in Euronews Português
Pressão está-se a tornar asfixiante para muitas pessoas que dependem do mercado de arrendamento em Portugal.
A subida a pique das taxas de juro e as rendas exorbitantes estão a deixar famílias inteiras sem teto em Portugal.
Várias pessoas passaram a viver em tendas nos arredores de Lisboa.
Para muitos, a renda já custava mais de 3/4 do salário e era uma dor de cabeça. A somar a isso, estão a multiplicar-se os problemas sociais.
"Tenho dois filhos. Procurámos ajuda, mas quando pedimos ajuda descobriram que morávamos em albergues e disseram-nos que tínhamos três semanas para procurar casa, mas não conseguimos. Com o tempo tiraram-nos os nossos filhos, pelo menos até que a situação da casa se resolva. Só posso vê-los uma vez por semana", contou Daniela, que se viu forçada a viver numa tenda.
Andreia Costa acrescentou: "estava a pagar 400 euros por mês e tinha um salário médio de 800 euros. Metade era para a renda. Depois ainda tinha somar 40 euros para o passe dos transportes, 150 para a comida. Não é possível."
A Segurança Social está a acompanhar os casos, mas a resposta peca por tardia.
Enquanto isso, as rendas continuam a subir e todos os dias há mais pessoas em situações idênticas.
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22.9.23
Dia Europeu sem Carros com ruas cortadas e qualidade do ar medida em Lisboa
Por Lusa, in SIC
Pretende-se incentivar a mobilidade suave e sustentável, evitando a emissão de gases com efeito de estufa e ao mesmo tempo melhorando a qualidade do ar e o ruído.
Dezenas de cidades de Portugal assinalam hoje o Dia Europeu sem Carros (DESC) com ruas cortadas ao trânsito, exceto em Lisboa. A associação ambientalista Zero aproveita este dia para medir a qualidade do ar em Lisboa.
A associação aproveita a efeméride para realizar "uma maratona de medições da qualidade do ar em diversos pontos críticos da cidade de Lisboa", como anuncia em comunicado, explicando que quer perceber como estão os níveis da qualidade do ar em Lisboa no DESC.
Em Lisboa acontecem várias iniciativas para assinalar o dia, mas não está previsto o corte de ruas, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Gondomar ou Vila Nova de Gaia, Vendas Novas ou Celorico da Beira, Mealhada ou Vagos.
Na capital celebrou-se em 2000 o primeiro DESC com o encerramento de diversas artérias da cidade e nesse dia milhares de automóveis não entraram sequer na capital.
Com o sucesso do DESC nesse ano, e no seguinte, em 2002 foi lançada a Semana Europeia da Mobilidade, que desde então decorre na União Europeia de 16 a 22 de setembro.
Incentivar a mobilidade suave e sustentável
Com as duas iniciativas pretende-se incentivar a mobilidade suave e sustentável, evitando a emissão de gases com efeito de estufa e ao mesmo tempo melhorando a qualidade do ar e o ruído (o DESC surgiu na sequência de uma diretiva europeia sobre a qualidade do ar).
Segundo um comunicado da Zero divulgado recentemente as emissões de gases geradas pelo transporte rodoviário em Portugal aumentaram 6,2% em relação ao período pré-pandemia.
"As emissões associadas ao consumo de gasóleo e gasolina no transporte rodoviário não param de aumentar".
Hoje, a associação, usando um aparelho de medição da qualidade do ar (transportado em bicicleta), vai estar em vários locais da cidade para medir níveis de, por exemplo, dióxido de azoto ou partículas inaláveis e finas.
A ação, segundo a Zero, visa chamar a atenção "para os problemas da qualidade do ar nas cidades portuguesas, para a urgência de retirar carros das cidades, para a necessidade do reforço do transporte público e para as consequências para a saúde" de níveis de concentrações de poluentes acima dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde.
No ano passado, para assinalar a data, a Zero divulgou um estudo segundo o qual um dia por semana sem carros poupará o equivalente a 03% a 05% do gasóleo e gasolina consumidos em meio urbano.
Números divulgados na imprensa em 2018 davam conta de que entravam em Lisboa, diariamente, cerca de 370 mil carros.
Pretende-se incentivar a mobilidade suave e sustentável, evitando a emissão de gases com efeito de estufa e ao mesmo tempo melhorando a qualidade do ar e o ruído.
Dezenas de cidades de Portugal assinalam hoje o Dia Europeu sem Carros (DESC) com ruas cortadas ao trânsito, exceto em Lisboa. A associação ambientalista Zero aproveita este dia para medir a qualidade do ar em Lisboa.
A associação aproveita a efeméride para realizar "uma maratona de medições da qualidade do ar em diversos pontos críticos da cidade de Lisboa", como anuncia em comunicado, explicando que quer perceber como estão os níveis da qualidade do ar em Lisboa no DESC.
Em Lisboa acontecem várias iniciativas para assinalar o dia, mas não está previsto o corte de ruas, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Gondomar ou Vila Nova de Gaia, Vendas Novas ou Celorico da Beira, Mealhada ou Vagos.
Na capital celebrou-se em 2000 o primeiro DESC com o encerramento de diversas artérias da cidade e nesse dia milhares de automóveis não entraram sequer na capital.
Com o sucesso do DESC nesse ano, e no seguinte, em 2002 foi lançada a Semana Europeia da Mobilidade, que desde então decorre na União Europeia de 16 a 22 de setembro.
Incentivar a mobilidade suave e sustentável
Com as duas iniciativas pretende-se incentivar a mobilidade suave e sustentável, evitando a emissão de gases com efeito de estufa e ao mesmo tempo melhorando a qualidade do ar e o ruído (o DESC surgiu na sequência de uma diretiva europeia sobre a qualidade do ar).
Segundo um comunicado da Zero divulgado recentemente as emissões de gases geradas pelo transporte rodoviário em Portugal aumentaram 6,2% em relação ao período pré-pandemia.
"As emissões associadas ao consumo de gasóleo e gasolina no transporte rodoviário não param de aumentar".
Hoje, a associação, usando um aparelho de medição da qualidade do ar (transportado em bicicleta), vai estar em vários locais da cidade para medir níveis de, por exemplo, dióxido de azoto ou partículas inaláveis e finas.
A ação, segundo a Zero, visa chamar a atenção "para os problemas da qualidade do ar nas cidades portuguesas, para a urgência de retirar carros das cidades, para a necessidade do reforço do transporte público e para as consequências para a saúde" de níveis de concentrações de poluentes acima dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde.
No ano passado, para assinalar a data, a Zero divulgou um estudo segundo o qual um dia por semana sem carros poupará o equivalente a 03% a 05% do gasóleo e gasolina consumidos em meio urbano.
Números divulgados na imprensa em 2018 davam conta de que entravam em Lisboa, diariamente, cerca de 370 mil carros.
18.9.23
Habitação. Lisboa com apoio à renda para profissionais que vêm de fora
por Arlinda Brandão - Antena 1, in RTP
A Câmara de Lisboa lança esta segunda-feira um novo programa de apoio à renda a pensar nos profissionais deslocados.
A autarquia quer dar uma resposta imediata aos que têm dificuldades em pagar a prestação mensal do aluguer da casa e estejam a gastar mais de 30 por cento do rendimento com a mensalidade.
O apoio é para que esta percentagem não seja ultrapassada.
Este subsídio municipal de renda acessível foi criado a pensar nos profissionais deslocados, como professores, enfermeiros e polícias que fazem falta às instituições da capital.
A Câmara espera que esta ajuda possa ser um incentivo e ajudar a trazê-los para Lisboa.
A Câmara de Lisboa lança esta segunda-feira um novo programa de apoio à renda a pensar nos profissionais deslocados.
A autarquia quer dar uma resposta imediata aos que têm dificuldades em pagar a prestação mensal do aluguer da casa e estejam a gastar mais de 30 por cento do rendimento com a mensalidade.
O apoio é para que esta percentagem não seja ultrapassada.
Este subsídio municipal de renda acessível foi criado a pensar nos profissionais deslocados, como professores, enfermeiros e polícias que fazem falta às instituições da capital.
A Câmara espera que esta ajuda possa ser um incentivo e ajudar a trazê-los para Lisboa.
14.9.23
Associação Portuguesa de Psicogerontologia distingue dez personalidades
in Sete Margens
O que têm em comum o ator Ruy de Carvalho, o padre Feytor Pinto ou o médico Fernando de Pádua? Todos eles foram galardoados com o Prémio da Associação Portuguesa de Psicogerontologia (APP), que visa distinguir pessoas com 80 ou mais anos que continuam a ter uma participação ativa na sociedade portuguesa.
Criado em 2021, o Prémio Envelhecimento Ativo foi atribuído, até agora, a 73 personalidades, e este ano irá distinguir mais dez. A cerimónia da 12ª edição está agendada para o dia 3 de outubro, pelas 15 horas, na Sala de Extrações da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
O evento irá lembrar o Dia Internacional das Pessoas Idosas, que se assinala a 1 de outubro, e que este ano tem como lema definido pela ONU “Cumprir as Promessas da Declaração Universal dos Direitos Humanos das pessoas Idosas através das Gerações.”
O que têm em comum o ator Ruy de Carvalho, o padre Feytor Pinto ou o médico Fernando de Pádua? Todos eles foram galardoados com o Prémio da Associação Portuguesa de Psicogerontologia (APP), que visa distinguir pessoas com 80 ou mais anos que continuam a ter uma participação ativa na sociedade portuguesa.
Criado em 2021, o Prémio Envelhecimento Ativo foi atribuído, até agora, a 73 personalidades, e este ano irá distinguir mais dez. A cerimónia da 12ª edição está agendada para o dia 3 de outubro, pelas 15 horas, na Sala de Extrações da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
O evento irá lembrar o Dia Internacional das Pessoas Idosas, que se assinala a 1 de outubro, e que este ano tem como lema definido pela ONU “Cumprir as Promessas da Declaração Universal dos Direitos Humanos das pessoas Idosas através das Gerações.”
13.9.23
“Não há nada como envelhecer em casa.” Nasceu um projecto que quer dar vida à velhice
Inês Duarte de Freitas, in Público
A Hug distingue-se pelo apoio domiciliário totalmente personalizável, com uma aposta no “estimulo intelectual”. Têm ainda um programa de envelhecimento activo e de voluntariado.
Quem entra na Hug, na Rua Correia Teles, no coração do Campo de Ourique, em Lisboa, fica na dúvida se estará no local certo. Não é a loja de ortopedia e geriatria ou de apoio a idosos de que se está normalmente à espera. O ambiente hospitalar deu lugar a uma casa com divisões. É o conceito do novo projecto de apoio ao envelhecimento, defensor de que não há lugar melhor do que a nossa casa para os últimos dias.
A ideia para o projecto, lançado nesta semana, surgiu depois de um “confronto” pessoal com a realidade de o que é envelhecer e da forma como a sociedade encara esta fase da vida, conta a empresária Rita Corrêa Mendes ao PÚBLICO. “Ensinaram-nos a nem olhar para o envelhecimento. É um tabu, tal como a morte”, lamenta, defendendo que “se a vida for bem vivida”, estamos também preparamos para envelhecer melhor. E insiste: “Foi-nos imposto pela sociedade que o símbolo de uma pessoa com mais de 65 anos é uma bengala ou uma corcunda. Vai ter de mudar.”
Mas como ainda não mudou (para já), a Hug propõe-se a ajudar desde o início do processo do envelhecimento. “O que queremos é criar uma estrutura que apoie todas as fases, que são muito heterogéneas”, explica. E como defendem que “não há nada como envelhecer em nossa casa”, o foco, para já, está na questão mais premente: o apoio domiciliário, um tópico onde acreditam ser precisas “grandes transformações”.
Tudo começa quando as famílias, assoberbadas com a falta de tempo ou sem saberem como cuidar dos mais velhos, abordam a empresa à procura de apoio. “É feito um diagnóstico, como um raio-X para identificar aquilo que a pessoa tem, o que sente, quem é e quem foi. Nunca podemos descurar o passado ou o que está a precisar agora para viver os anos que lhe faltam de forma leve”, declara.
Concluída essa primeira fase, “o apoio domiciliário é totalmente desenhado à medida do cliente”, podendo dividir-se entre regime interno, parcial ou até só auxílio nas higienes, por exemplo. “Cuidar de alguém é uma das maiores formas de amor e cuidar de alguém que não conhecemos também — é preciso um altruísmo gigante”, defende, lembrando que não se trata apenas de garantir a “logística”, mas também de cuidar emocionalmente.
É por isso que um dos grandes elementos diferenciadores do projecto é o estímulo intelectual, salienta Rita Corrêa Mendes. “Vamos ter uma parceria com uma universidade para juntar esta parte do conhecimento e também unir as gerações mais jovens aos idosos”, avança. “Se conseguirmos proporcionar, num mês, cinco minutos em que a pessoa tenha um sentimento profundo de realização, alegria ou gratidão, estamos a cumprir a nossa missão.”
E, claro, isso também só se faz com uma equipa com competências específicas — outra das apostas da Hug, com 140 cuidadores ao serviço, formados e apoiados pela empresa, que comprou outro negócio de apoio domiciliário. “Os cuidadores também têm de estar realizados e felizes, porque estão a lidar com situações complexas. Temos de dar um apoio enorme”, afirma, lembrando que têm “um gestor de sonhos”, que se preocupa com o “bem-estar físico e emocional dos cuidadores”.
Têm, ainda, um programa de formação contínua para os cuidadores, a pensar na especialização que permite uma correspondência mais adequada entre aquele cuidador e a casa ideal para trabalhar. “Em casa, há uma personalização de atendimento total, que numa residência ou lar não é possível. Todos comem à mesma hora, jogam cartas ou vão ao jardim”, observa.
Voluntariado e envelhecimento activo
É o cuidador que assegura o bem-estar do idoso, mas não está sozinho. Além da equipa de estímulo mental, há outros serviços complementares para as cerca de 70 pessoas apoiadas, como nutricionistas, fisioterapeutas ou psicólogos. Claro que tudo isto tem um custo associado, ainda que Rita Correa Mendes não adiante um valor médio, por ser tudo “personalizável”.
Quem entra na Hug, na Rua Correia Teles, no coração do Campo de Ourique, em Lisboa, fica na dúvida se estará no local certo. Não é a loja de ortopedia e geriatria ou de apoio a idosos de que se está normalmente à espera. O ambiente hospitalar deu lugar a uma casa com divisões. É o conceito do novo projecto de apoio ao envelhecimento, defensor de que não há lugar melhor do que a nossa casa para os últimos dias.
Para os que ainda não precisam de apoio domiciliário, a aposta está no envelhecimento activo e saudável, um dos propósitos do Clube Hug, que promove actividades gratuitas. Todos os meses, há uma agenda aberta ao público nas lojas da empresa — para já em Alvalade e Campo de Ourique, em Lisboa, mas o objectivo é que o projecto se estenda ao resto do país em breve —, que inclui tertúlias de literacia para o envelhecimento.
Quem entra na Hug, na Rua Correia Teles, no coração do Campo de Ourique, em Lisboa, fica na dúvida se estará no local certo. Não é a loja de ortopedia e geriatria ou de apoio a idosos de que se está normalmente à espera. O ambiente hospitalar deu lugar a uma casa com divisões. É o conceito do novo projecto de apoio ao envelhecimento, defensor de que não há lugar melhor do que a nossa casa para os últimos dias.
A Hug distingue-se pelo apoio domiciliário totalmente personalizável, com uma aposta no “estimulo intelectual”. Têm ainda um programa de envelhecimento activo e de voluntariado.
Quem entra na Hug, na Rua Correia Teles, no coração do Campo de Ourique, em Lisboa, fica na dúvida se estará no local certo. Não é a loja de ortopedia e geriatria ou de apoio a idosos de que se está normalmente à espera. O ambiente hospitalar deu lugar a uma casa com divisões. É o conceito do novo projecto de apoio ao envelhecimento, defensor de que não há lugar melhor do que a nossa casa para os últimos dias.
