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18.9.23

“Haverá algum sobrevivente nos escombros?” Isso pouco interessa

Gustavo Carona, opinião, in Público

Em Portugal somos analfabetos humanitários. As pessoas não sabem a diferença entre voluntariado e humanitarismo, e por isso acham que tudo se resolve dando “uma ajudinha”.

A semana passada, mal vejo uma chamada de um número que não conheço a um sábado à tarde, antes de atender, percebi logo que era a comunicação social. Aceitei colaborar, mas na dúvida se não estaria a ser um bocado impostor.


O terramoto da Turquia e da Síria ainda está muito fresco. Há sete meses, eu tinha tirado uns dias para arejar as ideias num local lindo de morrer com esperança de carregar algumas alegrias, mas saiu-me o plano furado. Ao ver as notícias da Turquia e com extensão para o noroeste da Síria, eu fiquei a chorar, aninhado em posição fetal. As minhas memórias da guerra da Síria já têm uns anos, mas são de uma intensidade tão grande que ainda as sinto mesmo aqui perto. Uma chacina fratricida com 12 anos, que deixou 5 milhões de pessoas num estado de profunda miséria, cercadas pela maldade do seu ditador sanguinário, e, em cima, um terramoto altamente destruidor. Isto já não é só sofrer, isto já é ser torturado.

A minha revolta interior foi tão profunda que me levou a escrever nas minhas redes sociais algo parecido com “digam-me onde está a justiça divina?”, “digam-me onde anda o famoso Karma?”, expliquem-me aquele cliché vazio que muitas pessoas adoram “tudo acontece por uma razão.” Qual é então a razão para estas pessoas nascerem condenadas à morte, ou pior, a uma vida em sofrimento?


Aceitei então dar todas as entrevistas que me solicitaram e escrevi o mais que pude. A pergunta que mais me faziam na TV era “haverá algum sobrevivente nos escombros?” Só para não ser mal-educado é que não contrapunha com “é mesmo isso que vos interessa?” Eu compreendo que a maioria das pessoas queira ouvir coisas espetaculares, mas o que eu queria era driblar essas perguntas sensacionalistas que têm utilidade nula e tentar contribuir para aquilo a que eu chamo literacia humanitária.


A sociedade civil sente, comove-se, e quer pôr a sua acção no trajecto do coração, mas não faz a mínima ideia de como fazê-lo. Então proliferam as acções avulsas de recolha de roupa suja, pacotes de arroz e paracetamol. E, ainda, as vontades impulsivas de ir para o local sabe-se lá fazer o quê.


Não me levem a mal, estas vontades e estes impulsos são genuinamente o melhor de nós, e deles, por vezes, nascem coisas válidas. Mas querer ajudar e saber ajudar são coisas muito distintas. Em Portugal somos analfabetos humanitários. As pessoas não sabem a diferença entre voluntariado e humanitarismo, e por isso acham que tudo se resolve dando “uma ajudinha”, mas apenas enquanto estas tristezas passam na TV.

Depois de receber umas largas dezenas de mensagens de pessoas a dizerem-me que queriam ir para a Turquia, eu escrevi nas minhas redes sociais algo como: “Se daqui a um mês ainda quiserem ir para a Turquia, eu levo-vos de mão dada à porta de uma organização humanitária que esteja no terreno.” Sabem o que é que aconteceu passado um mês? Nada. Zero mensagens. Passaram os desejos ardentes de ajudar quem tanto precisa...

Perdi três dias de suposto descanso, por estar constantemente a ler, a estudar, a preparar-me para estar à altura do desafio de comunicação que tinha essencialmente dois objetivos: 1) explicar às pessoas a importância e a complexidade do profissionalismo humanitário, e a melhor forma de transformar a nossa boa vontade, em impacto positivo na vida dos que estão a sofrer; e 2) que as pessoas olhassem para a Síria com o coração, o que já não acontece há muitos anos, porque a guerra continuou mas os nossos corações fugiram. Senti-me útil nestes propósitos.


