Bárbara Baltarejo, in Público
Prestar apoio emocional é o objectivo da linha SOS Estudante, composta por estudantes de Coimbra, mas a funcionar para todo o país. Quem faz parte do projecto garante é uma experiência positiva.
“Dei o meu tempo, mas recebi muito de outras formas.” É assim que Juliana Jesus recorda a sua passagem pela SOS Estudante, uma linha telefónica criada por alunos universitários de Coimbra que, há 26 anos, dá apoio emocional a quem precisa e trabalha na prevenção do suicídio. Neste momento, há 20 jovens a atender diariamente as chamadas que chegam de todo o país, mas a linha está à procura de novos voluntários.
A nova fase de recrutamento, aberta a todos os estudantes universitários de Coimbra — e isto inclui ensino público e privado, faculdades e politécnicos —, arrancou na segunda-feira e estende-se até dia 8 de Outubro.
O “recrutamento começa com entrevistas iniciais, depois passa por uma formação de 30 horas, devidamente certificada, e termina com novas entrevistas”, explica a vice-presidente do projecto Inês Nunes Coelho, em conversa com o P3.
Não há requisitos específicos para que se aceitem voluntários, além da vontade de ajudar. As áreas de formação dos voluntários também são diversas, apesar de haver uma clara concentração de estudantes de Psicologia. Do Direito à Medicina, Matemática ou Biologia, quase todos os cursos querem estar envolvidos.
O recrutamento inclui uma formação de 30 horas, para que todos tenham a mesma preparação e consigam antecipar o que vem por aí. “A pessoa que nos liga pode ter dificuldade em exprimir-se, mas, deste lado, temos de a compreender. Desenvolvemos muito a empatia, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. No momento em que atendemos a chamada não somos nós, somos a linha”, destaca a vice-presidente. O apoio prestado é “livre de preconceitos, respeitando e aceitando as diferenças interpessoais sem influência do ponto de vista religioso, político ou ideológico”, lê-se no site oficial.
As 30 horas de formação estão divididas em dez sessões. Na primeira, os voluntários ficam a conhecer o projecto; seguem-se conhecimentos mais específicos relacionados com os temas que, ao longo dos 26 anos de funcionamento da linha, têm sido mais recorrentes.
No último ano lectivo, por exemplo, “o tema mais comum foi, sem dúvida, a ansiedade”. “Depois destacam-se a carência afectiva, os comportamentos autolesivos e as crises de identidade”, relata a responsável.
Terminada a formação, há uma nova ronda de entrevistas para avaliar “como é que estas pessoas conseguem interagir com o outro”. Para Juliana Jesus, que passou por todas estas etapas no primeiro ano de mestrado, em 2021, “mesmo que eu não tivesse entrado já tinha valido a pena a experiência” pela vertente formativa, conta ao P3.
"Ninguém está sozinho"
“Fiz a formação ainda sem saber se ia entrar. São 30 horas de investimento, sem garantias”, admite. Contudo, o custo-benefício foi “muito positivo”.
Apesar de ser estudante de Psicologia, a jovem de 23 anos afirma que, quando se juntou à linha, “não tinha ainda os conhecimentos necessários para este voluntariado". Por isso, vê a formação como uma mais-valia: “É completamente prática, necessária, muito directa e muito adequada àquilo que eu ia precisar depois no atendimento”.
A SOS Estudante proporciona “um espaço anónimo e confidencial para desabafar”, como se lê na apresentação do projecto, mas este apoio pode também ser marcante para quem está a ajudar. “Uma ou outra chamada marcou-me emocionalmente e precisei de falar sobre como me estava a sentir”, lembra Juliana. Por isso mesmo, todos os voluntários contam também com uma psicóloga disponível para desabafar. “Ninguém está sozinho, construímos uma rede de confiança para falarmos sobre o que se passa”, garante a vice-presidente.
Entre Fevereiro e Julho deste ano, a linha já recebeu 447 chamadas. Quem mais a procura é o sexo masculino e, apesar de o público-alvo inicial do projecto ser a comunidade estudantil, hoje a maioria das chamadas chega de pessoas entre os 36 e os 49 anos.
A SOS Estudante nasceu da constatação de que, à chegada à faculdade, “havia pessoas que precisavam de ajuda e não tinham com quem falar, estavam isoladas”. “Estamos à procura de voltar para os estudantes”, sublinha Inês Nunes Coelho, reconhecendo que, ainda que agora haja mais recursos, “continua a ser difícil arranjar psicólogos nas instituições académicas”. A linha pretende colmatar essa falha.
Cada voluntário dá 15 horas por mês ao projecto, entre atendimento de chamadas — que decorre entre as 20h e a 1h da manhã — e reuniões com outros voluntários. Este tempo subtrai-se às horas de estudo ou às saídas com os amigos, mas traz “ganhos pessoais”. Além das “aprendizagens”, “ficam amizades” entre o grupo de voluntários. “O custo benefício foi imenso. Dei do meu tempo, mas recebi muito de outras formas”, conclui Juliana.
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13.9.23
Uma chamada sem tempo: o poder da escuta nas linhas de apoio de prevenção do suicídio
Inês Pinto Pereira, in Público
São as linhas de apoio que desempenham um papel importante na prevenção do suicídio, cujo dia mundial se celebra este domingo. O objectivo é “dar alguma luz à pouca que possa existir”.
“Anossa função é ouvir.” As chamadas que as linhas de apoio de prevenção do suicídio recebem podem demorar cinco minutos ou duas horas. O mais importante é garantir que quem liga se sente um pouco melhor do que no início da conversa. “É o tempo que eu quiser e que quem liga quiser”, começa por dizer Ana (nome fictício), voluntária na linha de apoio SOS Voz Amiga. Para muitos, “ter alguém do outro lado” com quem possam conversar e partilhar as preocupações é suficiente; para quem trabalha nas linhas de apoio, é gratificante, dizem Maria e Paula (nomes fictícios), voluntárias da Voades. No âmbito do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, que se celebra este domingo, Sónia Cunha, do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM, diz que é necessário estar atento aos sinais de alerta, que, na maioria das vezes, "não são grandemente visíveis".
“Sempre pensei: ‘Um dia vou fazer voluntariado.’ Até que um dia ouvi uma entrevista do presidente [da SOS Voz Amiga] e sei que me cativou”, conta Ana. Há cerca de três anos e meio decidiu candidatar-se à associação, na qual se mantém até hoje. Porque é que o faz? “Sou extremamente positiva e acho que, embora me emocione, consigo levar um bocadinho de leveza para o outro lado. Faz-me sentido.”
Paula juntou-se à equipa da Voades, outra linha de apoio de prevenção do suicídio, quando também estava a passar por uma fase “mais complicada”. “Se alguém liga é porque está em aflição. Só o facto de eu atender a pessoa e tentar escutá-la e apoiá-la” pode ajudar. E isso é “uma satisfação enorme”, explica. Em 2019, Maria tornou-se também voluntária na Voades, referindo que o que mais a motiva neste tipo de voluntariado é o facto de conseguir manter uma relação próxima com as pessoas. É “gratificante” e há um verdadeiro sentimento de missão concluída, diz.
Quando recebem um telefonema, as voluntárias não sabem quem está do outro lado ou quais as razões que levaram aquela pessoa a recorrer à linha de apoio. O objectivo é ir sempre procurando pequenos pontos que as ajudem a perceber o que preocupa a pessoa e como é que isso a faz sentir. É através desta abordagem que conseguem perceber que existem “pessoas que não saem de casa, que a higiene de casa não existe”, que não têm ninguém de confiança, entre outras coisas.
As chamadas não têm um tempo limitado. “É como se alguém quisesse partilhar uma conversa com um amigo, com o qual pode não se sentir à vontade, e liga [para a linha], explica Ana.
Na sua maioria, as chamadas são sobre “solidão na terceira idade e na juventude”, sendo que a segunda desperta especial preocupação em Maria. “Quando os jovens nos falam de solidão, a expressão que utilizam muito é ‘Eu não vejo a luz ao fundo do túnel, não sirvo para nada’”, conta.
É nestes momentos, como defende Paula, que este tipo de voluntariado se revela “cada vez mais necessário”: escutá-los, tentar percebê-los, dar-lhes apoio e mostrar-lhes que “podem ter um futuro brilhante”. A voluntária considera que a ansiedade e a solidão, que afectam muitos jovens, estão relacionadas com o facto de se sentirem perdidos, “porque não têm sentido de vida, não têm emprego”. Em 2022, a Associação Voades recebeu 5500 chamadas, das quais 7% eram sobre suicídio ou tentativa de suicídio.
Ana considera que o mais importante é conseguirem “dar alguma luz à pouca que possa existir”. Mas relembra que cada conversa é uma conversa. Umas são mais leves, outras mais pesadas.
"Se eu não estou bem, não posso ajudar os outros"
As chamadas nas quais as pessoas falam sobre a possibilidade de se suicidarem ou de tentativas de suicídio são as mais pesadas. “Umas contam que já o tentaram várias vezes, outras que já lhes passou pela cabeça mas que não tentaram”, continua Ana, explicando que nem sempre é fácil convencer a outra pessoa de que tudo ficará bem dali para a frente.
A voluntária relembra – sempre sem pormenorizar os casos – uma chamada com a qual ficou em sobressalto desde o início. “Se eu vejo que alguém está desesperado, alguém que me liga a dizer que já tomou não sei quantos comprimidos e eu não sei o que está a beber, o que é que penso? Deixa-me falar o máximo de tempo possível para tentar convencer [esta pessoa] a ligar para o SNS ou perceber se tem alguém de confiança por perto”, descreve.
Maria também teve uma experiência que a marcou particularmente. O telefone tocou por volta das 21h30 e, quando atendeu, a primeira coisa que ouviu foi: “Eu não sirvo para nada, não estou cá a fazer nada.” Durante a conversa, a pessoa confessou-lhe que tinha tendências suicidas e que já o tinha tentado fazer anteriormente. Depois de uma longa conversa, Maria pediu-lhe que voltasse a ligar, mas a resposta não foi a que esperava: “Não sei se consigo ligar mais porque não sei se vivo até amanhã.” Perante esta resposta, Maria viu-se impedida de desligar sem actuar (entrar em contacto com o 112). No dia seguinte, a pessoa em questão voltou a ligar a dizer que começaria a ser acompanhada.
Os casos mais difíceis são aqueles em que o telefone se desliga e não se sabe o que acontece. Há “pessoas que dizem que [se vão suicidar] e depois, se o telefone se desliga do outro lado, ficamos a pensar no que terá acontecido”, refere Ana. Sempre que a conversa assim o proporciona, a voluntária pergunta como é que as pessoas conseguem chegar às linhas de apoio. As respostas variam entre campanhas de sensibilização, a divulgação através dos meios de comunicação social ou uma pesquisa no Google por suicídio, que remete imediatamente para linhas de apoio. Só no ano passado, a SOS Voz Amiga recebeu cerca de 9100 chamadas, e 6,7% destas envolviam ideação suicida, segundo o presidente da associação, Francisco Paulino.
Embora os voluntários destas linhas de apoio possam aprender a gerir as emoções, isso “não significa que uma pessoa não chore, não ria e que, às vezes, não partilhe a emoção” de quem liga, conta Ana. É um verdadeiro misto de emoções: um sentimento de gratificação quando a pessoa acaba a chamada a sorrir e a dizer que se sente melhor; um sentimento de impotência quando o telefone se desliga e se pensa: “O que vai ser desta pessoa agora?”
Uma chamada sem tempo: o poder da escuta nas linhas de apoio de prevenção do suicídioA preparação começa momentos antes do início do turno. “Eu saio do trabalho e entro em casa […]. Aquele momento em que estou a atender, estou descansada, estou ligada ali”, explica Ana. Depois do turno, é importante aprender a desligar. “Não é um voluntariado fácil”, diz, acrescentando que tratar da própria saúde mental é uma “forma de se precaver e de estar bem” do ponto de vista emocional para ajudar os outros.
Na associação SOS Voz Amiga, existem reuniões semanais que visam não só formar os voluntários, mas também trabalhar os sentimentos daqueles que todos os dias atendem nas linhas de apoio. Para além deste trabalho em grupo, Sónia Cunha reforça a importância de se desenvolverem estratégias individuais para fazer um "processamento individual" da situação, avaliando os sentimentos e os pensamentos.
Não desvalorizar as emoções: a pessoa deve partilhar o que sente sem "sentir que está errada"
"Não podemos evitar todos os suicídios, mas em grande parte as situações podem ser prevenidas", refere a coordenadora do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise do INEM. Sónia Cunha chama a atenção para a importância de se estar atento aos sinais de alerta que podem sugerir que algo não está bem com determinada pessoa, ressalvando, no entanto, que "muitas vezes os sinais não são grandemente visíveis". Entre eles, temos pequenas mudanças de atitude relacionadas, por exemplo, com a adopção de um discurso mais negativo, a alteração no padrão de relação com os outros e a referência à morte.
Nestes casos, a coordenadora do CAPIC considera que é importante não desvalorizar o assunto e o que a outra pessoa está a sentir. "A primeira reacção que as pessoas têm é 'não vamos pensar nisso, não digas isso'. Esse é o primeiro erro", afirma, explicando que é preciso explorar a questão e tentar perceber como é que a pessoa se sente. Em 2022, o Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise recebeu 1916 chamadas nas quais as pessoas apresentavam comportamentos suicidários.
Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal
SOS Voz Amiga Lisboa
Das 15h30 às 00h30 213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660
Conversa Amiga Inatel
Das 15h às 22h 808 237 327 210 027 159
Vozes Amigas de Esperança de Portugal Voades-Portugal
Das 16h às 22h 222 030 707
Telefone da Amizade Porto
Das 16h às 23h 228 323 535
Voz de Apoio Porto
Das 21h às 24h 225 506 070
SOS Estudante Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio
Todos os dias das 20h à 1h (excepto férias escolares) 915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)
Todas estas linhas são de duplo anonimato — garantido tanto a quem liga como a quem atende. Para encaminhamento, a linha do SNS24 (808 24 24 24) é assumida por profissionais de saúde.
Sónia Cunha considera que há a ideia errada de que "se se abordar este tema se pode incentivar ou legitimar a pessoa que está a pensar em suicídio", uma vez que conversar sobre o assunto e fazer com que a outra pessoa se sinta confortável para exteriorizar os seus sentimentos ajuda a outra pessoa a retirar "carga emocional" aos seus pensamentos. É ainda importante "permitir que a pessoa partilhe sem julgamento, sem sentir que está errada ou que não deveria falar", bem como incentivar a pessoa a mostrar as suas emoções "mais intensas".
"Quem pensa em suicídio, na maioria das vezes, não procura a morte propriamente, mas a fuga à dor, ao sofrimento que está a sentir", e por isso é que permitir que a pessoa fale sobre isso é importante, relembra. Neste sentido, quando a intenção de o fazer começa a estar muito presente, torna-se ainda mais necessário procurar ajuda junto de um profissional de saúde. No ano passado, em 510 chamadas as pessoas revelaram ter intenções suicidas, em 104 o suicídio consumou-se e em 437 houve uma tentativa de o efectuar.
Este ano, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio tem como mote "A saúde mental é um direito humano". A saúde mental é um tema ao qual se tem prestado cada vez mais atenção, sobretudo após a pandemia de covid-19, mas continua a ser, na maioria das vezes, "menos priorizada e menos valorizada". Sónia Cunha acredita que este mote pretende seguir um sentido de "valorização e de afirmação do ser humano como um todo e da saúde mental como essencial para a saúde e o bem-estar de cada um".
São as linhas de apoio que desempenham um papel importante na prevenção do suicídio, cujo dia mundial se celebra este domingo. O objectivo é “dar alguma luz à pouca que possa existir”.
“Anossa função é ouvir.” As chamadas que as linhas de apoio de prevenção do suicídio recebem podem demorar cinco minutos ou duas horas. O mais importante é garantir que quem liga se sente um pouco melhor do que no início da conversa. “É o tempo que eu quiser e que quem liga quiser”, começa por dizer Ana (nome fictício), voluntária na linha de apoio SOS Voz Amiga. Para muitos, “ter alguém do outro lado” com quem possam conversar e partilhar as preocupações é suficiente; para quem trabalha nas linhas de apoio, é gratificante, dizem Maria e Paula (nomes fictícios), voluntárias da Voades. No âmbito do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, que se celebra este domingo, Sónia Cunha, do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM, diz que é necessário estar atento aos sinais de alerta, que, na maioria das vezes, "não são grandemente visíveis".
“Sempre pensei: ‘Um dia vou fazer voluntariado.’ Até que um dia ouvi uma entrevista do presidente [da SOS Voz Amiga] e sei que me cativou”, conta Ana. Há cerca de três anos e meio decidiu candidatar-se à associação, na qual se mantém até hoje. Porque é que o faz? “Sou extremamente positiva e acho que, embora me emocione, consigo levar um bocadinho de leveza para o outro lado. Faz-me sentido.”
Paula juntou-se à equipa da Voades, outra linha de apoio de prevenção do suicídio, quando também estava a passar por uma fase “mais complicada”. “Se alguém liga é porque está em aflição. Só o facto de eu atender a pessoa e tentar escutá-la e apoiá-la” pode ajudar. E isso é “uma satisfação enorme”, explica. Em 2019, Maria tornou-se também voluntária na Voades, referindo que o que mais a motiva neste tipo de voluntariado é o facto de conseguir manter uma relação próxima com as pessoas. É “gratificante” e há um verdadeiro sentimento de missão concluída, diz.
Quando recebem um telefonema, as voluntárias não sabem quem está do outro lado ou quais as razões que levaram aquela pessoa a recorrer à linha de apoio. O objectivo é ir sempre procurando pequenos pontos que as ajudem a perceber o que preocupa a pessoa e como é que isso a faz sentir. É através desta abordagem que conseguem perceber que existem “pessoas que não saem de casa, que a higiene de casa não existe”, que não têm ninguém de confiança, entre outras coisas.
As chamadas não têm um tempo limitado. “É como se alguém quisesse partilhar uma conversa com um amigo, com o qual pode não se sentir à vontade, e liga [para a linha], explica Ana.
Na sua maioria, as chamadas são sobre “solidão na terceira idade e na juventude”, sendo que a segunda desperta especial preocupação em Maria. “Quando os jovens nos falam de solidão, a expressão que utilizam muito é ‘Eu não vejo a luz ao fundo do túnel, não sirvo para nada’”, conta.
É nestes momentos, como defende Paula, que este tipo de voluntariado se revela “cada vez mais necessário”: escutá-los, tentar percebê-los, dar-lhes apoio e mostrar-lhes que “podem ter um futuro brilhante”. A voluntária considera que a ansiedade e a solidão, que afectam muitos jovens, estão relacionadas com o facto de se sentirem perdidos, “porque não têm sentido de vida, não têm emprego”. Em 2022, a Associação Voades recebeu 5500 chamadas, das quais 7% eram sobre suicídio ou tentativa de suicídio.
