Ana Maia, in Público online
Fundação Portuguesa de Cardiologia alerta para a necessidade de controlo dos níveis de colesterol. Doenças cardiovasculares são “responsáveis por cerca de um terço do total das mortes”.
É o mote da campanha deste ano da Fundação Portuguesa de Cardiologia para assinalar o mês dedicado ao coração: sensibilizar para o controlo do colesterol, factor de risco para as doenças cardiovasculares. Um risco “invisível”, alerta o presidente da Fundação, já que “as pessoas podem ter valores altos, mas como são assintomáticas, não sabem”. E o desconhecimento é elevado, com 74 % dos portugueses a referirem desconhecer os seus níveis de colesterol, segundo um estudo que vai ser apresentado esta quinta-feira.
A campanha Maio, Mês do Coração vai ser apresentada esta quinta-feira, de manhã, na Câmara Municipal de Lisboa e o mote é a necessidade de controlo do colesterol. “O colesterol LDL (colesterol mau) é mais do que um factor de risco para as doenças cardiovasculares. Não há aterosclerose sem colesterol, que é uma causa directa de enfartes agudos do miocárdio e de AVC [acidente vascular cerebral]”, aponta. Os dois problemas “são causados por placas ateroscleróticas, que é uma acumulação de colesterol nas paredes das artérias”, explica Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia.
O médico salienta que “as doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de um terço do total das mortes”, que, “em média, morrem cerca de 80 pessoas por dia devido a doença cardiovascular” e que “só o enfarte do miocárdio mata, em média, mais de 12 pessoas por dia”. Deixa uma outra nota importante, que mostra a importância da prevenção: “Oito em cada dez óbitos de causa cardiovascular que ocorrem precocemente podem ser evitados com um estilo de vida saudável e com controlo de factores de risco.”
Para os controlar é preciso conhecê-los. Mas uma das conclusões do estudo Os Portugueses e o Colesterol 2023, realizado pela GFK Metris, em parceria com a Fundação Portuguesa de Cardiologia, é que “74 % dos portugueses, isto é 3 em cada 4, assumem que não sabem qual o seu valor de colesterol”. Um desconhecimento, referem ainda as conclusões, “que é muito expressivo entre os jovens e diminui com a idade”. Segundo os resultados apurados, 88% dos inquiridos entre os 18 e os 24 anos disse desconhecer o valor do seu colesterol, entre os 25-44 anos 86%, entre os 45-66 anos 66% e nos 65 e mais anos 69%.
A amostra foi constituída por 800 indivíduos, com idade igual ou superior a 18 anos e residentes em Portugal continental. Os respondentes foram seleccionados através do método de quotas e a informação foi recolhida através de entrevistas, que se realizaram em Abril deste ano.
Medicação necessária
Afirmando que “uma campanha sobre o colesterol é essencial”, Manuel Carregeta adianta que o objectivo não é acabar com o colesterol - “é uma gordura que faz falta para a produção de hormonas, mas que precisamos de muito pouca”, mas garantir que este apresenta níveis considerados normais. Tendo em conta a nossa alimentação, normal será ter um valor de colesterol total abaixo de 190 mg/dL. No caso de já existirem placas ateroscleróticas, para que exista regressão, o valor de colesterol LDL deve estar abaixo de 55mg/dL.
Apesar de 89% afirmarem que o colesterol é uma gordura que circula no corpo e destacarem o AVC e as doenças/complicações cardiovasculares entre as doenças provocadas pelo colesterol, só 64% dos respondentes do estudo afirmaram que um valor normal de colesterol é inferior a 190 mg/dL. Foram dadas também frases para inquiridos identificarem como verdadeiras ou falsas.
“A quase totalidade rejeita a ideia de que 'A prática regular do exercício físico não traz vantagens para quem tem o colesterol elevado' ou que 'Os magros não têm que se preocupar com o colesterol Isso é um problema dos gordos'”, lê-se nas conclusões. Mas “33% consideram falso que alguns suplementos alimentares fazem melhor ao colesterol do que as estatinas que os médicos receitam”.
“A nossa realidade é chocante. Um doente que teve um enfarte, em princípio, tem de tomar quatro medicamentos diferentes e um deles é estatina. O doente vai à consulta, perguntamos o que está a tomar e é frequente dizerem que não estão a tomar a estatina. É uma luta constante para que os doentes mantenham esta terapêutica essencial”, refere o médico, lembrando que um “estudo recente mostrou que cerca de 90% dos doentes com colesterol considerado de risco elevado e muito elevado não estavam controlados e que cerca de 20% dos doentes de muito alto risco não estavam a fazer medicação”.
Manuel Carrageta recorda um outro estudo da fundação que revelou que durante a pandemia "metade dos doentes cardiovasculares tiveram mais medo do vírus do que da doença" e "não procuraram os cuidados de saúde". "As pessoas passaram a ser menos bem controladas", diz, referindo que actualmente quer a procura de cuidados por parte dos doentes como a resposta dos serviços estão a recuperar para níveis anteriores.
Mostrar mensagens com a etiqueta Medicamentos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Medicamentos. Mostrar todas as mensagens
8.3.23
Funcionamento da reserva estratégica de medicamentos “é dramaticamente mau”
Por Lusa, in Público
Ouvido no parlamento, João Almeida Lopes sugeriu que se seguisse o modelo americano de gestão de reserva de medicamentos.O presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) considerou esta quarta-feira "dramaticamente má" a forma como funciona a reserva estratégica do medicamento, sugerindo que passem a ser as empresas a ter de garantir os stocks de fármacos.
Em declarações aos deputados da comissão parlamentar de Saúde, onde hoje foi ouvido, a pedido da Iniciativa Liberal, sobre a ruptura de medicamentos, João Almeida Lopes sugeriu que, a este nível, se optasse pelo "sistema à americana".
"O governo americano define a reserva estratégica e contrata com os produtores de cada produto, faz um contrato tipo de 10 anos, e diz, por exemplo, que quer para o país 500.000 unidades de paracetamol. Essa empresa tem de ter sempre essa disponibilidade, mas esse stock vai rodando", exemplificou, sublinhando que "neste caso, a empresa está sempre a vender, mas tem de ter sempre em stock aquela quantidade".
"Isto era um mecanismo muito mais simples, que as empresas agradeceriam, quando muito subiam um pouco os seus stocks de segurança, saía um bocadinho mais caro, mas era um sistema muito mais inteligente, muito mais prático e eficaz e as empresas eram obrigadas a gerir a reserva estratégica", afirmou.
João Almeida Lopes criticou a forma como em Portugal se gere esta questão, colocando os medicamentos da reserva estratégica em armazém: "Fica lá à espera de uma guerra nuclear, que esperemos nunca venha, e entretanto passa o prazo de validade, vai para o lixo e depois tem de se comprar mais."
Questionado sobre os motivos da falta de medicamentos, o presidente da Apifarma apontou vários factores, sublinhando que o preço é apenas um deles e destacando a perda de capacidade produtiva da Europa, e de Portugal, nos últimos 20 anos.
A este propósito, considerou que, no que se refere ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), "teria feito sentido pensar-se em fazer qualquer coisa em Portugal em termos de princípios activos, desafiando empresas de base nacional, ou não" a fazer uma unidade industrial para a produção de princípios activos.
"Como os franceses se atiraram agora para fazer uma fábrica para o paracetamol", exemplificou, lamentando que "às vezes perdem-se oportunidades".
18.1.22
Campanha "Dê troco a quem precisa" rendeu 15 mil euros para medicamentos
in JN
As 635 farmácias que aderiram à campanha "Dê troco a quem precisa" receberam 24.505 donativos para apoiar pessoas carenciadas, num total de 15.853 euros.
A campanha foi promovida pela Associação Dignitude, uma instituição particular de solidariedade social dedicada ao desenvolvimento de programas solidários que promovam a qualidade de vida e o bem-estar dos portugueses.
A Associação lançou o Programa abem: Rede Solidária do Medicamento, que vai receber os apoios na totalidade. O Programa tem como objetivo permitir o acesso, de forma digna, aos medicamentos prescritos a quem não tem capacidade financeira para os adquirir, cobrindo na receita o valor não comparticipado pelo Estado. Já apoiou a nível nacional mais de 25 mil pessoas.
QUANDO FOR À FARMÁCIA, PODE DOAR O "TROCO A QUEM PRECISA"
A campanha "Dê troco a quem precisa" decorreu entre 13 e 21 de dezembro. Na altura os portugueses foram convidados a doar o troco das suas compras nas 635 farmácias aderentes. O valor angariado permite que mais 158 pessoas carenciadas sejam apoiadas no acesso a medicamentos durante um ano.
"Este projeto é conduzido pela nobre missão de apoiar quem não tem capacidade financeira para pagar os seus próprios medicamentos e temos a certeza de que esta é uma realidade persistente contra a qual devemos continuar a lutar", disse, citada no comunicado, Maria de Belém Roseira, associada fundadora da Associação Dignitude.
A iniciativa de ajudar pessoas carenciadas no apoio à compra de medicamentos não se esgotou na campanha e pode ser apoiada a qualquer momento, refere o comunicado.
As 635 farmácias que aderiram à campanha "Dê troco a quem precisa" receberam 24.505 donativos para apoiar pessoas carenciadas, num total de 15.853 euros.
A campanha foi promovida pela Associação Dignitude, uma instituição particular de solidariedade social dedicada ao desenvolvimento de programas solidários que promovam a qualidade de vida e o bem-estar dos portugueses.
A Associação lançou o Programa abem: Rede Solidária do Medicamento, que vai receber os apoios na totalidade. O Programa tem como objetivo permitir o acesso, de forma digna, aos medicamentos prescritos a quem não tem capacidade financeira para os adquirir, cobrindo na receita o valor não comparticipado pelo Estado. Já apoiou a nível nacional mais de 25 mil pessoas.
QUANDO FOR À FARMÁCIA, PODE DOAR O "TROCO A QUEM PRECISA"
A campanha "Dê troco a quem precisa" decorreu entre 13 e 21 de dezembro. Na altura os portugueses foram convidados a doar o troco das suas compras nas 635 farmácias aderentes. O valor angariado permite que mais 158 pessoas carenciadas sejam apoiadas no acesso a medicamentos durante um ano.
"Este projeto é conduzido pela nobre missão de apoiar quem não tem capacidade financeira para pagar os seus próprios medicamentos e temos a certeza de que esta é uma realidade persistente contra a qual devemos continuar a lutar", disse, citada no comunicado, Maria de Belém Roseira, associada fundadora da Associação Dignitude.
A iniciativa de ajudar pessoas carenciadas no apoio à compra de medicamentos não se esgotou na campanha e pode ser apoiada a qualquer momento, refere o comunicado.
16.11.21
Idosos. "Passam muita fome e o dinheiro não chega para comprar medicamentos"
Maria Moreira Rato, in iOnline
Uma bombeira relatou à ativista Francisca de Magalhães Barros que teme que três idosos de Loures regressem ao “casebre que até ratos tem”.
A GNR sinalizou, em outubro, mais de 44 mil idosos a viverem sozinhos ou isolados. Segundo os dados da Operação Censos Sénior 2021 – cujo objetivo passa por garantir um conjunto de ações de patrulhamento e de sensibilização à população mais idosa que vive sozinha e/ou isolada – 44484 idosos vivem nesta situação ou em vulnerabilidade face à sua condição física, psicológica, ou outra que possa colocar em causa a sua segurança.
Este é o caso de três idosos que vivem em Loures, cidade do distrito de Lisboa, cujo quotidiano foi denunciado à ativista de direitos humanos Francisca de Magalhães Barros. “Sou bombeira e fui acionada para uma ocorrência, para um homem de 75 anos que supostamente sofreu uma queda e apresentava um hematoma na face”, o que corresponde ao início da mensagem que a jovem recebeu via Instagram e à qual o i teve acesso.
Ao chegar ao local, a profissional deparou-se com um casal e com uma irmã do idoso que havia caído que viviam “numa casa sem condições de habitabilidade e de salubridade”, tendo “imensas dificuldades económicas” e, por isso, “passam muita fome”, sendo que “o dinheiro não chega para comprar medicamentos”. Esta realidade afigura-se particularmente perigosa na medida em que todos padecem de diabetes e de hipertensão arterial, com a agravante de que dois tinham a glicemia superior a 400 mg/dL quando a bombeira e o colega verificaram os parâmetros vitais.
“Liguei 144, para a Linha de Emergência Social. Relatei o que vi e pedi ajuda. Pedi GNR para o local. Foram levados para o Hospital Beatriz Ângelo” e, naquela instituição hospitalar, terá transmitido “toda a informação” que havia recolhido à enfermeira que realizou a triagem. “Nem os cartões de cidadão têm com eles. Comem uma sopa por dia e pão dado por uma professora de uma escola junto da casa deles. Aliás, foi ela que ligou para o 112 a pedir uma ambulância”.
Por se ter apercebido do panorama assustador, e apesar de não desejar que a identidade seja revelada por medo de represálias, contou a Francisca que os idosos se queixaram de uma vizinha com quem têm tido alguns problemas, revelando que esta terá tentado asfixiar um deles. “O meu maior receio é que, após a alta hospitalar, regressem àquele casebre que até ratos tem”, narrou a mulher que, na casa para a qual foi chamada, não viu comida, apenas latas de comida para gatos.
Vila Real e Guarda com números alarmantes “Acho extremamente lamentável que se verifique que a figura dos nossos avós seja tratada desta forma e possa estar deixada ou largada ao abandono”, afirma Francisca, encarando este caso como “chocante”. “Questionamos, muitas das vezes, o que é estar sinalizado numa situação ou referenciado, quando as ajudas estão ou são tão precárias. Nesta situação, é o caso destes três idosos, mas já estamos fartas de ouvir a palavra ‘referenciado’ em situações de violência doméstica que acabam em tragédias”, lamenta a também pintora e cronista, deixando claro que “não deixa de ser dantesco que os nossos idosos possam viver desta maneira”.
É de referir, a título de exemplo, que de acordo com a informação avançada pela Rádio Campanário, que já no final de outubro o Comando Territorial de Setúbal, através da Secção de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário (SPC) de Santiago do Cacém, em colaboração com as Conferências Vicentinas de Santiago do Cacém, entregou um cabaz de bens alimentares a um casal de idosos em situação de vulnerabilidade que eram dois dos 1742 sinalizados no distrito de Setúbal.
Segundo os dados deste ano, recolhidos durante o mês de outubro por meio de 172 ações em sala e 3431 ações porta a porta e que abrangeram um total de 19812 idosos, os idosos de Loures poderiam estar incluídos no total de 1125 sinalizados em Lisboa – que, há dois anos, era a capital da União Europeia com mais idosos, segundo o Eurostat.
Sabe-se que os distritos de Vila Real e da Guarda são aqueles onde foram contabilizados mais idosos a viver nestas condições, ou seja, 5191 e 5012, respetivamente. Seguem-se os distritos de Beja, Bragança, Faro, Portalegre e Viseu, com mais de 3000. Curiosamente, o único distrito que tem menos de mil idosos sinalizados é o do Porto, com 946.
Durante este ano, os militares levaram a cabo uma série de ações “que privilegiaram o contacto pessoal com as pessoas idosas em situação vulnerável”, tendo como objetivo principal sensibilizar e alertar este público-alvo para “a adoção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente em situações de violência, de burla e furto, bem como para a adoção de medidas preventivas de propagação da pandemia”.
Uma bombeira relatou à ativista Francisca de Magalhães Barros que teme que três idosos de Loures regressem ao “casebre que até ratos tem”.
A GNR sinalizou, em outubro, mais de 44 mil idosos a viverem sozinhos ou isolados. Segundo os dados da Operação Censos Sénior 2021 – cujo objetivo passa por garantir um conjunto de ações de patrulhamento e de sensibilização à população mais idosa que vive sozinha e/ou isolada – 44484 idosos vivem nesta situação ou em vulnerabilidade face à sua condição física, psicológica, ou outra que possa colocar em causa a sua segurança.
Este é o caso de três idosos que vivem em Loures, cidade do distrito de Lisboa, cujo quotidiano foi denunciado à ativista de direitos humanos Francisca de Magalhães Barros. “Sou bombeira e fui acionada para uma ocorrência, para um homem de 75 anos que supostamente sofreu uma queda e apresentava um hematoma na face”, o que corresponde ao início da mensagem que a jovem recebeu via Instagram e à qual o i teve acesso.
Ao chegar ao local, a profissional deparou-se com um casal e com uma irmã do idoso que havia caído que viviam “numa casa sem condições de habitabilidade e de salubridade”, tendo “imensas dificuldades económicas” e, por isso, “passam muita fome”, sendo que “o dinheiro não chega para comprar medicamentos”. Esta realidade afigura-se particularmente perigosa na medida em que todos padecem de diabetes e de hipertensão arterial, com a agravante de que dois tinham a glicemia superior a 400 mg/dL quando a bombeira e o colega verificaram os parâmetros vitais.
“Liguei 144, para a Linha de Emergência Social. Relatei o que vi e pedi ajuda. Pedi GNR para o local. Foram levados para o Hospital Beatriz Ângelo” e, naquela instituição hospitalar, terá transmitido “toda a informação” que havia recolhido à enfermeira que realizou a triagem. “Nem os cartões de cidadão têm com eles. Comem uma sopa por dia e pão dado por uma professora de uma escola junto da casa deles. Aliás, foi ela que ligou para o 112 a pedir uma ambulância”.
Por se ter apercebido do panorama assustador, e apesar de não desejar que a identidade seja revelada por medo de represálias, contou a Francisca que os idosos se queixaram de uma vizinha com quem têm tido alguns problemas, revelando que esta terá tentado asfixiar um deles. “O meu maior receio é que, após a alta hospitalar, regressem àquele casebre que até ratos tem”, narrou a mulher que, na casa para a qual foi chamada, não viu comida, apenas latas de comida para gatos.
Vila Real e Guarda com números alarmantes “Acho extremamente lamentável que se verifique que a figura dos nossos avós seja tratada desta forma e possa estar deixada ou largada ao abandono”, afirma Francisca, encarando este caso como “chocante”. “Questionamos, muitas das vezes, o que é estar sinalizado numa situação ou referenciado, quando as ajudas estão ou são tão precárias. Nesta situação, é o caso destes três idosos, mas já estamos fartas de ouvir a palavra ‘referenciado’ em situações de violência doméstica que acabam em tragédias”, lamenta a também pintora e cronista, deixando claro que “não deixa de ser dantesco que os nossos idosos possam viver desta maneira”.
É de referir, a título de exemplo, que de acordo com a informação avançada pela Rádio Campanário, que já no final de outubro o Comando Territorial de Setúbal, através da Secção de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário (SPC) de Santiago do Cacém, em colaboração com as Conferências Vicentinas de Santiago do Cacém, entregou um cabaz de bens alimentares a um casal de idosos em situação de vulnerabilidade que eram dois dos 1742 sinalizados no distrito de Setúbal.
Segundo os dados deste ano, recolhidos durante o mês de outubro por meio de 172 ações em sala e 3431 ações porta a porta e que abrangeram um total de 19812 idosos, os idosos de Loures poderiam estar incluídos no total de 1125 sinalizados em Lisboa – que, há dois anos, era a capital da União Europeia com mais idosos, segundo o Eurostat.
Sabe-se que os distritos de Vila Real e da Guarda são aqueles onde foram contabilizados mais idosos a viver nestas condições, ou seja, 5191 e 5012, respetivamente. Seguem-se os distritos de Beja, Bragança, Faro, Portalegre e Viseu, com mais de 3000. Curiosamente, o único distrito que tem menos de mil idosos sinalizados é o do Porto, com 946.
