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29.9.23

O peso dos telemóveis

Miguel Esteves Cardoso, opinião, in Público

Qual é a percentagem dos dados guardados na cloud que as pessoas prezam? Cinco por cento? O resto é lixo, lixo que sai caríssimo.

Estou a aprender a guardar-me para as crónicas. Já é um luxo desperdiçar as minhas indignações. Mais vale morder a língua, e depois vir para aqui escrever aquilo que teria dito, caso achasse que alguém me quisesse ouvir.

Para mim era novidade servir de exemplo de dissolução para benefício das gerações mais jovens: um pai que poderia ser meu filho, a usar-me para mostrar ao filho dele aquilo que nunca se deve ser.


Segurando o telemóvel disse: “O pai tem tudo aqui. Já este amigo do pai tem a casa cheia de livros, papeladas e aparelhos de toda a espécie... porque era assim que se fazia antigamente. Não havia noção de desperdício ou do planeta.”


Isto é o que eu diria à criança: “Para o teu papá andar com tudo no telemóvel, é preciso haver grandes armazéns-frigoríficos, sempre a gastar electricidade, onde se guardam todas as coisas que ninguém tem paciência para deitar fora.”


A “cloud” é a palavra mais mentirosa que já existiu. A nuvem são estádios de futebol cheios de aparelhos a gerar tanto calor que têm de ser intensamente refrigerados. Chamam “servidores” a estes aparelhos, que não são mais do que gigantescos discos externos.


Qual é a percentagem destes dados que as próprias pessoas prezam? Cinco por cento? O resto é lixo, lixo que sai caríssimo, porque tem de ser electricamente mantido com o mesmo cuidado com que se guardam as obras-primas da humanidade.

Na verdade, o que se guarda é a nossa preguiça de guardar tudo só porque não temos pachorra de seleccionar o que vale a pena guardar. Guardamos porque achamos que não nos custa nada.Mas custa – e muito. Nós é que não sabemos. Para mim, por exemplo, foi um choque saber que a famosa cloud Apple são vastos territórios de aparelhos que pertencem à Amazon e à Google.

O “digital” é outra palavra mentirosa.

Quando acaba a bateria do telemóvel, onde é que ela vai buscar energia para mais um dia de mãos leves, segurando a pontinha de um iceberg de refrigeração, incúria e desperdício?

O autor é colunista do PÚBLICO

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

28.9.23

O que vem primeiro – os lucros da indústria tóxica ou a saúde?

Vicky Cann, opinião, in Público

A prometida reforma da regulamentação dos produtos químicos na UE está a ser posta em causa pelo lobbying, numa altura em que Olaf Scholz cede às reclamações implacáveis da indústria química.


"Acabem com a desindustrialização!" é a mais recente hipérbole do lobbying da VCI (Verband der Chemischen Industrie, a associação alemã da indústria química) para se opor à nova regulamentação. A VCI é um dos principais grupos de pressão a nível alemão e europeu, e uma das suas tácticas consiste em desviar a atenção dos vastos e dispendiosos impactos dos produtos químicos tóxicos na nossa saúde e no ambiente e, em vez disso, criar alarmismo sobre a perda de "competitividade". A VCI tem na mira a legislação REACH – a mais importante da UE em matéria de produtos químicos – e exige às instituições europeias que "evitem tornar a legislação mais rigorosa". As suas exigências incluem também "travar a maré de nova regulamentação" e "evitar proibições generalizadas" de produtos químicos tóxicos.

O lado errado da história

Já aqui estivemos antes. Há vinte anos, o lobby da indústria CEFIC (Conselho Europeu da Indústria Química) utilizou exactamente a mesma retórica – denunciada na altura pelo Corporate Europe Observatory – quando se opôs à introdução das regras REACH originais e ameaçou que estas iriam "desindustrializar a Europa" e provocar a perda de dois milhões de postos de trabalho. De facto, desde 2002, as exportações de produtos químicos da UE têm crescido a uma média de 6,7% por ano.


Mas o REACH já não é adequado ao seu propósito. O Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal) prometeu actuar em prol de um ambiente livre de substâncias tóxicas e a Comissão Europeia comprometeu-se a rever o REACH, uma vez que as regras actuais não estão a conseguir retirar as substâncias químicas tóxicas do mercado ao ritmo necessário para resolver a crise da poluição.


E é urgente. Os cidadãos europeus estão expostos a "níveis alarmantemente elevados de substâncias químicas", estando a poluição química associada ao cancro, à infertilidade, à obesidade e à asma, tendo também contribuído para o colapso das populações de insectos, aves e mamíferos.

No entanto, três anos depois, a Comissão não apresentou a sua proposta de revisão do REACH. Não só está atrasada, como também se espera que a sua ambição seja enfraquecida. Neste momento, o destino da revisão está em suspenso.

Reenquadrar a regulamentação ambiental como um "fardo" é uma táctica comum mas enganadora do lobby dos tóxicos, quando o verdadeiro fardo são os enormes impactos na saúde humana associados ao fabrico, venda e utilização de substâncias tóxicas

Como é possível que uma política progressista destinada a resolver graves problemas de saúde e ambientais, juntamente com um grande número de outras peças-chave da agenda do Pacto Ecológico sobre pesticidas e biodiversidade, tenha ficado tão vulnerável à pressão da indústria?

Acesso privilegiado

A VCI, cujos membros incluem a BASF e a Bayer, tem sido uma das vozes mais fortes a pedir aos decisores políticos alemães e da UE que impeçam a adopção de novas regras comunitárias sobre produtos químicos. E a pressão será certamente exercida sobre o Chanceler Scholz ao receber a indústria, os sindicatos e os políticos na sua cimeira sobre produtos químicos, a 27 de Setembro.


Afinal, a VCI é o quinto maior grupo de pressão na Alemanha, declarando um orçamento anual de quase 9 milhões de euros para influenciar os políticos na Alemanha e 64 lobistas activos. A nível da UE, a VCI é a quarta maior associação comercial a fazer lobby em Bruxelas (o CEFIC é a maior). Para além disso, a Lobbypedia descreve a VCI como um dos "maiores doadores partidários" na Alemanha, com 5,7 milhões de euros em donativos a partidos políticos de todo o espectro entre 2000 e 2021.


Os políticos alemães têm-se destacado na oposição à revisão do REACH, um apelo que foi depois retomado pelo Partido Popular Europeu e ouvido ao mais alto nível. Na semana passada, a Presidente da Comissão, Von der Leyen, não mencionou a revisão do REACH no seu discurso sobre o estado da UE. Até o Comissário para o Ambiente, Sinkevičius, parece duvidar do seu destino, dizendo ao Parlamento Europeu, na semana passada, que espera que a proposta veja a luz do dia, "se houver ambição".
De quem é o fardo?

Um dos principais pontos da retórica da indústria é o facto de a regulamentação ser demasiado "pesada" para a sua capacidade de lidar com ela. E essa narrativa parece ter sido bem aceite pelos políticos de direita. Mas reenquadrar a regulamentação ambiental como um "fardo" é uma táctica comum mas enganadora do lobby dos tóxicos, quando o verdadeiro fardo são os enormes impactos na saúde humana associados ao fabrico, venda e utilização de substâncias tóxicas.

Alguns custos relacionados com a saúde a nível europeu devido à exposição aos PFAS, um grupo específico de produtos químicos também conhecidos como substâncias químicas “eternas", foram estimados em 52-84 mil milhões de euros por ano. Embora os custos de pagar a factura das enormes consequências para a saúde e o ambiente dos produtos químicos tóxicos não apareçam explicitamente no orçamento de ninguém, são demasiado reais.


Mas os produtos tóxicos são o núcleo do trabalho de alguns dos membros da VCI. A BASF e a Bayer estão entre os 12 maiores produtores mundiais de PFAS e são também "campeões" de vendas dos pesticidas mais tóxicos e controversos do mundo. Entre si, os dois gigantes industriais produzem 156 produtos químicos que, segundo a ChemSec, são "substâncias que suscitam grande preocupação" e que devem ser eliminadas progressivamente.

Hora da decisão

A Comissão de Von der Leyen está prestes a decidir se mantém a sua promessa de 2020 de apresentar uma proposta sólida de reforma do REACH, a fim de regulamentar melhor os produtos químicos tóxicos, ou se cede às exigências da indústria. Por isso, o momento da cimeira de Scholz sobre os produtos químicos é ainda mais preocupante.

Depois de ter recebido a indústria química, será que vai fazer pressão em seu favor, fazendo um apelo discreto ao Berlaymont, como sabemos que os anteriores chanceleres fizeram por outros interesses industriais alemães? Ou será que vai recordar à indústria que regras ambientais mais rigorosas não são apenas do interesse público, mas que, em última análise, podem conduzir a eficiências industriais e a uma transição para produtos sustentáveis?A política consiste em tomar decisões difíceis. No caso da regulamentação dos produtos químicos, isso significa fazer frente ao poder das grandes empresas de produtos tóxicos, para proteger a nossa saúde e a dos nossos solos e águas. Os cidadãos europeus esperam que Von der Leyen e Scholz aceitem esse desafio.

Investigadora na ONG Corporate Europe Observatory (CEO)

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

27.9.23

A luta contra a inacção climática: palavras ou ovos?

Andreia Sanches, opinião, in Público


Processos como o que hoje se discute no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos são uma vitória da cidadania activa ao seu melhor nível.

Seis jovens portugueses, que têm entre 11 e 24 anos, acusam 32 Estados de não estarem a agir para travar as alterações climáticas. Hoje, são ouvidos pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH). É um dia importante. Por várias razões.


O processo dos três irmãos Cláudia, Martim e Mariana Agostinho, bem como de outro par de irmãos, Sofia e André Oliveira, e ainda de Catarina Mota foi o primeiro “processo climático” do TEDH, que nunca antes tinha analisado alegadas violações de direitos humanos causadas por emissões de gases com efeito de estufa. Deu entrada em Setembro de 2020.


Não sabemos se os juízes concordarão que a Carta Europeia dos Direitos Humanos está a ser violada, como alegam estes jovens e outros, de outros países, responsáveis por outros processos semelhantes que, entretanto, foram chegando ao TEDH.


Mas processos como estes são já uma vitória da cidadania activa ao seu melhor nível. Mostram que os jovens, mesmo muito jovens, podem, devem, têm de exigir medidas que lhes permitam aspirar a ter um futuro respirável.

