Patrícia Carvalho, in Público online
Raparigas dizem ter sentido mais impactos negativos na sua saúde mental e no bem-estar, durante a pandemia, do que os rapazes, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde.
As raparigas com 15 anos e uma condição sócio-económica mais desfavorável sofreram mais impactos negativos na sua saúde mental e bem-estar, causados pela pandemia, do que os rapazes da mesma idade ou os adolescentes mais novos. É este o principal resultado do mais recente estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Health Behavior in School-Aged Children (HBSC, que se traduz por Comportamento de Saúde em Crianças em Idade Escolar), que em Portugal foi coordenado pela psicóloga Tânia Gaspar. Por cá, ela quis perceber o que é que, afinal, faz as raparigas felizes.
Com base nas respostas de 22 países, o estudo HBSC, realizado de quatro em quatro anos, concluiu que, apesar de a maioria dos adolescentes não ter reportado impactos negativos relacionados com a covid-19 na sua saúde mental ou bem-estar, ainda existe uma percentagem entre 17% e 38% que o fez. E dentro desta percentagem “as raparigas reportam mais impactos negativos”, refere a OMS.
Tânia Gaspar quis perceber por que é que isto acontece, olhando para o caso português, e contou com a ajuda das respostas a um questionário online de alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos de 40 agrupamentos escolares, correspondendo, no geral, a jovens de 11, 13 e 15 anos. “Estamos sempre a falar nas questões de igualdade de género noutras questões que são fundamentais, mas neste campo, a diferença entre géneros é gritante. As raparigas têm uma forma de perceber e sentir as coisas que afecta mais a sua saúde mental”, afirma a psicóloga.
Em Portugal, a conclusão do estudo da HBSC, que já apontava para mais problemas nas raparigas, também se verifica, e a razão parece estar relacionada com o facto de estas serem afectadas por um conjunto mais vasto de factores quando está em causa a felicidade ou a falta dela.
“Procuramos responder à pergunta: Quem são as raparigas felizes? Que competências têm? Percebemos que é um factor muito complexo. O que influencia a felicidade dos rapazes são menos coisas. Se estiverem bem com a família, tiverem alguns recursos financeiros e gostarem do seu corpo, estão bem. Nas raparigas há muitos mais factores a influenciar, questões da gestão de stress, o facto de a mãe delas ter trabalho, por exemplo”.
E por que é que isto acontece? “Elas sentem muitas vezes que a vida lhes traz desafios a que não estão a conseguir responder. Os rapazes podem sentir o mesmo, mas não se apercebem tanto e agem na mesma. Elas bloqueiam. São características que têm que ver com as expectativas sociais. Espera-se que elas sejam mais bem comportadas, que tenham letra bonita, cadernos arranjadinhos”, diz Tânia Gaspar.
De forma esquemática, o trabalho desenvolvido pela psicóloga conclui que os adolescentes "infelizes" são influenciados por uma baixa qualidade de vida ou uma percepção negativa do corpo, e nos rapazes pesa também o facto de o pai não ter emprego ou se existir uma má relação com a família. Já no caso exclusivo das raparigas, aos factores comuns a ambos os sexos juntam-se não só a dificuldade na gestão de stress ou o facto de a mãe não ter emprego, mas também uma baixa condição sócio-económica, uma fraca literacia em saúde, a insatisfação com a vida, uma má relação com os professores ou dificuldades de comunicação com o pai.
A situação melhora no caso das raparigas mais novas, a quem factores como gostarem da escola ou não sofrerem de bullying contribui para que sejam felizes.
“No caso das raparigas estamos perante uma situação mais complexa e onde é mais difícil de intervir. São muitos factores e a intervenção é mais complexa”, refere a psicóloga. Mas há respostas possíveis e Tânia Gaspar avança algumas.
Três níveis de resposta
Uma das questões que também ressalta do estudo da OMS é que o apoio da família (com grande destaque), dos professores, dos colegas e dos amigos foi essencial para ultrapassar o impacto negativo causado pela pandemia. “Se a família e a escola foram factores protectores e capazes de mitigar o impacto da pandemia - e os efeitos que ela causou não desapareceram -, então temos de continuar a desenvolver trabalho nesse campo, até para preparar os adolescentes para o futuro”, defende a psicóloga.
A responsável pelo HBSC em Portugal considera que é urgente investir em respostas para todos os adolescentes, mas com preponderância nas raparigas e, em concreto, naquelas que têm mais factores de risco associados, como uma baixa situação socio-económica ou mais problemas psicológicos.
A actuação deve, por isso, ser feita a três níveis: universal, destinada a todos e que pode passar, por exemplo, por um dia aberto em cada trimestre que envolva a escola, os estudantes e as famílias, para que de modo informal se possam discutir diversas questões, como a saúde mental; uma intervenção mais selectiva, para grupos de maior risco, com a realização de programas estruturados sócio-emocionais, capazes de lhes dar competências para lidar com o stress e outros factores de risco; e uma intervenção mais individual, prestada por um psicólogo e dirigida a toda a comunidade escolar e às famílias visadas. “Tem de ser um trabalho conjunto e precisamos cada vez mais de trabalhar de forma preventiva. Todos nós podemos descompensar com uma perturbação psicológica e quantos mais recursos tivermos, melhor respondemos aos desafios”, defende.
No que está directamente relacionado com a escola, cerca de metade dos adolescentes inquiridos no HBSC disseram sentir alguma pressão durante a pandemia e cerca de um quarto (sobretudo raparigas e adolescentes mais velhos) afirmam que esta teve um impacto negativo no seu desempenho académico. A percentagem de adolescentes que disse ter gostado muito da escola durante o período pandémico foi de apenas 20%.
Na resposta ao inquérito de Tânia Gaspar, entre as raparigas descritas como "felizes", 80% diz gostar da escola, contra cerca de 54% das “infelizes”. Estas descrevem ainda uma maior pressão (83% diz mesmo sentir muita pressão) e reportam mais casos de bullying: mais de 27% das inquiridas que foram colocadas do lado das “infelizes” diz ter sido vítima deste tipo de violência, uma percentagem que desce para menos de 14% no caso das adolescentes “felizes”.
Tânia Gaspar alerta ainda para os riscos associados aos problemas psicológicos e de falta de bem-estar nos adolescentes. “Se não respondem às expectativas sociais da menina bem comportada, as raparigas podem ter comportamentos opostos, de rebeldia extrema. Alguns comportamentos de risco estão a agravar-se para as raparigas. Esbateu-se a diferença de género no consumo de tabaco e álcool, e ela ainda existe nas drogas, mas qualquer dia muda. E já são elas que tomam mais medicamentos com um efeito ligado à droga, para se acalmarem ou para regular as emoções”, diz a psicóloga.
Olhando para os resultados do inquérito que dirigiu por cá, são mais as raparigas “infelizes” que fumam (quase 17%, contra 6,5% das “felizes”), que consomem álcool (47,4%, percentagem que desce para 28,4% nas “felizes”) e que se embriagam: 17% das “infelizes” dizem já o ter feito, mais do dobro (7,4%) das “felizes”. No caso das que tomam medicamentos como droga, a percentagem é muito pequena em ambos os casos, mas ainda assim maior (3,4%) nas meninas classificadas como “infelizes” do que nas “felizes” (1%).
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27.6.23
8.5.23
Covid-19: Portugal deitou ao lixo 3,5 milhões de vacinas. UE renegoceia contratos
Alexandra Campos, in Público
No início, foi a corrida às vacinas contra a covid-19. Agora, há milhões de doses de sobra e muitas foram já para o lixo. Comissão Europeia está a tentar renegociar contratos com as farmacêuticas.
Quando as vacinas contra a covid-19 surgiram, em Dezembro de 2020, chegavam aos países a conta-gotas, foram racionadas e muito disputadas, numa autêntica “corrida” a nível internacional. Com a normalização da situação epidemiológica e o crescente desinteresse na vacinação de reforço, os países confrontam-se hoje com o problema inverso: não sabem o que fazer aos milhões de doses de vacinas que encomendaram no pico da crise pandémica e às que vão sobrando e têm prazos de validade curtos. Muitas doses já foram para o lixo e a Comissão Europeia está agora a tentar renegociar contratos com as farmacêuticas.
Portugal não é excepção. Até ao final do ano passado, teve de destruir "aproximadamente 3,5 milhões de doses" de vacinas e que foram adquiridas através do processo de compra centralizada conduzido pela Comissão Europeia, revela o Ministério da Saúde. É “uma taxa de inutilização de 8,5%”, contabiliza, sublinhando que representa, mesmo assim, uma das “menores taxas de inutilização a nível europeu”, graças à "conjugação da grande adesão dos portugueses à vacinação" e "uma eficaz e responsável gestão do aprovisionamento".
Os contratos com as farmacêuticas são confidenciais e os valores não são revelados, mas são muitos os milhões de euros que estão a ser desperdiçados e muitos mais os que podem vir a ser desperdiçados no futuro. Num breve balanço feito a pedido do PÚBLICO, o Ministério da Saúde não contabiliza a despesa com a aquisição de vacinas até ao momento. Adianta apenas que, entre 2020 e este ano, Portugal celebrou 14 contratos com seis fornecedores de vacinas e que foram entregues cerca de 40 milhões de um total de 61,7 milhões de doses encomendadas e adquiridas para o período até 2023.
Deste total, especifica, foram já utilizadas cerca de 28,5 milhões de doses, enquanto aproximadamente 8,1 milhões foram doadas e mais de 2,6 milhões foram revendidas a outros países.
Em teoria, portanto, Portugal deveria receber este ano mais de 20 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Mas espera-se que seja possível reduzir a quantidade e alargar os prazos de entrega das vacinas. Lembrando que há “um processo em curso” de renegociação na União Europeia, o ministério diz que “não é possível adiantar o número de entregas para 2023”.
“A Comissão Europeia, em representação dos Estados-membros da União Europeia, está a conduzir o processo de renegociação de um contrato assinado em 2021, no sentido de o ajustar às actuais circunstâncias epidemiológicas e estratégias de vacinação de cada Estado-membro, flexibilizando-se as quantidades e compromissos de entrega”, explica, em resposta escrita.
À semelhança do que está a acontecer em todo o mundo, desde que a campanha de vacinação arrancou, a adesão — que em Portugal é uma das mais elevadas do mundo — foi esfriando à medida que a situação se ia normalizando.
A campanha do segundo reforço (a quarta dose para a maior parte das pessoas) a nível nacional ficou longe das médias das anteriores. Até 23 de Abril (últimos dados da monitorização divulgada pela Direcção-Geral da Saúde), estavam vacinados 79% dos idosos a partir dos 80 anos (contra 97% no primeiro reforço). Mas na faixa etária entre os 50 e os 59 anos, a diferença era bem maior (45% de vacinados, contra 87% no primeiro reforço). Actualmente, vacinam-se muito poucas pessoas — na semana entre 17 e 23 de Abril, foram administradas apenas 1310 doses de reforço, um ritmo de 187 por dia.
Reduzir entregas e alargar prazos
Portugal aguarda, assim, o desfecho do processo de renegociação dos contratos com as farmacêuticas que a Comissão Europeia está a conduzir desde há algum tempo para atenuar o problema das doses em excesso, agora que o pior já passou e a Organização Mundial da Saúde já declarou o fim da covid-19 como uma emergência sanitária global.
Em Março passado, numa resposta ao Parlamento Europeu, a comissária europeia da Saúde, Stella Kyriakides, assegurava, citada pelo El País, que a Comissão estava a trabalhar com os Estados-membros e a indústria farmacêutica para encontrar “uma solução para o desequilíbrio entre a procura e a oferta” de vacinas. “Já se aprovaram várias alterações ao acordo de compra com a BioNTech-Pfizer para podermos cobrir parcialmente as necessidades dos Estados-membros. Não obstante, a Equipa Conjunta de Negociação continua a negociar uma redução das doses a entregar em 2023.”
Segundo o jornal Financial Times, que cita fontes ligadas a este processo, o acordo passa por alargar até 2026 as entregas que estavam encomendadas e se previa chegassem até ao final deste ano. Mas isso não chega para resolver o problema de todas as doses que já foram adquiridas e que correm agora o risco de ultrapassar o prazo de validade.
Enquanto as negociações decorrem, milhões de doses das vacinas vão ultrapassando os prazos de validade. Em Janeiro, a Alemanha contabilizava que seriam 36,6 milhões de doses cujos prazos estavam a expirar, e a Áustria revelou que quase 18 milhões de doses da vacina chegaram ao fim da validade e não foram usadas
Vários países têm estado a fazer pressão para que estas negociações acelerem. Com a Polónia na liderança, um grupo de países — que inclui a Bulgária, a Hungria e a Lituânia — reclama maior transparência neste processo e defende que a Pfizer e outras farmacêuticas devem aceitar renegociar as condições dos contratos e facilitar o cancelamento de encomendas, lembrando que as circunstâncias são hoje completamente diferentes. O maior contrato da UE é o que foi assinado com a Pfizer/BioNTech. Firmado no pico da pandemia, o acordo determina que a UE compre 500 milhões de doses este ano, numa altura em que as taxas de vacinação diminuíram substancialmente e a pandemia entrou numa fase endémica.
Enquanto as negociações decorrem, milhões de doses das vacinas vão ultrapassando os prazos de validade. Em Janeiro, a Alemanha contabilizava que seriam 36,6 milhões de doses cujos prazos estavam a expirar, e a Áustria revelou que quase 18 milhões de doses da vacina chegaram ao fim da validade e não foram usadas.
“Apesar de a situação epidémica estar estabilizada em toda a Europa, a Pfizer continua a planear entregar centenas de milhões de vacinas à Europa. Isto carece totalmente de sentido do ponto de vista da saúde pública, já que a maior parte destas será destruída devido ao limitado prazo de validade e à reduzida procura”, argumenta o ministro polaco da Saúde, Adam Niedzielski, numa carta aberta aos accionistas da Pfizer e que foi divulgada na última semana.
Na carta, o ministro sublinha que a Polónia recusa liminarmente a possibilidade — também adiantada pelo Financial Times — de que Bruxelas acorde com a Pfizer a entrega de 70 milhões de doses anuais até 2026, com a condição de os países pagarem metade do preço da vacina por cada dose cancelada.
Isso “não é justo”, defende o ministro da Saúde polaco, destacando que estão em causa vacinas que ainda nem sequer foram produzidas. Frontalmente contra esta “taxa de cancelamento” das encomendas, o ministro pede à Pfizer que apresente “propostas realistas que respondam à situação que [hoje é] completamente diferente na Europa”. “Em vez de mostrar solidariedade, a empresa quer obter ainda mais dinheiro de fundos alocados por Estados-membros da UE que tinham como objectivo a protecção da saúde pública”, critica.
No início, foi a corrida às vacinas contra a covid-19. Agora, há milhões de doses de sobra e muitas foram já para o lixo. Comissão Europeia está a tentar renegociar contratos com as farmacêuticas.
Quando as vacinas contra a covid-19 surgiram, em Dezembro de 2020, chegavam aos países a conta-gotas, foram racionadas e muito disputadas, numa autêntica “corrida” a nível internacional. Com a normalização da situação epidemiológica e o crescente desinteresse na vacinação de reforço, os países confrontam-se hoje com o problema inverso: não sabem o que fazer aos milhões de doses de vacinas que encomendaram no pico da crise pandémica e às que vão sobrando e têm prazos de validade curtos. Muitas doses já foram para o lixo e a Comissão Europeia está agora a tentar renegociar contratos com as farmacêuticas.
Portugal não é excepção. Até ao final do ano passado, teve de destruir "aproximadamente 3,5 milhões de doses" de vacinas e que foram adquiridas através do processo de compra centralizada conduzido pela Comissão Europeia, revela o Ministério da Saúde. É “uma taxa de inutilização de 8,5%”, contabiliza, sublinhando que representa, mesmo assim, uma das “menores taxas de inutilização a nível europeu”, graças à "conjugação da grande adesão dos portugueses à vacinação" e "uma eficaz e responsável gestão do aprovisionamento".
Os contratos com as farmacêuticas são confidenciais e os valores não são revelados, mas são muitos os milhões de euros que estão a ser desperdiçados e muitos mais os que podem vir a ser desperdiçados no futuro. Num breve balanço feito a pedido do PÚBLICO, o Ministério da Saúde não contabiliza a despesa com a aquisição de vacinas até ao momento. Adianta apenas que, entre 2020 e este ano, Portugal celebrou 14 contratos com seis fornecedores de vacinas e que foram entregues cerca de 40 milhões de um total de 61,7 milhões de doses encomendadas e adquiridas para o período até 2023.
Deste total, especifica, foram já utilizadas cerca de 28,5 milhões de doses, enquanto aproximadamente 8,1 milhões foram doadas e mais de 2,6 milhões foram revendidas a outros países.
Em teoria, portanto, Portugal deveria receber este ano mais de 20 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Mas espera-se que seja possível reduzir a quantidade e alargar os prazos de entrega das vacinas. Lembrando que há “um processo em curso” de renegociação na União Europeia, o ministério diz que “não é possível adiantar o número de entregas para 2023”.
“A Comissão Europeia, em representação dos Estados-membros da União Europeia, está a conduzir o processo de renegociação de um contrato assinado em 2021, no sentido de o ajustar às actuais circunstâncias epidemiológicas e estratégias de vacinação de cada Estado-membro, flexibilizando-se as quantidades e compromissos de entrega”, explica, em resposta escrita.
À semelhança do que está a acontecer em todo o mundo, desde que a campanha de vacinação arrancou, a adesão — que em Portugal é uma das mais elevadas do mundo — foi esfriando à medida que a situação se ia normalizando.
A campanha do segundo reforço (a quarta dose para a maior parte das pessoas) a nível nacional ficou longe das médias das anteriores. Até 23 de Abril (últimos dados da monitorização divulgada pela Direcção-Geral da Saúde), estavam vacinados 79% dos idosos a partir dos 80 anos (contra 97% no primeiro reforço). Mas na faixa etária entre os 50 e os 59 anos, a diferença era bem maior (45% de vacinados, contra 87% no primeiro reforço). Actualmente, vacinam-se muito poucas pessoas — na semana entre 17 e 23 de Abril, foram administradas apenas 1310 doses de reforço, um ritmo de 187 por dia.
Reduzir entregas e alargar prazos
Portugal aguarda, assim, o desfecho do processo de renegociação dos contratos com as farmacêuticas que a Comissão Europeia está a conduzir desde há algum tempo para atenuar o problema das doses em excesso, agora que o pior já passou e a Organização Mundial da Saúde já declarou o fim da covid-19 como uma emergência sanitária global.
