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27.9.23

Jovens de 18 anos estão a beber mais álcool. Pela primeira vez, o consumo entre raparigas superou o dos rapazes

Cristiana Faria Moreira, in Público

Consumo de álcool e de drogas tem aumentado entre os jovens de 18 anos. Tende a ser superior nos rapazes, quando se tratam de substâncias ilícitas e de padrões de consumo mais frequentes e intensos.

Nove em cada dez jovens de 18 anos diz ter consumido álcool, cinco em dez fumaram tabaco e três em dez consumiram uma substância ilícita nos 12 meses anteriores à realização de um inquérito sobre comportamentos adictivos, realizado pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD). Pela primeira vez, foram as raparigas que mais consumiram bebidas alcoólicas nesses 12 meses.

Entre estes jovens, mais de metade (54%) admitiu já ter bebido álcool de "forma binge", ou seja, "intensiva", tomando cinco ou seis bebidas alcoólicas na mesma ocasião. Entre os jovens inquiridos, 36% diz ter-se embriagado severamente pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores ao inquérito​, detalha o relatório “Comportamentos Adictivos aos 18 anos: consumo de substâncias psicoactivas”, que resulta de um inquérito feito a 135.273 jovens que participaram no Dia da Defesa Nacional em 2022.

O documento, publicado esta terça-feira, dá nota de que a prevalência de consumo de bebidas alcoólicas nos 12 meses anteriores ao inquérito é, pela primeira vez, ligeiramente superior no sexo feminino (86% entre as raparigas, 84% entre os rapazes), sendo o consumo de tabaco superior nos rapazes. Quanto à toma de tranquilizantes/sedativos sem receita médica, esta é superior nas raparigas.


“Entre 2015 e 2022 as prevalências de consumos intensivos de bebidas alcoólicas por ocasião" nos 12 meses anteriores ao inquérito aumentaram, "principalmente o consumo binge, a sua frequência, a embriaguez ligeira (nas raparigas) e a sua frequência e a embriaguez severa, sendo este aumento particularmente expressivo no grupo das raparigas”, refere o relatório. No entanto, estes consumos, “ainda que intensos por ocasião”, “tendem a ser pouco frequentes” (em uma a cinco ocasiões em 12 meses).


De acordo com as conclusões deste estudo, "os consumos tendem a ser superiores nos rapazes em comparação com as raparigas, principalmente se se trata de substâncias ilícitas e de padrões de consumo de maior frequência ou intensidade", realça o relatório.


"O que é mais comum é uma frequência esporádica, contudo, há uma percentagem de jovens que temos de considerar que consomem com mais frequência. Há determinados padrões de consumo mais problemáticos, que anteriormente eram mais típicos nos países do Norte da Europa, têm-se vindo a consolidar, comparando 2015 com 2022", nota ao PÚBLICO a psicóloga Ludmila Carapinha, uma das autoras deste estudo.

É o que a também investigadora do SICAD chama "consumo intensivo de bebidas alcoólicas", passível de provocar uma embriaguez severa e acarretar comportamentos de risco para os jovens (dificuldade em discernir, situações de violência). "Verificámos que três em cada dez jovens já o fizeram pelo menos uma vez. Se o fazem todas as semanas? Não. Também tende a ser com pouca frequência", observa.


Sobre a prevalência no consumo por parte das raparigas, a investigadora enquadra que se tem vindo a verificar "uma diminuição da diferença que existia entre homens e mulheres", tanto nos jovens como na população em geral, no consumo de bebidas alcoólicas. "Existem algumas hipóteses que têm sido colocadas através de outros estudos de que o consumo de bebidas alcoólicas [por mulheres] tem que ver com a afirmação de uma certa assertividade e até contestação do que é aceitável para o rapaz versus o que é aceitável para as raparigas", explica.

Menos cannabis e tabaco, mas mais drogas

O inquérito é realizado desde 2015 (com excepção de 2020 devido à pandemia) e abrange a quase totalidade dos jovens com 18 anos, realça a psicóloga. Por isso, permite obter informação "bastante robusta".

Olhando para os dados recolhidos entre 2015 e 2022, a conclusão é que “os consumos têm, predominantemente, aumentado (por exemplo, o consumo de cocaína e a embriaguez), embora alguns tenham diminuído, como por exemplo o consumo de tabaco”. Ainda assim, 52% dos jovens inquiridos diz já ter fumado pelo menos uma vez na vida — e 44% nos últimos 12 meses anteriores à realização do questionário.

No que respeita às substâncias ilícitas, os dados revelam também um aumento no seu consumo ao longo dos últimos anos: 34% dos jovens diz tê-las ingerido pelo menos uma vez na vida e 27% nos 12 meses anteriores e 16% nos 30 dias anteriores ao inquérito.


O consumo de anfetaminas/metanfetaminas (incluindo o ecstasy) também aumentou: 5% dos jovens admitem ter consumido estas substâncias nos 12 meses anteriores e 3% admite ter consumido cocaína.


A cannabis continua a ser o “produto ilícito consumido por mais jovens”: 23% admite ter ingerido nos 12 meses anteriores e 14% nos 30 dias anteriores ao inquérito. No entanto, em 2022, houve uma ligeira diminuição no seu consumo, nota Ludmila Carapinha.

Por outro lado, há mais consumos de substâncias ilícitas, como a cocaína ou as anfetaminas. "Estamos a falar de evoluções muito ligeiras — e não são contínuas ao longo de todos os anos —, mas há de facto uma tendência predominante de maior contacto com outras substâncias ilícitas que não a cannabis", nota.

“Comparando os jovens que declaram consumos de cada substância em 2022 com os de 2015, constata-se que em 2022 a prevalência de consumo em 40 ou mais ocasiões nos 12 meses anteriores [à realização do inquérito] tende a assumir valores muito superiores para a grande maioria dos consumos (bebidas alcoólicas, anfetaminas/metanfetaminas, cocaína, canabinóides sintéticos, catinonas sintéticas [vulgarmente conhecidas por “sais de banho”], alucinogénios, opiáceos), principalmente devido ao forte incremento deste padrão de consumo entre 2021 e 2022”, sublinha o relatório.


Entre as consequências que os próprios jovens assumem ter sentido relacionados com consumos de álcool e de outras substâncias estão situações de mal-estar emocional, relações sexuais desprotegidas, problemas de rendimento na escola/trabalho e ainda problemas de comportamento em casa.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

12.9.23

Retrato do português quando jovem

Pedro Norton, opinião, in Público

O contexto em que nasce e em que cresce um jovem português no século XXI tem um nome: desesperança.

É particularmente ridículo ver um homem de meia-idade a tentar fazer-se passar por jovem. É igualmente patético vê-lo a assumir saber pensar como um jovem. Arrisco, ainda assim, refletir sobre o contexto em que nasce e em que cresce um jovem português no século XXI.


Não vale a pena levar esta história demasiado atrás, mas a verdade é que nada nos garante que, apesar de ser hoje claro que a educação na infância é determinante para a aquisição de competências e para o sucesso das aprendizagens futuras, Maria (chamemos-lhe assim) tenha frequentado uma creche. Sobretudo se pertencer a uma família de menores recursos. De acordo com o estudo Portugal, Balanço Social 2022, “67,4% das crianças oriundas de famílias pobres (Q1) não frequentam a creche. Esta percentagem cai para cerca de 50% nas crianças das famílias com maiores rendimentos (Q4).” E se é um facto que a probabilidade de Maria ter frequentado o ensino pré-escolar aumenta, isso continua a ser sobretudo verdade se for oriunda de uma família rica.


Chegada ao secundário, Maria mergulha no caos da escola pública em Portugal. Greves, indisciplina, aventuras pedagógicas, constantes mudanças de programas e métodos de avaliação e, sobretudo, professores cansados, mal pagos e desmotivados (se é que os tem todos, porque este ano há 100.000 alunos com pelo menos um professor em falta) não são exatamente o caldo que esperaria e a que julga ter direito. Se teve o azar de ter apanhado os anos de pandemia, saberá bem que tudo foi, aliás, exponenciado.

Mas mais grave: se Maria é mesmo oriunda de uma família de menores recursos, a probabilidade de ter sido deixada para trás durante os anos da covid é altíssima. De acordo com dados compilados por Alexandre Homem Cristo, “apenas cerca de 1,6% dos alunos beneficiários da Ação Social Escolar estava nas escolas de acolhimento durante o lockdown”. Mas mesmo que tenha escapado incólume aos anos de pandemia, Maria não escapou, de certeza, à grande maldição da escola portuguesa, onde o perfil socioeconómico do aluno continua a ser um enorme preditor do sucesso escolar. De acordo com os dados do PISA 2018, a diferença entre os resultados entre os alunos mais favorecidos e mais desfavorecidos é, aliás, das mais altas da OCDE.

Por esta altura, Maria, apesar de muito jovem, aprendeu já uma coisa: a ideia da escola pública como elevador social é uma absoluta miragem. E sabe bem que, confirmando-se que é filha de pais carenciados, o mais certo é não ingressar no ensino superior (vale a pena ler a última crónica de Susana Peralta em que cita Miguel Herdade: “Se retratarmos Portugal como um grupo de dez jovens, cinco deles andaram no ensino superior. Contudo, se olharmos para dez jovens nascidos em famílias pobres e com pais pouco qualificados, (...) só um conseguiu lá chegar.”

Mas vamos admitir que Maria é a exceção que confirma a regra e que conseguiu, por mérito próprio e muito esforço, uma vaga no ensino superior. Tendo de estudar fora do local da sua residência, resta-lhe agora encontrar uma cama. Vai demorar muito pouco tempo a perceber que não vai ser tarefa fácil. Sabe que em 2021 existiam, em todo o país, necessidades de 108.000 camas para estudantes universitários deslocados. Apesar de Manuel Heitor ter prometido, em 2018, construir 12 mil camas em alojamentos para estudantes entre 2019 e 2022, apesar de Elvira Fortunato ter vindo agora prometer 15.000 “novas” camas até 2026, Maria sabe bem que a verdade é muito diferente: muito pouco se fez e, no total, existirão apenas 16 mil camas disponíveis aos dias de hoje. E isso explica que, só no último ano, o preço de quartos e apartamentos privados destinados a estudantes tivesse aumentado 10,5%. De acordo com o último relatório do Observatório do Alojamento Estudantil, o preço de um único quarto na região de Lisboa situa-se agora nos 450 euros.

Por esta altura Maria já percebeu que fará como todos os outros jovens portugueses: vai esperar até aos 29,7 anos para sair de casa dos pais e fazer-se à vida. Por essa altura tratará também de acender uma vela. A probabilidade de ter direito a uma reforma no fim da vida de trabalho que agora inicia é mesmo matéria de fé


Mas continuemos, qual otimistas irritantes, e admitamos que a nossa estudante consegue recorrer a umas poupanças dos pais e conclui mesmo o ensino superior. As agruras, infelizmente, não acabam aqui. Chegada ao mercado de trabalho, Maria rapidamente se dá conta de que o prémio salarial para quem conclui a universidade, que era de 50% em 2011, é de 27% em 2022 e está em níveis historicamente baixos. Nunca valeu tão pouco a pena investir na formação superior. Mas a verdade é que é com um magro pecúlio que tem de contar para encontrar casa num país em que o Estado há muito desistiu de investir em habitação pública e em que uma aventura política imponderada e mais mal preparada tratou de dar a machadada final no mercado privado de arrendamento.


