29.9.23
Operação da GNR "Censos Sénior 2023" arranca no domingo
Vila Real foi o distrito onde foram sinalizados mais idosos que viviam sozinhos e/ou isolados, 5.353.
AGuarda Nacional Republicana (GNR) realiza durante todo o mês de outubro a Operação "Censos Sénior 2023", que visa sensibilizar a população mais idosa para a adoção de comportamentos de autoproteção de segurança.
Em comunicado, a GNR adianta que na edição de 2022 foram sinalizados 44.511 idosos que viviam sozinhos e/ou isolados, ou em situação de vulnerabilidade, devido à sua condição física e psicológica.
As situações de maior vulnerabilidade foram, segundo a GNR, reportadas às entidades competentes, sobretudo de apoio social, no sentido de fazer o seu acompanhamento futuro.
Vila Real foi o distrito onde foram sinalizados mais idosos com 5.353, seguido da Guarda com 5.243, Viseu com 3.586, Faro com 3.527, Bragança com 3.411 e Beja com 3.346.
Em Lisboa foram sinalizados 1.134 idosos e no Porto com 875.
Na operação de 2022, a GNR fez ainda 305 ações em sala e 3.017 ações "porta a porta", abrangendo um total de 26.527 idosos.
A edição deste ano vai contar com cerca de 400 militares da guarda que vão realizar ações em todo o país com o apoio de vários parceiros locais e nacionais, estando enquadradas no período em que ocorre a celebração do Dia Internacional do Idoso, que se assinala no domingo,
"As ações visam privilegiar a proximidade junto da população idosa e com maior vulnerabilidade, e/ou que vivem sozinhas e/ou isoladas, reforçando os comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco dos idosos se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente em situações de violência, de burla e furto", refere a GNR.
Esta operação da guarda, cuja primeira edição foi realizada em 2011, está integrada no programa "Apoio 65 -- Idosos em Segurança" do Ministério da Administração Interna, e tem por objetivo "garantir melhores condições de segurança e tranquilidade às pessoas idosas, garantindo um policiamento integrado, mais próximo e humano".
14.9.23
Agência europeia alerta para risco de exclusão de idosos em sociedades digitais
Apenas uma em cada quatro pessoas entre os 65 e os 74 anos na União Europeia tem conhecimentos básicos nesta área.
AAgência Europeia para os Direitos Fundamentais alertou hoje para a necessidade de garantir o acesso dos idosos aos serviços públicos nas sociedades digitais, devido ao risco de exclusão pela falta de competências para usarem plataformas 'online'.
"Isto é uma potencial barreira para os seus direitos fundamentais. Pode colocá-los em desvantagem e em risco de exclusão das nossas sociedades digitais", lê-se num relatório divulgado pelo organismo europeu.
"Os países europeus precisam de assegurar serviços públicos para todos", sublinha a agência, defendendo que a população sénior deve poder escolher a forma como acede aos serviços públicos e receber apoio para adquirir competências digitais.
Os relatores advertem que a população com mais idade está a aumentar e que as sociedades estão a ficar mais digitalizadas. "Muitos serviços públicos estão disponíveis 'online' e muitos mais estão a ser digitalizados".
No entanto, os dados mostram que apenas uma em cada quatro pessoas entre os 65 e os 74 anos na União Europeia tem pelo menos conhecimentos básicos nesta área.
"As pessoas mais velhas podem ficar privadas dos seus direitos fundamentais, como o acesso a cuidados de saúde ou pensões, nas nossas sociedades digitais", destaca-se no documento.
O relatório revela que a legislação dos países da União Europeia "nem sempre reconhece o risco de exclusão digital", nem aborda as barreiras que os idosos podem enfrentar.
A agência defende que os países da UE devem garantir igualdade no acesso aos serviços públicos, à medida que forem digitalizados, com destaque para pensões e benefícios sociais, que são "direitos fundamentais".
Recomenda também uma participação total nestes processos: "As pessoas mais velhas nem sempre estão envolvidas na conceção e desenvolvimento dos serviços digitais. Os países da UE devem garantir que participam na construção dos modelos para responderem às suas necessidades".
Nem todos têm necessariamente competências ou recursos para usarem as ferramentas digitais. Para evitar a exclusão, os países podiam usar fundos europeus para ajudar a melhorar a literacia digital.
O combate ao idadismo -- o preconceito em função da idade -- é outras das recomendações constantes no relatório, uma vez que afeta a vontade e a capacidade das pessoas se envolverem com tecnologias modernas.
"Os países devem promover a aprendizagem entre pares, a formação intergeracional e evitar linguagem preconceituosa sobre a idade", de acordo com as conclusões apresentadas.
A agência assinala que é necessária uma recolha de dados inclusiva, uma vez que não existe informação, à escala da UE, sobre a literacia digital das pessoas com mais de 74 anos, apesar de se estimar que este grupo represente 20% da população da União até 2050. "Os dados sobre este grupo etário devem ser recolhidos sistematicamente", sustentam os peritos.
"O acesso público a serviços é um direito fundamental. Mas a transformação digital arrisca deixar as pessoas idosas para trás. Precisamos de acabar com o fosso digital, melhorar a assegurar que as pessoas mais velhas também podem beneficiar dos avanços tecnológicos", disse o diretor da agência europeia, Michael O'Flaherty, citado em comunicado.
28.7.23
Quantos de nós já pensámos no que vai acontecer quando ficarmos gastos pelo tempo e tivermos necessidade de ir para um lar? Já fizeram esse exercício? Provavelmente até aos 20-30 anos, não pensamos muito nisso, mas à medida que começamos a trabalhar e a ter a noção do custo de vida, da nossa remuneração e a comparamos com preços praticados nos lares, damos por nós a fazer a pergunta, “como vai ser quando eu lá chegar?”
À medida que os anos passam, os portugueses têm vindo a aumentar a sua longevidade, graças à melhoria das condições de vida, de uma forma geral. Isto é factual e fruto de um maior desenvolvimento da sociedade, com progressos a nível da medicina, alimentação, condições de higiene e salubridade que fizeram com que, neste contexto, Portugal seja um dos países do mundo com motivos de contentamento.
Mas no que concerne ao progressivo envelhecimento populacional sabemos que também somos um dos piores exemplos do mundo, com um incremento da população idosa, inversamente proporcional à redução da taxa de natalidade, que nos empurra cada vez mais para o fim da fila a nível mundial. Desta forma, políticas centradas na saúde devem ser adaptadas à realidade, não só com medidas que melhorem e levem a um incremento da natalidade, com políticas fortes de apoio aos jovens que planeiam ser pais, mas não podemos esquecer o tratamento que deve ser dado aos nossos idosos.
Hoje em dia, quem tem muito dinheiro, ou contrata alguém, ao domicílio, para cuidar de si ou do seu familiar idoso dependente a necessitar de cuidados permanentes, ou o coloca num lar. O problema reside na grande maioria dos portugueses, que não têm, ou não vão ter, rendimentos suficientes para o poder fazer e no qual o lar se assume como a última, mas difícil, alternativa, quando nos deparamos com os custos envolvidos.
E se este já constitui um sério problema, que nos preocupa, quando refletimos sobre a fórmula mágica para o resolver, empurrando essa decisão para um futuro que achamos ser distante, outros mais se afloram, não menos importantes, como a DIGNIDADE.
Qual será a dignidade que iremos ter na nossa última etapa? Quantos de nós já visitaram familiares em lares, percebendo a forma infantilizada com que estes são tratados? Quantas vezes nos pomos a refletir sobre a pessoa que ali está, os gostos que ela tem, as atividades que prefere, os livros que aprecia ler, as pinturas que gostaria de continuar a fazer, os projetos que ainda idealiza…
Pensando um pouco sobre isto, todos sabemos que este tipo de instituições trabalha de uma determinada forma. Mas não por culpa dos profissionais que as constituem e desempenham as suas funções com zelo e esforço, tantas vezes em número insuficiente para fazerem mais por quem está à sua guarda.
Pelos motivos que referi, mas também por a formação da grande maioria dos funcionários de lares ser insuficiente para cuidar com o necessário humanismo, torna-se normal colocar todos os dias a Maria e o Manuel sentados numa cadeira de rodas a olhar a paisagem, quando gostavam de ver um filme. Ou o Joaquim e a Luísa, outrora pessoas com interesses comuns em jardinagem, mas a jogar o balão, que foi planeado para aquele dia, apenas porque sim!
Com isto, o que pretendo dizer é que existe uma forma de fazer mais e melhor pelos nossos idosos. A começar nas direções técnicas de lares que obrigatoriamente deveriam ter profissionais de enfermagem nas suas equipas, porque a sua formação nesta área já é elevada.
Dever-se-iam personalizar os cuidados prestados à pessoa que entra, atendendo aos seus gostos, especificidades, formação, vontade… Este caminho só é possível ser feito, existindo verdadeiras políticas integrativas da parte do Estado no apoio às famílias e/ou utentes carenciados, que pretendam aceder a um lar.
Devemos garantir a existência, nas instituições, de dotações adequadas de profissionais de saúde, com elevada formação técnica, científica, ética e humana, com todos os agentes de saúde envolvidos num processo de análise individual e dedicado ao utente.
Aqui chegados, considero que os enfermeiros devem ser uma classe incontornável no estabelecimento de planos adaptados e individualizados para que esta mudança, necessária e emergente, ocorra e nos permita sonhar com um fim de vida condigno, a fazer aquilo que mais gostamos.
* Mestre em enfermagem Médico-Cirúrgica. Artigo publicado originalmente no site Healtnews.pt.
26.7.23
Melanie quer Portugal a entrevistar avós para as homenagear como “estrelas de cinema”
A artista luso-americana tinha o projeto pessoal de conhecer melhor a história da última avó viva. Mas quando o decidiu fazer, a pandemia levou-a. Não desistiu e quis alargar a iniciativa a todas as avós de Portugal. Assim nasceu o “Vozes da Avó”, uma ideia que quer fazer nascer “uma forma de ativismo”: ouvir os mais velhos.
A artista luso-americana Melanie sentia que o tempo estava a passar rápido de mais, imparável, e queria preservar a memória da última avó viva. A ideia era entrevistá-la e registar o legado da matriarca. Mas, aos 95 anos, Maria José não conseguiu sobreviver ao período da pandemia.