E que podem fazê-lo assim, com argumentos e debate e obrigando quem os governa a expor as contradições entre discurso e prática — contradições que explicam, em parte, porque vemos as alterações climáticas a mudarem dramaticamente a nossa vida, sem freio. Só alguns exemplos: a Grécia, que teve este Verão um inferno de chamas, alega, na sua resposta ao processo, que “os efeitos das alterações climáticas não parecem afectar directamente a vida e saúde” humanas. E o Reino Unido questiona que haja um “consenso” sobre limitar o aquecimento global a 1,5ºC, apesar do Acordo de Paris.

Este processo mostra também que numa democracia a palavra é uma arma poderosa. Este grupo de jovens, apoiado por uma associação sem fins lucrativos, não se tem poupado: tem dado entrevistas a media de todo o mundo (e, em 2022, Catarina foi directora por um dia no 32.º aniversário do PÚBLICO), expondo os seus argumentos. Nas suas escolas, nas suas comunidades, têm explicado isto: traçaram-se metas climáticas porque estamos, todos, em risco. Não estamos a cumpri-las. Têm passado a palavra.

Por fim, este processo mostra que precisamos de que muitas mais pessoas percebam que, de facto, no ponto em que estamos, “não há nada mais importante para a humanidade do que pôr fim à indústria dos combustíveis fósseis”, como aqui dizia há dias o cientista da NASA Peter Kalmus.


Mas, para fazer engrossar a fileira dos que estão dispostos, como estes jovens, a exigir acção e a penalizar quem se nega a agir, a palavra, o debate democrático, a informação são muito mais eficazes do que a violência do acto de atirar ovos com tinta verde a um ministro. Também por isso este processo é importante.

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25.9.23

Chegaram as clementinas

Miguel Esteves Cardoso, opinião, in Público


Até eu, que sou um fanático das tângeras e das tangerinas, gostei de comer um gomo de clementina.
Chegaram as clementinas

Domingo de manhã: estava tudo doido a comprar clementinas. Só quatro ou seis por pessoa, porque ninguém estava à espera de que estivessem boas, ainda o mês de Setembro não acabou.

Também compro, claro. Odeio clementinas, mas isso é irrelevante. As caixas com as primeiras clementinas vêm do MARL já carregadas com folhas verde-escuras, para enfeitar a morte das saudades.


Algumas clementinas ainda têm as folhas agarradas, mas todas têm o pé comprido: quem as apanhou teve o cuidado de cortar os pés o mais longe possível da fruta, para sabermos que foram acabadas de apanhar.


Estas pequenas celebrações não vêm nos livros nem nas agendas – ainda na semana passada foi a vez dos dióspiros –, mas são mais verdadeiras do que as oficiais, porque são verdadeiramente celebradas por toda a gente, pela calada, com os dedos todos ao mesmo tempo, a tentar separar a casca das costas dos gomos.

Até eu, que sou um fanático das tângeras e das tangerinas, e que vivo em permanente desgosto até ter ao colo um par de boas laranjas da Baía, gostei de comer um gomo de clementina: era seco e muito doce, com pouco sabor, mas tinha uma acidez temporã que nunca tinha encontrado nas irmãs.


Estive para não provar, para não me desencantar. Mas descasquei duas, só para me deliciar com o perfume das cascas. E deixei-me ir.


É para dar mais valor às tangerinas, quando aparecerem, se eu tiver a sorte de encontrar algumas.

Afinal, a cor do Outono é cor de laranja. A castanha também é castanha, mas a cor não se chama “castanha” nem “cor de castanha”: ora toma!


É laranja porque cresceu com o sol do Verão e a cor foi fixada pelos primeiros arrepios nocturnos. Com os Invernos cada vez mais quentes, as próprias laranjas são cada vez menos cor de laranja.


A fruta bonita e perfumada, como é o caso das clementinas – uma unha é perfeita para espoletar aquele cheirinho –, é mais decorativa, mais barata e mais duradoura do que muitas flores.

Sejam bem-aparecidas.

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22.9.23

O problema “mais sério” das famílias portuguesas

Sónia Sapage, opinião, in Público

É sempre difícil relativizar o grau das adversidades de cada um, mas se os empréstimos fossem a origem do mais sério dos problema, este teria sido o briefing mais importante do ano.

O ministro das Finanças anunciou nesta quinta-feira um novo conjunto de medidas para mitigar a subida excessiva dos juros nos empréstimos à habitação que se verifica há mais de um ano e que só agora, supostamente, terá chegado ao pico — ou ao planalto, já que se prevê um longo período com os valores neste nível.

Não sendo possível travar as políticas do BCE relativas às taxas directoras, o Governo revelou uma fórmula para reduzir o impacto dessas decisões no bolso das famílias portuguesas, cujas condições de vida são já atormentadas pela inflação geral da economia.


De acordo com o resumo do próprio Fernando Medina, no briefing após o Conselho de Ministros, essa mitigação será feita de três formas: reduzindo e estabilizando as prestações mensais, reforçando a bonificação temporária já prevista para alguns empréstimos e prolongando até 2024 a suspensão da comissão de reembolso antecipado do capital em dívida.


A oposição já fez saber o que pensa sobre o modelo acordado pelo Governo com a Associação Portuguesa de Bancos e com o Banco de Portugal: poucochinho, propagandístico, paliativo, mais lucro para a banca e, na mais benevolente das críticas, uma ajuda que já vem tarde.


Medina preferiu descrever as medidas como uma “resposta ao que é indiscutivelmente o problema mais sério que as famílias portuguesas enfrentam”.

Tem razão, o ministro, quando assume que a dificuldade em pagar os empréstimos é um problema sério, em especial num país de salários curtos, mas é preciso dizer que, neste capítulo, a mais séria das questões está a montante: os preços da habitação, que afectam tanto quem quer ter casa própria e pede dinheiro para a adquirir (de acordo com dados recentes do Banco de Portugal, no ano de 2022, havia 1,28 milhões de famílias com crédito à habitação), como quem procura um quarto ou um apartamento para arrendar (e há, neste momento, alguns milhares de estudantes e de professores à procura de um novo sítio para morar temporariamente).

É sempre difícil relativizar o grau das adversidades de cada um, mas se os empréstimos fossem a origem do mais sério dos problemas, este teria sido o briefing do Conselho de Ministros mais importante do ano. É pouco provável que isso tenha acontecido. E com as expectativas criadas pelas notícias sobre folgas e excedentes, é bom que o momento da apresentação do Orçamento do Estado para 2024 não tenha sido esvaziado.

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20.9.23

Eu podia ser aquele pai que esqueceu a filha no carro

Henrique Raposo, opinião, in Expresso


Em relação aos nossos pais, nós temos mais conhecimento pedagógico e mais sensibilidade para as crianças. Mas, paradoxalmente, temos menos tempo para aplicar essa sensibilidade, porque andamos numa permanente lufa-lufa que não existia na vida dos nossos pais, que era muito mais pausada. Porquê? O instrumento que nos dá o conhecimento - net, telemóvel, computador - também é a máquina que nos tira o tempo, ou melhor, que acelera o tempo para uma velocidade desumana


No passado, as reações emocionais eram reações emocionais, emergiam e submergiam; passados uns minutos ou segundos as pessoas pensavam um pouco e viam a situação com outra sensatez. Com as redes sociais, as pessoas reagem como sempre, mas deixam registados aqueles primeiros segundos e – como fica escrito – parece que sentem a obrigação de manter aquela posição quente mesmo quando as partes mais elevadas e racionais do cérebro entram no jogo. É por isso que as boas discussões, mesmo as mais amigáveis, são cada vez mais raras.


Perante episódios como aquela tragédia da criança esquecida no carro pelo pai, surgem logo estas vagas emocionais. Uns dizem que este caso – e outros raríssimos – mostram a decadência do tempo, demonstram a superioridade do passado. É a falácia reacionária que compara uma imperfeição do presente com uma alegada perfeição do passado. Outros começam a fazer o auto-de-fé, a prática mais comum da era da internet. Não preciso ir à net para saber como é: “Este homem não vale nada”; “este gajo é um criminoso e devia ser preso”; “veem! não vos digo que os homens não prestam para isto”; “isto comigo nunca acontecia”, “é preciso ser muito irresponsável”. Ou seja, demasiada gente assume que isto jamais aconteceria consigo. Além de injusta, esta ideia é perigosa, porque este tipo de tragédia pode acontecer a qualquer um que tenha filhos e que esteja mais ou menos sozinho numa cidade como as nossas. Eu digo-vos: distraído como sou, isto poderia ter acontecido comigo.

Durante quatro anos não dormi uma noite seguida, tínhamos duas filhas, ambas as famílias de apoio estavam longe, estávamos sozinhos. Se eu tivesse um emprego que me tirasse de casa e se tivesse de andar de carro com elas, pois garanto-vos que algo parecido poderia ter acontecido, porque a cabeça cansada entra em modo automático e começa a pensar em milhares de outras coisas, assumindo que aquela tarefa – deixá-las na creche – já está feita. Como dizia ontem a Inês Lopes Gonçalves na Renascença, a questão não é "porque é que aquele homem deixou a filha no carro?”, mas sim: “porque é que todos nós andamos mais cansados e apressados como como pais, como profissionais, como pessoas do que os nossos pais há 30 ou 40 anos?”. A resposta óbvia é a tecnologia, que nos escraviza. Em relação aos nossos pais, nós temos mais conhecimento pedagógico e mais sensibilidade para as crianças. Mas, paradoxalmente, temos menos tempo para aplicar essa sensibilidade, porque andamos numa permanente lufa-lufa que não existia na vida dos nossos pais, que era muito mais pausada. Porquê? O instrumento que nos dá o conhecimento - net, telemóvel, computador - também é a máquina que nos tira o tempo, ou melhor, que acelera o tempo para uma velocidade desumana.

Em vez de usarmos a tecnologia para ficarmos com mais tempo livre e para pensarmos melhor, andamos numa correria porque passámos a acompanhar o ritmo desumano da máquina. Nós andamos a servir a máquina, e não o inverso. Naquele dia, aquele pai já sabia que tinha uma pilha de mails à sua espera que exigem respostas imediatas, mais relatórios e mais isto e aquilo que é exigido por pessoas que estão sempre com pressa. A verdade é que a internet, devido à sua velocidade, tornou-nos mais apressados e intolerantes com os outros – demorar um dia a responder a um mail é quase uma ofensa -, não tem de ser assim.

18.9.23

“Haverá algum sobrevivente nos escombros?” Isso pouco interessa

Gustavo Carona, opinião, in Público

Em Portugal somos analfabetos humanitários. As pessoas não sabem a diferença entre voluntariado e humanitarismo, e por isso acham que tudo se resolve dando “uma ajudinha”.

