se reduz 52,9%. Os gastos com alojamento e restauração sofrem um corte de 55,6%, comparativamente ao período pré-gravidez.

Alojamento e restaurantes

A partir do segundo mês de vida da criança, as despesas com transportes, actividades recreativas, alojamento e restauração começam progressivamente a aumentar, "nunca atingindo, contudo, os níveis observados nos meses anteriores ao início da gravidez", sendo as despesas com alojamento e restauração nos 12 meses seguintes ao nascimento a única excepção.

"Momentaneamente, aumentam 4,2% em relação ao período anterior ao início da gravidez, provavelmente em resultado de despesas relacionadas com a celebração do primeiro ano de vida do filho", constatou o instituto.




25.1.23

Há mais de 30 anos que os preços das casas não aumentavam tanto

Rafaela Burd Relvas, in Público online

Os preços das casas subiram 18% em 2022, o crescimento mais acentuado desde 1991, segundo os dados da Confidencial Imobiliário. Para este ano, não se antecipam quedas de preços.

Novo ano, novo máximo nos indicadores que medem o valor da habitação em Portugal. Os preços das casas mantiveram o ritmo de crescimento acelerado que tem sido verificado nos últimos anos e, em 2022, fixaram um novo recorde, ao mesmo tempo que registaram o aumento mais acentuado em mais de 30 anos. Ainda assim, na segunda metade de 2022, começou a registar-se um ligeiro abrandamento do crescimento dos preços.

Os dados são da Confidencial Imobiliário e ilustram uma tendência que já não é novidade. Em Dezembro de 2022, mostram os dados concedidos ao PÚBLICO pela consultora, o índice de preços residenciais atingiu o valor mais elevado desde que estes indicadores começaram a ser recolhidos, em 1988.

Assim, no conjunto do ano passado, a variação média dos preços das casas em Portugal foi de 18%. Para encontrar um aumento mais acentuado, é preciso recuar até 1991, ano em que o índice de preços residenciais registava uma subida anual média de 19,4%.

O ano passado marca, desta forma, o regresso às subidas acentuadas de preços, depois de, em 2021 e 2020, dois anos em que a pandemia penalizou fortemente a actividade económica, terem sido registados ritmos de crescimento mais lentos. Agora, a subida dos valores da habitação ultrapassa mesmo aquilo que se verificava em 2019 e 2018, antes da pandemia, quando o aumento anual médio dos preços das casas rondava os 15%, ainda de acordo com os dados da Confidencial Imobiliário.

A consultora não tem ainda disponíveis os dados relativos às cidades de Lisboa e do Porto, onde, tendencialmente, as subidas de preços da habitação têm superado a média nacional.

Vários factores contribuem para este movimento em Portugal, mas a escassez de oferta, associada a uma cada vez maior procura de casa por parte de estrangeiros (investidores ou particulares) com maior poder de compra, tem sido apontada pelos especialistas do sector como a principal razão para este fenómeno.

"Não se antecipam passos expressivos na resolução dos problemas de falta de oferta, devido ao aumento dos custos de construção e aos licenciamentos demorados. A classe média será especialmente afectada por esta falta de oferta, pois mesmo a oferta que surge tende a direccionar-se mais para os segmentos menos afectados em termos de rendimento, como as classes média-alta e alta", refere a consultora imobiliária JLL, no mais recente relatório de balanço do último ano e perspectivas para 2023.

Evolução a dois ritmos

Com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) já disponíveis, a JLL estima que, no conjunto de 2022, tenham sido transaccionadas 168 mil casas, por um montante total de 31 mil milhões de euros, dados que, a confirmarem-se, representarão aumentos de cerca de 1,5% (em número de habitações) e 10% (em valor).

Ainda assim, aponta a Confidencial Imobiliário, regista-se um "comportamento dos preços a dois ritmos" em 2022.

"Na primeira metade do ano, mais concretamente até Julho, os preços mantiveram uma trajectória de aceleração, com sucessivas subidas mensais médias de quase 2%. A segunda metade de 2022 foi de perda de intensidade, com um arrefecimento das variações mensais, que por duas vezes foram inferiores a 1%, entrando mesmo em terreno negativo (variação mensal de -0,5% em Setembro)", refere a consultora.

Ao mesmo tempo, acrescenta a Confidencial Imobiliário, "as variações trimestrais dos preços também confirmam esta tendência de perda de fôlego", embora os crescimentos se mantenham acentuados.

Seja como for, não são esperadas, para já, quebras de preços, ainda que uma crise económica possa levar a um travão da procura.

"A JLL antecipa um natural abrandamento na dinâmica da procura, quer para ocupação, quer para investimento, face ao ano passado, pela dupla circunstância de se enfrentar um agravamento das condições económicas e comparar-se com níveis recorde de actividade. Contudo, não antecipa quebras disruptivas em termos de montantes transaccionados e absorção, prevendo ainda que os preços e as rendas possam manter uma trajectória positiva, mas mais suave. A baixa capacidade de reposição da oferta, que se mantém escassa em todos os segmentos, é uma das explicações para este comportamento", prevê esta consultora.

Em suma, como explica Patrícia Barão, responsável pelo segmento residencial da JLL, poderá assistir-se a uma redução do montante total transaccionado em 2023, mas apenas devido a uma diminuição do número de transacções e não por uma queda dos preços.

19.12.22

2023: ano difícil ou ponto de viragem?

Joana Silva, opinião, in Público online

“As crises têm impactos persistentes negativos nas empresas, nos empregos e nos jovens”, lembra Joana Silva, professora, investigadora e economista do Banco Mundial.

Foto"Um forte aumento do custo de vida não é uma boa notícia para a população de um país no qual um em cada cinco trabalhadores vive abaixo do limiar da pobreza", diz a economista Joana Silva Miguel Manso

O ano de 2022 foi difícil: vivemos uma recuperação a um ritmo lento, testemunhámos o desenrolar de uma guerra na Europa que espoletou uma crise energética global, observamos aumento da pobreza e fraco crescimento. Apesar de a inflação começar a baixar e a conjuntura global aos poucos mostrar sinais de melhoria, continuamos a viver num contexto de grande incerteza e bastante sombrio. Afinal, 2022 não deixa de ser o ano em que uma parte significativa das economias do mundo entraram em recessão.

Neste cenário, quais as perspectivas socioeconómicas para 2023? Não são ótimas. O crescimento económico previsto pelo FMI para Portugal é de 0,7% — ainda que seja o dobro da média europeia, significa pouca melhoria na economia real. Mantendo este ritmo de crescimento, Portugal levaria 60 anos a chegar ao PIB per capita da Alemanha de hoje.

O baixo crescimento não é o único obstáculo. Este ano, segundo o FMI, a inflação terá sido cerca de 7,9% em Portugal. No próximo ano, as previsões apontam ainda para uma taxa de inflação à volta de 4,7%. Sem aumentos salariais da mesma proporção, podemos esperar uma perda de poder de compra dos portugueses. Um forte crescimento económico (do tipo certo) e aumento de produtividade são fundamentais para um aumento significativo de salários sem perder competitividade. Infelizmente, o percurso de Portugal nas últimas duas décadas não é particularmente animador: o crescimento médio anual do rendimento real médio em Portugal entre 2000 e 2019 foi abaixo de 1%.

FotoJoana Silva: "Apesar de a inflação começar a baixar e a conjuntura global aos poucos mostrar sinais de melhoria, continuamos a viver num contexto de grande incerteza e bastante sombrio" Rui Gaudêncio

Para além disto, temos assistido ainda ao aumento das taxas de juro, que é especialmente preocupante, dado o elevado endividamento do setor privado, e o inesperado aumento do encargo financeiro que significa para as famílias com créditos à habitação, muitas vezes rondando as centenas de euros mensais.

Um forte aumento do custo de vida não é uma boa notícia para a população de um país no qual um em cada cinco trabalhadores vive abaixo do limiar da pobreza, onde mais de metade dos trabalhadores assalariados ganha menos de 950 euros por mês e apenas 10% auferem mais que 2200 euros por mês.

Como quebrar então esta tendência de estagnação persistente que temos vivido nas últimas décadas?

Não há uma resposta única. Por um lado, acredito que temos de apostar em políticas sociais eficazes que promovam o emprego, apoiem os mais vulneráveis, e quebrem ciclos de pobreza. Mesmo que Portugal cresça acima das expectativas e a inflação não volte a subir, sabemos que as crises têm impactos persistentes negativos nas empresas, nos empregos, e nos jovens. Por outro lado, é imperativo fomentar investimento em áreas com elevado potencial, e promover programas que estimulem a inovação e, particularmente, que valorizem e incentivem o talento português. Todos os dias trabalho com jovens excepcionais, que são galardoados com prémios para as melhores teses, entram nos melhores doutoramentos do mundo e conseguem empregos de topo em concursos internacionais. Eles merecem que 2023 seja o ano deles.

