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31.8.23
Luísa Lopes: “Falamos das quotas de género; e as quotas de idade?”
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11.7.23
Os mais velhos dos portugueses sentem-se doentes e insatisfeitos com rendimentos
No Dia Mundial da População, a Pordata traça um retrato dos portugueses com 65 anos ou mais, que já constituem quase 24% do total dos residentes no país.
São cada vez mais, vivem mais anos, mas o aumento da esperança média de vida é acompanhado de poucos anos vividos de forma saudável e, não fossem as prestações sociais do Estado, a esmagadora maioria viveria na pobreza. No Dia Mundial da População, a Pordata traça o retrato dos portugueses com 65 anos ou mais, que já constituem quase 24% da população. O desenho ainda é preocupante, mas há variantes negativas que deverão mudar nos próximos anos.
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Luísa Loura, directora da Pordata, diz que as duas questões – poucos anos de vida saudável e risco de pobreza – “se interligam muito” e salienta que, quanto mais velhas as pessoas, pior é a situação. “Os principais problemas estão no grupo dos muito mais velhos, sobretudo nas pessoas a partir dos 80 anos. Estamos a falar de uma população maioritariamente feminina, que seria sobretudo doméstica e que ao longo da vida não fez descontos. As pensões que recebem serão, eventualmente, de viuvez, mas os próprios maridos não terão tido uma carreira contributiva muito longa, já que a obrigatoriedade de se fazer descontos é relativamente recente, dos anos 1980. Ou seja, são pessoas que na altura do 25 de Abril [de 1974] teriam 30 ou 40 anos, mulheres que estariam em casa e muitos homens que não faziam descontos. É um lastro que vem de antigamente”, diz.
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Mas, Luísa Loura também acredita que este cenário menos animador irá evoluir para um mais optimista, nas próximas décadas. Porque, diz, a população que tem agora entre 55 e 64, e que constituirá os octogenários do futuro, representa uma “alteração profundíssima” da sociedade portuguesa. São pessoas com mais escolaridade, que descontaram ao longo da vida, que tiveram mais acesso a cuidados médicos. “Este grupo, acima dos 65 anos, vai aumentar muito até aos 3,3 milhões de pessoas, em 25 anos. Mas, acredito que, apesar deste aumento, o esforço sobre a sociedade, proporcionalmente, não irá aumentar tanto, por causa destas mudanças”, diz.
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No campo do combate à solidão, Luísa Loura salienta ainda os dados relacionados com as actividades agrícolas. Em 2019, mais de 243 mil idosos trabalhavam ou ocupavam-se com a agricultura, e a directora da Pordata acredita que este dado não reflecte apenas o facto de os mais velhos estarem mais presentes no interior do país ou de a agricultura poder ser uma forma de ajudar a equilibrar o orçamento familiar. “Para muitos será esse complemento ao rendimento, mas para outros é uma nova ocupação pós-reforma. Uma forma de as pessoas saírem do isolamento. Conheço vários casos de pessoas já aposentadas que saíram de Lisboa e agora estão a dedicar-se ao trabalho do campo, em terras que eram da família, numa espécie de hobby com frutos concretos”, diz.
23.6.23
O envelhecimento não é igual para todos. O que se deve e pode fazer?
O Expresso e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) juntam-se para debater as últimas cinco décadas de democracia em Portugal. Nos próximos 10 meses, vamos escrever (no Expresso) e falar (na SIC Notícias) sobre 10 tópicos diferentes da sociedade à economia. Neste mês de junho, o tema será como nos adequamos ao envelhecimento da população
OS FACTOS
Em 2021, 25% da população que vivia abaixo do limiar da pobreza tinha 65 anos ou mais, segundo o relatório “Pobreza e Exclusão Social em Portugal” desenvolvido pelo Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza.
Este valor sobe para 26,7% quando consideramos a população com 75 anos ou mais.
O risco de pobreza nos idosos não é só monetário, mas também material e social: entre 2019 e 2021, aumentou 33% versus uma subida de 2% na população dos 18 aos 64 anos.
De acordo com Alda Azevedo, doutorada em demografia e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), 30% das pessoas com 65 e mais anos não conseguem aquecer as suas casas.
E segundo dados da GNR e da PSP referidos neste relatório, em 2021, foram sinalizados 45,7 mil idosos em situações de isolamento geográfico e social, vulnerabilidade física e psíquica e vítimas de violência.
As mulheres são as mais afetadas porque vivem mais anos que os homens, mas em condições menos dignas e com mais problemas de saúde.
COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI
No que respeita ao aumento significativo da pobreza material e social nos idosos, o covid-19 foi uma das principais justificações porque, por serem um grupo de maior risco, foram obrigados a estar mais isolados.
Segundo Alda Azevedo, isto foi mais significativo no interior, por causa do despovoamento que se tem verificado nos últimos 30 a 40 anos, mas, acrescenta Pedro Góis, sociólogo e professor na Universidade de Coimbra, também foi uma realidade nas cidades. Aliás, já o era antes da pandemia, diz.
“No mundo urbano também há cada vez mais segregação. Os velhos para um lado e as famílias para outro”, comenta o sociólogo Pedro Góis.
Apesar de não ser considerada uma condição médica, a solidão é muito nociva para a saúde: “há estudos que apontam que a solidão faz pior que o tabaco”, repara Alda Azevedo.
A escassez de lares e residências sénior é uma das razões para haver tantos idosos a viver sozinhos. Segundo dados da Carta Social, que analisa a dinâmica da Rede de Serviços e Equipamentos Sociais, mesmo com o aumento de 53% no número de lares desde o ano 2000, ainda só são cerca de 2600 em todo o território nacional. Claro que há também lares e residências privadas, alguns deles ilegais, mas os preços não são acessíveis a todas as famílias e muito menos a todos os idosos, cujas pensões são baixas.
Para Alda Azevedo, “na faixa etária dos 65 e mais anos existem grandes desigualdades sociais em Portugal que decorrem, precisamente, dos rendimentos e da riqueza acumulada ao longo da vida e das pensões que se recebem. Quem tem mais dinheiro, consegue ter mais condições de vida durante a velhice”.
Mas esses são poucos, porque uma parte da população idosa atual, apesar de ter trabalhado desde muito cedo, não teve empregos qualificados e bons salários, logo recebem pensões baixas e vivem em piores condições. E isto é ainda mais evidente nas mulheres do que nos homens, acrescenta, porque as mulheres que são mais velhas agora ou nunca estiveram empregadas e não descontaram, logo recebem a pensão mínima, ou tinham salários mais baixos que os dos homens, e recebem menos de pensão.
PARA ONDE CAMINHAMOS
As perspetivas não são muito animadoras.
Por um lado, as despesas dos mais velhos tendem a aumentar a cada ano que passa porque, repara Alda Azevedo, “se continua a apostar mais numa medicina curativa do que preventiva”. E os aumentos das pensões não são muito expressivos, porque dependem do crescimento da economia e da inflação. Este ano, por exemplo, subiram cerca de 4% em janeiro, ou €26,6 numa reforma de €550, e em julho vão ter mais um aumento extraordinário, que, neste caso, será de mais €19,6 por mês.
Depois, não se perspetivam alterações nas políticas do Estado para melhorar as condições de vida dos idosos.
Por exemplo, segundo escreveu o Expresso em março, o Programa de Recuperação e Resiliência tinha €417 milhões para melhorar e alargar a rede de lares, residenciais e centros de dias, criando 26 mil novas vagas, e desenvolver uma “nova geração de apoio domiciliário”, construindo 22 projetos de cohousing [partilha de casa]. Mas, os concursos já estão todos feitos e o Estado ainda só pagou às entidades responsáveis cerca de 8% dos fundos disponíveis.
Além disso, não há ainda uma resposta adequada para os 30% de idosos que passam frio dentro da sua própria casa e que, por isso, “têm mais probabilidade de ter problemas cardiovasculares e respiratórios, aumentando as suas necessidades de cuidados médicos e, consequentemente, os gastos do Estado”, nota Alda Azevedo.
Nem há medidas para tornar os espaços e transportes públicos mais adequados a idosos, o que evitaria quedas e as suas consequências. Nem há uma estratégia para repovoar o interior do país, por exemplo, com os imigrantes, repara Pedro Góis. “Não percebo porque é que os centros de emprego continuam a ser locais e não nacionais”, remata.
2.5.23
Envelhecer com saúde? Medicina de longevidade vai estar em debate em Cascais
“Longevity Med Summit” vai reunir cientistas e investidores de vários países, a 4 e 5 de Maio, em Cascais.
Leia aqui mais sobre este tema: Só um sexto dos idosos diz ter boa saúde. Portugal é o terceiro pior na União Europeia
O futuro passa por prevenir e tratar as doenças associadas ao envelhecimento. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, mas, se os portugueses ganharam anos de vida, o país continua distante daqueles que têm uma longevidade com maior número de anos livres de doença, destacam os responsáveis pela organização daquele que é apresentado como o “maior evento” sobre medicina da longevidade – o “Longevit Med Summit” –, que vai reunir em Cascais, nos próximos dias 4 e 5 de Maio, investigadores e cientistas de renome internacional e empreendedores com um total de “10 mil milhões” de euros disponíveis para investir nesta área.
