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7.8.23

Salário emocional: o melhor recurso para atrair e reter talento

 Hugo Protázio, in ECO

O salário foi durante muitos anos o primeiro e principal argumento na escolha de um trabalho. Mas já não está sozinho. E aquela que era uma tendência é hoje uma certeza: a componente intangível da remuneração assume uma importância crescente e, para as empresas, deixou de ser um nice to have para ser um must have.

Os últimos três anos, muito marcados pela pandemia de Covid-19, tiveram um papel determinante na aceleração e consolidação deste que pode ser classificado como o “salário emocional”. Ou seja, o contexto acabou por fazer com que a prática, por parte das empresas, de reforçar a oferta de componentes intangíveis aos colaboradores atuais e potenciais se assumisse como mais comum e cada vez mais valorizada. Acredito que, sem a pandemia, apenas dentro de dois a três anos (dependendo, claro, do setor) teríamos o cenário que temos hoje.

A situação absolutamente incomparável que todos vivemos desde o início de 2020 levou a que as empresas se focassem em promover o bem-estar dos seus colaboradores e isso traduziu-se num aumento expressivo de estratégias para facilitar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, fomentar a flexibilidade de horários e também a escolha de regime de trabalho. São estratégias que têm um custo de quase zero para as empresas, mas um saldo muito positivo na valorização por parte dos colaboradores.

Entre as principais conclusões do relatório “Employer Brand Research 2023” da Randstad, que inquiriu 5.255 pessoas em Portugal, destaca-se que “os benefícios não materiais são considerados quase tão importantes como os benefícios materiais”: os benefícios não-materiais são (muito) importantes para 86% dos inquiridos quando escolhem um empregador em vez de outro, o que é quase tão importante como os benefícios materiais (88%), sendo uma boa relação com a direção e/ou os colegas o benefício não material mais importante (78%).

Considero que a gestão das empresas tem de ser mais humanizada, mais focada nas pessoas sem, claro, descurar as componentes mais visíveis dos negócios. Uma estratégia consolidada das empresas na oferta aos colaboradores de componentes intangíveis de remuneração traduz-se em inúmeras vantagens, mesmo que algumas não sejam imediatas. Por um lado, contribui para a melhoria daquilo que é a identificação das pessoas com as empresas, algo que se vai construindo ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, também o próprio desempenho dos colaboradores será melhor, uma vez que ficarão mais motivados e predispostos a fazer melhor o seu trabalho, a aprender e a evoluir. E, no final, os laços entre as empresas e os colaboradores sairão fortalecidos.

Entre as iniciativas que podem ser seguidas pelas empresas, e como é o nosso caso, estão o reforço de coberturas nos seguros de saúde, como a de psicologia, ou o seu direcionamento para as necessidades específicas dos colaboradores, disponibilização de diversas formações e coaching para todas as equipas, possibilidade de realização de teletrabalho, a oferta do dia de aniversário, a criação de um horário reduzido à sexta-feira (saída às 15h00), a promoção de hábitos de vida saudáveis e a organização de iniciativas que promovam o convívio das diferentes equipas, como a Festa de Natal e o “Recreacional Day”.

Mais do que o salário, é a ligação emocional às empresas que permite a retenção e a atração de talento. As empresas não podem ignorar que, em 2023, os colaboradores valorizam o percurso de carreira, a progressão e a formação que o emprego lhes pode proporcionar, o ambiente da empresa e a relação line manager. Os colaboradores atuais querem sentir que estão a desenvolver-se e a fazer um percurso dentro da empresa. E precisam disso já!

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20.2.23

Psicólogos nos cuidados de saúde primários deveriam “ser o dobro”

Patrícia Carvalho, in Público online

Estudo da Entidade Reguladora da Saúde sobre a saúde mental nos cuidados de saúde primários alerta para a necessidade de maior articulação com os serviços hospitalares.

O número de psicólogos nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) está “muito aquém” do que foi definido como o rácio ideal para o país, numa resolução de 2021 da Assembleia da República, alerta a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), no recente estudo Acesso a serviços de saúde mental nos Cuidados de Saúde Primários. Aquela resolução definia que deveria existir um psicólogo por cada cinco mil habitantes, ou seja, 20 por cada 100 mil, mas os dados compilados pela ERS, referentes a 2020, colocam a média nacional em 3,16 por cada 100 mil habitantes. O Alentejo, com 5,55 psicólogos por cada 100 mil habitantes é a região que apresenta o valor mais alto.

Apesar de o rácio ser muito baixo para o que foi estipulado pela AR, a verdade é que a evolução global, entre 2019 e 2020, representa um aumento de 184,7%, em Portugal continental. Só no Alentejo, com o valor mais elevado, o crescimento foi de 21,4%, e mesmo na área de Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, em que o rácio não ia além de 1,31 psicólogos nos CSP por cada 100 mil habitantes em 2020, este valor representa também um aumento de 21,3% quando comparado com o ano anterior.

A ERS frisa que estes dados indicam que “os CSP encontram-se aquém das metas estabelecidas, pelo que se revela importante o maior investimento neste tipo de cuidados.” Um problema para o qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) também já tinha alertado, em 2021, ao indicar que dos 529 psicólogos nos CSP, apenas 250 estavam alocados aos centros de saúde, o que, na prática, dava “menos de um profissional por concelho” - muito longe do rácio definido. “É fácil perceber a dimensão da lacuna nesta matéria”, indicava, na altura, o bastonário da OPP, Francisco Miranda Rodrigues.

Contudo, o director do Programa Nacional de Saúde Mental, Miguel Xavier, desvaloriza o rácio fixado pela AR, frisando que ele é “uma recomendação” e que “não tem natureza científica”. Ainda assim, defende que o número de psicólogos nos CSP é, de facto, muito inferior ao necessário. “O número é muito baixo e no mínimo devia duplicar. É nesta base que eu fico. Agora, não se pode duplicar de um momento para o outro”, diz.
Não basta mais profissionais

O especialista em saúde mental realça que o aumento do número de profissionais por si só não resolve o problema do acesso dos portugueses a estes cuidados, pelo que defende a criação de mais programas estruturais, nos CSP, e em articulação com os hospitais. “Não basta termos muitos profissionais se não estiver em funcionamento um modelo efectivo de manejo da ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários, e em articulação com os cuidados hospitalares. Algo que, aliás, já acontece em imensos centros de saúde, e há muito tempo. Só temos de implementar os modelos que já funcionam em Portugal há muito tempo onde ainda não existem”, refere.

E este modelo que defende é uma das razões pelas quais desvaloriza um outro alerta deixado na análise da ERS. O documento refere que apenas a ARS do Centro tem psiquiatras nos CSP, o que o regulador considera revelar “escassez ou inexistência de recursos humanos na área da psiquiatria nas unidades de CSP” e um factor “que poderá impactar no acesso aos cuidados de saúde mental”.

Miguel Xavier entende que não é assim. “Este ponto do relatório não faz sentido do ponto de vista de estratégia política. Não é necessário haver psiquiatras nos centros de saúde, é preciso é haver psiquiatras [nos hospitais] articulados com os cuidados de saúde primários. Já com os psicólogos é diferente, aí têm de existir e a tempo inteiro”, defende.

O estudo da ERS revela que em 2020 existiam cinco psiquiatras e 24 psicólogos na ARS Centro. Na ARS Norte, o número de psicólogos era 184 (o mais elevado de todos), existindo 74 em Lisboa e Vale do Tejo, 28 no Alentejo e 23 no Algarve.

Apesar destes valores absolutos, o rácio entre psicólogos e o número de habitantes era mais favorável no Alentejo, que aparece, em simultâneo, como a região com “um maior acesso a consulta de psicologia ou de saúde mental nos CSP do Serviço Nacional de Saúde, por número de utentes inscritos, nos três anos em análise [2018-2020]”, um dado que é acompanhado "por uma maior incidência de problemas de saúde mental”.

Abrangendo o ano de 2020, quando a pandemia da covid-19 se espalhou pelo mundo, o estudo da ERS refere também o impacto que esta teve no número de utentes referenciados para os cuidados hospitalares, na área da saúde mental, realçando que entre 2019 e 2020 essa referenciação em Portugal continental “diminuiu em mais de 30%”, enquanto os diagnósticos por ansiedade ou depressão aumentaram. Ao mesmo tempo, o número de consultas relacionadas com a saúde mental, nos CSP, caiu, de forma global, em mais de 14%.

Também aqui, Miguel Xavier desvaloriza a quebra referida, afirmando que, “de facto, houve uma diminuição de consultas de psicologia nos centros de saúde, mas na especialidade de psiquiatria o que se passou foi o contrário, houve um aumento”, diz.

A ERS recomenda “um reforço de articulação entre os CSP e os cuidados hospitalares na área da saúde mental” e, neste ponto, Miguel Xavier está de acordo. Mas repete que essa articulação já existe em vários locais, partindo de programas com quatro pontos - dois dos quais são pré-farmacológicos e estão ao nível dos CSP -, pelo que têm é de ser replicados.

30.9.22

“Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come”

Bárbara Wong, in Público on-line

ldar Shafir, professor de ciências comportamentais e de políticas públicas, que se sentou na Casa Branca e foi ouvido por Barack Obama, vai estar no congresso da Ordem dos Psicólogos, em Aveiro, para falar de pobreza e escassez.

Como podem os psicólogos ajudar no combate à pobreza? A pergunta é feita pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) que começa esta quarta-feira o seu 5.º congresso, em Aveiro. O tema é “Tempo da Psicologia” e uma das 500 comunicações será a de Eldar Shafir, professor da Universidade de Princeton, EUA, sobre pobreza e escassez mental. Recentemente, a OPP lançou a campanha .Final à Pobreza (que se lê: “ponto final à pobreza"), onde reflecte sobre o papel dos psicólogos no combate à pobreza, uma vez que esta pode ser causa ou consequência de dificuldades e problemas de saúde psicológica.

Eldar Shafir, investigador na área das ciências comportamentais e de políticas públicas, que se sentou na Casa Branca e foi ouvido por Barack Obama, publicou A Tirania da Escassez: Porque é que tão pouco significa tanto!, em co-autoria com Sendhil Mullainathan, da Universidade de Chicago, onde defendem que quanto menos se tem, mais catastrófica pode ser a vida da pessoa. Recorrendo a inúmeros estudos, os autores concluem que o que está em falta na vida de uma pessoa ganha uma importância de tal maneira desproporcionada que tudo o resto deixa de ser relevante, acabando por o indivíduo afunilar a perspectiva, deixando de conseguir planear, educar os filhos ou concentrar-se no trabalho.

Os estudos apontam que as capacidades cognitivas são de tal modo impactadas que isso se reflecte nos testes de QI. É uma pescadinha de rabo na boca: os pobres ficam mais pobres e geram filhos pobres. Para a revista Foreign Policy, em 2013, os dois investigadores norte-americanos foram incluídos na lista dos 100 principais pensadores globais. Não é a primeira vez que Eldar Shafir vem a Portugal e está a aprender português na universidade, conta via Zoom. Com tanta formação e bons professores, seria um desperdício não aproveitar, argumenta. Sobre o seu trabalho como consultor durante a administração Obama, defende que é mais fácil fazer diferença a nível local do que nacional.

A Tirania da Escassez: Porque é que tão pouco significa tanto!

Autores: Eldar Shafir e Sendhil Mullainathan
Editor: Lua de Papel 320 págs., 11,62€


Escreveu A Tirania da Escassez há quase uma década. O mundo mudou, por exemplo, estamos a viver a guerra na Ucrânia, que nos afecta directamente, bem como as alterações climáticas. A teoria continua a fazer sentido?
Bem, não fizemos estudos recentemente, mas em geral, todos temos problemas com os filhos, os companheiros, a saúde, o Putin, as questões ambientais... Mas o que descobrimos é que, em momentos de escassez intensa, se o problema for demasiado grande, toma conta da nossa mente. Sim, a guerra é um problema, mas consigo estar mais de uma hora sem pensar no Putin; agora, se não conseguir pagar a renda ou comprar comida para os meus filhos, esse problema fica na minha mente e incomoda-me em permanência.