2023 ainda vai a tempo de ser o início de uma nova trajetória, ao invés de apenas um “ano difícil”. Para tal, este ano tem de ser um ponto de viragem. De viragem de duas décadas marcadas por baixo crescimento e muitas crises. É tempo de fazer algo de diferente e prosperar. É tempo (e ainda vamos a tempo) de fazer as escolhas certas e dar o nosso melhor.

Economista — Universidade Católica Portuguesa, Católica Lisbon School of Business and Economics


7.9.22

Transporte ferroviário ultrapassa nível pré-pandemia no segundo trimestre

Victor Ferreira, in Público on-line

No segundo trimestre de 2022, os aeroportos nacionais movimentaram 16 milhões de pessoas, abaixo do nível antes da pandemia. Na ferrovia, há ganhos face a 2019.

Depois de um crescimento homólogo em flecha no primeiro trimestre, influenciado pelo encerramento das fronteiras no Inverno de 2021 devido à pandemia, os aeroportos nacionais mantiveram uma forte tendência de crescimento, mas abrandaram a toada. Segundo dados divulgados nesta manhã pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), pelos aeroportos nacionais passaram 16 milhões de passageiros nos meses de Primavera, entre Abril e Junho, correspondendo a um crescimento homólogo de 299,2% no segundo trimestre deste ano.

A recuperação das viagens é uma realidade que acompanha a par e passo a reabertura da economia, depois de dois anos de fortes restrições sobre a actividade e as deslocações. Mas o volume de passageiros movimentados no caso dos aeroportos nacionais, embora tenha quadruplicado face ao mesmo trimestre de 2021, ainda está aquém do que se registava antes da chegada da covid-19, representando uma diminuição de 4,3%, assinala o INE.

O mesmo padrão de crescimento face a 2021 mas, com níveis abaixo do período pré-pandemia, ocorre com pequenas excepções no transporte de passageiros por ferrovia, nos metropolitanos e no transporte fluvial.

Por comboio foram transportados 43,4 milhões de passageiros e por metropolitano foram 54,9 milhões, entre Abril e Junho deste ano. Isso traduz aumentos homólogos de 51,0% e 67,2%, respectivamente. Face a 2019, há variações de mais 0,9% e menos 19,8%, respectivamente. Ou seja, o comboio ganhou passageiros face ao que tinha antes da pandemia e os sistemas de metro perderam.

“O transporte de passageiros por via fluvial aumentou 62,5% relativamente ao segundo trimestre de 2021, atingindo 4,8 milhões de passageiros”, escreve o INE. No primeiro trimestre, o crescimento tinha sido de 105,2% em termos homólogos. Continua, porém, longe dos valores pré-covid, com uma redução de 11,5% em relação ao segundo trimestre de 2019.

No transporte de mercadorias, verifica-se que os volumes transportados superam os níveis antes da pandemia, com excepção do transporte rodoviário. Por ar, mar e carris, as variações face a 2021 e 2019 são todas positivas.

“Por via aérea verificou-se um crescimento de 22,5% face ao segundo trimestre de 2021 (e mais 8,8% comparando com o segundo trimestre de 2019). Na ferrovia, registou-se uma diminuição de 2,1% face ao período homólogo de 2021 mas um aumento de 4,2% face a idêntico período de 2019. Por via marítima, registou-se um acréscimo de 1% face ao segundo trimestre de 2021 e de 1,4% relativamente ao segundo trimestre de 2019. Por rodovia, registaram-se decréscimos face a 2021 (-3,5%) e face a 2019 (-0,8%), tendo sido movimentadas 38,9 milhões de toneladas.”


6.9.22

Queda do euro pressiona BCE a subir ainda mais os juros

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Os receios de uma travagem da economia europeia no Inverno, acentuados com o corte do fornecimento russo de gás, voltam a penalizar o euro nos mercados internacionais. BCE poderá acelerar subida dos juros

A três dias do início da reunião onde os responsáveis máximos do Banco Central Europeu (BCE) vão decidir que rumo dar à sua política monetária, o euro voltou a dar motivos para que as taxas de juro sejam elevadas de forma brusca numa tentativa de contrariar a inflação.

Esta segunda-feira de manhã, a moeda única europeia acentuou a tendência de forte depreciação face à divisa norte-americana que já regista há vários meses e chegou mesmo a dado momento a valer menos de 0,99 dólares, algo que já não acontecia desde 2002.

O euro tem vindo, nos últimos meses, a registar uma depreciação acentuada face ao dólar, baixando barreiras que já não eram atingidas há cerca de duas décadas.

Em meados do passado mês de Julho atingiu, pela primeira vez em quase 20 anos, a paridade face à divisa norte-americana, muito longe dos 1,6 dólares que chegou a valer em 2008 e mesmo dos 1,2 dólares que eram o seu valor há pouco mais de 12 meses.

Esta persistente e significativa quebra do euro face ao dólar representa uma pressão acrescida para que o BCE aja rapidamente e de forma ainda mais determinada para controlar a inflação.

De facto, um euro a valer menos face ao dólar significa que as importações europeias (por exemplo de bens transaccionados nos mercados internacionais em dólares como o petróleo e os cereais) ficam automaticamente mais caras. Isto representa uma inflação importada que contribui para a escalada dos preços a que se assiste na economia da zona euro, com a inflação a situar-se acima dos 9% em Agosto.

É por isso que restam poucas dúvidas que, depois de ter realizado a primeira subida das suas taxas de juro de referência desde 2011 em Julho, elevando-as em 0,5 pontos percentuais, a autoridade monetária europeia venha a realizar, na reunião do conselho de governadores agendada para a próxima quinta-feira, um movimento semelhante ou talvez até mais agressivo.

Inicialmente a expectativa, criada com as mensagens transmitidas pela presidente do BCE, Christine Lagarde, no início de Agosto, era a de que viesse a ser decidida uma nova subida de 0,5 pontos nas taxas de juro na reunião de Setembro.

Mas, agora, com o contributo decisivo da forte depreciação do euro face ao dólar, a maior parte dos investidores já está a assumir que a subida de taxas juro a realizar pelo BCE na quinta-feira pode ser de 0,75 pontos percentuais, o ritmo que tem vindo ser assumido pela Reserva Federal na sua própria viragem de rumo na política monetária.

Por seu lado, por trás da depreciação do euro nos mercados, estão as expectativas sombrias que se acumulam relativamente à evolução da economia europeia e que levam os investidores a virarem-se para o seu habitual refúgio em tempos de crise no outro lado do Oceano Atlântico.

A divisa norte-americana está a beneficiar, como é hábito, do seu estatuto de activo financeiro seguro num tempo de grande incerteza e instabilidade na economia mundial, vendo o seu valor a subir face a praticamente todas as outras divisas mundiais. E do lado do euro, a viragem de política monetária mais lenta do BCE (subindo menos as taxas de juro do que a Reserva Federal norte-americana),com continuados receios de uma travagem ou mesmo recuo da economia da zona euro já a partir do terceiro trimestre do ano, estão a contribuir para penalizar o desempenho da moeda única nos mercados.

No sábado, o anúncio russo de que a interrupção dos fluxos do gasoduto Nord Stream por alegados problemas técnicos teria um prazo indeterminado acentuou os receios que vários países da zona euro, como a Alemanha, não venham a ser capazes de reforçar as suas reservas de gás o suficiente para atravessar o próximo Inverno com escassez energética.

Isto cria um dilema a Christine Lagarde e aos seus colegas no BCE: ser mais moderado na subida de taxas de juro para não afundar ainda mais a economia ou aumentar radicalmente o custo do dinheiro, apostando tudo em limitar a queda do euro e a escalada da inflação, mesmo que isso custe à zona euro uma entrada em recessão.


2.9.22

Índice alimentar da FAO cai pelo quinto mês consecutivo

Isabel Aveiro, in Público online

Indicador que mede os preços dos bens alimentares essenciais nos mercados de exportação recuou 1,9% em Agosto.

O índice de preços alimentares da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO, na sigla inglesa) recuou 1,9% em Agosto, para 138 pontos, face a Julho.

Foi o quinto mês, consecutivo, em que houve uma redução do indicador que resulta numa média de cinco subíndices de preços de bens alimentares (carne, lacticínios, cereais, óleos vegetais e açúcar) ponderados pela média das quotas de exportação mundial de cada um dos grupos no período de 2014-2016.