Sem poder concretizar o projeto, Melanie não quis deixar morrer o conceito e, por isso, fê-lo renascer. Alargou-o e tornou-o maior. Deixou de ser de âmbito familiar e recriou-o à escala de uma cidade.
Nascia o “Vozes da Avó”, uma instalação artística que conta a história de sete avós do concelho da Amadora, expostas numa grande superfície da cidade, a que se juntam as memórias que Melanie Alves ainda conseguiu recuperar da avó Maria José. O sentimento de que estas são mulheres sem voz, silenciadas, muitas vezes esquecidas, tornou imperioso agir.
Mas a artista sente que não pode ficar por aqui: “Gostava que isto fosse não só um projeto, mas realmente um movimento.” Quer torná-lo nacional e isso passa por pôr os netos a entrevistar as avós e “homenageá-las como estrelas de cinema”.
“São, pelo menos, as estrelas das nossas vidas”, elogia. Entusiasmada, Melanie, que se especializou em instalações de grande escala, traz na cabeça a ideia de que conhecer os nossos avós e o nosso passado “é uma revolução”. Para fazer chegar essa mensagem a mais pessoas, até já criou um slogan: “O colo como ativismo.”
Isso, defende, teria de ser movido por uma mudança de olhar. “E se pensássemos que ser cool, que ser punk, que ser rebelde e irreverente é dar colo a quem nos deu colo a vida toda? Ouvir as suas histórias, dar carinho e acolher?”
Mas regressemos à Amadora e à instalação artística que pode ser vista no espaço “The Hood”, do centro comercial Ubbo. Após entrevistar as sete avós, a quem chegou através de amigos, de jornalistas e de universidades sénior, Melanie percebeu que queria ali construir “uma casa de memórias de todas as avós, na qual se junta vários pedaços das suas histórias e vários segredos”.
Do conceito à concretização, Melanie concebeu a forma. Quis criar um espaço que “fosse táctil”, “que fosse sensorial” e “em que se possa tocar, sentir, ouvir”. Fê-lo quase só com recurso a materiais já usados, que lhe foram dados pelas avós ou que foi recolhendo.
Ao olhar para o alto da instalação vemos os rostos das avós que Melanie “desenhou com tecidos”. Vemos que as caras das avós contam as histórias das suas vidas presentes e passadas. Há gatos a passear nas testas, lábios feitos de serapilheira ou macacões esvoaçantes no cabelo.
Cá em baixo, no corredor central, temos um “hall of fame” com as fotografias das mulheres. Nas laterais, os tesouros escondidos das vidas das protagonistas: o manipulo das antigas caixinhas de música que podemos girar e ouvir, ou pequenos sacos de pano, à moda antiga, em que se leem frases como “quem casa quer casa”.
"Fiz este projeto para demonstrar que todos nós temos uma história importante para ser contada e que com um mundo que anda cada vez mais rápido é importante praticarmos exercícios de parar, ouvir e escutar", Melanie Alves, artista multidisciplinar.
Há ainda duas botinhas de chuva que pertenciam à avó Conceição quando esta tinha dois anos e de que nunca se conseguiu desfazer. Estão escondidas por fitas, numa metáfora da magia infantil.
“Pedi a cada avó para me doar algo que pudesse ter memória”, explica.
Melanie, que nasceu em São José, nos EUA, e cresceu na margem Sul do Tejo, acha que estamos a perder a capacidade de parar e de ouvir. E isso reflete-se mais nos idosos, que muitas vezes são apenas vistos como velhos. Ela, pelo contrário, desde pequena que ao olhar para as pessoas imagina quem são, para onde vão, o que viveram, conta.
“O mundo gira cada vez mais rápido, estamos mais individualistas, um bocado mais narcisistas e com imensos projetos, imensas coisas a acontecer. Temos muito pouco tempo para os avós”, concretiza.
A artista gostava de ver não só “os netos de Portugal”, mas toda a gente, mesmo quem não os tenha, a parar, a ouvir e a sentir curiosidade de entrevistar avós.
Melanie sente que todas as “suas avós” – fala delas realmente como se fizessem já parte da família afetiva que criou com o projeto– tinham histórias espetaculares para contar, tanto de momentos muito difíceis, como os de mortes na família ou casamentos desafiantes e divórcios, mas também fases de "uma força inacreditável, de uma magia espetacular”.
"Sigo o meu neto no instagram. Às vezes digo-lhe que há coisas que não havia necessidade, mas ele lá sabe”, avó Maria Conceição.
Através destes testemunhos, a artista quer também ajudar a mudar a ideia que se tem enraizado na nossa sociedade e que traz acoplada uma narrativa que os séniores já interiorizaram.
“Muitos são vistos como empecilhos e alguns deles pensam que agora não podem fazer amizades, que não podem investir na sua comunidade e no bem-estar, acabando por se isolar em casa”, concretiza a artista de 39 anos.
Sobre a solidão, Melanie diz que não observou uma confissão declarada das avós, embora tenha sentido que “as próprias circunstâncias das nossas vidas tão atribuladas fazem com que os avós, mesmo estando connosco, não se sintam acompanhados”.
Ainda assim, é na relação com os netos e na ajuda que dão a criá-los, a tomar conta, que muitas encontram um desígnio. Um futuro.
Duas delas são as avós Tomásia e Maria da Conceição, amigas desde a infância, e que convivem na estrada da Falagueira, na Amadora, desde que se lembram de ser gente. São protagonistas do “Vozes da Avó”.
Quase todos os dias se encontram no pequeno minimercado que Tomásia mantém aberto naquela rua, hoje transformado num espaço de convívio para muitas vizinhas que ali passam e não desdenham dois dedos de conversa. Ou mais.
Tomásia é muito feliz no papel de avó. Tem dois netos, “uma menina com 25 anos e um menino com 12 anos”. Mas, para ser honesta, “não estamos muito em contacto”. Já com os filhos, o contacto, pelo menos telefónico, é diário.
A dona do minimercado, além da vocação de comerciante, tem uma veia de jornalista e historiadora bem vincada. Há um caderninho que guarda religiosamente na loja, onde aponta tudo, tim-tim por tim-tim, sobre momentos importantes da vida das pessoas e dos animais (como o Jaguar, o cão querido da família) que fazem parte do seu quotidiano. Ou então simples acontecimentos que ocorreram na rua. Nada lhe escapa.
A neta mais velha até dizia quando era mais nova: “A única coisa que quero herdar é esse caderno. É maravilhoso para mim”, lembra. “Olhe, reconhecia que gostava do que eu fazia”, comenta a avó Tomásia.
Maria da Conceição confirma. “Esse caderno tem tudo apontado. Quem morreu, tudo... Às vezes pergunto qualquer coisa e ela vai procurar no caderno.”
"Acho que as mulheres têm mais vontade de estar sozinhas. Acho que a mulher é muito independente. Chegadas a uma determinada idade elas querem viver no posso, quero e mando. E casadas não tinham esse privilégio, penso que será isso", avó Tomásia
Voltando à relação de avós com netos e à forma como mudou nas últimas gerações, Conceição lembra a avó com quem mais teve contacto.
“Era um general, entre aspas, havia respeito e o que a avó dizia fazia-se. Agora é tudo antipedagógico. O melhor é não dizer nada”, partilha entre sorrisos, para depois acrescentar: “Embora eu, quando estou sozinha com eles, diga alguma coisa, sim.”
Mas o que quer isso dizer? “Antes quando se dizia não era não. Agora diz-se não e os meus filhos dizem: ‘Deixe lá a criança’.” E o que acha disso a avó Conceição? “Mal.”
A conversa avança para a questão da solidão. Conceição não se revê no retrato que muitos fazem dos mais velhos. “Eu gosto da solidão. De poder estar sozinha, de fazer o que me apetece”, diz.
Tomásia anui. “Também não me importo nada. Quando o meu marido morreu há quatro anos, os meus filhos queriam que não ficasse sozinha, mas eu gosto de estar em casa sozinha”, concretiza.
Como não poderia deixar de ser para quem patologicamente aponta tudo o que vê e lhe interessa, Tomásia sabe dizer quantas pessoas moram sozinhas na estrada da Falagueira. “Trinta e tal mulheres e cinco homens. Já viu a diferença?”, questiona.
“Acho que as mulheres têm mais vontade de estar sozinhas. Acho que a mulher é muito independente. Chegadas a uma determinada idade elas querem viver no 'posso, quero e mando'. E casadas não tinham esse privilégio, penso que será isso.”
Em relação a um possível "gap geracional", Conceição diz que não os sente. Até segue o neto no Instagram. “Às veze digo-lhe que há coisas que não havia necessidade, mas ele lá sabe”.
Tem orgulho nos feitos do neto, que a quer por perto nos momentos mais marcantes. “Ele agora tem uma banda e pergunta se quando der um concerto eu vou ver. E eu digo: ‘Sou a primeira da primeira fila’.”
14.7.23
Idosos, uma maioria menorizada exposta ao risco de pobreza
António Pedro Pereira, in Público online
Com apoio familiar, Delfina consegue evitar sobressaltos, ao contrário dos amigos em dificuldades. Serzedelo diz-se “privilegiado”, mas luta contra o idadismo e por uma vida digna para a sua geração.
Junto à Sé de Braga, no Centro de Dia da Associação de Solidariedade Social, Cultural e Recreativa de Santa Maria, Delfina Ferreira Mouta, de 79 anos, está limitada fisicamente devido a um problema na coluna cervical que a impede de grandes movimentações. Tendo trabalhado décadas como vendedora de uma loja de máquinas de costura, mais alguns anos na limpeza de um estabelecimento comercial, está reformada há cerca de 15 anos. “Reformei-me aos 66”, conta Delfina, que tem uma reforma de 370 euros. “É muito baixa. As reformas deviam ser aumentadas”, alerta.
Com a ajuda da família, Delfina tem uma vida sem grandes sobressaltos. “Fui educada a poupar e só gasto no essencial”, recupera. Esse exemplo de aforro vindo dos pais ajuda-a, mas é o apoio familiar que lhe permite escapar a um quadro de indignidade que afecta, pelo menos, um em cada cinco pensionistas em Portugal (são cerca de três milhões). “O meu marido morreu há pouco mais de um mês, chamava-se José Dias Ferreira e trabalhou a vida toda na Casa Salsa [fábrica de ferragens]. Com a reforma do meu marido, que é de 450 euros, a coisa compõe-se”, explica. Com pouco mais de 800 euros mensais, Delfina teve uma grande ajuda que lhe resolveu um dos grandes problemas para os idosos – a habitação. “O meu filho comprou a nossa casinha”, diz, com orgulho.