A ideia para o projecto, lançado nesta semana, surgiu depois de um “confronto” pessoal com a realidade de o que é envelhecer e da forma como a sociedade encara esta fase da vida, conta a empresária Rita Corrêa Mendes ao PÚBLICO. “Ensinaram-nos a nem olhar para o envelhecimento. É um tabu, tal como a morte”, lamenta, defendendo que “se a vida for bem vivida”, estamos também preparamos para envelhecer melhor. E insiste: “Foi-nos imposto pela sociedade que o símbolo de uma pessoa com mais de 65 anos é uma bengala ou uma corcunda. Vai ter de mudar.”
Mas como ainda não mudou (para já), a Hug propõe-se a ajudar desde o início do processo do envelhecimento. “O que queremos é criar uma estrutura que apoie todas as fases, que são muito heterogéneas”, explica. E como defendem que “não há nada como envelhecer em nossa casa”, o foco, para já, está na questão mais premente: o apoio domiciliário, um tópico onde acreditam ser precisas “grandes transformações”.
Tudo começa quando as famílias, assoberbadas com a falta de tempo ou sem saberem como cuidar dos mais velhos, abordam a empresa à procura de apoio. “É feito um diagnóstico, como um raio-X para identificar aquilo que a pessoa tem, o que sente, quem é e quem foi. Nunca podemos descurar o passado ou o que está a precisar agora para viver os anos que lhe faltam de forma leve”, declara.
Concluída essa primeira fase, “o apoio domiciliário é totalmente desenhado à medida do cliente”, podendo dividir-se entre regime interno, parcial ou até só auxílio nas higienes, por exemplo. “Cuidar de alguém é uma das maiores formas de amor e cuidar de alguém que não conhecemos também — é preciso um altruísmo gigante”, defende, lembrando que não se trata apenas de garantir a “logística”, mas também de cuidar emocionalmente.
É por isso que um dos grandes elementos diferenciadores do projecto é o estímulo intelectual, salienta Rita Corrêa Mendes. “Vamos ter uma parceria com uma universidade para juntar esta parte do conhecimento e também unir as gerações mais jovens aos idosos”, avança. “Se conseguirmos proporcionar, num mês, cinco minutos em que a pessoa tenha um sentimento profundo de realização, alegria ou gratidão, estamos a cumprir a nossa missão.”
E, claro, isso também só se faz com uma equipa com competências específicas — outra das apostas da Hug, com 140 cuidadores ao serviço, formados e apoiados pela empresa, que comprou outro negócio de apoio domiciliário. “Os cuidadores também têm de estar realizados e felizes, porque estão a lidar com situações complexas. Temos de dar um apoio enorme”, afirma, lembrando que têm “um gestor de sonhos”, que se preocupa com o “bem-estar físico e emocional dos cuidadores”.
Têm, ainda, um programa de formação contínua para os cuidadores, a pensar na especialização que permite uma correspondência mais adequada entre aquele cuidador e a casa ideal para trabalhar. “Em casa, há uma personalização de atendimento total, que numa residência ou lar não é possível. Todos comem à mesma hora, jogam cartas ou vão ao jardim”, observa.
Voluntariado e envelhecimento activo
É o cuidador que assegura o bem-estar do idoso, mas não está sozinho. Além da equipa de estímulo mental, há outros serviços complementares para as cerca de 70 pessoas apoiadas, como nutricionistas, fisioterapeutas ou psicólogos. Claro que tudo isto tem um custo associado, ainda que Rita Correa Mendes não adiante um valor médio, por ser tudo “personalizável”.
Quem entra na Hug, na Rua Correia Teles, no coração do Campo de Ourique, em Lisboa, fica na dúvida se estará no local certo. Não é a loja de ortopedia e geriatria ou de apoio a idosos de que se está normalmente à espera. O ambiente hospitalar deu lugar a uma casa com divisões. É o conceito do novo projecto de apoio ao envelhecimento, defensor de que não há lugar melhor do que a nossa casa para os últimos dias.
Para os que ainda não precisam de apoio domiciliário, a aposta está no envelhecimento activo e saudável, um dos propósitos do Clube Hug, que promove actividades gratuitas. Todos os meses, há uma agenda aberta ao público nas lojas da empresa — para já em Alvalade e Campo de Ourique, em Lisboa, mas o objectivo é que o projecto se estenda ao resto do país em breve —, que inclui tertúlias de literacia para o envelhecimento.
Quem entra na Hug, na Rua Correia Teles, no coração do Campo de Ourique, em Lisboa, fica na dúvida se estará no local certo. Não é a loja de ortopedia e geriatria ou de apoio a idosos de que se está normalmente à espera. O ambiente hospitalar deu lugar a uma casa com divisões. É o conceito do novo projecto de apoio ao envelhecimento, defensor de que não há lugar melhor do que a nossa casa para os últimos dias.
[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]
11.9.23
Lisboa: leiloa-se à maior licitação
João Rochate da Palma, in Público
Poucas palavras me restam para expressar o estado da capital portuguesa. A cada dia surgem novas evidências de que toda a cidade está num estado perpétuo de se leiloar à maior licitação.
Poucas palavras me restam para expressar o estado da capital portuguesa. A cada dia surgem novas evidências de que toda a cidade está num estado perpétuo de se leiloar à maior licitação. A piorar a situação, as condições materiais e morais de habitar Lisboa têm vindo a deteriorar-se de tal modo que um retorno à Lisboa de personalidade que atraiu a onda turística que agora a destrói parece cada vez menos viável.
Agora é a Casa Independente, lugar de passagem obrigatório no largo do Intendente, que fechará portas dado que a intenção dos proprietários do edifício é vendê-lo, provavelmente a quem mais oferecer. E quem é que mais oferece? Sempre uma grande empresa que procura “modernizar” espaços, isto é, transformá-los em alojamentos locais, hotéis ou espaços mais apetecíveis ao novo modelo de turista americanizado que o governo da cidade parece procurar.
Aquele turista ou nómada que usa, abusa, cospe na cara, não pergunta o que a cidade quer ou de que gosta. Aquele turista que está ali só para satisfazer os seus interesses e não quer personalidade ou diálogo com as ruas, com os espaços tradicionais da cidade, aqueles que lhe conferiam, outrora, estatuto de cidade histórica. É assim que Lisboa se vende.
Já este ano se perdeu, no mesmo largo, outro espaço, pelo mesmo motivo, “O das Joanas”, encerrou permanentemente. Outro espaço icónico de um largo que tanto demorou a ser reabilitado, ao ponto de hoje atrair interesses que não são locais, mas sim com a mente posta no lucro desenfreado, na expulsão da personalidade do centro da cidade.
Há uns anos, expulsaram o que restava do Imaviz, o “MetropolisClub”, que mantinha a vida acesa no centro comercial histórico de Lisboa. Agora, cerca de três ou quatro anos depois, nem existe a obra que era prevista para o espaço, nem há provas do começo da construção.
Quem dá estes exemplos dá incontáveis mais. A cidade continua a vender-se, como se vendeu à JMJ, cujo retorno foi posto em tom de humilhação na expressão de que é “espiritual”. A abdicação da cidade à devassidão Católica surgiu apenas poucas semanas antes de Lisboa ser galardoada com o prémio de ultrapassar Amesterdão como a cidade mais cara da Europa. Um prémio acompanhado da miséria e pobreza do estado da habitação, à qual não há pacote deste Governo que pareça ter qualquer efeito.
Os preços aumentam, a cidade torna-se hostil e surgem notícias de que os nómadas já nem a procuram tanto, e o ritmo de chegada chegou a abrandar, nem que temporariamente. De tanto despersonalizar a cidade, de tanto a vender, ela arruinou-se, a fim de atrair a chegada de mais cifrões. Tanto o fez que até estes perderá. E depois, que restará? Uma cidade economizada? Sem personalidade? Sem locais?
Enquanto estas perguntas surgem, a cidade continua a vender-se, sem resistência ou protesto que valha. Sem a violência de discurso necessária.
Porém, o turismo não acabará e desta onda não se vê o fim. E diga-se, o problema não é o turismo, mas sim a incapacidade de tornar Lisboa senhora que atrai turista, em vez de a vender ao turista que mais pagar, que mais vier, que mais quiser aparecer, moldando-a ao gosto do freguês. Lisboa, turística e de locais, é aquela que sempre foi: histórica, cultural, com identidade.
Poucas palavras me restam para expressar o estado da capital portuguesa. A cada dia surgem novas evidências de que toda a cidade está num estado perpétuo de se leiloar à maior licitação.
Poucas palavras me restam para expressar o estado da capital portuguesa. A cada dia surgem novas evidências de que toda a cidade está num estado perpétuo de se leiloar à maior licitação. A piorar a situação, as condições materiais e morais de habitar Lisboa têm vindo a deteriorar-se de tal modo que um retorno à Lisboa de personalidade que atraiu a onda turística que agora a destrói parece cada vez menos viável.
Agora é a Casa Independente, lugar de passagem obrigatório no largo do Intendente, que fechará portas dado que a intenção dos proprietários do edifício é vendê-lo, provavelmente a quem mais oferecer. E quem é que mais oferece? Sempre uma grande empresa que procura “modernizar” espaços, isto é, transformá-los em alojamentos locais, hotéis ou espaços mais apetecíveis ao novo modelo de turista americanizado que o governo da cidade parece procurar.
Aquele turista ou nómada que usa, abusa, cospe na cara, não pergunta o que a cidade quer ou de que gosta. Aquele turista que está ali só para satisfazer os seus interesses e não quer personalidade ou diálogo com as ruas, com os espaços tradicionais da cidade, aqueles que lhe conferiam, outrora, estatuto de cidade histórica. É assim que Lisboa se vende.
Já este ano se perdeu, no mesmo largo, outro espaço, pelo mesmo motivo, “O das Joanas”, encerrou permanentemente. Outro espaço icónico de um largo que tanto demorou a ser reabilitado, ao ponto de hoje atrair interesses que não são locais, mas sim com a mente posta no lucro desenfreado, na expulsão da personalidade do centro da cidade.
Há uns anos, expulsaram o que restava do Imaviz, o “MetropolisClub”, que mantinha a vida acesa no centro comercial histórico de Lisboa. Agora, cerca de três ou quatro anos depois, nem existe a obra que era prevista para o espaço, nem há provas do começo da construção.
Quem dá estes exemplos dá incontáveis mais. A cidade continua a vender-se, como se vendeu à JMJ, cujo retorno foi posto em tom de humilhação na expressão de que é “espiritual”. A abdicação da cidade à devassidão Católica surgiu apenas poucas semanas antes de Lisboa ser galardoada com o prémio de ultrapassar Amesterdão como a cidade mais cara da Europa. Um prémio acompanhado da miséria e pobreza do estado da habitação, à qual não há pacote deste Governo que pareça ter qualquer efeito.
Os preços aumentam, a cidade torna-se hostil e surgem notícias de que os nómadas já nem a procuram tanto, e o ritmo de chegada chegou a abrandar, nem que temporariamente. De tanto despersonalizar a cidade, de tanto a vender, ela arruinou-se, a fim de atrair a chegada de mais cifrões. Tanto o fez que até estes perderá. E depois, que restará? Uma cidade economizada? Sem personalidade? Sem locais?
Enquanto estas perguntas surgem, a cidade continua a vender-se, sem resistência ou protesto que valha. Sem a violência de discurso necessária.
Porém, o turismo não acabará e desta onda não se vê o fim. E diga-se, o problema não é o turismo, mas sim a incapacidade de tornar Lisboa senhora que atrai turista, em vez de a vender ao turista que mais pagar, que mais vier, que mais quiser aparecer, moldando-a ao gosto do freguês. Lisboa, turística e de locais, é aquela que sempre foi: histórica, cultural, com identidade.
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6.9.23
Inês tem uma deficiência e lugar reservado para o carro à porta de casa, mas descobriu pela polícia que o lugar deixou de ser só seu
Marta Gonçalves, in Expresso
Inês de Castro mora em Lisboa, desloca-se em cadeira de rodas e desde que conduz que tem lugar reservado à porta de casa, sinalizado com o sinal vertical de estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida e, por baixo, o número do seu dístico de estacionamento. Recentemente, as coisas mudaram e qualquer pessoa com mobilidade reduzida pode usar o lugar que ela pediu. Autarquia assegura que está a tentar resolver a situação. Mais de metade dos lugares para pessoas com mobilidade reduzida (67%) estão atribuídos a pessoas específicas, no entanto, essa atribuição é irrelevante
rua onde mora Inês de Castro, em Benfica, tem apenas um sentido. A entrada para a sua casa fica mais ou menos a meio e, mesmo junto à porta, o lugar reservado para pessoas com mobilidade condicionada que pediu à Câmara Municipal de Lisboa para reservar deixou de ser apenas seu - um direito que pode ser exercido por qualquer pessoa com deficiência. Inês, que se desloca em cadeira de rodas, tem um sistema instalado no carro para assistir a tirar e a pôr a cadeira de rodas precisa especificamente daquele lugar. “A minha vida mudou a 27 de maio”, conta ao Expresso Inês, de 55 anos.
O lugar que lhe foi atribuído, com o número do seu dístico, deixou de ser apenas seu. “Até então, se alguém estivesse estacionado no meu lugar, ligava à polícia, vinham, multavam e rebocavam.” Naquele dia, nem multaram, nem rebocaram, argumentaram que era uma nova norma e que a sinalização com o número do dístico de Inês era inválida.
“Essa foi a primeira vez que aconteceu e entrei em pânico porque, de repente, afetou-me de facto muito”, diz. “Já aconteceu mais duas vezes, sempre com a mesma pessoa. O argumento é que o lugar é universal para todas as pessoas com mobilidade reduzida e por isso qualquer pessoa com mobilidade reduzida pode utilizar. Até então, sempre que tinha alguém no meu lugar, chamava a polícia, demorava mais hora, menos uma hora - nunca é muito rápido -, mas lá se fazia e eu ia para a casa. Agora como é que vou para casa? Se estiver sozinha, durmo no carro. O meu problema é este: como é garanto que vou para casa, que tenho lugar, que tiro a minha cadeira do carro?”, questiona.
A alteração no modo de atuação da polícia, neste caso da Polícia Municipal, prende-se com o facto do sinal com o número do dístico não estar previsto no Código da Estrada e ir contra a convenções assinadas por Portugal, explica a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ASNR), em resposta ao Expresso.
“O Estado Português, enquanto parte contratante da Convenção de Viena sobre a Circulação (CVSCR) comprometeu-se a proceder de modo a que seja proibido ‘apor num sinal, no respetivo suporte ou em qualquer outra instalação que sirva para regular a circulação o que quer que seja que não se relacione com a finalidade desse sinal ou instalação’”, sublinha a ASNR.
Ou seja, aquela segunda placa com o número do dístico não é válida no entender da ASNR e qualquer pessoa com dístico de mobilidade reduzida pode estacionar nos lugares para pessoas com mobilidade reduzida, esteja este ou não atribuído a alguém em particular.
Atualmente, a autarquia assegura que há por toda a cidade 2171 lugares para pessoas com mobilidade condicionada; 1461 destes foram atribuídos a pessoas em concreto (o que representa cerca de 67%).
“O atual executivo camarário está a preparar ações com vista a sensibilizar as autoridades competentes a equacionar a alteração da legislação em vigor, de modo a que o lugar de estacionamento para pessoa condicionada na sua mobilidade possa ser de uso exclusivo”, diz ao Expresso a Câmara, acrescentando que continua a reservar o “lugar de estacionamento para pessoa condicionada na sua mobilidade, a pedido do interessado”. Caso este não esteja disponível, a autarquia sublinha que as estas pessoas “podem estacionar em lugares não reservados, beneficiando sempre de isenção de tarifa de estacionamento”.
PRINCÍPIO DA NÃO DISCRIMINAÇÃO
Logo após a primeira vez em que a polícia nada fez para remover o carro que ocupava o lugar que lhe era atribuído, Inês de Castro inscreveu-se numa reunião camarária pública, onde expôs a sua situação. Em resposta, e antes de passar a palavra ao vice-presidente da CML, Carlos Moedas disse desconhecer “completamente” que algo assim estava a acontecer. Filipe Anacoreta Correia, por sua vez, argumentou que a interpretação da Convenção é “discutível e questionável”, dando a garantia que a autarquia ia “tentar advogar”.