Em Março passado, numa resposta ao Parlamento Europeu, a comissária europeia da Saúde, Stella Kyriakides, assegurava, citada pelo El País, que a Comissão estava a trabalhar com os Estados-membros e a indústria farmacêutica para encontrar “uma solução para o desequilíbrio entre a procura e a oferta” de vacinas. “Já se aprovaram várias alterações ao acordo de compra com a BioNTech-Pfizer para podermos cobrir parcialmente as necessidades dos Estados-membros. Não obstante, a Equipa Conjunta de Negociação continua a negociar uma redução das doses a entregar em 2023.”
Segundo o jornal Financial Times, que cita fontes ligadas a este processo, o acordo passa por alargar até 2026 as entregas que estavam encomendadas e se previa chegassem até ao final deste ano. Mas isso não chega para resolver o problema de todas as doses que já foram adquiridas e que correm agora o risco de ultrapassar o prazo de validade.
Enquanto as negociações decorrem, milhões de doses das vacinas vão ultrapassando os prazos de validade. Em Janeiro, a Alemanha contabilizava que seriam 36,6 milhões de doses cujos prazos estavam a expirar, e a Áustria revelou que quase 18 milhões de doses da vacina chegaram ao fim da validade e não foram usadas
Vários países têm estado a fazer pressão para que estas negociações acelerem. Com a Polónia na liderança, um grupo de países — que inclui a Bulgária, a Hungria e a Lituânia — reclama maior transparência neste processo e defende que a Pfizer e outras farmacêuticas devem aceitar renegociar as condições dos contratos e facilitar o cancelamento de encomendas, lembrando que as circunstâncias são hoje completamente diferentes. O maior contrato da UE é o que foi assinado com a Pfizer/BioNTech. Firmado no pico da pandemia, o acordo determina que a UE compre 500 milhões de doses este ano, numa altura em que as taxas de vacinação diminuíram substancialmente e a pandemia entrou numa fase endémica.
Enquanto as negociações decorrem, milhões de doses das vacinas vão ultrapassando os prazos de validade. Em Janeiro, a Alemanha contabilizava que seriam 36,6 milhões de doses cujos prazos estavam a expirar, e a Áustria revelou que quase 18 milhões de doses da vacina chegaram ao fim da validade e não foram usadas.
“Apesar de a situação epidémica estar estabilizada em toda a Europa, a Pfizer continua a planear entregar centenas de milhões de vacinas à Europa. Isto carece totalmente de sentido do ponto de vista da saúde pública, já que a maior parte destas será destruída devido ao limitado prazo de validade e à reduzida procura”, argumenta o ministro polaco da Saúde, Adam Niedzielski, numa carta aberta aos accionistas da Pfizer e que foi divulgada na última semana.
Na carta, o ministro sublinha que a Polónia recusa liminarmente a possibilidade — também adiantada pelo Financial Times — de que Bruxelas acorde com a Pfizer a entrega de 70 milhões de doses anuais até 2026, com a condição de os países pagarem metade do preço da vacina por cada dose cancelada.
Isso “não é justo”, defende o ministro da Saúde polaco, destacando que estão em causa vacinas que ainda nem sequer foram produzidas. Frontalmente contra esta “taxa de cancelamento” das encomendas, o ministro pede à Pfizer que apresente “propostas realistas que respondam à situação que [hoje é] completamente diferente na Europa”. “Em vez de mostrar solidariedade, a empresa quer obter ainda mais dinheiro de fundos alocados por Estados-membros da UE que tinham como objectivo a protecção da saúde pública”, critica.
5.5.23
OMS decretou o fim da pandemia de covid-19 como emergência sanitária global
Marta Leite Ferreira, in Público
Director-geral da OMS decretou em conferência de imprensa que a covid-19 deixou de ser considerada uma emergência sanitária global. Nível máximo de alerta estava activo desde 30 de Janeiro de 2020.
Mil, cento e cinquenta (1150) dias depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado a covid-19 uma pandemia, chega outro anúncio histórico: a doença provocada pelo SARS-CoV-2 deixou esta sexta-feira de ser considerada uma emergência sanitária global.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, confirmou que aceitou a recomendação do comité de emergência para baixar o nível de alarme: "É com grande esperança que declaro o fim da covid-19 como uma emergência de saúde global." E prosseguiu: "Ontem [quinta-feira], o comité de emergência reuniu-se pela 15.ª vez e recomendou-me que declarasse o fim da emergência global. Eu aceitei esse conselho."
Desde que o coronavírus foi detectado na cidade chinesa de Wuhan até agora, a covid-19 já foi responsável pela morte de cerca de sete milhões de pessoas em todo o mundo, quase 27 mil das quais em Portugal. O nível máximo de alarme em torno da covid-19 foi decretado pela primeira vez a 30 de Janeiro de 2020, há 1191 dias. A 11 de Março desse ano foi, então, considerada uma pandemia.
Nesse dia, as autoridades portuguesas registavam um total de 59 casos confirmados de infecção desde o dia 2 de Março. Agora, e de acordo com as informações mais recentes da Direcção-Geral da Saúde (DGS), são já perto de 5,6 milhões os casos diagnosticados com o SARS-CoV-2, que durante muito tempo era conhecido sobretudo como "novo coronavírus". A sua disseminação condenou a população portuguesa (e de milhões de pessoas por todo o mundo) ao confinamento domiciliário em vários períodos até 2022.
As escolas encerraram, as ruas ficaram desertas e os profissionais de saúde enfrentaram provações históricas para atenderem aos milhares de casos internados que acorriam aos hospitais em todo o mundo. Nos piores momentos da pandemia, o país assistiu à morte de centenas de pessoas por dia à conta da covid-19 enquanto se habituava às novas rotinas (muitas delas já abandonadas): era preciso usar máscaras, realizar testes rápidos antes de se aceder a restaurantes e manter o isolamento sempre que havia um contacto de risco.
Até agora, a covid-19 era considerada uma "emergência sanitária global" (o nível de alerta máximo emitido pela OMS) por tratar-se de um evento extraordinário, representar um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional e requerer uma resposta internacional coordenada.
Mas o Comité de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional concluiu, numa sessão deliberativa esta quinta-feira, que a covid-19 já não pode ser considerada "um evento incomum ou inesperado", mesmo tendo em consideração que o vírus continua a evoluir e a circular. Por isso, já não obedece aos parâmetros para ser classificada como emergência sanitária global.
Na conferência de imprensa, Tedros Adhanom Ghebreyesus adiantou que a pandemia está "em tendência de queda, com a imunidade da população a aumentar devido à vacinação e infecção, a mortalidade a diminuir e a pressão sobre os sistemas de saúde a decrescer". Num comunicado publicado entretanto pela OMS, a organização considerou que "está na hora de fazer a transição para a gestão de longo prazo da pandemia" porque "a covid-19 é agora um problema de saúde estabelecido e contínuo".
Director-geral da OMS decretou em conferência de imprensa que a covid-19 deixou de ser considerada uma emergência sanitária global. Nível máximo de alerta estava activo desde 30 de Janeiro de 2020.
Mil, cento e cinquenta (1150) dias depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado a covid-19 uma pandemia, chega outro anúncio histórico: a doença provocada pelo SARS-CoV-2 deixou esta sexta-feira de ser considerada uma emergência sanitária global.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, confirmou que aceitou a recomendação do comité de emergência para baixar o nível de alarme: "É com grande esperança que declaro o fim da covid-19 como uma emergência de saúde global." E prosseguiu: "Ontem [quinta-feira], o comité de emergência reuniu-se pela 15.ª vez e recomendou-me que declarasse o fim da emergência global. Eu aceitei esse conselho."
Desde que o coronavírus foi detectado na cidade chinesa de Wuhan até agora, a covid-19 já foi responsável pela morte de cerca de sete milhões de pessoas em todo o mundo, quase 27 mil das quais em Portugal. O nível máximo de alarme em torno da covid-19 foi decretado pela primeira vez a 30 de Janeiro de 2020, há 1191 dias. A 11 de Março desse ano foi, então, considerada uma pandemia.
Nesse dia, as autoridades portuguesas registavam um total de 59 casos confirmados de infecção desde o dia 2 de Março. Agora, e de acordo com as informações mais recentes da Direcção-Geral da Saúde (DGS), são já perto de 5,6 milhões os casos diagnosticados com o SARS-CoV-2, que durante muito tempo era conhecido sobretudo como "novo coronavírus". A sua disseminação condenou a população portuguesa (e de milhões de pessoas por todo o mundo) ao confinamento domiciliário em vários períodos até 2022.
As escolas encerraram, as ruas ficaram desertas e os profissionais de saúde enfrentaram provações históricas para atenderem aos milhares de casos internados que acorriam aos hospitais em todo o mundo. Nos piores momentos da pandemia, o país assistiu à morte de centenas de pessoas por dia à conta da covid-19 enquanto se habituava às novas rotinas (muitas delas já abandonadas): era preciso usar máscaras, realizar testes rápidos antes de se aceder a restaurantes e manter o isolamento sempre que havia um contacto de risco.
Até agora, a covid-19 era considerada uma "emergência sanitária global" (o nível de alerta máximo emitido pela OMS) por tratar-se de um evento extraordinário, representar um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional e requerer uma resposta internacional coordenada.
Mas o Comité de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional concluiu, numa sessão deliberativa esta quinta-feira, que a covid-19 já não pode ser considerada "um evento incomum ou inesperado", mesmo tendo em consideração que o vírus continua a evoluir e a circular. Por isso, já não obedece aos parâmetros para ser classificada como emergência sanitária global.
Na conferência de imprensa, Tedros Adhanom Ghebreyesus adiantou que a pandemia está "em tendência de queda, com a imunidade da população a aumentar devido à vacinação e infecção, a mortalidade a diminuir e a pressão sobre os sistemas de saúde a decrescer". Num comunicado publicado entretanto pela OMS, a organização considerou que "está na hora de fazer a transição para a gestão de longo prazo da pandemia" porque "a covid-19 é agora um problema de saúde estabelecido e contínuo".
20.2.23
Europa atinge segundo maior pico de excesso de mortalidade desde o início da pandemia
Alexandra Campos, in Público online
Portugal registou 1099 mortes acima do esperado entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. No início deste ano, o Instituto Ricardo Jorge identificou já mais 483 óbitos em excesso.
2022 voltou a ser um ano com um elevado excesso de mortalidade por todas as causas na maior parte dos países europeus. Numa altura em que o peso directo da covid-19 diminuiu substancialmente, nas últimas semanas de 2022, nos 28 países e regiões que reportam dados ao projecto de monitorização da mortalidade em excesso EuroMomo, atingiu-se mesmo o segundo maior pico de óbitos acima do esperado desde o início da pandemia, suplantado apenas pelo extraordinário cume observado logo na Primavera de 2020.
Para este pico, observável no site do EuroMomo (European Monitoring of Excessive Mortality), contribuíram essencialmente países como a Alemanha e o Reino Unido, e, ainda que em menor escala, França, Países Baixos, além da Áustria, Dinamarca e Bélgica, entre outros, onde o frio e a epidemia de gripe sazonal e de outros vírus respiratórios terão tido um maior impacto na mortalidade.
Portugal também viu a curva das mortes acima do esperado subir um pouco no final de 2022. Ao longo do ano passado, Portugal surge nos gráficos do EuroMomo com dois picos destacados de excesso de mortalidade na sequência das duas ondas de calor, em Junho e Julho, e, de novo, observa-se um pequeno cume no fim de 2022, mas o excesso de mortalidade que aí sobressai até é inferior ao verificado em Invernos de anos anteriores à pandemia, como em 2018 e 2019.
Neste inverno, o Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa) identificou já um período de excesso de mortalidade em três semanas do final de 2022 - 1099 óbitos acima do esperado, entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. Um aumento de mortalidade que, enfatiza, “correspondeu ao pico de actividade gripal em Portugal”. Foi na região Norte que teve maior duração (quatro semanas) e impacto (584 óbitos) e, por faixas etárias, a população com mais de 85 destaca-se claramente como a principal atingida, com "1033 óbitos" em excesso.
Já no início deste ano, o Insa identificou um novo período de excesso de mortalidade, que começou em 30 de Janeiro e “ainda está a decorrer”, atingindo agora exclusivamente a população com mais de 75 anos. Em duas semanas (30 de Janeiro a 12 de Fevereiro), estima que tenham ocorrido 483 mortes acima do esperado, excesso que “deverá estar relacionado com o período de frio extremo que ocorreu no início do ano”.
Relativamente ao excesso de mortalidade observado no final de 2022 em vários países europeus, este estará “provavelmente associado à epidemia de gripe, que esta época ocorreu mais precocemente em toda a Europa”, justifica, por escrito, Ana Paula Rodrigues, do Departamento de Epidemiologia do Insa, que pede cautela na análise dos dados do EuroMomo. Porquê? Porque é difícil estabelecer comparações com períodos de excesso de mortalidade anteriores, uma vez que “as linhas de base (mortalidade esperada) não têm em conta a mortalidade observada desde 2020, por causa das importantes variações da mortalidade observadas com a pandemia”.
Em 2022 houve menos 313 óbitos do que no ano anterior
Seja como for, os números actualizados no final da semana passada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que acabámos 2022 com um total de 124.872 óbitos, menos 313 do que em 2021, o ano em que tivemos um pico extraordinário de mortalidade em Janeiro e Fevereiro por causa da pior onda de covid-19. Mas, se a comparação for feita com 2019, a diferença é substancial – foram mais 12.529 óbitos.
O INE destaca o indicador do excesso de mortalidade calculado pelo Eurostat, que compara o número de óbitos registados em cada mês nos países da União Europeia e na Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, com o número médio de mortes no período 2016-2019. Segundo o Eurostat, Portugal registou em 2022 excesso de mortalidade em todos os meses, menos em Janeiro. Exceptuando a Bulgária e a Roménia, no ano passado todos os os países da União Europeia apresentaram excesso de mortalidade, assinala o instituto.
O que parece claro é que na maior parte dos países não se regressou ao padrão de mortalidade anterior à pandemia, como era esperado. O fenómeno do elevado excesso de mortalidade por todas as causa está a intrigar os especialistas, que colocam em uníssono a questão: por que é que continuam a morrer tantas pessoas? A resposta não é simples.
“Normalmente nas situações de excesso de mortalidade não há um único factor”, enfatiza Joan Carles March, professor da Escuela Andaluza de Salud Pública ao jornal El Mundo. “Creio que os três eixos em que assenta o excesso de mortalidade são a covid, as temperaturas e os problemas da assistência sanitária”, especula.
Temos que olhar com cuidado para os gráficos do EuroMomo, começa por advertir também o especialista em bioestatística Paulo Jorge Nogueira, que estuda há décadas o fenómeno da mortalidade. Antes da pandemia de covid-19, em anos de epidemia de gripe e períodos de frio mais intensos, havia sempre picos de excesso de mortalidade, lembra.
Relativamente ao elevado número de mortes por todas as causas registado em 2022, o professor na Escola Nacional de Saúde Pública acredita que se fica a dever em parte ao envelhecimento da população – que estava a aumentar "consecutivamente" há vários anos, ainda que com oscilações anuais. “Mas o envelhecimento da população não explica tudo”, assume.
“Toda a gente achava que íamos voltar ao antigamente, mas este padrão de mortalidade veio para ficar e não é de esperar que as coisas mudem muito”, reflecte.“Há factores sociais e económicos, há toda uma panóplia de motivos, e há pequenos sinais que indicam que pode estar a ocorrer uma degradação, um retrocesso, mas agora é preciso estudar, olhar para as causas de morte, não apenas para o excesso”, recomenda.
“O habitual era os elevados excessos de mortalidade estarem associados a fenómenos agudos, como a gripe ou o calor. Termos a mortalidade persistentemente acima de linha de base é uma mudança de padrão e um alerta”, sustenta Vasco Ricoca Peixoto, investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, que sugere igualmente "um conjunto grande de hipóteses" para explicar a continuidade deste fenómeno.
“Sabemos que a infecção [por SARS-CoV-2] aumenta o risco de descompensação de várias doenças, por um lado”, e, por outro, é preciso também levar em conta “o impacto social da pandemia nas populações já vulneráveis em termos sócio-económicos e de isolamento”. A somar a tudo isto, “houve muito menos consultas, cirurgias, rastreios” no primeiro ano da pandemia “e algumas coisas nunca se recuperam”, observa. "Os serviços de saúde também se ressentiram, alguns perderam profissionais", acrescenta, defendendo igualmente que agora é preciso esmiuçar e olhar para as causas de morte.
Portugal registou 1099 mortes acima do esperado entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. No início deste ano, o Instituto Ricardo Jorge identificou já mais 483 óbitos em excesso.
2022 voltou a ser um ano com um elevado excesso de mortalidade por todas as causas na maior parte dos países europeus. Numa altura em que o peso directo da covid-19 diminuiu substancialmente, nas últimas semanas de 2022, nos 28 países e regiões que reportam dados ao projecto de monitorização da mortalidade em excesso EuroMomo, atingiu-se mesmo o segundo maior pico de óbitos acima do esperado desde o início da pandemia, suplantado apenas pelo extraordinário cume observado logo na Primavera de 2020.
Para este pico, observável no site do EuroMomo (European Monitoring of Excessive Mortality), contribuíram essencialmente países como a Alemanha e o Reino Unido, e, ainda que em menor escala, França, Países Baixos, além da Áustria, Dinamarca e Bélgica, entre outros, onde o frio e a epidemia de gripe sazonal e de outros vírus respiratórios terão tido um maior impacto na mortalidade.
Portugal também viu a curva das mortes acima do esperado subir um pouco no final de 2022. Ao longo do ano passado, Portugal surge nos gráficos do EuroMomo com dois picos destacados de excesso de mortalidade na sequência das duas ondas de calor, em Junho e Julho, e, de novo, observa-se um pequeno cume no fim de 2022, mas o excesso de mortalidade que aí sobressai até é inferior ao verificado em Invernos de anos anteriores à pandemia, como em 2018 e 2019.
Neste inverno, o Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa) identificou já um período de excesso de mortalidade em três semanas do final de 2022 - 1099 óbitos acima do esperado, entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. Um aumento de mortalidade que, enfatiza, “correspondeu ao pico de actividade gripal em Portugal”. Foi na região Norte que teve maior duração (quatro semanas) e impacto (584 óbitos) e, por faixas etárias, a população com mais de 85 destaca-se claramente como a principal atingida, com "1033 óbitos" em excesso.