Embora em menor escala, tentei fazer o mesmo com a catástrofe em Marrocos. Depois de algumas intervenções, passados quatro dias do terramoto recebi um convite da SIC Notícias para comentar se ainda haveria sobreviventes nos escombros, e recusei. Não via utilidade nem médica, nem humanitária, e até senti que chocava de frente com o que eu acredito que é importante. A produção perguntou-me então o que me parecia importante dizer, e eu respondi: “O que verdadeiramente interessa. O pós-crise.”


Quando recebi as notícias da Líbia, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Até no timing tiveram azar, porque desgraça em cima de desgraça não vende.” Apesar do incidente ser muito mais mortal e destruidor, e num povo muito mais susceptível, as atenções e as ajudas vão ser muito mais diminutas do que para Marrocos.

Várias vezes repito que, numa guerra, as pessoas morrem muito menos dos tiros e das bombas do que de tudo o resto. As pessoas morrem por tudo e por nada quando um Estado deixa de funcionar. E a forma como a cidade de Derna no leste da Líbia foi rasgada a meio pelas cheias é só uma prova disso mesmo. Há várias dimensões da análise desta catástrofe.

Numa guerra, as pessoas morrem muito menos dos tiros e das bombas do que de tudo o resto


Alterações climáticas. Fenómenos como a tempestade Daniel estão a ser comprovadamente mais frequentes pelo aquecimento global, como nos evidencia o recorde histórico da temperatura média dos oceanos no início de Agosto, que catalisa estes extremos climáticos. Choveu em 24 horas o equivalente a um ano.

A Líbia é um Estado falhado, a contas com uma terrível guerra civil desde 2011. A não manutenção das duas barragens que colapsaram é uma consequência da guerra. Há cerca de um ano, foi feito um relatório que apontava para a perigosidade das mesmas e nada foi feito.

A grande maioria das mortes, que caminham para 20.000 numa cidade que tinha cerca de 100.000 habitantes, podia ter sido evitada com algo tão simples como alertas das autoridades, se os serviços meteorológicos não estivessem anárquicos por causa da guerra, como referiu a Organização Mundial Meteorológica.

No entanto, quando passa a urgência e a atenção dos media, ainda está tudo por fazer. É inevitável que as notícias mudem rapidamente para outro foco qualquer, mas quem quer, efectivamente, salvar vidas e aliviar o sofrimento deve perceber que o trabalho mais importante começa agora.


Todos temos picos de empatia, e ainda bem, mas transformar essa emoção tão bonita em consistência exige algum trabalho. Já alguém se lembrou de saber como é que está o pós-crise da Turquia e da Síria? 17 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária, segundo a Cruz Vermelha. E só quem é educado a compreender estes fenómenos é que compreende a importância da continuidade e do profissionalismo humanitário.

Lutar por um mundo melhor não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona.

As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel António da Mota a favor dos Médicos sem Fronteiras

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

12.9.23

Marrocos: “O importante é ajudar as pessoas”, o resto “é para esquecer”

Renata Monteiro (texto) e Tiago Bernardo Lopes (fotos), in Público


A descida das temperaturas em Marrocos é agora mais uma preocupação para quem passou a quarta noite ao relento depois do sismo. As equipas de intervenção já só esperam recuperar corpos dos escombros.


20 quilómetros de Talat N’Yaaqoub, o trânsito avança num só sentido, demorado. O jipe de caixa aberta de seis amigos de Tahanout está paralisado na fila há 20 minutos, carregado de água, comida, sapatos. Abderrahim Bouaadi, 23 anos, está demasiado alerta para ficar tão parado. “O que esperamos é que a situação vá ficando cada vez mais grave quanto mais subirmos”, diz, em voz alta, mas como se se estivesse a preparar mentalmente para o que os aguarda nas aldeias mais remotas das montanhas do Atlas, onde a ajuda começa finalmente a chegar. Não precisaram de avançar muito mais. A aldeia a seguir está arrasada. “As pessoas estão a sofrer. Ajudar o outro é um valor da nossa religião — da humanidade, provavelmente. É por isso que vamos.”

Demora-se cinco horas a percorrer os 100 quilómetros entre Marraquexe e Talat N’Yaaqoub, uma comuna rural montanhosa na província de Al-Haouz, muito próxima do epicentro do terramoto que provocou 2852 mortes, no último balanço oficial.


