Alexandra Campos, in Público
No início, foi a corrida às vacinas contra a covid-19. Agora, há milhões de doses de sobra e muitas foram já para o lixo. Comissão Europeia está a tentar renegociar contratos com as farmacêuticas.
Quando as vacinas contra a covid-19 surgiram, em Dezembro de 2020, chegavam aos países a conta-gotas, foram racionadas e muito disputadas, numa autêntica “corrida” a nível internacional. Com a normalização da situação epidemiológica e o crescente desinteresse na vacinação de reforço, os países confrontam-se hoje com o problema inverso: não sabem o que fazer aos milhões de doses de vacinas que encomendaram no pico da crise pandémica e às que vão sobrando e têm prazos de validade curtos. Muitas doses já foram para o lixo e a Comissão Europeia está agora a tentar renegociar contratos com as farmacêuticas.
Portugal não é excepção. Até ao final do ano passado, teve de destruir "aproximadamente 3,5 milhões de doses" de vacinas e que foram adquiridas através do processo de compra centralizada conduzido pela Comissão Europeia, revela o Ministério da Saúde. É “uma taxa de inutilização de 8,5%”, contabiliza, sublinhando que representa, mesmo assim, uma das “menores taxas de inutilização a nível europeu”, graças à "conjugação da grande adesão dos portugueses à vacinação" e "uma eficaz e responsável gestão do aprovisionamento".
Os contratos com as farmacêuticas são confidenciais e os valores não são revelados, mas são muitos os milhões de euros que estão a ser desperdiçados e muitos mais os que podem vir a ser desperdiçados no futuro. Num breve balanço feito a pedido do PÚBLICO, o Ministério da Saúde não contabiliza a despesa com a aquisição de vacinas até ao momento. Adianta apenas que, entre 2020 e este ano, Portugal celebrou 14 contratos com seis fornecedores de vacinas e que foram entregues cerca de 40 milhões de um total de 61,7 milhões de doses encomendadas e adquiridas para o período até 2023.
Deste total, especifica, foram já utilizadas cerca de 28,5 milhões de doses, enquanto aproximadamente 8,1 milhões foram doadas e mais de 2,6 milhões foram revendidas a outros países.
Em teoria, portanto, Portugal deveria receber este ano mais de 20 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Mas espera-se que seja possível reduzir a quantidade e alargar os prazos de entrega das vacinas. Lembrando que há “um processo em curso” de renegociação na União Europeia, o ministério diz que “não é possível adiantar o número de entregas para 2023”.
“A Comissão Europeia, em representação dos Estados-membros da União Europeia, está a conduzir o processo de renegociação de um contrato assinado em 2021, no sentido de o ajustar às actuais circunstâncias epidemiológicas e estratégias de vacinação de cada Estado-membro, flexibilizando-se as quantidades e compromissos de entrega”, explica, em resposta escrita.
À semelhança do que está a acontecer em todo o mundo, desde que a campanha de vacinação arrancou, a adesão — que em Portugal é uma das mais elevadas do mundo — foi esfriando à medida que a situação se ia normalizando.
A campanha do segundo reforço (a quarta dose para a maior parte das pessoas) a nível nacional ficou longe das médias das anteriores. Até 23 de Abril (últimos dados da monitorização divulgada pela Direcção-Geral da Saúde), estavam vacinados 79% dos idosos a partir dos 80 anos (contra 97% no primeiro reforço). Mas na faixa etária entre os 50 e os 59 anos, a diferença era bem maior (45% de vacinados, contra 87% no primeiro reforço). Actualmente, vacinam-se muito poucas pessoas — na semana entre 17 e 23 de Abril, foram administradas apenas 1310 doses de reforço, um ritmo de 187 por dia.
Reduzir entregas e alargar prazos
Portugal aguarda, assim, o desfecho do processo de renegociação dos contratos com as farmacêuticas que a Comissão Europeia está a conduzir desde há algum tempo para atenuar o problema das doses em excesso, agora que o pior já passou e a Organização Mundial da Saúde já declarou o fim da covid-19 como uma emergência sanitária global.
Em Março passado, numa resposta ao Parlamento Europeu, a comissária europeia da Saúde, Stella Kyriakides, assegurava, citada pelo El País, que a Comissão estava a trabalhar com os Estados-membros e a indústria farmacêutica para encontrar “uma solução para o desequilíbrio entre a procura e a oferta” de vacinas. “Já se aprovaram várias alterações ao acordo de compra com a BioNTech-Pfizer para podermos cobrir parcialmente as necessidades dos Estados-membros. Não obstante, a Equipa Conjunta de Negociação continua a negociar uma redução das doses a entregar em 2023.”
Segundo o jornal Financial Times, que cita fontes ligadas a este processo, o acordo passa por alargar até 2026 as entregas que estavam encomendadas e se previa chegassem até ao final deste ano. Mas isso não chega para resolver o problema de todas as doses que já foram adquiridas e que correm agora o risco de ultrapassar o prazo de validade.
Enquanto as negociações decorrem, milhões de doses das vacinas vão ultrapassando os prazos de validade. Em Janeiro, a Alemanha contabilizava que seriam 36,6 milhões de doses cujos prazos estavam a expirar, e a Áustria revelou que quase 18 milhões de doses da vacina chegaram ao fim da validade e não foram usadas
Vários países têm estado a fazer pressão para que estas negociações acelerem. Com a Polónia na liderança, um grupo de países — que inclui a Bulgária, a Hungria e a Lituânia — reclama maior transparência neste processo e defende que a Pfizer e outras farmacêuticas devem aceitar renegociar as condições dos contratos e facilitar o cancelamento de encomendas, lembrando que as circunstâncias são hoje completamente diferentes. O maior contrato da UE é o que foi assinado com a Pfizer/BioNTech. Firmado no pico da pandemia, o acordo determina que a UE compre 500 milhões de doses este ano, numa altura em que as taxas de vacinação diminuíram substancialmente e a pandemia entrou numa fase endémica.