Já no início deste ano, o Insa identificou um novo período de excesso de mortalidade, que começou em 30 de Janeiro e “ainda está a decorrer”, atingindo agora exclusivamente a população com mais de 75 anos. Em duas semanas (30 de Janeiro a 12 de Fevereiro), estima que tenham ocorrido 483 mortes acima do esperado, excesso que “deverá estar relacionado com o período de frio extremo que ocorreu no início do ano”.
Relativamente ao excesso de mortalidade observado no final de 2022 em vários países europeus, este estará “provavelmente associado à epidemia de gripe, que esta época ocorreu mais precocemente em toda a Europa”, justifica, por escrito, Ana Paula Rodrigues, do Departamento de Epidemiologia do Insa, que pede cautela na análise dos dados do EuroMomo. Porquê? Porque é difícil estabelecer comparações com períodos de excesso de mortalidade anteriores, uma vez que “as linhas de base (mortalidade esperada) não têm em conta a mortalidade observada desde 2020, por causa das importantes variações da mortalidade observadas com a pandemia”.
Em 2022 houve menos 313 óbitos do que no ano anterior
Seja como for, os números actualizados no final da semana passada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que acabámos 2022 com um total de 124.872 óbitos, menos 313 do que em 2021, o ano em que tivemos um pico extraordinário de mortalidade em Janeiro e Fevereiro por causa da pior onda de covid-19. Mas, se a comparação for feita com 2019, a diferença é substancial – foram mais 12.529 óbitos.
O INE destaca o indicador do excesso de mortalidade calculado pelo Eurostat, que compara o número de óbitos registados em cada mês nos países da União Europeia e na Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, com o número médio de mortes no período 2016-2019. Segundo o Eurostat, Portugal registou em 2022 excesso de mortalidade em todos os meses, menos em Janeiro. Exceptuando a Bulgária e a Roménia, no ano passado todos os os países da União Europeia apresentaram excesso de mortalidade, assinala o instituto.
O que parece claro é que na maior parte dos países não se regressou ao padrão de mortalidade anterior à pandemia, como era esperado. O fenómeno do elevado excesso de mortalidade por todas as causa está a intrigar os especialistas, que colocam em uníssono a questão: por que é que continuam a morrer tantas pessoas? A resposta não é simples.
“Normalmente nas situações de excesso de mortalidade não há um único factor”, enfatiza Joan Carles March, professor da Escuela Andaluza de Salud Pública ao jornal El Mundo. “Creio que os três eixos em que assenta o excesso de mortalidade são a covid, as temperaturas e os problemas da assistência sanitária”, especula.
Temos que olhar com cuidado para os gráficos do EuroMomo, começa por advertir também o especialista em bioestatística Paulo Jorge Nogueira, que estuda há décadas o fenómeno da mortalidade. Antes da pandemia de covid-19, em anos de epidemia de gripe e períodos de frio mais intensos, havia sempre picos de excesso de mortalidade, lembra.
Relativamente ao elevado número de mortes por todas as causas registado em 2022, o professor na Escola Nacional de Saúde Pública acredita que se fica a dever em parte ao envelhecimento da população – que estava a aumentar "consecutivamente" há vários anos, ainda que com oscilações anuais. “Mas o envelhecimento da população não explica tudo”, assume.
“Toda a gente achava que íamos voltar ao antigamente, mas este padrão de mortalidade veio para ficar e não é de esperar que as coisas mudem muito”, reflecte.“Há factores sociais e económicos, há toda uma panóplia de motivos, e há pequenos sinais que indicam que pode estar a ocorrer uma degradação, um retrocesso, mas agora é preciso estudar, olhar para as causas de morte, não apenas para o excesso”, recomenda.
“O habitual era os elevados excessos de mortalidade estarem associados a fenómenos agudos, como a gripe ou o calor. Termos a mortalidade persistentemente acima de linha de base é uma mudança de padrão e um alerta”, sustenta Vasco Ricoca Peixoto, investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, que sugere igualmente "um conjunto grande de hipóteses" para explicar a continuidade deste fenómeno.
“Sabemos que a infecção [por SARS-CoV-2] aumenta o risco de descompensação de várias doenças, por um lado”, e, por outro, é preciso também levar em conta “o impacto social da pandemia nas populações já vulneráveis em termos sócio-económicos e de isolamento”. A somar a tudo isto, “houve muito menos consultas, cirurgias, rastreios” no primeiro ano da pandemia “e algumas coisas nunca se recuperam”, observa. "Os serviços de saúde também se ressentiram, alguns perderam profissionais", acrescenta, defendendo igualmente que agora é preciso esmiuçar e olhar para as causas de morte.
2.12.22
Pandemia fez diminuir esperança de vida à nascença
Joana Gorjão Henriques, in Público
Esperança de vida à nascença está agora nos 80,72 anos. Pandemia fez aumentar número de mortes sobretudo entre quem tem mais de 60 anos.A esperança de vida à nascença diminuiu 4,1 meses para toda a população: fixou-se nos 80,72 anos quando era de 81,06 anos. Este é o resultado do aumento do número de óbitos no contexto da pandemia, sobretudo entre quem tem 60 ou mais anos, mostram os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Do triénio anterior, 2018-2020, para este, 2019-2021, a redução da esperança de vida à nascença “foi equivalente ao progresso observado nos últimos quatro períodos, retomando valores próximos dos estimados para 2015-2017 (com 80,78 anos)”, afirma o INE.
A diminuição foi maior nos homens do que nas mulheres, mostram ainda as tábuas de mortalidade: à nascença, os homens podiam esperar viver 77,67 anos e as mulheres 83,37 anos, o que é uma diminuição de 4,8 meses para os homens e de 3,6 meses para as mulheres.
Já a esperança de vida aos 65 anos, no período 2019-2021, também diminuiu 4,1 meses e foi agora estimada em 19,35 anos para o total da população. Igualmente se verificaram diferenças entre os sexos: aos 65 anos, os homens podiam esperar viver mais 17,38 anos e as mulheres 20,80 anos, o que correspondeu a uma redução de, respectivamente, 4,6 e 3,7 meses relativamente a 2018-2020. Segundo o INE, a redução da esperança de vida aos 65 anos neste triénio retomou valores próximos dos estimados para 2014-2016 (19,31 anos) e equivaleu ao progresso observado nos últimos cinco períodos, retomando valores próximos dos estimados para 2014-2016 (19,31 anos).
Esperança de vida à nascença está agora nos 80,72 anos. Pandemia fez aumentar número de mortes sobretudo entre quem tem mais de 60 anos.A esperança de vida à nascença diminuiu 4,1 meses para toda a população: fixou-se nos 80,72 anos quando era de 81,06 anos. Este é o resultado do aumento do número de óbitos no contexto da pandemia, sobretudo entre quem tem 60 ou mais anos, mostram os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Do triénio anterior, 2018-2020, para este, 2019-2021, a redução da esperança de vida à nascença “foi equivalente ao progresso observado nos últimos quatro períodos, retomando valores próximos dos estimados para 2015-2017 (com 80,78 anos)”, afirma o INE.
A diminuição foi maior nos homens do que nas mulheres, mostram ainda as tábuas de mortalidade: à nascença, os homens podiam esperar viver 77,67 anos e as mulheres 83,37 anos, o que é uma diminuição de 4,8 meses para os homens e de 3,6 meses para as mulheres.
Já a esperança de vida aos 65 anos, no período 2019-2021, também diminuiu 4,1 meses e foi agora estimada em 19,35 anos para o total da população. Igualmente se verificaram diferenças entre os sexos: aos 65 anos, os homens podiam esperar viver mais 17,38 anos e as mulheres 20,80 anos, o que correspondeu a uma redução de, respectivamente, 4,6 e 3,7 meses relativamente a 2018-2020. Segundo o INE, a redução da esperança de vida aos 65 anos neste triénio retomou valores próximos dos estimados para 2014-2016 (19,31 anos) e equivaleu ao progresso observado nos últimos cinco períodos, retomando valores próximos dos estimados para 2014-2016 (19,31 anos).
21.11.22
Pandemia: a (dura) arca de recordações das crianças
Joana Amorim, in JN
Muito se quantificou e calculou nestes agrestes anos de pandemia. Letalidades, incidências, positividades, mortalidades, efetividades. Votando as crianças à "invisibilidade". As suas emoções e vivências. Sentires e pulsares. Que não se medem. Que não se traduzem em equações. Escutam-se. Assim, tão simplesmente. Para nos dizerem: "Era muito difícil ser criança, tínhamos que ficar em casa fechados".
Muito se quantificou e calculou nestes agrestes anos de pandemia. Letalidades, incidências, positividades, mortalidades, efetividades. Votando as crianças à "invisibilidade". As suas emoções e vivências. Sentires e pulsares. Que não se medem. Que não se traduzem em equações. Escutam-se. Assim, tão simplesmente. Para nos dizerem: "Era muito difícil ser criança, tínhamos que ficar em casa fechados".
[artigo disponível apenas para assinantes]
3.11.22
“Impacto da pandemia foi muito forte” e agravou pobreza em Portugal
Joana Russo Belo, in Correio do Minho
” Elizabeth Santos, socióloga da EAPN - Rede Europeia Anti-Pobreza, foi a convidada do Programa ‘Da Europa para o Minho’, da Rádio Antena Minho. Relatório de 2021 dá conta de um aumento de 12 por cento da população em risco de pobreza ou exclusão.
Dois milhões e 300 mil pessoas vivem em Portugal em risco de pobreza ou exclusão social. Números preocupantes relativos a 2021 - que representam um aumento de 12 por cento face ao ano anterior, o que corresponde a mais 256 mil pessoas - e revelados pela socióloga Elizabeth Santos, da EAPN – European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza) no Programa ‘Da Europa para o Minho’, da Rádio Antena Minho, conduzido por Paulo Monteiro e o eurodeputado José Manuel Fernandes.
Num programa em que foi analisado o recente relatório preliminar de 2022 do Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza, Elizabeth Santos revelou que Portugal tem 22,4 por cento da população em risco de pobreza ou exclusão social e passou a ser o oitavo país da UE27 com maior proporção da população a viver este tipo de vulnerabilidade social e económica.
“Este inquérito de condições de vida e rendimento é um inquérito publicado pelo INE, mas é, simultaneamente, europeu e baseia-se em quatro indicadores, o mais antigo de todos, a pobreza monetária. Em 2020, o limiar de pobreza era de 554 euros em Portugal e esse é o indicador mais antigo. Desde 2003, foram aplicados mais outros indicadores: por um lado olhar para a pobreza do ponto de vista da inserção no mercado de trabalho, não só como fonte de rendimento, mas de integração social, e depois outro indicador de privação material severa”, começou por explicar a socióloga, dando conta de que está em pobreza ou exclusão social “quem está numa dessas situações, sendo que algumas pessoas podem estar nas três".
“No último inquérito, 81 mil pessoas estavam nas três dimensões de pobreza e exclusão social. Em 2021, estava em pobreza 22 por cento da nossa população, o que equivale a cerca de 2 milhões e 300 mil pessoas e foi um aumento, claramente, elevadas face aos outros países da União Europeia. Comparando os dados de 2020 e 2021, houve um aumento de 12 por cento na pobreza e exclusão social em Portugal, só a Eslováquia teve um aumento superior a esse, todos os outros países estão inferiores e, por exemplo, o Luxemburgo, que foi o terceiro país com maior aumento, teve um aumento de seis por cento. Isso demonstra um impacto, claramente, muito forte da pandemia em Portugal”, sublinhou.
Reforçando esse “impacto da pandemia muito elevado no geral”, Elizabeth Santos diz ter sido “transversal” abrangendo “todos os grupos sociais”, mas alguns grupos estão destacados. “No nosso relatório, destacamos em primeiro lugar os idosos, não porque tenham tido um maior aumento - o maior aumento foi dos 18 aos 64 anos - mas o caso dos idosos é particularmente importante no nosso ponto de vista. Até 2008, eram o grupo onde era a pobreza era mais elevada, depois houve uma diminuição na vulnerabilidade deste grupo e passou a ser as crianças o grupo mais vulnerável. Os últimos dados indicam que a pobreza na infância não diminuiu, aliás aumentou em todos os grupos etários, mas os idosos voltam a ser o grupo mais vulnerável. Tiveram forte impacto não só na pobreza monetária, mas na privação material e social severa e houve uma distância na vulnerabilidade. Sabemos o impacto que teve a pandemia neste grupo, como o isolamento social, para além dos constrangimentos financeiros, a pandemia trouxe esse isolamento social dos mais idosos e achamos ser importante chamar atenção para este grupos”, frisou a responsável, destacando ainda neste lote de mais vulneráveis os estrangeiros, em que os números aumentaram 85 por cento.
Segundo a socióloga, outro aumento importante foi “a pobreza dos trabalhadores”: “Portugal tem níveis de pobreza entre os trabalhadores muito elevados e com a pandemia aumentou ainda mais, passámos a ser o 7.º país com maior pobreza entre os trabalhadores. Houve uma redução importante do rendimento, tivemos trabalhadores que passaram a ter rendimentos muito baixos, associado a isso temos a precariedade laboral, quem passou para o desemprego, quem teve de suspender o trabalho e a questão dos baixos salários”.
“Com baixos salários qualquer redução do rendimento leva a que possam estar em maior risco de pobreza e exclusão social e a pandemia veio trazer essa redução de trabalho, seja pelo lay-off, implicou um corte no rendimento, mesmo respeitando um teto mínimo houve redução, porque não foram consideradas outras partes do rendimento, como horas extras, fins-de-semana, turnos, o que era uma parte do rendimento importante para se estar acima do limiar da pobreza”, explicou, lembrando que a pandemia “levou a que várias pessoas deixassem de ter qualquer rendimento”.
“Baixos salários são uma das principais causas da pobreza”
“Os baixos salários são uma das principais causas da pobreza em Portugal”. A opinião foi deixada pela socióloga Elizabeth Santos no Programa ‘Da Europa para o Minho’, reforçando a ideia de que “as causas da pobreza são estruturais e uma está associada ao mercado de trabalho e aos salários”.
“Se formos caracterizar a população que está em situação de pobreza, o que os dados do último inquérito nos dizem é que, olhando à população dos 18 aos 64, quase 48 por cento está inserida no mercado de trabalho e, se olharmos para a população em pobreza que está inserida no mercado de trabalho, 90 por cento trabalha a tempo inteiro, por isso, os rendimentos do trabalho são importantes para prevenir situação de pobreza. Os agregados mais vulneráveis à pobreza são os monoparentais, que só têm um adulto inserido no mercado de trabalho, assim como as famílias numerosas com três ou mais crianças e depois os idosos que vivem sozinhos e aí temos as questões das pensões sociais”, explicou.
Para a socióloga, “o mercado de trabalho é estrutural e intervirmos a esse nível é fundamental para combatermos a pobreza a médio e longo prazo”.
Questionada por Paulo Monteiro quanto ao futuro, Elizabeth Santos lembrou que olhar para os dados estatísticos “significa olhar com cuidado”, já que os dados deste ano vão ser divulgados em Novembro pelo INE e “não sabemos se vão retratar esta situação”.
“A realidade será difícil, nos números de 2021 temos alguns dados de alerta, aliás um Eurobarómetro de Abril e Maio já era um sinal de alerta e dizia que 74 por cento da nossa população não estava preparada para um aumento dos preços e 57 por cento já dizia estar a sentir uma redução do nível de vida pelo aumento dos custos”, revelou.
E prosseguiu. “Se olharmos para 2021, temos sinais de alerta não só pelo número de pessoas em pobreza, mas pelos números dessa privação: 31 por cento da população não tinha uma almofada financeira de 540 euros para fazer face a uma despesa inesperada, sem pedir dinheiro em- prestado a outras pessoas; já tínhamos cerca de 58 por cento da população com dificuldades para chegar ao fim do mês com despesas pagas e, no momento actual, com o aumento do custo de vida esta proporção será superior. Na questão alimentar, a proporção era baixa, mas 2,4 por cento da população não tinha capacidade para comer carne ou peixe de dois em dois dias e nos idosos sobe para quase 8 por cento. São sinais de alerta e a realidade será grave”, alertou.
Outro alerta foi deixado pelo eurodeputado José Manuel Fernandes, considerando que “vai haver terreno fértil para o aumento dos populismos”. “Disso não tenho grande dúvida, mas não podemos retroceder nos valores europeus de liberdade, de democracia, do estado de direito e valores como a defesa da dignidade humana. São valores que em cima deles podemos construir um desenvolvimento e combater a pobreza, procurando que todos melhorem a sua situação. Nós temos condições para aumentarmos os salários em Portugal, para sermos mais competitivos, mais produtivos, não nos falta dinheiro da União Europeia, temos recursos financeiros que podem melhorar os salários de todos e termos um país competitivo. Claro que há um trabalho interno que é diminuir a burocracia, temos das maiores cargas fiscais da OCDE, a velocidade dos tribunais, há todo um trabalho que temos que fazer e todo este desenvolvimento tem que ser construído em cima de valores europeus”, frisou.
” Elizabeth Santos, socióloga da EAPN - Rede Europeia Anti-Pobreza, foi a convidada do Programa ‘Da Europa para o Minho’, da Rádio Antena Minho. Relatório de 2021 dá conta de um aumento de 12 por cento da população em risco de pobreza ou exclusão.
Dois milhões e 300 mil pessoas vivem em Portugal em risco de pobreza ou exclusão social. Números preocupantes relativos a 2021 - que representam um aumento de 12 por cento face ao ano anterior, o que corresponde a mais 256 mil pessoas - e revelados pela socióloga Elizabeth Santos, da EAPN – European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza) no Programa ‘Da Europa para o Minho’, da Rádio Antena Minho, conduzido por Paulo Monteiro e o eurodeputado José Manuel Fernandes.
Num programa em que foi analisado o recente relatório preliminar de 2022 do Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza, Elizabeth Santos revelou que Portugal tem 22,4 por cento da população em risco de pobreza ou exclusão social e passou a ser o oitavo país da UE27 com maior proporção da população a viver este tipo de vulnerabilidade social e económica.
“Este inquérito de condições de vida e rendimento é um inquérito publicado pelo INE, mas é, simultaneamente, europeu e baseia-se em quatro indicadores, o mais antigo de todos, a pobreza monetária. Em 2020, o limiar de pobreza era de 554 euros em Portugal e esse é o indicador mais antigo. Desde 2003, foram aplicados mais outros indicadores: por um lado olhar para a pobreza do ponto de vista da inserção no mercado de trabalho, não só como fonte de rendimento, mas de integração social, e depois outro indicador de privação material severa”, começou por explicar a socióloga, dando conta de que está em pobreza ou exclusão social “quem está numa dessas situações, sendo que algumas pessoas podem estar nas três".