Ana considera que o mais importante é conseguirem “dar alguma luz à pouca que possa existir”. Mas relembra que cada conversa é uma conversa. Umas são mais leves, outras mais pesadas.
"Se eu não estou bem, não posso ajudar os outros"
As chamadas nas quais as pessoas falam sobre a possibilidade de se suicidarem ou de tentativas de suicídio são as mais pesadas. “Umas contam que já o tentaram várias vezes, outras que já lhes passou pela cabeça mas que não tentaram”, continua Ana, explicando que nem sempre é fácil convencer a outra pessoa de que tudo ficará bem dali para a frente.
A voluntária relembra – sempre sem pormenorizar os casos – uma chamada com a qual ficou em sobressalto desde o início. “Se eu vejo que alguém está desesperado, alguém que me liga a dizer que já tomou não sei quantos comprimidos e eu não sei o que está a beber, o que é que penso? Deixa-me falar o máximo de tempo possível para tentar convencer [esta pessoa] a ligar para o SNS ou perceber se tem alguém de confiança por perto”, descreve.
Maria também teve uma experiência que a marcou particularmente. O telefone tocou por volta das 21h30 e, quando atendeu, a primeira coisa que ouviu foi: “Eu não sirvo para nada, não estou cá a fazer nada.” Durante a conversa, a pessoa confessou-lhe que tinha tendências suicidas e que já o tinha tentado fazer anteriormente. Depois de uma longa conversa, Maria pediu-lhe que voltasse a ligar, mas a resposta não foi a que esperava: “Não sei se consigo ligar mais porque não sei se vivo até amanhã.” Perante esta resposta, Maria viu-se impedida de desligar sem actuar (entrar em contacto com o 112). No dia seguinte, a pessoa em questão voltou a ligar a dizer que começaria a ser acompanhada.
Os casos mais difíceis são aqueles em que o telefone se desliga e não se sabe o que acontece. Há “pessoas que dizem que [se vão suicidar] e depois, se o telefone se desliga do outro lado, ficamos a pensar no que terá acontecido”, refere Ana. Sempre que a conversa assim o proporciona, a voluntária pergunta como é que as pessoas conseguem chegar às linhas de apoio. As respostas variam entre campanhas de sensibilização, a divulgação através dos meios de comunicação social ou uma pesquisa no Google por suicídio, que remete imediatamente para linhas de apoio. Só no ano passado, a SOS Voz Amiga recebeu cerca de 9100 chamadas, e 6,7% destas envolviam ideação suicida, segundo o presidente da associação, Francisco Paulino.
Embora os voluntários destas linhas de apoio possam aprender a gerir as emoções, isso “não significa que uma pessoa não chore, não ria e que, às vezes, não partilhe a emoção” de quem liga, conta Ana. É um verdadeiro misto de emoções: um sentimento de gratificação quando a pessoa acaba a chamada a sorrir e a dizer que se sente melhor; um sentimento de impotência quando o telefone se desliga e se pensa: “O que vai ser desta pessoa agora?”
Uma chamada sem tempo: o poder da escuta nas linhas de apoio de prevenção do suicídioA preparação começa momentos antes do início do turno. “Eu saio do trabalho e entro em casa […]. Aquele momento em que estou a atender, estou descansada, estou ligada ali”, explica Ana. Depois do turno, é importante aprender a desligar. “Não é um voluntariado fácil”, diz, acrescentando que tratar da própria saúde mental é uma “forma de se precaver e de estar bem” do ponto de vista emocional para ajudar os outros.
Na associação SOS Voz Amiga, existem reuniões semanais que visam não só formar os voluntários, mas também trabalhar os sentimentos daqueles que todos os dias atendem nas linhas de apoio. Para além deste trabalho em grupo, Sónia Cunha reforça a importância de se desenvolverem estratégias individuais para fazer um "processamento individual" da situação, avaliando os sentimentos e os pensamentos.
Não desvalorizar as emoções: a pessoa deve partilhar o que sente sem "sentir que está errada"
"Não podemos evitar todos os suicídios, mas em grande parte as situações podem ser prevenidas", refere a coordenadora do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise do INEM. Sónia Cunha chama a atenção para a importância de se estar atento aos sinais de alerta que podem sugerir que algo não está bem com determinada pessoa, ressalvando, no entanto, que "muitas vezes os sinais não são grandemente visíveis". Entre eles, temos pequenas mudanças de atitude relacionadas, por exemplo, com a adopção de um discurso mais negativo, a alteração no padrão de relação com os outros e a referência à morte.
Nestes casos, a coordenadora do CAPIC considera que é importante não desvalorizar o assunto e o que a outra pessoa está a sentir. "A primeira reacção que as pessoas têm é 'não vamos pensar nisso, não digas isso'. Esse é o primeiro erro", afirma, explicando que é preciso explorar a questão e tentar perceber como é que a pessoa se sente. Em 2022, o Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise recebeu 1916 chamadas nas quais as pessoas apresentavam comportamentos suicidários.
Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal
SOS Voz Amiga Lisboa
Das 15h30 às 00h30 213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660
Conversa Amiga Inatel
Das 15h às 22h 808 237 327 210 027 159
Vozes Amigas de Esperança de Portugal Voades-Portugal
Das 16h às 22h 222 030 707
Telefone da Amizade Porto
Das 16h às 23h 228 323 535
Voz de Apoio Porto
Das 21h às 24h 225 506 070
SOS Estudante Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio
Todos os dias das 20h à 1h (excepto férias escolares) 915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)
Todas estas linhas são de duplo anonimato — garantido tanto a quem liga como a quem atende. Para encaminhamento, a linha do SNS24 (808 24 24 24) é assumida por profissionais de saúde.
Sónia Cunha considera que há a ideia errada de que "se se abordar este tema se pode incentivar ou legitimar a pessoa que está a pensar em suicídio", uma vez que conversar sobre o assunto e fazer com que a outra pessoa se sinta confortável para exteriorizar os seus sentimentos ajuda a outra pessoa a retirar "carga emocional" aos seus pensamentos. É ainda importante "permitir que a pessoa partilhe sem julgamento, sem sentir que está errada ou que não deveria falar", bem como incentivar a pessoa a mostrar as suas emoções "mais intensas".
"Quem pensa em suicídio, na maioria das vezes, não procura a morte propriamente, mas a fuga à dor, ao sofrimento que está a sentir", e por isso é que permitir que a pessoa fale sobre isso é importante, relembra. Neste sentido, quando a intenção de o fazer começa a estar muito presente, torna-se ainda mais necessário procurar ajuda junto de um profissional de saúde. No ano passado, em 510 chamadas as pessoas revelaram ter intenções suicidas, em 104 o suicídio consumou-se e em 437 houve uma tentativa de o efectuar.
Este ano, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio tem como mote "A saúde mental é um direito humano". A saúde mental é um tema ao qual se tem prestado cada vez mais atenção, sobretudo após a pandemia de covid-19, mas continua a ser, na maioria das vezes, "menos priorizada e menos valorizada". Sónia Cunha acredita que este mote pretende seguir um sentido de "valorização e de afirmação do ser humano como um todo e da saúde mental como essencial para a saúde e o bem-estar de cada um".
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4.9.23
Demência: “Os cuidadores não podem sentir culpa pelas emoções que sentem. São sentimentos muito fortes de zanga, raiva, tristeza e cansaço”
Joana Pereira Bastos Jornalista e Salomé Rita Sonoplasta, in Expresso
Cerca de 200 mil portugueses sofrem de demência, um estado de deterioração progressiva da memória e de outras funções cognitivas, que pode ser provocado por várias doenças, como o Alzheimer. No novo episódio do podcast “Que Voz é Esta?” falamos das causas e dos sintomas da demência, da falta de respostas a nível dos tratamentos e do desgaste emocional que representa para os cuidadores. Oiça as explicações do neurologista Ricardo Taipa e o testemunho de Paula Rodrigues, que há cinco anos cuida diariamente do marido
Paula esteve “muito tempo em negação”. Notava que o marido andava distraído e que, com alguma frequência, se esquecia de várias coisas, até do capacete da mota, o que nunca antes tinha acontecido, mas convencia-se de que estava apenas cansado do trabalho. Até ao dia em que percebeu que ele não se lembrava quem era o próprio filho. Por mais que não quisesse ver, era impossível continuar a ignorar.
“A partir daí, tive de aceitar que era grave. Recordo-me que o grande sentimento que tive foi ficar muito assustada”, lembra agora, cinco anos depois do diagnóstico de demência.
Sabia que não havia cura e que a doença iria diminui-lo cada vez mais, como se o marido tivesse entrado “numa escada que só desce”. Apesar do medo, não hesitou em deixar o trabalho e abdicar de tudo o resto para passar a cuidar dele.
"Tinha a certeza que não queria interná-lo. Queria estar sempre ao seu lado. Mas posso dizer que não passaram 5 anos, passaram 50. Foi muito forte, muito intenso”, conta Paula Rodrigues, no novo episódio do “Que Voz é Esta?”, o podcast do Expresso dedicado à saúde mental.
Durante muito tempo, Paula fez tudo para dar ao marido, dono de uma loja de instrumentos musicais, “uma ilusão” de normalidade, mantendo a rotina a que ele estava habituado. Todos os dias ia com ele para a loja, que já não estava aberta ao público, fingindo que nada tinha mudado.
“Ainda tentei que ele conduzisse o máximo possível porque era uma coisa que lhe dava muito prazer, mas tornou-se inseguro. O mais complicado foi quando lhe disse que não podia conduzir. Não lidou bem com isso. Tudo o que eu lhe dizia que não podia fazer era impensável para ele”, conta. Sabendo que, se insistisse, o marido poderia tornar-se agressivo, Paula passou a disfarçar. Inventava desculpas umas atrás das outras para que ele não pudesse sair de carro ou de mota. “Nós, cuidadores das demências, somos mestres porque estamos sempre a inventar”, diz.
Mas o marido não desistia. Sem se aperceber que estava doente, teimava em sair sozinho de casa, de bicicleta ou a pé, rejeitando a companhia dela. Paula “parecia uma inspetora a segui-lo” para onde quer que fosse, escondendo-se para que não a visse e aparecendo subitamente sempre que ele estava na iminência de fazer algo perigoso.
Para conseguir vigiá-lo em permanência, não tinha um segundo para si. Sentia-se totalmente esgotada, física e mentalmente. “Quem escolhe cuidar não pode sentir culpa por todas as emoções por que vai passar. São emoções e sentimentos muito fortes e muito confusos de zanga, de raiva, de tristeza e cansaço”, conta.
A CULPA DOS CUIDADORES NO MOMENTO DA SEPARAÇÃO
Paula estava no limite das suas forças quando, há um ano, depois de vários pedidos de ajuda negados por muitas instituições, encontrou um apoio no centro de dia da Casa de Saúde da Idanha (Belas, Sintra), onde desde então o marido passa oito horas por dia. “A enfermeira chefe foi-nos receber e disse: ‘Agora vá cuidar de si. Nós cuidamos do seu marido’. Isso fez toda a diferença”, recorda.
Ricardo Taipa, neurologista do centro Hospitalar de Santo António, no Porto, explica que muitas famílias “sentem culpabilidade pelo abandono” e resistem a institucionalizar a pessoa com demência, mas muitas vezes essa é a melhor opção, “porque, a determinada altura, é humanamente impossível 24 horas por dia dar os melhores cuidados a quem se ama”.
“Os cuidados com a demência custam mais do que o cancro ou as doenças cardíacas e mais de 50% desse gasto é com os cuidadores. São pessoas que abdicam da sua profissão e que dedicam várias horas a cuidar, com enorme desgaste emocional. É uma doença que afeta de forma transversal uma família e que a pode deixar mesmo em dificuldades”, frisa.
Neste episódio do podcast “Que Voz é Esta?”, o neurologista fala dos vários sintomas da demência, incluindo as alterações de comportamento e personalidade, e do que é possível fazer a nível da prevenção, nomeadamente quanto à importância de manter uma vida socialmente ativa, que “enriquece a rede neuronal e protege o cérebro”.
“PONTO DE VIRAGEM” NOS TRATAMENTOS
No que diz respeito aos tratamentos, Ricardo Taipa, que é coordenador do Banco Português de Cérebros, organismo que recolhe tecido cerebral para investigação com o objetivo de compreender as doenças neurodegenerativas e desenvolver novas respostas terapêuticas, explica que, neste momento, a medicação existente “não é muito eficaz”, não existindo ainda fármacos que permitam atrasar ou parar o processo de demência.
Ainda assim, diz, “estamos num ponto de viragem”, nomeadamente no que diz respeito ao tratamento do Alzheimer. As perspetivas no que diz respeito à descoberta de uma cura ou à possibilidade de rastreios em idades cada vez mais precoces foram outras das questões abordadas neste episódio.
Cerca de 200 mil portugueses sofrem de demência, um estado de deterioração progressiva da memória e de outras funções cognitivas, que pode ser provocado por várias doenças, como o Alzheimer. No novo episódio do podcast “Que Voz é Esta?” falamos das causas e dos sintomas da demência, da falta de respostas a nível dos tratamentos e do desgaste emocional que representa para os cuidadores. Oiça as explicações do neurologista Ricardo Taipa e o testemunho de Paula Rodrigues, que há cinco anos cuida diariamente do marido
Paula esteve “muito tempo em negação”. Notava que o marido andava distraído e que, com alguma frequência, se esquecia de várias coisas, até do capacete da mota, o que nunca antes tinha acontecido, mas convencia-se de que estava apenas cansado do trabalho. Até ao dia em que percebeu que ele não se lembrava quem era o próprio filho. Por mais que não quisesse ver, era impossível continuar a ignorar.
“A partir daí, tive de aceitar que era grave. Recordo-me que o grande sentimento que tive foi ficar muito assustada”, lembra agora, cinco anos depois do diagnóstico de demência.
Sabia que não havia cura e que a doença iria diminui-lo cada vez mais, como se o marido tivesse entrado “numa escada que só desce”. Apesar do medo, não hesitou em deixar o trabalho e abdicar de tudo o resto para passar a cuidar dele.
"Tinha a certeza que não queria interná-lo. Queria estar sempre ao seu lado. Mas posso dizer que não passaram 5 anos, passaram 50. Foi muito forte, muito intenso”, conta Paula Rodrigues, no novo episódio do “Que Voz é Esta?”, o podcast do Expresso dedicado à saúde mental.
Durante muito tempo, Paula fez tudo para dar ao marido, dono de uma loja de instrumentos musicais, “uma ilusão” de normalidade, mantendo a rotina a que ele estava habituado. Todos os dias ia com ele para a loja, que já não estava aberta ao público, fingindo que nada tinha mudado.
“Ainda tentei que ele conduzisse o máximo possível porque era uma coisa que lhe dava muito prazer, mas tornou-se inseguro. O mais complicado foi quando lhe disse que não podia conduzir. Não lidou bem com isso. Tudo o que eu lhe dizia que não podia fazer era impensável para ele”, conta. Sabendo que, se insistisse, o marido poderia tornar-se agressivo, Paula passou a disfarçar. Inventava desculpas umas atrás das outras para que ele não pudesse sair de carro ou de mota. “Nós, cuidadores das demências, somos mestres porque estamos sempre a inventar”, diz.
Mas o marido não desistia. Sem se aperceber que estava doente, teimava em sair sozinho de casa, de bicicleta ou a pé, rejeitando a companhia dela. Paula “parecia uma inspetora a segui-lo” para onde quer que fosse, escondendo-se para que não a visse e aparecendo subitamente sempre que ele estava na iminência de fazer algo perigoso.
Para conseguir vigiá-lo em permanência, não tinha um segundo para si. Sentia-se totalmente esgotada, física e mentalmente. “Quem escolhe cuidar não pode sentir culpa por todas as emoções por que vai passar. São emoções e sentimentos muito fortes e muito confusos de zanga, de raiva, de tristeza e cansaço”, conta.
A CULPA DOS CUIDADORES NO MOMENTO DA SEPARAÇÃO
Paula estava no limite das suas forças quando, há um ano, depois de vários pedidos de ajuda negados por muitas instituições, encontrou um apoio no centro de dia da Casa de Saúde da Idanha (Belas, Sintra), onde desde então o marido passa oito horas por dia. “A enfermeira chefe foi-nos receber e disse: ‘Agora vá cuidar de si. Nós cuidamos do seu marido’. Isso fez toda a diferença”, recorda.
Ricardo Taipa, neurologista do centro Hospitalar de Santo António, no Porto, explica que muitas famílias “sentem culpabilidade pelo abandono” e resistem a institucionalizar a pessoa com demência, mas muitas vezes essa é a melhor opção, “porque, a determinada altura, é humanamente impossível 24 horas por dia dar os melhores cuidados a quem se ama”.
“Os cuidados com a demência custam mais do que o cancro ou as doenças cardíacas e mais de 50% desse gasto é com os cuidadores. São pessoas que abdicam da sua profissão e que dedicam várias horas a cuidar, com enorme desgaste emocional. É uma doença que afeta de forma transversal uma família e que a pode deixar mesmo em dificuldades”, frisa.
Neste episódio do podcast “Que Voz é Esta?”, o neurologista fala dos vários sintomas da demência, incluindo as alterações de comportamento e personalidade, e do que é possível fazer a nível da prevenção, nomeadamente quanto à importância de manter uma vida socialmente ativa, que “enriquece a rede neuronal e protege o cérebro”.
“PONTO DE VIRAGEM” NOS TRATAMENTOS
No que diz respeito aos tratamentos, Ricardo Taipa, que é coordenador do Banco Português de Cérebros, organismo que recolhe tecido cerebral para investigação com o objetivo de compreender as doenças neurodegenerativas e desenvolver novas respostas terapêuticas, explica que, neste momento, a medicação existente “não é muito eficaz”, não existindo ainda fármacos que permitam atrasar ou parar o processo de demência.
Ainda assim, diz, “estamos num ponto de viragem”, nomeadamente no que diz respeito ao tratamento do Alzheimer. As perspetivas no que diz respeito à descoberta de uma cura ou à possibilidade de rastreios em idades cada vez mais precoces foram outras das questões abordadas neste episódio.
Ordem dos Psicólogos defende regulamentação de aplicações móveis de saúde mental
Por Lusa, in RR
A Ordem recomenda também a regulamentação "q.b." do uso da Inteligência Artificial, de modo a "permitir a proteção dos consumidores" sem impedir o desenvolvimento tecnológico.
O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Francisco Miranda Rodrigues, defendeu esta segunda-feira que Portugal deveria "avançar o quanto antes" com a regulamentação das aplicações móveis de saúde mental para salvaguardar a segurança de quem as utiliza.
