20.9.23
Sete em dez empresas já usam Inteligência Artificial ou Realidade Virtual no processo recrutamento
Até 2030, estima-se que 1,1 biliões de postos de trabalho sejam transformados pela tecnologia, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) citados pela Experis em comunicado de imprensa divulgado a propósito do estudo.
Sete em dez empresas já implementam Inteligência Artificial (IA) ou Realidade Virtual (RV) no seu processo recrutamento ou admitem vir a fazê-lo em três anos, de acordo com o estudo “Immersive Tech Report” da Experis.
Até 2030, estima-se que 1,1 biliões de postos de trabalho sejam transformados pela tecnologia, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) citados pela Experis em comunicado de imprensa divulgado a propósito do estudo.
De acordo com o documento, a maioria dos empregadores acredita que a Inteligência Artificial e a Realidade Virtual criarão mais empregos.
“Face aos receios frequentemente enunciados de que a automação resultará na perda de empregos em larga escala, o estudo “Immersive Tech Report” da Experis conclui, pelo contrário, que a adoção das novas tecnologias tende a gerar um aumento líquido do número de empregos, com 58% das empresas inquiridas a anteciparem que as tecnologias imersivas irão levá-las a contratar mais profissionais, face a 24% que refere que não terão impacto na dimensão das suas equipas e apenas 13% que assume que estas tecnologias levarão à diminuição do seu número de profissionais”, é explicado na mesma nota emitida a propósito do estudo.
Segundo Pedro Amorim, Managing Director da Experis, “tal como noutras esferas da sociedade, o mundo do trabalho começa já a sentir o impacto de tecnologias como a Inteligência Artificial Generativa, o Machine Learning ou a Realidade Virtual” e, “apesar do receio de que estas possam eliminar postos de trabalho, é preciso olhar também para as oportunidades que irão surgir em indústrias e sectores emergentes, nomeadamente, em funções que exigem competências humanas como a criatividade, o pensamento crítico, a resolução de problemas ou a empatia, algo que as máquinas não são capazes de demonstrar”.
O mesmo responsável entende que os “empregadores e profissionais devem mostrar-se, assim, cada vez mais abertos à introdução destas inovações, aproveitando os benefícios que advêm da sua utilização, ao mesmo tempo que reforçam as interações e o fator humano na experiência de trabalho para potenciar a criação de maior valor”.
O estudo “Immersive Tech Report” foi redigido com base em dados recolhidos através de entrevistas a quase 39 mil empregadores de 41 países no ManpowerGroup Employment Outlook Survey mais recentes.
11.8.23
Custo do trabalho sobe 3,5% no segundo trimestre
Aumento deve-se a subida dos custos não salariais por hora efectivamente trabalhada e nos custos médios por trabalhador.
O índice de custo do trabalho subiu 3,5% no segundo trimestre, face a igual período de 2002, quando nos três precedentes tinha subido 6,7%, divulgou esta sexta-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE).
Este aumento resulta "sobretudo dos acréscimos nos custos não salariais por hora efectivamente trabalhada (4,6%) e nos custos médios por trabalhador (7,2%)", refere o INE. No primeiro trimestre, "tinha aumentado 6,7%".
Os custos salariais (por hora efectivamente trabalhada) "aumentaram 3,3% e os outros custos (também por hora efectivamente trabalhada) aumentaram 4,6%, em relação ao mesmo período do ano anterior", adianta o INE.
A evolução homóloga do índice de custo do trabalho (ICT) "também resultou do acréscimo de 7,2% no custo médio por trabalhador e do acréscimo de 3,6% no número de horas efectivamente trabalhadas por trabalhador".
O INE adianta que o aumento "da primeira componente foi transversal a todas as actividades económicas, tendo os aumentos sido menores do que os observados no trimestre anterior".
A Administração Pública registou "a menor variação" (6,5%) e a Construção a maior (8,8%).
"As horas efectivamente trabalhadas por trabalhador também registaram aumentos em todas as actividades económicas, tendo o maior acréscimo sido observado na Construção (5,8%) e o menor na Administração Pública (0,9%)", lê-se no documento.
Face a estas variações, "o ICT aumentou em todas as actividades económicas, tendo o maior acréscimo sido registado na Administração Pública".
No segundo trimestre, "os custos salariais registaram acréscimos entre 1,1%, na Construção, e 5,2%, na Administração Pública".
No trimestre anterior, "todas as actividades económicas tinham registado acréscimos maiores do que os observados neste trimestre", adianta o INE, referindo que "os custos não salariais, à semelhança dos custos salariais, também registaram aumentos inferiores aos do trimestre precedente".
O aumento menos acentuado dos custos, salariais e não salariais, "ficou a dever-se ao maior acréscimo no número de horas efectivamente trabalhadas por trabalhador, em todas as actividades, quando comparado com o trimestre anterior".
De acordo com o INE, os custos não salariais tiveram "variações superiores às dos custos salariais em todas as actividades económicas", o que poderá ser explicado "pelo regime extraordinário de diferimento do pagamento de contribuições à Segurança Social" e pela "normalização das contribuições patronais das empresas".
O regime extraordinário de diferimento do pagamento de contribuições à Segurança Social estabeleceu que "o pagamento das contribuições referentes aos meses de Março, Abril, Maio e Junho de 2022 poderia ser feito de modo faseado – um terço do valor no mês em que era devido e os restantes dois terços em prestações (até um máximo de seis) a partir de Agosto de 2022".
O INE recorda que, durante a pandemia de covid-19, as empresas que aderiram ao regime de layoff simplificado, ao Apoio Extraordinário à Retoma Progressiva ou ao Novo Incentivo à Normalização da Actividade Empresarial, ficaram isentas ou parcialmente dispensadas do pagamento das contribuições patronais.
"A partir do segundo trimestre de 2021, o pagamento das contribuições patronais foi retomado progressivamente e, no segundo trimestre de 2022 (trimestre homólogo com o qual estão a ser comparados com os resultados agora divulgados para o segundo trimestre de 2023), um conjunto de entidades empregadoras beneficiavam, ainda, destas medidas, o que se reflecte nas variações homólogas analisadas", explica o INE.
17.7.23
Sem apoios ou compensações, a inflação “significa sempre um empobrecimento”
Atenta a essa tendência no mercado de trabalho, a comissão científica do Centro de Relações Laborais (CRL), um organismo do Ministério do Trabalho que todos os anos publica uma análise à evolução do emprego, defende que é preciso “estimular a subida dos salários” no país.
O CRL publicou nesta quarta-feira o relatório anual sobre emprego e formação em 2022 (elaborado por Sílvia Sousa, Alexandra Moreira e Teresa Pina Amaro) e, ao olhar para as tendências globais e aspectos específicos no contexto de forte inflação, os peritos da comissão científica alertam para o facto de os salários em Portugal continuarem a ser “muito baixos”, defendendo ser necessário incentivar melhorias nos rendimentos, incluindo para acabar com as diferenças remuneratórias que persistem entre mulheres e homens.
O relatório refere que a remuneração média mensal estimada pela Segurança Social, sem distinção entre trabalhadores a tempo completo e a tempo parcial, voltou a subir em 2022, tal como acontecera nos dois anos anteriores (ao contrário do que se verificara em 2019, antes da pandemia), mas não especifica quanto foi essa variação de 2021 para 2022, período em que a inflação chegou a 7,8% (8,1% no indicador que permite comparações na União Europeia) no ano passado.
Para a comissão científica – formada por António Figueiredo (da Faculdade de Economia da Universidade do Porto), Cristina Rodrigues (do IEFP e investigadora na Universidade Nova de Lisboa), Francisco Madelino (presidente do Inatel e docente no ISCTE), João Cerejeira (professor na Universidade do Minho) e Mário Caldeira Dias (da Universidade Lusíada) — é preciso ter presente que, num momento de inflação elevada, “não existe forma global de recuperar as perdas de poder de compra para todos, a não ser que a economia e a produtividade cresçam e que o aumento dos rendimentos de uns seja compensado por outras quebras compensatórias — salários vs. lucros ou custos da energia e das matérias-primas”. Por isso, sublinham, “sem estas premissas e sem apoios específicos, a inflação significa sempre um empobrecimento”.