A20 quilómetros de Talat N’Yaaqoub, o trânsito avança num só sentido, demorado. O jipe de caixa aberta de seis amigos de Tahanout está paralisado na fila há 20 minutos, carregado de água, comida, sapatos. Abderrahim Bouaadi, 23 anos, está demasiado alerta para ficar tão parado. “O que esperamos é que a situação vá ficando cada vez mais grave quanto mais subirmos”, diz, em voz alta, mas como se se estivesse a preparar mentalmente para o que os aguarda nas aldeias mais remotas das montanhas do Atlas, onde a ajuda começa finalmente a chegar. Não precisaram de avançar muito mais. A aldeia a seguir está arrasada. “As pessoas estão a sofrer. Ajudar o outro é um valor da nossa religião — da humanidade, provavelmente. É por isso que vamos.”

Demora-se cinco horas a percorrer os 100 quilómetros entre Marraquexe e Talat N’Yaaqoub, uma comuna rural montanhosa na província de Al-Haouz, muito próxima do epicentro do terramoto que provocou 2852 mortes, no último balanço oficial.


Ontem, as equipas de intervenção já só esperavam recuperar corpos dos escombros. Frente a eles, os familiares aguardam sentados em cadeiras de plástico brancas, olhando distraidamente para o céu quando ouvem mais um helicóptero ou drone de buscas. Já não esperam. “Parei de contar, foram muitos hoje”, desabafa um bombeiro que avança para o acampamento, para descansar. Não foi possível apurar quantas pessoas estão ainda desaparecidas.

Em algumas cidades rurais mais pequenas, como Asni, o exército montou tendas azuis e um hospital para a população que agora dorme à beira da estrada, junto às casas que desabaram nas escarpas.


Mais à frente, em Ouirgane, uma unidade de saúde móvel está prestes a abrir. Segundo o responsável do Ministério da Saúde marroquino, que ultimava os preparativos das salas de consulta, a unidade é um dos “vários hospitais civis e militares” que fazem triagem das vítimas, prestam primeiros socorros e ajuda social e psicológica nas aldeias das montanhas do Atlas. “O mais importante é salvar as pessoas, tratá-las bem, dar-lhes medicamentos e apoio psicológico. Tudo o resto são problemas para esquecer”, disse, ao lado dos médicos e enfermeiros que esperavam para saber para onde seriam destacados.

Minutos depois, chega a primeira paciente: uma mulher grávida entra apoiada no marido, que leva o filho pela outra mão. Em frente, um casal de médicos alemães, a viver em Espanha, aguardam para saber se precisam e aceitam ajuda.


Na estrada que acompanha o vale do rio Nfis, passam de um lado para o outro camiões do exército com militares, ambulâncias de sirenes e piscas ligados e carrinhas Mercedes com mantimentos no tejadilho, que as motas vão agilmente serpenteando. Os carros levam malas cheias de khobzs, pães achatados empilhados como discos.

A descida das temperaturas é agora mais uma preocupação para as pessoas que passaram a quarta noite ao relento. “Disseram que a terra da montanha aquece e nos manterá quentes e é por isso que estamos aqui”, comenta Maryam Malal, 25 anos, uma professora primária de Agadir que voltou à aldeia onde cresceu depois do sismo para ajudar a prima, que tem na tenda improvisada de madeira e panos uma bebé de 15 dias, Maria. “Precisamos de ajuda para reconstruir as casas. Porque podemos trazer comida, mas muitos perderam as casas e são pobres, muito pobres, não as conseguem reconstruir.”


Os marroquinos que ficaram com a casa danificada ou destruída esperam que o rei Mohamed VI cumpra a promessa de criar um programa de emergência para a reconstrução de habitações, muitas delas construções de terra, um método tradicional de que as populações nativas se orgulham.



Em Talat N’Yaaqoub, um homem de casaco preto anda às voltas, mãos cruzadas atrás das costas e cabeça baixa. “É o meu pai que está ali em baixo”, grita, quando as equipas de resgate sinalizam que encontraram mais duas pessoas. O resto acontece tudo muito rápido: dezenas de homens formam um comboio que passa o mais rápido possível por todos os que assistem, expectantes. No meio levam uma maca com um corpo tapado por um lençol e uma multidão segue-os até à ambulância onde se certificam que a maca é cuidadosamente colocada e levada para longe. Depois, só ficam os choros.


