Mostrar mensagens com a etiqueta Trabalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Trabalho. Mostrar todas as mensagens

6.9.23

Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais peso de precários

Dinheiro Vivo, in DN

Entre abril e junho, o peso dos contratos precários voltou a aumentar, desta vez para os 17,8%.


Desde 2021 que o peso dos contratos precários em Portugal se mantinha abaixo dos 17%, tendência que acabou por se inverter no final do ano passado e que parece ter vindo para ficar em 2023. Segundo noticiou o Jornal de Negócios, entre janeiro e março deste ano a mudança já se fazia sentir, com 17,2% dos trabalhadores por conta de outrem com contratos a termo ou de duração limitada.


Entre abril e junho, o peso dos contratos precários voltou a aumentar, desta vez para os 17,8%, colocando Portugal em terceiro lugar entre os países da União Europeia com mais trabalhadores em situação de precariedade.


À frente de Portugal fica Espanha, mas apenas com diferença de uma décima, e os Países Baixos, que encabeçam a lista com 27,8% de trabalhadores por conta de outrem com contratos a termo ou de duração reduzida.

21.8.23

José, 51 anos, licenciado em Direito, vai de Gaia para o Algarve ganhar 900 euros

Ana Henriques, in Público

Ex-advogado vai rumar com a noiva até ao Algarve por não terem aberto vagas para primeiras colocações no Norte. “Eu sei, o salário é muito baixo.”

Aos 51 anos, José Alberto Bessa Velho prepara-se para mudar de vida. Ele e a noiva, da mesma idade, vão rumar de Vila Nova de Gaia ao Algarve para abraçarem uma nova carreira que lhes renderá ao fim do mês 900 euros limpos. Fazem parte dos 200 novos funcionários judiciais que o Ministério da Justiça vai contratar para iniciarem funções no próximo dia 1 de Setembro e nunca pensaram ir parar tão longe de casa.

Porém, o que achavam ser impensável sucedeu: “Não houve uma única colocação no Norte para primeiras vagas e mesmo no Centro só houve uma ou duas”, espanta-se José Alberto, que ficou em 25.º lugar a nível nacional. “Só embarcámos nesta aventura por sermos dois, senão desistia. Avaliámos bem se valeria a pena financeiramente tudo isto. Talvez não. Mesmo assim vamos, porque vamos juntos.”

José, 51 anos, licenciado em Direito, vai de Gaia para o Algarve ganhar 900 euros
Esta semana o casal vai andar por Tavira à procura de poiso para os próximos tempos, ciente de que terá de desembolsar por um T1 seis ou sete centenas de euros, no mínimo. Ela foi colocada nesta cidade, ele no tribunal de Vila Real de Santo António. “Eu sei, o salário é muito baixo, o trabalho não é fácil, implica responsabilidade, e as condições oferecidas estão longe de ser satisfatórias”, equaciona. “Mas é também um projecto pessoal a dois e não apenas profissional.” Já ouviu falar das longas horas de trabalho que se podem prolongar muito para lá do horário de expediente, se houver serviço urgente, sem pagamento de qualquer tipo de compensação. “Mas deve ser pior nos grandes centros urbanos”, observa.


Quem foi colocado no Algarve tem direito a um subsídio de fixação de 125 euros, que sobe para 205 nas colocações nas regiões autónomas. As nove centenas de euros que José Alberto e a noiva vão ganhar já incluem esta parcela. O novo oficial de justiça lamenta que o Estado português não valorize devidamente os seus recursos humanos. “Neste caso, oferece o salário que oferece para esta função, apesar de exigir para a simples admissão ao concurso uma licenciatura em Direito”, critica.


O casal não tem filhos em comum nem menores a cargo, o que lhes facilita a vida. Na sua existência anterior, José Alberto conta que chegou a ganhar o dobro, o triplo até: “Quando tirei a licenciatura em Direito, desdobrei a minha actividade profissional em diversas áreas: advocacia e formação profissional. Não me faltava trabalho e recebia bem.” Uma doença oncológica tirou-lhe o tapete anos a fio e, quando ficou por fim em condições de voltar a trabalhar, o regresso à advocacia já não era uma hipótese. A profissão tinha ficado com gente a mais, não dava para todos e muito menos para quem tinha saído do mercado.


O antigo advogado antecipa que muitos dos 200 candidatos seleccionados para os tribunais desistam e nem sequer vão à cerimónia de tomada de posse marcada para 1 de Setembro, por terem ficado demasiado longe da área de residência: “Vão desistir, como já sucedeu em concursos anteriores.” À tomada de posse seguir-se-ão duas semanas de formação em Lisboa, com alojamento pago. “Ainda nem nos disseram onde vamos ficar alojados”, explica.

O objectivo é voltar ao Norte. “Agora, só espero que corra bem e que não passem muitos anos até conseguirmos uma transferência para perto de casa... Afinal, somos pessoas e não apenas números mecanográficos”, lembra o novo funcionário judicial.

Aos 51 anos, José Alberto Bessa Velho prepara-se para mudar de vida. Ele e a noiva, da mesma idade, vão rumar de Vila Nova de Gaia ao Algarve para abraçarem uma nova carreira que lhes renderá ao fim do mês 900 euros limpos. Fazem parte dos 200 novos funcionários judiciais que o Ministério da Justiça vai contratar para iniciarem funções no próximo dia 1 de Setembro e nunca pensaram ir parar tão longe de casa.

Porém, o que achavam ser impensável sucedeu: “Não houve uma única colocação no Norte para primeiras vagas e mesmo no Centro só houve uma ou duas”, espanta-se José Alberto, que ficou em 25.º lugar a nível nacional. “Só embarcámos nesta aventura por sermos dois, senão desistia. Avaliámos bem se valeria a pena financeiramente tudo isto. Talvez não. Mesmo assim vamos, porque vamos juntos.”

Esta semana o casal vai andar por Tavira à procura de poiso para os próximos tempos, ciente de que terá de desembolsar por um T1 seis ou sete centenas de euros, no mínimo. Ela foi colocada nesta cidade, ele no tribunal de Vila Real de Santo António. “Eu sei, o salário é muito baixo, o trabalho não é fácil, implica responsabilidade, e as condições oferecidas estão longe de ser satisfatórias”, equaciona. “Mas é também um projecto pessoal a dois e não apenas profissional.” Já ouviu falar das longas horas de trabalho que se podem prolongar muito para lá do horário de expediente, se houver serviço urgente, sem pagamento de qualquer tipo de compensação. “Mas deve ser pior nos grandes centros urbanos”, observa.

Quem foi colocado no Algarve tem direito a um subsídio de fixação de 125 euros, que sobe para 205 nas colocações nas regiões autónomas. As nove centenas de euros que José Alberto e a noiva vão ganhar já incluem esta parcela. O novo oficial de justiça lamenta que o Estado português não valorize devidamente os seus recursos humanos. “Neste caso, oferece o salário que oferece para esta função, apesar de exigir para a simples admissão ao concurso uma licenciatura em Direito”, critica.

O casal não tem filhos em comum nem menores a cargo, o que lhes facilita a vida. Na sua existência anterior, José Alberto conta que chegou a ganhar o dobro, o triplo até: “Quando tirei a licenciatura em Direito, desdobrei a minha actividade profissional em diversas áreas: advocacia e formação profissional. Não me faltava trabalho e recebia bem.” Uma doença oncológica tirou-lhe o tapete anos a fio e, quando ficou por fim em condições de voltar a trabalhar, o regresso à advocacia já não era uma hipótese. A profissão tinha ficado com gente a mais, não dava para todos e muito menos para quem tinha saído do mercado.

O antigo advogado antecipa que muitos dos 200 candidatos seleccionados para os tribunais desistam e nem sequer vão à cerimónia de tomada de posse marcada para 1 de Setembro, por terem ficado demasiado longe da área de residência: “Vão desistir, como já sucedeu em concursos anteriores.” À tomada de posse seguir-se-ão duas semanas de formação em Lisboa, com alojamento pago. “Ainda nem nos disseram onde vamos ficar alojados”, explica.

O objectivo é voltar ao Norte. “Agora, só espero que corra bem e que não passem muitos anos até conseguirmos uma transferência para perto de casa... Afinal, somos pessoas e não apenas números mecanográficos”, lembra o novo funcionário judicial.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]

11.8.23

Emigração de licenciados é "uma calamidade... dava para pagar 36 aeroportos do Montijo"

André Rodrigues, in RR

Segundo o INE, alojamento e restauração são responsáveis pelo crescimento do emprego a níveis máximos, mas são, também, os campeões da precariedade. Presidente da associação Pro.Var, Daniel Serra, diz não ver solução para o problema. A menos que o Governo decida baixar a carga de impostos sobre o trabalho.

O investimento com a formação de licenciados que saem do país daria para construir “36 aeroportos no Montijo”, admite o economista Pedro Brinca.

Em declarações à Renascença, o economista e docente da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) fez as contas aos números do Instituto Nacional de Estatística, que indicam que – apesar dos ténues sinais de retoma – o país continua a perder recursos qualificados.

No segundo trimestre do ano, Portugal perdeu, pelo menos, 128 mil trabalhadores com curso superior.

Se, por um lado, o discurso político prefere sublinhar a excelência da geração mais bem formada, Pedro Brinca nota que “o Governo vive no mundo destes fluxos, quando o importante é a perspetiva global. Se é verdade que, em Portugal, os jovens já se licenciam a uma percentagem superior à da União Europeia, também é verdade que o número de licenciados que abandona o país equivale a cerca de 40% dos novos licenciados, todos os anos”.

Olhando para os números com maior detalhe, este especialista refere que, “entre 2000 e 2019, foram 194 mil licenciados que emigraram. Se pensarmos quanto é que custa formar um licenciado, são cerca de 96 mil e 500 euros – isto a preços pré-crise pandémica.

Ou seja, 194 mil licenciados a 96 mil e 500 euros cada um, são cerca de 18 mil milhões de euros... isso dava para 36 aeroportos do Montijo. Realmente é uma calamidade”.

Noutro plano, o INE confirma uma subida recorde dos contratos precários, que está a impulsionar o aumento do emprego em Portugal.

Entre abril e junho, havia quase cinco milhões de pessoas empregadas em Portugal, o que, para Pedro Brinca já reflete a sazonalidade, através do “emprego precário que visa satisfazer o aumento da procura de equipamentos turísticos”.

Mas, segundo o professor da Nova SBE, há duas outras razões que explicam a tendência.

Em primeiro lugar, uma questão “quase geracional: temos uma geração que tem uma proteção no emprego muito grande, sobretudo a geração acima dos 40 a 45 anos. Depois, temos a outra geração, que são os mais novos que estão a entrar agora e que têm relações laborais muito mais precárias”.

Adicionalmente, “em 2019, Portugal era o terceiro país da OCDE com maior índice de legislação de proteção laboral e era, também, o terceiro país da Europa com maior percentagem de trabalhadores com contrato temporário”.

Para Pedro Brinca, a leitura é simples: as leis do trabalho em Portugal criam “ineficiências que permitem que os empregadores possam contornar a lei e muitas vezes”.

“E, muitas vezes, o Estado é o primeiro a prevaricar, ao recorrer a empresas de trabalho temporário, para garantir a prestação de alguns serviços, como, por exemplo, a limpeza dos edifícios públicos”, exemplifica.