Envelhecer com saúde é possível e é sobre a revolução tecnológica em curso, sobre novas terapias e diagnósticos, e sobre oportunidades de negócio nesta área que se vai falar neste encontro.
“O aumento da esperança de vida traz muitos desafios ao sistema de saúde. Se atrasarmos a progressão do envelhecimento biológico, vamos prevenir as doenças todas. O ideal é que as pessoas não fiquem doentes. E a investigação científica tem dado muitas pistas sobre como se pode aumentar a longevidade saudável”, observa Cláudia Cavadas, investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular e professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, uma das oradoras, lembrando que a longevidade de cada pessoa depende apenas em cerca de 25% dos seus factores genéticos.
“A fórmula para a longevidade já é conhecida, passa pela alimentação saudável, qualidade do sono, interacção social, cuidados de saúde adequados, prevenção e prática de exercício físico", elenca, defendendo que “é preciso capacitar os profissionais de saúde” para este novo paradigma.
Neste encontro em que são esperados “mais de mil participantes”, vão debater-se os avanços da ciência do envelhecimento e falar-se de turismo de saúde, biotecnologia, medicina de precisão, medicina regenerativa e inteligência artificial, explica Jorge Lima, o responsável pela organização, para quem também é fulcral mobilizar os médicos para que passem a utilizar as novas ferramentas.
"O futuro da medicina é tratar as doenças associadas ao envelhecimento", diz Jorge Lima, notando que actualmente é "grande a ênfase no envelhecimento saudável" e é "crescente o interesse científico nas áreas da longevidade saudável".
Convicto de que as novas soluções e tecnologias se vão tornar mais acessíveis à medida que forem ganhando escala, defende que são muitas as novas oportunidades de negócio associadas à longevidade. No encontro vão, aliás, participar investidores de países como Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Singapura e, além de fundos de investimento, há também empresas e laboratórios interessados no desenvolvimento deste "mercado da longevidade", afirma.
Entre os oradores, destacam-se Shai Efrati, professor da Sagol School of Neuroscience da Tel Aviv University (Israel), “um dos principais cientistas de pesquisa em medicina hiperbárica do mundo”, Charles Brenner, presidente da Alfred E Mann Family Foundation (Departamento de Diabetes e Metabolismo do Cancro) no City of Hope National Medical Center (Estados Unidos), responsável por diversas pesquisas sobre a correlação do metabolismo, a diabetes e o aparecimento de doenças oncológicas, Andrea B. Maier, professora de Medicina na Universidade Nacional de Singapura e investigadora na área da gerontologia e prevenção de doenças relacionadas com a idade, e Aubrey de Grey , investigador inglês e autor do livro intitulado Ending Aging.
24.1.23
Os problemas do envelhecimento do país e a valorização do papel das pessoas idosas
Luís Filipe Pereira, opinião, in Jornal Sol
Para combater os efeitos do envelhecimento existe um recurso disponível que pode produzir resultados imediatos a curto prazo: a valorização das pessoas idosasEm 2020, Portugal era o 5.º país mais envelhecido do mundo, logo após o Japão, a Itália, a Grécia e a Finlândia.
Este envelhecimento do país tem profundas implicações em praticamente todas as áreas da sociedade portuguesa (social, económica, empresarial, cultural etc.) colocando já hoje problemas que se tornarão ainda mais graves no futuro.
Na área social o envelhecimento ameaça a sustentabilidade dos nossos sistemas de proteção social: saúde e segurança social.
Na saúde porque vai aumentar a necessidade de prestar cuidados de saúde a uma população cada vez mais idosa ao mesmo tempo que o número de pessoas com doenças crónicas vai ter, ainda, um maior impacto do que hoje, nos recursos que o país tem de dedicar a esta área.
Recorde-se que já hoje as doenças crónicas são responsáveis, aproximadamente, por 75% dos custos totais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e que estes custos têm vindo a subir continuamente.
Nos últimos 7 anos dos governos socialistas as despesas correntes totais do SNS aumentaram de 9,1 milhares de milhões de euros (MM) de 2015 (dados da Pordata) para 13,6 MM no Orçamento de 2022 (+49,4%), valor que será seguramente ultrapassado. Para 2023 o orçamento de custos do SNS será de 14,8 MM (+62,6% do que em 2015).
É indesmentível que esta evolução de custos comporta uma elevada ineficiência do SNS, o que conduz a custos que são muito superiores aqueles que seriam necessários para prestar os mesmos cuidados de saúde à população. Se aceitarmos que esta ineficiência seja da ordem dos 20% a 25% (como é generalizadamente reconhecido numa ótica conservadora) então, por referência ao Orçamento do SNS de 2022, teremos custos de ineficiência entre 2,7 e 3,4 MM
O grande aumento dos custos com a Saúde, atrás referido, denota, aliás, uma situação paradoxal, que se verifica hoje. Apesar das despesas (e dos recursos financeiros para lhes fazer face) terem aumentado, nos Orçamentos da Saúde em cerca de 50% desde 2015 até 2022, a resposta do SNS às necessidades da população tem vindo a piorar causando:
– Listas de espera mais elevadas para cirurgias;
– tempos de realização que, de forma significativa, não cumprem os prazos garantidos na lei, quer nas cirurgias, quer nas consultas nos Centros de Saúde e também nas consultas hospitalares que chegam a demorar um ou mais anos, em casos que não são exceções, e que têm grande expressão em algumas especialidades, como oftalmologia;
– mau atendimento e fecho repetido de urgências hospitalares;
– existência de 1,4 milhões de portugueses sem médico de família.
Isto é: mais recursos e piores resultados.
Mesmo tendo em conta esta ineficiência da gestão do SNS é impressiva a evolução dos custos que o envelhecimento provoca e que inevitavelmente agravará no futuro.
O envelhecimento ameaça também a sustentabilidade da Segurança Social (SS), porque o nosso sistema, dito de repartição (’pay as you go’ na terminologia inglesa) assenta, no essencial, no principio de que a geração atual (população ativa) gera a riqueza para suportar os benefícios adquiridos pelas gerações anteriores (pensões, fundamentalmente) e também para pagar as transferências sociais (subsídios da SS), esperando que as gerações vindouras assegurem o mesmo comportamento de solidariedade intergeracional.
O problema é que o envelhecimento põe em causa o alicerce em que assenta a viabilidade da SS pois será cada vez maior o número de pessoas idosas recebendo pensões (devido ao aumento da esperança média de vida), e progressivamente menor o número da população ativa (impondo rácios entre ativos e não ativos que se tornarão difíceis de sustentar) dado que as gerações vindouras serão em menor número devido à taxa de natalidade do país, das mais baixas a nível mundial.
Esta situação é ainda agravada com a entrada mais tardia no mundo do trabalho, do que anteriormente, das novas gerações (e portanto com menos receitas para a SS) e com a prática, nomeadamente, nas grandes empresas, das pré-reformas.
Este é um problema sério, estrutural, da SS e, na falta de uma estratégia coerente, determinada, visando o futuro, só poderá ser atenuado (remendado) no curto prazo por três ações todas elas penalizadoras da população: diminuição acentuada da taxa de substituição, ou seja, o valor da 1ª pensão é muito menor do que o último salário; aumento de impostos para financiar a SS; e aumento da idade de reforma para além do que hoje já está previsto na legislação em vigor que estabelece uma ligação entre a sustentabilidade da SS e a esperança média de vida.
Por outro lado, o crescimento e desenvolvimento económico, decisivos para dar melhores condições de vida à população (melhores salários, pensões mais altas, menores níveis de pobreza etc.) exigem uma população ativa em número adequado o que é comprometido pelo envelhecimento.
É evidente que o crescimento e desenvolvimento económico dependem também de outros fatores. Para além, em especial, da ação dos governos, outros fatores são igualmente decisivos como, entre outros, a produtividade e competitividade da economia, o seu grau de inovação, o investimento produtivo, a formação e o dinamismo da classe empresarial, mas mesmo estes fatores sofrem a influência do envelhecimento,
A situação descrita torna evidente a necessidade de uma estratégia, coerente, determinada, de combate ao envelhecimento do país e que este problema seja considerado uma prioridade das politicas públicas, o que não tem acontecido até agora.
Esta estratégia passa, normalmente, pela adoção de politicas de aumento da natalidade combinadas com politicas de emigração (diminuição da saída de pessoas para o exterior) e de imigração (atração de novos residentes).
As politicas de natalidade têm, no entanto, o problema de só produzirem resultados a médio/longo prazo (mesmo que hoje fossem tomadas medidas eficazes os seus efeitos só seriam sentidos no espaço temporal de uma geração) e os resultados das politicas de emigração/imigração são em larga medida dependentes do crescimento e desenvolvimento económico, que o próprio envelhecimento contraria.
