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25.7.23

O segredo para viver mais tempo? Oito mudanças no seu estilo de vida, sugerem investigadores

in Público


Investigadores sugerem que poderíamos viver mais 20 anos se fizéssemos algumas “pequenas” mudanças de rotinas, mesmo que a adopção de hábitos mais saudáveis só aconteça após os 50 anos de idade.

Ter uma alimentação saudável, evitar os cigarros e o stress, fazer exercício e ter relacionamentos sociais positivos. Um grupo de investigadores sugere que estas e outras mudanças do seu estilo de vida (num total de oito) podem ajudar a que viva mais tempo - pelo menos mais vinte anos. Dormir bem, evitar bebidas em excesso e não consumir opióides são os restantes hábitos sugeridos pelos investigadores se quiser ter uma vida mais longa.

O estudo, apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Nutrição em Boston, nos EUA, baseou-se em dados de questionários e registos médicos recolhidos entre 2011 e 2019. No total, a base deste estudo foi feita com informações de mais de 700 mil veteranos de guerra dos EUA com idades compreendidas entre os 40 e os 99 anos.

Os investigadores sugerem que as pessoas poderiam viver mais se fizessem algumas "pequenas" mudanças nas suas rotinas, mesmo que a adopção destes hábitos mais saudáveis ​​só aconteça depois dos 50 anos. “As nossas descobertas sugerem que adoptar um estilo de vida saudável é importante tanto para a saúde pública quanto para o bem-estar pessoal”, refere Xuan-Mai T Nguyen, especialista em ciências da saúde e uma das investigadoras envolvidas no estudo ao The Guardian. “Quanto mais cedo melhor, mas mesmo que façam uma pequena mudança aos 40, 50 ou 60 anos, esta ainda será benéfica”.

Nguyen e a sua equipa colegas analisaram os dados para identificar quais factores estavam associados a uma expectativa de vida mais longa. “Homens e mulheres que adoptem estas oito mudanças podem ganhar 23,7 ou 22,6 anos de expectativa de vida, respectivamente, aos 40 anos, em comparação com quem não adoptou nenhuma mudança”, escrevem os autores.

Sem surpresas, ser fisicamente inactivo, usar opióides e fumar são os factores com associações mais fortes à morte precoce. Os participantes com estes hábitos tiveram um risco acrescido de morte de 30% a 45% durante o período do estudo. Por outro lado, o stress, o consumo excessivo de álcool, dormir mal e ter uma má alimentação foram associados a um risco acrescido de 20%.




15.5.23

Sintomas de burnout ameaçam quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo

Natália Faria, in Público


Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis foi criado há um ano para estudar os ambientes de trabalho nas empresas. Esta terça-feira é divulgado um manual de boas práticas.


Exaustos, irritados, frustrados, com dificuldades de concentração e incapazes de gerir o stress: quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo feito pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LPATS) mostram pelo menos um sintoma de burnout, o que equivale a dizer que arriscam um quadro de “permanente stress crónico laboral”, como adiantou ao PÚBLICO a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do laboratório.

Entre os que apresentaram o risco mais elevado de virem a cair no burnout, a sensação de exaustão física foi a mais referida: 42,6% disseram ter-se sentido assim nas quatro semanas anteriores ao inquérito. Mais: entre os que apresentaram pelo menos um sintoma de burnout, 63,5% somaram pelo menos três, incluindo exaustão, tristeza e irritabilidade, reunindo assim os critérios “para serem avaliados por um profissional da área”.

“O que acontece no burnout é que muitas vezes a pessoa não se apercebe, é algo que vai ocorrendo: a pessoa sente-se cansada, que não está a conseguir produzir o que produzia antes e acaba por cometer mais erros e sofrer alterações no sono. Depois, fica mais irritadiça e menos tolerante, vai-se isolando, perdendo capacidade de concentração. E, no limite, deixa de conseguir sair de casa e exercer a sua função; tem um esgotamento”, descreve Tânia Gaspar, autora de um estudo que, embora não seja extrapolável para a população do país, mostra a progressiva sobreexposição ao stress dos trabalhadores portugueses já apontada em estudos anteriores.

Para o relatório que vai ser apresentado esta terça-feira, dia 16, na I Conferência Internacional de Ambientes de Trabalho e Aprendizagem Saudáveis, em formato online, os investigadores inquiriram 1829 profissionais, entre os 18 e os 72 anos, de sectores que vão da saúde aos transportes, passando pela educação e comércio, entre outros. Daqueles, os profissionais da administração pública surgiram como os que denotam um risco mais elevado de vir a sofrer de burnout, seguidos dos trabalhadores do sector dos transportes, da saúde, da área social e dos profissionais da educação.

Em termos globais, 36,1% consideraram que o trabalho lhes consome muito tempo e energia, afectando negativamente a sua vida e 28,6% dos trabalhadores reportaram valores muito baixos de “engagement” com a empresa. A psicóloga que fez o estudo aponta ainda os 15,7% de trabalhadores inquiridos que declararam que se sentem alvo de ameaças ou de outra forma de abuso físico ou psicológico no local de trabalho. “É um valor muito elevado que nos leva a reflectir. E efectivamente tenho também na minha clínica muitos casos de pessoas mais velhas que não têm cultura de assertividade em relação às chefias. Há aqui um trabalho de prevenção a fazer”, advoga.

No conjunto dos trabalhadores, 28,1% reportaram sofrer de uma doença crónica e 17,8% elevados níveis de presentismo, isto é, “as pessoas vão trabalhar, mas sentem que não conseguem produzir aquilo que deviam e que o seu trabalho perdeu qualidade”, como descreve ainda Tânia Gaspar, para quem o teletrabalho ou o regime de trabalho híbrido podem ajudar a responder a várias das dificuldades reportadas pelos trabalhadores.

A deterioração da saúde mental dos profissionais agudizou-se durante a pandemia, nomeadamente porque durante os confinamentos muitas empresas “controlaram de uma maneira extrema os horários de trabalho dos profissionais, que contactavam fora das horas de trabalho por correio electrónico, Zoom, WhatsApp”, denuncia a psicóloga.

Reposto algum equilíbrio, “muitos trabalhadores isolaram-se e habituaram-se a desenvolver o trabalho em casa, de forma autónoma, e vários estão a ter agora muita dificuldade em voltar a trabalhar como antigamente”.

A possibilidade de poderem trabalhar num regime misto, que combine o trabalho remoto com o presencial, surge agora no topo da lista reivindicativa dos trabalhadores inquiridos no estudo. “Uma das recomendações que fazemos às empresas é que, sempre que possível, optem pelo trabalho híbrido”, adiantou a psicóloga, para quem é claro que o investimento no bem-estar dos trabalhadores por parte das organizações acaba por ter retorno.

“Na Noruega, se alguém é visto a trabalhar às oito da noite é admoestado pela chefia. Eles entendem que essa pessoa ou está a receber trabalho a mais ou é incompetente, na medida em que não consegue fazer o que lhe pedem dentro do horário normal. E isto não acontece porque lá as empresas são boazinhas, mas porque sabem que, se investirem no profissional (e nisto a conciliação com a vida pessoal surge como aspecto importantíssimo), aquele acaba por devolver esse investimento à empresa”, acrescenta.

Porque cada vez mais empresas estão cientes desta realidade, o LPATS vai disponibilizar a partir desta terça-feira um manual de boas práticas, pensado para orientar as organizações quanto às melhores soluções para manter profissionais dedicados e empenhados. Aqui o dinheiro ajuda, mas não é tudo. No inquérito feito a partir da amostra referida, surgem reivindicações que vão da necessidade de se sentirem reconhecidos e envolvidos no processo de tomada de decisões à existência de uma “segurança psicológica” que lhes permita errar, até à liberdade de gestão do horário e da possibilidade de terem o dia de aniversário livre ou uma folga extra.
Criar a figura do “psicólogo do trabalho”

A disponibilização de fruta, água e opções de alimentação saudável no local de trabalho a possibilidade de realização de ginástica laboral, durante pausas para descanso ou exercício, são algumas das boas práticas apontadas pelos trabalhadores. O acesso facilitado a serviços de psicologia, ginásio, massagens, osteopatia, fisioterapia, consultas de nutrição e de estomatologia e a programas de voluntariado e mentoria são igualmente elencados, a par de sugestões como serviço de shuttle para profissionais e parcerias com farmácias.

Os autores do relatório vão mais longe quando sugerem que se altere a legislação sobre saúde ocupacional em Portugal, “fortalecendo a relevância da saúde mental e psicossocial”, e a integração nas equipas da figura do psicólogo do trabalho, o que implicaria a criação de especializações profissionais nesta área. “Dependendo da dimensão da empresa, a figura do psicólogo pode existir dentro da organização ou funcionar na lógica de subcontratação de trabalho externo”, especifica a coordenadora do estudo.

Ainda ao nível das políticas públicas, sugere-se a criação de incentivos ou benefícios fiscais para as empresas que adoptem medidas capazes de promover ambientes de trabalho mais saudáveis e o alargamento da experiência da semana dos quatro dias sem corte do salário. “Aqui o único receio é que as pessoas possam ficar sobrecarregadas nestes quatro dias, o que pode não ser saudável e levar ao burnout, isto é, esses quatro dias têm de ser suficientes para a pessoa fazer o trabalho que lhe é pedido”, alerta Tânia Gaspar.

Numa altura em que o mundo soma em média 2,78 milhões de mortes todos os anos por causas atribuíveis ao trabalho, o manual de boas práticas destinado às empresas lembra, por exemplo, que a carga horária excessiva pode levar a problemas de sono, à redução da produtividade e ao aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas.

Logo, "pequenas acções como reduzir a carga e a intensidade do trabalho, incentivar a realização de pausas e motivar os profissionais para usufruírem de folgas e férias para descanso (desligando-se do trabalho), contribuem de forma significativa para melhorar a saúde dos profissionais", alerta o manual de boas práticas, que aponta "estilos de liderança desajustados, ausência de negociação e de consulta dos trabalhadores, a falta de comunicação bidireccional, de feedback positivo e de uma gestão respeitosa" como factores que ameaçam a saúde dos trabalhadores e das empresas.