A semana passada, mal vejo uma chamada de um número que não conheço a um sábado à tarde, antes de atender, percebi logo que era a comunicação social. Aceitei colaborar, mas na dúvida se não estaria a ser um bocado impostor.


O terramoto da Turquia e da Síria ainda está muito fresco. Há sete meses, eu tinha tirado uns dias para arejar as ideias num local lindo de morrer com esperança de carregar algumas alegrias, mas saiu-me o plano furado. Ao ver as notícias da Turquia e com extensão para o noroeste da Síria, eu fiquei a chorar, aninhado em posição fetal. As minhas memórias da guerra da Síria já têm uns anos, mas são de uma intensidade tão grande que ainda as sinto mesmo aqui perto. Uma chacina fratricida com 12 anos, que deixou 5 milhões de pessoas num estado de profunda miséria, cercadas pela maldade do seu ditador sanguinário, e, em cima, um terramoto altamente destruidor. Isto já não é só sofrer, isto já é ser torturado.

A minha revolta interior foi tão profunda que me levou a escrever nas minhas redes sociais algo parecido com “digam-me onde está a justiça divina?”, “digam-me onde anda o famoso Karma?”, expliquem-me aquele cliché vazio que muitas pessoas adoram “tudo acontece por uma razão.” Qual é então a razão para estas pessoas nascerem condenadas à morte, ou pior, a uma vida em sofrimento?


Aceitei então dar todas as entrevistas que me solicitaram e escrevi o mais que pude. A pergunta que mais me faziam na TV era “haverá algum sobrevivente nos escombros?” Só para não ser mal-educado é que não contrapunha com “é mesmo isso que vos interessa?” Eu compreendo que a maioria das pessoas queira ouvir coisas espetaculares, mas o que eu queria era driblar essas perguntas sensacionalistas que têm utilidade nula e tentar contribuir para aquilo a que eu chamo literacia humanitária.


A sociedade civil sente, comove-se, e quer pôr a sua acção no trajecto do coração, mas não faz a mínima ideia de como fazê-lo. Então proliferam as acções avulsas de recolha de roupa suja, pacotes de arroz e paracetamol. E, ainda, as vontades impulsivas de ir para o local sabe-se lá fazer o quê.


Não me levem a mal, estas vontades e estes impulsos são genuinamente o melhor de nós, e deles, por vezes, nascem coisas válidas. Mas querer ajudar e saber ajudar são coisas muito distintas. Em Portugal somos analfabetos humanitários. As pessoas não sabem a diferença entre voluntariado e humanitarismo, e por isso acham que tudo se resolve dando “uma ajudinha”, mas apenas enquanto estas tristezas passam na TV.

Depois de receber umas largas dezenas de mensagens de pessoas a dizerem-me que queriam ir para a Turquia, eu escrevi nas minhas redes sociais algo como: “Se daqui a um mês ainda quiserem ir para a Turquia, eu levo-vos de mão dada à porta de uma organização humanitária que esteja no terreno.” Sabem o que é que aconteceu passado um mês? Nada. Zero mensagens. Passaram os desejos ardentes de ajudar quem tanto precisa...

Perdi três dias de suposto descanso, por estar constantemente a ler, a estudar, a preparar-me para estar à altura do desafio de comunicação que tinha essencialmente dois objetivos: 1) explicar às pessoas a importância e a complexidade do profissionalismo humanitário, e a melhor forma de transformar a nossa boa vontade, em impacto positivo na vida dos que estão a sofrer; e 2) que as pessoas olhassem para a Síria com o coração, o que já não acontece há muitos anos, porque a guerra continuou mas os nossos corações fugiram. Senti-me útil nestes propósitos.


Embora em menor escala, tentei fazer o mesmo com a catástrofe em Marrocos. Depois de algumas intervenções, passados quatro dias do terramoto recebi um convite da SIC Notícias para comentar se ainda haveria sobreviventes nos escombros, e recusei. Não via utilidade nem médica, nem humanitária, e até senti que chocava de frente com o que eu acredito que é importante. A produção perguntou-me então o que me parecia importante dizer, e eu respondi: “O que verdadeiramente interessa. O pós-crise.”


Quando recebi as notícias da Líbia, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Até no timing tiveram azar, porque desgraça em cima de desgraça não vende.” Apesar do incidente ser muito mais mortal e destruidor, e num povo muito mais susceptível, as atenções e as ajudas vão ser muito mais diminutas do que para Marrocos.

Várias vezes repito que, numa guerra, as pessoas morrem muito menos dos tiros e das bombas do que de tudo o resto. As pessoas morrem por tudo e por nada quando um Estado deixa de funcionar. E a forma como a cidade de Derna no leste da Líbia foi rasgada a meio pelas cheias é só uma prova disso mesmo. Há várias dimensões da análise desta catástrofe.

Numa guerra, as pessoas morrem muito menos dos tiros e das bombas do que de tudo o resto


Alterações climáticas. Fenómenos como a tempestade Daniel estão a ser comprovadamente mais frequentes pelo aquecimento global, como nos evidencia o recorde histórico da temperatura média dos oceanos no início de Agosto, que catalisa estes extremos climáticos. Choveu em 24 horas o equivalente a um ano.

A Líbia é um Estado falhado, a contas com uma terrível guerra civil desde 2011. A não manutenção das duas barragens que colapsaram é uma consequência da guerra. Há cerca de um ano, foi feito um relatório que apontava para a perigosidade das mesmas e nada foi feito.

A grande maioria das mortes, que caminham para 20.000 numa cidade que tinha cerca de 100.000 habitantes, podia ter sido evitada com algo tão simples como alertas das autoridades, se os serviços meteorológicos não estivessem anárquicos por causa da guerra, como referiu a Organização Mundial Meteorológica.

No entanto, quando passa a urgência e a atenção dos media, ainda está tudo por fazer. É inevitável que as notícias mudem rapidamente para outro foco qualquer, mas quem quer, efectivamente, salvar vidas e aliviar o sofrimento deve perceber que o trabalho mais importante começa agora.


Todos temos picos de empatia, e ainda bem, mas transformar essa emoção tão bonita em consistência exige algum trabalho. Já alguém se lembrou de saber como é que está o pós-crise da Turquia e da Síria? 17 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária, segundo a Cruz Vermelha. E só quem é educado a compreender estes fenómenos é que compreende a importância da continuidade e do profissionalismo humanitário.

Lutar por um mundo melhor não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona.

As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel António da Mota a favor dos Médicos sem Fronteiras

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

14.9.23

46. Palavra da semana: ginásio

Bruno Vieira Amaral Escritor, opinião, in Expresso


Ginásio ou a crónica de uma rendição tardia aos benefícios do exercício físico, embora mantendo reservas quanto ao bom juízo dos praticantes


Ao contrário de companheiros de geração que, ainda não tinham acabado o secundário, e, em alguns casos, duvido que o tenham concluído, descobriram os benefícios do ginásio, sempre resisti a inscrever-me nesses templos malsãos, embora reconhecendo os inequívocos efeitos das horas que ali passavam porque não é a ler Camus ou Dostoievski que se conseguem bíceps hercúleos e gémeos de trinco teutónico como os que exibiam para meu grande espanto e inveja.


Para sossego de consciência e defesa da minha preguiça, desenvolvi um intricado sistema filosófico não tanto contra a prática desportiva em si – que, em geral, considero benéfica desde que não implique grandes esforços, transpiração abundante e urros marciais – mas contra a obrigação de ser eu a incorrer em tais práticas – e só o verbo “incorrer” já me acelera as pulsações e me dá dor de burro.

De uma célebre citação, talvez apócrifa, de Winston Churchill – segundo a qual única ginástica que fizera em toda a vida fora a de segurar as pegas dos caixões de amigos que ao exercício físico tinham devotado horas irrecuperáveis – à diatribe contra o desportista, um libelo que Mario Vargas Llosa atribui ao seu brilhante personagem Dom Rigoberto, tudo me servia para me blindar aos apelos ínvios da vaidade para que me pusesse a correr numa passadeira mecânica ou para que me submetesse, de livre vontade e ainda por cima pagando, ao ordálio de levantar pesos sem uma utilidade discernível, fazer sessões de abdominais em grupo ou – ignomínia das ignomínias – obedecer às ordens de agachamento de um enlouquecido professor de ginástica – ou personal trainer – que se julga prestes a destruir Cartago.

Como Dom Rigoberto, e por razões semelhantes, também eu tinha dificuldade em detetar alguma virtude na máxima “mente sã em corpo são” porque o que nos nossos dias se entende por mente sã não me parece muito desejável e até ligeiramente desumano e quando aliado a um corpo capaz de olímpicas proezas gera monstros cujos sacrifícios e feitos posso admirar, à distância, mas nos quais vislumbro uma sombra de psicopatia e pobreza espiritual que não só não invejo como deploro. Uma mente sem vícios, triunfante, é o cemitério da imaginação.

Então, ao entrar na quinta década de vida, fatalmente, pus pela primeira vez os pés num ginásio, depois de um breve período em que corri como nunca até a preguiça me ter atirado de novo para os braços do sofá. Todos os meus preconceitos e temores acerca do ambiente de ginásio se confirmaram: todos os dias temo tombar de exaustão ou de vergonha ou de ambos quando pedalo dois minutos no nível 16 da bicicleta estática e todos os dias receio que àquele rapaz de metro e meio lhe rebente a veia do pescoço quando, a exemplo da formiga que carrega cem vezes o seu peso, também ele vence a inércia e a gravidade com esgares perturbadores de halterofilista turco obstipado.

Apesar da atmosfera gregária, do esforço sobre cujo sentido diariamente me interrogo e da disciplina que me imponho, contrariando a minha natureza e a filosofia defensiva atrás da qual me muralhei durante anos, já me habituei a esta nova rotina de que tenho colhido benefícios que, por pudor e boa educação, não irei detalhar. Tudo isto ainda me parece um pouco ridículo e nada me incomoda mais do que imaginar-me o alvo do desdém de Dom Rigoberto. Para que o opróbrio não seja total, resisto a tornar-me apóstolo do exercício físico e do ginásio com a fúria dos convertidos tardios. Mas que lá vou à missa no templo do corpo, não tenho como negar.


