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12.9.23

Marrocos: “O importante é ajudar as pessoas”, o resto “é para esquecer”

Renata Monteiro (texto) e Tiago Bernardo Lopes (fotos), in Público


A descida das temperaturas em Marrocos é agora mais uma preocupação para quem passou a quarta noite ao relento depois do sismo. As equipas de intervenção já só esperam recuperar corpos dos escombros.


20 quilómetros de Talat N’Yaaqoub, o trânsito avança num só sentido, demorado. O jipe de caixa aberta de seis amigos de Tahanout está paralisado na fila há 20 minutos, carregado de água, comida, sapatos. Abderrahim Bouaadi, 23 anos, está demasiado alerta para ficar tão parado. “O que esperamos é que a situação vá ficando cada vez mais grave quanto mais subirmos”, diz, em voz alta, mas como se se estivesse a preparar mentalmente para o que os aguarda nas aldeias mais remotas das montanhas do Atlas, onde a ajuda começa finalmente a chegar. Não precisaram de avançar muito mais. A aldeia a seguir está arrasada. “As pessoas estão a sofrer. Ajudar o outro é um valor da nossa religião — da humanidade, provavelmente. É por isso que vamos.”

Demora-se cinco horas a percorrer os 100 quilómetros entre Marraquexe e Talat N’Yaaqoub, uma comuna rural montanhosa na província de Al-Haouz, muito próxima do epicentro do terramoto que provocou 2852 mortes, no último balanço oficial.


A20 quilómetros de Talat N’Yaaqoub, o trânsito avança num só sentido, demorado. O jipe de caixa aberta de seis amigos de Tahanout está paralisado na fila há 20 minutos, carregado de água, comida, sapatos. Abderrahim Bouaadi, 23 anos, está demasiado alerta para ficar tão parado. “O que esperamos é que a situação vá ficando cada vez mais grave quanto mais subirmos”, diz, em voz alta, mas como se se estivesse a preparar mentalmente para o que os aguarda nas aldeias mais remotas das montanhas do Atlas, onde a ajuda começa finalmente a chegar. Não precisaram de avançar muito mais. A aldeia a seguir está arrasada. “As pessoas estão a sofrer. Ajudar o outro é um valor da nossa religião — da humanidade, provavelmente. É por isso que vamos.”

Demora-se cinco horas a percorrer os 100 quilómetros entre Marraquexe e Talat N’Yaaqoub, uma comuna rural montanhosa na província de Al-Haouz, muito próxima do epicentro do terramoto que provocou 2852 mortes, no último balanço oficial.


Ontem, as equipas de intervenção já só esperavam recuperar corpos dos escombros. Frente a eles, os familiares aguardam sentados em cadeiras de plástico brancas, olhando distraidamente para o céu quando ouvem mais um helicóptero ou drone de buscas. Já não esperam. “Parei de contar, foram muitos hoje”, desabafa um bombeiro que avança para o acampamento, para descansar. Não foi possível apurar quantas pessoas estão ainda desaparecidas.

Em algumas cidades rurais mais pequenas, como Asni, o exército montou tendas azuis e um hospital para a população que agora dorme à beira da estrada, junto às casas que desabaram nas escarpas.


Mais à frente, em Ouirgane, uma unidade de saúde móvel está prestes a abrir. Segundo o responsável do Ministério da Saúde marroquino, que ultimava os preparativos das salas de consulta, a unidade é um dos “vários hospitais civis e militares” que fazem triagem das vítimas, prestam primeiros socorros e ajuda social e psicológica nas aldeias das montanhas do Atlas. “O mais importante é salvar as pessoas, tratá-las bem, dar-lhes medicamentos e apoio psicológico. Tudo o resto são problemas para esquecer”, disse, ao lado dos médicos e enfermeiros que esperavam para saber para onde seriam destacados.

Minutos depois, chega a primeira paciente: uma mulher grávida entra apoiada no marido, que leva o filho pela outra mão. Em frente, um casal de médicos alemães, a viver em Espanha, aguardam para saber se precisam e aceitam ajuda.


Na estrada que acompanha o vale do rio Nfis, passam de um lado para o outro camiões do exército com militares, ambulâncias de sirenes e piscas ligados e carrinhas Mercedes com mantimentos no tejadilho, que as motas vão agilmente serpenteando. Os carros levam malas cheias de khobzs, pães achatados empilhados como discos.

A descida das temperaturas é agora mais uma preocupação para as pessoas que passaram a quarta noite ao relento. “Disseram que a terra da montanha aquece e nos manterá quentes e é por isso que estamos aqui”, comenta Maryam Malal, 25 anos, uma professora primária de Agadir que voltou à aldeia onde cresceu depois do sismo para ajudar a prima, que tem na tenda improvisada de madeira e panos uma bebé de 15 dias, Maria. “Precisamos de ajuda para reconstruir as casas. Porque podemos trazer comida, mas muitos perderam as casas e são pobres, muito pobres, não as conseguem reconstruir.”