No entanto, sabe que a sua situação é bem diferente da de muitos da sua geração. “Tenho amigos que vivem com muitas dificuldades. O problema é o dinheiro, as reformas são muito baixinhas...”, sublinha.
Com uma reforma acima da média, António Serzedelo, por seu lado, centra as suas preocupações na luta contra as discriminações da sua geração – das “reformas pequeninas” à “solidão”, é o idadismo (tratamento negativo baseado na idade, especialmente em relação às pessoas mais velhas) que o leva a redobrar a força cívica por entre as várias frentes de combate social que marcaram e ainda marcam a sua vida.
“Tenho plena consciência dos enormes problemas que os idosos enfrentam, das dificuldades básicas em pagar contas ou ter acesso a cuidados de saúde, ao isolamento e exclusão a que são votados”, afirma António Serzedelo, de 78 anos, rosto do activismo político e cívico – é o conhecido fundador da Opus Gay, associação de defesa dos direitos LGBT. Tendo uma vida digna e complementada por uma “boa reforma” de professor do secundário em Lisboa durante mais de 40 anos, não se conforma com a sua situação de privilégio por comparação com uma larga fatia de idosos que mal consegue pagar as contas médicas, lutando por melhores condições para todos e acolhendo, durante largos períodos, pessoas em sua casa que passam por situações de grande fragilidade e exposição ao risco – afinal, um quinto dos cidadãos com 65 ou mais anos está em quase ruptura social e sem condições para chegar ao fim do mês.
“Seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado”, dispara. “A minha reforma anda à volta dos 2000 euros mensais”, revela, acrescentando que sabe perfeitamente que é um valor, face ao panorama das pensões, “de rico”.
“Sim, seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado face aos problemas que afectam os idosos. Porque tive uma boa educação, porque viajei, enfim, conheci mundo e grandes figuras da cena mundial”, complementa.
Enquanto Delfina divide o seu tempo entre a sua casa, os filhos (o mais velho com 55, a mais nova com 49) e o centro de dia, condicionada pelo problema na cervical, António Serzedelo continua activo. Tem uma vida plena de acção, entre o activismo político, pela cidadania, pelas mulheres, pela comunidade LGBT+ (foi fundador da Opus Gay em 1997), pelas pessoas com deficiência. Tem uma reforma que, “para a pobreza de Portugal”, “é quase de rico”, vive num bairro que “agora é da grande burguesia”, não enfrenta dificuldades de maior no acesso à alimentação, aos cuidados médicos, à energia para se manter protegido. Ou seja, tem quase tudo o que lhe permite evitar cair numa situação crítica de exposição ao risco de pobreza e exclusão social que afecta mais de um quinto deste grupo etário (20,5 por cento, de acordo com números de 2022 do Instituto Nacional de Estatística).
Vive dignamente, mas não alienado. “Noto os preços a subir, nas contas e no supermercado. E tento comprar coisas mais em conta. Gasto mais com os dois gatos e com o cão do que comigo. Eles são mais esquisitos, eu adapto-me a qualquer coisa”, conta o antigo militante do PS (“com o cartão número dez”), às voltas com um processo “demoradíssimo” de refiliação no partido a que aderiu há 44 anos. Foi vereador suplente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-vogal e conselheiro da Junta de Freguesia de Arroios.
António Serzedelo, que foi também jornalista no Diário de Notícias e na revista Telesemana, tem colaborado com associações cívicas contra o idadismo – termo que em Abril deste ano entrou no Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa como definição de “atitude de discriminação e preconceito com base na idade”. Particularmente, o que atinge os idosos.
“Trabalho com algumas associações anti-idadismo. E estamos a propor algumas medidas, como, por exemplo, uma Secretaria de Estado dos Idosos, que concentre num só edifício a gestão de todos os departamentos para este grupo etário. Cheguei a propô-la a uma alta figura do Governo, porque este grupo é o que mais recursos gasta ao Estado, mas disse-me que ia pensar e, alguns anos depois, ainda está a pensar”, revela Serzedelo.
Segundo o relatório Portugal, Balanço Social, “em 2021, 20,9% dos indivíduos com mais de 65 anos encontravam-se em situação de privação material e social (38,8% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza). Nesta faixa etária, 8,7% da população estava em situação de privação material e social severa (19,9% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza)”, sendo que este é, actualmente, de 551 euros mensais.
Joaquina Madeira socorre-se de dados do Instituto Nacional de Estatística, mas de 2022, para sublinhar que “o risco é, no entanto, claramente mais elevado quando olhamos especificamente para os mais velhos, nomeadamente para a população com 75 ou mais anos cujo risco de pobreza ou exclusão social foi de 22%”, regista a vice-presidente da EAPN Portugal (Rede Europeia Antipobreza). “A privação material e social severa é outro indicador que devemos sublinhar, devido a forte vulnerabilidade da população mais velha. É na população com 65 anos ou mais que encontramos a maior taxa de privação material e social severa: 7,1% da população nessa faixa etária comparativamente com 4,9% das crianças e 4,7% dos adultos entre os 18 e os 64 anos”, acrescenta.
“Tento continuar a ser activo e activista, na área da cidadania, na área do idadismo e na área LGBT”, prossegue o também radialista, que teve durante anos, a partir de 1999, um programa sobre temáticas LGBT na Rádio Voxx – Vidas Alternativas – e participa actualmente numa conversa semanal, às segundas-feiras (17.00 de Lisboa) no Alternativas Brasil Portugal, uma rádio online do Recife, Brasil.
“Tenho 78 anos e há 20 anos já estaria morto, porque a esperança média de vida era mais baixa. Estive na origem da Opus Gay, defendendo os direitos dos homossexuais, mas depois passei a defender as mulheres, e sobretudo as mulheres lésbicas, porque eram ainda mais discriminadas, e a organização mudou para Opus Diversidade, para abranger outras populações, como os transexuais. Eu já morei com duas ‘trans’, que até no meio homossexual são discriminadas”, alerta António Serzedelo.
“Vivo um pouco angustiado com a exclusão social que certos grupos estão a pregar [aos portugueses]. Se um quarto dos estrangeiros fosse embora, Portugal parava. E não é uma metáfora, é literal”, acusa o homem que viveu em várias cidades de Angola e de Moçambique (por causa das comissões de serviço do pai, engenheiro civil especialista em portos e docas secas) ou em Setúbal.
“Vivo num apartamento que aluguei há cerca de 40 anos e que renovei e modifiquei para um dúplex. Vivo sempre com alguém, amigos ou amigos de amigos. E acolho conhecidos, alguns recomendados por amigos, que estão em situação de fragilidade até poderem retomar a vida”, conta.
Ainda assim, não está imune aos problemas que afectam o seu grupo etário. “Sinto alguma solidão também, embora seja visitado por muita gente, até do estrangeiro. Alguns visitam-me só para se associarem ao meu nome, por ser activista e defender as minorias, mas recebo muitos amigos ou pessoas indicadas por amigos que me fazem alguma companhia”, admite o frenético António Serzedelo.
Há décadas um dos rostos mais conhecidos da luta contra a discriminação LGBT (“Fui bissexual durante um tempo, em part-time, mas depois fui gay a tempo inteiro”), Serzedelo fala ainda de uma dupla discriminação: “A maioria na comunidade gay é constituída por jovens, que, por sua vez, discriminam os mais velhos”.
A pobreza na infância e nos mais velhos, as privações materiais e sociais, as diferenças regionais e os desafios do custo de vida. Nesta série editorial, o PÚBLICO faz um “raio X” ao impacto da pandemia de covid-19 em Portugal, com o apoio da Fundação ‘la Caixa’, BPI e Nova SBE, promotores do estudo Portugal, Balanço Social 2022, publicado em 2023.
[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes, aqui]
18.5.23
Mais velhos e crianças são os mais expostos. Risco de pobreza diminuiu em 2021, mas privação material e social aumentou
A taxa de risco de pobreza teve uma redução em 2021, mas aumentou nas famílias com crianças e com
maior impacto nas famílias monoparentais. A privação material e social também aumentou.
2021 parece distante mas é o mais próximo que conseguimos estar quando se analisam os indicadores sociais do país a partir das estatísticas disponíveis. Foi esse o trabalho realizado pela NOVA SBE em parceria com a Fundação ‘la Caixa” e o BPI e refletido no relatório “Portugal Social, 2022” hoje apresentado.
O trabalho foi realizado no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, programa plurianual estabelecido entre as instituições, com o objetivo de traçar o retrato socioeconómico das famílias portuguesas e descrever a situação social no país. Nesta 3ª edição, somam-se dois capítulos adicionais referentes ao impacto da pandemia de Covid-19 ao custo de vida.
Em 2021, a taxa de risco de pobreza reduziu em Portugal em dois pontos percentuais, fixando-se em 16,4%. Contudo, este valor seria bem diferente sem apoios sociais, já que subiria para 43,3%. A taxa de risco global diminuiu, mas houve regiões em que aumentou, a Madeira à cabeça com 23,4%, seguida de Açores e do Algarve.
2021, apesar de distante, é o ano que todos recordamos como o do meio na pandemia de covid-19, que teve início em 2020. O relatório inclui por isso um capítulo especial dedicado ao impacto da crise pandémica em que uma das conclusões é que apenas 18% dos agregados familiares reportaram redução de rendimentos em função da pandemia. O valor é, no entanto, superior entre os mais pobres, em que sobe para 22,8%, nomeadamente por situações de desemprego ou de redução do número de horas de trabalho.
Que são, já agora, enquadradas a partir de um escalão de rendimento abaixo dos 6653 euros ao ano ou 554 euros mensais.
13% da população em geral recebeu algum tipo de apoio do Estado, valor que sobe ligeiramente para 13,8% entre os mais pobres. O apoio social médio foi de 1000 euros, 988 euros na população em geral e 1012 entre os mais pobres.
O teletrabalho pode parecer comum para uma determinada franja da população, nomeadamente a que trabalha nas profissões liberais ou nos serviços, mas os números mostram que apenas 32% das pessoas puderam trabalhar a partir de casa na pandemia.