Para combater os efeitos do envelhecimento nos diversos domínios mencionados (proteção social -Saúde e SS – economia, área empresarial etc.) existe um recurso imediatamente disponível que pode produzir resultados imediatos, a curto prazo: a valorização das pessoas idosas.
Esta valorização passa pelo aumento da participação/continuação das pessoas idosas no mundo do trabalho, através de politicas de envelhecimento ativo que se possam traduzir no aumento das taxas de emprego nas faixas etárias mais elevadas, desejavelmente nos escalões entre os 55 e 70 anos.
Esta valorização através do envelhecimento ativo terá por efeitos: maiores receitas para a SS; menores custos com pensões; menor pressão sobre o SNS, quer em termos de prestação de cuidados, quer em custos, pois uma vida ativa contribui para um envelhecimento mais saudável; e manutenção de uma população ativa beneficiando da qualificação de profissionais experientes que podem continuar a contribuir para o crescimento e desenvolvimento económico.
Este envelhecimento ativo deve corresponder a uma decisão voluntária das pessoas idosas que desejem prolongar a sua vida profissional, o que será mais provável em trabalhadores qualificados e nos quadros e menos nas profissões mais indiferenciadas que exigem um trabalho braçal e/ou repetitivo.
Para tal ser possível são necessárias alterações legislativas e na organização, funcionamento e atitude das empresas em relação às pessoas idosas.
Em particular na área legislativa, serão necessárias medidas de flexibilização da idade de reforma, de adoção de modalidades de reforma parcial, e de incentivos legais para as pessoas trabalharem mais tempo e para os empregadores contratarem e manterem os seus trabalhadores mais idosos.
No mundo empresarial haveria que generalizar o trabalho a tempo parcial, o trabalho por projeto, e horários flexíveis (tendo sempre presente a preocupação da formação continuada das pessoas idosas, em especial nas ferramentas digitais) e, ao mesmo tempo, uma mudança que conduza à diminuição das pré-reformas.
Por último, mas não menos importante, há um aspeto decisivo a alcançar em termos culturais: o combate ao ‘idadismo’ ou seja à discriminação e desvalorização das pessoas idosas na sociedade portuguesa.
2.12.22
Censos 2021: o país não devia estar a discutir o desequilíbrio demográfico?
Ajudar os cansados das cidades a mudarem-se para o interior, preparar hospitais para picos de procura, repensar lares, apostar em especialidades geriátricas. Eis como olhar o envelhecimento de frente.
A imagem de um país irremediavelmente mais envelhecido, com menos habitantes e com tendência a afundar-se no litoral, que emerge dos Censos 2021 está longe de constituir surpresa. Mas, se assim é, se temos hoje 182 idosos por cada 100 jovens e 20% da população concentrada em 1,1% da área do território, porque não estamos todos a discutir formas de contrariar estes desequilíbrios? “Temos mesmo de começar a olhar para estes problemas e começar a antecipar os seus efeitos, nomeadamente ao nível do envelhecimento”, alerta Pedro Góis, sociólogo e investigador das migrações do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Porque resulta claro que nem o aumento em 37,5% da presença de estrangeiros verificado na última década em Portugal vai rejuvenescer o país, os governantes têm de “deixar de ter vistas curtas”, como concorda a demógrafa Maria João Valente Rosa. “Sabemos pelos Censos que a população diminuiu em 2,1% na última década, mas a população acima dos 44 anos aumentou. E é interessante notar que as pessoas com 85 ou mais anos de idade passaram de 234 para 353 mil e as pessoas com mais de 100 anos duplicaram a sua expressão no país. Portanto, é preciso começarmos a repensar os nossos pressupostos de sociedade, que não estão adaptados a estas novas realidades”, acrescenta a também professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Detenhamo-nos por instantes no retrato do país em números que foi divulgado nesta quarta-feira. Nos últimos 10 anos, perdemos 219.112 residentes, num decréscimo de 2,1% que só encontra paralelo na década de 1960, em que aldeias e cidades do interior se esvaziaram à boleia da emigração. A quebra populacional é extensível à maior parte das regiões, com excepção do Algarve e da Área Metropolitana de Lisboa, que cresceram 3,6% e 1,7%, respectivamente. E, enquanto 20% dos residentes se concentram nos sete municípios mais populosos que abarcam os referidos 1,1% da área do país, outros 20% espalham-se por 208 municípios menos povoados e que ocupam 65,8% da área do país.
“Esse desequilíbrio, que nos dá conta de vastas áreas do território vazias, preocupa-me porque os locais que podiam funcionar como âncoras e dinamizador de um interior vasto também estão a perder população”, começa por notar o geógrafo Jorge Malheiros, para quem o problema até surge nomeado no discurso político, “mas os subsídios ficam aquém do que se espera e o carácter estrutural das políticas que estão pensadas também fica aquém”.
Importaria assim “cuidar melhor dos serviços públicos nestas áreas” e, mais do que pretender forçar a natalidade nos concelhos do interior, “facilitar a mudança para estas zonas de uma população mais velha, mais qualificada e experiente, mas ainda com saúde e que está cansada de viver nas grandes cidades”. “Não é transferir os idosos para o interior”, ressalva o investigador, “mas, designadamente nesta altura em que desenvolvemos as redes de comunicação e aprendemos as vantagens de estar fora das cidades, abrir este novo horizonte que vai para além dos jovens e da fecundidade”.
Efectivamente, a baixa natalidade e o aumento da longevidade conjugados agudizaram o estreitamento da base da pirâmide etária. Em 2021, a idade média da população aumentou para os 45,4 anos, o que traduz um aumento de 3,1 anos face a 2011, ao mesmo tempo que o país começou a ter 182 idosos por cada 100 jovens (128 em 2011).
Ao mesmo tempo, “o índice de rejuvenescimento da população activa em 2021 é 76, significando que, potencialmente, por cada 100 indivíduos que saem do mercado de trabalho, apenas ingressam 76”, conclui o INE.
Em termos globais, as pessoas com 65 ou mais anos de idade são já 23,4% da população, enquanto as crianças e jovens até aos 14 anos de idade são apenas 12,9% dos residentes. No intervalo censitário, de resto, assistiu-se a um decréscimo da população em todos os escalões etários até aos 39 anos, particularmente no grupo dos 30 aos 39 anos. “Em contrapartida”, enfatiza o INE, “todos os grupos acima dos 44 anos aumentaram a sua importância relativa”.
“Devíamos estar a preparar-nos em termos de infra-estruturas e serviços para este momento em que vamos todos ser mais velhos: os hospitais têm de estar preparados para os picos de gripe que vão levar muito mais gente às urgências, por exemplo; dentro da formação médica e de enfermagem, temos de começar a investir nas especialidades geriátricas, temos de pensar a estruturação dos cuidados continuados; de pensar se os lares que temos hoje são aqueles em que vamos querer estar”, retoma Pedro Góis.
Os desequilíbrios na distribuição da população no território também convocam a necessidade de “começar a pensar em agregar populações em locais que garantam qualidade de vida, em vez de deixar as pessoas a sobreviver em territórios desertificados, um pouco à semelhança, de resto, do que se fez há uns anos com as escolas”. “Não há milagres. Os que não nasceram já não vão nascer e não são os estrangeiros que vão vir para esses locais preencher os vazios”, reforça, dizendo-se convicto de que, vistos com maior zoom, os resultados destes censos “vão mostrar muitas freguesias em que já não está ninguém”.
Brasileiros dominam
Quando os Censos se realizaram, em Abril de 2021, havia 542.314 estrangeiros a residir no país, ou seja, 5,2% da população, contra os 3,7% de 2011. No intervalo censitário, o crescimento dos estrangeiros foi de 37,5%. Os brasileiros compunham de longe a maior comunidade estrangeira, com 199.810 pessoas, seguindo-se os angolanos (com 31.556 pessoas) e os cabo-verdianos (27.144). “Sem a mão-de-obra brasileira, o país não sobreviveria, basta olhar para o sector turístico”, avisa Góis, lembrando o recente alerta de Lula da Silva, aquando da sua passagem por Portugal, para que regressem.
Apesar de em muito menor número, os dados recolhidos pelo INE evidenciam ainda o forte crescimento das comunidades estrangeiras provenientes do Nepal (aumentaram de 959 pessoas em 2011 para 13.224 no ano passado) e do Bangladesh (de 853 para 9150 pessoas). “É a mão-de-obra mais barata do mundo”, ilustra ainda Pedro Góis, à laia de explicação para este crescimento da população asiática.
No outro lado da moeda, os Censos 2021 dão conta que o número de portugueses que já residiram no estrangeiro e que regressaram, entretanto, ultrapassavam os 1,6 milhões. Os ex-emigrantes concentram-se nas regiões Norte e Centro, além de na Madeira, sendo que regressaram maioritariamente de países como a França (23,2%), Angola (14%), Suíça (8,1%) e Brasil (7,2%). “Os que aparecem como regressados são, além dos retornados dos anos 70 e 80, são maioritariamente pessoas mais idosas e que vêm envelhecer o país, depois de terem chegado ao fim da carreira laboral nos países de acolhimento”, remata Góis.