Os marroquinos que ficaram com a casa danificada ou destruída esperam que o rei Mohamed VI cumpra a promessa de criar um programa de emergência para a reconstrução de habitações, muitas delas construções de terra, um método tradicional de que as populações nativas se orgulham.



Em Talat N’Yaaqoub, um homem de casaco preto anda às voltas, mãos cruzadas atrás das costas e cabeça baixa. “É o meu pai que está ali em baixo”, grita, quando as equipas de resgate sinalizam que encontraram mais duas pessoas. O resto acontece tudo muito rápido: dezenas de homens formam um comboio que passa o mais rápido possível por todos os que assistem, expectantes. No meio levam uma maca com um corpo tapado por um lençol e uma multidão segue-os até à ambulância onde se certificam que a maca é cuidadosamente colocada e levada para longe. Depois, só ficam os choros.


No mesmo descampado onde famílias e vizinhos se abraçaram, dois helicópteros militares aterram à vez para transportarem para os hospitais os feridos mais graves, pó a voar por todo o lado quando levantam. Já de noite, um militar refugia-se da confusão e, sentado no que era a entrada da casa de alguém, tira as botas, o boné, exala e dá um golo no chá. Por trás dele, as ambulâncias continuam a chegar e a partir. Ele calça as botas, puxa o fecho, e vai também.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]


26.7.23

Já não há hotéis na ‘terra da fraternidade’ e uma noite num dos empreendimentos de luxo pode chegar a €1650

TEXTO CARLA TOMÁS FOTOS TIAGO MIRANDA, in Expresso

Zeca Afonso teria de “montar uma tenda para dormir” em Grândola

Megaempreendimentos como o Costa Terra alimentam a especulação imobiliária

A Pensão Fim do Mundo, onde Zeca Afonso ficou quando há 59 anos compôs a letra da canção que homenageia a “terra da fraternidade”, já não é mais uma pensão. Tal como a Residencial Vila Morena já não é uma residencial e o Hotel Dom Jorge de Lencastre já não é um hotel. Estes três estabelecimentos foram transformados em alojamentos que servem de dormitório de funcionários e trabalhadores contratados pelos megaempreendimentos turísticos de luxo em construção ou já em funcionamento no concelho.

“Não se encontra na vila de Grândola um único hotel ou pensão onde se possa pernoitar por preços acessíveis uma ou duas noites”, garante Luís Vital Alexandre, presidente da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. E usa a ironia para dizer que se Zeca Afonso estivesse vivo e quisesse revisitar a associação, “teria de montar uma tenda de campismo para aqui dormir”. A única coisa que “ainda vai havendo”, acrescenta, “é a fraternidade que inspirou o poema”.


Ao lado da associação que alberga a orquestra filarmónica está o edifício do que era o único hotel da vila, pintado de branco e azul e com uma câmara à entrada. Comprado pela Quinta da Comporta, passou a dormitório de funcionários do Wellness Boutique Resort, que funciona no Carvalhal. A empresa confirma: “Cerca de 70% da equipa está no [antigo] Hotel Dom Jorge e a restante em apartamentos próprios ou da empresa na área.”

Quem esteja de passagem por Grândola não consegue alugar um quarto “nem num raio de um quilómetro do centro”, garante o também vereador socialista sem pelouro na Câmara de Grândola, de maioria comunista. Para alojar o maestro, que ali vai duas vezes por semana (e vive a 130 km de distância), tiveram que “improvisar um quarto” numa das salas de ensaio, onde meteram uma cama. “Sendo uma associação sem fins lucrativos, era impossível colocar o maestro num Alojamento Local a mais de €100 a noite”, diz Luís Alexandre, lamentando “a situação gritante em que o concelho se encontra ao nível dos preços do alojamento temporário e da habitação”.“As ações da câmara levaram à ultrapassagem do limite máximo de camas turísticas”, diz a Proteger Grândola

Na vila ninguém arrenda um T2 por menos de €800 nem compra um por menos de €200 mil, diz quem ali vive, atribuindo a culpa à especulação imobiliária associada ao turismo de luxo de uma dezena de empreendimentos, aos quais se juntam milhares de camas turísticas previstas em “pedidos de informação prévia” aprovados pela Câmara de Grândola. Se todas forem concretizadas, “o concelho ultrapassa as 30 mil, mais do dobro do legalmente estabelecido no Plano Regional de Ordenamento do Território do Alentejo em vigor, que estabelece um limite de uma cama turística por cada habitante”, recorda Guy Villax, presidente da associação Proteger Grândola. O concelho tem 13.822 habitantes (perdeu 7% numa década) e o PDM, suspenso há mais de um ano, autoriza 14.915 camas turísticas. “As ações ou inações do executivo camarário levaram à ultrapassagem do limite máximo, o que terá graves impactos urbanísticos e levanta enormes preocupações ambientais e sociais junto da população local”, reforça Villax.