A ASNR, além da Convenção de Viena, suporta ainda a medida na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD). “Foram adotadas políticas de discriminação positiva dos cidadãos portadores de deficiências que, pelas suas limitações e incapacidades, veem a integração na sociedade e no mercado de trabalho mais penosa e dificultada que os restantes cidadãos. Assim, sendo o princípio da não discriminação uma concretização do princípio da igualdade, devem todos os cidadãos com deficiência beneficiar de medidas concretas tendentes a favorecer a sua integração social e profissional”, pode ler-se na resposta enviada ao Expresso, reforçando que “não se considera justificável a criação da possibilidade da atribuição de um lugar de estacionamento que beneficie um determinado cidadão portador de deficiência” em “detrimento dos demais portadores de deficiência”.
No entanto, de acordo com Regulamento Geral de Estacionamento e Paragem na Via Pública da CML, o pedido para a reserva de lugar deve ser feito mediante a apresentação de uma série de documentos. Cada cidadão tem o direito de fazer este pedido para junto do local de residência ou/e de trabalho, pode ler-se. “Eu pedi aquele lugar, se alguém se lembra de estacionar ali sempre e não pedir um lugar para si, eu estou bem tramada”, vinca Inês de Castro, não tendo qualquer possibilidade de pedir mais lugares junto a sua casa.
Em situações limite, defende ainda a ANSR, cabe à autarquia “o introduzir alterações nos aspetos construtivos da via” para permitir a capacidade de mobilidade de determinada pessoa. “Considera-se que se torna premente a tomada de medidas apropriadas por parte das autarquias locais, nomeadamente no que diz respeito ao ordenamento do estacionamento de veículos e à criação de um maior número de lugares, na via pública, para o estacionamento de veículos que transportem pessoas com deficiência, titulares de cartão de estacionamento, sendo com tais medidas que se garante a igualdade de facto entre pessoas com deficiência.”
Inês de Castro mora em Lisboa, desloca-se em cadeira de rodas e desde que conduz que tem lugar reservado à porta de casa, sinalizado com o sinal vertical de estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida e, por baixo, o número do seu dístico de estacionamento. Recentemente, as coisas mudaram e qualquer pessoa com mobilidade reduzida pode usar o lugar que ela pediu. Autarquia assegura que está a tentar resolver a situação. Mais de metade dos lugares para pessoas com mobilidade reduzida (67%) estão atribuídos a pessoas específicas, no entanto, essa atribuição é irrelevante
rua onde mora Inês de Castro, em Benfica, tem apenas um sentido. A entrada para a sua casa fica mais ou menos a meio e, mesmo junto à porta, o lugar reservado para pessoas com mobilidade condicionada que pediu à Câmara Municipal de Lisboa para reservar deixou de ser apenas seu - um direito que pode ser exercido por qualquer pessoa com deficiência. Inês, que se desloca em cadeira de rodas, tem um sistema instalado no carro para assistir a tirar e a pôr a cadeira de rodas precisa especificamente daquele lugar. “A minha vida mudou a 27 de maio”, conta ao Expresso Inês, de 55 anos.
O lugar que lhe foi atribuído, com o número do seu dístico, deixou de ser apenas seu. “Até então, se alguém estivesse estacionado no meu lugar, ligava à polícia, vinham, multavam e rebocavam.” Naquele dia, nem multaram, nem rebocaram, argumentaram que era uma nova norma e que a sinalização com o número do dístico de Inês era inválida.
“Essa foi a primeira vez que aconteceu e entrei em pânico porque, de repente, afetou-me de facto muito”, diz. “Já aconteceu mais duas vezes, sempre com a mesma pessoa. O argumento é que o lugar é universal para todas as pessoas com mobilidade reduzida e por isso qualquer pessoa com mobilidade reduzida pode utilizar. Até então, sempre que tinha alguém no meu lugar, chamava a polícia, demorava mais hora, menos uma hora - nunca é muito rápido -, mas lá se fazia e eu ia para a casa. Agora como é que vou para casa? Se estiver sozinha, durmo no carro. O meu problema é este: como é garanto que vou para casa, que tenho lugar, que tiro a minha cadeira do carro?”, questiona.
A alteração no modo de atuação da polícia, neste caso da Polícia Municipal, prende-se com o facto do sinal com o número do dístico não estar previsto no Código da Estrada e ir contra a convenções assinadas por Portugal, explica a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ASNR), em resposta ao Expresso.
“O Estado Português, enquanto parte contratante da Convenção de Viena sobre a Circulação (CVSCR) comprometeu-se a proceder de modo a que seja proibido ‘apor num sinal, no respetivo suporte ou em qualquer outra instalação que sirva para regular a circulação o que quer que seja que não se relacione com a finalidade desse sinal ou instalação’”, sublinha a ASNR.
Ou seja, aquela segunda placa com o número do dístico não é válida no entender da ASNR e qualquer pessoa com dístico de mobilidade reduzida pode estacionar nos lugares para pessoas com mobilidade reduzida, esteja este ou não atribuído a alguém em particular.
Atualmente, a autarquia assegura que há por toda a cidade 2171 lugares para pessoas com mobilidade condicionada; 1461 destes foram atribuídos a pessoas em concreto (o que representa cerca de 67%).
“O atual executivo camarário está a preparar ações com vista a sensibilizar as autoridades competentes a equacionar a alteração da legislação em vigor, de modo a que o lugar de estacionamento para pessoa condicionada na sua mobilidade possa ser de uso exclusivo”, diz ao Expresso a Câmara, acrescentando que continua a reservar o “lugar de estacionamento para pessoa condicionada na sua mobilidade, a pedido do interessado”. Caso este não esteja disponível, a autarquia sublinha que as estas pessoas “podem estacionar em lugares não reservados, beneficiando sempre de isenção de tarifa de estacionamento”.
PRINCÍPIO DA NÃO DISCRIMINAÇÃO
Logo após a primeira vez em que a polícia nada fez para remover o carro que ocupava o lugar que lhe era atribuído, Inês de Castro inscreveu-se numa reunião camarária pública, onde expôs a sua situação. Em resposta, e antes de passar a palavra ao vice-presidente da CML, Carlos Moedas disse desconhecer “completamente” que algo assim estava a acontecer. Filipe Anacoreta Correia, por sua vez, argumentou que a interpretação da Convenção é “discutível e questionável”, dando a garantia que a autarquia ia “tentar advogar”.
A ASNR, além da Convenção de Viena, suporta ainda a medida na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD). “Foram adotadas políticas de discriminação positiva dos cidadãos portadores de deficiências que, pelas suas limitações e incapacidades, veem a integração na sociedade e no mercado de trabalho mais penosa e dificultada que os restantes cidadãos. Assim, sendo o princípio da não discriminação uma concretização do princípio da igualdade, devem todos os cidadãos com deficiência beneficiar de medidas concretas tendentes a favorecer a sua integração social e profissional”, pode ler-se na resposta enviada ao Expresso, reforçando que “não se considera justificável a criação da possibilidade da atribuição de um lugar de estacionamento que beneficie um determinado cidadão portador de deficiência” em “detrimento dos demais portadores de deficiência”.
No entanto, de acordo com Regulamento Geral de Estacionamento e Paragem na Via Pública da CML, o pedido para a reserva de lugar deve ser feito mediante a apresentação de uma série de documentos. Cada cidadão tem o direito de fazer este pedido para junto do local de residência ou/e de trabalho, pode ler-se. “Eu pedi aquele lugar, se alguém se lembra de estacionar ali sempre e não pedir um lugar para si, eu estou bem tramada”, vinca Inês de Castro, não tendo qualquer possibilidade de pedir mais lugares junto a sua casa.
Em situações limite, defende ainda a ANSR, cabe à autarquia “o introduzir alterações nos aspetos construtivos da via” para permitir a capacidade de mobilidade de determinada pessoa. “Considera-se que se torna premente a tomada de medidas apropriadas por parte das autarquias locais, nomeadamente no que diz respeito ao ordenamento do estacionamento de veículos e à criação de um maior número de lugares, na via pública, para o estacionamento de veículos que transportem pessoas com deficiência, titulares de cartão de estacionamento, sendo com tais medidas que se garante a igualdade de facto entre pessoas com deficiência.”
24.8.23
Lisboa é das cidades onde as rendas mais sobem: porquê?
Helder C. Martins Jornalista, in Expresso
Falta de oferta em todos os segmentos de arrendamento, pressão de estrangeiros e falta de confiança no mercado devido ao Mais Habitação são algumas das explicações apontadas pelos analistas
Lisboa foi a cidade em que as rendas dos imóveis melhor situados mais cresceram no primeiro semestre de 2023, num conjunto de 30 cidades analisadas a nível mundial pela consultora Savills.
Os dados dão conta de um crescimento de 13,9% nos preços das rendas ‘prime’ na capital, o maior de qualquer cidade europeia e, apenas seguido de perto por Singapura (13,6%). A capital portuguesa é também a que maior crescimento homólogo (face ao mesmo período do ano passado) regista.
Os dados desta consultora especializada em imóveis de luxo, cujos valores de rendas mensais propostos em Portugal vão de 1850 euros por um estúdio até aos 10 mil euros por um apartamento num edifício histórico, foram publicados em julho, e já na altura divulgados pelo Expresso. Mas ganharam força esta semana, por terem sido incluídos num artigo do Financial Times.
A subida das rendas é transversal a todos os segmentos, embora com nuances, dizem ao analistas contactados pelo Expresso. Argumentam que a falta de oferta generalizada acompanhada pela instabilidade legislativa, incluindo as nova limitações às rendas trazidas pelo Mais Habitação, são alguns dos fatores que explicam o aumento das rendas.
“Existe muito pouca oferta imóveis para arrendamento em Portugal. A oferta existente é mínima seja qual for o segmento de mercado a que se destine e em todas as tipologias”, diz Carlos Vasconcellos, administrador da Quest Capital, empresa de investimento imobiliário que detém o maior portefólio residencial em Portugal, com mais de 3 mil apartamentos em arrendamento.
Como um dos focos de pressão para o aumento das rendas, Carlos Vasconcellos salienta um “aumento significativo” da procura por parte de estrangeiros para arrendamento de longo prazo, pois escolhem Portugal para fixar residência.
“Neste momento, a pressão da procura que existe leva a que se faça leilão no arrendamento”, salienta.
O administrador da Quest Capital, acrescenta que um outro fator que influi muito na redução de oferta prende-se com o programa Mais Habitação, que desde o seu anúncio em fevereiro, levou uma boa fatia de proprietários a retirar as suas casas do mercado e a vendê-las. “Entenderam que, com tantas limitações e incógnitas, não fazia sentido manter as casas no arrendamento porque não compensa”, afirma.
Em matéria de arrendamento, existe uma tempestade perfeita”, diz Carlos Vasconcellos
O responsável refere-se não só ao limite de 2% no aumento de rendas dos novos contratos previsto no Mais Habitação, como à perspetiva de novo congelamento da atualização de rendas existentes. “Em matéria de arrendamento, existe uma tempestade perfeita”, conclui.
No ano passado, o Governo decidiu fixar a atualização para 2023 em 2%, devido à inflação, quando o o previsto na lei – inflação média dos últimos 12 meses - apontava para 5,43%. Para 2024, a atualização legal ficará acima dos 7% - os dados da inflação de agosto serão conhecidos na próxima semana – mas os senhorios já anteciparam novo congelamento.
RENDAS AUMENTAM APÓS ANÚNCIO DE CONGELAMENTO
Os possíveis efeitos negativos da instabilidade legislativa, sejam o travão de 2% na atualização, sejam os limites do Mais Habitação, no aumento das rendas é também destacado por Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário. A par da redução de oferta, logo com o anúncio do travão da atualização das rendas em 2,0%, as novas rendas contratadas subiram uns inéditos 10% trimestrais.
“Chegados ao 2º trimestre de 2023, o índice de rendas alcançava uns expressivos 29,6% em Lisboa, mostrando os efeitos das medidas sobre os inquilinos, em especial sobre os que estão fora do mercado e pretendem aceder à habitação”, afirma.
Uma tendência em linha com os últimos dados disponibilizados pelo INE para o primeiro trimestre que dá conta de um aumento de 20,6% das rendas dos novos contratos em Lisboa (14,50 €/m2) +20,6%), e de 22,1% no Porto (11,25 €/m2) .
A OUTRA FACE DO ARRENDAMENTO
Diana Ralha, diretora de comunicação da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), reconhece que os preços das rendas estão a aumentar, à semelhança de outros bens, mas salienta que a maioria dos senhorios “não está a praticar preços desajustados, apesar da inflação”.
Lembra que os Censos de 2021 apontam para uma renda média de menos de 400 euros mensais e esclarecem que há mais rendas em Portugal abaixo dos 50 euros do que contratos acima dos 1000 euros. “A renda mediana dos mais de 7000 contratos que a ALP gere pelos seus associados, a esmagadora maioria dos quais na Grande Lisboa, é de cerca de 600 euros”, salienta.
A maioria dos senhorios não está a praticar preços desajustados, apesar da inflação. (…) “O medo instalou-se” entre os senhorios, diz a ALP
Para a responsável, desde 16 de fevereiro com a mera apresentação do Mais Habitação “o medo instalou-se” entre os senhorios. “Ninguém sabe já o que vai acontecer: se há rendas limitadas e até que valor, se vai haver aumentos administrativos, se os impostos baixam, se as rendas antigas ficam congeladas para sempre à custa dos senhorios, se as autarquias vão entrar pelas casas devolutas a dentro, se o que vale hoje amanhã ou depois não é revertido”, salienta.
Face à incerteza, a responsável adianta que quem pôde aumentar os valores da renda, ou seja, quem tinha casas vagas, ou pôde fazer oposições à renovação, aumentou preventivamente as mesmas, face às ameaças do Mais Habitação de não poder aumentar mais do que 2% nos próximos contratos. “Outros houve que venderam mesmo a sua habitação.
A procura é muito forte. A oferta é escassa”, afirma , relembrando o desinvestimento do Estado na habitação – o parque público é de 2% quando na Holanda é de 25% - , os congelamentos de rendas que datam do século XX, entre outros fatores.
Falta de oferta em todos os segmentos de arrendamento, pressão de estrangeiros e falta de confiança no mercado devido ao Mais Habitação são algumas das explicações apontadas pelos analistas
Lisboa foi a cidade em que as rendas dos imóveis melhor situados mais cresceram no primeiro semestre de 2023, num conjunto de 30 cidades analisadas a nível mundial pela consultora Savills.
Os dados dão conta de um crescimento de 13,9% nos preços das rendas ‘prime’ na capital, o maior de qualquer cidade europeia e, apenas seguido de perto por Singapura (13,6%). A capital portuguesa é também a que maior crescimento homólogo (face ao mesmo período do ano passado) regista.
Os dados desta consultora especializada em imóveis de luxo, cujos valores de rendas mensais propostos em Portugal vão de 1850 euros por um estúdio até aos 10 mil euros por um apartamento num edifício histórico, foram publicados em julho, e já na altura divulgados pelo Expresso. Mas ganharam força esta semana, por terem sido incluídos num artigo do Financial Times.
A subida das rendas é transversal a todos os segmentos, embora com nuances, dizem ao analistas contactados pelo Expresso. Argumentam que a falta de oferta generalizada acompanhada pela instabilidade legislativa, incluindo as nova limitações às rendas trazidas pelo Mais Habitação, são alguns dos fatores que explicam o aumento das rendas.
“Existe muito pouca oferta imóveis para arrendamento em Portugal. A oferta existente é mínima seja qual for o segmento de mercado a que se destine e em todas as tipologias”, diz Carlos Vasconcellos, administrador da Quest Capital, empresa de investimento imobiliário que detém o maior portefólio residencial em Portugal, com mais de 3 mil apartamentos em arrendamento.
Como um dos focos de pressão para o aumento das rendas, Carlos Vasconcellos salienta um “aumento significativo” da procura por parte de estrangeiros para arrendamento de longo prazo, pois escolhem Portugal para fixar residência.
“Neste momento, a pressão da procura que existe leva a que se faça leilão no arrendamento”, salienta.
O administrador da Quest Capital, acrescenta que um outro fator que influi muito na redução de oferta prende-se com o programa Mais Habitação, que desde o seu anúncio em fevereiro, levou uma boa fatia de proprietários a retirar as suas casas do mercado e a vendê-las. “Entenderam que, com tantas limitações e incógnitas, não fazia sentido manter as casas no arrendamento porque não compensa”, afirma.