“No último inquérito, 81 mil pessoas estavam nas três dimensões de pobreza e exclusão social. Em 2021, estava em pobreza 22 por cento da nossa população, o que equivale a cerca de 2 milhões e 300 mil pessoas e foi um aumento, claramente, elevadas face aos outros países da União Europeia. Comparando os dados de 2020 e 2021, houve um aumento de 12 por cento na pobreza e exclusão social em Portugal, só a Eslováquia teve um aumento superior a esse, todos os outros países estão inferiores e, por exemplo, o Luxemburgo, que foi o terceiro país com maior aumento, teve um aumento de seis por cento. Isso demonstra um impacto, claramente, muito forte da pandemia em Portugal”, sublinhou.
Reforçando esse “impacto da pandemia muito elevado no geral”, Elizabeth Santos diz ter sido “transversal” abrangendo “todos os grupos sociais”, mas alguns grupos estão destacados. “No nosso relatório, destacamos em primeiro lugar os idosos, não porque tenham tido um maior aumento - o maior aumento foi dos 18 aos 64 anos - mas o caso dos idosos é particularmente importante no nosso ponto de vista. Até 2008, eram o grupo onde era a pobreza era mais elevada, depois houve uma diminuição na vulnerabilidade deste grupo e passou a ser as crianças o grupo mais vulnerável. Os últimos dados indicam que a pobreza na infância não diminuiu, aliás aumentou em todos os grupos etários, mas os idosos voltam a ser o grupo mais vulnerável. Tiveram forte impacto não só na pobreza monetária, mas na privação material e social severa e houve uma distância na vulnerabilidade. Sabemos o impacto que teve a pandemia neste grupo, como o isolamento social, para além dos constrangimentos financeiros, a pandemia trouxe esse isolamento social dos mais idosos e achamos ser importante chamar atenção para este grupos”, frisou a responsável, destacando ainda neste lote de mais vulneráveis os estrangeiros, em que os números aumentaram 85 por cento.
Segundo a socióloga, outro aumento importante foi “a pobreza dos trabalhadores”: “Portugal tem níveis de pobreza entre os trabalhadores muito elevados e com a pandemia aumentou ainda mais, passámos a ser o 7.º país com maior pobreza entre os trabalhadores. Houve uma redução importante do rendimento, tivemos trabalhadores que passaram a ter rendimentos muito baixos, associado a isso temos a precariedade laboral, quem passou para o desemprego, quem teve de suspender o trabalho e a questão dos baixos salários”.
“Com baixos salários qualquer redução do rendimento leva a que possam estar em maior risco de pobreza e exclusão social e a pandemia veio trazer essa redução de trabalho, seja pelo lay-off, implicou um corte no rendimento, mesmo respeitando um teto mínimo houve redução, porque não foram consideradas outras partes do rendimento, como horas extras, fins-de-semana, turnos, o que era uma parte do rendimento importante para se estar acima do limiar da pobreza”, explicou, lembrando que a pandemia “levou a que várias pessoas deixassem de ter qualquer rendimento”.
“Baixos salários são uma das principais causas da pobreza”
“Os baixos salários são uma das principais causas da pobreza em Portugal”. A opinião foi deixada pela socióloga Elizabeth Santos no Programa ‘Da Europa para o Minho’, reforçando a ideia de que “as causas da pobreza são estruturais e uma está associada ao mercado de trabalho e aos salários”.
“Se formos caracterizar a população que está em situação de pobreza, o que os dados do último inquérito nos dizem é que, olhando à população dos 18 aos 64, quase 48 por cento está inserida no mercado de trabalho e, se olharmos para a população em pobreza que está inserida no mercado de trabalho, 90 por cento trabalha a tempo inteiro, por isso, os rendimentos do trabalho são importantes para prevenir situação de pobreza. Os agregados mais vulneráveis à pobreza são os monoparentais, que só têm um adulto inserido no mercado de trabalho, assim como as famílias numerosas com três ou mais crianças e depois os idosos que vivem sozinhos e aí temos as questões das pensões sociais”, explicou.
Para a socióloga, “o mercado de trabalho é estrutural e intervirmos a esse nível é fundamental para combatermos a pobreza a médio e longo prazo”.
Questionada por Paulo Monteiro quanto ao futuro, Elizabeth Santos lembrou que olhar para os dados estatísticos “significa olhar com cuidado”, já que os dados deste ano vão ser divulgados em Novembro pelo INE e “não sabemos se vão retratar esta situação”.
“A realidade será difícil, nos números de 2021 temos alguns dados de alerta, aliás um Eurobarómetro de Abril e Maio já era um sinal de alerta e dizia que 74 por cento da nossa população não estava preparada para um aumento dos preços e 57 por cento já dizia estar a sentir uma redução do nível de vida pelo aumento dos custos”, revelou.
E prosseguiu. “Se olharmos para 2021, temos sinais de alerta não só pelo número de pessoas em pobreza, mas pelos números dessa privação: 31 por cento da população não tinha uma almofada financeira de 540 euros para fazer face a uma despesa inesperada, sem pedir dinheiro em- prestado a outras pessoas; já tínhamos cerca de 58 por cento da população com dificuldades para chegar ao fim do mês com despesas pagas e, no momento actual, com o aumento do custo de vida esta proporção será superior. Na questão alimentar, a proporção era baixa, mas 2,4 por cento da população não tinha capacidade para comer carne ou peixe de dois em dois dias e nos idosos sobe para quase 8 por cento. São sinais de alerta e a realidade será grave”, alertou.
Outro alerta foi deixado pelo eurodeputado José Manuel Fernandes, considerando que “vai haver terreno fértil para o aumento dos populismos”. “Disso não tenho grande dúvida, mas não podemos retroceder nos valores europeus de liberdade, de democracia, do estado de direito e valores como a defesa da dignidade humana. São valores que em cima deles podemos construir um desenvolvimento e combater a pobreza, procurando que todos melhorem a sua situação. Nós temos condições para aumentarmos os salários em Portugal, para sermos mais competitivos, mais produtivos, não nos falta dinheiro da União Europeia, temos recursos financeiros que podem melhorar os salários de todos e termos um país competitivo. Claro que há um trabalho interno que é diminuir a burocracia, temos das maiores cargas fiscais da OCDE, a velocidade dos tribunais, há todo um trabalho que temos que fazer e todo este desenvolvimento tem que ser construído em cima de valores europeus”, frisou.
24.10.22
Pandemia aumentou números de pobres pela primeira vez desde 2014
Por ECO e Lusa
No primeiro ano de pandemia, o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou 12,5% face a 2019. Foi a primeira vez desde 2014 que este número cresceu.
Em 2020, o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou 12,5% face a 2019. O ano da chegada Covid-19 marcou o primeiro ano desde 2014 em que cresceu o número de desfavorecidos cresceu, segundo os dados da Pordata para o Dia Internacional da Pobreza, citados pelo Diário de Notícias (acesso livre), pelo Jornal de Negócios (acesso pago) e Público (acesso condicionado).
“Portugal desviou-se da trajetória de redução da pobreza que vinha a fazer desde 2014. Em 2020 houve um agravamento. Sem os apoios sociais, 4,4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais”, afirma Luísa Louro, diretora da Pordata.
Nesse sentido, Portugal está ainda longe de atingir a meta de ter menos 765 mil pobres até 2030. Já no que diz respeito ao risco de pobreza ou de exclusão social, Portugal recuou a níveis de 2017 (43,7 % contra 43,5 %). Em relação aos 27 países da União Europeia, Portugal é o segundo em que há mais pessoas a viverem em más condições materiais, isto é, em alojamentos com más condições, com 25% da população nesta situação.
Instituições recorrem mais ao Banco Alimentar para enfrentar aumento de famílias carenciadas
O aumento generalizado do preço dos alimentos, a par do gás e da eletricidade, está a ter impacto nas instituições sociais, que fazem mais pedidos ao Banco Alimentar para conseguirem apoiar o número crescente de famílias que pedem ajuda.
O fenómeno, apesar de ainda não estar quantificado, já é sentido no Banco Alimentar Contra a Fome (BA) desde há algum tempo, com um aumento de pedidos por parte das instituições, não só porque têm mais famílias a pedir-lhes ajuda, como as próprias instituições “precisam de mais dinheiro para fazer face ao custo dos consumos das suas próprias cozinhas”, adiantou a presidente do BA, Isabel Jonet.
A ‘Ajuda de Mãe’ é uma das instituições que recebe bens alimentares através do Banco Alimentar, que usa, não só para a confeção de refeições nas três residências, onde acolhem grávidas adultas e adolescentes ou mães adolescentes com os seus bebés, mas também para a entrega de cabazes com alimentos e confeção de refeições no refeitório.
Em declarações à agência Lusa, a presidente desta associação de solidariedade social contou que em 2021 prestaram apoio a 1.200 famílias de mães grávidas com bens de primeira necessidade, além do apoio social e psicológico.
Madalena Teixeira Duarte adiantou que a Segurança Social atualizou em 2022, e desde janeiro, o valor das comparticipações pagas às instituições e que o reforço da verba paga para os acolhimentos residenciais também foi superior ao habitual “para fazer face ao aumento do custo de vida”, mas garante que “não é suficiente”.
“Só para lhe dar um exemplo: noutro dia estava a falar com a responsável por uma das residências, que me dizia que tudo o que dantes gastávamos em carne dava para dois meses e agora não chega para um mês e meio”, exemplificou, admitindo que isso possa vir a ter como consequência que mães e bebés tenham que “comer ligeiramente diferente”.
Por outro lado, apontou que a ‘Ajuda de Mãe’ está a apoiar mais famílias – em 2021 ajudou cerca de 700 – com a entrega de produtos de higiene ou fraldas porque também estes bens ficaram mais caros e, por isso, difíceis de adquirir por estas pessoas.
C. Lopes chegou a Portugal com a família, vinda do Brasil, em novembro do ano passado. Desempregada desde o sétimo mês de gravidez, precisou de recorrer à ‘Ajuda de Mãe’ há cerca de quatro meses, quando soube que teria de comprar medicamentos específicos para a asma e pele atópica de um dos seus três filhos e percebeu que só com o salário de cerca de 740 euros do marido não seria possível fazer face a todas as despesas de uma família de quase seis pessoas.
Da ‘Ajuda de Mãe’ tem agora “bastante suporte na gestação, cuidados, ajuda de alimentação”, esta última na forma de um cabaz de alimentos que chega a casa de C. com “o básico”, desde arroz, massa, feijão, azeite, “às vezes biscoitos para as crianças”, iogurtes, entre outras coisas. Carne, peixe ou fruta já tem de ser a família a comprar.
“Economizamos em tudo, em gás, em água. Agora também comecei a receber um cabaz da junta de freguesia e juntando os dois, um pouquinho daqui, um pouquinho dali, dá para poder passar o mês”, contou. Quando chegou em novembro, C. encontrou os produtos alimentares com “valores bem diferentes do que estão agora”.
“Coisas que eu comprava para as crianças, não compro agora. Eles gostam de bastantes frutas, verdura. O que eu compro nesta semana, [na] semana que vem já não compro por conta do preço. Os biscoitos aumentaram, o pão aumentou. Tem muita coisa de que eles gostam que eu não compro como no inicio. Aumentou tudo, na verdade”, lamentou. Ainda assim, e apesar das dificuldades, a segurança e a qualidade da escola pública justificam a decisão de imigrar para Portugal.
Segundo a presidente da ‘Ajuda de Mãe’, a instituição recebe do Banco Alimentar produtos bens como arroz, massa ou enlatados, com os quais ajuda cerca de 60 famílias e fornece as residências, enquanto de outros parceiros vêm as fraldas ou os produtos de higiene. Uma grande superfície doava o peixe, mas outro tipo de alimentos, como carne, fruta, legumes ou ovos é a própria instituição que tem de comprar.
Para fazer face a essa, como a outras despesas, a instituição também tenta criar fundos próprios e Madalena Teixeira Duarte contou que foi criado um projeto de combate ao desperdício em que os excedentes alimentares, e alguns donativos, eram transformados em doces e compotas, que depois eram vendidos no Natal. “De repente, o açúcar passou de 0,89 euros para 1,29 euros. Agora de que maneira é que as nossas compotas vão ser vendidas”, questionou.
A responsável alertou que “isto são tudo dificuldades que as instituições enfrentam”, não só no que compram no dia-a-dia, mas também com o aumento do preço do gás ou da eletricidade, mas também porque lhes “restringe esta capacidade de angariação de fundos que depois iria contribuir para o apoio efetivo” de famílias.
Segundo a presidente da ‘Ajuda de Mãe’, o aumento do custo de vida vai obrigar a instituição a repensar gastos e se calhar a abdicar de alguns projetos, já que aliado ao aumento dos preços estará o aumento do salário mínimo nacional em 2023.
Madalena Teixeira Duarte receia que o futuro vá “ser um tempo difícil”, com cada vez mais pessoas a pedir ajuda junto das instituições, uma realidade que a presidente do Banco Alimentar constata diariamente, quando abre os mails que chegam à sua caixa de correio eletrónico.
Segundo Isabel Jonet, para já, há mais pedidos de ajuda, mas ainda não há redução no número de doações, tendo em conta que a mais recente campanha de recolha decorreu em maio e a próxima será no final de novembro. Ao mesmo tempo, o volume doado pela indústria e pela agricultura mantém-se inalterado, o que poderá querer dizer que ou ajustaram a produção ou mantêm o volume de vendas.
Defendeu que deve ser explicado às famílias que a conjuntura atual não é de curto prazo e alertou que a inflação vai refletir-se por largos meses nos orçamentos das famílias, com “maior incidência nas famílias mais carenciadas porque não têm folga orçamental”.
Para a presidente do BA, é, por isso, “muito previsível que vá aumentar o número de pessoas que vão ficar numa situação muito difícil e em pobreza”, tendo em conta o aumento dos preços dos alimentos, da energia e das taxas de juro em simultâneo.
(Notícia atualizada às 9h02 com mais informação)
No primeiro ano de pandemia, o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou 12,5% face a 2019. Foi a primeira vez desde 2014 que este número cresceu.
Em 2020, o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou 12,5% face a 2019. O ano da chegada Covid-19 marcou o primeiro ano desde 2014 em que cresceu o número de desfavorecidos cresceu, segundo os dados da Pordata para o Dia Internacional da Pobreza, citados pelo Diário de Notícias (acesso livre), pelo Jornal de Negócios (acesso pago) e Público (acesso condicionado).
“Portugal desviou-se da trajetória de redução da pobreza que vinha a fazer desde 2014. Em 2020 houve um agravamento. Sem os apoios sociais, 4,4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais”, afirma Luísa Louro, diretora da Pordata.
Nesse sentido, Portugal está ainda longe de atingir a meta de ter menos 765 mil pobres até 2030. Já no que diz respeito ao risco de pobreza ou de exclusão social, Portugal recuou a níveis de 2017 (43,7 % contra 43,5 %). Em relação aos 27 países da União Europeia, Portugal é o segundo em que há mais pessoas a viverem em más condições materiais, isto é, em alojamentos com más condições, com 25% da população nesta situação.
Instituições recorrem mais ao Banco Alimentar para enfrentar aumento de famílias carenciadas
O aumento generalizado do preço dos alimentos, a par do gás e da eletricidade, está a ter impacto nas instituições sociais, que fazem mais pedidos ao Banco Alimentar para conseguirem apoiar o número crescente de famílias que pedem ajuda.
O fenómeno, apesar de ainda não estar quantificado, já é sentido no Banco Alimentar Contra a Fome (BA) desde há algum tempo, com um aumento de pedidos por parte das instituições, não só porque têm mais famílias a pedir-lhes ajuda, como as próprias instituições “precisam de mais dinheiro para fazer face ao custo dos consumos das suas próprias cozinhas”, adiantou a presidente do BA, Isabel Jonet.
A ‘Ajuda de Mãe’ é uma das instituições que recebe bens alimentares através do Banco Alimentar, que usa, não só para a confeção de refeições nas três residências, onde acolhem grávidas adultas e adolescentes ou mães adolescentes com os seus bebés, mas também para a entrega de cabazes com alimentos e confeção de refeições no refeitório.
Em declarações à agência Lusa, a presidente desta associação de solidariedade social contou que em 2021 prestaram apoio a 1.200 famílias de mães grávidas com bens de primeira necessidade, além do apoio social e psicológico.
Madalena Teixeira Duarte adiantou que a Segurança Social atualizou em 2022, e desde janeiro, o valor das comparticipações pagas às instituições e que o reforço da verba paga para os acolhimentos residenciais também foi superior ao habitual “para fazer face ao aumento do custo de vida”, mas garante que “não é suficiente”.
“Só para lhe dar um exemplo: noutro dia estava a falar com a responsável por uma das residências, que me dizia que tudo o que dantes gastávamos em carne dava para dois meses e agora não chega para um mês e meio”, exemplificou, admitindo que isso possa vir a ter como consequência que mães e bebés tenham que “comer ligeiramente diferente”.
Por outro lado, apontou que a ‘Ajuda de Mãe’ está a apoiar mais famílias – em 2021 ajudou cerca de 700 – com a entrega de produtos de higiene ou fraldas porque também estes bens ficaram mais caros e, por isso, difíceis de adquirir por estas pessoas.
C. Lopes chegou a Portugal com a família, vinda do Brasil, em novembro do ano passado. Desempregada desde o sétimo mês de gravidez, precisou de recorrer à ‘Ajuda de Mãe’ há cerca de quatro meses, quando soube que teria de comprar medicamentos específicos para a asma e pele atópica de um dos seus três filhos e percebeu que só com o salário de cerca de 740 euros do marido não seria possível fazer face a todas as despesas de uma família de quase seis pessoas.
Da ‘Ajuda de Mãe’ tem agora “bastante suporte na gestação, cuidados, ajuda de alimentação”, esta última na forma de um cabaz de alimentos que chega a casa de C. com “o básico”, desde arroz, massa, feijão, azeite, “às vezes biscoitos para as crianças”, iogurtes, entre outras coisas. Carne, peixe ou fruta já tem de ser a família a comprar.
“Economizamos em tudo, em gás, em água. Agora também comecei a receber um cabaz da junta de freguesia e juntando os dois, um pouquinho daqui, um pouquinho dali, dá para poder passar o mês”, contou. Quando chegou em novembro, C. encontrou os produtos alimentares com “valores bem diferentes do que estão agora”.