13.9.23

O país está por um fio de azeite

Manuel Cardoso, opinião, in Expresso

Não tardará até dizerem que andámos a temperar acima das nossas possibilidades e que é imperativo cortarmos nas gorduras vegetais do Estado


Vivemos temperos conturbados. Nos supermercados, há garrafas de 750ml de azeite a serem vendidas a 13 euros. A produção deste óleo caiu nos países mediterrânicos e os preços dispararam nas últimas semanas. A falta de chuva, as temperaturas elevadas e o granizo estão a dizimar as produções de azeitona. Pura e simplesmente, está a deixar de haver produto para vender. Esta é claramente a notícia mais angustiante do momento. Ainda assim, passámos a semana a discutir, não a explosão do preço do óleo extraído da azeitona, mas a reunião do Conselho de Estado em que o primeiro-ministro estava com os azeites.


É o nosso modo de vida que está em causa. O azeite era, para os portugueses, o produto de luxo que não tinha um preço exorbitante. Agora, tudo mudará. Os galheteiros, por segurança, serão fixados às mesas dos restaurantes. O vinagrete tornar-se-á, sobretudo, vinagre. O polvo à lagareiro será proibido. O natalício “Bacalhau com Todos” passará a chamar-se “Bacalhau com Todos Menos Com o Azeite”.


Iniciar-se-á uma caça às bruxas. O Ministério Público abrirá inquéritos para investigar usos abusivos deste óleo. O leitor lembra-se daquela vez em que, ao fritar um bife do pojadouro, deitou demasiado azeite na frigideira, sendo obrigado a retirar o excesso? Irão certamente atrás de si. Pessoas que têm por hábito temperar peixe fresco grelhado com um dispensável fio de azeite? Livrem-se das provas, uma vez que arriscam pena de prisão efetiva.


Não sei se o Governo tem noção, mas o país está por um fio de azeite. Aumenta vertiginosamente o preço da gasolina? Anda-se mais devagar. Aumenta vertiginosamente o preço da eletricidade e do gás? Veste-se mais uma malhinha. Aumenta vertiginosamente o preço do azeite? O país entrará em profunda convulsão social, em estado de sítio, quiçá numa guerra civil que culminará com a subida ao poder de um líder autocrático que tenha Oliveira no nome.


O azeite está caro, o prémio do Big Brother aumentou, o preço no metro quadrado nos Olivais está em máximos. Com as alterações climáticas, previam-se as guerras da água, mas o azeite veio ao de cima. Neste momento, haverá milhares de famílias portuguesas a tentar reconectar com um tio-avô que costumava oferecer um garrafão de 5L. Em Espanha, há fundos de capital de risco a lucrar 20% ao ano com a escassez do produto. O óleo de azeitona tornou-se uma mercadoria tão valiosa que não seria absurdo criar a bolsa de valores de Valpaços e a Wall Street de Ferreira do Alentejo.


A responsabilidade política é, mais do que nunca, essencial: Marcelo Rebelo de Sousa terá de ter pudor ao visitar feiras de produtos regionais. Os portugueses não lhe perdoarão se for apanhado a molhar o pão no azeite. A verdade é que este problema não tem soluções fáceis. Ao contrário da Assembleia da República, o azeite não se dissolve.


Entretanto, já se fala em recessão. Não tardará até dizerem que andámos a temperar acima das nossas possibilidades e que é imperativo cortarmos nas gorduras vegetais do Estado. A crise grassará aqui, em Espanha, em Itália e na Grécia. Os países do centro e Norte da Europa culparão a dieta mediterrânica e tentarão forçar-nos a utilizar manteiga no refogado. Estamos completamente esturgidos. Valha-nos extra-virgem Maria.

12.9.23

As máscaras protegem contra a Covid-19?

Tiago Correia, opinião, in SIC

Opinião de Tiago Correia. O regresso das máscaras aos hospitais trouxe à memória um passado recente que ninguém quer repetir. Tanto pairou no ar o medo de “voltarmos para trás” nas medidas de combate à Covid-19, como a absoluta desconsideração. Nenhuma das duas posições é adequada perante o que está em causa, sendo importante recordar o que a ciência diz sobre a proteção que as máscaras conferem. A utilização voluntária de máscaras em determinados locais e em certos momentos pode fazer parte do quotidiano.

Os alarmes soaram na opinião pública com a decisão do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, do qual fazem parte os hospitais Pulido Valente e Santa Maria, em recomendar a utilização de máscaras. Os médicos responsáveis depressa disseram que era uma medida preventiva face ao aumento repentino de doentes internados por outros motivos e que também testaram positivo à Covid-19, mantendo sintomas ligeiros a moderados. Sendo os hospitais lugares de permanência de pessoas vulneráveis, a recomendação da utilização da máscara a visitas e profissionais de saúde parece uma dedução lógica. Além de lógica, está prevista numa orientação da DGS.

Por isso, o ruído à volta desta situação foi excessivo. Uma recomendação não é uma obrigação e o facto das autoridades de um hospital considerarem tratar-se de uma medida sensata não significa que outros hospitais decidam da mesma forma. Foi isso que o Governo e a DGS vieram dizer: a avaliação de risco é local e é às autoridades locais que compete emitir recomendações.

Não tendo caráter obrigatório, o discurso de quase ódio que tipicamente irrompe nas redes sociais quanto ao suposto ataque às liberdades individuais não tem sentido. Civismo e sensatez fazem parte das regras informais de convivência em sociedade. É apenas nestes termos que esta medida se enquadra e não é demais recordar que a Lei de Bases de Saúde Pública – que permitirá enquadrar estas situações – ainda está por aprovar.

Tanto é necessário esvaziar as críticas infundadas como serenar as pessoas. Não há sinais de que algo pior esteja no horizonte, mesmo que alguns números apontem para o aumento de internamentos por Covid-19 a nível internacional. A vacinação mudou o jogo por completo, sendo possível permitir o aumento das infeções sem a necessidade de obrigações e restrições. Assim será enquanto o vírus mantiver o comportamento que tem tido e enquanto a adesão à vacinação permitir proteger os mais vulneráveis.

Nos momentos mais duros da pandemia foi dito à exaustão de que estávamos obrigados a aprender. É uma absoluta contradição termos o inverno à porta e o aumento generalizado de infeções respiratórias, e os picos de mortalidade ou a sobrecarga dos serviços de saúde serem vistos como se a vida entre 2020 e 2022 não tivesse existido.

Não se trata de dizer que é possível travar transmissões ou picos sazonais de mortalidade. Mas sim que todos temos um papel a cumprir na adesão voluntária a medidas de prevenção. Se isso acontece com as vacinas, pode acontecer com as máscaras.

As máscaras, tanto usadas por profissionais de saúde como na comunidade, protegem contra a transmissão da Covid-19, em estimativas que chegam a 70%. É isso que mostra a melhor evidência científica disponível.(1,2) Mas há um reparo importante que os estudos chamam a atenção: as máscaras são ineficazes se mal-usadas ou quando a sua utilização não é cumprida.(3,4,5)

Por isso, quanto mais as pessoas perceberem a importância da sua utilização nos casos em que é recomendada ou quando têm sintomas gripais, mesmo que ligeiros, mais facilmente aderem de forma voluntária à medida. E quanto mais pessoas aderirem, mais efetiva a medida se torna.

Aquilo que outrora era típico nos países orientais deve ser compreendido no ocidente: a utilização de máscaras pode fazer parte do quotidiano em determinados momentos e contextos como parte de um ato cívico.

Referências bibliográficas:

1 Hajmohammadi M, Saki Malehi A, Maraghi E. (2023) Effectiveness of Using Face Masks and Personal Protective Equipment to Reducing the Spread of COVID-19: A Systematic Review and Meta-Analysis of Case-Control Studies. Adv Biomed Res;12:36. doi: 10.4103/abr.abr_337_21.

2 Ollila HM, Partinen M, Koskela J, Borghi J, Savolainen R, Rotkirch A, et al. (2022) Face masks to prevent transmission of respiratory infections: Systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials on face mask use. PLoS ONE; 17(12): e0271517.

3 Jefferson T, Dooley L, Ferroni E, Al-Ansary LA, van Driel ML, Bawazeer GA, Jones MA, Hoffmann TC, Clark J, Beller EM, Glasziou PP, Conly JM. (2023) Physical interventions to interrupt or reduce the spread of respiratory viruses. Cochrane Database of Systematic Reviews, Issue 1. Art. No.: CD006207.

4 Purssell, E., & Gould, D. (2023). Face mask use to prevent COVID-19 in clinical practice. Using a review of reviews to improve decision-making and transparency. Journal of Advanced Nursing, 79, 2456–2464.

5 https://www.cochrane.org/news/statement-physical-interventions-interrupt-or-reduce-spread-respiratory-viruses-review

Retrato do português quando jovem

Pedro Norton, opinião, in Público

O contexto em que nasce e em que cresce um jovem português no século XXI tem um nome: desesperança.

É particularmente ridículo ver um homem de meia-idade a tentar fazer-se passar por jovem. É igualmente patético vê-lo a assumir saber pensar como um jovem. Arrisco, ainda assim, refletir sobre o contexto em que nasce e em que cresce um jovem português no século XXI.


Não vale a pena levar esta história demasiado atrás, mas a verdade é que nada nos garante que, apesar de ser hoje claro que a educação na infância é determinante para a aquisição de competências e para o sucesso das aprendizagens futuras, Maria (chamemos-lhe assim) tenha frequentado uma creche. Sobretudo se pertencer a uma família de menores recursos. De acordo com o estudo Portugal, Balanço Social 2022, “67,4% das crianças oriundas de famílias pobres (Q1) não frequentam a creche. Esta percentagem cai para cerca de 50% nas crianças das famílias com maiores rendimentos (Q4).” E se é um facto que a probabilidade de Maria ter frequentado o ensino pré-escolar aumenta, isso continua a ser sobretudo verdade se for oriunda de uma família rica.


Chegada ao secundário, Maria mergulha no caos da escola pública em Portugal. Greves, indisciplina, aventuras pedagógicas, constantes mudanças de programas e métodos de avaliação e, sobretudo, professores cansados, mal pagos e desmotivados (se é que os tem todos, porque este ano há 100.000 alunos com pelo menos um professor em falta) não são exatamente o caldo que esperaria e a que julga ter direito. Se teve o azar de ter apanhado os anos de pandemia, saberá bem que tudo foi, aliás, exponenciado.

Mas mais grave: se Maria é mesmo oriunda de uma família de menores recursos, a probabilidade de ter sido deixada para trás durante os anos da covid é altíssima. De acordo com dados compilados por Alexandre Homem Cristo, “apenas cerca de 1,6% dos alunos beneficiários da Ação Social Escolar estava nas escolas de acolhimento durante o lockdown”. Mas mesmo que tenha escapado incólume aos anos de pandemia, Maria não escapou, de certeza, à grande maldição da escola portuguesa, onde o perfil socioeconómico do aluno continua a ser um enorme preditor do sucesso escolar. De acordo com os dados do PISA 2018, a diferença entre os resultados entre os alunos mais favorecidos e mais desfavorecidos é, aliás, das mais altas da OCDE.