Em matéria de arrendamento, existe uma tempestade perfeita”, diz Carlos Vasconcellos
O responsável refere-se não só ao limite de 2% no aumento de rendas dos novos contratos previsto no Mais Habitação, como à perspetiva de novo congelamento da atualização de rendas existentes. “Em matéria de arrendamento, existe uma tempestade perfeita”, conclui.
No ano passado, o Governo decidiu fixar a atualização para 2023 em 2%, devido à inflação, quando o o previsto na lei – inflação média dos últimos 12 meses - apontava para 5,43%. Para 2024, a atualização legal ficará acima dos 7% - os dados da inflação de agosto serão conhecidos na próxima semana – mas os senhorios já anteciparam novo congelamento.
RENDAS AUMENTAM APÓS ANÚNCIO DE CONGELAMENTO
Os possíveis efeitos negativos da instabilidade legislativa, sejam o travão de 2% na atualização, sejam os limites do Mais Habitação, no aumento das rendas é também destacado por Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário. A par da redução de oferta, logo com o anúncio do travão da atualização das rendas em 2,0%, as novas rendas contratadas subiram uns inéditos 10% trimestrais.
“Chegados ao 2º trimestre de 2023, o índice de rendas alcançava uns expressivos 29,6% em Lisboa, mostrando os efeitos das medidas sobre os inquilinos, em especial sobre os que estão fora do mercado e pretendem aceder à habitação”, afirma.
Uma tendência em linha com os últimos dados disponibilizados pelo INE para o primeiro trimestre que dá conta de um aumento de 20,6% das rendas dos novos contratos em Lisboa (14,50 €/m2) +20,6%), e de 22,1% no Porto (11,25 €/m2) .
A OUTRA FACE DO ARRENDAMENTO
Diana Ralha, diretora de comunicação da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), reconhece que os preços das rendas estão a aumentar, à semelhança de outros bens, mas salienta que a maioria dos senhorios “não está a praticar preços desajustados, apesar da inflação”.
Lembra que os Censos de 2021 apontam para uma renda média de menos de 400 euros mensais e esclarecem que há mais rendas em Portugal abaixo dos 50 euros do que contratos acima dos 1000 euros. “A renda mediana dos mais de 7000 contratos que a ALP gere pelos seus associados, a esmagadora maioria dos quais na Grande Lisboa, é de cerca de 600 euros”, salienta.
A maioria dos senhorios não está a praticar preços desajustados, apesar da inflação. (…) “O medo instalou-se” entre os senhorios, diz a ALP
Para a responsável, desde 16 de fevereiro com a mera apresentação do Mais Habitação “o medo instalou-se” entre os senhorios. “Ninguém sabe já o que vai acontecer: se há rendas limitadas e até que valor, se vai haver aumentos administrativos, se os impostos baixam, se as rendas antigas ficam congeladas para sempre à custa dos senhorios, se as autarquias vão entrar pelas casas devolutas a dentro, se o que vale hoje amanhã ou depois não é revertido”, salienta.
Face à incerteza, a responsável adianta que quem pôde aumentar os valores da renda, ou seja, quem tinha casas vagas, ou pôde fazer oposições à renovação, aumentou preventivamente as mesmas, face às ameaças do Mais Habitação de não poder aumentar mais do que 2% nos próximos contratos. “Outros houve que venderam mesmo a sua habitação.
A procura é muito forte. A oferta é escassa”, afirma , relembrando o desinvestimento do Estado na habitação – o parque público é de 2% quando na Holanda é de 25% - , os congelamentos de rendas que datam do século XX, entre outros fatores.
23.8.23
Entre 30 capitais mundiais, as rendas em Lisboa foram as que mais subiram
Ana Petronilho, in ECO
Lisboa é a capital mundial onde se registou a maior subida de rendas, sobretudo em casas premium, quer seja no primeiro semestre do ano como em termos homólogos.
De acordo com o estudo da consultora Savills internacional “Índice Mundial do mercado Residencial Prime”, a que o ECO teve acesso, entre as 30 cidades analisadas, no primeiro semestre deste ano o valor das rendas em Lisboa subiu 13,9%. E em junho o aumento ascendeu a 32,7% em termos homólogos.
Com esta escalada nos preços das casas premium, o aumento das rendas em Lisboa, no primeiro semestre do ano, ultrapassa os valores registados em cidades como Singapura (13,6%), onde se registou a segunda maior subida, ou Berlim (9,2%), com o terceiro maior aumento. E é mais do dobro da subida registada em cidades como Dubai, onde o aumento foi de 5,4% entre janeiro e junho deste ano, ou em Kuala Lumpur com uma subida de 4,3%.
O estudo da Savills internacional sublinha que os mercados de arrendamento de Lisboa e Singapura “assistiram a níveis significativos de crescimento de preços ao longo dos últimos 18 meses, com os rendas a subir acima de 40%” à medida que “houve uma maior procura de inquilinos internacionais que impulsionaram o mercado de residências premium”.
Mas o Financial Times, que escreveu sobre o tema, aponta uma outra razão para a subida vertiginosa nas rendas em Lisboa. O jornal refere que este será um resultado das “políticas iminentes de controlo das rendas, que levaram alguns proprietários a aumentar preventivamente as rendas”. Em causa está o limite de 2% na atualização do valor das rendas, em vez de refletir o valor da inflação, em vigor desde janeiro deste ano. Para os novos contratos de arrendamento, o travão de 2% na atualização irá entrar em vigor com o diploma Mais Habitação, vetado esta segunda-feira pelo Presidente da República mas que o PS irá aprovar novamente no Parlamento.
Entre as dez cidades europeias analisadas no estudo, a que o ECO teve acesso, depois de Lisboa e Berlim surge Amesterdão na oitava posição, onde no primeiro semestre deste ano as rendas subiram 3,3%, logo seguida de Barcelona com um aumento de 3% e de Milão e Madrid com 2,9%.
Em Londres e Roma o aumento semestral foi de 1,9% e em Atenas de 1,8%. Paris foi onde a subida foi menos acentuada com 0,2%.
3.8.23
The Otolith Group em Lisboa: “As pessoas negras construíram a Europa”
José Marmeleira, in Público
Com exposição no espaço Hangar, em Lisboa, duo britânico continua a interrogar a imagem da descolonização e a libertar o imaginário do horizonte imperial do capitalismo.
A Sphere of Water Orbiting a Star (2023) é o título da exposição que o duo e casal britânico The Otolith Group apresenta, até 23 de Setembro, no espaço lisboeta de artes Hangar, com curadoria de Margarida Mendes. Não é a primeira vez que Kodwo Eshun e Anjalika Sagar, que desde 2002 assinam com o nome Otolith Group, expõem em Portugal – recorde-se, por exemplo, a individual realizada em 2015 no Museu de Serralves –, mas há dois elementos que tornam singular este A Sphere of Water Orbiting a Star: trata-se da primeira individual em Lisboa e consiste numa reflexão poética e radical sobre o racismo, o capitalismo e a descolonização.
Há duas décadas que Kodwo Eshun e Anjalika Sagar, activistas, artistas, críticos e teóricos, fazem da arte contemporânea um campo de investigação e produção baseada na imagem em movimento, na ficção e na crítica. É neste quadro que surgem as referências ao fascinante mundo subaquático conhecido como Drexciya, criado pelo homónimo duo de música tecno. Antes de darmos a palavra à dupla, vale a pena descrever a instalação que dá o nome à exposição.
Na sala do espaço Hangar, no bairro da Graça, estão dois ecrãs. No da esquerda, vemos imagens de vagas marítimas de um azul escuro, quase enegrecido, sob o qual julgamos ouvir algo mais do que o marulhar das ondas. No da direita, ouvimos uma conversa entre Kodwo Eshun e Remnant of a Hydrogen Element (pseudónimo de Gerald Donald, uma das metades dos Drexciya). Falam devagar sobre um fantástico mundo subaquático, mas é Eshun quem faz as perguntas: o artista quer conhecer esse universo ficcional que, em termos temporais e espaciais, não parece assim tão fantástico ou distante. Palavras como tráfico, escravos, mulheres e crianças negras lançadas vivas ou mortas ao oceano vão assomando da conversa, enquanto, do outro lado, a água continua a cair.
Outros mundos, com a ficção sónica
A exposição que o Otolith Group traz a Lisboa está em diálogo permanente com a história e o trabalho do duo de Detroit formado por James Stinson e Gerald Donald. No vídeo, a relação com o imaginário e a música dos Drexciya (embora não a oiçamos) é central ao tema de trabalho. “Kodwo foi o primeiro crítico a escrever um ensaio sobre o universo estético, político e musical dos Drexciya”, revela-nos Anjalika Sagar. “Publicou um ensaio na [revista de música] The Wire e dedicou-lhes vários textos no seu livro More Brilliant Than the Sun: Adventures in Sonic Fiction [1998].”
A morte rodeia a vida negra na América, sempre rodeou. E a música dos Drexciya tratava de criar impulsos, ritmos, energias, fluxos que não objectificavam as pessoas negras. Não eram afro-futuristas, mas afro-pessimistas que tentavam criar um mundo abstracto a partir do qual pudessem imaginar, conceber e realizar outro tipo de vida
Anjalika Sagar
O interesse do artista levá-lo-ia, em 2010, a Detroit, para conhecer o membro sobrevivente dos Drexciya. “O James Stinson morrera em 2002 e fui à cidade”, conta-nos agora. “Entrevistei o Gerald Donald durante três ou quatro dias e usámos algum desse material no vídeo Hyrda Decapita [pode ser visto às quintas-feiras, às 19h, no Hangar]. Agora regressámos a essa entrevista e aos Drexciya e fizemos um novo trabalho sonoro com o compositor e designer de som Taylor Friedman. Não trouxemos o som tecno dos Drexciya de volta, mas, se quiser, a sua ficção sónica, sonora, científica. Aquilo que consideramos ser a construção ou criação de mundos que os Drexciya nos deixaram.”
The Otolith Group em Lisboa: “As pessoas negras construíram a Europa”
No Hangar, os visitantes podem consultar uma selecção de discos do duo musical, bem como imagens, textos teóricos e ficcionais que contextualizam a exposição e a relação entre o Otolith Group e os Drexciya. “Podemos dizer que fomos inspirados por eles”, admite Kodwo Eshun. “Movemo-nos no mundo da arte, da teoria e do discurso e, de certa maneira, apropriamo-nos de ideias, de pensamentos de que gostamos. Gerald Donald é muito bom a construir mundos ficcionais a partir das ideias contidas nas suas canções. De cada título, ele extrapola para um sistema cósmico, com outras condições planetárias, um mundo subaquático diferente do terrestre. É como um escritor de ficção científica ou ficção especulativa. É único nisso, porque o faz a partir da música. Uso muito o termo ficção sónica para designar o trabalho dele, pois consegue reunir a uma organização do som a própria ficção científica.”
Som, há som na Hangar, mas – e já o dissemos antes – não o da música tecno. Aproveitamos o passado de Kodwo Eshun enquanto crítico musical para lhe perguntar: o que o atrai no tecno? "Agradam-me os seus aspectos impopulares”, responde. “Enquanto a cultura popular gira à volta do hip-hop, o tecno permanece uma cultura impopular. Por exemplo, não é muito popular no top 40 ou no interior dos Estados Unidos, não está na imprensa, não vemos músicos [do tecno] a comentarem os seus discos. É uma cultura local e intensa que, mediante o seu poder electrónico, cria veículos para a imaginação de mundos.”
Mas que mundo são esses? E, sendo especulativos, o que nos podem dizer de certas realidades históricas? “Há outro pano de fundo para este trabalho que é o capitalismo racial, o modo como o racismo é subjacente a todas as formas de capitalismo”, comenta Anjalika Sagar. “Os Drexciya vieram de Detroit, onde imaginaram um mundo com a sua música abstracta, uma música que resistia, pela sua estética, à música que objectificava as pessoas negras. Do fundo das vidas negras, através das narrativas que produziam nos seus álbuns conceptuais, inventaram um mundo diferente. Ressoava na música que fizeram uma forma estética resistente à captura pelo capitalismo. A morte rodeia a vida negra na América, sempre rodeou. E a música dos Drexciya tratava de criar impulsos, ritmos, energias, fluxos que não objectificavam as pessoas negras. Não eram afro-futuristas, mas afro-pessimistas que tentavam criar um mundo abstracto a partir do qual pudessem imaginar, conceber e realizar outro tipo de vida.”
Uma vida contra e longe do terror e da violência do imperialismo e do colonialismo. Nas palavras de Margarida Mendes, que podemos ler na folha de sala, essa vida seria a de uma civilização subaquática na qual os rexciyans mutantes respirariam água: “Nascidos das escravas africanas que seguiam a bordo de navios negreiros em direcção à América e que foram lançadas ao mar, esses novos seres propunham uma alternativa a um modo de vida sequestrado.”
Uma descolonização total exige a revolução de todas as formas de cultura, de política, de economia, de guerra. Não creio que isso se tenha verificado em Portugal. É o que me dizem os meus amigos portugueses
Kodwo Eshun
Portugal, "um Estado imperial”
Com o Tejo ao fundo, em plena Lisboa, interrogamos o duo sobre o significado de expor numa cidade que foi a capital de um império colonial. “Portugal foi, talvez seja ainda, um Estado imperial”, replica Kodwo Eshun, num tom suave. “Porque a questão é: até que ponto os antigos impérios de facto se descolonizaram? Não tenho a certeza de que o tenham feito. Creio que os antigos impérios se declararam formalmente como não o sendo, mas em termos de conhecimento, educação, cultura, economia, finanças ou direito continuam a sê-lo. Diria, por isso, que uma descolonização completa também não aconteceu em Portugal. De modo nenhum. Pelo contrário. Afinal, a transferência política do poder não é uma descolonização total. Uma descolonização total exige a revolução de todas as formas de cultura, de política, de economia, de guerra. Não creio que isso se tenha verificado em Portugal. É o que me dizem os meus amigos portugueses.”
O artista faz uma pausa, antes de retomar o seu pensamento. “A história depois do colonialismo é diferente em cada país, mas há continuidades ao longo do continente. Portugal é um dos impérios que têm muito para responder sobre os crimes contra a humanidade. Nós trabalhamos sobre os crimes britânicos contra a humanidade e, nesse aspecto, somos aliados de pessoas como a Margarida Mendes, que trabalha as mesmas questões de outras maneiras. Enquanto Otolith Group pretendemos interrogar a aparência ou a imagem da descolonização e libertar certos imaginários de um horizonte imperialista e capitalista que tende a dominar e absorver as aspirações e os desejos das pessoas negras e dos europeus negros cujo trabalho, cuja energia e cujas vidas construíram a Europa." E continua: "Porque não há dúvida sobre isto: as pessoas negras construíram a Europa. Infelizmente, ainda não vejo curadores e artistas suficientes em posições de influência na cultura. Se já demos alguns passos, precisamos de ir mais longe e mais depressa. O nosso papel é encorajá-lo.”
Conseguirá o Otolith Group imaginar um momento, no futuro, onde isso acontecerá? “Não. Somos muito pessimistas. Sempre fomos. Especialmente depois do 11 de Setembro [de 2001]. Não creio que possamos ver esse cenário no nosso tempo de vida. Mas fazemos o que podemos no campo onde estamos, com os amigos e camaradas que também fazem o possível onde estão. Por isso, estamos aqui para dar apoio à Margarida [Mendes] naquilo que consideramos ser uma geografia comum de luta.”
De fora, insistem, fica a expressão política das identidades que consideram estranhas, e até contrárias, à sua posição. “O capitalismo racista produz categorias que as pessoas desempenham e criticamos essa política, sobretudo agora, quando essas categorias nos são impostas”, sublinha Anjalika Sagar.
Perceptível para quem entra na exposição continua a ser um modo poético de pensar as questões mencionadas. “Tenho muita raiva, fúria, pessimismo, mas, quando fazemos arte, a questão é de forma, não de expressão”, frisa Kodwo Eshun. “Não quero exprimir a minha raiva, mas encontrar uma forma de linguagem que crie um espaço para um encontro sensorial e somático. Há muitos passos entre a raiva que sinto todos os dias e o encontro com o trabalho. Quero que seja oblíquo, que tenha uma certa opacidade, um tipo de hermetismo. Não tornamos as coisas fáceis para os espectadores ou para nós. E isso é, em si mesmo, um gesto político.”