O manual recolhe exemplos de boas práticas adoptadas noutros países. Na Suíça, por exemplo, os programas de bem-estar para os trabalhadores incluem serviços como acompanhamento psicológico e, em caso de doenças crónicas, fisioterapia, ioga, consultas de cessação tabágica e programas de controlo do peso.

11.5.23

Campanha alerta para riscos cardiovasculares. 74% desconhecem níveis de colesterol

Ana Maia, in Público online

Fundação Portuguesa de Cardiologia alerta para a necessidade de controlo dos níveis de colesterol. Doenças cardiovasculares são “responsáveis por cerca de um terço do total das mortes”.

É o mote da campanha deste ano da Fundação Portuguesa de Cardiologia para assinalar o mês dedicado ao coração: sensibilizar para o controlo do colesterol, factor de risco para as doenças cardiovasculares. Um risco “invisível”, alerta o presidente da Fundação, já que “as pessoas podem ter valores altos, mas como são assintomáticas, não sabem”. E o desconhecimento é elevado, com 74 % dos portugueses a referirem desconhecer os seus níveis de colesterol, segundo um estudo que vai ser apresentado esta quinta-feira.

A campanha Maio, Mês do Coração vai ser apresentada esta quinta-feira, de manhã, na Câmara Municipal de Lisboa e o mote é a necessidade de controlo do colesterol. “O colesterol LDL (colesterol mau) é mais do que um factor de risco para as doenças cardiovasculares. Não há aterosclerose sem colesterol, que é uma causa directa de enfartes agudos do miocárdio e de AVC [acidente vascular cerebral]”, aponta. Os dois problemas “são causados por placas ateroscleróticas, que é uma acumulação de colesterol nas paredes das artérias”, explica Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

O médico salienta que “as doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de um terço do total das mortes”, que, “em média, morrem cerca de 80 pessoas por dia devido a doença cardiovascular” e que “só o enfarte do miocárdio mata, em média, mais de 12 pessoas por dia”. Deixa uma outra nota importante, que mostra a importância da prevenção: “Oito em cada dez óbitos de causa cardiovascular que ocorrem precocemente podem ser evitados com um estilo de vida saudável e com controlo de factores de risco.”

Para os controlar é preciso conhecê-los. Mas uma das conclusões do estudo Os Portugueses e o Colesterol 2023, realizado pela GFK Metris, em parceria com a Fundação Portuguesa de Cardiologia, é que “74 % dos portugueses, isto é 3 em cada 4, assumem que não sabem qual o seu valor de colesterol”. Um desconhecimento, referem ainda as conclusões, “que é muito expressivo entre os jovens e diminui com a idade”. Segundo os resultados apurados, 88% dos inquiridos entre os 18 e os 24 anos disse desconhecer o valor do seu colesterol, entre os 25-44 anos 86%, entre os 45-66 anos 66% e nos 65 e mais anos 69%.

A amostra foi constituída por 800 indivíduos, com idade igual ou superior a 18 anos e residentes em Portugal continental. Os respondentes foram seleccionados através do método de quotas e a informação foi recolhida através de entrevistas, que se realizaram em Abril deste ano.
Medicação necessária

Afirmando que “uma campanha sobre o colesterol é essencial”, Manuel Carregeta adianta que o objectivo não é acabar com o colesterol - “é uma gordura que faz falta para a produção de hormonas, mas que precisamos de muito pouca”, mas garantir que este apresenta níveis considerados normais. Tendo em conta a nossa alimentação, normal será ter um valor de colesterol total abaixo de 190 mg/dL. No caso de já existirem placas ateroscleróticas, para que exista regressão, o valor de colesterol LDL deve estar abaixo de 55mg/dL.

Apesar de 89% afirmarem que o colesterol é uma gordura que circula no corpo e destacarem o AVC e as doenças/complicações cardiovasculares entre as doenças provocadas pelo colesterol, só 64% dos respondentes do estudo afirmaram que um valor normal de colesterol é inferior a 190 mg/dL. Foram dadas também frases para inquiridos identificarem como verdadeiras ou falsas.

“A quase totalidade rejeita a ideia de que 'A prática regular do exercício físico não traz vantagens para quem tem o colesterol elevado' ou que 'Os magros não têm que se preocupar com o colesterol Isso é um problema dos gordos'”, lê-se nas conclusões. Mas “33% consideram falso que alguns suplementos alimentares fazem melhor ao colesterol do que as estatinas que os médicos receitam”.

“A nossa realidade é chocante. Um doente que teve um enfarte, em princípio, tem de tomar quatro medicamentos diferentes e um deles é estatina. O doente vai à consulta, perguntamos o que está a tomar e é frequente dizerem que não estão a tomar a estatina. É uma luta constante para que os doentes mantenham esta terapêutica essencial”, refere o médico, lembrando que um “estudo recente mostrou que cerca de 90% dos doentes com colesterol considerado de risco elevado e muito elevado não estavam controlados e que cerca de 20% dos doentes de muito alto risco não estavam a fazer medicação”.

Manuel Carrageta recorda um outro estudo da fundação que revelou que durante a pandemia "metade dos doentes cardiovasculares tiveram mais medo do vírus do que da doença" e "não procuraram os cuidados de saúde". "As pessoas passaram a ser menos bem controladas", diz, referindo que actualmente quer a procura de cuidados por parte dos doentes como a resposta dos serviços estão a recuperar para níveis anteriores.

2.5.23

Só um sexto dos idosos diz ter boa saúde. Portugal é o terceiro pior na União Europeia

20.2.23

Psicólogos nos cuidados de saúde primários deveriam “ser o dobro”

Patrícia Carvalho, in Público online

Estudo da Entidade Reguladora da Saúde sobre a saúde mental nos cuidados de saúde primários alerta para a necessidade de maior articulação com os serviços hospitalares.

O número de psicólogos nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) está “muito aquém” do que foi definido como o rácio ideal para o país, numa resolução de 2021 da Assembleia da República, alerta a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), no recente estudo Acesso a serviços de saúde mental nos Cuidados de Saúde Primários. Aquela resolução definia que deveria existir um psicólogo por cada cinco mil habitantes, ou seja, 20 por cada 100 mil, mas os dados compilados pela ERS, referentes a 2020, colocam a média nacional em 3,16 por cada 100 mil habitantes. O Alentejo, com 5,55 psicólogos por cada 100 mil habitantes é a região que apresenta o valor mais alto.

Apesar de o rácio ser muito baixo para o que foi estipulado pela AR, a verdade é que a evolução global, entre 2019 e 2020, representa um aumento de 184,7%, em Portugal continental. Só no Alentejo, com o valor mais elevado, o crescimento foi de 21,4%, e mesmo na área de Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, em que o rácio não ia além de 1,31 psicólogos nos CSP por cada 100 mil habitantes em 2020, este valor representa também um aumento de 21,3% quando comparado com o ano anterior.

A ERS frisa que estes dados indicam que “os CSP encontram-se aquém das metas estabelecidas, pelo que se revela importante o maior investimento neste tipo de cuidados.” Um problema para o qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) também já tinha alertado, em 2021, ao indicar que dos 529 psicólogos nos CSP, apenas 250 estavam alocados aos centros de saúde, o que, na prática, dava “menos de um profissional por concelho” - muito longe do rácio definido. “É fácil perceber a dimensão da lacuna nesta matéria”, indicava, na altura, o bastonário da OPP, Francisco Miranda Rodrigues.

Contudo, o director do Programa Nacional de Saúde Mental, Miguel Xavier, desvaloriza o rácio fixado pela AR, frisando que ele é “uma recomendação” e que “não tem natureza científica”. Ainda assim, defende que o número de psicólogos nos CSP é, de facto, muito inferior ao necessário. “O número é muito baixo e no mínimo devia duplicar. É nesta base que eu fico. Agora, não se pode duplicar de um momento para o outro”, diz.
Não basta mais profissionais

O especialista em saúde mental realça que o aumento do número de profissionais por si só não resolve o problema do acesso dos portugueses a estes cuidados, pelo que defende a criação de mais programas estruturais, nos CSP, e em articulação com os hospitais. “Não basta termos muitos profissionais se não estiver em funcionamento um modelo efectivo de manejo da ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários, e em articulação com os cuidados hospitalares. Algo que, aliás, já acontece em imensos centros de saúde, e há muito tempo. Só temos de implementar os modelos que já funcionam em Portugal há muito tempo onde ainda não existem”, refere.

E este modelo que defende é uma das razões pelas quais desvaloriza um outro alerta deixado na análise da ERS. O documento refere que apenas a ARS do Centro tem psiquiatras nos CSP, o que o regulador considera revelar “escassez ou inexistência de recursos humanos na área da psiquiatria nas unidades de CSP” e um factor “que poderá impactar no acesso aos cuidados de saúde mental”.

Miguel Xavier entende que não é assim. “Este ponto do relatório não faz sentido do ponto de vista de estratégia política. Não é necessário haver psiquiatras nos centros de saúde, é preciso é haver psiquiatras [nos hospitais] articulados com os cuidados de saúde primários. Já com os psicólogos é diferente, aí têm de existir e a tempo inteiro”, defende.

O estudo da ERS revela que em 2020 existiam cinco psiquiatras e 24 psicólogos na ARS Centro. Na ARS Norte, o número de psicólogos era 184 (o mais elevado de todos), existindo 74 em Lisboa e Vale do Tejo, 28 no Alentejo e 23 no Algarve.

Apesar destes valores absolutos, o rácio entre psicólogos e o número de habitantes era mais favorável no Alentejo, que aparece, em simultâneo, como a região com “um maior acesso a consulta de psicologia ou de saúde mental nos CSP do Serviço Nacional de Saúde, por número de utentes inscritos, nos três anos em análise [2018-2020]”, um dado que é acompanhado "por uma maior incidência de problemas de saúde mental”.