Alojamento e restauração campeões da precariedade

Por serem atividades associadas ao aumento da atividade turística nesta altura do ano, o INE identifica o alojamento e a restauração como os setores que explicam o facto de a criação de emprego estar em valores máximos.

O problema é que são atividades marcadas pela precariedade, seja na instabilidade dos contratos, seja nas remunerações auferidas pelos trabalhadores.

Em nome do setor da restauração, Daniel Serra, da associação Pro.Var recusa a ideia de que os baixos salários sejam uma prática recorrente.

O problema, diz à Renascença, é que “o setor que não está regulado, tem uma sobrecarga de impostos bastante grande”.

“Neste momento, é verdade que muitos dos trabalhadores estão com contratos precários, mas estão a ganhar acima da média, até de outros setores e isto também tem a ver com a dificuldade na obtenção de mão-de-obra, o que obriga os empresários a ter de pagar bem melhor para reter e captar mão-de-obra”, explica.

No entanto, Daniel Serra também reconhece que “muitos empresários não querem arriscar a ter contratos sem termo, porque a situação é muito, é muito oscilante”.

Tem tudo a ver com a oscilação dos fluxos de faturação: “temos altos e baixos e já se está a verificar, no terceiro trimestre, que está a haver uma perda entre 10 e 20%”, porque os clientes “estão a gastar muito menos… estão a evitar as entradas e as sobremesas, substituem vinhos por cerveja ou então pedem vinhos mais baratos”.

Na hora de tirar a conta, “o ticket médio está a baixar de forma significativa e isto é uma dificuldade para os empresários”.

O presidente da Pro.Var garante “os empresários neste momento serão os mais interessados em ter nos seus quadros, pessoas estáveis, com contratos a longo prazo”.

Mas reconhece que “não há condições e, enquanto o Governo não criar condições para essa estabilidade – ou seja, impostos que sejam razoáveis – vai ser muito difícil que se evite esta precariedade”.

10.8.23

Cerca de 20% dos portugueses já teletrabalha

Ana Marcela, in ECO

Das mais de 900 mil pessoas que no segundo trimestre disseram ter trabalhado, algum dia, em casa, 232,9 mil trabalharam "fora do seu horário de trabalho".

Trabalhar a partir de casa está a tornar-se mais habitual nos trabalhadores nacionais e, no segundo trimestre, 908 mil portugueses estiveram em teletrabalho. Representam 18,3% do total de população empregada no período – 4.979,4 mil pessoas –, uma subida de 0,4 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior. Números refletem a forma como se olha para o mundo do trabalho, dizem especialistas ouvidos pelo Trabalho by ECO.

“Há uma mudança na forma como as pessoas olham para o trabalho. Em todos os setores, nas funções de serviços, suporte aos negócios ou nas TI, as pessoas querem saber se o teletrabalho está incluído nas propostas de trabalho, algo que sentimos diariamente nos processos de recrutamento com que lidamos. Com o teletrabalho não há dúvidas que, ao aumentarem o tempo de trabalho em casa, os profissionais conseguem ter uma maior flexibilidade e conciliar a sua vida profissional e pessoal”, aponta Ricardo Carneiro, senior director de recrutamento e seleção especializado na Multipessoal, ao Trabalho by ECO.


Há uma mudança na forma como as pessoas olham para o trabalho. Em todos os setores, nas funções de serviços, suporte aos negócios ou nas TI, as pessoas querem saber se o teletrabalho está incluído nas propostas de trabalho, algo que sentimos diariamente nos processos de recrutamento com que lidamos.
Ricardo Carneiro
Senior director de recrutamento e seleção especializado na Multipessoal

Cerca de cinco milhões de pessoas – 4.979,4 mil pessoas – estavam empregadas no segundo trimestres, mais 54,7 mil (+1,1%) do que no trimestre anterior e mais 77,6 mil (1,6%) face ao mesmo trimestre do ano passado.

232,9 mil trabalhou em casa fora do horário

No trimestre, 960 mil pessoas afirmaram ter trabalhado a partir de casa (19,3% da população empregada). Mas o INE dá pistas sobre essa fatia de trabalhadores. Destes, 248,6 mil trabalharam sempre a partir de casa (25,9%); 330,1 mil fizeram-no “regularmente”, num sistema que concilia trabalho presencial e em casa (34,4%); outros 142,2 mil trabalharam a partir de casa “pontualmente” (14,8%). Já outros 232,9 mil trabalharam em casa “fora do seu horário de trabalho” (24,3%).

face ao primeiro trimestre, o INE regista um aumento de 2,8 p.p entre aqueles que conciliaram o trabalho presencial e em casa, o chamado modelo híbrido.

Entre os que indicaram trabalhar “regularmente” em casa, num sistema que concilia trabalho presencial e em casa, o sistema mais comum conjuga alguns dias em casa todas as semanas, abrangendo 228,6 mil pessoas (69,3%), tendo sido “o sistema que registou a maior variação trimestral (mais 2,4 p.p. do que no 1.º trimestre de 2023)”, indica o organismo. Os empregados num sistema híbrido trabalharam em casa, em média, três dias por semana.

Tem havido alguma fuga de empresas dos centros das cidades como forma de cortar custos de arrendamento e diminuir os espaço de escritórios. Há também aqui um interesse das empresas nesse sentido, embora o tempo de deslocação e dos custos de transporte, que diminui, também favorece a perspetiva do trabalhador. (…) Provavelmente, há este modelo mais híbrido, que é o que está aqui refletido nos números.

João Cerejeira
Economista da Universidade do Minho

O número de pessoas que afirma estar em teletrabalho – isto é, que utilizaram tecnologias de informação e comunicação (TIC) para desempenhar as suas funções a partir de casa, na definição do INE – também assinalou uma subida de 0,4 pontos percentuais, para 908 mil, face ao trimestre anterior. Ou seja, 18,3% do total da população empregada.

Uma ligeira evolução trimestral que, apesar de estar longe dos picos da pandemia, pode indicar a continuidade de uma mudança dos modelos de organização e da forma como empresas e trabalhadores olham para o trabalho.

“É um número muito elevado”, reage João Cerejeira. “Sabemos que tem havido alguma fuga de empresas dos centros das cidades como forma de cortar custos de arrendamento e diminuir os espaço de escritórios. Há também aqui um interesse das empresas nesse sentido, embora o tempo de deslocação e dos custos de transporte, que diminui, também favorece a perspetiva do trabalhador”, aponta o economista da Universidade do Minho. “Provavelmente, há este modelo mais híbrido, que é o que está aqui refletido nos números”, refere.

O docente da Universidade do Minho lembra ainda o fenómeno da “deslocalização de empresas para Portugal, nomeadamente estrangeiros” e que “o crescimento das áreas das TIC tem sido um pouco nestes modelos híbridos”, refere. “Não só as tecnológicas, mas também as empresas de auditorias privadas, de prestação de serviços de backoffice, até mais para os jovens do que propriamente para trabalhadores mais velhos.”


Pedro Brinca considera que este pode ser um reajuste. “Inicialmente, houve a euforia se calhar demasiado otimista relativamente à capacidade do teletrabalho, tendo levado a um certo contra-movimento em que as pessoas voltaram ao escritório, e há uma nova recuperação em que se tenta encontrar ali um maior equilíbrio”, aponta economista da Nova SBE. “O trabalho remoto é algo bastante valorizado por bastantes pessoas, que o procuram nos empregos.”

Quem são os teletrabalhadores?

“O perfil do teletrabalhador português é de alguém com o ensino superior, residente na área metropolitana de Lisboa ou no Porto. No entanto, o teletrabalho está a crescer e a permitir novos centros de trabalho, como Évora, Castelo Branco, Covilhã ou os arquipélagos da Madeira e Açores”, aponta Ricardo Carneiro, da Multipessoal.

Efetivamente, dos 908 mil teletrabalhadores registados no segundo trimestre, 403,7 mil residiam na Grande Lisboa região que concentra o maior número deste tipo de profissionais, seguida da região Norte com 238,9 mil e a Centro com 174,8 mil. Alentejo (42,5 mil), Algarve (24,2 mil), Madeira (15,3 mil) e Açores (9,4 mil) são as regiões que se seguem.
Inicialmente, houve a euforia se calhar demasiado otimista relativamente à capacidade do teletrabalho, tendo levado a um certo contra-movimento em que as pessoas voltaram ao escritório, e há uma nova recuperação em que se tenta encontrar ali um maior equilíbrio. (…) O trabalho remoto é algo bastante valorizado por bastantes pessoas, que o procuram nos empregos.

Pedro Brinca
Economista da NOVA SBE


Destes 900 mil, uma larga maioria (678,7 mil) tinha um curso superior. São sobretudo trabalhadores por conta de outrem (724,3 mil), com contratos sem termo (600,5 mil), exercendo atividade na área de serviços (793,3 mil), com particular incidência na educação (182,6 mil), serviços de informação e comunicação (135,1 mil) e atividades de consultadoria, científicas, técnicas e similares (115,1 mil). E são mais mulheres: 461,3 mil vs 447,6 mil homens.

Assistiremos a novos crescimentos destes profissionais no país? “É sempre complicado extrapolar com base em variações trimestrais, mas os números dos últimos anos sugerem que o teletrabalho/regimes híbridos continuarão a crescer no futuro”, considera Ricardo Carneiro. “A mentalidade dos empregadores, a transformação das profissões com a entrada da IA, assim como a simples procura de um melhor work life balance assim o sugerem.”

7.8.23

Salário emocional: o melhor recurso para atrair e reter talento

 Hugo Protázio, in ECO

O salário foi durante muitos anos o primeiro e principal argumento na escolha de um trabalho. Mas já não está sozinho. E aquela que era uma tendência é hoje uma certeza: a componente intangível da remuneração assume uma importância crescente e, para as empresas, deixou de ser um nice to have para ser um must have.

Os últimos três anos, muito marcados pela pandemia de Covid-19, tiveram um papel determinante na aceleração e consolidação deste que pode ser classificado como o “salário emocional”. Ou seja, o contexto acabou por fazer com que a prática, por parte das empresas, de reforçar a oferta de componentes intangíveis aos colaboradores atuais e potenciais se assumisse como mais comum e cada vez mais valorizada. Acredito que, sem a pandemia, apenas dentro de dois a três anos (dependendo, claro, do setor) teríamos o cenário que temos hoje.

A situação absolutamente incomparável que todos vivemos desde o início de 2020 levou a que as empresas se focassem em promover o bem-estar dos seus colaboradores e isso traduziu-se num aumento expressivo de estratégias para facilitar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, fomentar a flexibilidade de horários e também a escolha de regime de trabalho. São estratégias que têm um custo de quase zero para as empresas, mas um saldo muito positivo na valorização por parte dos colaboradores.

Entre as principais conclusões do relatório “Employer Brand Research 2023” da Randstad, que inquiriu 5.255 pessoas em Portugal, destaca-se que “os benefícios não materiais são considerados quase tão importantes como os benefícios materiais”: os benefícios não-materiais são (muito) importantes para 86% dos inquiridos quando escolhem um empregador em vez de outro, o que é quase tão importante como os benefícios materiais (88%), sendo uma boa relação com a direção e/ou os colegas o benefício não material mais importante (78%).