Segundo Francisco Miranda Rodrigues, os riscos associados ao uso destas aplicações - que ajudam por exemplo as pessoas a autogerirem a sua saúde mental através de técnicas de relaxamento e do registo de humores - "podem ser mitigados" com regulamentação.
"Até que ponto as aplicações são válidas, fazem o que dizem fazer, como protegem a privacidade das pessoas?", questionou, em declarações à Lusa.
Francisco Miranda Rodrigues falava à Lusa no dia em que a Ordem dos Psicólogos Portugueses promove, no Porto, a conferência "O fator humano na transição digital".
O bastonário espera que da iniciativa, organizada no Dia Nacional do Psicólogo, saia um compromisso do Governo e das empresas em como "vão ter em conta o fator humano na transição digital", uma vez que a tecnologia de nada serve "se não for feita" de forma a que as pessoas a "consigam utilizar, compreender e sentir segurança na sua utilização".
Por ocasião da conferência, a Ordem dos Psicólogos Portugueses lança um documento com "recomendações estratégicas" para o desenvolvimento e uso da tecnologia Inteligência Artificial (IA), tendo por base a salvaguarda de princípios como segurança, saúde e bem-estar das pessoas, ética da transparência, equidade, diversidade e inclusão, formação e promoção de literacia e privacidade.
A Ordem recomenda a regulamentação "q.b." do uso da IA de modo a "permitir a proteção dos consumidores" sem impedir o desenvolvimento tecnológico.
Por outro lado, de acordo com Francisco Miranda Rodrigues, será preciso "uma literacia mais desenvolvida" sobre IA, a começar na escola.
"A regulação, só, não chega, há um conjunto mínimo de informação que as pessoas têm de dominar mais", sustentou.
O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses assinalou que a IA - que consiste na aplicação do conhecimento dos processos cognitivos humanos aos sistemas computacionais que reproduzem esses processos, permitindo criar conteúdos novos, como textos e imagens - deverá implicar "transformações no mercado de trabalho significativas", levando a que as pessoas tenham de "fazer transições entre trabalhos que vão deixar de existir" e empregos novos.
"Este processo causa sofrimento, logo tem impacto no bem-estar das pessoas", sublinhou, salientando que a transição obrigará a que as pessoas "tenham competências" que lhes permitam "fazer uma adaptação do ponto de vista emocional para a mudança", saber lidar com as perdas e "agarrar as oportunidades". .
A Ordem recomenda também a regulamentação "q.b." do uso da Inteligência Artificial, de modo a "permitir a proteção dos consumidores" sem impedir o desenvolvimento tecnológico.
O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Francisco Miranda Rodrigues, defendeu esta segunda-feira que Portugal deveria "avançar o quanto antes" com a regulamentação das aplicações móveis de saúde mental para salvaguardar a segurança de quem as utiliza.
Segundo Francisco Miranda Rodrigues, os riscos associados ao uso destas aplicações - que ajudam por exemplo as pessoas a autogerirem a sua saúde mental através de técnicas de relaxamento e do registo de humores - "podem ser mitigados" com regulamentação.
"Até que ponto as aplicações são válidas, fazem o que dizem fazer, como protegem a privacidade das pessoas?", questionou, em declarações à Lusa.
Francisco Miranda Rodrigues falava à Lusa no dia em que a Ordem dos Psicólogos Portugueses promove, no Porto, a conferência "O fator humano na transição digital".
O bastonário espera que da iniciativa, organizada no Dia Nacional do Psicólogo, saia um compromisso do Governo e das empresas em como "vão ter em conta o fator humano na transição digital", uma vez que a tecnologia de nada serve "se não for feita" de forma a que as pessoas a "consigam utilizar, compreender e sentir segurança na sua utilização".
Por ocasião da conferência, a Ordem dos Psicólogos Portugueses lança um documento com "recomendações estratégicas" para o desenvolvimento e uso da tecnologia Inteligência Artificial (IA), tendo por base a salvaguarda de princípios como segurança, saúde e bem-estar das pessoas, ética da transparência, equidade, diversidade e inclusão, formação e promoção de literacia e privacidade.
A Ordem recomenda a regulamentação "q.b." do uso da IA de modo a "permitir a proteção dos consumidores" sem impedir o desenvolvimento tecnológico.
Por outro lado, de acordo com Francisco Miranda Rodrigues, será preciso "uma literacia mais desenvolvida" sobre IA, a começar na escola.
"A regulação, só, não chega, há um conjunto mínimo de informação que as pessoas têm de dominar mais", sustentou.
O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses assinalou que a IA - que consiste na aplicação do conhecimento dos processos cognitivos humanos aos sistemas computacionais que reproduzem esses processos, permitindo criar conteúdos novos, como textos e imagens - deverá implicar "transformações no mercado de trabalho significativas", levando a que as pessoas tenham de "fazer transições entre trabalhos que vão deixar de existir" e empregos novos.
"Este processo causa sofrimento, logo tem impacto no bem-estar das pessoas", sublinhou, salientando que a transição obrigará a que as pessoas "tenham competências" que lhes permitam "fazer uma adaptação do ponto de vista emocional para a mudança", saber lidar com as perdas e "agarrar as oportunidades". .
27.6.23
Saúde mental das raparigas de 15 anos foi a mais afectada pela covid-19
Patrícia Carvalho, in Público online
Raparigas dizem ter sentido mais impactos negativos na sua saúde mental e no bem-estar, durante a pandemia, do que os rapazes, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde.
As raparigas com 15 anos e uma condição sócio-económica mais desfavorável sofreram mais impactos negativos na sua saúde mental e bem-estar, causados pela pandemia, do que os rapazes da mesma idade ou os adolescentes mais novos. É este o principal resultado do mais recente estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Health Behavior in School-Aged Children (HBSC, que se traduz por Comportamento de Saúde em Crianças em Idade Escolar), que em Portugal foi coordenado pela psicóloga Tânia Gaspar. Por cá, ela quis perceber o que é que, afinal, faz as raparigas felizes.
Com base nas respostas de 22 países, o estudo HBSC, realizado de quatro em quatro anos, concluiu que, apesar de a maioria dos adolescentes não ter reportado impactos negativos relacionados com a covid-19 na sua saúde mental ou bem-estar, ainda existe uma percentagem entre 17% e 38% que o fez. E dentro desta percentagem “as raparigas reportam mais impactos negativos”, refere a OMS.
Tânia Gaspar quis perceber por que é que isto acontece, olhando para o caso português, e contou com a ajuda das respostas a um questionário online de alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos de 40 agrupamentos escolares, correspondendo, no geral, a jovens de 11, 13 e 15 anos. “Estamos sempre a falar nas questões de igualdade de género noutras questões que são fundamentais, mas neste campo, a diferença entre géneros é gritante. As raparigas têm uma forma de perceber e sentir as coisas que afecta mais a sua saúde mental”, afirma a psicóloga.
Em Portugal, a conclusão do estudo da HBSC, que já apontava para mais problemas nas raparigas, também se verifica, e a razão parece estar relacionada com o facto de estas serem afectadas por um conjunto mais vasto de factores quando está em causa a felicidade ou a falta dela.
“Procuramos responder à pergunta: Quem são as raparigas felizes? Que competências têm? Percebemos que é um factor muito complexo. O que influencia a felicidade dos rapazes são menos coisas. Se estiverem bem com a família, tiverem alguns recursos financeiros e gostarem do seu corpo, estão bem. Nas raparigas há muitos mais factores a influenciar, questões da gestão de stress, o facto de a mãe delas ter trabalho, por exemplo”.
E por que é que isto acontece? “Elas sentem muitas vezes que a vida lhes traz desafios a que não estão a conseguir responder. Os rapazes podem sentir o mesmo, mas não se apercebem tanto e agem na mesma. Elas bloqueiam. São características que têm que ver com as expectativas sociais. Espera-se que elas sejam mais bem comportadas, que tenham letra bonita, cadernos arranjadinhos”, diz Tânia Gaspar.
De forma esquemática, o trabalho desenvolvido pela psicóloga conclui que os adolescentes "infelizes" são influenciados por uma baixa qualidade de vida ou uma percepção negativa do corpo, e nos rapazes pesa também o facto de o pai não ter emprego ou se existir uma má relação com a família. Já no caso exclusivo das raparigas, aos factores comuns a ambos os sexos juntam-se não só a dificuldade na gestão de stress ou o facto de a mãe não ter emprego, mas também uma baixa condição sócio-económica, uma fraca literacia em saúde, a insatisfação com a vida, uma má relação com os professores ou dificuldades de comunicação com o pai.
A situação melhora no caso das raparigas mais novas, a quem factores como gostarem da escola ou não sofrerem de bullying contribui para que sejam felizes.
“No caso das raparigas estamos perante uma situação mais complexa e onde é mais difícil de intervir. São muitos factores e a intervenção é mais complexa”, refere a psicóloga. Mas há respostas possíveis e Tânia Gaspar avança algumas.
Três níveis de resposta
Uma das questões que também ressalta do estudo da OMS é que o apoio da família (com grande destaque), dos professores, dos colegas e dos amigos foi essencial para ultrapassar o impacto negativo causado pela pandemia. “Se a família e a escola foram factores protectores e capazes de mitigar o impacto da pandemia - e os efeitos que ela causou não desapareceram -, então temos de continuar a desenvolver trabalho nesse campo, até para preparar os adolescentes para o futuro”, defende a psicóloga.
A responsável pelo HBSC em Portugal considera que é urgente investir em respostas para todos os adolescentes, mas com preponderância nas raparigas e, em concreto, naquelas que têm mais factores de risco associados, como uma baixa situação socio-económica ou mais problemas psicológicos.
A actuação deve, por isso, ser feita a três níveis: universal, destinada a todos e que pode passar, por exemplo, por um dia aberto em cada trimestre que envolva a escola, os estudantes e as famílias, para que de modo informal se possam discutir diversas questões, como a saúde mental; uma intervenção mais selectiva, para grupos de maior risco, com a realização de programas estruturados sócio-emocionais, capazes de lhes dar competências para lidar com o stress e outros factores de risco; e uma intervenção mais individual, prestada por um psicólogo e dirigida a toda a comunidade escolar e às famílias visadas. “Tem de ser um trabalho conjunto e precisamos cada vez mais de trabalhar de forma preventiva. Todos nós podemos descompensar com uma perturbação psicológica e quantos mais recursos tivermos, melhor respondemos aos desafios”, defende.
No que está directamente relacionado com a escola, cerca de metade dos adolescentes inquiridos no HBSC disseram sentir alguma pressão durante a pandemia e cerca de um quarto (sobretudo raparigas e adolescentes mais velhos) afirmam que esta teve um impacto negativo no seu desempenho académico. A percentagem de adolescentes que disse ter gostado muito da escola durante o período pandémico foi de apenas 20%.
Na resposta ao inquérito de Tânia Gaspar, entre as raparigas descritas como "felizes", 80% diz gostar da escola, contra cerca de 54% das “infelizes”. Estas descrevem ainda uma maior pressão (83% diz mesmo sentir muita pressão) e reportam mais casos de bullying: mais de 27% das inquiridas que foram colocadas do lado das “infelizes” diz ter sido vítima deste tipo de violência, uma percentagem que desce para menos de 14% no caso das adolescentes “felizes”.
Tânia Gaspar alerta ainda para os riscos associados aos problemas psicológicos e de falta de bem-estar nos adolescentes. “Se não respondem às expectativas sociais da menina bem comportada, as raparigas podem ter comportamentos opostos, de rebeldia extrema. Alguns comportamentos de risco estão a agravar-se para as raparigas. Esbateu-se a diferença de género no consumo de tabaco e álcool, e ela ainda existe nas drogas, mas qualquer dia muda. E já são elas que tomam mais medicamentos com um efeito ligado à droga, para se acalmarem ou para regular as emoções”, diz a psicóloga.
Olhando para os resultados do inquérito que dirigiu por cá, são mais as raparigas “infelizes” que fumam (quase 17%, contra 6,5% das “felizes”), que consomem álcool (47,4%, percentagem que desce para 28,4% nas “felizes”) e que se embriagam: 17% das “infelizes” dizem já o ter feito, mais do dobro (7,4%) das “felizes”. No caso das que tomam medicamentos como droga, a percentagem é muito pequena em ambos os casos, mas ainda assim maior (3,4%) nas meninas classificadas como “infelizes” do que nas “felizes” (1%).
Raparigas dizem ter sentido mais impactos negativos na sua saúde mental e no bem-estar, durante a pandemia, do que os rapazes, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde.
As raparigas com 15 anos e uma condição sócio-económica mais desfavorável sofreram mais impactos negativos na sua saúde mental e bem-estar, causados pela pandemia, do que os rapazes da mesma idade ou os adolescentes mais novos. É este o principal resultado do mais recente estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Health Behavior in School-Aged Children (HBSC, que se traduz por Comportamento de Saúde em Crianças em Idade Escolar), que em Portugal foi coordenado pela psicóloga Tânia Gaspar. Por cá, ela quis perceber o que é que, afinal, faz as raparigas felizes.
Com base nas respostas de 22 países, o estudo HBSC, realizado de quatro em quatro anos, concluiu que, apesar de a maioria dos adolescentes não ter reportado impactos negativos relacionados com a covid-19 na sua saúde mental ou bem-estar, ainda existe uma percentagem entre 17% e 38% que o fez. E dentro desta percentagem “as raparigas reportam mais impactos negativos”, refere a OMS.
Tânia Gaspar quis perceber por que é que isto acontece, olhando para o caso português, e contou com a ajuda das respostas a um questionário online de alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos de 40 agrupamentos escolares, correspondendo, no geral, a jovens de 11, 13 e 15 anos. “Estamos sempre a falar nas questões de igualdade de género noutras questões que são fundamentais, mas neste campo, a diferença entre géneros é gritante. As raparigas têm uma forma de perceber e sentir as coisas que afecta mais a sua saúde mental”, afirma a psicóloga.
Em Portugal, a conclusão do estudo da HBSC, que já apontava para mais problemas nas raparigas, também se verifica, e a razão parece estar relacionada com o facto de estas serem afectadas por um conjunto mais vasto de factores quando está em causa a felicidade ou a falta dela.
“Procuramos responder à pergunta: Quem são as raparigas felizes? Que competências têm? Percebemos que é um factor muito complexo. O que influencia a felicidade dos rapazes são menos coisas. Se estiverem bem com a família, tiverem alguns recursos financeiros e gostarem do seu corpo, estão bem. Nas raparigas há muitos mais factores a influenciar, questões da gestão de stress, o facto de a mãe delas ter trabalho, por exemplo”.
E por que é que isto acontece? “Elas sentem muitas vezes que a vida lhes traz desafios a que não estão a conseguir responder. Os rapazes podem sentir o mesmo, mas não se apercebem tanto e agem na mesma. Elas bloqueiam. São características que têm que ver com as expectativas sociais. Espera-se que elas sejam mais bem comportadas, que tenham letra bonita, cadernos arranjadinhos”, diz Tânia Gaspar.
De forma esquemática, o trabalho desenvolvido pela psicóloga conclui que os adolescentes "infelizes" são influenciados por uma baixa qualidade de vida ou uma percepção negativa do corpo, e nos rapazes pesa também o facto de o pai não ter emprego ou se existir uma má relação com a família. Já no caso exclusivo das raparigas, aos factores comuns a ambos os sexos juntam-se não só a dificuldade na gestão de stress ou o facto de a mãe não ter emprego, mas também uma baixa condição sócio-económica, uma fraca literacia em saúde, a insatisfação com a vida, uma má relação com os professores ou dificuldades de comunicação com o pai.
A situação melhora no caso das raparigas mais novas, a quem factores como gostarem da escola ou não sofrerem de bullying contribui para que sejam felizes.
“No caso das raparigas estamos perante uma situação mais complexa e onde é mais difícil de intervir. São muitos factores e a intervenção é mais complexa”, refere a psicóloga. Mas há respostas possíveis e Tânia Gaspar avança algumas.
Três níveis de resposta
Uma das questões que também ressalta do estudo da OMS é que o apoio da família (com grande destaque), dos professores, dos colegas e dos amigos foi essencial para ultrapassar o impacto negativo causado pela pandemia. “Se a família e a escola foram factores protectores e capazes de mitigar o impacto da pandemia - e os efeitos que ela causou não desapareceram -, então temos de continuar a desenvolver trabalho nesse campo, até para preparar os adolescentes para o futuro”, defende a psicóloga.
A responsável pelo HBSC em Portugal considera que é urgente investir em respostas para todos os adolescentes, mas com preponderância nas raparigas e, em concreto, naquelas que têm mais factores de risco associados, como uma baixa situação socio-económica ou mais problemas psicológicos.
A actuação deve, por isso, ser feita a três níveis: universal, destinada a todos e que pode passar, por exemplo, por um dia aberto em cada trimestre que envolva a escola, os estudantes e as famílias, para que de modo informal se possam discutir diversas questões, como a saúde mental; uma intervenção mais selectiva, para grupos de maior risco, com a realização de programas estruturados sócio-emocionais, capazes de lhes dar competências para lidar com o stress e outros factores de risco; e uma intervenção mais individual, prestada por um psicólogo e dirigida a toda a comunidade escolar e às famílias visadas. “Tem de ser um trabalho conjunto e precisamos cada vez mais de trabalhar de forma preventiva. Todos nós podemos descompensar com uma perturbação psicológica e quantos mais recursos tivermos, melhor respondemos aos desafios”, defende.
No que está directamente relacionado com a escola, cerca de metade dos adolescentes inquiridos no HBSC disseram sentir alguma pressão durante a pandemia e cerca de um quarto (sobretudo raparigas e adolescentes mais velhos) afirmam que esta teve um impacto negativo no seu desempenho académico. A percentagem de adolescentes que disse ter gostado muito da escola durante o período pandémico foi de apenas 20%.
Na resposta ao inquérito de Tânia Gaspar, entre as raparigas descritas como "felizes", 80% diz gostar da escola, contra cerca de 54% das “infelizes”. Estas descrevem ainda uma maior pressão (83% diz mesmo sentir muita pressão) e reportam mais casos de bullying: mais de 27% das inquiridas que foram colocadas do lado das “infelizes” diz ter sido vítima deste tipo de violência, uma percentagem que desce para menos de 14% no caso das adolescentes “felizes”.
Tânia Gaspar alerta ainda para os riscos associados aos problemas psicológicos e de falta de bem-estar nos adolescentes. “Se não respondem às expectativas sociais da menina bem comportada, as raparigas podem ter comportamentos opostos, de rebeldia extrema. Alguns comportamentos de risco estão a agravar-se para as raparigas. Esbateu-se a diferença de género no consumo de tabaco e álcool, e ela ainda existe nas drogas, mas qualquer dia muda. E já são elas que tomam mais medicamentos com um efeito ligado à droga, para se acalmarem ou para regular as emoções”, diz a psicóloga.