“Coisas que eu comprava para as crianças, não compro agora. Eles gostam de bastantes frutas, verdura. O que eu compro nesta semana, [na] semana que vem já não compro por conta do preço. Os biscoitos aumentaram, o pão aumentou. Tem muita coisa de que eles gostam que eu não compro como no inicio. Aumentou tudo, na verdade”, lamentou. Ainda assim, e apesar das dificuldades, a segurança e a qualidade da escola pública justificam a decisão de imigrar para Portugal.
Segundo a presidente da ‘Ajuda de Mãe’, a instituição recebe do Banco Alimentar produtos bens como arroz, massa ou enlatados, com os quais ajuda cerca de 60 famílias e fornece as residências, enquanto de outros parceiros vêm as fraldas ou os produtos de higiene. Uma grande superfície doava o peixe, mas outro tipo de alimentos, como carne, fruta, legumes ou ovos é a própria instituição que tem de comprar.
Para fazer face a essa, como a outras despesas, a instituição também tenta criar fundos próprios e Madalena Teixeira Duarte contou que foi criado um projeto de combate ao desperdício em que os excedentes alimentares, e alguns donativos, eram transformados em doces e compotas, que depois eram vendidos no Natal. “De repente, o açúcar passou de 0,89 euros para 1,29 euros. Agora de que maneira é que as nossas compotas vão ser vendidas”, questionou.
A responsável alertou que “isto são tudo dificuldades que as instituições enfrentam”, não só no que compram no dia-a-dia, mas também com o aumento do preço do gás ou da eletricidade, mas também porque lhes “restringe esta capacidade de angariação de fundos que depois iria contribuir para o apoio efetivo” de famílias.
Segundo a presidente da ‘Ajuda de Mãe’, o aumento do custo de vida vai obrigar a instituição a repensar gastos e se calhar a abdicar de alguns projetos, já que aliado ao aumento dos preços estará o aumento do salário mínimo nacional em 2023.
Madalena Teixeira Duarte receia que o futuro vá “ser um tempo difícil”, com cada vez mais pessoas a pedir ajuda junto das instituições, uma realidade que a presidente do Banco Alimentar constata diariamente, quando abre os mails que chegam à sua caixa de correio eletrónico.
Segundo Isabel Jonet, para já, há mais pedidos de ajuda, mas ainda não há redução no número de doações, tendo em conta que a mais recente campanha de recolha decorreu em maio e a próxima será no final de novembro. Ao mesmo tempo, o volume doado pela indústria e pela agricultura mantém-se inalterado, o que poderá querer dizer que ou ajustaram a produção ou mantêm o volume de vendas.
Defendeu que deve ser explicado às famílias que a conjuntura atual não é de curto prazo e alertou que a inflação vai refletir-se por largos meses nos orçamentos das famílias, com “maior incidência nas famílias mais carenciadas porque não têm folga orçamental”.
Para a presidente do BA, é, por isso, “muito previsível que vá aumentar o número de pessoas que vão ficar numa situação muito difícil e em pobreza”, tendo em conta o aumento dos preços dos alimentos, da energia e das taxas de juro em simultâneo.
(Notícia atualizada às 9h02 com mais informação)
Pandemia agravou risco de pobreza e exclusão social em Portugal
in RTP
O Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza divulgou esta segunda-feira o relatório preliminar de 2022, que espelha o impacto de dois anos de pandemia nas condições de vida da população portuguesa. A população em risco de pobreza ou exclusão social aumentou em 12 por cento face ao ano anterior, o que corresponde a mais 256 mil pessoas.
"Os dados do risco de pobreza monetária e das pessoas em agregados com intensidade laboral muito reduzida reportam a 2020, o primeiro ano da crise pandémica, enquanto os da privação material e social severa reportam ao ano de 2021, o segundo ano de pandemia", lê-se no relatório.
Em comparação com os restantes países da União Europeia (UE27), apenas a Eslováquia registou um aumento de pobreza ou exclusão social superior ao registado em Portugal.
Não sendo apresentados os dados da Eslováquia para estes indicadores, Portugal apresenta-se como o Estado-membro com maior aumento dos níveis de desigualdades de rendimento face ao inquérito anterior.Com 22,4 por cento da população em risco de pobreza ou exclusão social, Portugal passou a ser o oitavo país da UE27 com maior proporção da população a viver este tipo de vulnerabilidade social e económica.
Os resultados do estudo demonstram ainda um elevado aumento das desigualdades em Portugal - que se traduziu numa subida de 5,8 por cento no coeficiente de Gini (que mede a desigualdade) e de 13 por cento no indicador S80/S20 (indicador de desigualdade na distribuição de rendimento), que compara os rendimentos de 20 por cento com rendimentos mais baixos e 20 por cento com rendimentos mais elevados.
O Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza divulgou esta segunda-feira o relatório preliminar de 2022, que espelha o impacto de dois anos de pandemia nas condições de vida da população portuguesa. A população em risco de pobreza ou exclusão social aumentou em 12 por cento face ao ano anterior, o que corresponde a mais 256 mil pessoas.
"Os dados do risco de pobreza monetária e das pessoas em agregados com intensidade laboral muito reduzida reportam a 2020, o primeiro ano da crise pandémica, enquanto os da privação material e social severa reportam ao ano de 2021, o segundo ano de pandemia", lê-se no relatório.
Em comparação com os restantes países da União Europeia (UE27), apenas a Eslováquia registou um aumento de pobreza ou exclusão social superior ao registado em Portugal.
Não sendo apresentados os dados da Eslováquia para estes indicadores, Portugal apresenta-se como o Estado-membro com maior aumento dos níveis de desigualdades de rendimento face ao inquérito anterior.Com 22,4 por cento da população em risco de pobreza ou exclusão social, Portugal passou a ser o oitavo país da UE27 com maior proporção da população a viver este tipo de vulnerabilidade social e económica.
Os resultados do estudo demonstram ainda um elevado aumento das desigualdades em Portugal - que se traduziu numa subida de 5,8 por cento no coeficiente de Gini (que mede a desigualdade) e de 13 por cento no indicador S80/S20 (indicador de desigualdade na distribuição de rendimento), que compara os rendimentos de 20 por cento com rendimentos mais baixos e 20 por cento com rendimentos mais elevados.
19.9.22
Luxemburgo. Mais de 20% da população em risco de pobreza ou exclusão social em 2021
in Contacto
Já na UE, 21,7% da população estava em 2021 em risco de pobreza ou exclusão social.
De 2020 para 2021, a percentagem de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social aumentou no Luxemburgo, de 19,9% para 21,1%. Esta ligeira subida acompanha a tendência europeia, segundo dados divulgados pelo Eurostat.
Luxemburgo. 79% das famílias sofrem com encargos da habitação
De facto, em 2021, 21,7% da população da União Europeia (UE) estava em risco de pobreza ou exclusão social, uma ligeira subida face aos 21,6% do ano anterior.
Das 95,4 milhões de pessoas na UE (94,8 milhões em 2020) em risco de pobreza, cerca de 5,9 milhões (1,3% do total da população da UE) vivia em agregados expostos simultaneamente aos três riscos de pobreza e exclusão social: risco de pobreza, ou vivendo em agregados com intensidade laboral ‘per capita’ muito reduzida ou em situação de privação material e social severa.
Portugal com 22,4% da população nesta condição
Em 2021, 27 milhões estavam em situação de privação material ou social severa e 29,3 milhões viviam em agregados com baixa intensidade laboral.
A Roménia (34%), a Bulgária (32%), Grécia e Espanha (28% cada) foram os Estados-membros com maiores taxas de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social.
Há cada vez mais gente sem acesso à saúde no Luxemburgo
Em contraste, as menores taxas de pessoas em risco foram registadas na República Checa (11%), Eslovénia (13%) e Finlândia (14%).
Em Portugal, havia em 2021 22,4% de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social (20,0% em 2020), a oitava maior taxa entre os Estados-membros e acima da média da UE (21,7%).
(Com Lusa)
Já na UE, 21,7% da população estava em 2021 em risco de pobreza ou exclusão social.
De 2020 para 2021, a percentagem de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social aumentou no Luxemburgo, de 19,9% para 21,1%. Esta ligeira subida acompanha a tendência europeia, segundo dados divulgados pelo Eurostat.
Luxemburgo. 79% das famílias sofrem com encargos da habitação
De facto, em 2021, 21,7% da população da União Europeia (UE) estava em risco de pobreza ou exclusão social, uma ligeira subida face aos 21,6% do ano anterior.
Das 95,4 milhões de pessoas na UE (94,8 milhões em 2020) em risco de pobreza, cerca de 5,9 milhões (1,3% do total da população da UE) vivia em agregados expostos simultaneamente aos três riscos de pobreza e exclusão social: risco de pobreza, ou vivendo em agregados com intensidade laboral ‘per capita’ muito reduzida ou em situação de privação material e social severa.
Portugal com 22,4% da população nesta condição
Em 2021, 27 milhões estavam em situação de privação material ou social severa e 29,3 milhões viviam em agregados com baixa intensidade laboral.
A Roménia (34%), a Bulgária (32%), Grécia e Espanha (28% cada) foram os Estados-membros com maiores taxas de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social.
Há cada vez mais gente sem acesso à saúde no Luxemburgo
Em contraste, as menores taxas de pessoas em risco foram registadas na República Checa (11%), Eslovénia (13%) e Finlândia (14%).
Em Portugal, havia em 2021 22,4% de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social (20,0% em 2020), a oitava maior taxa entre os Estados-membros e acima da média da UE (21,7%).
(Com Lusa)
Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social
Natália Faria, in Público online
A pandemia fez com que Portugal subisse de 13.º para 8.º na lista de países europeus com maior risco de pobreza ou exclusão social. O primeiro ano da pandemia criou 230 mil novos pobres.
A pandemia, já se sabia, fez subir para 2,3 milhões os portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 22,4% da população. Os dados divulgados esta quinta-feira pelo Eurostat confirmam este agravamento, mas vão ainda mais longe: mostram que Portugal passou a ser o oitavo pior da União Europeia na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social em 2021.
Antes da pandemia, a taxa de pobreza ou exclusão nacional era a 13.ª mais elevada. Agora, Portugal sai-se bastante pior nesta fotografia comparativa, porquanto este aumento de 2,4 pontos percentuais representa o pior agravamento nas condições de vida das famílias a nível europeu.
Os dados relativos ao bloco europeu permitem perceber que, apesar da pandemia, 12 países conseguiram diminuir a taxa de pobreza. Em termos médios, a taxa de pobreza e exclusão social subiu para 21,7%, numa ligeira subida face aos 21,6% do ano anterior, afectando agora 95,4 milhões de pessoas. Nos extremos da lista estão a Roménia, que soma 34,4% da sua população em situação de pobreza ou exclusão, e, no outro lado, a República Checa, com apenas 10,7% da sua população ameaçada por estes problemas.
Este agravamento comparativo não devia surpreender ninguém. O Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgado em Dezembro de 2021 e referente aos rendimentos do ano anterior, já mostrava que o primeiro ano da pandemia fez 228 mil novos pobres, o equivalente ao número de cidadãos do Porto.
Analisadas as contas daquele que foi então o primeiro retrato das condições de vida pós-pandemia, 18,4% dos portugueses estavam já abaixo da linha de pobreza (mais 2,2 pontos percentuais do que no ano anterior). Tratou-se do maior agravamento desde 2003, numa inversão da tendência decrescente que se vinha registando desde 2015.
Quando ao risco de pobreza somamos o da exclusão social, aumentam para 2,3 milhões os portugueses em maus-lençóis. Recorde-se a este propósito que a categorização estatística rotula como estando em risco de pobreza todos os que são obrigados a viver com menos de 554 euros líquidos por mês. Já o risco de pobreza ou exclusão social abarca ainda todos aqueles que vivem em agregados familiares com intensidade laboral per capita reduzida (que trabalham em média menos de 20% do tempo de trabalho disponível) ou em situação de privação material e social severa, isto é, com dificuldade em aceder a pelo menos cinco de um conjunto de 13 itens: que abarca desde a dificuldade em custear uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias, manter a casa aquecida ou custear o acesso a roupa e calçado.
Sem surpresas também, as mulheres foram as mais prejudicadas, a par dos desempregados e das famílias monoparentais. Entre estas, duas em cada três famílias com crianças são pobres, o que traduz um agravamento em 5% da pobreza, dos anteriores 25% para 30%. Do mesmo modo, o aumento da pobreza entre as mulheres foi de 2,5 pontos percentuais (passou dos 16,7% de 2019 para os 19,2 por cento de 2020), acima do agravamento de 1,9 pontos percentuais entre os homens.
Não menos preocupante foi o agravamento da pobreza entre os trabalhadores: entre 2019 e 2020, o número de trabalhadores pobres subiu de 9,6% para 11,2%. O Governo não ignora esta realidade, porquanto fez constar do seu programa, que entrou em Abril na Assembleia da República, o propósito de retirar 660 mil pessoas da pobreza até 2030, entre as quais 170 mil crianças e 230 mil trabalhadores.
A pandemia fez com que Portugal subisse de 13.º para 8.º na lista de países europeus com maior risco de pobreza ou exclusão social. O primeiro ano da pandemia criou 230 mil novos pobres.
A pandemia, já se sabia, fez subir para 2,3 milhões os portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 22,4% da população. Os dados divulgados esta quinta-feira pelo Eurostat confirmam este agravamento, mas vão ainda mais longe: mostram que Portugal passou a ser o oitavo pior da União Europeia na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social em 2021.
Antes da pandemia, a taxa de pobreza ou exclusão nacional era a 13.ª mais elevada. Agora, Portugal sai-se bastante pior nesta fotografia comparativa, porquanto este aumento de 2,4 pontos percentuais representa o pior agravamento nas condições de vida das famílias a nível europeu.
Os dados relativos ao bloco europeu permitem perceber que, apesar da pandemia, 12 países conseguiram diminuir a taxa de pobreza. Em termos médios, a taxa de pobreza e exclusão social subiu para 21,7%, numa ligeira subida face aos 21,6% do ano anterior, afectando agora 95,4 milhões de pessoas. Nos extremos da lista estão a Roménia, que soma 34,4% da sua população em situação de pobreza ou exclusão, e, no outro lado, a República Checa, com apenas 10,7% da sua população ameaçada por estes problemas.
Este agravamento comparativo não devia surpreender ninguém. O Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgado em Dezembro de 2021 e referente aos rendimentos do ano anterior, já mostrava que o primeiro ano da pandemia fez 228 mil novos pobres, o equivalente ao número de cidadãos do Porto.
Analisadas as contas daquele que foi então o primeiro retrato das condições de vida pós-pandemia, 18,4% dos portugueses estavam já abaixo da linha de pobreza (mais 2,2 pontos percentuais do que no ano anterior). Tratou-se do maior agravamento desde 2003, numa inversão da tendência decrescente que se vinha registando desde 2015.
Quando ao risco de pobreza somamos o da exclusão social, aumentam para 2,3 milhões os portugueses em maus-lençóis. Recorde-se a este propósito que a categorização estatística rotula como estando em risco de pobreza todos os que são obrigados a viver com menos de 554 euros líquidos por mês. Já o risco de pobreza ou exclusão social abarca ainda todos aqueles que vivem em agregados familiares com intensidade laboral per capita reduzida (que trabalham em média menos de 20% do tempo de trabalho disponível) ou em situação de privação material e social severa, isto é, com dificuldade em aceder a pelo menos cinco de um conjunto de 13 itens: que abarca desde a dificuldade em custear uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias, manter a casa aquecida ou custear o acesso a roupa e calçado.
Sem surpresas também, as mulheres foram as mais prejudicadas, a par dos desempregados e das famílias monoparentais. Entre estas, duas em cada três famílias com crianças são pobres, o que traduz um agravamento em 5% da pobreza, dos anteriores 25% para 30%. Do mesmo modo, o aumento da pobreza entre as mulheres foi de 2,5 pontos percentuais (passou dos 16,7% de 2019 para os 19,2 por cento de 2020), acima do agravamento de 1,9 pontos percentuais entre os homens.
Não menos preocupante foi o agravamento da pobreza entre os trabalhadores: entre 2019 e 2020, o número de trabalhadores pobres subiu de 9,6% para 11,2%. O Governo não ignora esta realidade, porquanto fez constar do seu programa, que entrou em Abril na Assembleia da República, o propósito de retirar 660 mil pessoas da pobreza até 2030, entre as quais 170 mil crianças e 230 mil trabalhadores.
29.8.22
Governo aprova fim de máscaras nos transportes públicos (incluindo aviões) e farmácias
Liliana Borges, in Público on-line
Nos hospitais e lares o uso da máscara continuará a ser obrigatório. O executivo aprovou também uma declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela pelo período de um ano.
O uso obrigatório de máscara em transportes públicos irá terminar, anunciou o Governo esta quinta-feira, no final de uma reunião do Conselho de Ministros. Segundo a ministra da Saúde, Marta Temido, há uma “tendência estável de casos” covid-19 e condições para acabar com as máscaras em autocarros, comboios, táxis, TVDE (Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de Plataforma Electrónica) ou aviões. A utilização de máscara deixará também de ser obrigatória em farmácias. Nos hospitais e lares o uso continuará a ser obrigatório.
O fim do uso obrigatório de máscara entrará em vigor após publicação em Diário da República.
O comunicado divulgado pelo executivo no final da reunião do Governo explica que “com o intuito de proteger quem se encontre em situação de maior vulnerabilidade, o uso de máscaras ou viseiras mantém-se obrigatório em estabelecimentos e serviços de saúde, e em estruturas residenciais ou de acolhimento ou serviços de apoio domiciliário para populações vulneráveis, pessoas idosas ou pessoas com deficiência, bem como unidades de cuidados continuados integrados da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados”.
O mesmo comunicado acrescenta que tendo em conta o “desenvolvimento positivo da situação epidemiológica, considera-se oportuno avançar na eliminação de mais medidas restritivas, assegurando sempre a proporcionalidade destas às circunstâncias da infecção que se verificam em cada momento e independentemente da necessidade da sua modelação futura, designadamente em função da sazonalidade”.
O Conselho de Ministros aprovou também a prorrogação da declaração da situação de alerta em todo o território nacional continental, no âmbito da pandemia da covid-19, a qual se manterá em vigor até às 23h59 do dia 30 de Setembro de 2022.
Vacina de reforço arranca no dia 5
Em resposta aos jornalistas, a ministra da Saúde anunciou que a vacinação de reforço contra a covid-19 e contra a gripe sazonal arranca a 5 de Setembro. Marta Temido detalhou ainda que só no dia 2 de Setembro é que haverá a apresentação da estratégia de reforço de vacinação contra a covid-19, um dia depois de a Agência Europeia de Medicamentos emitir um parecer a propósito utilização de vacinas combinadas contra a covid-19 e a gripe.