Desequilíbrio persiste
O ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem que trabalhavam a tempo completo em Portugal continental era de 1294,1 euros, “o que representou um aumento de 3,5% face a Outubro do ano anterior”.
Mas se o ganho médio mensal masculino era de 1395,69 euros, o feminino ficava-se pelos 1172,07 euros. Os dois cresceram “relativamente a 2020, embora o feminino mais do que o masculino, pelo que a diferença entre salários médios se atenuou ligeiramente, como aliás já vinha acontecendo nos últimos anos”. Mesmo assim, em 2021 “o salário médio mensal feminino representava 84% do salário masculino quando, há cinco anos, constituía 81,7%”, resume o relatório.
Combater essas diferenças, criando “condições para a igualdade salarial”, é um dos apelos deixados pela comissão científica. Ao rol de “questões essenciais a que urge dar resposta” juntam outras quatro prioridades: estimular as melhorias salariais; “integrar realmente os imigrantes na sociedade portuguesa, criando condições de aprendizagem da língua e cultura e oferecendo dignidade no trabalho e condições de vida”; “qualificar os desempregados de longa duração — metade do número global — para um retorno ao mercado de trabalho, onde faz falta a sua participação”; e “investir na saúde e segurança no trabalho, de modo a reduzir os acidentes de trabalho, as doenças profissionais e as mortes a eles associadas bem como prevenir o absentismo por doença”.
Os peritos defendem ainda que o centro dê uma “atenção específica à correcta avaliação do alcance de duas transformações em curso na economia portuguesa: a da descarbonização e emergência dos empregos verdes, e a transformação digital”.
27.6.23
Estafetas recorrem aos tribunais para reclamarem contrato com as plataformas
26.6.23
Empresas têm até sexta-feira para investirem os fundos do Portugal 2020, mas há exceções Empresas têm até sexta-feira para investirem os fundos do Portugal 2020, mas há exceções
Ministério da Economia abre possibilidade de apresentação de pedido de prorrogação de prazo. Mas apenas para quem concorreu aos últimos concursos do sistema de incentivos à inovação produtiva
Acaba esta semana o prazo para as empresas concluírem os projetos de investimento apoiados pelos fundos europeus do Portugal 2020, o velho quadro comunitário que arrancou em 2014 e termina em 2023. “A regra é de que a conclusão dos investimentos empresariais cofinanciados pelo Portugal 2020 deve suceder até final de junho”, confirmou ao Expresso fonte oficial do Ministério da Economia.
Mas há uma exceção à regra. “Excecionalmente, e apenas para os últimos concursos do sistema de incentivos à inovação produtiva - em que se identificaram algumas dificuldades na concretização dos investimentos por fatores alheios às empresas - foi aberta a possibilidade de apresentação de pedidos de prorrogação de prazo no Balcão 2020”, explica fonte oficial.
“Estes pedidos serão objeto de apreciação do carácter excecional do fundamento apresentado por parte das respetivas autoridades de gestão”, acrescenta a mesma fonte sobre os programas financiadores do Portugal 2020.
Os sistemas de incentivos ao investimento empresarial do último quadro comunitário foram dinamizados pelo Compete 2020 e pelos programas regionais do Portugal 2020 em parceria com os organismos intermédios que analisam e acompanham as candidaturas dos empresários. É o caso da Agência para a Competitividade e Inovação (IAPMEI), da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) ou da Agência Nacional de Inovação (ANI).
“Considerando o término dos projetos financiados no âmbito do Portugal 2020 até dia 30 de junho, revela-se importante o esforço para a apresentação da execução dos projetos dentro do prazo estabelecido na legislação aplicável a cada tipologia de medida, e, desta forma, permitir o encerramento deste programa-quadro até 31 de dezembro de 2023”, diz a ANI nas instruções publicadas para agilizar o encerramento dos projetos.
22.6.23
Emprego público deixou de ser vantajoso para licenciados em início de carreira
Os salários praticados no sector público continuam a ser superiores aos do sector privado, mas o diferencial tem vindo a cair e, no caso dos licenciados em início de carreira, trabalhar na administração pública deixou de compensar. Se em 2009, a entrada na função pública permitia que um jovem licenciado tivesse um prémio salarial de 15,5% face ao privado, passados dez anos essa diferença desapareceu totalmente.
7.6.23
Empresas da zona euro preveem aumento de 5,4% dos custos salariais
Segundo um inquérito do BCE, as empresas da zona euro preveem um aumento médio dos preços de 6,1% e dos custos salariais de 5,4% em 2024. As principais preocupações das empresas são a falta de mão de obra e o aumento dos custos de produção
As empresas da zona euro preveem durante o próximo ano um aumento médio dos preços de 6,1% e dos custos salariais de 5,4%, segundo um inquérito do Banco Central Europeu (BCE) sobre o acesso das empresas ao financiamento.
De acordo com os resultados do inquérito, divulgados esta quarta-feira, "as empresas da zona euro assinalaram um aumento contínuo da sua faturação, enquanto os custos laborais, de produção e juros penalizaram a sua rentabilidade".
As grandes empresas apontam uma melhoria superior da sua atividade empresarial e faturação do que as pequenas e médias empresas (PME), sendo que 16% destas referiram que o seu lucro diminuiu, enquanto as grandes empresas disseram que não se alterou.
A quebra na rentabilidade reflete um aumento dos custos laborais, com 77% das empresas a afirmarem que estes encargos aumentaram, o que representa um máximo histórico no inquérito.
Adicionalmente, 89% das empresas inquiridas reportaram que os seus custos com materiais e energia aumentaram, uma percentagem ligeiramente inferior à do inquérito anterior. Ainda assim, antecipam um aumento maior da faturação nos próximos seis meses.
As principais preocupações apontadas pelas empresas são a falta de mão de obra qualificada e o aumento dos custos de produção.
As empresas da zona euro que reportaram uma deterioração das condições financeiras registaram também um máximo desde que o BCE começou a realizar o inquérito sobre o acesso das empresas ao financiamento, em 2009, assim como a percentagem de empresas que afirma que os preços e as condições dos empréstimos bancários estão mais exigentes.
O BCE realizou este inquérito entre 06 de março e 14 de abril de 2023, abrangendo o período de outubro de 2022 a março de 2023.
A amostra inclui as respostas de 10.983 empresas, das quais 10.085 (92%) são PME (empresas com menos de 250 trabalhadores).
29.5.23
“Se os gestores fossem movidos por valores, não teríamos a crise que enfrentamos hoje”
Mohan Mohan aterrou em Portugal em 1989 e foi responsável pelo lançamento da Procter & Gamble (P&G), empresa na qual trabalhou durante quase três décadas e para a qual contratou os actuais gestores de algumas das maiores empresas portuguesas. O presidente da TAP, Luís Rodrigues, o presidente da Vodafone Portugal, Luís Lopes, Paula Panarra e Sofia Tenreiro, ambas antigas directoras-gerais da Microsoft, são alguns dos nomes que, nos seus primeiros empregos, passaram pelas suas mãos.
Hoje, o antigo gestor dedica-se a fazer voluntariado em universidades, onde aconselha jovens sobre rumos de carreira, e a viajar. Acredita que as crises no sector financeiro (passadas ou actuais) acontecem, sobretudo, por práticas de má gestão. E aos novos gestores não tem dúvidas sobre o que dizer: “Sempre que fizerem alguma coisa, perguntem a vocês próprios: ‘A minha avó vai ficar feliz quando lhe contar que foi isto que fiz, ou vai ficar envergonhada?’”