Durante este ano, os militares levaram a cabo uma série de ações “que privilegiaram o contacto pessoal com as pessoas idosas em situação vulnerável”, tendo como objetivo principal sensibilizar e alertar este público-alvo para “a adoção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente em situações de violência, de burla e furto, bem como para a adoção de medidas preventivas de propagação da pandemia”.
23.4.21
Cascais oferece teleconsultas e entrega de medicamentos ao domicílio
Francisco de Almeida Fernandes, in DN
Cascais Vida. Projeto pretende complementar os cuidados de saúde prestados pelo SNS e apoiar o envelhecimento ativo no concelho. As teleconsultas serão nas áreas de pediatria e medicina geral.
"Este serviço levará a que muitos dos munícipes de Cascais não necessitem de acorrer aos centros de saúde." A frase é do presidente da autarquia, Carlos Carreiras, e resume a ambição que norteia o programa Cascais Vida. A iniciativa, disponível a todos os cidadãos e integrada nos Serviços Locais de Saúde e Solidariedade Social (SL3S), pretende disponibilizar teleconsultas e entrega de medicamentos ao domicílio sem qualquer custo. Um passo mais, acredita o autarca, no reforço da qualidade de vida dos munícipes.
Desde o início de 2020 que todos os residentes, trabalhadores e estudantes de Cascais têm direito à utilização gratuita dos transportes públicos do concelho e agora, mais de um ano depois, também o acesso generalizado e mais facilitado à saúde é uma preocupação do executivo.
Este projeto assenta em três pilares fundamentais - oferta de teleconsultas durante todos os dias do ano, a instalação de cabinas-consultórios em cada uma das nove paróquias e acesso universal a médicos de família. "Apesar de tudo, somos dos concelhos que maior cobertura [de medicina geral] tem, mas ainda existem cerca de 15 mil cidadãos sem médico de família", diz ao DN Carlos Carreiras.
Para "colmatar o défice" na oferta garantida pelo Estado, o município juntou esforços com a União das Misericórdias e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARS-LVT) para criar o Bata Branca. Desta forma, os habitantes locais têm acesso a consultas presenciais de medicina geral e familiar, enquanto o executivo termina o "forte investimento" em novos centros de saúde.
No caso das consultas médicas à distância, com 30 minutos de duração máxima, estão disponíveis nas áreas da pediatria e de medicina geral, bastando ser portador do cartão Viver Cascais para usufruir. Adicionalmente, os medicamentos que forem prescritos no âmbito deste atendimento serão entregues, sem qualquer taxa adicional, em casa dos utentes. "Uma iniciativa sem precedentes na história do poder local e que nos anima no desígnio de erguer um verdadeiro Estado de providência local", afirma o autarca, que ao longo da pandemia tornou a saúde um eixo prioritário do município. A outra vertente do Cascais Vida diz respeito aos idosos, a quem serão dirigidas medidas relacionadas com o exercício físico e de combate à solidão. "Queremos garantir qualidade de vida aos mais velhos", atesta.
O acesso mais facilitado à prestação de cuidados de saúde é possível, ainda, com a instalação de cabinas-consultórios nas nove paróquias de Cascais. Além de ajudar a aliviar a pressão sobre centros de saúde e hospitais da região, estes espaços contam com equipamento de diagnóstico que permite, entre outros exames, realizar testes oftalmológicos, auditivos ou eletrocardiogramas. É "um programa muito ambicioso" que arranca com a primeira experiência no Complexo Desportivo da Abóboda, já disponível.
Sobre o montante total investido, o autarca explica que é preciso distinguir entre despesa corrente e investimento. "Em termos globais, incluindo a construção de novos centros de saúde e a compra de equipamento, o investimento andará, nos próximos quatro anos, na ordem dos 40 milhões de euros", esclarece. Por outro lado, Carlos Carreiras relembra a promessa feita durante a campanha eleitoral para a redução da taxa municipal de IMI, hoje fixada em 0,34%, e diz pretender usar o valor correspondente a uma baixa de 0,01% por ano para financiar o programa agora lançado. São 1,5 milhões de euros por ano de despesa corrente, totalizando seis milhões de euros no quarto ano de execução do projeto.
Alargar a outros concelhos
O caminho percorrido por Cascais tem sido preenchido de iniciativas em torno da digitalização do município, da melhoria da qualidade de vida dos habitantes e da sustentabilidade ambiental. Contudo, a realidade de cada um dos 308 concelhos portugueses é díspar, pelo que nem todos terão capacidade de replicar este modelo de governança. "Depende do tipo de município", começa por dizer o autarca, detalhando que "a extensão territorial não é igual" e que a literacia tecnológica das populações, essencial para a utilização dos serviços digitais, é diferente em cada local do país. "Cabe a cada presidente de câmara perceber o que pode ou não fazer", remata.
Cascais Vida. Projeto pretende complementar os cuidados de saúde prestados pelo SNS e apoiar o envelhecimento ativo no concelho. As teleconsultas serão nas áreas de pediatria e medicina geral.
"Este serviço levará a que muitos dos munícipes de Cascais não necessitem de acorrer aos centros de saúde." A frase é do presidente da autarquia, Carlos Carreiras, e resume a ambição que norteia o programa Cascais Vida. A iniciativa, disponível a todos os cidadãos e integrada nos Serviços Locais de Saúde e Solidariedade Social (SL3S), pretende disponibilizar teleconsultas e entrega de medicamentos ao domicílio sem qualquer custo. Um passo mais, acredita o autarca, no reforço da qualidade de vida dos munícipes.
Desde o início de 2020 que todos os residentes, trabalhadores e estudantes de Cascais têm direito à utilização gratuita dos transportes públicos do concelho e agora, mais de um ano depois, também o acesso generalizado e mais facilitado à saúde é uma preocupação do executivo.
Este projeto assenta em três pilares fundamentais - oferta de teleconsultas durante todos os dias do ano, a instalação de cabinas-consultórios em cada uma das nove paróquias e acesso universal a médicos de família. "Apesar de tudo, somos dos concelhos que maior cobertura [de medicina geral] tem, mas ainda existem cerca de 15 mil cidadãos sem médico de família", diz ao DN Carlos Carreiras.
Para "colmatar o défice" na oferta garantida pelo Estado, o município juntou esforços com a União das Misericórdias e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARS-LVT) para criar o Bata Branca. Desta forma, os habitantes locais têm acesso a consultas presenciais de medicina geral e familiar, enquanto o executivo termina o "forte investimento" em novos centros de saúde.
No caso das consultas médicas à distância, com 30 minutos de duração máxima, estão disponíveis nas áreas da pediatria e de medicina geral, bastando ser portador do cartão Viver Cascais para usufruir. Adicionalmente, os medicamentos que forem prescritos no âmbito deste atendimento serão entregues, sem qualquer taxa adicional, em casa dos utentes. "Uma iniciativa sem precedentes na história do poder local e que nos anima no desígnio de erguer um verdadeiro Estado de providência local", afirma o autarca, que ao longo da pandemia tornou a saúde um eixo prioritário do município. A outra vertente do Cascais Vida diz respeito aos idosos, a quem serão dirigidas medidas relacionadas com o exercício físico e de combate à solidão. "Queremos garantir qualidade de vida aos mais velhos", atesta.
O acesso mais facilitado à prestação de cuidados de saúde é possível, ainda, com a instalação de cabinas-consultórios nas nove paróquias de Cascais. Além de ajudar a aliviar a pressão sobre centros de saúde e hospitais da região, estes espaços contam com equipamento de diagnóstico que permite, entre outros exames, realizar testes oftalmológicos, auditivos ou eletrocardiogramas. É "um programa muito ambicioso" que arranca com a primeira experiência no Complexo Desportivo da Abóboda, já disponível.
Sobre o montante total investido, o autarca explica que é preciso distinguir entre despesa corrente e investimento. "Em termos globais, incluindo a construção de novos centros de saúde e a compra de equipamento, o investimento andará, nos próximos quatro anos, na ordem dos 40 milhões de euros", esclarece. Por outro lado, Carlos Carreiras relembra a promessa feita durante a campanha eleitoral para a redução da taxa municipal de IMI, hoje fixada em 0,34%, e diz pretender usar o valor correspondente a uma baixa de 0,01% por ano para financiar o programa agora lançado. São 1,5 milhões de euros por ano de despesa corrente, totalizando seis milhões de euros no quarto ano de execução do projeto.
Alargar a outros concelhos
O caminho percorrido por Cascais tem sido preenchido de iniciativas em torno da digitalização do município, da melhoria da qualidade de vida dos habitantes e da sustentabilidade ambiental. Contudo, a realidade de cada um dos 308 concelhos portugueses é díspar, pelo que nem todos terão capacidade de replicar este modelo de governança. "Depende do tipo de município", começa por dizer o autarca, detalhando que "a extensão territorial não é igual" e que a literacia tecnológica das populações, essencial para a utilização dos serviços digitais, é diferente em cada local do país. "Cabe a cada presidente de câmara perceber o que pode ou não fazer", remata.
1.3.21
O valor do que é raro
Carmen Garcia, in Público on-line
Ter um filho diferente é uma prova muito dura. Ter um filho tão diferente que não há forma de saber o que nos espera é o corolário da solidão. Sabiam que há pais que nunca chegam a ter um nome para a doença dos filhos?
Devia ter-se chamado Ana Raquel, mas como nasceu a 13 de Maio, numa reviravolta inesperada, acabou por ficar Lúcia Jacinta. Não me lembro de muitas coisas sobre a doença dela porque, com seis anos, as minhas preocupações estavam centradas em saber se podia ser a Navegante da Lua na brincadeira do recreio ou se, mais uma vez, teria de me contentar em ser a Navegante de Júpiter. Mas lembro-me de um dia lhe perguntar porque é que não tinha unhas. Ela encolheu os ombros e disse que não sabia e, a bem da verdade, aquilo pouco me chateou. Imagino que, na minha cabeça de criança, as unhas não fossem uma coisa assim tão importante.
Há uns tempos, andava em arrumações e encontrei uma daquelas clássicas fotografias de turma em que aparecemos alinhados em duas filas. E lá estava ela. Mas agora, já adulta, os meus olhos viram o que a inocência de criança nunca me deixou ver: o rosto dela era o típico rosto de gnomo que associamos à síndrome de Williams. A boca larga, os dentes pequenos, os olhos grandes e puxados... E depois lembrei-me de que ela cantava muito e quase sempre. E esta é, também, uma das características típicas desta alteração no cromossoma 7. Vinte e nove anos depois de entrar para a escola primária percebi que a minha colega de turma era uma raríssima. Mais uma entre tantas que celebramos hoje.
Não sei porque é que a Lúcia não tinha unhas, uma vez que nada do que li atribui essa característica aos portadores desta condição. Mas consigo imaginar que esta síndrome não vivesse sozinha naquele corpo franzino de menina que falava demais (portadores de síndrome de Williams são, em regra, extremamente sociáveis e conversadores — há quem diga, inclusivamente, que esta síndrome é o oposto do autismo). Não sei onde a Lúcia está agora, o que faz da vida, como foi o seu desenvolvimento ou qual foi o diagnóstico exacto que lhe atribuíram em criança. O que sei é que ela faz, seguramente, parte dos 6% da população portuguesa que sofre de uma doença rara.
Utilizando a definição da União Europeia, são consideradas doenças raras as que afectam menos de cinco pessoas em cada dez mil. E estão, actualmente, descritas cerca de seis a oito mil doenças deste tipo. Algumas delas, dentro da “raridade”, acabam por atingir um número significativo de indivíduos, mas outras são tão absolutamente raras que o seu diagnóstico é quase sempre tardio, o prognóstico desconhecido (por existirem tão poucos casos no mundo que não é possível prever a evolução da doença) e a experiência de as vivenciar, como portadores ou como pais, acaba por se assemelhar a uma travessia no deserto.
Ter um filho diferente é uma prova muito dura. Ter um filho tão diferente que não há forma de saber o que nos espera é o corolário da solidão. Sabiam que há pais que nunca chegam a ter um nome para a doença dos filhos? E, por experiência própria, garanto-vos que ter um diagnóstico grave é muito doloroso. Mas é infinitamente pior viver sem ter diagnóstico nenhum. Porque isso impede que se façam planos, que se tracem metas realistas, que se antecipem problemas. Viver na escuridão é estabelecer morada num purgatório de onde desapareceram todas as certezas.
O meu primo Tiago tem vinte e cinco anos. E há cerca de vinte e três que os pais lutam, todos os dias, para lhe dar uma boa vida. Não sei quantas especialidades o seguem neste momento nem quantos tratamentos diferentes já foram tentados. Sei que o diagnóstico definitivo não aparece. Tem epilepsia, tem défice cognitivo, tem problemas hormonais severos e perdeu a capacidade de andar. Mas tem sido impossível juntar todos os sintomas e chegar a uma conclusão. Tudo o que parece nunca é. Todas as suspeitas caem em saco roto. E os pais do Tiago, filhos únicos, desesperam pelo dia em que faltem ao filho.
Este desespero é, aliás, transversal a todos os pais de “raros” com quem falei. Se de um lado existe sempre o horror dos números que diz que 30% das crianças com doenças raras morrem antes dos cinco anos, do outro existe o medo pelo futuro dos filhos no dia em que os pais lhes faltarem. Ser raro, neste contexto, está longe de ser uma mais-valia. Ser raro é uma prova de fogo.
Todos os anos, no último dia de Fevereiro, se celebra o Dia Mundial das Doenças Raras. E o objectivo do dia de hoje é sensibilizar a população para este tipo de doenças e para as dificuldades que os seus portadores enfrentam para obterem um diagnóstico, um tratamento ou, quando possível, uma cura. E por falar em tratamentos e curas, sendo que um dos objectivos da indústria farmacêutica passa pelo lucro, é óbvio que existe uma enorme relutância em desenvolver medicamentos para estas doenças, uma vez que o pequeno mercado a que se destinam dificilmente conseguirá retornar a quantia investida na investigação e no desenvolvimento dos fármacos.
Quem é que não se lembra do caso da pequena Matilde, a bebé portuguesa com atrofia muscular espinhal tipo 1, que viu um país inteiro unir-se ao esforço dos pais para adquirir o Zolgensma, que custa a módica quantia de 1,9 milhões de euros? E se é certo que o fármaco acabou por ser comparticipado pelo Estado, também é certo que existe um longo caminho a percorrer no que toca aos medicamentos órfãos — é esta a designação dos fármacos que têm como função específica o tratamento de doenças raras. Ainda que na União Europeia exista, desde 1999, uma política comum sobre os medicamentos órfãos e que se tenham implementado incentivos para que as empresas de saúde e tecnologia se dediquem a esta área, do ponto de vista puramente comercial o desenvolvimento e a investigação destes fármacos continuam a ser pouco atractivos. Tal como quase tudo na doença, não é?
A doença é incómoda, repele e fica mal nos feeds coloridos do Instagram. Também não origina grandes comentários no Twitter. Até porque, na época em que vivemos, é quase de bom-tom não trazermos alguns assuntos para cima da mesa. Porque a gente até sabe que eles existem, mas gosta de poder esquecer-se deles em paz. E é isso que o dia de hoje tenta combater.
É imperativo que paremos com a “coitadinhização” dos doentes raros e famílias ao mesmo tempo que encolhemos os ombros e soltamos um “o que é que eu posso fazer, não é?”. Porque a verdade é que podemos fazer muita coisa. E a primeira de todas é olharmos com atenção para as Lúcias Jacintas desta vida e pararmos para lhes perguntar, a elas e às suas famílias, o que sentem ou do que é que precisam. É que elas até podem ter nascido a 13 de Maio e ter o nome de duas das pastorinhas que viram Nossa Senhora. Mas estão longe, muito longe, de terem sido abençoadas.
Ter um filho diferente é uma prova muito dura. Ter um filho tão diferente que não há forma de saber o que nos espera é o corolário da solidão. Sabiam que há pais que nunca chegam a ter um nome para a doença dos filhos?
Devia ter-se chamado Ana Raquel, mas como nasceu a 13 de Maio, numa reviravolta inesperada, acabou por ficar Lúcia Jacinta. Não me lembro de muitas coisas sobre a doença dela porque, com seis anos, as minhas preocupações estavam centradas em saber se podia ser a Navegante da Lua na brincadeira do recreio ou se, mais uma vez, teria de me contentar em ser a Navegante de Júpiter. Mas lembro-me de um dia lhe perguntar porque é que não tinha unhas. Ela encolheu os ombros e disse que não sabia e, a bem da verdade, aquilo pouco me chateou. Imagino que, na minha cabeça de criança, as unhas não fossem uma coisa assim tão importante.
Há uns tempos, andava em arrumações e encontrei uma daquelas clássicas fotografias de turma em que aparecemos alinhados em duas filas. E lá estava ela. Mas agora, já adulta, os meus olhos viram o que a inocência de criança nunca me deixou ver: o rosto dela era o típico rosto de gnomo que associamos à síndrome de Williams. A boca larga, os dentes pequenos, os olhos grandes e puxados... E depois lembrei-me de que ela cantava muito e quase sempre. E esta é, também, uma das características típicas desta alteração no cromossoma 7. Vinte e nove anos depois de entrar para a escola primária percebi que a minha colega de turma era uma raríssima. Mais uma entre tantas que celebramos hoje.
Não sei porque é que a Lúcia não tinha unhas, uma vez que nada do que li atribui essa característica aos portadores desta condição. Mas consigo imaginar que esta síndrome não vivesse sozinha naquele corpo franzino de menina que falava demais (portadores de síndrome de Williams são, em regra, extremamente sociáveis e conversadores — há quem diga, inclusivamente, que esta síndrome é o oposto do autismo). Não sei onde a Lúcia está agora, o que faz da vida, como foi o seu desenvolvimento ou qual foi o diagnóstico exacto que lhe atribuíram em criança. O que sei é que ela faz, seguramente, parte dos 6% da população portuguesa que sofre de uma doença rara.
Utilizando a definição da União Europeia, são consideradas doenças raras as que afectam menos de cinco pessoas em cada dez mil. E estão, actualmente, descritas cerca de seis a oito mil doenças deste tipo. Algumas delas, dentro da “raridade”, acabam por atingir um número significativo de indivíduos, mas outras são tão absolutamente raras que o seu diagnóstico é quase sempre tardio, o prognóstico desconhecido (por existirem tão poucos casos no mundo que não é possível prever a evolução da doença) e a experiência de as vivenciar, como portadores ou como pais, acaba por se assemelhar a uma travessia no deserto.
Ter um filho diferente é uma prova muito dura. Ter um filho tão diferente que não há forma de saber o que nos espera é o corolário da solidão. Sabiam que há pais que nunca chegam a ter um nome para a doença dos filhos? E, por experiência própria, garanto-vos que ter um diagnóstico grave é muito doloroso. Mas é infinitamente pior viver sem ter diagnóstico nenhum. Porque isso impede que se façam planos, que se tracem metas realistas, que se antecipem problemas. Viver na escuridão é estabelecer morada num purgatório de onde desapareceram todas as certezas.
O meu primo Tiago tem vinte e cinco anos. E há cerca de vinte e três que os pais lutam, todos os dias, para lhe dar uma boa vida. Não sei quantas especialidades o seguem neste momento nem quantos tratamentos diferentes já foram tentados. Sei que o diagnóstico definitivo não aparece. Tem epilepsia, tem défice cognitivo, tem problemas hormonais severos e perdeu a capacidade de andar. Mas tem sido impossível juntar todos os sintomas e chegar a uma conclusão. Tudo o que parece nunca é. Todas as suspeitas caem em saco roto. E os pais do Tiago, filhos únicos, desesperam pelo dia em que faltem ao filho.
Este desespero é, aliás, transversal a todos os pais de “raros” com quem falei. Se de um lado existe sempre o horror dos números que diz que 30% das crianças com doenças raras morrem antes dos cinco anos, do outro existe o medo pelo futuro dos filhos no dia em que os pais lhes faltarem. Ser raro, neste contexto, está longe de ser uma mais-valia. Ser raro é uma prova de fogo.