Mais grave é a percentagem de crianças excluídas do ensino por falta de equipamento ou acesso á internet: foi de 10% entre os mais pobres e de 5% na população em geral. As percentagens podem higienizar a realidade por isso vale a pena ir aos números que as suportam: em Portugal existem 1,9 milhões de crianças e jovens distribuídos pelos vários níveis de ensino, segundo a Pordata. No primeiro ciclo, são 926 mil e no ensino secundário são 393 mil (os restantes são ensino superior). Estamos, por isso, a falar no que respeita ao ensino básico (1º ao 9º ano de escolaridade) de quase 100 mil crianças entre as famílias mais pobres que não puderam acompanhar as aulas durante a pandemia (e quase 50 mil na população em geral). No ensino secundário, são quase 40 mil jovens nas famílias mais pobres privados de aceder às aulas durante a pandemia e quase 20 mil na população em geral.
O que sabemos agora são os indicadores, o impacto futuro desta privação na geração que foi afetada saberemos de futuro, o que faz os autores do estudo chamar especial atenção para os reflexos da pobreza entre as crianças e jovens.
Em 2021, em 20,6% dos agregados pobres houve a preocupação de não ter comida suficiente, em 13,1% as pessoas comeram menos do que deviam, e em 2,4% sentiram fome não satisfeita por falta de dinheiro ou outros meios. Na população geral, estas percentagens são de 7,3%, 5,1% e 2,4%, respetivamente.
Mais uma vez, vale a pena traduzir percentagens em números para compreendermos a dimensão da pobreza em Portugal: cerca de 240 mil pessoas passaram fome e não tiveram como comer.
A privação material e social é uma das dimensões em que se expressa o risco de pobreza e pode ser traduzida em situações quotidianas como as despesas inesperadas, a capacidade para trocar uma roupa usada ou um móvel estragado ou simplesmente gastar dinheiro consigo próprio.
No que respeita a despesas inesperadas é clara a clivagem entre a média e os mais pobres: 30% da população não tem capacidade para lidar com uma despesas inesperada mas este número duplica para 60% entre as pessoas mais pobres.
Um tema na ordem do dia é a habitação e também aqui se espelha a diferença dos mais pobres versus a população em geral: os custos com habitação representam, em média, 20,5% dos gastos dos agregados familiares, mas entre os que têm rendimentos mais baixos, no indicador de risco de pobreza, sobem para 38,4%.
20,4% das crianças e 20,1% das pessoas com 65 anos ou mais anos, em Portugal, eram pobres.
Em 2020, existiam em Portugal 345 mil crianças em risco de pobreza e 465 mil pessoas com mais de 65 anos.
O relatório "Portugal Social, 2022" é da autoria de Bruno P. Carvalho, Miguel Fonseca e Susana Peralta, do Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center e usa microdados das seguintes fontes: Inquérito para as Condições de Vida e Rendimento (ICOR) 2021, European Social Survey (ESS) 2020, Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe (SHARE) 2021
3.5.23
Solidão: a nova epidemia de saúde pública que tem tantos riscos como fumar
A solidão generalizada nos Estados Unidos representa riscos para a saúde tão mortais como fumar uma dúzia de cigarros por dia e é a mais recente epidemia de saúde pública.
O alerta foi feito pelo cirurgião-geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, a principal autoridade em saúde pública, que, ao declarar a solidão como a mais recente epidemia de saúde pública, referiu que ela custa ao setor da saúde milhares de milhões de dólares por ano.
Cerca de metade dos adultos norte-americanos dizem já ter sentido solidão, afirmou Vivek Murthy, num relatório de 81 páginas do seu gabinete.
"Sabemos agora que a solidão é um sentimento comum que muitas pessoas experimentam. É como a fome ou a sede. É um sentimento que o corpo nos envia quando algo que precisamos para sobreviver está a faltar", disse Vivek Murthy numa entrevista à agência de notícias "Associated Press".
E acrescentou: "Milhões de pessoas na América estão a lutar na sombra, e isso não está certo. Foi por isso que emiti este aviso, para tirar a cortina de uma luta que demasiadas pessoas estão a viver".
Crise da solidão garavou-se com a pandemia de covid-19
A declaração destina-se a aumentar a consciencialização sobre a solidão, mas não desbloqueia o financiamento federal ou a programação dedicada a combater o problema.
A investigação mostra que os americanos, que nas últimas décadas têm vindo a envolver-se menos com os locais de culto, organizações comunitárias e até com os seus próprios familiares, têm vindo a registar um aumento constante de sentimentos de solidão. O número de agregados familiares solteiros também duplicou nos últimos 60 anos.
Mas a crise agravou-se profundamente quando a pandemia de covid-19 se espalhou, levando escolas e locais de trabalho a fechar as portas e fazendo com que milhões de americanos se isolassem em casa, longe de familiares ou amigos.
As pessoas reduziram os seus grupos de amigos durante a pandemia do coronavírus e diminuíram o tempo passado com esses amigos, segundo o relatório do cirurgião-geral. Em 2020, os americanos passavam cerca de 20 minutos por dia, pessoalmente, com amigos, quando era cerca de uma hora duas décadas antes.
Solidão aumenta o risco de morte prematura em cerca de 30%
A epidemia de solidão está a atingir especialmente os jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos. O grupo etário registou uma quebra de 70% no tempo passado com os amigos durante o mesmo período.
A solidão aumenta o risco de morte prematura em cerca de 30%, tendo o relatório revelado que as pessoas com fracas relações sociais apresentam também um maior risco de acidente vascular cerebral e de doença cardíaca.
“Pedalar sem idade”: o movimento que quer combater a solidão dos idosos
A solidão não é só para os mais velhos
O isolamento também aumenta a probabilidade de uma pessoa sofrer de depressão, ansiedade e demência, de acordo com a investigação. Vivek Murthy não forneceu dados que ilustrem o número de pessoas que morrem diretamente devido à solidão ou ao isolamento.
O cirurgião-geral está a apelar aos locais de trabalho, às escolas, às empresas de tecnologia, às organizações comunitárias, aos pais e a outras pessoas para que façam mudanças que aumentem a conectividade do país.
Aconselha as pessoas a juntarem-se a grupos comunitários e a largarem os telemóveis quando estão a falar com os amigos; os empregadores a pensarem cuidadosamente nas suas políticas de trabalho à distância; e os sistemas de saúde a darem formação aos médicos para que reconheçam os riscos da solidão para a saúde.
Redes sociais estão a impulsionar o aumento da solidão?
A tecnologia exacerbou rapidamente o problema da solidão, tendo um estudo citado no relatório concluído que as pessoas que utilizavam as redes sociais durante duas horas ou mais por dia tinham mais do dobro da probabilidade de se sentirem socialmente isoladas do que as que utilizavam essas aplicações durante menos de 30 minutos por dia.
Vivek Murthy afirmou que as redes sociais estão a impulsionar o aumento da solidão em particular. O relatório sugere que as empresas de tecnologia implementem proteções para as crianças, especialmente em relação ao seu comportamento nas redes sociais.
"Não há realmente nenhum substituto para a interação pessoal", disse, questionando: "À medida que passámos a utilizar cada vez mais a tecnologia para a nossa comunicação, perdemos muito dessa interação pessoal. Como é que concebemos uma tecnologia que fortaleça as nossas relações em vez de as enfraquecer?".
2.5.23
Envelhecer com saúde? Medicina de longevidade vai estar em debate em Cascais
“Longevity Med Summit” vai reunir cientistas e investidores de vários países, a 4 e 5 de Maio, em Cascais.
Leia aqui mais sobre este tema: Só um sexto dos idosos diz ter boa saúde. Portugal é o terceiro pior na União Europeia
O futuro passa por prevenir e tratar as doenças associadas ao envelhecimento. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, mas, se os portugueses ganharam anos de vida, o país continua distante daqueles que têm uma longevidade com maior número de anos livres de doença, destacam os responsáveis pela organização daquele que é apresentado como o “maior evento” sobre medicina da longevidade – o “Longevit Med Summit” –, que vai reunir em Cascais, nos próximos dias 4 e 5 de Maio, investigadores e cientistas de renome internacional e empreendedores com um total de “10 mil milhões” de euros disponíveis para investir nesta área.
Envelhecer com saúde é possível e é sobre a revolução tecnológica em curso, sobre novas terapias e diagnósticos, e sobre oportunidades de negócio nesta área que se vai falar neste encontro.
“O aumento da esperança de vida traz muitos desafios ao sistema de saúde. Se atrasarmos a progressão do envelhecimento biológico, vamos prevenir as doenças todas. O ideal é que as pessoas não fiquem doentes. E a investigação científica tem dado muitas pistas sobre como se pode aumentar a longevidade saudável”, observa Cláudia Cavadas, investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular e professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, uma das oradoras, lembrando que a longevidade de cada pessoa depende apenas em cerca de 25% dos seus factores genéticos.
“A fórmula para a longevidade já é conhecida, passa pela alimentação saudável, qualidade do sono, interacção social, cuidados de saúde adequados, prevenção e prática de exercício físico", elenca, defendendo que “é preciso capacitar os profissionais de saúde” para este novo paradigma.
Neste encontro em que são esperados “mais de mil participantes”, vão debater-se os avanços da ciência do envelhecimento e falar-se de turismo de saúde, biotecnologia, medicina de precisão, medicina regenerativa e inteligência artificial, explica Jorge Lima, o responsável pela organização, para quem também é fulcral mobilizar os médicos para que passem a utilizar as novas ferramentas.
"O futuro da medicina é tratar as doenças associadas ao envelhecimento", diz Jorge Lima, notando que actualmente é "grande a ênfase no envelhecimento saudável" e é "crescente o interesse científico nas áreas da longevidade saudável".
Convicto de que as novas soluções e tecnologias se vão tornar mais acessíveis à medida que forem ganhando escala, defende que são muitas as novas oportunidades de negócio associadas à longevidade. No encontro vão, aliás, participar investidores de países como Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Singapura e, além de fundos de investimento, há também empresas e laboratórios interessados no desenvolvimento deste "mercado da longevidade", afirma.
Entre os oradores, destacam-se Shai Efrati, professor da Sagol School of Neuroscience da Tel Aviv University (Israel), “um dos principais cientistas de pesquisa em medicina hiperbárica do mundo”, Charles Brenner, presidente da Alfred E Mann Family Foundation (Departamento de Diabetes e Metabolismo do Cancro) no City of Hope National Medical Center (Estados Unidos), responsável por diversas pesquisas sobre a correlação do metabolismo, a diabetes e o aparecimento de doenças oncológicas, Andrea B. Maier, professora de Medicina na Universidade Nacional de Singapura e investigadora na área da gerontologia e prevenção de doenças relacionadas com a idade, e Aubrey de Grey , investigador inglês e autor do livro intitulado Ending Aging.