Porquê?
Porque não conseguimos parar de pensar. Um dos problemas com a questão ambiental não parecer tão urgente, é que conseguimos deixar para depois. Mas se estivermos em risco de ser despejados de casa, não conseguimos deixar para depois.

No livro usa a metáfora da mala de viagem. Quando temos uma mala maior, a vida é mais fácil porque não estamos obrigados a fazer escolhas. Não é um desafio mais interessante, quando a mala é pequena, em que somos obrigados a seleccionar?
Há muitos estudos que mostram que quem tem a mala pequena não se sai mal. Por exemplo, quando se pede, à porta do supermercado para as pessoas revelarem os gastos que fizeram, os mais pobres sabem exactamente o que pagaram por cada artigo, enquanto os ricos não fazem ideia. Portanto, sim, quem tem a mala pequena sabe gerir melhor, o único problema é que enquanto se está a fazer essa gestão, não se pensa noutras questões. Paradoxalmente, enquanto se estão a gerir recursos escassos, podemos esquecer-nos de pagar o estacionamento e seremos penalizados por isso, o que tornará a mala ainda mais apertada.

A escassez acaba por influenciar fortemente a forma como gerimos a nossa vida e tomamos decisões?
Quando os recursos são escassos — podemos falar de falta de tempo, de dinheiro ou da solidão —, a evidência mostra que quando a nossa mente está focada nas questões que nos preocupam, tudo o resto é negligenciado. As nossas capacidades são limitadas, não conseguimos fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e quando nos focamos nas nossas insuficiências, as outras coisas não importam. No entanto, podem gerar problemas para os quais não estamos despertos porque não estamos focados.

No livro referem que a pobreza, de tempo ou de dinheiro, pode fazer de nós piores pais. Porquê?
Fazemos referência a um estudo feito com controladores aéreos e percebemos que quando o dia de trabalho lhes corre bem são melhores pais e companheiros. Portanto, quando estamos a gerir a escassez, quando estamos assoberbados, somos menos atenciosos, menos pacientes, menos consistentes.

Isso acontece a ricos e pobres.
O que é interessante é que a escassez não tem a ver só com pobreza económica, mas com o facto de pormos as pessoas em contextos de pobreza. Nestes estudos, mostramos que pessoas que eram muito capazes tornaram-se menos competentes quando a escassez se impõe nas suas vidas. Existe um longo debate nas ciências sociais: as pessoas são menos capazes por serem pobres ou são pobres porque são menos capazes? Muita gente, sobretudo no espectro mais à direita, tende a defender que a razão por que se é pobre é porque se é irresponsável. E os nossos estudos demonstram que a pessoa se torna irresponsável quando é pobre porque começa a fazer malabarismos e a gerir mal as suas opções.

Por vezes, temos o preconceito que as pessoas pobres fazem más opções. Por exemplo, porquê comer um bife de vaca se um de frango é mais barato?
Antes de mais, existe falta de empatia e de compreensão para com o outro. Por exemplo, na fila do supermercado, uma criança pobre pede à mãe para comprar um chocolate e ela anui. Alguém na fila vai pensar que é uma má decisão. Mas, quantas vezes disse aquela mãe que não ao seu filho? Umas 275 vezes. Queremos que aquela criança nunca experimente um chocolate? O que é correcto: comer uma vez, duas vezes por ano? Portanto, a pergunta parece ser: como se deve comportar o pobre para nos deixar satisfeitos? É-lhe permitido comer bife quando? Se para nós, o mais correcto é os mais pobres viverem uma vida muito infeliz então isso não é justo.

Mas, tal como os ricos, também tomam decisões erradas?
Claro que erram e fazem más escolhas. Tal como os ricos, só que a estes ninguém os apanha nem os julga porque é-lhes permitido errar.

Estes fazem más escolhas como viagens ao espaço?
Sim, ir ao espaço é exótico, são rapazes a brincar com brinquedos de luxo. Mas fazemos escolhas estúpidas a toda a hora e são-nos permitidas, ao passo que o mesmo não acontece com a mãe que compra o chocolate. Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come, mas não com quem compra umas sapatilhas de 6000 dólares. Envergonha-nos a nós e não aos pobres.

Voltando atrás, à pergunta que as ciências sociais colocam: os que sofrem de escassez são menos capazes por serem pobres ou são pobres porque são menos capazes?
Todos os dados mostram que se dermos condições às pessoas para fazerem melhor, elas fazem-no. Há uma imagem muito forte nos EUA que é a “rainha da assistência social”, é aquela pessoa que sabe tirar partido dos subsídios e benefícios do Estado, sentada em casa, a ver televisão e a rir-se da sociedade. É uma imagem que não corresponde à verdade porque todos os estudos mostram que essas situações são raras. Se dermos um trabalho digno e bem pago, a maioria das pessoas prefere trabalhar a ficar em casa a ver maus programas televisivos. Trata-se de um estereótipo muitíssimo enganador.

Sobre a escassez, que mensagem transmitir aos políticos e aos empresários, estes deviam saber mais sobre psicologia comportamental?
Sem dúvida. Muita investigação na área da psicologia comportamental observa o modo como as pessoas funcionam e, frequentemente não é como pensamos. Se não conhecermos o outro e o que o motiva, as políticas não vão ser adequadas. E há uma lista infinita de más políticas...

O que é uma boa política?
É uma baseada em assunções que sejam verdadeiras sobre as pessoas — o que querem? O que as preocupa? Há um estudo sobre pessoas que tinham de ir a tribunal, em Nova Iorque, por causa de infracções menores, como multas por andar de bicicleta no passeio ou atravessar com sinal vermelho, por exemplo. A maioria falhava na comparência em tribunal e acabava por ser presa. As pessoas esqueciam-se de ir a tribunal por terem vidas complicadas. O estudo consistia em enviar lembretes às pessoas para irem a tribunal e isso levou a uma diminuição drástica das condenações porque as pessoas compareciam. Portanto, a não ser que o legislador seja mesmo mal-intencionado, há pequenas medidas que podem facilitar a vida dos cidadãos.

É possível erradicar a pobreza?
É possível reduzi-la enormemente. Há governos, incluindo o de Portugal, que são mais sensíveis que o dos EUA. O ano passado, por causa da covid, foi introduzido um subsídio para famílias com crianças pequenas e a pobreza infantil diminuiu de um dia para o outro. Tão fácil. Mas, um ano depois, esse benefício foi suspenso. Transferir os impostos sobre os mais ricos para os pobres é outra medida que solucionaria muitos problemas.

E as pessoas seriam mais saudáveis e mais felizes?
Sem dúvida. Eu estou a falar a partir de um país onde não existe assistência médica gratuita e há estudos que mostram que a desigualdade torna as pessoas, — todas e não apenas as mais pobres —, menos felizes. Portanto, é importante para toda a sociedade que sejam introduzidas políticas que promovam a igualdade.

A escassez pode levar a problemas de saúde mental?
Sem dúvida, se a pessoa está sob pressão e em escassez, isso leva a que esteja sob um enorme stress. A juntar a isso, normalmente, estas pessoas vivem em piores condições, em sítios com mais barulho, mais poluição, mais crime, é tudo mau. A pobreza não é justa.

24.2.22

Inês Chaíça, in Público on-line

Um quarto dos psicólogos tem sinais de burnout – mas 87% arranjaram estratégias para fazer frente à pandemia

Não é “um número animador”, mas está em linha com o que acontece noutras áreas profissionais. Quase 87% dos psicólogos disse utilizar estratégias para a promoção da sua saúde e qualidade de vida: estar com amigos e família, dormir bem e “manter uma atitude positiva no trabalho” foram as mais citadas.

Quase um quarto dos psicólogos portugueses mostra algum sinal de burnout e são as mulheres, com idades entre os 35 e os 44 anos, que viram o seu volume de trabalho aumentar com a pandemia que relatam mais estes sintomas. As conclusões constam de um estudo sobre a saúde mental destes profissionais, publicado esta quinta-feira pela Ordem dos Psicólogos.

O estudo contou com a resposta de 1759 participantes, na maioria mulheres (89%), com idades compreendidas entre os 24 e os 76 anos, da área da psicologia clínica, mas não só. As respostas ao inquérito online foram anónimas e revelam que mais de metade (57%) dos psicólogos ouvidos indicam que o volume de trabalho aumentou desde o início da pandemia.

O aumento da procura de cuidados de saúde mental, os casos mais graves que lhes chegavam, as longas horas de trabalho foram alguns dos factores negativos que a pandemia trouxe, de acordo com os participantes: “Com a pandemia, houve desrespeito pelos colaboradores em termos de horários e número de horas, com turnos de dez horas durante sete dias e sete dias seguintes de descanso, o que se transmitiu em exaustão física e mental”, refere um dos profissionais que respondeu ao inquérito. Outro refere que recorreu a “antidepressivos e ansiolíticos pela primeira vez”.

Ana Virgolino, autora do estudo ouvida pelo PÚBLICO, considera que ter um quarto dos psicólogos com sintomas de burnout (síndrome do esgotamento profissional) não é um “número animador”, mas afirma que está em linha com um estudo feito a nível nacional pelo Insa - Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge​, no qual também participou, sobre a saúde mental dos portugueses, em que 25% da população geral e 32% dos profissionais de saúde apresentavam sintomas de burnout. “Avaliámos profissionais de várias áreas e a percentagem era similar”, conclui a investigadora.

Mesmo que não tenham chegado ao burnout, a pandemia teve um impacto no bem-estar destes profissionais: 40% revelaram que o seu bem-estar piorou e pelo menos 21% estão numa situação de sofrimento mental. Também foram as mulheres e jovens (isto é, com menos de 35 anos de idade), “com uma situação financeira difícil e que aumentaram bastante o volume de trabalho em contexto de pandemia” que mostraram estar numa situação de maior risco, de acordo com o estudo.

A autora destaca que esta informação também “vai ao encontro a outros estudos do tempo de pandemia: as mulheres e as populações mais jovens são mais vulneráveis” aos seus efeitos negativos. No futuro, será importante que se faça “de forma regular” uma monitorização destes indicadores da saúde mental.

Entre os psicólogos ouvidos, há quem revele que “há muitos colegas que demonstram não estar bem para desempenhar as suas funções, mas só porque são psicólogos acham ou não se permitem reconhecer que precisam de ajuda”. Há também quem sugira a disponibilização de “psicólogos a custo reduzido para realizar psicoterapia a outros psicólogos”.

“As condições profissionais mantiveram-se e os pedidos de apoio aumentaram, com situações mais complexas. O cansaço prévio acumulou-se, o isolamento manteve-se e a disponibilidade das chefias reduziu-se, o que desencadeou esta sobrecarga sem resposta adequada das instituições. Temos de ser nós, como indivíduos, e não como profissionais, a tentar reequilibrarmo-nos”, revela um dos psicólogos citados no estudo.
Dormir bem e estar com amigos: os autocuidados dos psicólogos

Quase 87% dos psicólogos disse utilizar estratégias para a promoção da sua saúde e qualidade de vida. O que fazem os psicólogos para cuidar da sua saúde mental? Passar tempo com amigos e família, dormir bem, apesar “do aumento do volume de trabalho”, e manter uma atitude positiva no trabalho foram as respostas mais citadas. A autora do estudo realça este último ponto porque, “apesar da insatisfação, a verdade é que ‘dá o clique’ e pensamos que isto está a acontecer com muita gente, não é só nesta profissão”.

Menos citadas foram estratégias como o envolvimento em organizações profissionais, actividades religiosas e voluntariado.

Nem tudo são relatos negativos. Uma psicóloga, que diz trabalhar “em part-time em gestão de recursos humanos”, afirmou que durante a pandemia teve tempo para conciliar todos os aspectos da sua vida — e não são poucos. “Sou católica praticante, sei tocar vários instrumentos, caminho e pratico ginástica em grupo, pertenço a coros e grupos de dança. Faço voluntariado em diversas áreas. Procuro estar atenta aos sinais. Não culpabilizo pessoas ou organizações por algum mal que me aconteça, faço o que está ao meu alcance para viver com bem-estar, com sentido de responsabilidade”, refere.