O índice, que atingiu o valor mais elevado da sua história de 32 anos em Março passado – em consequência do impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia e dos efeitos que a guerra iniciada a 24 de Fevereiro teve nos mercados de cereais, óleos vegetais e fertilizantes –, terminou Agosto 7,9% acima de igual mês de 2021.

Diz a FAO (sigla em inglês para Food and Agriculture Organization of the United Nations), no seu comunicado emitido esta sexta-feira, que “todos os cinco subíndices” do índice agregado “caíram moderadamente em Agosto, com decréscimos percentuais mensais que variam entre 1,4% para os cereais e 3,3% para os óleos vegetais”.




Reinício das exportações da Ucrânia alivia preço dos cereais

“Em Agosto”, explica a FAO, “os preços internacionais do trigo caíram 5,1%, marcando o terceiro decréscimo mensal consecutivo”, que se justifica com “melhores perspectivas de produção, especialmente no Canadá, Estados Unidos da América e Federação Russa”; por uma “maior disponibilidade sazonal à medida que as colheitas prosseguiam no hemisfério norte”; e pelo retomar das “exportações dos portos do Mar Negro na Ucrânia, pela primeira vez em mais de cinco meses de interrupção”.

“Contudo”, sublinham os responsáveis da agência da ONU para a alimentação mundial, “os preços globais do trigo permaneceram 10,6% acima dos seus valores em Agosto do ano passado”.

A queda mais expressiva, de 3,3%, ocorreu no índice que mede o preço dos óleos vegetais disponíveis para exportação nos mercados internacionais. E, aqui também, há um efeito directo da guerra: “os valores mundiais do óleo de girassol diminuíram” devido a uma menor procura de importação global, “que coincidiu com a retomada gradual dos carregamentos dos portos marítimos da Ucrânia”.

Além disso, o recuo “contínuo do índice foi impulsionado pelos preços mundiais mais baixos dos óleos de palma, girassol e colza”, que “mais do que compensaram as cotações mais elevadas do óleo de soja”. Os preços internacionais do óleo de palma, acrescenta a organização, “caíram pelo quinto mês consecutivo em Agosto”, impulsionados pelo aumento da oferta da Indonésia, “principalmente graças a impostos de exportação mais baixos”, conjugado com o aumento sazonal da produção no Sudeste Asiático.

Nos lacticínios (leite, manteiga e queijo), o recuo do subíndice foi de 2% e na carne de 1,5%. O indicador que monitoriza os preços internacionais do açúcar registou uma queda de 2,1%, em cadeia, face a Julho passado, situando-se agora no patamar mais baixo desde Julho de 2021, acrescenta a FAO.


3.8.22

Taxa de desemprego sobe para 6,1% em Junho

in Público on-line

INE reviu em baixa a taxa de desemprego de Maio, passando do valor provisório de 6,1% para 6,0%.

A taxa de desemprego terá sido de 6,1% em Junho – 0,1 pontos percentuais acima de Maio, mas inferior aos 6,7% de Junho de 2021 –, segundo dados provisórios divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

De acordo com as “Estimativas Mensais de Emprego e Desemprego” do INE, em Junho “a taxa de desemprego situou-se em 6,1%, valor superior ao do mês precedente em 0,1 pontos percentuais e ao de três meses antes em 0,2 pontos percentuais, mas inferior em 0,6 pontos percentuais ao de um ano antes”.

Estas estatísticas reviram ainda em baixa a taxa de desemprego de Maio, passando do valor provisório de 6,1% para 6,0%, “valor superior ao do mês anterior em 0,1 pontos percentuais e ao de três meses antes em 0,2 pontos percentuais e inferior em 1,0 ponto percentual ao de um ano antes”.

O contributo do PÚBLICO para a vida democrática e cívica do país reside na força da relação com os seus leitores. Quanto maior for o apoio dos leitores, maior será a nossa legitimidade e a relevância do nosso jornalismo. Apoiar o PÚBLICO é também um acto cívico, um sinal de empenho na defesa de uma sociedade aberta, baseada na lei e na razão em favor de todos ou, por outras palavras, na recusa do populismo e da manipulação para privilégio de alguns.

18.7.22

Mais de 38 milhões de trabalhadores europeus não têm dinheiro para férias

in Público on-line

“As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, defende a Confederação Europeia dos Sindicatos (CES).

Mais de 38 milhões de trabalhadores na Europa não podem pagar uma semana de férias apesar de terem um emprego a tempo inteiro, segundo um estudo da Confederação Europeia dos Sindicatos (CES) publicado esta segunda-feira. “As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, disse a vice-secretária-geral da CES, Esther Lynch, num comunicado.

De acordo com o estudo, a proporção da população que não pode pagar férias aumentou em mais da metade dos estados-membros da União Europeia (UE) desde 2019 e a proporção de trabalhadores sem essa capacidade financeira cresceu em 11 países. “A UE e os governos nacionais têm a responsabilidade de proteger a negociação colectiva como a melhor maneira de garantir que os trabalhadores possam aproveitar a vida em vez de simplesmente sobreviver”, disse Lynch. Os números são baseados numa análise de dados oficiais do Eurostat, o gabinete de estatísticas da UE, realizada pelo European Trade Union Institute, um centro de pesquisa independente da CES.

Os resultados indicam que a Roménia, com 47%, a Grécia, com 43,4%, a Lituânia, com 41%, e a Croácia, com 39,7%, eram os países com maior proporção de trabalhadores que não podiam pagar uma semana de férias em 2020. Os países com maiores aumentos percentuais, entre 2019 e 2020, de trabalhadores que não puderam viajar de férias por uma semana foram a Lituânia, com um aumento de 12,4%, a Bulgária, com 4,8%, e a Grécia, com 2,1%.

No que respeita aos valores totais, devido à elevada população, estima-se que Itália, com oito milhões, Espanha, com 4,6 milhões, e França, com 4,1 milhões, tivessem o maior número total de colaboradores que não puderam usufruir de uma semana de férias em 2020. A estes países seguiram-se a Roménia, com 3,9 milhões, e a Grécia, com 1,6 milhões de trabalhadores.

Segundo a CES, esses dados coincidiram com o aumento dos lucros das empresas europeias, o que significa que executivos e accionistas acumularam mais dinheiro, em detrimento dos trabalhadores europeus. “O aumento da desigualdade nas férias mostra que a economia europeia não está a funcionar para os trabalhadores”, acrescentou Lynch, no comunicado. “Sem um aumento salarial justo, empresários e políticos irão voltar das suas próprias férias de Verão para enfrentar um Outono de raiva, seguido de um Inverno de descontentamento”, alertou.

No ano passado 56% dos portugueses não fizeram uma viagem turística

Em Portugal, de acordo com as estatísticas do turismo de 2021 recentemente publicadas pelo INE, 56% dos residentes não fizeram uma viagem turística (definida como “deslocação para fora do ambiente habitual com pernoita mínima de uma noite”). Este é um universo inferior ao de 2020, primeiro ano da pandemia, que tinha subido para os 61%, depois dos 47% de 2019, mas é preciso recuar a 2015, ano em que ainda se fizeram sentir alguns efeitos da troika de credores na economia portuguesa, para se chegar a um nível inferior ao de 2021.

De acordo com o INE, houve mais 514,9 mil turistas residentes em 2021, com o total a subir para 4,5 milhões de indivíduos, “traduzindo uma recuperação parcial da descida registada em 2020, face a 2019, em que o número de turistas diminuiu 1,4 milhões”. No ano passado, segundo o instituto de estatística, 38,5% dos residentes “realizaram viagens tendo como destino exclusivamente o território nacional”, o que representa mais quatro pontos percentuais face a 2020 e apenas 2% (+0,4 p.p.) “efectuaram deslocações exclusivamente ao estrangeiro”. Do total de residentes, “358,5 mil (3,5%, +0,6 p.p.) realizaram viagens quer em território nacional quer fora do país”.

A principal motivação das viagens turísticas dos residentes foi o “lazer, recreio ou férias”, com 34,6% e o alojamento fornecido gratuitamente por familiares ou amigos” manteve-se como a modalidade mais utilizada nas dormidas dos residentes, concentrando 32,7 milhões de dormidas (39,6% do total, 37,8% em 2020)”. “Esta modalidade de alojamento prevaleceu tanto nas deslocações nacionais (39,3% das dormidas, 37,6% em 2020), como nas viagens para o estrangeiro (41,4% das dormidas, 40,2% em 2020)”, explica o INE, recordando que, antes da pandemia, “o alojamento em ‘estabelecimentos hoteleiros e similares’ predominava nas deslocações ao estrangeiro”.


6.9.21

O princípio do fim do “milagre” económico português?

Ricardo Cabral, opinião, in Público on-line

A covid-19 traduziu-se num choque negativo na balança comercial portuguesa que pode ser, pelo menos em parte, permanente.