Todos os anos, no último dia de Fevereiro, se celebra o Dia Mundial das Doenças Raras. E o objectivo do dia de hoje é sensibilizar a população para este tipo de doenças e para as dificuldades que os seus portadores enfrentam para obterem um diagnóstico, um tratamento ou, quando possível, uma cura. E por falar em tratamentos e curas, sendo que um dos objectivos da indústria farmacêutica passa pelo lucro, é óbvio que existe uma enorme relutância em desenvolver medicamentos para estas doenças, uma vez que o pequeno mercado a que se destinam dificilmente conseguirá retornar a quantia investida na investigação e no desenvolvimento dos fármacos.
Quem é que não se lembra do caso da pequena Matilde, a bebé portuguesa com atrofia muscular espinhal tipo 1, que viu um país inteiro unir-se ao esforço dos pais para adquirir o Zolgensma, que custa a módica quantia de 1,9 milhões de euros? E se é certo que o fármaco acabou por ser comparticipado pelo Estado, também é certo que existe um longo caminho a percorrer no que toca aos medicamentos órfãos — é esta a designação dos fármacos que têm como função específica o tratamento de doenças raras. Ainda que na União Europeia exista, desde 1999, uma política comum sobre os medicamentos órfãos e que se tenham implementado incentivos para que as empresas de saúde e tecnologia se dediquem a esta área, do ponto de vista puramente comercial o desenvolvimento e a investigação destes fármacos continuam a ser pouco atractivos. Tal como quase tudo na doença, não é?
A doença é incómoda, repele e fica mal nos feeds coloridos do Instagram. Também não origina grandes comentários no Twitter. Até porque, na época em que vivemos, é quase de bom-tom não trazermos alguns assuntos para cima da mesa. Porque a gente até sabe que eles existem, mas gosta de poder esquecer-se deles em paz. E é isso que o dia de hoje tenta combater.
É imperativo que paremos com a “coitadinhização” dos doentes raros e famílias ao mesmo tempo que encolhemos os ombros e soltamos um “o que é que eu posso fazer, não é?”. Porque a verdade é que podemos fazer muita coisa. E a primeira de todas é olharmos com atenção para as Lúcias Jacintas desta vida e pararmos para lhes perguntar, a elas e às suas famílias, o que sentem ou do que é que precisam. É que elas até podem ter nascido a 13 de Maio e ter o nome de duas das pastorinhas que viram Nossa Senhora. Mas estão longe, muito longe, de terem sido abençoadas.
10.9.19
Recusa de fármacos inovadores no cancro. Ordem quer responsabilizar peritos
Alexandra Campos e Ana Maia, Público on-line
Os doentes a quem for recusado o acesso a medicamentos inovadores que provaram ser eficazes em fases precoces dos cancros poderão, em teoria, avançar com processos em tribunal contra os peritos ou contra a autoridade do medicamento.
O Conselho Nacional da Ordem dos Médicos (OM) defende que se deve “responsabilizar directamente, com casos concretos”, os peritos que “por decisões que sejam erradas” impeçam os médicos de “preservar a vida de doentes com cancro”. E apela aos médicos que registem as recusas de fármacos inovadores nos processos clínicos, validando esta proposta avançada pelo colégio da especialidade de Oncologia da OM - que em Julho enviou uma carta ao bastonário a denunciar o problema.
Foi depois de a missiva — que denunciava limitações no Serviço Nacional de Saúde (SNS) no acesso a medicamentos inovadores que podem ser usados em fases mais precoces de alguns cancros - ter sido divulgada pelo Expresso no sábado passado que o Conselho Nacional da OM marcou uma reunião extraordinária para analisar a situação. E os moldes em que se decidiu pronunciar, em comunicado esta terça-feira divulgado, são muito duros: negar o acesso de doentes oncológicos a medicamentos “com efeito comprovado” na redução de risco de voltarem a ter cancro ou de aumento da probabilidade de sobrevivência “constitui uma situação muito grave”, ainda mais quando a terapêutica “está livremente disponível para uso no sector privado e social”.
Em causa estarão vários medicamentos para o tratamento de cancros do pulmão, próstata, mama e melanoma, segundo o semanário. São fármacos que já estão a ser usados em casos de cancro metastizado (espalhado por outros órgãos) e que terão mostrado eficácia na redução do risco de ressurgimento da doença e no aumento de sobrevivência, quando usados em fases mais precoces.
No comunicado, o Conselho Nacional afirma ter decidido “recomendar fortemente a todos os médicos” que expliquem aos doentes as melhores opções de tratamentos e a existência de limitações que possam estar ser impostas. Mas vai mais longe e recomenda que os médicos activem “de imediato” o Gabinete de Apoio ao Acesso a Inovação Terapêutica e Tecnológica da OM para “reclamar caso a caso” o acesso aos tratamentos - que já foram validados cientificamente e pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês).
São várias as barreiras no acesso elencadas pela OM: além das comissões de farmácia e terapêutica hospitalares — “que em diversos casos retêm os pedidos de Autorização Excepcional demasiado tempo” —, os membros da Comissão de Avaliação de Tecnologias da Saúde (CATS) do Infarmed e “outros ‘peritos’ desta entidade reguladora “muitas vezes não [são] especialistas na área em questão”. Critica também a direcção da Autoridade Nacional do Medicamento, “que tem colocado obstáculos à implementação de Programas de Acesso Precoce [PAP] e tem demorado tempo excessivo no processo de avaliação custo-efectividade”.
“Os obstáculos colocados pelas barreiras referidas e as decisões negativas ou empatadas” têm “colocado vários doentes em risco de vida e ‘obrigado’ vários médicos oncologistas a delinearem planos de cuidados diversos dos esperados pelas leges artis como plano de actuação contingente”, sustentam os responsáveis da OM, que pedem ao Ministério da Saúde e ao Infarmed que resolvam “de forma definitiva” este tipo de situações.
O presidente do Infarmed, Rui Ivo, já respondeu, sublinhando que se tratam de casos de medicamentos que ainda estão em avaliação. Frisou ainda que as autorizações de utilização excepcional são decididas com base no parecer de peritos médicos, muitos deles oncologistas de hospitais do SNS, incluindo dos institutos de oncologia, com base em critérios técnicos e clínicos, ficando de parte as questões de financiamento.
"Perda de chance"
O registo no processo clínico dos doentes das recusas de disponibilização de medicamentos inovadores pode ser um trunfo importante, uma vez que habilita o doente ou os seus familiares a processar os responsáveis pelas recusas. Há uma figura que é a da “perda de chance”, lembra, a propósito, o director do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, José Dinis, que, apesar de ter uma posição “neutra”, se mostra preocupado com a situação. Existe nestes casos uma “clara perda de oportunidade”, corrobora o presidente do colégio da especialidade de oncologia da Ordem dos Médicos, Luís Costa. Em 2015, um tribunal português invocou pela primeira vez a “perda de chance” de sobrevivência de um doente para condenar um hospital privado a pagar uma indemnização por negligência médica.
Luís Costa frisa que o colégio de oncologia, que é composto por médicos dos três IPO e dos maiores hospitais do país, aprovou de forma unânime o teor da carta, em que se denunciam as limitações de acesso a medicamentos inovadores que permitem combater vários cancros, porque os peritos da CATS consideram que na fase inicial da doença não há “risco imediato de vida”, mas apenas “risco de vida”. Alguns destes tratamentos são autorizados apenas quando já há metástases.
“Não tomamos esta decisão de ânimo leve e não está aqui em causa apenas uma patologia, um produto ou uma companhia [farmacêutica]”, enfatizou Luís Costa ao PÚBLICO. “A oncologia sempre viveu da possibilidade de fazer tratamentos numa fase precoce para evitar metastizações”, disse, sublinhando que os benefícios dos medicamentos em causa não são marginais, ao contrário do que afirmam alguns especialistas. O risco relativo de reaparecimento nos casos de melanoma com uma mutação específica é reduzido em 40%, exemplificou.
“Este problema é recorrente e é preciso repensar a forma de funcionamento do Infarmed nestes casos”, defende também o presidente do Conselho Regional do Norte da OM, António Araújo. O Infarmed “está a obstaculizar imenso e a não deixar registar doentes nos PAP - em que tratamentos inovadores são disponibilizados de forma gratuita durante algum tempo pela indústria farmacêutica. Porquê? Porque estes permitem a criação de grupos de doentes que vão necessitar dos medicamentos depois do fim de programa e aí é o SNS que paga, explica.
Quanto às autorizações excepcionais, a avaliação muitas vezes não é feita por peritos da área da especialidade em causa, critica, sublinhando que o “mais iníquo é que a ADSE até agora financiava todos, desde que aprovados pela EMA”. Nos hospitais privados, estes também são disponibilizados, mas por vezes o plafond dos seguros é esgotado.
Para se ter uma ideia dos valores em questão, a quimioterapia do cancro de pulmão custa num dia standard 500 a 600 euros. Já os tratamentos de primeira geração dirigidos a alvos custam entre mil a 1500 euros por mês, enquanto os de terceira geração ascendem a entre cinco mil a 5500 euros por mês. Mas há protocolos com imunoterapia que podem chegar aos 13 mil euros por mês.
A OM recorda que no último relatório de Primavera do Observatório dos Sistemas de Saúde os especialistas destacam que o tempo para acesso à inovação terapêutica em geral (não apenas a medicamentos oncológicos) em Portugal é cinco vezes mais longo do que o melhor resultado europeu no período de 2015 a 2017. Enquanto a Alemanha teve uma demora média de 119 dias para a introdução no mercado, Portugal demorou 634 dias.
Os doentes a quem for recusado o acesso a medicamentos inovadores que provaram ser eficazes em fases precoces dos cancros poderão, em teoria, avançar com processos em tribunal contra os peritos ou contra a autoridade do medicamento.
O Conselho Nacional da Ordem dos Médicos (OM) defende que se deve “responsabilizar directamente, com casos concretos”, os peritos que “por decisões que sejam erradas” impeçam os médicos de “preservar a vida de doentes com cancro”. E apela aos médicos que registem as recusas de fármacos inovadores nos processos clínicos, validando esta proposta avançada pelo colégio da especialidade de Oncologia da OM - que em Julho enviou uma carta ao bastonário a denunciar o problema.
Foi depois de a missiva — que denunciava limitações no Serviço Nacional de Saúde (SNS) no acesso a medicamentos inovadores que podem ser usados em fases mais precoces de alguns cancros - ter sido divulgada pelo Expresso no sábado passado que o Conselho Nacional da OM marcou uma reunião extraordinária para analisar a situação. E os moldes em que se decidiu pronunciar, em comunicado esta terça-feira divulgado, são muito duros: negar o acesso de doentes oncológicos a medicamentos “com efeito comprovado” na redução de risco de voltarem a ter cancro ou de aumento da probabilidade de sobrevivência “constitui uma situação muito grave”, ainda mais quando a terapêutica “está livremente disponível para uso no sector privado e social”.
Em causa estarão vários medicamentos para o tratamento de cancros do pulmão, próstata, mama e melanoma, segundo o semanário. São fármacos que já estão a ser usados em casos de cancro metastizado (espalhado por outros órgãos) e que terão mostrado eficácia na redução do risco de ressurgimento da doença e no aumento de sobrevivência, quando usados em fases mais precoces.
No comunicado, o Conselho Nacional afirma ter decidido “recomendar fortemente a todos os médicos” que expliquem aos doentes as melhores opções de tratamentos e a existência de limitações que possam estar ser impostas. Mas vai mais longe e recomenda que os médicos activem “de imediato” o Gabinete de Apoio ao Acesso a Inovação Terapêutica e Tecnológica da OM para “reclamar caso a caso” o acesso aos tratamentos - que já foram validados cientificamente e pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês).
São várias as barreiras no acesso elencadas pela OM: além das comissões de farmácia e terapêutica hospitalares — “que em diversos casos retêm os pedidos de Autorização Excepcional demasiado tempo” —, os membros da Comissão de Avaliação de Tecnologias da Saúde (CATS) do Infarmed e “outros ‘peritos’ desta entidade reguladora “muitas vezes não [são] especialistas na área em questão”. Critica também a direcção da Autoridade Nacional do Medicamento, “que tem colocado obstáculos à implementação de Programas de Acesso Precoce [PAP] e tem demorado tempo excessivo no processo de avaliação custo-efectividade”.
“Os obstáculos colocados pelas barreiras referidas e as decisões negativas ou empatadas” têm “colocado vários doentes em risco de vida e ‘obrigado’ vários médicos oncologistas a delinearem planos de cuidados diversos dos esperados pelas leges artis como plano de actuação contingente”, sustentam os responsáveis da OM, que pedem ao Ministério da Saúde e ao Infarmed que resolvam “de forma definitiva” este tipo de situações.
O presidente do Infarmed, Rui Ivo, já respondeu, sublinhando que se tratam de casos de medicamentos que ainda estão em avaliação. Frisou ainda que as autorizações de utilização excepcional são decididas com base no parecer de peritos médicos, muitos deles oncologistas de hospitais do SNS, incluindo dos institutos de oncologia, com base em critérios técnicos e clínicos, ficando de parte as questões de financiamento.
"Perda de chance"
O registo no processo clínico dos doentes das recusas de disponibilização de medicamentos inovadores pode ser um trunfo importante, uma vez que habilita o doente ou os seus familiares a processar os responsáveis pelas recusas. Há uma figura que é a da “perda de chance”, lembra, a propósito, o director do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, José Dinis, que, apesar de ter uma posição “neutra”, se mostra preocupado com a situação. Existe nestes casos uma “clara perda de oportunidade”, corrobora o presidente do colégio da especialidade de oncologia da Ordem dos Médicos, Luís Costa. Em 2015, um tribunal português invocou pela primeira vez a “perda de chance” de sobrevivência de um doente para condenar um hospital privado a pagar uma indemnização por negligência médica.
Luís Costa frisa que o colégio de oncologia, que é composto por médicos dos três IPO e dos maiores hospitais do país, aprovou de forma unânime o teor da carta, em que se denunciam as limitações de acesso a medicamentos inovadores que permitem combater vários cancros, porque os peritos da CATS consideram que na fase inicial da doença não há “risco imediato de vida”, mas apenas “risco de vida”. Alguns destes tratamentos são autorizados apenas quando já há metástases.
“Não tomamos esta decisão de ânimo leve e não está aqui em causa apenas uma patologia, um produto ou uma companhia [farmacêutica]”, enfatizou Luís Costa ao PÚBLICO. “A oncologia sempre viveu da possibilidade de fazer tratamentos numa fase precoce para evitar metastizações”, disse, sublinhando que os benefícios dos medicamentos em causa não são marginais, ao contrário do que afirmam alguns especialistas. O risco relativo de reaparecimento nos casos de melanoma com uma mutação específica é reduzido em 40%, exemplificou.
“Este problema é recorrente e é preciso repensar a forma de funcionamento do Infarmed nestes casos”, defende também o presidente do Conselho Regional do Norte da OM, António Araújo. O Infarmed “está a obstaculizar imenso e a não deixar registar doentes nos PAP - em que tratamentos inovadores são disponibilizados de forma gratuita durante algum tempo pela indústria farmacêutica. Porquê? Porque estes permitem a criação de grupos de doentes que vão necessitar dos medicamentos depois do fim de programa e aí é o SNS que paga, explica.
Quanto às autorizações excepcionais, a avaliação muitas vezes não é feita por peritos da área da especialidade em causa, critica, sublinhando que o “mais iníquo é que a ADSE até agora financiava todos, desde que aprovados pela EMA”. Nos hospitais privados, estes também são disponibilizados, mas por vezes o plafond dos seguros é esgotado.
Para se ter uma ideia dos valores em questão, a quimioterapia do cancro de pulmão custa num dia standard 500 a 600 euros. Já os tratamentos de primeira geração dirigidos a alvos custam entre mil a 1500 euros por mês, enquanto os de terceira geração ascendem a entre cinco mil a 5500 euros por mês. Mas há protocolos com imunoterapia que podem chegar aos 13 mil euros por mês.
A OM recorda que no último relatório de Primavera do Observatório dos Sistemas de Saúde os especialistas destacam que o tempo para acesso à inovação terapêutica em geral (não apenas a medicamentos oncológicos) em Portugal é cinco vezes mais longo do que o melhor resultado europeu no período de 2015 a 2017. Enquanto a Alemanha teve uma demora média de 119 dias para a introdução no mercado, Portugal demorou 634 dias.
21.1.19
Robôs vão ajudar idosos a tomar os medicamentos
Sandra Borges, in JN
Investigadores da UTAD estão a testar protótipos que auxiliam a população sénior a cumprir tarefas do dia-a-dia.
"Dona Adelaide, está na hora de tomar o seu medicamento". É assim que um pequeno robô avisa Adelaide Dias, 88 anos, para que cumpra a sua obrigação diária. Programado por investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), este "amigo interativo" é capaz de identificar a embalagem correta, colocar o medicamento num cesto e levá-lo até ao idoso, à hora estipulada.
Adelaide Dias vive no Lar do Centro Social e Paroquial de Santo António, em Vila Real, onde tem quem lhe dê os comprimidos que deve tomar, mas admitiu que "se vivesse sozinha ia ser muito útil". O protótipo que apoia o idoso na toma da medicação diária está a ser desenvolvido através de um projeto da UTAD, que pretende estudar a interação entre robôs e idosos em tarefas do dia a dia. "O robô possui uma base de dados com a informação da medicação prescrita e os respetivos horários de toma.
Investigadores da UTAD estão a testar protótipos que auxiliam a população sénior a cumprir tarefas do dia-a-dia.
"Dona Adelaide, está na hora de tomar o seu medicamento". É assim que um pequeno robô avisa Adelaide Dias, 88 anos, para que cumpra a sua obrigação diária. Programado por investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), este "amigo interativo" é capaz de identificar a embalagem correta, colocar o medicamento num cesto e levá-lo até ao idoso, à hora estipulada.
Adelaide Dias vive no Lar do Centro Social e Paroquial de Santo António, em Vila Real, onde tem quem lhe dê os comprimidos que deve tomar, mas admitiu que "se vivesse sozinha ia ser muito útil". O protótipo que apoia o idoso na toma da medicação diária está a ser desenvolvido através de um projeto da UTAD, que pretende estudar a interação entre robôs e idosos em tarefas do dia a dia. "O robô possui uma base de dados com a informação da medicação prescrita e os respetivos horários de toma.
14.11.18
Seis mil portugueses carenciados têm medicamentos grátis
Eduardo Pinto, in Diário de Notícias
Associação Dignitude e o executivo da Câmara de Alijó assinaram protocolo
São já 100 os concelhos portugueses nos quais cerca de seis mil pessoas carenciadas podem ter comparticipação total na aquisição de medicamentos prescritos pelo médico. Os dois últimos municípios a celebrarem um acordo com a Associação Dignitude, esta semana, foram os de Torre de Moncorvo e Alijó.
Esta ajuda é garantida por parcerias entre a Associação Dignitude, através do programa Abem (Rede Solidária do Medicamento), câmaras, juntas de freguesia e instituições particulares de solidariedade social.
Entre os cerca de seis mil beneficiários de todo o país, divididos por mais de três mil famílias, 75% são idosos e o resto são crianças e jovens até aos 18 anos. Já foram comparticipadas mais de 120 mil embalagens de medicamentos.
Francisco Faria, presidente da Dignitude e vice-presidente da Associação Nacional das Farmácias, diz que que se trata de um "patamar notável e importantíssimo", que "diz bem do trajeto que tem vindo a ser feito" pelo programa que está no terreno há três anos. Explicou que os beneficiários têm acesso a "todos os medicamentos prescritos e comparticipados de forma completamente gratuita nas 540 farmácias aderentes".