Abrangendo o ano de 2020, quando a pandemia da covid-19 se espalhou pelo mundo, o estudo da ERS refere também o impacto que esta teve no número de utentes referenciados para os cuidados hospitalares, na área da saúde mental, realçando que entre 2019 e 2020 essa referenciação em Portugal continental “diminuiu em mais de 30%”, enquanto os diagnósticos por ansiedade ou depressão aumentaram. Ao mesmo tempo, o número de consultas relacionadas com a saúde mental, nos CSP, caiu, de forma global, em mais de 14%.

Também aqui, Miguel Xavier desvaloriza a quebra referida, afirmando que, “de facto, houve uma diminuição de consultas de psicologia nos centros de saúde, mas na especialidade de psiquiatria o que se passou foi o contrário, houve um aumento”, diz.

A ERS recomenda “um reforço de articulação entre os CSP e os cuidados hospitalares na área da saúde mental” e, neste ponto, Miguel Xavier está de acordo. Mas repete que essa articulação já existe em vários locais, partindo de programas com quatro pontos - dois dos quais são pré-farmacológicos e estão ao nível dos CSP -, pelo que têm é de ser replicados.

Europa atinge segundo maior pico de excesso de mortalidade desde o início da pandemia

Alexandra Campos, in Público online

Portugal registou 1099 mortes acima do esperado entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. No início deste ano, o Instituto Ricardo Jorge identificou já mais 483 óbitos em excesso.

2022 voltou a ser um ano com um elevado excesso de mortalidade por todas as causas na maior parte dos países europeus. Numa altura em que o peso directo da covid-19 diminuiu substancialmente, nas últimas semanas de 2022, nos 28 países e regiões que reportam dados ao projecto de monitorização da mortalidade em excesso EuroMomo, atingiu-se mesmo o segundo maior pico de óbitos acima do esperado desde o início da pandemia, suplantado apenas pelo extraordinário cume observado logo na Primavera de 2020.

Para este pico, observável no site do EuroMomo (European Monitoring of Excessive Mortality), contribuíram essencialmente países como a Alemanha e o Reino Unido, e, ainda que em menor escala, França, Países Baixos, além da Áustria, Dinamarca e Bélgica, entre outros, onde o frio e a epidemia de gripe sazonal e de outros vírus respiratórios terão tido um maior impacto na mortalidade.

Portugal também viu a curva das mortes acima do esperado subir um pouco no final de 2022. Ao longo do ano passado, Portugal surge nos gráficos do EuroMomo com dois picos destacados de excesso de mortalidade na sequência das duas ondas de calor, em Junho e Julho, e, de novo, observa-se um pequeno cume no fim de 2022, mas o excesso de mortalidade que aí sobressai até é inferior ao verificado em Invernos de anos anteriores à pandemia, como em 2018 e 2019.

Neste inverno, o Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa) identificou já um período de excesso de mortalidade em três semanas do final de 2022 - 1099 óbitos acima do esperado, entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. Um aumento de mortalidade que, enfatiza, “correspondeu ao pico de actividade gripal em Portugal”. Foi na região Norte que teve maior duração (quatro semanas) e impacto (584 óbitos) e, por faixas etárias, a população com mais de 85 destaca-se claramente como a principal atingida, com "1033 óbitos" em excesso.
 



Já no início deste ano, o Insa identificou um novo período de excesso de mortalidade, que começou em 30 de Janeiro e “ainda está a decorrer”, atingindo agora exclusivamente a população com mais de 75 anos. Em duas semanas (30 de Janeiro a 12 de Fevereiro), estima que tenham ocorrido 483 mortes acima do esperado, excesso que “deverá estar relacionado com o período de frio extremo que ocorreu no início do ano”.

Relativamente ao excesso de mortalidade observado no final de 2022 em vários países europeus, este estará “provavelmente associado à epidemia de gripe, que esta época ocorreu mais precocemente em toda a Europa”, justifica, por escrito, Ana Paula Rodrigues, do Departamento de Epidemiologia do Insa, que pede cautela na análise dos dados do EuroMomo. Porquê? Porque é difícil estabelecer comparações com períodos de excesso de mortalidade anteriores, uma vez que “as linhas de base (mortalidade esperada) não têm em conta a mortalidade observada desde 2020, por causa das importantes variações da mortalidade observadas com a pandemia”.
Em 2022 houve menos 313 óbitos do que no ano anterior

Seja como for, os números actualizados no final da semana passada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que acabámos 2022 com um total de 124.872 óbitos, menos 313 do que em 2021, o ano em que tivemos um pico extraordinário de mortalidade em Janeiro e Fevereiro por causa da pior onda de covid-19. Mas, se a comparação for feita com 2019, a diferença é substancial – foram mais 12.529 óbitos.

O INE destaca o indicador do excesso de mortalidade calculado pelo Eurostat, que compara o número de óbitos registados em cada mês nos países da União Europeia e na Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, com o número médio de mortes no período 2016-2019. Segundo o Eurostat, Portugal registou em 2022 excesso de mortalidade em todos os meses, menos em Janeiro. Exceptuando a Bulgária e a Roménia, no ano passado todos os os países da União Europeia apresentaram excesso de mortalidade, assinala o instituto.

O que parece claro é que na maior parte dos países não se regressou ao padrão de mortalidade anterior à pandemia, como era esperado. O fenómeno do elevado excesso de mortalidade por todas as causa está a intrigar os especialistas, que colocam em uníssono a questão: por que é que continuam a morrer tantas pessoas? A resposta não é simples.

“Normalmente nas situações de excesso de mortalidade não há um único factor”, enfatiza Joan Carles March, professor da Escuela Andaluza de Salud Pública ao jornal El Mundo. “Creio que os três eixos em que assenta o excesso de mortalidade são a covid, as temperaturas e os problemas da assistência sanitária”, especula.

Temos que olhar com cuidado para os gráficos do EuroMomo, começa por advertir também o especialista em bioestatística Paulo Jorge Nogueira, que estuda há décadas o fenómeno da mortalidade. Antes da pandemia de covid-19, em anos de epidemia de gripe e períodos de frio mais intensos, havia sempre picos de excesso de mortalidade, lembra.

Relativamente ao elevado número de mortes por todas as causas registado em 2022, o professor na Escola Nacional de Saúde Pública acredita que se fica a dever em parte ao envelhecimento da população – que estava a aumentar "consecutivamente" há vários anos, ainda que com oscilações anuais. “Mas o envelhecimento da população não explica tudo”, assume.

“Toda a gente achava que íamos voltar ao antigamente, mas este padrão de mortalidade veio para ficar e não é de esperar que as coisas mudem muito”, reflecte.“Há factores sociais e económicos, há toda uma panóplia de motivos, e há pequenos sinais que indicam que pode estar a ocorrer uma degradação, um retrocesso, mas agora é preciso estudar, olhar para as causas de morte, não apenas para o excesso”, recomenda.

“O habitual era os elevados excessos de mortalidade estarem associados a fenómenos agudos, como a gripe ou o calor. Termos a mortalidade persistentemente acima de linha de base é uma mudança de padrão e um alerta”, sustenta Vasco Ricoca Peixoto, investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, que sugere igualmente "um conjunto grande de hipóteses" para explicar a continuidade deste fenómeno.

“Sabemos que a infecção [por SARS-CoV-2] aumenta o risco de descompensação de várias doenças, por um lado”, e, por outro, é preciso também levar em conta “o impacto social da pandemia nas populações já vulneráveis em termos sócio-económicos e de isolamento”. A somar a tudo isto, “houve muito menos consultas, cirurgias, rastreios” no primeiro ano da pandemia “e algumas coisas nunca se recuperam”, observa. "Os serviços de saúde também se ressentiram, alguns perderam profissionais", acrescenta, defendendo igualmente que agora é preciso esmiuçar e olhar para as causas de morte.

1.2.23

Mais de 80% dos cuidadores informais ouvidos em estudo já se sentiram em burnout

Patrícia Carvalho, in Público online

Estudo sobre cuidadores informais diz que 78,5% consideram que o seu estado de saúde mental “influencia o desempenho do seu papel de cuidador”. “É quase um grito: precisamos de ajuda”, diz autora.

Um estudo sobre a saúde mental e o bem-estar dos cuidadores informais revela que 83,3% dos inquiridos já se sentiram em “burnout/exaustão emocional” e que 78,5% consideram que o seu estado de saúde mental “influencia o desempenho do seu papel de cuidador”. A psicóloga Ana Carina Valente, do ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, que coordenou o trabalho, diz que estes dados nos obrigam “a uma reflexão profunda”, e avisa: “É quase um grito: nós precisamos de ajuda.”

Quase não há indicadores positivos nas respostas obtidas por Ana Carina Valente, a partir de um inquérito online a mais de mil cuidadores informais, realizado entre o início de Novembro e Janeiro deste ano. O que não surpreende a psicóloga do ISPA, reconhece, ao telefone: “Sabemos que níveis elevados e prolongados de stress vão contribuir para níveis muito elevados de sofrimento psicológico. Este estudo confirma isso.”

Porque, como também é visível no perfil do cuidador traçado neste estudo, estamos a falar de pessoas que convivem há muito tempo com a tarefa de cuidar do outro: 62% dos inquiridos são cuidadores informais há mais de quatro anos e, destes, mais de 30% já o eram há mais de dez. Fala-se, sobretudo, de mulheres (84,7%), e quase 80% têm mais de 45 anos, havendo uma percentagem considerável (20%) de cuidadores com 65 ou mais anos.

“Quando temos quase 80% dos cuidadores a dizerem que a sua saúde mental influencia o seu desempenho enquanto cuidadores, o que nos estão a dizer é, atenção, o que sinto é que a minha saúde mental interfere com o meu papel. Todos nós enquanto sociedade temos de reflectir nisto. Estas pessoas estão com muito sofrimento, exaustas, angustiadas e tristes. É preciso parar para pensar no que vamos fazer para as ajudar”, diz a psicóloga.