A Sphere of Water Orbiting a Star (2023) é o título da exposição que o duo e casal britânico The Otolith Group apresenta, até 23 de Setembro, no espaço lisboeta de artes Hangar, com curadoria de Margarida Mendes. Não é a primeira vez que Kodwo Eshun e Anjalika Sagar, que desde 2002 assinam com o nome Otolith Group, expõem em Portugal – recorde-se, por exemplo, a individual realizada em 2015 no Museu de Serralves –, mas há dois elementos que tornam singular este A Sphere of Water Orbiting a Star: trata-se da primeira individual em Lisboa e consiste numa reflexão poética e radical sobre o racismo, o capitalismo e a descolonização.
Há duas décadas que Kodwo Eshun e Anjalika Sagar, activistas, artistas, críticos e teóricos, fazem da arte contemporânea um campo de investigação e produção baseada na imagem em movimento, na ficção e na crítica. É neste quadro que surgem as referências ao fascinante mundo subaquático conhecido como Drexciya, criado pelo homónimo duo de música tecno. Antes de darmos a palavra à dupla, vale a pena descrever a instalação que dá o nome à exposição.
Na sala do espaço Hangar, no bairro da Graça, estão dois ecrãs. No da esquerda, vemos imagens de vagas marítimas de um azul escuro, quase enegrecido, sob o qual julgamos ouvir algo mais do que o marulhar das ondas. No da direita, ouvimos uma conversa entre Kodwo Eshun e Remnant of a Hydrogen Element (pseudónimo de Gerald Donald, uma das metades dos Drexciya). Falam devagar sobre um fantástico mundo subaquático, mas é Eshun quem faz as perguntas: o artista quer conhecer esse universo ficcional que, em termos temporais e espaciais, não parece assim tão fantástico ou distante. Palavras como tráfico, escravos, mulheres e crianças negras lançadas vivas ou mortas ao oceano vão assomando da conversa, enquanto, do outro lado, a água continua a cair.
Outros mundos, com a ficção sónica
A exposição que o Otolith Group traz a Lisboa está em diálogo permanente com a história e o trabalho do duo de Detroit formado por James Stinson e Gerald Donald. No vídeo, a relação com o imaginário e a música dos Drexciya (embora não a oiçamos) é central ao tema de trabalho. “Kodwo foi o primeiro crítico a escrever um ensaio sobre o universo estético, político e musical dos Drexciya”, revela-nos Anjalika Sagar. “Publicou um ensaio na [revista de música] The Wire e dedicou-lhes vários textos no seu livro More Brilliant Than the Sun: Adventures in Sonic Fiction [1998].”
A morte rodeia a vida negra na América, sempre rodeou. E a música dos Drexciya tratava de criar impulsos, ritmos, energias, fluxos que não objectificavam as pessoas negras. Não eram afro-futuristas, mas afro-pessimistas que tentavam criar um mundo abstracto a partir do qual pudessem imaginar, conceber e realizar outro tipo de vida
Anjalika Sagar
O interesse do artista levá-lo-ia, em 2010, a Detroit, para conhecer o membro sobrevivente dos Drexciya. “O James Stinson morrera em 2002 e fui à cidade”, conta-nos agora. “Entrevistei o Gerald Donald durante três ou quatro dias e usámos algum desse material no vídeo Hyrda Decapita [pode ser visto às quintas-feiras, às 19h, no Hangar]. Agora regressámos a essa entrevista e aos Drexciya e fizemos um novo trabalho sonoro com o compositor e designer de som Taylor Friedman. Não trouxemos o som tecno dos Drexciya de volta, mas, se quiser, a sua ficção sónica, sonora, científica. Aquilo que consideramos ser a construção ou criação de mundos que os Drexciya nos deixaram.”
The Otolith Group em Lisboa: “As pessoas negras construíram a Europa”
No Hangar, os visitantes podem consultar uma selecção de discos do duo musical, bem como imagens, textos teóricos e ficcionais que contextualizam a exposição e a relação entre o Otolith Group e os Drexciya. “Podemos dizer que fomos inspirados por eles”, admite Kodwo Eshun. “Movemo-nos no mundo da arte, da teoria e do discurso e, de certa maneira, apropriamo-nos de ideias, de pensamentos de que gostamos. Gerald Donald é muito bom a construir mundos ficcionais a partir das ideias contidas nas suas canções. De cada título, ele extrapola para um sistema cósmico, com outras condições planetárias, um mundo subaquático diferente do terrestre. É como um escritor de ficção científica ou ficção especulativa. É único nisso, porque o faz a partir da música. Uso muito o termo ficção sónica para designar o trabalho dele, pois consegue reunir a uma organização do som a própria ficção científica.”
Som, há som na Hangar, mas – e já o dissemos antes – não o da música tecno. Aproveitamos o passado de Kodwo Eshun enquanto crítico musical para lhe perguntar: o que o atrai no tecno? "Agradam-me os seus aspectos impopulares”, responde. “Enquanto a cultura popular gira à volta do hip-hop, o tecno permanece uma cultura impopular. Por exemplo, não é muito popular no top 40 ou no interior dos Estados Unidos, não está na imprensa, não vemos músicos [do tecno] a comentarem os seus discos. É uma cultura local e intensa que, mediante o seu poder electrónico, cria veículos para a imaginação de mundos.”
Mas que mundo são esses? E, sendo especulativos, o que nos podem dizer de certas realidades históricas? “Há outro pano de fundo para este trabalho que é o capitalismo racial, o modo como o racismo é subjacente a todas as formas de capitalismo”, comenta Anjalika Sagar. “Os Drexciya vieram de Detroit, onde imaginaram um mundo com a sua música abstracta, uma música que resistia, pela sua estética, à música que objectificava as pessoas negras. Do fundo das vidas negras, através das narrativas que produziam nos seus álbuns conceptuais, inventaram um mundo diferente. Ressoava na música que fizeram uma forma estética resistente à captura pelo capitalismo. A morte rodeia a vida negra na América, sempre rodeou. E a música dos Drexciya tratava de criar impulsos, ritmos, energias, fluxos que não objectificavam as pessoas negras. Não eram afro-futuristas, mas afro-pessimistas que tentavam criar um mundo abstracto a partir do qual pudessem imaginar, conceber e realizar outro tipo de vida.”
Uma vida contra e longe do terror e da violência do imperialismo e do colonialismo. Nas palavras de Margarida Mendes, que podemos ler na folha de sala, essa vida seria a de uma civilização subaquática na qual os rexciyans mutantes respirariam água: “Nascidos das escravas africanas que seguiam a bordo de navios negreiros em direcção à América e que foram lançadas ao mar, esses novos seres propunham uma alternativa a um modo de vida sequestrado.”
Uma descolonização total exige a revolução de todas as formas de cultura, de política, de economia, de guerra. Não creio que isso se tenha verificado em Portugal. É o que me dizem os meus amigos portugueses
Kodwo Eshun
Portugal, "um Estado imperial”
Com o Tejo ao fundo, em plena Lisboa, interrogamos o duo sobre o significado de expor numa cidade que foi a capital de um império colonial. “Portugal foi, talvez seja ainda, um Estado imperial”, replica Kodwo Eshun, num tom suave. “Porque a questão é: até que ponto os antigos impérios de facto se descolonizaram? Não tenho a certeza de que o tenham feito. Creio que os antigos impérios se declararam formalmente como não o sendo, mas em termos de conhecimento, educação, cultura, economia, finanças ou direito continuam a sê-lo. Diria, por isso, que uma descolonização completa também não aconteceu em Portugal. De modo nenhum. Pelo contrário. Afinal, a transferência política do poder não é uma descolonização total. Uma descolonização total exige a revolução de todas as formas de cultura, de política, de economia, de guerra. Não creio que isso se tenha verificado em Portugal. É o que me dizem os meus amigos portugueses.”
O artista faz uma pausa, antes de retomar o seu pensamento. “A história depois do colonialismo é diferente em cada país, mas há continuidades ao longo do continente. Portugal é um dos impérios que têm muito para responder sobre os crimes contra a humanidade. Nós trabalhamos sobre os crimes britânicos contra a humanidade e, nesse aspecto, somos aliados de pessoas como a Margarida Mendes, que trabalha as mesmas questões de outras maneiras. Enquanto Otolith Group pretendemos interrogar a aparência ou a imagem da descolonização e libertar certos imaginários de um horizonte imperialista e capitalista que tende a dominar e absorver as aspirações e os desejos das pessoas negras e dos europeus negros cujo trabalho, cuja energia e cujas vidas construíram a Europa." E continua: "Porque não há dúvida sobre isto: as pessoas negras construíram a Europa. Infelizmente, ainda não vejo curadores e artistas suficientes em posições de influência na cultura. Se já demos alguns passos, precisamos de ir mais longe e mais depressa. O nosso papel é encorajá-lo.”
Conseguirá o Otolith Group imaginar um momento, no futuro, onde isso acontecerá? “Não. Somos muito pessimistas. Sempre fomos. Especialmente depois do 11 de Setembro [de 2001]. Não creio que possamos ver esse cenário no nosso tempo de vida. Mas fazemos o que podemos no campo onde estamos, com os amigos e camaradas que também fazem o possível onde estão. Por isso, estamos aqui para dar apoio à Margarida [Mendes] naquilo que consideramos ser uma geografia comum de luta.”
De fora, insistem, fica a expressão política das identidades que consideram estranhas, e até contrárias, à sua posição. “O capitalismo racista produz categorias que as pessoas desempenham e criticamos essa política, sobretudo agora, quando essas categorias nos são impostas”, sublinha Anjalika Sagar.
Perceptível para quem entra na exposição continua a ser um modo poético de pensar as questões mencionadas. “Tenho muita raiva, fúria, pessimismo, mas, quando fazemos arte, a questão é de forma, não de expressão”, frisa Kodwo Eshun. “Não quero exprimir a minha raiva, mas encontrar uma forma de linguagem que crie um espaço para um encontro sensorial e somático. Há muitos passos entre a raiva que sinto todos os dias e o encontro com o trabalho. Quero que seja oblíquo, que tenha uma certa opacidade, um tipo de hermetismo. Não tornamos as coisas fáceis para os espectadores ou para nós. E isso é, em si mesmo, um gesto político.”
[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]
2.8.23
Papa pede à Europa que acabe com “mortandades no mar e berços vazios”
Natália Faria, in Público
Pouco depois de ter aterrado em Lisboa, Francisco pediu à Europa que recupere o seu papel de negociadora de paz, capaz de extinguir os conflitos. E voltou a criticar “deriva totalitarista”.
De cadeira de rodas e ar envelhecido, mas nem por isso menos acutilante, o Papa Francisco usou o seu primeiro discurso em solo português, onde veio presidir à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), para criticar as hesitações da “velha Europa”, que se tem mostrado incapaz de acabar com “o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios”.
Naquele que foi o primeiro dos vários discursos esperados até ao fim da JMJ, no Centro Cultural de Belém, onde se reuniram várias autoridades, Francisco começou por enfatizar o carácter multiétnico da cidade, que descreveu como “cidade do encontro que abraça vários povos e culturas” para depois, e recuperando os princípios plasmados no Tratado de Lisboa, em 2007, criticar aquilo que disse ser a falta de capacidade “e, muitas vezes, de vontade” dos protagonistas políticos de enfrentarem desafios como “as injustiças planetárias, as guerras, as crises climáticas e migratórias”.
“O mundo tem necessidade da Europa, da Europa verdadeira: precisa do seu papel de construtora de pontes e de pacificadora do Leste europeu, no Mediterrâneo, na África e no Médio Oriente”, considerou o Papa argentino, num desafio a que a Europa recupere o seu papel numa “diplomacia de paz que extinga os conflitos e acalme as tensões”. E questionou: “Olhando com grande afecto para a Europa, no espírito de diálogo que a caracteriza, apetece perguntar-lhe: Para onde navegas, se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo?"
Apontando de seguida o dedo às “derivas totalitaristas” que “usam e descartam” a vida humana, Francisco recuperou a oposição ao aborto e à eutanásia: “Penso em tantas crianças não-nascidas e idosos abandonados a si mesmos.”. Voltando a perguntar: “Para onde navegais, Europa, com o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios? Para onde ides se, perante o tormento de viver, vos limitais a oferecer remédios rápidos e errados como o fácil acesso à morte, solução cómoda que parece doce, mas na realidade é mais amarga que as águas do mar.”
Preocupação com os jovens
Focando-se depois nos protagonistas da JMJ — os jovens —, Francisco saudou os que saem à rua “não para gritar a sua raiva”, mas para “partilhar a esperança do Evangelho”. “Se em muitos lugares se respira hoje um clima de protesto e insatisfação, terreno fértil para populismos e conspirações, a Jornada Mundial da Juventude é ocasião para construir juntos”, considerou, lançando-se de seguida na questão da emergência climática.
“Estamos a transformar as grandes reservas da vida em lixeiras de plástico”, voltou a lembrar, para sublinhar que não devia ser esse o legado que os países deixam aos seus jovens, já suficientemente “desanimados” com vários problemas. “A falta de trabalho, os ritmos frenéticos em que se vêem imersos, o aumento do custo de vida, a dificuldade de encontrar uma casa e, ainda mais preocupante, o medo de constituir família e trazer filhos ao mundo”, enumerou o jesuíta, atento à “triste fase descendente da crise demográfica”.
Dirigindo-se aos políticos, Francisco lembrou o que pode a “boa política”. “Não é chamada a conservar o poder, mas a dar às pessoas a possibilidade de esperar. É chamada, hoje mais do que nunca, a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas, mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos”, alertou, para entre referências ao sentimento de saudade português e citações de José Saramago, enfatizar a importância de construir comunidades e trabalhar pelo bem comum”.
Esta vai ser uma quarta-feira longa para o Papa, que aterrou em Figo Maduro às 9h40. Durante o voo, num Airbus A329 da ITA Airways, Francisco, que vai alternando entre a bengala e a cadeira de rodas, dissera-se esperançado de que sairá “rejuvenescido” desta jornada. Cansado sairá, seguramente. Mal aterrou, o jesuíta seguiu para o Palácio de Belém, em cujo livro de honra se descreveu como “peregrino da esperança”, não se sabendo se reparou ou não nos cartazes contra os abusos na Igreja que foram colocados durante a noite na Alameda, Algés e Loures. Os cartazes, financiados através de uma campanha de crowfunding, pretendiam quebrar o “silêncio ensurdecedor” quanto a este assunto durante a JMJ. Em cada um deles lê-se que mais de 4800 crianças foram abusadas por elementos da Igreja.
De cadeira de rodas e ar envelhecido, mas nem por isso menos acutilante, o Papa Francisco usou o seu primeiro discurso em solo português, onde veio presidir à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), para criticar as hesitações da “velha Europa”, que se tem mostrado incapaz de acabar com “o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios”.
Naquele que foi o primeiro dos vários discursos esperados até ao fim da JMJ, no Centro Cultural de Belém, onde se reuniram várias autoridades, Francisco começou por enfatizar o carácter multiétnico da cidade, que descreveu como “cidade do encontro que abraça vários povos e culturas” para depois, e recuperando os princípios plasmados no Tratado de Lisboa, em 2007, criticar aquilo que disse ser a falta de capacidade “e, muitas vezes, de vontade” dos protagonistas políticos de enfrentarem desafios como “as injustiças planetárias, as guerras, as crises climáticas e migratórias”.
“O mundo tem necessidade da Europa, da Europa verdadeira: precisa do seu papel de construtora de pontes e de pacificadora do Leste europeu, no Mediterrâneo, na África e no Médio Oriente”, considerou o Papa argentino, num desafio a que a Europa recupere o seu papel numa “diplomacia de paz que extinga os conflitos e acalme as tensões”. E questionou: “Olhando com grande afecto para a Europa, no espírito de diálogo que a caracteriza, apetece perguntar-lhe: Para onde navegas, se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo?"
Apontando de seguida o dedo às “derivas totalitaristas” que “usam e descartam” a vida humana, Francisco recuperou a oposição ao aborto e à eutanásia: “Penso em tantas crianças não-nascidas e idosos abandonados a si mesmos.”. Voltando a perguntar: “Para onde navegais, Europa, com o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios? Para onde ides se, perante o tormento de viver, vos limitais a oferecer remédios rápidos e errados como o fácil acesso à morte, solução cómoda que parece doce, mas na realidade é mais amarga que as águas do mar.”