A expectativa do Governo é que Portugal comece a receber os primeiros lotes durante essa semana. “Estamos a trabalhar nesse contexto e no sentido de que a resposta seja sobretudo destinada à protecção da população mais vulnerável, num contexto em que antecipamos um aumento da procura dos serviços de saúde”, disse.
A ministra da Saúde garantiu ainda que o Governo está a trabalhar “com os seus serviços e com os seus grupos técnicos” para que a resposta dos serviços de saúde, nomeadamente na ginecologia/obstetrícia possa ser “redesenhada”. O Governo espera ter resultados “no início de Outubro” para discutir a reorganização das maternidades.
Situação de calamidade na serra da Estrela durará um ano
No mesmo encontro semanal do Conselho de Ministros foi ainda aprovada a declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela. Em declarações aos jornalistas, a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, detalhou que a situação de calamidade nesta região durará um ano.
“A situação de calamidade que aqui é aprovada prende-se com um conjunto de necessidades específicas e de segurança naquele parque natural e não se confundem com medidas de apoio aos territórios afectados”, justificou Mariana Vieira da Silva.
Segundo a ministra da Presidência, o levantamento que será feito no terreno e nas áreas afectadas “inclui não apenas os municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, mas também todos os restantes concelhos do país que tenham uma área ardida igual ou superior a 4500 hectares ou 10% da sua área durante este ano de 2022”. com David Santiago
Nos hospitais e lares o uso da máscara continuará a ser obrigatório. O executivo aprovou também uma declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela pelo período de um ano.
O uso obrigatório de máscara em transportes públicos irá terminar, anunciou o Governo esta quinta-feira, no final de uma reunião do Conselho de Ministros. Segundo a ministra da Saúde, Marta Temido, há uma “tendência estável de casos” covid-19 e condições para acabar com as máscaras em autocarros, comboios, táxis, TVDE (Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de Plataforma Electrónica) ou aviões. A utilização de máscara deixará também de ser obrigatória em farmácias. Nos hospitais e lares o uso continuará a ser obrigatório.
O fim do uso obrigatório de máscara entrará em vigor após publicação em Diário da República.
O comunicado divulgado pelo executivo no final da reunião do Governo explica que “com o intuito de proteger quem se encontre em situação de maior vulnerabilidade, o uso de máscaras ou viseiras mantém-se obrigatório em estabelecimentos e serviços de saúde, e em estruturas residenciais ou de acolhimento ou serviços de apoio domiciliário para populações vulneráveis, pessoas idosas ou pessoas com deficiência, bem como unidades de cuidados continuados integrados da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados”.
O mesmo comunicado acrescenta que tendo em conta o “desenvolvimento positivo da situação epidemiológica, considera-se oportuno avançar na eliminação de mais medidas restritivas, assegurando sempre a proporcionalidade destas às circunstâncias da infecção que se verificam em cada momento e independentemente da necessidade da sua modelação futura, designadamente em função da sazonalidade”.
O Conselho de Ministros aprovou também a prorrogação da declaração da situação de alerta em todo o território nacional continental, no âmbito da pandemia da covid-19, a qual se manterá em vigor até às 23h59 do dia 30 de Setembro de 2022.
Vacina de reforço arranca no dia 5
Em resposta aos jornalistas, a ministra da Saúde anunciou que a vacinação de reforço contra a covid-19 e contra a gripe sazonal arranca a 5 de Setembro. Marta Temido detalhou ainda que só no dia 2 de Setembro é que haverá a apresentação da estratégia de reforço de vacinação contra a covid-19, um dia depois de a Agência Europeia de Medicamentos emitir um parecer a propósito utilização de vacinas combinadas contra a covid-19 e a gripe.
A expectativa do Governo é que Portugal comece a receber os primeiros lotes durante essa semana. “Estamos a trabalhar nesse contexto e no sentido de que a resposta seja sobretudo destinada à protecção da população mais vulnerável, num contexto em que antecipamos um aumento da procura dos serviços de saúde”, disse.
A ministra da Saúde garantiu ainda que o Governo está a trabalhar “com os seus serviços e com os seus grupos técnicos” para que a resposta dos serviços de saúde, nomeadamente na ginecologia/obstetrícia possa ser “redesenhada”. O Governo espera ter resultados “no início de Outubro” para discutir a reorganização das maternidades.
Situação de calamidade na serra da Estrela durará um ano
No mesmo encontro semanal do Conselho de Ministros foi ainda aprovada a declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela. Em declarações aos jornalistas, a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, detalhou que a situação de calamidade nesta região durará um ano.
“A situação de calamidade que aqui é aprovada prende-se com um conjunto de necessidades específicas e de segurança naquele parque natural e não se confundem com medidas de apoio aos territórios afectados”, justificou Mariana Vieira da Silva.
Segundo a ministra da Presidência, o levantamento que será feito no terreno e nas áreas afectadas “inclui não apenas os municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, mas também todos os restantes concelhos do país que tenham uma área ardida igual ou superior a 4500 hectares ou 10% da sua área durante este ano de 2022”. com David Santiago
21.7.22
Depois de dois anos de restrições, esperados mais emigrantes em Portugal no Verão
Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Paulo Cafofo, espera que “possam perspectivar em Portugal uma oportunidade de investir”. Associação Cap Magellan tem previstas várias acções de acolhimento e esclarecimento em três pontos da fronteira portuguesa: Vilar Formoso, Vila Nova de Raia e Valença.
Após dois anos de restrições impostas pela pandemia de covid-19, é esperada uma forte presença de emigrantes em Portugal nestas férias de Verão, o que é motivo de regozijo, mas também de preocupações com a segurança rodoviária.“Teremos este ano uma presença significativa, após dois anos de pandemia, em que as viagens tiveram restrições e as próprias pessoas acabaram por não se deslocar tanto como habitualmente faziam”, disse à agência Lusa o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Paulo Cafofo.
E adiantou: “Será um ano em cheio para Portugal acolher de braços abertos os portugueses e portuguesas que estão no mundo”.
Para Paulo Cafofo é grande a expectativa em relação à presença de emigrantes portugueses e luso-descendentes em Portugal nestas férias, restabelecendo assim uma ligação física ao país que a pandemia interrompeu. “Desejamos um regresso com boa energia, que tragam não só o seu exemplo daquilo que nos dão enquanto inspiração de quem vence na vida com muito empreendedorismo e coragem, mas também tragam investimentos”, referiu. “Também é um dos nossos objectivos que estes portugueses mantenham a ligação com o país, com as visitas, a deslocação, mas também que possam perspectivar em Portugal uma oportunidade de investir, de realizar sonhos e, por isso, esperamos que venham em segurança”, adiantou.
Paulo Cafofo, que estará na fronteira de Vilar Formoso no próximo dia 30, numa sessão de boas-vindas aos emigrantes portugueses, alertou para a necessidade de as viagens serem feitas em segurança, de modo a que este seja um regresso “em alegria”.
Especialmente atenta a este regresso rodoviário, a associação Cap Magellan tem previstas várias acções de acolhimento e esclarecimento em três pontos da fronteira portuguesa: Vilar Formoso, Vila Nova de Raia e Valença.
A Cap Magellan, uma associação de jovens lusófonos da Europa, que promove a língua portuguesa, a cultura lusófona e acções de cidadania, promove este ano a 20ª edição da campanha de segurança rodoviária que visa alertar para os perigos das longas viagens, como a fadiga e o excesso de velocidade.
Gabriela Vieira, coordenadora desta campanha de segurança rodoviária, explicou à Lusa que são esperados muitos emigrantes portugueses nas estradas portuguesas, rumo a Portugal.
Este ano, disse, o lema da campanha é “Vamos salvar vidas” e Gabriela Vieira está certa que esta recepção aos portugueses que vivem no estrangeiro ajuda nesse propósito.
Nestes três locais os voluntários da Cap Magellan irão distribuir sacos com ofertas e lembrar mais uma vez que é preciso fazer uma pausa na condução de duas em duas horas.
“O emigrante quer chegar a casa o mais depressa possível, mas é preciso parar e descansar, ainda mais com os fogos que assolam muitos dos países que atravessam”, referiu.
20.7.22
Um país mais desigual mas com novas oportunidades, apesar da incerteza
Leonete Botelho, in Público
Este é um ano atípico em que, em Portugal, se conjuga um enorme crescimento económico alavancado por um envelope financeiro único com deficiências estruturais agravadas pela pandemia e desafios globais de evolução imprevisível devido à guerra. Relatório do ISCTE traça o estado da nação e olha para a recuperação em tempos de incerteza.A boa notícia deste ano para Portugal é o crescimento recorde da economia. Num clima de incerteza global, somos um dos países da União Europeia que melhor está a resistir ao impacto provocado pela guerra na Ucrânia e o aumento dos preços, ainda que a recuperação económica seja quase uma certeza a nível mundial, depois da contracção histórica da economia global. Mas quem cá vive sabe como os problemas estruturais são persistentes e que, apesar dos progressos das últimas décadas, a pandemia deixou à vista, quando não agravou, as desigualdades sociais e as assimetrias territoriais. Em particular no acesso à saúde, à educação e à habitação, assim como as falhas de cobertura da protecção social e dos direitos laborais, que acentuaram os efeitos da crise em alguns segmentos da população.
É sobre esta conjuntura de desafios e oportunidades que trata o retrato do estado da nação e das políticas públicas elaborado este ano pelo Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS-ISCTE). No relatório Recuperação em Tempos de Incerteza, porém, os investigadores coordenados por Ricardo Paes Mamede, não traçam apenas um diagnóstico de pontos fracos e algumas vantagens competitivas do país: deixam também pistas consistentes de como trilhar terras em brasa sem perder o pé.
Enquanto economista, Ricardo Paes Mamede valoriza muito o tema das agendas mobilizadoras lançado pelo Governo para concretizar uma grande fatia do Plano de Recuperação e Resiliência, de cujos apoios vão beneficiar, para já, 51 consórcios de empresas, que se propõem assegurar 83% dos 7572 milhões de euros a fundo perdido do PRR. Mas o coordenador deste trabalho deixa um alerta: “O sucesso das economias depende mais do sistema produtivo do que de algumas empresas: o que é fundamental é dar apoio a projectos de desenvolvimento.”
Esses projectos devem ter em conta as novas dinâmicas económicas para dar resposta, por exemplo, às dificuldades no abastecimento de matérias-primas, bens intermédios e produtos finais de importância estratégica sentidas na pandemia e agravadas pela guerra na Ucrânia. Tanto mais que, como é evidenciado no relatório, “acentuaram-se tendências anteriores de reorganização das redes internacionais de produção, com algumas actividades a privilegiar lógicas mais regionais (e menos globais) nas cadeias de abastecimento”.
“Temos novas oportunidades de atracção de investimento, mas o nosso problema é garantir que o investimento que atraímos é aquele de que mais precisamos”, sublinha Paes Mamede, sustentando que “só se deve privilegiar o investimento qualificado”, dando oportunidade aos centros tecnológicos de “dar um salto qualitativo” e garantindo que “as pequenas e médias empresas sejam capazes de aproveitar a presença das multinacionais para entrar nas cadeias de produção global”.
Por outro lado, sustenta que o desenvolvimento de que Portugal carece hoje é sobretudo “um desenvolvimento inclusivo, pois a pandemia veio tornar claro que há segmentos da população que ficaram mais trás”, pelo que o crescimento económico actual é “uma oportunidade única para focarmos a nossa atenção” nessas pessoas. De facto, como escreve na introdução do estudo, nos anos da pandemia tornaram-se mais visíveis alguns problemas estruturais da sociedade portuguesa.
Problemas persistentes
Na saúde, o acesso a consultas médicas continua a ser condicionado pelas capacidades das famílias. Por outro lado, “a mobilização dos serviços de saúde na resposta à covid-19 e as dificuldades de atender a todas as outras necessidades dos utentes acentuaram a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde e a necessidade de repensar os recursos que lhe são destinados e o modo como são geridos”, sublinha o relatório.
Na educação, a oferta de ensino e os desempenhos escolares dos alunos são marcados por assimetrias territoriais relevantes. A pandemia pôs também a nu a falta de protecção, no emprego e no desemprego, dos trabalhadores informais e precários, traduzindo-se em níveis elevados de desemprego entre os jovens. Quanto aos idosos, a sua exposição à covid-19 revelou a reduzida cobertura dos cuidados de longo prazo geriátrico, além de ter exposto as insuficiências da rede de lares.
Na habitação, os confinamentos revelaram as más condições em que vivem muitos agregados familiares mais desfavorecidos, e, em simultâneo, o contínuo aumento dos preços das casas nos centros metropolitanos dificultou o acesso à habitação por parte das classes médias. No domínio da mobilidade, os receios de infecção terão afastado muitos cidadãos do uso de transportes públicos, pondo em causa os esforços de redução do peso do transporte individual nas zonas urbanas. Na cultura, acelerou-se a transformação dos padrões de consumo, com os serviços de streaming e outras actividades à distância a ganharem peso face aos eventos presenciais.
Um sector que conquistou enorme relevância na pandemia foi a investigação científica. “A resposta à pandemia convocou a ciência e a tecnologia para o desenvolvimento de novas vacinas, tratamentos e equipamentos, mas também para o esclarecimento das populações e para o planeamento adequado das políticas públicas na resposta aos desafios emergentes, alterando a percepção geral sobre a relevância social dos cientistas e das instituições de investigação”, lê-se no relatório. Que recomenda “um apoio político mais significativo ao investimento na ciência”.
Apesar de tudo, Paes Mamede faz questão de sublinhar que os problemas estruturais do país são, por definição, persistentes, e que “a evolução tem sido moderadamente positiva ao longo das últimas décadas”, sobretudo na saúde, educação e protecção social. E frisa a palavra décadas, para evidenciar que essas políticas públicas não são exclusivas de governos concretos: “Houve um consenso nos diferentes governos face a estas políticas, que depois têm tradução ao nível económico.” Ou seja, as políticas sociais traduzem-se em mais-valias para o país.
É sobre esta conjuntura de desafios e oportunidades que trata o retrato do estado da nação e das políticas públicas elaborado este ano pelo Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS-ISCTE). No relatório Recuperação em Tempos de Incerteza, porém, os investigadores coordenados por Ricardo Paes Mamede, não traçam apenas um diagnóstico de pontos fracos e algumas vantagens competitivas do país: deixam também pistas consistentes de como trilhar terras em brasa sem perder o pé.
Enquanto economista, Ricardo Paes Mamede valoriza muito o tema das agendas mobilizadoras lançado pelo Governo para concretizar uma grande fatia do Plano de Recuperação e Resiliência, de cujos apoios vão beneficiar, para já, 51 consórcios de empresas, que se propõem assegurar 83% dos 7572 milhões de euros a fundo perdido do PRR. Mas o coordenador deste trabalho deixa um alerta: “O sucesso das economias depende mais do sistema produtivo do que de algumas empresas: o que é fundamental é dar apoio a projectos de desenvolvimento.”
Esses projectos devem ter em conta as novas dinâmicas económicas para dar resposta, por exemplo, às dificuldades no abastecimento de matérias-primas, bens intermédios e produtos finais de importância estratégica sentidas na pandemia e agravadas pela guerra na Ucrânia. Tanto mais que, como é evidenciado no relatório, “acentuaram-se tendências anteriores de reorganização das redes internacionais de produção, com algumas actividades a privilegiar lógicas mais regionais (e menos globais) nas cadeias de abastecimento”.
“Temos novas oportunidades de atracção de investimento, mas o nosso problema é garantir que o investimento que atraímos é aquele de que mais precisamos”, sublinha Paes Mamede, sustentando que “só se deve privilegiar o investimento qualificado”, dando oportunidade aos centros tecnológicos de “dar um salto qualitativo” e garantindo que “as pequenas e médias empresas sejam capazes de aproveitar a presença das multinacionais para entrar nas cadeias de produção global”.
Por outro lado, sustenta que o desenvolvimento de que Portugal carece hoje é sobretudo “um desenvolvimento inclusivo, pois a pandemia veio tornar claro que há segmentos da população que ficaram mais trás”, pelo que o crescimento económico actual é “uma oportunidade única para focarmos a nossa atenção” nessas pessoas. De facto, como escreve na introdução do estudo, nos anos da pandemia tornaram-se mais visíveis alguns problemas estruturais da sociedade portuguesa.
Problemas persistentes
Na saúde, o acesso a consultas médicas continua a ser condicionado pelas capacidades das famílias. Por outro lado, “a mobilização dos serviços de saúde na resposta à covid-19 e as dificuldades de atender a todas as outras necessidades dos utentes acentuaram a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde e a necessidade de repensar os recursos que lhe são destinados e o modo como são geridos”, sublinha o relatório.
Na educação, a oferta de ensino e os desempenhos escolares dos alunos são marcados por assimetrias territoriais relevantes. A pandemia pôs também a nu a falta de protecção, no emprego e no desemprego, dos trabalhadores informais e precários, traduzindo-se em níveis elevados de desemprego entre os jovens. Quanto aos idosos, a sua exposição à covid-19 revelou a reduzida cobertura dos cuidados de longo prazo geriátrico, além de ter exposto as insuficiências da rede de lares.
Na habitação, os confinamentos revelaram as más condições em que vivem muitos agregados familiares mais desfavorecidos, e, em simultâneo, o contínuo aumento dos preços das casas nos centros metropolitanos dificultou o acesso à habitação por parte das classes médias. No domínio da mobilidade, os receios de infecção terão afastado muitos cidadãos do uso de transportes públicos, pondo em causa os esforços de redução do peso do transporte individual nas zonas urbanas. Na cultura, acelerou-se a transformação dos padrões de consumo, com os serviços de streaming e outras actividades à distância a ganharem peso face aos eventos presenciais.
Um sector que conquistou enorme relevância na pandemia foi a investigação científica. “A resposta à pandemia convocou a ciência e a tecnologia para o desenvolvimento de novas vacinas, tratamentos e equipamentos, mas também para o esclarecimento das populações e para o planeamento adequado das políticas públicas na resposta aos desafios emergentes, alterando a percepção geral sobre a relevância social dos cientistas e das instituições de investigação”, lê-se no relatório. Que recomenda “um apoio político mais significativo ao investimento na ciência”.
Apesar de tudo, Paes Mamede faz questão de sublinhar que os problemas estruturais do país são, por definição, persistentes, e que “a evolução tem sido moderadamente positiva ao longo das últimas décadas”, sobretudo na saúde, educação e protecção social. E frisa a palavra décadas, para evidenciar que essas políticas públicas não são exclusivas de governos concretos: “Houve um consenso nos diferentes governos face a estas políticas, que depois têm tradução ao nível económico.” Ou seja, as políticas sociais traduzem-se em mais-valias para o país.