O problema, alerta Luís Alexandre, “é que todo este investimento não traz o retorno que desejaríamos”. O concelho de Grândola é um dos que mais perdeu população no país e um dos que mais cresceu em termos de receitas de imposto municipal sobre transmissões de imóveis (IMT) (mais 708%), segundo o “Anuário Financeiro dos Municípios”.

OS RISCOS DO ENCLAVE

Numa frente de 45 km de costa, entre Troia e Melides, os investimentos turístico-imobiliários somam mais de €1,5 mil milhões. “Grândola é uma vila pequena e com história e não estava preparada para este boom”, admite Ricardo Ribeiro, que viu a oportunidade de há um ano abrir um pequeno Alojamento Local no centro da vila, onde 80% dos clientes são turistas estrangeiros e uma noite ronda os €100. “O maior problema são os desequilí­brios que estes grandes investimentos no turismo geram e a inflação que criam. Apesar de a taxa de desemprego ser baixa no concelho, não é aqui que contratam mão de obra qualificada para trabalhar nos empreendimentos e os locais enfrentam a inflação nos preços das casas, nos restaurantes e nos bens em geral. É um desenvolvimento que não é sustentado.”

Para o geógrafo João Ferrão, há um “sobreaquecimento do mercado imobiliário totalmente desproporcional em relação ao poder de compra da esmagadora maioria da população local”. O investigador aponta para os riscos desta “lógica de enclave” dos empreendimentos de luxo e da potencial “contaminação ao nível de salários, preços de produtos básicos de consumo, mercado fundiário e imobiliário, que prejudicará uma parte significativa das comunidades locais a curto ou médio prazo”.

O retorno deste turismo é coisa que não chega à retrosaria de Vitorino Pereira. “O turismo aqui é só para passear e comer, e há quem lucre com uns quartos”, diz o comerciante, de 82 anos, que aqui continua atrás do balcão a vender linhas e tecidos. Hoje não faz mais de €30 em vendas por dia. “A 4 de janeiro de 1983 fiz mais de 91 contos”, conta, enquanto lê as anotações escritas nos livrinhos de capa preta dura que guarda num montinho, atado por um cordel, e que remontam a 1914, quando a loja abriu.

O preço médio de um quarto duplo nos alojamentos/hotéis rurais do concelho ronda mais de €150 por noite, sendo que em espaços como a Quinta da Comporta ou o Sublime Comporta custa mais de €700 ou pode mesmo chegar a €1650, com direito a pequeno-almoço, spa e outras regalias.

Nas antigas Pensões Pereira e Paraí­so, ao pé do posto de gasolina da vila, os preços são bem mais modestos, mas estão ocupadas cinco dias por semana, este ano e nos próximos, por trabalhadores das empresas de construção, climatização ou jardinagem, contratadas pelos grandes empreendimentos costeiros. No final do dia é vê-los chegar exaustos após a longa jornada sob o calor. Param no café-restaurante em baixo do alojamento para beber uma cerveja e comer qualquer coisa antes de dormir. Não querem falar para não terem problemas com o patrão. No fim de semana regressam a casa, longe dali, nas áreas de Lisboa, Coimbra ou Porto.

TURISMO E DESENVOLVIMENTO

Questionado sobre a existência de alojamentos acessíveis a turistas e que benefícios tem o município com o desenvolvimento dos grandes resorts, uma vez que a mão de obra vem sobretudo de fora e a especulação imobiliária afeta a população local, o município, presidido pelo comunista António Figueira Mendes, apenas responde por escrito que “o turismo já é uma das grandes alavancas do desenvolvimento de Grândola” e que “estão centrados em promover a habitação acessível no concelho para os munícipes”, disponibilizando “lotes municipais para autoconstrução, terrenos para construção cooperativa a custos controlados e habitação municipal para arrendamento acessível”.

A 27 km da vila de Grândola fica o empreendimento Costa Terra Golf and Ocean Club, onde uma residência custa mais de €4 milhões, ou pelo menos esse terá sido o preço a que foram vendidas 71 das 300 moradias que ali tencionam construir, de acordo com declarações do diretor de vendas da Discovery Land Company, Adrian Wadey, ao “The New York Times”, em 2021. Um valor bem acima dos €1,8 milhões pelos quais foi vendida há meses uma casa com frente de mar no bairro erguido na década de 90 do século XX ao lado do antigo Parque de Campismo da Galé.