Qual a sua relação com Portugal?
Nasci e fui criado na Índia e, em 1968, consegui uma bolsa para ir estudar para os Estados Unidos. Três anos depois, consegui um emprego na P&G, onde comecei a minha carreira, em Genebra. Em 1989, foi-me pedido que viesse para Portugal. Vim para o Porto, onde comprámos uma pequena empresa chamada Neo Blanc, e, mais tarde, começámos operações em Lisboa. Cinco anos depois, tínhamos construído uma organização cheia de jovens portugueses e alguns expatriados. Senti-me muito sortudo de ter sido enviado para Portugal.
16.5.23
Autonomia, flexibilidade e confiança. Jovens querem mais do que apenas um salário
Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis salienta que, embora os jovens trabalhadores "possam ter muito gosto na sua atividade profissional, esta deixou de ser um pilar central" nas suas vidas. Empresas devem "ir adaptando a seleção e gestão de recursos humanos" de acordo com as novas exigências.
Os jovens trabalhadores querem mais do que um simples salário e as empresas têm de estar atentas às novas exigências se quiserem reter os profissionais.
O quadro é traçado pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LABPATS), que, depois de analisar cerca de dois mil trabalhadores de vários setores, apresenta um estudo e uma série de recomendações sobre a atividade laboral no país, esta terça-feira.
Em declarações à Renascença, Tânia Gaspar, coordenadora deste trabalho, explica que o LABPATS concluiu que para "os jovens, embora gostem do trabalho e possam ter muito gosto na sua atividade profissional, esta deixou de ser um pilar central" na sua vida.
Segundo Tânia Gaspar, aquilo que os recém-chegados ao mercado de trabalho "mais valorizam é a questão da justiça, a questão da confiança e a questão da autonomia". "Valorizam recompensas não financeiras, como um simples elogio ou a flexibilidade de horário", continua.
A coordenadora conclui que, assim, as empresas devem ir ao encontro das novas exigências: "As entidades patronais têm que, progressivamente, ir adaptando as suas formas de seleção e de gestão de recursos humanos, para poderem reter estes profissionais".
Quatro dias e com o mesmo salário
Dentro deste quadro de expectativas - e das respostas que as empresas poderão dar - está a concretização da semana de trabalho de quatro dias. Tânia Gaspar diz que, para que funcione, este modelo não pode significar uma perda de remuneração.
"A ideia inicial da semana de quatro dias é [a de que] as pessoas possam gerir melhor o seu trabalho. Portanto, as pessoas organizariam o seu tempo de modo a fazerem todas as suas tarefas em apenas quatro dias. Para que esta ideia funcione, terá de não haver uma diminuição da remuneração", explica a coordenadora do projeto do LABPATS.
Ou seja, é preciso "haver uma maior autonomia", maior "flexibilidade da parte do trabalhador" e maior "confiança por parte da entidade patronal de que o trabalhador vai conseguir gerir o seu horário e completar as suas tarefas, correspondendo aos objetivos propostos".
Tânia Gaspar lamenta, ainda, que não haja uma definição clara e conjunta de objetivos entre funcionários e chefias, porque "assim o trabalhador saberia melhor o que é expectável e, deste modo, conseguiria também gerir melhor o seu trabalho".
"Se sentir que há uma autonomia e uma confiança da parte da liderança, isso acaba por promover o seu maior bem-estar. Este tipo de estratégia funciona", garante.
11.5.23
A partir de Portugal, há quem conquiste pés de todo o mundo com “sapatos feios”
Ara, Birkenstock e Ecco têm em comum o facto de apostarem mais em tecnologia e conforto do que no design. E de todas terem fábricas em território nacional.
Começaram por ser fabricadas em terras portuguesas e só depois, muitos anos mais tarde, o seu calçado passou a ser vendido por cá. Assim fizeram a alemã Ara e a dinamarquesa Ecco. São marcas conhecidas por se preocuparem mais com a tecnologia e o conforto do calçado do que propriamente com o design. Mas há também quem faça o caminho inverso: a um ano de marcar um quarto de milénio, a Birkenstock produz em Portugal desde 2022.
Foi em Dezembro de 1974, pouco meses após a Revolução de Abril, que a Ara investiu numa fábrica em Portugal. “Num período em que a instabilidade económica e social assolava o país”, nota a marca em resposta ao PÚBLICO. “Hoje, 48 anos depois, comprova-se que foi uma aposta ganha. A Ara é actualmente uma das principais empregadoras, produtoras e exportadoras do sector do calçado em Portugal”, continua. Actualmente, a fábrica em Seia emprega cerca de 800 pessoas.
A Ecco, que este ano assinala 60 anos, está em Portugal desde 1984, em Santa Maria da Feira, onde actualmente trabalham cerca de 1200 pessoas, avança Marco Pereira, responsável ibérico da marca. “Somos pioneiros em termos tecnológicos, dos tratamentos das peles aos cuidados durante a venda, porque tudo começa no pé e no seu movimento natural, que respeitamos”, explica, acrescentando que são fornecedores de peles para marcas de luxo.
Também a Ara, que celebra no próximo ano o seu 75.º aniversário, está concentrada no conforto do seu calçado, destinado a mulheres com mais de 35 anos, que desejam andar na moda, mas confortáveis, refere a marca. São mulheres com “poder de compra elevado e clientes fiéis”, refere ainda.
Quanto à alemã Birkenstock, cujas raízes da marca remontam a 1774, este ano assinala os aniversários de três dos seus modelos mais icónicos: as Madrid, Arizona e Gizeh fazem 60, 50 e 40 anos, respectivamente. Por essa razão, a marca vai lançar uma colecção-cápsula limitada dos modelos originais. Por cá, a Birkenstock produz modelos de calçado fechado e os produtos da sua submarca Papillio.
A empresa lembra que quer os seus modelos, quer os da sua submarca assentam no conforto e esse é o segredo do seu sucesso. Embora não avance ao PÚBLICO os números no mercado português, onde está à venda apenas desde 2018, revela apenas que estes estão “em sintonia com o desenvolvimento global do negócio da marca”.
A Birkenstock sublinha ainda que o conforto aliado ao design tornaram o seu calçado “mais do que um produto, ultrapassando a barreira do tempo e das tendências”. Aliás, frisa, é uma das marcas germânicas “mais conhecidas em todo o mundo” e um “verdadeiro fenómeno numa indústria caracterizada por tendências de moda de curta duração”.
A Ara está disponível nas sapatarias portuguesas desde 2003 e, actualmente tem três lojas (duas em Lisboa e uma no Porto), um outlet na fábrica em Seia e é vendida em meia centena de lojas multimarca, espalhadas pelo país.
Quanto à Ecco, que está em 100 países e em dez mil pontos de venda, chegou aos consumidores portugueses em 2019, e está focada em reforçar a sua aposta no mercado nacional, onde já tem 15 lojas. Recentemente, abriu um espaço com 226 metros quadrados no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, um local em que há muito queriam estar, reconhece Marco Pereira, e vão continuar a abrir mais lojas, promete, sem revelar mais pormenores. A novidade é que, além do calçado para homem e mulher, junta-se agora o de criança. Curiosidade: pais e filhos ou avós e netos podem usar os mesmos modelos.
10.5.23
Há mais empresas em vulnerabilidade financeira e cenário ainda vai piorar, diz BdP
A percentagem de empresas em situação de vulnerabilidade financeira deverá aumentar de 19% em 2022 para 26% até ao final deste ano, antecipa o Banco de Portugal.
O número de empresas em situação de vulnerabilidade financeira está a crescer desde o final do ano passado e o cenário ainda deverá agravar-se até ao final de 2023, um fenómeno que poderá levar a um aumento do incumprimento no crédito. A ameaça é identificada pelo Banco de Portugal (BdP), que vê neste um dos principais riscos para a estabilidade financeira, num contexto marcado pela "incerteza prevalecente" e pela "persistência" de factores como a pressão inflacionista ou a crise na banca regional norte-americana.