A presidente da Associação Nacional dos Cuidadores Informais (ANCI), Liliana Gonçalves, também não se mostra surpreendida com as conclusões do estudo encomendado pela Merck e que será apresentado nesta terça-feira no auditório do PÚBLICO, em Lisboa. “Não nos surpreende, de todo. Até porque temos uma grande franja de cuidadores de longa data, sem qualquer tipo de apoio, a prestar cuidados 24 sobre 24 horas, com grande carga financeira. Tudo isto é revelador de que a saúde mental vai ficar em risco. Os dados da saúde mental, em geral, não são famosos e, em termos dos cuidadores informais, sentimos que não houve um avanço no apoio psicológico”, diz.

Pânico, nervos e descrença na sociedade

Olhando para diversos aspectos da situação psicológica dos cuidadores, o estudo revela, por exemplo, que mais de 74% dos inquiridos se sentem quase sempre ou muitas vezes tensos ou nervosos e que 84,3% dizem ter a cabeça cheia de preocupações muitas vezes ou até mesmo na maior parte do tempo. Há mais de 37% de respostas a indicarem que estas pessoas não cuidam como deviam do seu aspecto físico, enquanto 21,4% dizem que “quase nunca” pensam com prazer no que têm para fazer.

Há ainda uma percentagem muito elevada de pessoas a indicar que, de repente, enfrentam uma sensação de pânico (quase 33%), e são ainda mais os que desconfiam da capacidade da sociedade em contribuir para uma melhoria da situação actual: 45,6% dos inquiridos responderam “nunca” quando questionados sobre se acham que a sociedade é “um lugar bom, ou se está a tornar-se um lugar melhor para todas as pessoas”, enquanto 41,5% deram a mesma resposta – “nunca” – à pergunta sobre se pensa que a forma como a sociedade funciona faz sentido.

O único ponto positivo em todo o inquérito é quando os cuidadores são questionados sobre aspectos relacionados com a sua personalidade: 44,7% dizem que todos os dias, ou quase, gostam da maior parte das características da sua personalidade, 52,6% acreditam ter gerido bem as responsabilidades diárias sempre ou quase sempre e 46,5% apontam a mesma frequência quando lhe perguntam se no último mês tiveram experiências que os desafiaram a crescer e a tornarem-se pessoas melhores.

Algo que também não surpreende a responsável pelo estudo. “São dados que mostram que as pessoas acreditam em si próprias, que têm a sensação de que estão a fazer bem, a cuidar bem. Como se dissessem, ‘a pessoa de quem trato está bem tratada’. É quase uma missão”, diz Ana Carina Valente.

Mas isto não invalida, claro, que as pessoas reconheçam também que os problemas que enfrentam do ponto de vista mental são um desafio maior do que aquele que conseguem enfrentar sozinhas. E é nesse sentido que vai o último conjunto de dados resultantes do estudo. Segundo o documento, 77,9% reconhecem ter necessitado de apoio psicológico durante algum momento da sua actividade, mas apenas 42,1% procuraram esse apoio e 16,8% usufruem dele, efectivamente. Isto apesar de 69,7% dizerem que gostariam de poder contar com essa ajuda. “É muito baixa a percentagem de pessoas que têm apoio psicológico, quando olhamos para aquela dos que dizem que precisavam de o ter. Sabemos que Portugal não é um país com muitas respostas no âmbito da saúde mental. Claramente, não temos respostas suficientes”, diz a docente do ISPA.
Linha telefónica de apoio

Um bom ponto de partida – e que é também identificado pelos inquiridos –, defende, seria a criação de uma linha de apoio psicológico directamente dirigida a este grupo. Quando questionados sobre se gostariam de receber ajuda psicológica através de uma linha de apoio, com profissionais especializados, 83,9% dos inquiridos disseram que sim. E mais de metade (50,9%) escolheu o telefone como meio preferencial para aceder a essa linha. “Tentamos perceber que tipo de apoio seria mais confortável para estas pessoas e quase metade diz que uma linha telefónica já era muito bom: não é paga, está ao alcance de todos e também temos de pensar que falamos de pessoas que têm dificuldade em sair de casa, porque estão a cuidar de alguém. Havendo algum investimento nisto, era fácil de implementar e podia dar uma primeira resposta”, diz a psicóloga.

Liliana Gonçalves explica que a ANCI já tem uma psicóloga que dá apoio online, mas reconhece que era preciso muito mais do que isso. “O apoio psicológico é uma medida que está prevista no Estatuto do Cuidador e que não está a conseguir chegar às pessoas. Ainda se está muito na parte de implementação dos subsídios”, diz. Esse apoio, quando existe, afirma, está sobretudo a cargo de associações de doentes e de alguns municípios, com projectos nesse sentido. “Mas a resposta é muito escassa”, insiste.

A responsável pela ANCI diz que os últimos dados apontam para 23 mil pedidos feitos para obter o estatuto de cuidador informal, e cerca de 11 mil concedidos. Só esse reconhecimento permite o acesso às medidas de apoio, previstas no estatuto, como o direito ao descanso do cuidador. Tudo, diz Liliana Gonçalves, está a andar de forma lenta e o que existe não chega para um grupo de cidadãos que, lembra, “está exausto e com uma enorme sobrecarga financeira e emocional”.

25.10.22

A partir de agora já há um Observatório de Saúde Mental em Portugal

Tiago Ramalho, in Público online

Iniciativa da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental é lançada esta terça-feira, com uma primeira fase dedicada à investigação científica. Observatório deve estar concluído em três a quatro anos.

A ausência de dados sobre saúde mental agregados e disponíveis numa plataforma direccionada à população portuguesa é uma das principais lacunas apontadas pelos profissionais desta área. E, por isso, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) lança esta terça-feira o Observatório de Saúde Mental, uma plataforma que pretende em “três a quatro anos” disponibilizar indicadores sobre a saúde mental dos portugueses.

É uma das áreas que mais atenção tem merecido da saúde à política nos últimos anos, reforçada sobretudo com a pandemia e o consequente confinamento. Mas um inquérito de opinião levado a cabo pela SPPSM aos profissionais de saúde mental e investigadores mostrou várias carências – a maior das quais o acesso e a disponibilidade da informação. “Queríamos perceber se os profissionais envolvidos consideravam oportuno ou não”, explica Maria João Heitor, presidente da sociedade ao PÚBLICO.

No inquérito, 85% dos profissionais apontaram que há falhas e potencial para melhorias no acesso à informação. A necessidade levou à construção do Observatório de Saúde Mental, onde Maria João Heitor quer congregar os projectos científicos em curso com os indicadores de saúde mental e actividades de prevenção existentes.

A ciência primeiro

Esta construção será faseada. Nesta primeira fase, o site deste observatório disponibilizará informação sobre os projectos científicos e ensaios clínicos a decorrer ou que já terminaram. E, para já, o site está disponível apenas em inglês. “Como a primeira fase é inteiramente dedicada à investigação, é muito virada para a comunidade científica. Nas fases seguintes, onde teremos os indicadores, aí vamos procurar ter um observatório bilingue”, diz Maria João Heitor.

As próximas fases envolvem a disponibilização de dados (sobre morbilidade psiquiátrica, mortalidade ou incapacidade temporária) e a referenciação de práticas e actividades na promoção e prevenção, bem como da própria organização dos serviços.

Maria João Heitor, presidente da SPPSM, refere que a criação deste Observatório de Saúde Mental além de permitir uma disponibilização rápida dos indicadores em Portugal, também facilita o acesso da população a informação sobre tratamentos, serviços ou a investigação em curso.

Além do lançamento deste observatório, existem ainda outras propostas na calha, como a criação de projectos nas escolas e a elaboração de um relatório regular sobre o estado da saúde mental em Portugal. No caso deste último, Maria João Heitor confirma que vai acontecer, mas apenas quando estiverem todos os indicadores disponíveis – ou seja, nos próximos três a quatro anos.

1.9.22

Quase 300 mil mulheres não aderiram ao rastreio do cancro da mama em 2021

Alexandra Campos, in Público on-line

O rastreio de base populacional de cancro de mama foi alargado a quase toda a região de Lisboa e Vale do Tejo no ano passado, mas a adesão foi reduzida.

Das 655 mil mulheres convidadas a fazer rastreio do cancro de mama em Portugal no ano passado, pouco mais de metade aderiram. No total, foram 355 mil as mulheres que fizeram mamografias no rastreio de base populacional, 54% das que foram convocadas em 2021, ano em que este rastreio foi finalmente alargado à maior parte dos concelhos de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e a taxa de cobertura a nível nacional subiu para 91%.

Após a queda abrupta no número de mulheres que fizeram mamografias em 2020, porque o rastreio esteve parado durante alguns meses por causa da pandemia de covid-19, em 2021 foi possível regressar à normalidade, mas a actividade não foi suficiente para recuperar o que ficara por fazer no ano anterior, de acordo com os dados que constam no Relatório Anual do Acesso aos Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas de 2021, que é elaborado pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e a que o PÚBLICO teve acesso.

A adesão ao rastreio de cancro de mama estava a crescer de forma contínua ao longo dos anos e atingiu um pico em 2019 — 357 mil mulheres rastreadas —, mas em 2020 o número caiu para 168 mil, por causa da pandemia.

No ano passado, a recuperação foi evidente e o número de mulheres rastreadas ficou ligeiramente abaixo do de 2019, mas é preciso notar que em 2021 foram convidadas mais 103 mil mulheres do que dois anos antes porque este rastreio – que é organizado pela Liga Portuguesa contra o Cancro e se dirige às mulheres entre os 50 e os 69 anos – foi alargado em 2021 à maior parte dos concelhos de Lisboa e Vale do Tejo.




As explicações para a diminuição desta taxa são várias, mas a principal, segundo o presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro, Vítor Rodrigues, é que na região de LVT a adesão foi “muito reduzida, da ordem dos 20%, o que é habitual” quando a convocatória é enviada pela primeira vez. “No início, as taxas de participação são muito baixas, mas depois começam a aumentar. Eu estava à espera, mesmo assim, que a adesão fosse superior em Lisboa e Vale do Tejo, mas é preciso ver que esta é uma região com maior poder de compra, com mais seguros de saúde, e uma parte das mulheres faz mamografias no sector privado”, justifica.