Enquanto as negociações decorrem, milhões de doses das vacinas vão ultrapassando os prazos de validade. Em Janeiro, a Alemanha contabilizava que seriam 36,6 milhões de doses cujos prazos estavam a expirar, e a Áustria revelou que quase 18 milhões de doses da vacina chegaram ao fim da validade e não foram usadas.
“Apesar de a situação epidémica estar estabilizada em toda a Europa, a Pfizer continua a planear entregar centenas de milhões de vacinas à Europa. Isto carece totalmente de sentido do ponto de vista da saúde pública, já que a maior parte destas será destruída devido ao limitado prazo de validade e à reduzida procura”, argumenta o ministro polaco da Saúde, Adam Niedzielski, numa carta aberta aos accionistas da Pfizer e que foi divulgada na última semana.
Na carta, o ministro sublinha que a Polónia recusa liminarmente a possibilidade — também adiantada pelo Financial Times — de que Bruxelas acorde com a Pfizer a entrega de 70 milhões de doses anuais até 2026, com a condição de os países pagarem metade do preço da vacina por cada dose cancelada.
Isso “não é justo”, defende o ministro da Saúde polaco, destacando que estão em causa vacinas que ainda nem sequer foram produzidas. Frontalmente contra esta “taxa de cancelamento” das encomendas, o ministro pede à Pfizer que apresente “propostas realistas que respondam à situação que [hoje é] completamente diferente na Europa”. “Em vez de mostrar solidariedade, a empresa quer obter ainda mais dinheiro de fundos alocados por Estados-membros da UE que tinham como objectivo a protecção da saúde pública”, critica.
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15.3.21
África em risco de perder anos de luta contra outras epidemias
António Rodrigues, in Público on-line
O objectivo da fome zero em África em 2030 não vai acontecer e a luta contra a malária vai recuar uma década.
África poderá ter aguentado melhor do que se esperava o impacto da covid-19, mesmo tendo em conta a actual segunda vaga de infecções que se está a mostrar muito mais letal (2,5%) do que a média mundial (2,2%), segundo o Centro de Controlo de Doenças e Prevenção de Doenças africano. A pandemia enfraqueceu os já frágeis sistemas de saúde, o que poderá atrasar o já demorado processo de vacinação e provocar mazelas na luta contra outras doenças.
Segundo Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente francês François Mitterrand, cuja consultora elaborou o relatório Africa Trend 2021, a pandemia vai fazer recuar uma década a luta contra a malária, acrescentando mais 100 mil mortes por ano a uma doença que já é uma das principais causas de letalidade em África.
“O continente deverá enfrentar surtos de doenças evitáveis pela vacinação, como poliomielite, sarampo e a febre-amarela, porque as campanhas de vacinação das crianças foram interrompidas, especialmente na Nigéria. Os acompanhamentos da tuberculose e do VIH foram quase totalmente abandonados, acrescentando entre 200 mil a 400 mil mortes suplementares em 2020”, explicou Attali à France Info.
O número de mortes de sida recuou em 2020 para níveis de 2008 em África: um milhão de mortos. As outras doenças evitáveis poderão também acrescentar um milhão de mortes em 2021.
O impacto económico no continente foi tremendo e o empobrecimento de populações, já de si a viver com dificuldades sem os constrangimentos da pandemia, tornou-se dramático. A crise da dívida estrangula a actividade dos Estados e ameaça a actividade económica, já de si diminuída pela falta de investimento estrangeiro directo, e na Europa temem-se novas vagas de migrantes desesperados em busca dos empregos que deixaram de existir nos seus países.
A primeira recessão no continente em 25 anos, segundo um relatório da Comissão Económica para África das Nações Unidas divulgado na terça-feira, travou a curva de desenvolvimento e a pobreza subiu pela primeira vez em décadas.
E a capacidade de recuperação do continente está ameaçada pela dificuldade de acesso a vacinas, como alertou a directora executiva do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva: “O insuficiente e tardio fornecimento de vacinas na África subsariana irá prejudicar os esforços para pôr termo à pandemia, não apenas a nível regional, mas também à escala internacional, com repercussões negativas significativas para a situação sanitária, o crescimento e o comércio no resto do mundo”.
Na quarta-feira, Abebe Haile-Gabriel, representante para África da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, constatava o óbvio: o continente não está no caminho certo para atingir o objectivo da fome zero em 2030.
“Os resultados permanecem insatisfatórios e há muitos desafios devido às alterações climáticas, à fraca situação económica e aos impactos negativos da covid-19, assim como à falta de investimentos público”, explicou Haile-Gabriel, citado num comunicado Comissão Económica para África.
Daily Maverick Sizwe, de 15 anos, que com a irmã, Dumisani, de dez, mendigam nas ruas de Joanesburgo, sentem o impacto da pandemia no estômago. “No princípio, os assistentes sociais vinham à nossa casa com comida que nos sustentava durante um mês, mas essas visitas pararam, por isso, agora, temos de pedir nas ruas para, pelo menos, conseguir uma refeição todos os dias”, contava na semana passada ao site sul-africano
Mas pedir esmola tornou-se difícil na África do Sul. “Com as novas restrições da covid-19 em vigor, conseguir uma esmola de um transeunte é um milagre. Muitas vezes vou para a cama com fome”, explica Michael Malatsi de 66 anos.
E se isto acontece num dos mais seguros países em termos alimentares da África subsariana, é fácil imaginar o impacto em nações mais frágeis. “O movimento inicial de restrições (confinamento parcial e completo) imposto pelos países coincidiu com os períodos de plantação (importantes no calendário agrícola) para a maior parte das colheitas básicas na região”, escreveram Ayansina Ayanlade e Maren Radeny na Nature, e “é provável que venha a exacerbar os desafios da segurança alimentar em muitos países”.
O objectivo da fome zero em África em 2030 não vai acontecer e a luta contra a malária vai recuar uma década.
África poderá ter aguentado melhor do que se esperava o impacto da covid-19, mesmo tendo em conta a actual segunda vaga de infecções que se está a mostrar muito mais letal (2,5%) do que a média mundial (2,2%), segundo o Centro de Controlo de Doenças e Prevenção de Doenças africano. A pandemia enfraqueceu os já frágeis sistemas de saúde, o que poderá atrasar o já demorado processo de vacinação e provocar mazelas na luta contra outras doenças.