Evidentemente, por esta altura Maria já percebeu que fará como todos os outros jovens portugueses: vai esperar até aos 29,7 anos para sair de casa dos pais e fazer-se à vida. Por essa altura, tratará também de acender uma vela. A probabilidade de ter direito a uma reforma no fim da vida de trabalho que agora inicia é mesmo matéria de fé.


Tudo isto tem um nome: desesperança. Alguém verdadeiramente acredita que se trata com cheques-livro e férias em pousadas?

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

7.9.23

Medidas para os jovens: oposição lamenta falta de respostas na habitação

Ana Bacelar Begonha, in Público online

A JSD, o BE o PCP acusam as medidas do primeiro-ministro de não darem resposta aos elevados custos da habitação para os jovens.

O primeiro-ministro anunciou esta quarta-feira um conjunto de medidas de apoio destinado aos jovens a ser aplicado em 2024. A oposição, da esquerda à direita, já começou a reagir, classificando as medidas como um "esquema" ou um "tiro ao lado" nos problemas centrais das gerações mais novas, em particular, o acesso à habitação.

Na rentrée do PS, a Academia Socialista, o primeiro-ministro anunciou que o Governo vai aprovar cinco medidas para os jovens: o alargamento do IRS jovem, a gratuitidade dos passes sub-23, a devolução das propinas de licenciatura e mestrados para os jovens que fiquem a trabalhar em Portugal após o curso, a criação de um cheque-livro para os jovens de 18 anos e a oferta de uma semana de férias nas pousadas da juventude e quatro bilhetes de comboio para os jovens que terminem o 12º. ano.

Ao PÚBLICO, o presidente da JSD, Alexandre Poço, lamenta que a habitação seja "uma grande ausente" nas medidas, já que Portugal é dos países em que os jovens se emancipam mais tarde e "nunca o acesso à habitação foi tão difícil" para os mais novos, sobretudo, na "compra de habitação". "O primeiro-ministro quis poupar o país a mais um anúncio de casas de papel", ironiza.

Embora saudando algumas medidas, como a gratuitidade dos passes sub-23, o deputado aponta ainda que o PSD e a JSD têm "uma divergência de fundo" com a redução do IRS Jovem proposta por António Costa. Ao invés de um "modelo de desconto", os sociais-democratas defendem a criação de um "regime fiscal próprio" em que os jovens até aos 35 anos, excluindo o último escalão de IRS, tenham uma "taxa máxima de 15%", medida que vão apresentar no Orçamento do Estado de 2024.

Já sobre a devolução das propinas, o presidente da JSD não se pronuncia "sem conhecer os detalhes", nomeadamente, se a iniciativa abrange as universidades privadas.

Por sua vez, o presidente da IL, Rui Rocha, classifica o conjunto de medidas como um "esquema" de que a "geração mais bem preparada" está a ser "vítima" que "tem como único objectivo demonstrar a inexistência de soluções para o primeiro projecto de vida" dos jovens. "O que é preciso é um país que crie riqueza para todos, independentemente da idade das pessoas", defendeu, numa conferência de imprensa em que apresentou um pacote de medidas sobre habitação.

A partir de Coimbra, onde reuniu com a associação académica da cidade, a coordenadora do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, considerou que a devolução das propinas, em particular, "não resolve" os problemas "essenciais" que os jovens enfrentam, isto é, as despesas das propinas, os baixos salários e os custos da habitação, já que os estudantes universitários continuarão a não conseguir pagar o quarto e as propinas e "quem acabou o curso e está no mercado de trabalho" continuará a não conseguir "conjugar salários de 1000 euros ou 800 euros e rendas de 800, 700 ou 600 euros".

Reconhecendo a "bondade da proposta" e defendendo que "qualquer valor é bem-vindo e útil", a bloquista acusa até a medida de ser "perversa" por "descriminar" os jovens que "não têm condições para ficar" em Portugal. "Tem de ser gratuita para todos e não apenas para os que conseguem ficar", vincou.

Pelo PCP, também a deputada Alma Rivera considerou que as medidas são “inócuas” e não passam de “anúncios” que “não vão à raiz dos problemas” dos jovens, como “os baixos salários” e a “falta de acesso à educação” e à “habitação”.

A devolução das propinas não combate o “problema que se coloca hoje para os estudantes que não têm dinheiro”, nomeadamente, para o alojamento estudantil, o alargamento do IRS Jovem é um “tiro ao lado no problema de fundo, os salários miseráveis” e a gratuitidade dos passes sub-23 vem com “um ano de atraso”, visto que o PCP já o propôs no Orçamento do Estado para 2023, acusou, em declarações aos jornalistas no Parlamento.

Notícia actualizada com a declaração do PCP

11.8.23

Voltámos a sair de casa dos pais (mesmo) antes dos 30: aos 29,7 anos

Renata Monteiro, in Público online

É na Croácia que a idade estimada de saída do agregado familiar é mais alta: 33,4 anos. Homens atrasam a idade de saída e os jovens nos países nórdicos dizem adeus aos 21.

Os jovens em Portugal terão voltado a conseguir deixar a casa dos pais antes de fazerem 30 anos. Em 2022, a idade média para sair do domicílio familiar baixou para os 29,7 anos, depois de, em 2021, Portugal ter sido o país da União Europeia (UE) em que os jovens saíram mais tarde de casa dos pais: aos 33,6 anos.

Nos 27 países da UE, a média fica-se pelos 26,4 anos, segundo os dados do Eurostat enviados ao P3, a partir do Inquérito às Forças de Trabalho da UE. Em 2019, antes da pandemia de covid-19, tinha atingido o valor mais baixo, 26,2 anos. A idade média com que os jovens saem de casa dos pais é uma aproximação com base no facto de os inquiridos viverem ou não no mesmo agregado familiar que os pais.

Durante o último ano, foi na Croácia que os jovens ficaram até mais tarde no quarto onde cresceram — até aos 33,4 anos —, seguindo-se a Eslováquia (30,8) e a Grécia (30,7). Os dados reflectem, mais uma vez, as diferentes políticas de habitação na Europa do Norte e do Sul. Sem surpresas, os jovens nos países nórdicos conseguem sair muito mais cedo, embora não antes dos 20: aos 21,3 anos na Finlândia, 21,4 na Suécia e 21,7 na Dinamarca.


Aumentar

Em Espanha e na Grécia, a idade de saída bateu recordes em 2022 e continua mais alta do que era até durante a pandemia. Seria de esperar que “o mesmo acontecesse em Portugal”​, comenta o sociólogo Pedro Góis, acrescentando que não se pode ainda afirmar que os jovens estão a conseguir sair mais cedo de casa dos pais. A escassez de habitação provocou “um novo adiamento, mesmo nas periferias”, diz. “Não é difícil percebermos que não se alterando questões estruturais [precarização do mercado de trabalho e preços da habitação] esta tendência não desaparecerá nos próximos anos. O importante não é uma oscilação de meses”​, diz.

Depois do pico (ou melhor, do vale) de 2021, os dados aproximam-se dos que se registaram antes da pandemia, mas a idade de saída em Portugal ainda continua a estar mais elevada do que em 2018 (28,9) e 2019 (29).

Nesse ano, quando Portugal bateu no fundo da tabela, uma quebra na série inviabiliza possíveis comparações com anos anteriores. Ainda assim, o Eurostat argumentava que a causa do aumento era “mais estrutural, com uma mudança na composição do agregado familiar” e uma deterioração no mercado de trabalho que afectou especialmente os mais jovens.

De 2022 para 2021, a dimensão média dos agregados familiares em Portugal diminuiu de 2,7 para 2,5 membros. Ficar em casa dos pais depois dos 26 não é uma escolha, disse mais de metade dos jovens nesta faixa etária ouvidos para o II Plano Nacional da Juventude, em 2021.

Olhando também para o género, foram as jovens mulheres finlandesas que saíram mais cedo, aos 20,5 anos, e os homens croatas que ficaram mais tempo: 34,7 anos. Em Portugal, os homens voltaram a ficar com os pais até mais tarde, até aos 30,4 anos, enquanto as mulheres saíram aos 29.

Porque é que os homens saem mais tarde de casa em todos os países analisados?

Em 2022, a socióloga Diana Carvalho apontou algumas razões, a partir dos estudos da também socióloga Magda Nico, que podem ajudar a explicar os diferentes destinos na saída de casa dos pais: 

A maior proporção de jovens mulheres no ensino superior — as mulheres são mais qualificadas e apresentam maior sucesso escolar, por isso também são qualificadas mais cedo — faz com que consigam a sua autonomia residencial mais cedo;
As jovens mulheres juntam-se mais cedo em conjugalidade (e casam mais cedo) e em Portugal a correlação entre a saída de casa dos pais com a conjugalidade é muito comum;
Sair de casa dos pais representa para as mulheres uma via para a liberdade e para evitar o controlo parental (mais do que para os homens), em conjunto com o facto de já estarem mais preparadas para viverem sem os pais por resultado das diferentes socializações de género em relação às tarefas domésticas. Isto faz com que as mulheres vejam mais vantagens em sair de casa dos pais do que os homens.

2.8.23

Academias de verão no Politécnico de Portalegre

in Rádio Portalegre

Cibersegurança e preservação do meio ambiente são os temas nas Academias de verão, dinamizadas pelo Politécnico de Portalegre e a Fórum Estudante e onde, até ao momento, já participaram mais de noventa estudantes do ensino secundário e profissional, de todo o país.

Em parceria com a CIS (Centro Internet Segura), realizou-se de 24 a 28 de julho a Academia CIS Digital Camp, dedicado à cibersegurança e literacia digital e que proporcionou aos participantes fazerem exercícios práticos, sensibilizando também para a saúde mental. Este contou ainda com uma ida ao aeródromo de Ponte de Sor e desportos náuticos na barragem de Montargil.

Os workshops foram dinamizados pelo CNS – Centro Nacional de Cibersegurança, pela APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e pelo IPDJ – Instituto Português do Desporto e Juventude.

No dia 27, o Campus Politécnico, recebeu a visita do Secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo, que interagiu com os participantes da Academia. O governante fez algumas perguntas aos jovens e deixou conselhos, de boas práticas na utilização da internet.

Com um tema diferente, teve lugar entre Portalegre e Elvas a Portalegre Green Academy, de 10 e 14 de julho. Este destina-se aos estudantes preocupados com a preservação do ambiente e a emergência climática, o evento incidiu sobre a oferta formativa, estruturas e projetos do IP Portalegre, relacionados com a sustentabilidade ambiental.

Está prevista ainda a realização da Portalegre Digital Academy, de 4 a 8 de setembro, com foco na inovação tecnológica, digitalização e sustentabilidade.

1.8.23

Sete mil pessoas beneficiaram de apoios para irem para o interior

TEXTO AMADEU ARAÚJO FOTO TIAGO MIRANDA, in Expresso


Beatriz Bandeira estava num beco sem saída. Tinha-se formado em Arquitetura e já trabalhava, mas o que ganhava não lhe permitia “sair de casa dos pais”, porque as rendas e os preços de um T1 em Lisboa eram “escandalosos”. Aos 26 anos, vivia uma história comum a outros jovens, que, como ela, enfrentam as dificuldades de uma realidade condicionada pela inflação e por um mercado imobiliário cujos valores excedem o poder de compra de uma grande percentagem da população. Mas Beatriz não se conformou: enjeitou os “avisos dos amigos” e mudou-se para Nelas, onde encontrou emprego, “qualidade de vida e bom ambiente social”. Agora vive no distrito de Viseu com o namorado e faz parte de uma estatística: é uma entre os 4728 novos habitantes do interior do país, sobretudo jovens que beneficiam do programa Mobilidade Apoiada para um Interior Sustentável, promovido pelo Governo, que já investiu nele €3,8 milhões.