Por esta altura, Maria, apesar de muito jovem, aprendeu já uma coisa: a ideia da escola pública como elevador social é uma absoluta miragem. E sabe bem que, confirmando-se que é filha de pais carenciados, o mais certo é não ingressar no ensino superior (vale a pena ler a última crónica de Susana Peralta em que cita Miguel Herdade: “Se retratarmos Portugal como um grupo de dez jovens, cinco deles andaram no ensino superior. Contudo, se olharmos para dez jovens nascidos em famílias pobres e com pais pouco qualificados, (...) só um conseguiu lá chegar.”

Mas vamos admitir que Maria é a exceção que confirma a regra e que conseguiu, por mérito próprio e muito esforço, uma vaga no ensino superior. Tendo de estudar fora do local da sua residência, resta-lhe agora encontrar uma cama. Vai demorar muito pouco tempo a perceber que não vai ser tarefa fácil. Sabe que em 2021 existiam, em todo o país, necessidades de 108.000 camas para estudantes universitários deslocados. Apesar de Manuel Heitor ter prometido, em 2018, construir 12 mil camas em alojamentos para estudantes entre 2019 e 2022, apesar de Elvira Fortunato ter vindo agora prometer 15.000 “novas” camas até 2026, Maria sabe bem que a verdade é muito diferente: muito pouco se fez e, no total, existirão apenas 16 mil camas disponíveis aos dias de hoje. E isso explica que, só no último ano, o preço de quartos e apartamentos privados destinados a estudantes tivesse aumentado 10,5%. De acordo com o último relatório do Observatório do Alojamento Estudantil, o preço de um único quarto na região de Lisboa situa-se agora nos 450 euros.

Por esta altura Maria já percebeu que fará como todos os outros jovens portugueses: vai esperar até aos 29,7 anos para sair de casa dos pais e fazer-se à vida. Por essa altura tratará também de acender uma vela. A probabilidade de ter direito a uma reforma no fim da vida de trabalho que agora inicia é mesmo matéria de fé


Mas continuemos, qual otimistas irritantes, e admitamos que a nossa estudante consegue recorrer a umas poupanças dos pais e conclui mesmo o ensino superior. As agruras, infelizmente, não acabam aqui. Chegada ao mercado de trabalho, Maria rapidamente se dá conta de que o prémio salarial para quem conclui a universidade, que era de 50% em 2011, é de 27% em 2022 e está em níveis historicamente baixos. Nunca valeu tão pouco a pena investir na formação superior. Mas a verdade é que é com um magro pecúlio que tem de contar para encontrar casa num país em que o Estado há muito desistiu de investir em habitação pública e em que uma aventura política imponderada e mais mal preparada tratou de dar a machadada final no mercado privado de arrendamento.


Evidentemente, por esta altura Maria já percebeu que fará como todos os outros jovens portugueses: vai esperar até aos 29,7 anos para sair de casa dos pais e fazer-se à vida. Por essa altura, tratará também de acender uma vela. A probabilidade de ter direito a uma reforma no fim da vida de trabalho que agora inicia é mesmo matéria de fé.


Tudo isto tem um nome: desesperança. Alguém verdadeiramente acredita que se trata com cheques-livro e férias em pousadas?

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

11.9.23

Agora todos querem saber o que pensam os enfermeiros!

Ana Rita Cavaco, opinião,  in Público


Portugal sabe hoje, graças ao trabalho da Ordem, que quase dois terços dos enfermeiros já pensaram em mudar de profissão, que são dos mais mal pagos da OCDE e que a emigração bate recordes.


Quem é que quer saber o que pensam os enfermeiros? A pergunta pode parecer patética vista com os olhos de hoje, mas a verdade é que enchia os corredores do poder quando fui eleita bastonária há oito anos. Ninguém queria saber o que pensavam os enfermeiros, se tinham contributos para as políticas públicas de saúde, se pensavam a organização dos serviços de outra forma ou, ainda mais simples, se tinham alguma coisa a dizer sobre as suas condições de trabalho.

Das chefias diretas ao poder político, passando pelos conselhos de administração, reinava o culto do desprezo face à nossa classe profissional. Isso acabou. Muitos foram aqueles que se incomodaram com o jeito, o estilo, o tom, a voz, as denúncias e os confrontos. Para muitos, fui quase sempre excessiva, demasiado acutilante, pouco institucional. Não fui a bastonária que os poderes queriam, mas tentei ser sempre a mulher que os enfermeiros precisavam neste tempo. Acredito que as pessoas são elas e as suas circunstâncias, assim como os cargos que ocupam.


A casa que encontrei precisava de um vendaval. Estava fechada há muitos anos, cinzenta, cheia de pó e refém de certas lógicas partidárias que colocavam interesses particulares à frente das reais necessidades da enfermagem. Foi preciso abrir a janela para provocar uma tempestade útil. Foi preciso perder o medo de ir à varanda gritar, agitar, incomodar, mas não só. Ao mesmo tempo, foi necessário construir, acrescentar, mostrar ao país que somos um dos pilares do sistema de saúde e, na mesa do poder, deixar propostas claras para as mudanças que queríamos ver concretizadas na profissão.



O trabalho está à vista, até para aqueles que continuam a falar do estilo sem perceberem que foi a fatura que decidimos pagar para que os enfermeiros tivessem voz. Estou certa de que se tivéssemos escolhido o caminho que queriam, mais tranquilo e institucional, a enfermagem continuaria hoje subjugada, submissa e remetida ao desprezo. A verdade é que para a história fica uma autêntica revolução na Ordem e na forma como a sociedade se relaciona com os enfermeiros.

Hoje, sem hesitações, toda a gente consegue identificar o enfermeiro da sua vida, compreender a centralidade das suas funções, reconhecer o seu esforço, solidarizar-se com as difíceis condições de trabalho e apoiar, como não acontecia no passado, as suas formas de luta. A enfermagem deixou a escuridão e o reino do silêncio. Tem luz, voz, palco, visibilidade. As opiniões dos enfermeiros contam, basta ver todos os contributos que a Ordem deu para alterações legislativas e a forma como foram valorizados.


Hoje, como seria difícil de imaginar há oito anos, ninguém discute possíveis reformas ou alterações particulares no destino das políticas de Saúde sem querer saber o que pensam os enfermeiros. Para aqueles que nos acusaram de “popularizar” o cargo, aqui está a maior prova de credibilidade. Alguma vez imaginaram que “enfermeiro” seria Palavra do Ano? Mas foi, em 2018.


O país conhece melhor os seus enfermeiros e as suas vidas. Portugal sabe hoje, graças ao trabalho da Ordem, que quase dois terços dos enfermeiros já pensaram em mudar de profissão, que são dos mais mal pagos da OCDE e que os números da emigração bateram todos os recordes. Mas a sociedade sabe também, graças ao trabalho da Ordem no terreno, que faltam enfermeiros nos serviços, que as dotações seguras não são cumpridas, que há portugueses a morrer sem dignidade em lugares escuros a que chamam lares.


Estes oito anos foram feitos de trabalho para fora, mas também para dentro da profissão. Os enfermeiros sabem bem o que significa termos sido capazes de criar mais seis novas áreas de especialidade e dezenas de competências acrescidas. Não é apenas sinónimo de muito trabalho, mas significa, sobretudo, colocar a enfermagem no patamar de excelência que merece. Encontrámos uma Ordem profissional onde a formação era praticamente inexistente, um vazio incompreensível, mas hoje multiplicam-se as formações, a grande maioria gratuitas e geridas com uma plataforma própria.


Encontrámos uma Ordem repleta de burocracias, pesada e que não conseguia dar resposta às solicitações dos enfermeiros, mas deixamos uma casa com um balcão único onde é possível resolver todos os problemas à distância de um click ou de um telefonema para um call center que funciona.


Encontrámos uma Ordem onde os enfermeiros quase que pagavam por existir, mas deixamos uma casa onde os membros passaram a pagar menos uma quota por ano e onde as declarações e fotocópias de documentos passaram a ser gratuitas, assim como os congressos e as convenções. A isto junta-se a criação do programa Mais Enfermeiro, Mais Benefício, que disponibiliza mais de mil descontos e vantagens numa rede de serviços, um novo site que permite localizar ao minuto os enfermeiros portugueses no mundo (através de um mapa interativo).

Encontrámos uma Ordem de costas voltadas para o dia-a-dia dos enfermeiros, mas deixamos uma casa onde foi criado o gabinete de mediação de conflitos, o portal das denúncias, o repositório científico, vários prémios de investigação, os orçamentos participativos, as assembleias gerais descentralizadas, enfim, coisas que o tempo vai ensinar a valorizar.


E com isto passaram oito anos. Deixo o lugar de bastonária com a noção de dever cumprido. Prometemos devolver a Ordem aos seus membros e dar voz aos enfermeiros. Cumprimos. O caminho agora só pode ser para a frente, até porque o regresso ao passado significaria despertar aquela pergunta que enterrámos todos: “Quem é que quer saber o que pensam os enfermeiros?”


Bastonária da Ordem dos Enfermeiros


[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes ]

Clima não é compatível com procrastinação

Rosália Amorim, opinião, in DN



Poucas vezes vimos António Guterres irritado. Quando era primeiro-ministro de Portugal era conhecido como o político do diálogo, mais tarde o do pântano. Calmo, paciente, ouvinte, mas, nos últimos anos, António Guterres tem-se irritado com maior frequência. É certo que tem em mãos uma missão hercúlea, e talvez o papel da sua vida: ser secretário-geral das Nações Unidas em plena guerra na Europa e num quadro de crise climática, após uma pandemia mortífera. Um caderno de encargos pesado que atravessa os seus dois mandatos.

Guterres cansou-se das acusações de Trump, desgasta-se com Putin e agasta-se com a inação e a falta de compromisso das nações em relação às alterações climáticas. E compreende-se. Não é por falta de aviso, de estudos e diagnósticos que os países não caminham mais rápido nessa matéria. Os interesses económicos e falta de vontade política têm vindo a sobrepor-se ao tema e também, por exemplo, a todas as Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP).

Governar pelo clima ainda não é sexy. É um slogan que não se traduz, para já, em mais intenções de voto nas sondagens ou em votos reais nas urnas. Liderar pelo ambiente tem sido, regra geral, uma prioridade dos países. O que vai sendo feito é, muitas vezes, apenas por pressão internacional, para cumprir as métricas e ficar bem na fotografia.