Olhando para os resultados do inquérito que dirigiu por cá, são mais as raparigas “infelizes” que fumam (quase 17%, contra 6,5% das “felizes”), que consomem álcool (47,4%, percentagem que desce para 28,4% nas “felizes”) e que se embriagam: 17% das “infelizes” dizem já o ter feito, mais do dobro (7,4%) das “felizes”. No caso das que tomam medicamentos como droga, a percentagem é muito pequena em ambos os casos, mas ainda assim maior (3,4%) nas meninas classificadas como “infelizes” do que nas “felizes” (1%).
15.6.23
O cérebro não pode ser um sótão atulhado até ao limite
Ana Stilwell e Isabel Stilwell, crónica, in Público
Talvez tenhamos de voltar a usar a lógica do analógico no digital, e só tirar uma (1) fotografia, reservando-a mesmo para um momento especial.
Talvez tenhamos de voltar a usar a lógica do analógico no digital, e só tirar uma (1) fotografia, reservando-a mesmo para um momento especial.
Querida Mãe,
É verdade que das suas duas filhas, não sou a que estudei neurociência, mas nem por isso vou deixar de lhe revelar o que descobri sobre o nosso cérebro!
Fundamentado em... absolutamente nada, para lá da minha experiência pessoal! Aqui vai: Sabe como toda a gente está sempre a tentar convencer-nos de que só usamos uma pequeníssima parcela da nossa gigantesca capacidade mental? E a dar-nos receitas para pôr a uso a que não usamos? Como se mais equivalesse a melhor? Pois bem, venho refutar essa teoria.
E se o nosso cérebro precisar de estar a apenas 10% para conseguir funcionar como deve ser? É que todos os dispositivos, e digo mesmo todos, funcionam pior se o “disco rígido” estiver cheio.
Se calhar, precisamos do espaço aparentemente inactivo, para conseguirmos funcionar melhor. Se calhar, precisamos de não estar ao máximo da nossa capacidade, para sermos capazes de usufruir do verdadeiro mistério que é o mundo à nossa volta.
Sempre que surge um primeiro dia de Verão, fico maravilhada, mas também surpreendida por me ter esquecido da sensação que me provoca. Como se alguém tivesse passado uma esponja sobre a sensação de calor, tal como quando está calor, não consigo realmente “sentir” como é o frio do Inverno.
Mas, se não fossem essas falhas de memória, como é que nos continuávamos a espantar pelo facto de o mundo, mudando todos os dias, voltar ciclicamente a ser o mesmo? O meu e-mail, o meu telemóvel, o meu computador, todos gritam "Memória quase cheia. O sistema pode não funcionar a 100%".
E é exactamente assim que me sinto. A apagar duas fotografias para poder ter mais espaço, durante um segundo... porque fica cheio de novo.
Talvez tenhamos de voltar a usar a lógica do analógico no digital, e só tirar uma (1) fotografia, reservando-a mesmo para um momento especial. E a usar da mesma parcimónia com tudo o resto na nossa vida, sem esta ânsia de chegar a tudo e a todos ao mesmo tempo.
Mãe, gosta da minha teoria?
Querida Ana,
Parece-me brilhante, e a avaliar pela dificuldade que sinto todas as noites a adormecer, com a cabeça a mil e os pensamentos a atropelarem-se uns aos outros, pressinto que deste um passo gigante na ciência. Não estranhes a falta de reconhecimento da Academia, porque geralmente só chega quando o génio já morreu há pelo menos um século.
Sinto exactamente a mesma necessidade de encontrar clareiras nesta vida de correria e de ter muito daquilo de que já temos demais, o que vai dos bens materiais, ao excesso de informação, consumida sem critério.
Ainda ontem estava a reparar em dois anúncios na televisão que são paradigmáticos desta loucura: um é de um comprimido que, diz a locução, nos permite comer e beber ao limite, porque basta uma pastilha daquelas e fica tudo a zeros — em lugar de dizer que, talvez, fosse melhor não ingerir mais do que o nosso corpo e cabeça aguenta. O segundo, de venda de roupa em segunda mão, com imagens de armários a deitar por fora, mas em que a moral da história é “despacha isto para poderes voltar a encher com mais”.
Por isso, obrigada Ana, por me lembrares que o cérebro não deve mesmo ser um sótão que atulhamos até ao limite, seja ele qual for. Porque tenho a certeza absoluta que tens razão: a criatividade e a imaginação precisam de espaço. Tanta conversa sobre saúde mental, mas se calhar é esta a primeira regra.
O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam.
É verdade que das suas duas filhas, não sou a que estudei neurociência, mas nem por isso vou deixar de lhe revelar o que descobri sobre o nosso cérebro!
Fundamentado em... absolutamente nada, para lá da minha experiência pessoal! Aqui vai: Sabe como toda a gente está sempre a tentar convencer-nos de que só usamos uma pequeníssima parcela da nossa gigantesca capacidade mental? E a dar-nos receitas para pôr a uso a que não usamos? Como se mais equivalesse a melhor? Pois bem, venho refutar essa teoria.
E se o nosso cérebro precisar de estar a apenas 10% para conseguir funcionar como deve ser? É que todos os dispositivos, e digo mesmo todos, funcionam pior se o “disco rígido” estiver cheio.
Se calhar, precisamos do espaço aparentemente inactivo, para conseguirmos funcionar melhor. Se calhar, precisamos de não estar ao máximo da nossa capacidade, para sermos capazes de usufruir do verdadeiro mistério que é o mundo à nossa volta.
Sempre que surge um primeiro dia de Verão, fico maravilhada, mas também surpreendida por me ter esquecido da sensação que me provoca. Como se alguém tivesse passado uma esponja sobre a sensação de calor, tal como quando está calor, não consigo realmente “sentir” como é o frio do Inverno.
Mas, se não fossem essas falhas de memória, como é que nos continuávamos a espantar pelo facto de o mundo, mudando todos os dias, voltar ciclicamente a ser o mesmo? O meu e-mail, o meu telemóvel, o meu computador, todos gritam "Memória quase cheia. O sistema pode não funcionar a 100%".
E é exactamente assim que me sinto. A apagar duas fotografias para poder ter mais espaço, durante um segundo... porque fica cheio de novo.
Talvez tenhamos de voltar a usar a lógica do analógico no digital, e só tirar uma (1) fotografia, reservando-a mesmo para um momento especial. E a usar da mesma parcimónia com tudo o resto na nossa vida, sem esta ânsia de chegar a tudo e a todos ao mesmo tempo.
Mãe, gosta da minha teoria?
Querida Ana,
Parece-me brilhante, e a avaliar pela dificuldade que sinto todas as noites a adormecer, com a cabeça a mil e os pensamentos a atropelarem-se uns aos outros, pressinto que deste um passo gigante na ciência. Não estranhes a falta de reconhecimento da Academia, porque geralmente só chega quando o génio já morreu há pelo menos um século.
Sinto exactamente a mesma necessidade de encontrar clareiras nesta vida de correria e de ter muito daquilo de que já temos demais, o que vai dos bens materiais, ao excesso de informação, consumida sem critério.
Ainda ontem estava a reparar em dois anúncios na televisão que são paradigmáticos desta loucura: um é de um comprimido que, diz a locução, nos permite comer e beber ao limite, porque basta uma pastilha daquelas e fica tudo a zeros — em lugar de dizer que, talvez, fosse melhor não ingerir mais do que o nosso corpo e cabeça aguenta. O segundo, de venda de roupa em segunda mão, com imagens de armários a deitar por fora, mas em que a moral da história é “despacha isto para poderes voltar a encher com mais”.
Por isso, obrigada Ana, por me lembrares que o cérebro não deve mesmo ser um sótão que atulhamos até ao limite, seja ele qual for. Porque tenho a certeza absoluta que tens razão: a criatividade e a imaginação precisam de espaço. Tanta conversa sobre saúde mental, mas se calhar é esta a primeira regra.
O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam.
12.6.23
Por que razão sofrem os jovens? "Vejo a minha geração mais triste do que as anteriores. Estamos agarrados às redes sociais, sozinhos"
Joana Pereira Bastos Jornalista, João Martins, in Expresso
s números impressionam. Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde, divulgado no ano passado, 28% dos adolescentes portugueses sentem-se infelizes e 9% dizem-se “tão tristes que não aguentam mais”. É verdade que a adolescência sempre foi uma fase da vida associada a algum mal-estar psicológico, mas vários indicadores, como o aumento do consumo de psicofármacos ou o crescimento das tentativas de suicídio, mostram que o sofrimento parece estar a agravar-se.
“Vejo a minha geração mais triste do que as gerações anteriores”, admite Beatriz Oliveira, de 17 anos, apontando que muitos jovens estão hoje “agarrados a jogos ou a redes sociais, mais fechados sobre aquilo que sentem” e com dificuldade em criar relações.
No quinto episódio do podcast “Que Voz é Esta?”, dedicado à saúde mental dos adolescentes, o pedopsiquiatra Augusto Carreira, antigo diretor do serviço de psiquiatria da infância e da adolescência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, explicou alguns dos fatores que podem estar a provocar um agravamento do mal-estar psicológico dos mais jovens, como as profundas alterações sociais e familiares que têm vindo a acontecer nos últimos anos, de forma acelerada.
“O modelo de socialização dos jovens hoje em dia é diferente. É um modelo em que as pessoas, parecendo que estão acompanhadas, estão na verdade numa grande solidão”, explica, considerando que “este isolamento motivado pelas tecnologias” é um dos fatores que ajudam a explicar o agravamento dos sinais de sofrimento entre os adolescentes.
Para o pedopsiquiatra, os videojogos e as redes sociais aumentaram “a solidão emocional” dos adolescentes, promovendo relações muito superficiais, que dificultam o estabelecimento de laços mais íntimos e a partilha de sentimentos profundos, desde logo do próprio sofrimento.
Beatriz Oliveira descreve as redes sociais como “um abismo em que as pessoas caem e de que é difícil sair”. Mesmo tendo consciência de que estão “agarrados” a elas, muitos jovens não conseguem desligar. “Um like dá-nos uma validação que nós procuramos porque muitas vezes não temos essa validação na nossa vida diária”, diz a aluna do 11º numa escola de Lisboa.
A dependência dos videojogos, “que têm vindo a refinar os mecanismos de provocar adição”, está a ter igualmente “efeitos gravíssimos” na saúde mental dos mais novos, frisa Augusto Carreira. “Há jovens que não saem do quarto, só jogam. E uma das coisas que se percebe é que a sua capacidade de empatia está praticamente reduzida a zero”, afirma.
“As redes sociais foram feitas para nos prender a elas de uma forma que não é saudável e nós temos noção disso, mas mesmo assim continuamos (…) Acabam por ser um abismo em que as pessoas caem e de que é difícil sair. Um like dá-nos uma validação que nós procuramos porque muitas das vezes não temos essa validação na nossa vida diária."
A gestão do tempo de ecrã transformou-se mesmo num dos principais focos de conflito dentro das famílias, diz Augusto Carreira, frisando que a comunicação entre pais e filhos é mais importante do que nunca.
Neste episódio dedicado à saúde mental dos adolescentes, o pedopsiquiatra falou igualmente dos jovens que se ferem intencionalmente, auto-infligindo cortes ou queimaduras na pele como tentativa de alivar o sofrimento psicológico através da dor física. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde, quase 24,8% dos adolescentes portugueses já se feriu de propósito pelo menos uma vez e o número aumentou 5,2% entre 2018 e 2022.
“Hoje em dia, os jovens não têm capacidade de expressar as suas emoções e essa é a questão central dos comportamentos autolesivos”, explica, sublinhando que é urgente criar estratégias de prevenção, desde logo nas escolas. “É preciso que haja nas escolas quem seja capaz de identificar os jovens que estão a precisar de ajuda”.
Beatriz Oliveira descreve as redes sociais como “um abismo em que as pessoas caem e de que é difícil sair”. Mesmo tendo consciência de que estão “agarrados” a elas, muitos jovens não conseguem desligar. “Um like dá-nos uma validação que nós procuramos porque muitas vezes não temos essa validação na nossa vida diária”, diz a aluna do 11º numa escola de Lisboa.
A dependência dos videojogos, “que têm vindo a refinar os mecanismos de provocar adição”, está a ter igualmente “efeitos gravíssimos” na saúde mental dos mais novos, frisa Augusto Carreira. “Há jovens que não saem do quarto, só jogam. E uma das coisas que se percebe é que a sua capacidade de empatia está praticamente reduzida a zero”, afirma.
“As redes sociais foram feitas para nos prender a elas de uma forma que não é saudável e nós temos noção disso, mas mesmo assim continuamos (…) Acabam por ser um abismo em que as pessoas caem e de que é difícil sair. Um like dá-nos uma validação que nós procuramos porque muitas das vezes não temos essa validação na nossa vida diária."
A gestão do tempo de ecrã transformou-se mesmo num dos principais focos de conflito dentro das famílias, diz Augusto Carreira, frisando que a comunicação entre pais e filhos é mais importante do que nunca.
Neste episódio dedicado à saúde mental dos adolescentes, o pedopsiquiatra falou igualmente dos jovens que se ferem intencionalmente, auto-infligindo cortes ou queimaduras na pele como tentativa de alivar o sofrimento psicológico através da dor física. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde, quase 24,8% dos adolescentes portugueses já se feriu de propósito pelo menos uma vez e o número aumentou 5,2% entre 2018 e 2022.
“Hoje em dia, os jovens não têm capacidade de expressar as suas emoções e essa é a questão central dos comportamentos autolesivos”, explica, sublinhando que é urgente criar estratégias de prevenção, desde logo nas escolas. “É preciso que haja nas escolas quem seja capaz de identificar os jovens que estão a precisar de ajuda”.
Que voz é esta?” é um novo podcast do Expresso dedicado à saúde mental. Todas as semanas, as jornalistas Joana Pereira Bastos e Helena Bento vão dar voz a quem vive com ansiedade, depressão, fobia ou outros problemas de saúde mental, e ouvir os mais reputados especialistas nestas áreas. Sem estigma nem rodeios, vão falar de doenças e sintomas, tratamentos e terapias, mas também de prevenção e das melhores estratégias para promover o bem-estar psicológico. O podcast conta com o apoio científico de José Miguel Caldas de Almeida, psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental.
Que voz é esta?” é um novo podcast do Expresso dedicado à saúde mental. Todas as semanas, as jornalistas Joana Pereira Bastos e Helena Bento vão dar voz a quem vive com ansiedade, depressão, fobia ou outros problemas de saúde mental, e ouvir os mais reputados especialistas nestas áreas. Sem estigma nem rodeios, vão falar de doenças e sintomas, tratamentos e terapias, mas também de prevenção e das melhores estratégias para promover o bem-estar psicológico. O podcast conta com o apoio científico de José Miguel Caldas de Almeida, psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental.
30.5.23
Estudo revela que 86% dos jovens portugueses estão viciados nas redes sociais, 48% dos pais sentem-se culpados por não protegerem os filhos
Por Lusa, in Expresso
80% dos jovens prefere comunicar pelas redes sociais, em vez de pessoalmente. Dois em cada cinco jovens reconhecem que as redes sociais têm impacto negativo na sua saúde mental
Um estudo sobre o impacto das redes sociais na saúde mental revelou que 86% dos jovens portugueses admitem estar viciados nestas plataformas, um valor superior à média europeia (78%), e 90% já as utilizam desde os 13 anos.
O estudo, desenvolvido pela Dove em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Brasil, Estados Unidos, Canadá, inquiriu 1.200 jovens e pais em Portugal.
Concluiu que 80% dos jovens prefere comunicar pelas redes sociais, em vez de pessoalmente, e considera que estas são para os seus pares uma parte de si mesmos. Admitem também ficar aborrecidos se não puderem aceder às plataformas.
Dois em cada cinco jovens reconhecem que as redes sociais têm impacto negativo na sua saúde mental "muito por culpa dos conteúdos tóxicos a que assistem", nomeadamente incentivos à automutilação (25%) e 90% já foi exposto a conteúdos de beleza tóxicos, revela o estudo.
Cerca de metade (45%) observou conteúdos que incentivam comportamentos de restrição ou distúrbio alimentar, 70% já consumiu informações que os incentivaram a utilizar de forma excessiva filtros nas suas fotografias e vídeos.
Três em cada quatro jovens viram conteúdos que mostravam "corpos perfeitos e irrealistas" e dizem concordar que as redes sociais têm o poder de os fazer querer mudar a sua aparência.
O trabalho agora conhecido é apoiado no lançamento de uma petição internacional em colaboração com a Mental Health Europe, uma rede europeia que trabalha na prevenção de problemas de saúde mental, que pretende levar o tema da segurança 'online' dos jovens ao Parlamento Europeu e legislar as redes sociais.
O estudo também analisou a visão dos pais sobre esta problemática, tendo concluído que 48% se sentem culpados por não estarem a proteger suficientemente bem os filhos daquilo que veem e ouvem diariamente 'online', 52% acredita que plataformas têm mais poder para moldar a autoestima e a confiança dos seus filhos do que eles enquanto pais e 40% confirma que os conteúdos têm impacto negativo na saúde mental dos filhos.
Mais de 85% dos pais concorda que as redes sociais precisam de mudar para darem uma experiência mais positiva aos adolescentes e que é necessário adotar leis para responsabilizar as plataformas pelos danos que estão a causar à saúde mental dos jovens.
Comentando à agência Lusa estes dados, o psicólogo Eduardo Sá afirmou o estudo se limita "a tornar mais visível" aquilo que os pais, professores e os técnicos que trabalham com adolescentes observam, que é "um acesso franco, prolongado e ilimitado às redes sociais sem qualquer tutela por parte dos adultos", que acaba por ter, em muitos aspetos, "um impacto francamente prejudicial na sua saúde mental".
O porta-voz do estudo destacou o facto de os adolescentes reconhecerem ser viciados nas redes sociais e que "não encontram ninguém que, de alguma forma, os proteja ou regularize a sua relação com elas".
O estudo realça também o modo como os adolescentes comunicam entre si, que já não é de "viva voz" como acontecia há uma geração, mas fundamentalmente através do digital e das redes sociais em que são expostos a uma realidade que deveria "dar que pensar".
Por outro lado, disse o especialista em Saúde Familiar e Educação Parental o estudo "deixou claro" que aquilo que os adolescentes acham que é a realidade e aquilo que as redes sociais lhes trazem como realidade acaba por ser confundido para eles, o que traz "distorções significativas na sua formação".