“Temos neste momento, números de 30 de junho, 4728 pessoas abrangidas, incluindo o seu agregado familiar. Há alguns concelhos no interior do país que não têm sequer esta população”, sublinha a ministra do Trabalho e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, que garante a continuidade de medidas de apoio à fixação e à valorização de pessoas fora dos grandes eixos metropolitanos, e utiliza uma metáfora para explicar o empenho: “É como se estivéssemos a criar uma grande vila no interior.” O sentido de comunidade é especialmente valorizado por Beatriz Bandeira. “Nas ruas recebo os bons-dias, o que não era habitual em Lisboa. A vizinha é simpática, atenta, até me oferecem alguns produtos e há sempre tempo para ir a um café depois do emprego, passear num dos muitos parques, encontrar novos amigos, tudo muito devagar e tranquilo.”

O programa está em vigor desde julho de 2020 e surgiu como resposta ativa aos desafios da situação pandémica, possibilitando um apoio financeiro direto às famílias que, em contexto de mobilidade geográfica, se fixem e iniciem atividade laboral em territórios do interior. O apoio financeiro direto varia entre os €2442 e os €3363, com uma majoração de 20% por cada elemento do agregado familiar que se mude com destino ao interior. E contempla também a comparticipação do custo de transporte de bens com €720.

Em março deste ano o programa foi alargado a situações de atividade profissional já existente, em que se verifique a transferência do respetivo local de trabalho para território de baixa densidade populacional. Estão também abrangidos os nómadas digitais, a par de projetos de fixação e do exercício de atividade profissional no interior, concretizados na sequência de estágios profissionais que tenham decorrido nesses territórios. Outros beneficiários são os bolseiros e membros de órgãos estatutários de empresas.

Aos 4728 novos residentes do interior abrangidos pela Mobilidade Apoiada para um Interior Sustentável, juntam-se mais 2876 pessoas que beneficiaram do programa Regressar, que facilita o retorno dos emigrantes, contemplando uma majoração de 25% dos apoios quando a atividade profissional se situe em territórios do interior. Tudo somado, chega-se a 7604 novos residentes que nos últimos anos escolheram mudar de vida e fixar residência em concelho de baixa densidade populacional.

OS IMIGRANTES

As candidaturas aos vários programas são processadas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), que as especifica detalhadamente: a maior parte das aprovações (73,2%) refere-se a processos de mobilidade basea­dos em trabalho por conta de outrem, 23,2% a pessoas que criaram o seu próprio emprego e 3,5% aos novos residentes que criaram empresas. Por outro lado, mais de metade dos destinatários com processos de mobilidade baseados em trabalho por conta de outrem estão com contrato sem termo. 56% dos candidatos com processos aprovados têm o ensino superior e 54,7% têm até 35 anos.

Quanto à proveniência dos novos residentes, são maioritariamente oriundos dos distritos de Lisboa (32,5%), Porto (17,2%), Setúbal (7,4%), Braga (5,9%), Aveiro (5,3%) e Coimbra (4,7%). E os principais destinos são os distritos de Castelo Branco, com 25,4% das candidaturas aprovadas, de Évora (13,7%), Portalegre (7,6%), Guarda (7,3%) e Vila Real (7,1%). Há ainda 2521 candidaturas em análise, registadas até 31 de maio, e que abrangem um total de 4608 pessoas.

Os dados não se cingem à mobilidade interna. Em março, o número de estrangeiros a trabalhar no interior ao abrigo desta medida rondava os 400, sendo o Brasil, Itália, Ucrânia e Espanha os principais países de origem.

Nicolau de Oliveira é um exemplo. Este engenheiro informático, de 34 anos, veio do Brasil há oito meses e mudou-se para Belmonte com a família. A empresa para a qual trabalha “tem um programa para brasileiros e moçambicanos se expatriarem para Portugal e aconselha Belmonte”, revela o engenheiro. “É natural, é a terra de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil”, graceja.

Nicolau, que faz desenvolvimento de software para uma multinacional, adian­ta que “a adaptação foi muito boa”, que “todos ajudaram” e que rapidamente alugou uma casa. Apesar do calor, “mais seco” do que no Brasil, “há praias fluviais e a vida é tranquila e muito segura”. “O dia a dia é feito no escritório, para onde me desloco a pé com muita tranquilidade, tenho tempo para almoçar, conversar, fazer amigos e conhecer um concelho fantástico.” Conhecedor dos problemas demográficos de Portugal, classifica o programa de “positivo”, apesar de “alguns atrasos com o reagrupamento familiar, mas nada que não se resolva”. Também “não tenciona” regressar ao Brasil e pretende ficar “no país e ver os filhos crescer no concelho”.

Tem sido, aliás, o aumento dos residentes estrangeiros em Portugal que tem feito com que a população em território nacional tenha registado um crescimento, de forma consecutiva, nos últimos quatro anos. Sem essa imigração a população iria continuar a diminuir, já que o saldo natural tem sido negativo. Em 2022, o número de mortes superou em 40 mil o de nascimentos. Mas estes desequilíbrios afetam as regiões de forma diferente, com o interior a ser mais penalizado pelo envelhecimento e pela desertificação.

Olhando para os dados mais recentes do INE, é possível constatar que, dos 308 concelhos do continente, 144 ganharam habitantes em 2022 face a 2021, segundo as estimativas da população residente. Grande parte concentra-se nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto e também em alguns municípios do Algarve. E a verdade é que os programas de atração de população criados pelo Governo estão longe de inverter a perda de população na maioria das regiões do interior. “São programas simbólicos, porque, de facto, não são muito efetivos. Não é com ganhos como estes e com estes planos que a população se vai alterar”, considera Pedro Góis, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, especialista em migrações (ver entrevista aqui).

Quanto ao programa Regressar, foram até agora aprovados 1196 processos de mobilidade de pessoas que se fixaram nestes territó­rios, abrangendo um total de 2876 indivíduos, incluindo os elementos do agregado familiar dos candidatos, correspondendo a uma despesa de €779,9 mil. Já o ATIVAR.PT promove incentivos às entidades promotoras de projetos de estágio profissional no interior, com 24% das entidades candidatas a pretenderem realizar projetos de estágio localizados no interior do país.

Outro projeto é o Compromisso Emprego Sustentável, que atribui 25% de apoio financeiro a cada posto de trabalho localizado em territórios de baixa densidade. Com as empresas a procurar talento e a gerar emprego qualificado, os salários já estão a subir. Os dados do IEFP mostram que nos distritos de Bragança, Guarda e Viseu, o salário médio ultrapassa agora os €1100, quando em 2015 rondava os €800. “Há distritos no interior onde não só o emprego tem vindo a subir, como os salários estão a crescer acima da média nacional. Na Guarda e em Viseu o aumento do salário médio de 2015 para 2013 foi superior a 37%”, destaca Ana Mendes Godinho.


APOIOS

56%

dos candidatos beneficiados pelos programas de mobilidade têm ensino superior e 55% tem até 35 anos


2521

candidaturas, envolvendo mais 4608 pessoas, e recebidas até 31 de maio, estão em análise ao abrigo do Mobilidade Apoiada para um Interior Sustentável

31.7.23

Jovens portugueses são dos mais qualificados mas em maior risco de pobreza e exclusão social

Paula Sofia Luz, in DN

Um estudo da Pordata destapa a realidade dos jovens portugueses, no momento em que começa a JMJ. Os números são preocupantes: 95% vivem com os pais, e isso acontece por causa do desemprego e da precariedade no mercado de trabalho.

Um total de 95% dos jovens portugueses (que em 2022 eram 10% da população) vivem com os pais, o quarto valor mais alto na União Europeia. Essa é uma das conclusões do estudo da Pordata que hoje é tornado público. No documento percebe-se também que são cada vez mais qualificados - 9 em cada 10 jovens entre os 20 e os 24 anos têm, no mínimo, o ensino secundário, e Portugal é o 7.º país da UE com maior proporção de jovens com ensino superior.

Apesar disso, as preocupações com o acesso à habitação e ao emprego continuam a afetá-los: 6 em cada 10 têm vínculos de trabalho precários, e Portugal é o 7º país da UE com maior taxa de desemprego jovem, afetando 1 em cada 5 jovens no mercado de trabalho. Há outro dado positivo neste retrato agora traçado pela Pordata: os jovens portugueses têm competências digitais acima da média europeia, e estão em 5.º lugar entre os que mais utilizam as redes sociais e leem notícias online. No campo das boas notícias, o documento revela que os hábitos de saúde deste grupo etário parecem estar a melhorar - diminuiu a percentagem de jovens que afirma nunca praticar desporto (um em cada 3) ou que fuma diariamente (9%).

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Em 2022 contabilizavam-se em Portugal 1.086.544 jovens entre os 15 e os 24 anos (51% eram do sexo masculino e 49% do sexo feminino) o que representa uma diminuição de 6 pontos percentuais desde 1961, refletindo a redução das taxas de natalidade e o aumento da esperança média de vida. Para Gonçalo Saraiva Matias, presidente do conselho de administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), este estudo revela "um indicador muito positivo, e outro bastante negativo". Refere-se, respetivamente, à educação e competências digitais, onde os jovens portugueses estão num patamar superior à média europeia; por outro lado, "não estamos bem no desemprego (Portugal é o sétimo país da União Europeia com maior desemprego jovem), e seis em cada dez jovens têm vínculos laborais precários. Isto tem necessariamente um reflexo na inclusão social, já que 25% dos jovens estão em risco de pobreza ou exclusão social. Gonçalo Matias acredita mesmo que "temos aqui uma situação explosiva, porque uma faixa considerável dos jovens, entre os 15 e os 24 anos, tem muita qualificação, mas depois tem trabalhos precários e pouca capacidade de entrar no mercado".


"Na minha opinião, até baseada noutros estudos que a Fundação tem feito, isto revela que há um incentivo grande a que os jovens saiam do país", conclui o presidente da FFMS.


O saldo migratório revela que, desde 2019, entram no país mais jovens do que aqueles que saem para viver no estrangeiro. Mas nem sempre foi assim: de 2010 a 2018 o saldo foi negativo.


De acordo com o estudo, no ano passado a esmagadora maioria dos jovens (95%) vivia com os pais, "valor que traduz uma mais difícil independência, sobretudo considerando que este valor era de 86% em 2004". Na verdade, Portugal é o 4.º país da UE, a seguir à Itália (97%), Croácia (96%) e Espanha (96%), em que mais jovens vivem com os pais, acima da média europeia (83%). Na Suécia e na Dinamarca, os jovens que vivem com os pais são menos de metade do total de jovens.

Em Portugal, de acordo com dados de 2022 do Eurostat, a idade média de saída de casa dos pais era aos 30 anos, mais 3 anos do que a média europeia.
Mais educação e competências digitais

Um dos dados mais animadores do estudo da Pordata diz respeito à Educação e Competências Digitais. Em Portugal, 6 em cada 10 jovens concluíram o ensino secundário e quase 3 em cada 10 têm o ensino superior. Somando o ensino superior com o secundário, 9 em cada 10 jovens têm, no mínimo, o ensino secundário, quando a média europeia é de 84%. Foi em 2020 que Portugal ultrapassou a média europeia relativa aos jovens que têm, pelo menos, o ensino secundário completo. Os dados comparativos permitem perceber que, há 20 anos, a proporção de jovens entre os 18 e os 24 anos que deixavam de estudar sem terminar o ensino secundário era de 45%, valor que ficou nos 6% em 2022. "Éramos o 2.º país, a seguir a Malta, com maior abandono escolar. Atualmente, somos o 8.º país com menor taxa de abandono escolar, com menos 4 p.p. face à média europeia (9,6%).