As explicações são corroboradas pelo director do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da Direcção-Geral da Saúde, José Dinis. “Em LVT, muitas mulheres já fazem este rastreio por sua iniciativa, têm seguros de saúde ou ADSE. E a reduzida adesão à primeira convocatória é, de facto, um fenómeno que se observa em todos os países.”

José Dinis está mais preocupado com o rastreio do cancro do colo do útero, que ainda não é feito por convocatória em Portugal, mas sim “oportunisticamente, quando as mulheres vão aos centros de saúde”. Neste caso, a taxa de adesão é, naturalmente, muito elevada (95,2% no ano passado), mas, de novo, o número de mulheres rastreadas não foi suficiente para compensar a enorme quebra verificada em 2020, tendo chegado em 2021 a mais de 243 mil mulheres, ainda assim abaixo do total de 2019. Este rastreio dirige-se às mulheres entre os 25 e os 60 anos e é intenção do director do programa que passe a ser feito por convocatória, de forma a chegar a todas as mulheres.

Onde se verificou uma evolução assinalável em 2021 foi no rastreio do cancro do cólon e recto, que “tem vindo a aumentar exponencialmente” e em 2021 atingiu finalmente uma taxa de cobertura de 100%, destaca a ACSS no relatório. No ano passado, mais de 188 mil pessoas (metade das convidadas) aderiram, recolhendo uma amostra para a pesquisa de sangue oculto nas fezes que enviaram para análise. Este rastreio dirige-se aos homens e mulheres entre os 50 e os 74 anos.




Recuperação da actividade assistencial

Quanto ao acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde, o relatório da ACSS permite perceber que em 2021 ainda se sentiu o impacto da covid-19, mas este foi um ano de recuperação e o aumento da actividade, quando comparado com 2020, foi assinalável. Ainda assim, na porta de entrada do SNS, os centros de saúde, diminuiu o número de cidadãos com médico de família atribuído, como já tinha, aliás, acontecido em 2020 e em 2019. No final do ano passado, 1.139.000 pessoas estavam nesta situação. Apesar da diminuição do número de médicos de família – menos 77 do que em 2020 —, o total de consultas médicas aumentou para 36 milhões, ainda que mais de metade (20 mil) tenham sido consultas não-presenciais, de acordo com o documento.

Nos hospitais do SNS, a informação recolhida pela ACSS indica que 2021 foi um ano de “crescimento generalizado do volume assistencial” em comparação com o ano anterior. O relatório dá conta de um aumento assinalável das consultas médicas em 2021 face ao ano anterior, mas que ficou, ainda assim, ligeiramente abaixo do total de 2019.

Nas consultas hospitalares, as especialidades em que a percentagem de doentes que ultrapassaram o tempo máximo de espera previsto na lei eram a de risco familiar e de apneia do sono, seguidas da neurocirurgia, do rastreio de retinopatia diabética (oftalmologia), da genética médica e da oncologia médica, além da oftalmologia e da radiologia. Ainda assim, a ACSS destaca que em 2021, apesar do “contexto pandémico”, se procurou “recuperar consultas em atraso” e sublinha que o indicador do cumprimento dos tempos máximos garantidos de resposta “melhorou significativamente” relativamente a 2020, ano em que se tinha agravado.

Também no âmbito do programa de recuperação de listas de espera para cirurgia, o ano de 2021 fica marcado como um ano de “significativa recuperação e retoma na actividade”, com 721 mil novas entradas — mais 24,9% do que em 2020 e aproximando-se dos valores de 2019 — e quase 630 mil doentes operados, ligeiramente acima dos números de 2019. A média de tempo de espera dos operados baixou de 3,3 meses, em 2019, para 3,2 meses no ano passado.

Mas os resultados variam muito de região para região. Se nos hospitais do Norte apenas 15% dos doentes esperaram mais do que o tempo máximo previsto na lei por uma cirurgia no ano passado, no Alentejo esse valor era de 23%, no Centro subia para 28% e e, em LVT, ascendia a 40%. Pior só no Algarve, onde 47% das situações ultrapassaram o tempo máximo de resposta garantido.

Em 2021, como já tinha acontecido no ano anterior, a receita com as taxas moderadoras no SNS voltou a diminuir, porque estes pagamentos deixaram de ser cobrados nos exames e meios complementares de diagnóstico prescritos nos centros de saúde. Actualmente, apenas são cobradas taxas moderadoras nos serviços de urgência. Em 2021, as taxas moderadoras renderam 66,9 milhões de euros.

9.3.22

Portugal entre os cinco países da União Europeia com menos anos de vida saudável para as mulheres

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

Neste Dia Internacional da Mulher, a base de dados que reúne e cruza estatísticas analisa tendências e traça retratos do Portugal contemporâneo apresenta os indicadores mais significativos para ajudar a ler o caminho percorrido pelas mulheres.

Foto Em 2020, a esperança de vida média das mulheres era de 84 anos mas a esperança de vida saudável era de apenas 58 anos Nuno Ferreira Santos

As mulheres vivem mais anos do que os homens, em média. Mas quando o que é comparado são os anos de vida saudável, a desvantagem inverte-se de forma clara.

De acordo com os dados a Pordata compilou para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a esperança de vida com saúde de uma mulher em Portugal é de 57,8 anos; a dos homens é de 60,6 anos.

Quase três anos separam homens e mulheres, segundo estes números de 2019, disponíveis na página das estatísticas europeias do Eurostat desde o ano passado e que agora a Pordata destaca como um dos que retratam as mulheres em áreas como a saúde, a família, o emprego, a escolaridade, a demografia, entre outras. “Este é um dado que me inquieta”, diz a directora da Pordata, Luísa Loura.

Não pelo que tem evoluído, mas pelo que se constata comparativamente a outros países. A esperança média de vida saudável à nascença (para homens e mulheres) era de 59,3 anos em 2019. Houve um ganho de mais de cinco anos relativamente a 2004.

Mas numa situação melhor do que as portuguesas, ainda na perspectiva dos anos de vida saudáveis, estão as mulheres que vivem em 22 países da União Europeia. Em Espanha e Irlanda, a esperança de vida saudável (à nascença) é de mais de 70 anos; na Itália e na Bulgária está acima dos 68 anos, e na Alemanha acima dos 67 anos.

Ligação com o trabalho parcial

A Estónia (com 57,7 anos), a Eslováquia (56,3), a Finlândia (54,8) e a Letónia (54,1) são os únicos quatro países dos 27 da UE onde as mulheres têm expectativas abaixo das de Portugal.

Para Luísa Loura, professora universitária da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estes dados e a realidade do emprego feminino em Portugal estão, muito provavelmente, “interligados".

“A taxa de emprego a tempo parcial é muito maior noutros países do que em Portugal”, observa, sugerindo que a redução do horário de trabalho actua positivamente. Trabalhar a tempo inteiro resulta numa “sobrecarga muito grande” para as mulheres; são elas que pensam toda a logística da casa, mesmo que não se ocupem de todas as tarefas, diz.

“Em Portugal, onde as mulheres têm muito menos anos de vida saudável, as mulheres trabalham full time”, continua. Existe essa necessidade de trabalho a tempo inteiro (para a economia e para a própria família, por motivos financeiros), ao mesmo tempo que isso se concretiza cumprindo a mulher muito do trabalho em casa “que ainda está a cargo da mulher”.
Maior desigualdade com a pandemia

Ainda neste enfoque dado às estatísticas que retratam as mulheres, constata-se que a desigualdade salarial entre mulheres e homens aumentou no primeiro ano da pandemia em Portugal. A mesma tendência tinha-se verificado, mas em maior grau, nos anos da crise económica nos quatro anos a partir de 2011, salienta Luísa Loura, doutorada em Estatística e licenciada em Matemática.

A desigualdade salarial andou abaixo dos 10% antes de 2011 e aumentou nos anos seguintes até 2015. A economia começou a crescer e a disparidade dos salários entre mulheres e homens decresceu ligeiramente. Entre 2019 e 2020 voltou a aumentar, não tanto como tinha feito nos anos da crise entre 2011 e 2014, quando esteve sempre entre os 13% e os 16%.

“Em momentos de crise económica, há uma maior disparidade”, diz Luísa Loura. E isso “terá muito que ver com questões culturais”, intui a professora universitária. “Nessas alturas, as empresas estão com mais dificuldades, o esforço financeiro das famílias é maior e as mulheres entram mais [frequentemente] no mercado de trabalho.”

Nestas circunstâncias, para ajudar na economia familiar, as mulheres que entram no mercado de trabalho fazem-no sem grandes qualificações, e não exigem muitas competências. “Entram por necessidade e sem discutir muito o vencimento.” Assim, os seus salários não vão reduzir a disparidade, mas acentuá-la, explica a directora da Pordata, base de dados sobre o Portugal de hoje, assente em estatísticas de entidades oficiais, como o Instituto Nacional de Estatística e o Eurostat, e criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Competências tecnológicas valorizadas

Com a pandemia o efeito não foi o de uma crise económica, mas a tendência foi a mesma. “A explicação que eu equaciono para uma maior disparidade em 2020 tem que ver com uma maior procura e valorização de competências e conhecimento que as mulheres não têm tanto como os homens. E que estão relacionadas com a tecnologia, com uma maior competência na área digital.”

Durante o confinamento, e o teletrabalho generalizado (em funções que o permitiam), “foi preciso montar toda uma estrutura”, o que leva Luísa Loura a dizer que “as empresas podem ter valorizado esses conhecimentos” repartidos de forma muito diferente entre homens e mulheres numa proporção de 70% e 30% respectivamente.

“Essas áreas da tecnologia da informação foram muito valorizadas pelas empresas”, o que se terá repercutido positivamente nos salários – dos homens, pois são eles quem em maioria trabalha nestas áreas.