O país em números
13,3%
foi quanto cresceu a população de Odemira, o concelho que mais cresceu na última década, sobretudo por causa do aumento da presença de imigrantes. No seu todo, a população reduziu-se em 219.112 pessoas, sendo que o Algarve e a Área Metropolitana de Lisboa foram as únicas regiões que cresceram
182
É o número de idosos por cada 100 jovens. Há dez anos, este índice de envelhecimento era de 128 idosos por cada 100 jovens, sendo que o Centro e o Alentejo apresentam os valores mais altos, com 229 e 219 idosos por cada 100 jovens, respectivamente. No extremo oposto, os Açores têm apenas 113 idosos por cada 100 jovens
76
É o número de pessoas que entram no mercado de trabalho por cada 100 que saem. A sustentabilidade e o rejuvenescimento da população activa agravaram-se em todas as regiões do país
1,7%
Foi quanto aumentaram os alojamentos na última década, num crescimento “significativamente inferior ao verificado em décadas anteriores”, segundo o INE, que aponta o Alentejo como a região que apresenta o parque habitacional mais envelhecido do país
22,3%
Dos alojamentos são arrendados e 70% são ocupados pelos respectivos proprietários, sendo os municípios do Norte e do Centro aqueles onde as casas são mais comummente habitadas pelos donos
112,5
Metros quadrados é a área média útil dos alojamentos em Portugal, sendo que, dos 4.142.581 alojamentos de residência habitual, 66,7% tinham uma área útil inferior a 119 metros quadrados
63,65
Dos alojamentos familiares de residência habitual estão sublotados (com divisões excedentes) e 12,7% estavam sobrelotados, com a maioria dos seus habitantes (76,5%) a acusarem a necessidade de mais uma divisão
19,9
Minutos é a duração média das deslocações pendulares entre casa e o trabalho ou a escola, num decréscimo muito ligeiro face aos 20 minutos de 2011. Na Área Metropolitana de Lisboa a média sobe para os 25,1 minutos, enquanto nos Açores, o percurso se faz em apenas 14,3 minutos em média.
21.11.22
O que será que o país tem que fazer para lidar com o envelhecimento?
As declarações dos protagonistas de mais uma webtalk sobre os desafios associados ao aumento da longevidade
“Em termos conceptuais, toda a estrutura de política económica devia ser adaptada a esta realidade do envelhecimento e do recuo demográfico”, defende Carlos Lobo, antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais
“Não temos nenhuma medida económica ou referência à economia do envelhecimento, contrariamente a outros países europeus”, refere Nuno Marques, presidente do Expresso | O que será que o país tem que fazer para lidar com o envelhecimento?
“A prioridade deve ser a de proporcionamos um envelhecimento saudável e ativo à maior parte da nossa população mais idosa”, diz Pedro Graça, diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.
15.11.22
Num país a perder população, o desafio é atrair trabalhadores
Portugal terá de conseguir atrair e reter trabalhadores para sustentar o seu mercado de trabalho e o sistema de protecção social.
Num mundo que esta semana chegou aos oito mil milhões de habitantes, Portugal debate-se com uma perda acentuada da população e um acelerado envelhecimento. Esta realidade irá agravar-se nas próximas décadas, obrigando o país a delinear políticas de atracção de mão-de-obra imigrante e de retenção de trabalhadores, para conseguir alimentar o seu mercado de trabalho e sustentar o sistema de protecção social.
Dorothea Schmidt-Klau, investigadora e especialista em envelhecimento na Organização Internacional do Trabalho (OIT), começa por sublinhar ao PÚBLICO que o crescimento demográfico é assimétrico e há “discrepâncias enormes” entre as várias regiões do globo, com impactos muito diversos no mercado de trabalho.
Por um lado, “temos regiões que estão a ficar cada vez mais jovens, principalmente em África, onde há uma elevada proporção de jovens a entrar na força de trabalho”. E, por outro, temos “sociedades envelhecidas, especialmente na Europa”, em que há mais pessoas a sair do mercado de trabalho do que a entrar e os que saem vivem muito mais tempo.
“Uma criança nascida hoje na Europa tem 50% de hipóteses de chegar aos 100 anos de idade e isso tem um enorme impacto nos rácios de dependência da velhice”, alerta.
Portugal está na linha da frente dos países que estão a perder população, a envelhecer mais rapidamente e a ver a sua força de trabalho encolher. O número de residentes caiu 2,1% para cerca de 10,3 milhões em 2021, o país tem agora 182 idosos por cada 100 jovens e, entre 2008 e 2021, a população activa recuou 382,8 mil pessoas e é agora inferior a 5,2 milhões (no contexto europeu, só a Roménia, que teve um recuo de 1,7 milhões na população activa, e a Grécia, com perdas de 392,5 mil pessoas, estão numa situação pior).
Perante este cenário, problemas que hoje já se fazem sentir, como a falta de mão-de-obra em determinados sectores e a dificuldade em reter uma população jovem cada vez mais qualificada, tenderão a agravar-se.
Para Francisco Carballo-Cruz, economista e professor na Universidade do Minho, o principal desafio dos estados com o perfil de Portugal “é encontrar fórmulas que permitam delinear políticas de imigração adaptadas às características do país e às necessidades do seu mercado de trabalho”.
“Em Portugal, o défice de mão-de-obra é um problema transversal à maioria dos sectores da economia, que afecta quer ocupações pouco qualificadas, quer ocupações altamente qualificadas, especialmente em sectores ligados às novas tecnologias. Sem boas condições de trabalho e sem remunerações competitivas será difícil atrair mão-de-obra imigrante, porque no actual contexto, na União Europeia, existe uma elevada concorrência pela mão-de-obra em geral e pela mão-de-obra imigrante em particular”, alerta.
Outro desafio, acrescenta, é conseguir “manter os trabalhadores portugueses no país, especialmente em sectores onde o atractivo das remunerações noutras economias da União Europeia é um forte incentivo para emigrar”.
Paulo Marques, investigador e coordenador do Observatório do Emprego Jovem (OEJ), partilha destas preocupações. E além da falta de mão-de-obra em sectores como a hotelaria ou a agricultura, alerta para a necessidade de a economia portuguesa crescer em sectores mais intensivos em conhecimento, que permitam absorver uma população jovem cada vez mais qualificada. “Mesmo aí vamos ter de ser também capazes de atrair e reter pessoas e isso passa pela habitação, pelo acesso aos cuidados de saúde ou pela qualidade do emprego”, sublinha.
Olhar para os mais velhos e antecipar necessidades
Além da inclusão de trabalhadores vindos de outros países, Dorothea Schmidt-Klau considera que a falta de mão-de-obra nas sociedades a braços com um envelhecimento galopante pode ser ultrapassada recorrendo a grupos arredados do mercado de trabalho, através de uma maior participação das mulheres ou aproveitando o potencial dos trabalhadores mais velhos.
“Uma das coisas mais urgentes a fazer é superar a discriminação etária nos mercados de trabalho. As pessoas mais velhas têm a reputação de serem caras, muitas vezes doentes, menos inovadoras, mais lentas. Mas estudos mostram que, com organizações do trabalho flexíveis, muitos idosos estariam disponíveis para trabalhar por menos, que na verdade eles não têm mais dias de baixa em comparação com os outros trabalhadores e muitas inovações são, na verdade, o resultado da longa experiência de trabalho dos idosos”, recomenda.
Para Francisco Carballo-Cruz, há também muito a fazer no planeamento e defende que os países com défice de trabalhadores deveriam apostar na melhoria dos processos de ajustamento no mercado de trabalho, através do reforço dos mecanismos de antecipação de necessidades de mão-de-obra.
Ao mesmo tempo, “os instrumentos de fiscalização deveriam estar melhor dotados para evitar abusos e melhorar a organização dos fluxos de trabalhadores” e “as políticas sociais de facilitação da integração de imigrantes e suas famílias deveriam ser uma das principais prioridades” dos governos.
Nos países onde o crescimento demográfico se manifesta com maior intensidade, a principal dificuldade está em acomodar um elevado número de jovens no mercado de trabalho. Só para se ter uma ideia, nota o investigador Paulo Marques, as taxas de desemprego jovem podem chegar aos 64% na África do Sul, aos 50% na Líbia ou aos 34,3% em Cabo Verde.
“O que vemos nos países em desenvolvimento é que o crescimento populacional leva ao crescimento do emprego. Mas quanto mais pobre é o país e quanto maior é a pressão populacional, mais provável é que o emprego criado seja de baixa qualidade. Os empregos criados nestas circunstâncias são geralmente na economia informal, onde as pessoas são mal remuneradas, não têm protecção social, os seus direitos não são respeitados e não têm voz no trabalho”, lamenta a especialista da OIT, lembrando que “o crescimento populacional e as mudanças demográficas são um dos principais motores do emprego” para o bem e para o mal.
6.10.22
Nunca houve tantos professores no superior. Números também mostram envelhecimento e precariedade
Perto de 39 mil docentes estão ao serviço de universidades e politécnicos, tendo aumentado 20% em sete anos. Mas pouco mais de metade tem vínculo a tempo inteiro e poucos chegam ao topo da carreira.