No mesmo descampado onde famílias e vizinhos se abraçaram, dois helicópteros militares aterram à vez para transportarem para os hospitais os feridos mais graves, pó a voar por todo o lado quando levantam. Já de noite, um militar refugia-se da confusão e, sentado no que era a entrada da casa de alguém, tira as botas, o boné, exala e dá um golo no chá. Por trás dele, as ambulâncias continuam a chegar e a partir. Ele calça as botas, puxa o fecho, e vai também.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]


27.3.19

Quase 2 milhões de moçambicanos precisam de ajuda urgente

in SicNotícias

ONU estima que 1,85 milhões de pessoas em Moçambique precisam de assistência após a passagem do ciclone Idai.
A agência da ONU para a ajuda humanitária OCHA calcula, no seu último relatório da situação, que 1,85 milhões de pessoas precisam de assistência urgente em Moçambique após a passagem do ciclone Idai em Moçambique, Zimbabué e Malawi.

"Alguns [afetados] estão em situações de perigo de vida. Alguns infelizmente vão perder os seus meios de subsistência, o que é uma tragédia assustadora mas não é uma ameaça imediata", disse o coordenador da OCHA à Reuters, Sebastian Rhodes Stampa.

Segundo o último balanço, 762 pessoas morreram nos três países à passagem do ciclone a 14 de março, 446 em Moçambique.

Números da ONU relativos a Moçambique

Mortos - 446
Feridos - mais de 1500
Casas destruídas - mais de 58.600
Culturas destruídas - cerca de 500 mil ha
O Governo moçambicano adiantou que estes números ainda são provisórios, já que à medida que o nível da água vai descendo vão aparecendo mais corpos.

Segundo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), a população afetada pelo ciclone Idai em Moçambique subiu para 794 mil e o número de mortos para 447.
Em relação a domingo, o instituto acrescenta uma vítima mortal aos dados divulgados e aumenta em 50% o número de pessoas atingidas.
Esta população afetada não significa que esteja "em risco de vida".

"São pessoas que perderam as casas" ou que estão "em zonas isoladas e que precisam de assistência", explicou no domingo o ministro da Terra e Ambiente, Celso Correia.
Por seu lado, o número de salvamentos faz com que os centros de acolhimento continuem a encher e registem já 128.941 entradas (mais 18% que no domingo), das quais 6.500 dizem respeito a pessoas vulneráveis - por exemplo, idosos e grávidas que recebem assistência particular.

30.11.15

Catástrofes naturais. Mais de 600 mil mortos em 20 anos, diz a ONU

in iOnline

Relatório da ONU revela que nas últimas duas décadas quase 90% das mortes causadas por desastres naturais aconteceram em países pobres.

Cheias, tempestades e furacões, tsunamis: os desastres naturais são cada vez mais frequentes e cada vez mais demolidores. Desde 1995, estas catástrofes mataram 606 mil pessoas, uma média de 30 mil por ano, com 4,1 mil milhões de pessoas feridas, que perderam as suas casas ou ficaram com necessidade de ajuda urgente. Os números foram compilados e divulgados pelo gabinete da ONU para a redução dos riscos de catástrofes (UNISDR) e mostram ainda que a grande maioria destas mortes (89%) ocorreram em países de fracos rendimentos e causaram perdas financeiras avaliadas em 1,8 mil milhões de euros.

“O conteúdo deste relatório sublinha a importância de um novo acordo sobre alterações climáticas” na conferência do clima (COP21), afirmou a directora do gabinete, Margareta Wahlstorm. A COP21, que vai ter lugar em Bourget, na periferia nordeste de Paris, tem como principal objectivo fazer com que os 195 países assumam um acordo mundial para atenuar o aquecimento global. Em cima da mesa vai estar o compromisso dos países para conter a subida das temperaturas a 2 oC relativamente à era pré-industrial.