Visitar o empreendimento Costa Terra, cuja construção “teve início em setembro do ano passado e terá diferentes fases de desenvolvimento no decorrer dos próximos anos”, está vedado a jornalistas, “por questões de segurança”, diz fonte oficial da Discovery Land ao Expresso. Questionado pelo Expresso relativamente ao alojamento dos seus trabalhadores, o Costa Terra responde que “a grande maioria reside nas suas habitações próprias, situadas em localidades próximas, cerca de 15 em apartamentos com contratos de arrendamento anuais e só um num Alojamento Local”.

Na estrada pública que atravessa a propriedade até à Praia da Galé não faltam seguranças privados a vigiar cada paragem que fazemos. Do outro lado da propriedade, na estrada que liga à Praia da Aberta Nova — onde há “cabanas” com meia dúzia de espreguiçadeiras no areal a €350 ao dia —, encontramos Custódio Pereira Chainho, o antigo caseiro da Herdade da Costa Terra. Só vai à praia à noite, para pescar à cana, e nem sabe o preço das espreguiçadeiras. Aos quase 85 anos de idade, Custódio vai cuidando da horta e do campo de milho que tem ao pé da casa, à beira da estrada, onde vive há 50 anos. É dono de 10 hectares de “terra muito cobiçada” e já vá­rias pessoas lhe bateram à porta para lhos comprar. Nem pergunta quanto oferecem. “Não quero saber. Daqui só saio quando for para uma morada fixa… para a eternidade”, diz com uma gargalhada.

7.6.23

Casal e três filhos sem casa em Lisboa: “Ainda nos queriam tirar os nossos meninos”

Maria José Coelho (Texto) e Maria Abranches (Fotografia), in Público

O caso foi esta terça-feira denunciado pela mãe, Lívia Camargo, em reunião da Assembleia Municipal de Lisboa. A família está desde Novembro sem habitação e vive na rua há seis dias.

Lívia Camargo e Paulo Faria vivem na rua desde o início de Junho, juntamente com os três filhos menores. Depois de um incêndio em Novembro, que destruiu a casa onde moravam em Arroios, na Vila de Queirós, a família foi apoiada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), dormindo em vários hostels. Com a chegada do mês de Junho, e tendo recusado as alternativas propostas, perderam o apoio e foram viver para a rua. As noites são passadas numa carrinha, uma situação denunciada esta terça-feira na Assembleia Municipal de Lisboa.

O dia 28 de Novembro de 2022 ficará para sempre na memória de Lívia Camargo e Paulo Faria. O casal, que vive em Lisboa há 16 anos, viu o fogo tomar conta da casa onde morava com mais três filhos e mudar a vida da família para sempre. A causa do incêndio foi atribuída a uma máquina de secar roupa, mas a habitação de Arroios já se encontrava em elevado nível de degradação, havendo até ratos e baratas, descreveram ao PÚBLICO. O prédio não tinha luz e o prédio necessitava de obras, que o senhorio tardava em fazer.

Desde então, os pais das três crianças – Vitória Isabel, João Paulo e Paulo Henrique, de 1, 10 e 13 anos, respectivamente – têm vivido em diversos hostels, a cargo da SCML ou por conta da própria família, que chegou a dormir em espaços clandestinos. Paulo Faria retira o telemóvel do bolso e mostra uma fotografia de um dos miúdos cheio de picadas de pulgas no pescoço. “Demorou uma semana para a assistente social nos tirar de lá”, diz a mãe. Sem sítio onde ficar, o casal chegou a pagar 400 euros para dormir cinco noites num alojamento em Lisboa.

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2.6.23

Atum enlatado: uma iguaria que pode ter um preço humano elevado, acusa relatório

Amanda Faria, in Público


Relatório denuncia casos de tráfico humano e trabalho forçado na indústria pesqueira na Ásia e América do Sul. A produção de atum enlatado sem transparência pode ter um custo social elevado.


consumo de pescado é uma prática comum e quotidiana na Europa, e Portugal é um dos maiores consumidores de peixe. O atum está entre um dos preferidos pelos Estados-membros da União Europeia, seja fresco, congelado ou enlatado. A escolha pode ser justificada pelo sabor, pelo valor nutricional, por ser prático ou, muitas vezes, pelo preço acessível. No entanto, com que custo social é que este produto chega à mesa de milhares de consumidores?

O relatório Canned Brutality: Human rights abuses in the tuna industry (Violência em lata: os abusos de direitos humanos na indústria do atum, numa tradução livre) publicado recentemente pela Bloom Association – uma organização não-governamental dedicada à protecção da biodiversidade marinha – em colaboração com a International Human Rights Clinic da Harvard Law School, denuncia graves infracções dos direitos humanos contra os trabalhadores na produção do atum enlatado. O documento tem como foco os países asiáticos em que a situação é mais alarmante, especialmente Taiwan, Filipinas e Tailândia.