De acordo com o responsável, "um em cada cinco portugueses não tem possibilidade para adquirir os medicamentos que mais precisa". Lembra que "o pior momento foi o da crise económica", na primeira metade desta década, e que com os protocolos entre a Dignitude e as autarquias e outros parceiros se tenta "minimizar o impacto que crise teve e continua a ter". Ao mesmo tempo, este projeto garante o anonimato dos beneficiários. "O estigma de carência das pessoas não pode acompanhar os beneficiários", salienta.
As entidades parceiras comparticipam financeiramente o programa Abem, enquanto toda a operação logística fica a cargo da Associação Nacional de Farmácias, Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica, Cáritas Portuguesa e Plataforma Saúde em Diálogo. Os restantes apoios são concedidos através de um fundo para o qual contribuem as entidades parceiras e ainda iniciativas como campanhas de doações.
Os dois últimos municípios a celebrarem um acordo com a Dignitude, esta semana, foram os de Torre de Moncorvo e Alijó. Segundo o presidente alijoense, José Paredes, o programa arranca no seu concelho em janeiro de 2019 para "atingir, numa primeira fase, 500 pessoas carenciadas". No entanto, prevê que este número possa pecar por defeito. José Paredes não disse quanto a Câmara vai investir, por "não achar relevante", mas julga que será um "ótimo investimento na qualidade de vida e na saúde das pessoas".
Para além de Alijó e Torre de Moncorvo, em Trás-os-Montes e Alto Douro também já é parceira, a Câmara de Carrazeda de Ansiães e está no bom caminho um acordo idêntico com a de Mirandela.
Associação Dignitude e o executivo da Câmara de Alijó assinaram protocolo
São já 100 os concelhos portugueses nos quais cerca de seis mil pessoas carenciadas podem ter comparticipação total na aquisição de medicamentos prescritos pelo médico. Os dois últimos municípios a celebrarem um acordo com a Associação Dignitude, esta semana, foram os de Torre de Moncorvo e Alijó.
Esta ajuda é garantida por parcerias entre a Associação Dignitude, através do programa Abem (Rede Solidária do Medicamento), câmaras, juntas de freguesia e instituições particulares de solidariedade social.
Entre os cerca de seis mil beneficiários de todo o país, divididos por mais de três mil famílias, 75% são idosos e o resto são crianças e jovens até aos 18 anos. Já foram comparticipadas mais de 120 mil embalagens de medicamentos.
Francisco Faria, presidente da Dignitude e vice-presidente da Associação Nacional das Farmácias, diz que que se trata de um "patamar notável e importantíssimo", que "diz bem do trajeto que tem vindo a ser feito" pelo programa que está no terreno há três anos. Explicou que os beneficiários têm acesso a "todos os medicamentos prescritos e comparticipados de forma completamente gratuita nas 540 farmácias aderentes".
De acordo com o responsável, "um em cada cinco portugueses não tem possibilidade para adquirir os medicamentos que mais precisa". Lembra que "o pior momento foi o da crise económica", na primeira metade desta década, e que com os protocolos entre a Dignitude e as autarquias e outros parceiros se tenta "minimizar o impacto que crise teve e continua a ter". Ao mesmo tempo, este projeto garante o anonimato dos beneficiários. "O estigma de carência das pessoas não pode acompanhar os beneficiários", salienta.
As entidades parceiras comparticipam financeiramente o programa Abem, enquanto toda a operação logística fica a cargo da Associação Nacional de Farmácias, Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica, Cáritas Portuguesa e Plataforma Saúde em Diálogo. Os restantes apoios são concedidos através de um fundo para o qual contribuem as entidades parceiras e ainda iniciativas como campanhas de doações.
Os dois últimos municípios a celebrarem um acordo com a Dignitude, esta semana, foram os de Torre de Moncorvo e Alijó. Segundo o presidente alijoense, José Paredes, o programa arranca no seu concelho em janeiro de 2019 para "atingir, numa primeira fase, 500 pessoas carenciadas". No entanto, prevê que este número possa pecar por defeito. José Paredes não disse quanto a Câmara vai investir, por "não achar relevante", mas julga que será um "ótimo investimento na qualidade de vida e na saúde das pessoas".
Para além de Alijó e Torre de Moncorvo, em Trás-os-Montes e Alto Douro também já é parceira, a Câmara de Carrazeda de Ansiães e está no bom caminho um acordo idêntico com a de Mirandela.
9.3.18
Onze por cento dos portugueses não compraram medicamentos por falta de dinheiro
in Público on-line
O valor baixou em relação a 2016, ano em que 12% dos inquiridos admitiram sofrer com o mesmo problema.
Segundo um estudo elaborado pela escola de gestão de informação da Universidade Nova de Lisboa (NOVA IMS), que vai ser apresentado esta terça-feira, 10,8% dos portugueses optaram por não comprar algum medicamento prescrito por um médico devido ao custo dos fármacos, um valor que em 2016 tinha chegado aos 11,8%. De acordo com este trabalho, que é elaborado pela NOVA IMS, da Universidade Nova de Lisboa, a percentagem de doentes que deixaram de comprar medicamentos por causa do preço tem vindo sempre a baixar, passando dos 15,7% no primeiro ano de elaboração do estudo (2014) para os 14,2% em 2015.
Este estudo, que envolveu um inquérito com 500 entrevistas num universo de mais de 8,6 milhões de pessoas e cujos resultados foram extrapolados segundo uma pós-estratificação que tem por base as variáveis género e classe etária, mostrou ainda que subiu de 86,7 para 89,1 a percentagem de pessoas que tomaram no último ano medicamentos prescritos pelo médico. Destes doentes, em mais de metade dos casos (59,5%) algum destes fármacos fazem parte de uma terapêutica prolongada ou regular (para tratamento de uma doença crónica), um valor inferior aos 65,3 registados no ano de 2016, acrescenta o documento.
Sobre o seu estado de saúde, quase metade dos portugueses (45%) considera que afecta as tarefas diárias, percentagem ligeiramente inferior aos que consideram que o estado de saúde lhes provoca dor ou mau estar (47%) e aos que responderam que afecta negativamente a sua qualidade de vida (48%).
O estudo revela ainda que, apesar de na óptica dos portugueses a qualidade dos serviços ter diminuído ligeiramente no ano passado (66.7 pontos, menos 1,6 do que em 2016), a qualidade técnica efectiva do SNS – que usou 13 indicadores validados e ponderados por um grupo de peritos – subiu substancialmente, alcançando os 73.8 pontos (mais 5,3 dos que no ano anterior). Alguns dos indicadores utilizados para medir a qualidade técnica são a sépsis pós-operatória, a mortalidade por AVC (Acidente Vascular Cerebral) – hemorrágico ou isquémico –, o reinternamento em 30 dias e as cirurgias em ambulatório. Foi o cruzamento desta informação com a actividade, a despesa e o défice do Serviço Nacional de Saúde que permitiu calcular o índice de sustentabilidade da saúde, que progrediu dos 102.2 para os 103.0 pontos.
Dificuldades de deslocação aos hospitais
A análise mostra também que os portugueses faltam a muitas consultas nos hospitais públicos por razões económicas. Os investigadores fizeram a análise do impacto dos custos de transporte no acesso aos cuidados de saúde e verificaram que, no que se refere às consultas externas (hospitais), este impacto é quase o dobro do dos custos das taxas moderadoras. Segundo o estudo, ficaram por realizar 539.824 consultas externas/especialidade nos hospitais públicos devido aos custos de deslocação e 254.568 por causa do preço das taxas moderadoras. Já os dois motivos em conjunto (valor das taxas e custo da deslocação) fizeram com que não se realizassem 260.905 consultas externas nos hospitais, o que faz ascender a um milhão o número de consultas por realizar por todos estes motivos.
"As consultas, os exames e os episódios de urgência perdidos por via do valor das taxas moderadoras tem vindo a diminuir, o que é extremamente positivo e mostra que as questões relacionadas com o preço da utilização do sistema têm vindo a ser cada vez menos relevantes", sublinha o coordenador principal do estudo, em declarações à Lusa. Pedro Simões Coelho considerou ainda "muito importante" esta vertente do custo dos transportes e frisou: "Esta não é uma realidade intrínseca ao sistema, mas tem de ser considerada pois há determinadas franjas da população para as quais estes custos da deslocação devem merecer uma particular atenção."
No que se refere às consultas com um médico de clínica geral ou com o médico de família num centro de saúde, o peso do custo dos transportes nas consultas por realizar (253.318) é menor do que o das consultas nos hospitais. Nos centros de saúde, o motivo que levou à não realização de um maior número de consultas (439.997) foi o custo das taxas moderadoras. O estudo indica ainda que cerca de 13,5% dos inquiridos admitiram não ter recorrido às urgências devido ao custo das taxas moderadoras, resultando em 908.631 episódios de urgência por concretizar.
Quanto custa uma consulta?
Outra conclusão do estudo é que apesar de os portugueses continuarem a considerar os preços das taxas moderadoras adequados, mantêm uma percepção errada dos valores, uma vez que, nalguns casos, estimam custos acima dos reais.
De acordo com este trabalho, há uma diferença entre o valor que os portugueses julgam que custa (11,32 euros) e o que realmente custa (7 euros) a taxa moderadora para uma consulta externa/especialidade num hospital público.
"Quando analisamos a importância da taxa moderadora no acesso ao sistema faz sentido perceber se as pessoas sabem quanto custa e se os valores se aproximam da realidade, para perceber se vale a pena actuar sob o ponto de vista da comunicação", explica Pedro Simões Coelho. "O que estimamos é que ao nível das consultas de cuidados primários em centros de saúde e dos episódios urgência as pessoas têm noção exacta do preço (...). Agora, é uma percentagem pequena, mas ainda assim há 10% que acham que existe taxa moderadora para o internamento, que não existe, o que mostra que há um desalinhamento relativamente à realidade."
O valor baixou em relação a 2016, ano em que 12% dos inquiridos admitiram sofrer com o mesmo problema.
Segundo um estudo elaborado pela escola de gestão de informação da Universidade Nova de Lisboa (NOVA IMS), que vai ser apresentado esta terça-feira, 10,8% dos portugueses optaram por não comprar algum medicamento prescrito por um médico devido ao custo dos fármacos, um valor que em 2016 tinha chegado aos 11,8%. De acordo com este trabalho, que é elaborado pela NOVA IMS, da Universidade Nova de Lisboa, a percentagem de doentes que deixaram de comprar medicamentos por causa do preço tem vindo sempre a baixar, passando dos 15,7% no primeiro ano de elaboração do estudo (2014) para os 14,2% em 2015.
Este estudo, que envolveu um inquérito com 500 entrevistas num universo de mais de 8,6 milhões de pessoas e cujos resultados foram extrapolados segundo uma pós-estratificação que tem por base as variáveis género e classe etária, mostrou ainda que subiu de 86,7 para 89,1 a percentagem de pessoas que tomaram no último ano medicamentos prescritos pelo médico. Destes doentes, em mais de metade dos casos (59,5%) algum destes fármacos fazem parte de uma terapêutica prolongada ou regular (para tratamento de uma doença crónica), um valor inferior aos 65,3 registados no ano de 2016, acrescenta o documento.
Sobre o seu estado de saúde, quase metade dos portugueses (45%) considera que afecta as tarefas diárias, percentagem ligeiramente inferior aos que consideram que o estado de saúde lhes provoca dor ou mau estar (47%) e aos que responderam que afecta negativamente a sua qualidade de vida (48%).
O estudo revela ainda que, apesar de na óptica dos portugueses a qualidade dos serviços ter diminuído ligeiramente no ano passado (66.7 pontos, menos 1,6 do que em 2016), a qualidade técnica efectiva do SNS – que usou 13 indicadores validados e ponderados por um grupo de peritos – subiu substancialmente, alcançando os 73.8 pontos (mais 5,3 dos que no ano anterior). Alguns dos indicadores utilizados para medir a qualidade técnica são a sépsis pós-operatória, a mortalidade por AVC (Acidente Vascular Cerebral) – hemorrágico ou isquémico –, o reinternamento em 30 dias e as cirurgias em ambulatório. Foi o cruzamento desta informação com a actividade, a despesa e o défice do Serviço Nacional de Saúde que permitiu calcular o índice de sustentabilidade da saúde, que progrediu dos 102.2 para os 103.0 pontos.
Dificuldades de deslocação aos hospitais
A análise mostra também que os portugueses faltam a muitas consultas nos hospitais públicos por razões económicas. Os investigadores fizeram a análise do impacto dos custos de transporte no acesso aos cuidados de saúde e verificaram que, no que se refere às consultas externas (hospitais), este impacto é quase o dobro do dos custos das taxas moderadoras. Segundo o estudo, ficaram por realizar 539.824 consultas externas/especialidade nos hospitais públicos devido aos custos de deslocação e 254.568 por causa do preço das taxas moderadoras. Já os dois motivos em conjunto (valor das taxas e custo da deslocação) fizeram com que não se realizassem 260.905 consultas externas nos hospitais, o que faz ascender a um milhão o número de consultas por realizar por todos estes motivos.
"As consultas, os exames e os episódios de urgência perdidos por via do valor das taxas moderadoras tem vindo a diminuir, o que é extremamente positivo e mostra que as questões relacionadas com o preço da utilização do sistema têm vindo a ser cada vez menos relevantes", sublinha o coordenador principal do estudo, em declarações à Lusa. Pedro Simões Coelho considerou ainda "muito importante" esta vertente do custo dos transportes e frisou: "Esta não é uma realidade intrínseca ao sistema, mas tem de ser considerada pois há determinadas franjas da população para as quais estes custos da deslocação devem merecer uma particular atenção."
No que se refere às consultas com um médico de clínica geral ou com o médico de família num centro de saúde, o peso do custo dos transportes nas consultas por realizar (253.318) é menor do que o das consultas nos hospitais. Nos centros de saúde, o motivo que levou à não realização de um maior número de consultas (439.997) foi o custo das taxas moderadoras. O estudo indica ainda que cerca de 13,5% dos inquiridos admitiram não ter recorrido às urgências devido ao custo das taxas moderadoras, resultando em 908.631 episódios de urgência por concretizar.
Quanto custa uma consulta?
Outra conclusão do estudo é que apesar de os portugueses continuarem a considerar os preços das taxas moderadoras adequados, mantêm uma percepção errada dos valores, uma vez que, nalguns casos, estimam custos acima dos reais.
De acordo com este trabalho, há uma diferença entre o valor que os portugueses julgam que custa (11,32 euros) e o que realmente custa (7 euros) a taxa moderadora para uma consulta externa/especialidade num hospital público.
"Quando analisamos a importância da taxa moderadora no acesso ao sistema faz sentido perceber se as pessoas sabem quanto custa e se os valores se aproximam da realidade, para perceber se vale a pena actuar sob o ponto de vista da comunicação", explica Pedro Simões Coelho. "O que estimamos é que ao nível das consultas de cuidados primários em centros de saúde e dos episódios urgência as pessoas têm noção exacta do preço (...). Agora, é uma percentagem pequena, mas ainda assim há 10% que acham que existe taxa moderadora para o internamento, que não existe, o que mostra que há um desalinhamento relativamente à realidade."
2.8.17
Idosos com mais de cinco medicamentos devem ter justificação
in Diário das Beiras
Médicos devem sinalizar e justificar obrigatoriamente estes casos
Os médicos devem sinalizar e justificar obrigatoriamente os casos de idosos que tomam mais do que cinco medicamentos, uma medida defendida na Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável. O documento, que vai ser colocado a partir desta terça-feira em consulta pública, traça várias medidas para desenvolver políticas que melhorem a qualidade de vida das pessoas idosas. Uma das ações defendidas é a definição de uma “estratégia de combate à polimedicação de justificação obrigatória para mais de cinco medicamentos”. Segundo Pereira Miguel, coordenador do grupo de trabalho interministerial para a Estratégia do Envelhecimento Ativo e Saudável, a ideia não é estabelecer um limite para a prescrição ou toma de medicamentos, nem sobrecarregar os médicos com trabalho burocrático. “Não estamos a dizer qual é a solução a aplicar. Não é uma solução fechada. Mas pretende-se criar um mecanismo que faça um alerta” para a toma de mais de cinco medicamentos, disse à agência Lusa, lembrando que “os medicamentos têm interações entre eles”. Pereira Miguel refere que os profissionais de saúde devem estar alerta para a polimedicação, apercebendo-se de que medicamentos outros especialistas prescreveram aos seus doentes.
Programa de vigilância da saúde das pessoas idosas A Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável propõe ainda que sejam criadas uma espécie de “bandeiras vermelhas” para sinalizar idosos com necessidade especial de acompanhamento, como pessoas que recorrem mais às urgências ou que faltam sistematicamente a consultas ou até com sinais de negligência, num programa de vigilância da saúde das pessoas idosas. Esta medida extravasa a área da saúde e devia envolver as autarquias, a PSP, a GNR, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, entre outras entidades. O documento que esta terça-feira é colocado em consulta pública defende ainda a criação de um programa de vigilância da saúde das pessoas idosas.
Neste programa deve ser fomentada a realização de avaliações regulares “com vista à deteção precoce de défices funcionais, défices psíquicos ou doenças crónicas a partir dos 50 anos” e tendo em conta as necessidades particulares de homens e mulheres. No caso de doentes com várias patologias (comorbilidades) sugere-se a adoção de um plano individual de cuidados, um instrumento de intervenção integrada nos diferentes níveis de cuidados. A Estratégia para o Envelhecimento Ativo e Saudável define medidas que envolvem vários setores, da Saúde à Educação e passando pela Solidariedade e Segurança Social. Por isso, Pereira Miguel propõe a criação de uma comissão interministerial que acompanhe e monitorize o que se vai realizando e implementando.
Médicos devem sinalizar e justificar obrigatoriamente estes casos
Os médicos devem sinalizar e justificar obrigatoriamente os casos de idosos que tomam mais do que cinco medicamentos, uma medida defendida na Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável. O documento, que vai ser colocado a partir desta terça-feira em consulta pública, traça várias medidas para desenvolver políticas que melhorem a qualidade de vida das pessoas idosas. Uma das ações defendidas é a definição de uma “estratégia de combate à polimedicação de justificação obrigatória para mais de cinco medicamentos”. Segundo Pereira Miguel, coordenador do grupo de trabalho interministerial para a Estratégia do Envelhecimento Ativo e Saudável, a ideia não é estabelecer um limite para a prescrição ou toma de medicamentos, nem sobrecarregar os médicos com trabalho burocrático. “Não estamos a dizer qual é a solução a aplicar. Não é uma solução fechada. Mas pretende-se criar um mecanismo que faça um alerta” para a toma de mais de cinco medicamentos, disse à agência Lusa, lembrando que “os medicamentos têm interações entre eles”. Pereira Miguel refere que os profissionais de saúde devem estar alerta para a polimedicação, apercebendo-se de que medicamentos outros especialistas prescreveram aos seus doentes.
Programa de vigilância da saúde das pessoas idosas A Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável propõe ainda que sejam criadas uma espécie de “bandeiras vermelhas” para sinalizar idosos com necessidade especial de acompanhamento, como pessoas que recorrem mais às urgências ou que faltam sistematicamente a consultas ou até com sinais de negligência, num programa de vigilância da saúde das pessoas idosas. Esta medida extravasa a área da saúde e devia envolver as autarquias, a PSP, a GNR, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, entre outras entidades. O documento que esta terça-feira é colocado em consulta pública defende ainda a criação de um programa de vigilância da saúde das pessoas idosas.