Considero que a gestão das empresas tem de ser mais humanizada, mais focada nas pessoas sem, claro, descurar as componentes mais visíveis dos negócios. Uma estratégia consolidada das empresas na oferta aos colaboradores de componentes intangíveis de remuneração traduz-se em inúmeras vantagens, mesmo que algumas não sejam imediatas. Por um lado, contribui para a melhoria daquilo que é a identificação das pessoas com as empresas, algo que se vai construindo ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, também o próprio desempenho dos colaboradores será melhor, uma vez que ficarão mais motivados e predispostos a fazer melhor o seu trabalho, a aprender e a evoluir. E, no final, os laços entre as empresas e os colaboradores sairão fortalecidos.

Entre as iniciativas que podem ser seguidas pelas empresas, e como é o nosso caso, estão o reforço de coberturas nos seguros de saúde, como a de psicologia, ou o seu direcionamento para as necessidades específicas dos colaboradores, disponibilização de diversas formações e coaching para todas as equipas, possibilidade de realização de teletrabalho, a oferta do dia de aniversário, a criação de um horário reduzido à sexta-feira (saída às 15h00), a promoção de hábitos de vida saudáveis e a organização de iniciativas que promovam o convívio das diferentes equipas, como a Festa de Natal e o “Recreacional Day”.

Mais do que o salário, é a ligação emocional às empresas que permite a retenção e a atração de talento. As empresas não podem ignorar que, em 2023, os colaboradores valorizam o percurso de carreira, a progressão e a formação que o emprego lhes pode proporcionar, o ambiente da empresa e a relação line manager. Os colaboradores atuais querem sentir que estão a desenvolver-se e a fazer um percurso dentro da empresa. E precisam disso já!

]]>

26.7.23

Quer trabalhar para lá da idade legal? Pode compensar mais reformar-se e acumular salário com pensão

Elisabete Miranda, in Expresso


Quem quiser continuar a trabalhar para lá da idade pessoal de reforma pode fazê-lo de várias formas: uma delas é adiar a hora da aposentação, outra é reformar-se e acumular a pensão com salário. Nenhuma das opções é neutra e ambas têm impacto no rendimento ao fim do mês


Para quem quer reformar-se ou negoceia com o patrão a saída para a reforma há vários pequenos detalhes a ter em conta. Mais mês, menos mês, ou, por vezes, um dia de diferença apenas, podem ditar alterações relevantes no valor da pensão. Quem quer prolongar a vida ativa, e ficar mais tempo a trabalhar, também deve planear o modo mais conveniente de fazer descontos: há uma altura para adiar a reforma, e há um momento em que mais vale reformar-se e descontar sobre o salário. Para quem trabalhou em mais que um país, há empecilhos que também exigem múltiplas precauções. Filomena Salgado Oliveira, da FSO Consultores, ajudou-nos a elencar cinco dicas.

Esta quarta-feira, analisamos as cautelas a ter na hora de decidir trabalhar mais tempo para lá da idade legal de reforma. Compensa mais continuar a descontar ou pedir a reforma e acumular a pensão com o salário?

Portanto, sistematizando:

- Para quem descontou ao longo da vida sobre salários muito baixos (caso a melhor das remunerações de referência não ultrapasse 1,1 do valor do indexante de apoios sociais), não compensará ir além da idade de reforma, porque as bonificações não contam, uma vez que já atingiu 92% da melhor das remunerações de referência.

- Quem já completou 70 anos não tem vantagem em reformar-se e acumular pensão com salário, porque as bonificações deixam de contar.

- Quem tem salários médios e menos de 70 anos tem de fazer as contas. “Em regra, é melhor continuar a trabalhar e acumular as bonificações. Mas há um ponto a partir do qual já não compensa. “Quando atingir 92% da melhor das remunerações, reforme-se e continue a trabalhar já reformado”, resume Filomena Salgado Oliveira.


“Convém prolongar, mas não muito. Cada caso é um caso, mas, em média, não compensa trabalhar muito mais (cerca de um ou dois anos) para lá da idade pessoal, porque deixa de acumular bonificações. Mais vale reformar-se e continuar a trabalhar”


As regras estão cheias de incentivos para estimular o chamado envelhecimento ativo, isto é, para tentar convencer os trabalhadores a adiarem a sua saída do mercado de trabalho – e as empresas a aceitarem estas decisões. Há bonificações para quem adiar a reforma. E há também um regime especial mais vantajoso, tanto para a empresa como para o trabalhador, para quem se reformar à Idade Normal de Reforma Pessoal (INR) e continuar a trabalhar.

A idade legal da reforma muda todos os anos consoante a evolução da esperança média de vida mas cada trabalhador tem a sua idade pessoal de reforma, determinada em função da carreira contributiva.

Se tiver mais de 40 anos de descontos, não precisa de reformar-se apenas aos 66 anos e 4 meses (INR para 2023) para evitar penalizações, pode fazê-lo antes. Por exemplo, se tiver 66 anos de idade e 46 anos de descontos, a INR (sem penalizações) passa para os 64 anos e 4 meses (24 meses antes; quatro meses por cada ano que excede os 40). A partir desta data passa a ter a pensão bonificada de 1% (para carreiras superiores a 40 anos) por cada mês a mais (ao fim de um ano são mais 12%), podendo ainda ser aplicado o regime anterior, caso seja mais favorável (mantendo igualmente a bonificação por períodos cumpridos antes da INR).

Outra hipótese é reformar-se e continuar a trabalhar por conta de outrem, acumulando salário com pensão. Neste caso, a taxa social única sobre o salário (os descontos mensais para a Segurança Social) é bem mais reduzida: 7,5% pelo trabalhador, 16,4% do lado da empresa. E, no final de cada ano, o valor da sua pensão será acrescido de 2% sobre 1/14 da soma do salário anual.

REFORMAR LOGO OU DEPOIS? DEPENDE

Olhando para este quadro, o que é mais vantajoso: adiar a idade da reforma e continuar a trabalhar, ou reformar-me e acumular salário com pensão? “Depende”, responde Filomena Salgado Oliveira.

Quem descontou para a Segurança Social não pode ter uma pensão bonificada que ultrapasse 92% da melhor remuneração de referência. Portanto, “é preciso calcular o ponto ótimo. Continuar a trabalhar e acumular as bonificações, mas apenas até atingir os 92% da melhor das remunerações. A partir daí, continuar a trabalhar já reformado” para começar a aproveitar os 2% por cada ano de trabalho, diz a consultora.


“É preciso calcular o ponto ótimo. Continuar a trabalhar e acumular as bonificações, mas apenas até atingir os 92% da melhor das remunerações. A partir daí, continuar a trabalhar já reformado” para começar a aproveitar os 2% por cada ano de trabalho"

Vamos a um caso concreto (simplificado), feito pela FSO Consultores. Uma pessoa que ao longo da vida descontou sobre uma remuneração média revalorizada de €950, com 43 anos de descontos, podia, em 2023, ter-se reformado sem penalizações aos 65 anos e 4 meses. Quis, contudo, trabalhar mais uns meses e acabou por reformar-se aos 65 anos e 11 meses, sete meses depois. Neste caso, em vez de uma pensão de €895 acumulou bonificações e passou a ganhar €1055 por mês, muito próximo do valor máximo de pensão que poderia ter (€1160). Por ter atrasado apenas sete meses o momento da reforma, acumulou mais €60 de pensão por mês (resultantes dos 0,65% vezes 16 meses acrescidos de 7%) e ficou muito próximo do limite máximo. Fez bem em reformar-se porque daí em diante perderia as restantes bonificações. Se quisesse continuar a trabalhar, compensava-lhe mais reformar-se e acumular pensão com salário. Ganha um salário de €1000 por mês, para o ano a pensão subiria mais €20.

24.7.23

“És feliz? Tens um propósito? O teu trabalho é relevante para o mundo?”: dicas para mudar de carreira com sucesso por quem já o fez

Cláudia Monarca Almeida, in Expresso


Duas décadas depois de começar a trabalhar, Ivette Gonzalez decidiu mudar “drasticamente” de área. Hoje continua a fazer trabalho humanitário, mas é também consultora e técnica de fatos espaciais. Em entrevista ao Expresso deixa dicas sobre mudar de vida e seguir carreiras científicas


Tinha o sonho de ser astronauta e ir ao espaço, mas não queria ser militar. Em vez disso, tornou-se trabalhadora humanitária.


Durante 20 anos, Ivette Gonzalez viajou pelo mundo, de país em país. Trabalhou em locais afetados por surtos de doenças, desastres naturais e guerras. O objetivo: ajudar a reconstruir vidas.

“Muitas pessoas pensam que é o melhor trabalho do mundo, mas apercebi-me que para mim ainda havia mais para fazer. Um trabalhador humanitário é alguém que faz um trabalho incrível em zonas desoladoras. Mas há sempre algo que podemos fazer a um nível mais macro”, comenta em entrevista ao Expresso durante uma passagem pelos Açores para a Glex Summit [cimeira que reuniu dezenas de cientistas e exploradores na ilha Terceira em junho].

Por isso, decidiu mudar de vida. Como? “É interessante, porque essa é a pergunta que mais me fazem. Acho que isso diz alguma coisa sobre a nossa condição enquanto humanos.”

“ÉS FELIZ? SENTES QUE TENS UM PROPÓSITO? O TEU TRABALHO É RELEVANTE PARA O MUNDO?”

Tomada a decisão, Ivette Gonzalez lançou-se numa longa pesquisa.

“Comecei a procurar o que mais podia fazer com as minhas competências”, recorda. Durante seis meses, entrevistou amigos, familiares e estranhos que encontrou no LinkedIn com títulos profissionais que achou interessantes.

“Começaram a falar-me das profissões deles, do trabalho, das suas experiências. Fazia as mesmas perguntas a todos. És feliz? Sentes que tens um propósito e que o que fazer importa? O teu trabalho é relevante para o mundo?”

O resultado surpreendeu-a. “Fiquei chocada que no fim foram os meus amigos que trabalhavam [na área ligada ao] espaço que me entusiasmaram mais. Eles convenceram-me que existem muitas oportunidades com toda esta experiência em resiliência humana no setor espacial. E por isso decidi tentar.”

Era 2018, ainda antes dos primeiros voos comerciais ao espaço. Durante o primeiro ano participou em 13 conferências do setor para “conhecer toda a gente” e “perceber em que estavam a trabalhar”.

“VIVEMOS NUM TEMPO EM QUE NÃO TEMOS DE ESCOLHER UM TÍTULO PROFISSIONAL EM EXCLUSIVO”

O riso de Ivette Gonzalez quando lhe perguntamos qual é o seu título profissional atual é contagiante. A verdade é que a sua atividade não cabe numa caixinha só.

“Antes e mais que tudo, continuo a ser uma trabalhadora humanitária. Ainda vou ajudar nas áreas em que me pedem ajuda e contribuo o que posso com o meu conhecimento”, começa por descrever.

Depois “sou uma técnica de fatos especiais, o que é muito entusiasmante porque ajudo estudantes e pessoas que se estão mesmo a preparar para ir ao espaço como vestir, mexer e trabalhar dentro do fato espacial.”

No fundo, o seu trabalho prende-se com a componente humana destas ferramentas tecnológicas, o que implica testar os fatos em vários ambientes (como em voos parabólicos, debaixo de água e nos diferentes campos de treino Apollo). “Testamos quão bem trabalham e quão bem as pessoas trabalham com eles", explica.