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15.5.23

Seca: a “maior catástrofe de sempre” já está à nossa espera na bacia do Sado

Carlos Dias (texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público


Espera-se o pior na produção de cereais e na pecuária. Os animais não têm alimento e os produtores pecuários já enfrentam a escassez de água. As searas estão perdidas. Nem a palha se aproveita.


Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.

Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.

Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.

É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.

Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.

No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.

Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.

O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.

Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz

Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.

Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.

Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.

Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.

“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral


De 30 para dois fardos de forragem por hectare

O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”

A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”

Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.

Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”

Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"

Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

Barragens no vermelho

Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.

Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.


O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.

Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”

O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.

“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.

Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.

Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.

Pedintes, o inimigo público número um do país mais rico do mundo

Ricardo J. Rodrigues(texto) e Marc Wilwert e Chris Karaba(fotografia in Público



O Luxemburgo, o país mais rico do mundo, aprovou uma lei que proíbe a mendicidade na capital entre as 7h e as 22h. Grupos de direitos humanos acusam o grão-ducado de querer tornar a pobreza invisível.


Toda a gente parece ter vindo hoje ao centro da capital luxemburguesa, mas ninguém parece reparar em José Monteiro, que está sentado no chão da Place d’Armes, a principal praça da cidade, enrolado num cobertor e com um copo diante de si — onde de vez em quando alguém deposita umas moedas, que ele garante usar para comida. E, vá, uma cerveja ou outra. “Sou o inimigo público número um deste país”, zomba o português de 49 anos. Tem a barba esbranquiçada, um olhar doce, 18 anos de emigração no grão-ducado — os últimos dois a dormir ininterruptamente debaixo de um telhado de estrelas.

Quando chegou de Castro Daire, carregava todos os sonhos do mundo consigo. No Luxemburgo, foi pedreiro e pintor da construção civil, até a vida lhe trocar as voltas. “Aleijei-me num braço e depois disso ninguém me contratava no ínterins”, conta. Zé, é assim que pede que o tratemos, passou mais de 15 anos com contratos firmados com agências de emprego temporárias — os tais ínterins. Quando escorregou do andaime, tropeçou nas contas. Primeiro perdeu o emprego, depois a namorada e os amigos, a seguir deixou de conseguir pagar o quarto que arrendava por cima de um café na Gare, o bairro de má fama da capital.

“Fiquei muito tempo a evitar a calçada. Andava de um lado para o outro durante a noite, só para não me deitar. Se fosse num banco de jardim, conseguia descansar um bocadinho. Mas sempre tive medo de ir ao chão, tinha esta sensação de que, se dormisse na terra, nunca mais me ia conseguir levantar”, conta. Durante meses navegou invisível pelas ruas da capital. Aproveitava para descansar nos transportes públicos, uma bênção gratuita do país mais rico do mundo. “E fui deprimindo, perdi as forças para fazer o que quer que seja. É fácil um homem ir-se abaixo quando não dorme nem pode tomar um duche”, diz, encolhendo os ombros.

Agora os seus dias são isto: deixar passar as horas e tentar arranjar umas moedas para o básico. Quando as coisas correm melhor, consegue estada na Pousada da Juventude. São dias raros. São dias bons.

A maioria das pessoas não o vê realmente. “Sou capaz de passar uma manhã inteira sem ninguém olhar para mim. Depois há os que deixam umas moedas, os que falam um bocadinho e os que me insultam. De há uns tempos para cá, há mais gente a tratar-me mal. Gritam-me para sair daqui, para arranjar um trabalho, para fazer alguma coisa. Eu gostava, gostava muito, mas não consigo”, e quando se lamenta, encolhe-se mais um bocadinho. Uma vez, um grupo de rapazes rodeou-o e começou a desferir-lhe pontapés. “Gritavam que era um inútil e devia desaparecer. Teve de vir a polícia salvar-me.” Diz que gosta da polícia, porque ao menos falam com ele.

E agora está ali na Place d’Armes, com o mundo que funciona a correr-lhe à volta. Com um copo para recolher moedas diante dos pés. O inimigo público número um da cidade é um homem desgastado e frágil. Um estorvo — que ninguém quer verdadeiramente ver.
Fora-da-lei

A câmara municipal do Luxemburgo, uma coligação entre democratas-cristãos e liberais liderada pela presidente Lydie Polfer, aprovou a 27 de Março uma lei que quer impedir qualquer forma de mendicidade nas principais ruas da capital entre as 7h e as 22h. Havia já o artigo 41.º do Código Policial, que impedia desde 2015 os grupos de pedintes organizados de actuarem na capital, mas a medida foi reforçada agora com o artigo 42.º, que impede qualquer cidadão de pedir esmolas na rua. A oposição foi unânime em condenar a medida e várias organizações de direitos humanos catalogaram-na como “desumana”.