Mesmo assim, Portugal não tem um diferencial tão expressivo como em muitos outros países europeus. Finlândia e Estónia, por exemplo, são dois outros países onde o intervalo aumentou, mas a uma escala superior: passou de 16,6% para 16,7% na Finlândia e de 21,2% para 22,3% na Estónia.

Ao aumentar a percentagem de mulheres com o ensino superior, Portugal tem feito um caminho positivo, também para reduzir a desigualdade do salário. Com mais habilitações, as mulheres sobem na escala do vencimento.
Mulheres mais focadas nos estudos

Há um outro lado muito positivo a salientar, diz a especialista. “Em Portugal, as mulheres estão mais focadas nos estudos do que os homens.” Sabem melhor o que querem da sua formação, e focam-se nisso. Luísa Loura, que acompanha as tendências e as estatísticas, considera notável e um motivo de orgulho “a determinação das raparigas” no seu percurso escolar e académico. “Muitas trabalham e estudam por paixão”, realça. “Esta postura das raparigas relativamente à sua formação tem sido um ganho.”

Esse ganho tem permitido um melhor posicionamento no ranking do Índice de Capital Humano (medir com base nas qualificações e conhecimentos da força de trabalho). Em 2018, Portugal já se posicionava entre os seis países com melhores indicadores. Sendo 1 o máximo, Portugal atingiu os 0,78. Com índices de capital humano acima de Portugal, em 32 países europeus, só a Finlândia e a Irlanda (com 0,81), a Holanda e a Suécia (com 0,80) e a Eslovénia (com 0,79).

25.2.22

Saúde dos portugueses agrava-se em 2021

Hermana Cruz, in JN

No ano passado, um terço da população portuguesa queixou-se de limitações na realização de tarefas devido a problemas de saúde. É o valor mais elevado desde 2016. E quase metade dos portugueses reportou sofrer de uma doença crónica. Situações que afetaram sobretudo as mulheres e os idosos, sendo justificadas por dificuldades financeiras.

Os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que, em 2021, verificou-se um agravamento da situação de saúde dos portugueses em vários domínios, como a situação de doença ou o acesso a cuidados médicos.

Segundo revelou esta sexta-feira o INE, o ano passado 34,9% da população com 16 ou mais anos disse ter alguma limitação na realização de atividades devido a problemas de saúde. Desses 9,6% reportou um grau de limitação severo.

"Os dois indicadores registaram um acréscimo em relação aos anos anteriores, atingindo em ambos os casos as proporções mais elevadas desde 2016", sublinha o INE, especificando que a situação afetou sobretudo as mulheres (39%) e a população idosa (60,8%).

No Inquérito às Condições de Vida e Rendimento 2020-2021, o INE apurou também que 43,9% da população sofria de alguma doença crónica no ano passado. "A prevalência de doença crónica ou de problema de saúde prolongados (ou seja, que dura ou que possa vir a durar pelo menos seis meses) afetou 43,9% da população com mais de 16 anos em 2021, mais 0,7% do que em 2020 e mais 2,7% do que em 2019", acrescenta o INE, sublinhando que, mais uma vez, a situação afeta particularmente as mulheres (47%) e as pessoas idosas (71,4%).

"Por nível de escolaridade, a prevalência de doenças crónicas ou de problemas de saúde prolongados afetou 80,1% da população sem qualquer nível de escolaridade", especifica o INE, no referido inquérito.

Segundo o INE, os resultados recolhidos em 2021 permitem ainda concluir que 5,7% das pessoas com 16 ou mais anos não puderam satisfazer as necessidades de cuidados médicos. Trata-se "do segundo ano consecutivo em que se verificou o aumento do indicador, em sentido contrário à tendência de declínio que se verificava desde 2015", revela-se no estudo, onde se vinca que 30% das pessoas que não conseguiram aceder a cuidados médicos apresentou a falta de disponibilidade financeira como principal motivo.

No inquérito apurou-se ainda que 13,1% dos portugueses não conseguiram ter acesso a necessidades de cuidados dentários, "mais 1,4% do que em 2020". Também aqui "o principal motivo apontado para essa situação foi a falta de disponibilidade financeira, representando quase 70% dos casos em 2021".

Além disso, mais de um quarto da população (26,6%) referiu efeitos negativos na sua saúde mental devido à pandemia Covid-19. "Essa situação foi referida mais por mulheres (30,2%) do que homens (22,4%) e em proporções bastante semelhantes na população com menos de 65 anos (26,8%)", especifica o INE.

22.2.22

O que significa “depressão altamente funcional”? Perguntámos a especialistas

Allyson Chiu, in Público on-line

Não é um diagnóstico clínico, mas é um termo que ganhou alguma popularidade. Refere-se a pessoas que lidam com depressão, mas que, aparentemente, não têm qualquer problema, pois são altamente funcionais. Mas quais os perigos e as vantagens da expressão?

Depois de a Miss EUA de 2019, Cheslie Kryst, se ter suicidado a 30 de Janeiro, uma expressão dominou o debate nas redes sociais e nas notícias: “depressão altamente funcional”.

Num comunicado enviado ao Extra, um canal de notícias de entretenimento onde Kryst era correspondente, a sua mãe, April Simpkins, disse que a modelo de 30 anos estava “a lidar com uma depressão altamente funcional, que escondia de toda a gente, incluindo [da mãe], a sua confidente mais próxima — até muito perto da sua morte”.

“Depressão altamente funcional” não é um diagnóstico clínico que possa ser encontrado no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), um manual utilizado por profissionais de saúde. É um termo coloquial que ganhou popularidade nos últimos anos, ainda que alguns especialistas tenham sentimentos contraditórios em relação ao seu uso.

A expressão realça “um ponto bastante importante, que mostra que as pessoas podem estar a sofrer de uma doença mental e, ainda assim, parecerem funcionais ou não parecem doentes para quem observa de fora”, refere Rebecca Brendel, presidente da Associação Psiquiátrica Americana.


Mas, acrescenta Brendel, o termo pode exacerbar a vergonha e a incompreensão acerca da saúde mental e depressão. “Dizer que alguém é altamente funcional, ainda que tenha uma doença mental, aumenta o estigma associado a doenças mentais.”

Aqui fica o que alguns especialistas em doença mental pensam acerca desta expressão cada vez mais comum.

O que é “depressão altamente funcional” e porque pode a expressão ser útil?

“Depressão altamente funcional” é um termo não médico que pode ser usado para descrever algumas pessoas que cumprem os critérios para um diagnóstico clínico de depressão, mas que conseguem ser funcionais no dia-a-dia, de tal forma que a sua condição mental provavelmente não é evidente para os outros e até para eles”, diz Jameca Woody Cooper, psiquiatra e professora auxiliar na Webster University, no Missouri.

Ainda que “altamente funcional” possa ser associado a figuras públicas ou “poderosas”, nem sempre esse é o caso, ressalva Woody Cooper.

Pode ser um professor, uma pessoa que trabalha num centro de dia, um trabalhador de uma cadeia de fast food”, diz. “Toda a gente pode experienciar depressão severa, e todos podem parecer ou apresentar-se como uma pessoa com depressão altamente funcional.”

A depressão clínica é diagnosticada de acordo com um espectro que tem em conta a capacidade funcional da pessoa. Mas a expressão “depressão altamente funcional” pode ser esclarecedora para os que têm ou não depressão.

“Só porque algumas pessoas têm traços de personalidade que as tornam mais capazes de ser funcionais, não deviam ser levadas menos a sério, e receio que isso seja o que possa começar a acontecer se começarmos a usar mais este termo.” Woody Cooper, psiquiatra

As pessoas têm, normalmente, “a imagem de indivíduos que choram, não saem da cama, são suicidas”, refere Woody Cooper. “Quando, na verdade, é totalmente diferente em pessoas que são funcionais todos os dias.”

Montrella Cowan, terapeuta de relacionamentos, oradora e autora de Washington D.C., concorda. Perceber a depressão altamente funcional pode ajudar a criar consciencialização pública de que é possível uma pessoa “ser produtiva, ter um salário de seis dígitos, uma mansão, um bom carro, e estar deprimida”, atira.

Também pode ajudar as pessoas a perceberem que não estão sozinhas, afirma Cowan, porque “muitas vezes as pessoas não se estão a sentir elas próprias e não conseguem simplesmente identificar o que está errado, por isso apenas sofrem em silêncio. Mas agora as pessoas percebem: ‘Oh, altamente funcional. OK, então já percebo porque me ponho a pé para ir trabalhar.’”

Que questões suscita a designação?

A expressão pode reforçar a vergonha em relação à depressão, defende Natalie Dattilo, psicóloga clínica no Brigham and Women’s Hospital, em Boston. “O estigma é a razão por que usamos essa expressão, como se fosse chocante que as pessoas bem sucedidas pudessem ter depressão.”

Mas, acrescenta, “não devia ser chocante que as pessoas tenham depressão”. “Devia ser uma coisa como outra qualquer, como qualquer outra doença.”

Outro aspecto, adianta Woody Cooper, é que usar o termo “altamente funcional” pode levar a uma forma incorrecta de interpretar a doença como uma forma menos séria de depressão.


“Depressão é depressão”, diz. “Só porque algumas pessoas têm traços de personalidade que as tornam mais capazes de ser funcionais não deviam ser levadas menos a sério, e receio que isso seja o que possa acontecer, se começarmos a usar mais esta designação.”

Mais ainda, usar o termo “altamente funcional” para descrever o problema pode ser enganador, ressalva Matthew Rudorfer, director de programas no National Institute of Mental Health, porque não tem em consideração o esforço que é feito para se ser funcional.

“Se todos os carros que estão na Connecticut Avenue estiverem a andar a 50 quilómetros por hora, mas um condutor tiver de carregar no pedal a fundo para conseguir manter essa velocidade, para o observador externo tudo parece normal”, diz. “Mas essa pessoa está a esforçar-se imenso. Não deveria ser preciso pôr prego a fundo para chegar aos 50 quilómetros por hora.”