Preocupação com os jovens
Focando-se depois nos protagonistas da JMJ — os jovens —, Francisco saudou os que saem à rua “não para gritar a sua raiva”, mas para “partilhar a esperança do Evangelho”. “Se em muitos lugares se respira hoje um clima de protesto e insatisfação, terreno fértil para populismos e conspirações, a Jornada Mundial da Juventude é ocasião para construir juntos”, considerou, lançando-se de seguida na questão da emergência climática.
“Estamos a transformar as grandes reservas da vida em lixeiras de plástico”, voltou a lembrar, para sublinhar que não devia ser esse o legado que os países deixam aos seus jovens, já suficientemente “desanimados” com vários problemas. “A falta de trabalho, os ritmos frenéticos em que se vêem imersos, o aumento do custo de vida, a dificuldade de encontrar uma casa e, ainda mais preocupante, o medo de constituir família e trazer filhos ao mundo”, enumerou o jesuíta, atento à “triste fase descendente da crise demográfica”.
Dirigindo-se aos políticos, Francisco lembrou o que pode a “boa política”. “Não é chamada a conservar o poder, mas a dar às pessoas a possibilidade de esperar. É chamada, hoje mais do que nunca, a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas, mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos”, alertou, para entre referências ao sentimento de saudade português e citações de José Saramago, enfatizar a importância de construir comunidades e trabalhar pelo bem comum”.
Esta vai ser uma quarta-feira longa para o Papa, que aterrou em Figo Maduro às 9h40. Durante o voo, num Airbus A329 da ITA Airways, Francisco, que vai alternando entre a bengala e a cadeira de rodas, dissera-se esperançado de que sairá “rejuvenescido” desta jornada. Cansado sairá, seguramente. Mal aterrou, o jesuíta seguiu para o Palácio de Belém, em cujo livro de honra se descreveu como “peregrino da esperança”, não se sabendo se reparou ou não nos cartazes contra os abusos na Igreja que foram colocados durante a noite na Alameda, Algés e Loures. Os cartazes, financiados através de uma campanha de crowfunding, pretendiam quebrar o “silêncio ensurdecedor” quanto a este assunto durante a JMJ. Em cada um deles lê-se que mais de 4800 crianças foram abusadas por elementos da Igreja.
1.8.23
Entre o Texas e Oeiras: o milagre da multiplicação das línguas na missa de São Julião da Barra
Tiago Soares Jornalista e Nuno Botelho Fotojornalista, in Expresso
Reportagem numa paróquia nos arredores de Lisboa, onde o coordenador local da JMJ já consegue dormir mais do que quatro horas por noite. Centenas de peregrinos – vizinhos e do outro lado do oceano – são recebidos da mesma forma: uma missa que todos percebem celebrada (também) por militares, um arraial com concertina e boa disposição, e a promessa de que o autocarro vindo do Texas acabará por chegar
João Sacadura está há mais de três anos à espera das pessoas que vê agora à sua frente. “Convidaram-me para ser o coordenador [do acolhimento] porque sou catequista aqui na paróquia”, explica o jovem de 25 anos que está a completar o estágio de psicologia num projeto social da junta de freguesia de São Julião da Barra, em Oeiras, onde esta segunda-feira foram recebidos centenas de peregrinos – Espanha, Estados Unidos, Peru – que vão participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de Lisboa.
“Esta é só a primeira vaga, estão a chegar a conta gotas. A segunda vaga já vai ser mais a sério. Vamos ter de acolher cerca de 2 mil peregrinos, mas é só na sexta-feira”, explica João, com a calma possível de quem está há meses em “reuniões” para que nada corra mal – mas também com a prontidão necessária para continuar a “apagar fogos” e a “afinar a máquina” até ao fim da JMJ.
“Na semana passada conseguimos dormir umas 3h, 4h por noite, mas decidimos parar com a brincadeira esta semana porque já estávamos a ficar todos zombies”, diz o cérebro da operação em São Julião da Barra.
João Sacadura está há mais de três anos à espera das pessoas que vê agora à sua frente. “Convidaram-me para ser o coordenador [do acolhimento] porque sou catequista aqui na paróquia”, explica o jovem de 25 anos que está a completar o estágio de psicologia num projeto social da junta de freguesia de São Julião da Barra, em Oeiras, onde esta segunda-feira foram recebidos centenas de peregrinos – Espanha, Estados Unidos, Peru – que vão participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de Lisboa.
“Esta é só a primeira vaga, estão a chegar a conta gotas. A segunda vaga já vai ser mais a sério. Vamos ter de acolher cerca de 2 mil peregrinos, mas é só na sexta-feira”, explica João, com a calma possível de quem está há meses em “reuniões” para que nada corra mal – mas também com a prontidão necessária para continuar a “apagar fogos” e a “afinar a máquina” até ao fim da JMJ.
“Na semana passada conseguimos dormir umas 3h, 4h por noite, mas decidimos parar com a brincadeira esta semana porque já estávamos a ficar todos zombies”, diz o cérebro da operação em São Julião da Barra.
Transferência dos obstetras do Santa Maria para São Francisco de Xavier “está a correr bem” e houve “até bolo de boas-vindas”
Vera Lúcia Arreigoso Jornalista, in Expresso
Hospital de São Francisco Xavier passa a concentrar a obstetrícia também do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Novo serviço está a funcionar em pleno. Primeiro dia é assegurado por equipas do Santa Maria. Compareceram todos, inclusivamente dois que estariam contra a mudança. Despacho de mobilidade do ministro da Saúde deu enquadramento legal à transferência
Ninguém faltou. Às nove horas da manhã desta terça-feira, a equipa de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, apresentou-se ao serviço na nova maternidade, no vizinho São Francisco Xavier. Assumiu a primeira escala do primeiro dia dos próximos oito a dez meses que deverão demorar as obras para a construção das novas infraestruturas de obstetrícia no hospital.
“Está tudo a correr bem. Vieram todos os obstetras escalas, estão seis médicos, e está tudo tranquilo”, garante Fernando Cirurgião, diretor do Serviço de Obstetrícia-Ginecologia do Hospital de São Francisco Xavier. Os obstetras do Santa Maria escalados compareceram todos, entre eles dois elementos que tinham dito que não iriam para a nova maternidade. A recebê-los estava até um bolo de boas-vindas.
“Começámos com bastante afluência, porque o Santa Maria fechou durante a noite e já demos uso a mais camas”, revela Fernando Cirurgião. Já noutro ponto da cidade, o início da manhã foi de descanso. No Santa Maria “já está tudo fechado, a urgência e o internamento obstétricos” e “ainda hoje, terão alta as oito puérperas do fim de semana”, adianta Alexandre Valentim Lourenço, diretor interino da obstetrícia e diretor da ginecologia do Hospital de Santa Maria.
A única valência que ainda vai levar alguns dias até à transição total é a das consultas. O responsável explica que vão manter-se no Santa Marias todas as marcações que já estavam agendadas e as novas consultas serão já com marcação para o São Francisco Xavier. A estimativa é de que a transição termine nos próximos dez dias.
Na segunda-feira, o diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde, Fernando Araújo, esteve no São Francisco Xavier com Alexandre Valentim Lourenço e Fernando Cirurgião para se assegurar que tudo estava pronto para o ‘parto’ da nova maternidade, que se sabia difícil de antemão. O ministro da Saúde, Manuel Pizarro, deu uma ajuda. Publicou um despacho que obriga os obstetras do Santa Maria a preencher as escalas no São Francisco Xavier, reduzindo quase a zero o risco de boicote.
O despacho de mobilidade dos obstetras do Santa Maria invoca o “interesse público” e a “necessidade de garantir com qualidade os cuidados de saúde devidos às grávidas e recém-nascidos". “O sistema de mobilidade, como está feito, tem uma articulação legal que modifica o funcionamento dos serviços. Ou seja, o nosso serviço está transferido", explica Alexandre Valentim Lourenço.
Ao início da tarde, Fernando Araújo vai voltar ao São Francisco Xavier.
Hospital de São Francisco Xavier passa a concentrar a obstetrícia também do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Novo serviço está a funcionar em pleno. Primeiro dia é assegurado por equipas do Santa Maria. Compareceram todos, inclusivamente dois que estariam contra a mudança. Despacho de mobilidade do ministro da Saúde deu enquadramento legal à transferência
Ninguém faltou. Às nove horas da manhã desta terça-feira, a equipa de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, apresentou-se ao serviço na nova maternidade, no vizinho São Francisco Xavier. Assumiu a primeira escala do primeiro dia dos próximos oito a dez meses que deverão demorar as obras para a construção das novas infraestruturas de obstetrícia no hospital.
“Está tudo a correr bem. Vieram todos os obstetras escalas, estão seis médicos, e está tudo tranquilo”, garante Fernando Cirurgião, diretor do Serviço de Obstetrícia-Ginecologia do Hospital de São Francisco Xavier. Os obstetras do Santa Maria escalados compareceram todos, entre eles dois elementos que tinham dito que não iriam para a nova maternidade. A recebê-los estava até um bolo de boas-vindas.
“Começámos com bastante afluência, porque o Santa Maria fechou durante a noite e já demos uso a mais camas”, revela Fernando Cirurgião. Já noutro ponto da cidade, o início da manhã foi de descanso. No Santa Maria “já está tudo fechado, a urgência e o internamento obstétricos” e “ainda hoje, terão alta as oito puérperas do fim de semana”, adianta Alexandre Valentim Lourenço, diretor interino da obstetrícia e diretor da ginecologia do Hospital de Santa Maria.
A única valência que ainda vai levar alguns dias até à transição total é a das consultas. O responsável explica que vão manter-se no Santa Marias todas as marcações que já estavam agendadas e as novas consultas serão já com marcação para o São Francisco Xavier. A estimativa é de que a transição termine nos próximos dez dias.
Na segunda-feira, o diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde, Fernando Araújo, esteve no São Francisco Xavier com Alexandre Valentim Lourenço e Fernando Cirurgião para se assegurar que tudo estava pronto para o ‘parto’ da nova maternidade, que se sabia difícil de antemão. O ministro da Saúde, Manuel Pizarro, deu uma ajuda. Publicou um despacho que obriga os obstetras do Santa Maria a preencher as escalas no São Francisco Xavier, reduzindo quase a zero o risco de boicote.
O despacho de mobilidade dos obstetras do Santa Maria invoca o “interesse público” e a “necessidade de garantir com qualidade os cuidados de saúde devidos às grávidas e recém-nascidos". “O sistema de mobilidade, como está feito, tem uma articulação legal que modifica o funcionamento dos serviços. Ou seja, o nosso serviço está transferido", explica Alexandre Valentim Lourenço.
Ao início da tarde, Fernando Araújo vai voltar ao São Francisco Xavier.
31.7.23
JMJ: Alojamento Local não esgota em Lisboa e tem ocupação entre 80% a 90%
Por Lusa, in Dinheiro Vivo
Presidente da Associação de Alojamento Local em Portugal, Eduardo Miranda, explicou que o setor em Lisboa não está esgotado e que ainda estão disponíveis "cerca de mil casas" na plataforma de Airbnb.
O Alojamento Local em Lisboa está com uma ocupação entre os 80% a 90% para a semana da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), valores idênticos à semana homóloga de 2022, revelou esta segunda-feira fonte do setor.
"Eventos como este [da JMJ] são importantes para a exposição de Portugal, atraem o destino para o futuro" e os "efeitos positivos podem vir a sentir-se a longo prazo", mas o próprio "espírito do evento", com as pessoas a ficarem em escolas e outras instituições "não são uma oportunidade de negócio a curto prazo", declarou Eduardo Miranda, presidente da Associação de Alojamento Local em Portugal (ALEP).
Em entrevista por telefone à agência Lusa no âmbito da JMJ, Eduardo Miranda explicou que o setor do Alojamento Local (AL) em Lisboa não está esgotado e que ainda estão disponíveis "cerca de mil casas" na plataforma de Airbnb.
A JMJ não está a ter efeitos diretos nem indiretos a curto prazo no setor do AL, porque os turistas tradicionais sabem do evento e evitam a cidade, marcando as estadias para outra semana.
"Os números de ocupação estão muito idênticos aos do ano anterior", concluiu.
Mais de um milhão de pessoas são esperadas em Lisboa para a JMJ, com o Papa. Francisco chega a Lisboa na quarta-feira, pelas 10h00, à Base Aérea de Figo Maduro, em Lisboa. A JMJ é o maior acontecimento da Igreja Católica.
Esta jornada nasceu por iniciativa do Papa João Paulo II (1920-2005), após um encontro com jovens em 1985, em Roma, no Ano Internacional da Juventude.
As principais cerimónias da JMJ decorrem no Parque Tejo, a norte do Parque das Nações, na margem ribeirinha do Tejo, em terrenos dos concelhos de Lisboa e Loures, e no Parque Eduardo VII, no centro da capital.
Presidente da Associação de Alojamento Local em Portugal, Eduardo Miranda, explicou que o setor em Lisboa não está esgotado e que ainda estão disponíveis "cerca de mil casas" na plataforma de Airbnb.
O Alojamento Local em Lisboa está com uma ocupação entre os 80% a 90% para a semana da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), valores idênticos à semana homóloga de 2022, revelou esta segunda-feira fonte do setor.
"Eventos como este [da JMJ] são importantes para a exposição de Portugal, atraem o destino para o futuro" e os "efeitos positivos podem vir a sentir-se a longo prazo", mas o próprio "espírito do evento", com as pessoas a ficarem em escolas e outras instituições "não são uma oportunidade de negócio a curto prazo", declarou Eduardo Miranda, presidente da Associação de Alojamento Local em Portugal (ALEP).
Em entrevista por telefone à agência Lusa no âmbito da JMJ, Eduardo Miranda explicou que o setor do Alojamento Local (AL) em Lisboa não está esgotado e que ainda estão disponíveis "cerca de mil casas" na plataforma de Airbnb.
A JMJ não está a ter efeitos diretos nem indiretos a curto prazo no setor do AL, porque os turistas tradicionais sabem do evento e evitam a cidade, marcando as estadias para outra semana.
"Os números de ocupação estão muito idênticos aos do ano anterior", concluiu.
Mais de um milhão de pessoas são esperadas em Lisboa para a JMJ, com o Papa. Francisco chega a Lisboa na quarta-feira, pelas 10h00, à Base Aérea de Figo Maduro, em Lisboa. A JMJ é o maior acontecimento da Igreja Católica.
Esta jornada nasceu por iniciativa do Papa João Paulo II (1920-2005), após um encontro com jovens em 1985, em Roma, no Ano Internacional da Juventude.
As principais cerimónias da JMJ decorrem no Parque Tejo, a norte do Parque das Nações, na margem ribeirinha do Tejo, em terrenos dos concelhos de Lisboa e Loures, e no Parque Eduardo VII, no centro da capital.
27.7.23
Valor para dar de entrada na compra de casa duplicou em cinco anos em Lisboa e Porto
Por Lusa, in TSF
Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos revela que os agregados familiares diminuíram em número de membros, mas aumentaram em quantidade e precisam agora de estar num nível mais alto de rendimento para conseguir entrar no processo de compra.
dinheiro necessário para dar de entrada na compra de uma casa em Lisboa e no Porto praticamente duplicou entre 2017 e 2022, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que avisa ser "provável" manter-se a degradação do acesso à habitação.
O documento divulgado esta quarta-feira, da autoria de Rita Fraque Lourenço, Paulo M. M. Rodrigues e Hugo de Almeida Vilares, é o primeiro de uma série que a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) divulga e em que atualiza o estudo lançado em 2021 onde era traçado o retrato do mercado imobiliário em Portugal e a sua evolução.
Com a subida do preço das casas a superar os aumentos salariais, as famílias enfrentam cada vez mais dificuldades no acesso ao mercado habitacional, tendo visto o "rendimento necessário para adquirir uma habitação" aumentar "consideravelmente nos últimos anos".
Segundo o documento, o capital inicial necessário para dar de entrada numa casa mediana aumentou de cerca de 30 mil para 56 mil euros no concelho de Lisboa, e de 16 mil para 37 mil no concelho do Porto, entre 2017 e 2022.
Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos revela que os agregados familiares diminuíram em número de membros, mas aumentaram em quantidade e precisam agora de estar num nível mais alto de rendimento para conseguir entrar no processo de compra.
dinheiro necessário para dar de entrada na compra de uma casa em Lisboa e no Porto praticamente duplicou entre 2017 e 2022, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que avisa ser "provável" manter-se a degradação do acesso à habitação.
O documento divulgado esta quarta-feira, da autoria de Rita Fraque Lourenço, Paulo M. M. Rodrigues e Hugo de Almeida Vilares, é o primeiro de uma série que a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) divulga e em que atualiza o estudo lançado em 2021 onde era traçado o retrato do mercado imobiliário em Portugal e a sua evolução.
Com a subida do preço das casas a superar os aumentos salariais, as famílias enfrentam cada vez mais dificuldades no acesso ao mercado habitacional, tendo visto o "rendimento necessário para adquirir uma habitação" aumentar "consideravelmente nos últimos anos".
Segundo o documento, o capital inicial necessário para dar de entrada numa casa mediana aumentou de cerca de 30 mil para 56 mil euros no concelho de Lisboa, e de 16 mil para 37 mil no concelho do Porto, entre 2017 e 2022.
20.7.23
Habitação: Lisboa tem o maior aumento de rendas entre 30 cidades de todo o mundo
Rita Robalo Rosa, in Expresso
Segundo um estudo da consultora imobiliária Savills, Lisboa e Singapura são as cidades mais pressionadas pelos estrangeiros, que escolheram essas localizações para viver e fizeram subir as rendas em localizações centrais
Lisboa é a cidade, numa amostra de 30 localizações em todo o mundo, que mais sente a pressão dos estrangeiros no crescimento do valor das rendas das casas em localizações centrais, segundo um estudo da consultora imobiliária Savills, noticiado esta quinta-feira pela “Bloomberg”.
De acordo com o estudo da consultora, em Lisboa as rendas prime cresceram 13,9% entre dezembro de 2022 e junho de 2023, numa altura em que cada vez mais estrangeiros se deslocam para a capital portuguesa para viver - seja por uns meses ou por longos períodos de tempo. O segundo maior aumento foi registado em Singapura, com 13,6%.
A subida é ainda maior se compararmos com junho de 2022. Os dados fornecidos ao Expresso pela Savills Portugal indicam um crescimento homólogo de 32,7%. E essa é a maior variação entre as 30 cidades analisadas pela Savills, seguida pelo crescimento de 32,3% de Singapura, pelos 23% do Dubai e pelos 12,7% de Berlim.
Lisboa tem sentido um grande afluxo de estrangeiros para a capital, tendo sido colocada por diversas vezes entre as melhores cidades para nómadas digitais, mas também devido ao programa de vistos gold.
A subida das rendas em Lisboa - e, no geral, em Portugal - foi um dos motivos que levaram o Governo a lançar o programa Mais Habitação, que foi aprovado na quarta-feira e que seguiu para Belém para ser promulgado pelo Presidente da República. Desde arrendar para subarrendar, até à penalização ao alojamento local, são várias as medidas que visam travar a subida dos preços e dar alojamento mais acessível à população.
O crescimento das rendas em Lisboa deu-se a um ritmo semelhante ao de Singapura (13,6% desde dezembro e 32,3% face ao mês homólogo). Mas estas duas cidades registaram subidas do valor das rendas muito superiores às restantes 28 cidades que são incluídas no Prime Residential World Cities Index.
A cidade que ocupa o terceiro lugar no crescimento das rendas em seis meses é Berlim (9,2%), seguida do Dubai (5,4%). Já no crescimento anual invertem posições, com as rendas no Dubai a crescerem 23% e em Berlim 12,7%.
Por outro lado, em Miami, Seoul, São Francisco e Shenzhen o valor das rendas caiu desde dezembro. Nas últimas duas até houve um recuo das rendas face a junho de 2022.
Em Madrid, por exemplo, as rendas subiram 5,8% em termos homólogos e 2,9% em comparação com dezembro de 2022. Em Londres avançaram 5,7% e 1,9%, respetivamente.
17.7.23
Megaoperação em Lisboa para desmantelar rede de imigração ilegal na Europa
in Público
A Unidade de Contraterrorismo da Judiciária tem em curso uma megaoperação para desmantelar uma associação criminosa que será responsável pela livre circulação na Europa de milhares de migrantes em situação ilegal a partir de Lisboa, avançou esta manhã a CNN Portugal. A operação está a ser feita em articulação com o DIAP de Lisboa e autoridades de vários países.
A SIC Notícias adianta que há duas dezenas de mandados de busca e que a megaoperação está a decorrer na zona do Martim Moniz, Vila Franca de Xira e na Margem Sul. Em causa, estarão suspeitas de associação criminosa para tráfico de pessoas e auxílio à imigração ilegal, falsificação de documentos e branqueamento.
A CNN Portugal acrescenta que a operação visa mais de uma dezena de suspeitos, sendo a maioria de países do Sudeste asiático, que terão decidido montar um esquema na perversão do sentido da plataforma SAPA – o Sistema Automático de Pré-Agendamento do SEF.
Ninguém tem de ser escravo de pagar uma casa e não conseguir fazer mais nada”
Cristiana Faria Moreira (Texto ), Matilde Fieschi (Fotografia) e Rui Gaudêncio (Fotografia) , in Público
Reportagem Estado da Nação. Na região de Lisboa, há 942 mil famílias que, se tiverem de ir ao mercado, têm de despender mais de 40% do seu rendimento com a casa. “Eu estou farta de procurar.”
Todos os dias, Rosário e o namorado correm os sites de arrendamento e venda de casas à procura de alguma oportunidade. E todos os dias sentem o futuro um bocadinho mais adiado. “Talvez um dia consiga. Como eu, há milhares de pessoas à procura.” E há nisto alguma coisa que deixa esta professora de História de 29 anos a sentir-se defraudada. “Acho que isto é comum a toda a geração dos anos 80 e 90, a quem os pais disseram ‘se tu estudares, se fores trabalhador, se fores qualificado, vais ter uma vida brutal'. Mas não estamos a ter essa vida brutal, onde é que isso está? O que é que aconteceu num espaço de duas gerações, para eu, com 29 anos e a ganhar mais do que a minha mãe ganhava quando começou a trabalhar, não conseguir sair de casa?”
Com a sua idade, os pais estavam a trocar para a segunda casa que compravam, desta feita na freguesia lisboeta de Arroios. E é ali que Rosário ainda vive com eles e onde gostava de conseguir uma casa para si, para o namorado e “para os próximos”. “Neste momento, é impossível. Não tenho poder de compra. Não consigo casar-me, não consigo ter filhos, não consigo sair de casa dos meus pais. Gostava de comprar casa. Não tenho de comprar uma mansão. Agora, que quero uma casa para mim e para os próximos, quero.”
Rosário Rocha da Silva dá aulas de História há dois anos. É professora contratada e ganha cerca de 1150 euros líquidos. Ela sabe que não tem mais direitos do que outros a viver no centro da cidade. Há muito que isso deixou de ser para todos, mas acredita que “as pessoas têm direito a morar onde nasceram” e de viverem próximas da família. Mas não deixa de fora a possibilidade de ir morar para um município vizinho. Aliás, as suas buscas por casa são alargadas, ainda que a imprevisibilidade dos transportes a faça também temer sair de Lisboa. “A questão dos transportes não é uma coisa à parte, tem de ser algo pensado de forma interligada. Não quero estar dependente do carro para tudo.”
Os amigos estão mais ou menos na mesma situação. Há muitos que ainda estão em casa dos pais apesar de terem empregos estáveis. Os que já saíram de casa contam muitas vezes com a ajuda dos pais ou dos avós a encherem-lhes a despensa ou a dar-lhes refeições. Alguns vêem-se obrigados a ter mais do que um emprego e outros emigraram, sobretudo para países do Norte da Europa. “Eu também já pensei 'o que é que posso fazer mais além de dar aulas?'” Emigrar passa-lhe cada vez mais pela cabeça, embora não esteja no primeiro plano. "Sendo professora e falando cinco línguas fluentemente, sou necessária lá fora. E há uma coisa que ouvi dos meus pais desde sempre: ‘Filhas, se vocês tiverem de ir vão.' Mas é triste.”
Os pais disseram ‘se tu estudares, se fores trabalhador, se fores qualificado, vais ter uma vida brutal. Mas não estamos a ter essa vida brutal, onde é que isso está?Sara Rocha da Silva
[...]
Emigrar, separar-se, voltar a casa dos pais
Pedro não escapou a esse destino, quando se apercebeu de que seria difícil recuperar parte da independência que tinha perdido, que, depois dos 40 anos, não podia continuar a viver em casa dos pais, à qual voltara depois de uma separação. Em Fevereiro passado, foi mais um dos que decidem partir. “Estava farto. Sentia que nunca ia conseguir. E apareceu-me esta oportunidade a ganhar três vezes mais na Irlanda. E arranquei.”
Pedro Silva, de 42 anos, até já tinha estado emigrado na Suíça. A crise “empurrara-o” para esse destino, já que ficara sem o trabalho na área do Turismo quando foi “apanhado pela troika”. Emigrou, mas a separação trouxe-o de novo à casa dos pais, em Almada, no final de 2019. O plano inicial era ficar em casa dos pais um, dois meses até conseguir “uma fonte de rendimento estável” e começar a procurar a casa.
[...]
O custo de viver na Irlanda é similar ao de Portugal, com a excepção de os salários serem "muito mais altos”, repara, embora também lá haja também graves problemas no acesso à habitação. “Há quartos a mil euros no centro de Dublin, e casas a dois, três mil euros”, observa o motorista.
Há 942 mil em situação de "inacessibilidade habitacional"
São os jovens, as famílias em mobilidade profissional, recomposição familiar ou no regime de arrendamento que estão entre a população mais afectada pela crise da habitação na Grande Lisboa — a região do país onde vive quase um terço da população do país.
Na última década, “cerca de metade do crescimento do número de agregados registado no país” foi registada nesta região, mas o aumento de famílias residentes “não foi acompanhado por um aumento equivalente ao nível dos alojamentos”, nota o Diagnóstico das Condições Habitacionais Indignas na Área Metropolitana de Lisboa (AML), que analisa as condições de habitação da região.
Está [tudo] caríssimo. E estamos nos subúrbios. Ninguém tem que ser escravo de pagar uma casa e não conseguir fazer mais nada o resto do mês, a não ser comer
Pedro Silva
[...]
Este contexto colocou 942 mil famílias com residência fiscal na AML (62% do total) em situação de "inacessibilidade habitacional". Quer isto dizer que, “se tiverem de recorrer ao mercado, não encontrarão no seu município de residência uma habitação adequada sem ter de despender mais de 40% do seu rendimento em encargos com a habitação, seja por via da aquisição, seja do arrendamento”, refere o diagnóstico.
[...]
Resta-lhes manterem-se na casa que ocupam, mesmo que seja “inadequada”. Os jovens, como Rosário, vêem o seu futuro adiado, as famílias, pressionadas com “custos elevadíssimos” com a habitação, põem em causa a “satisfação de outras necessidades básicas”. A solução acaba por ser mudar para outro município, ainda que isso possa afastar as famílias da sua rede e do próprio emprego. Na última década, a população de municípios centrais da região, como Lisboa, “migrou” para municípios limítrofes, como Alcochete, Mafra, Montijo e Palmela, concluiu também o diagnóstico.
Um futuro hipotecado
Quando se passeia pelas ruas de uma vida e recua à meninice, são os cheiros que surgem na memória de Sara: “As peles da antiga loja de malas, as madeiras, o café da fábrica” ali ao pé da sua casa, vizinha do Panteão Nacional.
“Ninguém tem de ser escravo de pagar uma casa e não conseguir fazer mais nada”
Sara Baptista, de 46 anos, nasceu e cresceu naquele bairro e, quando teve a oportunidade, arrendou uma casa no prédio onde nascera. Foi em 2002. O filho ali nasceu também e aquele pareceu sempre um lugar bom para ele crescer, onde a vizinhança conhecida sempre lhe podia deitar um olho.
Até que, no ano passado, chegou ao correio uma carta de oposição à renovação do contrato. O senhorio morreu durante a pandemia e os herdeiros tomaram essa decisão. Sara paga 320 euros por um T2 antigo. Já pagou mais, à volta dos 450 euros, mas durante os anos da troika perdeu o emprego e negociou uma descida da renda com o senhorio. Ele nunca a voltou a aumentar.
O contrato de arrendamento de Sara terminou em Maio passado. Ela ainda tentou uma actualização da renda, mas os novos senhorios “não quiseram conversas” e puseram em cima da mesa um processo de despejo. “Já me informou de que será o próximo passo. E isso tem sido uma tormenta todos os dias", lamenta Sara, que não quer arrastar um processo nos tribunais. "Mas não tenho solução, a questão é essa. Nem mesmo as novas medidas do Governo vão funcionar. Existe também o apoio da câmara, mas não é assim tão fácil aceder.”
[...]
Estou pobre demais para concorrer a umas coisas [apoios à habitação] e estou rica demais para outras
Sara Baptista
[...]
Às vezes chegam-lhe com anúncios de 600 euros. “Comparado com Lisboa, 600 euros é bom, mas vou-me atirar para uma casa de 600 euros se há meses em que o ordenado não chega aos 700 euros? Como é que pago o resto?”
“Eu não posso ficar na rua com três crianças”
"Os problemas que nos têm chegado são sobretudo de oposição à renovação de contratos. A questão do arrendamento é frágil", observa Luís Mendes, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa e membro da Associação dos Inquilinos Lisbonenses e do movimento Morar em Lisboa. A par disso, surgem situações que "roçam o assédio no arrendamento, de pressão por parte do senhorio", sublinhando contudo que a crise na habitação se está "a agudizar com a crise inflacionária e que já não envolve apenas os inquilinos do arrendamento, mas também quem paga prestações ao banco".
[...]
A situação é ainda mais difícil para quem nem sequer tem um contrato de arrendamento. "Esta informalidade do arrendamento é muito tóxica. Distorce fortemente o mercado porque faz aumentar os preços, compete deslealmente", enquadra o investigador, defendendo ser preciso "fiscalizar, combater o arrendamento ilegal e informal".
Era numa situação semelhante, sem contrato de arrendamento, em que Mária Pereira, de 44 anos, vivia numa casa na Apelação, em Loures, até o senhorio lhe exigir que deixasse a casa em Abril passado. Não teve outra alternativa senão deixar a casa, onde vivia com os três filhos menores – com 16, sete e dois anos — e o marido. Uma amiga "emprestou-lhe" uma casa, mas terá também de deixar até ao final do mês. “Eu não posso ficar na rua com três crianças, não é?”
[...]
Estou farta de procurar. Farta, farta, farta. E não há. E o que há está tudo fora de conta. E ainda a pedirem dois meses de renda, dois meses de caução... São valores exorbitantes
Mária Pereira
Mária tem um pedido de habitação feito à câmara. “Eu sei que há inúmeros casos de pedidos de habitação, eu considero-me um caso urgente e precisava que me ajudassem. Eu só preciso de um sítio onde ficar com os meus filhos.” Tem também procurado casas e recorrido a várias associações. “Eu estou farta de procurar. Farta, farta, farta. E não há. E o que há está tudo fora de conta. E ainda a pedirem dois meses de renda, dois meses de caução... São valores exorbitantes.”
[...]
Por ali, a pandemia agudizou o problema, diz Aida Marrana, coordenadora do Centro de Actividades de Tempos Livres, instalado na Quinta da Fonte, que tem também tentado ajudar Mária. Sobretudo no que respeita aos casos de jovens que voltaram a casa dos pais, às vezes com os filhos e as mulheres.
[...]
Não é exactamente o caso de Dina, mas na sua pequena casa do bairro da Fonte vivem dez pessoas, entre filhos e netos. São dois quartos e uma sala improvisados em mais quartos. “Tem de ser um espacinho todo contado. Duas meninas, uma com 17 e uma com dez, dormem no sofá da sala. Tenho dois meninos no quarto e estou a fazer uma divisão na sala para poder fazer um quarto mais, porque a câmara não me resolve o caso da minha habitação”, explica Dina Quaresma, de 44 anos.