Outra psicóloga afirma que, ainda que “há uns meses pudesse preencher todos os requisitos de diagnóstico de burnout”, encontrou formas de autocuidado no “apoio familiar, amigos, formação contínua” na própria “capacidade de resiliência”.
A vida online

Já antes da pandemia se falava na telepsicologia – uma prática que nunca chegou a ser popular em Portugal, a avaliar pelos 52% de inquiridos que nunca tinham realizado intervenções psicológicas à distância antes –, mas a covid-19 tornou-a urgente. “O aumento do recurso da intervenção psicológica à distância, com videoconferência ou telefone, e não apenas de intervenção clínica, porque abrangemos as várias especialidades, foi ao encontro do que estávamos à espera”, avalia Ana Virgolino.

O consultório passou a ser online e as formações aconteceram à distância mas nem todos se mostraram satisfeitos com a solução. Apesar de quase metade dos inquiridos ter considerado que foi fácil ou muito fácil fazer a transição para o online, mais de metade (68%) continuam a preferir a intervenção presencial. “Nada substitui o contacto presencial seja qual for o método de intervenção”, responde um psicólogo. “Acho que a necessidade que se tem verificado durante a pandemia tem estado a servir para implementação deste método online como alternativo no futuro, quando deverá ser apenas um recurso ocasional.”

Contudo, apesar de não ser o método preferido, 58% não descartam voltar a usar este tipo de soluções caso se revelem necessárias. Neste capítulo, um psicólogo diz que sente que a adaptação dependeu mais do cliente e que, “considerando que a alternativa actualmente é fazer consulta presencial com máscara”, prefere “fazer online” porque sente que “a máscara prejudica mais do que a distância”.

11.8.21

É normal sentirmo-nos felizes e tristes ao mesmo tempo. Quando é que nos devemos preocupar?

Galadriel Watson/The Washington Post, in Público on-line

O neurocientista António Damásio garante que a ambivalência pode ser positiva em termos de evolução e faz com que faz com “seja mais provável ter cuidado quando se toma uma decisão”.

Quando o meu filho foi para a universidade, senti-me, ao mesmo tempo, eufórica por ele e triste porque deixaria a nossa casa. Quando sou convidada para um jantar, fico feliz por terem pensado em mim, mas também preferiria ficar por casa, no sofá. Quando às vezes deixo a máscara na minha mala, aproveito a liberdade, mas preocupo-me com a minha saúde.

Lutar com dois sentimentos opostos, de uma só vez, é chamado de ambivalência. É um sentimento normal da condição humana, mas, por vezes, tais conflitos internos podem ser pouco saudáveis. Falei com três especialistas para perceber mais sobre este fenómeno.

Ambivalência significa “sentir-se tanto bem como mal”, disse-me o professor de psicologia da Universidade do Tennessee, em Knoxville, EUA, Jeff Larsen. Sentir-se agridoce ou nostálgico é comum nessa ambivalência. “Pense como se poderá sentir quando está no topo de uma montanha-russa: entusiasmada, mas também aterrorizada”, ilustra o docente.

Mas não é preciso estar num parque de diversões. Os acontecimentos do quotidiano podem despertar este estado, e Larsen descobriu que “finais importantes” também têm o mesmo efeito. Os estudantes universitários, por exemplo, provavelmente passarão o dia da sua formatura a reviver os bons tempos dos últimos anos. Num estudo levado a cabo pelo investigador, a publicar em breve, os finalistas revelaram que, naquele dia, sentiram felicidade, mas também tristeza. “Sentimo-nos tristes quando experienciamos uma perda irreversível”, explica o investigador.

A capacidade de experienciar dois sentimentos contraditórios, de uma vez, tem benefícios em termos de evolução, assegura o director do Instituto do Cérebro e da Criatividade da Universidade do Sul da Califórnia, o neurocientista português António Damásio. “Os animais que só têm sentimentos positivos ou negativos são muito limitados, porque as coisas são ou preto ou branco”, explica o autor de Sentir & Saber – A Caminho da Consciência, acrescentando que os humanos têm “a possibilidade de ver nuances”.

Estas nuances podem ajudar a tomar boas decisões. Se um animal se aproximar de um curso de água, sem considerar o resultado dessa acção, poderá ser comido por outro. Quanto aos humanos, imagine que conhece alguém com quem até simpatiza, mas que essa pessoa lhe passa vibrações estranhas e que esse indivíduo se propõe a tratar das suas finanças, a ambivalência faz com “seja mais provável ter cuidado quando vai tomar decisão e pensar duas vezes”, reconhece António Damásio.

Também ajuda a aprender com os erros do passado. David Newman ─ um estudante de doutoramento no departamento de psiquiatria e ciências do comportamento na Universidade de São Francisco, na Califórnia ─ dá o seguinte exemplo: “Se se sentir nostálgico sobre alguma relação do passado, talvez seja bom não olhar apenas pela positiva, mas também lembrar-se das coisas negativas, para não repetir os mesmos erros.”
Quando é que a ambivalência é um problema?

Nos séculos XVIII e XIX, a nostalgia era considerada uma patologia psiquiátrica. Ser demasiado agarrado ao passado era sinónimo de alguém que não se conseguia adaptar ao presente ─ o que, no limite, poderia levar à morte. Embora a nostalgia já não seja classificada de tal forma, António Damásio diz que as emoções negativas, de qualquer tipo, podem causar danos na nossa saúde física. À medida que evoluem, causam reacções químicas que, por exemplo, podem resultar no aumento da pressão arterial, estreitamento dos vasos sanguíneos e mudanças no ritmo cardíacos. Estes sintomas levam a doenças no sistema circulatório e no coração.

A saúde mental também sofre. A ambivalência prolongada tem sido associada ao stress pós-traumático, perturbações obsessivo-compulsivas, depressão e dependência. “As pessoas tendem a ficar muito tristes quando sentem nostalgia”, observa David Newman. Ao comparar o presente com um passado idealizado, explica, “estar-se-á sempre chateado e a sentir-se insatisfeito”.

O sentimento leva a que congelemos, seja a decidir comprar um carro ou a terminar uma relação. A “perspectiva de analisar os prós e contras pode tornar difícil a tomada de decisão”, assegura Jeff Larsen. “Nesses casos a ambivalência pode paralisar-nos”, lamenta o professor universitário.

Há pessoas que se sentem mais nostálgicas do que outras? O trabalho desenvolvido por David Newman concluiu que as pessoas neuróticas ou que tentam evitar sentimentos negativos têm mais probabilidade de sentir nostalgia: tendem a achar sempre o presente desagradável e passam mais tempo a idealizar o passado.

Quanto à ambivalência em geral ─ não só a nostalgia ─ as pessoas que estão mais abertas a novas experiências tendem a sentir mais emoções variadas. “Se está sempre à procura da mesma coisa, provavelmente estará a perder as coisas que o fazem feliz”, avisa Jeff Larsen. Se gosta de experimentar coisas novas, pode viver a diversão que está à espera, mas também poderá deparar-se com aspectos menos bons, que não eram esperados ─ levando a sentimentos contraditórios.

António Damásio acrescenta: “Há pessoas que são extremamente joviais e confiantes no futuro e estão numa espécie de estado de permanente felicidade; e as que são mais cautelosas tendem a estar sempre a encontrar algo de negativo nos acontecimentos do dia-a-dia”. Estas últimas são quem poderá experienciar mais ambivalência prejudicial à saúde.

Que soluções de cura existem?

Uma maneira simples para viver de uma forma equilibrada, com menos emoções confusas, é manter um diário de gratidão. Ter este hábito, sugere Newman, força a pessoa a focar-se no lado positivo das coisas, e aumenta o seu bem-estar.

A terapia também pode ajudar. Ao aprender várias ferramentas ─ para aumentar o mindfulness, por exemplo, ou aumentar a capacidade de suportar a angústia ─ quem faz terapia comportamental “encontra uma forma de tolerar e conviver, lado a lado, com experiências e realidades que parecem incongruentes”, destaca a psicóloga Sarah Mintz, do grupo Wake Kendall, em Washington. A terapia permite que se “afastem dos extremos e aceitem a confusão”, garante.

Mesmo sem o apoio de um terapeuta, as pessoas podem experimentar fazer exercícios de respiração, tal como “prolongar as pausas entre o inspirar e o expirar”, sugere a especialista. Outras vezes, a solução pode ser tão simples quanto aceitar os sentimentos contraditórios e deixá-los seguir o seu rumo. “Frequentemente, as emoções miscigenadas resolvem-se, e fica-se a sentir apenas uma ou outra”, concorda Jeff Larsen.

Além disso, é importante lembrar que sentirmo-nos triste ou assustados pode ajudar-nos. Tal como os animais junto ao curso de água que precisam analisar o que é seguro, os humanos também podem beneficiar dos sentimentos contraditórios causados pela ambivalência. Larsen conclui: “O mundo é um lugar complexo e nós podemos simplificá-lo com o perigo.”

9.8.21

Pedidos de ajuda ao INEM por situações de saúde mental aumentaram 24%

in Público on-line

Houve também uma subida nos contactos por parte das faixas etárias mais novas.

O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) registou um aumento de ocorrências nos primeiros sete meses de 2021, em comparação com 2020, e os casos de saúde mental cresceram nas chamadas, avançou este domingo o Jornal de Notícias (JN). Durante a pandemia, houve também um aumento nos pedidos de ajuda por parte das faixas etárias mais novas, que manifestaram dificuldade em gerir emoções e controlar a agressividade.

Entre Janeiro e Julho deste ano, o INEM registou um aumento de 24% nas ocorrências do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC). Além disso, houve também um aumento de 7,2% nos problemas psiquiátricos e suicídios.


Médicos e especialistas já tinham alertado para a crise da saúde mental há vários meses, chamando a atenção de que os pedidos de ajuda psicológica e psiquiátrica iriam aumentar à medida que a pandemia de covid-19 avançasse.


Entre Abril e Junho deste ano, as ocorrências relacionadas com crises de ansiedade aumentaram em mais de metade (55%), e as relacionadas com perda de controlo emocional subiram 19%, revelou ao JN Sónia Cunha, responsável do CAPIC. Citada pelo jornal, referiu que, desde que a pandemia se instalou, os meses não foram todos iguais, reflectindo antes “a evolução da covid-19, as diferentes fases e as respostas exigidas à comunidade para conter” o vírus.

Muitas vezes são os pais a contactar em primeiro lugar os serviços de apoio e a manifestar incapacidade de lidar com a agressividade ou o incumprimento de regras por parte dos mais novos.

Mas também há casos em que são mesmo os próprios a pedir ajuda. Os dados do CAPIC dão conta de um número crescente de chamadas por parte dos mais novos devido a problemas provocados pela pandemia. “Temos percebido, sobretudo nos mais jovens, um aumento significativo de perturbação ao nível da saúde mental”, afirmou ao JN a psicóloga do INEM. Na faixa etária entre os dez e os 15 anos, foi registada uma variação positiva de cerca de 125% de Abril a Junho deste ano. A percentagem baixa entre os cinco e os nove anos, mas é ainda assim considerável: um aumento de 83% face a igual período de 2020.

“Têm dificuldade em gerir as emoções, controlar os impulsos e falar com os adultos sobre isso. Percebem que estão em risco”, disse Sónia Cunha, destacando ainda a existência de “sintomatologia do foro psicótico”, com uma “desorganização mental mais severa”.

Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal


SOS Voz Amiga


Lisboa
Das 16h às 24h
213 544 545 - 912 802 669 - 963 524 660

Linha Verde gratuita - 800 209 899 (Entre as 21h e as 24h)

Conversa Amiga
Inatel
Das 15h às 22h
808 237 327
210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal
Voades-Portugal
Das 16h às 22h
222 030 707

Telefone da Amizade
Porto - Desde 1982
Das 16h às 23h
228 323 535

Voz de Apoio
Porto
Das 21h às 24h
225 506 070

Todas estas linhas são de duplo anonimato — garantido tanto a quem liga como a quem atende. Para encaminhamento, a linha do SNS24 (808 24 24 24) é assumida por profissionais de saúde.