A Comissão Consultiva dos Direitos Humanos do Luxemburgo falou claramente: “Esta medida é um insulto ao Estado de direito. É uma discriminação muito, muito perigosa", disse o presidente da associação, Gilbert Pregno.

Por seu lado, Bernard Thill, presidente dos Médicos do Mundo, duvida de que a lei possa ser aplicada. “Ela viola claramente a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, da qual o Luxemburgo é signatário.” O médico, eleito Luxemburguês do Ano em 2022, diz-se profundamente chocado com esta iniciativa do município. “O que a câmara está a fazer é tentar esconder a realidade, tornando ainda mais invisíveis os que já o são. Em vez de criar medidas de apoio às pessoas que querem sair das ruas, julgam-nas e criminalizam-nas. É um gesto de uma desumanidade inaceitável.” Em Junho, note-se, há eleições locais.

No início desta semana, o P2 enviou uma série de perguntas sobre esta polémica lei à câmara do Luxemburgo. Sem responder a qualquer questão, o gabinete de imprensa da autarquia sugeriu uma conversa pessoal com Lydie Polfer numa data a determinar.

Municípios como Diekirch e Ettelbruck, no Norte do país, tinham já aprovado medidas semelhantes, mas estas nunca foram postas em prática por violarem as leis básicas. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos já no ano passado revogou legislação que tentava castigar a mendicidade numa cidade suíça. “Claro que há um problema galopante, mas esta não é seguramente a forma de o tratar”, diz Bernard Thill. “A pandemia, a crise imobiliária e a inflação estão a atirar muita gente para situações de pobreza. Os últimos números do Statec dizem que 19% das pessoas que residem no país mais rico do mundo vivem abaixo da linha de pobreza. E nós, que trabalhamos no terreno, sabemos bem que as coisas estão a piorar.”

Thill acredita que esta ideia serve um único propósito: esconder a pobreza da vista de todos, em vez de a enfrentar. “Sou médico, toda a vida aprendi que, quando há um problema de saúde pública, não o resolvemos fingindo que não existe. Temos de fazer medicina preventiva, ajudar as pessoas e dar-lhes oportunidades de se reintegrarem na sociedade”, diz. Puxa dos números para dar substância ao argumento. “A maioria de nós é rápida a julgar. Mas não temos consciência de que um terço dos cidadãos que vivem sem tecto trabalham e pagam impostos — pura e simplesmente caíram em situações de precariedade extrema e têm dificuldades em sair dela.”


Sou capaz de passar uma manhã inteira sem ninguém olhar para mim. Depois há os que deixam umas moedas, os que falam um bocadinho e os que me insultam José Monteiro


Um dos grandes problemas da capital luxemburguesa, diz o médico, é a falta de abrigo para quem não o tem. Em Abril fechou portas o Wanteraktioun, ou Acção de Inverno, o maior refúgio que o país tem para os que vivem na rua. As 250 camas preparadas para acolher a população sem abrigo só estão livres nos meses de frio — depois disso os ocupantes retornam às ruas. “É dramático que isto aconteça. Por terem uma cama e um banho, muitas pessoas começam a reerguer-se, encontram trabalho, ganham uma estrutura. E depois são despejadas e tudo cai por terra”, afirma Thill.

Virginie Giarmana, directora adjunta do Inter-Actions, uma das mais activas organizações do país no apoio à população sem abrigo, prefere não comentar a nova lei que o município da capital aprovou, mas é rigorosa nos números. “Quando o Wanteraktioun termina, há 30 camas disponíveis na cidade para acolher a população que não tem abrigo. Há 10 camas na Cruz Vermelha, dez na Cáritas e outras tantas no Abrigo Feminino. Depois disso, há o Abrigado, que tem 45 camas disponíveis, sim, mas apenas para a população toxicodependente”, diz ela. No ano passado, 1236 pessoas passaram pelo albergue de Inverno da capital luxemburguesa.
A crise saiu à rua

Dennis Delcroix caiu e levantou-se. Filho de pais belgas, cresceu toda a vida no Luxemburgo. Estudou hotelaria porque sempre sonhou ser cozinheiro. Trabalhou para uma infinitude de gente e foi quando abriu o próprio negócio que as coisas começaram a correr mal. “Juntei-me a um sócio e conseguimos a exploração de uma brasserie na Abadia de Neimuenster, no Grund. Mas ele não foi claro com as contas e fomos acumulando dívidas sem que eu me apercebesse. Um dia, ele desapareceu do mapa e eu percebi que tinha um grande problema entre mãos. Trinta mil euros de dívida à Segurança Social e nenhum fundo de caixa”, conta.