Segundo Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente francês François Mitterrand, cuja consultora elaborou o relatório Africa Trend 2021, a pandemia vai fazer recuar uma década a luta contra a malária, acrescentando mais 100 mil mortes por ano a uma doença que já é uma das principais causas de letalidade em África.
“O continente deverá enfrentar surtos de doenças evitáveis pela vacinação, como poliomielite, sarampo e a febre-amarela, porque as campanhas de vacinação das crianças foram interrompidas, especialmente na Nigéria. Os acompanhamentos da tuberculose e do VIH foram quase totalmente abandonados, acrescentando entre 200 mil a 400 mil mortes suplementares em 2020”, explicou Attali à France Info.
O número de mortes de sida recuou em 2020 para níveis de 2008 em África: um milhão de mortos. As outras doenças evitáveis poderão também acrescentar um milhão de mortes em 2021.
O impacto económico no continente foi tremendo e o empobrecimento de populações, já de si a viver com dificuldades sem os constrangimentos da pandemia, tornou-se dramático. A crise da dívida estrangula a actividade dos Estados e ameaça a actividade económica, já de si diminuída pela falta de investimento estrangeiro directo, e na Europa temem-se novas vagas de migrantes desesperados em busca dos empregos que deixaram de existir nos seus países.
A primeira recessão no continente em 25 anos, segundo um relatório da Comissão Económica para África das Nações Unidas divulgado na terça-feira, travou a curva de desenvolvimento e a pobreza subiu pela primeira vez em décadas.
E a capacidade de recuperação do continente está ameaçada pela dificuldade de acesso a vacinas, como alertou a directora executiva do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva: “O insuficiente e tardio fornecimento de vacinas na África subsariana irá prejudicar os esforços para pôr termo à pandemia, não apenas a nível regional, mas também à escala internacional, com repercussões negativas significativas para a situação sanitária, o crescimento e o comércio no resto do mundo”.
Na quarta-feira, Abebe Haile-Gabriel, representante para África da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, constatava o óbvio: o continente não está no caminho certo para atingir o objectivo da fome zero em 2030.
“Os resultados permanecem insatisfatórios e há muitos desafios devido às alterações climáticas, à fraca situação económica e aos impactos negativos da covid-19, assim como à falta de investimentos público”, explicou Haile-Gabriel, citado num comunicado Comissão Económica para África.
Daily Maverick Sizwe, de 15 anos, que com a irmã, Dumisani, de dez, mendigam nas ruas de Joanesburgo, sentem o impacto da pandemia no estômago. “No princípio, os assistentes sociais vinham à nossa casa com comida que nos sustentava durante um mês, mas essas visitas pararam, por isso, agora, temos de pedir nas ruas para, pelo menos, conseguir uma refeição todos os dias”, contava na semana passada ao site sul-africano
Mas pedir esmola tornou-se difícil na África do Sul. “Com as novas restrições da covid-19 em vigor, conseguir uma esmola de um transeunte é um milagre. Muitas vezes vou para a cama com fome”, explica Michael Malatsi de 66 anos.
E se isto acontece num dos mais seguros países em termos alimentares da África subsariana, é fácil imaginar o impacto em nações mais frágeis. “O movimento inicial de restrições (confinamento parcial e completo) imposto pelos países coincidiu com os períodos de plantação (importantes no calendário agrícola) para a maior parte das colheitas básicas na região”, escreveram Ayansina Ayanlade e Maren Radeny na Nature, e “é provável que venha a exacerbar os desafios da segurança alimentar em muitos países”.
25.2.21
Líder do FMI afirma que crise vai aumentar desigualdades entre países
Por Notícias ao Minuto
A crise económica provocada pela pandemia está a deixar para trás muitas economias e agrava a situação dos mais pobres, afirmou hoje a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), apontando o acesso "desigual" às vacinas.
"Estimamos que, no final de 2022, o rendimento acumulado 'per capita' será 13% menor do que indicavam as projeções feitas antes da crise nas economias avançadas, em comparação com 18% para os países de baixos rendimentos e 22% para os países emergentes e em desenvolvimento, excluindo a China", sublinhou Kristalina Georgieva numa nota publicada no blogue do FMI por ocasião de uma reunião virtual de ministros das Finanças e líderes de bancos centrais do G20.
A consequência direta será um aumento "de milhões" no número de pessoas extremamente pobres nos países em desenvolvimento, disse.
A dirigente do FMI lembrou que antes da crise, o FMI previa uma redução na divergência de rendimentos entre as economias mais avançadas e 110 países emergentes e em desenvolvimento entre 2020 e 2022.
"Prevemos agora que apenas 52 economias irão recuperar durante este período, enquanto 58 devem ficar para trás", acrescentou.
Isso deve-se "em parte ao acesso desigual às vacinas" porque, mesmo nas melhores circunstâncias, a maioria das economias em desenvolvimento só devem ter cobertura generalizada de vacinas até ao fim de 2022 ou mesmo depois", escreveu Georgieva.
Alguns países estão particularmente expostos, como os que dependem do turismo e das exportações de petróleo, mais afetados pela crise. "A maioria destes países tem limites devido a uma margem de manobra reduzida nos seus orçamentos", segundo Kristalina Georgieva.
A líder do FMI não se manifestou apenas preocupada com o desvio entre países. "Constatamos também uma divergência acelerada dentro dos países: jovens, trabalhadores pouco qualificados, mulheres e trabalhadores informais foram afetados de forma desproporcional pela perda de empregos", apontou.
Georgieva lembrou ainda que milhões de crianças estão confrontadas com perturbações na educação.
"Seria um erro imperdoável tornarem-se uma geração perdida", considerou.
Neste contexto, Georgieva defendeu que devem continuar os esforços para pôr fim à crise sanitária, acelerando a vacinação, o que pode permitir aumentar em 9 biliões de dólares o rendimento mundial entre 2020 e 2025.
Exortou também os países do G20 a manterem o apoio orçamental e a apoiarem os países mais vulneráveis, por exemplo, com alívios de dívida.