Ana Rita Antunes, do grupo de trabalho Energia e Alterações Climáticas da Quercus, explica que os países em de-senvolvimento são os que mais sofrem as consequências das grandes catástrofes porque são justamente aqueles que “têm piores de condições de vida e menos capacidade de resposta a estas calamidades, quer na prevenção quer na actuação”. E é por isso que estão a fazer pressão para que na cimeira do clima se chegue a um acordo sobre a redução das emissões de carbono, por um lado, e a pedir maior financiamento aos mais ricos para lidarem com estes fenómenos.

Para Ana Rita Antunes, não se trata de “culpar”as grandes potências, mas sim de responsabilizá-las. “Têm por um lado uma responsabilidade histórica sobre este novo fenómeno das alterações climáticas: foram os primeiros a emitir gases com efeito de estufa”, recorda. Por outro lado, Ana Rita sublinha que têm capacidade financeira que os países em desenvolvimento não têm. “Daí a questão do financiamento para mitigação e adaptação ser uma questão fundamental para os países em desenvolvimento, que deve constar do futuro acordo de Paris”, resume a especialista.
De resto, há uma ligação forte entre as calamidades e o nível de pobreza destas regiões mais afectadas que, continuando a sofrer cada vez mais fenómenos desta natureza, dificilmente deixarão de ser pobres. Recentemente, Barack Obama pediu a todos os líderes mundiais que não poupem esforços na missão de atingir um “forte acordo” sobre o clima, avisando que “todos os países serão afectados pelas alterações climáticas, mas serão os mais pobres a carregar o fardo”.

As alterações climáticas e todos os fenómenos meteorológicos associados são encarados pela ONU como uma “ameaça à erradicação da pobreza extrema no mundo”. De acordo com o relatório, “as catástrofes climáticas são cada vez mais frequentes, sobretudo devido ao aumento consistente do número de inundações e tempestades”, pode ler-se.

Cheias As inundações representaram, por si só, 47% das catástrofes climáticas entre 1995 e 2015 e afectaram 2,3 mil milhões de pessoas, 95% das quais na Ásia. Apesar de menos frequentes que as inundações, as tempestades foram as catástrofes climáticas mais mortíferas, com 242 mil mortos. Ao todo, os Estados Unidos e a China registaram o maior número de catástrofes desde 1995, devido à dimensão territorial. Mas a China e a Índia lideram o ranking dos países mais atingidos em termos de população afectada. Seguem-se o Bangladesh, Filipinas e Tailândia. Na América, o Brasil é o país onde a população foi mais castigada e, em África, o Quénia e a Etiópia.

E em Portugal? Nos últimos anos, o país também já foi castigado por cheias. Em 2010, na Madeira, 47 pessoas perderam a vida devido a um forte temporal e deslizamentos de terras. Três anos depois, no Faial (Açores), três pessoas morreram pelas mesmas razões. No mês passado, Albufeira viu-se completamente envolta em lama depois de uma enxurrada.

Sendo um país com muitas vulnerabilidades, Portugal está a preparar-se para os riscos das alterações climáticas através do projecto ClimAdaPT, que envolve especialistas da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), da Quercus e do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em colaboração com 26 municípios portugueses.
Esta equipa de especialistas prevê que Portugal venha a enfrentar fenómenos de precipitação excessiva, causando cheias e inundações rápidas, deslizamentos de terras e danos em infra-estruturas. Apesar de poderem vir a ser menos frequentes, irão ser mais intensos. Além de cheias, o país vai enfrentar mais ondas de calor, secas “progressivamente mais frequentes e intensas até 2100”, assim como a subida do nível do mar.

25.11.15

Catástrofes naturais. Mais de 600 mil mortos em 20 anos, diz a ONU

Melissa Lopes, in iOnline

Relatório da ONU revela que nas últimas duas décadas quase 90% das mortes causadas por desastres naturais aconteceram em países pobres.

Cheias, tempestades e furacões, tsunamis: os desastres naturais são cada vez mais frequentes e cada vez mais demolidores. Desde 1995, estas catástrofes mataram 606 mil pessoas, uma média de 30 mil por ano, com 4,1 mil milhões de pessoas feridas, que perderam as suas casas ou ficaram com necessidade de ajuda urgente. Os números foram compilados e divulgados pelo gabinete da ONU para a redução dos riscos de catástrofes (UNISDR) e mostram ainda que a grande maioria destas mortes (89%) ocorreram em países de fracos rendimentos e causaram perdas financeiras avaliadas em 1,8 mil milhões de euros.