A história de Dennis foi o fio condutor do documentário Croque-Monsieur, exibido há semanas na cadeia de televisão RTL. Os realizadores são dois sul-africanos, Louis Grobbelaar e Pieter Seyffert, que passaram dois anos e meio a acompanhar a população sem abrigo da capital. “Se há coisa de que me apercebi é de como a linha é ténue para uma pessoa cair na rua”, diz Grobbelaar. “É muito mais fácil do que alguém possa pensar, e pode acontecer a cada um de nós. Esta lei não resolve os problemas, tenta escondê-los. Não sei sequer como ela passou.” Para o documentarista, é com o apoio à população sem abrigo que se recupera a dignidade e a humanidade, não com a sua condenação.


Dennis é um exemplo disso. Foi parar às ruas, mas o que ele queria era trabalhar. Conseguiu abrigo no Wanteraktioun, e depois foi instalado numa casa de recuperação e preparação para a vida activa em Michelau. Hoje, é chef do Bistro Beim Renert, um café histórico da Place Guillaume II que tem fama de servir um dos melhores croque-monsieurs (tosta mista) da capital. “Se não tivesse tido ajuda, não me tinha conseguido levantar. E esta coisa de esconder aqueles que não queremos ver só ajuda a que gente como eu não consiga recuperar nunca. É muito cruel, esta coisa que a câmara do Luxemburgo está a fazer”, revolta-se o cozinheiro.

Nem toda a gente pensa assim. Perto de Hamilius, também no centro, Claude Clemes desespera. Tem um escritório de advogados numa galeria comercial que está constantemente ocupada por sem-abrigo. “Alguns vivem aqui há anos e não querem sair desta vida. Sempre que tenho clientes a vir ao meu escritório, eles têm de se confrontar com esta imagem de gente a dormir no chão e com o mau cheiro constante. É assim há muito tempo e alguém tem de fazer alguma coisa.”

Lazlo Szabu, cujo nome de rua é Pufi, ouve-o atentamente e balbucia: “Desculpe lá, doutor.” Húngaro, tem 36 anos de vida e seis de rua. São ele e mais meia dúzia de companheiros os ocupantes da galeria. “O problema é que não conseguimos casa. Arranjamos uns trabalhitos de vez em quando, mas nunca dá para pagar um quarto. Eu já me habituei a viver aqui, porque nos fomos tornando uma família, tomamos conta uns dos outros. Se alguém vai pedir dinheiro na rua, partilha com toda a gente. Se alguém vai para as obras fazer um trabalho, divide o que ganha connosco. Gastamos tudo em comida. E em bebida, pronto.”


Clemes, o advogado, também percebe o ponto. Diz que o que fazia falta era mesmo soluções para a crise da habitação, e programas de reinserção social. “Não estou a dizer que esta nova lei seja solução para coisa nenhuma. Mas, como comerciante da cidade, sinto-me aliviado por ouvir finalmente uma proposta que confronte o problema. Talvez varrer o lixo para debaixo do tapete não funcione, OK. Mas já era tempo de fazer alguma coisa. E se calhar agora vamos mesmo ter de olhar para a população sem abrigo. Continuar como está é que não dá”, diz, e puxa o botão do elevador para regressar ao escritório.
Encosta-te a mim

Todas as manhãs, entre as 10h e as 12h, os Médicos do Mundo dão consultas gratuitas à população que não tem acesso a cuidados de saúde. Em 2021 atenderam 1391 pacientes. Em 2020, tinham prestado apoio a 771 pessoas — metade, o que é um sinal do crescimento da precariedade no país mais rico do mundo. Os pacientes são na maioria pessoas sem documentos, ou que trabalham sem contratos. Do total, 97,5% vivem em situação de pobreza. A maioria, na rua. Muitos pedem dinheiro a quem passa para sobreviver.

Mario Danelutti tem 55 anos, é luxemburguês. Trabalhou no Citi Bank até o seu departamento ser fechado e a partir daí os únicos trabalhos que encontrou foram sem contrato, na restauração. “Às vezes, não me pagavam e eu vingava-me levando umas garrafas para casa, foi assim que me meti no álcool. Foi isso que me estragou a vida, também. Não ganhava para pagar a casa, e como não tinha morada deixei de ter trabalho. Então bebia para esquecer.”