A crise económica provocada pela pandemia está a deixar para trás muitas economias e agrava a situação dos mais pobres, afirmou hoje a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), apontando o acesso "desigual" às vacinas.
"Estimamos que, no final de 2022, o rendimento acumulado 'per capita' será 13% menor do que indicavam as projeções feitas antes da crise nas economias avançadas, em comparação com 18% para os países de baixos rendimentos e 22% para os países emergentes e em desenvolvimento, excluindo a China", sublinhou Kristalina Georgieva numa nota publicada no blogue do FMI por ocasião de uma reunião virtual de ministros das Finanças e líderes de bancos centrais do G20.
A consequência direta será um aumento "de milhões" no número de pessoas extremamente pobres nos países em desenvolvimento, disse.
A dirigente do FMI lembrou que antes da crise, o FMI previa uma redução na divergência de rendimentos entre as economias mais avançadas e 110 países emergentes e em desenvolvimento entre 2020 e 2022.
"Prevemos agora que apenas 52 economias irão recuperar durante este período, enquanto 58 devem ficar para trás", acrescentou.
Isso deve-se "em parte ao acesso desigual às vacinas" porque, mesmo nas melhores circunstâncias, a maioria das economias em desenvolvimento só devem ter cobertura generalizada de vacinas até ao fim de 2022 ou mesmo depois", escreveu Georgieva.
Alguns países estão particularmente expostos, como os que dependem do turismo e das exportações de petróleo, mais afetados pela crise. "A maioria destes países tem limites devido a uma margem de manobra reduzida nos seus orçamentos", segundo Kristalina Georgieva.
A líder do FMI não se manifestou apenas preocupada com o desvio entre países. "Constatamos também uma divergência acelerada dentro dos países: jovens, trabalhadores pouco qualificados, mulheres e trabalhadores informais foram afetados de forma desproporcional pela perda de empregos", apontou.
Georgieva lembrou ainda que milhões de crianças estão confrontadas com perturbações na educação.
"Seria um erro imperdoável tornarem-se uma geração perdida", considerou.
Neste contexto, Georgieva defendeu que devem continuar os esforços para pôr fim à crise sanitária, acelerando a vacinação, o que pode permitir aumentar em 9 biliões de dólares o rendimento mundial entre 2020 e 2025.
Exortou também os países do G20 a manterem o apoio orçamental e a apoiarem os países mais vulneráveis, por exemplo, com alívios de dívida.
Líderes da UE insistem na coordenação, mas medidas de combate à pandemia continuam
Rita Siza em Bruxelas, in Público on-line
Conclusões do Conselho Europeu apontam para a manutenção de “restrições rigorosas” nas fronteiras. A aceleração da campanha de vacinação é a maior preocupação e a grande prioridade dos 27.
Conclusões do Conselho Europeu apontam para a manutenção de “restrições rigorosas” nas fronteiras. A aceleração da campanha de vacinação é a maior preocupação e a grande prioridade dos 27.
Ao fim de um ano, e de muitas medidas com carácter de emergência e duração limitada, os chefes de Estado governo da União Europeia continuam a discutir a necessidade de acertar as suas acções no terreno e coordenar melhor os esforços no combate à pandemia de covid-19.
Há sempre elementos novos no debate entre os líderes europeus: esta quinta-feira, serão as “questões mais técnicas” ligadas à propagação das novas variantes e a adaptação das vacinas às mutações do vírus, a generalização do recurso aos testes rápidos antigénios e a emissão de certificados de vacinação que vão estar em cima da mesa da reunião, mais uma vez virtual, do Conselho Europeu.
Mas a questão de fundo — e que é política — é a mesma desde que o novo coronavírus irrompeu no continente, em Fevereiro de 2020: como evitar que, à custa de uma pandemia, as quatro liberdades garantidas pelo mercado único europeu fiquem reduzidas a apenas três, por força dos controlos fronteiriços e todas as outras restrições impostas à livre circulação de pessoas?
Os 27 ainda procuram a melhor resposta para essa pergunta. Apesar da incompreensão e críticas motivadas pelas decisões unilaterais de seis Estados membros (Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Hungria e Suécia) que este mês voltaram a fechar as suas fronteiras para impedir o contacto das suas populações com as novas variantes, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, entende que essas medidas não devem ser postas em causa.
“A situação epidemiológica mantém-se bastante grave, ainda estamos num momento em que todas as deslocações não essenciais devem ser desencorajadas”, considerou uma fonte europeia, que reconhecia que “as liberdades de que os europeus gozam desde o início da crise são menores” e que as restrições impostas “têm implicações no funcionamento do mercado único”. Ao mesmo tempo, dizia que não existe outra alternativa que não “limitar os movimentos agora, para evitar a propagação das novas variantes”.
“Não cabe ao presidente do Conselho Europeu julgar as decisões tomadas por vários governos para travar as contaminações”, observou o mesmo responsável, que remeteu para as duas recomendações aprovadas pelos 27 relativas a viagens dentro da UE e para o território europeu, e lembrou que é à Comissão que compete verificar se as restrições aprovadas pelos Estados membros são conformes aos tratados (o executivo enviou cartas a ameaçar a abertura de procedimentos de infracção se as medidas não forem corrigidas num prazo de dez dias).
Entre os líderes não parece haver apetite para arrastar o debate e a polémica sobre as restrições e controlos nas fronteiras. Alguns, principalmente os do Sul da Europa, preocupados com a possível perda de mais uma época turística no Verão, preferem avançar na discussão dos certificados de vacinação. Para já, esse debate prossegue apenas ao nível técnico, em colaboração com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e a Organização Mundial de Saúde, e não se espera que evolua muito para além disso em termos políticos.
“Há pouca clareza sobre a matéria e são precisos mais dados científicos”, diz fonte europeia, justificando a posição de países como a França ou a Alemanha que não têm o tema na lista das suas prioridades. Ainda assim, Charles Michel quis colocar a questão na agenda, para sinalizar o interesse num compromisso que evite que, mais uma vez, os governos tomem decisões unilaterais ou assinem acordos ad-hoc com países terceiros.