Surpreendentemente, as duas atividades acabam por estar bastante interligadas. Se o conhecimento sobre resiliência humana lhe permite perceber melhor o comportamento humano nos testes aos fatos espaciais, também descobriu que as tecnologias do espaço podem fazer uma diferença tremenda no trabalho humanitário.


Em 2019, Ivette Gonzalez fez parte da equipa de emergência mobilizada quando o furacão Dorian devastou as Bahamas. Através da ativação da Carta Internacional Espaço e Grandes Desastres, autoridades e trabalhadores humanitários conseguiram ter acesso gratuito a informações de satélite vitais às operações de resgate.

“Quanto trabalhava na ajuda humanitária, não sabia quão acessível a informação era. Em 2019, foi a primeira vez que usei dados do espaço. A ilha tinha encolhido porque estava inundada. Depois do furacão, não conseguíamos localizar as casas, as pessoas, as terras ou estradas. Os barcos das missões de busca e resgate estavam constantemente a colidir e a ficar encalhados porque não conseguíamos ver os destroços por baixo. Por isso, naquela primeira semana ajudou imensamente termos os dados de satélite para navegar. Encontrámos pessoas que tinham ficado encurraladas em pequenas partes da ilha, conseguimos.”

Os mesmos dados têm sido úteis, nos últimos anos, para redesenhar a linha costeira onde esta costumava estar e reconstruir os corais e manguezais que ficaram destruídos.

A estes dois trabalhos, Ivette Gonzalez ainda soma um terceiro, como consultora. “E este é importante porque todos precisamos de pagar as contas. Aconselho agências espaciais e grupos tecnológicos emergentes para os ajudar a desenvolver uma economia relevante, viável e até crescente em torno da indústria espacial.”

“Uma coisa que acho que é importante, especialmente para esta geração, é que vivemos num tempo em que não temos de escolher um único título profissional ou fazer apenas uma coisa bem. Podemos ter multitudes e isso significa que existem muitas camadas naquilo que nos apaixona e pelo qual nos interessamos. E podemos fazer todas”, defende.

“VIVEMOS NUM TEMPO EM QUE É ACEITÁVEL MUDAR DE EMPREGO”

Especificamente no caso das das carreiras científicas, argumenta, “há espaço para todas as paixões”. “No caminho para as STEM [abreviatura inglesa para "ciência, tecnologia, engenharia e matemática”] - quer seja pelo espaço, oceanos, Terra, clima, atmosfera - pode-se perseguir o que quer que nos entusiasme. Desde que sejas feliz e saibas que podes ser relevante.”

“A parte de ser relevante é que é mesmo crítica”, acrescenta. “Tornarmo-nos indispensáveis a algo maior” é o que permite assegurar o emprego a longo prazo.

Para quem procura uma mudança, Ivette Gonzalez também deixa um conselho. “Vivemos num tempo em que é aceitável mudar de emprego. É aceitável desenvolver competências em diferentes disciplinas. Por isso, não tenhas medo de fazer a mudança.”

“Começa por procurar um novo emprego que queiras ou algo que te entusiasme. É possível fazer duas coisas ao mesmo tempo durante muito tempo, para fazer uma transição mais suave.”

Ivette Gonzalez também recomenda o método de fazer entrevistas aos profissionais que já estão no cargo ambicionado. “As pessoas estavam muito felizes por falar e partilhar o seu trabalho. No fim tornaram-se bons amigos e colegas, porque ficaram surpreendidos por saber que alguém queria fazer a mesma coisa e partilhava a sua paixão por algo.”

Para a humanitária e técnica, importa também “construir comunidade”. Isto é, “encontrar as pessoas com quem gostaria de aprender e trabalhar, porque isso é muito raro.”

“POR CADA MULHER QUE TEVE ACESSO A EDUCAÇÃO COMO EU, HÁ DEZ QUE NÃO TIVERAM”

Com o trabalho que realiza, Ivette Gonzalez é considerada uma ativista pela diversidade e inclusividade das comunidades marginalizadas na exploração espacial e nas STEM. Entre outros projetos, lidera um projeto de mentoria que faz a ponte entre várias mulheres da indústria espacial comercial e raparigas adolescentes para as incentivar a seguirem carreiras científicas.

“Uma coisa que notei é que quando as coisas evoluem rapidamente [como tem acontecido com o setor espacial], é difícil respirar, dar um passo atrás e perceber o que está a cair no esquecimento. Sendo de origem mexicana e nativa americana, cresci na pobreza, na fronteira numa época em que havia gangues. Vivi dentro desta estrutura comunitária e sei que as pessoas podem ser esquecidas. E eu quero garantir que ninguém é esquecido.”


Mais de metade dos jovens portugueses admite emigrar

in Público

Instabilidade financeira e problemas com a habitação são as maiores preocupações demonstradas pelos inquiridos, entre os 18 e os 34 anos

Uma sondagem sobre os jovens a residir em Portugal revela que 54% deles admite viver fora do país, enquanto 19% fica na dúvida sobre essa questão. As respostas estão este domingo no Jornal de Notícias, no Diário de Notícias e na TSF.

Há algum paradoxo na forma como os jovens entre os 18 e os 34 anos, questionados para esta sondagem, olham para o país. Por um lado, 53% acredita que Portugal é um bom local para viver (17% discorda ou discorda totalmente desta afirmação) e 43% acredita que o país lhes oferece hoje melhores condições de vida do que aos seus pais, mas, mesmo assim, são muitos os que ponderam sair.

[...]

Os que ponderam sair, dizem os diários, são sobretudo os mais jovens e que concluíram o ensino secundário ou superior, enquanto os mais velhos, dentro daquela grupo etário e com o 9.º ano são os que mais resistem a emigrar. Quanto à escolha do novo destino, a Europa aparece como a favorita.

Ainda sobre o trabalho, há uma percentagem relevante de inquiridos que diz estar satisfeito com o seu trabalho e querer mantê-lo (45%) e 49% dos jovens admite que o rendimento de que dispõem dá para viver. Contudo, quando se acrescenta o “confortavelmente” a esse dado, a percentagem desce para 25% e há quase outro tanto (21%) que diz que é difícil viver com o rendimento actual.

[...]

[...]

Sobre as suas preocupações sociais, a sondagem diz-nos que apenas 35% ouviu falar no rendimento básico universal, mas que 70% concordaria com a sua aplicação. Há também 77% dos jovens inquiridos que são favoráveis à lei da eutanásia e 69% à interrupção voluntária da gravidez - a mesma percentagem dos que dizem ser favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo ou dos que se mostram preocupados com a guerra na Ucrânia.

Os jovens inquiridos começaram a utilizar a internet cedo (57% entre os 10 e os 14 anos e 22% antes dos 10 anos), recorre a ela várias vezes por dia (88%) e o melhor local para os encontrar é o Instagram (80% usa-o).

Vão a eventos ocasionalmente (47%), ocupam os tempos livres sobretudo a ver filmes ou séries (60%) e têm níveis moderados de preocupações ambientais. 65% diz fazer reciclagem e 35% compra menos roupa e acessórios. Apenas 6% diz não ter qualquer prática neste campo.


A sondagem foi realizada pela Aximage e recorreu a entrevistas a 803 jovens.
[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

17.7.23

Sem apoios ou compensações, a inflação “significa sempre um empobrecimento”

Pedro Crisóstomo, in Público online

Combate aos baixos salários e às diferenças remuneratórias entre mulheres e homens é prioritário, defendem peritos da comissão científica do Centro de Relações Laborais.

A remuneração média dos trabalhadores em Portugal tem crescido abaixo da inflação e esse efeito está a acentuar uma aproximação entre o valor do salário mínimo nacional e os vencimentos médios.

Atenta a essa tendência no mercado de trabalho, a comissão científica do Centro de Relações Laborais (CRL), um organismo do Ministério do Trabalho que todos os anos publica uma análise à evolução do emprego, defende que é preciso “estimular a subida dos salários” no país.

O CRL publicou nesta quarta-feira o relatório anual sobre emprego e formação em 2022 (elaborado por Sílvia Sousa, Alexandra Moreira e Teresa Pina Amaro) e, ao olhar para as tendências globais e aspectos específicos no contexto de forte inflação, os peritos da comissão científica alertam para o facto de os salários em Portugal continuarem a ser “muito baixos”, defendendo ser necessário incentivar melhorias nos rendimentos, incluindo para acabar com as diferenças remuneratórias que persistem entre mulheres e homens.

O relatório refere que a remuneração média mensal estimada pela Segurança Social, sem distinção entre trabalhadores a tempo completo e a tempo parcial, voltou a subir em 2022, tal como acontecera nos dois anos anteriores (ao contrário do que se verificara em 2019, antes da pandemia), mas não especifica quanto foi essa variação de 2021 para 2022, período em que a inflação chegou a 7,8% (8,1% no indicador que permite comparações na União Europeia) no ano passado.

Para a comissão científica – formada por António Figueiredo (da Faculdade de Economia da Universidade do Porto), Cristina Rodrigues (do IEFP e investigadora na Universidade Nova de Lisboa), Francisco Madelino (presidente do Inatel e docente no ISCTE), João Cerejeira (professor na Universidade do Minho) e Mário Caldeira Dias (da Universidade Lusíada) — é preciso ter presente que, num momento de inflação elevada, “não existe forma global de recuperar as perdas de poder de compra para todos, a não ser que a economia e a produtividade cresçam e que o aumento dos rendimentos de uns seja compensado por outras quebras compensatórias — salários vs. lucros ou custos da energia e das matérias-primas”. Por isso, sublinham, “sem estas premissas e sem apoios específicos, a inflação significa sempre um empobrecimento”.

[...]

Desequilíbrio persiste

O ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem que trabalhavam a tempo completo em Portugal continental era de 1294,1 euros, “o que representou um aumento de 3,5% face a Outubro do ano anterior”.

Mas se o ganho médio mensal masculino era de 1395,69 euros, o feminino ficava-se pelos 1172,07 euros. Os dois cresceram “relativamente a 2020, embora o feminino mais do que o masculino, pelo que a diferença entre salários médios se atenuou ligeiramente, como aliás já vinha acontecendo nos últimos anos”. Mesmo assim, em 2021 “o salário médio mensal feminino representava 84% do salário masculino quando, há cinco anos, constituía 81,7%”, resume o relatório.

Combater essas diferenças, criando “condições para a igualdade salarial”, é um dos apelos deixados pela comissão científica. Ao rol de “questões essenciais a que urge dar resposta” juntam outras quatro prioridades: estimular as melhorias salariais; “integrar realmente os imigrantes na sociedade portuguesa, criando condições de aprendizagem da língua e cultura e oferecendo dignidade no trabalho e condições de vida”; “qualificar os desempregados de longa duração — metade do número global — para um retorno ao mercado de trabalho, onde faz falta a sua participação”; e “investir na saúde e segurança no trabalho, de modo a reduzir os acidentes de trabalho, as doenças profissionais e as mortes a eles associadas bem como prevenir o absentismo por doença”.

Os peritos defendem ainda que o centro dê uma “atenção específica à correcta avaliação do alcance de duas transformações em curso na economia portuguesa: a da descarbonização e emergência dos empregos verdes, e a transformação digital”.