Os rapazes abandonam os estudos duas vezes mais do que as raparigas (8% vs. 4%).

A democratização do acesso ao ensino permitiu trajetórias escolares mais longas. Em 2022, Portugal era já o 7.º país da UE com maior proporção de jovens entre os 20 e os 24 anos com ensino superior, acima da média europeia (19%).

Portugal destaca-se também no que toca ao peso de alunos estrangeiros no ensino superior. 8% dos alunos em licenciaturas e 14% em mestrados são estrangeiros, valores acima da média europeia (6% e 12%).

De acordo com a avaliação das competências digitais, Portugal encontrava-se em 5.º lugar entre os países da UE em que os jovens, entre os 16 e os 24 anos, apresentam competências digitais básicas ou acima do básico. Quase todos os jovens portugueses utilizam diariamente a internet (99,5%), ocupando o 5.º lugar dos países onde os jovens mais usam a internet para participar nas redes sociais, e para ler notícias online. Já para participar em atividades cívicas ou políticas, ocupa a 10.ª posição. O aumento dos anos de escolaridade obrigatória e o acesso mais generalizado ao ensino superior traduziu-se num recuo da taxa de emprego dos jovens. Foram 17 pontos percentuais em 20 anos.

Mas a instabilidade laboral é frequentemente associada aos jovens. Os contratos temporários são uma realidade para cerca de 6 em cada 10 jovens (57%) empregados, bastante acima dos 14% que correspondem aos trabalhadores entre os 25-64 anos. Na UE, os contratos temporários abrangem 5 em cada 10 jovens (e 11% dos trabalhadores de 25-64 anos).

Em comparação com a população em geral. Em 2021, o salário médio dos jovens entre os 18 e os 24 anos era de 948,8€ euros mensais brutos, menos 345,3€ euros do que a média nacional.

No que respeita à religião - que afinal dá o mote a este retrato, à conta da JMJ - a maioria dos jovens diz-se católico.

Mais de um quarto dos jovens em Portugal está em risco de pobreza ou exclusão social

Edgar Nascimento, CM

Ganham menos que os europeus e saem mais tarde de casa dos pais. A maior parte dos que trabalham têm contratos temporários. Taxa de desemprego é de 19%.
Mais de um quarto dos jovens em Portugal, entre os 15 e os 24 anos, está em risco de pobreza ou de exclusão social. Os dados, revelados hoje pela Pordata, a propósito da Jornada Mundial da Juventude, revelam que o risco de pobreza ou de exclusão afeta 246 mil jovens.

Há 25 mil que recebem rendimento social de inclusão e 5 mil com subsídio de desemprego.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]




Proibições nas praias "tiram a diversão, algo que pertence aos jovens"

Jucélia Freire, editado por Helena Tecedeiro, in DN


Música alta, jogar à bola, pescar entre nascer e o pôr-do-sol... que outras atividades são proibidas de acordo com o Edital de praia e qual o montante de coima pode ser aplicada?


O Sol brilha forte, a água está na temperatura perfeita e o clima agradável transforma a Praia de Santo Amaro de Oeiras, na Linha de Cascais, num refúgio para quem se quer divertir e fugir do quotidiano. O Edital de Praia, publicado pela Autoridade Marítima Nacional (AMN) todos os anos, define as regras e interdições do que se pode fazer nas praias. Este ano, surgiram algumas novidades para os banhistas, apesar de já estarem previstas em editais anteriores.
Maria Leonor, acompanhada de oito amigos, foram a Santo Amaro para aproveitar as férias escolares. A estudante e os amigos, que dizem já conhecer as atividades interditas pelo Edital de Praia, sentem-se frustrados com algumas das limitações impostas pelo edital, que restringem certas atividades que consideram ser parte integrante da diversão na praia.


"Passámos a maior do ano em aulas e quando chega a época de férias, queremos vir à praia para nos divertirmos e não é possível. As novas leis tiram-nos a diversão, algo que pertence aos jovens. Por isso acho que não faz sentido", afirma Maria Leonor.

Para o grupo, a diversão na praia é algo que deve ser desfrutado ao máximo e algumas restrições são desnecessárias, privando-os de momentos inesquecíveis que a praia pode proporcionar . "No que diz respeito à lei que proíbe as pessoas de fumar junto a outros banhistas compreendo, porque o tabaco pode incomodar, mas não acho que faça sentido proibir os jovens de jogar ou ouvir música."


Utilizar equipamentos ruidosos, jogar à bola ou similares fora de lugares destinados à prática desportiva, pescar entre o nascer e o pôr-do-sol são algumas das atividades interditas no Edital de Praia e podem gerar multas de milhares de euros, questão que tem provocado agitação entre os banhistas.

"Música alta em todas as zonas concessionadas já é proibida há algum tempo. Como nos temos deparado com mais infrações da parte dos banhistas, esta restrição foi reforçada", conta o coordenador dos nadadores-salvadores na Praia de Santo Amaro de Oeiras, Miguel Dias.

O coordenador explica que muitas vezes se deparam com banhistas que trazem equipamentos de som de elevada potência, com música tão alta que chega a afetar toda a praia. "Isso gera muitas reclamações de outras pessoas que vêm descansar. Em todos os locais públicos há regras que devem ser respeitadas".

De acordo com o Edital de praia 2023, a colocação de música alta, que possa perturbar outros banhistas, em praias com domínio da Autoridade Marítima Nacional, para além da apreensão do objeto, a coima pode chegar aos 4000 mil euros para indivíduos e aos 36 mil euros para bares ou outras casas comerciais. Mas não é a única atividade proibida que gera multas. À semelhança de anos anteriores, jogos de bola ou similares fora das zonas destinadas a esses fins; prática de surf, kitesurf, windsurf e outras atividades desportivas que possa constituir perigo para a integridade física dos banhistas em zonas que lhes estejam reservadas pode causar punições (ver caixa).
"É preciso mais fiscalização"

Questionado pelo DN sobre a forma como os banhistas reagem às abordagens no momento em que infringem as leis, Miguel Dias diz que na maioria dos casos se portam bem, mas que no geral as leis do edital não são cumpridas.

"São leis que fazem todo o sentido, mas não me parece que os banhistas as cumpram. Para que isso tenha sucesso é preciso haver mais controlo e fiscalização, senão as pessoas continuam a infringi-las".

O porta-voz da Autoridade Marítima Nacional, José Sousa Luís, diz que o Edital de Praia publicado este ano é semelhante ao de 2022, no entanto, este ano houve mais interesse por parte da comunicação social e de toda a população.

"As abordagens feitas pela Polícia Marítima são mais pedagógicas, mas há um controlo por parte das autoridades."

Fumar na praia, atirar beatas para o chão e incomodar os outros banhistas com o fumo do cigarro também será proibido nas praias a partir de 23 de outubro ao abrigo das novas leis do tabaco (ver caixa).

O DN deslocou-se também à Praia da Barra, em Aveiro, para perceber se os banhistas já consultaram o Edital de Praia de 2023.

O areal estava bastante cheio e André Pires, natural de Aveiro, que fazia praia pela primeira vez este ano, disse concordar com todas as leis do Edital, mas que deveria haver mais restrições nas regras de fumo e bebidas alcoólicas. "Não acho que seja o sítio certo para beber. Em relação ao fumo, acho que tem de haver uma zona reservada só para fumadores, para não incomodarem os outros banhistas."

Em relação ao tabaco, o aveirense não é o primeiro a tocar no assunto. Em maio, a Federação Portuguesa de Concessionários de Praia afirmou que em relação à lei do tabaco, que deu entrada no Parlamento, as regras sobre os locais onde não se pode fumar nas praias devem "estar bem definidas".

"Depois das abordagens, as pessoas voltam a fazer coisas erradas na nossa ausência. Podem até conhecer as regras, mas duvido que as cumpram", afirma o nadador-salvador da Praia da Barra, Ricardo Sarabando, que está no seu primeiro ano de serviço. "O nosso trabalho é vigiar e perdemos tempo com certas advertências que, para além de precisarem de ser mais divulgadas pelas autoridades e meios de comunicação social, os banhistas deveriam ter conhecimento da legislação."

Um banhista, que estava a visitar a praia pela terceira vez disse não ter conhecimento de todas as regras do edital, mas que concorda com todas elas. "Há pessoas que vêm para a praia para relaxar, apreciar a paisagem, dormir um bocadinho e até ler um livro e não podem por causa do barulho. Concordo plenamente com as leis", afirma Carlos Daniel, que trouxe consigo uma bola, mas não sabia ainda que era proibido jogar em zonas não-atribuídas.
Atividades proibidas e punições de acordo com o Edital de Praia

Equipamentos ruidosos
Utilização de colunas de som que possam causar incómodo a outros banhistas, para além da apreensão do objeto, pode gerar coimas entre os 200 e os quatro mil euros para pessoas individuais, e entre os 1000 e 36 000 euros para pessoas coletivas.

Jogos de bola, raquetes e outros fora de áreas afetas a esse fim gera coimas entre os 30 e 100 euros.

Praticar surf, kitesurf, windsurf em locais não-destinados a essas práticas, nas praias sob o domínio da AMN, leva a coimas entre os 55 e 550 euros.

Outras atividades
Sujar a praia, pesca lúdica nas unidades balneares entre o nascer e o pôr-do-sol, acampar e sobrevoar com aeronaves com motor abaixo dos 1000 pés, são outras atividades proibidas. Com a nova lei do tabaco, a partir de 23 de outubro passará a ser de todo proibido fumar nas praias.

24.7.23

Mais de metade dos jovens portugueses admite emigrar

in Público

Instabilidade financeira e problemas com a habitação são as maiores preocupações demonstradas pelos inquiridos, entre os 18 e os 34 anos

Uma sondagem sobre os jovens a residir em Portugal revela que 54% deles admite viver fora do país, enquanto 19% fica na dúvida sobre essa questão. As respostas estão este domingo no Jornal de Notícias, no Diário de Notícias e na TSF.

Há algum paradoxo na forma como os jovens entre os 18 e os 34 anos, questionados para esta sondagem, olham para o país. Por um lado, 53% acredita que Portugal é um bom local para viver (17% discorda ou discorda totalmente desta afirmação) e 43% acredita que o país lhes oferece hoje melhores condições de vida do que aos seus pais, mas, mesmo assim, são muitos os que ponderam sair.

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Os que ponderam sair, dizem os diários, são sobretudo os mais jovens e que concluíram o ensino secundário ou superior, enquanto os mais velhos, dentro daquela grupo etário e com o 9.º ano são os que mais resistem a emigrar. Quanto à escolha do novo destino, a Europa aparece como a favorita.

Ainda sobre o trabalho, há uma percentagem relevante de inquiridos que diz estar satisfeito com o seu trabalho e querer mantê-lo (45%) e 49% dos jovens admite que o rendimento de que dispõem dá para viver. Contudo, quando se acrescenta o “confortavelmente” a esse dado, a percentagem desce para 25% e há quase outro tanto (21%) que diz que é difícil viver com o rendimento actual.