Devemos usar a expressão “depressão altamente funcional”?

Os especialistas dividem-se sobre se a expressão deve ser amplamente utilizada ou tornar-se um diagnóstico oficial.

“A melhor coisa que podemos fazer é afastar-nos dos rótulos”, diz Brendel, uma vez que “eles podem interferir com o entendimento acerca do que está a acontecer com a saúde mental”. Ao invés, encoraja conversas abertas “sobre os sintomas de sofrimento mental” e trabalho com vista à redução do estigma e outras barreiras que impedem o tratamento.

“Se começarmos a dizer ‘não podes usar este ou aquele termo’, não vamos ter muito sobre o que falar.” Montrella Cowan, terapeuta de relacionamentos

Cowan, contudo, pensa que os benefícios de utilizar a expressão podem pesar mais do que as desvantagens, e diz que a designação devia ser incluída na próxima actualização do DSM. (Até à data, não foram submetidas propostas para incluir “depressão altamente funcional” no DSM, de acordo com a Associação Psiquiátrica Americana.)

“Estamos a tentar normalizar a conversa”, diz Cowan. “Se começarmos a dizer ‘não podes usar este ou aquele termo’, não vamos ter muito sobre o que falar.”

Ainda que tenha algumas preocupações, Dattilo refere que está confortável com o termo se isso permitir que alguém vá procurar ajuda. “Se isso permitir que alguém olhe para si e pense ‘talvez seja isto que eu tenho’, então vamos usá-la e continuar a trabalhar em direcção a algo melhor.”

Quem está em risco?

É importante, avisam os especialistas, reconhecer quem pode estar em risco de ter este tipo de depressão.

Woody Cooper afirma que normalmente o detecta em pessoas com “personalidade tipo A”. Outras características podem incluir ter uma posição importante, sofrer de perfeccionismo, ser alguém dedicado aos outros ou querer ser visto como forte e capaz”, diz Dattilo.

“Nenhuma delas é um mau traço da pessoa, mas podem interferir com o seu sistema de crenças acerca de si própria”, refere Dattilo. Todos elas “podem contribuir para a pressão para ter um bom desempenho, ser de uma certa forma e ter certas coisas”.

Woody Cooper e Cowan também dizem que a depressão altamente funcional é normalmente observada em comunidades racializadas, em que as barreiras para o seu tratamento podem ser mais altas devido ao custo, disponibilidade e estigma cultural. “Na comunidade negra, por exemplo, ainda estamos a tentar acabar com o estigma do ‘tu és fraco’”, lamenta Cowan. “Como se se fosse fraco por procurar ajuda — e isso não é verdade.”

As dificuldades para procurar ajuda podem ser ainda maiores para mulheres negras, acrescenta Woody Cooper. “Elas têm esta imagem de supermulheres, que podem fazer tudo e não sentir nada”, diz.

Quais os sinais da depressão altamente funcional?

Pode ser difícil encontrar sinais de depressão em pessoas que podem não a reconhecer ou que podem estar activamente a mascarar sintomas e a tentar ultrapassá-la, talvez porque passar uma imagem de força e capacidade é essencial para a sua identidade, defendem os especialistas.

Brendel refere que as pessoas que estão preocupadas com uma possível depressão, nelas ou em outros, devem procurar mudanças subtis, incluindo mudanças de energia, humor e qualidade do sono. Essas mudanças podem ser um sinal de que alguém precisa dar prioridade a tomar conta de si próprio, observa. Mas, acrescenta, se essas mudanças persistirem durante um período de duas semanas, pode ser um sinal para procurar ajuda. Outros sinais são pensamentos negros acerca do futuro, bem como sentimentos de desesperança e impotência.

“Se estás a tentar ajudar outra pessoa, evita afirmar coisas. Não digas, por exemplo, que a pessoa precisa de fazer terapia”, diz Cowan.


Woody Cooper sugere fazer perguntas primeiro e abordar potenciais comportamentos preocupantes como algo que tenhas notado. “Por exemplo, podes dizer: ‘Tenho notado que, quando saímos com o grupo, ultimamente, não tens falado tanto’”, exemplifica Woody Cooper. Podem seguir-se perguntas como: “Está tudo bem? Há algo de que queiras falar?”

Especialistas recomendam ter uma referência de um profissional de saúde mental pronta. Também pode ajudar se quem pergunta estiver disponível para partilhar experiências pessoais de procura de ajuda.

“Admitir e aceitar que se precisa de ajuda não é algo fácil de fazer”, diz Dattilo. É por isso que os especialistas acreditam que uma das mais importantes abordagens sobre a depressão altamente funcional é a necessidade de as conversas, a educação e as atitudes perante a depressão e a saúde mental continuarem a mudar.

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post



4.2.22

Mortes por cancro subiram 20% no mundo numa década. Em Portugal foi 10%

Ana Maia, in Público on-line

Em 2019, no Mundo, registaram-se 23,6 milhões de novos casos e dez milhões de mortes, o que representa um acréscimo de 26,3% e 20,9%, respectivamente, em relação a 2010. No mesmo período Portugal passou de 29 mil mortes para 32 mil. Cancros do pulmão, cólon, estômago e mama estão entre os que geram maior carga de doença.

Numa década, o número de novos casos de cancro e de mortes aumentou significativamente no mundo. Em 2019 registaram-se 23,6 milhões de novos casos e dez milhões de mortes, o que representa um acréscimo de 26,3% e 20,9%, respectivamente, em relação a 2010. Em Portugal, o número de novos casos e de mortes também cresceu: mais 5,4% no primeiro caso e mais 10,3% no segundo. Em termos mundiais, em 2019, o cancro representou 250 milhões de anos perdidos de vida saudável, refere um estudo internacional, que alerta para desigualdades no acesso ao diagnóstico e aos cuidados de saúde a nível mundial.

Os 250 milhões de anos perdidos de vida saudável representam um acréscimo de 16% em relação a 2010, tornando o cancro a segunda doença com maior peso neste indicador e na mortalidade a nível mundial, apenas superado pelas doenças cardiovasculares em 2019, refere o artigo Cancer Incidence, Mortality, Years of Life Lost, Years Lived with Disability, and Disability-Adjusted Life Years for 29 Cancer Groups from 2010 to 2019: A Systematic Analysis of Cancer Burden Globally, Nationally, and by Socio-Demographic Index for the Global Burden of Disease Study 2019, publicado recentemente na revista médica JAMA.

O trabalho tem por base o Global Burden of Disease, um estudo que dá uma visão do impacto e do peso do cancro comparado com mais de 300 doenças e no qual a NOVA Medical School participa. “Este aumento mundial do número de casos e de mortes é muito significativo. Dez anos é um período curto. Estes resultados são uma grande chamada de atenção para a necessidade de aumentar a prevenção em todos os tipos de cancro”, diz ao PÚBLICO João Conde, investigador da Nova Medical School da Universidade Nova de Lisboa (Cancer NanoMedicine Lab), reforçando que estes retratos permitem aos governos tomar medidas que ajudem a travar o peso da doença, como o reforço de rastreios.

Entre 2010 e 2019, a carga da doença oncológica em Portugal, que faz parte do grupo com o índice sociodemográfico médio-alto, também subiu. De acordo com os dados do Global Burden of Disease, em 2010 o país registou 29 mil mortes e em 2019 foram 32 mil. Já quanto a novos casos, foram 611 mil em 2010 e 644 mil em 2019. “A nível nacional, o cancro do cólon foi o que causou mais mortes em 2019 (5200), o segundo foi o do pulmão (4700), o terceiro o do estômago (2950) e o quarto o da mama (2100)”, enumera o investigador. Em 2010, o cancro do cólon foi responsável por 4600 mortes, o do pulmão por 4500, o do estômago por 3000 e o da mama por 2050.

O mais importante é realmente criar ou fortalecer os programas de prevenção, bem como facilitar o acesso a novas terapias, mais eficazes e dirigidas que as convencionais João Conde, investigador da Nova Medical School

Questionado sobre esta evolução, João Conde diz que “há muito que ainda não se consegue fazer”, mas há um outro tanto que poderia ser melhorado. “Não temos um sistema de detecção precoce praticamente para cancro nenhum, tirando o da mama e da próstata”, diz, salientando a melhoria “nos últimos anos” que se registou na detecção do cancro do cólon. “O mais importante é realmente criar ou fortalecer os programas de prevenção, bem como facilitar o acesso a novas terapias, mais eficazes e dirigidas que as convencionais”, sugere. Para João Conde, seria importante replicar noutras doenças o exemplo das reuniões no Infarmed entre cientistas e políticos para que se pudesse fazer uma avaliação e estabelecer estratégias para melhorar a qualidade da resposta aos doentes.

Condições sociodemográficas fazem diferença

De volta ao olhar global, João Conde destaca a importância da introdução do Índex Sociodemográfico (SDI, sigla em inglês) nesta análise, ao repartir 204 países e territórios por cinco grupos de acordo com o seu desenvolvimento social e económico. E existem diferenças que ficam visíveis nesta avaliação. Foi nos grupos do SDI baixo, médio-baixo e médio que a percentagem de casos e mortes mais aumentou ao longo da década avaliada, embora no grupo sociodemográfico mais baixo o cancro representasse em 2019 a quinta causa de morte (nos restantes foi a segunda).

No que diz respeito aos anos perdidos de vida saudável, também existem diferenças. Se nos países mais ricos o peso do cancro supera até o das doenças cardiovasculares, nos mais pobres ocupa o 10.º lugar. Este indicador é calculado através do número de anos vividos com incapacidade e do número de anos perdidos (mortes prematuras). Mais uma vez, existem diferenças de acordo com as condições sociodemográficas. Nos países mais ricos há um peso maior dos anos vividos com incapacidade – o que se traduz em melhor diagnóstico e acesso a cuidados e tratamentos –, enquanto nos mais pobres é a morte prematura que mais pesa.