O risco é identificado pelo regulador no mais recente Relatório de Estabilidade Financeira, publicado esta quarta-feira e no qual o BdP traça um cenário mais pessimista para o sector bancário nacional.
"Os riscos para a estabilidade financeira mantiveram-se elevados, tendo prosseguido o ciclo de subidas das taxas de juro. Esta situação resulta da persistência de tensões geopolíticas, das pressões inflacionistas e do aumento de turbulência nos mercados financeiros internacionais, associado a desenvolvimentos recentes em bancos nos Estados Unidos e na Suíça", pode ler-se no relatório, que acrescenta que, embora casos como o do Silicon Valley Bank sejam o reflexo de "fragilidades idiossincráticas dessas instituições", a "incerteza prevalecente" motivada por estes episódios "justifica uma monitorização acrescida".
Neste contexto, o regulador identifica seis grandes riscos para a estabilidade financeira: "a turbulência acrescida nos mercados financeiros internacionais, implicando potenciais efeitos de contágio entre os ciclos financeiro e económico"; "uma trajectória menos favorável para o rácio da dívida pública"; o "potencial incumprimento das famílias mais vulneráveis, devido à inflação elevada, à subida das taxas de juro de curto prazo e a um potencial agravamento da taxa de desemprego; o "arrefecimento no mercado imobiliário residencial, com impacto sobre os preços e sobre o valor do colateral de créditos garantidos por imóveis"; a "materialização dos riscos de mercado e de crédito para o sector bancário"; e "o potencial incumprimento das empresas mais vulneráveis", com um aumento da percentagem de empresas em vulnerabilidade.
Este último risco já está, na realidade, a materializar-se, segundo o diagnóstico feito pelo BdP. No conjunto de 2022, refere o relatório, a evolução positiva da rendibilidade operacional das sociedades não financeiras em Portugal contribuiu para o aumento do rácio de cobertura dos gastos de financiamento (em média, os lucros antes de juros e impostos de uma empresa cobriam em 9,8 vezes os respectivos gastos de financiamento). Contudo, se for considerado apenas o último trimestre do ano passado, a situação já está a deteriorar-se, verificando-se uma redução do valor médio desse rácio, uma consequência da subida dos custos de financiamento, que superou a melhoria da rendibilidade.
E, este ano, o agravamento vai continuar. "Dada a expectativa de subida das taxas de juro, estima-se que, até final de 2023, aumente a proporção de empresas em situação de vulnerabilidade financeira, identificadas por terem um rácio de cobertura de gastos de financiamento inferior a 2", indica o BdP.
Este agravamento vai ocorrer para "a globalidade dos sectores de actividade", mas terá particular incidência no sector da construção e actividades mobiliárias. Ao todo, o BdP estima que a percentagem de empresas em situação de vulnerabilidade financeira aumente de 19% em 2022 para 26% no final deste ano. Considerando apenas o sector da construção e actividades imobiliárias, a proporção de empresas nessa situação deverá aumentar de 31% para 40% até ao final de 2023. Já na indústria transformadora, a subida será de 17% para 21%, enquanto no comércio será de 12% para 14,5% e no alojamento e restauração de 37% para 44%.
Apesar deste agravamento, ressalva o relatório, a proporção de empresas em situação de vulnerabilidade financeira deverá permanecer "abaixo do observado durante a crise da dívida soberana". A isto, acresce o facto de que as empresas têm vindo a aumentar a constituição de depósitos nos últimos anos, o que poderá "actuar como factor mitigador" de um cenário mais drástico. "De forma generalizada, as empresas constituíram e mantêm depósitos elevados no período subsequente ao início da crise pandémica, o que constitui uma importante reserva de liquidez em caso de choques adversos", aponta o BdP.
Mesmo assim, o regulador não descarta um aumento do risco de incumprimento por parte das empresas, sobretudo as mais vulneráveis, resultado da incerteza quanto à evolução da actividade económica e da subida das taxas de juro. Somam-se, ainda, factores como "perturbações adicionais em instituições financeiras internacionais, com risco de contágio a outras instituições, mesmo que com modelos de negócio diferentes", um fenómeno que, a verificar-se, poderá "perturbar o fluxo normal de financiamento e a actividade" das empresas em Portugal.
O BdP considera, ainda assim, que o cenário está controlado. "Globalmente os indicadores financeiros das [empresas] têm vindo a melhorar, em particular no que toca à rendibilidade e alavancagem, tornado as [empresas] mais resilientes a choques adversos".
5.5.23
EDP lucra 306 milhões no primeiro trimestre
Aumento da produção nas centrais hidroeléctricas permitiu passar de prejuízo a lucro na comparação com os primeiros meses de 2022.
A EDP lucrou 306 milhões de euros no primeiro trimestre de 2023, “uma recuperação face ao prejuízo de €76M [76 milhões de euros]” no mesmo período do ano passado, anunciou a empresa, esta quarta-feira.
A recuperação das contas comparativamente ao trimestre homólogo “foi impulsionada pela normalização da produção hidroeléctrica em Portugal no Inverno 2022-23, após um período de seca extrema no ano hidrológico 2021-22”.
A empresa liderada por Miguel Stilwell de Andrade explica que neste começo de Maio as “albufeiras da EDP em Portugal mantêm-se a uma quota agregada acima da média histórica para este período do ano”. Isto significa que a empresa consegue ter suficiente produção hídrica para abastecer os seus clientes na comercialização sem precisar de comprar energia em mercado.
O lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA) atingiu até ao final de Março 1,415 mil milhões de euros, explicou a EDP, que na quarta-feira distribuiu quase 795 milhões de euros em dividendos relativos ao exercício de 2022 (19 cêntimos por acção).
A melhoria do EBITDA face ao primeiro trimestre do ano passado resultou da recuperação “da produção hídrica no mercado ibérico”. Segundo a EDP, a produção hidroeléctrica aumentou 125% para 3,5 terawatt-hora (TWh), e permitiu uma “redução dos custos com compras de gás e electricidade nos mercados grossistas, face aos elevados níveis observados no 1T22 [no primeiro trimestre de 2022]”, quando a EDP teve de recorrer mais às suas centrais termoeléctricas.
Neste trimestre, a produção de origem fóssil, gás e carvão, reduziu-se em 45%.
As contas também beneficiaram da “performance da EDP Renováveis, que apresentou um crescimento de EBITDA de 14% em termos homólogos, com contribuição positiva de todos os seus quatro hubs regionais: Europa, América do Norte, América do Sul e Ásia Pacífico”, atingindo os 448 milhões de euros e um resultado líquido de 65 milhões.
A actividade de redes de electricidade no Brasil também contribuiu positivamente para os resultados, com um aumento de EBITDA que reflectiu o facto de a empresa ter mais quilómetros de linhas em operação.
O negócio de redes reflectiu ainda a “actualização das receitas reguladas à inflação”, assim como a “indexação da taxa de remuneração dos activos em Portugal à taxa de juro de referência de longo prazo (OTs 10 anos)”.
A EDP (que tinha uma dívida líquida de 13,1 mil milhões de euros a 31 de Março) refere que o investimento bruto do período foi de 1,2 mil milhões de euros, dos quais “98% em energias renováveis e redes de electricidade”.
Segundo a empresa, a “capacidade de energias renováveis em construção atingiu um recorde de 5,0GW [gigawatts], mais 1,0GW face a Dezembro de 2022, abrangendo projectos em 15 mercados na Europa, Américas e APAC [Ásia/Pacífico]”.
Como continuar a crescer quando o mundo mudou
Ana Baptista, in Expresso
Nos últimos três anos, o sector das indústrias metalúrgicas e metalomecânicas teve de aprender a gerir com uma pandemia, uma guerra, problemas logísticos e de transporte, preços da energia nunca antes vistos e com uma inesperada inflação que afetou todos os custos e produtos. Ou seja, tiveram de aprender a gerir em tempos de incerteza, volatilidade e imprevisibilidade. Mas, como diz o ditado, “o que não nos mata torna-nos mais fortes”, e foi isso que aconteceu.