Nunca houve tantos docentes a dar aulas no ensino superior como no ano lectivo passado. Quase 39 mil professores estiveram ao serviço de universidades e politécnicos, o que significa um aumento de 20% nos últimos sete anos. O resto do retrato é feito no relatório Perfil do Docente, publicado pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), é menos benigno: a classe está envelhecida, há muitos contratos precários e poucos chegam ao topo da carreira.
Em 2021/22, trabalharam 23.564 professores nas universidades e 15.103 em politécnicos. Ao todo, havia 38.667 docentes. É o número mais elevado desde o início do século, de acordo com a série estatística disponibilizada pela DGEEC, que começa em 2001/2002. Mas atendendo ao crescimento que o ensino superior teve nas ultimadas décadas, este será também o maior número de professores no sector de sempre.
O anterior máximo de docentes no superior tinha-se verificado em 2010/11. Eram então 38.063 professores. De então em diante, fruto dos cortes orçamentais por que o sector passou durante a crise económica e o período da intervenção da troika, esse número desceu consecutivamente até 2014/15 (32.346). A recuperação posterior foi constante e, no espaço de sete anos, o número de profissionais no sector aumentou 20%.
Este crescimento no número de professores “fez-se com base na contratação a tempo parcial”. “É esse tipo de vínculos que está a aumentar”, aponta a presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), Mariana Gaio Alves. Outros dados da DGEEC revelam que o número de professores com contrato a tempo integral com dedicação exclusiva, isto é, aqueles que têm vínculos a 100%, tem vindo a diminuir. Em 2012/13 representaram 65,5% do corpo de docentes. Em 2018/19, o último ano para o qual há dados sobre este indicador, eram pouco mais de metade do total (53,1%).
O Perfil do Docente mostra também que as carreiras estão praticamente paralisadas. Apesar de um aumento do número de professores de 20% nos últimos anos, o número de professores catedráticos, o topo da carreira para os docentes universitários, está praticamente estável – são 1512, menos dez do que em 2015/16. Já o total de professores assistentes, a categoria de entrada na carreira, aumentou quase 10%. São agora 10.529 nas universidades, 45% do total dos que trabalham nas universidades.
Há uma “lógica de precarização do trabalho e de contratação a tempo parcial”, afirma também a presidente do Snesup. Há hoje “uma massa imensa de professores contratados a tempo parcial”, afirma, acusando as universidade e politécnicos de recorrerem a esse tipo de contratação para “contratarem os professores por menos dinheiro”, já que o vencimento de um contrato a tempo parcial é inferior ao dos docentes a tempo integral. “Temos colegas com muita experiência que continuam a tempo parcial o que significa muitas vezes receber salários inferiores a 1000 euros”, lamenta.
Contratos a tempo parcial
A presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Maria José Fernandes, recusa a ideia de que haja “um abuso” do recurso a contratos a tempo parcial e no recurso à figura do docente convidado. “Estes professores têm uma missão importante, trazem um conhecimento exterior à academia”, defende, ainda que reconheça que as instituições têm sido “prudentes” na abertura de posições permanentes na carreira, “antecipando a quebra de alunos que pode vir a haver nos próximos anos” por motivos demográficos.
O crescimento do número de professores no ensino superior nos últimos anos foi maior nos politécnicos (mais 25%), algo que a presidente do CCISP relaciona com o aumento de estudantes nos cursos técnicos superiores profissionais, formações superiores de dois anos que são um exclusivo deste subsector. Actualmente, há cerca de 18 mil inscritos nesta oferta, criada em 2015/16. “Contratámos muitos docentes para estes cursos, mas estes não podem ser professores de carreira. Pretende-se que sejam pessoas das empresas, que tragam a sua experiência para as aulas práticas”, contextualiza Maria José Fernandes.
Onde sindicatos e responsáveis das instituições de ensino estão de acordo é no “problema” que representa para o sector o envelhecimento dos corpos docentes. De acordo com os números publicados pela DGEEC, a média etária dos docentes ao serviço de universidades e politécnicos passou de 41 anos de idade, em 2001/2002, para 48 anos no último ano lectivo. “O aumento do número de professores não é suficiente para inverter a tendência de envelhecimento que temos estado a verificar”, nota a dirigente do Snesup Mariana Gaio Alves
“Precisamos de uma renovação. A pandemia revelou muitas das dificuldades dos professores mais velhos para se adaptarem às mudanças que precisamos de fazer no ensino”, afirma, por seu turno, Maria José Fernandes do CCISP.
1.9.22
Menos crianças e mais idosos: Portugal é o país da UE que está a envelhecer mais rapidamente
Em 1990, o rácio era de 66 idosos por cada 100 jovens. Hoje estamos nos 182 por cada 100. Pordata calculou a evolução entre 2015 e 2020 nos vários países da UE. E em Portugal há quase duas vezes mais idosos do que jovens e crianças.
Portugal é país da União Europeia onde o índice de envelhecimento — o rácio entre o grupo dos mais velhos (a partir dos 65 anos) e o dos mais novos (0 a 14 anos) — tem crescido com maior rapidez nos últimos anos.
Cálculos feitos pela equipa da base de dados estatísticos Pordata para o período compreendido entre 2015 e 2020 indicam que Portugal registou “uma taxa de crescimento médio anual do índice de envelhecimento” da ordem dos 3,6%, o ritmo mais acelerado no conjunto dos países da UE, mesmo superior ao de Itália — que em 2020 era o país com mais idosos por cada 100 jovens e crianças. Portugal subira, então, para o segundo lugar da lista.
O envelhecimento “não é dramático” mas “as sociedades precisam da energia dos jovens”
“Esta taxa de crescimento foi calculada na lógica das taxas de juro, olhando para 2015 e 2020, sem considerar valores intermédios”, explica ao PÚBLICO a directora da Pordata, Luísa Loura. O que se observa é um estreitamento progressivo e veloz da base da pirâmide etária e o alargamento do topo, que se voltou a acentuar em 2021, quando a relação entre os mais velhos e os mais novos passou para 182 por 100 em Portugal, de acordo com os dados provisórios do último censo. “É a base da pirâmide que está muito estreita”, enfatiza.
Este indicador é relevante porque ilustra o processo de duplo envelhecimento da população residente em Portugal. E o que se percebe é que o processo “está a ser mais rápido do que nos outros países”, em resultado do aumento da esperança de vida, por um lado, e da contínua quebra da fecundidade e da natalidade, por outro, nota Luísa Loura.
Centro e Alentejo são as regiões mais envelhecidas
Quando divulgou os resultados provisórios do Censos 2021, em Dezembro passado, o Instituto Nacional de Estatística (INE) chamou a atenção para este fenómeno. “O envelhecimento demográfico em Portugal continuou a acentuar-se de forma muito expressiva, salientando os desequilíbrios já evidenciados na década anterior”, destacou o INE, lembrando que em 2011 este índice era de 128 idosos por cada 100 crianças e jovens até aos 14 anos, e de 102 em 2001, ano em que a relação entre os dois grupos etários se inverteu.
Desde então, o número praticamente duplicou, corresponde agora quase ao dobro do total de jovens e crianças e a transformação aconteceu num curtíssimo espaço de tempo — em 1990, o rácio era ainda de 66 idosos por cada 100 jovens. A equipa da Pordata calcula que as taxas de crescimento médio anual do índice de envelhecimento ficaram acima dos 3% durante os anos 90 do século passado, para “abrandarem durante a primeira década deste século” e voltarem a crescer a partir de 2010.
O envelhecimento demográfico é uma tendência transversal ao conjunto dos países da União Europeia, onde as consistentemente baixas taxas de natalidade e a maior esperança de vida estão a transformar a forma da pirâmide etária desde há décadas.
Porém, na análise de curto prazo feita pela Pordata, projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, entre 2015 e 2020 há dois países em que o índice de envelhecimento não aumentou: a Alemanha e a Suécia registaram mesmo uma ligeiríssima redução neste período (menos 0,1%). De resto, este rácio subiu em todos os outros países e com maior rapidez, além de Portugal, na Irlanda (que, ainda assim, continua a ser o menos envelhecido de todos, com 72 idosos por 100 crianças em 2020), na Finlândia e nos Países Baixos.
Em Portugal, o aumento do índice de envelhecimento é comum a todas as regiões do país, como sinalizou o INE, mas era mais expressivo no Centro e no Alentejo, com 229 e 219 idosos por cada 100 jovens no ano passado, respectivamente. Em contrapartida, a Região Autónoma dos Açores, Área Metropolitana de Lisboa e Região Autónoma da Madeira tinham então os índices mais baixos: 113, 151 e 157. Oleiros, Alcoutim e Almeida eram os municípios do país mais envelhecidos, com sete vezes mais idosos do que jovens.
Na última década, a população decresceu em todos os grupos etários, com excepção dos idosos, que representavam no ano passado já quase um quarto do total dos residentes no país (23,4%) e o grupo das crianças e jovens até aos 14 anos foi o que sofreu a redução mais expressiva, correspondendo então a apenas 12,9% da população.