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Sobre as suas preocupações sociais, a sondagem diz-nos que apenas 35% ouviu falar no rendimento básico universal, mas que 70% concordaria com a sua aplicação. Há também 77% dos jovens inquiridos que são favoráveis à lei da eutanásia e 69% à interrupção voluntária da gravidez - a mesma percentagem dos que dizem ser favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo ou dos que se mostram preocupados com a guerra na Ucrânia.

Os jovens inquiridos começaram a utilizar a internet cedo (57% entre os 10 e os 14 anos e 22% antes dos 10 anos), recorre a ela várias vezes por dia (88%) e o melhor local para os encontrar é o Instagram (80% usa-o).

Vão a eventos ocasionalmente (47%), ocupam os tempos livres sobretudo a ver filmes ou séries (60%) e têm níveis moderados de preocupações ambientais. 65% diz fazer reciclagem e 35% compra menos roupa e acessórios. Apenas 6% diz não ter qualquer prática neste campo.


A sondagem foi realizada pela Aximage e recorreu a entrevistas a 803 jovens.
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21.7.23

Na hora de escolher um curso, garantia de emprego não é o mais importante para os jovens

Samuel Silva, in Público

Licenciaturas com as mais altas taxas de desemprego estão cheias. Mas as opções dos alunos não estão totalmente desfasadas da realidade do mercado.

É um momento decisivo para dezenas de milhares de jovens. Na próxima segunda-feira arranca o concurso nacional de acesso ao ensino superior e as opções que cada candidato tomar podem ser determinantes para o seu futuro. Os jovens levam em conta os indicadores de desemprego na hora de escolher um curso? Os números sugerem que não. E isso não é tão surpreendente como pode parecer, dizem os especialistas.

Comecemos pelo número de diplomados de cada curso que estão inscritos nos centros de emprego – dados que foram actualizados esta quinta-feira no portal Infocursos. A generalidade das 20 licenciaturas onde esse indicador é mais elevado teve todos ou quase todos os lugares preenchidos no último concurso nacional de acesso – em 13 delas a ocupação de vagas é de 100% e apenas num caso, o curso de Contabilidade do Instituto Politécnico da Guarda (entraram 15 de 32 alunos possíveis na 1.ª fase), é inferior a dois terços.

Dez anos antes, só três destes mesmos cursos preenchiam todas as vagas disponíveis: Design Multimédia, na Universidade da Beira Interior; Comunicação Social, no Instituto Politécnico de Coimbra; e Turismo, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, que continua a ter a terceira mais alta taxa de desemprego entre diplomados (12,9%).
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A empregabilidade “não é o racional determinante” para a escolha de um curso, contextualiza a investigadora da Universidade Lusófona Orlanda Tavares. Este foi precisamente o tema da sua tese de doutoramento – "As escolhas dos estudantes no acesso ao ensino superior português – processos e racionalidades", defendida na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.


Os jovens “continuam a usar o argumento da empregabilidade” na altura de escolher se devem ou não ir para o ensino superior, explica, mas o mesmo não acontece no momento de escolher a formação superior a que vão candidatar-se. Nessa altura, “pesam mais outros factores”, como a vocação, o interesse pessoal ou a influência da família.

Alguma investigação, nota o sociólogo do Instituto de Ciência Sociais da Universidade de Lisboa Vítor Sérgio Ferreira, aponta a existência de um crescimento do “valor intrínseco da formação”, em detrimento do seu “valor instrumental”. Ou seja, os jovens cada vez mais valorizam o gosto em estudar a ligação com a profissão que podem vir a desempenhar, mais do que a estabilidade do emprego ou os níveis remuneratórios associados a cada actividade.

Garantia de melhor salário


Parece haver, prossegue o mesmo especialista, até uma relação entre alguma perda de valor de um diploma do ensino superior – que continua a garantir salários mais elevados e maior protecção face ao desemprego, mas a níveis menos elevados do que em décadas anteriores – e as opções dos jovens.


Ou seja, “os estudantes parecem cada vez mais conscientes de que o valor de empregabilidade do diploma não é o que foi no passado”, e isso acaba por lhes dar “maior liberdade em escolher um curso de que gostam”. É uma ideia sintetizada numa frase que Vítor Sérgio Ferreira, vice-coordenador do Observatório Permanente da Juventude, ouve frequentemente de estudantes: “Isto está mal em todo o lado, mais vale escolher aquilo de que gosto.”


O mais recente inquérito Estudantes à Saída do Secundário, feito pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, já é de 2018/2019, mas os dados então recolhidos apontam no mesmo sentido. O facto de o curso superior escolhido oferecer “boas oportunidades de emprego” é apenas o terceiro motivo invocado pelos jovens para justificar a opção por determinada formação – o motivo é invocado por 30,8% dos alunos.

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Isso é perceptível quando se analisa a evolução, ao longo da última década, do número de alunos inscritos no ensino superior por área de estudo. As áreas que mais crescem são as da Matemática e Estatística (agora com 3.951 inscritos, mais 60% do que há dez anos) e as Tecnologias da Informação e Comunicação (12.663 estudantes fruto de um crescimento de 74% numa década).

São áreas em que a procura vem sendo alimentada não só pelo crescimento do mercado do trabalho, como pelo à-vontade com que as novas gerações se movem nos meios digitais, sendo inclusivamente estimulada pela tutela, que nos últimos anos deu indicações às universidades e politécnicos para abrirem mais vagas nas áreas das tecnologias digitais e ciências de dados, consideradas estratégicas.


Em sentido contrário, os cursos de ensino perderam 32% dos inscritos numa década, tendência que não pode ser desligada da “perda de prestígio social” da docência ao longo da última década, nota Orlanda Tavares; ao passo que arquitectura e construção têm menos 46% alunos do que há dez anos. A área foi particularmente afectada pelos efeitos das crises do subprime e das dívidas soberanas, que impuseram um travão a fundo neste sector económico.


Os estudantes que concluíram o ensino secundário e realizaram os exames nacionais vão poder candidatar-se a partir da próxima segunda-feira. A 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior decorre até 7 de Agosto. Os resultados das colocações são conhecidos no dia 27 do mesmo mês.


Ao dispor dos candidatos está um total de 54.311 vagas — um novo máximo histórico —, depois de o Governo ter autorizado nas últimas semanas 11 novos cursos a entrarem em funcionamento no próximo ano lectivo.


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12.7.23

101 grandes empresas querem aumentar em 14% emprego jovem até 2026

Ana Marcela, in ECO

Novobanco, ECI, Hovione, Barraqueiro ou Vodafone são algumas das 51 empresas a juntar-se ao “Pacto Mais e Melhores Empregos”, da Fundação José Neves. Hoje 101 querem aumentar contratação jovem.


Depois de no início do ano 50 grandes empresas terem assumido o compromisso de aumentar a contratação jovem, esta segunda-feira mais 51 juntam-se ao “Pacto Mais e Melhores Empregos”. Novobanco, El Corte Inglés, Hovione, Grupo Barraqueiro ou Vodafone são algumas das novas empresas que, até 2026, se comprometem a aumentar em 14% a contratação jovem. Em maio, havia em Portugal mais de 70 mil jovens desempregados.

“O nosso objetivo era trazer um conjunto de novas empresas para o Pacto, a marca que tínhamos era 100, portanto, estamos confortáveis com este número. São empresas que representam mais de 260 mil empregos, cerca de 76 mil milhões de euros de receitas. Já têm cerca de 46 mil jovens entre os seus trabalhadores. E, portanto, temos aqui um bom grupo que agora fecha com estas 101 empresas que se comprometem a introduzir melhorias”, afirma Carlos Oliveira, presidente da Fundação José Neves (FJN), ao Trabalho by ECO.

Continental, Siemens, Intelcia, Semapa, Ana Aeroportos ou Banco de Portugal são outras das mais de cinco dezenas de organizações, de diversos setores de atividade, que assumem agora o compromisso de em três anos aumentar não só o volume de contratação de jovens até 29 anos, como também fazer crescer o número de jovens com contratos sem termo e com melhores salários. A formalização do compromisso é feita esta tarde, no Picadeiro Real de Belém, em Lisboa.
Impacto do compromisso

O anúncio das novas empresas é acompanhado de novas projeções do impacto estimado no início do ano com estes compromissos. Assim, além de aumentar em 14% o volume de jovens contratados, as 101 empresas esperam ainda fazer subir, de forma agregada, em 7% o número de jovens que permanecem nas empresas dois anos consecutivos; em 10% os jovens com contrato sem termo; em 7% os com ensino superior com salários acima de 1.320 euros e, por fim, em 3% os jovens com ensino superior a trabalhar em funções adequadas ao seu nível de escolaridade.

O nosso objetivo era trazer um conjunto de novas novas empresas para o Pacto, a marca que tínhamos era 100, portanto, estamos confortáveis com este número. São empresas que representam mais de 260 mil empregos, cerca de 76 mil milhões de euros de receitas. Já têm cerca de 46 mil jovens entre os seus trabalhadores. E, portanto, temos aqui um bom grupo que agora fecha com estas 101 empresas que se comprometem a introduzir melhorias.
Carlos Oliveira

Presidente da Fundação José Neves

No início do ano, quando foi conhecido o Pacto, o impacto estimado era outro, com as maiores diferenças a se fazerem sentir no aumento de 10% para 14% no volume de jovens contratados, mas com a subida dos jovens com contrato sem termo a passar de uma projeção de 19% em janeiro, para 10% em julho.

“São previsões que, neste momento, agregam não só as primeiras empresas, mas também as novas que aderiram e que levam em consideração os números reais de 2022, com efeitos que já são positivos, com um número, com algum significado, de jovens já com contratos sem termo, 67%”, começa por explicar Carlos Oliveira, quando questionado sobre o porquê desta mudança e se não se trataria de uma revisão em baixa.

“Não é nenhuma queda, nenhuma alteração, é uma projeção de impacto, que é sempre de crescimento, agora com dados reais”, reforça. “Antes eram projeções feitas com base em curvas de anos anteriores, o que também pode significar que, de facto, as empresas, já em 2022, fizeram alguma coisa para aliviar alguns destes problemas”, refere ainda. Os dados das empresas signatárias indicam que, em média, 43% das novas contratações no ano passado foram jovens trabalhadores.

Jovens entre os mais vulneráveis no emprego

Os detalhes do impacto efetivo do Pacto só serão conhecidos em 2024. “No próximo ano vamos mostrar como foi o progresso deste primeiro ano das empresas em agregado face à baseline de 2022 e, portanto, se estamos no bom caminho para atingir as projeções, e fazer recomendações caso haja desvios negativos para que haja aceleração no cumprimento”, diz Carlos Oliveira.

O ponto de partida é desafiante, como dão conta os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE). Em maio, havia 338.600 pessoas desempregadas, dos quais 70.500 jovens. A taxa de desemprego jovem era de 18,6%, mais do triplo da registada para os adultos (5,5%), tendo subido 0,5 pontos percentuais (p.p) face a abril e 0,1 p.p em relação ao período homólogo.


E, neste parâmetro, Portugal também não compara bem com a realidade europeia. Em maio, havia 2,696 milhões de jovens (com menos de 25 anos) desempregados na UE, dos quais 2,226 milhões na Zona Euro, fixando-se a taxa de desemprego nesta faixa etária, para a UE e Zona Euro, nos 13,9%, revelam dados do Eurostat. Ou seja, Portugal apresentava uma taxa 4.7 p.p acima da Europa.