Nunca se esquecerá da primeira noite que dormiu na rua, em 2016. “A noite pode ser muito longa, pode não terminar nunca. Andas às voltas e não queres ir para o chão, até te faltarem forças e teres de te render. Mas, quando perdes essa batalha, é a guerra inteira que estás a perder. A tua vida não volta a ser a mesma. A rua fica-te entranhada nos ossos.” Diz que nunca quis piedade, apenas um tecto e uma oportunidade de trabalho. Pediu nas ruas, sim, porque se fartou de vasculhar caixotes de lixo à procura de pão. “A maioria das pessoas não sabe que há uma grande solidariedade na malta sem abrigo. Que uns pedem para os outros e todos se ajudam de alguma forma. É isso uma rede de tráfico humano? Não, é uma rede de suporte. Porque a cidade não nos dá nenhuma”, atira.


Do consultório médico saiu Gabriel Avadanei, com a mesmíssima idade. Romeno, veio há dez anos trabalhar para a construção civil. Um dia teve um ataque cardíaco que lhe imobilizou o lado direito do corpo. “E depois começa a cair tudo como um castelo de cartas. Não arranjas emprego, perdes o tecto, vais para a rua. Assim, de um momento para o outro.” Garante nunca se ter metido em álcool ou drogas, e os médicos confirmam com um aceno de cabeça. “Há dez meses, fui atropelado e isso acabou por ser a minha sorte. Porque comecei a ter assistência aqui, e depois arranjaram-me um quartito para dormir e agora já tenho alguma dignidade. A sério”, repete, “ainda bem que fui atropelado.”

Agora começa a cair o fim da tarde e isso significa que é hora de a equipa do Premier Appel avançar cidade dentro. Nelson dos Reis e Nuno Sousa estão hoje a cumprir o programa de emergência de rua da associação Inter-Actions. Todos os dias, entre as 17h e as 22h, correm as ruas da capital para avaliar a população sem-abrigo. Distribuem sopa, chá e café e tentam perceber quem está numa situação aflitiva.

Está sempre a aparecer gente nova, dizem. “Quando o Wanteraktioun fecha, o telefone não pára de tocar. Ou é a polícia, ou é alguém que tem um sem-abrigo à porta de casa, ou simplesmente queixas anónimas”, conta Reis, enquanto atravessa a Grand-Rue. Vai parando para cumprimentar a gente que está sentada no chão. Café, todos aceitam. Sopa, só alguns.

Na Rue des Bains, junto aos cafés e bares invariavelmente cheios, está um homem francês enrolado nos cobertores. “Aqui está um caso recuperável”, apostam os dois quando acabam de lhe servir uma bebida quente. “Há uns assim, que tiveram azar e vieram parar à rua. Muitos não querem ir para o Abrigo de Inverno, sabes porquê? Porque não suportam o cheiro. E depois há casos daqueles que saem da prisão e cometem um furto ou um pequeno crime para voltarem a ser institucionalizados. Preferem estar presos do que ficar na rua”, contam os assistentes sociais. “E quem é que os pode levar a mal?”

A marcha continua em direcção à Gëlle Fra, estátua dourada que é símbolo de um país inteiro. Nelson e Nuno descem para o jardim, onde, invisível a todos os olhares, nasceu uma cidade de cartão e plástico. “Há exercícios de arquitectura e engenharia extraordinários”, ri-se Sousa antes de se dirigir às pessoas que ali habitam. Quando o faz, agacha-se sempre e mantém o olhar ao mesmo nível. “É uma questão de dignidade”, explica. “Falar com as pessoas à altura em que elas estão. Estes são seres humanos vulneráveis, normalmente com pouquíssima auto-estima. Tratá-los com decência é o mínimo que podemos fazer por eles.”

Depois da ronda, os homens avaliam quem estava em condições piores. “Temos três camas de emergência para quem está doente ou a passar mesmo mal. Não chega para nada”, lamentam-se. Há noites em que precisavam de 20 poisos, mas o Luxemburgo não os tem para quem está na rua.

No país mais rico do planeta, parecem concordar todas as associações, faltam políticas que tirem a gente das ruas. E, como diz Bernard Thill, presidente dos Médicos do Mundo, “não é a tentar varrer os mendigos daqui para fora que eles vão desaparecer. Quanto mais invisíveis os quisermos tornar, mais eles vão crescer. Ignorar o problema, tentar escondê-lo, é fechar a porta a tudo o que nos torna humanos.”

Texto publicado originalmente no Contacto, jornal luxemburguês em língua portuguesa

11.12.15

A esperança que faz o mundo

Luís Pedro Nunes, in "Expresso"

Um livro, nove fotorreportagens, 30 anos, 77 países. O trabalho da Assistência Médica Internacional (AMI) contado pelas fotografias de Alfredo Cunha e nos textos de Luís Pedro Nunes foi reunido num livro que acaba de sair. Esta é uma fotogaleria breve da viagem a todas as terras onde se luta por um futuro melhor