[artigo na íntegra disponível apenas para assinantes aqui]

12.7.23

Trabalhadores que ganhavam entre salário mínimo e até 999,99 euros eram 66,9% em 2021

 Lucília Tiago, in Lusa


Lisboa, 12 jul 2023 (Lusa) – Quase 70% dos trabalhadores por conta de outrem com horário completo tinham, em 2021, uma remuneração base mensal entre o salário mínimo e os 999,99 euros, superando os 52,7% que estavam neste patamar um ano antes.

A análise da estrutura remuneratória dos trabalhadores por conta de outrem (TCO) que trabalhavam a tempo completo consta do relatório sobre emprego e formação de 2022, do Centro de Relações Laborais (CRL), hoje apresentado publicamente.

"Em 2021, a análise da estrutura remuneratória dos TCO que trabalhavam a tempo completo, no que respeita à remuneração base mensal, permite constatar que mais de metade dos trabalhadores (66,9%) se concentrava no escalão remuneratório entre os '665,00 e os 999,99 euros'", refere o documento.

Já o escalão dos “1.000 aos 2.499,9 euros” reunia 27,8% dos trabalhadores, enquanto no seguinte (entre os 2.500 e os 4.999,99 euros) estavam 4,2%, havendo apenas 0,7% com uma remuneração base mensal cima dos 5.000 euros.

Por comparação com a edição anterior deste relatório constata-se que a percentagem de trabalhadores com uma remuneração base entre o salário mínimo (que em 2020 era de 635 euros) e os 999,99 euros aumentou, subindo de 52,7% para 66,9%.

Segundo o relatório, em outubro de 2021, o ganho médio mensal, no continente, dos TCO que trabalham a tempo completo era de 1.294,10 euros, valor que representa um aumento homólogo de 3,5%, tendo-se atenuado "ligeiramente" a diferença entre géneros.


"O ganho médio mensal masculino era 1.395,69 euros, enquanto o feminino totalizava 1.172,07 euros", indica o CRL, precisando que "ambos cresceram, relativamente a 2020, "embora o feminino mais do que o masculino pelo que a diferença entre salários médios se atenuou ligeiramente" mantendo a tendência registada ao longo dos últimos anos.

Desta forma, em 2021, o salário médio mensal feminino representava 84% do salário masculino quando, há cinco anos, constituía 81,7%.

O estudo, que compila dados de várias fontes oficiais, como o Instituto Nacional de Estatística (INE), o Governo ou o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), entre outros, revela, por outro lado, que em 2022 o Índice de Custo do Trabalho registou um acréscimo de 4,2% em termos homólogos, tendo aumentado em quase todos os setores de atividade.

As exceções foram os setores das atividades artísticas, de espetáculos, desportivas e recreativas (onde houve um recuou de 4,5%), do alojamento, restauração e similares (menos 3,9%) e das outras atividades de serviços (menos 1,7%).

LT // EA

Lusa/Fim

11.7.23

Lucros aumentaram mais do que custos do trabalho na maioria dos países da OCDE, mas em Portugal foi ao contrário

Sónia M. Lourenço Jornalista e Carlos Esteves Jornalista infográfico, in Expresso


Comparando com o final de 2019, antes da pandemia, os custos do trabalho aumentaram 19,2% em Portugal, ou seja, mais do dobro do aumento de 8% dos lucros das empresas, aponta o Employment Outlook da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico, publicado esta terça-feira


A evolução dos custos do trabalho e dos lucros das empresas, e a sua relação com o atual surto inflacionista, tem marcado a atualidade e a discussão económica e é um dos temas em análise no Employment Outlook 2023, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), publicado esta terça-feira.

Conclusões? Entre o final de 2019, antes da crise pandémica, e o primeiro trimestre deste ano, os lucros cresceram mais do que os custos do trabalho na grande maioria dos países da OCDE. Mas Portugal é uma das exceções.

“Ao longo dos últimos três anos, os custos do trabalho por unidade do produto real (custos unitários do trabalho) aumentaram na maioria dos países da OCDE, já que o crescimento dos salários nominais excedeu o crescimento da produtividade”, lê-se no relatório. E explica que este indicador obtém-se dividindo a compensação dos trabalhadores pelo Produto Interno Bruto (PIB) real.

Ao mesmo tempo, as margens de lucro, medidas pelos lucros por unidade do produto real (lucros unitários, obtidos pela divisão do excedente operacional bruto pelo PIB real), "também cresceram na maioria dos países, indicando que, em termos agregados, as empresas foram capazes de aumentar os preços para além do incremento no custo do trabalho e de outros inputs”, aponta a OCDE.

De facto, “na maioria dos países, os lucros unitários subiram mais do que os custos unitários do trabalho em 2021 e 2022”, salienta a organização. Em concreto, em 24 dos 29 países analisados, os lucros cresceram mais do que os custos do trabalho entre o final de 2019 e o primeiro trimestre deste ano.


“Como resultado, ao longo dos últimos dois anos, os lucros tiveram uma contribuição invulgarmente grande para as pressões internas sobre os preços”, escreve a OCDE.

Uma conclusão que ecoa os resultados obtidos pelo Banco Central Europeu (BCE) para a zona euro. Um estudo recente aponta que os lucros unitários representaram cerca de 60% das pressões internas sobre os preços no espaço do euro, nos últimos três trimestres (nos terceiro e quarto trimestres de 2022 e no primeiro de 2023).

Em Portugal, contudo, a par de outros quatro dos 29 países analisados, o aumento dos custos do trabalho suplantou o dos lucros neste período.

Os dados apresentados pela OCDE indicam uma subida de 19,2% nos custos unitários do trabalho, o que compara com um incremento de 8% nos lucros unitários.

A OCDE apura ainda as variações nos custos unitários do trabalho reais, que mede a diferença entre variações nos custos unitários do trabalho e variações nos preços na produção (por exemplo o deflator do Produto Interno Bruto).

Ora, “os custos unitários do trabalho reais recuaram em 18 dos 29 países com dados disponíveis”, aponta o estudo.

Não foi o caso de Portugal. “Entre os restantes países, os maiores aumentos nos custos unitários do trabalho reais ocorreram em Portugal, no Reino Unido e na Lituânia”, destaca a OCDE.

Olhando em concreto para as remunerações, a organização salienta que “apesar de uma subida no crescimento nominal dos salários, em termos reais estão a cair”. Isto por causa da inflação elevada.

Assim, no primeiro trimestre de 2023, o crescimento dos salários nominais por hora face ao mesmo período do ano anterior “excedeu o nível pré-crise em quase todos os países da OCDE, atingindo 5,6% em média nos 34 países com dados disponíveis”, aponta o documento. Contudo, os salários reais por hora - ou seja, considerando o impacto da inflação - “caíram em média 3,8%, com quedas observadas em 30 países”.

No caso de Portugal, a subida nominal foi de 4,5%, com uma queda real de 3,5% no salário médio por hora de trabalho.

Já na comparação com o final de 2019, antes da crise pandémica, no final de 2022 os salários reais tinham caído, em média, 2,2%, observando-se variações negativas em 24 dos 34 países da OCDE com dados disponíveis.

Mesmo nos restantes 10 países com variações positivas, “a inflação apagou a maioria do crescimento nominal dos salários”, aponta a OCDE.

É o caso de Portugal, com uma variação real positiva de 1,3%.

10.7.23

Aumento de recrutadoras pode retirar 306 mil portugueses da pobreza, diz Randstad

Joana Nabais Ferreira, in ECO

O aumento das empresas de recrutamento no mercado de trabalho é, normalmente, acompanhado por taxas de pobreza mais baixas. Em Portugal, a taxa de penetração das empresas de recrutamento, é de 1,1%, abaixo da média da Europa. Aumentar esta taxa poderia retirar 306 mil pessoas da situação de pobreza, sugere o estudo “O papel das empresas de recrutamento na sociedade europeia”, elaborado pela Randstad.

“Segundo dados da Eurostat, em Portugal, o número de pessoas empregadas que não atingem o rendimento mínimo disponível é superior a 518 mil pessoas, o que corresponde a 11% dos empregados. Considerando a correlação, analisada pela Randstad, entre a penetração do setor de empresas de recrutamento e a taxa de risco de pobreza no trabalho, aplicando a correlação correspondente ao aumento da presença do setor em Portugal, poderia reduzir-se o número de afetados por esta situação em 149 mil pessoas“, afirma Isabel Roseiro, diretora de marketing da Randstad Portugal, em comunicado.

Com uma taxa de penetração de recrutadoras, calculada dividindo o número de trabalhadores temporários equivalentes a tempo inteiro entre a população em idade ativa, inferior à apurada em Portugal está apenas Espanha (0,8%), Grécia (0,5%), Estónia (0,3%) e Lituânia (0,2%).

No sentido oposto, com os valores mais elevados, estão os Países Baixos (3,7%), Eslováquia (3%), Eslovénia e França (ambas com 2,9%).

Segundo a Randstad, a presença de um ponto a mais de penetração das empresas de recrutamento no mercado de trabalho é acompanhada por taxas de pobreza 2,96 pontos mais baixas. “Em Portugal, uma redução dessa magnitude poderia equivaler a tirar 306,2 mil pessoas de uma situação de risco de pobreza ou exclusão social”, melhorando os resultados do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 1 — erradicar a pobreza –, conclui a empresa especialista em recrutamento.

Maiores níveis de qualificação e igualdade de género

O estudo aponta que também no ODS 4, que corresponde a educação de qualidade, é possível esperar uma contribuição positiva por parte das empresas de recrutamento. “Verifica-se uma flexibilidade superior no mercado de trabalho e maiores oportunidades de emprego nos países em que as empresas de recrutamento têm maior presença”, pode ler-se.


“Isto faz com que a rentabilidade da formação aumente, o que acaba por implicar maiores níveis de qualificação da população destes países. Foi verificado que um ponto percentual na penetração destas agências corresponderia a um incremento de 3,8 pontos a proporção de pessoas dos 45 aos 54 anos com competências digitais básicas, aumento que em Portugal se traduziria em 59,3 mil pessoas a mais com esses conhecimentos. Atualmente, 45% dos indivíduos desta faixa etária possuem competências digitais abaixo do nível básico.”

A análise refere ainda que o ODS 5 — igualdade de género — pode ser impulsionado pelas agências de emprego, com a capacidade para agilizar o acesso ao emprego por parte de mulheres, o que lhes permite iniciar as carreiras profissionais mais cedo e progredir profissionalmente, podendo limitar as diferenças entre género nos mercados de trabalho europeus.

Uma das correlações mostra que, em Portugal, o aumento de um ponto percentual na participação do setor, poderia elevar o peso das mulheres nos cargos de alta gestão, a médio prazo, até 4,5%.

Aceda ao estudo completo aqui.
]]>

5.7.23

Projecto da semana de quatro dias avalia o “bem-estar” dos trabalhadores

Pedro Crisóstomo, in Público

Saúde mental é uma das preocupações do projecto-piloto. Gestores e trabalhadores são ouvidos antes, durante e depois dos seis meses de experiência.

O projecto-piloto da semana de quatro dias de trabalho que começou a ser testado no terreno, há um mês, em 39 empresas portuguesas vai realizar inquéritos aos trabalhadores para avaliar o “bem-estar” dos participantes, disse esta quarta-feira no Parlamento o coordenador da iniciativa pública, o economista Pedro Gomes.