Na passada semana, o INE publicou as estatísticas sobre a evolução trimestral da economia portuguesa (as estatísticas das contas nacionais trimestrais).

No 2.º trimestre de 2021, o PIB nominal cresceu 14,5% em relação ao trimestre homólogo, uma taxa excelente, mas que ainda assim apenas deixa o PIB nominal praticamente ao nível do 1.º trimestre de 2019. Em termos reais, o PIB cresce 15,5% em relação ao período homólogo do ano anterior, porque o INE estima que os preços caíram 0,9% nesse período.

Pela primeira vez desde o 1.º trimestre de 2020, o PIB anual cresce em termos nominais, no ano terminado no 2.º trimestre de 2021, ainda que a uma taxa modesta de 0,1%.
Razões para considerar que a crise covid-19 foi completamente ultrapassada?

Infelizmente não. A balança comercial (de bens e serviços) está a puxar o PIB para baixo, com um efeito negativo crescente, que se tem agravado de trimestre para trimestre. No 2.º trimestre de 2021, o défice da balança comercial atingiu 3,7% do PIB, quando no 2.º trimestre de 2019, antes do início da pandemia, a balança comercial apresentava um excedente de +0,2% do PIB. É necessário recuar uma década (2.º trimestre de 2011) para observar um défice da balança comercial igual ou superior.

Por outras palavras, no 2.º trimestre de 2021 e em termos nominais, a procura interna já ultrapassou o pico atingido antes do deflagrar da pandemia covid-19, suportada pelo consumo bem como, em menor grau, pelo investimento.

Mas, com o contributo negativo da balança de bens e serviços que, em termos anuais, se aproxima dos 3% do PIB (défice de 2,6% do PIB no ano concluído no 2.º trimestre de 2021), é pouco provável que o PIB nominal supere os níveis atingidos em 2019 já em 2021.
A pandemia veio colocar em causa o modelo de desenvolvimento do país

Como se vem defendendo há muito nesta coluna, a crise do euro – de endividamento externo de vários estados-membros da Área do Euro que resulta de uma deficiente arquitectura da União Económica e Monetária – não foi verdadeiramente resolvida. As autoridades europeias empurraram o problema com a barriga, com consequências negativas para o desenvolvimento da economia portuguesa no médio e no longo prazo.

É certo, a política monetária contribuiu para reduzir a taxa de juro, assegurando uma muito melhor dinâmica das dívidas externa e pública de países como Portugal.

Por outro lado, a política de austeridade europeia adoptada por sucessivos governos nacionais deprimiu a procura interna de forma a reduzir a taxa de crescimento das importações, resultando num aumento da taxa de cobertura das importações de bens em torno de 65%-70% entre 1996 e meados de 2011, para em torno de 80%-85% desde 2012.
Apostar tudo em dois cavalos: turismo e benefícios fiscais para o imobiliário

Face aos constrangimentos europeus que restringem a autonomia (e a soberania) das autoridades nacionais e as políticas públicas, a estratégia de política adoptada acabou por se traduzir numa especialização nos sectores onde o país apresenta vantagens comparativas e na criação de incentivos fiscais para atrair para Portugal não-residentes com elevado património, nomeadamente, vistos “gold” e o estatuto dos não-residentes habituais.

A instabilidade no Médio Oriente e a redução dos preços do transporte aéreo estimularam de modo significativo o crescimento do turismo de curta duração que, com o desenvolvimento da oferta nacional, deram então uma preciosa ajuda para uma década de ouro da indústria do turismo nacional.
 

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Gráfico 1. Balança de bens e balança de serviços (Portugal, soma móvel últimos 12 meses)

Sobretudo em resultado do crescimento dessa indústria (ter presente a relevância das receitas de exportação da TAP), o contributo da balança de serviços para o PIB, em contas nacionais, aumentou 4 pontos percentuais, de cerca de +3% do PIB em 2010 para quase +7% do PIB em 2019. O gráfico 1 revela o crescimento continuado do excedente da balança de serviços entre 2010 e 2019 (soma móvel dos últimos 12 meses, em milhões de euros). A balança de bens, em contraste, deteriorou-se entre 2013 e 2019.

O gráfico 2 mostra que o excedente crescente da balança de serviços, ao superar o défice da balança de bens, permitiu que a balança de bens e serviços fosse excedentária entre Dezembro de 2012 e Abril de 2020 (soma móvel dos últimos 12 meses, em milhões de euros), contribuindo de forma determinante para o equilíbrio das contas externas do país nesse período.
 

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Gráfico 2. Balança de bens e serviços e respectivas componentes (Portugal, soma móvel últimos 12 meses)
A covid-19 veio colocar em causa essa estratégia de política macroeconómica nacional

O maior dinamismo da procura interna em 2021 tem-se traduzido numa ligeira deterioração balança de bens. Contudo, até ao 2.º trimestre, as exportações de serviços continuam muito abaixo dos níveis registados até 2019 (em termos anuais, cerca de 12 mil milhões de euros abaixo, ou 5,8% do PIB).

O Verão parece ter dado um impulso ao turismo, mas parece pouco provável que o turismo volte a ter o papel e a importância que tinha até 2019 para a economia nacional. Pelo que se coloca a questão: onde encontrar actividade económica que possa gerar exportações líquidas de 3%-4% do PIB para substituir o contributo do turismo e reequilibrar as contas externas do país?
O PRR não é o “el dorado”

As associações empresariais do país (e alguns partidos da oposição) têm-se multiplicado em críticas ao PRR do governo com o argumento que vai pouco dinheiro para as empresas (e que a maior parte dos fundos vai para o sector público).

Essa crítica parece pouco fundamentada, porque se afigura que não são compreendidas as dificuldades das políticas públicas (e do governo) a este respeito. O PRR, como estabelecido, está empenhado em “dar” dinheiro às empresas. O problema é que a menos que se queira dar dinheiro directamente aos empresários sem que estes tenham qualquer obrigação de investir, não é fácil encontrar, em número e dimensão económica, projectos do sector privado estruturados que possam utilizar esses fundos para desenvolver a sua actividade e sobretudo aumentar as exportações (ou para substituir as importações).

O tecido empresarial português dificilmente será capaz de processar tal volume de dinheiro a fundo perdido em projectos economicamente viáveis.

É, por conseguinte, pouco provável que o PRR seja capaz de vir a dar um contributo muito significativo (i.e., de mais de 1% do PIB por ano) para a balança comercial portuguesa.
Enfiar a cabeça na areia?

Em síntese: a covid-19 traduziu-se num choque negativo na balança comercial portuguesa que, para já, parece ser de cerca de 3%-4% do PIB por ano na balança de serviços. É possível que esse choque seja, pelo menos em parte, permanente e se tal for o caso, o endividamento externo rapidamente voltará à sua trajectória de crescimento insustentável e, desta feita, não é com austeridade que corrigimos um problema desta dimensão como também não o foi em 2011-2013. Nessa altura, felizmente e em contraste, tivemos a ajuda do crescimento do turismo.

Por conseguinte, as autoridades nacionais enfrentam o enorme desafio de dinamizar a estrutura produtiva do país de modo a torná-la capaz de reequilibrar as contas externas do país num prazo relativamente curto (5 anos?), quase sem instrumentos de política industrial. Essa afigura-se uma missão bastante difícil, após décadas a insistir na mesma tecla – a das exportações –, sem sucesso, desta vez mesmo com os salários reais a descer (ou se calhar por isso mesmo). Seria bom não continuar a insistir numa estratégia que não resultou no passado.

30.7.21

Economia acelerou retoma com crescimento de 4,9% no segundo trimestre

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Economia portuguesa mais do que compensou, no segundo trimestre do ano, a quebra que tinha registado no arranque de 2021. Variação do PIB foi de 4,9% em cadeia e de 15,5% em termos homólogos, colocando o PIB num nível que fica 4,7% abaixo do registado antes da crise

Beneficiando do alívio registado nas medidas de confinamento a partir do mês de Março, a economia portuguesa garantiu, no segundo trimestre deste ano, um crescimento de 4,9% em relação aos três meses imediatamente anteriores. Comparando com o mesmo trimestre do ano anterior, quando a economia se afundou no início da pandemia, a variação do PIB foi de 15,5%.

A expectativa já era a de que, entre Abril e Junho passados, a economia portuguesa tivesse registado um resultado positivo. E, esta sexta-feira, na primeira estimativa publicada sobre as contas nacionais do segundo trimestre de 2021, o Instituto Nacional de Estatística confirmou-o.