28.3.23
No mundo fechado dos lares ilegais quem lucra não pode cuidar
Ana Dias Cordeiro (Texto) e Matilde Fieschi (Fotografias), in Público online
Há centenas de residências clandestinas a operar, algumas com ordem de fecho de meses ou anos. “As pessoas preferem ser bem tratadas em lares ilegais do que maltratadas em lares legais.”Do lado de fora, nada sugere a quem passa que a vivenda de telhado baixo, num bairro onde tantas outras casas de diferentes tamanhos se alinham por pacatos passeios, é na realidade uma residência para 12 pessoas vencidas pela idade, a imobilidade, a solidão, a demência.
A porta principal abre para um corredor estreito e escuro, que liga a um quarto pequeno com três camas, uma sala apertada na penumbra, onde, coladas umas às outras, estão nove pessoas sentadas no sofá e em três cadeiras com almofadas, umas a dormitar, de cabeça caída, outras acordadas, olhando sem interesse para a televisão.
Perderam a juventude e a independência e passam horas numa interminável espera: o levante, a higiene, o lanche da manhã ou da tarde, o almoço, e o jantar, para fecharem o dia, quase sempre, antes das 19h.
A cuidar das oito pessoas, com mais de 80 anos, neste piso de baixo, e de outras quatro enclausuradas no de cima, está uma auxiliar de avental, que não se abstém de abrir a casa a desconhecidos mesmo na ausência e sem autorização da patroa.
Quando, por lealdade, uma utente lhe assinala o dever de avisar a proprietária, a auxiliar de avental acede a pegar no telefone, e fá-lo com tranquilidade, como se no íntimo soubesse que este dia haveria de chegar, ao cabo de um mês em que as reportagens sobre lares licenciados ou clandestinos expuseram a falta de higiene e de cuidados mínimos. Um deles, na Lourinhã, recebeu ordem de fecho na sequência de uma peça na SIC. Outro, em Palmela, fechou com urgência depois de uma investigação da Polícia Judiciária, que recebeu uma denúncia presencial. Houve outros casos divulgados.
Minutos depois do telefonema, chega Vanda, a proprietária. Não quer dar o apelido nem dar entrevista. “Estamos só a conversar”, diz sem disfarçar o nervosismo. “Estou com o coração aos saltos”, desabafa sobre a inesperada visita.
Um lar legal tem de ser todo construído de raiz, assinala Vanda, que impõe como condição para conversar que nada identifique a casa que gere há "muitos anos". "Não há dinheiro para fazer essa obra de raiz, nem as pessoas têm dinheiro para pagar um local com outras instalações", continua. Aqui, uns pagam 550, outros 600 euros, garante.
Cai uma chuva miúda e as duas janelas pequenas têm os vidros fechados e as cortinas corridas na sala entranhada de um odor indefinido mas forte.
“Estamos muito bem aqui”, antecipa-se a mesma senhora que manifestou a sua lealdade à patroa. É a que está mais desperta e aparenta ser a mais esclarecida. Apoia-se, embora sentada, numa bengala, chegando-se à frente para melhor ser ouvida, como que assumindo esse papel de porta-voz das companheiras de residência.
Junto à cozinha, também exígua e de fraca luz, sobre um pequeno quadrado de mesa com uma toalha florida, a funcionária de avental barra manteiga em pão de forma e a que apressadamente junta uma bebida nuns copos de plástico, levando depois tudo num tabuleiro para a sala.
É hora do lanche, mas lá em cima, ao cimo de umas escadas de madeira escura, que contorna a pique a esquina da cozinha, estão dois homens e duas mulheres que nunca descem. Em cada um dos cerca de 15 degraus, íngremes, não cabem sequer duas pessoas.
No cimo sem poder descer
Nesse mundo dos quatro à parte, como que enclausurados, uma senhora acanha os braços no curto espaço de uma mesa pouco estável, e acompanha a imagem desfocada de uma pequena televisão cinzenta de outros tempos. Queria sair daqui? Responde que sim, mas pouco à vontade. A proprietária desvaloriza: “Essa senhora só quer ir à missa.”
A senhora de olhar triste e sem ponta de desmazelo já perdeu a conta aos dias que não vai à missa ou a qualquer outro lugar. A seu lado, está uma mulher como ela, mas mais velha, que parece não (querer) comunicar, e um senhor da mesma idade, agarrado a uma cama, limitado nos movimentos, mas que acena com a cabeça ao mesmo tempo que diz “boa tarde” com um sorriso. De costas para a porta em frente, junto à mesma escada, ergue-se a forma de um corpo posicionado de lado, envolto numa coberta branca.
Esta é apenas uma das muitas moradas que uma pessoa do bairro aponta como exemplo de casas onde habitam dez, 15 ou 20 velhos ao cuidado de não profissionais.
Os dias sucedem-se iguais, com ou sem visitas, agendadas quando alguns lares assim o definem, ou exigem, ou a qualquer hora, aqui na freguesia de Quinta do Conde, ou noutros visitados pelo PÚBLICO, e sem licença de funcionamento, nos distritos de Lisboa, Setúbal e Santarém. É comum procurar-se um sítio e serem indicados vários. Alguns fecharam por ordem do Instituto da Segurança Social, mas abriram numa morada próxima tendo como novo proprietário o registo de uma outra pessoa ou empresa.
Na grande maioria, não está prevista fisioterapia de forma regular, mas antes uma ginástica a cargo das próprias auxiliares, nem actividades ou animação, e quando acontece é de forma informal e sem regularidade certa; não existe um contrato com enfermeiro, como dita a lei, e estes profissionais de saúde, como os médicos, são chamados pontualmente quando necessário.
O INEM e a Protecção Civil são contactados sempre que surge uma emergência, garantem os proprietários que aceitaram falar. Nos anos da pandemia, os lares recebiam visitas da Protecção Civil ou da Segurança Social, para operações de despiste de surtos de covid-19 ou (mais tarde) campanhas de vacinação. A regra era essa e nenhuma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) – legal e ilegal – ficava de fora. Mas essa atenção – que permitiu identificar muitos lares sem condições e determinar o seu encerramento – acabou no ano passado.
Nem em Salvaterra de Magos, Muge, Abrantes, Ereira, Loures, Fernão Ferro, Montijo, Palmela ou outros pontos de passagem no caminho aqui percorrido os lares têm visitas de acompanhamento regulares.
A lista que só até à semana passada estava disponível no site da Segurança Social e que assinalava “licenças e actos”, como licenças de utilização, com atribuição de alvará, aviso de caducidade de alvará, mas também as ordens de fecho, com ou sem aplicação de coimas, por incumprimento, de 20 mil euros (podendo ir até aos 40 mil euros), ocupava mais de 170 páginas no site. Eram mais de 850, com cada página a mostrar pelo menos cinco entradas. Nesta semana, essa informação deixou de estar disponível. Contactado, o Instituto da Segurança Social não responde se dispõe de uma estimativa do número de lares sem licença. Apenas informa que, de acordo com os dados mais recentes, "existem 2581 estruturas residenciais para pessoas idosas, das quais 894 são entidades de privados".
Lisboa e Porto foram, na lista dos 18 distritos, os dois onde mais lares foram encerrados com (respectivamente) 33% e 21% do total. Já em 2022, mais fechos (em proporção do total) aconteceram em Aveiro (19%) e Santarém (18%), passando Porto a representar 15% e Lisboa 12% do universo de estruturas residenciais sem condições. "A medida de encerramento sem carácter de urgência tem de ser acatada no máximo nos 30 dias úteis seguintes", confirma o ISS, não revelando porém, apesar de questionado, quantos lares receberam ordem de fecho.
No pátio de mãos dadas
Num pequeno lar, na zona de Salvaterra de Magos, a cozinha com chão de pedra faz de sala onde sete homens e mulheres, que murmuram um imperceptível “bom dia”, fitam a parede ou a pequena televisão, presa no alto, nela abstraídos ou alheados dela. Nesta casa, onde o ar que se respira na zona dos quartos e da casa de banho indica que a única funcionária presente ainda se debate com as limpezas, há desordem de objectos deixados ao acaso num pequeno pátio, mas também há esperança aqui, onde um casal se senta de mãos dadas.
Por serem marido e mulher, beneficiam de um quarto só para eles com casa de banho privada. No resto, a casa está desmazelada mas limpa, e as paredes descascadas pela chuva circundam três ou quatro camas em quartos de pouco mais de 10 metros quadrados. As casas de banho, que servem mais de seis utentes, são apertadas e, embora tenham barras de ferro na sanita, não as têm no cubículo onde são dados os banhos não mais de uma ou duas vezes por semana.
“Gostamos de estar aqui. Está tudo a correr bem”, sorri Manuel, expondo desprevenido os dois únicos dentes. A fragilidade de Manuel na aparência e no discurso estende-se ao dono do espaço, que se curva e quase treme por não querer “nada disto nos jornais”.
Deixa fotografar os quartos, porque não tem “nada a esconder”, diz, mas exige que não seja revelado o seu nome ou a morada da residência. À porta, o aviso de encerramento que o Instituto da Segurança Social obriga a que fique visível por um período de 30 dias está tapado por uma folha branca colada com fitas adesivas pretas.
Nesta rua com casas mas sem gente – que apesar de estar a menos de 50 quilómetros de Lisboa poderia ser um quase fim de mundo –, serão ínfimas as probabilidades de uma fiscalização da Segurança Social para o cumprimento efectivo da ordem de fecho. Actualmente, e a nível nacional, existem 53 inspectores afectos às equipas responsáveis pela fiscalização de equipamentos sociais, responde o gabinete de imprensa do Instituto da Segurança Social.
E há 260 técnicos do Instituto da Segurança Social que também realizam as acções de acompanhamento.
Entrar só com autorização
Teria de haver denúncia e nem os bombeiros se dizem competentes para tal, agora que terminaram as visitas de despiste da covid a estas "casas particulares", onde só entram com autorização dos donos. Estas são pessoas que, por força das circunstâncias, abriram um lar: aprenderam da maneira mais dura quando, sem outras alternativas, se viram a cuidar dos próprios familiares doentes ou acamados; viram aqui uma oportunidade de negócio.