A experiência dura seis meses e começou formalmente no início de Junho com um grupo de empresas voluntárias. Algumas já estavam a adoptar um sistema de trabalho reduzido antes desta fase de testes e o seu caso também fará parte do estudo a realizar pelo grupo que coordena este projecto-piloto, lançado pelo Governo sob a gestão do Instituto do Emprego e da Formação Profissional e com a participação da Birkbeck Universidade de Londres, onde Gomes é investigador.


Numa primeira fase, a equipa explicou o projecto a uma série de empresas interessadas (cerca de cem) e, num segundo momento, as que decidiram entrar tiveram uns meses para preparar a fase de testes, que agora arrancou, com a duração de meio ano.

Já houve um inquérito em Fevereiro, haverá outro em Outubro e um já no pós-experiência, em Fevereiro de 2024. “A avaliação é feita de duas formas”: uma, com os testes aos trabalhadores, para medir os efeitos da mudança “no bem-estar” e, outra, com inquéritos “relativamente ligeiros” aos gestores, explicou Pedro Gomes.

O economista disse aos deputados da Comissão de Trabalho e Segurança Social que haverá uma avaliação final do projecto para que os parlamentares e outras instituições possam “tomar posição” e fundamentar as suas decisões de política pública.

A história, recordou, mostra que, primeiro, quando um modelo é testado e “ganha mais reputação” como acto de gestão, mais tarde, começam por surgir “acordos sectoriais ou legislação laboral” que numa primeira fase incidem sobre as grandes empresas, por terem maior capacidade financeira. Este tipo de mudanças leva “muitos anos”, mas, em vez das “cinco décadas” que se verificaram na passagem da semana de seis para cinco dias, Pedro Gomes espera que, no século XXI, numa economia digitalizada, essas mutações sejam mais rápidas.

Doutorado na London School of Economics e autor da obra Sexta-Feira É o Novo Sábado — Como Uma Semana de Trabalho de Quatro Dias Poderá Salvar a Economia, Gomes considera “natural existir cepticismo” em relação à mudança que advoga, porque, reconhece, tem uma visão “diferente” que é “minoritária entre economistas”.

O investigador vê “benefícios mútuos para os trabalhadores e as empresas”; no caso português, o projecto-piloto é um “primeiro passo” para testar essas vantagens, implantando num pequeno grupo uma nova prática de gestão no contexto da economia portuguesa, para aqui avaliar os impactos nos trabalhadores e medir os “ajustes que foram feitos nas empresas, sobretudo ao nível da produtividade”.
Sem cortes salariais

A ideia foi começar de forma prudente, com empresas que se mostraram disponíveis para testar sem quaisquer contrapartidas financeiras assumidas pelo Estado.

Por outro lado, a definição de semana de quatro dias pressupõe que há uma redução de horas de trabalho semanal sem existir um corte salarial (porque a ideia “não é testar o trabalho a tempo parcial”, nem a semana concentrada). A redução pode ser das 40 horas por semana para 32, 34 ou 36, decisão que ficou ao critério das entidades empregadoras envolvidas.

Ao nível internacional, têm existido vários projectos, de três tipos. Segundo Pedro Gomes, um nos países anglo-saxónicos, seis meses no sector privado, conduzido por uma associação sem fins lucrativos chamada 4 Day Week Global (também envolvida no projecto português), sem apoio do Estado; na Islândia, no sector público; e em Espanha, no sector industrial, organizado pelo Governo, com uma subvenção pública de 20 milhões de euros. E, tendo em conta “as vantagens de cada um”, Portugal começou pelo sector privado sobretudo por concentrar 80% do emprego em Portugal, mas também por ser mais fácil de testar as medidas de produtividade, por existir uma maior assimetria e por ser “menos politizado” do que aconteceria se se iniciasse pelo sector público, defendeu Pedro Gomes.

“A principal decisão que tomámos foi a de não oferecer nenhum apoio financeiro às empresas”, porque, diz, a criação de um subsídio iria invalidar a avaliação — poderia assumir-se que o projecto seria bem-sucedido por essa razão, além de que, assim, não se “insufla artificialmente o interesse” das empresas em experimentar. E seria legalmente complexo de implementar, como prova o caso de Espanha. Assim há um interesse “genuíno” da comunidade empresarial.

“Não queremos saltar etapas precisamente por ser uma mudança tão grande, que tem tantas ramificações, ao nível demográfico, da conciliação do trabalho com a vida familiar, do ambiente, da igualdade de género, das questões de competitividade, de saúde mental”, salientou.

Nos últimos 30 anos, alerta, houve uma “intensificação do trabalho” que se deve sobretudo à tecnologia, à velocidade da comunicação e ao fim das barreiras digitais de que são exemplo hoje “os WhatsApps à noite…”. “Isto tem um efeito quase natural nos trabalhadores” e “precisamos de mais descanso” (um assunto “que em Portugal se percebe muito bem para o futebol”, mas que é determinante para “todas as ocupações”, precisou).

O coordenador do projecto contou ao deputados da Comissão de Trabalho e Segurança Social que teve uma reunião com o Instituto Nacional de Estatística (INE) para que os resultados do projecto sejam partilhados de forma anónima, para a informação sobre as empresas poder ser cruzada pelo instituto estatístico com outras de dados administrativos, o que, vinca, também permitirá aos académicos estudar os efeitos de longo prazo, ao ser feito o acompanhamento da actividade das empresas.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]



Metade dos trabalhadores de plataformas fiscalizados estavam irregulares

Por Lusa, in Público

A ACT desenvolveu a primeira acção de fiscalização, na semana passada, após a entrada em vigor das alterações laborais no âmbito da Agenda do Trabalho Digno.


Cerca de metade dos trabalhadores das plataformas digitais que foram alvo, na semana passada, de uma fiscalização pela Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) estavam em situação irregular, disse hoje a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

Ana Mendes Godinho falava na sessão de abertura do colóquio “O Trabalho Digno. Contexto e leituras da Agenda”, em Lisboa, promovido pelo CoLABOR – Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Protecção Social.


A ACT desenvolveu a primeira acção de fiscalização, na semana passada, após a entrada em vigor das alterações laborais no âmbito da Agenda do Trabalho Digno, que entraram em vigor em Maio, passando a prever a presunção de laboralidade para os trabalhadores das plataformas digitais.


Cerca de 50% dos trabalhadores que foram identificados nesta acção estavam completamente irregulares do ponto de vista da sua relação laboral, portanto, não faziam sequer parte do sistema de protecção social nem de relação laboral", afirmou Ana Mendes Godinho.


"Este é um primeiro indício de que, de facto, temos aqui muito para garantir e transformar para que a Agenda do Trabalho Digno seja uma realidade efectiva na vida dos trabalhadores", considerou Ana Mendes Godinho.

A ministra não referiu, porém, qual o número de trabalhadores em causa. À margem, questionada pelos jornalistas, Ana Mendes Godinho indicou tratar-se de dados preliminares da ACT que não foram ainda divulgados na sua totalidade.


Na quarta-feira, decorreu uma acção de fiscalização aos estafetas de plataformas digitais, como a Glovo e Uber Eats, envolvendo "cerca de 30 inspectores" da ACT, em Lisboa e Porto, anunciou a inspectora-geral, Maria Fernanda Campos, que falava aos jornalistas no início da acção que decorria no Parque das Nações, em Lisboa.


"Esta acção inicia-se hoje [dia 28 de Junho], vai durar até final do ano" e vai "acompanhar aqui o que é a situação dos trabalhadores nas plataformas, o seu relacionamento", disse a inspectora-geral da ACT.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]



3.7.23

​Portugal tem de “correr” para garantir salários competitivos para os jovens

Cristina Nascimento, in RR 


Ministra do Trabalho assegura que a evolução salarial tem sido positiva, mas reconhece que tem de ser feito mais para que os jovens encontrem condições em Portugal. Objetivo é convergência dos salários com a média europeia até 2026.


A ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, reconhece que Portugal precisa de “correr” para garantir salários competitivos para os jovens.

No lançamento do programa “Avançar” esta segunda-feira, em declarações à Renascença, a ministra assegura que “os números recentes mostram que houve uma evolução positiva, nomeadamente o da valorização dos salários dos jovens em Portugal desde 2015, com aumento de cerca de 44%, mas não chega”.

A governante lembrou que o objetivo estabelecido no acordo de rendimentos é “convergir com a média europeia do peso dos salários no PIB até 2026”, acrescentado que estão a tentar “acelerar e colocar velocidade” neste que “é um objetivo crítico para o nosso país”.


“É preciso mesmo avançar, mas, mais do que avançar, é até correr”, admite.

Ana Mendes Godinho considera que é neste esforço que se insere o programa “Avançar”, um programa que prevê a atribuição, durante um ano, de uma bolsa de 150 euros a 25 mil jovens qualificados até aos 35 anos que sejam contratados sem termo com um salário mensal de pelo menos 1.330 euros.

O programa é também “um repto coletivo” lançado a todos, afirma a ministra.

No lançamento do programa "Avançar", que se realizou em Lisboa, marcaram presença vários parceiros sociais, bem como jovens trabalhadores que relataram que dificuldades e receios sentiram na integração no mercado laboral.

Foi feita também uma apresentação por parte do professor do ISCTE Paulo Marques sobre o "Retrato do Emprego Jovem em Portugal". Este especialista revelou que, em 2022, terão saído de Portugal entre 70 a 75 mil trabalhadores.

26.6.23

Justiça obriga padre a pagar 20 anos de subsídios a empregada doméstica

Ana Henriques, in Público online

Antigo vice-reitor da Universidade do Porto via família da empregada como sua família e chegou a ajudá-la com dinheiro. Mas isso não foi suficiente para o ilibar.

A empregada doméstica de um sacerdote católico do Porto venceu uma acção judicial contra o patrão, que ao longo de 20 anos de serviço nunca lhe pagou subsídios de férias nem de Natal. As ajudas financeiras que lhe foi dando enquanto usufruiu dos seus serviços não evitaram a condenação do octogenário, que via a mulher e respectiva família como sua família também.

Quando foi contratada para empregada interna da moradia no concelho de Gaia, onde residia o padre, em 1999, a mulher ainda trabalhava de manhã como funcionária da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, donde só viria a reformar-se anos mais tarde. Já o patrão era vice-reitor da mesma universidade, instituição onde chegou também a dirigir a Faculdade de Letras. Apesar de o salário não ser famoso, aos 350 euros mensais acrescia ter direito a alojamento e alimentação, não só para si como para a filha e o marido, que estava entrevado. Não pagava água, luz nem gás.

Em 2007, a empregada reforma-se da faculdade e fica a trabalhar a tempo inteiro como interna. Estava a caminho dos 70 anos e a saúde já não era a mesma: diabética e hipertensa, desenvolvera problemas de visão. O patrão providencia-lhe as frequentes deslocações ao hospital.

Diz o ditado que mulher doente é mulher para sempre, e este caso não foi excepção. Quando o marido morre, mãe e filha continuam a morar com o padre. Quando esta última se casa, o académico cede-lhe, por um valor quase simbólico, uma casa que tem ali perto para morar com o marido. Oferece-lhe ainda cerca de 12 mil euros para que compre um carro, para chegar ao emprego. Mais tarde há-de ainda emprestar 37.500 euros à doméstica, que precisa do dinheiro para fazer umas obras numa casa sua.