Imigrantes, precisam-se
Feitas as contas, procuram-se explicações e respostas. “A distância entre os dois grupos — os mais novos e os mais velhos — está a acentuar-se em Portugal. O grupo dos mais novos está a diminuir muito e o dos mais velhos está a aumentar muito. A consequência é esta e é preocupante”, sintetiza Paulo Machado, presidente da Associação Portuguesa de Demografia.
“O problema é que toda a nossa organização social assenta na relação entre grandes grupos etários e, quando isto se desequilibra, temos que perguntar: como é que nos organizamos agora?” Para Paulo Machado, “a solução à vista é a imigração”. Os imigrantes chegam em idades mais jovens e têm mais filhos, e a sua contribuição para a natalidade é significativa, lembra.
Mas isso não será suficiente para “estancar a hemorragia” populacional e as “as projecções indicam que, pelo menos até 2050, 2060”, este índice continuará a agravar-se e “até lá o país poderá perder 2,5 milhões de habitantes”.
“Temos que trabalhar em duas frentes — dar condições aos jovens portugueses para terem famílias mais numerosas e criar condições para que quem vem de fora se sinta cá bem e fique”, complementa Luísa Loura, apontando o exemplo da Alemanha, país que “abriu muito as portas à imigração”.
A directora da Pordata sublinha ainda que há países, como a França, que conseguem ter um índice de longevidade (número de pessoas com 80 e mais anos por cada 100 com 65 e mais anos) dos mais elevados e, simultaneamente, um dos índices de envelhecimento mais baixos. “Isto significa que França consegue ter a base da pirâmide suficientemente alargada, conseguiu reforçá-la com uma série de políticas para a natalidade que surtiram efeito.”
Portugal, pelo contrário, não está a conseguir ampliar a base da pirâmide e esse é que é “o nosso problema”. E o futuro não se afigura risonho, se nada se alterar entretanto. O índice se envelhecimento continuará crescer nos próximos 35 anos, porque o grupo etário dos 45 aos 49 anos e os grupos acima destas idades, “dos 50 aos 54 anos e por aí fora”, são os mais volumosos e “têm muito peso na pirâmide etária”, explica.
Na década de 50, o número de idosos atingirá o valor mais elevado, momento a partir do qual passa a decrescer. Estamos, portanto, num processo de aceleração do envelhecimento que não vai durar para sempre mas ainda vai durar muitos anos. “É imprescindível que Portugal integre pessoas vindas de outros países”, repete.
No mesmo sentido, nas projecções populacionais feitas em Março de 2020, o INE já apontava para uma quase duplicação do índice de envelhecimento em Portugal entre 2018 e 2080, ano poderá haver 300 idosos por cada 100 jovens, em resultado do contínuo decréscimo da população mais nova.
“O índice de envelhecimento só tenderá a estabilizar na proximidade de 2050, quando as gerações nascidas num contexto de níveis de fecundidade abaixo do limiar de substituição das gerações já se encontrarem no grupo etário 65 e mais”, concluía.
29.7.22
Exercício físico e atividades cognitivas previnem a perda de raciocínio à medida que se envelhece
As conclusões são de um estudo publicado na revista Neurology.
Manter o corpo e o cérebro ativos pode ser a fórmula para uma melhor saúde mental à medida que se envelhece.
Entre as principais manifestações do envelhecimento cognitivo estão a diminuição da velocidade de raciocínio, a perda de memória e atenção e ainda as dificuldades de linguagem. Contrariar esta tendência pode contribuir para um pensamento mais rápido, conseguir manter o foco nas tarefas e ter uma maior capacidade de relacionamento com outras pessoas, segundo a CNN Internacional.
As conclusões de um estudo desenvolvido nos EUA mostram que o processamento mental das mulheres pode beneficiar mais do que o dos homens do exercício físico. Já de atividades cognitivas, tanto homens como mulheres, beneficiam.
"Descobrimos que uma maior atividade física estava associada a uma maior capacidade de pensamento em mulheres, mas não em homens", afirmou a autora do estudo Judy Pa, professora de neurociências da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, em San Diego, num comunicado divulgado, cita do CNN Internacional.
Neste estudo participaram 758 pessoas, com uma média de idades de 76 anos. Alguns participantes mostraram ter sinais de défice cognitivo e demência, enquanto outros não tinham qualquer problema associado. Todos foram questionados pelas atividades físicas e cognitivas semanais que praticavam e fizeram testes de memória e de raciocínio.
A prática de exercício físico em representou "cerca de 2,75 anos a menos no envelhecimento cognitivo em mulheres", segundo Richard Isaacson, diretor da Clínica de Prevenção de Alzheimer no Centro de Saúde do Cérebro do Schmidt College da Florida Atlantic University.
Atividades como aulas, jogar cartas ou ler diminuiu a perda de raciocínio, em média, 13 anos - 17 anos nos homens e 10 anos nas mulheres, segundo o estudo.
Esta ideia levou a responsável do estudo a concluir que, havendo poucos ou nenhuns tratamentos eficazes para a doença de Alzheimer, a prevenção é crucial.
"Saber que as pessoas podem melhorar as reservas cognitivas através de medidas simples, como ir às aulas numa universidade sénior ou centro de dia, jogar bingo com os amigos ou passar mais tempo a caminhar ou a cuidar do jardim é muito entusiasmante", disse Judy Pa.
Ainda assim, este estudo tem limitações, por exemplo, não controlou fatores como a educação, que afeta a forma como o cérebro envelhece. Isaacson explica que o exercício físico e o exercício da mente foram o foco deste estudo, no entanto uma "abordagem abrangente para reduzir os fatores de risco de Alzheimer é a melhor receita para o sucesso".
Para além disso, qualquer plano de prevenção deve também incluir acompanhamento regular de um médico de cuidados primários, o controlo de fatores de risco, como tensão arterial, açúcar no sangue e colesterol, evitar fumar, minimizar o consumo de álcool, priorizar o sono, controlar o stress e seguir uma dieta equilibrada", acrescentou.
Quanto ao impacto do exercício físico e das atividades cognitivas na memória, o estudo não encontrou nenhum impacto significativo. Ou seja, uma maior ou menor atividade física, por exemplo, não foi associada à perda ou não da memória em homens ou mulheres.
15.6.22
Envelhecimento na função pública é transversal e tende a piorar. “Faz perigar o Estado social”
Há concursos que não abrem há décadas e outros que, abrindo, não vêem as vagas preenchidas. Sem tornar as carreiras mais atractivas será difícil inverter a situação.
Com a chegada do Verão agudiza-se o drama das conservatórias do país. A viver uma brutal falta de funcionários (sobretudo conservadores e oficiais de registos), há várias que correm o risco de ter de encerrar portas porque os poucos que existem vão de férias e não há quem os substitua. Acentua-se também o “bailinho das cadeiras” da mobilidade interna. “Pede-se funcionários emprestados por um bocadinho, para aguentar”, diz Margarida Martins, da Associação Sindical dos Conservadores dos Registos, desfiando o nome de alguns locais que arriscam ver interrompidos estes serviços nos próximos tempos: Vila Flor, Góis, Pampilhosa da Serra… O envelhecimento dos funcionários, um problema transversal a toda a função pública, associado à não abertura de concursos externos para a sua substituição, é a principal razão.
Um dos casos mais graves aconteceu na ilha do Corvo, onde, entre 2017 e 2018, a conservatória esteve encerrada por falta de funcionários. Arménio Maximino, do Sindicato dos Trabalhadores dos Registos e Notariado (STRN) diz que foram “seis meses” em que não era possível tratar de qualquer registo, fazer um divórcio, a regulação do poder parental ou um casamento. Basta olhar para o balanço social do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN), referente a 2020, para perceber que a situação é quase insustentável: havia, nessa altura, 1719 postos de trabalho previstos e não ocupados.
8.6.22
Portugal: Presidente da Cáritas destaca preocupação com problema da solidão dos idosos (c/vídeo)
«Há pessoas que estão isoladas e não sofrem de solidão, e há pessoas que sofrem de solidão e não estão isoladas» – Rita Valadas
Lisboa, 02 jun 2022 (Ecclesia) – A presidente da Cáritas Portuguesa afirmou que a questão da solidão dos idosos “é uma das mais preocupantes”, para a instituição e a nível da sociedade nacional.
“A solidão é um sentimento muito pessoal, é um desalento da sua situação pessoal, do não terem a oportunidade de ter uma conversa, de ter alguma pessoa de referência emocional”, precisou Rita Valadas, em declarações à Agência ECCLESIA.
A responsável afirmou que “não bastam” as respostas sociais para este problema, mas importa que estas situações “sejam identificadas e essa proximidade e capilaridade da rede Cáritas” permite que possam perceber essa situação, “quase fazendo radar e tentando acompanhar em cada uma a sua necessidade”.
“Ao contrário do que se pensa, esta situação não é só dos idosos, é também das crianças e jovens. O que ficou muito visível neste momento da pandemia”, realçou.