“O conteúdo deste relatório sublinha a importância de um novo acordo sobre alterações climáticas” na conferência do clima (COP21), afirmou a directora do gabinete, Margareta Wahlstorm. A COP21, que vai ter lugar em Bourget, na periferia nordeste de Paris, tem como principal objectivo fazer com que os 195 países assumam um acordo mundial para atenuar o aquecimento global. Em cima da mesa vai estar o compromisso dos países para conter a subida das temperaturas a 2 oC relativamente à era pré-industrial.

Ana Rita Antunes, do grupo de trabalho Energia e Alterações Climáticas da Quercus, explica que os países em desenvolvimento são os que mais sofrem as consequências das grandes catástrofes porque são justamente aqueles que “têm piores de condições de vida e menos capacidade de resposta a estas calamidades, quer na prevenção quer na actuação”. E é por isso que estão a fazer pressão para que na cimeira do clima se chegue a um acordo sobre a redução das emissões de carbono, por um lado, e a pedir maior financiamento aos mais ricos para lidarem com estes fenómenos.

Para Ana Rita Antunes, não se trata de “culpar”as grandes potências, mas sim de responsabilizá-las. “Têm por um lado uma responsabilidade histórica sobre este novo fenómeno das alterações climáticas: foram os primeiros a emitir gases com efeito de estufa”, recorda. Por outro lado, Ana Rita sublinha que têm capacidade financeira que os países em desenvolvimento não têm. “Daí a questão do financiamento para mitigação e adaptação ser uma questão fundamental para os países em desenvolvimento, que deve constar do futuro acordo de Paris”, resume a especialista.

De resto, há uma ligação forte entre as calamidades e o nível de pobreza destas regiões mais afectadas que, continuando a sofrer cada vez mais fenómenos desta natureza, dificilmente deixarão de ser pobres. Recentemente, Barack Obama pediu a todos os líderes mundiais que não poupem esforços na missão de atingir um “forte acordo” sobre o clima, avisando que “todos os países serão afectados pelas alterações climáticas, mas serão os mais pobres a carregar o fardo”.

As alterações climáticas e todos os fenómenos meteorológicos associados são encarados pela ONU como uma “ameaça à erradicação da pobreza extrema no mundo”. De acordo com o relatório, “as catástrofes climáticas são cada vez mais frequentes, sobretudo devido ao aumento consistente do número de inundações e tempestades”, pode ler-se.

Cheias As inundações representaram, por si só, 47% das catástrofes climáticas entre 1995 e 2015 e afectaram 2,3 mil milhões de pessoas, 95% das quais na Ásia. Apesar de menos frequentes que as inundações, as tempestades foram as catástrofes climáticas mais mortíferas, com 242 mil mortos. Ao todo, os Estados Unidos e a China registaram o maior número de catástrofes desde 1995, devido à dimensão territorial. Mas a China e a Índia lideram o ranking dos países mais atingidos em termos de população afectada. Seguem-se o Bangladesh, Filipinas e Tailândia. Na América, o Brasil é o país onde a população foi mais castigada e, em África, o Quénia e a Etiópia.

E em Portugal? Nos últimos anos, o país também já foi castigado por cheias. Em 2010, na Madeira, 47 pessoas perderam a vida devido a um forte temporal e deslizamentos de terras. Três anos depois, no Faial (Açores), três pessoas morreram pelas mesmas razões. No mês passado, Albufeira viu-se completamente envolta em lama depois de uma enxurrada.

Sendo um país com muitas vulnerabilidades, Portugal está a preparar-se para os riscos das alterações climáticas através do projecto ClimAdaPT, que envolve especialistas da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), da Quercus e do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em colaboração com 26 municípios portugueses.

Esta equipa de especialistas prevê que Portugal venha a enfrentar fenómenos de precipitação excessiva, causando cheias e inundações rápidas, deslizamentos de terras e danos em infra-estruturas. Apesar de poderem vir a ser menos frequentes, irão ser mais intensos. Além de cheias, o país vai enfrentar mais ondas de calor, secas “progressivamente mais frequentes e intensas até 2100”, assim como a subida do nível do mar.