"[O impacto] que as redes sociais têm, muitas vezes, na deformação dos adolescentes, acaba por ser uma espécie de droga (...) e com o assentimento dos pais e com consequências que, nalguns casos, são manifestamente graves".
"Eles acabam por ter contacto com conteúdos que são de uma toxicidade absolutamente fora do vulgar sobre a beleza. E esses conteúdos são tão massivos, tão imersivos, que quando eles se comparam com estes modelos que lhes chegam, evidentemente, que não têm como não se sentir piores", vincou, considerando ser "uma situação muito preocupante".
O psicólogo salientou o papel que os pais devem ter nesta matéria: "Nós, os pais, somos muito demissionários, muito mais do que era suposto, sem medirmos as consequências que tudo isto tem na saúde mental dos nossos filhos que, a curto, médio prazo, acaba por ficar comprometida e nós temos a obrigação de intervir de outra forma porque fica aqui todo um vazio que acaba por ser prejudicial".
"Portanto, aquilo que me preocupa não são tantos os adolescentes, somos nós na definição de um conjunto de regras que eles precisam de ter para que o seu crescimento seja protegido", rematou.
80% dos jovens prefere comunicar pelas redes sociais, em vez de pessoalmente. Dois em cada cinco jovens reconhecem que as redes sociais têm impacto negativo na sua saúde mental
Um estudo sobre o impacto das redes sociais na saúde mental revelou que 86% dos jovens portugueses admitem estar viciados nestas plataformas, um valor superior à média europeia (78%), e 90% já as utilizam desde os 13 anos.
O estudo, desenvolvido pela Dove em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Brasil, Estados Unidos, Canadá, inquiriu 1.200 jovens e pais em Portugal.
Concluiu que 80% dos jovens prefere comunicar pelas redes sociais, em vez de pessoalmente, e considera que estas são para os seus pares uma parte de si mesmos. Admitem também ficar aborrecidos se não puderem aceder às plataformas.
Dois em cada cinco jovens reconhecem que as redes sociais têm impacto negativo na sua saúde mental "muito por culpa dos conteúdos tóxicos a que assistem", nomeadamente incentivos à automutilação (25%) e 90% já foi exposto a conteúdos de beleza tóxicos, revela o estudo.
Cerca de metade (45%) observou conteúdos que incentivam comportamentos de restrição ou distúrbio alimentar, 70% já consumiu informações que os incentivaram a utilizar de forma excessiva filtros nas suas fotografias e vídeos.
Três em cada quatro jovens viram conteúdos que mostravam "corpos perfeitos e irrealistas" e dizem concordar que as redes sociais têm o poder de os fazer querer mudar a sua aparência.
O trabalho agora conhecido é apoiado no lançamento de uma petição internacional em colaboração com a Mental Health Europe, uma rede europeia que trabalha na prevenção de problemas de saúde mental, que pretende levar o tema da segurança 'online' dos jovens ao Parlamento Europeu e legislar as redes sociais.
O estudo também analisou a visão dos pais sobre esta problemática, tendo concluído que 48% se sentem culpados por não estarem a proteger suficientemente bem os filhos daquilo que veem e ouvem diariamente 'online', 52% acredita que plataformas têm mais poder para moldar a autoestima e a confiança dos seus filhos do que eles enquanto pais e 40% confirma que os conteúdos têm impacto negativo na saúde mental dos filhos.
Mais de 85% dos pais concorda que as redes sociais precisam de mudar para darem uma experiência mais positiva aos adolescentes e que é necessário adotar leis para responsabilizar as plataformas pelos danos que estão a causar à saúde mental dos jovens.
Comentando à agência Lusa estes dados, o psicólogo Eduardo Sá afirmou o estudo se limita "a tornar mais visível" aquilo que os pais, professores e os técnicos que trabalham com adolescentes observam, que é "um acesso franco, prolongado e ilimitado às redes sociais sem qualquer tutela por parte dos adultos", que acaba por ter, em muitos aspetos, "um impacto francamente prejudicial na sua saúde mental".
O porta-voz do estudo destacou o facto de os adolescentes reconhecerem ser viciados nas redes sociais e que "não encontram ninguém que, de alguma forma, os proteja ou regularize a sua relação com elas".
O estudo realça também o modo como os adolescentes comunicam entre si, que já não é de "viva voz" como acontecia há uma geração, mas fundamentalmente através do digital e das redes sociais em que são expostos a uma realidade que deveria "dar que pensar".
Por outro lado, disse o especialista em Saúde Familiar e Educação Parental o estudo "deixou claro" que aquilo que os adolescentes acham que é a realidade e aquilo que as redes sociais lhes trazem como realidade acaba por ser confundido para eles, o que traz "distorções significativas na sua formação".
"[O impacto] que as redes sociais têm, muitas vezes, na deformação dos adolescentes, acaba por ser uma espécie de droga (...) e com o assentimento dos pais e com consequências que, nalguns casos, são manifestamente graves".
"Eles acabam por ter contacto com conteúdos que são de uma toxicidade absolutamente fora do vulgar sobre a beleza. E esses conteúdos são tão massivos, tão imersivos, que quando eles se comparam com estes modelos que lhes chegam, evidentemente, que não têm como não se sentir piores", vincou, considerando ser "uma situação muito preocupante".
O psicólogo salientou o papel que os pais devem ter nesta matéria: "Nós, os pais, somos muito demissionários, muito mais do que era suposto, sem medirmos as consequências que tudo isto tem na saúde mental dos nossos filhos que, a curto, médio prazo, acaba por ficar comprometida e nós temos a obrigação de intervir de outra forma porque fica aqui todo um vazio que acaba por ser prejudicial".
"Portanto, aquilo que me preocupa não são tantos os adolescentes, somos nós na definição de um conjunto de regras que eles precisam de ter para que o seu crescimento seja protegido", rematou.
29.5.23
O que está na origem do burnout e porque razão está a aumentar? “A pessoa deixa de dormir ou comer. O organismo chega à exaustão e quebra”
Joana Pereira Bastos, in Expresso
Cada vez mais trabalhadores estão a atingir um estado de esgotamento físico e mental provocado pela exposição a um stress profissional crónico. Isso tem um nome: burnout. Mas como podemos identificar os sinais de alerta? E o que devem fazer as empresas para o prevenir? No novo episódio do podcast do Expresso dedicado à saúde mental, oiça as explicações da psicóloga Tânia Gaspar e o testemunho do advogado Nuno Castelão, que esteve oito meses de baixa por burnout
O burnout está a atingir uma dimensão preocupante em várias profissões. O ritmo de trabalho é cada vez mais intenso, as solicitações multiplicam-se, muitas vezes a desoras, e cresce a sensação de nunca se conseguir desligar.
Segundo os resultados de um inquérito divulgado em maio pelo Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis (LPATS), cerca de metade dos trabalhadores estão em elevado risco de burnout, apresentando, cumulativamente, três sintomas de esgotamento, como exaustão, tristeza e irritabilidade.
Nuno Castelão, advogado, teve-os todos. Trabalhava num dos maiores escritórios do país quando, em 2019, entrou em colapso. Pensou que ia parar de trabalhar apenas algumas semanas para se conseguir restabelecer, mas a baixa por burnout acabou por se prolongar por oito meses. E o regresso foi muito difícil, como conta neste episódio do podcast “Que Voz é Esta?”.
Para ler este artigo na íntegra clique aqui
O burnout está a atingir uma dimensão preocupante em várias profissões. O ritmo de trabalho é cada vez mais intenso, as solicitações multiplicam-se, muitas vezes a desoras, e cresce a sensação de nunca se conseguir desligar.
Segundo os resultados de um inquérito divulgado em maio pelo Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis (LPATS), cerca de metade dos trabalhadores estão em elevado risco de burnout, apresentando, cumulativamente, três sintomas de esgotamento, como exaustão, tristeza e irritabilidade.
Nuno Castelão, advogado, teve-os todos. Trabalhava num dos maiores escritórios do país quando, em 2019, entrou em colapso. Pensou que ia parar de trabalhar apenas algumas semanas para se conseguir restabelecer, mas a baixa por burnout acabou por se prolongar por oito meses. E o regresso foi muito difícil, como conta neste episódio do podcast “Que Voz é Esta?”.
Para ler este artigo na íntegra clique aqui
26.5.23
Parlamento aprova alteração à lei de saúde mental. Detenção 'perpétua' de inimputáveis deixa de ser possível
Helena Bento e Lusa, in Expresso
O parlamento aprovou esta sexta-feira na especialidade a alteração à lei de saúde mental proposta pelo Governo, substituindo a legislação em vigor há cerca de 20 anos.
O texto final apresentado pela Comissão de Saúde, relativo à proposta de lei que aprova a lei de saúde mental e altera a legislação conexa, foi aprovado com os votos favoráveis de PS e PCP.
O documento recebeu os votos contra de Chega e PSD, enquanto Iniciativa Liberal (IL), BE, PAN e Livre se abstiveram.
A proposta de lei do Governo sobre a saúde mental foi em 14 de outubro do ano passado aprovada na generalidade no parlamento, que rejeitou outras quatro iniciativas sobre essa área apresentadas pelos deputados do Chega, BE, Livre e PAN.
O diploma do Governo foi então aprovado com os votos a favor do PS, do PSD, do PCP, do BE, do PAN e do Livre, contra do Chega e a abstenção da IL.
A proposta de lei insere-se na reforma da saúde mental que o Governo quer concluir até final de 2026 e que recorre a 88 milhões de euros para investimentos nesta área, disponíveis no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
De acordo com o ministro da Saúde, o diploma, que teve o contributo de um grupo de peritos, pretende atualizar a legislação que vigora nas últimas duas décadas, tendo em conta os desenvolvimentos científicos, jurídicos e de direitos humanos registados ao longo desse período.
"A proposta de lei acentua a nossa visão humanista, enquanto vertente indispensável de cuidados de saúde de excelência, conferindo centralidade aos conceitos de autonomia, dignidade, participação, oportunidade e recuperação" da pessoa com necessidades de cuidados de saúde mental, salientou Manuel Pizarro no parlamento, na ocasião.
FIM DAS DETENÇÕES ‘PERPÉTUAS’
Uma das principais medidas é pôr fim ao internamento de duração ilimitada para inimputáveis, uma medida que foi recomendada pelo Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e Tratamentos Desumanos, depois de várias visitas realizadas nos últimos anos a unidades forenses localizadas dentro e fora de estabelecimentos prisionais.
A lei até agora em vigor permitia que as medidas de segurança de internamento aplicadas a inimputáveis pudessem, em alguns casos, ser prorrogadas por tempo indefinido, o que, na prática, resultava em detenções perpétuas.
Com a nova lei, no entanto, assim que terminar o prazo máximo de cumprimento da medida de segurança determinado pelo juiz, o "indivíduo será necessariamente libertado, ainda que naturalmente se possa manter em tratamento voluntário ou involuntário conforme o caso", explicou recentemente Fernando Vieira, psiquiatra forense da Ordem dos Médicos e um dos membros do grupo de trabalho que elaborou a proposta de lei, em declarações ao Expresso.
Após a libertação, e consoante eventuais avaliações médicas e decisões judiciais que possam ter lugar, pode vir a ser submetido, como qualquer outro cidadão, a um tratamento involuntário, seja em regime de internamento, seja em regime de ambulatório.
A proposta de lei apresentada pelo Governo também previa, em relação aos cidadãos inimputáveis, que as avaliações das medidas de segurança fossem realizadas com mais frequência, isto é, todos os anos, quando até agora eram feitas de dois em dois anos.
Entre outras medidas, a proposta contemplava a possibilidade de o utente escolher uma "pessoa de confiança” para ver cumpridos os seus direitos de reclamação e revisão da decisão de tratamento involuntário, caso tenha perdido a capacidade de discernir e consentir devido à doença, e a possibilidade de elaborar diretivas antecipadas de vontade.
INTERNAMENTO DEVE SER “ÚLTIMO RECURSO”
A utilização de medidas coercivas em pessoas com doença mental, incluindo o isolamento e meios de contenção físicos ou farmacológicos, deve ser feita apenas em “último recurso” e por “um período limitado à sua estrita necessidade”. Também o internamento hospitalar de pessoas com doença mental deve ser uma medida de último recurso, privilegiando-se o tratamento em ambulatório.
No geral, o diploma incide sobre a definição, os fundamentos e os objetivos da política desta área, consagra os direitos e deveres das pessoas com necessidade de cuidados de saúde mental e regula as restrições destes direitos e as garantias da proteção da liberdade e da autonomia.
18.5.23
“É mau para a saúde mental das pessoas ser pobre, é ainda pior tornar-se pobre e é muitíssimo pior ser pobre ao lado dos muito ricos”
Joana Pereira Bastos, in Expresso
O psiquiatra José Miguel Caldas de Almeida explica por que razão há uma prevalência tão alta de doença mental em Portugal, fala sobre as perturbações mais comuns, como a ansiedade e a depressão, e deixa alguns conselhos sobre a melhor forma de preservar o bem-estar psicológico. “35% das pessoas com depressão não procuram cuidados de saúde. Sabem porquê? Porque acham que andam cansadas. Não têm a perceção de que têm um problema que precisa de ser tratado”, diz o professor catedrático jubilado de Psiquiatria. Oiça aqui o primeiro episódio do “Que Voz é Esta?”, o podcast do Expresso dedicado à saúde mental
Mais de um quinto dos portugueses sofre de algum tipo de perturbação psiquiátrica, o segundo valor mais alto da Europa. Neste primeiro episódio do podcast ‘Que voz é esta?’, o psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental José Miguel Caldas de Almeida traça um retrato da saúde mental da população e explica os fatores culturais, económicos e sociais que contribuem para a elevada prevalência de perturbações da ansiedade em Portugal.
“É mau para a saúde mental das pessoas ser pobre, é ainda pior tornar-se pobre e é muitíssimo pior ser pobre ao lado dos muito ricos”, diz o professor catedrático jubilado de Psiquiatria. Com os preços a subir, as rendas e prestações a disparar e as dificuldades económicas a fazerem-se sentir cada vez mais, é normal que problemas como a ansiedade e a depressão aumentem ainda mais nesta conjuntura.
Nesta entrevista, José Miguel Caldas de Almeida critica o excesso de medicação, sobretudo dos ansiolíticos, e elenca as melhores estratégias de prevenção, tanto a nível das políticas públicas como para cada um de nós, individualmente.
“35% das pessoas com depressão não procuram cuidados de saúde. Sabem porquê? Porque acham que andam cansadas. Não têm a perceção de que têm um problema que precisa de ser tratado”
15.5.23
José Caldas de Almeida: “A ameaça de pobreza, o receio do desemprego e as dívidas são um fator fortíssimo na base de doenças mentais”
Joana Pereira Bastos, Helena Bento e João Martins, in Expresso
No primeiro episódio do “Que Voz é Esta?”, o podcast do Expresso dedicado à saúde mental, o psiquiatra José Miguel Caldas de Almeida explica por que razão há uma prevalência tão alta de doença mental em Portugal, fala sobre as perturbações mais comuns, como a ansiedade e a depressão, e deixa alguns conselhos sobre a melhor forma de preservar o bem-estar psicológico. “Portugal tem um dos índices mais elevados de desigualdade social e económica na Europa. É mau para a saúde mental das pessoas ser pobre, é ainda pior tornar-se pobre e é muitíssimo pior ser pobre ao lado dos muito ricos”, diz o professor catedrático jubilado de Psiquiatria. Oiça aqui o primeiro episódio
Mais de um quinto dos portugueses sofre de algum tipo de perturbação psiquiátrica, o segundo valor mais alto da Europa. Neste primeiro episódio do podcast ‘Que voz é esta?’, o psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental José Miguel Caldas de Almeida traça um retrato da saúde mental da população e explica os fatores culturais, económicos e sociais que contribuem para a elevada prevalência de perturbações da ansiedade em Portugal.
“É mau para a saúde mental das pessoas ser pobre, é ainda pior tornar-se pobre e é muitíssimo pior ser pobre ao lado dos muito ricos”, diz o professor catedrático jubilado de Psiquiatria. Com os preços a subir, as rendas e prestações a disparar e as dificuldades económicas a fazerem-se sentir cada vez mais, é normal que problemas como a ansiedade e a depressão aumentem ainda mais nesta conjuntura.
Nesta entrevista, José Miguel Caldas de Almeida critica o excesso de medicação, sobretudo dos ansiolíticos, e elenca as melhores estratégias de prevenção, tanto a nível das políticas públicas como para cada um de nós, individualmente.
“35% das pessoas com depressão não procuram cuidados de saúde. Sabem porquê? Porque acham que andam cansadas. Não têm a perceção de que têm um problema que precisa de ser tratado”
Caldas de Almeida será o consultor científico do “Que Voz é Esta?”, o podcast do Expresso dedicado à saúde mental. Todas as semanas, as jornalistas Joana Pereira Bastos e Helena Bento vão dar voz a quem vive com ansiedade, depressão, fobia ou outros problemas de saúde mental, e ouvir os mais reputados especialistas nesta área.
Sem estigma nem rodeios, vão falar de doenças e sintomas, tratamentos e terapias, mas também de prevenção e das melhores estratégias para promover o bem-estar psicológico.
Oiça o podcast todas as segundas-feiras em exclusivo em Expresso.pt. ‘Que voz é esta? Vamos tratar da nossa saúde mental’ tem o apoio da Médis.
Mais de um quinto dos portugueses sofre de algum tipo de perturbação psiquiátrica, o segundo valor mais alto da Europa. Neste primeiro episódio do podcast ‘Que voz é esta?’, o psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental José Miguel Caldas de Almeida traça um retrato da saúde mental da população e explica os fatores culturais, económicos e sociais que contribuem para a elevada prevalência de perturbações da ansiedade em Portugal.
“É mau para a saúde mental das pessoas ser pobre, é ainda pior tornar-se pobre e é muitíssimo pior ser pobre ao lado dos muito ricos”, diz o professor catedrático jubilado de Psiquiatria. Com os preços a subir, as rendas e prestações a disparar e as dificuldades económicas a fazerem-se sentir cada vez mais, é normal que problemas como a ansiedade e a depressão aumentem ainda mais nesta conjuntura.
Nesta entrevista, José Miguel Caldas de Almeida critica o excesso de medicação, sobretudo dos ansiolíticos, e elenca as melhores estratégias de prevenção, tanto a nível das políticas públicas como para cada um de nós, individualmente.
“35% das pessoas com depressão não procuram cuidados de saúde. Sabem porquê? Porque acham que andam cansadas. Não têm a perceção de que têm um problema que precisa de ser tratado”
Caldas de Almeida será o consultor científico do “Que Voz é Esta?”, o podcast do Expresso dedicado à saúde mental. Todas as semanas, as jornalistas Joana Pereira Bastos e Helena Bento vão dar voz a quem vive com ansiedade, depressão, fobia ou outros problemas de saúde mental, e ouvir os mais reputados especialistas nesta área.