Mas nunca formalizou um contrato com a empregada, nem a inscreveu na Segurança Social. Quando é julgado em tribunal pela primeira vez, em Janeiro de 2021, desvaloriza por completo a relação contratual que mantém com a empregada, dizendo e repetindo que sempre tinham sido todos como uma família. Quase fazendo crer que aceitou partilhar o seu lar com três pessoas por mera caridade e não apenas para não estar sozinho, escreve a juíza que o condenou em primeira instância.

Porém, dos quase 70 mil euros exigidos pela queixosa a título de trabalho suplementar, violação ao direito de férias, violação do descanso semanal e indemnização por despedimento ilícito, o tribunal só decretou o pagamento de cerca de 17 mil. A justiça considerou impossível não ter gozado um único dia de férias ou de folga ao longo destas duas décadas, como dizia ter sucedido. Também não ficou comprovado que a sua jornada diária tivesse início às 7h30 e só terminasse às 21h30, com pausas pelo meio para as refeições – até porque os afazeres profissionais do padre o levavam volta e meia a ausentar-se.

A ruptura entre patrão e empregada dá-se em 2019, numa altura em que a octogenária, que entretanto se tornara dependente da insulina, só a custo desempenhava algumas das tarefas domésticas. Limpar a casa já não conseguia. O seu salário tinha subido para os 400 euros. O padre contrata então uma substituta, mantendo mesmo assim a ex-empregada a morar consigo. Ter-lhe-á mesmo dito: “Agora já podes descansar.”

O problema é que ela começa a implicar com a sua sucessora, que ameaça ir-se embora. Como os seus avisos para que deixe de criar mau ambiente não surtem efeito, o patrão acaba por trocar a fechadura de casa, aproveitando uma ida ao médico da ex-empregada.

A exactidão do relato que a mulher faz da conversa que houve nesse dia não ficou provada. “Senhor doutor, quero saber porque me manda embora”, terá dito. “O doutor disse-me que, enquanto vivesse, eu continuava aqui.” O padre mantém a calma até mãe e filha pegarem em Tokio, que ali tinha sido criado, para o levarem consigo. Fica desnorteado: “Se levam o cão, tiro-vos a casa”, terá ameaçado, numa alusão ao imóvel que prometera deixar-lhes em testamento.

Mas levaram mesmo o animal consigo, e a doméstica meteu uma acção em tribunal contra o antigo vice-reitor a reclamar os 70 mil euros. Exigia ser também paga pelos quatro meses em que continuou a residir lá em casa já sem exercer qualquer tipo de tarefa – conduta que o tribunal de primeira instância classifica como “desonesta, desleal e socialmente censurável”.

O advogado que defendeu o padre em tribunal acusa mãe e filha de ingratidão e cupidez. Se não fosse a sua má conduta, a empregada ainda hoje moraria com o patrão, alega. Recorre da condenação com sucesso: o Tribunal da Relação do Porto iliba o antigo reitor, com base no argumento de que, tendo sido a própria doméstica a reconhecer já não ser capaz de desempenhar todo o serviço, a relação laboral caducou, tendo os seus créditos laborais prescrito por os ter reivindicado mais de um ano depois de ser substituída.

Porém, esse não foi o entendimento do Supremo Tribunal de Justiça, que em Maio passado decidiu que a generosidade do padre para com esta família em nada prejudica os direitos da trabalhadora em matéria de subsídios de férias e de Natal. Para cancelar o contrato de trabalho firmado oralmente em 1999, o patrão devia tê-lo feito por escrito, com aviso prévio. “Mas não o fez e a sua conduta deve qualificar-se como um despedimento ilícito”, escrevem os conselheiros, para quem o facto de a mulher ainda desempenhar algumas tarefas quando foi substituída faz com que a relação laboral não tenha caducado.

Mas não foram só vitórias para a empregada, que o Ministério Público junto do Supremo entendia não ter razão. Mesmo tendo visto o ex-patrão condenado por a ter despedido de forma ilegal, o facto de a queixosa se ter conformado com isso numa fase anterior do processo impediu que fosse indemnizada por esse facto – tendo recebido apenas os tais 17 mil euros, em vez de ter arrecadado mais 12 mil por despedimento ilícito.

Contactado pelo PÚBLICO, o advogado do sacerdote, Romualdo Mota e Silva, diz que o seu cliente irá pagar o devido. Sobre a decisão que o condena limita-se a proferir uma alocução latina, segundo a qual o excesso de justiça também pode redundar em injustiça: “Summum ius, summa iniuria.”

Como conjugar envelhecimento ativo e trabalho?

in Expresso

As declarações dos protagonistas de nova webtalk do projeto do Expresso dedicado à Longevidade

“Vamos ver pessoas a permanecer nas empresas durante muito tempo porque precisam desse emprego”, admite Anabela Vaz Ribeiro, diretora executiva da United Nations Global Compact Network Portugal

Para João Castello Branco, presidente da associação dNovo, “todos nós conhecemos pessoas que a partir do momento em que deixaram de trabalhar, definharam”

“Aquilo que temos hoje são medidas [fiscais] duplamente limitadas” para ajudar as empresas a terem um papel ativo no envelhecimento ativo, considera o economista e consultor Luís Pereira da Silva

23.6.23

Catarina terminou o estágio e recusou um emprego. Ainda não estava na hora: viajou pela Europa e focou-se em terminar o mestrado

Cátia Barros, in Expresso

Os jovens têm de aceitar um emprego porque essa será a única oportunidade que vão ter? Catarina Almeida viveu esse dilema no fim do seu estágio curricular e não deixou de lado o medo de “ser ingrata ou arrogante por não aceitar uma proposta de trabalho”, mas optou por recusar e se dedicar com foco aos últimos meses enquanto estudante

Catarina Almeida passou os últimos anos, enquanto estudante de psicologia, a ouvir que “é muito difícil arranjar trabalho na área”. Ainda assim, depois de um estágio “numa grande empresa nacional”, recusou aceitar uma proposta de trabalho que lhe foi feita para ali “realizar funções relativamente diferentes”.

“Não aceitei porque senti que não era a minha hora”, explica a estudante de 22 anos, que optou antes por conciliar a escrita de uma dissertação de mestrado e de um relatório de estágio, a participação em ações de voluntariado, a criação de conteúdo para as redes sociais e ainda tirar um curso de Inglês. Aquando da proposta, recusou, pegou nas malas e aventurou-se durante duas semanas num interrail.

MEDO DO DESEMPREGO LEVA JOVENS A QUEREREM “DESTACAR-SE DESDE O PRIMEIRO ANO”

Catarina Almeida entrou na universidade no ano letivo de 2018/19 e desde então que cresceu a ouvir que não ia ter emprego. “Sempre que digo a alguém que sou estudante de psicologia as pessoas respondem, com uma cara preocupada, que é muito difícil arranjar trabalho na área e que muitas pessoas acabam no desemprego ou a realizar funções em setores diferentes”, conta.

Esta “pressão gigantesca”, que diz ter sentido ao longo do seu curso, levou-a a tentar destacar-se. “Comecei a internalizar o discurso e senti uma pressão gigantesca para me destacar no mercado de trabalho desde o meu primeiro ano de curso”. Para tal, envolveu-se em diversas atividades extra curso, tendo chegado a estar, durante a pandemia, em cinco projetos diferentes. Admite que em alguns momentos foi difícil participar em todos. “Conciliar todas as minhas responsabilidades extracurriculares quase me levou a um estado de exaustão psicológica, porque os meus minutos do dia eram meticulosamente calculados”

Contudo, Catarina acredita não ser caso único. “Não deixa de ser curioso refletir sobre esta necessidade de me envolver em várias atividades fora do curso até porque já pude perceber um padrão semelhante noutros estudantes”, conta.

Entre a ambição de ser a “aluna perfeita” e sentir que a “cabeça não funcionava”: Lia teve um esgotamento aos 16 anos

Enquanto aluna do Mestrado em Psicologia das Organizações, Social e do Trabalho, Catarina Almeida teve a oportunidade de estagiar numa “grande empresa nacional” e que “é reconhecida em todo o país como uma escola”. Ao fim de seis meses, recebeu uma proposta para ficar na empresa, mas recusou. “Comecei a ponderar os prós e contras, de uma forma muito racional. Sei que sou privilegiada e não preciso trabalhar para ajudar os meus pais a pagar as contas, portanto pude considerar a opção de não aceitar a proposta”, explica Catarina.

Ao longo dos seis meses de estágio, Catarina continuou a escrever a sua dissertação de mestrado – jornada que ia partilhando nas redes sociais com outros estudantes. No entanto, a aluna admite que “os avanços na tese não foram significativos porque era extremamente difícil chegar a casa depois de oito horas de trabalho e pegar na tese”.

“Não me foi possível gerir o desenvolvimento da tese, realização do estágio e dinamização das redes sociais sem sentir, em diversos momentos, que estava a falhar, não em uma, mas em todas as áreas”.

Catarina admite que esta “primeira experiência” no mercado de trabalho “foi bastante desafiante”, por isso, sentiu que “precisava de recuperar energias depois dos seis meses intensivos”, para depois se dedicar novamente à dissertação. “Decidi fazer uma pausa e fazer um interrail porque acredito genuinamente que, por vezes, precisamos de parar para conseguirmos recarregar as energias e avançarmos novamente”, conta.

Catarina Almeida durante a sua viagem pela Europa

Esta não é, no entanto, a única opção para quem quer fazer uma pausa. Raquel Novais, da Associação Gap Year Portugal, realça que os jovens podem realizar “experiências fora da caixa”, isto é, “experiências que coloquem os indivíduos fora da sua zona de conforto e em situações que, dificilmente, estes poderiam vivenciar no seu dia a dia e, consequentemente, contribuem em grande escala, para o seu crescimento e desenvolvimento pessoal”. Entre essas experiências, Raquel destaca as viagens, os programas de estágio, a experiência e trabalho de voluntariado, a experiência de trabalho, a Integração em projetos de Erasmus+ e a aprendizagem ou melhoraria uma capacidade.

Catarina quase consegue fazer check na lista completa. A viagem pela Europa deixou-a “mais empoderada” e com mais “confiança”. “Passei duas semanas a conhecer várias cidades que já tinha interesse na Europa e como planeei e fiz a minha viagem praticamente sozinha percebi que era capaz de muito mais do que aquilo que imaginava”, refere.

Raquel explica que “estas experiências podem integrar o gap year, mas podem ser igualmente realizadas isoladamente e integradas no dia a dia destes indivíduos/as como trabalhadores e/ou estudantes”.

TRABALHO

Portugal: o país onde uma licenciatura vale cada vez menos, falta talento qualificado e a classe que o forma é a mais envelhecida da Europa


“SENTIA QUE ESTAVA A DESILUDIR ALGUMAS PESSOAS”

Apesar de tudo, Catarina não teve uma decisão fácil. “Alguns familiares fizeram questão de me dizer que estava a perder uma excelente oportunidade”, conta. “Sentia que estava a desiludir algumas pessoas importantes para mim, ao mesmo tempo que sentia que estava a ser ingrata ou arrogante por não aceitar uma proposta de trabalho num contexto instável como é aquele em que nos encontramos quando estamos perto de terminar o curso”.