50 mil famílias a viver em condições indignas
Dina mora na Quinta da Fonte há 25 anos, nuns prédios municipais construídos para realojar quem morava em casas precárias do Prior Velho. Na altura, era só ela e o marido e a filha de seis meses. Mas, entretanto, a família foi crescendo e crescendo. E eles foram casando. “Cresceram, namoraram-se, ficaram com as meninas. Depois tiveram de ficar com elas em casa porque a cultura cigana sabe que é um bocado assim. Só que a gente procurava as casas para eles, mas não conseguia.”
[...]
Acho engraçado que a câmara diga que a gente não pode estar [a viver] em sobrelotação. A alternativa é pô-los fora?
Dina Quaresma
[..]
Para o investigador Luís Mendes, é urgente que as câmaras e o próprio Estado recuperem os seus devolutos e "assumam a construção de mais parque público de habitação". E deixa ainda um reparo ao programa Mais Habitação, que diz ter "medidas que estão dependentes da bondade dos proprietários de querer fazer trabalho social com as suas casas". "O sector da habitação sempre foi o parente pobre do Estado social, um pilar eternamente adiado dos direitos humanos em Portugal."
Reportagem Estado da Nação. Na região de Lisboa, há 942 mil famílias que, se tiverem de ir ao mercado, têm de despender mais de 40% do seu rendimento com a casa. “Eu estou farta de procurar.”
Todos os dias, Rosário e o namorado correm os sites de arrendamento e venda de casas à procura de alguma oportunidade. E todos os dias sentem o futuro um bocadinho mais adiado. “Talvez um dia consiga. Como eu, há milhares de pessoas à procura.” E há nisto alguma coisa que deixa esta professora de História de 29 anos a sentir-se defraudada. “Acho que isto é comum a toda a geração dos anos 80 e 90, a quem os pais disseram ‘se tu estudares, se fores trabalhador, se fores qualificado, vais ter uma vida brutal'. Mas não estamos a ter essa vida brutal, onde é que isso está? O que é que aconteceu num espaço de duas gerações, para eu, com 29 anos e a ganhar mais do que a minha mãe ganhava quando começou a trabalhar, não conseguir sair de casa?”
Com a sua idade, os pais estavam a trocar para a segunda casa que compravam, desta feita na freguesia lisboeta de Arroios. E é ali que Rosário ainda vive com eles e onde gostava de conseguir uma casa para si, para o namorado e “para os próximos”. “Neste momento, é impossível. Não tenho poder de compra. Não consigo casar-me, não consigo ter filhos, não consigo sair de casa dos meus pais. Gostava de comprar casa. Não tenho de comprar uma mansão. Agora, que quero uma casa para mim e para os próximos, quero.”
Rosário Rocha da Silva dá aulas de História há dois anos. É professora contratada e ganha cerca de 1150 euros líquidos. Ela sabe que não tem mais direitos do que outros a viver no centro da cidade. Há muito que isso deixou de ser para todos, mas acredita que “as pessoas têm direito a morar onde nasceram” e de viverem próximas da família. Mas não deixa de fora a possibilidade de ir morar para um município vizinho. Aliás, as suas buscas por casa são alargadas, ainda que a imprevisibilidade dos transportes a faça também temer sair de Lisboa. “A questão dos transportes não é uma coisa à parte, tem de ser algo pensado de forma interligada. Não quero estar dependente do carro para tudo.”
Os amigos estão mais ou menos na mesma situação. Há muitos que ainda estão em casa dos pais apesar de terem empregos estáveis. Os que já saíram de casa contam muitas vezes com a ajuda dos pais ou dos avós a encherem-lhes a despensa ou a dar-lhes refeições. Alguns vêem-se obrigados a ter mais do que um emprego e outros emigraram, sobretudo para países do Norte da Europa. “Eu também já pensei 'o que é que posso fazer mais além de dar aulas?'” Emigrar passa-lhe cada vez mais pela cabeça, embora não esteja no primeiro plano. "Sendo professora e falando cinco línguas fluentemente, sou necessária lá fora. E há uma coisa que ouvi dos meus pais desde sempre: ‘Filhas, se vocês tiverem de ir vão.' Mas é triste.”
Os pais disseram ‘se tu estudares, se fores trabalhador, se fores qualificado, vais ter uma vida brutal. Mas não estamos a ter essa vida brutal, onde é que isso está?Sara Rocha da Silva
[...]
Emigrar, separar-se, voltar a casa dos pais
Pedro não escapou a esse destino, quando se apercebeu de que seria difícil recuperar parte da independência que tinha perdido, que, depois dos 40 anos, não podia continuar a viver em casa dos pais, à qual voltara depois de uma separação. Em Fevereiro passado, foi mais um dos que decidem partir. “Estava farto. Sentia que nunca ia conseguir. E apareceu-me esta oportunidade a ganhar três vezes mais na Irlanda. E arranquei.”
Pedro Silva, de 42 anos, até já tinha estado emigrado na Suíça. A crise “empurrara-o” para esse destino, já que ficara sem o trabalho na área do Turismo quando foi “apanhado pela troika”. Emigrou, mas a separação trouxe-o de novo à casa dos pais, em Almada, no final de 2019. O plano inicial era ficar em casa dos pais um, dois meses até conseguir “uma fonte de rendimento estável” e começar a procurar a casa.
[...]
O custo de viver na Irlanda é similar ao de Portugal, com a excepção de os salários serem "muito mais altos”, repara, embora também lá haja também graves problemas no acesso à habitação. “Há quartos a mil euros no centro de Dublin, e casas a dois, três mil euros”, observa o motorista.
Há 942 mil em situação de "inacessibilidade habitacional"
São os jovens, as famílias em mobilidade profissional, recomposição familiar ou no regime de arrendamento que estão entre a população mais afectada pela crise da habitação na Grande Lisboa — a região do país onde vive quase um terço da população do país.
Na última década, “cerca de metade do crescimento do número de agregados registado no país” foi registada nesta região, mas o aumento de famílias residentes “não foi acompanhado por um aumento equivalente ao nível dos alojamentos”, nota o Diagnóstico das Condições Habitacionais Indignas na Área Metropolitana de Lisboa (AML), que analisa as condições de habitação da região.
Está [tudo] caríssimo. E estamos nos subúrbios. Ninguém tem que ser escravo de pagar uma casa e não conseguir fazer mais nada o resto do mês, a não ser comer
Pedro Silva
[...]
Este contexto colocou 942 mil famílias com residência fiscal na AML (62% do total) em situação de "inacessibilidade habitacional". Quer isto dizer que, “se tiverem de recorrer ao mercado, não encontrarão no seu município de residência uma habitação adequada sem ter de despender mais de 40% do seu rendimento em encargos com a habitação, seja por via da aquisição, seja do arrendamento”, refere o diagnóstico.
[...]
Resta-lhes manterem-se na casa que ocupam, mesmo que seja “inadequada”. Os jovens, como Rosário, vêem o seu futuro adiado, as famílias, pressionadas com “custos elevadíssimos” com a habitação, põem em causa a “satisfação de outras necessidades básicas”. A solução acaba por ser mudar para outro município, ainda que isso possa afastar as famílias da sua rede e do próprio emprego. Na última década, a população de municípios centrais da região, como Lisboa, “migrou” para municípios limítrofes, como Alcochete, Mafra, Montijo e Palmela, concluiu também o diagnóstico.
Um futuro hipotecado
Quando se passeia pelas ruas de uma vida e recua à meninice, são os cheiros que surgem na memória de Sara: “As peles da antiga loja de malas, as madeiras, o café da fábrica” ali ao pé da sua casa, vizinha do Panteão Nacional.
“Ninguém tem de ser escravo de pagar uma casa e não conseguir fazer mais nada”
Sara Baptista, de 46 anos, nasceu e cresceu naquele bairro e, quando teve a oportunidade, arrendou uma casa no prédio onde nascera. Foi em 2002. O filho ali nasceu também e aquele pareceu sempre um lugar bom para ele crescer, onde a vizinhança conhecida sempre lhe podia deitar um olho.
Até que, no ano passado, chegou ao correio uma carta de oposição à renovação do contrato. O senhorio morreu durante a pandemia e os herdeiros tomaram essa decisão. Sara paga 320 euros por um T2 antigo. Já pagou mais, à volta dos 450 euros, mas durante os anos da troika perdeu o emprego e negociou uma descida da renda com o senhorio. Ele nunca a voltou a aumentar.
O contrato de arrendamento de Sara terminou em Maio passado. Ela ainda tentou uma actualização da renda, mas os novos senhorios “não quiseram conversas” e puseram em cima da mesa um processo de despejo. “Já me informou de que será o próximo passo. E isso tem sido uma tormenta todos os dias", lamenta Sara, que não quer arrastar um processo nos tribunais. "Mas não tenho solução, a questão é essa. Nem mesmo as novas medidas do Governo vão funcionar. Existe também o apoio da câmara, mas não é assim tão fácil aceder.”
[...]
Estou pobre demais para concorrer a umas coisas [apoios à habitação] e estou rica demais para outras
Sara Baptista
[...]
Às vezes chegam-lhe com anúncios de 600 euros. “Comparado com Lisboa, 600 euros é bom, mas vou-me atirar para uma casa de 600 euros se há meses em que o ordenado não chega aos 700 euros? Como é que pago o resto?”
“Eu não posso ficar na rua com três crianças”
"Os problemas que nos têm chegado são sobretudo de oposição à renovação de contratos. A questão do arrendamento é frágil", observa Luís Mendes, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa e membro da Associação dos Inquilinos Lisbonenses e do movimento Morar em Lisboa. A par disso, surgem situações que "roçam o assédio no arrendamento, de pressão por parte do senhorio", sublinhando contudo que a crise na habitação se está "a agudizar com a crise inflacionária e que já não envolve apenas os inquilinos do arrendamento, mas também quem paga prestações ao banco".
[...]
A situação é ainda mais difícil para quem nem sequer tem um contrato de arrendamento. "Esta informalidade do arrendamento é muito tóxica. Distorce fortemente o mercado porque faz aumentar os preços, compete deslealmente", enquadra o investigador, defendendo ser preciso "fiscalizar, combater o arrendamento ilegal e informal".
Era numa situação semelhante, sem contrato de arrendamento, em que Mária Pereira, de 44 anos, vivia numa casa na Apelação, em Loures, até o senhorio lhe exigir que deixasse a casa em Abril passado. Não teve outra alternativa senão deixar a casa, onde vivia com os três filhos menores – com 16, sete e dois anos — e o marido. Uma amiga "emprestou-lhe" uma casa, mas terá também de deixar até ao final do mês. “Eu não posso ficar na rua com três crianças, não é?”
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Estou farta de procurar. Farta, farta, farta. E não há. E o que há está tudo fora de conta. E ainda a pedirem dois meses de renda, dois meses de caução... São valores exorbitantes
Mária Pereira
Mária tem um pedido de habitação feito à câmara. “Eu sei que há inúmeros casos de pedidos de habitação, eu considero-me um caso urgente e precisava que me ajudassem. Eu só preciso de um sítio onde ficar com os meus filhos.” Tem também procurado casas e recorrido a várias associações. “Eu estou farta de procurar. Farta, farta, farta. E não há. E o que há está tudo fora de conta. E ainda a pedirem dois meses de renda, dois meses de caução... São valores exorbitantes.”
[...]
Por ali, a pandemia agudizou o problema, diz Aida Marrana, coordenadora do Centro de Actividades de Tempos Livres, instalado na Quinta da Fonte, que tem também tentado ajudar Mária. Sobretudo no que respeita aos casos de jovens que voltaram a casa dos pais, às vezes com os filhos e as mulheres.
[...]
Não é exactamente o caso de Dina, mas na sua pequena casa do bairro da Fonte vivem dez pessoas, entre filhos e netos. São dois quartos e uma sala improvisados em mais quartos. “Tem de ser um espacinho todo contado. Duas meninas, uma com 17 e uma com dez, dormem no sofá da sala. Tenho dois meninos no quarto e estou a fazer uma divisão na sala para poder fazer um quarto mais, porque a câmara não me resolve o caso da minha habitação”, explica Dina Quaresma, de 44 anos.
50 mil famílias a viver em condições indignas
Dina mora na Quinta da Fonte há 25 anos, nuns prédios municipais construídos para realojar quem morava em casas precárias do Prior Velho. Na altura, era só ela e o marido e a filha de seis meses. Mas, entretanto, a família foi crescendo e crescendo. E eles foram casando. “Cresceram, namoraram-se, ficaram com as meninas. Depois tiveram de ficar com elas em casa porque a cultura cigana sabe que é um bocado assim. Só que a gente procurava as casas para eles, mas não conseguia.”
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Acho engraçado que a câmara diga que a gente não pode estar [a viver] em sobrelotação. A alternativa é pô-los fora?
Dina Quaresma
[..]
Para o investigador Luís Mendes, é urgente que as câmaras e o próprio Estado recuperem os seus devolutos e "assumam a construção de mais parque público de habitação". E deixa ainda um reparo ao programa Mais Habitação, que diz ter "medidas que estão dependentes da bondade dos proprietários de querer fazer trabalho social com as suas casas". "O sector da habitação sempre foi o parente pobre do Estado social, um pilar eternamente adiado dos direitos humanos em Portugal."
13.7.23
Restaurante de Lisboa fechou de um dia para o outro e funcionários ficaram sem nada
in SIC
O Sindicato da Hotelaria Turismo e Restaurantes do Sul diz que são recorrentes situações de trabalhadores que são enganados na área da restauração.
O Sindicato da Hotelaria Turismo e Restaurantes do Sul avisa que há cada vez mais trabalhadores enganados e deixa o alerta para que tenham cuidado com os contratos de trabalho e atenção na hora de aceitar um emprego.
A SIC foi conhecer um exemplo, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, um restaurante que esteve aberto um mês e, de um dia para o outro, o dono
fechou sem avisar os funcionários, que ficaram sem nada.
O espaço foi totalmente remodelado por um investidor francês que resolveu encerrá-lo, deixando os trabalhadores sem nada. Só após o encerramento, é que a equipa de 11 funcionários ficou a saber que os contratos de trabalho nem sequer estavam legais.
O restaurante, um espaço com cerca de 600 metros quadrados em plena Avenida da Liberdade, está para trespasse em várias imobiliárias.
A SIC tentou contactar o investidor francês, mas sem sucesso.
O sindicato aconselha todos os trabalhadores do setor a verificarem sempre a legalidade dos contratos de trabalho e, se tiverem dúvidas, o melhor é pedir esclarecimentos às autoridades competentes.
3.7.23
'Despertar da Teatral'Idade'. Uma peça com foco no "envelhecimento ativo"
No próximo dia 5 de julho o Teatro do Bairro, em Lisboa, vai receber o 'Despertar da Teatral'Idade', um projeto que conta com artistas profissionais e não profissionais que reivindicam "os direitos das pessoas na maior idade a um envelhecimento ativo e à participação na sociedade".
O espectáculo, que terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa, nasceu, segundo a organização, no grupo 'Teatral’Idade', "um grupo de teatro de Reformados da Função Pública".
Todo o projecto foi construído em conjunto, "em oficinas desenvolvidas ao longo de 10 meses - de design, cenografia, escrita criativa, dança e movimento, interpretação - provando que a terceira idade pode ser estimulante, criativa, e ativa".
'O Despertar da Teatral’Idade' parte assim da premissa de uma partilha de conhecimentos intergeracionais, onde jovens profissionais trabalharam em colaboração com os participantes com mais de 65 anos, onde os grupos partilharam práticas artísticas, ferramentas de criação e um um vasto rol de experiências.
A peça é produzida pela 'Além Mundus' no âmbito do programa 'Arte e Envelhecimento Activo', uma parceria do Ministério da Cultura e da DGArtes.
A direção artística e encenação ficaram a cargo de Carolina Serrão, professora de teatro do grupo desde 2015. Já o texto foi escrito por Carolina Campanela e concebido "a partir das experiências dos 13 participantes do curso, baseado nas histórias de vida que contaram".
Em palco, este colectivo de pessoas questiona e reflete sobre os diferentes papéis que lhes foram sendo atribuídos ao longo da vida, cruzando memórias passadas e inquietações presentes, e lançando a questão: será a força do colectivo 'Teatral’idade' capaz de despertar uma nova revolução?
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