O mundo tem-se atrasado a cuidar de si mesmo. As alterações climáticas previstas para 2030 foram já antecipadas sete anos e estão a ocorrer hoje mesmo. Correm mais rápido do que os decisores e não são compatíveis com a procrastinação. Como o DN já escreveu nos últimos dias, este ano será, muito provavelmente, o mais quente da história da Humanidade. Os períodos prolongados de temperaturas elevadas estão a tornar-se mais frequentes e, no Hemisfério Norte, foram os mais quentes de que há registo, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).


"O colapso climático global já começou", grita o secretário-geral das Nações Unidas. Muitos líderes encolhem os ombros, mas Guterres insiste: o fenómeno está a "piorar drasticamente". Ondas de calor, secas, inundações, incêndios e tornados avançam sobre a Ásia, América do Norte e a Europa. Aqui bem perto, na Grécia aos incêndios de agosto seguiram-se chuvadas torrenciais e que atingiram a Bulgária e a Turquia. Mais recentemente, Madrid ficou debaixo de água com chuvas fortes. Perderam-se muitas vidas e culturas.

Nas últimas décadas também se perdeu tempo, muito tempo, bem como a oportunidade de atuar preventivamente quando começaram a ecoar os primeiros alertas em relação às alterações ambientais. Hoje, tapar o sol (ou a chuva torrencial) com a peneira já não resulta. As nações têm de munir-se de planos de emergência ambiental e definir investimentos estratégicos que sejam um escudo protetor contra as agressões do clima. Encaremos de frente este sobressalto climático e económico, antes que sejamos engolidos por ele.


Diretora do Diário de Notícias

Emergência social

FRANCISCO SARSFIELD CABRAL, opinião, in RR

A pobreza em Portugal deixou de ser um assunto envolvendo apenas uma pequena fatia da população. Estamos a entrar numa situação de emergência social.


Foi conhecido há dias um estudo sobre a pobreza em vários países europeus, incluindo Portugal. Trata-se do primeiro Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade, encomendado pela organização não governamental francesa Secours Populaire Français. Foram ouvidas dez mil pessoas, com 18 anos ou mais, em dez países (Alemanha, França, Grécia, Itália, Polónia, Reino Unido, Moldávia, Portugal, Roménia e Sérvia).

O que esse estudo divulga pode ser considerado um violento murro no estômago. A presidente da Caritas portuguesa, Rita Valadas, classificou à Renascença de “assustadores” os números revelados naquele Barómetro. Por exemplo, o salário de metade dos portugueses empregados não chega para as despesas. Ou: Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais trabalhadores precários (e os dados mais recentes mostram um agravamento da situação).

Por outro lado, o Barómetro revela que quase metade dos europeus desistiram de aquecer as suas casas no inverno, devido a uma situação económica difícil. Além disso, 38% dos inquiridos já não fazem três refeições por dia, 39% deixaram de comprar carne para poupar dinheiro e 10% recorrem a associações de caridade para obter alimentos. Ou seja, a Europa, que julgávamos rica, está a ser fortemente atingida pela pobreza, a fazer fé neste Barómetro. Mas Portugal é um dos países europeus em pior situação.

Um dos dramas, em Portugal, reside em que o setor social está a perder meios para acorrer aos mais atingidos pela pobreza. "Os donativos vêm sendo cada vez menores. Nós temos famílias que eram doadoras e que estão, neste momento, a passar dificuldades, para as quais nós tivemos de encontrar soluções, porque elas próprias também estão em situação de risco", afirmou Rita Valadas à Renascença.

Ainda mais preocupante é a opinião da presidente da Caritas sobre o papel do setor social: este setor não está a ser capaz de retirar as pessoas da situação de pobreza. Rita Valadas dá o exemplo da campanha “Inverter a curva da pobreza”, que a Caritas lançou em 2020 e que ficou "muito aquém das necessidades".

Assim, a pobreza em Portugal é um drama envolvendo cada vez mais pessoas. Estamos a entrar numa situação de emergência social.

8.9.23

Exportar o futuro

Sebastião Bugalho, opinião, in Expresso


Para a geração nascida a seguir ao cavaquismo, ser português não tem sido um passeio no parque. A adolescência com Sócrates a primeiro-ministro, a maioridade com a troika no país, a entrada num mercado de trabalho com duas décadas de estagnação. Um jovem nascido em 1995 que tenha feito licenciatura e mestrado terá procurado o seu primeiro emprego em 2018; segundo um estudo do Banco de Portugal de 2019, entre o seu nascimento e o seu primeiro salário, o crescimento da economia em paridades de poder de compra mal existiu.

As repercussões desse drama atingem-nos hoje, tanto nos números da emigração qualificada para que alertou o primeiro-ministro na sua carta à Comissão Europeia (noticiada há dias por este jornal), como nas expectativas dessa geração em relação ao seu próprio futuro. Hoje, os luxos dos “mil-euristas” passam por coisas como oferecer uma prenda à mãe no Natal, pagar a ração do animal de estimação, pôr gasolina sem medo de ler “Não Autorizado” na caixa ou encontrar uma creche para o filho que permita manter uma carreira.

Não é só uma questão de PIB; é uma questão de esperança. A meses do cinquentenário da Democracia, a geração que ronda os 30 anos é provavelmente a primeira cujo sonho não é viver melhor do que os pais, mas simplesmente não viver muito pior. Sem rodeios: somos o país em que consultores de qualquer uma das big four de auditoria vivem em quartos arrendados.

O atual Governo não é certamente autor único da situação. O atraso português não é um atraso solitário face às adesões europeias que nos acompanharam antes da queda do Muro. O défice de produtividade é acentuado, mas não exclusivamente nosso. E não é preciso ler jornais ingleses para saber que não tivemos a primeira crise habitacional do pós-pandemia.

A geração que ronda os 30 anos é provavelmente a primeira cujo sonho não é viver melhor do que os pais, mas simplesmente não viver muito pior

Não foi António Costa que envelheceu, endividou ou desertificou Portugal, por mais criticável que o seu imobilismo seja. O facto de reconhecer — por escrito — o crescente número de cidadãos que já não concebe ficar no país que governa há oito anos é, francamente, um sinal de lucidez. Mas não só. É também a prova de que a governação por decreto e distribuição tem os seus limites.

No imaginário incumbente, a subida do salário mínimo e o aumento das qualificações correspondem a “reformas estruturais” na economia portuguesa. Sendo favorável a ambas, a verdade é que, por si só, não chegam. No limite, sem mais do que isso, caminharíamos para um país de doutoramento obrigatório e salário médio em tangente ao mínimo. Na prática, é esse risco que corremos. Universalizar o ensino superior sem uma economia suficientemente competitiva para valorizar devidamente essa qualificação. Subir o salário mínimo sem um mercado de trabalho capaz de aumentar o salário médio em paralelo. O resultado é estarmos cada vez mais qualificados, mas cada vez menos ricos. Com mais perspetiva, mas menos horizonte.

É isso que explica a “fuga de talentos” para outros países de que se queixa o Governo ou os 37% de recém-licenciados que perdemos anualmente desde 2016.

Convinha perguntarmo-nos, na medida em que as fronteiras estão abertas para os dois lados, por que são os nossos compatriotas a sair e não os nossos vizinhos a entrar. E a resposta, olhando a realidade, é clara. A atriz Beatriz Costa deu-a há anos na sua candura. “Já fui rica e já fui pobre. Gostei mais de ser rica”, sorriu.

O país que pode ser feito é um país onde um primeiro-ministro consiga dizer a si mesmo, em consciência, que os seus netos crescerão em Portugal. Sem mais riqueza, tal não passará de uma miragem. Até lá, os partidos políticos continuarão a proclamar convictamente que “os jovens são o futuro”. E não é mentira.

Só não serão o nosso.

POR FAVOR, DEEM QUALQUER COISINHA

Clara Ferreira Alves, in Expresso


PORTUGAL É COMO UM POBRE ELEFANTE QUE FOI RETIRADO DO SEU HABITAT E DOMESTICADO, POSTO A RENDER PARA O TURISMO

António Costa escreveu uma carta “à Europa” a pedir ajuda para o problema da habitação. Talvez por uma questão de protocolo e de não deixar uma carta de primeiro-ministro sem resposta, “a Europa” reconheceu o problema, “transversal” a toda a Europa segundo a carta, e prometeu estudar o assunto. Com educação e verniz, como compete “à Europa”.

Esta carta é um atestado de fracasso. Décadas de políticas erradas, desajustadas e vinculadas ao curto prazo e mais ainda ao prazo eleitoral, aliadas a uma desqualificação do pessoal político para pensar sem papaguear a linha oficial do partido e da propaganda e a hábitos de preguiça e de desperdício de fundos e de dinheiro, conduziram o país a este estado. Não existe, nem agora nem no futuro, um modo de resolver o problema, porque não existe uma visão do problema. O problema entremeia-se com outros dois, o dos salários mínimos com um sistema tributário máximo, o supercondutor do empobrecimento dos portugueses que não trabalham em sectores rentáveis como o turismo, e o dos jovens desempregados ou com um salário mínimo que não terão hipóteses de pagar uma casa, qualquer casa, renda ou propriedade, num futuro utópico.

Nos anos em que fundos europeus escorreram da cornucópia europeia para Portugal e enriqueceram tantas clientelas e quadros dos partidos mais as respetivas empresas familiares, todos conhecemos as histórias que acabaram no Ministério Público e muitas outras ficaram escondidas, nunca sobrou pecúnia para construir, pelo menos, residências universitárias. Um campus universitário para a capital. Ninguém pensou nisso? O antigo regime, sim, Salazar, mandou construir o bairro dos Olivais, Encarnação e Olivais Norte, um projeto que hoje está em estado de degradação física se olharmos para os edifícios mais baratos, para acudir às chamadas carências habitacionais dos desfavorecidos. Construção social numa escala moderna. A seguir, Olivais Sul. Com o aeroporto ao lado. O projeto mobilizou arquitetos e urbanistas, quadros técnicos competentes empenhados em construir numa escala humana, com zonas verdes e acessos a transportes, para que as populações não fossem alojadas em guetos com o pretexto da renda acessível. Os Olivais foram um êxito de planeamento e construção.

Alguém se lembra, nestes anos de democracia, de um projeto habitacional com escala semelhante destinado a habitação “social”? O termo ganhou conotações de gueto de imigrantes e miseráveis, e subculturas criminosas, muitos deles desalojados por construções de luxo no centro da cidade, e ninguém quer morar num dos velhos bairros sociais, onde também não há casas. Os bairros sociais do tempo do salazarismo, justamente.