Só a linha SOS Criança, um serviço gratuito e confidencial do IAC em que os menores podem falar várias vezes com uma equipa de psicólogos, recebeu 2217 apelos em 2020, embora nem todos relacionados com saúde mental.

3.3.21

Pandemia pode potenciar grupos de risco futuro em termos de saúde mental

in Público on-line

Psiquiatra destaca que doentes que estiveram internados com covid-19, idosos, pessoas que testemunharam a morte de familiares e até profissionais de saúde poderão ter um risco futuro em termos de saúde mental.

O psiquiatra Ricardo Gusmão afirmou que na sequência da pandemia pode haver grupos de risco futuro em termos de saúde mental afectada, nomeadamente doentes que estiveram internados, idosos, pessoas que testemunharam a morte de familiares e até profissionais de saúde.

“As pessoas que perderam e testemunharam a morte, os familiares das pessoas que estiveram doentes e passaram mal ou morreram, são um grupo que têm de facto um aumento de risco para luto e o luto muitas vezes complica-se e dá doença depressiva e stresse pós-traumático”, disse o investigador do Instituto de Saúde Pública do Porto em entrevista à agência Lusa, a propósito de um ano de pandemia.

O mesmo se aplica aos profissionais de saúde que estão na linha da frente e a sobreviventes que estiveram nos cuidados intensivos. Nestes últimos, “por via da idade e estados de grande fragilidade física”, a doença covid-19 e o tratamento impactou negativamente o cérebro, produzindo um estado confusional e afectando as probabilidades de sobrevida.

Para Ricardo Gusmão, esta crise também veio levantar outras questões, nomeadamente a forma como o país tem vindo a lidar com os seus idosos, nomeadamente os que estão nos lares, que recentemente “têm sofrido imenso” devido à diminuição de contactos sociais e pobreza de estímulos que têm um efeito prejudicial no cérebro, ficando este mais propenso ao desenvolvimento de demência.

A outra questão, apontou, é que “a pandemia acabou por nos confrontar com a morte e acabou por nos fazer reflectir enquanto sociedade como é que estamos a gerir esta questão essencial da vida”.

“Temos de ter a noção de que houve períodos em que a mortalidade diária dobrou, se calhar, até mais do que dobrou” e “já havia muito luto quando morriam 300, 350 pessoas por dia”, disse, alertando que o facto dos familiares não se poderem despedir dignamente dos que morrem “é um factor de luto patológico importante”. Segundo o psiquiatra, o luto patológico é maior quando a morte é súbita e por causas um pouco inesperadas e a pessoa não pode despedir-se da pessoa que morre.

“Portanto, é de esperar mais processos de luto e isso vai dar em mais processos de luto complicado e, portanto, mais perturbações depressivas”, vincou.

No entanto, salientou, “não acho que seja caso para se falar em crise de saúde mental ou em nada parecido, a crise de saúde mental já existe há muito tempo. A questão é que a pandemia veio dar-lhe mais visibilidade”.

Mas a pandemia também trouxe “aspectos positivos”, nomeadamente colocar as questões relativas à saúde mental na ordem do dia, junto da população e da classe política”.


“Hoje em dia quando se mencionam questões relacionadas com a saúde e a doença mental, quero acreditar que as mensagens já não caem tanto em saco roto e que vão ao encontro das preocupações e dúvidas das pessoas”, mas também tem “um lado menos positivo pois na realidade pode alimentar um pouco a confusão que já existia antes entre saúde mental, sofrimento mental e doença mental”.

Ricardo Gusmão explicou que “uma coisa é viver afectado por uma doença mental e outra coisa é apresentar dificuldades de bem-estar e qualidade de vida, eventualmente uma saúde mental menos positiva e sofrimento mental de baixo grau e episódico, que são duas coisas completamente diferentes porque a primeira precisa sempre de tratamento”.

Outro aspecto positivo é que a investigação na área aumentou muito, só que mais uma vez actualmente apenas focada na covid-19, lamentou.

No seu entender, também se avalia pouco os aspectos positivos da pandemia, principalmente durante o primeiro confinamento: “Para muitas pessoas, ao não terem que responder perante terceiros, não terem que responder perante elas próprias e as suas expectativas, inclusive terem podido não estar sujeitas a tantos estímulos ambientais e sociais, isso correspondeu a uma melhoria na sua qualidade de vida”.

Por outro lado, pessoas com problemas obsessivo-compulsivos ou aditivos tiveram “mais dificuldades com o confinamento porque passaram a comer mais, beber mais, ficaram mais obsessivas com as questões da limpeza, mais preocupadas com o medo da contaminação”, salientou.

“O que nós retiramos [da pandemia] é que aparentemente as pessoas com patologia grave mantiveram mais ou menos a continuidade de cuidados e as com patologia menos grave, mas que também estarão a ser afectadas pela pandemia de alguma forma, mantiveram-se mais de fora da rede de prestação de cuidados.”

Ricardo Gusmão manifestou o desejo de que a consequência da pandemia fosse apostar na “prevenção das doenças mentais ou que, pelo menos, a prevenção precoce destas doenças pudesse ficar na ordem do dia”.

12.2.21

Confinamentos afectam a saúde física e mental de crianças e jovens. São precisas mil e uma estratégias para compensar

Maria João Lopes, in Público on-line

Da saúde física à mental, passando por questões de socialização e de aprendizagem, são vários os desafios que períodos de confinamento, sem escolas abertas, colocam a pais com crianças e adolescentes em casa. As soluções para um problema que consideram “complexo” nem sempre serão simples de pôr em prática, tudo é “desafiante”. Ainda assim, poderão implicar tentar ter algum tempo para eles, ter atenção a sinais de irritação, desafiá-los a fazer exercício, e promover actividades em conjunto, seja brincar, pintar, ver um filme, uma série ou dançar.

O cenário repete-se: confinamento, creches e escolas fechadas, crianças enfiadas em casa todo o dia, muitas em apartamentos, pais tensos, em teletrabalho e sem disponibilidade para dar a atenção necessária. Pode haver mais agitação, mais birras. Adolescentes isolados no quarto. Muito tempo em frente aos ecrãs. Os problemas que crianças e adolescentes (e pais) enfrentam em mais um período de restrições apertadas, imposto pela pandemia provocada pelo SARS-CoV-2, são conhecidos de muitas famílias e o desafio para superá-los é grande.

O psicólogo Eduardo Sá alerta: “Não vale a pena ter a ideia de que as crianças passam por isto sem se molharem.” Ainda assim, o psiquiatra Diogo Guerreiro deixa uma mensagem de esperança: “Acredito que possa ser tudo recuperável.”

Diogo Guerreiro, médico psiquiatra, doutorado na área da saúde mental na adolescência, considera “complexo” enumerar os impactos que períodos de confinamento como este podem ter na saúde mental e física de crianças e jovens: “A nível de saúde física, é óbvio que temos, nesta fase, vários problemas. Uma parte do desenvolvimento psicomotor, que deviam estar fazer na escola, na Educação Física, nos desportos, no ballet, no basquetebol, ficou ausente. Temos uma série de miúdos fechados em casa, a maioria provavelmente sem jardins e espaços exteriores. Temos aí um obstáculo ao desenvolvimento físico deles e estamos apenas nesta parte específica. Os miúdos devem estar a brincar e a saltar, e isso acaba sempre por afectar o desenvolvimento físico e psicológico do cérebro”, começa por explicar.

Mas estes períodos de confinamento também afectam “a vertente psicossocial” – “a maturação, a maturidade”, a forma “como lidam com o stress, a rotina” – e a “socialização”. Como? “O nosso desenvolvimento enquanto seres humanos é feito através da forma como socializamos uns com os outros, nos adolescentes é fundamental a relação com professores e outros colegas. Estes confinamentos põem uma série de crianças e jovens em risco. Não quer dizer que não possa ser recuperado e minimizado. E que, tendo em conta estas limitações que vivemos, não se possa contornar.”

Para isso, Diogo Guerreiro deixa alguns conselhos: “Os jovens devem manter a sua rotina, dentro do possível. Se o pai tem um filho pequeno em casa, talvez não seja boa ideia estar todo o dia em frente à consola ou à televisão. Manter alguma actividade física, mesmo que seja em casa, mesmo que seja através do YouTube, fazer um passeio higiénico. Tentar incentivar miúdos que estão em casa a manter o contacto com os outros por via tecnológica, para que conversem uns com os outros, até mesmo quando estão a jogar nas consolas, o que retira um certo ónus negativo ao tempo que passam nas consolas.”

Será, porém, inevitável que passem mais tempo de olhos nos ecrãs: “Nestes confinamentos, claro que os miúdos vão estar mais tempo em frente aos ecrãs. Mas estamos um bocadinho preocupados, na psiquiatria, com eventuais adições, vícios, a videojogos e redes sociais.” O que fazer, então? “Temos de cumprir o nosso papel de pais, mesmo nestas condições adversas, e limitar um pouco o tempo que passam em frente aos ecrãs, conversar com eles sobre isso. Proibir não faz sentido, mas criar regras adaptadas à idade. Nesta fase, mais do que nunca, a comunicação entre a família é essencial”, diz o psiquiatra.

Neste cenário, há um grupo, o dos filhos únicos, que o psiquiatra admite poder sentir-se ainda mais isolado: “Os filhos únicos estão mais isolados. Especialmente se forem irmãos de idades parecidas, acompanham-se muito mais. Esta parte da socialização, mesmo sendo diferente, está mais preservada. No caso dos filhos únicos, podem realmente sentir-se muito mais solitários e a solidão faz muito mal ao nosso funcionamento e ao nosso cérebro. A sensação de solidão está mais associada a quadros depressivos, mas podemos estar sós e não nos sentirmos sozinhos”, diz Diogo Guerreiro, salientando novamente ser “importante” que os pais promovam “algum tempo com amigos por videochamadas” e falarem “com os filhos”.
“Miúdos têm muito mais neuroplasticidade”

Claro que os miúdos de idades mais novas “têm uma capacidade de atenção muito mais reduzida do que os mais velhos”, sendo, por isso, mais difícil usar a tecnologia para estabelecer grandes contactos: “Em idades mais novas, é mais difícil. Com três, quatro anos, ainda ligam pouco a videochamadas. Por outro lado, a principal fonte de bem-estar nestas idades é as famílias, a principal coisa é as famílias tomarem conta deles”.

O psiquiatra deixa como conselho aos pais que “se cuidem, estejam bem e tirem um pouco para brincar com eles, fazer pinturas e desenhos”, já que “as videochamadas não funcionam muito bem até ao primeiro ciclo”. Outro conselho “é estarem disponíveis para todas as perguntas das crianças, respondendo o mais honestamente possível e adaptado à idade”. Devem ainda ficar alerta para um eventual aumento de birras, irritação, e dificuldade em dormir à noite.

Apesar de todos os problemas identificados, é possível uma mensagem de esperança: “Acredito que possa ser tudo recuperável. E que será uma altura passageira, e os miúdos têm muito mais neuroplasticidade, acredito que poderá ser reversível, mas poderá haver alguns atrasos, na motricidade, socialização, alguns atrasos, sim, mas não irreversíveis, serão recuperáveis”, diz Diogo Guerreiro, alertando, porém, que os pais precisam “de ter algum tempo” para os filhos e que "não é realista pensar” que “podem estar em teletrabalho e dar” esse apoio, havendo idades em que precisam de atenção quase permanente e para várias tarefas.

Para este psiquiatra, é difícil dizer em que idades isto que se está a viver poderá deixar mais marcas: “Ainda não sabemos, nunca passámos por algo parecido como isto nesta época. O que sabemos é que, nos adolescentes, entre os 14, 16, 17 anos, uma altura de muita exploração, procura de autonomia, e de se saber relacionar com o mundo, pode deixar algumas marcas. É altura de grandes aventuras com amigos, namoros, sexualidade, e [isso] poderá ficar estagnado. E poderá ser complicado se houver esta sensação de perda, se vier um sentimento de medo, se os jovens, que percebem o que é morrer, começarem a ficar com este medo. Mesmo quando isto estiver tudo passado, podem desenvolver problemas relacionados com medos de doenças, por exemplo.”