Em 2021 e 2022, o sector atingiu valores recordes de exportações, estando já acima dos registados em 2019, antes da pandemia, e valendo cerca de 40% de toda a indústria transformadora do país. Foram €19,5 mil milhões em 2021 — mais 16,2% do que em 2020 — e €23,1 mil milhões em 2022 — mais 18% do que no ano anterior.
Além disso, houve empresas que modernizaram as suas fábricas, como a Solzaima, uma fabricante de salamandras a lenha e pellets que aproveitou a paragem forçada pela pandemia, logo no início de 2020, para acabar a construção da nova unidade, conta o CEO, Nuno Matias Sequeira. Ou que reforçaram a aposta na transição energética, como a Colep, uma empresa que fabrica embalagens de metal (desde latas de tinta a caixas de bolachas ou de whiskey), que está “a tornar a linha de produção totalmente neutra em carbono e a reduzir agressivamente o consumo de energia e da matéria-prima que usa, diminuindo o desperdício”, diz o CEO, Paulo Sousa.
Aliás, no que respeita à descarbonização, o posicionamento do sector metalúrgico e metalomecânico português no contexto europeu situa-se fora do top 10 dos países da União Europeia com maiores intensidades de emissões, conclui o estudo que a EY fez para a AIMMAP e que serviu de base para definir a estratégia do sector até 2030, apresentada esta quarta-feira numa conferência organizada pela associação e pelo Expresso.
A questão agora é como continuar a crescer e a modernizar o sector quando tudo mudou? Quando os preços da eletricidade continuam “2,5 vezes mais caros do que em 2019”, repara Paulo Sousa, e “os do gás estão no dobro”, nota o vice-presidente executivo da AIMMAP, Rafael Campos Pereira. Quando o preço do aço ainda está “uns 50% acima dos valores de 2019”, repara Nuno Matias Sequeira. Quando a inflação abranda lentamente e as taxas de juro devem voltar a subir este mês e ainda quando a guerra na Ucrânia continua a impactar a geopolítica europeia e mundial.
Uma das estratégias que integra a visão do sector para 2030 é continuar a apostar nas exportações e nos fatores diferenciadores dos produtos, como o design ou o ecodesign, o que depois permite vender os produtos mais caros, evidencia Paulo Sousa. Há depois que continuar a investir na digitalização, “porque já temos a qualidade e a rapidez na entrega, e com tecnologia seremos ainda mais competitivos”, vinca Rafael Campos Pereira, e “conseguiremos assim atrair mais talento”, acrescenta Paulo Sousa.
O problema da falta de pessoas
A falta de mão de obra e de capacidade de reter talento foi um dos temas mais falados na tarde de quarta-feira e um dos pontos mais relevantes da estratégia definida até 2030. Até porque ter trabalhadores mais qualificados, com mais competências digitais, de gestão e de sustentabilidade, é imprescindível para as empresas crescerem.
De facto, conta Rafael Campos Pereira, “quando começou a guerra na Ucrânia, logo a seguir a uma pandemia, com aumentos brutais dos custos das matérias-primas e da energia, eu perguntava aos empresários qual era a principal dificuldade que estavam a sentir e nove em cada dez respondiam que era a falta de recursos humanos”. Nuno Matias Sequeira confirma: “Nos últimos dois anos temos sofrido muito com a falta de mão de obra que queira trabalhar na indústria.” E a maior necessidade nem são os técnicos com competências digitais, mas sim “pessoas para o chão de fábrica. Muitas vezes dizem que sim e depois não aparecem”, conta Cristina Bóia, CEO da Extrusal, uma fabricante de sistemas de alumínio para arquitetura, construção e para o sector automóvel.
Uma das soluções tem sido recorrer aos emigrantes, diz Nuno Matias Sequeira, mas ressalvando que “isso depois levanta outras questões, como o idioma ou o alojamento”. Aliás, segundo Cristina Bóia, “temos reabilitado casas para os emigrantes que vêm trabalhar para a empresa, mas os licenciamentos demoram muito”. Outra solução tem sido a aposta na formação dos quadros, principalmente em gestão: “Porque uma das dificuldades que temos tido é quando as pessoas com cargos técnicos passam a ter cargos de chefia e mostram ter dificuldades na liderança”, conclui a CEO.
ESTUDO PEDIDO PELA AIMMAP FAZ DIAGNÓSTICO DETALHADO DO SECTOR
Maioria são microempresas
Dimensão Em 2021, o sector metalúrgico e metalomecânico tinha 23 mil empresas, 81% das quais são microempresas. É um dos sectores mais ecléticos da economia, com empresas de fabrico de maquinaria pesada e transportes, produção de talheres, de embalagens de metal (como as latas de bolachas ou de tinta) ou ainda salamandras a lenha e pellets. Representam 34% de toda a indústria transformadora (IT) do país e são as grandes empresas que geram mais riqueza (€2,7 mil milhões vs €576 milhões das micro).
246 mil é o número de pessoas que o sector empregava em 2021, sendo 74% do sexo masculino e 91% com 25 ou mais anos. O estudo diz, aliás, que é um sector mais “sénior”. A maior parte dos contratos é sem termo, o que mostra “segurança”, e 37% são “trabalhadores qualificados, com conhecimentos e competências técnicas específicas”, pode ler-se no estudo realizado pela EY
Boa saúde financeira
Balanço “Em 2021, o sector apresentou um desempenho económico superior ao da média da indústria transformadora (resultados líquidos de €156 mil vs €119 mil da IT)”, diz o estudo, acrescentando que “as empresas estão, em média, bem capitalizadas (autonomia financeira de 43%)”. Contudo, “dependem fortemente do financiamento alheio remunerado”. Também positivo é o facto de os juros serem apenas 5% do cash-flow gerado em 2021 e o nível de rentabilidade dos capitais próprios ser de 12%, face aos 11% das indústrias transformadoras.
€34,6 mil milhões foi o volume de negócios gerado pelo sector em 2021, o que representa igualmente 34% de toda a indústria transformadora. Nesse ano, as empresas do sector investiram €1,3 mil milhões e foram responsáveis “por 23% do montante de investimento elegível nas operações aprovadas no âmbito do Portugal 2020 reportadas até 31/12/2021”
Redução das emissões
Energia De acordo com o estudo, o sector reduziu as suas emissões em 18,8%, “mas a um ritmo muito menos acelerado, revelando alguma dificuldade na resposta à urgência da transição verde”. Esta realidade justifica-se com o facto de a maior parte do sector ser composta por microempresas, menos capitalizadas, mas também porque algumas das empresas não têm ainda no mercado soluções renováveis capazes de substituir o gás natural, ainda o combustível mais usado na indústria transformadora.
A estratégia do metal até 2030
A conferência organizada pela AIMMAP (Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal), em parceria com o Expresso, serviu para apresentar a nova visão estratégica para o sector até 2030 e debater o crescimento de algumas das empresas que compõem a metalurgia e a metalomecânica.
Textos originalmente publicados no Expresso de 5 de maio de 2023
Tribunal obriga Segurança Social a dar mais dados sobre trabalhadores à Uber
Uber Eats tinha exigido mais informação sobre trabalhadores independentes. Empresa diz agora que está a analisar os dados enviados pela Segurança Social, que tinha pedido o pagamento de 25 mil euros.
O Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa obrigou o Instituto de Segurança Social a prestar mais informação à Uber Eats sobre os trabalhadores independentes relativamente aos quais, de acordo com o apuramento feito pelo Estado, a empresa de entregas terá de pagar 25 mil euros em contribuições.