António Costa foi presidente da Câmara de Lisboa durante anos, deixando lá o herdeiro, e nunca se preocupou com o problema, que decerto conhecia e reconhecia. Quando uma capital onde se concentra a maioria dos empregos públicos e privados e dos serviços desiste de pensar na habitação dos cidadãos e pensa apenas em turismo e investimento estrangeiro em património imobiliário, muito dele especulativo, está a cavar a sepultura. O Estado considerou que o único modo de reabilitar Lisboa era vendê-la e arrendá-la a estrangeiros e atrair os turistas. Ao contrário de grandes cidades, o caldo urbano lisboeta não absorve a massa turística sem danos irreversíveis. Por cada hotel é um conjunto de casas que acaba. Tanto mais que Lisboa escolheu um modelo de desenvolvimento terceiro-mundista, com aposta forte no retalho dos centros comerciais e supermercados dentro da cidade, que destroem o comércio de rua, e nos condomínios privados, que destroem a vida comunitária e são guetos de ricos ou, agora, de estrangeiros ricos.

Confundir isto com cosmopolitismo foi o que se fez. Não passa de uma visão provinciana e imediatista, especulativa, do que deve ser a cidade. A gentrificação não foi o problema, a entrega do património habitacional disponível a forças do mercado com intenções meramente especulativas ou transitórias é, com a deficiente ou inexistente construção de preço médio, o problema. O problema das rendas é o da escassez de casas e terrenos e o pacote Mais Habitação não o resolve, antes agrava. Arrendar para congelar? Não, obrigados.

Veja-se como as pequenas e agradáveis lojas do Príncipe Real foram recentemente expulsas pelo proprietário, uma entidade chamada Eastbanc. A entidade não está interessada em pequeno comércio, um dos encantos da zona, mas em condomínios de luxo. A vida da cidade não lhe diz respeito, evidentemente. Quando se vende uma cidade com escassez de espaço e de construção a estrangeiros e seus agentes portugueses, os intermediários nacionais que têm enriquecido à custa da falácia e da falência política e social, e são muitos, não se pode pretender que seja “a Europa” a resolver o problema.

O problema pode ser transversal a outras cidades e capitais, mas o problema português é específico e mais agudo porque a deficiente visão política o gerou e não apenas os desequilíbrios do mercado. Madrid não teve o mesmo problema. E Paris construiu, muito, mas o brutal afluxo de imigrantes das ex-colónias gerou guetos políticos e polos de descontentamento e protesto, mais por razões políticas e sociais do que por deficiência da habitação económica. Muita habitação social foi um êxito, e basta comparar os subúrbios de Paris, tão mal-afamados, com os de Lisboa, uma súmula de horrores urbanísticos nas mãos de construtores civis e de labregos à solta, doadores de dinheiro para os partidos e autarcas e para os clubes de futebol. Quando o terreno lhes começou a faltar aqui rumaram para Angola, Luanda, onde continuaram a depredação.

O que resta hoje é uma população irada, já ultrapassámos o descontentamento, e uma emigração de jovens qualificados, aquilo que o primeiro-ministro chama, com cinismo, só pode ser cinismo, a geração mais qualificada de sempre. Acresce a este nó de problemas e angústias o problema dos transportes, onde o privilégio pelo transporte individual e nacionalizações improdutivas e imprudentes sem retorno, a CP é um caso exemplar, geraram poluição sem fim, um ar irrespirável, horas perdidas no trânsito e uma rede de transportes públicos irracional. Até a linha de metro foi restrita e construída sem visão. A cidade não tem uma rede rápida como têm as capitais europeias. Ainda andamos a construir um metro, com fundos europeus, quando as cidades já avançam para novos e soluções de mobilidade.

O desprezo do PS pelos problemas é visível no modo como um quadro político ao qual nunca se ouviu uma palavra sobre Lisboa é empurrado para a candidatura à Câmara. A ex-ministra da Saúde. A Câmara é um emprego político, não é um posto qualificado. Isto faz sentido em 2023? A desqualificação do pessoal político é tal que já ninguém repara. É a zona do tanto faz.

Na disfunção, a Europa surge como a mãe de todas as soluções. A Europa prepara um alargamento a leste que poderá decretar a sua ruína se correr mal, e tem tudo para correr mal, mas os portugueses são instruídos para considerarem as eleições europeias uma medição de forças entre o PS e o PSD. Deveria ser uma discussão adulta e culta sobre o alargamento e o que significa para Portugal, menos fundos, mais contribuição, menos ou nenhum peso político nas decisões do bloco se o projeto da maioria que a França e a Alemanha preparam for aprovado. A cornucópia vai deixar de pingar. Investir no leste da Europa será a prioridade. E que faremos, paralisados e anestesiados como estamos, entregues a atores políticos dependentes e incompetentes? As europeias não são um combate entre Montenegro e Costa, duas variáveis insignificantes no quadro estratégico europeu.

Até lá, viciado em pedir esmola e pedir dinheiro, Portugal está como aqueles pobres elefantes que foram retirados do seu habitat e domesticados, postos a render para o turismo. Não podem ser devolvidos à natureza porque perderam a capacidade de procurar alimento para sobreviverem. Portugal perdeu, durante anos de fundos, a capacidade e iniciativa necessárias para resolver os próprios problemas. E vai pedindo ajuda.

5.9.23

A grande reforma do SNS?

Tiago Correia, opinião, in SIC

Opinião de Tiago Correia. O país ficou a saber duma grande reforma que o SNS irá passar em 2024: a expansão das Unidades Locais de Saúde. Mas o passado mostra que uma reforma não acontece por antecipação nem por desejo do mentor. Não está em causa a discordância com o modelo, mas sinalizar que boas ideias e boas intenções não chegam para criar boas políticas. Multiplicam-se os problemas quanto à forma como as ULS estão a sair do papel.


O país ficou a saber que o SNS irá passar por uma profunda mudança em 2024: a criação de 31 novas Unidades Locais de Saúde (ULS), a somar à alteração das 8 já existentes. O cidadão não notará diferenças, dado que estão em causa alterações de orgânica e gestão: quem decide o quê e como o financiamento dos cuidados é feito. Não se conhecem pormenores, mas sabe-se que o SNS terá um ano para se adaptar a extinções de entidades e a transferências de responsabilidades.

O anúncio da mudança veio com estrondo, porque o Diretor Executivo – Fernando Araújo – prometeu tratar-se da grande reforma do SNS nos seus 44 anos. Se há algo que o passado mostra é que uma reforma não acontece por antecipação nem por desejo do mentor. Foi o caso da reforma hospitalar, da reforma dos cuidados de saúde primários ou da revisão da Lei de Bases da Saúde. Tudo isto foi anunciado com pompa e circunstância, na lógica “agora é que é”. Ainda assim, nada evitou que se chegasse a 2023 e uma nova grande reforma continue a ser necessária.

Que não haja dúvida: não está em causa a discordância com o modelo das ULS nem com Fernando Araújo. Se há algo que se percebe das suas decisões é que é bem-intencionado, está motivado e não tem receio.

Mas falta qualquer coisa e não é claro se o próprio ou o Ministro da Saúde estão cientes disso: boas ideias e boas intenções não chegam para produzir boas políticas. Para que isso aconteça é necessário assegurar a correta implementação e é aqui que os problemas das ULS se multiplicam.

Há o problema do timing, sabendo-se que tudo está a ser feito à pressa nos hospitais e centros de saúde para garantir que a mudança ocorre logo a partir de janeiro. Há o problema da intensidade, dada a pretensão de que tudo isto aconteça no espaço de um ano. Há o problema da falta de evidência, dado que as ULS existentes não deram prova inequívoca de ganhos de gestão, nem se conhecem estudos-piloto sobre o modelo “2.0” que a Direção Executiva decidiu criar.

Em resumo, o SNS será confrontado com uma transformação feita em contrarrelógio e sem evidência. Se tudo vier a acontecer como foi dito – tenho dúvidas –, uma possível boa ideia corre sérios riscos de fracassar por deficiências no modo como sai do papel. Do ponto em que me encontro, parece-me um claro sinal de que a Direção Executiva vive um misto de deslumbramento e de necessidade de fazer prova de vida.

Ora, a necessidade de prova de vida mostra o maior problema de todos: falta de legitimidade. Sem os seus estatutos aprovados, não há mandato jurídico para que a Direção Executiva do SNS imponha qualquer mudança sobre profissionais e serviços de saúde. Isso ficou claro na contenda vivida no Hospital Santa Maria, em que o braço de ferro com os obstetras apenas foi resolvido após um despacho ministerial.

É injustificado que a Direção Executiva exista sem estatutos e é injustificado que os seus membros aceitem trabalhar neste contexto. Não basta dizer que os estatutos vêm a caminho. Do mesmo modo que não se constrói uma casa a partir do telhado, não se tomam decisões políticas como aquelas que estão aqui em causa sem que primeiro se saiba quem manda em quem, com que mecanismos jurídicos as decisões são tomadas, quem monitoriza a qualidade das decisões ou como é feita a responsabilização pelos resultados.

Na ausência de enquadramento jurídico, é justo que Ordens, sindicatos e associações médicas venham criticar as ULS. Não se sabe como é que a decisão foi tomada, quem devia ter sido ouvido, quem assegurou o contraditório e, sobretudo, se tudo isto aconteceu tal como era suposto. Que ninguém se queixe, depois, de forças de bloqueio no terreno.


Aquecimento global, inteligência artificial, inflação e emprego feminino

 CÉLINE ABECASSIS-MOEDAS, opinião, in RR


Fenómenos importantes do nosso tempo impactam particularmente o emprego feminino. Primeiro, as mudanças climáticas impactam negativamente as mulheres, no trabalho e fora dele. Segundo, a inteligência artificial generativa pode vir a substituir o emprego feminino. Finalmente, a inflação traz indiretamente mais mulheres ao mercado do trabalho (depois da pandemia que as puxou fora).


Esta semana, que é de regresso às aulas, coincide também com o primeiro dia de trabalho da minha filha e, seguramente de muitas jovens mulheres. Como mãe, professora e profissional, gostava de partilhar com estas jovens mulheres como é que as grandes tendências globais como o aquecimento global, a inteligência artificial e a inflação impactam particularmente o emprego feminino!

Primeiro, o aquecimento global é, cada vez mais uma preocupação. Este verão de 2023 foi um dos mais quentes de sempre, não só na Europa, mas também no resto do mundo... e, tudo indica que vai piorar no futuro. A ex-candidata a Presidente do EUA Hillary Clinton está a alertar para esta problemática, numa vertente pouco conhecida e que impacta diretamente as mulheres, depois de ter sido conhecido um relatório com dados dos Estados Unidos, Índia e Nigéria que relaciona como o calor aumenta ainda mais a desigualdade de género.