A entrevistada explicou que há pessoas que “estão isoladas e não sofrem de solidão” e há quem sofra de solidão “e não estão isoladas”, e sublinhou que “este tempo de pandemia agravou muito esta situação”.
Entre 25 e 27 de maio, a Rádio Renascença promoveu a iniciativa solidária ‘Três Por Todos’, que recolheu donativos para projetos que a Cáritas desenvolve com a população sénior.
23.5.22
O direito aos cuidados no nosso envelhecimento
Filipa Alves, opinião, in o Observador
Tendencialmente, a institucionalização deve ser a última das respostas a ser dada às pessoas idosas. Teremos de implementar novos conceitos, como aldeias seniores, que se distingam pelos serviços.
Em 2050, as pessoas com 65 anos ou mais vão representar 25 por cento da população que vive no nosso país. A Organização Mundial da Saúde tem alertado para esta alteração demográfica, semelhante noutros pontos da Europa, defendendo a necessidade de existirem mais cuidados integrados, uma orientação para a avaliação centrada na pessoa e o reforço dos cuidados primários. Outra prioridade é a redução do risco de declínio cognitivo e demência.
O envelhecimento ativo pode ser parte da solução, otimizando a capacidade intrínseca e a habilidade funcional da pessoa idosa. No entanto, exigem-se melhorias no acesso a diagnósticos, vacinas, medicamentos essenciais e tecnologias auxiliares.
O encorajamento e reforço da utilização do digital nos cuidados integrados é outro caminho, sendo necessário eliminar potenciais barreiras. Aqui, também entra em equação a própria sustentabilidade dos sistemas de saúde, que estiveram sob pressão acrescida durante a pandemia e viram em novas ferramentas uma resposta alternativa. Paralelamente, será importante desenvolver uma força de trabalho mobilizada, adequadamente treinada e com mais competências na área da geriatria e gerontologia. Público e privado são chamados a complementarem-se, em termos de recursos e na sua relação com os mecanismos de proteção social.
Mais do que nunca, viver mais significa viver melhor. E viver melhor é, à medida que o tempo passa, o exercício de fazer valer direitos e ter uma palavra a dizer sobre o nosso futuro. A participação ativa na sociedade também passa pelos cuidados que podemos (e devemos) escolher no nosso envelhecimento.
Recentemente, o interessante estudo Live and Work Well at Home, conduzido em quatro países europeus – Alemanha, Espanha, França e Itália –, concluiu que cerca de 60 por cento dos participantes cuidavam de um familiar idoso e 47 por cento tinham essa responsabilidade numa base diária. Não é de estranhar que 66 por cento dos inquiridos demonstrassem interesse em subscrever um serviço de apoio, considerando-o “altamente valioso”. Entre as necessidades identificadas, três saltavam à vista: cuidados ao domicílio (higiene e alimentação), saúde em casa (enfermagem e exames médicos), dispositivos de emergência (tecnologias, por exemplo, para detetar quedas).
Se há algo que a pandemia veio sublinhar é a importância da casa, enquanto centro da vida de cada um de nós. Um porto seguro, quando reunidas condições de habitabilidade, salubridade, enfim, dignidade. Portugal, que tem das maiores taxas de cuidados domiciliários informais da Europa, tarda em dar um salto. Porque estes cuidados domiciliários informais são, essencialmente, assegurados por familiares, sem formação e, por vezes, sem capacidade física ou mental para responder da melhor forma.
Tendencialmente, a institucionalização deve ser a última das respostas a ser dada às pessoas idosas. Desenraizá-las das suas comunidades tem um custo demasiado elevado, seja económico, seja social, seja da própria saúde, conforme está documentado em diversas investigações. No caso de ser necessário atuar, teremos de implementar novos conceitos, como aldeias sociais ou aldeias seniores – ofertas residenciais para idosos, que se distinguem pelos serviços que podem ir desde saúde, alimentação, até bem-estar e atividades desportivas. Em alguns casos, até podem ter uma componente de dinamização de concelhos despovoados.
O desafio é criar, cada vez mais, equipas multidisciplinares para planear estas respostas e políticas públicas. O relógio não para e, um dia, vamos querer usufruir daquilo que defendemos, hoje, em nome da dignidade de todos.
T
19.5.22
Covilhã: Capacitação para o voluntariado à população idosa
O projeto Círculo de Cuidados iniciará as ações de capacitação de voluntários para o acompanhamento à população sénior.
O programa de capacitação será dividido em sessões online e presenciais. As sessões presenciais decorrerão nos dias 20 e 30 de maio, na Covilhã.
O objetivo das sessões é capacitar o trabalho no âmbito do voluntariado à população sénior, indo ao encontro das necessidades, expetativas e interesse, tanto das comunidades como dos voluntários e daqueles dos quais depende o seu trabalho. O programa de capacitação abordará as dimensões do cuidado humanizado, autonomia, dignidade, privacidade e colaboração interdisciplinar. As sessões têm também como propósito mostrar o papel do voluntário, os seus direitos, deveres e código de conduta.
O Círculo de Cuidados é um projeto de transformação social, executado em parceria pela RUDE- Associação de Desenvolvimento Rural, a Santa Casa da Misericórdia da Covilhã e a Cooperativa de Solidariedade Social Aproximar, que apela ao cuidado de pessoas idosas, procurando criar redes de ajuda entre organizações e indivíduos de uma comunidade que queiram prestar apoio voluntário aos seniores.
O projeto visa a criação de círculos de suporte em torno da pessoa idosa em concreto e das suas necessidades especificas, colmatando o isolamento social e a solidão, através da dinamização de redes e a capacitação de cuidadores voluntários de apoio aos seniores, articulando esforços institucionais em torno de cuidados e cuidadores.
O projeto Círculo de Cuidados que iniciou o piloto na freguesia do Tortosendo, com o apoio a 20 seniores, alargou a sua intervenção para as zonas de maior envelhecimento populacional na cidade da Covilhã onde já apoia mais de 40 seniores.
Recorde-se que o projeto foi distinguido na 2ª edição dos prémios BPI “la Caixa” Rural.
Inscrições para voluntário em https://bit.ly/3wn9ITn.
Porque faltam professores nas escolas portuguesas? Algumas respostas
O envelhecimento do corpo docente e a a pouca procura pela profissão são dos maiores problemas da área da educação.
A falta de professores nas escolas portuguesas é um problema para o qual sindicatos e organizações de educação têm alertado há mais de uma década.
As últimas estimativas apontam para que, já no próximo ano, cerca de 110 mil alunos do ensino obrigatório não tenham professor a pelo menos uma disciplina.
O envelhecimento da classe docente, e consequente aposentação, e a pouca procura pela profissão por parte dos jovens agravou a situação, tendo levado a atual equipa do Ministério da Educação a anunciar medidas para tentar travar o problema.
QUAL A SITUAÇÃO ATUAL?
Dentro de um ano, cerca de 110 mil alunos não terão professor a pelo menos uma disciplina, segundo uma estimativa de Luísa Loura, diretora da base de estatísticas Pordata e ex-diretora da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.
O levantamento revela ainda que, daqui a três anos, o problema atinja 250 mil alunos, ou seja, mais de metade dos alunos que hoje frequentam o ensino do 7.º ao 12. º anos.
QUAIS AS ZONAS DO PAÍS MAIS AFETADAS PELA FALTA DE PROFESSORES?
A Área Metropolitana de Lisboa (AML) é onde se sente mais a falta de professores, tanto em número absoluto como em proporção face ao número de alunos. Entre os docentes do 3.º ciclo e secundário da AML havia, em 2020, quase 40% com mais de 55 anos, sendo esta a maior percentagem do país. É também aqui que se sente menos a redução do número de jovens entre os 12 aos 18 anos.
O Alentejo e o Algarve são as outras duas regiões mais afetadas.
ONDE SE SENTE MENOS A FALTA DE PROFESSORES?
As Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira serão as únicas do país onde a falta de professores não se deverá fazer sentir nos anos mais próximos. A maioria dos professores do 3.º ciclo e secundário tem menos de 50 anos (65% do total nos Açores e 58% na Madeira). Além disso, nos próximos cinco anos haverá menos 10% de alunos nos Açores e 21% na Madeira, revelou Luísa Louro em declarações à Lusa.
PRINCIPAIS MOTIVOS APONTADOS PARA A FALTA DE PROFESSORES?
Um dos motivos prende-se com o envelhecimento da classe docente: a maioria tem pelo menos 50 anos e por isso até 2030 metade dos professores atualmente no ativo poderá aposentar-se.
A este problema soma-se uma profissão pouco atrativa que faz com que haja pouca procura por mestrados que dão acesso à carreira docente. Professores abandonam profissão: “Salário não chega para formar família”
QUAIS AS DISCIPLINAS COM MAIS DOCENTES EM FALTA?
É no 3.º ciclo e no ensino secundário que o problema mais se sente, segundo Luísa Louro.