Quanto às crianças, Diogo Guerreiro considera que “depende muito do que se passa com a família e de como gere isto”: “Têm o cérebro muito neuroplástico, se for bem gerido pela família, provavelmente, as consequências serão menores. Poderá haver algum atraso a nível motor ou de socialização, mas recuperável. Embora, se o stress e medo forem grandes na família, com perdas por exemplo, a situação possa ser diferente. Sabemos que o que se passa na infância pode levar a quadros de doença mental na idade adulta”, ressalva.

O psicólogo Eduardo Sá também considera que os impactos destes confinamentos, com escolas fechadas, em crianças e jovens dependem da “gestão” que os pais consigam fazer da situação, da “disponibilidade” que têm e até do espaço onde habitam. Refere que, com pais em teletrabalho ou, então, com famílias que moram num apartamento de 50 metros quadrados, e com alguns membros do agregado isolados com covid-19, “tudo fica mais condicionado”. Reconhecendo todas as dificuldades em questão, o psicólogo considera que “mal seria” que uma criança “não ficasse tendencialmente agitada” quando está “fechada em casa, sem espaço para outras actividades” que não sejam entre “a sala e o quarto”.
“Turbulência absolutamente fora do vulgar”

Eduardo Sá compreende que “os pais não se conseguem desdobrar” e que “entreguem um pouco” do tempo das crianças “à televisão e aos jogos de vídeos, para que estejam quietas e caladas, mas também é importante ter a noção” de que tal “altera o comportamento delas”: “Se deixarmos duas horas a uma tarde aos cuidados dos ecrãs, as crianças ficam agitadas e irascíveis, ficam com perturbações de comportamento. Num contexto destes, com crianças e pais tensos, preocupados, cansados, que reagem numa espécie de pingue-pongue em relação a isso, temos em mãos todo um patamar de desencontros que podem ser significativos, e que podem ser tanto mais quanto mais isto durar. Não vale a pena ter a ideia de que a crianças passam por isto sem se molharem.”

E acrescenta: “Depois de tanto [tempo] fechados no quarto, seguramente que os nossos filhos vão ter com o quarto, no futuro, uma relação menos apaixonada.” Questionado sobre se é recuperável o que, eventualmente, crianças e jovens perdem com este tipo de confinamentos, Eduardo Sá responde: “Depende da gestão que se faça a seguir.” E ressalva que, em causa, não está apenas este e o anterior confinamento, e as alturas em que as escolas estiveram fechadas, mas também o período que se seguiu, com crianças a irem para a escola de “mantinha” ou, então, com intermitências, por causa de surtos, por exemplo, entre outras situações baralhadas pela pandemia. “Gera uma turbulência absolutamente fora do vulgar que inevitavelmente tem consequências. O que me preocupa é que as consequências nem sempre são levadas a sério como deviam”, alerta, notando que “lacunas graves” podem surgir “em termos de aquisição de competências” e que, em algumas disciplinas, pode haver “consequências muito graves” e “comprometer a escolaridade perigosamente”.

As principais preocupações do psicólogo prendem-se sobretudo com as fases de transição em todos os ciclos, do pré-escolar até à entrada no ensino superior. “Se não frequentarem o jardim-de-infância e estiverem na transição dos cinco anos para os seis, quando entrarem [no 1.º ano] levam mais limitações. Também me preocupam os muito pequeninos, se estão na transição para o jardim-de-infância, foram dois anos de ‘não toques’, ‘não te aproximes’. São lacunas que vão precisar de ser detalhadamente cuidadas”, diz Eduardo Sá. O especialista defende que, no regresso à escola e nos próximos anos lectivos, devem adoptar-se estratégias tendo em conta tudo o que aconteceu e tendo também em consideração a necessidade de “criar paridade entre alunos”, uma vez que a pandemia “acentuou uma clivagem”, entre as condições socioeconómicas de cada agregado familiar.

“Desejaria que, quando discutimos este tipo de coisas, não disséssemos que a normalidade vai voltar porque não vai ser assim”, afirma Eduardo Sá, frisando que considerar que, quando as crianças voltarem às aulas, “tudo volta à normalidade”, é revelar um “índice de distracção” “muito maior do que seria admissível”. “É uma questão que nos devia unir a todos, isto devia preocupar-nos de tal forma que devia gerar uma espécie de plano para que não tivesse outro tipo de consequências”, insiste. E que consequências podem ser essas? “Crianças que não consolidam os seus conhecimentos quando partem para o nível seguinte acabam por ter dificuldade em circunstâncias onde não teriam”, diz, referindo ser “absurdo” pensar que “o nível de atenção” das crianças num ensino que não é presencial é o mesmo.
Reservar tempo para ver filmes, séries, dançar e jogar em conjunto

O psicólogo admite que, embora não compensando a “ausência” dos colegas, o recurso que os adolescentes podem ter, através dos telemóveis e da tecnologia, para contactarem entre si, pode criar uma “almofada”. Ter irmãos também pode “atenuar um pouco” os efeitos do confinamento, mesmo que possa “dar cabo dos ouvidos e da paciência dos pais”. Tudo isto que se está a viver tem “perigos”, mas também “factores de crescimento”: “Os nossos filhos adolescentes tiveram consciência do quanto significa a liberdade”, nota o psicólogo.

Apesar de não querer dar conselhos, por “receio de estar a por pó de arroz numa questão complexa”, Eduardo Sá diz aos pais que, “se sentirem filhos a reclamar ou mais metidos consigo, devem esclarecer o que se está a passar” e que, no que respeita aos mais pequenos, por mais difícil que seja, “não entreguem a parentalidade ao babysitting dos ecrãs”.

Já a psicóloga Bárbara Ramos Dias deixa algumas dicas e até algum encorajamento para se enfrentar tudo isto. “É desafiante, em todas as idades, para os pais que estão a trabalhar, tendo de os entreter. Cabe-nos dar alternativas, se não vão passar o dia todo no ecrã. Pintar, plasticina, fazer tricô. Eles vão estar mais agitados, ansiosos, vão tender a isolar-se mais e temos de arranjar alternativas”, começa por dizer. E acrescenta: “Tanto crianças como adolescentes precisam do conforto da família. O problema é os pais conseguirem dar conforto aos adolescentes. Quanto mais os pais pedirem para sair do quarto, mais criticarem e gritarem que não arrumaram nada, mais se vão isolar.” Defende o “incentivo pela positiva”: “Se cumprires vamos fazer algo, ver um filme, a tua série, dançar, algo em que considerem divertido ir para a sala.”

Outras dicas desta psicóloga passam por, por exemplo, “desafiar a dançarem online com amigos”, “ter rotinas” e, também, “fazer exercício físico”: “Saber que a esta hora vou estar em família, naquela no tablet, naquela hora a fazer exercício, noutra a fazer algo criativo fora dos computadores”. Defende que “organização e regras” são “fundamentais”, até para “ajudar a planear” o dia.

Bárbara Ramos Dias entende que, diante da inevitabilidade de ter de “ficar em casa”, não ajuda os pais fixarem-se na ideia de que os adolescentes “estão a desperdiçar uma parte da vida”, mas antes perguntar: “Como podemos melhorar a vida dos nossos filhos? Dando colo, atenção, e ignorando birras e indisposições, nos adolescentes. Não alimentar a discussão e a zanga”, diz, notando que, um pouco depois, se deve ir perguntar “como se pode ajudar”. E sublinha a importância da partilha de algumas actividades: “Ouvir música em conjunto, ver uma série em conjunto. Antes de pensarmos nos desequilíbrios, vamos pensar em como os podemos equilibrar, e nada melhor do que colo e amor.” A psicóloga nota que estes períodos também podem ajudar os adolescentes “a trabalhar a frustração”: “Este aprender a lidar com este não gigantesco é uma aprendizagem brutalíssima.” Em relação aos filhos únicos, admite que “este isolamento pode ser mais problemático”, podendo levá-los a sentirem-se “muito sozinhos”, em todas as idades. Diz que os que têm irmãos sempre “vão discutindo” entre eles, mas ressalva que também há miúdos que “gostam de estar sozinhos”.

Aos pais, lembra ainda que não são professores, que não terão as mesmas competências pedagógicas, e que não devem desgastar a relação com os filhos por causa de questões relacionadas com a aprendizagem – questões que, acredita, terão de ser acauteladas pela escola que deverá ter em conta o que as crianças e jovens não aprenderam devidamente, nestes períodos. E insiste que os pais devem parar “um pouco": “Os miúdos queixam-se de que os pais estão sempre no computador. E, nem que seja ao final da tarde, passarem tempo juntos, a brincar ou a conversar, depende das idades, ou a dançar, os adolescentes adoram dançar.”

19.11.20

Potenciadas pela pandemia, aumentaram as consultas online de psicologia

Hugo Moreira, in Público on-line

Ainda que se debatam as vantagens e desvantagens de ter consultas através de um ecrã, o consenso é de que ajudou a colmatar as restrições da pandemia.

Foi a partir de Março, quando a pandemia obrigou os portugueses a ficarem em casa, que Marta, 22 anos, deixou de ir ao consultório para passar a falar com a sua terapeuta à distância. As consultas de psicologia “à distância” não eram uma raridade, mas passaram a ganhar adeptos de forma “exponencial” depois da covid-19 ter mudado as nossas vidas, confirma David Neto, presidente do conselho de especialidade de psicologia clínica e da saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).

Justifica-se não só com transição para o online de clientes regulares, mas também com maior procura de quem nunca teve ajuda psicóloga, acrescenta o especialista, salvaguardando que os profissionais devem transpor para o online os mesmos princípios aplicados em consultório. “Os estudos que existem, para já, apontam para taxas de sucesso [entre os dois tipos de consultas] equiparadas”, acrescenta.

Desde muito antes da pandemia que as consultas à distância eram já uma realidade para a WeCareOn. Criada por Paula Ribeiro, disponibiliza desde 2015 consultas de psicologia através da Internet. A criadora conta que foram os primeiros a apresentar o serviço no país e que teve que “validar” com aOPP a legalidade do projecto. “As pessoas começaram a ter mais atenção à sua saúde mental”, justifica Paula Ribeiro face à procura crescente e argumenta que muitos dos clientes “nunca procurariam consultas de psicologia” se o contexto não fosse online. A videochamada é a estratégia mais procurada, mas também há consultas por chamada de voz, chat ou e-mail.

O aumento não se verifica só nos clientes individuais. “Desde Março temos tido muitas empresas a procurar os nossos serviços”, confirma Paula Ribeiro, sendo que antes da pandemia “a maior parte das empresas não apostava muito” em oferecer consultas aos colaboradores.

Sem a Internet, a Blind Talk era impossível, explica Gonçalo Neves, co-criador da plataforma que disponibiliza sessões de esclarecimento com psicólogos, mas em regime de anonimato. O serviço “não é de intervenção, mas sim de aconselhamento” sobre como é que a psicologia pode ajudar, sublinha. Porquê o anonimato? “O receio da forma como o problema vai ser recebido ou a vergonha de falar de determinado assunto”, exemplifica. O objectivo é que depois da sessão se possa procurar uma intervenção já sem esconder a identidade.
Resultados “fáceis e rápidos”

Por estes dias, 100% das consultas de Gonçalo Neves são online. O psicólogo admite que quer os seus colegas quer os doentes tenham algumas reservas em relação a este método, mas sublinha que “os estudos que têm saído confirmam que há um efeito terapêutico” nas consultas feitas à distância.

Paula Ribeiro confirma que as métricas e estudos revelam que “na maioria dos casos, os resultados nas consultas online são mais fáceis e rápidos”. Em parte, porque as pessoas estão “em casa na sua zona de conforto”, conseguindo “explicar muito mais rapidamente a sua história do que numa sessão presencial”. Contudo, diz ser “fundamental criar um bom setting terapêutico online” para garantir que “a tecnologia está lá para suportar e não para ser dificultar”.