E o mesmo indiciam os dados da precariedade. Em pouco mais de uma década, a percentagem de pessoas com ensino superior com contratos a termo reduziu-se de 40%, em 2010, para 29% em 2022, mas apesar desta evolução, ainda são valores distantes dos 17% da média da União Europeia, como aponta o estudo “Retrato do Emprego Jovem em Portugal”, de Paulo Marques, professor do ISCTE-IUL.


E nos salários, outro dos temas que se pretende introduzir melhorias com este Pacto, o retrato não é animador, com a diferença salarial entre os jovens com ensino superior a atingir mínimos históricos no ano passado. “Neste momento, a diferença salarial média entre um jovem com ensino secundário e um com ensino superior é 27%, quando em 2011 estava em cerca de 50%. Há uma queda muito significativa desta diferença salarial, que não seria tão expectável se tivesse sido por uma subida dos salários dos jovens com ensino secundário. Mas, efetivamente não foi”, refere o presidente da FJN.

Os dados conhecidos em junho do Estado da Nação, estudo levado a cabo pela FJN, dão disso conta. Se no ano passado, o salário médio dos trabalhadores com ensino secundário estava, em termos reais, praticamente ao mesmo nível do de 2011, no caso dos trabalhadores com o ensino superior o salário era 13% mais baixo. E só em 2022 caiu 6%.


Um status quo que, num momento onde há escassez de talento em setores essenciais da economia e a competição pelo talento é global, não se afigura de fácil resolução.

“O problema é complexo senão já estaria resolvido. Seguramente, programas como o Avançar podem dar aqui uma ajuda, como outros que já existem“, reage Carlos Oliveira, quando questionado sobre o impacto do programa do incentivo à contratação jovem que arrancou em julho.

O programa visa dar emprego a 25 mil jovens com contrato sem termo, com um salário superior a 1.330 euros, sendo ainda pago, durante um ano, pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) uma bolsa de 180 euros diretamente ao jovem. As empresas que contratem jovens nestas condições podem receber um financiamento de entre 8,6 mil euros e 12,4 mil euros, acrescidos de descontos às contribuições.

De resto, “incentivos fiscais e benefícios para jovens trabalhadores” é uma das recomendações das empresas signatárias para atrair e reter os jovens. Melhoria dos horários e espaços de trabalho; reforço do ensino profissional; parcerias com instituições de ensino e entre centros de formação, universidades e empresas são outras das propostas.



11.7.23

"É mau e não chega". Ministra do Trabalho lamenta baixos salários de jovens

Sandra Afonso, in RR


Ana Mendes Godinho entende que é "evidente" que é necessário subir o salário mínimo nacional e que é necessário valorizar o papel dos jovens no mercado de trabalho.

A ministra do Trabalho e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, reconheceu esta segunda-feira que os aumentos salariais dos jovens estão “muito aquém”.

Na assinatura do alargamento do Pacto para Mais e Melhores Empregos até 2026, que conta agora com 101 empresas, a governante deu o exemplo do aumento do salário médio de jovens, que apesar de ter subido 44% - acima do crescimento do salário médio nacional, por exemplo -, pouco ultrapassa os mil euros.

“Já ultrapassámos a discussão do salário mínimo porque é evidente para nós que temos que subir o salário mínimo. Mas também é evidente que temos de valorizar o papel dos jovens no mercado de trabalho”, disse, indicando que o salário dos jovens “é mau e não chega”.


Para Ana Mendes Godinho, o talento é “o bem e o recurso mais disputado do mundo”.

Na iniciativa da Fundação José Neves, com o alto patrocínio do Presidente da República, que também voltou a pedir melhores salários, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que todos ganham com mais jovens empregados e com melhores posições.

10.7.23

“Mais e melhores empregos para jovens" prometem 101 empresas

Sandra Afonso, in RR

A iniciativa da Fundação José Neves arrancou em janeiro, com 50 empresas aderentes. Seis meses depois duplicaram os participantes e melhoraram os objetivos do “Pacto Mais e Melhores Empregos para os Jovens”.


O pacto para melhorar o emprego jovem nos próximos três anos fica fechado esta segunda-feira, com 101 empresas aderentes. Entre as 51 que aderem agora, a novidade é a entrada de pequenos negócios, explica à Renascença Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José Neves (FJN).

Da banca às comunicações, passando pela energia, saúde e serviços, estão presentes vários setores. No total, representam cerca de 76.000 milhões de euros de volume de negócios e 260 mil trabalhadores, dos quais mais de 46 mil são jovens até aos 29 anos.

Este pacto (http://joseneves.org/pacto) tinha sido lançado a 19 de janeiro, com 50 empresas. Seis meses depois mais do que duplicou o número de aderentes, para 101, o que mexe também com o impacto esperado para 2026, que foi atualizado:


Aumento de 14% dos jovens contratados pelas empresas;Aumento de 7% dos jovens que permaneceram nas empresas dois anos consecutivos;Aumento de 10% dos jovens com contrato sem termo;Aumento de 7% dos jovens com ensino superior com salários acima dos 1.320 euros;Aumento de 3% dos jovens com ensino superior a trabalharem em funções adequadas ao seu nível de escolaridade.

Até 2026, os compromissos de progresso de cada empresa podem variar entre os três e os 12 pontos percentuais, nos vários indicadores.
Incentivos fiscais e melhores horários

Para atingir estes objetivos, os empresários apontam várias medidas, num inquérito da Fundação José Neves aos aderentes, divididas em quatro eixos.

No primeiro, que visa atrair e reter os jovens, as empresas sublinham a necessidade de incentivos ficais para os jovens trabalhadores e para as empresas que os contratam, horários mais flexíveis e espaços de trabalho mais informais, reforçar e valorizar o ensino profissional e mais coordenação entre ensino e empresas.

No segundo eixo, para garantir emprego de qualidade, destacam a importância da progressão e da melhoria das condições de trabalho, com salários dignos e níveis remuneratórios mínimos.

O terceiro eixo dedica-se ao desenvolvimento e formação. Defende a proximidade entre a educação e as empresas, com menos burocracia e mais formação ao longo da vida.

O último eixo quer dar voz aos jovens. As empresas querem que os jovens trabalhadores sejam mais participativos e envolvidos, deve ser incentivada uma cultura de comunicação e partilha de ideias.
Estágios devem ter remuneração mínima

Não há referência específica a valores dos estágios remunerados, uma questão que tem sido discutida no âmbito do trabalho precário, mas Carlos Oliveira diz à Renascença que este primeiro contacto com o mundo laboral “é fundamental”.

Segundo o presidente executivo da FJN, “faz todo o sentido que qualquer tipo de estágio, mesmo que curricular, tenha algum tipo de remuneração”. Admite ainda que “um valor mínimo deve existir”, mas “poderá depender muito dos setores de atividade e das funções que desempenhadas”.

O Governo aumentou a remuneração dos estágios na Agenda do Trabalho Digno, aprovada em março, e reforçou o aumento dos estágios profissionais, através da alteração dos estatutos das ordens, uma medida que está a ser contestada.

Para além do Alto Patrocínio do Presidente da República, da Fundação José Neves e da Secretaria de Estado do Trabalho, associam-se também ao Pacto a Associação Business Roundtable Portugal, o Conselho Nacional de Juventude (CNJ), o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), e o Observatório do Emprego Jovem (OEJ), que é responsável pela monitorização do Pacto.

3.7.23

​Portugal tem de “correr” para garantir salários competitivos para os jovens

Cristina Nascimento, in RR 


Ministra do Trabalho assegura que a evolução salarial tem sido positiva, mas reconhece que tem de ser feito mais para que os jovens encontrem condições em Portugal. Objetivo é convergência dos salários com a média europeia até 2026.


A ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, reconhece que Portugal precisa de “correr” para garantir salários competitivos para os jovens.

No lançamento do programa “Avançar” esta segunda-feira, em declarações à Renascença, a ministra assegura que “os números recentes mostram que houve uma evolução positiva, nomeadamente o da valorização dos salários dos jovens em Portugal desde 2015, com aumento de cerca de 44%, mas não chega”.

A governante lembrou que o objetivo estabelecido no acordo de rendimentos é “convergir com a média europeia do peso dos salários no PIB até 2026”, acrescentado que estão a tentar “acelerar e colocar velocidade” neste que “é um objetivo crítico para o nosso país”.


“É preciso mesmo avançar, mas, mais do que avançar, é até correr”, admite.

Ana Mendes Godinho considera que é neste esforço que se insere o programa “Avançar”, um programa que prevê a atribuição, durante um ano, de uma bolsa de 150 euros a 25 mil jovens qualificados até aos 35 anos que sejam contratados sem termo com um salário mensal de pelo menos 1.330 euros.

O programa é também “um repto coletivo” lançado a todos, afirma a ministra.

No lançamento do programa "Avançar", que se realizou em Lisboa, marcaram presença vários parceiros sociais, bem como jovens trabalhadores que relataram que dificuldades e receios sentiram na integração no mercado laboral.

Foi feita também uma apresentação por parte do professor do ISCTE Paulo Marques sobre o "Retrato do Emprego Jovem em Portugal". Este especialista revelou que, em 2022, terão saído de Portugal entre 70 a 75 mil trabalhadores.

27.6.23

Saúde mental das raparigas de 15 anos foi a mais afectada pela covid-19

Patrícia Carvalho, in Público online

Raparigas dizem ter sentido mais impactos negativos na sua saúde mental e no bem-estar, durante a pandemia, do que os rapazes, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde.

As raparigas com 15 anos e uma condição sócio-económica mais desfavorável sofreram mais impactos negativos na sua saúde mental e bem-estar, causados pela pandemia, do que os rapazes da mesma idade ou os adolescentes mais novos. É este o principal resultado do mais recente estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Health Behavior in School-Aged Children (HBSC, que se traduz por Comportamento de Saúde em Crianças em Idade Escolar), que em Portugal foi coordenado pela psicóloga Tânia Gaspar. Por cá, ela quis perceber o que é que, afinal, faz as raparigas felizes.

Com base nas respostas de 22 países, o estudo HBSC, realizado de quatro em quatro anos, concluiu que, apesar de a maioria dos adolescentes não ter reportado impactos negativos relacionados com a covid-19 na sua saúde mental ou bem-estar, ainda existe uma percentagem entre 17% e 38% que o fez. E dentro desta percentagem “as raparigas reportam mais impactos negativos”, refere a OMS.

Tânia Gaspar quis perceber por que é que isto acontece, olhando para o caso português, e contou com a ajuda das respostas a um questionário online de alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos de 40 agrupamentos escolares, correspondendo, no geral, a jovens de 11, 13 e 15 anos. “Estamos sempre a falar nas questões de igualdade de género noutras questões que são fundamentais, mas neste campo, a diferença entre géneros é gritante. As raparigas têm uma forma de perceber e sentir as coisas que afecta mais a sua saúde mental”, afirma a psicóloga.

Em Portugal, a conclusão do estudo da HBSC, que já apontava para mais problemas nas raparigas, também se verifica, e a razão parece estar relacionada com o facto de estas serem afectadas por um conjunto mais vasto de factores quando está em causa a felicidade ou a falta dela.

“Procuramos responder à pergunta: Quem são as raparigas felizes? Que competências têm? Percebemos que é um factor muito complexo. O que influencia a felicidade dos rapazes são menos coisas. Se estiverem bem com a família, tiverem alguns recursos financeiros e gostarem do seu corpo, estão bem. Nas raparigas há muitos mais factores a influenciar, questões da gestão de stress, o facto de a mãe delas ter trabalho, por exemplo”.