Depois do recuo de 3,2% no primeiro trimestre, o PIB recuperou de forma acentuada, apresentando uma variação em cadeia de 4,9% e colocando a economia portuguesa mais perto de regressar aos níveis de actividade que registava antes do início da crise. Neste momento, o PIB trimestral ainda é 4,7% mais baixo do que aquele que se verificava no quarto trimestre de 2019, o último antes dos efeitos negativos da pandemia se começarem a fazer sentir.

No que diz respeito à variação do PIB face ao período homólogo do ano ano anterior, Portugal passou de um recuo de 5,3% no primeiro trimestre deste ano para um crescimento de 15,5% no segundo, o mais alto alguma vez registado no país (de acordo com as séries históricas trimestrais disponíveis). Este resultado deve-se em larga medida ao efeito base, já que a comparação é feita precisamente com o trimestre mais negativo da história da economia portuguesa: o segundo de 2020, em que o PIB caiu 14% em cadeia e 16,4% em termos homólogos.

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Ao compensar a recaída do primeiro trimestre, esta aceleração do PIB no segundo trimestre do ano faz com que, num cenário de prolongamento da tendência positiva na segunda metade de 2021, a economia portuguesa possa atingir um ritmo de crescimento próximo do projectado no total do ano. O Governo antecipa no Programa de Estabilidade uma variação anual do PIB de 4% e a Comissão Europeia, nas previsões de Verão, de 3,9%.

O resultado do segundo trimestre ficou no entanto acima daquilo que Bruxelas previa. Os técnicos da Comissão esperavam uma variação do PIB em cadeia de 3,3%, mas a economia portuguesa cresceu 4,9%.

A limitar a confiança em relação à evolução da economia este ano estão contudo os sinais menos positivos dados pelos indicadores disponíveis para o mês de Julho. Num cenário de recuo do desconfinamento em diversos concelhos do país, assistiu-se nas últimas semanas a quebras nos níveis de confiança dos consumidores, nas expectativas dos empresários e no indicador diário de actividade económica calculado pelo Banco de Portugal.
Portugal mais rápido que a Europa

De qualquer forma, antes do impacto negativo da quarta vaga em Julho, a economia portuguesa conseguiu efectivamente destacar-se a nível europeu.

Se no primeiro trimestre do ano tinha sido a economia da zona euro com uma contracção mais forte (variação negativa em cadeia de 3,2% contra 0,3 na zona euro), agora foi, entre aquelas que já publicaram os seus resultados, a que mais cresceu durante o segundo trimestre. A variação em cadeia do PIB de 4,9% compara com um crescimento médio na zona euro de 2% (1,9% na EU). A variação do PIB em termos homólogos de 15,5% de Portugal é também superior à média da zona euro de 13,7%, mas fica atrás da de países como a Espanha, França e Itália.

Estas diferenças entre Portugal e o resto da zona euro são explicadas essencialmente pela forma como tem evoluído a pandemia nos diversos países. Depois de um final de 2020 mais positivo, Portugal viu a terceira vaga da pandemia penalizar de forma muito acentuada o desempenho da economia no primeiro trimestre, ao passo que no resto da Europa o impacto foi mais suave. Em contrapartida, os efeitos do desconfinamento no segundo trimestre foram mais claros em Portugal.


23.7.21

Actividade económica recua com efeito da quarta vaga

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Indicador diário de actividade económica recua pela segunda semana consecutiva, caindo para o valor mais baixo desde meados de Abril.

Afectada pelo retrocesso no desconfinamento em diversos concelhos do país, a economia portuguesa voltou, nas duas primeiras semanas de Julho, a uma tendência de recuo. Um revés que constitui um risco para as projecções de retoma forte da economia que estão a ser feitas para a segunda metade deste ano.

O indicador diário de actividade económica calculado pelo Banco de Portugal – e que é um dos dados que permite com mais rapidez medir a evolução da economia – registou, na semana entre 12 e 18 de Julho uma deterioração. A variação média do indicador face ao mesmo período de 2019 (não se usa o ano de 2020 como referência para evitar a distorção gerada pelos dados muito negativos do início da pandemia) passou de 0,6% para -4,2%.

Já na semana entre 5 e 11 de Julho se tinha assistido a uma deterioração deste indicador (que passou de 1,7% para 0,6%), confirmando-se agora o regresso a variações negativas, com o indicador a atingir o valor mais baixo desde meados do passado mês de Abril.

Este recuo na actividade económica acontece depois de um período, entre Maio e Junho, em que a evolução foi positiva, o que levou a que diversas entidades, incluindo o Governo, mostrassem um maior optimismo nas suas previsões para o crescimento da economia durante o ano de 2021. João Leão, o ministro das Finanças, assumiu que o crescimento pudesse chegar aos 5% este ano.

No entanto, o surgimento da quarta vaga da pandemia - que teve como consequências o recuo no processo de desconfinamento que se tem vindo a verificar em vários concelhos, um dos primeiros Lisboa, e a diminuição do número de turistas a chegar ao país - está agora, de forma clara, a limitar a evolução da actividade económica. A Comissão Europeia, nas previsões divulgados no início deste mês, excluiu Portugal do cenário de melhoria geral que antecipou para a zona euro, citando precisamente os efeitos que a quarta vaga da pandemia poderiam vir a ter na economia.

Ainda assim, em comparação com o que aconteceu, quer no início da pandemia, quer no auge da segunda e terceira vaga, a variação negativa da actividade económica é, para já, mais moderada.

Para calcular o indicador diário de actividade económica, o Banco de Portugal utiliza os dados disponíveis de forma quase imediata relativos ao tráfego rodoviário de veículos comerciais pesados nas auto-estradas, ao consumo de electricidade e de gás natural, à carga e ao correio desembarcados nos aeroportos nacionais e às compras efectuadas com cartões em Portugal por residentes e não residentes.

6.5.21

Porto é o município onde o preço das casas mais aumentou no final de 2020

Luísa Pinto, in Públio on-line

Em Lisboa, a taxa de variação permaneceu nula, segundo os dados divulgados nesta quarta-feira pelo INE.

Apesar de a pandemia estar instalada, o aumento do preço de vendas das casas continuou numa trajectória de crescimento e o último trimestre de 2020 não foi excepção. No quarto trimestre de 2020 (últimos três meses), o preço mediano de alojamentos familiares em Portugal foi de 1188 euros (€) por metro quadrado (m2), o que representa uma taxa de variação homóloga de 7,8%, divulgou nesta quarta-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE). E entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, o Porto foi a que registou a maior taxa de variação homóloga com um crescimento de 21,2%. No caso do município de Lisboa, a variação homóloga no quarto trimestre foi nula.

De acordo com o INE, o preço mediano da habitação manteve-se acima do valor nacional nas regiões do Algarve (1771€/m2), Área Metropolitana de Lisboa (1630€/m2), Região Autónoma da Madeira (1322€/m2) e Área Metropolitana do Porto (1240€/m2). A Área Metropolitana do Porto foi a região que registou o maior crescimento homólogo nos preços da habitação, +14,7%. O menor preço mediano de venda de alojamentos familiares verificou-se na região do Alto Alentejo (433€/m2).

Na análise às cidades com mais de 100 mil habitantes (e há 24 cidades que caem neste escrutínio do INE), verifica-se que houve lugar a uma desaceleração dos preços em 16 municípios. Destes 16 municípios, seis pertenciam à Área Metropolitana de Lisboa e cinco à do Porto, podendo destacar-se a cidade de Almada, onde se verificou uma quebra de 10,8 pontos percentuais, e a Maia, com uma queda de 6,4 pontos percentuais, como os municípios com maiores quedas em cada área, respectivamente. A desaceleração mais expressiva dos preços foi em Leiria, com uma queda de 12,4 pontos percentuais.

Se a análise for feita em termos homólogos mas considerando os últimos 12 meses terminados no final de 2020, percebe-se que todas as cidades com mais de 100 mil habitantes registaram aumento dos preços. Para além do Porto, verificou-se uma variação expressiva em Vila Nova de Gaia (+13,8%), Funchal (+11,7%) e Amadora (+11,2%).


Lisboa, tal como em trimestres anteriores, voltou a registar um crescimento homólogo inferior ao nacional, verificando-se uma desaceleração do crescimento homólogo dos preços desde o quarto trimestre de 2018. Face ao terceiro trimestre de 2020, a taxa de variação homóloga diminuiu em quatro cidades: Lisboa (-1,3 pontos percentuais), que registou a maior diminuição, Amadora (-0,8 p.p.), Braga (-0,6 p.p.) e Coimbra (-0,4 p.p.).

No quarto trimestre de 2020, nas cidades de Lisboa, Porto, Funchal, Amadora, Coimbra e Vila Nova de Gaia, o preço de venda de alojamentos manteve-se acima do valor do país. Braga (1032€/m2) foi a única cidade com mais de 100 mil habitantes que registou um preço inferior ao valor nacional, tal como em trimestres anteriores.