Sem estigma nem rodeios, vão falar de doenças e sintomas, tratamentos e terapias, mas também de prevenção e das melhores estratégias para promover o bem-estar psicológico.
Oiça o podcast todas as segundas-feiras em exclusivo em Expresso.pt. ‘Que voz é esta? Vamos tratar da nossa saúde mental’ tem o apoio da Médis.
Sintomas de burnout ameaçam quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo
Natália Faria, in Público
Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis foi criado há um ano para estudar os ambientes de trabalho nas empresas. Esta terça-feira é divulgado um manual de boas práticas.
Exaustos, irritados, frustrados, com dificuldades de concentração e incapazes de gerir o stress: quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo feito pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LPATS) mostram pelo menos um sintoma de burnout, o que equivale a dizer que arriscam um quadro de “permanente stress crónico laboral”, como adiantou ao PÚBLICO a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do laboratório.
Entre os que apresentaram o risco mais elevado de virem a cair no burnout, a sensação de exaustão física foi a mais referida: 42,6% disseram ter-se sentido assim nas quatro semanas anteriores ao inquérito. Mais: entre os que apresentaram pelo menos um sintoma de burnout, 63,5% somaram pelo menos três, incluindo exaustão, tristeza e irritabilidade, reunindo assim os critérios “para serem avaliados por um profissional da área”.
“O que acontece no burnout é que muitas vezes a pessoa não se apercebe, é algo que vai ocorrendo: a pessoa sente-se cansada, que não está a conseguir produzir o que produzia antes e acaba por cometer mais erros e sofrer alterações no sono. Depois, fica mais irritadiça e menos tolerante, vai-se isolando, perdendo capacidade de concentração. E, no limite, deixa de conseguir sair de casa e exercer a sua função; tem um esgotamento”, descreve Tânia Gaspar, autora de um estudo que, embora não seja extrapolável para a população do país, mostra a progressiva sobreexposição ao stress dos trabalhadores portugueses já apontada em estudos anteriores.
Para o relatório que vai ser apresentado esta terça-feira, dia 16, na I Conferência Internacional de Ambientes de Trabalho e Aprendizagem Saudáveis, em formato online, os investigadores inquiriram 1829 profissionais, entre os 18 e os 72 anos, de sectores que vão da saúde aos transportes, passando pela educação e comércio, entre outros. Daqueles, os profissionais da administração pública surgiram como os que denotam um risco mais elevado de vir a sofrer de burnout, seguidos dos trabalhadores do sector dos transportes, da saúde, da área social e dos profissionais da educação.
Em termos globais, 36,1% consideraram que o trabalho lhes consome muito tempo e energia, afectando negativamente a sua vida e 28,6% dos trabalhadores reportaram valores muito baixos de “engagement” com a empresa. A psicóloga que fez o estudo aponta ainda os 15,7% de trabalhadores inquiridos que declararam que se sentem alvo de ameaças ou de outra forma de abuso físico ou psicológico no local de trabalho. “É um valor muito elevado que nos leva a reflectir. E efectivamente tenho também na minha clínica muitos casos de pessoas mais velhas que não têm cultura de assertividade em relação às chefias. Há aqui um trabalho de prevenção a fazer”, advoga.
No conjunto dos trabalhadores, 28,1% reportaram sofrer de uma doença crónica e 17,8% elevados níveis de presentismo, isto é, “as pessoas vão trabalhar, mas sentem que não conseguem produzir aquilo que deviam e que o seu trabalho perdeu qualidade”, como descreve ainda Tânia Gaspar, para quem o teletrabalho ou o regime de trabalho híbrido podem ajudar a responder a várias das dificuldades reportadas pelos trabalhadores.
A deterioração da saúde mental dos profissionais agudizou-se durante a pandemia, nomeadamente porque durante os confinamentos muitas empresas “controlaram de uma maneira extrema os horários de trabalho dos profissionais, que contactavam fora das horas de trabalho por correio electrónico, Zoom, WhatsApp”, denuncia a psicóloga.
Reposto algum equilíbrio, “muitos trabalhadores isolaram-se e habituaram-se a desenvolver o trabalho em casa, de forma autónoma, e vários estão a ter agora muita dificuldade em voltar a trabalhar como antigamente”.
A possibilidade de poderem trabalhar num regime misto, que combine o trabalho remoto com o presencial, surge agora no topo da lista reivindicativa dos trabalhadores inquiridos no estudo. “Uma das recomendações que fazemos às empresas é que, sempre que possível, optem pelo trabalho híbrido”, adiantou a psicóloga, para quem é claro que o investimento no bem-estar dos trabalhadores por parte das organizações acaba por ter retorno.
“Na Noruega, se alguém é visto a trabalhar às oito da noite é admoestado pela chefia. Eles entendem que essa pessoa ou está a receber trabalho a mais ou é incompetente, na medida em que não consegue fazer o que lhe pedem dentro do horário normal. E isto não acontece porque lá as empresas são boazinhas, mas porque sabem que, se investirem no profissional (e nisto a conciliação com a vida pessoal surge como aspecto importantíssimo), aquele acaba por devolver esse investimento à empresa”, acrescenta.
Porque cada vez mais empresas estão cientes desta realidade, o LPATS vai disponibilizar a partir desta terça-feira um manual de boas práticas, pensado para orientar as organizações quanto às melhores soluções para manter profissionais dedicados e empenhados. Aqui o dinheiro ajuda, mas não é tudo. No inquérito feito a partir da amostra referida, surgem reivindicações que vão da necessidade de se sentirem reconhecidos e envolvidos no processo de tomada de decisões à existência de uma “segurança psicológica” que lhes permita errar, até à liberdade de gestão do horário e da possibilidade de terem o dia de aniversário livre ou uma folga extra.
Criar a figura do “psicólogo do trabalho”
A disponibilização de fruta, água e opções de alimentação saudável no local de trabalho a possibilidade de realização de ginástica laboral, durante pausas para descanso ou exercício, são algumas das boas práticas apontadas pelos trabalhadores. O acesso facilitado a serviços de psicologia, ginásio, massagens, osteopatia, fisioterapia, consultas de nutrição e de estomatologia e a programas de voluntariado e mentoria são igualmente elencados, a par de sugestões como serviço de shuttle para profissionais e parcerias com farmácias.
Os autores do relatório vão mais longe quando sugerem que se altere a legislação sobre saúde ocupacional em Portugal, “fortalecendo a relevância da saúde mental e psicossocial”, e a integração nas equipas da figura do psicólogo do trabalho, o que implicaria a criação de especializações profissionais nesta área. “Dependendo da dimensão da empresa, a figura do psicólogo pode existir dentro da organização ou funcionar na lógica de subcontratação de trabalho externo”, especifica a coordenadora do estudo.
Ainda ao nível das políticas públicas, sugere-se a criação de incentivos ou benefícios fiscais para as empresas que adoptem medidas capazes de promover ambientes de trabalho mais saudáveis e o alargamento da experiência da semana dos quatro dias sem corte do salário. “Aqui o único receio é que as pessoas possam ficar sobrecarregadas nestes quatro dias, o que pode não ser saudável e levar ao burnout, isto é, esses quatro dias têm de ser suficientes para a pessoa fazer o trabalho que lhe é pedido”, alerta Tânia Gaspar.
Numa altura em que o mundo soma em média 2,78 milhões de mortes todos os anos por causas atribuíveis ao trabalho, o manual de boas práticas destinado às empresas lembra, por exemplo, que a carga horária excessiva pode levar a problemas de sono, à redução da produtividade e ao aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas.
Logo, "pequenas acções como reduzir a carga e a intensidade do trabalho, incentivar a realização de pausas e motivar os profissionais para usufruírem de folgas e férias para descanso (desligando-se do trabalho), contribuem de forma significativa para melhorar a saúde dos profissionais", alerta o manual de boas práticas, que aponta "estilos de liderança desajustados, ausência de negociação e de consulta dos trabalhadores, a falta de comunicação bidireccional, de feedback positivo e de uma gestão respeitosa" como factores que ameaçam a saúde dos trabalhadores e das empresas.
O manual recolhe exemplos de boas práticas adoptadas noutros países. Na Suíça, por exemplo, os programas de bem-estar para os trabalhadores incluem serviços como acompanhamento psicológico e, em caso de doenças crónicas, fisioterapia, ioga, consultas de cessação tabágica e programas de controlo do peso.
Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis foi criado há um ano para estudar os ambientes de trabalho nas empresas. Esta terça-feira é divulgado um manual de boas práticas.
Exaustos, irritados, frustrados, com dificuldades de concentração e incapazes de gerir o stress: quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo feito pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LPATS) mostram pelo menos um sintoma de burnout, o que equivale a dizer que arriscam um quadro de “permanente stress crónico laboral”, como adiantou ao PÚBLICO a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do laboratório.
Entre os que apresentaram o risco mais elevado de virem a cair no burnout, a sensação de exaustão física foi a mais referida: 42,6% disseram ter-se sentido assim nas quatro semanas anteriores ao inquérito. Mais: entre os que apresentaram pelo menos um sintoma de burnout, 63,5% somaram pelo menos três, incluindo exaustão, tristeza e irritabilidade, reunindo assim os critérios “para serem avaliados por um profissional da área”.
“O que acontece no burnout é que muitas vezes a pessoa não se apercebe, é algo que vai ocorrendo: a pessoa sente-se cansada, que não está a conseguir produzir o que produzia antes e acaba por cometer mais erros e sofrer alterações no sono. Depois, fica mais irritadiça e menos tolerante, vai-se isolando, perdendo capacidade de concentração. E, no limite, deixa de conseguir sair de casa e exercer a sua função; tem um esgotamento”, descreve Tânia Gaspar, autora de um estudo que, embora não seja extrapolável para a população do país, mostra a progressiva sobreexposição ao stress dos trabalhadores portugueses já apontada em estudos anteriores.
Para o relatório que vai ser apresentado esta terça-feira, dia 16, na I Conferência Internacional de Ambientes de Trabalho e Aprendizagem Saudáveis, em formato online, os investigadores inquiriram 1829 profissionais, entre os 18 e os 72 anos, de sectores que vão da saúde aos transportes, passando pela educação e comércio, entre outros. Daqueles, os profissionais da administração pública surgiram como os que denotam um risco mais elevado de vir a sofrer de burnout, seguidos dos trabalhadores do sector dos transportes, da saúde, da área social e dos profissionais da educação.
Em termos globais, 36,1% consideraram que o trabalho lhes consome muito tempo e energia, afectando negativamente a sua vida e 28,6% dos trabalhadores reportaram valores muito baixos de “engagement” com a empresa. A psicóloga que fez o estudo aponta ainda os 15,7% de trabalhadores inquiridos que declararam que se sentem alvo de ameaças ou de outra forma de abuso físico ou psicológico no local de trabalho. “É um valor muito elevado que nos leva a reflectir. E efectivamente tenho também na minha clínica muitos casos de pessoas mais velhas que não têm cultura de assertividade em relação às chefias. Há aqui um trabalho de prevenção a fazer”, advoga.
No conjunto dos trabalhadores, 28,1% reportaram sofrer de uma doença crónica e 17,8% elevados níveis de presentismo, isto é, “as pessoas vão trabalhar, mas sentem que não conseguem produzir aquilo que deviam e que o seu trabalho perdeu qualidade”, como descreve ainda Tânia Gaspar, para quem o teletrabalho ou o regime de trabalho híbrido podem ajudar a responder a várias das dificuldades reportadas pelos trabalhadores.
A deterioração da saúde mental dos profissionais agudizou-se durante a pandemia, nomeadamente porque durante os confinamentos muitas empresas “controlaram de uma maneira extrema os horários de trabalho dos profissionais, que contactavam fora das horas de trabalho por correio electrónico, Zoom, WhatsApp”, denuncia a psicóloga.
Reposto algum equilíbrio, “muitos trabalhadores isolaram-se e habituaram-se a desenvolver o trabalho em casa, de forma autónoma, e vários estão a ter agora muita dificuldade em voltar a trabalhar como antigamente”.
A possibilidade de poderem trabalhar num regime misto, que combine o trabalho remoto com o presencial, surge agora no topo da lista reivindicativa dos trabalhadores inquiridos no estudo. “Uma das recomendações que fazemos às empresas é que, sempre que possível, optem pelo trabalho híbrido”, adiantou a psicóloga, para quem é claro que o investimento no bem-estar dos trabalhadores por parte das organizações acaba por ter retorno.
“Na Noruega, se alguém é visto a trabalhar às oito da noite é admoestado pela chefia. Eles entendem que essa pessoa ou está a receber trabalho a mais ou é incompetente, na medida em que não consegue fazer o que lhe pedem dentro do horário normal. E isto não acontece porque lá as empresas são boazinhas, mas porque sabem que, se investirem no profissional (e nisto a conciliação com a vida pessoal surge como aspecto importantíssimo), aquele acaba por devolver esse investimento à empresa”, acrescenta.
Porque cada vez mais empresas estão cientes desta realidade, o LPATS vai disponibilizar a partir desta terça-feira um manual de boas práticas, pensado para orientar as organizações quanto às melhores soluções para manter profissionais dedicados e empenhados. Aqui o dinheiro ajuda, mas não é tudo. No inquérito feito a partir da amostra referida, surgem reivindicações que vão da necessidade de se sentirem reconhecidos e envolvidos no processo de tomada de decisões à existência de uma “segurança psicológica” que lhes permita errar, até à liberdade de gestão do horário e da possibilidade de terem o dia de aniversário livre ou uma folga extra.
Criar a figura do “psicólogo do trabalho”
A disponibilização de fruta, água e opções de alimentação saudável no local de trabalho a possibilidade de realização de ginástica laboral, durante pausas para descanso ou exercício, são algumas das boas práticas apontadas pelos trabalhadores. O acesso facilitado a serviços de psicologia, ginásio, massagens, osteopatia, fisioterapia, consultas de nutrição e de estomatologia e a programas de voluntariado e mentoria são igualmente elencados, a par de sugestões como serviço de shuttle para profissionais e parcerias com farmácias.
Os autores do relatório vão mais longe quando sugerem que se altere a legislação sobre saúde ocupacional em Portugal, “fortalecendo a relevância da saúde mental e psicossocial”, e a integração nas equipas da figura do psicólogo do trabalho, o que implicaria a criação de especializações profissionais nesta área. “Dependendo da dimensão da empresa, a figura do psicólogo pode existir dentro da organização ou funcionar na lógica de subcontratação de trabalho externo”, especifica a coordenadora do estudo.
Ainda ao nível das políticas públicas, sugere-se a criação de incentivos ou benefícios fiscais para as empresas que adoptem medidas capazes de promover ambientes de trabalho mais saudáveis e o alargamento da experiência da semana dos quatro dias sem corte do salário. “Aqui o único receio é que as pessoas possam ficar sobrecarregadas nestes quatro dias, o que pode não ser saudável e levar ao burnout, isto é, esses quatro dias têm de ser suficientes para a pessoa fazer o trabalho que lhe é pedido”, alerta Tânia Gaspar.
Numa altura em que o mundo soma em média 2,78 milhões de mortes todos os anos por causas atribuíveis ao trabalho, o manual de boas práticas destinado às empresas lembra, por exemplo, que a carga horária excessiva pode levar a problemas de sono, à redução da produtividade e ao aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas.
Logo, "pequenas acções como reduzir a carga e a intensidade do trabalho, incentivar a realização de pausas e motivar os profissionais para usufruírem de folgas e férias para descanso (desligando-se do trabalho), contribuem de forma significativa para melhorar a saúde dos profissionais", alerta o manual de boas práticas, que aponta "estilos de liderança desajustados, ausência de negociação e de consulta dos trabalhadores, a falta de comunicação bidireccional, de feedback positivo e de uma gestão respeitosa" como factores que ameaçam a saúde dos trabalhadores e das empresas.
O manual recolhe exemplos de boas práticas adoptadas noutros países. Na Suíça, por exemplo, os programas de bem-estar para os trabalhadores incluem serviços como acompanhamento psicológico e, em caso de doenças crónicas, fisioterapia, ioga, consultas de cessação tabágica e programas de controlo do peso.
19.4.23
Um guia para perceber a síndrome de “burnout em Portugal”: o quinto país que mais horas trabalha na OCDE
Cátia Barros, in Expresso
Mais de metade dos portugueses (57%) dizem já ter estado perto de sofrer um burnout, revela o STADA Health Report 2022. Mas o que é que causa esta doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2019?
A psicóloga da clínica REACH explica que “se tem glorificado o trabalhador que é multitasking, o que fica para além da hora, o que atende sempre o telefone e responde sempre aos emails, independentemente do efeito que estes comportamentos têm”. A juntar a isto, em Portugal, segundo a OCDE, trabalha-se uma média de 39,6 horas semanais.
O que a “ciência tem mostrado”, continua a psicóloga, é que “o cérebro humano não está concebido para alternar rapidamente entre tarefas”, uma vez que isso “gera sobre-estimulação, diminuindo a produtividade e aumentando o risco de burnout”. Mas afinal o que é a síndrome de burnout?
De acordo com a OMS, é uma síndrome “resultante do stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso”, caracterizando-se por “um sentimento de exaustão, cinismo ou sentimentos negativistas ligados ao trabalho e eficácia profissional reduzida”. Ou seja, o problema não está na necessidade de ser produtivo, “mas sim nas exigências inerentes ao conceito de produtividade”, acrescenta Ruth Ministro.
Esta é mais provável nas mulheres, uma vez que “sofrem de excesso de trabalho e de stress pela acumulação de papéis, que implicam tarefas e exigências profissionais, parentais e domésticas num grau muito superior ao que acontece com os homens”.
A QUE SINAIS DEVO ESTAR ATENTO?
A síndrome de burnout funciona como “uma resposta à exposição prolongada ao stress crónico e à carência de competências emocionais adaptativas que permitam ao indivíduo lidar com o mesmo”, explica a psicóloga. De acordo com esta especialista, há especialmente quatro níveis a que devemos estar atentos:
Físico
“Do ponto de vista físico podem surgir enxaquecas, tonturas, sensação de falta de ar, alterações nos padrões de sono e de apetite, problemas gastrointestinais, cardiovasculares, taquicardia, cansaço profundo, dores e tensão muscular.”
Emocional
Já a nível emocional, a psicóloga realça que podem surgir “sintomas de tristeza, apatia, desmotivação, frustração ou revolta, ansiedade, humor deprimido, baixa autoestima e despersonalização, e até uma visão da vida em geral mais negativa, marcada pela desesperança".
Cognitivo
A nível cognitivo, pode-se sentir uma “maior dificuldade de concentração, dificuldade na realização de tarefas, menor criatividade, menor capacidade de tomada de decisão, ruminação negativa e persistente acerca do trabalho, necessidade de controlo e hipervigilância".