David Neto da OPP não é tão confiante quanto quem já pratica este género de consulta. “As pessoas consideram os consultórios lugares seguros. Já tive experiência de consultas à distância em que as pessoas falam mais baixinho quando se abrem sobre outras pessoas que estão na mesma casa”, testemunha. Experiência semelhante tem Marta, estudante de Relações Internacionais, confirmando sentir algum “desconforto” e “confusão” por não se conseguir “desligar” do seu ambiente. O consultório ajudava-a a “distanciar e centrar no que era preciso processar”. Se a pandemia acabasse hoje, não duvida que “a decisão seria regressar ao consultório”. “Mas é completamente possível fazer-se online e acho que é essencial, sobretudo nesta altura em que tanta gente precisa”, reconhece.

O representante da OPP lembra que o novo contexto permite pelo menos manter o acompanhamento, ajuda a “combater as desigualdades” no acesso ao apoio psicológico em diferentes regiões do país e permite “reduzir custos”. Reitera ainda a importância de procurar profissionais credenciados, e reconhece que esta é uma ferramenta que veio para ficar. “E ainda bem”, conclui.

14.5.20

Não, não é só de si: o tempo em confinamento é mesmo longo (ou será que é breve?)

Tiago Palma, in RR

Horas que parecem dias, dias que parecem meses. Um psicólogo explica o que é, afinal, esta sensação de confusão temporal, hoje generalizada numa sociedade que se viu confinada em casa. Um filósofo diz-nos que, mesmo de regresso à normalidade possível, talvez estejamos, na verdade, só… “reconfinados”. E a literatura, o que tem ela para nos dizer sobre cenários assim? Que muito provavelmente, mais cedo que tarde, vamos todos usar “peruca” como na Grande Peste de Londres (metaforicamente falando).

Tudo é novo. Este tempo é novo. E a perceção do tempo, da passagem dele, em pandemia, durante semanas e meses confinados à habitação e, agora, a retornar lentamente ao exterior, alterou-se profundamente na sociedade como um todo – e em cada um enquanto indivíduo.

Ora as horas são longas demais, rotineiras, mecânicas, ora breves, sem lhes notarmos a passagem, na esperança de que o medo se vá e regressemos à normalidade, a uma normalidade possível.

À pergunta sobre se faz, ou não, sentido esta perceção (de certa forma volátil) do tempo, David Neto, psicólogo clínico e investigador, diz à Renascença que sim. Que sempre fez.

“Já antes, mesmo antes desta situação de pandemia, sabíamos que, por exemplo, em contexto de institucionalização, existe desorientação temporal – o que é normal.” E porquê "normal"? “Porque quem está institucionalizado tem as rotinas todas iguais, dia após dia, e é muito fácil, em consequência desta rotinização e desta perda de contacto com o mundo exterior, haver desorientação.”

No livro “A Montanha Mágica”, de 1924, o Nobel da Literatura Thomas Mann descreveu assim o tempo de Hans Castorp, personagem confinado a um sanatório nos Alpes suíços por causa da tuberculose: “As pessoas acreditam que o interesse e a novidade do conteúdo levam a que o tempo passe, isto é, abreviam a passagem do tempo, ao passo que a monotonia e o vazio contribuiriam para obstruir ou refrear essa mesma passagem”.
Castorp debruça-se sobre quase tudo em pensamento: a política, a cultura, a religião e, claro, o tempo. Mas são também entediantes os tempos no sanatório.

“O que designamos por tédio é uma abreviação doentia do tempo decorrente da monotonia: a uniformidade constante produz a redução atroz e assustadora dos longos períodos de tempo. Quando um dia se assemelha a todos os outros, todos os outros se assemelham a esse dia”, descreve Thomas Mann no livro.

Na situação de confinamento recente, e tão real, algo semelhante acontece, aponta David Neto. “Os nossos fins de semana são parecidos aos nossos dias de semana, é quase como se houvesse uma espécie de contínuo entre os momentos de trabalho e os momentos de lazer. E isso faz com que o tempo se torne confuso.” O que pode ter dois efeitos: quer uma espécie de dilatação temporal, “o tempo demora imenso a passar”, quer algo paradoxal, “quando parece que de repente a semana passou num instante”, explica o psicólogo clínico.

A referida desorientação temporal, associada ao medo, da infeção ou da consequência económica da pandemia, pode também afetar a nossa saúde mental “de maneira bastante significativa”, diz David Neto. Contudo, não afeta todos da mesma forma. O psicólogo procura separar o impacto da pandemia em dois grupos de pessoas distintos.

“Para a generalidade da população que está em confinamento, esta redução do contacto social, esta situação de stress acrescido, provoca um aumento do sofrimento e da perturbação. Mas para a maior parte das pessoas isto é uma situação gerível e pode vir a ser ultrapassada, sem que haja um impacto duradouro – embora seja relevante no momento presente. Há um segundo grupo, que importa referir, que por ter um conjunto de vulnerabilidades prévias, por ser mais sensível ou estar em situações em que o stress impacta de uma maneira mais significativa – como é o caso dos profissionais de saúde –, estas pessoas podem desenvolver quadros mais complexos, uma perturbação grande do foro psicológico, e mais duradouros”, lembra.

Um estudo publicado em 2015 no “Journal of Affective Disorders”, intitulado a "Perceção do tempo na depressão: uma meta-análise", analisou a noção subjetiva do tempo em pacientes que sofrem de depressão. Os resultados sugeriram que indivíduos deprimidos percecionam o tempo de forma mais lenta, que ele se move mais lentamente, do que indivíduos não deprimidos. Segundo os autores, tal perceção é atribuída ao facto de, perante um ambiente negativo, a atenção ser direcionada a si e não aos outros ou a eventos externos – o que leva a uma desaceleração significativa da velocidade temporal.

David Neto socorre-se de um exemplo para explicar esta desaceleração: os acidentes, nomeadamente os traumáticos. “Esta noção subjetiva de tempo faz sentido, por exemplo, quando nós estamos a passar por um acontecimento traumático, como é o caso de um acidente, onde é relativamente frequente haver uma dilatação temporal, ou seja, parece que aqueles segundos demoram imenso tempo a passar. E é assim porque nós medimos o nosso tempo subjetivo em função da novidade da informação e em função da relevância afetiva."

Portanto, é normal, e falando da pandemia, que haja, "em momentos que tenham muita informação, que tenham muita coisa diferente a acontecer", uma perceção de tempo mais dilatada. "Enquanto que nos dias mais rotineiros, mais iguais uns aos outros, o que parece é que há uma perceção temporal mais reduzida”, lembra.
O “tempo duplo” e o ciclo vicioso das insónias
E a filosofia, que tanto discorreu sobre tempo e a passagem temporal, o que diz sobre esta perceção subjetiva do tempo agora, em pandemia?
“O facto de o tempo parecer estender-se, esticar-se, ter mais tempo dentro do tempo, advém simplesmente do facto de que ele não é pulsado pelas mil batidas que o pulsam quando nós estamos na vida social”, defende à Renascença o filósofo José Gil. E explica: “A nossa vida em confinamento é reduzida a certos gestos básicos, certos ritos. Mas tudo isso é artificial. No melhor dos casos, a nossa vida familiar em casa reproduz a vida social. E com gestos bem mais reduzidos: vamos comer, ler, fazer exercício, dormir. E a nossa vida relacional, social, que é muitíssimo mais complexa e rica, vai rebater-se sobre estes pequenos gestos, que se repetem sempre os mesmos, sem variação”.
Segundo o filósofo, o tempo em confinamento é um “tempo duplo”. Primeiro há um tempo suspenso da vida social, “onde tudo está reduzido à família, a pequenos gestos, ao trabalho, ao estrito tempo de trabalho”. E depois há o que considera ser o tempo de espera, “estamos sempre à espera do desconfinamento, de voltar à normalidade: o confinamento é um fechamento que leva a uma passividade, fundamentalmente é uma vida de passividade”.
As duas temporalidades, explica o filósofo, tenderão a confundir-se numa só. “O tempo suspenso passa ele próprio a ser um tempo de espera.”

O isolamento, quando demorado, pode, de entre várias perturbações psicológicas, dificultar igualmente o sono. “O que nós sabemos da psicopatologia é que não existe uma única perturbação mental que não tenha algum tipo de alteração do sono”, explica o psicólogo clínico David Neto. E ressalva que tanto podem ser insónias primárias, “a dificuldade em adormecer”, como, depois, uma espécie de sono agitado, “quando a pessoa até pode dormir as oito horas, mas sentir que não dormiu o suficiente e acordar cansada”.
Mas o sono tem igualmente uma “relação circular” com os afetos, lembra. “Porque nós sabemos também que a falta de sono, por sua vez, provoca alterações a nível de humor. E, portanto, por vezes acontecem estes ciclos viciosos, em que a ansiedade ou outro tipo de reações afetivas alteram o sono, que por sua vez tem, depois, um impacto a nível do humor e faz com que as pessoas não estejam bem.”

“Morbidez” da vida confinada e uma certeza: “Portugal é ótimo a esquecer”

Mas será tudo mau? Ou, ainda assim, é possível retirar algo positivo deste tempo? O filósofo José Gil responde. “Algo positivo? Coletivamente, não, acho que não. Individualmente há sempre exceções, pessoas que têm quase como profissão isolar-se, para investigar, pensar. E, portanto, isto pode ser até um tempo que permita o isolamento que normalmente não têm – e isso levar a uma certa criatividade. É possível. Mas no meu entender isso são casos excecionais – mesmo corporativamente excecionais. Socialmente não é admissível um tempo de confinamento. Uma sociedade não existe em confinamento: é quase um tempo mórbido.”

Atentemos na literatura. O que nos diz ela sobre o estar só? No fragmentário “Livro do Desassossego”, Fernando Pessoa escreveu, enquanto Bernardo Soares pensa que nunca sairá dos Douradores: “Somos, por pouco que o queríamos, servos da hora”. Já na poesia feita diário, Al Berto, no livro “O Medo”, escreve, a 6 de janeiro de 1984: “Passei o dia prostrado, como se esperasse alguém”.

Há muito tempo, não prostrado ou servo da hora, que o escritor, ilustrador e músico Afonso Cruz vive no Alentejo, mais ou menos isolado no seu monte em Casa Branca, no concelho de Sousel. A ele, diz à Renascença, o confinamento é mais um dia na vida.

Mas serão os escritores (não só pelo que o isolamento trará de calma, mas por haver na pandemia um objeto literário) uma profissão “privilegiada” neste confinamento? Afonso diz que não.

“Eu percebo quando se diz que os escritores precisam de isolamento. Mas não sei… Por um lado, a maior parte dos escritores até vive nas cidades. Os estímulos culturais de que um escritor necessita – o cinema, o teatro, a pintura – estarão nas cidades. E não quero dizer com isto que a natureza não seja uma fonte de inspiração; mas é só uma. Eu quando saio de casa, é aí que as coisas diferem, tenho espaço, tenho horizonte, tenho uma noção diferente da vida. Por outro lado, se nós imaginarmos que a maior parte da inspiração de um escritor está na literatura, naquilo que ele lê, o acesso às livrarias é mais próximo da vida citadina do que é aqui: a livraria mais perto fica a 60 quilómetros, eu tenho que fazer 120 quilómetros se quiser ir a uma”, lembra.

Afonso diz ver na pandemia, na catástrofe e na promessa de redenção que há numa pandemia, uma temática “recorrente na literatura, mas estimulante”. “Acho que é um ótimo exercício e ótima maneira de ver a humanidade, porque é convertê-la numa outra coisa.”

Mas não é a pandemia que mais interessa na literatura; interessam os homens em pandemia. “Tudo é matéria literária, não há nada que se possa converter em literatura. Mas a pandemia não é fundamental. Não interessa a alegoria, não interessa o contexto e ambiente em que se vai inserir história. É precisamente sobre o que não trata o livro que normalmente o livro trata verdadeiramente. A ‘Ilíada’ não é sobre a guerra de Troia; é sobre a nossa alma: a alma humana. Ao imaginar o ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, Saramago não imaginou só um mundo apocalíptico, em que as pessoas deixam de ver; imaginou, sim, o que é que aconteceria se tivéssemos de nos relacionar em determinadas circunstâncias, circunstâncias limite", explica.