A decisão do tribunal surge depois de, em Janeiro, e através de uma sociedade de advogados, a Uber Eats ter entregado uma intimação para a prestação de informações por parte da Segurança Social.
A Uber Eats recusou-se a pagar os valores em causa naquele momento, defendendo que a Segurança Social não disponibilizou as “referidas declarações de serviços prestados apresentadas por cada um dos trabalhadores independentes”.
Sem esses dados, argumentava a empresa, o Estado privou-a “da informação que lhe era necessária para poder averiguar se era ou não entidade contratante daqueles trabalhadores independentes”.
No dia 17 de Março, o juiz que ficou com o processo, Nuno Domingues, deu razão à Uber Eats, notificando o Instituto de Segurança Social para prestar informações sobre a “classificação da(s) actividade(s) exercida(s) pelos trabalhadores independentes” em causa, bem como o “valor total dos rendimentos obtidos”.
Estas informações, enunciou o juiz, tinham de ser fornecidas depois de “expurgadas de eventuais dados pessoais ou de contacto pessoal dos trabalhadores, e limitadas aos valores totais que esses trabalhadores indicaram terem sido pagos pelo requerente”. As custas do processo ficaram a cargo da Segurança Social.
Fonte oficial da Uber Eats afirmou, em respostas ao PÚBLICO, que a Segurança Social já enviou os dados solicitados. “Estamos a analisar a informação enviada pela Segurança Social, mas a Uber pagará tudo o que for devido”, adiantou a mesma fonte.
Conforme já noticiou o PÚBLICO, a Segurança Social tinha notificado a empresa, a 29 de Novembro, de que tinha de pagar 25.690 euros em contribuições de trabalhadores independentes, na qualidade de entidade contratante.
O pagamento, que deveria ter sido feito até ao passado dia 20 de Dezembro, dividia-se em 25.056 euros “por aplicação da taxa contributiva de 10%” e outros 634 euros por aplicação da taxa contributiva de 7%.
Todos os anos, o Instituto de Segurança Social notifica as entidades contratantes que, no ano anterior, beneficiaram de mais de 50% do valor total da actividade dos trabalhadores independentes.
O apuramento do montante de contribuições a pagar depende dos valores indicados na declaração anual de rendimentos pelo trabalhador independente (desde que faça contribuições para a Segurança Social e tenha um rendimento anual resultante de prestações de serviço igual ou superior a seis vezes o Indexante dos Apoios Sociais).
O valor da contribuição varia entre 7%, nas situações em que a dependência económica é superior a 50% e igual ou inferior a 80%, e 10% quando a dependência económica é superior a 80%.
O PÚBLICO questionou o Instituto de Segurança Social sobre se existem processos semelhantes relativos a outras empresas que assumem o papel de entidade contratante e se têm contestado os valores apurados, mas não obteve resposta em tempo útil.
O negócio dos estafetas e das entregas em casa, onde operam empresas como a Uber Eats, teve um crescimento expressivo e movimentou 852 milhões de euros em 2021. Mais de 96% deste valor foi controlado por empresas que representam apenas 8,5% do universo total de estafetas (entre empresas, empresários em nome individual e trabalhadores independentes). Com Raquel Martins
6.4.23
Alterações ao Código do Trabalho entram em vigor em maio
Em causa estão "70 medidas ao serviço dos Trabalhadores e das Empresas", segundo o Governo.
O Governo anunciou, esta segunda-feira, que as alterações ao Código do Trabalho, no no âmbito da Agenda do Trabalho Digno, entram em vigor em maio, depois de hoje ter sido publicado o decreto-lei em Diário da República.
"Foi hoje publicada a Lei n.º 13/2023, de 3 de abril, que altera o Código do Trabalho e legislação conexa, no âmbito da Agenda do Trabalho Digno. As alterações entrarão em vigor no próximo dia 1 de maio, com a Agenda do Trabalho Digno e de Valorização dos Jovens no Mercado de Trabalho", refere o Ministério do Trabalho, em comunicado enviado às redações.
De acordo com a tutela, a "Agenda do Trabalho Digno e de Valorização dos Jovens no Mercado de Trabalho inclui 70 medidas ao serviço dos Trabalhadores e das Empresas".
Leia Também: Baixa de 3 dias poderá ser pedida online em maio: O que precisa de saber
Está ainda assente em quatro eixos principais:
Combater a precariedade;
Valorizar os Jovens no mercado de trabalho;
Promover melhor conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar; e
Dinamizar a negociação coletiva e a participação dos Trabalhadores.
Leia Também: Do teletrabalho às baixas médicas, tudo o que vai mudar a partir de abril
30.3.23
João Vieira Lopes: “O IVA zero é dificilmente fiscalizável”
Helena Pereira e Susana Madureira Martins (Renascença), in Público online
22.12.22
Inflação: maiores empresas portuguesas aplicam 45 milhões de euros em medidas de apoio
As associadas da Business Roundtable Portugal despenderam 45 milhões de euros em apoios extraordinários aos trabalhadores e às comunidades para responder à crise inflacionista, anunciam
As empresas membros da Associação Business Roundtable Portugal (Associação BRP) dedicaram mais de 45 milhões de euros em apoios extraordinários aos trabalhadores e comunidades locais para mitigar a crise de custo de vida, anunciou a associação esta quarta-feira, 21 de dezembro, em comunicado de imprensa.
Os associados repartiram estes apoios extraordinários - que “acrescem às medidas de responsabilidade social que estas empresas mantêm”, reforça a Associação BRP - em diversas modalidades de apoio.
A maioria do bolo, 83,78%, foi direcionada para apoios financeiros diretos, como bónus. Apoios em espécie ou em géneros, como cabazes alimentares, representaram 15,76%. Já apoios psicossociais, nomeadamente através de ações de bem-estar e saúde mental, significaram 0,46% do total.
Foram beneficiadas ainda 750 instituições através das iniciativas de voluntariado promovidas pelas empresas associadas.
A associação agrega as 42 maiores empresas portuguesas, com uma faturação global na ordem dos 82 mil milhões de euros que empregam mais de 200 mil pessoas no País.
Para cumprir o “seu propósito [de] acelerar o crescimento económico e social de Portugal”, a Associação BRP “está a implementar um conjunto de iniciativas nas áreas da requalificação de pessoas e crescimento das pequenas e médias empresas, ao mesmo tempo que atua na defesa de políticas públicas de qualidade”, anuncia.
“O tecido empresarial, sobretudo as grandes empresas, não ficaram alheias às dificuldades que os portugueses estão a sentir neste momento. Pretendemos mitigar os impactos sobre as nossas equipas e inspirar outras empresas a apoiarem os seus trabalhadores e suas famílias, mas também a restante comunidade, sobretudo aqueles que mais necessitam”, disse Vasco de Mello, presidente da Associação BRP.
19.12.22
Empresas cada vez mais despertas para a contratação de maiores de 55 anos
A Europa deverá perder 15% da sua força de trabalho até 2050 e Portugal cerca de 28% até 2070. As empresas já estão despertas para o problema de falta de mão-de-obra que já se sente e se vai agravar nas próximas décadas e preparam programas para sensibilizar e combater o idadismo - o preconceito com base na idade - mantendo os seus recursos humanos ativos por mais anos.
Estima-se que, em 2050, a população mundial com mais de 60 anos ultrapasse os dois mil milhões de pessoas, cerca de 20% da população estimada para essa data, e que, na Europa, um terço tenha mais de 65 anos. O velho continente, o mais envelhecido de todos, deverá perder, em pouco mais de 25 anos, cerca 15% da sua força de trabalho. Portugal terá um dos piores cenários, segundo o Eurostat, que projeta que, em 2070, tenha perdido cerca de 28% da sua população ativa, ou seja, terá menos um milhão de portugueses no mercado de trabalho.