Social
O esgotamento pode também afetar as relações familiares e as amizades, podendo o indivíduo nessa situação isolar-se e apresentar “menos capacidade empática, comunicação mais impessoal, crítica, sarcástica, reativa ou agressiva”. Além disso, acrescenta a psicóloga, “pode haver maior consumo de substâncias como o álcool, o tabaco, as drogas ou a automedicação".
2
COMO RECUPERAR?
“Não existe uma receita única para recuperar de um burnout, cada indivíduo terá necessidades diferentes e precisará de encontrar, preferencialmente com apoio, os seus mecanismos de resposta”, explica a psicóloga. No entanto, reconhece que a primeira etapa é retirar o indivíduo do contexto gerador de stress: “é preciso perceber e reconhecer que estamos em estado de burnout e que temos que parar”. Apesar de essencial, trata-se de um “passo muito difícil de tomar”.
Outro passo fundamental é tentar procurar ajuda profissional: “se conseguirmos ouvir as nossas emoções mais difíceis e chegar às necessidades que se escondem por detrás delas, as respostas vão surgir-nos”. Com acompanhamento especializado, começa-se a “identificar o que é preciso acrescentar ou subtrair” ao dia a dia. “Revemos hábitos, rotinas, padrões de comportamento disfuncionais e tornamo-los mais saudáveis e ajustados às nossas características individuais.”
“Descansar e recuperar energia é comum a todos os casos e é a prioridade”, diz. De seguida, torna-se importante “promover a higiene do sono, rever hábitos alimentares, implementar atividade física, ter mais momentos de lazer e relaxamento, investir em interesses pessoais e ter tempo de qualidade a sós e com a nossa rede de apoio”.
3
COMO EVITAR?
Evitar entrar em burnout passa por “apostar na prevenção”, uma vez que esta é uma síndrome que não “acontece de um dia para o outro, é um processo gradual, que se vai agravando”. Mas, além disso, é importante perceber que “não somos só a nossa profissão”. Interiorizar isso vai fazer com que seja mais fácil “gerir o melhor o nosso tempo e energia, procurando equilibrar a vida profissional com a vida pessoal”. Contudo, nem sempre é o mais fácil. Num ranking da OCDE, que tem em conta que o equilíbrio vida-trabalho consiste em “ser capaz de combinar compromissos familiares, lazer e trabalho”, Portugal apresenta um equilíbrio de 6,7 em 10.
Durante o período laboral, é preciso encontrar estratégias para evitar chegar a este estado, como por exemplo: “fazer um bom planeamento de tarefas, traçar objetivos e metas de acordo com o tempo de que se dispõe; definir limites; fazer pausas regulares; concentrar-se numa tarefa de cada vez e procurar ter janelas de produtividade de uma a duas horas sem interrupções, notificações e distrações”.
Já fora do trabalho, é importante ter em conta as necessidades, os interesses e as motivações pessoais. “Temos que aprender a cuidar de nós como se cuidássemos de alguém que nos é muito querido, com compaixão e gentileza, com menos culpa, autocrítica e julgamento”, explica Ruth Ministro.
Correção: título alterado às 22h59. Os dados mencionados dizem respeito ao conjunto de países que integram a OCDE e não à Europa
28.2.23
Faltam pedopsiquiatras, camas de internamento e há esperas longas para consultas no SNS
Ana Maia, in Público online
Coordenação das Políticas de Saúde Mental diz que está a ser feito investimento no ambulatório e até ao final deste ano ou início do próximo irão abrir mais dez camas de internamento.
Leia mais aqui sobre este tema: Algarve continua na “Idade das Trevas” da saúde mental infantil
Faltam pedopsiquiatras e outros técnicos no SNS, há hospitais em que o tempo de espera para uma consulta ascende a 200 dias e são precisas mais camas de internamento. “Existe falta generalizada de tudo”, diz o presidente do colégio da especialidade da Ordem dos Médicos. A Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental (CNPSM) explica que está a ser feito investimento no ambulatório, para reforçar a resposta de proximidade, e até ao final de este ano ou início do próximo irão abrir mais dez camas de internamento para adolescentes.
No país existem quatro serviços de internamento – nos centros hospitalares e universitários de Coimbra e do Porto (CHUC e CHUP, respectivamente), um no Hospital Dona Estefânia, que pertence ao Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC) e uma unidade partilhada entre este último e o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), direccionado para adolescentes e jovens adultos. Nem sempre a resposta é fácil, com diferenças regionais.
"Os serviços de pedopsiquiatria no SNS são insuficientes. Isto resulta de anos de não-investimento”Paulo Santos, presidente do colégio de pedopsiquiatria da Ordem dos Médicos
No D. Estefânia, que serve de referência às regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, o internamento tem 16 camas e a lotação está completa. “A lotação a 100% é a habitual, sendo excepcional haver vagas que perdurem mais do que 24 horas. Temos quase permanentemente uma lista de espera para internamentos programados e também são frequentes situações em espera no SO [Serviço de Observação] Pediátrico e na Unidade de Adolescentes (Pediatria)”, explica o CHLC.
A duração média dos internamentos “está entre os 30 e os 40 dias”. De 1 de Janeiro a 26 de Fevereiro foram tratados 33 doentes. Em 2022, foram tratados 174 doentes - a maioria tinha 14 anos. A taxa de ocupação foi de 96%, com uma demora média de 36 dias de internamento. O número de profissionais no internamento “está de acordo com o necessário”, no entanto, “seria uma mais-valia a presença de técnicos de outras áreas, nomeadamente, de terapia ocupacional e musicoterapia”.
Este serviço articula-se com a unidade partilhada que funciona no CHPL desde 2018, onde a resposta está direccionada aos jovens entre os 15 e os 25 anos. O internamento no CHPL tem 20 camas usadas conforme as necessidades – “ou seja, não há um número fixo de camas para psiquiatria pediátrica ou de adultos” – e a taxa de ocupação em Janeiro foi de 81%. No ano passado foi de 84%. Mas já houve taxas de 100%. O tempo médio de internamento ao longo dos cinco anos “variou entre os 13,7 e os 20 dias” e a média de idades dos utentes internados tem sido de 21 anos.
Sem contar com repetições, em 2022 foram internados 262 jovens e entre 1 de Janeiro e 24 de Fevereiro deste ano 67. Afectos a esta unidade estão “2 pedopsiquiatras, 3 psiquiatras, 3 psicólogos, uma assistente social, uma educadora e uma terapeuta ocupacional, todos em tempo parcial por terem também outras actividades”, entre outros. O hospital diz que “seria vantajoso contar com mais horas” de alguns profissionais para as actividades que têm e as que estão previstas desenvolver.
No final da semana passada, a taxa de ocupação do internamento – um total 8 camas - no CHUC estava nos 87,5%, mas o serviço tem registado “com alguma frequência situações de lotação a 100%”. Adianta que “após a pandemia houve um aumento da quantidade e gravidade dos quadros pedopsiquiátricos com tradução no aumento da taxa de lotação do internamento”. Em 2022, a duração média dos internamentos foi de 22,43 dias e estiveram internados 81 adolescentes (média de 14,9 anos). Desde Janeiro até ao final da semana passada, já estiveram/estão internados 11 adolescentes (média de 15,5 anos). O internamento conta com “4 pedopsiquiatras a tempo parcial e 12 enfermeiros”.
Já no CHUP, “só ocasionalmente” a taxa de lotação atinge os 100%. Nos primeiros 53 dias deste ano foi de 78%. A demora média de internamento “é muito variável e tem picos”, refere o hospital, adiantando que não considera ser necessário aumentar o número de camas, que são dez -, “assim como não é considerado que internar numa grande parte dos casos seja a melhor opção para os adolescentes”. “O trabalho é realizado no sentido de ter opções diferenciadas que não obriguem a internar”, diz. Em 2022 foram tratados no internamento 98 doentes.
Nas consultas, o tempo máximo de resposta garantido na prioridade normal não deve superar os 120 dias, mas em alguns hospitais a média de espera – dados de Outubro a Dezembro de 2022 disponíveis no Portal do SNS - é de 200 dias ou mais. Em Santarém era de 275 dias, em Leiria 200, em Aveiro 254, em Loures 225 e em Braga 357 dias. Quanto ao número de utentes a aguardar por consulta a 31 de Dezembro de 2022, em alguns casos também era extenso. Em Braga eram 419, Loures eram 117, Aveiro 65, Leiria 79 e em Santarém eram 78 utentes.
132 pedopsiquiatras no SNS
“Os serviços de pedopsiquiatria no SNS são insuficientes. Isto resulta de anos de não-investimento” na saúde mental, diz Paulo Santos, presidente do colégio de pedopsiquiatria da Ordem dos Médicos, referindo que “existe falta generalizada de tudo”. Se a situação já não era fácil, “após a pandemia entrou em estado caótico, com mais pedidos de consultas, urgências e necessidade de internamentos”, refere o responsável, que diz que a situação na pedopsiquiatria “é trágica”.
A começar pela falta de especialistas no quadro. “O número desejado para cobrir o país seria perto de 200”, refere Paulo Santos. “O irónico é que existem bastantes pedopsiquiatras a serem formados e se todos ficassem no SNS, as coisas não estariam tão más”, diz. Segundo dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), em Janeiro deste ano, o SNS tinha 132 pedopsiquiatras (em Agosto do ano passado eram 136) – número não inclui internos, nem parcerias público-privadas. A CNPSM contabilizou em 2022, por via de um inquérito feito aos serviços, 66 internos da especialidade em formação.
Paulo Santos aponta como razões que levam os profissionais a “sair para o privado” a falta de “condições de trabalho, de equipas, de estruturas”. “As equipas são multidisciplinares e o SNS tem um grande défice de outros técnicos que deviam existir. Queremos muito ter internos, mas depois não temos locais para estágios”, afirma, convicto que será possível aumentar as vagas formativas.
Questionado sobre o internamento, diz que o existente “não cobre as necessidades” e por vezes é preciso internar “e não temos sítio”. “As camas de internamento são insuficientes”, mesmo que os serviços fossem capazes de uma melhor resposta de proximidade, com mais consultas externas e consultas de crise que conduzissem às urgências apenas os casos que tivessem de ser vistos no imediato. São situações de perturbação do comportamento alimentar, de ideação suicida normalmente ligadas a perturbações depressivas e perturbações do foro psicótico que levam à necessidade de internamento.
Quanto aos longos tempos de espera para consultas, “teoricamente é inadmissível em termos de saúde”. “O problema é que não se consegue dar resposta pela falta de equipas e estruturas”. A esperança para melhorar toda a situação é o Plano de Recuperação e Resiliência, com mais de 80 milhões de euros previstos, que prevê, por exemplo, a implementação de equipas comunitárias. Estas equipas “são fundamentais para melhorar o atendimento e para ser mais atempado”, diz.
“A pedopsiquiatra é essencialmente uma especialidade de ambulatório e idealmente o internamento é o último recurso”, diz Ana Matos Pires, membro da CNPSM. Reconhecendo que as camas “são poucas”, é a falta de pedopsiquiatras no SNS que “preocupa mais”. "Havendo mais resposta de ambulatório, o número de internamentos seria menor", afirma. No Algarve existe apenas um médico a tempo parcial em toda a região e no Alentejo são apenas dois. Em breve espera que este número aumente com mais um médico em Évora e outro em Portalegre.
É “instituindo um projecto terapêutico de continuidade e proximidade, que se conseguem atingir melhorias clínicas sustentadas, evitando quadros clínicos mais graves”, reforça Cristina Marques, também da CNPSM. Motivo pelo qual o investimento “está a ser feito na melhoria da resposta ao nível do ambulatório, aumentando os recursos humanos disponíveis, organizados em equipas comunitárias que têm o objectivo de melhorar a acessibilidade e diminuir o tempo de resposta para primeira consulta”.
“Desta forma, será possível diminuir o recurso ao serviço de urgência e a necessidade de internamentos mais prolongados”, afirma Cristina Marques, referindo que "já antes da pandemia a lotação dos internamentos atingia por vezes 100%". "Com o acréscimo de pedidos de consulta após a pandemia é provável que tenha aumentado a pressão sobre os serviços de internamento."
A Rede de Referenciação hospitalar, em vigor desde 2018, aponta a necessidade de 72 camas de internamento e recomenda a abertura de mais camas para adolescentes. A recomendação do número de camas mantém-se, “se incluirmos as necessidades para doentes de evolução prolongada e “está prevista uma unidade de internamento para adolescentes no CHULN [Centro Hospitalar e Universitário Lisboa Norte] com aproximadamente 10 camas, com abertura prevista para final de 2023/ início de 2024”, diz.
Para se atribuir idoneidade formativa, um hospital tem de ter um serviço de pedopsiquiatria e no mínimo três especialistas a tempo inteiro, explica Paulo Santos, que refere que está a ser feita uma reavaliação dos critérios de idoneidade e do programa de formação. Segundo a CNPSM há nove serviços com idoneidade formativa, dos quais três tem idoneidade total. Mais oito estão em fase de avaliação ou a ultimar o pedido de idoneidade para 2024.
Cristina Marques explica que a CNPSM está a ultimar um pedido formal ao colégio da especialidade “para que, dada a escassez de recursos humanos na especialidade, se flexibilizem os critérios de idoneidade formativa dos serviços, durante um período transitório e em situações de excepção, desde que não se coloque em causa a qualidade da formação dos médicos internos”. Há também medidas que estão a ser avaliadas pela Direcção Executiva do SNS para tentar resolver a carência destes médicos.
Coordenação das Políticas de Saúde Mental diz que está a ser feito investimento no ambulatório e até ao final deste ano ou início do próximo irão abrir mais dez camas de internamento.
Leia mais aqui sobre este tema: Algarve continua na “Idade das Trevas” da saúde mental infantil
Faltam pedopsiquiatras e outros técnicos no SNS, há hospitais em que o tempo de espera para uma consulta ascende a 200 dias e são precisas mais camas de internamento. “Existe falta generalizada de tudo”, diz o presidente do colégio da especialidade da Ordem dos Médicos. A Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental (CNPSM) explica que está a ser feito investimento no ambulatório, para reforçar a resposta de proximidade, e até ao final de este ano ou início do próximo irão abrir mais dez camas de internamento para adolescentes.
No país existem quatro serviços de internamento – nos centros hospitalares e universitários de Coimbra e do Porto (CHUC e CHUP, respectivamente), um no Hospital Dona Estefânia, que pertence ao Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC) e uma unidade partilhada entre este último e o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), direccionado para adolescentes e jovens adultos. Nem sempre a resposta é fácil, com diferenças regionais.
"Os serviços de pedopsiquiatria no SNS são insuficientes. Isto resulta de anos de não-investimento”Paulo Santos, presidente do colégio de pedopsiquiatria da Ordem dos Médicos
No D. Estefânia, que serve de referência às regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, o internamento tem 16 camas e a lotação está completa. “A lotação a 100% é a habitual, sendo excepcional haver vagas que perdurem mais do que 24 horas. Temos quase permanentemente uma lista de espera para internamentos programados e também são frequentes situações em espera no SO [Serviço de Observação] Pediátrico e na Unidade de Adolescentes (Pediatria)”, explica o CHLC.
A duração média dos internamentos “está entre os 30 e os 40 dias”. De 1 de Janeiro a 26 de Fevereiro foram tratados 33 doentes. Em 2022, foram tratados 174 doentes - a maioria tinha 14 anos. A taxa de ocupação foi de 96%, com uma demora média de 36 dias de internamento. O número de profissionais no internamento “está de acordo com o necessário”, no entanto, “seria uma mais-valia a presença de técnicos de outras áreas, nomeadamente, de terapia ocupacional e musicoterapia”.
Este serviço articula-se com a unidade partilhada que funciona no CHPL desde 2018, onde a resposta está direccionada aos jovens entre os 15 e os 25 anos. O internamento no CHPL tem 20 camas usadas conforme as necessidades – “ou seja, não há um número fixo de camas para psiquiatria pediátrica ou de adultos” – e a taxa de ocupação em Janeiro foi de 81%. No ano passado foi de 84%. Mas já houve taxas de 100%. O tempo médio de internamento ao longo dos cinco anos “variou entre os 13,7 e os 20 dias” e a média de idades dos utentes internados tem sido de 21 anos.
Sem contar com repetições, em 2022 foram internados 262 jovens e entre 1 de Janeiro e 24 de Fevereiro deste ano 67. Afectos a esta unidade estão “2 pedopsiquiatras, 3 psiquiatras, 3 psicólogos, uma assistente social, uma educadora e uma terapeuta ocupacional, todos em tempo parcial por terem também outras actividades”, entre outros. O hospital diz que “seria vantajoso contar com mais horas” de alguns profissionais para as actividades que têm e as que estão previstas desenvolver.
No final da semana passada, a taxa de ocupação do internamento – um total 8 camas - no CHUC estava nos 87,5%, mas o serviço tem registado “com alguma frequência situações de lotação a 100%”. Adianta que “após a pandemia houve um aumento da quantidade e gravidade dos quadros pedopsiquiátricos com tradução no aumento da taxa de lotação do internamento”. Em 2022, a duração média dos internamentos foi de 22,43 dias e estiveram internados 81 adolescentes (média de 14,9 anos). Desde Janeiro até ao final da semana passada, já estiveram/estão internados 11 adolescentes (média de 15,5 anos). O internamento conta com “4 pedopsiquiatras a tempo parcial e 12 enfermeiros”.
Já no CHUP, “só ocasionalmente” a taxa de lotação atinge os 100%. Nos primeiros 53 dias deste ano foi de 78%. A demora média de internamento “é muito variável e tem picos”, refere o hospital, adiantando que não considera ser necessário aumentar o número de camas, que são dez -, “assim como não é considerado que internar numa grande parte dos casos seja a melhor opção para os adolescentes”. “O trabalho é realizado no sentido de ter opções diferenciadas que não obriguem a internar”, diz. Em 2022 foram tratados no internamento 98 doentes.
Nas consultas, o tempo máximo de resposta garantido na prioridade normal não deve superar os 120 dias, mas em alguns hospitais a média de espera – dados de Outubro a Dezembro de 2022 disponíveis no Portal do SNS - é de 200 dias ou mais. Em Santarém era de 275 dias, em Leiria 200, em Aveiro 254, em Loures 225 e em Braga 357 dias. Quanto ao número de utentes a aguardar por consulta a 31 de Dezembro de 2022, em alguns casos também era extenso. Em Braga eram 419, Loures eram 117, Aveiro 65, Leiria 79 e em Santarém eram 78 utentes.