Neste programa deve ser fomentada a realização de avaliações regulares “com vista à deteção precoce de défices funcionais, défices psíquicos ou doenças crónicas a partir dos 50 anos” e tendo em conta as necessidades particulares de homens e mulheres. No caso de doentes com várias patologias (comorbilidades) sugere-se a adoção de um plano individual de cuidados, um instrumento de intervenção integrada nos diferentes níveis de cuidados. A Estratégia para o Envelhecimento Ativo e Saudável define medidas que envolvem vários setores, da Saúde à Educação e passando pela Solidariedade e Segurança Social. Por isso, Pereira Miguel propõe a criação de uma comissão interministerial que acompanhe e monitorize o que se vai realizando e implementando.
25.1.17
Défice de atenção e perturbações do comportamento na escola e em casa: medicar ou não medicar?
Pedro Cabral, in Público on-line
É uma questão tão difícil de responder como a da pertinência de um antibiótico numa infecção. Há toda uma série de perguntas que precisam de ser respondidas primeiro.
Uma questão recorrentemente levantada por educadores, professores, pais, familiares e técnicos tem que ver com o uso de medicação em casos de "hiperactividade", quebra de rendimento escolar, modificações de humor e alterações do comportamento.
Toda a gente foi construindo alguma opinião a este respeito, informada por familiares, técnicos e, sobretudo, pela Internet. O ruído à volta deste tipo de questão pode ser particularmente alto, importando dados que muitas vezes não foram comprovados ou que já há muito foram desmentidos.
E não são só os leigos nestas matérias que podem ter opiniões baseadas em factos erróneos. Há cerca de um ano, quando a questão do excesso destas medicações dispensadas no nosso país foi levantada, alguém com responsabilidades nesta área descreveu o efeito "calmante" como o objectivo procurado pela medicação... estimulante!
Uma situação assim complexa não pode ser abordada de forma simples, e não se pode confundir sintomas, conjuntos de sintomas, perturbações e patologias.
O erro de medicar pelas consequências, ignorando as causas
Uma criança que não pára quieta na sala de aula pode ter tudo e não ter nada. Se se mexe mais do que o esperado para a sua idade, pode ser que nunca tenha tido ninguém que lhe chamasse a atenção, pode sentir que não consegue acompanhar os conteúdos, pode estar preocupada com questões mais urgentes para ela, reais ou imaginadas (ser vítima de bullying no recreio, reconhecer risco de doença ou de separação dos pais, por exemplo). Ou pode simplesmente estar distraída, "ausente", mas sossegada... A importância dos factores genéticos veio claramente a ser reconhecida. Portanto, num contexto de predisposição "hereditária", que por si só pode perfeitamente não constituir um entrave ao aproveitamento/comportamento académico, um imenso conjunto de circunstâncias, em casa e na escola, pode fazer "emergir" o comportamento desatento, irrequieto, com o seu cortejo de consequências...
Nestas alturas pode pôr-se o problema de medicar ou não medicar, conforme sugestão de familiares ou professores... É uma questão tão difícil de responder como a da pertinência de um antibiótico numa infecção. Há toda uma série de perguntas que precisam de ser respondidas primeiro (se é viral, se é bacteriana, se o organismo consegue vencê-la por si, se há risco de se eternizar, de alergia, etc., etc.). Com a desatenção é o mesmo. Que tendência "distráctil" existe e há quanto tempo, que factores recentes podem tê-la feito aparecer agora, que relação com as suas capacidades escolares numa ou noutra área (por exemplo, a dificuldade de concentração pode ser muito mais difícil na leitura do que no cálculo).
Crianças que interrompem os adultos constantemente, que só após "negociação" é que cumprem as tarefas de todos os dias estão na primeira linha para exibirem estas dificuldades comportamentais, de serem rotuladas de hiperactivas e de serem medicadas em consulta.
Uma situação que aparece muito na consulta, sobretudo no início da escolaridade obrigatória, é a da criança que não consegue ficar quieta na sala de aula, que interrompe a professora, que se levanta e que se recusa a fazer os trabalhos na sala. Que amua ou se afasta das outras no recreio quando não fazem as coisas como ela gosta. Isto apesar da sua simpatia e das suas reconhecidas capacidades para aprender. Também na natação, ou em casa dos avós, pode haver este tipo de queixas. Um olhar para este conjunto de manifestações será fundamental para perceber se se inscreve nos critérios habituais da chamada "PHDA" (...) ou se, pelo contrário, se trata de um padrão enraizado de comportamento em casa e de interacção com os adultos e os pares. Crianças que interrompem os adultos constantemente, que se habituaram desde sempre a só fazer as coisas com repetidos pedidos e explicações dos pais, que só após "negociação" é que cumprem as tarefas de todos os dias estão na primeira linha para exibirem estas dificuldades comportamentais, de serem rotuladas de hiperactivas e de serem medicadas em consulta.
As consequências de medicar, ignorando as causas
E ficam todos contentes, os professores, porque gostam deles sossegados; os pais, porque acabam as queixas; os médicos, porque a medicação resulta. Até talvez as crianças, porque reconhecem que precisam das "vitaminas" para terem boas notas. Ficam duas questões por esclarecer. A primeira é que, mesmo podendo haver uma tendência significativa na sua dificuldade de concentração, na sua facilidade em se distrair, passível de ser melhorada pela medicação, deixam de ser pensados e prevenidos todos os outros factores que podem estar na base da actual dificuldade ou estar a agravar esta sua tendência genética. Portanto, inquietações, alterações do sono, depressão, desadequação por dificuldades específicas de aprendizagem, reconhecimento de regras, etc., tudo é varrido para debaixo do tapete. A segunda tem que ver com o facto de se poder manter um padrão de irresponsabilidade do próprio, no respeito pelos outros e na necessidade de lutar pelos seus objectivos, os escolares sobretudo. A prazo, a medicação, só por si, não vai ajudar a resolver esta dependência de terceiros. A imaturidade veio para ficar.
Podemos estar a enganarmo-nos todos, pais, professores e técnicos, quando o objectivo é 'tratar' a chamada 'hiperactividade' em vez da desatenção
A medicação não é uma droga, não provoca habituação, dependência ou tolerância, e os seus efeitos secundários, tão falados na Net, são de facto menores quando comparados com a sua capacidade, que é real, de ajudar a concentrar. Podemos é estar a enganarmo-nos todos, pais, professores e técnicos, quando o objectivo é "tratar" a chamada "hiperactividade" em vez da desatenção. Enganamo-nos todos sobretudo quando são ignorados ou esquecidos os tais factores que podem estar na base, ou contribuir para agravar a desadequação escolar.
O melhor do Público no email
Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público.
Subscrever
×
Porque neste ignorar das causas, que a medicação pode permitir, corremos o risco sério de adiar a construção da responsabilidade, pelo próprio, na gestão das suas tarefas e objectivos. Quando a tal hiperactividade tiver desaparecido, com o tempo, podemos encontrar um jovem "imaturo" porque desatento, incapaz de trabalhar sozinho ou sem ser pressionado, indiferente aos resultados, esperando que as coisas se resolvam com o tempo. Medicar ou não? A questão não pode ser essa.
(*) Neurologista pediátrico. CADIn – neurodesenvolvimento e inclusão
É uma questão tão difícil de responder como a da pertinência de um antibiótico numa infecção. Há toda uma série de perguntas que precisam de ser respondidas primeiro.
Uma questão recorrentemente levantada por educadores, professores, pais, familiares e técnicos tem que ver com o uso de medicação em casos de "hiperactividade", quebra de rendimento escolar, modificações de humor e alterações do comportamento.
Toda a gente foi construindo alguma opinião a este respeito, informada por familiares, técnicos e, sobretudo, pela Internet. O ruído à volta deste tipo de questão pode ser particularmente alto, importando dados que muitas vezes não foram comprovados ou que já há muito foram desmentidos.
E não são só os leigos nestas matérias que podem ter opiniões baseadas em factos erróneos. Há cerca de um ano, quando a questão do excesso destas medicações dispensadas no nosso país foi levantada, alguém com responsabilidades nesta área descreveu o efeito "calmante" como o objectivo procurado pela medicação... estimulante!
Uma situação assim complexa não pode ser abordada de forma simples, e não se pode confundir sintomas, conjuntos de sintomas, perturbações e patologias.
O erro de medicar pelas consequências, ignorando as causas
Uma criança que não pára quieta na sala de aula pode ter tudo e não ter nada. Se se mexe mais do que o esperado para a sua idade, pode ser que nunca tenha tido ninguém que lhe chamasse a atenção, pode sentir que não consegue acompanhar os conteúdos, pode estar preocupada com questões mais urgentes para ela, reais ou imaginadas (ser vítima de bullying no recreio, reconhecer risco de doença ou de separação dos pais, por exemplo). Ou pode simplesmente estar distraída, "ausente", mas sossegada... A importância dos factores genéticos veio claramente a ser reconhecida. Portanto, num contexto de predisposição "hereditária", que por si só pode perfeitamente não constituir um entrave ao aproveitamento/comportamento académico, um imenso conjunto de circunstâncias, em casa e na escola, pode fazer "emergir" o comportamento desatento, irrequieto, com o seu cortejo de consequências...
Nestas alturas pode pôr-se o problema de medicar ou não medicar, conforme sugestão de familiares ou professores... É uma questão tão difícil de responder como a da pertinência de um antibiótico numa infecção. Há toda uma série de perguntas que precisam de ser respondidas primeiro (se é viral, se é bacteriana, se o organismo consegue vencê-la por si, se há risco de se eternizar, de alergia, etc., etc.). Com a desatenção é o mesmo. Que tendência "distráctil" existe e há quanto tempo, que factores recentes podem tê-la feito aparecer agora, que relação com as suas capacidades escolares numa ou noutra área (por exemplo, a dificuldade de concentração pode ser muito mais difícil na leitura do que no cálculo).
Crianças que interrompem os adultos constantemente, que só após "negociação" é que cumprem as tarefas de todos os dias estão na primeira linha para exibirem estas dificuldades comportamentais, de serem rotuladas de hiperactivas e de serem medicadas em consulta.
Uma situação que aparece muito na consulta, sobretudo no início da escolaridade obrigatória, é a da criança que não consegue ficar quieta na sala de aula, que interrompe a professora, que se levanta e que se recusa a fazer os trabalhos na sala. Que amua ou se afasta das outras no recreio quando não fazem as coisas como ela gosta. Isto apesar da sua simpatia e das suas reconhecidas capacidades para aprender. Também na natação, ou em casa dos avós, pode haver este tipo de queixas. Um olhar para este conjunto de manifestações será fundamental para perceber se se inscreve nos critérios habituais da chamada "PHDA" (...) ou se, pelo contrário, se trata de um padrão enraizado de comportamento em casa e de interacção com os adultos e os pares. Crianças que interrompem os adultos constantemente, que se habituaram desde sempre a só fazer as coisas com repetidos pedidos e explicações dos pais, que só após "negociação" é que cumprem as tarefas de todos os dias estão na primeira linha para exibirem estas dificuldades comportamentais, de serem rotuladas de hiperactivas e de serem medicadas em consulta.
As consequências de medicar, ignorando as causas
E ficam todos contentes, os professores, porque gostam deles sossegados; os pais, porque acabam as queixas; os médicos, porque a medicação resulta. Até talvez as crianças, porque reconhecem que precisam das "vitaminas" para terem boas notas. Ficam duas questões por esclarecer. A primeira é que, mesmo podendo haver uma tendência significativa na sua dificuldade de concentração, na sua facilidade em se distrair, passível de ser melhorada pela medicação, deixam de ser pensados e prevenidos todos os outros factores que podem estar na base da actual dificuldade ou estar a agravar esta sua tendência genética. Portanto, inquietações, alterações do sono, depressão, desadequação por dificuldades específicas de aprendizagem, reconhecimento de regras, etc., tudo é varrido para debaixo do tapete. A segunda tem que ver com o facto de se poder manter um padrão de irresponsabilidade do próprio, no respeito pelos outros e na necessidade de lutar pelos seus objectivos, os escolares sobretudo. A prazo, a medicação, só por si, não vai ajudar a resolver esta dependência de terceiros. A imaturidade veio para ficar.
Podemos estar a enganarmo-nos todos, pais, professores e técnicos, quando o objectivo é 'tratar' a chamada 'hiperactividade' em vez da desatenção
A medicação não é uma droga, não provoca habituação, dependência ou tolerância, e os seus efeitos secundários, tão falados na Net, são de facto menores quando comparados com a sua capacidade, que é real, de ajudar a concentrar. Podemos é estar a enganarmo-nos todos, pais, professores e técnicos, quando o objectivo é "tratar" a chamada "hiperactividade" em vez da desatenção. Enganamo-nos todos sobretudo quando são ignorados ou esquecidos os tais factores que podem estar na base, ou contribuir para agravar a desadequação escolar.
O melhor do Público no email
Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público.
Subscrever
×
Porque neste ignorar das causas, que a medicação pode permitir, corremos o risco sério de adiar a construção da responsabilidade, pelo próprio, na gestão das suas tarefas e objectivos. Quando a tal hiperactividade tiver desaparecido, com o tempo, podemos encontrar um jovem "imaturo" porque desatento, incapaz de trabalhar sozinho ou sem ser pressionado, indiferente aos resultados, esperando que as coisas se resolvam com o tempo. Medicar ou não? A questão não pode ser essa.
(*) Neurologista pediátrico. CADIn – neurodesenvolvimento e inclusão
29.7.16
Mais de três mil doentes de hepatite C curados. É “a medicina da felicidade”
Alexandra Campos, in Público on-line
Portugal tem neste momento "duas das melhores coisas do mundo": o acesso generalizado aos fármacos inovadores para a hepatite C e os transplantes de fígado que chegam a 250 pessoas por ano, realça médico. Esta quinta-feira é Dia Mundial da Hepatite.
Num ano e meio, dos perto de oito mil doentes que iniciaram tratamento com medicamentos inovadores para a hepatite C em Portugal, mais de três mil estão oficialmente curados. “É a medicina da felicidade”, sintetiza Rui Tato Marinho, hepatologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia que, desde 1989, ano em que o vírus foi identificado e surgiu o teste de diagnóstico, tratou centenas de doentes, encaminhou vários para transplante de fígado, deu muitas más notícias mas agora já se habituou à sensação única de poder dizer: “Está curado”.
“Portugal tem neste momento duas das melhores coisas do mundo: toda a gente tem acesso ao tratamento, mesmo sem ter doença grave, e o transplante de fígado chega a cerca de 250 pessoas por ano”, enfatiza o médico. Entretanto, há mais medicamentos inovadores a chegar ao mercado, substâncias que prometem ser mais eficazes num período de tempo mais reduzido e que são mais baratas. Algumas poderão mesmo representar uma esperança para a estreita faixa de doentes que ainda não se cura.
Chegar a este novo paradigma não foi fácil, porém. O vocalista dos GNR, Rui Reininho, esperou quase três décadas pelos comprimidos que se revelaram “milagrosos” e esteve mesmo para desistir, depois de duas penosas tentativas para eliminar este vírus que vai destruindo o fígado e pode degenerar em cirrose e cancro. A poucos dias de fazer 60 anos, em Fevereiro do ano passado, o autor de Pronúncia do Norte começou a terapia com as substâncias inovadoras e negativou, como se diz na gíria médica. No final de 2015 foi declarado curado.
Tal como o vocalista dos GNR, são cada vez mais os doentes que em pouco tempo (12 semanas é o padrão) conseguem livrar-se do vírus. Os dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) são inequívocos: 7840 doentes tinham começado tratamento até ao início deste mês, e, dos que já o tinham finalizado, 3005 foram declarados "curados”. A taxa de cura é de 96%, sublinha o Infarmed, que se recusa a adiantar o montante da despesa com os novos fármacos.
7840 doentes estavam em tratamento em Portugal até 1 de Julho. Ao todo foram já curadas 3005 pessoas, sendo a taxa de cura de 96%
O acordo entre o Estado português e a biofarmacêutica Gilead Sciences — que comercializa o Solvadi (sofosbuvir) e o Harvoni (associação entre sofosbuvir e ledispavir) — “não contempla a divulgação dos preços praticados”, justifica. Estes dados incluem não só os tratamentos efectuados com os mediáticos comprimidos da Gilead mas também com moléculas de outros laboratórios que foram testadas em ensaios clínicos e que, por isso mesmo, não representaram despesa para o Estado.
Para a história ficam os tempos de incerteza, de espera e de ansiedade para os doentes e médicos. Em Portugal, foi necessário aguardar um ano (depois de o Infarmed aprovar o primeiro antivírico de acção directa a chegar ao mercado, o sofosbuvir, que se veio a provar curar a doença em mais de 90% dos casos) para que o Ministério da Saúde e o Infarmed assinassem um acordo então considerado revolucionário — o Estado português apenas paga pelos doentes curados. Este acordo vigora por dois anos, termina em Fevereiro de 2017 e aplica-se aos medicamentos da Gilead, mas já foi anunciado pelo actual ministro da Saúde que vai ser renegociado.
O preço inicialmente pedido, 48 mil euros por doente, foi classificado de “completamente imoral” pelo anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, e por isso as negociações foram-se arrastando. O acordo acabaria por ser assinado na semana em que um doente interpelou de forma emocionada o ministro no Parlamento, pedindo-lhe que não o deixasse morrer, e dias depois de ter sido noticiada a morte de uma mulher que aguardava pelo fármaco.
Os resultados alcançados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram sujeitos a tratamentos tão difíceis de aguentar que muitos desistiam a meio
Muitos doentes por diagnosticar
Agora, os resultados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e de doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram tratados com injecções de interferão e outras substâncias, como a ribavirina, com muitos efeitos secundários, alguns tão difíceis de aguentar que faziam com que vários pacientes desistissem a meio.
Emília Rodrigues, cujo marido foi diagnosticado com hepatite C após uma peritonite complicada em 2002, não se esquece dos terríveis efeitos secundários dos fármacos usados no passado. Em 2005, em conjunto com um doente, Lourival Neto, criou uma associação, a SOS Hepatites, para apoio dos pacientes que enfrentavam as mesmas “dificuldades, dúvidas e solidão”, descreve.
Lourival morreu em Dezembro desse ano com um cancro de fígado e, desde essa altura e até aos finais de 2011, recorda Emília, o tratamento para a hepatite C consistia na conjugação de injecções de interferão com ribavirina. A média de cura oscilava então entre 50 a 60%, mas os efeitos secundários eram difíceis de aguentar para muitos doentes. A depressão era o mais grave.
130 Um total de 130 a 150 milhões de pessoas serão portadoras crónicas de hepatite C a nível mundial. Em Portugal, haverá entre 50 mil a 100 mil infectados
Até que, no final de 2011, surgiram os chamados inibidores de protéase, que, em conjunto com o tratamento anterior, já proporcionavam entre 80 a 85% de hipótese de cura, mas com efeitos secundários também difíceis de suportar. Mesmo assim, estes fármacos só eram disponibilizados em Portugal aos doentes mais graves e após autorizações de utilização especial dadas caso a caso pelo Infarmed, recorda a presidente da SOS Hepatites.
Foi justamente a dificuldade na disponibilização destes medicamentos que começou a criar “ansiedade” entre os doentes, lembra Tato Marinho, que, ainda antes do mediático acordo com a empresa norte-americana, conseguiu, tal como outros colegas, curar dezenas de pacientes tratados em ensaios clínicos com moléculas desenvolvidas por vários laboratórios. Actualmente, aliás, são várias as empresas farmacêuticas a competir com a Gilead Sciences, pelo menos mais quatro, como a Abbvie, a Bristol-Myers Squibb, a Janssen e a Merck, elenca.
Ainda recentemente, em Maio, os cerca de mil doentes renais com hepatite C e co-infectados com VIH — que não respondiam ao tratamento padrão — passaram a ter acesso facilitado a uma combinação de fármacos da Abbvie e o Infarmed assinou um contrato com este laboratório que envolve os medicamentos Exviera e Viekirax. O pagamento passou a ser feito então através de uma linha de financiamento própria, à semelhança do que acontece com os fármacos da Gilead.
“Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”
Armando Carvalho, médico
Se a taxa de cura dos doentes se mantiver a este ritmo, é de prever que no início do próximo ano já estejam livres da infecção mais de metade dos pacientes inicialmente inscritos nos hospitais públicos — cerca de 13 mil. O grande desafio, agora, é fazer com que pessoas que estão infectadas sem o saberem — é preciso notar que a hepatite C é uma doença silenciosa, sem sintomas ao longo de muitos anos — se submetam ao teste de diagnóstico.
De resto, ninguém consegue precisar quantas pessoas estarão infectadas em Portugal e as estimativas são muito díspares, oscilando entre 50 mil, 100 mil e mesmo 150 mil pessoas no país. "O esforço tem de continuar porque ainda existem muitos doentes por diagnosticar e tratar", assinala, a propósito, Armando Carvalho, do Núcleo de Estudo das Doenças do Fígado, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.
Satisfeita com os resultados que mostram que Portugal “caminha de forma sustentada em direcção ao objectivo de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública”, Raquel Chantre, relações públicas da Gilead Sciences Portugal, não se pronuncia sobre a renegociação do acordo com o Estado português. Nem comenta o preço dos fármacos. Prefere recordar uma estimativa efectuada pelo Infarmed ainda em 2015 e que apontava para uma poupança em encargos para a saúde que "poderia chegar a 412,6 milhões de euros”, por se evitarem as complicações da hepatite C nos doentes curados, nomeadamente em transplantes hepáticos e cancro de fígado.
O problema do preço
O preço dos medicamentos da Gilead Sciences desencadeou uma enorme controvérsia. Nos EUA, o sofosbuvir até ficou conhecido como o “comprimido dos mil dólares” (era quanto custava então cada cápsula) e chegou a ser classificado por um economista como a terapêutica que estava “a levar a América à falência”.
20
mil euros será o preço acordado com a farmacêutica Gilead para tratar cada doente no país. O Infarmed continua a recusar-se a adiantar os valores do acordo
Sigiloso, o preço acordado variou de país para país, oscilando entre os mais de 80 mil dólares nos EUA e cerca de 800 euros no Egipto, o país com a maior prevalência de hepatite C em todo o mundo.
Em Portugal, o custo acordado terá sido da ordem dos 20 mil euros por doente, por um tratamento-padrão de 12 semanas (há pacientes que necessitam de mais tempo). Mas a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) continua a recusar-se a adiantar valores.
O preço já foi considerado elevado, quando se contabilizam os custos de produção, que investigadores ingleses calcularam oscilar entre 60 a 120 euros. Somando já os custos da investigação e os do marketing, deveria rondar os 300 euros, segundo outras contas de especialistas espanhóis.
O certo é que, apesar de não ter sido dos primeiros a aprovar o tratamento, Portugal é hoje um dos países em que o acesso aos fármacos inovadores é mais generalizado. “Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”, sublinha Armando Carvalho.
O que se sabe é que, em 2015, foram gastos 40 milhões de euros com o tratamento da hepatite C e, para este ano, está prevista uma despesa que ronda os 85 milhões de euros. Em Março, o actual ministro da Saúde adiantou que o acordo seria renegociado, mas nem a tutela nem a farmacêutica adiantam detalhes. O segredo é a alma do negócio.
Portugal tem neste momento "duas das melhores coisas do mundo": o acesso generalizado aos fármacos inovadores para a hepatite C e os transplantes de fígado que chegam a 250 pessoas por ano, realça médico. Esta quinta-feira é Dia Mundial da Hepatite.
Num ano e meio, dos perto de oito mil doentes que iniciaram tratamento com medicamentos inovadores para a hepatite C em Portugal, mais de três mil estão oficialmente curados. “É a medicina da felicidade”, sintetiza Rui Tato Marinho, hepatologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia que, desde 1989, ano em que o vírus foi identificado e surgiu o teste de diagnóstico, tratou centenas de doentes, encaminhou vários para transplante de fígado, deu muitas más notícias mas agora já se habituou à sensação única de poder dizer: “Está curado”.
“Portugal tem neste momento duas das melhores coisas do mundo: toda a gente tem acesso ao tratamento, mesmo sem ter doença grave, e o transplante de fígado chega a cerca de 250 pessoas por ano”, enfatiza o médico. Entretanto, há mais medicamentos inovadores a chegar ao mercado, substâncias que prometem ser mais eficazes num período de tempo mais reduzido e que são mais baratas. Algumas poderão mesmo representar uma esperança para a estreita faixa de doentes que ainda não se cura.
Chegar a este novo paradigma não foi fácil, porém. O vocalista dos GNR, Rui Reininho, esperou quase três décadas pelos comprimidos que se revelaram “milagrosos” e esteve mesmo para desistir, depois de duas penosas tentativas para eliminar este vírus que vai destruindo o fígado e pode degenerar em cirrose e cancro. A poucos dias de fazer 60 anos, em Fevereiro do ano passado, o autor de Pronúncia do Norte começou a terapia com as substâncias inovadoras e negativou, como se diz na gíria médica. No final de 2015 foi declarado curado.
Tal como o vocalista dos GNR, são cada vez mais os doentes que em pouco tempo (12 semanas é o padrão) conseguem livrar-se do vírus. Os dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) são inequívocos: 7840 doentes tinham começado tratamento até ao início deste mês, e, dos que já o tinham finalizado, 3005 foram declarados "curados”. A taxa de cura é de 96%, sublinha o Infarmed, que se recusa a adiantar o montante da despesa com os novos fármacos.
7840 doentes estavam em tratamento em Portugal até 1 de Julho. Ao todo foram já curadas 3005 pessoas, sendo a taxa de cura de 96%
O acordo entre o Estado português e a biofarmacêutica Gilead Sciences — que comercializa o Solvadi (sofosbuvir) e o Harvoni (associação entre sofosbuvir e ledispavir) — “não contempla a divulgação dos preços praticados”, justifica. Estes dados incluem não só os tratamentos efectuados com os mediáticos comprimidos da Gilead mas também com moléculas de outros laboratórios que foram testadas em ensaios clínicos e que, por isso mesmo, não representaram despesa para o Estado.
Para a história ficam os tempos de incerteza, de espera e de ansiedade para os doentes e médicos. Em Portugal, foi necessário aguardar um ano (depois de o Infarmed aprovar o primeiro antivírico de acção directa a chegar ao mercado, o sofosbuvir, que se veio a provar curar a doença em mais de 90% dos casos) para que o Ministério da Saúde e o Infarmed assinassem um acordo então considerado revolucionário — o Estado português apenas paga pelos doentes curados. Este acordo vigora por dois anos, termina em Fevereiro de 2017 e aplica-se aos medicamentos da Gilead, mas já foi anunciado pelo actual ministro da Saúde que vai ser renegociado.
O preço inicialmente pedido, 48 mil euros por doente, foi classificado de “completamente imoral” pelo anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, e por isso as negociações foram-se arrastando. O acordo acabaria por ser assinado na semana em que um doente interpelou de forma emocionada o ministro no Parlamento, pedindo-lhe que não o deixasse morrer, e dias depois de ter sido noticiada a morte de uma mulher que aguardava pelo fármaco.
Os resultados alcançados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram sujeitos a tratamentos tão difíceis de aguentar que muitos desistiam a meio
Muitos doentes por diagnosticar
Agora, os resultados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e de doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram tratados com injecções de interferão e outras substâncias, como a ribavirina, com muitos efeitos secundários, alguns tão difíceis de aguentar que faziam com que vários pacientes desistissem a meio.
Emília Rodrigues, cujo marido foi diagnosticado com hepatite C após uma peritonite complicada em 2002, não se esquece dos terríveis efeitos secundários dos fármacos usados no passado. Em 2005, em conjunto com um doente, Lourival Neto, criou uma associação, a SOS Hepatites, para apoio dos pacientes que enfrentavam as mesmas “dificuldades, dúvidas e solidão”, descreve.
Lourival morreu em Dezembro desse ano com um cancro de fígado e, desde essa altura e até aos finais de 2011, recorda Emília, o tratamento para a hepatite C consistia na conjugação de injecções de interferão com ribavirina. A média de cura oscilava então entre 50 a 60%, mas os efeitos secundários eram difíceis de aguentar para muitos doentes. A depressão era o mais grave.
130 Um total de 130 a 150 milhões de pessoas serão portadoras crónicas de hepatite C a nível mundial. Em Portugal, haverá entre 50 mil a 100 mil infectados
Até que, no final de 2011, surgiram os chamados inibidores de protéase, que, em conjunto com o tratamento anterior, já proporcionavam entre 80 a 85% de hipótese de cura, mas com efeitos secundários também difíceis de suportar. Mesmo assim, estes fármacos só eram disponibilizados em Portugal aos doentes mais graves e após autorizações de utilização especial dadas caso a caso pelo Infarmed, recorda a presidente da SOS Hepatites.
Foi justamente a dificuldade na disponibilização destes medicamentos que começou a criar “ansiedade” entre os doentes, lembra Tato Marinho, que, ainda antes do mediático acordo com a empresa norte-americana, conseguiu, tal como outros colegas, curar dezenas de pacientes tratados em ensaios clínicos com moléculas desenvolvidas por vários laboratórios. Actualmente, aliás, são várias as empresas farmacêuticas a competir com a Gilead Sciences, pelo menos mais quatro, como a Abbvie, a Bristol-Myers Squibb, a Janssen e a Merck, elenca.
Ainda recentemente, em Maio, os cerca de mil doentes renais com hepatite C e co-infectados com VIH — que não respondiam ao tratamento padrão — passaram a ter acesso facilitado a uma combinação de fármacos da Abbvie e o Infarmed assinou um contrato com este laboratório que envolve os medicamentos Exviera e Viekirax. O pagamento passou a ser feito então através de uma linha de financiamento própria, à semelhança do que acontece com os fármacos da Gilead.
“Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”
Armando Carvalho, médico
Se a taxa de cura dos doentes se mantiver a este ritmo, é de prever que no início do próximo ano já estejam livres da infecção mais de metade dos pacientes inicialmente inscritos nos hospitais públicos — cerca de 13 mil. O grande desafio, agora, é fazer com que pessoas que estão infectadas sem o saberem — é preciso notar que a hepatite C é uma doença silenciosa, sem sintomas ao longo de muitos anos — se submetam ao teste de diagnóstico.
De resto, ninguém consegue precisar quantas pessoas estarão infectadas em Portugal e as estimativas são muito díspares, oscilando entre 50 mil, 100 mil e mesmo 150 mil pessoas no país. "O esforço tem de continuar porque ainda existem muitos doentes por diagnosticar e tratar", assinala, a propósito, Armando Carvalho, do Núcleo de Estudo das Doenças do Fígado, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.
Satisfeita com os resultados que mostram que Portugal “caminha de forma sustentada em direcção ao objectivo de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública”, Raquel Chantre, relações públicas da Gilead Sciences Portugal, não se pronuncia sobre a renegociação do acordo com o Estado português. Nem comenta o preço dos fármacos. Prefere recordar uma estimativa efectuada pelo Infarmed ainda em 2015 e que apontava para uma poupança em encargos para a saúde que "poderia chegar a 412,6 milhões de euros”, por se evitarem as complicações da hepatite C nos doentes curados, nomeadamente em transplantes hepáticos e cancro de fígado.
O problema do preço
O preço dos medicamentos da Gilead Sciences desencadeou uma enorme controvérsia. Nos EUA, o sofosbuvir até ficou conhecido como o “comprimido dos mil dólares” (era quanto custava então cada cápsula) e chegou a ser classificado por um economista como a terapêutica que estava “a levar a América à falência”.
20
mil euros será o preço acordado com a farmacêutica Gilead para tratar cada doente no país. O Infarmed continua a recusar-se a adiantar os valores do acordo
Sigiloso, o preço acordado variou de país para país, oscilando entre os mais de 80 mil dólares nos EUA e cerca de 800 euros no Egipto, o país com a maior prevalência de hepatite C em todo o mundo.
Em Portugal, o custo acordado terá sido da ordem dos 20 mil euros por doente, por um tratamento-padrão de 12 semanas (há pacientes que necessitam de mais tempo). Mas a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) continua a recusar-se a adiantar valores.
O preço já foi considerado elevado, quando se contabilizam os custos de produção, que investigadores ingleses calcularam oscilar entre 60 a 120 euros. Somando já os custos da investigação e os do marketing, deveria rondar os 300 euros, segundo outras contas de especialistas espanhóis.
O certo é que, apesar de não ter sido dos primeiros a aprovar o tratamento, Portugal é hoje um dos países em que o acesso aos fármacos inovadores é mais generalizado. “Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”, sublinha Armando Carvalho.
O que se sabe é que, em 2015, foram gastos 40 milhões de euros com o tratamento da hepatite C e, para este ano, está prevista uma despesa que ronda os 85 milhões de euros. Em Março, o actual ministro da Saúde adiantou que o acordo seria renegociado, mas nem a tutela nem a farmacêutica adiantam detalhes. O segredo é a alma do negócio.
“Tratamento salvou-me a vida, foi a minha prenda dos 60 anos”
Alexandra Campos, in Público on-line
Rui Reininho, 61 anos, vocalista dos GNR, conviveu 26 anos com o vírus da hepatite C.
Habituado a viver com o vírus da hepatite C ainda antes de a infecção ter sido baptizada com o nome definitivo (“chamava-se então hepatite não-A, não-B”, lembra), o vocalista dos GNR, Rui Reininho, assume que esteve bem perto de ser mais uma das vítimas mortais da doença. Ao longo de 26 anos, foi aprendendo a viver com o vírus, obrigou-se a uma vida mais cuidada, até ao momento em que os médicos o avisaram de que estava quase no limite, na fronteira entre a vida e a morte.
Em 2014, Rui Reininho nem sequer estava na lista de espera para transplante de fígado em Portugal, apesar de ter pensado nessa hipótese, seguindo o exemplo do que tinha feito anos antes Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, que se curou sem necessidade dos novos medicamentos. O autor de Pronúncia do Norte estava a aguardar, tal como os outros doentes, pela aprovação e disponibilização dos novos antivíricos e sublinha que o homem que, no Parlamento, pediu ao ex-ministro Paulo Macedo para não o deixar morrer “foi bastante corajoso”.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu”
As novas substâncias chegaram assim para Reininho, que viu amigos e conhecidos a não resistir ao vírus enquanto esperavam, precisamente “na altura certa”. Faltavam alguns dias para completar 60 anos. “Foi a minha prenda”, brinca.
Começou a tomar os comprimidos em 9 de Fevereiro de 2015 (ele faz anos a 28 desse mês) e, na primeira análise, em Março, já tinha “negativado”. Para quem tinha ponderado antes a hipótese de fazer um transplante de fígado e chegado a equacionar a possibilidade de ir à Índia comprar os medicamentos inovadores, ficar sem sinais do vírus em apenas de um mês representou “algo de extraordinário”. “Salvou-me a vida”, remata o vocalista dos GNR que, no final de 2015, foi dado como curado.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu.” Reininho experimentou na pele a dureza do tratamento com interferão. “Era violentíssimo”, com injecções três vezes por semana, associado à ribavirina e outras variantes, durante um processo que durava “um ano e três meses”. Sentia-se “permanentemente arrasado”.
Em 2014, admite, ficou “desmoralizado” e pensou em desistir. “Estava à espera há um ano…” Nessa altura via o futuro a desintegrar-se. Estava, sintomaticamente, a compor o álbum Caixa Negra — era essa a cor com que via o mundo. “Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’”, descreve. “Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”, ironiza.
“Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco [Caixa Negra] sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’. Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”
Agora oficialmente curado, o lema do vocalista dos GNR é “nada de começar a estragar o fígado, de beber champanhe, acabou-se o bacalhau assado e os rojões”. Cortou completamente com o cloreto de sódio, com fritos, com carnes, tornou-se quase vegetariano. A dieta resultou. Se antes sentia “imensas dificuldades a nível orgânico”, agora consegue aguentar espectáculos “de hora e meia a duas horas com outra energia”. Os valores do fígado voltaram aos dos anos 1970. Ora, acontecer isto a alguém que tem 61 anos é fenomenal, até porque “os artistas não têm outras fontes de rendimento”, enfatiza.
A um ano de completar 40 anos de actividade, o vocalista afirma-se assim muito responsável e sabe que, apesar de considerado curado, tem que continuar com a vigilância e a cuidar de si. Até porque está a usufruir de uma espécie de segunda vida. “Agora tenho que ter muito cuidado a atravessar a rua…”
Rui Reininho, 61 anos, vocalista dos GNR, conviveu 26 anos com o vírus da hepatite C.
Habituado a viver com o vírus da hepatite C ainda antes de a infecção ter sido baptizada com o nome definitivo (“chamava-se então hepatite não-A, não-B”, lembra), o vocalista dos GNR, Rui Reininho, assume que esteve bem perto de ser mais uma das vítimas mortais da doença. Ao longo de 26 anos, foi aprendendo a viver com o vírus, obrigou-se a uma vida mais cuidada, até ao momento em que os médicos o avisaram de que estava quase no limite, na fronteira entre a vida e a morte.
Em 2014, Rui Reininho nem sequer estava na lista de espera para transplante de fígado em Portugal, apesar de ter pensado nessa hipótese, seguindo o exemplo do que tinha feito anos antes Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, que se curou sem necessidade dos novos medicamentos. O autor de Pronúncia do Norte estava a aguardar, tal como os outros doentes, pela aprovação e disponibilização dos novos antivíricos e sublinha que o homem que, no Parlamento, pediu ao ex-ministro Paulo Macedo para não o deixar morrer “foi bastante corajoso”.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu”
As novas substâncias chegaram assim para Reininho, que viu amigos e conhecidos a não resistir ao vírus enquanto esperavam, precisamente “na altura certa”. Faltavam alguns dias para completar 60 anos. “Foi a minha prenda”, brinca.
Começou a tomar os comprimidos em 9 de Fevereiro de 2015 (ele faz anos a 28 desse mês) e, na primeira análise, em Março, já tinha “negativado”. Para quem tinha ponderado antes a hipótese de fazer um transplante de fígado e chegado a equacionar a possibilidade de ir à Índia comprar os medicamentos inovadores, ficar sem sinais do vírus em apenas de um mês representou “algo de extraordinário”. “Salvou-me a vida”, remata o vocalista dos GNR que, no final de 2015, foi dado como curado.
“Durante anos não tive manifestações da doença, daí o perigo. Um infectado é como uma bomba-relógio… Depois, tentei tratar-me. Negativizei por duas vezes, só que, passados meses, o vírus reapareceu.” Reininho experimentou na pele a dureza do tratamento com interferão. “Era violentíssimo”, com injecções três vezes por semana, associado à ribavirina e outras variantes, durante um processo que durava “um ano e três meses”. Sentia-se “permanentemente arrasado”.
Em 2014, admite, ficou “desmoralizado” e pensou em desistir. “Estava à espera há um ano…” Nessa altura via o futuro a desintegrar-se. Estava, sintomaticamente, a compor o álbum Caixa Negra — era essa a cor com que via o mundo. “Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’”, descreve. “Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”, ironiza.
“Eu estava num limbo, reequacionei muita coisa. O disco [Caixa Negra] sai numa altura em que me sentia ‘vai, não vai’. Mas também pensava: já vivi 60 anos, não me arrependo de quase nada a não ser da qualidade dos bagaços”
Agora oficialmente curado, o lema do vocalista dos GNR é “nada de começar a estragar o fígado, de beber champanhe, acabou-se o bacalhau assado e os rojões”. Cortou completamente com o cloreto de sódio, com fritos, com carnes, tornou-se quase vegetariano. A dieta resultou. Se antes sentia “imensas dificuldades a nível orgânico”, agora consegue aguentar espectáculos “de hora e meia a duas horas com outra energia”. Os valores do fígado voltaram aos dos anos 1970. Ora, acontecer isto a alguém que tem 61 anos é fenomenal, até porque “os artistas não têm outras fontes de rendimento”, enfatiza.