De volta ao psicólogo David Neto: o que há a fazer, afinal, para não sofrer com o tempo? “O que há a fazer? A redução das notícias, manter uma certa rotina, procurar ter alguma higiene do sono, procurar fazer exercício: são tudo indicadores que sabemos que estão associados à promoção do bem-estar e que, portanto, são úteis no lidar com estas situações de crise.”

Mas o psicólogo clínico adverte: isto pode não ser suficiente. “É muito tentador pegarmos nestas coisas que nós sabemos que são coisas boas em termos da promoção de saúde mental e de bem-estar e tentar generalizar. Mas para algumas pessoas pode não ser suficiente. Para as tais pessoas que estejam numa situação de stress acrescido, ou que tenham de alguma maneira um impacto maior, eu diria que o mais importante provavelmente é procurar algum tipo de ajuda, falarem com um psicólogo ou, pelo menos, falar com as pessoas de quem gosta, no sentido de tentar ter apoio. E é importante o apoio estar disponível.”

O que virá a seguir, e o que está já a vir, para José Gil não é necessariamente um tempo normal, mas antes um “novo normal”. E este desconfinamento é só um "reconfinamento".

"Sim, reconfinamento. Regressa-se à normalidade com restrições em tudo o que é a vida: restrições nos locais de culto, nos cinemas, nos cafés, tudo isto é faseado mas é restrito, quer dizer que nós vamos encontrar a mesma vida social, com as mesmas estruturas, instituições, postos de trabalho, lugares, tudo na mesma, mas tudo restringido. Continuará a passividade. E o que é grave é que isto vai continuar: isto é o futuro próximo. Isto vai modificar extremamente a nossa vida, ao mesmo tempo que a não modifica. Acabará por ser o novo normal, que é um normal de maior passividade do que o anterior normal”, considera o filósofo.
Afonso Cruz continua no monte alentejano. Ainda a escrever, ainda a ilustrar, ainda a produzir cerveja artesanal. Acredita que depois, seja lá quando for o depois, esqueceremos o que agora se vive. E não é só ele que o diz: é a história.

“Parece-me que nós somos ótimos a esquecer, a deixar determinadas coisas para trás. Depois das legislaturas de Cavaco Silva, votámos duas vezes para a sua Presidência. [Risos] E, portanto, nós esquecemos determinadas coisas, obliteramos. E retomamos a normalidade”, acredita.

O escritor recorre a uma epidemia histórica, a Grande Peste de Londres, de 1665, como exemplo: "Escrevi há pouco tempo sobre a Grande Peste. Há um homem que está preocupado com a moda, o que é que ia acontecer à moda. E porquê? Porque se usavam perucas e as perucas faziam-se com os cabelos de pessoas infetadas, os cadáveres. Mas a moda não mudou – mesmo arriscando a vida. E continuaram a usar perucas, mesmo sabendo que isso poderia significar o retorno da pandemia e a morte. A vida tem sempre tendência para retornar a uma espécie de normalidade."

4.5.20

Apoio Maior, a acção de jovens de todo o país para ajudar em tempo de covid-19

Gonçalo Ramos e Mariana Durães, in Público on-line

O IPDJ lançou uma acção de voluntariado que reúne cerca de 150 jovens de diversas regiões do país. A ideia é prestar apoio à comunidade, através da realização de diversas tarefas, como a entrega de alimentos e medicamentos ou a divulgação de informações.

Em tempos de pandemia, vimos nascer uma onda de solidariedade, alicerçada em grupos de voluntários que usaram o tempo livre para ajudar os mais vulneráveis. Desde jovens que entregam compras porta a porta, municípios que criam bolsas de voluntariado para apoiar a comunidade a plataformas que reúnem aqueles que estão disponíveis a ajudar.

Agora, no Dia do Associativismo Jovem, que se celebra esta quinta-feira, 30 de Abril, também o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), em parceria com a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) promove um novo programa de voluntariado. Chama-se Apoio Maior e está inserido na campanha #SerJovemEmCasa, cuja ideia consiste numa série de acções de formação, debates de ideias e partilhas de informação.

A acção foi divulgada esta quarta-feira, 29 de Abril, no site oficial do Governo, e envolve cerca de 150 jovens entre os 18 e os 30 anos, distribuídos entre as regiões do Alentejo, Algarve, Lisboa e Vale do Tejo e Norte. Os voluntários levam a cabo tarefas como o apoio à distribuição de alimentos e medicamentos, aconselhamento de serviços públicos de apoio, esclarecimento de dúvidas à comunidade, divulgação telefónica e digital dos programas de apoio à saúde, entre outras de apoio logístico às juntas de freguesia.

E ainda a propósito do Dia do Associativismo Jovem, e para o celebrar, o IPDJ realiza esta quinta-feira, 30 de Abril, às 18h30, a conferência online Dia do Associativismo Jovem: Participação Juvenil em tempos de Covid. A conferência, que poderá ser acompanhada no site oficial do Governo, visa partilhar “boas práticas” e, para isso, convida “entidades que dinamizam respostas inovadoras aos desafios colocados pela pandemia”, lê-se no mesmo site.

A conferência deverá contar ainda com a presença do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, os presidentes do Conselho Nacional da Juventude e da Federação Nacional das Associações Juvenis.

Depois, e até domingo, 3 de Maio, o IPDJ vai partilhar vídeos enviados por associações juvenis, que irão falar sobre como as associações se estão a adaptar ao novo contexto e como os jovens estão a responder, ao mesmo tempo que tentarão prever o que irá mudar na vida dos jovens no pós-pandemia.

Liga-te, a plataforma que liga o voluntariado
Mas há mais a acontecer nesta Primavera de covid-19. São já mais de 70 organismos por todo o país os que adaptaram as suas actividades para fazer a diferença nas suas comunidades, e estão elencados pela plataforma Liga-te da Federação Nacional das Associações Juvenis (FNAJ).

“De um dia para o outro, criaram-se novos desafios para as associações juvenis”, constata Tiago Manuel Rego, presidente da FNAJ, ao P3. “Muitas tiveram de se reinventar — ou, pelo menos, adaptar as actividades e aquilo a que davam resposta.” Foi nesse âmbito que se procurou criar a plataforma Liga-te, “para mapear essas associações e pôr em evidência o que estão a fazer, desafiar outros jovens nas mesmas comunidades e que gostariam de fazer voluntariado”.

Das cerca de 1200 associações em Portugal, “mais de 70 estão no terreno a dar resposta”, contabiliza o presidente. Um momento de crise pandémica que “envolve mais de 680 jovens em todo o país, em todos os distritos”.

Os jovens das associações estão a contribuir das mais variadas formas, conta Tiago, desde a angariação de fundos para equipamentos de saúde e bens essenciais, passando pela cedência de espaços para profissionais de saúde, até à assistência, transporte e contacto à distância, em prol das populações mais vulneráveis. Registam-se, também, campanhas locais de combate ao isolamento dos idosos e de apoio aos sem-abrigo, entre outras. “Procura-se criar mecanismos de ajuda para combater problemas causados pela covid-19”, explica Tiago. “Estes jovens não são profissionais de saúde, nem bombeiros ou polícias, só procuram intervir no sector do apoio social, integrando a resposta com as autoridades locais.”

Necessidades no sector da educação também têm vindo a ser colmatadas pelos organismos em actividade, como o fornecimento de cópias em papel de exercícios escolares, a cedência de material tecnológico em excesso nas sedes e explicações por videochamada. “Tudo para que os jovens mais carenciados tenham também aqui alguma igualdade de acesso ao ensino à distância”, sublinha Tiago Manuel Rego.

“Tudo para manter os jovens o mais activos possível”
O apoio prestado pela plataforma Liga-te foca-se também “na saúde mental de quem está em casa há bastante tempo, nomeadamente os jovens” que foram dispensados das escolas. “Há associações a dar aulas de exercício físico, mas também cognitivo, tudo para manter os jovens o mais activos possível.” Entre formações e workshops online, tudo vale para “esbater a solidão” daqueles que estejam a viver “momentos de dificuldade maior”.

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A FNAJ não é alheia à luta que as associações travam nestes tempos de afastamento social e, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, desenvolveu, para a plataforma Liga-te, “recomendações para os jovens que estão em casa”. As preocupações são muitas, entre as quais “situações de imprevisibilidade sobre quando voltarem a estudar e a perda de empregos”. O “material de motivação”, diz Tiago, visa mostrar “como dar a volta por cima”.


Ainda com a Ordem dos Psicólogos, cuja “autoridade na área da saúde mental” o presidente da FNAJ frisa, foram desenvolvidas mais indicações para que as próprias associações juvenis possam concluir como “estimular as suas equipas de voluntários e directivas, para continuar as acções no terreno, que vão ao encontro das necessidades, objectivos e motivações dos jovens”.

29.4.20

"Psic.ON" é a nova plataforma de apoio psicológico da U.Porto

Por Marisa Macedo, in Up.pt

Consultas podem realizar-se por video-chamada, live chat ou e-mail, e visam ajudar a superar o isolamento social e as ansiedades da retoma de atividades “fora de casa”.

Face às transformações provocadas pela pandemia de COVID-19, a Universidade do Porto acaba de lançar a “Psic.ON”, uma nova plataforma de apoio psicológico online. O projeto, que complementa a já lançada Linha de Apoio Psicológico, disponibiliza, de forma gratuita, apoio através de video-chamada, live-chat ou e-mail, ou com recursos de auto-ajuda.

A plataforma Psic.ON surge numa altura em que a população tem vindo a ser afetada, emocionalmente, pelo isolamento e distanciamento social, e pela ansiedade da retoma das atividades “fora de casa”. O projeto destina-se por isso a todos os membros da comunidade académica – estudantes, professores, colaboradores e investigadores – e os seus familiares, incluindo crianças, identificadas como uma população de especial vulnerabilidade, devido aos efeitos desta fase provocada pela pandemia.

Prestado por profissionais qualificados, o novo serviço integra consultas psicológicas individuais, em diferentes línguas, por vídeo-chamada, live-chat ou e-mail, permitindo a privacidade da identidade. Na área de auto-ajuda, estarão disponíveis vários materiais na área da gestão emocional, de rotinas e de informação geral, para diferentes faixas etárias.

A plataforma integra também um espaço para recolha de histórias de doentes recuperados de COVID-19, com um relato oral ou escrito do que viveu e sobre como superou a doença.

Os interessados podem também participar nos “Grupos de Apoio”, orientados por facilitadores e organizados por tema, desde o apoio ao teletrabalho, à consultoria a pais de bebés e crianças pequenas. O objetivo é ser um espaço de partilha e de diálogo, que apoie cada um dos membros na gestão do seu dia-a-dia.

São cada vez mais os que procuram ajuda
Lançada no final de março, a Linha de Apoio Psicológico da Universidade do Porto tem vindo a apoiar todos os membros da comunidade académica através do telefone ou e-mail.

Só no primeiro mês de funcionamento, a LAPUP apoiou mais de 60 casos, relacionados com ansiedade, angústia, solidão, gestão de conflitos e outros temas ligados à COVID-19.

A Psic.ON foi criada pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, em articulação com a Linha de Apoio Psicológico (LAPUP) e com o suporte dos serviços da Universidade do Porto.

21.1.16

Se temos um kit para primeiros socorros por que não ter um kit para as emoções?

In "TVI 24"

O que fazer quando se sente triste ou frustrado? O objetivo é fazer um kit de emoções, sempre pronto a utilizar em caso de necessitar de primeiros socorros para a sua saúde mental. A psicóloga Maria Palha explicou como no Diário da manhã desta quarta-feira.