14.7.22
O que tem a pobreza a ver com a saúde mental?
Mauro Paulino, crónica, in Expresso
A pobreza, que tem impacto em tudo, não poupa a saúde mental, acarretando, muitas vezes, consequências intergeracionais, em que o ciclo de pobreza, de dependência, de violência, de patologia, de restrição a meios de saúde, de limitação ao acesso a condições e necessidades básicas de vida se vai perpetuando. O psicólogo clínico e forense Mauro Paulino reflete sobre a questão, na primeira das duas crónicas do mês para o Expresso
Quando no rescaldo de uma pandemia, surge uma guerra no continente europeu, têm sido várias as notícias sobre a estagnação económica ou até de recessão, inclusive com reflexos no crédito habitação e subida da prestação mensal que pode ir até quase 300 euros. Uma realidade com inevitáveis reflexos nos sonhos de quem está a iniciar nova etapa de vida, bem como no quotidiano e gestão económica das famílias. É com este cenário socioeconómico de fundo e em sintonia com o primeiro dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável que surge, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, uma campanha intitulada “. Final à Pobreza”, a qual pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos promover um debate amplo, com a finalidade de desenvolver um plano estratégico de ação nesta matéria assente em várias dimensões.
Apesar das diferentes conceções de pobreza, podemos defini-la como um fenómeno multidimensional caracterizado por uma privação sustentada ou crónica de recursos, capacidades, escolhas, segurança e poder necessários para ter o padrão de vida considerado socialmente aceite numa determinada sociedade. Por outras palavras, diz respeito a uma impossibilidade de viver de acordo com objetivos e vontades pessoais e de alcançar o bem-estar, em resultado da carência de meios económicos ou da impossibilidade de converter rendimentos e recursos escassos em capacidade de funcionar.
Falamos em pobreza extrema perante uma situação em que os indivíduos não possuem recursos suficientes para satisfação das suas necessidades básicas, como por exemplo passar fome, não ter acesso a água potável, habitação condigna ou medicamentos. De acordo com os indicadores do Banco Mundial, a pobreza é extrema quando se vive com menos de um dólar americano por dia.
Por seu turno, a pobreza relativa diz respeito a uma situação na qual o padrão de vida e rendimentos dos indivíduos se situa abaixo do nível de vida do país ou região em que vivem, limitando a participação em atividades económicas, sociais e culturais.
Em 2021, a linha de pobreza em Portugal situa-se nos 540 euros, considerando-se em risco de pobreza qualquer pessoa cujo rendimento esteja abaixo desse valor. Aliás, os números da pobreza em Portugal e no mundo são impactantes, estimando-se que mais de 700 milhões de pessoas vivem em situação extrema (10% da população mundial); um em cada cinco portugueses vive em situação de pobreza ou exclusão social (20%); 400.000 pessoas terão caído abaixo do limiar da pobreza, em Portugal, durante a pandemia; as mulheres, as crianças e as pessoas idosas continuam a estar mais vulneráveis ao risco de pobreza e exclusão social; em 2030, existam cerca de 167 milhões de crianças em situação de pobreza. Nos últimos quinze anos, a taxa de pobreza infantil cresceu em alguns países Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), como é o caso da Grécia, Itália, Lituânia e Portugal.
Importa sublinhar que a pobreza não é uma apenas realidade estatística. São vidas e famílias fustigadas por esta realidade. A pobreza é uma experiência pela qual qualquer pessoa pode passar durante a sua vida e que pode limitar os recursos necessários ao enfrentamento de situações de adversidade e a capacidade para satisfazer necessidades. Vai muito para além da mera ausência ou escassez de recursos materiais, abrangendo à ausência ou escassez de outras formas de capital humano (nível de educação, competências e experiências pessoais), capital social (a rede de relações sociais) e capital de saúde (o bem-estar físico e mental).
Daqui decorre inevitavelmente que as situações de pobreza condicionam a possibilidade de desenvolvimento pleno da pessoa, a sua dignidade, a sua saúde e a possibilidade de bem-estar. Por isso, a pobreza encontra-se entre os principais determinantes socioeconómicos da saúde psicológica e do bem-estar, sustentando e sendo sustentada por desigualdades sociais e económicas, que, por sua vez, limitam as escolhas das pessoas. Os pobres surgem como cidadãos desprovidos de competências que lhes permitam encontrar caminhos em que possam afirmar-se como atores de escolha ou de mudança, movendo-se em situações que põem em causa a dignidade e os direitos fundamentais.
A pobreza que tudo impacta não poupa a saúde mental, acarretando, muitas vezes, consequências intergeracionais, em que o ciclo de pobreza, de dependência, de violência, de patologia, de restrição a meios de saúde, de limitação ao acesso a condições e necessidades básicas de vida se vai perpetuando. Se por um lado algumas dessas situações são quase estruturais e se reproduzem em cada nova geração de um determinado agregado familiar, há também situações que resultaram do desemprego prolongado ou da quebra acentuada de proventos, fazendo com que a carência que se previra transitória lance âncoras e se fixe irremediavelmente a um quadro de privação permanente.
O recurso “.Final à Pobreza” disponibilizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, no âmbito da campanha já mencionada, recupera um estudo que demonstra que progenitores em situação de pobreza têm maior probabilidade de ter crianças em situações de pobreza, mantendo-se a situação ao longo de várias gerações familiares. Uma criança que passe metade (ou mais tempo) da sua infância em situação de pobreza tem mais de 40% de probabilidade de viver nessa condição aos 35 anos.
Portugal tem um dos níveis mais altos de desigualdade de rendimentos da União Europeia e da OCDE, sendo um dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da pobreza, pois pode demorar até cinco gerações.
Adicionalmente, como salvaguardou Tiago Pereira, Membro da Direção Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses, a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e, mais uma vez, a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afetivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização.
É importante que a pobreza ou a carência de uns deixe de ser explorada por classes ou poderes dominantes, em nome de um lucro incessante e numa visão de que os indivíduos desprovidos de condições para se manter em cima da linha de água são, na verdade, mão de obra barata ou peças para usar e deitar fora, porque precisam de fazer face às suas despesas.
Na atualidade, a pobreza e a exclusão dificultam o acesso aos cuidados de saúde, sem embargo dos esforços de diversos projetos, mas cujo impulso não consegue catapultar a mudança social e económica necessária. Não podemos fechar os olhos ao facto de as condições de habitação e de vida determinarem graves danos físicos e mentais, nem de que a saúde psicológica é impactada pelas condições sociais, ambientais e económicas.
Embora não existam respostas fáceis ou soluções mágicas, há caminho a fazer no combate à pobreza, que deverá envolver contextos de saúde, comunitários, educativos, organizacionais e de construção de políticas públicas, tendo a ciência psicológica um relevante contributo a dar, numa lógica de abordagens integradas, multidimensionais e transversais, não estivéssemos nós a falar de pessoas.
A pobreza, que tem impacto em tudo, não poupa a saúde mental, acarretando, muitas vezes, consequências intergeracionais, em que o ciclo de pobreza, de dependência, de violência, de patologia, de restrição a meios de saúde, de limitação ao acesso a condições e necessidades básicas de vida se vai perpetuando. O psicólogo clínico e forense Mauro Paulino reflete sobre a questão, na primeira das duas crónicas do mês para o Expresso
Quando no rescaldo de uma pandemia, surge uma guerra no continente europeu, têm sido várias as notícias sobre a estagnação económica ou até de recessão, inclusive com reflexos no crédito habitação e subida da prestação mensal que pode ir até quase 300 euros. Uma realidade com inevitáveis reflexos nos sonhos de quem está a iniciar nova etapa de vida, bem como no quotidiano e gestão económica das famílias. É com este cenário socioeconómico de fundo e em sintonia com o primeiro dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável que surge, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, uma campanha intitulada “. Final à Pobreza”, a qual pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos promover um debate amplo, com a finalidade de desenvolver um plano estratégico de ação nesta matéria assente em várias dimensões.
Apesar das diferentes conceções de pobreza, podemos defini-la como um fenómeno multidimensional caracterizado por uma privação sustentada ou crónica de recursos, capacidades, escolhas, segurança e poder necessários para ter o padrão de vida considerado socialmente aceite numa determinada sociedade. Por outras palavras, diz respeito a uma impossibilidade de viver de acordo com objetivos e vontades pessoais e de alcançar o bem-estar, em resultado da carência de meios económicos ou da impossibilidade de converter rendimentos e recursos escassos em capacidade de funcionar.
Falamos em pobreza extrema perante uma situação em que os indivíduos não possuem recursos suficientes para satisfação das suas necessidades básicas, como por exemplo passar fome, não ter acesso a água potável, habitação condigna ou medicamentos. De acordo com os indicadores do Banco Mundial, a pobreza é extrema quando se vive com menos de um dólar americano por dia.
Por seu turno, a pobreza relativa diz respeito a uma situação na qual o padrão de vida e rendimentos dos indivíduos se situa abaixo do nível de vida do país ou região em que vivem, limitando a participação em atividades económicas, sociais e culturais.
Em 2021, a linha de pobreza em Portugal situa-se nos 540 euros, considerando-se em risco de pobreza qualquer pessoa cujo rendimento esteja abaixo desse valor. Aliás, os números da pobreza em Portugal e no mundo são impactantes, estimando-se que mais de 700 milhões de pessoas vivem em situação extrema (10% da população mundial); um em cada cinco portugueses vive em situação de pobreza ou exclusão social (20%); 400.000 pessoas terão caído abaixo do limiar da pobreza, em Portugal, durante a pandemia; as mulheres, as crianças e as pessoas idosas continuam a estar mais vulneráveis ao risco de pobreza e exclusão social; em 2030, existam cerca de 167 milhões de crianças em situação de pobreza. Nos últimos quinze anos, a taxa de pobreza infantil cresceu em alguns países Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), como é o caso da Grécia, Itália, Lituânia e Portugal.
Importa sublinhar que a pobreza não é uma apenas realidade estatística. São vidas e famílias fustigadas por esta realidade. A pobreza é uma experiência pela qual qualquer pessoa pode passar durante a sua vida e que pode limitar os recursos necessários ao enfrentamento de situações de adversidade e a capacidade para satisfazer necessidades. Vai muito para além da mera ausência ou escassez de recursos materiais, abrangendo à ausência ou escassez de outras formas de capital humano (nível de educação, competências e experiências pessoais), capital social (a rede de relações sociais) e capital de saúde (o bem-estar físico e mental).
Daqui decorre inevitavelmente que as situações de pobreza condicionam a possibilidade de desenvolvimento pleno da pessoa, a sua dignidade, a sua saúde e a possibilidade de bem-estar. Por isso, a pobreza encontra-se entre os principais determinantes socioeconómicos da saúde psicológica e do bem-estar, sustentando e sendo sustentada por desigualdades sociais e económicas, que, por sua vez, limitam as escolhas das pessoas. Os pobres surgem como cidadãos desprovidos de competências que lhes permitam encontrar caminhos em que possam afirmar-se como atores de escolha ou de mudança, movendo-se em situações que põem em causa a dignidade e os direitos fundamentais.
A pobreza que tudo impacta não poupa a saúde mental, acarretando, muitas vezes, consequências intergeracionais, em que o ciclo de pobreza, de dependência, de violência, de patologia, de restrição a meios de saúde, de limitação ao acesso a condições e necessidades básicas de vida se vai perpetuando. Se por um lado algumas dessas situações são quase estruturais e se reproduzem em cada nova geração de um determinado agregado familiar, há também situações que resultaram do desemprego prolongado ou da quebra acentuada de proventos, fazendo com que a carência que se previra transitória lance âncoras e se fixe irremediavelmente a um quadro de privação permanente.
O recurso “.Final à Pobreza” disponibilizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, no âmbito da campanha já mencionada, recupera um estudo que demonstra que progenitores em situação de pobreza têm maior probabilidade de ter crianças em situações de pobreza, mantendo-se a situação ao longo de várias gerações familiares. Uma criança que passe metade (ou mais tempo) da sua infância em situação de pobreza tem mais de 40% de probabilidade de viver nessa condição aos 35 anos.
Portugal tem um dos níveis mais altos de desigualdade de rendimentos da União Europeia e da OCDE, sendo um dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da pobreza, pois pode demorar até cinco gerações.
Adicionalmente, como salvaguardou Tiago Pereira, Membro da Direção Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses, a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e, mais uma vez, a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afetivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização.
É importante que a pobreza ou a carência de uns deixe de ser explorada por classes ou poderes dominantes, em nome de um lucro incessante e numa visão de que os indivíduos desprovidos de condições para se manter em cima da linha de água são, na verdade, mão de obra barata ou peças para usar e deitar fora, porque precisam de fazer face às suas despesas.
Na atualidade, a pobreza e a exclusão dificultam o acesso aos cuidados de saúde, sem embargo dos esforços de diversos projetos, mas cujo impulso não consegue catapultar a mudança social e económica necessária. Não podemos fechar os olhos ao facto de as condições de habitação e de vida determinarem graves danos físicos e mentais, nem de que a saúde psicológica é impactada pelas condições sociais, ambientais e económicas.
Embora não existam respostas fáceis ou soluções mágicas, há caminho a fazer no combate à pobreza, que deverá envolver contextos de saúde, comunitários, educativos, organizacionais e de construção de políticas públicas, tendo a ciência psicológica um relevante contributo a dar, numa lógica de abordagens integradas, multidimensionais e transversais, não estivéssemos nós a falar de pessoas.
11.7.22
Aumento dos preços dos alimentos angustia famílias com menos condições
Sheila Ribeiro, in Expresso das Ilhas
A guerra na Ucrânia está a causar a subida generalizada dos preços dos bens de consumo, a começar pelos mais básicos e corroendo a renda, que “já era insuficiente” para uma vida digna de muitas famílias. O acesso fácil e permanente à comida ficou na lembrança daqueles que hoje limitam o acesso a determinados alimentos por questões financeiras.Dados divulgados em 23 de Junho pela ONU, mostram que naquele mês 181 mil mulheres, homens e crianças enfrentavam insegurança alimentar num total de 32% da população nacional.
Já o governo avançou que cerca de 107 mil pessoas estão sob pressão em termos alimentares e 30 mil em situação de insegurança alimentar.
Cíntia (nome fictício), 37 anos, mãe de dois filhos de 12 e 10 anos, faz parte das pessoas que vivem sob pressão alimentar e poderá entrar na estatística dos que enfrentam insegurança alimentar.
“Tenho o salário mínimo e antes da pandemia e da guerra gastava, mensalmente, cerca de 10 mil escudos com a comida. Com 10 mil escudos de compra dava para comer por quase um mês, porque sempre minguava faltando três ou dois dias para receber”, relata esta mãe.
Hoje, com 10 mil escudos, Cíntia afirma que pode comprar comida suficiente para apenas duas semanas, e com um “jeitinho” talvez três. Ou seja, o mesmo dinheiro e uma quantidade menor de comida.
“Os [alimentos] mais essenciais agora custam mais, por exemplo óleo, leite, arroz, ovo. Tive de retirar alguns produtos da lista de compras, como frutas, iogurtes, carne de porco e de vaca”, enumera.
Os filhos, prossegue, deixaram de comer frutas e iogurtes para que pudessem garantir o almoço e o jantar.
“Fico triste com esta situação porque quero comprar algo saboroso para que possam levar à escola e não posso. Por isso, almoçam e vão para a escola onde recebem refeições quentes. Agora com as férias, vão ficar em casa o dia todo e as coisas vão piorar um bocadinho”, atenta.
Conforme conta, o pai de uma das crianças ajuda, mensalmente, com cinco mil escudos porque o Tribunal assim estipulou. Entretanto, frisa, os cinco mil escudos são para carregar os passes para que possam ir à escola.
Durante as férias, esse dinheiro destina-se à comida e ainda assim a situação “é delicada”. Sendo auxiliar de serviços gerais numa instituição pública, Cíntia declara que não consegue garantir uma cesta básica das Associações ou instituições que ajudam, porque a prioridade é sempre para aqueles que não têm um salário.
A única renda extra da família provém do abono da filha mais velha, já que do mais novo, o pai é quem recebe e fica com o dinheiro.
“Se os preços aumentarem mais, vamos ter de comer arroz com azeite para não passarmos fome. Recebo um salário mínimo, tenho de pagar a renda da casa, a electricidade e ainda comer. Não tenho marido, não conto com ajuda e é isso”, especula.
Questão de saúde pública
A nutricionista Yahmilla Carvalho explica que quando se deixa de consumir qualquer tipo de alimento sem uma orientação profissional - a menos que se trate de alimentos industrializados sem benefícios nutricionais - pode-se comprometer a saúde.
“Carnes, ovos, peixes são as principais fontes de proteínas. Não comemos apenas porque é gostoso, é questão de necessidade. A partir do momento que deixamos de comê-los, se não trouxemos, de uma outra fonte, os nutrientes que podemos encontrar nesses alimentos a nossa saúde fica comprometida”, clarifica ao Expresso das Ilhas.
As proteínas, de acordo com a profissional de saúde, fornecem saciedade, ajudam no desenvolvimento dos músculos e estão envolvidos em vários processos do organismo, como por exemplo a questão da energia.
Sem nenhum acompanhamento médico, quando retiradas do dia-a-dia a pessoa apresenta fadiga, perda de peso, além de comprometer alguns órgãos.
Quanto às hortaliças e frutas são as maiores fontes de fibra, vitaminas e minerais. Yahmilla Carvalho destaca que por esta razão poderá ainda ocorrer problemas quanto à imunidade, funcionamento dos intestinos, diabetes, hipertensão, entre outros.
“Num primeiro momento podemos até pensar que deixar de comer, por questões financeiras, esses alimentos pode afectar uma única pessoa ou uma família, mas é uma questão de saúde pública porque cada vez mais aumentam pessoas com as doenças já referidas”, alerta.
No que tange às crianças, a falta de proteínas e vitaminas proporcionadas pela carne e frutas compromete o crescimento e desenvolvimento intelectual, segundo a profissional.
Aumento de pedidos de apoio põe em risco stock do Banco Alimentar
A presidente do Banco Alimentar da Fundação Donana revela que estão a receber cada vez mais pedidos de famílias para apoio alimentar, sublinhando que a seca prolongada, a pandemia e o aumento dos preços tem estado a pressionar a população mais carenciada.
Em 2019, apesar da pandemia, a instituição conseguiu recolher e distribuir 303.420 quilos de alimentos e em 2020 foram 575.420 quilos. 2022, entretanto, segundo Ana Fonseca Hopffer Almada está a ser um ano muito difícil.