E por que é que isto acontece? “Elas sentem muitas vezes que a vida lhes traz desafios a que não estão a conseguir responder. Os rapazes podem sentir o mesmo, mas não se apercebem tanto e agem na mesma. Elas bloqueiam. São características que têm que ver com as expectativas sociais. Espera-se que elas sejam mais bem comportadas, que tenham letra bonita, cadernos arranjadinhos”, diz Tânia Gaspar.

De forma esquemática, o trabalho desenvolvido pela psicóloga conclui que os adolescentes "infelizes" são influenciados por uma baixa qualidade de vida ou uma percepção negativa do corpo, e nos rapazes pesa também o facto de o pai não ter emprego ou se existir uma má relação com a família. Já no caso exclusivo das raparigas, aos factores comuns a ambos os sexos juntam-se não só a dificuldade na gestão de stress ou o facto de a mãe não ter emprego, mas também uma baixa condição sócio-económica, uma fraca literacia em saúde, a insatisfação com a vida, uma má relação com os professores ou dificuldades de comunicação com o pai.

A situação melhora no caso das raparigas mais novas, a quem factores como gostarem da escola ou não sofrerem de bullying contribui para que sejam felizes.

“No caso das raparigas estamos perante uma situação mais complexa e onde é mais difícil de intervir. São muitos factores e a intervenção é mais complexa”, refere a psicóloga. Mas há respostas possíveis e Tânia Gaspar avança algumas.
Três níveis de resposta

Uma das questões que também ressalta do estudo da OMS é que o apoio da família (com grande destaque), dos professores, dos colegas e dos amigos foi essencial para ultrapassar o impacto negativo causado pela pandemia. “Se a família e a escola foram factores protectores e capazes de mitigar o impacto da pandemia - e os efeitos que ela causou não desapareceram -, então temos de continuar a desenvolver trabalho nesse campo, até para preparar os adolescentes para o futuro”, defende a psicóloga.

A responsável pelo HBSC em Portugal considera que é urgente investir em respostas para todos os adolescentes, mas com preponderância nas raparigas e, em concreto, naquelas que têm mais factores de risco associados, como uma baixa situação socio-económica ou mais problemas psicológicos.

A actuação deve, por isso, ser feita a três níveis: universal, destinada a todos e que pode passar, por exemplo, por um dia aberto em cada trimestre que envolva a escola, os estudantes e as famílias, para que de modo informal se possam discutir diversas questões, como a saúde mental; uma intervenção mais selectiva, para grupos de maior risco, com a realização de programas estruturados sócio-emocionais, capazes de lhes dar competências para lidar com o stress e outros factores de risco; e uma intervenção mais individual, prestada por um psicólogo e dirigida a toda a comunidade escolar e às famílias visadas. “Tem de ser um trabalho conjunto e precisamos cada vez mais de trabalhar de forma preventiva. Todos nós podemos descompensar com uma perturbação psicológica e quantos mais recursos tivermos, melhor respondemos aos desafios”, defende.

No que está directamente relacionado com a escola, cerca de metade dos adolescentes inquiridos no HBSC disseram sentir alguma pressão durante a pandemia e cerca de um quarto (sobretudo raparigas e adolescentes mais velhos) afirmam que esta teve um impacto negativo no seu desempenho académico. A percentagem de adolescentes que disse ter gostado muito da escola durante o período pandémico foi de apenas 20%.

Na resposta ao inquérito de Tânia Gaspar, entre as raparigas descritas como "felizes", 80% diz gostar da escola, contra cerca de 54% das “infelizes”. Estas descrevem ainda uma maior pressão (83% diz mesmo sentir muita pressão) e reportam mais casos de bullying: mais de 27% das inquiridas que foram colocadas do lado das “infelizes” diz ter sido vítima deste tipo de violência, uma percentagem que desce para menos de 14% no caso das adolescentes “felizes”.

Tânia Gaspar alerta ainda para os riscos associados aos problemas psicológicos e de falta de bem-estar nos adolescentes. “Se não respondem às expectativas sociais da menina bem comportada, as raparigas podem ter comportamentos opostos, de rebeldia extrema. Alguns comportamentos de risco estão a agravar-se para as raparigas. Esbateu-se a diferença de género no consumo de tabaco e álcool, e ela ainda existe nas drogas, mas qualquer dia muda. E já são elas que tomam mais medicamentos com um efeito ligado à droga, para se acalmarem ou para regular as emoções”, diz a psicóloga.

Olhando para os resultados do inquérito que dirigiu por cá, são mais as raparigas “infelizes” que fumam (quase 17%, contra 6,5% das “felizes”), que consomem álcool (47,4%, percentagem que desce para 28,4% nas “felizes”) e que se embriagam: 17% das “infelizes” dizem já o ter feito, mais do dobro (7,4%) das “felizes”. No caso das que tomam medicamentos como droga, a percentagem é muito pequena em ambos os casos, mas ainda assim maior (3,4%) nas meninas classificadas como “infelizes” do que nas “felizes” (1%).

23.6.23

Catarina terminou o estágio e recusou um emprego. Ainda não estava na hora: viajou pela Europa e focou-se em terminar o mestrado

Cátia Barros, in Expresso

Os jovens têm de aceitar um emprego porque essa será a única oportunidade que vão ter? Catarina Almeida viveu esse dilema no fim do seu estágio curricular e não deixou de lado o medo de “ser ingrata ou arrogante por não aceitar uma proposta de trabalho”, mas optou por recusar e se dedicar com foco aos últimos meses enquanto estudante

Catarina Almeida passou os últimos anos, enquanto estudante de psicologia, a ouvir que “é muito difícil arranjar trabalho na área”. Ainda assim, depois de um estágio “numa grande empresa nacional”, recusou aceitar uma proposta de trabalho que lhe foi feita para ali “realizar funções relativamente diferentes”.

“Não aceitei porque senti que não era a minha hora”, explica a estudante de 22 anos, que optou antes por conciliar a escrita de uma dissertação de mestrado e de um relatório de estágio, a participação em ações de voluntariado, a criação de conteúdo para as redes sociais e ainda tirar um curso de Inglês. Aquando da proposta, recusou, pegou nas malas e aventurou-se durante duas semanas num interrail.

MEDO DO DESEMPREGO LEVA JOVENS A QUEREREM “DESTACAR-SE DESDE O PRIMEIRO ANO”

Catarina Almeida entrou na universidade no ano letivo de 2018/19 e desde então que cresceu a ouvir que não ia ter emprego. “Sempre que digo a alguém que sou estudante de psicologia as pessoas respondem, com uma cara preocupada, que é muito difícil arranjar trabalho na área e que muitas pessoas acabam no desemprego ou a realizar funções em setores diferentes”, conta.

Esta “pressão gigantesca”, que diz ter sentido ao longo do seu curso, levou-a a tentar destacar-se. “Comecei a internalizar o discurso e senti uma pressão gigantesca para me destacar no mercado de trabalho desde o meu primeiro ano de curso”. Para tal, envolveu-se em diversas atividades extra curso, tendo chegado a estar, durante a pandemia, em cinco projetos diferentes. Admite que em alguns momentos foi difícil participar em todos. “Conciliar todas as minhas responsabilidades extracurriculares quase me levou a um estado de exaustão psicológica, porque os meus minutos do dia eram meticulosamente calculados”

Contudo, Catarina acredita não ser caso único. “Não deixa de ser curioso refletir sobre esta necessidade de me envolver em várias atividades fora do curso até porque já pude perceber um padrão semelhante noutros estudantes”, conta.

Entre a ambição de ser a “aluna perfeita” e sentir que a “cabeça não funcionava”: Lia teve um esgotamento aos 16 anos

Enquanto aluna do Mestrado em Psicologia das Organizações, Social e do Trabalho, Catarina Almeida teve a oportunidade de estagiar numa “grande empresa nacional” e que “é reconhecida em todo o país como uma escola”. Ao fim de seis meses, recebeu uma proposta para ficar na empresa, mas recusou. “Comecei a ponderar os prós e contras, de uma forma muito racional. Sei que sou privilegiada e não preciso trabalhar para ajudar os meus pais a pagar as contas, portanto pude considerar a opção de não aceitar a proposta”, explica Catarina.

Ao longo dos seis meses de estágio, Catarina continuou a escrever a sua dissertação de mestrado – jornada que ia partilhando nas redes sociais com outros estudantes. No entanto, a aluna admite que “os avanços na tese não foram significativos porque era extremamente difícil chegar a casa depois de oito horas de trabalho e pegar na tese”.

“Não me foi possível gerir o desenvolvimento da tese, realização do estágio e dinamização das redes sociais sem sentir, em diversos momentos, que estava a falhar, não em uma, mas em todas as áreas”.

Catarina admite que esta “primeira experiência” no mercado de trabalho “foi bastante desafiante”, por isso, sentiu que “precisava de recuperar energias depois dos seis meses intensivos”, para depois se dedicar novamente à dissertação. “Decidi fazer uma pausa e fazer um interrail porque acredito genuinamente que, por vezes, precisamos de parar para conseguirmos recarregar as energias e avançarmos novamente”, conta.

Catarina Almeida durante a sua viagem pela Europa

Esta não é, no entanto, a única opção para quem quer fazer uma pausa. Raquel Novais, da Associação Gap Year Portugal, realça que os jovens podem realizar “experiências fora da caixa”, isto é, “experiências que coloquem os indivíduos fora da sua zona de conforto e em situações que, dificilmente, estes poderiam vivenciar no seu dia a dia e, consequentemente, contribuem em grande escala, para o seu crescimento e desenvolvimento pessoal”. Entre essas experiências, Raquel destaca as viagens, os programas de estágio, a experiência e trabalho de voluntariado, a experiência de trabalho, a Integração em projetos de Erasmus+ e a aprendizagem ou melhoraria uma capacidade.

Catarina quase consegue fazer check na lista completa. A viagem pela Europa deixou-a “mais empoderada” e com mais “confiança”. “Passei duas semanas a conhecer várias cidades que já tinha interesse na Europa e como planeei e fiz a minha viagem praticamente sozinha percebi que era capaz de muito mais do que aquilo que imaginava”, refere.

Raquel explica que “estas experiências podem integrar o gap year, mas podem ser igualmente realizadas isoladamente e integradas no dia a dia destes indivíduos/as como trabalhadores e/ou estudantes”.

TRABALHO

Portugal: o país onde uma licenciatura vale cada vez menos, falta talento qualificado e a classe que o forma é a mais envelhecida da Europa


“SENTIA QUE ESTAVA A DESILUDIR ALGUMAS PESSOAS”

Apesar de tudo, Catarina não teve uma decisão fácil. “Alguns familiares fizeram questão de me dizer que estava a perder uma excelente oportunidade”, conta. “Sentia que estava a desiludir algumas pessoas importantes para mim, ao mesmo tempo que sentia que estava a ser ingrata ou arrogante por não aceitar uma proposta de trabalho num contexto instável como é aquele em que nos encontramos quando estamos perto de terminar o curso”.

Mas as redes sociais podem ser um fator importante para que um like se transforme na ‘síndrome do impostor’. “É muito fácil sentirmos que estamos a ficar para trás. Estamos expostos a variadíssimos relatos de pessoas com percursos profissionais de sucesso e acabamos por nos comparar com realidades que desconhecemos quase na sua totalidade”, diz a aluna, falando de uma comparação que “acontece à escala mundial”.