Atenta à situação mundial, a OMS declarou como tema prioritário para esta década (2020-2030) o envelhecimento ativo e saudável, sendo esta uma preocupação que aos poucos começa a estar em cima da mesa de algumas grandes empresas mundiais. De acordo com um estudo da Comissão Europeia sobre o setor, dar emprego a pessoas com mais de 50 anos tem um impacto positivo na economia e pode ajudar a expandir a chamada "silver economy", ou seja, valor que as pessoas acima desta faixa etária irão gastar em bens e serviços.
Portugal é o quarto país mais envelhecido da Europa e tem por isso muitos desafios pela frente, não só a estimular a silver economy, como a proporcionar um envelhecimento ativo na sua força de trabalho. Empresas como a Ageless Portugal, fundada em 2021 por Mónica Póvoas, dedicam-se a promover e apoiar a mudança de comportamentos no que diz respeito à valorização da sabedoria e experiências dos maiores de 55 anos, promovendo a sua contratação e a sua inclusão, combatendo o etarismo, ou idadismo (preconceito ou discriminação com base na idade). "Este apresenta-se de diversas maneiras no mercado de trabalho, a não inclusão de pessoas mais velhas nos processos seletivos, em processos de aceleração de carreira ou desenvolvimento, políticas de reforma antecipada, desvalorização do profissional que envelhece na organização, entre outros", explica Mónica Póvoas. "Nas organizações, quem abrir oportunidades de atração e retenção, assim como desenvolver novas estratégias de reskilling e upskilling continuará a contar com uma mão-de-obra produtiva, motivada e capaz de contribuir para a inovação nos negócios", afirma ainda.
"Não posso afirmar que é mais fácil arranjar trabalho depois dos 50 anos, mas posso garantir que existem cada vez mais ações de sensibilização para o tema"
Apesar de não haver estudos que mostrem que a contratação de maiores de 50 anos está em fluxo ascendente, os dados estatísticos dão-nos alguns sinais positivos: segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2011 a taxa de emprego da faixa etária entre os 55 e os 64 anos era de 40% e na faixa acima dos 65 era de apenas 5,9%.
Atualmente, no terceiro trimestre deste ano, a taxa de emprego dos 55 aos 64 anos situa-se nos 66,5% e acima dos 65 está nos 9,3%. "Podemos realmente verificar que o número da população ativa dentro desta faixa etária tem aumentado exponencialmente, mas pode ficar a dever-se a inúmeras variáveis", afirma Mónica Póvoas. Um estudo da Ageless Portugal, realizado em 2021, mostra que 66% destas pessoas trabalha apenas porque ainda não se encontra na idade legal para a reforma, 54,6%, não quer sofrer cortes na pensão e apenas 7,5% para se manter ocupado e produtivo.
Empresas procuram programas para integrar séniores
Certo é que as empresas estão mais despertas para a necessidade de reforçarem as suas equipas com profissionais mais velhos e experientes que começam a ser vistos, cada vez mais, como um importante ativo. A Ageless Portugal criou já este ano o Selo de Mérito Age Friendly, a primeira acreditação do género em Portugal, para certificar empresas garantindo que cumprem as melhores práticas no que respeita às gerações mais experientes. Surgiram inúmeras candidaturas, tendo a Axians Portugal sido a primeira empresa a ser certificada. "Esta certificação foi mais uma oportunidade de validarmos que estamos no caminho certo e identificarmos possíveis melhorias na construção desse caminho", refere a propósito Magda Faria, responsável de Workplace and Employee Branding da Axians Portugal.
A empresa assume-se como sendo uma organização de pessoas para pessoas e que ao nível da diversidade e inclusão o valor mais relevante surge no seio de uma multiplicidade de experiências adquiridas, contextos e competências. "Um ambiente que estimula a saudável convivência de diferentes idades, géneros, origens, formações e convicções, é, para nós, uma fórmula de sucesso", explica Magda Faria. A Axians Portugal não tem um programa específico dirigido a este público, mas tem "uma multiplicidade de atividades e oportunidades, que acabam por acolher e desenvolver carreiras de longa duração sempre com a mentalidade de long life learning e de aprendizagem mútua intergeracional", explica a responsável.
"As empresas já começaram a perceber que o compromisso destas gerações é mais forte, que vestem a camisola, havendo mais resultados. Estamos a ultimar diversas parcerias neste sentido"
"Não posso afirmar que é mais fácil arranjar trabalho depois dos 50 anos, mas posso garantir que existem cada vez mais ações de sensibilização para o tema, para a importância da retenção, recrutamento e requalificação e que as empresas estão bastante mais conscientes que terão de agir rapidamente para se conseguirem manter concorrenciais devido à alteração demográfica mundial em que vivemos", explica Mónica Póvoas. No Brasil, por exemplo, empresas como a Unilever, a Vivo, a Votorantin e a Gol estão a criar programas para contratar funcionários com mais de 50 anos. A Unilever desenvolveu um programa designado de Senhor Estagiário destinado ao público mais sénior, que não necessita de ter experiência profissional.
A metodologia da dNovo assente em três pilares: uma inscrição na plataforma digital e onde é depois alocado um mentor para cada profissional. "Criamos eventos, workshops, sessões de mentoria - temos cerca de 70 mentores - no sentido de aproximar os profissionais ao mercado de trabalho. As empresas que nos acompanham reconhecem o problema e procuram uma solução. Muitas delas já iniciaram processos no sentido de trabalhar o ciclo da empregabilidade, outras já implementaram planos de reverse mentoring e sensibilização para a partilha entre gerações", afirma Vera Norte. Fazem parte desta associação, além dos fundadores, empresas como a ANA Aeroportos, Banco Montepio, Egor, Bosh, e a Randstad. "Temos já uma taxa de retorno de empregabilidade em torno dos 30%, neste primeiro ano de atividade", refere esta responsável.
"A questão do idadismo é um desafio, mas também uma oportunidade, pois não é economicamente sustentável manter esta faixa da população inativ"
Também a plataforma 55 Mais, fundada há cerca de quatro anos pela mão de Elena Durán, está empenhada em fazer a ponte entre os especialistas com mais de 55 anos e o mercado de trabalho. Com mais de 2800 especialistas inscritos, já proporcionou 28 mil horas de trabalho remunerado aos maiores de 55 anos que se inscrevem para prestar serviços.
Apesar de não ter sido este o foco até aqui, a 55 + está este ano a fazer a ponte entre os profissionais disponíveis e empresas que queiram os seus serviços de uma forma mais regular. André Moreira, responsável pela gestão de parcerias, revela que há empresas que cada vez mais procuram os serviços desta plataforma para contratar diretamente profissionais ou temporários ou para relações contratuais mais duradouras. "Estas empresas já começaram a perceber que o compromisso destas gerações é mais forte, que vestem a camisola, havendo mais resultados. Estamos a ultimar diversas parcerias neste sentido", revela.
11.11.22
Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal defende que empresas devem assumir papel social
O padre Jardim Moreira descreveu, em entrevista à Lusa, o estado da pobreza em Portugal, recorrendo a números e à experiência de vida, apontando erros como a estratégia assistencialista em detrimento do desenvolvimento do Governo e a segregação das pessoas que passaram a viver em bairros periféricos e se sentem marginalizadas.
Começando pelos números, o responsável da instituição revelou que o “número de trabalhadores pobres em Portugal aumentou de 12 por cento para mais de 20 por cento desde a chegada da covid-19”.
Partindo desta realidade, o padre Jardim Moreira sustenta haver “um empobrecimento generalizado em Portugal”, agravado com a crise mundial, o aumento do preço dos bens de consumo e da energia.
“Isto tem que ver com as empresas, com a retração das empresas, do emprego precário, mas também com os imigrantes, pois há muita gente a entrar, do Brasil, de África e até mesmo do Médio Oriente”, disse, antes de acrescentar que “outro índice não contabilizado é o da discriminação a algumas etnias, pois as empresas não aceitam qualquer pessoa”.