Pode haver vontade em ajudar o próximo, desempenhar um papel social, mas não está afastado o risco de eventuais falhas que possam advir do desconhecimento do rigor de cuidados exigidos em situações de grande fragilidade, como a ronda de água, com intervalos de tempo curtos, para prevenir a desidratação ou aliviar o peso do corpo, virando o acamado, várias vezes ao dia, para evitar escaras que podem infectar.
"Os lares ilegais são mal vistos, mas quando tive ordem de fecho, muitos familiares quiseram que eu continuasse a cuidar dos seus idosos"Maria do Carmo Rodrigues - proprietária de lares ilegais em Mouriscas e no Pego
“O importante é se eles comem, se tomam a medicação, se estão lavadinhos de manhã”, diz Maria do Carmo Rodrigues, que em Fevereiro fechou o seu lar em Mouriscas por ordem da Segurança Social, abrindo logo a seguir um no Pego, no mesmo concelho de Abrantes. Para ela, é tudo tão difícil que pondera, "em vez de um lar, abrir um alojamento local".
A residência do Pego, também em Abrantes, é uma alternativa temporária. À sua vivenda, agora fechada em Mouriscas, onde Maria do Carmo diz estar a fazer obras apesar de “ter tudo o que era necessário” para cuidar dos velhotes, primeiro veio a Guarda Nacional Republicana, a Segurança Social, depois a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).
Houve uma denúncia, conta enquanto vai pedindo imperiais no café da aldeia onde todos se conhecem. “Há seis anos que estava a funcionar quando recebi a ordem de encerramento. Eu não sabia que tinha de ter uma licença.”
Há uma certa revolta nas palavras de Maria do Carmo Rodrigues quando diz que “a Segurança Social foi um bocadinho arrogante” quando veio, depois de uma denúncia que atribui, embora sem certezas, a familiares de um utente do seu lar, um senhor que tinha anemia e morreu no hospital. "Eu tinha três ou quatro caminhas num quarto e mesmo assim elas implicaram. Tinha dois quartos interiores e um quarto exterior, este sem janelas, e de onde os utentes podiam usar uma casa de banho também no exterior."
"Nunca ninguém se queixou"
"Durante a covid, vinham cá todos: Protecção Civil, Autoridade para as Condições do Trabalho e Segurança Social e nunca me fecharam o lar. Agora estou nas limpezas, a tapar uma parede, a pôr uma porta num quarto, a pôr as barras de ferro nos banhos, nas sanitas”, enumera. “Mais do que as instalações, o importante é serem bem cuidados.” E enfermeira? E médico? “Se eu vir que eles estão mal, eu própria chamo. Tenho uma médica do Centro de Saúde de Abrantes que faz esse biscate. E tinha uma enfermeira para tratar as feridas. Vinha uma vez por semana ou quando era preciso. Eu pago sem recibo. Agora, para ter licença, também querem que eu arranje uma animadora”, diz.
“Quando tive de fechar, tinha muita gente debilitada. Quis entregar as pessoas às famílias, para os colocarem noutros sítios, nos lares das misericórdias, já que os lares ilegais são tão mal vistos. Mas muitos familiares quiseram que eu continuasse a cuidar dos seus idosos. Diziam que preferiam ter a mãe, o pai, a tia ou a avó num lar ilegal, mas onde fossem bem tratados, do que tê-los num lar licenciado onde se calhar seriam mal tratados”, diz. “Nunca os entreguei às famílias, nunca ninguém se queixou."
As denúncias surgem frequentemente de ex-funcionárias descontentes com as precárias condições de trabalho; ou de familiares, quando estes se deparam com alguma situação preocupante envolvendo o idoso.
Nunca aconteceu a Ana Costa ser alvo de uma inspecção, visita da Segurança Social ou denúncia, diz a própria proprietária da empresa Prosas de Outono, que dá nome a dois lares dos quais é directora técnica. Um é misto; o outro só de senhoras acolhe 14 pessoas na localidade de Vale de Milhaços na freguesia de Corroios. Os quartos não cumprem a área determinada por lei para terem três ou quatro camas, nem a entidade tem uma avença com enfermeiro ou animador.
Para Ana Costa, essas são falsas questões. “As pessoas preferem ser bem tratadas em lares ilegais do que maltratadas em lares legais", diz. "Sempre que é preciso, vem o enfermeiro. E as auxiliares têm formação ou ganham experiência com os anos. Para ter um lar de qualidade, o principal é ter uma equipa profissional", continua.
Uma equipa que limpa quando está sujo, que trata quando vê que um idoso não está bem, que sabe monitorizar os sinais vitais, como a tensão arterial, a temperatura, a saturação do oxigénio ou a glicemia, enumera. "Para mim, o principal era que o Estado interviesse nas famílias. Este é um problema da sociedade, porque as famílias nem sempre visitam, nem sempre são vigilantes", considera.
O espaço é limpo, a sala espaçosa e os quartos arrumados e luminosos. A mensalidade oscila entre os 900 e os 1200 euros e ter uma licença custa muito dinheiro, queixa-se. "É preciso um projecto de arquitectura, e projectos para tudo o resto: para as telecomunicações, para a água e os esgotos, para a electricidade. E cada um destes pode custar 5000 euros."
“Estive três anos a viver sozinha desde que o meu marido morreu, e nunca me aconteceu nada. Se tenho que morrer, tanto morro em casa como aqui”Luísa (nome fictício) - utente do Lar Prosas de Outono
Elisabete (nome fictício) é a primeira a falar. Sente-se bem aqui, embora gostasse "muito de voltar para casa". Para isso, não tem remédio. “A minha casa está fechada, em Vale de Figueira” no distrito de Santarém, conta, antes de parar para ouvir nova pergunta. Repete-a, em forma de pergunta à auxiliar: “Que idade tenho?” Tem 86 anos, mas a aparência de uma mulher mais nova e um sorriso de quem leva os dias a pensar como era no passado. “Os meus filhos estão agora a viver no estrangeiro.”
Sentada à sua frente, Luísa, que também não dá o nome verdadeiro, sorri sem convicção. “Não estou bem nem mal. Podia não me doer os pés, não me doer os joelhos, não me doer o corpo. Há três semanas vim do hospital.” Tem 91 anos, e recebe a visita frequente dos filhos. “Eu queria voltar para casa, mas as minhas filhas não me querem sozinha. Eu vivia lá bem, com a bengala, andava, agarrava-me encostada à cómoda, chegava à cozinha e abria a luz”, diz confiante.
"Desde que o meu marido morreu, estive três anos assim e nunca me aconteceu nada. Ele era a minha companhia. Vivíamos felizes. Era só eu e ele. A saudade não tem cura.” Em minutos as lágrimas enchem-lhe os olhos. “Se tenho de morrer, tanto morro em casa como aqui.”
Em Mouriscas, distrito de Santarém, a dona de um lar que todos conhecem grita da janela que há muito tempo a sua casa não tem idosos e recusa abrir a porta. “São só familiares”, diz. “Ela diz sempre isso, que são familiares. Mas estão muitos idosos”, contrapõem pessoas na mercearia em frente que se interrogam sobre os motivos de este lar ainda não ter sido encerrado, apesar de uma ordem de encerramento de vários anos.
A dona, Celestina, diz já ter pago os 20 mil euros da contra-ordenação que herdou do tempo da sua mãe, quando a Segurança Social identificou em 2017 a falta de condições. A intimação na lista dos documentos da Segurança Social fala de “estabelecimento lucrativo”, mas não dá pistas sobre o ponto em que está o processo.
Contactadas pelo PÚBLICO, nem a Segurança Social nem a Procuradoria-Geral da República dizem dispor de dados sobre os proprietários que ficaram impedidos de exercer a actividade desde 2020. A PGR também não tem sistematizada a informação sobre os processos judiciais abertos nos últimos anos por maus-tratos ou negligência em lares. O mesmo acontece com proprietários de lares visados pelo crime de desobediência (por não acatarem a ordem de fecho).
A parte de trás da casa de Celestina, conhecida na aldeia por Titina, dá para um logradouro, umas escadas e uma varanda, onde as ombreiras das janelas estão partidas e o telhado descaído, adivinhando-se a passagem de fortes correntes de ar em dias de maior frio ou vento. Antes de alguém fechar as cortinas por se aperceber de olhares indesejados, da rua é possível ver um velho com a barba por fazer, de pantufas e roupão, que olha pela janela, mas nada diz, sentado numa cama baixa, com pés de madeira, mantas enrodilhadas, no escuro. Desorientado, acabou de acordar ou prepara-se agora para se perder no torpor da sesta e do esquecimento.
21.3.23
Governo admite mudança na lei para obrigar funcionários de lares a denunciar maus-tratos
O compromisso foi assumido pela secretária de Estado da Inclusão no Fórum TSF.
A secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, admite a possibilidade de mudar a lei para que os funcionários dos lares sejam obrigados a denunciar a existência de maus-tratos.
"Temos, efetivamente, de refletir. Estamos perante um fenómeno de inversão da nossa pirâmide etária, temos cada vez mais idosos e, por isso, temos de adotar medidas diversificadas no apoio a esses idosos. Não necessariamente só no sentido da institucionalização, mas em concreto. Estamos perante um público vulnerável, atendendo à sua idade e condições físicas e mentais", sublinhou no Fórum TSF Ana Sofia Antunes.
Um compromisso assumido pela secretária de Estado da Inclusão que garantiu também que não é pelo facto de surgirem, nos órgãos de comunicação social, casos de maus-tratos a idosos nos lares que a fiscalização aumenta.
"Não é pelo facto de, em determinado momento, vir um caso para a praça pública e fazer com que apareçam logo uns quantos de seguida que nós reforçamos o ritmo de fiscalização. Fazemo-lo quando se deteta que há algum fator que está a provocar aumentos deste tipo de situações. Só em 2022 encerrámos 117 lares. Se pensarmos que cada um destes lares, em média, pode ter 50 utentes e alguns deles têm mais, estas foram as situações para as quais tivemos de encontrar solução alternativa e encontrámo-la", assegurou a secretária de Estado da Inclusão.
O padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, assume que há um problema em relação à fiscalização dos lares.
O padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, assume que há um problema em relação à fiscalização dos lares.