Isto porque, muitas mulheres trabalham na “economia informal” como nos mercados de rua, a agricultura ou a construção. Por exemplo, nos mercados sem proteção para o sol, o calor estraga a comida preparada que é fonte de rendimento. Na agricultura, na India por exemplo, algumas mulheres têm de começar o dia de trabalho às quatro da manhã para evitar as horas mais quentes. Na construção, o calor no metal queima as mãos. As mulheres são particularmente afetadas nos seus empregos porque acabam por estar mais expostas. Adicionalmente, o calor tem também impacto na sua saúde e na das suas famílias de quem devem cuidar. Portanto, o aquecimento global impacta mais as mulheres e o emprego feminino.


Com o desenvolvimento do Chat GPT4, o impacto da inteligência artificial sobre o emprego é um tópico quente! Será que o impacto é diferente entre géneros? Um estudo recente mostra que a inteligência artificial pode vir a substituir mais o trabalho feminino como o administrativo, o jurídico ou o comercial.

São atividades mais expostas a automatização pela inteligência artificial generativa. Mesmo que existe mais homens do que mulheres a trabalhar, o impacto vai ser superior para as mulheres, porque 80% das mulheres trabalham em indústrias altamente expostas quando comparado com 60% dos homens.

Não sabemos ainda se esta tendência se irá confirmar no futuro ou se pelo contrário a inteligência artificial pode acabar por entrar também nas áreas industriais e logísticas, mais masculinas e reequilibrar o impacto negativo no emprego feminino.

Finalmente qual é o impacto da inflação no emprego feminino? Em 2022 escrevi um artigo sobre a recessão cor-de-rosa. Na altura da pandemia, havia evidência da saída de mulheres do mercado do trabalho porque tinham de acompanhar os filhos nos estudos em casa e porque tinham perdido emprego nas indústrias como o retalho, a hotelaria, a restauração e a educação que são tipicamente mais femininas.

Um pouco mais de um ano depois, e depois de uma guerra às portas da Europa com impacto forte na inflação e nas taxas de juros, o mundo mudou outra vez. A tendência parece que está a reverter, com as mulheres de volta ao mercado de trabalho e em força. O mesmo fenómeno aconteceu em 2007-2009 na grande recessão que trouxe mais mulheres a trabalhar.

Por causa da inflação muitas mulheres tiveram de entrar ou reentrar no mercado do trabalho. A inflação cria mais necessidades para as mulheres terem emprego, consequentemente tem impacto positivo no emprego feminino. Adicionalmente, o trabalho remoto e mais flexível facilita o trabalho das mulheres e das mães.

Em conclusão, o aquecimento global afeta a todos, mas afeta particularmente os empregos femininos e a vida das mulheres de maneira muito negativa. Pode potencialmente ser mitigado com medidas de proteção. A inteligência artificial que está a substituir o trabalho em muitas medidas vai afetar primeiro os empregos femininos, mas pode mais tarde atingir os empregos industriais e masculinos. Finalmente, e depois da pandemia que obrigou mulheres a sair do mercado trabalho, a inflação (e o trabalho remoto e flexível) estão a trazer mais mulheres ao mercado do trabalho. É essencial as mulheres terem consciência destas tendências para se preparar para as suas carreiras! Desejo a todas muita força neste novo ano letivo e o melhor para a minha filha no seu novo emprego!

4.9.23

Portugal persiste em não solucionar os problemas

Pedro Patacho, opinião, in DN


Avida política nacional perde-se em querelas sem fim. As infindáveis lutas partidárias, de fraco conteúdo, retiram espaço à discussão profunda sobre os problemas do país, as razões do nosso atraso, bem como ao debate sobre o que há a fazer para o ultrapassar. Não se vislumbra estratégia que nos retire da pobreza em que nos encontramos e que reduza a condições dificílimas de existência de quase metade dos portugueses. Nem se vislumbram as condições políticas para que essa discussão venha a ter lugar, com vista à construção de pactos políticos firmes e duradouros, que deem um rumo ao país e garantam aos cidadãos segurança na governação. Parece que queremos ser pobres. Não admira que muitos dos jovens qualificados, sentindo que Portugal deles desistiu, desistam de Portugal.


Esta situação impede a solução dos problemas do país. A título de exemplo, retiro três, da esfera da Educação, a saber:


1. Luís Cabral, professor na New York University, veio às Conferências do Estoril dizer, entre outras coisas, que a Educação de Infância é possivelmente o nível com maior retorno potencial para o desenvolvimento económico das nações e para a construção de sociedades justas e sustentáveis. Constatou, por exemplo, as enormes diferenças de desenvolvimento que é possível identificar aos 2 ou 3 anos de idade, em crianças expostas a diferentes ambientes e estímulos. Há muito que Portugal já deveria ter uma rede universal e gratuita de educação para a infância, paralelamente a uma forte política de incentivo à natalidade e apoio às famílias.

2. A instabilidade da Educação Básica e Secundária mantém-se. Já foram anunciadas greves para o primeiro dia de aulas e ao longo do mês de setembro. Continua a contenda sobre o tempo de serviço congelado e não-devolvido aos docentes. Conhecidos os resultados da colocação de professores, restaram 858 horários por atribuir. Não há docentes suficientes para preencher as necessidades, o que se vai agravar com as aposentações e determinar que muitos alunos fiquem sem todos os professores (pelo menos profissionalizados). Retirados os créditos horários para a recuperação das aprendizagens, haverá menos condições de apoio aos mais penalizados pela turbulência escolar. A burocracia, que asfixia as escolas e os professores, orienta todos para a transição de ano. A avaliação externa, cada vez menos exigente, vai traduzindo os pobres resultados nas várias disciplinas.


3. Publicados os resultados da primeira fase do acesso ao Ensino Superior, ficámos a saber que foram colocados 49 438 estudantes. Quantos ficarão pelo caminho porque não conseguem alugar um quarto, ter acesso a uma residência ou suportar os custos da frequência universitária? As bolsas não são suficientes nem resolvem tudo. Os portugueses têm rendimentos baixíssimos face ao custo de vida, que continua a aumentar. Em 2022 foram 10,8% os estudantes que abandonaram as suas licenciaturas no 1.º ano. O sistema produz anualmente cerca de 94 000 diplomados. Mas, paradoxalmente, em apenas um ano abandonaram o país cerca de 128 000 trabalhadores com Ensino Superior, muitos deles jovens. Que sentido faz tudo isto?


Professor do Ensino Superior

1.9.23

Os sem-abrigo e o jogo do empurra

António Capinha, opinião, in DN


Recuámos tão atrás quanto os meios digitais nos permitem para analisarmos as declarações políticas sobre os sem-abrigo. Desde 2015 que a nossa busca se revelou profícua em afirmações de protagonistas políticos sobre a urgência de acabar com os sem-abrigo em Portugal. António Costa, em 2015, então Presidente da Câmara de Lisboa, manifestava a necessidade de "devolver dignidade aos sem-abrigo".

O tema foi estando presente, sucessivamente, na agenda mediática, com afirmações do socialista Vieira da Silva, então responsável máximo no ministério da Solidariedade, quando falava da "integração dos sem-abrigo na sociedade". Marcelo Rebelo de Sousa foi, mais tarde, o paladino deste combate no conveniente período natalício de 2018 quando afirmava que "estar em cima da realidade social dos sem-abrigo era muito importante".


Pois bem! Vejamos então os resultados, actuais, desta sucessiva prosápia política.

Em 2018, números de Lisboa, havia 2473 cidadãos sem um tecto para dormirem. Em 2022, ainda na capital, existiam 3138. O número dos sem-abrigo em 2021, em todo o país, era de 9604, sendo que um terço "vive" em Lisboa.


A mesma Lisboa onde, em 2022, o número de pessoas sem-abrigo ascendia aos 394. Para constatar esta realidade basta, aliás, percorrer algumas ruas da cidade.

O orçamento dedicado ao assunto, apesar de ter aumentado ao longo dos anos, tem-se revelado, manifestamente, insuficiente. Em 2022, em Lisboa, foram gastos 5,7 milhões de euros com a protecção dos sem-abrigo. Em 2019 esse valor tinha sido de 1,6 milhões de euros, tendo ascendido aos 4,2 milhões de euros em 2021.


Com este panorama ficámos surpreendidos com a notícia da situação de braço de ferro que existe entre o Governo e a Câmara de Lisboa a propósito de necessidade de encontrar, em Lisboa, um espaço alternativo para albergar, provisoriamente, os sem-abrigo que vivem, actualmente, no Quartel de Santa Bárbara em Arroios. Nesta velha unidade militar da GNR, em boa hora, vão ser construídos 240 fogos de renda acessível, pelo que o espaço deverá ser desocupado até 30 de Setembro. Para o efeito, Carlos Moedas pediu ao Executivo de António Costa a cedência de um espaço que recebesse (repito, provisoriamente) os sem- abrigo do Quartel de Santa Bárbara. A resposta, sob a forma de um rotundo não, veio da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho.

Ó vida! Mas será que no dimensionado património imobiliário de Estado não haverá um espaço para receber (digo outra vez, provisoriamente) os sem-abrigo do Quartel de Santa Bárbara? Então Sra. ministra? Procurou bem? A Sra. ministra acha mesmo que responder à Câmara de Lisboa "que a situação dos sem-abrigo é da responsabilidade das entidades locais" é uma resposta que se dê para uma questão desta gravidade?


É no mínimo lamentável que, para um assunto com esta sensibilidade social, não exista um patamar de entendimento entre a Câmara de Lisboa e o Governo. Já sabemos que pactos de regime e plataformas de entendimento não é coisa que esteja no ADN dos partidos que nos representam. Mas caramba! Trata-se de dar um tecto a concidadãos nossos que dele necessitam.

Talvez não seja má ideia, então, a Sra. ministra Ana Mendes Godinho reler o discurso de tomada de posse do primeiro-ministro António Costa em Outubro de 2019, quando este prometeu uma "maioria de diálogo. De diálogo parlamentar, político e social".

E, assim, colocar em prática este salutar princípio político que António Costa fez questão de escolher para o solene momento da sua tomada de posse.

Esta questão dos sem-abrigo é, deste modo, uma excelente oportunidade para materializar as promessas políticas do Governo e acabar com o jogo do empurra numa questão tão prioritária como dar um tecto a quem precisa dele.