Intensificar esforços
Assim, no rascunho das conclusões do Conselho Europeu, a que o PÚBLICO teve acesso, os 27 apelam à “prossecução dos trabalhos relativos a uma abordagem comum no que respeita aos certificados de vacinação”. Enquanto isso, defendem que devem manter-se “restrições rigorosas (…), de acordo com os princípios da proporcionalidade e da não-discriminação, e tendo em conta a situação específica das comunidades transfronteiriças”. E “simultaneamente” devem intensificar-se os esforços para “acelerar o fornecimento de vacinas”.
É nas dificuldades que persistem no abastecimento dos países europeus, e no comportamento das três farmacêuticas cujas vacinas já foram aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento, que as atenções dos líderes estão concentradas: o apelo que deixaram no final da última reunião do Conselho Europeu (21 de Janeiro) para a aceleração da campanha de vacinação só se tornou mais dramático, depois de a UE ter ficado para trás de outros parceiros em termos do acesso e administração da vacina.
“Temos de acelerar urgentemente a autorização, a produção e a distribuição de vacinas, bem como a vacinação”, dizem as conclusões do Conselho Europeu, onde os 27 expressam mais uma vez o seu apoio à estratégia da Comissão e aos seus esforços “para trabalhar com a indústria no sentido de aumentar a actual capacidade de produção de vacinas, bem como adaptá-las às novas variantes, consoante necessário”.
O investimento no reforço da produção e na investigação e desenvolvimento de vacinas tinham sido as duas acções apontadas como fundamentais para ultrapassar os bloqueios da campanha europeia numa carta conjunta do primeiro-ministro, António Costa, e da presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, enviada às capitais a 2 de Fevereiro.
Na véspera do Conselho Europeu, uma nova missiva, subscrita pelos chefes dos governos de Espanha, Bélgica, Dinamarca, Lituânia e Polónia, defendia que os recursos deviam ser concentrados no apoio aos produtores de vacinas assentes na tecnologia ARNm (ADN mensageiro), como é o caso do consórcio Pfizer/BioNTech e Moderna, e na promoção de parcerias público-privadas através de toda a cadeia de valor no fabrico de vacinas.
No gabinete de Charles Michel, as reivindicações não foram interpretadas como um novo ataque contra a companhia anglo-sueca AstraZeneca, que esteve na linha de fogo da Comissão depois de ter comunicado uma redução das entregas das doses previstas para o primeiro trimestre do ano, e viu a eficácia da sua vacina ser questionada por políticos como o Presidente francês, Emmanuel Macron. “A estratégia agora é de aumentar a produção de todas as vacinas que são eficazes, e não apenas as de ARNm”, vincou fonte europeia.
Para isso, o presidente do Conselho Europeu já não fala no eventual recurso ao artigo 122 do Tratado de Funcionamento da UE, que permitiria à Comissão assumir o controlo da produção de vacinas ou os direitos de propriedade intelectual das farmacêuticas — como reclamam vários grupos políticos do Parlamento Europeu. “Preferimos a cooperação à obrigação”, comentou a mesma fonte.
Nas conclusões do Conselho, os 27 confirmam a disponibilidade para “facilitar a celebração de acordos entre fabricantes em todas as cadeias de abastecimento” e “examinar as instalações existentes para ajudar a aumentar a produção na UE”, e repetem o aviso às empresas que “devem assegurar a previsibilidade da sua produção de vacinas e respeitar os prazos contratuais de entrega das mesmas”.
Há sempre elementos novos no debate entre os líderes europeus: esta quinta-feira, serão as “questões mais técnicas” ligadas à propagação das novas variantes e a adaptação das vacinas às mutações do vírus, a generalização do recurso aos testes rápidos antigénios e a emissão de certificados de vacinação que vão estar em cima da mesa da reunião, mais uma vez virtual, do Conselho Europeu.
Mas a questão de fundo — e que é política — é a mesma desde que o novo coronavírus irrompeu no continente, em Fevereiro de 2020: como evitar que, à custa de uma pandemia, as quatro liberdades garantidas pelo mercado único europeu fiquem reduzidas a apenas três, por força dos controlos fronteiriços e todas as outras restrições impostas à livre circulação de pessoas?
Os 27 ainda procuram a melhor resposta para essa pergunta. Apesar da incompreensão e críticas motivadas pelas decisões unilaterais de seis Estados membros (Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Hungria e Suécia) que este mês voltaram a fechar as suas fronteiras para impedir o contacto das suas populações com as novas variantes, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, entende que essas medidas não devem ser postas em causa.
“A situação epidemiológica mantém-se bastante grave, ainda estamos num momento em que todas as deslocações não essenciais devem ser desencorajadas”, considerou uma fonte europeia, que reconhecia que “as liberdades de que os europeus gozam desde o início da crise são menores” e que as restrições impostas “têm implicações no funcionamento do mercado único”. Ao mesmo tempo, dizia que não existe outra alternativa que não “limitar os movimentos agora, para evitar a propagação das novas variantes”.
“Não cabe ao presidente do Conselho Europeu julgar as decisões tomadas por vários governos para travar as contaminações”, observou o mesmo responsável, que remeteu para as duas recomendações aprovadas pelos 27 relativas a viagens dentro da UE e para o território europeu, e lembrou que é à Comissão que compete verificar se as restrições aprovadas pelos Estados membros são conformes aos tratados (o executivo enviou cartas a ameaçar a abertura de procedimentos de infracção se as medidas não forem corrigidas num prazo de dez dias).
Entre os líderes não parece haver apetite para arrastar o debate e a polémica sobre as restrições e controlos nas fronteiras. Alguns, principalmente os do Sul da Europa, preocupados com a possível perda de mais uma época turística no Verão, preferem avançar na discussão dos certificados de vacinação. Para já, esse debate prossegue apenas ao nível técnico, em colaboração com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e a Organização Mundial de Saúde, e não se espera que evolua muito para além disso em termos políticos.
“Há pouca clareza sobre a matéria e são precisos mais dados científicos”, diz fonte europeia, justificando a posição de países como a França ou a Alemanha que não têm o tema na lista das suas prioridades. Ainda assim, Charles Michel quis colocar a questão na agenda, para sinalizar o interesse num compromisso que evite que, mais uma vez, os governos tomem decisões unilaterais ou assinem acordos ad-hoc com países terceiros.