"Ponho em consideração a dignidade das pessoas. Os idosos têm de ser respeitados. Muitas vezes, no mesmo lar, estão pessoas dependentes com vários problemas. Temos de ir para uma especialização de lares porque, de facto, isso é importante. Temos de acompanhar mais os lares, é importante que haja um acompanhamento e fiscalização. Qualquer denúncia deve ser escalpelizada", afirmou Lino Maia.
E defende que devia ser criado um provedor dos utentes em cada lar.
"Instaurarmos o provedor do utente em todos os lares. É uma primeira iniciativa, mas claro que não é suficiente. Ninguém pode ser penalizado por fazer uma denúncia, desde que seja sustentada", aconselhou o padre.
Também no Fórum TSF, a enfermeira Carmen Garcia, que trabalha num lar em Vendas Novas, no Alentejo, denuncia que as visitas regulares da Segurança Social aos lares não mostram qualquer preocupação com as pessoas que lá vivem.
"Quando sabemos que vamos ter uma visita entramos em modo loucura à volta de processos. Faz falta que nestas equipas de acompanhamento da Segurança Social um técnico de saúde que entre num lar e consiga perceber coisas tão básicas como quantos utentes estão imobilizados, quais são os colchões. Faz falta quem olhe para o utente, fale com ele, lhe mexa na pele e perceba se há utentes desidratados. As equipas de acompanhamento são constituídas por técnicos da Segurança Social que não têm estas competências para perceber o que está errado", acrescentou Carmen Garcia.
No ano passado, a Segurança Social fez 674 inspeções, 117 lares foram mandados fechar e 22 tiveram ordem de encerramento imediato.
8.3.23
Quase 120 lares de idosos encerrados no ano passado
No ano passado, foram encerados 117 lares e 22 foram fechados "de forma imediata" devido às situações detetadas, revelou a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. A governante explicou que as ações de fiscalização acontecem sem "data marcada" e os lares de idosos não são avisados.
Quase 120 lares de idosos foram encerrados no ano passado, 22 dos quais "de forma imediata" devido às situações detetadas, revelou esta terça-feira a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
Na comissão parlamentar de Trabalho, Segurança Social e Inclusão, Ana Mendes Godinho disse que em 2022 foram fiscalizados 674 lares de idosos, tendo sido "o ano com maior número de ações de fiscalização de sempre".
Segundo a ministra, no ano passado foram encerados 117 lares e 22 foram fechados "de forma imediata" devido às situações detetadas.
Ana Mendes Godinho acrescentou que em 2022 aconteceu o maior número de encerramentos a estas estruturas.
A ministra sublinhou que as ações de fiscalização realizadas pela segurança social aos lares de idosos têm várias consequências, como o encerramento destas instituições, que é a medida mais greve, e participações ao Ministério Público.
A governante explicou que estas ações de fiscalização acontecem sem "data marcada" e os lares de idosos não são avisados.
A ministra indicou também que no ano passado foram feitas 7.000 visitas de acompanhamento aos lares para verificação de acompanhamento das situações, sendo ações realizadas em conjunto com a saúde.
Ana Mendes Godinho afirmou que as visitas de acompanhamento permitem com regularidade realizar visitas em conjunto com a saúde e segurança social, enquanto as ações de fiscalização "não têm data marcada e não tem hora marcada".
"O meu apelo é que, quando haja indícios, sejamos todos nós sinalizadores de situações", disse.
Ana Mendes Godinho salientou também que as ações de fiscalização são feitas quando há denúncias ou de acordo com os indicadores de risco definidos pelo Instituto de Segurança Social, estando afetas a esta atividade 290 pessoas.
Segundo a governante, existem 2.587 lares de idosos em Portugal e 103.000 lugares em termos de capacidade, num total de 280.000 respostas para o envelhecimento, que inclui, além das estruturas para a terceira idade, apoio domiciliário e centros de dias.
A ministra anunciou ainda aos deputados que o Governo decidiu mobilizar uma parte do investimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para criação de centro dedicado a promoção do envelhecimento ativo, considerando tratar-se de uma "iniciativa importante" e "determinante no plano de ação" que se está a construir em conjunto com a saúde.
Notícia atualizada às 17:50
23.2.23
Juntar idosos, deficientes e famílias vulneráveis. Habitação colaborativa chega a várias zonas do país
A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, começou o ano a assinar contratos de comparticipação financeira para respostas sociais inovadoras no país. As instalações da Segurança Social de Leiria foram o local onde avançaram os primeiros projetos que serão integralmente suportados por fundos públicos, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência. Ao todo, vão permitir criar 166 lugares em habitação colaborativa, nos concelhos de Castanheira de Pera, Lousã, Mafra, Óbidos e Pombal, num montante global de investimento superior a 5,2 milhões de euros. Mas no ministério já deram entrada 22 projetos similares, permitindo alojar cerca de 800 pessoas nesta modalidade.
No dia em que começou a andar o projeto para a região, Suzel Santos fez a (longa) viagem de regresso a Castanheira de Pera com outro ânimo. Estava finalmente concluída esta etapa, de um projeto que a presidente da Cercicaper (Cooperativa de Educação, Reabilitação, Capacitação e Inclusão de Castanheira de Pera) considera um ponto de viragem nas respostas sociais. Ali, num território que o país conheceu a partir dos incêndios de 2017, aquela é a única CERCI, num raio de muitos quilómetros e vários concelhos, cruzando os distritos de Leiria e Castelo Branco, e dava, assim, mais um passo para cumprir os seus objetivos, que ultrapassam o trabalho social que faz atualmente na comunidade e que vai muito além do apoio aos deficientes
"O que vamos ter aqui são 12 apartamentos individuais complementados com uma parte "colaborativa" -- como o nome indica --, com umas instalações comunitárias para promover a união, o trabalho e as relações sociais da comunidade que está a residir nesta resposta social", conta ao DN a responsável da Cercicaper. "Para além das 12 casas que permitirão a individualidade de quem lá reside, iremos construir também uma cozinha, uma sala, lavandaria, balneários comuns, bem como instalações para a equipa de trabalho que permitirão sessões de autoajuda e afins. Nos espaços verdes irão ser implementados espaços para hortas, equipamentos para exercício físico ao ar livre e um anfiteatro para promoção de reuniões, espetáculos, seminários e outras atividades". Tudo isto num terreno cedido pelo município.
Felicidade para todos
No Lar da Felicidade - Associação de Solidariedade Social, em Meirinhas (Pombal), o projeto nasceu como ideia-relâmpago. A primeira vez que por ali se falou na possibilidade de construir "umas casinhas para idosos e também para famílias carenciadas" terá sido em outubro, quando a consultora que habitualmente apoia a instituição no que concerne a candidaturas falou de um projeto similar no interior do país. José Carlos Ferreira, presidente da direção, acolheu a ideia com entusiasmo. Pediu orçamentos para habitações modulares, e fez contas ao financiamento que seria preciso.
"Como tínhamos bastante terreno aqui na área envolvente, ficou-nos aqui o bichinho daquela ideia", conta ao DN Cristina Ribeiro, diretora técnica desta IPSS. Ao mesmo tempo, apresentava a ideia ao diretor da Segurança Social de Leiria, João Paulo Pedrosa.
"Foi assim que soubemos que o projeto poderia ser incluído no âmbito do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), acrescenta aquela responsável, uma semana depois de assinada a comparticipação financeira. O Estado suportará na íntegra os cerca de 442 mil euros estimados no projeto, ficando os arranjos exteriores a cargo do município de Pombal, tal como aconteceu já com o projeto de arquitetura. De resto, o presidente da câmara, Pedro Pimpão, sublinha a importância da iniciativa, que "visa dotar o território de mais uma resposta social inovadora".
Em causa estão oito pequenas casas, com capacidade para acolher 17 utentes. O projeto consiste na construção de unidades habitacionais independentes, destinadas a famílias, pessoas idosas, pessoas deficiência e outras, desde que em situação de vulnerabilidade social.
Há muito que o Lar da Felicidade necessitava de ampliar a sua capacidade (que é apenas para 21 utentes, na componente residencial) "mas não só para esse tipo de resposta. Notávamos que havia muitos pedidos de pessoas que precisam do acompanhamento noturno, e durante 24 horas, mas não querem estar institucionalizadas", refere Cristina Ribeiro. "São pessoas que querem receber visitas quando entendem, sem estarem sujeitas aos horários de uma instituição, mantendo a sua autonomia e privacidade, mas ao mesmo tempo contando com o (necessário) apoio dos técnicos da instituição", acrescenta.
A Associação de Solidariedade Social Lar da Felicidade já contemplava respostas desde a infância à terceira idade: 21 utentes em Lar, 20 em Centro de Dia, 20 em apoio domiciliário, 42 crianças na creche e servem 160 refeições todos os dias no Centro Escolar.
A aldeia de Meirinhas é a sede de uma das mais pequenas freguesias do concelho de Pombal (a última a ser criada, nos anos 80) mas a mais importante do ponto de vista económico, graças ao volume de negócios que por ali passa, no universo alargado de empresas. Ainda assim, regista o outro extremo: um crescente número de carenciados, o que obriga o Lar da Felicidade a investir num programa alimentar. Uma vez por mês, entrega cabazes a várias famílias. Foi assim, por ter conhecimento desse tecido frágil, que a direção da instituição percebeu a importância de abarcar no projeto a habitação colaborativa e comunitária. "Aqui na freguesia não há casas para arrendar, sobretudo a quem tem baixos rendimentos, sem possibilidade de recorrer a um fiador no contrato, ou pessoas com pensões de velhice mínimas", adianta a diretora da associação.
Além da Cercicaper e do Lar da Felicidade, vão receber projetos similares a Casa do Povo de Óbidos,
Embora ciente de que não vai mudar o mundo, o Lar da Felicidade sabe que pode mudar os dias de alguns dos habitantes da terra.
9.2.23
Listas de espera longas dificultam acesso a cuidados continuados
Os avanços no campo da medicina têm possibilitado o prolongamento da vida das pessoas para lá do expectável, sobretudo por comparação com o que ocorria no passado. Porém, nem sempre essa maior longevidade se traduz, por si só, em bem-estar. É aqui que entram os cuidados continuados integrados, cuja importância foi objeto de análise na oitava edição do Conversas por Boas Causas, uma rubrica organizada em parceria pela TSF, "Jornal de Notícias" e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).