15.3.21

Portugal com maior subida do emprego no quarto trimestre

Rosa Soares, in Público on-line

O PIB caiu 0,7% na zona euro e 0,5% na União Europeia, face ao trimestre anterior. Portugal registou uma das maiores descidas (-6,1%).

Portugal e a Estónia registaram a maior subida do emprego em cadeia (1,9%) no quarto trimestre de 2020, seguidos de Espanha (1,2%), bem acima da média de 0,3% na zona euro e de 0,4% na União Europeia (UE).

De acordo com a estimativa do Eurostat, divulgada nesta terça-feira, no acumulado de 2020, a taxa de emprego caiu 1,6% na zona euro e 1,5% na UE, contrariando o crescimento de 1,2% e 1% em 2019.

Em comparação com o quarto trimestre de 2019, o emprego diminuiu 1,9% na zona euro e 1,6% na UE entre Outubro e Dezembro de 2020, registando um abrandamento face às quebras de 2,1% e 2%, respectivamente, no terceiro trimestre de 2020.

Na variação homóloga, a taxa de emprego teve o maior recuo em Espanha (-4,2%), Estónia (-4,0%) e Letónia (-3,4%) e avançou 1,7% no Luxemburgo e 0,8% na Polónia.

Em Portugal, a taxa de emprego recuou 0,6% entre Outubro e Dezembro face ao período homólogo de 2019.

Segundo o gabinete estatístico europeu, no quarto trimestre de 2020, o PIB corrigido de sazonalidade diminuiu 0,7% na área do euro e 0,5% na UE face ao trimestre anterior. Portugal registou uma das maiores descidas, de 6,1%.

As quedas contrariam a forte recuperação no terceiro trimestre de 2020 (+12,5% na área do euro e + 11,6% na UE), depois das maiores quedas desde a série histórica iniciada em 1995 observadas no segundo trimestre de 2020 (-11,6% na área do euro e -11,2% na UE).

No conjunto do ano de 2020, o PIB caiu 6,6% na área do euro e 6,2% na UE, após + 1,3% e + 1,6% respectivamente em 2019.

4.3.21

Espanha e Polónia estão nos extremos opostos do desemprego na União Europeia

Luís Villalobos, in Público on-line

Média europeia da taxa de desemprego fixou-se nos 7,3% em Janeiro, segundo o Eurostat, mas em Espanha este indicador está nos 16% e na Polónia está nos 3,1%.

A taxa de desemprego na União Europeia (UE) situou-se nos 7,3% em Janeiro deste ano, segundo os dados divulgados esta quinta-feira pelo Eurostat, o que representa uma subida de apenas 0,7 pontos percentuais face a Janeiro de 2020, com os efeitos da pandemia de covid-19 a serem mitigados pelas medidas de apoio à economia (mesmo assim, foi interrompida a tendência de descida que se verificava desde 2013).

A taxa de 7,3% é idêntica à registada no mês anterior. O mesmo aconteceu com a taxa na zona euro, que se situou nos 8,1%. Esta média, no entanto, esconde realidades distintas no seio da UE, cabendo o pior resultado a Espanha, com uma taxa de 16%.

Na realidade, essa posição até pode caber à Grécia, mas os dados de Janeiro ainda não foram divulgados por Atenas. Estes são os únicos Estados membros onde o desemprego está nos dois dígitos. No lado oposto está a Polónia, com 3,1%, seguindo-se a Chéquia com 3,2% e a Holanda com 3,6%.

Já Portugal está sensivelmente a meio da tabela, mas abaixo da média, com 7,2%. Segundo o Eurostat, havia 15,6 milhões de pessoas desempregadas na UE no passado mês de Janeiro, das quais 13,3 milhões estavam em países da zona euro.

Os dados mostram que houve também um aumento do desemprego jovem (mais ligados a contratos a prazo, que estão na linha da frente da pandemia), e que no caso de Espanha chega aos 39,9%. Aqui, o melhor retrato não é da Polónia, com 14,3%, mas sim da Alemanha, com 6,2%.

No caso de Portugal, a taxa de desemprego entre os jovens (menos de 25 anos) está nos 24,6%, quando a média na UE está nos 16,9% e na zona euro é de 17,1% (contra 15% e 15,6% em Janeiro de 2020, respectivamente). De acordo com o gabinete de estatística europeu, havia em Janeiro 2,9 milhões de jovens desempregos na UE, dos quais 2,3 milhões na zona euro.


Valdis Dombrovskis: países mais endividados devem ser mais vigilantes no próximo orçamento

Rita Siza, in Público on-line

Vice-presidente executivo da Comissão Europeia aconselha os países com maiores desequilíbrios macroeconómicos a começarem a preparar as condições para a saída do actual regime de excepção, em que as regras do Pacto de Estabilidade estão suspensas.

Quando começarem a desenhar o orçamento do próximo ano, os governos devem ter em conta que a disciplina orçamental vai regressar já em 2023, lembrou Valdis Dombrovskis, numa entrevista com vários meios europeus, entre os quais o PÚBLICO.

A Comissão recomendou esta quarta-feira que, ao definirem as próximas medidas de apoio e combate à crise, os Estados-membros com níveis de endividamento elevado, como Portugal, tenham em conta a “qualidade” e “sustentabilidade” das contas públicas. Isto quer dizer que na preparação do orçamento do próximo ano já devem fazer um esforço de contenção de despesa, apesar das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento continuarem suspensas até ao final de 2022?
A nossa previsão, de acordo com as actuais projecções macroeconómicas, é que a cláusula geral de escape do Pacto de Estabilidade e Crescimento se mantenha activa até ao fim de 2022, e seja desactivada em 2023. Esta cláusula, como o próprio nome indica, é geral, isto é, aplica-se a todos os países da União Europeia. Mas há efectivamente um elemento de diferenciação em termos de política orçamental, para o qual tencionamos chamar a atenção no quadro das recomendações específicas por país para 2022, apesar de ainda vigorar a cláusula de escape e as regras se encontrarem suspensas.

O que dizemos é que os Estados-membros com um menor risco de sustentabilidade devem continuar a aplicar as medidas de apoio orçamental. Em relação aos países que têm um nível mais elevado de dívida pública, também recomendamos que mantenham as medidas de apoio, mas sejam mais vigilantes em termos do efeito orçamental dessas medidas a médio prazo e o seu impacto na sustentabilidade da dívida.

O que dizemos é que a sua abordagem deve ser mais matizada. Os países que já estão muito endividados têm de evitar uma maior deterioração da sua posição orçamental, e por isso têm de ser muito sérios ao decidir onde vão gastar o dinheiro e ter muito cuidado com a qualidade das finanças públicas. Mas isso não significa que devam fazer uma retirada abrupta ou prematura dos apoios à economia. Aliás, na comunicação reforçámos que isso não deve acontecer.

Em relação aos apoios à recuperação da economia, a Comissão escreve na sua comunicação que as medidas devem ser mais selectivas. Quer dizer que os governos devem concentrar os apoios em determinados sectores mais directamente afectados pela pandemia?
O que nós indicámos na nossa comunicação é que terá de começar a ser feita uma mudança gradual das medidas que estavam ligadas ao apoio de emergência – por exemplo, os esquemas temporários para a manutenção dos postos de trabalho – para medidas que sejam mais de fundo em termos de políticas activas, no caso direccionadas ao mercado laboral.

Não estamos a dar instruções sector por sector, mas estamos a dizer aos Estados-membros que devem começar a preparar estas mudanças estruturais recorrendo ao financiamento que está disponível para promover a recuperação e a resiliência da economia — que de resto está ligado ao nosso objectivo de transição ecológica e digital. O princípio é sempre o mesmo: as medidas não podem servir para preservar a economia do passado mas para facilitar a mudança.

Além disso, sabemos que as situações são muito diferentes em cada Estado-membro. O que estamos a sugerir é uma direcção política, no sentido da evolução das medidas de apoio induzidas pela crise, e que são necessariamente temporárias, para outras que garantam oportunidades de emprego através desta dupla transição verde e digital. Mais uma vez, trata-se de encontrar um equilíbrio entre estimular a curto prazo e assegurar a sustentabilidade a médio e longo prazo.