Intensificar esforços
Assim, no rascunho das conclusões do Conselho Europeu, a que o PÚBLICO teve acesso, os 27 apelam à “prossecução dos trabalhos relativos a uma abordagem comum no que respeita aos certificados de vacinação”. Enquanto isso, defendem que devem manter-se “restrições rigorosas (…), de acordo com os princípios da proporcionalidade e da não-discriminação, e tendo em conta a situação específica das comunidades transfronteiriças”. E “simultaneamente” devem intensificar-se os esforços para “acelerar o fornecimento de vacinas”.
É nas dificuldades que persistem no abastecimento dos países europeus, e no comportamento das três farmacêuticas cujas vacinas já foram aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento, que as atenções dos líderes estão concentradas: o apelo que deixaram no final da última reunião do Conselho Europeu (21 de Janeiro) para a aceleração da campanha de vacinação só se tornou mais dramático, depois de a UE ter ficado para trás de outros parceiros em termos do acesso e administração da vacina.
“Temos de acelerar urgentemente a autorização, a produção e a distribuição de vacinas, bem como a vacinação”, dizem as conclusões do Conselho Europeu, onde os 27 expressam mais uma vez o seu apoio à estratégia da Comissão e aos seus esforços “para trabalhar com a indústria no sentido de aumentar a actual capacidade de produção de vacinas, bem como adaptá-las às novas variantes, consoante necessário”.
O investimento no reforço da produção e na investigação e desenvolvimento de vacinas tinham sido as duas acções apontadas como fundamentais para ultrapassar os bloqueios da campanha europeia numa carta conjunta do primeiro-ministro, António Costa, e da presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, enviada às capitais a 2 de Fevereiro.
Na véspera do Conselho Europeu, uma nova missiva, subscrita pelos chefes dos governos de Espanha, Bélgica, Dinamarca, Lituânia e Polónia, defendia que os recursos deviam ser concentrados no apoio aos produtores de vacinas assentes na tecnologia ARNm (ADN mensageiro), como é o caso do consórcio Pfizer/BioNTech e Moderna, e na promoção de parcerias público-privadas através de toda a cadeia de valor no fabrico de vacinas.
No gabinete de Charles Michel, as reivindicações não foram interpretadas como um novo ataque contra a companhia anglo-sueca AstraZeneca, que esteve na linha de fogo da Comissão depois de ter comunicado uma redução das entregas das doses previstas para o primeiro trimestre do ano, e viu a eficácia da sua vacina ser questionada por políticos como o Presidente francês, Emmanuel Macron. “A estratégia agora é de aumentar a produção de todas as vacinas que são eficazes, e não apenas as de ARNm”, vincou fonte europeia.
Para isso, o presidente do Conselho Europeu já não fala no eventual recurso ao artigo 122 do Tratado de Funcionamento da UE, que permitiria à Comissão assumir o controlo da produção de vacinas ou os direitos de propriedade intelectual das farmacêuticas — como reclamam vários grupos políticos do Parlamento Europeu. “Preferimos a cooperação à obrigação”, comentou a mesma fonte.
Nas conclusões do Conselho, os 27 confirmam a disponibilidade para “facilitar a celebração de acordos entre fabricantes em todas as cadeias de abastecimento” e “examinar as instalações existentes para ajudar a aumentar a produção na UE”, e repetem o aviso às empresas que “devem assegurar a previsibilidade da sua produção de vacinas e respeitar os prazos contratuais de entrega das mesmas”.
22.2.21
Países mais ricos já acumularam mais mil milhões de vacinas do que as que vão precisar
As nações mais ricas já conseguiram assegurar três mil milhões de vacinas, o suficiente para toda a população com duas doses. O excedente seria suficiente para “vacinar a totalidade da população adulta de África”.
Os países ricos vão ter mais de mil milhões de doses de vacinas contra a covid-19 do que aquelas que vão precisar para a sua população, deixando as nações mais pobres a lutar por restos. É o retrato traçado num relatório de activistas antipobreza publicado esta sexta-feira.
Numa análise aos actuais acordos de fornecimento de vacinas anticovid-19, a ONE Campaign sublinha que os países ricos, tais como os Estados Unidos e o Reino Unido, deveriam partilhar as doses que compraram a mais para apoiar uma resposta global à pandemia.
“Estas doses em excesso são suficientes para vacinar a totalidade da população adulta de África”, lê-se na análise.
A organização não-governamental, que luta contra a pobreza e doenças evitáveis, diz que, se isso não acontecer, vai negar-se a protecção essencial contra o SARS-CoV-2 (que causa a doença covid-19) a milhares de milhões de pessoas, algo que tem o potencial de prolongar a pandemia.
O relatório analisou os contratos já assinados com as cinco principais farmacêuticas detrás das vacinas contra a covid-19: Pfizer/BioNTech, Moderna, Universidade de Oxford/AstraZeneca, Johnson & Johnson e Novavax. E concluiu que, até à data, os EUA, a União Europeia (que inclui os 27 Estados-membros), o Reino Unido, a Austrália, o Canadá e o Japão já asseguraram mais de 3 mil milhões de doses — mais mil milhões de vacinas do que aquelas que precisavam para vacinar as suas populações com as duas doses necessárias.
Acumular aumenta risco de novas variantes
“Este excedente enorme é a personificação do nacionalismo das vacinas”, disse Jenny Ottenhoff, directora da One Campaign para políticas públicas. Afirma, ainda que é “necessário que se corrija o rumo” da vacinação se quisermos “proteger milhares de milhões de pessoas em todo o mundo”.
“Os líderes das nações ricas não estão a fazer nenhum favor aos seus próprios cidadãos nem ao resto do mundo se acumularem vacinas. Se o vírus puder prosperar em qualquer parte do mundo, o risco de novas variantes aumenta, e é apenas uma questão de tempo até que surjam estirpes que minem as vacinas e ferramentas que foram desenvolvidas para combater a covid-19”, continua.