132 pedopsiquiatras no SNS
“Os serviços de pedopsiquiatria no SNS são insuficientes. Isto resulta de anos de não-investimento” na saúde mental, diz Paulo Santos, presidente do colégio de pedopsiquiatria da Ordem dos Médicos, referindo que “existe falta generalizada de tudo”. Se a situação já não era fácil, “após a pandemia entrou em estado caótico, com mais pedidos de consultas, urgências e necessidade de internamentos”, refere o responsável, que diz que a situação na pedopsiquiatria “é trágica”.
A começar pela falta de especialistas no quadro. “O número desejado para cobrir o país seria perto de 200”, refere Paulo Santos. “O irónico é que existem bastantes pedopsiquiatras a serem formados e se todos ficassem no SNS, as coisas não estariam tão más”, diz. Segundo dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), em Janeiro deste ano, o SNS tinha 132 pedopsiquiatras (em Agosto do ano passado eram 136) – número não inclui internos, nem parcerias público-privadas. A CNPSM contabilizou em 2022, por via de um inquérito feito aos serviços, 66 internos da especialidade em formação.
Paulo Santos aponta como razões que levam os profissionais a “sair para o privado” a falta de “condições de trabalho, de equipas, de estruturas”. “As equipas são multidisciplinares e o SNS tem um grande défice de outros técnicos que deviam existir. Queremos muito ter internos, mas depois não temos locais para estágios”, afirma, convicto que será possível aumentar as vagas formativas.
Questionado sobre o internamento, diz que o existente “não cobre as necessidades” e por vezes é preciso internar “e não temos sítio”. “As camas de internamento são insuficientes”, mesmo que os serviços fossem capazes de uma melhor resposta de proximidade, com mais consultas externas e consultas de crise que conduzissem às urgências apenas os casos que tivessem de ser vistos no imediato. São situações de perturbação do comportamento alimentar, de ideação suicida normalmente ligadas a perturbações depressivas e perturbações do foro psicótico que levam à necessidade de internamento.
Quanto aos longos tempos de espera para consultas, “teoricamente é inadmissível em termos de saúde”. “O problema é que não se consegue dar resposta pela falta de equipas e estruturas”. A esperança para melhorar toda a situação é o Plano de Recuperação e Resiliência, com mais de 80 milhões de euros previstos, que prevê, por exemplo, a implementação de equipas comunitárias. Estas equipas “são fundamentais para melhorar o atendimento e para ser mais atempado”, diz.
“A pedopsiquiatra é essencialmente uma especialidade de ambulatório e idealmente o internamento é o último recurso”, diz Ana Matos Pires, membro da CNPSM. Reconhecendo que as camas “são poucas”, é a falta de pedopsiquiatras no SNS que “preocupa mais”. "Havendo mais resposta de ambulatório, o número de internamentos seria menor", afirma. No Algarve existe apenas um médico a tempo parcial em toda a região e no Alentejo são apenas dois. Em breve espera que este número aumente com mais um médico em Évora e outro em Portalegre.
É “instituindo um projecto terapêutico de continuidade e proximidade, que se conseguem atingir melhorias clínicas sustentadas, evitando quadros clínicos mais graves”, reforça Cristina Marques, também da CNPSM. Motivo pelo qual o investimento “está a ser feito na melhoria da resposta ao nível do ambulatório, aumentando os recursos humanos disponíveis, organizados em equipas comunitárias que têm o objectivo de melhorar a acessibilidade e diminuir o tempo de resposta para primeira consulta”.
“Desta forma, será possível diminuir o recurso ao serviço de urgência e a necessidade de internamentos mais prolongados”, afirma Cristina Marques, referindo que "já antes da pandemia a lotação dos internamentos atingia por vezes 100%". "Com o acréscimo de pedidos de consulta após a pandemia é provável que tenha aumentado a pressão sobre os serviços de internamento."
A Rede de Referenciação hospitalar, em vigor desde 2018, aponta a necessidade de 72 camas de internamento e recomenda a abertura de mais camas para adolescentes. A recomendação do número de camas mantém-se, “se incluirmos as necessidades para doentes de evolução prolongada e “está prevista uma unidade de internamento para adolescentes no CHULN [Centro Hospitalar e Universitário Lisboa Norte] com aproximadamente 10 camas, com abertura prevista para final de 2023/ início de 2024”, diz.
Para se atribuir idoneidade formativa, um hospital tem de ter um serviço de pedopsiquiatria e no mínimo três especialistas a tempo inteiro, explica Paulo Santos, que refere que está a ser feita uma reavaliação dos critérios de idoneidade e do programa de formação. Segundo a CNPSM há nove serviços com idoneidade formativa, dos quais três tem idoneidade total. Mais oito estão em fase de avaliação ou a ultimar o pedido de idoneidade para 2024.
Cristina Marques explica que a CNPSM está a ultimar um pedido formal ao colégio da especialidade “para que, dada a escassez de recursos humanos na especialidade, se flexibilizem os critérios de idoneidade formativa dos serviços, durante um período transitório e em situações de excepção, desde que não se coloque em causa a qualidade da formação dos médicos internos”. Há também medidas que estão a ser avaliadas pela Direcção Executiva do SNS para tentar resolver a carência destes médicos.
20.2.23
No Algarve "estamos na Idade Média na saúde mental" de crianças e adolescentes
Maria Augusta Casaca, in TSF
Saúde Mental para Crianças e Adolescentes do Algarve e Alentejo só em Lisboa.A Rede Nacional de Serviços de Urgência de Psiquiatria da infância e adolescência, em vigor desde o início do mês, está organizada em urgências regionais, sendo que o Hospital D. Estefânia atenderá além de Lisboa e Vale do Tejo, a população do Alentejo e do Algarve. Na região sul, quem é adolescente e necessita de apoio ao nível da saúde mental, não tem qualquer alternativa a não ser deslocar-se a Lisboa.
É o caso das meninas que estão na Casa de Acolhimento da Associação De Proteção à Rapariga e à Família. Nesta altura estão ali 16 jovens. Ao longo dos anos têm sido muitas as vezes que as técnicas da instituição foram obrigadas a deslocar-se de urgência com várias raparigas para Lisboa.
"Aqui em Faro, num fim de semana ou na urgência não há pedopsiquiatra", relata a presidente da instituição. "Ou quem faz o atendimento assume uma resposta, ou então a miúda tem que ir para a Estefânia, que é a referência para todo o sul de Portugal", adianta Filomena Rosa. Para serem observadas fazem 600 quilómetros, muitas vezes agitadas e a necessitar de um apoio imediato.
Estas jovens têm idades compreendidas entre os 12 e 18 anos, mas podem prolongar a sua vida na casa de acolhimento até aos 24 anos, se estiverem a estudar. Têm vidas difíceis que obrigaram à institucionalização e os problemas de saúde mental são recorrentes, como passarem por um sofrimento imenso ou automutilarem-se.
Filomena Rosa dá o exemplo de uma jovem que precisava de ser internada com urgência, mas no D. Estefânia não havia vaga. A alternativa foi bem pior." Destruía, agredia pessoas lá fora e, como não havia vaga no Hospital [D. Estefânia] foi-lhe aplicada uma medida tutelar educativa", conta.
Com um único pedopsiquiatra na região que não tem mãos a medir, a presidente da Associação de Proteção à Rapariga considera que as respostas ao nível da saúde mental são insuficientes e deviam melhorar urgentemente " Tem que se criar uma rede de saúde mental no Algarve ou, pelo menos, um departamento que tem o número de técnicos que precisa", considera." Para ver se saímos da idade média em termos de respostas à saúde mental no Algarve", enfatiza.
Centro Hospitalar do Algarve tem apenas um pedopsiquiatra a meio tempo
A presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) admite que o hospital não tem capacidade para observar adolescentes na especialidade de psiquiatria. O único pedopsiquiatra que existe nem sequer trabalha a tempo inteiro no hospital."Não há clínicos suficientes para manter uma escala de urgência", admite. " Eu não posso manter uma escala de urgência aberta com um pedopsiquiatra que faz 20 horas semanais", afirma. Ana Varges Gomes considera que a situação nunca melhorará se se continuarem a formar poucos pedopsiquiatras no país.
Para enfatizar a falta de especialistas nesta área, lembra que Coimbra, que tem vários médicos pedopsiquiatras, este ano só formou um especialista. "Já tentamos sugerir algum apoio, nem que fosse por vídeo consulta para uma primeira abordagem", conta. No entanto, "pela lei as crianças têm que ser vistas por um pedopsiquiatra, nós não temos e por isso têm que ir até Lisboa". A presidente do CHUA defende que a Ordem dos Médicos devia pensar numa forma de criar para os psiquiatras de adultos uma especialização para a infância, para tentar ultrapassar o problema a curto prazo.
O Centro Hospitalar e Universitário do Algarve em março um outro pedopsiquiatra a trabalhar, mas ainda é um dado incerto.
Quase todas as crianças em acolhimento precisam de apoio clínico
Joana Amorim, in JN
Sete em cada dez apresentam problemas a nível físico ou mental e mais de um quarto faz medicação. Especialistas defendem desinstitucionalização.
O movimento de diminuição, de ano para ano, de crianças e jovens em acolhimento é acompanhado por um aumento dos que necessitam de apoio na área da saúde mental. Numa vulnerabilidade que se reflete no facto de 69% terem determinadas características de saúde que resultam em necessidades específicas de acompanhamento.
[artigo disponível só para assinantes]
Sete em cada dez apresentam problemas a nível físico ou mental e mais de um quarto faz medicação. Especialistas defendem desinstitucionalização.
O movimento de diminuição, de ano para ano, de crianças e jovens em acolhimento é acompanhado por um aumento dos que necessitam de apoio na área da saúde mental. Numa vulnerabilidade que se reflete no facto de 69% terem determinadas características de saúde que resultam em necessidades específicas de acompanhamento.
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Vítimas de violência doméstica têm mais comportamentos de risco e problemas de saúde
in Público online
Estudo divulgado esta sexta-feira aponta para uma baixa identificação por parte dos médicos de possíveis vítimas deste tipo de violência
As mulheres vítimas de violência doméstica pelo actual ou ex-parceiro têm mais comportamentos de risco e mais problemas de saúde, incluindo perturbações da saúde mental, indica um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), divulgado esta sexta-feira.
"As mulheres que nós estudámos revelam muito mais comportamentos de risco para a saúde do que a população em geral, revelam mais problemas de saúde mental e de saúde física, e revelam mais história de traumatismo e intoxicações", referiu Teresa Magalhães, professora de Medicina Legal e Ciências Forenses da FMUP.
No que diz respeito a problemas de saúde, além de perturbações da saúde mental, em causa podem estar problemas como diabetes, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e cancro.
O estudo da FMUP, publicado no International Journal Environmental Research and Public Health, revista internacional especializada em saúde pública, tem como base os registos clínicos electrónicos de 20 anos de funcionamento da Unidade de Saúde Local de Matosinhos (ULSM). O período estudado foi de 2001 a 2021 e, no total, foram analisados os registos de 1676 mulheres entre os 16 e os 60 anos de idade.
Estas mulheres foram identificadas pelos médicos como vítimas ou prováveis vítimas de violência física, emocional, psicológica e/ou sexual, perpetrada por parceiro íntimo, actual ou passado. O número de registos avaliados representa 2,3% do universo (mais de 72 mil) das mulheres que recorreu à unidade de saúde em estudo, no mesmo período, e sobre o qual não recaiu qualquer suspeita de vitimização.
Serviços telefónicos de apoio a vítimas de violência doméstica
APAV | Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
21 358 7900
UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta
218 873 005
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
800 202 148
De acordo com a FMUP, "estes resultados parecem indicar uma taxa de detecção da violência muito baixa por parte dos médicos, uma vez que se estima que a prevalência de mulheres vítimas deste tipo de violência seja de 18% em Portugal e 27% em todo o mundo".
À Lusa, Teresa Magalhães explicou que a publicação deste estudo serve, assim, de "alerta". "Os médicos podem ter percebido [que existia algum indício de violência], mas nós não acedemos ao que está nas informações confidenciais. E escrever nas informações confidenciais de pouco ou nada serve nestes casos que são crime público. Estas pessoas têm de ser encaminhadas para profissionais de saúde que saibam intervir para se poder travar esta escalada de danos na saúde à qual as pessoas estão sujeitas", disse a investigadora.
Sobre o desfasamento entre o número de vítimas identificadas pelos médicos e o número expectável, este dado pode ter que ver com o segredo médico ou as complexidades inerentes ao registo de factos que envolvem a prática de crime. "Nada que justifique a passividade dos clínicos", lê-se no resumo da FMUP.
Mais comportamentos aditivos
O estudo também destaca o stress traumático associado a experiências violentas, que pode causar distúrbios no normal funcionamento do organismo da mulher, interferindo em vários sistemas, designadamente o sistema nervoso, o sistema imunológico e o sistema endócrino.
Os dados apontam, ainda, que estas mulheres têm um risco 3,6 vezes superior de padecerem de problemas de sono e um risco 2,4 mais alto de terem dor crónica inespecífica. A probabilidade de sofrerem de ansiedade e doenças mentais também mais do que duplica, o que explica o maior consumo de ansiolíticos (1,7 vezes maior), bem como de outros fármacos prescritos para o tratamento de doenças psiquiátricas.
Do mesmo modo, constata-se que a ideação suicida (pensar no suicídio) é 8,6 vezes superior. Outra conclusão aponta para um risco aumentado de comportamentos de risco para a saúde, como o consumo de álcool, tabaco e outras substâncias aditivas. Neste último caso, o risco chega a ser 13 vezes maior do que na população de mulheres não-vítimas.
Este estudo junta os investigadores da FMUP Maria Clemente Teixeira, Teresa Magalhães, Ricardo Dinis-Oliveira e Tiago Taveira-Gomes, a Joana Barroca, médica da ULSM.
À Lusa, Tiago Taveira-Gomes, professor da FMUP e investigador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, explicou a importância de elaborar os chamados "estudos do mundo real" em alternativa a estudos baseados em amostras.
"Trabalhar com amostras está sempre sujeito a um grau de viés se os métodos de selecção não forem amenizados. Atendendo a que hoje em dia, graças à forma como está organizado o Serviço Nacional de Saúde, em particular as ULS, há locais onde existe informação sistematizada, há fontes de informação muito completas. Torna-se possível gerar evidência com um grau de detalhe que antes não era possível", concluiu.
Estudo divulgado esta sexta-feira aponta para uma baixa identificação por parte dos médicos de possíveis vítimas deste tipo de violência
As mulheres vítimas de violência doméstica pelo actual ou ex-parceiro têm mais comportamentos de risco e mais problemas de saúde, incluindo perturbações da saúde mental, indica um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), divulgado esta sexta-feira.
"As mulheres que nós estudámos revelam muito mais comportamentos de risco para a saúde do que a população em geral, revelam mais problemas de saúde mental e de saúde física, e revelam mais história de traumatismo e intoxicações", referiu Teresa Magalhães, professora de Medicina Legal e Ciências Forenses da FMUP.
No que diz respeito a problemas de saúde, além de perturbações da saúde mental, em causa podem estar problemas como diabetes, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e cancro.
O estudo da FMUP, publicado no International Journal Environmental Research and Public Health, revista internacional especializada em saúde pública, tem como base os registos clínicos electrónicos de 20 anos de funcionamento da Unidade de Saúde Local de Matosinhos (ULSM). O período estudado foi de 2001 a 2021 e, no total, foram analisados os registos de 1676 mulheres entre os 16 e os 60 anos de idade.
Estas mulheres foram identificadas pelos médicos como vítimas ou prováveis vítimas de violência física, emocional, psicológica e/ou sexual, perpetrada por parceiro íntimo, actual ou passado. O número de registos avaliados representa 2,3% do universo (mais de 72 mil) das mulheres que recorreu à unidade de saúde em estudo, no mesmo período, e sobre o qual não recaiu qualquer suspeita de vitimização.
Serviços telefónicos de apoio a vítimas de violência doméstica
APAV | Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
21 358 7900
UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta
218 873 005
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
800 202 148
De acordo com a FMUP, "estes resultados parecem indicar uma taxa de detecção da violência muito baixa por parte dos médicos, uma vez que se estima que a prevalência de mulheres vítimas deste tipo de violência seja de 18% em Portugal e 27% em todo o mundo".
À Lusa, Teresa Magalhães explicou que a publicação deste estudo serve, assim, de "alerta". "Os médicos podem ter percebido [que existia algum indício de violência], mas nós não acedemos ao que está nas informações confidenciais. E escrever nas informações confidenciais de pouco ou nada serve nestes casos que são crime público. Estas pessoas têm de ser encaminhadas para profissionais de saúde que saibam intervir para se poder travar esta escalada de danos na saúde à qual as pessoas estão sujeitas", disse a investigadora.
Sobre o desfasamento entre o número de vítimas identificadas pelos médicos e o número expectável, este dado pode ter que ver com o segredo médico ou as complexidades inerentes ao registo de factos que envolvem a prática de crime. "Nada que justifique a passividade dos clínicos", lê-se no resumo da FMUP.
Mais comportamentos aditivos
O estudo também destaca o stress traumático associado a experiências violentas, que pode causar distúrbios no normal funcionamento do organismo da mulher, interferindo em vários sistemas, designadamente o sistema nervoso, o sistema imunológico e o sistema endócrino.
Os dados apontam, ainda, que estas mulheres têm um risco 3,6 vezes superior de padecerem de problemas de sono e um risco 2,4 mais alto de terem dor crónica inespecífica. A probabilidade de sofrerem de ansiedade e doenças mentais também mais do que duplica, o que explica o maior consumo de ansiolíticos (1,7 vezes maior), bem como de outros fármacos prescritos para o tratamento de doenças psiquiátricas.
Do mesmo modo, constata-se que a ideação suicida (pensar no suicídio) é 8,6 vezes superior. Outra conclusão aponta para um risco aumentado de comportamentos de risco para a saúde, como o consumo de álcool, tabaco e outras substâncias aditivas. Neste último caso, o risco chega a ser 13 vezes maior do que na população de mulheres não-vítimas.
Este estudo junta os investigadores da FMUP Maria Clemente Teixeira, Teresa Magalhães, Ricardo Dinis-Oliveira e Tiago Taveira-Gomes, a Joana Barroca, médica da ULSM.
À Lusa, Tiago Taveira-Gomes, professor da FMUP e investigador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, explicou a importância de elaborar os chamados "estudos do mundo real" em alternativa a estudos baseados em amostras.
"Trabalhar com amostras está sempre sujeito a um grau de viés se os métodos de selecção não forem amenizados. Atendendo a que hoje em dia, graças à forma como está organizado o Serviço Nacional de Saúde, em particular as ULS, há locais onde existe informação sistematizada, há fontes de informação muito completas. Torna-se possível gerar evidência com um grau de detalhe que antes não era possível", concluiu.
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