Inês Guerreiro, socióloga e antiga coordenadora da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, salienta que, "de facto, temos uma sobrevida longa e que pretendemos que seja saudável, mas também sabemos que, com a idade, vamos acumulando problemas e dificuldades na rotina diária que interferem na capacidade de sermos autónomos". Ora, conforme explica a socióloga, "a rede de cuidados continuados nasceu precisamente para dar resposta às necessidades das pessoas, sobretudo ao nível da reabilitação das suas capacidades funcionais e cognitivas". Um grande entrave à aplicação destes tratamentos em tempo útil prende-se com as listas de espera que, para Inês Guerreiro, colocam em causa o seu sucesso. "Esperar seis meses para entrar numa unidade de cuidados continuados compromete todo o tratamento desenvolvido a jusante porque a pessoa já pode ter as suas funcionalidades em risco e o trabalho que se vai iniciar não tem nada a ver com a continuidade de cuidados", afirmou a socióloga.
Opinião idêntica manifesta Ana Gomes, diretora dos cuidados continuados integrados da SCML, que refere que "ter mais anos implica também ter mais cuidados de saúde e de apoio social". Ana Gomes assevera igualmente que "a rede de cuidados continuados ainda está a crescer e vai ter muito que dar resposta às pessoas porque está muito aquém". Segundo esta dirigente da Santa Casa, "os cuidados agudos e hospitalares têm de ter uma sequência certa" para que, depois do regresso ao domicílio, "se evite o reinternamento".
País envelhecido
Portugal é o quarto país da União Europeia com a população mais idosa. Alentejo é a região do país mais envelhecida.
Santa Casa
SCML possui três unidades de cuidados continuados integrados, tendo tratado no ano passado cerca de 700 doentes.
Faltam apoios
Só 5% dos idosos em Portugal recebem apoio institucional, sendo as famílias ainda o principal amparo desta população.
Lista de espera
Há 1500 pessoas a aguardar vaga nos cuidados continuados e o número médio de utentes aumentou 88% entre 2019 e 2022.
Mais meios
Até 2025, PRR prevê a aquisição de 5500 novas camas para a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.
3.2.23
Travar o isolamento de idosos está nas mãos da comunidade
Mário Rui André e Jorge Carrilho, in JN
Envelhecimento populacional com que o país se debate aumenta o risco de haver cada vez mais pessoas da terceira idade a viver em estado de solidãoMário Rui André, coordenador da Unidade de Missão da SCML para o Programa "Lisboa, Cidade de Todas as Idades", chama a atenção do que diz ser "um momento de transição demográfica" para o qual, assegura, "temos de nos preparar, de forma a ir ao encontro das necessidades de pessoas mais velhas e sós". Nesse sentido, o coordenador da Santa Casa considera que, em primeira instância, "cabe a cada cidadão estar atento ao que se passa à sua volta e ajudar o melhor possível" aqueles que não têm a seu lado ninguém a quem possam recorrer.
Também Jorge Carrilho, chefe da Polícia de Segurança Pública (PSP), apela "à consciencialização dos cidadãos para esta problemática". O responsável revelou ainda que a PSP tem acompanhado "os técnicos da Santa Casa no trabalho de auxílio às pessoas mais desprotegidas, não só àquelas com mais de 65 anos como noutros casos, onde existem carências económicas e sociais".
Tanto a PSP como a SCML são, de resto, duas das entidades integrantes do Projeto Radar, um plano de intervenção comunitário, desenvolvido em Lisboa, com o intuito de ajudar os idosos e de alertar a comunidade precisamente para a importância de atender aos seus problemas. Deste modo, segundo Mário Rui André, "é possível chegar às pessoas que estão isoladas e acompanhá-las, evitando que continuem a existir situações críticas de gente que falece em casa e, às vezes, só se dá por ela passados dois ou três meses, o que nos devia deixar a todos envergonhados".
Censos 2022
Operação Censos Sénior 2022 revelou que existem, em Portugal, mais de 44 mil idosos em situação de isolamento.
Cenário alarmante
Segundo a OMS, Portugal é um dos cinco países europeus que menos investem no bem-estar dos seus idosos.
Velho Continente
Mais de um quinto da população da União Europeia tem 65 anos ou mais. Itália é o país mais envelhecido.
Projeto Radar
Iniciativa conta com 33 mil idosos integrados e 3700 radares comunitários (voluntários, comércio local ou vizinhos).
Policiamento de proximidade
Desde 2006 que a PSP tem em curso um programa que visa o contacto mais próximo com os cidadãos desfavorecidos.
1.2.23
Associação quer obrigatoriedade de médicos em permanência nos lares
in Observador
O presidente da Associação dos Médicos dos Idosos apela para que os doentes tenham uma "vigilância e assistência regular" de modo a serem acompanhados conforme as suas necessidades.
O presidente da Associação dos Médicos dos Idosos que estão nos lares defendeu esta sexta-feira a necessidade de ter clínicos em permanência nestas estruturas, para garantir uma vigilância e assistência regular, evitando muitas vezes o transporte para a urgência.
“Concordo que os lares não são hospitais, mas é indiscutível que mais de metade dos idosos internados nos lares são doentes e têm de ter vigilância e assistência regular“, disse João Gorjão Clara, que preside à Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI).
O responsável, que é especialista em Medicina Interna, lembrou que muitos destes idosos que vão para os lares têm várias doenças e levam já medicação, que muitas vezes não é ajustada com a devida regularidade. O médico defendeu que os médicos que prestam assistência aos utentes dos lares deviam ter formação específica.
“Muitos, quando chegam aos lares, levam medicação que já tomavam, que é perpetuada e muitas vezes não é reacertada em função da evolução clínica ou, se o é, é de forma pouco regular”, afirmou.
“Há lares que nunca têm médico, e aí presumo que a medicação não seja ajustada, noutros o médico vai uma vez por semana e noutros duas vezes”, explicou, sublinhando: “isso não cobre as necessidades dos doentes idosos que estão nas ERPI [Estruturas Residenciais Para Idosos]”.
Mais de 100 mil idosos vivem nos cerca de 3.500 lares existentes em Portugal, entre lucrativos, setor social e não legalizados.
“Tem de ser garantida a estas pessoas a assistência permanente”, defendeu Gorjão Clara, lembrando que tantos nos Estados Unidos da América como na Europa “existe esta preocupação” e dando o exemplo de Espanha, onde além da obrigatoriedade de médico em permanência nos lares há um rácio de clínicos por doentes nestas estruturas.
Em Portugal, “se há uma complicação, e se o médico não está disponível, o doente vai para a urgência, sobrecarregando ainda mais as urgências, com problemas que poderiam ser resolvidos no local se houvesse médico em permanência“, considerou.
A Associação de Médicos dos Idosos Institucionalizados, lançada no ano passado e que pretende dar formação aos médicos que acompanham os idosos que estão em lares, vai realizar no sábado a sua primeira reunião, onde pretendem transmitir recomendações para melhorar a assistência aos idosos que estão nas ERPI.
Neste encontro vão participar não só os associados, mas alguns convidados, inclusive o médico francês Yves Gineste, que vem falar do conceito de humanitude: uma maneira própria de tratar doentes com défices cognitivos graves.
“Trata-se de uma estratégia para tratar estas pessoas, resolvendo os problemas de conflito que muitas vezes têm com os seus cuidadores, como o facto de não quererem tomar a medicação ou tomar banho”, explicou Gorjão Clara, adiantando quer na reunião vai ser mostrado um vídeo com uma mensagem enviada pelo Presidente da República.
24.1.23
Tecnologia garante segurança de idosos que vivem sozinhos
Três municípios da região da região do Douro estão a desenvolver um projeto que utiliza vários sensores instalados em casa de idosos para prevenir acidentes ou, mesmo, assaltos. Chama-se "Idoso(@) Ativo(@)" e abrange 60 pessoas mais velhas, que vivem sozinhas ou isoladas, nos municípios de Tabuaço, São João da Pesqueira e Murça.
O Município de Murça foi o que coordenou o arranque da iniciativa que foi classificada como um "vigilante digital" dos seniores e envolve também os centros sociais e paroquiais de Trevões e Castanheiro do Sul, no concelho de São João da Pesqueira.
Um exemplo das pessoas abrangidas no concelho de Murça é Maria da Luz Ribeiro, residente em Varges. As visitas da assistente social Aida Nunes à mulher de 81 anos, que vive sozinha, são frequentes, mesmo que agora a habitação tenha nas paredes vários sensores ligados à Internet que monitorizam o seu dia a dia e disparam alertas no caso de haver alguma situação anormal.
Maria da Luz não fez ainda disparar os alarmes e espera tardar a fazê-lo. Mas como os sensores também servem para detetar a entrada de intrusos, considera que são uma mais-valia para a sua segurança. "Basta gritar "socorro"" para vir alguém em meu auxílio", diz a idosa, que tem sete filhos, mas que vive sozinha a maior parte do tempo, já que eles foram governar a vida para outras bandas.
Aida Nunes é responsável pela execução no terreno do projeto "Idoso(@) Ativo(@)" da Câmara de Murça. Explica que os alarmes são acionados se houver alteração às rotinas e hábitos de cada idoso, bem como situações anómalas relacionadas com "eletricidade, fugas de gás e entrada de estranhos na habitação", além de ajudar na "prevenção de quedas". "São aparelhos que estão ligados à Internet e emitem alertas para familiares ou para a pessoa que esteja responsável pelos idosos", realça.
Ativado o alerta, o primeiro procedimento é o contacto telefónico com a pessoa que está a precisar de ajuda. No caso de ninguém atender, elementos da equipa municipal de acompanhamento do projeto deslocam-se a casa da pessoa para perceber o que aconteceu.
Apesar das vantagens deste sistema de vigilância não invasivo da privacidade dos idosos, o vice-presidente da Câmara de Murça, António Marques, garante que "não invalida o acompanhamento humano" por parte de uma equipa multidisciplinar, porque "há outras debilidades na população mais velha". Uma boa parte, salienta, "precisa de medicação permanente, já que sofre de doenças crónicas".
Os aparelhos instalados nas casas dos idosos fazem parte de um sistema de domótica desenvolvido pela empresa Dótima Technologies. O objetivo da domótica passa por centralizar o controlo das funções de vários sistemas como a iluminação, a climatização, o aquecimento ou controlo de eletrodomésticos num único local como um smartphone ou tablet.