Para exemplificar, cita que apenas no mês de Março a instituição distribuiu 15.508 cestas básicas a público que não é habitual, ou seja, que não são ajudadas regularmente através das associações comunitárias.
“Foram cestas básicas para pessoas que chegam ao Banco Alimentar afirmando que não têm comida para comer, que têm fome. São mulheres chefes de famílias que perderam o seu rendimento, jovens mães com bebés, são jovens as vezes até com formação e que não têm trabalho e que estão sem alimentos”, ressalva.
Ana Fonseca Hopffer Almada informa ainda que no mês de Junho o Banco Alimentar recebeu três mil quilos de alimentos que já foram distribuídos, em cerca de mil cestas básicas. Por esse motivo, estão a contactar os parceiros para angariar alimentos, uma vez que o aumento de casos da COVID-19 não permite realizar as habituais campanhas nos super e minimercados.
“Neste momento o nosso armazém está com pouca capacidade de resposta. Se não tivermos apoios vai chegar uma altura em que não teremos alimentos. Arroz, por exemplo já não temos. Tivemos uma doação de quase 4 toneladas de arroz, mas já terminaram. As pessoas não imaginam a quantidade de gente que recebemos e que não são o nosso público alvo, embora esses continuam a receber os seus apoios”, admite.
Face a este cenário, Ana Fonseca Hopffer Almada diz que o principal desafio do Banco Alimentar é manter o stock que está esvaziando rapidamente devido ao aumento de pedidos de ajuda, sobretudo de pessoas que tinham uma vida mais ou menos estável, mas que com as sucessivas crises e a inflação perderam a capacidade de comprar comida.
A presidente do Banco Alimentar precisa que a instituição conta, normalmente, com as associações comunitárias que selecionam 10 famílias com idosos acamados, pessoas portadoras de deficiência e pessoas que não podem trabalhar.
Na cidade da Praia, há cerca de 300 famílias beneficiárias, além de famílias de Santa Cruz, Calheta, Tarrafal, Santa Catarina e Ribeira Grande de Santiago.
Criado em Outubro de 2012, depois da assinatura de um protocolo com a organização que tutela o Banco Alimentar contra a Fome de Portugal, o Banco Alimentar tem parcerias 74 associações em toda a ilha de Santiago, 10 na ilha do Fogo, 10 na ilha de São Vicente e 10 na ilha do Sal num total de 104 Associações, além de instituições caritativas e humanitárias.
Associação Pilourinho cria hortas para ajudar população de AGF
A associação Pilorinhu de Achada Grande Frente (AGF) está a criar hortas comunitárias para ajudar as pessoas mais carenciadas daquele bairro e fazer face ao aumento dos preços dos alimentos.
Em declarações ao Expresso das Ilhas, o presidente Zanildo Moreno avança que as hortas fazem parte do projecto “Jornada Agroecológica”.
“O objectivo desta criação é fazer face à subida dos preços dos alimentos. Temos como referência a horta da nossa associação através da qual conseguimos diminuir o custo da alimentação dos nossos voluntários”, elucida.
As hortas comunitárias darão continuidade ao projecto Xalabás em que foram reabilitadas algumas hortas de famílias do bairro, assim como da escola de Achada Grande Frente.
“É concluir o que o Xalabás começou, criar tanto hortas verticais, como hortas nos quintais. As famílias tanto podem consumir os produtos da horta, como podem vender e assim ganhar um dinheiro extra e garantir o autossustento. Mas a doação às famílias que não têm como ter a horta em casa é obrigatória”, realça.
A associação Pilourinho já tem identificadas 15 casas onde serão plantadas papaia, banana, maracujá, cana de açúcar, pinhão e vários legumes.
“Também na selecção das casas, priorizamos famílias que já têm alguma experiência com hortas. Não ia valer a pena criar uma horta que não seria cuidada. Têm de ser pessoas com boa vontade para cuidar das hortas, que cumpram a obrigação de ajudar os outros porque há muitas famílias em situação difícil em AGF”, frisa.
Mais do que o autossustento do bairro, o presidente da Associação Pilourinho assegura que o projecto visa praticar a agricultura baseada na integração e aplicação de conceitos ecológicos e sustentáveis sem o uso de químicos.
“A nossa sociedade consome muitos produtos importados e esses produtos têm químicos que podem pôr em causa a saúde das famílias. Daí querermos dedicar à agroecologia”, sustenta.
A associação Pilorinhu pretende alargar o projecto das hortas comunitárias para outros pontos da ilha de Santiago e do país.
Contudo, Zanildo Moreno anuncia que neste momento está-se ainda finalizar o orçamento necessário para a implementação do projecto. Mas, já este mês, vão proceder à plantação de 100 árvores fruteiras na comunidade, doadas pela FAO.
A FAO define a insegurança alimentar como um fenómeno que ocorre quando um indivíduo não possui acesso físico, económico e social a alimentos de forma a satisfazer as suas necessidades.
Resposta do SNS à pandemia com "impactos profundos" nos cuidados de saúde
O Conselho Nacional da Saúde aponta para uma redução de 700 mil cirurgias programadas e de 50 mil urgentes em 2020.
"A organização da resposta em cuidados de saúde à Covid-19 teve impactos profundos na prestação de cuidados de saúde não-Covid substanciados na alteração da atividade assistencial, na redução das atividades relacionadas com a prevenção da doença ou promoção da saúde", sublinha o relatório "Pandemia de Covid-19: Desafios para a saúde dos portugueses" esta segunda-feira divulgado.
Segundo o documento do Conselho Nacional da Saúde (CNS), comparando com a média de 2015 a 2019, em Portugal continental registou-se uma redução de 19% no número de intervenções cirúrgicas programadas em 2020, ou seja, menos cerca de 700 mil cirurgias, com redução superior (23,1%) nas cirurgias convencionais.
Mesmo as cirurgias urgentes tiveram uma diminuição de 8,3%, com menos cerca de 50 mil realizadas no primeiro ano da pandemia, refere o órgão independente de consulta do Governo, que concluiu ainda que pouco menos de 3/4 das consultas foram realizadas dentro do Tempo Máximo de Resposta Garantido em 2020, valor que voltou a subir para os valores pré-pandemia em 2021.
De acordo com o documento, durante 2020 e 2021 registou-se também uma quebra do número de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, comparativamente ao período de 2016 a 2019, assim como uma diminuição de 1,1 pontos percentuais da cobertura da população inscrita com médico de família, contrariando uma tendência crescente verificada em anos anteriores.
"Nos cuidados de saúde hospitalares a redução da proporção de utentes com acesso a cuidados foi um pouco mais marcada", refere o documento, ao avançar que, em 2020, houve uma redução de 12,2 a 21,6% das primeiras consultas hospitalares, sendo esta diminuição menos acentuada nas consultas subsequentes (entre 0,04% e 16,6%).
Também os cuidados de saúde preventivos sofreram uma "forte disrupção com a pandemia", particularmente evidente em 2020, indica o documento, alertando que, se a diminuição da atividade assistencial tem implicações profundas no imediato, os impactos na área dos cuidados preventivos e de promoção da saúde "certamente se encontrarão com maior evidência no avanço da linha do tempo".
De acordo com o relatório, a vigilância das pessoas com diabetes sofreu um "impacto significativo", com redução da proporção de vigilância do pé diabético ou controlo de hemoglobina glicada.
"Existiu igualmente uma redução de 102.812 pessoas rastreadas para a retinopatia diabética no ano de 2020", indica o CNS, que avança que menos 174.218 mulheres foram rastreadas para o cancro da mama, menos 124.835 mulheres para o cancro do colo do útero e menos 34.920 pessoas rastreadas para o cancro do cólon e reto.
"Quanto aos rastreios de âmbito populacional, em 2020, em Portugal continental, a proporção de população elegível rastreada para o cancro da mama decresceu quanto à média dos anos 2016-2019, com uma redução de cerca de 10 pontos percentuais relativamente a 2019", sublinha o documento.
O número de utentes com problemas relacionados com álcool em tratamento diminuiu de 2019 para 2020 em cerca de 8%, com uma redução de quase 50% do número de novos utentes em tratamento e 30% dos utentes readmitidos.
Apesar das reduções, o CNS assinala que "não houve paragem dos cuidados, embora estes tenham ficado fortemente comprometidos" durante a pandemia de Covid-19.
No que diz respeito aos recursos humanos, entre 2018 e 2021, verificou-se um aumento de 16,3% no número de trabalhadores no SNS, sendo que o grupo com maior aumento foi o dos assistentes operacionais (24,2%), seguido do dos técnicos de saúde (22,1%) e do dos técnicos de diagnóstico e terapêutica (20,9%).
O número de médicos - sem considerar internos de especialidade - cresceu 11,9% e o de enfermeiros 16,8% entre 2018 e agosto de 2021.
Relativamente à saúde mental, o relatório do CNS recorda que, em Portugal, existiram dois períodos de confinamento geral - de março a abril 2020 e de janeiro a março 2021 - que colocaram a questão do seu "impacto nos níveis de solidão, depressão, uso nocivo de álcool e outras drogas e comportamentos de auto-lesão".
"A generalização, quase instantânea, do teletrabalho provocou sentimentos de isolamento social e solidão que, por sua vez, reduziram a capacidade de lidar com as mudanças na carga de trabalho e no tempo de trabalho, afetando adversamente os níveis de stresse e o bem-estar mental e físico dos trabalhadores", refere o documento.
No geral, o CNS alerta que a pandemia poderá ter, direta e indiretamente, afetado a saúde mental da população e levado ao aumento de procura dos serviços relevantes.
"Medo, luto, isolamento, perda de rendimento poderão ter desencadeado novos problemas de saúde mental ou agravado os pré-existentes, assim como a própria Covid-19 poderá aumentar o risco de morbilidade psicológica e neurológica, a curto e médio prazo", adianta.
O documento, que é apresentado hoje numa sessão na Assembleia da República, analisa o impacto da pandemia nos principais indicadores sociodemográficos, na saúde mental da população e na prestação de cuidados de saúde.
Criado em 2016, o CNS é um órgão independente de consulta do Governo, que visa garantir a participação dos cidadãos na definição das políticas de saúde e promover uma cultura de transparência e de prestação de contas perante a sociedade.
"A organização da resposta em cuidados de saúde à Covid-19 teve impactos profundos na prestação de cuidados de saúde não-Covid substanciados na alteração da atividade assistencial, na redução das atividades relacionadas com a prevenção da doença ou promoção da saúde", sublinha o relatório "Pandemia de Covid-19: Desafios para a saúde dos portugueses" esta segunda-feira divulgado.
Segundo o documento do Conselho Nacional da Saúde (CNS), comparando com a média de 2015 a 2019, em Portugal continental registou-se uma redução de 19% no número de intervenções cirúrgicas programadas em 2020, ou seja, menos cerca de 700 mil cirurgias, com redução superior (23,1%) nas cirurgias convencionais.
Mesmo as cirurgias urgentes tiveram uma diminuição de 8,3%, com menos cerca de 50 mil realizadas no primeiro ano da pandemia, refere o órgão independente de consulta do Governo, que concluiu ainda que pouco menos de 3/4 das consultas foram realizadas dentro do Tempo Máximo de Resposta Garantido em 2020, valor que voltou a subir para os valores pré-pandemia em 2021.
De acordo com o documento, durante 2020 e 2021 registou-se também uma quebra do número de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, comparativamente ao período de 2016 a 2019, assim como uma diminuição de 1,1 pontos percentuais da cobertura da população inscrita com médico de família, contrariando uma tendência crescente verificada em anos anteriores.
"Nos cuidados de saúde hospitalares a redução da proporção de utentes com acesso a cuidados foi um pouco mais marcada", refere o documento, ao avançar que, em 2020, houve uma redução de 12,2 a 21,6% das primeiras consultas hospitalares, sendo esta diminuição menos acentuada nas consultas subsequentes (entre 0,04% e 16,6%).
Também os cuidados de saúde preventivos sofreram uma "forte disrupção com a pandemia", particularmente evidente em 2020, indica o documento, alertando que, se a diminuição da atividade assistencial tem implicações profundas no imediato, os impactos na área dos cuidados preventivos e de promoção da saúde "certamente se encontrarão com maior evidência no avanço da linha do tempo".
De acordo com o relatório, a vigilância das pessoas com diabetes sofreu um "impacto significativo", com redução da proporção de vigilância do pé diabético ou controlo de hemoglobina glicada.
"Existiu igualmente uma redução de 102.812 pessoas rastreadas para a retinopatia diabética no ano de 2020", indica o CNS, que avança que menos 174.218 mulheres foram rastreadas para o cancro da mama, menos 124.835 mulheres para o cancro do colo do útero e menos 34.920 pessoas rastreadas para o cancro do cólon e reto.
"Quanto aos rastreios de âmbito populacional, em 2020, em Portugal continental, a proporção de população elegível rastreada para o cancro da mama decresceu quanto à média dos anos 2016-2019, com uma redução de cerca de 10 pontos percentuais relativamente a 2019", sublinha o documento.
O número de utentes com problemas relacionados com álcool em tratamento diminuiu de 2019 para 2020 em cerca de 8%, com uma redução de quase 50% do número de novos utentes em tratamento e 30% dos utentes readmitidos.
Apesar das reduções, o CNS assinala que "não houve paragem dos cuidados, embora estes tenham ficado fortemente comprometidos" durante a pandemia de Covid-19.
No que diz respeito aos recursos humanos, entre 2018 e 2021, verificou-se um aumento de 16,3% no número de trabalhadores no SNS, sendo que o grupo com maior aumento foi o dos assistentes operacionais (24,2%), seguido do dos técnicos de saúde (22,1%) e do dos técnicos de diagnóstico e terapêutica (20,9%).
O número de médicos - sem considerar internos de especialidade - cresceu 11,9% e o de enfermeiros 16,8% entre 2018 e agosto de 2021.
Relativamente à saúde mental, o relatório do CNS recorda que, em Portugal, existiram dois períodos de confinamento geral - de março a abril 2020 e de janeiro a março 2021 - que colocaram a questão do seu "impacto nos níveis de solidão, depressão, uso nocivo de álcool e outras drogas e comportamentos de auto-lesão".
"A generalização, quase instantânea, do teletrabalho provocou sentimentos de isolamento social e solidão que, por sua vez, reduziram a capacidade de lidar com as mudanças na carga de trabalho e no tempo de trabalho, afetando adversamente os níveis de stresse e o bem-estar mental e físico dos trabalhadores", refere o documento.
No geral, o CNS alerta que a pandemia poderá ter, direta e indiretamente, afetado a saúde mental da população e levado ao aumento de procura dos serviços relevantes.
"Medo, luto, isolamento, perda de rendimento poderão ter desencadeado novos problemas de saúde mental ou agravado os pré-existentes, assim como a própria Covid-19 poderá aumentar o risco de morbilidade psicológica e neurológica, a curto e médio prazo", adianta.
O documento, que é apresentado hoje numa sessão na Assembleia da República, analisa o impacto da pandemia nos principais indicadores sociodemográficos, na saúde mental da população e na prestação de cuidados de saúde.
Criado em 2016, o CNS é um órgão independente de consulta do Governo, que visa garantir a participação dos cidadãos na definição das políticas de saúde e promover uma cultura de transparência e de prestação de contas perante a sociedade.
Pandemia agravou risco de pobreza de famílias monoparentais de 25% para 30% num ano
Miguel Godinho, in DN
No Dia Mundial da População, a Pordata divulga um conjunto de mais de 50 indicadores que permitem fazer uma "radiografia abrangente" do país nos últimos três anos. Pandemia prejudicou os rendimentos das famílias e trouxe mais dívida pública.Apandemia agravou o risco de pobreza a nível nacional e quem mais sofreu foram as famílias monoparentais, com pelo menos um dependente. A conclusão é da base de dados Pordata que detalha que, entre 2019 e 2020, houve um aumento de 4,7 pontos percentuais na taxa de risco de pobreza das famílias monoparentais, passando de 25,5% para 30,2%. No mesmo período, a taxa de risco de pobreza da população em geral também aumentou, em 2,2 pontos percentuais, passando de 16,2% para 18,4%.
São números preocupantes e que poderão agravar-se em 2022, tendo em conta a subida em flecha da inflação que afeta o custo de vida de famílias e empresas. Segundo a última atualização do Eurostat, a inflação estimada para Portugal (9%), em junho, estava acima da média da Zona Euro (8,1%). Mas a tendência de aumento da inflação já era visível no período estudado. De acordo com os dados da Pordata, a taxa de inflação estava nos 0,3% em 2019, o último ano pré-pandemia, tendo crescido para 1,3% em 2021, com a reabertura da economia a permitir o regresso do consumo.
A pandemia beneficiou também a poupança das famílias portuguesas, tendo aumentado 5,7 pontos percentuais entre 2019 e 2020.
Os dados são divulgados no Dia Mundial da População e fazem parte de um conjunto de mais de meia centena de indicadores estudados durante o período pandémico. O objetivo é oferecer "uma compilação rigorosa" que permita "fazer uma radiografia abrangente dos acontecimentos nos últimos três anos em Portugal", explica a Pordata.
Debruçando-se sobre áreas como a população, a economia do país, as comunicações ou o emprego, o conjunto dos dados divulgados esta segunda-feira mostra ainda que, no período estudado, a dívida pública em percentagem do PIB também sofreu variações. Se em 2019 estava cifrada nos 116,6%, no ano seguinte esse valor subiu para 135,2% e, em 2021, voltou a descer, tendo terminado o ano nos 127,4%.
Outro indicador em destaque é o acesso à internet, com mais famílias a estarem em rede, num total de 87,3% dos agregados a terem acesso em 2021. Em 2019, por exemplo, a percentagem de famílias era de 80,9%. Ainda que não seja especificado nos dados, este aumento no alcance da internet pode ser explicado pelos períodos de confinamento provocados pela covid-19, que obrigaram a teletrabalho e ensino à distância. O mesmo se passou com os consumos de energia que aumentaram 4,8% entre 2019 e 2020.
Por fim, o desemprego subiu 22,5% entre 2019 e 2020. Isto significa um total 384,9 mil pessoas inscritas nos centros de emprego em 2020. Com isto, a taxa de desemprego aumentou para 7%, mas, em 2021, voltou a baixar para 6,6% (o valor de 2019) - atualmente é de 6,1%. Ao mesmo tempo, o número de beneficiários de prestações sociais também aumentou, passando para 240 148 pessoas em 2020, ou seja, um aumento de 41,7% face ao ano anterior, em que se registaram 169 485 beneficiários.
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