No 3.º ciclo as disciplinas mais problemáticas são Português, Matemática, Inglês, História, Geografia, Ciências Naturais e Físico-Química, enquanto no secundário há falta de professores a Português, Filosofia, Matemática, Inglês, História, Geografia, Biologia e Geologia e Física e Química.
Por exemplo, a Português é preciso contratar cerca de 232 professores por ano até 2025/2026, mas a média anual de diplomados está pouco acima de 50, ou seja, só consegue responder a 22% das necessidades.
Segundo a Pordata, as disciplinas com diplomados muito abaixo das necessidades são Física e Química (ficam cobertas 6% das necessidades), Biologia e Geologia (14%), Matemática (17%), Filosofia (18%), Inglês (19%), Português (22%) e História e Geografia (34%).
O QUE DEFENDEM SINDICATOS?
A valorização da profissão é a primeira reivindicação dos sindicatos que pedem aumentos salariais, fim da limitação por número de vagas à progressão na carreira, a recuperação do tempo de serviço, mas também em alterações ao regime de recrutamento e mobilidade.
Alterar os modelos de concurso e dar um subsídio de residência a quem fica colocado em zonas do país onde as casas são excessivamente caras assim como um subsídio de deslocação aos docentes colocados em escolas afastadas da área de residência são outras das medidas preconizadas. Falta de professores: sindicato apresenta 12 propostas ao Governo
O QUE PROPÕE O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
A 27 de abril, o novo ministro da Educação, João Costa, reuniu-se pela primeira vez com sindicatos,
tendo anunciado que autorizava as escolas das zonas com maior carência de professores a completar os horários disponíveis com, por exemplo, atividades de apoio aos alunos ou aulas de compensação.
Os cerca de cinco mil docentes impedidos de se candidatarem aos horários existentes puderam voltar a fazê-lo, o que permitiu reduzir em mais de seis mil o número de alunos sem professor, segundo dados avançados pelo ministro no parlamento.
No próximo ano letivo, deverá haver novas condições de renovação dos contratos e de mobilidade por doença.
Esta semana, o Ministério apresentou propostas relativas à mobilidade por doença, no sentido de permitir aos professores com patologias graves serem colocados em escolas perto de casa.
O Ministério da Educação pretende também rever o modelo de recrutamento para potenciar uma vinculação mais rápida e rever os modelos de formação inicial, com o reforço dos estágios, que serão remunerados.
4.4.22
Um milhão para desenvolvimento social em Loulé
Para a autarquia, o programa que é «instrumento determinante para que as IPSS possam levar por diante as suas atividades», tem, para o ano em curso, uma dotação orçamental superior a 1 milhão de euros. e «vem na senda dos programas que a Câmara Municipal de Loulé começou a desenvolver em 2016».
As medidas abrangem as atividades correntes permitem a cada entidade institucional obter um limite máximo de 20.000€, a manutenção e renovação de edifícios, a eficiência energética, por forma a melhorar as instalações das instituições, numa aposta que vai ao encontro das políticas de sustentabilidade promovidas pelo Município. Neste ano, é contemplado também o apoio às obras de adaptação dos sistemas de controlo da legionela, uma situação de saúde pública que pode causar problemas às instituições e aos utentes.
Foi igualmente abordada a questão da aquisição de equipamentos informáticos e outros equipamentos fundamentais, assim como apoio à aquisição de viaturas, destinado às instituições que fazem transporte de utentes ou apoio domiciliário e que necessitem de uma viatura para o desenvolvimento dessas respostas sociais. Vai também haver apoios extraordinários, nomeadamente a programas de apoio e emergência alimentar.
As candidaturas ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Social de Loulé 2022 decorrerão durante o mês de abril, enquanto que em maio e início de junho as mesmas serão analisadas e submetidas a reunião de Câmara, sendo depois celebrados os contratos-programa. A execução das medidas decorrerá durante o segundo semestre do ano.
O presidente da câmara municipal, Vítor Aleixo sublinhou que os seus objetivos têm em vista que as IPSS sejam robustas, com boas condições para poderem prestar um trabalho social que é absolutamente imprescindível até «porque queremos um concelho inclusivo, coeso e sustentável».
Referindo-se à possibilidade de as instituições receberem vítimas refugiadas da guerra na Ucrânia, pediu a máxima atenção e o máximo carinho. «Olhem para a situação do ponto de vista humanitário, pois são pessoas que partiram das suas terras, onde tinham vidas organizadas e eram felizes».
Vítor Aleixo fez ainda um balanço daquela que tem sido a Estratégia Municipal de Habitação de Loulé, nomeadamente dos doze pedidos de apoio gerados no âmbito da parceria com o IHRU, na ordem dos 15 milhões de euros, para resolver os problemas no concelho.
O presidente da Câmara Municipal de Loulé deixou, por último, uma nota em relação às políticas para responder aos problemas dos idosos, bem como as novas abordagens para o envelhecimento ativo que tiveram um momento alto com a recente inauguração, na aldeia de Alte, do Observatório Nacional do Envelhecimento.
30.3.22
Programa Guarda +65 “Envelhecer em realidade pandémica”
O Programa Guarda +65 “Envelhecer em realidade pandémica” da Câmara Municipal da Guarda, e da EAPN Portugal/Núcleo Distrital da Guarda e a Casa de Saúde Bento Menni vão apresentar as conclusões do estudo de 2021.
(Leia o artigo até ao fim – www.guardanoticias.pt – As notícias da Guarda mais perto de si).
No sentido de dar a conhecer publicamente as conclusões dos fóruns de discussão ativa “Envelhecer em realidade pandémica”, realizados em 2021, o Programa Guarda +65 da Câmara Municipal da Guarda, o Núcleo Distrital da Guarda da EAPN – European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza de Portugal) e a Casa de Saúde Bento Menni irão realizar o Fórum “Cidadania e Participação para o envelhecimento pós-pandemia” no próximo dia 25 de março, a partir das 14h30, na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda.
A apresentação do referido documento será realizada pela Prof. Doutora Constança Paúl (Professora Catedrática, Diretora do Departamento de Ciências Comportamentais e Diretora do Programa de Doutoramento em Gerontologia e Geriatria do ICBAS, na Universidade do Porto, investigadora e autora de diversos livros e publicações na área do envelhecimento).
O evento vai decorrer em regime presencial e a entrada é gratuita, mas sujeito a inscrição, com lugares limitados. Todas as informações e inscrições para guarda@eapn.pt.
25.3.22
Boas Práticas para o Envelhecimento Ativo e Saudável premiadas na UAlg
Primeiro Encontro de Boas Práticas para o Envelhecimento Ativo e Saudável da Região do Algarve realizou-se no campus de Gambelas da Universidade do Algarve (UAlg).
A iniciativa foi promovida pelo Algarve Active Ageing A3, um consórcio criado entre a UAlg e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve sendo dinamizada pelo ABC – Algarve Biomedical Center na sexta-feira, dia 18 de março.
É um ecossistema que reúne mais de 80 organizações na ótica da hélice quadrupla: academia, governança, empresas e sociedade civil. Junta, assim, entidades que trabalham de forma colaborativa no desenvolvimento de soluções inovadoras com impacto na população algarvia.
Foram submetidas 55 boas práticas por promotores e copromotores dos 16 municípios do Algarve, distribuídas pelas quatro categorias a concurso: Saúde (21 candidaturas), Território Inclusivo (nove candidaturas), Coesão e Participação Social (21 candidaturas) e Economia Grisalha (quatro candidaturas). As 55 boas práticas são implementadas na região por 167 parceiros e promotores.
Na categoria Saúde, foi selecionado o projeto «Reabilitar para a Vida», promovido pelo Centro Humanitário de Tavira da Cruz Vermelha Portuguesa; Câmara Municipal de Tavira; Câmara Municipal de Castro Marim; Câmara Municipal de Alcoutim; NOS; Samsung, Rotary Club Tavira e pelo Portugal Inovação Social e cofinanciado pelo CRESC Algarve 2020; Portugal 2020 e Fundo Social Europeu.
Na categoria Território Inclusivo foi selecionado o projeto «+ Próximo», promovido pelo Centro Humanitário de Tavira da Cruz Vermelha Portuguesa, Câmara Municipal de Alcoutim e Ministério da Administração Interna.
Na categoria Coesão e Participação Social, foi premiado o projeto «Aldeia dos Saberes e dos Afetos», promovido pelo Centro de Animação e Apoio Comunitário da Freguesia de Alte, Junta de Freguesia de Alte, Câmara Municipal de Loulé, Escola Profissional de Alte e Farmácia Horta Figueiredo.
Na categoria Economia Grisalha, a escolha foi o projeto «Oficina Móvel Loulé Sénior – A Câmara Mais Perto do Cidadão», (promotores: Câmara Municipal de Loulé, Juntas de Freguesia (Almancil, Alte, Ameixial, Salir, Boliqueime, Quarteira, S. Clemente, S. Sebastião e União de freguesias Querença, Tor e Benafim).
Foram ainda anunciados os vencedores do Concurso de Fotografia «Envelhecimento Saudável e Ativo para a Longevidade e Vida Autónoma». O Encontro contou com cerca de 160 participantes.