A um ano de completar 40 anos de actividade, o vocalista afirma-se assim muito responsável e sabe que, apesar de considerado curado, tem que continuar com a vigilância e a cuidar de si. Até porque está a usufruir de uma espécie de segunda vida. “Agora tenho que ter muito cuidado a atravessar a rua…”
“Querida, faz as malas porque estás quase a partir”
Natália Faria, in Púbico on-line
Pouco depois de se ter descoberto portadora do vírus da Hepatite C, Mónica Oliveira, de 52 anos, recebeu um diagnóstico de morte certa. Andou dez anos a adiar essa sentença. No final do ano passado, foi dada como curada. Agora, o médico diz-lhe que vai morrer, sim, mas de velha.
Mónica Oliveira costumava dizer que não tinha tempo para estar doente até que, aos 42 anos, se sentiu empurrada de um precipício. “Tinha descoberto há pouco que era portadora de hepatite C e, ao fim de quatro meses de tratamento, a médica virou-se para mim e muito calmamente disse: ‘No seu caso não há nada a fazer, a senhora já sabia que o tratamento não funciona com toda a gente, vá a casa buscar os medicamentos que são muito caros e entregue-os na farmácia do hospital’. Assim, como quem diz: ‘Querida, faz as malas porque estás quase a partir’. Eu, que tenho medo de alturas, senti que me estavam a empurrar de um precipício e que só tinha algum tempo até chegar lá abaixo e morrer.”
Passaram-se dez anos. Mónica não só não morreu como está curada da doença. Graças ao sofosbuvir, mas também graças àquele que hoje aponta como “o homem da sua vida”, o hepatologista Fernando Ramalho, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Tinha-o ouvido numa entrevista na RTP1 e, quando entrei no consultório dele, a primeira coisa que me disse foi: ‘Ainda bem que está aqui porque podia ter morrido’. Percebi depois que o tratamento que tinha feito durante quatro meses no Hospital do Barreiro não tinha feito mais do que aumentar-me a carga viral, de 60 mil vírus por litro de sangue para 120 milhões. No fundo, foram quatro meses a ‘alimentar o bichinho’. E isto porque o tratamento tinha sido iniciado sem que me tivessem feito sequer uma biópsia para ver como estava o fígado.”
“O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”
Estávamos em 2006. Numa altura, portanto, em que a terapêutica clássica para o vírus consistia numa injecção de interferão uma vez por semana e na toma diária de comprimidos de ribavirina, durante seis a 12 meses. “O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”, recorda. Se a médica que a atendeu no Hospital do Barreiro lhe tivesse feito o estudo genético, teria percebido que Mónica tem uma mutação genética que torna o seu organismo resistente à quimioterapia.
No Hospital de Santa Maria, esse estudo foi das primeiras coisas a serem feitas. “O doutor Fernando Ramalho avisou-me logo que os tratamentos não iam curar-me. Mas a ideia era diminuir a carga viral para que o fígado aguentasse o maior número de meses e de anos, até que novos tratamentos fossem desenvolvidos. Ele era informado, tinha recebido formação nos Estados Unidos, sabia que isso era possível.”
Mónica andou assim vários anos a adiar a sua sentença de morte. “Não foi fácil. A minha filha tinha na altura 12 anos e passou a adolescência a ver a mãe doente, sempre deitada no sofá, o dinheiro a faltar…” O emprego como educadora de infância ficou em águas de bacalhau enquanto a doença fazia o seu caminho. O marido ficara entretanto desempregado. Para piorar o cenário, tinha ainda a cargo duas enteadas, uma das quais grávida de sete meses e que tinha sido abandonada pelo pai da criança.
“O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”
“A minha sorte é que, como nunca tinha tido comportamentos de risco, ou seja, nunca gostei de fumar nem de beber, o fígado levou mais tempo a ser agredido pelo vírus. E houve outra coisa que me ajudou: nunca me senti discriminada, nunca vi um olhar de reprimenda, nem mesmo por trabalhar com crianças.”
O ponto de viragem aconteceu em Dezembro de 2015. “Foi quando me disseram: ‘Está curada’. Tinha iniciado o tratamento em Junho desse ano e fi-lo durante três meses, mas, ao fim de duas semanas, já tinha o vírus indetectável.”
O tratamento provocava-lhe cansaço, mas nada a que não estivesse habituada. “Comparativamente com os tratamentos anteriores, que foram mesmo maus, este quase não teve efeitos secundários, a não ser o cansaço. Houve uma altura em que me esquecia das coisas, até achei que estava com Alzheimer, mas já estava tão habituada a sentir-me mal que desvalorizava as coisas. Depois, descobri que estava com falta de zinco. E agora também estou a fazer ferro injectável.”
Nada que se compare com uma sentença de morte a prazo. “O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”.
Pouco depois de se ter descoberto portadora do vírus da Hepatite C, Mónica Oliveira, de 52 anos, recebeu um diagnóstico de morte certa. Andou dez anos a adiar essa sentença. No final do ano passado, foi dada como curada. Agora, o médico diz-lhe que vai morrer, sim, mas de velha.
Mónica Oliveira costumava dizer que não tinha tempo para estar doente até que, aos 42 anos, se sentiu empurrada de um precipício. “Tinha descoberto há pouco que era portadora de hepatite C e, ao fim de quatro meses de tratamento, a médica virou-se para mim e muito calmamente disse: ‘No seu caso não há nada a fazer, a senhora já sabia que o tratamento não funciona com toda a gente, vá a casa buscar os medicamentos que são muito caros e entregue-os na farmácia do hospital’. Assim, como quem diz: ‘Querida, faz as malas porque estás quase a partir’. Eu, que tenho medo de alturas, senti que me estavam a empurrar de um precipício e que só tinha algum tempo até chegar lá abaixo e morrer.”
Passaram-se dez anos. Mónica não só não morreu como está curada da doença. Graças ao sofosbuvir, mas também graças àquele que hoje aponta como “o homem da sua vida”, o hepatologista Fernando Ramalho, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Tinha-o ouvido numa entrevista na RTP1 e, quando entrei no consultório dele, a primeira coisa que me disse foi: ‘Ainda bem que está aqui porque podia ter morrido’. Percebi depois que o tratamento que tinha feito durante quatro meses no Hospital do Barreiro não tinha feito mais do que aumentar-me a carga viral, de 60 mil vírus por litro de sangue para 120 milhões. No fundo, foram quatro meses a ‘alimentar o bichinho’. E isto porque o tratamento tinha sido iniciado sem que me tivessem feito sequer uma biópsia para ver como estava o fígado.”
“O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”
Estávamos em 2006. Numa altura, portanto, em que a terapêutica clássica para o vírus consistia numa injecção de interferão uma vez por semana e na toma diária de comprimidos de ribavirina, durante seis a 12 meses. “O cansaço que sentia era tal que queria andar e já não conseguia. Os efeitos secundários eram idênticos aos da quimioterapia. Caiu-me o cabelo e tudo”, recorda. Se a médica que a atendeu no Hospital do Barreiro lhe tivesse feito o estudo genético, teria percebido que Mónica tem uma mutação genética que torna o seu organismo resistente à quimioterapia.
No Hospital de Santa Maria, esse estudo foi das primeiras coisas a serem feitas. “O doutor Fernando Ramalho avisou-me logo que os tratamentos não iam curar-me. Mas a ideia era diminuir a carga viral para que o fígado aguentasse o maior número de meses e de anos, até que novos tratamentos fossem desenvolvidos. Ele era informado, tinha recebido formação nos Estados Unidos, sabia que isso era possível.”
Mónica andou assim vários anos a adiar a sua sentença de morte. “Não foi fácil. A minha filha tinha na altura 12 anos e passou a adolescência a ver a mãe doente, sempre deitada no sofá, o dinheiro a faltar…” O emprego como educadora de infância ficou em águas de bacalhau enquanto a doença fazia o seu caminho. O marido ficara entretanto desempregado. Para piorar o cenário, tinha ainda a cargo duas enteadas, uma das quais grávida de sete meses e que tinha sido abandonada pelo pai da criança.
“O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”
“A minha sorte é que, como nunca tinha tido comportamentos de risco, ou seja, nunca gostei de fumar nem de beber, o fígado levou mais tempo a ser agredido pelo vírus. E houve outra coisa que me ajudou: nunca me senti discriminada, nunca vi um olhar de reprimenda, nem mesmo por trabalhar com crianças.”
O ponto de viragem aconteceu em Dezembro de 2015. “Foi quando me disseram: ‘Está curada’. Tinha iniciado o tratamento em Junho desse ano e fi-lo durante três meses, mas, ao fim de duas semanas, já tinha o vírus indetectável.”
O tratamento provocava-lhe cansaço, mas nada a que não estivesse habituada. “Comparativamente com os tratamentos anteriores, que foram mesmo maus, este quase não teve efeitos secundários, a não ser o cansaço. Houve uma altura em que me esquecia das coisas, até achei que estava com Alzheimer, mas já estava tão habituada a sentir-me mal que desvalorizava as coisas. Depois, descobri que estava com falta de zinco. E agora também estou a fazer ferro injectável.”
Nada que se compare com uma sentença de morte a prazo. “O homem da minha vida, que como disse não é o meu pai nem o meu marido, é o doutor Fernando Ramalho. Agora, quando me vê, diz-me: ‘Você vai morrer mas é de velha’”.
27.4.16
Nova terapêutica da hepatite C curou 2050 doentes
in Público on-line
Mais de 9000 pessoas estão actualmente em tratamento em Portugal.
A presidente da Associação SOS Hepatites, Emília Rodrigues, disse nesta quarta-feira à agência Lusa que no espaço de um ano foram evitadas "cerca de 2050 mortes" prematuras de doentes com hepatite C, graças às novas terapêuticas disponibilizadas em Portugal.
"Até este mês de Abril, temos cerca de 9100 doentes em tratamento e temos cerca de 2050 curados", afirmou Emília Rodrigues.
Segundo explicou à Lusa, há doentes que estão a iniciar o tratamento e outros que eventualmente estão curados, mas "só seis meses após a conclusão do tratamento é que se pode ter essa certeza". Em relação aos 2050, já passaram os seis meses, pelo que se consideram curados.
O acordo entre o Estado e o laboratório que fornece os medicamentos inovadores para a hepatite C foi formalizado há um ano, tendo sido apresentado pelo então ministro da Saúde, Paulo Macedo, no dia 6 de Fevereiro de 2015.
Este acordo foi alcançado depois de meses de luta dos doentes para conseguirem obter o tratamento, processo que ficou marcado pela intervenção, na Assembleia da República, de um portador de hepatite C, José Carlos Saldanha, que interrompeu a audição do então ministro da Saúde pedindo-lhe que não o deixasse morrer.
"Termos estes doentes em tratamento e estes doentes curados para nós é uma vitória porque são pessoas que não vão morrer precocemente, é também uma vitória porque deixou de ser a 'doença dos divórcios' para passar a ser a doença da alegria. Com 97% de cura, é uma alegria", sublinhou.
Segundo a responsável, há um ano existiam 13 mil doentes com hepatite C nas consultas do Serviço Nacional de Saúde, mas "o número de infectados não diagnosticados deverá ser muito superior".
Investir no diagnóstico
A experiência nacional da terapêutica da hepatite C e as complicações da doença hepática crónica vão estar em análise no Congresso Português de Hepatologia 2016, que começa na quinta-feira, no Porto, organizado pela Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF).
Em declarações à Lusa, a presidente da APEF, Isabel Pedroto, referiu que "a terapêutica na hepatite C tem evoluído muito, têm sido tratados milhares de pessoas, mas há um grupo de doentes para os quais urgem novas terapêuticas e com melhor resposta, nomeadamente os doentes com doença muito avançada do fígado e os doentes com um subtipo muito específico, que é o tipo 3 do vírus da hepatite C".
"Estes doentes ainda estão sem uma terapêutica tão eficaz quanto os restantes, mas tem havido um grande avanço nesta área. Algumas terapêuticas estão em fase de desenvolvimento, ainda não estão aprovadas, mas vêm de facto preencher essa lacuna", sublinhou.
No congresso, segundo a especialista, pretende-se "reflectir sobre o problema", na medida em que "não chega só tratar os doentes que conhecemos, mais importante é identificar a percentagem de doentes que estão infectados, e são muitos, e que não sabem".
"Não podendo tratar esses doentes, não investindo no diagnóstico e no rastreio, dificilmente vamos conseguir ganhos em saúde, mesmo com as melhores terapêuticas do mundo. Temos de saber a quem dar essas terapêuticas e saber onde é que esses doentes estão", defendeu Isabel Pedroto.
"A situação de Portugal é excelente, tratamos milhares de doentes, mas também temos a consciência de que só conseguimos reduzir a transmissão da doença se formos procurar aqueles que estão numa fase inicial", disse.
Segundo dados da associação, em Portugal apenas 30% dos indivíduos infectados pelo vírus da hepatite C estão identificados.
"Em termos de saúde pública, a terapêutica para a hepatite C só pode ser considerada um bom investimento se se fomentar o diagnóstico, a prevenção, a vigilância dos grupos de risco e uma maior acessibilidade ao tratamento", frisou.
O tumor maligno do fígado encontra-se no ranking das dez causas de morte mais frequentes em Portugal, ocupando a 8.ª e a 9.ª posições nas faixas etárias dos 45-64 anos e dos 65-74 anos, respectivamente.
Mais de 9000 pessoas estão actualmente em tratamento em Portugal.
A presidente da Associação SOS Hepatites, Emília Rodrigues, disse nesta quarta-feira à agência Lusa que no espaço de um ano foram evitadas "cerca de 2050 mortes" prematuras de doentes com hepatite C, graças às novas terapêuticas disponibilizadas em Portugal.
"Até este mês de Abril, temos cerca de 9100 doentes em tratamento e temos cerca de 2050 curados", afirmou Emília Rodrigues.
Segundo explicou à Lusa, há doentes que estão a iniciar o tratamento e outros que eventualmente estão curados, mas "só seis meses após a conclusão do tratamento é que se pode ter essa certeza". Em relação aos 2050, já passaram os seis meses, pelo que se consideram curados.
O acordo entre o Estado e o laboratório que fornece os medicamentos inovadores para a hepatite C foi formalizado há um ano, tendo sido apresentado pelo então ministro da Saúde, Paulo Macedo, no dia 6 de Fevereiro de 2015.
Este acordo foi alcançado depois de meses de luta dos doentes para conseguirem obter o tratamento, processo que ficou marcado pela intervenção, na Assembleia da República, de um portador de hepatite C, José Carlos Saldanha, que interrompeu a audição do então ministro da Saúde pedindo-lhe que não o deixasse morrer.
"Termos estes doentes em tratamento e estes doentes curados para nós é uma vitória porque são pessoas que não vão morrer precocemente, é também uma vitória porque deixou de ser a 'doença dos divórcios' para passar a ser a doença da alegria. Com 97% de cura, é uma alegria", sublinhou.
Segundo a responsável, há um ano existiam 13 mil doentes com hepatite C nas consultas do Serviço Nacional de Saúde, mas "o número de infectados não diagnosticados deverá ser muito superior".
Investir no diagnóstico
A experiência nacional da terapêutica da hepatite C e as complicações da doença hepática crónica vão estar em análise no Congresso Português de Hepatologia 2016, que começa na quinta-feira, no Porto, organizado pela Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF).
Em declarações à Lusa, a presidente da APEF, Isabel Pedroto, referiu que "a terapêutica na hepatite C tem evoluído muito, têm sido tratados milhares de pessoas, mas há um grupo de doentes para os quais urgem novas terapêuticas e com melhor resposta, nomeadamente os doentes com doença muito avançada do fígado e os doentes com um subtipo muito específico, que é o tipo 3 do vírus da hepatite C".
"Estes doentes ainda estão sem uma terapêutica tão eficaz quanto os restantes, mas tem havido um grande avanço nesta área. Algumas terapêuticas estão em fase de desenvolvimento, ainda não estão aprovadas, mas vêm de facto preencher essa lacuna", sublinhou.
No congresso, segundo a especialista, pretende-se "reflectir sobre o problema", na medida em que "não chega só tratar os doentes que conhecemos, mais importante é identificar a percentagem de doentes que estão infectados, e são muitos, e que não sabem".
"Não podendo tratar esses doentes, não investindo no diagnóstico e no rastreio, dificilmente vamos conseguir ganhos em saúde, mesmo com as melhores terapêuticas do mundo. Temos de saber a quem dar essas terapêuticas e saber onde é que esses doentes estão", defendeu Isabel Pedroto.
"A situação de Portugal é excelente, tratamos milhares de doentes, mas também temos a consciência de que só conseguimos reduzir a transmissão da doença se formos procurar aqueles que estão numa fase inicial", disse.
Segundo dados da associação, em Portugal apenas 30% dos indivíduos infectados pelo vírus da hepatite C estão identificados.
"Em termos de saúde pública, a terapêutica para a hepatite C só pode ser considerada um bom investimento se se fomentar o diagnóstico, a prevenção, a vigilância dos grupos de risco e uma maior acessibilidade ao tratamento", frisou.
O tumor maligno do fígado encontra-se no ranking das dez causas de morte mais frequentes em Portugal, ocupando a 8.ª e a 9.ª posições nas faixas etárias dos 45-64 anos e dos 65-74 anos, respectivamente.
25.2.16
Doentes crónicos aviam receitas na farmácia sem ir a consultas
Diana Mendes, in Diário de Notícias
Pacientes poderão dar os seus dados para renovar medicação.
Os doentes crónicos vão deixar de precisar de ir a uma consulta no centro de saúde para aviar uma receita. Para isso, basta irem a uma farmácia e darem os dados necessários para levantar a sua medicação habitual. O anúncio foi ontem feito pelo secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, que acredita que "até ao final do primeiro semestre, grande parte dos locais esteja a utilizar esta metodologia".
Esta medida, que deverá ser generalizada, será possível com o recurso à receita eletrónica e à chamada desmaterialização da receita. Desta forma, o médico destes utentes poderá renovar as receitas no sistema e o utente adquire os medicamentos. "Os doentes mais necessitados, mais idosos ou que vivam mais longe dos centros de saúde não têm de voltar lá para ir buscar uma receita", referiu o governante, durante a apresentação da estratégia nacional para a reforma dos cuidados de saúde primários.
Até agora, nos cuidados de saúde primários, o utente tinha de pagar uma taxa moderadora de três euros para ir levantar estas receitas. O Ministério da Saúde não soube esclarecer, no entanto, se nestes casos vai deixar de ser cobrada taxa moderadora ou, eventualmente, ser transferido este custo para as farmácias, que o poderiam cobrar como ato farmacêutico. Ainda recentemente, a recém-empossada bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Ana Maria Martins, defendeu esta possibilidade.
Durante a apresentação da estratégia, foi ainda anunciada o objetivo de cobrir todo o país com unidades de saúde familiar, em substituição dos tradicionais centros de saúde. O modelo inovador dentro dos cuidados primários, em que os profissionais são pagos pelo desempenho e são abrangidos mais utentes por médico, "é o melhor, traz melhores resultados para a saúde, poupanças e satisfação para os profissionais. Mesmo os utentes apontam taxas de satisfação acima de 80%", diz ao DN Henrique Botelho, o coordenador da reforma.
Fernando Araújo também fala em "generalizar" e em criar formas de levar os profissionais a aderir às USF. Neste ano poderão ser criadas "25 a 30 USF em modelo A e outras 30 em modelo B". Neste caso, passando de modelo A para o B, há prémios para as equipas. Nas restantes unidades de saúde está previsto o alargamento do pagamento de incentivos às equipas.