Os países que foram mais afectados pela crise provocada pelo coronavírus são os mais endividados da UE. Quando a Comissão lhes diz para vigiar a sustentabilidade da dívida, está a dizer-lhes para usar apenas os subsídios do Mecanismo de Recuperação e Resiliência?
Com efeito, recomendamos que ponham maior ênfase na sustentabilidade orçamental, e é precisamente aí que instrumentos como o MRR podem fazer a diferença, uma vez que foram criados para ajudar os países que ficaram numa situação mais vulnerável, seja por causa do nível da dívida, seja pelo menor grau de desenvolvimento económico, a reagir à crise. Por via das subvenções do MRR, estes países têm a possibilidade de estimular a economia e financiar a recuperação sem prejudicar a estabilidade orçamental e sem acrescentar à dívida.

Também se diz que quando terminar o actual regime de excepção, deve usar-se a flexibilidade na aplicação do Pacto de Estabilidade e Crescimento sempre que necessário. Isto significa que a Comissão está disposta a ser mais tolerante para não penalizar os Estados-membros que terão que fazer maior esforço para cumprir as metas?
Já existe uma comunicação de 2015 da Comissão Europeia sobre o melhor uso da flexibilidade no quadro do PEC. Mas deixe-me enfatizar que há uma diferenciação no esforço de consolidação orçamental que é previsto pelas regras dependendo da posição dos Estados-membros no ciclo económico. Essa diferenciação continuará a ser feita quando regressarmos à aplicação do PEC. É claro que, no geral, vamos recomeçar com níveis de défice e dívida muito mais elevados do que tínhamos antes da crise, e num lugar diferente do ciclo económico. E isso naturalmente será levado em conta quando discutirmos a flexibilidade das regras.

A Comissão confirmou esta quarta-feira que pretende retomar o debate para a reforma do PEC assim que a crise for ultrapassada. Nestes últimos meses, notou grandes mudanças em termos das ideias e posições sobre a eventual revisão das regras do tratado orçamental?
Em relação ao debate político sobre a revisão do PEC, o que posso dizer é que as diferenças sobre as regras orçamentais que existem desde os anos 90 não desapareceram. Claro que há lições da actual crise que vamos ter que aprender, e não desejo antecipar-me a essas conclusões. Para já, vamos reabrir a consulta pública para a revisão das regras, com base nos parâmetros antes avançados pelo Conselho Orçamental Europeu. Isso já nos permitirá constatar até que ponto as posições políticas se alteraram ou não. Antes do processo ser interrompido, já havia um largo consenso sobre a necessidade de simplificação das regras.

Há uma semana, o primeiro-ministro, António Costa, defendeu que o debate sobre o futuro das regras orçamentais da UE arrancasse já no segundo semestre do ano, e disse que este podia ser feito em paralelo ou em conjunto com a Conferência sobre o Futuro da Europa. A revisão do PEC poderia ser mais um elemento a acrescentar à agenda da conferência?
Essa seria certamente uma possibilidade. Mas terá de ser a Conferência sobre o Futuro da Europa a decidir e determinar exactamente qual o alcance do exercício que pretende realizar, porque há uma grande variedade de temas para discutir. Em relação ao exercício que nós vamos levar a cabo, passa pelo relançamento da consulta pública com vista à alteração das regras actuais. Na comunicação de hoje dizemos muito claramente que essa discussão só deve avançar quando a recuperação económica estiver consolidada.

21.12.20

Redução da actividade económica agravou-se em Novembro

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Indicadores de confiança diminuíram em todos os sectores de actividade.

Depois de uma recuperação parcial no pós-primeira vaga, a actividade económica voltou a cair em Outubro e agravou essa tendência em Novembro, com uma queda do clima económico e dos indicadores de confiança em todos os sectores de actividade, revela a síntese de conjuntura divulgada nesta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Os dados económicos já disponíveis relativamente a Novembro apontam para um agravamento do indicador da actividade, que reúne um conjunto de indicadores quantitativos que reflectem a evolução da economia.

As expectativas dos consumidores para os 12 meses seguintes, seja sobre as perspectivas de evolução da situação económica do país, seja pela avaliação que fazem da sua própria situação financeira familiar ou as expectativas de realização de compras importantes, fizeram recuar o indicador de confiança dos consumidores, que tinha estado num nível “relativamente estável” nos cinco meses anteriores.

Nas empresas, o sentimento é idêntico, da construção e obras públicas, do comércio aos serviços, passando pela indústria transformadora.

Na construção e obras públicas, o indicador “diminuiu acentuadamente” por causa das apreciações sobre a carteira de encomendas e as perspectivas de emprego no sector. Foi na promoção imobiliária e construção de edifícios que a queda foi “particularmente expressiva”, embora transversal à engenharia civil e às actividades especializadas de construção, indica o INE.

No comércio, um dos segmentos afectados pelas novas medidas restritivas decididas pelo Governo para controlar a segunda vaga da pandemia de covid-19, o indicador de confiança dos empresários também “diminuiu significativamente, interrompendo o perfil ascendente observado entre Maio e Outubro”. De resto, a descida foi maior no comércio a retalho do que no comércio por grosso.

O valor mínimo do indicador, no entanto, continua a ser o mês de Abril. Para esta trajectória descendente que agora se verificou, diz o instituto estatístico, contribuíram os indicadores sobre o volume das vendas e as perspectivas sobre a actividade das empresas para os três meses seguintes, “tendo as opiniões sobre o volume de stocks contribuído positivamente”.

Quanto aos serviços, onde a quebra também foi “significativa”, contribuíram para isso as apreciações dos empresários sobre “a evolução da carteira de encomendas e, em maior grau, das perspectivas sobre a evolução da procura”. Espectáculos e outras actividades artísticas e desportivas, alojamento e restauração, transportes e armazenagem são os ramos de actividade onde a confiança mais caiu.

Menos consumo de electricidade

Há indicadores complementares que também apontam para uma deterioração da actividade no mês passado: o “montante global de levantamentos nacionais, de pagamentos de serviços e de compras em terminais de pagamento automático na rede multibanco diminuiu 11,8% em Novembro, em termos homólogos, traduzindo um agravamento face ao mês anterior (decréscimo de 6,3%); as vendas de automóveis ligeiros de passageiros caíram 28% em relação a Novembro do ano passado (as vendas de comerciais ligeiros baixaram 1,4% e, em contrapartida, assistiu-se a um crescimento de 17% na comercialização de veículos pesados).

O INE revela ainda que “o consumo médio de electricidade em dia útil registou uma variação homóloga de -3,8% em Novembro, o que compara com taxas de -1,7% e -1,6% [em] Setembro e Outubro, respectivamente”.

O Banco de Portugal sublinhava na semana passava, ao divulgar as suas novas previsões económicas, que a recuperação no terceiro trimestre “foi superior ao antecipado”, embora a evolução da pandemia e a as medidas de contenção tenham levado a uma “revisão em baixa da actividade” nestes três últimos meses do ano. A queda anual da economia deverá ser de 8,1%, podendo seguir-se uma recuperação progressiva a partir da primeira metade do próximo ano, com o Produto Interno Bruto (PIB) de 2021 a crescer 3,9%, segundo as previsões do banco central.

Na Europa, o sentimento económico também está a baixar nesta segunda vaga em que os governos decidiram reforçar as medidas de confinamento e, nalguns casos, decretar o encerramento de algumas lojas para conter a propagação do novo coronavírus.

Nas 19 economias que partilham a moeda única, o indicador “diminuiu significativamente” em Novembro, com uma deterioração da confiança dos consumidores, bem como do indicador de confiança nos sectores do comércio a retalho, serviços e ainda, embora “de forma mais moderada”, na construção e na indústria.

9.12.20

Pandemia custou 4,3 milhões de empregos na UE até Setembro

Victor Ferreira, in Público on-line

Produto Interno Bruto da União Europeia cresceu 11,5% no terceiro trimestre, um recorde desde 1995. Portugal tem o quarto maior crescimento em cadeia.

Tal como já se esperava, a economia europeia viveu um período de recuperação no terceiro trimestre de 2020, permitido pelo gradual desconfinamento e regresso à actividade económica. Isso teve reflexo positivo em termos de emprego, ainda que no fim de Setembro houvesse menos 4,3 milhões de pessoas empregadas do que no fim de 2019.

Mesmo assim, é um resultado melhor do que aquele que se verificava no final do segundo trimestre, altura em que, segundo o Eurostat, a UE tinha perdido 5,5 milhões de empregos face ao último trimestre de 2019. Números que, no entanto, não têm em conta os milhões de europeus que, nesse período, estiveram parcial ou totalmente parados por estarem abrangidos por medidas como o layoff.

Segundo o Eurostat, que divulgou hoje mais dados relativos ao Produto Interno Bruto (PIB) na zona euro e no conjunto da União Europeia (UE), a variação em cadeia entre Julho e Setembro foi a maior desde 1995. Mesmo assim, o resultado fica uma décima abaixo do que era estimado. Na comparação homóloga com 2019 o PIB reflecte um recuo de 4,3% no conjunto dos países do euro. Os sinais de Novembro eram negativos: o regresso aos confinamentos parciais ou totais gerou expectativas de novo recuo do PIB no quarto trimestre.