Mas as redes sociais podem ser um fator importante para que um like se transforme na ‘síndrome do impostor’. “É muito fácil sentirmos que estamos a ficar para trás. Estamos expostos a variadíssimos relatos de pessoas com percursos profissionais de sucesso e acabamos por nos comparar com realidades que desconhecemos quase na sua totalidade”, diz a aluna, falando de uma comparação que “acontece à escala mundial”.

“Fala-se muito das questões associadas à beleza nas redes sociais, o quanto as fotos são manipuladas para se enquadrarem no padrão e quantos aspetos são omitidos para relatar a vida perfeita. Mas não acontece exatamente o mesmo no que diz respeito aos percursos profissionais e modos de vida?”, questiona Catarina. “Não podemos comparar-nos com a ponta do iceberg – o que a pessoa mostra nas redes sociais – e ignorar tudo o que não é partilhado”, acrescenta.

“Os 1001 casos de sucesso são simples fontes de angústia”: cinco histórias de jovens que procuraram outro equilíbrio entre vida e trabalho

A estudante considera que a sua geração, por consequência das redes sociais, ambiciona, “na sua grande maioria, um trabalho nómada e uma liberdade financeira numa idade ridiculamente prematura”.

“Eu tenho mais de 40 anos de trabalho à minha frente, como estudante só tenho mais uns meses. Será que recusar uma proposta de trabalho depois do estágio curricular vai ter um impacto assim tão negativo no meu percurso quando olhamos para a quantidade de anos que ainda tenho pela frente? Quando somos jovens temos a tendência de achar que tudo aquilo que decidimos neste exato momento vai impactar toda a nossa vida”. Mas Catarina, em resposta a si mesma, assegura que há mais que uma oportunidade na vida. “Como se fosse impossível escolher trocar de profissão a meio da vida”.

19.6.23

Portugal: o país onde uma licenciatura vale cada vez menos, falta talento qualificado e a classe que o forma é a mais envelhecida da Europa

  Cátia Mateus Jornalista, Carlos Esteves Jornalista infográfico, in Expresso


Em menos de uma década, o prémio salarial associado à licenciatura caiu para metade, o emprego tecnológico cresceu a um ritmo cinco vezes superior ao de outras áreas e a escassez de talento qualificado agravou-se, aponta o novo relatório da Fundação José Neves sobre qualificação, emprego e salários


Entre 2011 e 2022 o prémio salarial associado à formação superior caiu para quase metade em Portugal, passando de 51% para 27%. Por outras palavras, investir num curso superior era, no ano passado, menos compensador para um jovem até aos 34 anos, em matéria salarial, do que em 2011.

Acontece que nos últimos anos, as exigências de qualificação técnica e superior - nomeadamente em competências digitais e tecnológicas - dispararam, pressionando as empresas em matéria de contratação, indica o relatório anual da Fundação José Neves, “Estado da Nação sobre Educação, Emprego e Competências em Portugal 2023”, divulgado esta quinta-feira, a que o Expresso teve acesso.

A braços com um cenário de escassez de talento disponível e dificuldades de contratação nunca vistas, Portugal vive um momento decisivo, que obriga o país a repensar toda a sua estrutura de ensino para conseguir formar e requalificar profissionais com as competências adequadas.

Há, contudo, um problema de fundo: a classe docente portuguesa é a mais envelhecida da Europa e “um sistema educativo que não consegue atrair novos professores compromete o futuro dos alunos” e, consequentemente, dos profissionais, alerta Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José Neves, em declarações ao Expresso.


O novo relatório faz uma análise à vitalidade do país em três áreas chave: o emprego, as competências e o sistema educativo. E, em todas elas, o último relatório da Fundação José Neves identifica lacunas e aponta soluções.

Ao Expresso, Carlos Oliveira fala numa necessidade em “melhorar as qualificações dos portugueses, alinhando-as com as necessidades das empresas e, sobretudo, com a velocidade da evolução tecnológica”. Mas admite que “este trabalho começa na escola” e que “o país não pode continuar a seguir um modelo educativo do século XVIII, com professores do século XX, para formar os profissionais do século XXI”.

Comecemos pelo emprego. Os indicadores disponíveis mostram que, apesar da instabilidade económica do último ano e dos efeitos económicos decorrentes do conflito militar na Ucrânia, o emprego nacional já recuperou os níveis anteriores à pandemia.

Contudo, no que toca aos salários, a análise da fundação é menos otimista. “Entre 2021 e 2022, apesar do aumento do salário nominal em 3,6%, o salário real caiu 4%, já que o aumento verificado não cobriu a subida da inflação, tendo-se registado uma perda do poder de compra”, sinaliza o relatório a que o Expresso teve acesso.

O impacto dessa perda foi transversal aos vários níveis de qualificação, abrangendo genericamente todos os trabalhadores. Contudo, os jovens qualificados sentiram-no de forma mais severa, com uma perda salarial real na ordem dos 6%. Esta degradação salarial é ainda acentuada por outro fator: a diminuição progressiva do prémio salarial associado à qualificação superior, que atingiu em 2022 um mínimo histórico.
QUALIFICAÇÃO SUPERIOR PESA MENOS NO SALÁRIO

Não é uma tendência recente, mas a perda foi particularmente expressiva no último ano. Desde 2011 que o prémio salarial associado à licenciatura está em queda. Quer isto dizer que a diferença salarial entre um jovem licenciado e outro com ensino secundário está a esbater-se. Se em 2011, um jovem adulto entre os 25 e os 34 anos, com qualificação ao nível do ensino superior, auferia, em média, um salário 51% superior ao de um jovem com o ensino secundário, em 2022 esse diferencial recuou para apenas 27%, um mínimo histórico.

“Isto não quer dizer que a educação superior esteja a perder a sua relevância”, nota o presidente da Fundação José Neves. O relatório mostra que mesmo perante uma redução do prémio salarial associado ao ensino superior, ter um “canudo” garante salários mais elevados. Além disso, vinca Carlos Oliveira, “a recuperação do emprego pós-pandemia foi total entre os jovens com o ensino superior, mas inferior entre os menos qualificados”. Neste grupo, a taxa de desemprego em 2022 ficou nos 18%, significativamente acima dos 13% apurados em 2019, no período pré-pandemia.
MERCADO DE TRABALHO MAIS QUALIFICADO E DIGITAL

Apesar da degradação salarial dos jovens mais qualificados, o mercado de trabalho em geral tornou-se, nos últimos anos, mais qualificado e digital, requerendo por isso maiores competências por parte dos profissionais. “Em 2022, 28% das competências pedidas eram digitais e 66% das ofertas de emprego anunciadas exigiam competências digitais, um valor muito superior aos 54% de 2019”, aponta o relatório.

A maioria das profissões aumentou os requisitos digitais e o sector da alta tecnologia continuou a crescer no país, respondendo já por 45% do emprego total. “A digitalização continua a crescer a um ritmo superior ao previsto para a década”, sinaliza Carlos Oliveira. E aponta para os dados: “continua a haver um enorme potencial por explorar, quer ao nível dos trabalhadores - quatro em cada dez estão em empregos que não utilizam tecnologias digitais ou que fazem delas uma utilização muito básica - quer ao nível das empresas que têm um nível de digitalização baixo”.
75% DOS ADULTOS MENOS QUALIFICADOS NÃO TÊM COMPETÊNCIAS DIGITAIS BÁSICAS

Um potencial que, para o presidente da Fundação José Neves, o país não pode desperdiçar, já que “empresas mais digitais são mais produtivas e pagam melhores salários”, realça. O nível de digitalização das empresas está positivamente associado a ganhos de produtividade na ordem dos 20% e a salários cerca de 3% superiores, conduzindo a uma maior competitividade das organizações e melhoria das condições salariais dos trabalhadores. Ainda assim, avança o relatório, “75% dos adultos menos qualificados não têm competências digitais básicas”.

“É preciso acelerar a formação dos portugueses para responder ao emprego que está a ser criado nas áreas tecnológicas”, explica Carlos Oliveira. Portugal continua na cauda da União Europeia na percentagem de adultos com baixa escolaridade. Em 2022, quase 40% dos adultos entre os 25 e os 64 anos tinham, no máximo o ensino básico, “um valor sem paralelo na União Europeia” - onde a média não ia além dos 20,5% e nos cinco países mais bem posicionados, este indicador não ia além dos 6,4% -, vinca o presidente da Fundação José Neves.

Melhorar as qualificações dos portugueses, diminuindo a população adulta com baixa escolaridade e aumentando a percentagem da população com qualificação superior, é uma das metas que a Fundação José Neves quer ver alcançadas até 2040. Mas não é a única. O peso dps sectores tecnológicos e intensivos em conhecimento no emprego deve aumentar para absorver a crescente qualificação da população e “é preciso reforçar o alinhamento da educação e formação com as necessidades do mercado de trabalho”.
“O QUE FUNCIONAVA MUITO BEM HÁ 200 ANOS, NÃO FUNCIONA AGORA”

E este ponto, em particular, preocupa Carlos Oliveira. “Formar jovens para um mercado de trabalho e para uma sociedade mais complexa e exigente, requer um sistema de ensino em que as tecnologias digitais, mais do que um objetivo, sejam um meio para potenciar uma aprendizagem e um ensino mais integrado e inovador”, explica.

E é esse, na opinião do presidente da Fundação José Neves, um dos “enormes desafios que o sistema educativo enfrenta”. As competências, diz, “fazem a diferença" e apesar da notável evolução da qualificação das gerações mais jovens, “é preciso uma nova visão para a educação do futuro”, sinaliza Carlos Oliveira, acrescentando que ”colocamos os nossos filhos cinco a seis horas diárias na escola, fechados em salas. O que funcionava muito bem há 200 anos não funciona agora".

É necessária, defende, "uma reflexão profunda sobre a educação, o que se ensina e como se ensina, o que se aprende, como se organiza o sistema", já que “o sucesso dos alunos como profissionais do futuro depende de a escola e os professores estarem à altura dos desafios atuais”.

De acordo com o relatório da Fundação José Neves, há cada vez menos professores e menos jovens a escolher a carreira docente. “Portugal é o país da União Europeia com a classe docente mais envelhecida e, apesar de o número de inscritos em licenciaturas ter aumentado 8% entre 2013/2014 e 2020/2021, a tendência na formação de professores foi a inversa, com uma queda de 18%”. Nos mestrados a redução chega a 22%.

“Esta escassez de professores não pode ser dissociada das condições de trabalho e progressão na carreira, que têm tornado a profissão pouco atrativa e resultam em elevados níveis de insatisfação profissional”, nota Carlos Oliveira.

Os dados mostram que, no ano letivo de 20/21, um em cada cinco professores portugueses (19%) era contratado - não estava ainda vinculado à carreira docente - e tinha um salário bruto abaixo dos 1500 euros, já considerando o subsídio de refeição.

Por outro lado, o salário de um professor em início de carreira era inferior ao de outros trabalhadores com formação equivalente nas áreas CTEM, da Saúde e Direito. Um fosso salarial que se agrava com o passar dos anos, devido às dificuldades de progressão na carreira.

Um estudo recente mostra que cerca de metade dos pais portugueses desencorajaria os filhos a seguirem a carreira docente. O valor é o mais elevado entre os países da União Europeia e para o presidente da Fundação José Neves, é crítico alterar esta realidade: “um sistema educativo que não consegue atrair novos professores compromete o futuro dos alunos e a competitividade do país”, realça.