A análise concluiu que, juntamente com as entregas das vacinas adquiridas através do plano global Covax e outros acordos bilaterais, as doses que os países ricos compraram em excesso contribuiriam em muito para proteger as pessoas mais vulneráveis nos países mais pobres.
Isto reduziria significativamente o risco de mortes causadas pela covid-19 e limitaria as hipóteses de surgimento de novas variantes de vírus, acelerando o fim da pandemia.
A Organização Mundial de Saúde instou na quinta-feira as nações que já compraram vacinas a doarem-nas ao Covax (em vez de as doarem a nações específicas, de forma unilateral) para assegurar a equidade.
Os países ricos vão ter mais de mil milhões de doses de vacinas contra a covid-19 do que aquelas que vão precisar para a sua população, deixando as nações mais pobres a lutar por restos. É o retrato traçado num relatório de activistas antipobreza publicado esta sexta-feira.
Numa análise aos actuais acordos de fornecimento de vacinas anticovid-19, a ONE Campaign sublinha que os países ricos, tais como os Estados Unidos e o Reino Unido, deveriam partilhar as doses que compraram a mais para apoiar uma resposta global à pandemia.
“Estas doses em excesso são suficientes para vacinar a totalidade da população adulta de África”, lê-se na análise.
A organização não-governamental, que luta contra a pobreza e doenças evitáveis, diz que, se isso não acontecer, vai negar-se a protecção essencial contra o SARS-CoV-2 (que causa a doença covid-19) a milhares de milhões de pessoas, algo que tem o potencial de prolongar a pandemia.
O relatório analisou os contratos já assinados com as cinco principais farmacêuticas detrás das vacinas contra a covid-19: Pfizer/BioNTech, Moderna, Universidade de Oxford/AstraZeneca, Johnson & Johnson e Novavax. E concluiu que, até à data, os EUA, a União Europeia (que inclui os 27 Estados-membros), o Reino Unido, a Austrália, o Canadá e o Japão já asseguraram mais de 3 mil milhões de doses — mais mil milhões de vacinas do que aquelas que precisavam para vacinar as suas populações com as duas doses necessárias.
Acumular aumenta risco de novas variantes
“Este excedente enorme é a personificação do nacionalismo das vacinas”, disse Jenny Ottenhoff, directora da One Campaign para políticas públicas. Afirma, ainda que é “necessário que se corrija o rumo” da vacinação se quisermos “proteger milhares de milhões de pessoas em todo o mundo”.
“Os líderes das nações ricas não estão a fazer nenhum favor aos seus próprios cidadãos nem ao resto do mundo se acumularem vacinas. Se o vírus puder prosperar em qualquer parte do mundo, o risco de novas variantes aumenta, e é apenas uma questão de tempo até que surjam estirpes que minem as vacinas e ferramentas que foram desenvolvidas para combater a covid-19”, continua.
A análise concluiu que, juntamente com as entregas das vacinas adquiridas através do plano global Covax e outros acordos bilaterais, as doses que os países ricos compraram em excesso contribuiriam em muito para proteger as pessoas mais vulneráveis nos países mais pobres.
Isto reduziria significativamente o risco de mortes causadas pela covid-19 e limitaria as hipóteses de surgimento de novas variantes de vírus, acelerando o fim da pandemia.
A Organização Mundial de Saúde instou na quinta-feira as nações que já compraram vacinas a doarem-nas ao Covax (em vez de as doarem a nações específicas, de forma unilateral) para assegurar a equidade.
19.1.21
“Pandemia, Pobreza e Vacinas”
Fidalgo Freitas, opinião, in Jornal do Centro
É sabido que sofrer de qualquer doença é mau, mas, se associada á pobreza é ainda pior. Por tal a Pandemia Covid não é exceção. A ser verdade, o que tenho lido e ouvido, agora que temos a Vacina, foram criados e bem, critérios na prioridade na administração, começando pelos profissionais e saúde, passando em breve para os mais idosos, de reconhecido e elevado risco, nomeadamente os utentes dos Lares.
Contudo, e ao que ouvi nas notícias diárias, não serão incluídos nesta primeira fase os utentes dos ditos “Lares Ilegais”. A ser verdade não posso deixar de manifestar o meu total desacordo, pois que, a existências destas estruturas ditas “ilegais”, tem a ver com as carências económicas das famílias e utentes. As exigências legais para ter em funcionamento um lar Legal são múltiplas e encarecem os preços das estadias (que o digam os responsáveis dos Lares legais, as dificuldades porque passam sob o ponto de vista financeiro), não suportáveis por uma grande maioria das famílias. Assim o recurso aos Lares Ilegais é na maior parte das vezes o recurso dos mais carenciados, e como tal não os incluir nesta fase da vacinação, e mais uma inadmissível discriminação entre utentes, com os mesmos direitos.
Aliás, e, se pensarmos nos outros idosos com mais de 75 anos, e, como tal de alto risco e não vivem em Lares felizmente, permanecendo em casa com apoio familiar ou outro e serão mais de 75% do total, quando irão ser vacinados? Pelos visto depois de passada a fase critica. Há dias um bom amigo, que tem os pais em casa com mais de 80 anos referia-me que embora não necessário iria tentar colocar os seus pais num Lar, para ver se eram vacinados em tempo útil. Há sempre tempo para corrigir os critérios.
É sabido que sofrer de qualquer doença é mau, mas, se associada á pobreza é ainda pior. Por tal a Pandemia Covid não é exceção. A ser verdade, o que tenho lido e ouvido, agora que temos a Vacina, foram criados e bem, critérios na prioridade na administração, começando pelos profissionais e saúde, passando em breve para os mais idosos, de reconhecido e elevado risco, nomeadamente os utentes dos Lares.