Quanto ao trimestre anterior, segundo a entidade estatística europeia, o PIB da zona euro e da UE subiu 12,5% (a anterior estimativa era de 12,6%) e 11,5%, respectivamente, face ao segundo trimestre de 2020, que foi o mais afectado pelo confinamento ditado pela luta antipandemia. Tanto num caso como no outro, são subidas recorde e os valores mais elevados desde o início desta série temporal, há 25 anos.

Tal desempenho deve-se sobretudo ao consumo privado, como mostra a decomposição dos agregados de despesa. O aumento em cadeia nesta componente, segundo o Eurostat, foi de 7,3 e 6,9 pontos percentuais na zona euro e na UE, respectivamente.

Também o investimento em formação de capital teve uma variação positiva, sendo o segundo factor com mais peso no crescimento. Em terceiro, ficou o consumo público.

Porém, não evita que a produção económica continue em níveis abaixo da registada no mesmo período de 2019. Na comparação trimestral homóloga, as economias da zona euro e da UE estavam, no início de Outubro de 2020, 4,3% e 4,2% abaixo de 2019.

Quem mais caiu tem as maiores subidas

Sem surpresa, os países que viveram as maiores quebras no segundo trimestre são aqueles que agora apresentam as maiores taxas de crescimento no terceiro trimestre. França (18,7%), Espanha (16,7%) e Itália (15,9%) lideraram os ganhos, com a economia portuguesa em quarto lugar, tendo crescido 13,3%.

Na comparação internacional, o desempenho português supera a média da UE na variação em cadeia (13,3% contra 11,5%), mas fica aquém da média europeia na comparação homóloga (quebra nacional de 5,7% contra o recuo europeu de 4,2%).


No extremo oposto, Grécia (2,3%), Estónia e Finlândia (3,3% cada) e a Lituânia (3,8%) registaram os aumentos menores no PIB. Mas o significado é diferente para a Grécia, cujo PIB tinha recado 14,1% no segundo trimestre. Já os outros tinham tido as menores quedas em cadeia no segundo trimestre.

Na comparação homóloga, a Grécia apresentou, no terceiro trimestre, o pior resultado percentual (-11,7%), seguida da Croácia (-10,0%) e de Malta (-9,2%).

Portugal está no lote de nove países que só deverão recuperar os níveis pré-crise depois de 2022.
Pandemia custou 4,3 milhões de empregos até Setembro

O Eurostat também divulgou dados do emprego na UE e, tal como no PIB, a variação em cadeia é positiva e a mais elevada desde 1995. O dado mais significativo é, no entanto, o decréscimo de pessoas empregadas quando comparado com os números do quarto trimestre de 2019. Com base nos dados ajustados, o Eurostat calcula que a pandemia custou até Setembro de 2020 o emprego a 3,6 milhões de pessoas na zona do euro e 4,3 milhões no conjunto da UE.

O número de pessoas empregadas cresceu 1,0% na zona euro e 0,9% na UE, invertendo dois trimestres seguidos de quebra. Comparando com o período homólogo de 2019, o nível de emprego continuou mais baixo no fim de Setembro, com um recuo de 2,3% e 2% na zona do euro e na UE, respectivamente.

A agência estatística da UE realça a importância dos regimes de apoio ao emprego como o layoff na mitigação da destruição de emprego.

Irlanda, Espanha e Áustria foram os três países com maior crescimento no emprego, com Portugal a situar-se no 10.º lugar, ainda acima da média dos países do euro e do conjunto da UE. No terceiro trimestre, Portugal registou uma subida de 1,2% na taxa de emprego face ao segundo trimestre e um recuo de 2,6% na variação homóloga, o que também fica acima da média europeia.

30.11.20

Confiança e clima económico baixaram em Novembro com agravamento da pandemia

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Perspectivas sobre evolução financeira familiar voltaram a agravar-se. No comércio, a confiança dos empresários “diminuiu significativamente”.

Depois de cinco meses num “patamar relativamente estável”, o indicador de confiança dos consumidores recuou em Novembro, mês em que a pandemia se agravou e o país regressou ao estado de emergência. O clima económico das empresas, que estava a recuperar, também caiu.

Ao actualizar nesta sexta-feira os resultados dos inquéritos de conjuntura mensais, o Instituto Nacional de Estatística (INE) explica que o índice de confiança dos consumidores caiu este mês por causa de um contributo negativo das expectativas para os próximos 12 meses, “nomeadamente, perspectivas sobre a evolução futura da situação económica do país, da situação financeira do agregado familiar e da realização de compras importantes”. Ainda assim, contribuíram positivamente “as opiniões sobre a evolução passada da situação financeira” das famílias.

Este indicador tinha caído de forma abrupta na primeira vaga da pandemia — registou em Abril a maior descida da série estatística, ou seja, desde 1997 — mas conseguiu uma “recuperação parcial” em Maio e Junho, estabilizando a partir daí até Outubro. Agora voltou a contrair-se e não foi um movimento isolado. O indicador de clima económico, aquele que o INE mede a partir de inquéritos às empresas, também estava a recuperar nos seis meses anteriores e interrompeu essa trajectória em Novembro.

O agravamento é transversal: aconteceu em todos os sectores, do comércio e serviços à indústria, passando pela construção e obras públicas, onde, refere o INE, a redução teve uma “maior magnitude”.

O estado de emergência, um estado de excepção ao regime constitucional vigente, foi declarado a 6 de Novembro pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, depois de ouvido o Governo e aprovada a sua autorização pelo Parlamento. Entrou em vigor no dia 9 e foi renovado por mais 15 dias, entretanto.

O inquérito aos consumidores começou dias antes, a 2 de Novembro, e decorreu até dia 17; no caso do inquérito às empresas, decorreu entre 1 e 23 de Novembro.

O INE especifica que 70,1% das entrevistas aos consumidores foram obtidas “até ao dia 5 de Novembro (dia anterior ao anúncio do estado de emergência)”, embora já desde o final de Outubro a possibilidade do regresso a este estado de excepção fosse referida pela comunicação social.

No caso das empresas, indica o INE, “a percentagem acumulada de respostas obtidas antes de 9 de Novembro (data de entrada em vigor do novo estado de emergência) para cada inquérito” foram mais baixas (de 35% na indústria transformadora, de 45,6% na construção, de 41,2% no comércio e de 40,5% nos serviços).

Comércio e restauração criticam programa Apoiar

Queda transversal nos serviços

No comércio, a deterioração é mais acentuada no retalho — onde se fazem sentir as novas restrições aos fins-de-semana com os encerramentos a partir das 13h — do que nas vendas por grosso.

O resultado conjunto é negativo: a confiança dos empresários “diminuiu significativamente, interrompendo o perfil ascendente observado entre Maio e Outubro, após a forte redução em Abril”.

Apesar disso, as perspectivas dos empresários sobre a sua actividade nos três meses seguintes já estava a descer desde Agosto, o que agora se acentuou. Tanto este factor como a avaliação sobre o volume de vendas contribuíram de forma negativa para o resultado final (pelo contrário, as opiniões dos empresários sobre o volume de stocks contribuíram “positivamente” para o resultado global, ainda que as apreciações tenham continuado a descer).

Nos serviços, o indicador também “diminuiu de forma significativa, depois de ter recuperado parcialmente, entre Junho e Outubro, do mínimo histórico da série atingido em Maio”. Com as perspectivas sobre a evolução da procura em queda, o sentimento negativo atravessa as várias áreas dos serviços, com especial ênfase em três áreas: actividades artísticas, de espectáculos, desportivas e recreativas; transportes e armazenagem; e alojamento e restauração.

Do lado dos consumidores, os dados do INE mostram que, a caminho do Natal, as “perspectivas de realização de compras importantes agravaram-se nos dois últimos meses, de forma mais intensa em Novembro”. Quanto às apreciações sobre a concretização de compras importantes no momento em que o inquérito estava a ser respondido, o índice também caiu, embora permaneça “próximo dos valores observados nos cinco meses anteriores”.

Esta trajectória aconteceu apesar de as opiniões sobre a evolução da situação financeira do agregado familiar terem recuperado “ligeiramente em Outubro e Novembro” e, com isso, ficado “num patamar relativamente estável desde Maio”. Só que as perspectivas “relativas à evolução futura da situação financeira do agregado familiar voltaram a contrair-se, “suspendendo a recuperação observada entre Maio e Agosto”.

Na área da construção e obras públicas, a queda deve-se às apreciações sobre a carteira de encomendas e as perspectivas de emprego no sector.