“Fala-se muito das questões associadas à beleza nas redes sociais, o quanto as fotos são manipuladas para se enquadrarem no padrão e quantos aspetos são omitidos para relatar a vida perfeita. Mas não acontece exatamente o mesmo no que diz respeito aos percursos profissionais e modos de vida?”, questiona Catarina. “Não podemos comparar-nos com a ponta do iceberg – o que a pessoa mostra nas redes sociais – e ignorar tudo o que não é partilhado”, acrescenta.

“Os 1001 casos de sucesso são simples fontes de angústia”: cinco histórias de jovens que procuraram outro equilíbrio entre vida e trabalho

A estudante considera que a sua geração, por consequência das redes sociais, ambiciona, “na sua grande maioria, um trabalho nómada e uma liberdade financeira numa idade ridiculamente prematura”.

“Eu tenho mais de 40 anos de trabalho à minha frente, como estudante só tenho mais uns meses. Será que recusar uma proposta de trabalho depois do estágio curricular vai ter um impacto assim tão negativo no meu percurso quando olhamos para a quantidade de anos que ainda tenho pela frente? Quando somos jovens temos a tendência de achar que tudo aquilo que decidimos neste exato momento vai impactar toda a nossa vida”. Mas Catarina, em resposta a si mesma, assegura que há mais que uma oportunidade na vida. “Como se fosse impossível escolher trocar de profissão a meio da vida”.

16.6.23

A debandada dos jovens licenciados

Carmo Afonso, opinião, in Público

Como pode o Estado intervir? Por exemplo, aumentando os salários na função pública para licenciados, mestres e doutores. Seria o estímulo necessário para o aumento dos salários no privado.

Segundo o relatório Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal, publicado pela Fundação José Neves (FJN) e agora divulgado, a diferença entre o salário correspondente a um diploma do ensino superior e o salário correspondente à finalização do ensino secundário caiu para metade entre 2011 e 2022. Existiu uma desvalorização salarial para os jovens que têm uma licenciatura.


Isto significa, como consta no relatório, que “os jovens adultos com ensino superior continuam a marcar passo”, ou seja, na prática, quem tiver essa oportunidade acabará por optar por ir trabalhar para outros países onde oferecem melhores condições remuneratórias. Há aqui um convite à emigração, como referiu Carlos Oliveira, presidente da FJN.


É muito triste, e muito grave, que assim seja e temos a obrigação, diria mesmo a necessidade, de pensar um pouco sobre isto. Que país teremos daqui a dez anos, se os mais qualificados e mais preparados emigrarem? Ninguém quer responder ou conceber a resposta a esta pergunta, mas ela coloca-se neste preciso momento.

Em primeiro lugar, importa fazer a despistagem da formulação liberal deste problema que aponta sempre para o excesso de carga fiscal que, supostamente, afasta os jovens cérebros. Nunca vi ninguém emigrar por causa do excesso de tributação: se os salários fossem aproximados, não seria o pagamento de impostos que justificaria, e compensaria, ir viver para outro país. Quem paga impostos gostaria de pagar menos. É compreensível. É certo que jovens qualificados tenderão a obter rendimentos correspondentes a um escalão de IRS em que pagarão imposto. Mas nunca seria por aí que os jovens se sentiriam aliciados a ficar. Trata-se de uma ilusão que não ajudará a resolver este problema concreto.


O que nós temos é um problema de salários baixos comparativamente com outros países da União Europeia. O mercado paga mal. Os jovens licenciados não têm a obrigação de se conformar com isso. São livres e têm direito a ser ambiciosos e a procurar as melhores condições de vida possíveis. É o que estão a fazer.

Atenção que o mercado funciona sempre bem para si mesmo. Quando dizemos que temos um problema na Habitação, estamos a dizer que existe um problema para as pessoas – as que vivem dos rendimentos do seu trabalho em Portugal e que querem comprar ou arrendar casa. O mercado imobiliário continua a funcionar maravilhosamente. As agências e os investidores estão ao rubro.

Aqui também é assim. O mercado do trabalho não dá respostas às justas ambições dos jovens licenciados. Mas são estes e as suas famílias que têm um problema para resolver. O mercado prossegue lindamente a pagar salários baixos e a expulsar licenciados do país. O seu interesse é remunerar pouco e lucrar muito. Temos poucos empresários que se destaquem desta lógica obsoleta. Vemos muitos queixarem-se da falta de mão de obra, sobretudo da não qualificada, mas poucos a reconhecer que existe uma relação entre essa escassez e os salários miseráveis que têm para oferecer.

Terão de ser o Estado e as políticas públicas a ter um papel nesta crise. As universidades, e o sistema de ensino e formação, têm feito um esforço para se adaptarem ao mercado. Cada vez mais as licenciaturas, mestrados e doutoramentos têm uma vertente prática ou técnica orientada para as necessidades das empresas e, lá está, do mercado. Esta é uma “reivindicação” liberal. Isto significa que as universidades enquanto centros de conhecimento e laboratórios de pensamento crítico estão a perder valências. O Estado tem responsabilidade nisto. Não são as universidades que precisam de se adaptar ao mercado. Se as coisas não estão bem, é ao nível do próprio mercado.

Como pode o Estado intervir? Por exemplo, aumentando os salários na função pública para licenciados, mestrados e doutorados. Esse aumento seria o estímulo necessário para o aumento dos salários no privado. Não existe melhor remédio para travar o fluxo de emigração do que aumentar os rendimentos que estes jovens podem obter com o seu trabalho.

O mercado funciona sempre muito bem, mas nunca consegue resolver os problemas das pessoas


Já seria positivo que conseguíssemos pensar nisto sem as habituais cortinas de fumo e sem apontar armas aos alvos errados. O mercado funciona sempre muito bem, mas nunca consegue resolver os problemas das pessoas. Neste momento está até a criar um novo e grande problema: é que ninguém fica contente a ver partir os que podem fazer, deste país, um país melhor.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


[Artigo exclusivo para assinantes]

12.6.23

Por que razão sofrem os jovens? "Vejo a minha geração mais triste do que as anteriores. Estamos agarrados às redes sociais, sozinhos"

Joana Pereira Bastos Jornalista, João Martins, in Expresso


Nos últimos anos, os sinais de sofrimento psicológico dos jovens agravaram-se significativamente. A procura dos serviços de pedopsiquiatria disparou, os comportamentos autolesivos e as tentativas de suicídio estão a aumentar e são cada vez mais os adolescentes medicados com ansiolíticos e antidepressivos. Oiça aqui o novo episódio do podcast do Expresso “Que Voz é Esta?”, desta vez dedicado à saúde mental dos adolescentes, com as explicações do pedopsiquiatra Augusto Carreira e o testemunho de Beatriz Oliveira, uma jovem de 17 anos, aluna do 11.º ano numa escola em Lisboa

s números impressionam. Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde, divulgado no ano passado, 28% dos adolescentes portugueses sentem-se infelizes e 9% dizem-se “tão tristes que não aguentam mais”. É verdade que a adolescência sempre foi uma fase da vida associada a algum mal-estar psicológico, mas vários indicadores, como o aumento do consumo de psicofármacos ou o crescimento das tentativas de suicídio, mostram que o sofrimento parece estar a agravar-se.
“Vejo a minha geração mais triste do que as gerações anteriores”, admite Beatriz Oliveira, de 17 anos, apontando que muitos jovens estão hoje “agarrados a jogos ou a redes sociais, mais fechados sobre aquilo que sentem” e com dificuldade em criar relações.
No quinto episódio do podcast “Que Voz é Esta?”, dedicado à saúde mental dos adolescentes, o pedopsiquiatra Augusto Carreira, antigo diretor do serviço de psiquiatria da infância e da adolescência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, explicou alguns dos fatores que podem estar a provocar um agravamento do mal-estar psicológico dos mais jovens, como as profundas alterações sociais e familiares que têm vindo a acontecer nos últimos anos, de forma acelerada.

“O modelo de socialização dos jovens hoje em dia é diferente. É um modelo em que as pessoas, parecendo que estão acompanhadas, estão na verdade numa grande solidão”, explica, considerando que “este isolamento motivado pelas tecnologias” é um dos fatores que ajudam a explicar o agravamento dos sinais de sofrimento entre os adolescentes.
Para o pedopsiquiatra, os videojogos e as redes sociais aumentaram “a solidão emocional” dos adolescentes, promovendo relações muito superficiais, que dificultam o estabelecimento de laços mais íntimos e a partilha de sentimentos profundos, desde logo do próprio sofrimento.

Beatriz Oliveira descreve as redes sociais como “um abismo em que as pessoas caem e de que é difícil sair”. Mesmo tendo consciência de que estão “agarrados” a elas, muitos jovens não conseguem desligar. “Um like dá-nos uma validação que nós procuramos porque muitas vezes não temos essa validação na nossa vida diária”, diz a aluna do 11º numa escola de Lisboa.
A dependência dos videojogos, “que têm vindo a refinar os mecanismos de provocar adição”, está a ter igualmente “efeitos gravíssimos” na saúde mental dos mais novos, frisa Augusto Carreira. “Há jovens que não saem do quarto, só jogam. E uma das coisas que se percebe é que a sua capacidade de empatia está praticamente reduzida a zero”, afirma.

“As redes sociais foram feitas para nos prender a elas de uma forma que não é saudável e nós temos noção disso, mas mesmo assim continuamos (…) Acabam por ser um abismo em que as pessoas caem e de que é difícil sair. Um like dá-nos uma validação que nós procuramos porque muitas das vezes não temos essa validação na nossa vida diária."

A gestão do tempo de ecrã transformou-se mesmo num dos principais focos de conflito dentro das famílias, diz Augusto Carreira, frisando que a comunicação entre pais e filhos é mais importante do que nunca.

Neste episódio dedicado à saúde mental dos adolescentes, o pedopsiquiatra falou igualmente dos jovens que se ferem intencionalmente, auto-infligindo cortes ou queimaduras na pele como tentativa de alivar o sofrimento psicológico através da dor física. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde, quase 24,8% dos adolescentes portugueses já se feriu de propósito pelo menos uma vez e o número aumentou 5,2% entre 2018 e 2022.

“Hoje em dia, os jovens não têm capacidade de expressar as suas emoções e essa é a questão central dos comportamentos autolesivos”, explica, sublinhando que é urgente criar estratégias de prevenção, desde logo nas escolas. “É preciso que haja nas escolas quem seja capaz de identificar os jovens que estão a precisar de ajuda”.

Que voz é esta?” é um novo podcast do Expresso dedicado à saúde mental. Todas as semanas, as jornalistas Joana Pereira Bastos e Helena Bento vão dar voz a quem vive com ansiedade, depressão, fobia ou outros problemas de saúde mental, e ouvir os mais reputados especialistas nestas áreas. Sem estigma nem rodeios, vão falar de doenças e sintomas, tratamentos e terapias, mas também de prevenção e das melhores estratégias para promover o bem-estar psicológico. O podcast conta com o apoio científico de José Miguel Caldas de Almeida, psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental.

Que voz é esta?” é um novo podcast do Expresso dedicado à saúde mental. Todas as semanas, as jornalistas Joana Pereira Bastos e Helena Bento vão dar voz a quem vive com ansiedade, depressão, fobia ou outros problemas de saúde mental, e ouvir os mais reputados especialistas nestas áreas. Sem estigma nem rodeios, vão falar de doenças e sintomas, tratamentos e terapias, mas também de prevenção e das melhores estratégias para promover o bem-estar psicológico. O podcast conta com o apoio científico de José Miguel Caldas de Almeida, psiquiatra e ex-coordenador nacional para a saúde mental.