Contudo, e ao que ouvi nas notícias diárias, não serão incluídos nesta primeira fase os utentes dos ditos “Lares Ilegais”. A ser verdade não posso deixar de manifestar o meu total desacordo, pois que, a existências destas estruturas ditas “ilegais”, tem a ver com as carências económicas das famílias e utentes. As exigências legais para ter em funcionamento um lar Legal são múltiplas e encarecem os preços das estadias (que o digam os responsáveis dos Lares legais, as dificuldades porque passam sob o ponto de vista financeiro), não suportáveis por uma grande maioria das famílias. Assim o recurso aos Lares Ilegais é na maior parte das vezes o recurso dos mais carenciados, e como tal não os incluir nesta fase da vacinação, e mais uma inadmissível discriminação entre utentes, com os mesmos direitos.
Aliás, e, se pensarmos nos outros idosos com mais de 75 anos, e, como tal de alto risco e não vivem em Lares felizmente, permanecendo em casa com apoio familiar ou outro e serão mais de 75% do total, quando irão ser vacinados? Pelos visto depois de passada a fase critica. Há dias um bom amigo, que tem os pais em casa com mais de 80 anos referia-me que embora não necessário iria tentar colocar os seus pais num Lar, para ver se eram vacinados em tempo útil. Há sempre tempo para corrigir os critérios.
24.10.18
Portugueses são os europeus que mais confiam nas vacinas
Ana Cristina Pereira, in Público on-line
O relatório "O estado da confiança nas vacinas 2018" alerta para o aumento do sarampo
Nenhum país da União Europeia confia tanto na eficácia das vacinas como Portugal. A desconfiança, porém, está a alastrar no espaço comunitário. Desde 2010, a cobertura vacinal do sarampo diminuiu em 12 dos 28 estados-membros.
As consequências estão à vista. O relatório "O estado da confiança nas vacinas 2018", publicado nesta terça-feira pela Direcção-Geral de Saúde e Segurança Alimentar da União Europeia, chama a atenção para o facto de os mais recentes surtos de sarampo terem sido “os mais elevados em sete anos”.
Exposição
Como o feminismo foi atacado pela histeria ao longo dos séculos
Só entre Setembro de 2017 e Setembro de 2018 foram reportados mais de 13 mil casos de sarampo na Europa. E, para os autores do relatório, é evidente que este é "o impacto imediato do declínio da cobertura" da vacina contra sarampo combinada com as vacinas contra rubéola e parotidite epidémica.
Entre 2010 e 2017, a cobertura da primeira dose desceu em 12 países da União Europeia. Em alguns, a confiança na segurança desta vacina atinge os valores mais baixos de toda a União. São os casos da Suécia, da Bulgária e da Letónia, com menos de 70% da população a expressar confiança.
Apesar de tudo, quase 80% dos cidadãos da União Europeia acreditam que esta vacina é segura. Em Portugal, essa percentagem alcança os 96%. Aliás, Portugal é o país da União Europeia em que mais se confia nas vacinas.
O melhor do Público no email
Nos 28 estados membros da UE, a percepção do público em relação às vacinas é positiva, com a maioria dosa cidadãos a acharem que as vacinas são importantes (90,0%), seguras (82,8%), efectivas (87,8%) e compatíveis com as crenças religiosas (78,5%). E Portugal tem a maior percentagem de pessoas que entendem que as vacinas são seguras (95,1%), eficazes (96,6%) e importante para as crianças (98,0%).
Mais de mil casos de sarampo por mês na Europa no último ano
Este estudo tem por base inquéritos feitos nos 28 países ao longo do mês de Maio. Por telefone e ou pela Internet, foram entrevistadas cerca de 29 mil pessoas, o que corresponde a uma amostra representativa.
Não existe limite de idade para iniciar o esquema vacinal desta vacina. Também não existe limite de idade para o completar. Em Portugal, a vacina contra o sarampo faz parte do Programa Nacional de Vacinação e normalmente é administrada aos 12 meses e aos cinco anos.
O relatório "O estado da confiança nas vacinas 2018" alerta para o aumento do sarampo
Nenhum país da União Europeia confia tanto na eficácia das vacinas como Portugal. A desconfiança, porém, está a alastrar no espaço comunitário. Desde 2010, a cobertura vacinal do sarampo diminuiu em 12 dos 28 estados-membros.
As consequências estão à vista. O relatório "O estado da confiança nas vacinas 2018", publicado nesta terça-feira pela Direcção-Geral de Saúde e Segurança Alimentar da União Europeia, chama a atenção para o facto de os mais recentes surtos de sarampo terem sido “os mais elevados em sete anos”.
Exposição
Como o feminismo foi atacado pela histeria ao longo dos séculos
Só entre Setembro de 2017 e Setembro de 2018 foram reportados mais de 13 mil casos de sarampo na Europa. E, para os autores do relatório, é evidente que este é "o impacto imediato do declínio da cobertura" da vacina contra sarampo combinada com as vacinas contra rubéola e parotidite epidémica.
Entre 2010 e 2017, a cobertura da primeira dose desceu em 12 países da União Europeia. Em alguns, a confiança na segurança desta vacina atinge os valores mais baixos de toda a União. São os casos da Suécia, da Bulgária e da Letónia, com menos de 70% da população a expressar confiança.
Apesar de tudo, quase 80% dos cidadãos da União Europeia acreditam que esta vacina é segura. Em Portugal, essa percentagem alcança os 96%. Aliás, Portugal é o país da União Europeia em que mais se confia nas vacinas.
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Nos 28 estados membros da UE, a percepção do público em relação às vacinas é positiva, com a maioria dosa cidadãos a acharem que as vacinas são importantes (90,0%), seguras (82,8%), efectivas (87,8%) e compatíveis com as crenças religiosas (78,5%). E Portugal tem a maior percentagem de pessoas que entendem que as vacinas são seguras (95,1%), eficazes (96,6%) e importante para as crianças (98,0%).
Mais de mil casos de sarampo por mês na Europa no último ano
Este estudo tem por base inquéritos feitos nos 28 países ao longo do mês de Maio. Por telefone e ou pela Internet, foram entrevistadas cerca de 29 mil pessoas, o que corresponde a uma amostra representativa.
Não existe limite de idade para iniciar o esquema vacinal desta vacina. Também não existe limite de idade para o completar. Em Portugal, a vacina contra o sarampo faz parte do Programa Nacional de Vacinação e normalmente é administrada aos 12 meses e aos cinco anos.
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