“Nos países com índice mais baixo existe falta de acesso a cuidados de saúde primários, a exames, a tratamentos. O facto de o cancro aparecer em 10.º neste grupo no que diz respeito aos anos perdidos de vida saudável tem a ver com a falta de diagnóstico. Este índice é muito importante para alertar para a necessidade de os países mais ricos apoiarem os mais pobres”, refere o investigador, salientando “as discrepâncias que a pandemia deixou à vista”.

Em termos globais, os cancros que mais pesaram em 2019 no número de anos perdidos de vida saudável foram o do pulmão (18,3%), o do cólon e recto (9,7%), o do estômago (8,9%), o da mama (8,2%) e o do fígado (5%). O estudo mostrou que, na última década, a carga dos cancros do cólon e do fígado aumentou, ocupando neste ranking os lugares que em 2010 eram do cancro do estômago e da leucemia.

Olhar para os adolescentes e jovens adultos

O grupo publicou um outro estudo recentemente, este na revista The Lancet Oncology, sobre o peso do cancro entre os adolescentes e jovens adultos – uma faixa etária entre os 15 e os 39 anos pouco avaliada. Esse foi um dos motivos pelo qual o consórcio decidiu avançar com este trabalho, que estimou em termos mundiais uma incidência de 1,2 milhões de casos de cancro nesta faixa etária e 396 mil mortes. A carga da doença em anos perdidos de vida saudável foi de 23,5 milhões. “Quando comparado com outras doenças em adolescentes e jovens adultos, o cancro foi a quarta causa de morte”, refere o artigo The global burden of adolescent and young adult cancer in 2019: An analysis of the Global Burden of Disease Study 2019.

É nos países com menores condições socioeconómicas que a carga da doença e a mortalidade é maior. A diferença é exposta também pelo peso que determinados tipos de cancros assumem. No cancro do colo do útero, a carga da doença aumenta à medida que as condições sociodemográficas diminuem, ao passo que os tumores do sistema nervoso central e cerebrais têm maior carga nos países mais desenvolvidos quando comparados com os outros.

“O grande objectivo deste estudo é criar esta consciência em todos os países”, afirma João Conde, enfatizando o “impacto que o acesso a cuidados de saúde e a exames têm num diagnóstico mais atempado” e no resultado do tratamento da doença. Outra das chamadas de atenção do artigo vai para a necessidade, em termos mundiais, de existirem estudos sobre os cancros mais frequentes nesta faixa etária.

Em Portugal, registaram-se 323 mortes e 96 mil casos de cancro entre os 15 e os 39 anos em 2019. Embora o estudo não faça esta comparação, o investigador refere que, em 2010, o país contabilizou 466 mortos e 113 mil casos na mesma faixa etária, o que mostra uma melhoria. “Pode ter que ver com a maior sensibilização e intercomunicação entre médicos pediatras e médicos dos adultos. Isto é uma chamada de atenção para a importância de melhorar e supervisionar os tratamentos e a sobrevida de pacientes jovens e é um desafio, visto que os seus cuidados primários ficam entre o de pacientes pediátricos e outros pacientes adultos. Nisso também pode estar a diferença entre os sistemas de saúde”, refere João Conde. Este é outro dos alertas que o estudo deixa aos vários países.

27.1.22

Estudo comprova impacto da pobreza no cérebro de bebés

Andrea Cunha Freitas, in Público on-line

Experiência com 435 crianças de apenas um ano de idade comprovou que os bebés de famílias com baixos rendimentos apresentam uma actividade cerebral distinta dos bebés que crescem em famílias com mais dinheiro.

A experiência levada a cabo nos EUA é mais ou menos simples: um grupo de mães com recém-nascidos recebeu mensalmente uma quantia de 333 dólares e outro grupo recebeu apenas uma mesada de 20 dólares. Um ano após o nascimento das crianças, uma equipa de investigadores analisou os padrões de actividade cerebral de 435 bebés nos dois grupos. Os resultados, publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revelam que a redução da pobreza tem um impacto na actividade cerebral durante a primeira infância. Os cérebros de crianças em contextos mais abonados não serão melhores nem piores, mas este estudo indica que são diferentes.

Não é novidade que a pobreza é um factor de risco para um mau aproveitamento escolar, menos oportunidade de melhores salários e pior saúde (física e mental), entre muitas outras desvantagens. Outros estudos também já demonstraram que a pobreza pode ser associada a diferenças no desenvolvimento cerebral em crianças, quanto mais não seja porque os seus cérebros se adaptam às experiências e ambientes que os rodeiam.

“No entanto, até agora, não temos sido capazes de dizer se a própria pobreza causa diferenças no desenvolvimento infantil, ou se o crescimento na pobreza está simplesmente associado a outros factores que causam essas diferenças”, constata Kimberly Noble, investigadora na Universidade de Colúmbia que coordenou este trabalho. É o velho debate da correlação e da causalidade, desta vez, aplicado à pobreza e ao cérebro.

Noutras investigações, notam os autores do artigo, a pobreza também já foi correlacionada com o desenvolvimento estrutural e funcional de algumas regiões cerebrais implicadas em áreas como a linguagem ou memória. Desta vez, a equipa de cientistas quis explorar o impacto que a pobreza e os factores que a rodeiam podem ter no neurodesenvolvimento, analisando os padrões de actividade cerebral de crianças com um ano de idade que cresceram em diferentes contextos.

A ideia era precisamente perceber se existe de facto uma relação de causalidade entre uma coisa e outra. “Devido ao desenho do ensaio controlado aleatório, os autores conseguiram distinguir correlação e causalidade, concluindo que dar dinheiro directamente às mães que vivem na pobreza pode traduzir-se em mudanças na actividade cerebral dos seus bebés”, destaca o comunicado de imprensa da Universidade da Colúmbia.

O estudo apoiou-se num projecto norte-americano maior, que envolve 1000 mães com baixos rendimentos, chamado Baby’s First Years e que tem como objectivo analisar o impacto da redução da pobreza nos primeiros anos de vida. Neste caso, a pandemia da covid-19 atrapalhou os planos dos cientistas, e a equipa mediu a actividade cerebral numa amostra mais pequena de 435 crianças de um ano que participam nesse grande estudo.

“Pouco depois de terem dado à luz, as mães participantes foram agrupadas para receber ou uma grande oferta em dinheiro de 333 dólares por mês ou uma oferta nominal em dinheiro de 20 dólares por mês”, explica o comunicado de imprensa, adiantando ainda que as “prendas” foram entregues em cartões de débito, e as mães, a maioria das quais eram negras ou latinas, eram livres de gastar este dinheiro como quisessem, sem qualquer compromisso.

A neurocientista Kimberly Noble, que, além de autora deste artigo, é também uma das coordenadoras no projecto Baby’s First Years, nota que já sabemos que o cérebro das crianças se adapta às suas experiências, mas também observa que não é possível rotular essas diferenças.

“Todos os cérebros saudáveis são moldados pelos seus ambientes e experiências, e não estamos a dizer que um grupo tenha cérebros ‘melhores’. Mas, devido ao desenho aleatório, sabemos que os 333 dólares por mês devem ter mudado as experiências ou ambientes das crianças, e que os seus cérebros se adaptaram a essas circunstâncias alteradas”, observa.

A actividade cerebral foi medida usando electroencefalografia (EEG), uma técnica usada para registar a actividade eléctrica do cérebro e que permite olhar para a potência e frequência (as oscilações em diferentes regiões) desta actividade. As ondas cerebrais existem em frequências diferentes (delta, teta, alfa, beta e gama) que podem ser mais altas ou mais baixas.

“A investigação passada tem ligado a alta frequência – ou seja, rápida – da actividade cerebral ao desenvolvimento do pensamento e da aprendizagem. O estudo relata que as crianças cujas mães receberam 333 por mês tiveram mais actividade cerebral de alta frequência em comparação com as crianças cujas mães receberam 20 dólares por mês”, refere o comunicado.

Os bebés nas famílias que receberam a maior quantia de dinheiro “mostraram nos EEG mais média a alta frequência nas bandas alfa, beta e gama”, especificam os autores no artigo. No caso das frequências teta, a equipa refere que não foi possível detectar diferenças significativas.

As mudanças identificadas após as análises e testes realizados reflectem a adaptação ao ambiente, comprovando a esperada neuroplasticidade. Assim, com alguma cautela, os autores deste artigo referem que reuniram provas suficientes para concluir que existe “um impacto causal plausível das doações em dinheiro”.

Os cientistas sublinham ainda que “o padrão de actividade cerebral observado está associado ao desenvolvimento de competências cognitivas”. “Os padrões de actividade neural que observamos no grupo das dádivas de dinheiro elevado foram correlacionados com pontuações mais elevadas nas áreas da linguagem, cognitiva e socioemocional, mais tarde na infância e adolescência”, argumentam.

Seria incorrecto arriscar uma leitura simplista de “melhor ou pior” perante as diferenças detectadas que podem ou não ter um impacto no desenvolvimento cognitivo e comportamental das crianças. Até porque, para já, é também impossível dizer se as diferenças detectadas nos padrões de actividade cerebral se vão manter ao longo do tempo. Por fim, também fica por esclarecer o tipo de experiências específicas que terão influenciado de forma mais directa estas diferenças.

Outras investigações já em curso vão agora “examinar potenciais mecanismos, incluindo a forma como as mães gastaram o dinheiro, e como é que ter mais dinheiro pode ter alterado os comportamentos parentais, as relações familiares e o stress familiar”, confirma a equipa.

Apesar das limitações e das muitas incertezas sobre o como e porquê e também sobre o impacto destas marcas detectadas na actividade cerebral no futuro destas crianças, a equipa sublinha que este estudo “sem precedentes” deve servir como prova de que “as políticas antipobreza podem e devem ser vistas como um investimento nas crianças”. Porém, os investigadores também reconhecem: “Embora possa ser tentador tirar conclusões políticas, advertimos que as presentes conclusões dizem apenas respeito aos primeiros 12 meses de um projecto que analisa o impacto da transferência de dinheiro durante vários anos.”