Os dados já estão disponíveis no Portal do Serviço Nacional de Saúde, que dá conta de uma enorme carência de clínicos na região de Lisboa, que tem 733 mil dos cerca de um milhão de utentes sem médico. Faltam 616 médicos de família no SNS para que todos os doentes tenham acesso a um médico de família. Quanto a especialistas, o reforço necessário seria de 403 clínicos.
Segundo Carlos Nunes, um dos membros do grupo de trabalho para a reforma dos cuidados de saúde primários, "só a região de Sintra tem quase a mesma necessidade do que toda a administração regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo", disse durante a apresentação da estratégia para os cuidados primários. Faltam 46 médicos para a população do agrupamento de centros de saúde, um quarto do total que seria desejável (cerca de 200). No Norte faltam 65.
As soluções para este problema, que o governo estima resolver a médio prazo, passam pelo alargamento do número de unidades de saúde familiares (USF) ou pela contratação de médicos reformados a título transitório, pagando-lhes 75% do vencimento além da reforma.
Pacientes poderão dar os seus dados para renovar medicação.
Os doentes crónicos vão deixar de precisar de ir a uma consulta no centro de saúde para aviar uma receita. Para isso, basta irem a uma farmácia e darem os dados necessários para levantar a sua medicação habitual. O anúncio foi ontem feito pelo secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, que acredita que "até ao final do primeiro semestre, grande parte dos locais esteja a utilizar esta metodologia".
Esta medida, que deverá ser generalizada, será possível com o recurso à receita eletrónica e à chamada desmaterialização da receita. Desta forma, o médico destes utentes poderá renovar as receitas no sistema e o utente adquire os medicamentos. "Os doentes mais necessitados, mais idosos ou que vivam mais longe dos centros de saúde não têm de voltar lá para ir buscar uma receita", referiu o governante, durante a apresentação da estratégia nacional para a reforma dos cuidados de saúde primários.
Até agora, nos cuidados de saúde primários, o utente tinha de pagar uma taxa moderadora de três euros para ir levantar estas receitas. O Ministério da Saúde não soube esclarecer, no entanto, se nestes casos vai deixar de ser cobrada taxa moderadora ou, eventualmente, ser transferido este custo para as farmácias, que o poderiam cobrar como ato farmacêutico. Ainda recentemente, a recém-empossada bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Ana Maria Martins, defendeu esta possibilidade.
Durante a apresentação da estratégia, foi ainda anunciada o objetivo de cobrir todo o país com unidades de saúde familiar, em substituição dos tradicionais centros de saúde. O modelo inovador dentro dos cuidados primários, em que os profissionais são pagos pelo desempenho e são abrangidos mais utentes por médico, "é o melhor, traz melhores resultados para a saúde, poupanças e satisfação para os profissionais. Mesmo os utentes apontam taxas de satisfação acima de 80%", diz ao DN Henrique Botelho, o coordenador da reforma.
Fernando Araújo também fala em "generalizar" e em criar formas de levar os profissionais a aderir às USF. Neste ano poderão ser criadas "25 a 30 USF em modelo A e outras 30 em modelo B". Neste caso, passando de modelo A para o B, há prémios para as equipas. Nas restantes unidades de saúde está previsto o alargamento do pagamento de incentivos às equipas.
Os dados já estão disponíveis no Portal do Serviço Nacional de Saúde, que dá conta de uma enorme carência de clínicos na região de Lisboa, que tem 733 mil dos cerca de um milhão de utentes sem médico. Faltam 616 médicos de família no SNS para que todos os doentes tenham acesso a um médico de família. Quanto a especialistas, o reforço necessário seria de 403 clínicos.
Segundo Carlos Nunes, um dos membros do grupo de trabalho para a reforma dos cuidados de saúde primários, "só a região de Sintra tem quase a mesma necessidade do que toda a administração regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo", disse durante a apresentação da estratégia para os cuidados primários. Faltam 46 médicos para a população do agrupamento de centros de saúde, um quarto do total que seria desejável (cerca de 200). No Norte faltam 65.
As soluções para este problema, que o governo estima resolver a médio prazo, passam pelo alargamento do número de unidades de saúde familiares (USF) ou pela contratação de médicos reformados a título transitório, pagando-lhes 75% do vencimento além da reforma.
3.2.16
Despesa com medicamentos para doenças raras aumentou 94%
In "Correio da Manhã"
Despesa com medicamentos para doenças raras aumentou 94% Valor referente aos anos de 2007 a 2014.
A despesa com medicamentos órfãos, destinados às doenças raras, aumentou 94% entre 2007 e 2014, quando representava já 7,8% dos encargos hospitalares com medicamentos, segundo um estudo da Autoridade do Medicamento. O estudo, incluído na mais recente edição do 'Infarmed Notícias' - órgão oficial da Autoridade do Medicamento, faz uma análise da evolução dos consumos dos medicamentos órfãos nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Os medicamentos órfãos são os que se destinam ao diagnóstico, prevenção ou tratamento de doenças raras (que afetem até cinco em cada 10 mil pessoas) e que são cronicamente debilitantes.
Despesa com medicamentos para doenças raras aumentou 94% Valor referente aos anos de 2007 a 2014.
A despesa com medicamentos órfãos, destinados às doenças raras, aumentou 94% entre 2007 e 2014, quando representava já 7,8% dos encargos hospitalares com medicamentos, segundo um estudo da Autoridade do Medicamento. O estudo, incluído na mais recente edição do 'Infarmed Notícias' - órgão oficial da Autoridade do Medicamento, faz uma análise da evolução dos consumos dos medicamentos órfãos nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Os medicamentos órfãos são os que se destinam ao diagnóstico, prevenção ou tratamento de doenças raras (que afetem até cinco em cada 10 mil pessoas) e que são cronicamente debilitantes.
24.11.15
Metade das famílias não fez tratamentos médicos por falta de dinheiro
in Jornal de Notícias
Metade das famílias portuguesas não teve dinheiro em 2014 para fazer tratamentos médicos necessários, tendo muitas vezes cortado na alimentação e recorrido a empréstimos para fazer face a essas despesas.
"No ano passado, por falta de dinheiro, 50% dos portugueses falharam cuidados de saúde considerados essenciais do ponto de vista médico", revela a revista "Testesaúde".
"E ninguém escapou às dificuldades: um terço eram crianças, que ficaram sem tratamentos, consultas ou medicamentos aconselhados pelo médico", indica a revista de saúde da associação de defesa do consumidor (Deco), com base num inquérito a 1763 famílias portuguesas.
A dificuldade em pagar despesas de saúde afeta mais as famílias com rendimentos mensais abaixo dos 1500 euros, os agregados numerosos ou monoparentais e os que incluem membros que sofrem de doença crónica, conclui o teste. "Isto num país em que cerca de 40% das famílias vivem com menos de 1000 euros por mês", sublinha a revista.
No topo dos gastos com saúde estão os tratamentos dentários e oftalmológicos, as consultas e os medicamentos, que em 2014 foram sendo adiados por falta de dinheiro.
O mesmo se verificou com as urgências, que "tiveram de deixar de sê-lo quando não havia como pagá-las": 10% dos portugueses, incluindo crianças, não foram às urgências por não terem dinheiro.
Apesar de os mais carenciados estarem isentos de taxas moderadoras, existem "copagamentos disfarçados" que são "penalizadores" para a maioria.
Salientando que para o estudo não foram considerados os pagamentos de prémios de seguros nem tratamentos ou cirurgias de estética e beleza, a Deco diz que no ano transato as famílias gastaram uma média de 1480 euros em cuidados de saúde que nunca lhes serão reembolsados.
"O valor sobe para 1824 euros em agregados com doentes crónicos", a que se junta o prémio do seguro de saúde, contratado por 20% dos inquiridos, que dizem pagá-lo do próprio bolso: em média, custa-lhes 506 euros anuais.
Ao todo, diz a revista, as despesas anuais não reembolsáveis representam 19% do rendimento líquido disponível, proporção que sobe para 25% nos agregados com doentes crónicos.
Para fazer face a estas dificuldades, uma em cada cinco famílias teve que se endividar, na maior parte dos casos junto de familiares, mas também de amigos ou de instituições bancárias.
Os inquiridos reportaram problemas de saúde dos filhos menores que necessitavam de cuidados médicos e que em 15% dos casos eram muito sérios e em 70% importantes.
Em consequência desta falta de assistência, não só as atividades escolares ficam afetadas (além da saúde), mas também as necessidades básicas familiares.
"Um quinto dos agregados teve de cortar em bens alimentares e em climatização por causa dos gastos com a saúde. Um quarto viu-se obrigado a abdicar do conforto no lar e de obras ou mobiliário".
A carência de cuidados médicos por falta de dinheiro tem repercussões também no trabalho, que se refletiram em 35 milhões de dias de trabalho perdidos.
Entre os tratamentos que ficaram por fazer em 2014, os oftalmológicos ocupam o lugar cimeiro com 28%.
A estomatologia surge como uma das áreas que custou mais dinheiro aos portugueses, sendo que 64% destes gastaram 564 euros e foram contraídos 1398 euros de empréstimo.
Metade das famílias portuguesas não teve dinheiro em 2014 para fazer tratamentos médicos necessários, tendo muitas vezes cortado na alimentação e recorrido a empréstimos para fazer face a essas despesas.
"No ano passado, por falta de dinheiro, 50% dos portugueses falharam cuidados de saúde considerados essenciais do ponto de vista médico", revela a revista "Testesaúde".
"E ninguém escapou às dificuldades: um terço eram crianças, que ficaram sem tratamentos, consultas ou medicamentos aconselhados pelo médico", indica a revista de saúde da associação de defesa do consumidor (Deco), com base num inquérito a 1763 famílias portuguesas.
A dificuldade em pagar despesas de saúde afeta mais as famílias com rendimentos mensais abaixo dos 1500 euros, os agregados numerosos ou monoparentais e os que incluem membros que sofrem de doença crónica, conclui o teste. "Isto num país em que cerca de 40% das famílias vivem com menos de 1000 euros por mês", sublinha a revista.
No topo dos gastos com saúde estão os tratamentos dentários e oftalmológicos, as consultas e os medicamentos, que em 2014 foram sendo adiados por falta de dinheiro.
O mesmo se verificou com as urgências, que "tiveram de deixar de sê-lo quando não havia como pagá-las": 10% dos portugueses, incluindo crianças, não foram às urgências por não terem dinheiro.
Apesar de os mais carenciados estarem isentos de taxas moderadoras, existem "copagamentos disfarçados" que são "penalizadores" para a maioria.
Salientando que para o estudo não foram considerados os pagamentos de prémios de seguros nem tratamentos ou cirurgias de estética e beleza, a Deco diz que no ano transato as famílias gastaram uma média de 1480 euros em cuidados de saúde que nunca lhes serão reembolsados.
"O valor sobe para 1824 euros em agregados com doentes crónicos", a que se junta o prémio do seguro de saúde, contratado por 20% dos inquiridos, que dizem pagá-lo do próprio bolso: em média, custa-lhes 506 euros anuais.
Ao todo, diz a revista, as despesas anuais não reembolsáveis representam 19% do rendimento líquido disponível, proporção que sobe para 25% nos agregados com doentes crónicos.
Para fazer face a estas dificuldades, uma em cada cinco famílias teve que se endividar, na maior parte dos casos junto de familiares, mas também de amigos ou de instituições bancárias.
Os inquiridos reportaram problemas de saúde dos filhos menores que necessitavam de cuidados médicos e que em 15% dos casos eram muito sérios e em 70% importantes.
Em consequência desta falta de assistência, não só as atividades escolares ficam afetadas (além da saúde), mas também as necessidades básicas familiares.
"Um quinto dos agregados teve de cortar em bens alimentares e em climatização por causa dos gastos com a saúde. Um quarto viu-se obrigado a abdicar do conforto no lar e de obras ou mobiliário".
A carência de cuidados médicos por falta de dinheiro tem repercussões também no trabalho, que se refletiram em 35 milhões de dias de trabalho perdidos.
Entre os tratamentos que ficaram por fazer em 2014, os oftalmológicos ocupam o lugar cimeiro com 28%.
A estomatologia surge como uma das áreas que custou mais dinheiro aos portugueses, sendo que 64% destes gastaram 564 euros e foram contraídos 1398 euros de empréstimo.
13.11.15
Portugueses compram medicamentos falsos para o cancro
In Jornal de Notícias
Os portugueses estão a comprar, através da internet, medicamentos falsos contra doenças graves como as cardiovasculares, a tuberculose e o cancro, o que preocupa as autoridades, devido aos riscos que estes doentes correm.
O alerta é do presidente da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), Hélder Filipe, que recentemente foi o anfitrião de uma reunião que juntou em Lisboa alguns dos principais especialistas europeus, no combate ao tráfico de medicamentos falsificados.
Em entrevista à agência Lusa, Hélder Filipe revelou que, em 2014, foram intercetadas pelas autoridades cerca de 24 mil embalagens postais com produtos, no total de perto de meio milhão de unidades potencialmente medicamentosas.
Os supostos medicamentos para a disfunção erétil continuam a ser dos mais adquiridos por este meio, tal como para o emagrecimento, mas o que está a preocupar as autoridades é o perfil dos alegados fármacos que estão a ser adquiridos por esta via, e que "está alterar-se".
"Assistimos a um crescimento significativo de outro tipo de medicamentos, nomeadamente usados em doenças cardiovasculares, hormonas, para doenças oncológicas, entre outros", disse, concluindo que "o fenómeno está a mudar, em termos de oferta, para produtos diferentes das classes clássicas", o que traz mais riscos para a saúde pública.
Também os tuberculostáticos (medicamentos para a tuberculose) estão a ser identificados nestes percursos que, normalmente, são promovidos por "redes altamente complexas de crime organizado".
"Mais uma vez, para uma doença infecciosa, que tem de ser tratada e deve ser tratada de maneira adequada e com medicamentos de confiança. Isto é um problema", afirmou.
O presidente do Infarmed recorda que, em média, metade dos medicamentos encomendados por internet é falsa.
Segundo Hélder Filipe, quem adquire os medicamentos por esta via fá-lo para "evitar as barreiras de acesso que o próprio sistema regulado impõe: receita médica e a exposição do potencial utilizador relativamente a um profissional de saúde".
Em certas ocasiões, adiantou, o consumidor tenta ter acesso a medicamentos que, "por boas razões", não consegue adquirir no mercado legal, por tal não ser possível.
O presidente do Infarmed avança que os preços nem sequer são a principal razão para a compra destes medicamentos pela internet, pois em certos casos estes acabam por ser mais caros do que no mercado legal. "As barreiras são de outro tipo", disse.
As autoridades confrontam-se ainda com dificuldades em "perceber verdadeiramente as consequências da utilização destes medicamentos", sabendo-se, contudo, que há um risco de o produto falsificado ter metade da dose, não ter qualquer substância ativa ou ter, mas com impurezas.
"Quando analisamos um produto falsificado, não sabemos verdadeiramente o que vamos encontrar. O que vai na composição do rótulo, se o produto está falsificado, é seguramente diferente das características do produto falsificado".
Hélder Filipe apontou um outro fenómeno relacionado com os suplementos alimentares: "Teoricamente são suplementos alimentares, mas quando fazemos a análise encontramos na sua composição medicamentos, embora não declarados no rótulo".
O presidente do Infarmed garante que não foi até ao momento identificada qualquer produção em Portugal de medicamentos falsificados.
Estes chegam de várias partes do globo, na esmagadora maioria dos quais por encomenda postal, como Extremo Oriente, Índia, Brasil ou Estados Unidos.
Nos casos de identificação do produtor de medicamentos falsos, a lei em vigor, e que está em vias de ser alterada, apenas punirá as situações de saúde que forem atribuídas ao consumo do produto.
"Estamos a tentar que haja alterações à própria legislação, na sequência de termos assinado a convenção Medicrime, que nos dá uma obrigação de traduzirmos os princípios assinados para a legislação nacional".
Para Hélder Filipe, "a mudança da legislação nacional fará com que seja mais fácil punir quem intervém neste crime de falsificação dos medicamentos".
Os portugueses estão a comprar, através da internet, medicamentos falsos contra doenças graves como as cardiovasculares, a tuberculose e o cancro, o que preocupa as autoridades, devido aos riscos que estes doentes correm.
O alerta é do presidente da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), Hélder Filipe, que recentemente foi o anfitrião de uma reunião que juntou em Lisboa alguns dos principais especialistas europeus, no combate ao tráfico de medicamentos falsificados.
Em entrevista à agência Lusa, Hélder Filipe revelou que, em 2014, foram intercetadas pelas autoridades cerca de 24 mil embalagens postais com produtos, no total de perto de meio milhão de unidades potencialmente medicamentosas.
Os supostos medicamentos para a disfunção erétil continuam a ser dos mais adquiridos por este meio, tal como para o emagrecimento, mas o que está a preocupar as autoridades é o perfil dos alegados fármacos que estão a ser adquiridos por esta via, e que "está alterar-se".
"Assistimos a um crescimento significativo de outro tipo de medicamentos, nomeadamente usados em doenças cardiovasculares, hormonas, para doenças oncológicas, entre outros", disse, concluindo que "o fenómeno está a mudar, em termos de oferta, para produtos diferentes das classes clássicas", o que traz mais riscos para a saúde pública.
Também os tuberculostáticos (medicamentos para a tuberculose) estão a ser identificados nestes percursos que, normalmente, são promovidos por "redes altamente complexas de crime organizado".
"Mais uma vez, para uma doença infecciosa, que tem de ser tratada e deve ser tratada de maneira adequada e com medicamentos de confiança. Isto é um problema", afirmou.
O presidente do Infarmed recorda que, em média, metade dos medicamentos encomendados por internet é falsa.
Segundo Hélder Filipe, quem adquire os medicamentos por esta via fá-lo para "evitar as barreiras de acesso que o próprio sistema regulado impõe: receita médica e a exposição do potencial utilizador relativamente a um profissional de saúde".
Em certas ocasiões, adiantou, o consumidor tenta ter acesso a medicamentos que, "por boas razões", não consegue adquirir no mercado legal, por tal não ser possível.
O presidente do Infarmed avança que os preços nem sequer são a principal razão para a compra destes medicamentos pela internet, pois em certos casos estes acabam por ser mais caros do que no mercado legal. "As barreiras são de outro tipo", disse.
As autoridades confrontam-se ainda com dificuldades em "perceber verdadeiramente as consequências da utilização destes medicamentos", sabendo-se, contudo, que há um risco de o produto falsificado ter metade da dose, não ter qualquer substância ativa ou ter, mas com impurezas.
"Quando analisamos um produto falsificado, não sabemos verdadeiramente o que vamos encontrar. O que vai na composição do rótulo, se o produto está falsificado, é seguramente diferente das características do produto falsificado".
Hélder Filipe apontou um outro fenómeno relacionado com os suplementos alimentares: "Teoricamente são suplementos alimentares, mas quando fazemos a análise encontramos na sua composição medicamentos, embora não declarados no rótulo".
O presidente do Infarmed garante que não foi até ao momento identificada qualquer produção em Portugal de medicamentos falsificados.
Estes chegam de várias partes do globo, na esmagadora maioria dos quais por encomenda postal, como Extremo Oriente, Índia, Brasil ou Estados Unidos.
Nos casos de identificação do produtor de medicamentos falsos, a lei em vigor, e que está em vias de ser alterada, apenas punirá as situações de saúde que forem atribuídas ao consumo do produto.
"Estamos a tentar que haja alterações à própria legislação, na sequência de termos assinado a convenção Medicrime, que nos dá uma obrigação de traduzirmos os princípios assinados para a legislação nacional".
Para Hélder Filipe, "a mudança da legislação nacional fará com que seja mais fácil punir quem intervém neste crime de falsificação dos medicamentos".
Subscrever:
Mensagens (Atom)