Para o responsável, “há uma amálgama que ameaça tornar-se num barril de pólvora”.
A isto juntou ainda “o problema dos idosos, cujo número de pessoas sozinhas aumentou devido à covid-19, ficando sem apoio familiar e económico”.
Olhando para o mapa nacional, o padre Jardim Moreira apontou que a “pobreza é muito diversificada e cada região tem problemas específicos”, explicando que o “Porto é a zona do País com mais gente a viver do Rendimento Social de Inserção (RSI)”.
“Depois há a etnia cigana, que em maior número se encontra no Alentejo, a viver em barracas, sem nenhuma condição de higiene. A isto junta-se o problema agrícola em Odemira, os pobres do Algarve e o Interior com o isolamento das pessoas. Não, a pobreza não é homogénea, de maneira nenhuma”, frisou.
Neste sentido, alertou, pensar-se “numa resposta homogénea a isto dá asneira”.
Do breve revisitar da sua memória trouxe a informação de que “em 1989 não havia em Portugal dados sobre a pobreza e sobre o desemprego e que os primeiros apareceram em 1995, referentes a 1994, indicando que o número de pobres ultrapassava os dois milhões”, voltando célere ao presente para lamentar que os números atuais mostrem “dois milhões e 300 mil pobres” em Portugal.
“Sem querer ofender ninguém, temos de pensar que institucionalizámos a pobreza, temos os índices todos, temos o Instituto Nacional de Estatística (INE) a dar números, mas não atingimos as causas que geram a pobreza”, insistiu o responsável.
Voltando aos números, citou outro estudo, publicado há dois anos em Lisboa, que mostrou que “uma pessoa que nasce pobre em Portugal precisa de cinco gerações para sair da pobreza” para depois perguntar se é para “andar cinco gerações a alimentar os pobres”.
“Temos investido muito na necessidade de se fazer um diagnóstico o mais correto possível das realidades nacionais e apresentar propostas que atinjam a causa, porque, se não as atingirmos, estaremos sempre a alimentá-la, a reduzi-la e a fazer da pobreza hereditária”, voltou a alertar o pároco do Porto.
Apontado para quem decide, pediu “coragem política para intervir nas causas”, insistindo que “não é só com dinheiro que se resolve a pobreza, nem com políticas públicas assistencialistas”.
“Não podemos passar de um regime social para um regime assistencialista. Falta o acompanhamento e o desenvolvimento”, criticou.
“Temos de pensar que, se temos mais de 20 por cento dos trabalhadores pobres, há que lembrar às empresas a sua responsabilidade social, porque também estão a criar pobres ao não lhes pagar o suficiente para viverem em família”, defendeu antes de pedir um “desígnio nacional onde todos sejam construtores de uma nova ordem” e não fiquem “apáticos ou indiferentes a dois milhões de portugueses”.
“Se assim não for, significa que a democracia está doente”, refletiu.
Afirmando concordar que se “evite que alguém morra de fome”, reclama, contudo, “uma estratégia para que as pessoas saiam da pobreza, onde elas desenhem o seu projeto de desenvolvimento e felicidade”, acabando de vez com “erros como o da saída das pessoas do centro das cidades para bairros periféricos onde foram destruídas, marginalizadas, num processo que não só as estigmatizou como criou mais pobreza e exclusão”.
2.11.22
Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal defende que empresas devem assumir papel social
O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal assinalou hoje que o país tem cerca de 2,3 milhões de pobres e deve ser lembrado às empresas o seu papel social, pagando ao funcionários salários que lhes permitam viver em família.
O padre Jardim Moreira descreveu, em entrevista à Lusa, o estado da pobreza em Portugal, recorrendo a números e à experiência de vida, apontando erros como a estratégia assistencialista em detrimento do desenvolvimento do Governo e a segregação das pessoas que passaram a viver em bairros periféricos e se sentem marginalizadas.
Começando pelos números, o responsável da instituição (EAPN na sigla em inglês) revelou que o "número de trabalhadores pobres em Portugal aumentou de 12% para mais de 20% desde a chegada da covid-19". .
Partindo desta realidade, o padre Jardim Moreira sustenta haver "um empobrecimento generalizado em Portugal", agravado com a crise mundial, o aumento do preço dos bens de consumo e da energia.
"Isto tem que ver com as empresas, com a retração das empresas, do emprego precário, mas também com os imigrantes, pois há muita gente a entrar, do Brasil, de África e até mesmo do Médio Oriente", disse, antes de acrescentar que "outro índice não contabilizado é o da discriminação a algumas etnias, pois as empresas não aceitam qualquer pessoa". .
Para o responsável, "há uma amálgama que ameaça tornar-se num barril de pólvora".
A isto juntou ainda "o problema dos idosos, cujo número de pessoas sozinhas aumentou devido à covid-19, ficando sem apoio familiar e económico".
Olhando para o mapa nacional, o padre Jardim Moreira apontou que a "pobreza é muito diversificada e cada região tem problemas específicos", explicando que o "Porto é a zona do país com mais gente a viver do RSI [Rendimento Social de Inserção]".
"Depois há a etnia cigana, que em maior número se encontra no Alentejo, a viver em barracas, sem nenhuma condição de higiene. A isto junta-se o problema agrícola em Odemira, os pobres do Algarve e o Interior com o isolamento das pessoas. Não, a pobreza não é homogénea, de maneira nenhuma", frisou.
Neste sentido, alertou, pensar-se "numa resposta homogénea a isto dá asneira".
Do breve revisitar da sua memória trouxe a informação de que "em 1989 não havia em Portugal dados sobre a pobreza e sobre o desemprego e que os primeiros apareceram em 1995, referente a 1994, indicando que o número de pobres ultrapassava os dois milhões", voltando célere ao presente para lamentar que os números atuais mostrem "2,3 milhões de pobres" em Portugal.
"Sem querer ofender ninguém, temos de pensar que institucionalizamos a pobreza, temos os índices todos, temos o INE [Instituto Nacional de Estatística] a dar números, mas não atingimos as causas que geram a pobreza", insistiu o responsável.
Voltando aos números, citou outro estudo publicado há dois anos em Lisboa que mostrou que "uma pessoa que nasce pobre em Portugal precisa de cinco gerações para sair da pobreza" para depois perguntar se é para "andar cinco gerações a alimentar os pobres". .
POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL NAS CRIANÇAS
Padre Jardim Moreira. "Se as famílias forem pobres, os filhos vão sofrer as consequências"
"Temos investido muito na necessidade de se fazer um diagnóstico o mais correto possível das realidades nacionais e apresentar propostas que atinjam a causa, porque, se não as atingirmos, estaremos sempre a alimentá-la, a reduzi-la e a fazer da pobreza hereditária", voltou a alertar o pároco do Porto.
Apontado para quem decide, pediu "coragem política para intervir nas causas", insistindo que "não é só com dinheiro que se resolve a pobreza, nem com políticas públicas assistencialistas".
"Não podemos passar de um regime social para um regime assistencialista. Falta o acompanhamento e o desenvolvimento", criticou.
"Temos de pensar que, se temos mais de 20% dos trabalhadores pobres, há que lembrar às empresas a sua responsabilidade social, porque também estão a criar pobres ao não lhes pagar o suficiente para viverem em família", defendeu antes de pedir um "desígnio nacional onde todos sejam construtores de uma nova ordem" e não fiquem "apáticos ou indiferentes a dois milhões de portugueses". .
"Se assim não for, significa que a democracia está doente", refletiu. .
Afirmando concordar que se "evite que alguém morra de fome", reclama, contudo, "uma estratégia para que as pessoas saiam da pobreza, onde elas desenhem o seu projeto de desenvolvimento e felicidade", acabando de vez com "erros como o da saída das pessoas do centro das cidades para bairros periféricos onde foram destruídas, marginalizadas, num processo que não só as estigmatizou como criou mais pobreza e exclusão".