12.6.13

Felicidade Pública (5): Economia e felicidade

Helena Marujo, in Público on-line

Guardei da minha infância uma caneta de tinta permanente, com o meu nome gravado, oferecida quando completei os primeiros quatro anos de escola. Lembro-me de a usar com um cuidado redobrado, possuída do receio de que alguma gota da tinta azul me caísse na folha branca ou no tecido da bata. Nessa imprevidência, a mancha alastrava impetuosa por cada fibra do papel ou do tecido, e derramava-se, impossível de conter, qual ação sem dono.

É esta a imagem que me ocupa quando penso na presente colonização da nossa existência pela economia. Como um borrão incontrolável, toca hoje todas as fibras e esferas da nossa quotidianidade. A cada passo a sua premência nos recorda de quão longe estamos das previsões de Habermas, que há poucos anos nos dizia acreditar que a utopia emigraria do mundo do trabalho para o resto da nossa vida, em formato de compromisso cívico e solidário, e de melhoria das instituições democráticas – movimentos essenciais para a esperança num futuro comum.

Destoando desta perspetiva, com o capitalismo livre emigrou também o descrédito e o ceticismo nos outros e no futuro, outra mácula que alastra sem contenção, deixando-nos crucificados num presente endurecido. A ele não são alheios o antagonismo competitivo e o darwinismo social, que tantas vezes nos estimulam a comportamentos sociais menos éticos, e empurram uns contra os outros – agora, porque em tempo de escassez; antes, porque em tempo de abundância - e nos deixam um desencantamento progressivo face à mera possibilidade de politicas educativas, sociais e económicas bondosas, vidas relacionais de elevada ordem moral, e práticas diárias efetivas de virtude.

Como professora e mãe, como cidadã e investigadora, não posso suportar a ideia de penhorarmos o futuro e nos despedirmos de toda a utopia – sem essas âncoras, nada do que sou ou do que faço me faz sentido.

Tem sido por isso com ânimo vitalizado que acompanho um pequeno mas altamente qualificado grupo de economistas europeus, sobretudo italianos, mas também suíços e ingleses, que buscam uma outra forma de pensar e viver a economia, e nas suas universidades investigam e divulgam o valor psicológico e social dos bens não tangíveis. Dedicam-se em especial aos bens da esfera social, conscientes da realidade empírica que indicia que os bens económicos convencionais excessivos, e a atual perceção de progresso, nos afastaram de uma vida de que nos orgulhemos.

Mostram as investigações que os bens económicos convencionais (mas atenção! Só depois das necessidades básicas estarem cumpridas, como o direito ao sustento, a uma casa condigna, à saúde, educação, emprego) parecem pouco associados ao bem-estar das pessoas e sociedades, e o seu incremento, quando já vivemos uma vida digna, parece não aumentar a nossa felicidade. Em contraponto, os relacionais, se genuínos e positivamente recíprocos, mostram-se profundamente relevantes para a felicidade subjetiva, em sociedades em que a justiça, a igualdade e a bondade mapeiam as existências e as politicas. Estudar a felicidade pela mão dos psicólogos tem sido sobretudo pensá-la enquanto bem individual, muito enquanto um bem hedónico e de prazer, e menos enquanto um bem social, de outro tipo de desenvolvimento e crescimento, e de construção do sentido para a vida. Esse ângulo desponta agora na economia, e dá força a quem, na psicologia, já defendia há anos um olhar mais amplo, relacional, organizacional, comunitário, do que é sermos felizes.

Foi por isso que na semana que passou, a 3 e 4 de Junho estive em Roma, rodeada desses mesmos economistas, no sexto congresso internacional da associação HEIRS: Happiness Economics and Interpersonal Relations Studies (Estudos da Economia da Felicidade e Relações Interpessoais), este ano sob o tema da Felicidade Pública. No meio de complexas equações matemáticas, muitos estudos empíricos abstratos, bem como debates sobre virtudes (estes últimos mais a jeito do meu entendimento), o apelo quase generalizado destes intelectuais foi destinado ao pensamento integrado e ao Bem Comum através da emergência de um contexto social que promova o melhor de todos e cada um, e as virtudes coletivas.

Polifónicas perspetivas do que pode ser uma boa sociedade, de qual o seu papel na promoção do bem-estar pessoal e coletivo, e do que em consequência poderão ser as políticas públicas, entreteciam-se insidiosamente no meio da estatística dura, e das fraturas de pensamento e abordagem, ou (como ali foram chamadas) das tensões criativas entre psicólogos, sociólogos e economistas.

Num momento em que é cada vez mais perigoso e arrojado usar publicamente palavras como felicidade, positivo ou amor – assumidas e criticadas como sendo parte de uma cultura de negação ou de superficialidade, de insensata euforia perpétua ou de associação com o dever ou imposição de viver hedonicamente feliz – louvo a referida associação de economistas pela dedicação corajosa ao tema.

A felicidade, a banalidade e a vacuidade não têm que andar de mãos dadas. Apetece voltar ao Cândido de Voltaire, escrito após o Terramoto de Lisboa, que ao demolir a visão filosófica corrente nessa segunda metade do seculo XVIII, que até à nossa catástrofe nacional considerava que vivíamos no melhor dos mundos possíveis, passa pelos maiores dramas possíveis, em busca de um sentido. Hoje, muitos Cândidos nos fazem acreditar que vivemos no pior dos mundos desejáveis, e que estudar e promover a felicidade é uma prática desrespeitadora dos dramas humanos. Muitos dizem por isso que a felicidade não é suficiente como meta, em particular em períodos de austeridade e perdas materiais e direitos conseguidos, como os que vivemos. Concordamos. Não é suficiente, se entendida na visão individual, prazerosa, superficial e momentânea, e se não for aplicada para resolver os problemas do mundo.

Mas o estudo e a promoção da felicidade podem e devem ser guiados por alvos sociais profundos, enriquecidos e enriquecedores, e ter implicações políticas, educativas, de saúde e económicas que nos ajudem a voltar a confiar. Não se pretende que a felicidade seja uma hegemonia, muito menos uma ideologia, mas tão só que seja um suporte para construir novos sentidos – desde a importância de cuidar dos laços sociais, até aos passos promotores de autonomia e escolha, de poder e controlo sobre as próprias condições da existência, do crescimento individual e social, e de uma conscientização coletiva. Esta foi a posição da investigadora norte-americana Carol Ryff na sua intervenção na conferência.

Não podemos por isso ouvir os alardes críticos, eles mesmos superficiais e desconhecedores, e deitar fora palavras, narrativas, áreas de investigação e sonhos de futuro, apenas porque as sombras são mais fortes e poderosas que a luz. É cada vez mais inadiável estudar e perceber os efeitos das instituições nas dores e prazeres atuais, como defendia o economista Bruno Frey na referida conferência, onde expôs que o mais importante para as políticas sociais é trazer para a agenda as relações entre as pessoas e a forma como a comparação entre elas as move, repensando a democracia, a educação e o emprego dentro desta moldura.

Stefano Zamagni terminou o encontro de dois dias com uma lista de cinco tópicos que considera precisarem de ser mais investigados no futuro, mas começou com uma pergunta: “Faz sentido falar de felicidade num momento de crise?” A esta respondeu que historicamente sempre fez sentido: as mais marcantes e ricas perspetivas sobre a felicidade, oriundas de economistas ou filósofos, emergiram em tempos críticos das sociedades ocidentais. Foi assim com Thomas Hobbes e a sua teoria da felicidade como segurança, com John Locke e a sua visão da felicidade como liberdade, com John Stuart Mill, que trouxe a perspetiva da felicidade como sociabilidade, e de Antonio Genovesi – o grande autor por detrás destas conferências – que promoveu o entendimento da felicidade como pública, e em relação.

Quanto aos temas a promover na agenda da investigação, Zamagni propôs:

1. Estudar e aprofundar a relação entre Felicidade e Justiça, em particular compreender fundamentadamente o impacto das desigualdades e do desemprego na felicidade, para esclarecer alguns paradoxos, e assegurar que, perante o efeito da desigualdade na felicidade das pessoas, se deve atender ao conceito de justiça benevolente (não mais como dois opostos, mas como duas linhas complementares).

2. Estudar a felicidade no contexto das organizações e do mundo laboral, com particular relevo para a investigação, não como até aqui da ligação da felicidade com o consumo, mas agora com a produtividade. Defendeu a este propósito que as empresas (a par das famílias, das escolas…) são locais de criação do carácter humano, e que é hoje neste contexto laboral que se encontram maiores razões de infelicidade. Ainda se posicionou na defesa do estudo, não já do Capital Humano, mas do Capital Conectivo, daquilo que nos liga e nos permite cooperar – porque a cooperação é um fator de felicidade.

3. Investigar a ligação da felicidade com o género. A preocupação aqui desponta de dados recentes que mostram que as mulheres – e não os homens – estão a ficar mais infelizes. Como travar esta tendência e as suas consequências para o resto da vida em sociedade? Como organizar as nossas vidas coletivas sem ser “à maneira masculina”?

4. Estudar mais a causalidade, na relação com a felicidade. Os paradoxos e contradições na área da economia e do bem-estar advêm da proeminência de estudos correlacionais e não de estudos causais. Considerou que é mais arriscado para o investigador estudar as causas do que meras correlações, já que naquele caso se tomam posições mas referiu que é tempo de arriscar.

5. Finalmente, propôs que se estudasse mais a ligação da felicidade com a bondade e o bom. Já reparou o leitor que falamos habitualmente de bens materiais? O que é um bem? O que é uma vida boa? Como é uma sociedade boa? Como se liga a modernidade com a moralidade? A resposta poderá vir de estudos que ajudem a perceber como a felicidade está ligada ao exercício das virtudes.

Assumiu que só poderemos falar de felicidade pública se entendermos a noção de bem.

Olhando para o enfoque destes economistas, reflito que talvez o grande escândalo desta mancha económica que molda toda a nossa vida tenha sido não termos sabido usar a riqueza económica que até aqui conseguíramos, para a repartir com equilíbrio e justiça, para que mais, muito mais pessoas, todas as pessoas, tivessem direito à felicidade digna.

Voltando ao Cândido, que tendo sido endoutrinado para ser optimista, albergou em si todas as possíveis catástrofes do mundo, o que o levou à inevitabilidade de ponderar sobre o problema do mal. É fascinante que Voltaire lhe tenha decidido dar estabilidade de vida numa pacata comunidade rural. No entanto, essa pacatez trouxe ao herói da história um aborrecimento penoso, e acabou por fazer emergir nele a estranha e contraditória saudade das dolorosas aventuras do passado. No fundo, ali tudo é mau: o presente sereno e protegido, e o passado dramático, mas aventureiro e estimulante. Onde encontra Cândido a solução? Na ação, através de um trabalho comunitário repleto de significado, em que todos colaboram e contribuem para o bem comum – cultivando o jardim coletivo. Muitos peritos na obra atribuem a este final uma visão pessimista da perda de esperança; preferimos outros, que defendem nesse final uma posição melhorista sobre a sociedade: um convite a estarmos comprometidos com um jardinar metafórico, que ativamente cuidamos juntos.

Olho o vidro antigo do tinteiro, recipiente a cujas paredes se acomoda o fluido com que a minha caneta permanente se alimenta, e penso que temos a escolha de poder sempre mudar de tinta: de infelicidade sustentada para felicidade sustentável, da imunidade ao outro de quem nos afastamos porque nos traz dor, para o retorno à comunidade e à aceitação da dialética permanente entre bênção e ferida. Esta foi a posição de Luigino Bruni, um dos economistas por detrás da organização da conferência – estar com o outro, fazer comunidade, é aceitar esta dialética – porque é nela que está a extração do futuro que vamos juntos escrever.

Que a mancha ténue que agora cresce serpenteante nos nossos tecidos sociais e científicos eleve os estudos da felicidade a instrumento de consciência pública e de construção coletiva – porque a felicidade não é (apenas), não pode ser, uma acumulação utilitarista e privada do máximo de experiências egoístas de prazer, qual corrupção hedónica debruada com os mais ricos brilhos económicos e as mais interesseiras metas financeiras, mas sim uma mancha que derrame, deliberada, o nobre, incorruptível e desapegado sentido do publico e do civil.