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9.8.23

Restaurantes esperam recuperar clientes após "quebras na faturação" durante JMJ

Fátima Valente com Cláudia Alves Mendes, in TSF


Peregrinos preferiram o fast food de cadeias internacionais, enquanto os restaurantes tradicionais perderam os clientes habituais.


Terminada a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), os empresários da área da restauração esperam pelo regresso dos turistas "afugentados" pelo evento, após uma semana de "quebras na faturação".


A PRO.VAR, a Associação Nacional de Restaurantes, não fez nenhum inquérito aos empresários, mas o presidente da associação, Daniel Serra, afirma, em declarações à TSF, que, "tal como se esperava", os peregrinos preferiram o fast food de cadeias internacionais à comida de prato e, no caso da restauração média-alta, registaram-se mesmo "quebras na faturação".


"Na restauração média-alta até houve uma perda porque [a JMJ] afugentou os clientes que eram habituais - clientes que têm um consumo de um ticket bastante mais alto", e também "afastou muitos turistas, que normalmente fazem uma frequência nos restaurantes com um ticket alto", explicou.


Os mais beneficiados acabaram por ser os proprietários de cafés e pastelarias e também os supermercados.

"A expectativa dos empresários da restauração não era alta - estamos a falar nos restaurantes tradicionais, não nos cafés -, obviamente os cafés e pastelarias tiveram um acréscimo de faturação", disse

Daniel Serra não esconde a "desilusão" sentida após as negociações sobre o valor do kit de alimentação dos peregrinos. O presidente da PRO.VAR defende que a quantia não era suficiente para despertar o "interesse" dos empresários.

"Entendemos que da parte dos empresários não houve grande interesse, primeiro porque o valor que ofereceram do kit era muito baixo. Nós tentamos negociar para um valor mais alto para Lisboa, portanto, 12 euros, no mínimo, e para o Porto, dez euros", esclarece, acrescentando ainda que o valor apresentado inicialmente foi "de cinco euros", tendo depois subido para "sete euros".

"Mesmo assim foi uma desilusão e ganhou outra restauração. Agora é recuperar porque houve um período de uma semana em que se notou uma quebra", remata.

Daniel Serra espera, assim, que os restaurantes em Lisboa e no Porto recuperem os clientes que se afastaram durante a Jornada Mundial da Juventude.


7.8.23

As lições do Papa, religião à parte

Sónia Sapage, opinião, in Público



No final da missa de Envio, a ministra Ana Catarina Mendes disse que “Portugal superou a sua tarefa”, e não deixa de ser verdade, mas quem também a superou foi Francisco.

A visita do Papa Francisco a Portugal foi mais do que a passagem do líder da Igreja Católica pelo nosso país: foi a visita comovente e calorosa de um chefe de Estado que foi seguido e ouvido com uma atenção peculiar e que teve um tempo de antena muito além do habitual.


No final da missa de Envio, a ministra Ana Catarina Mendes disse que "Portugal superou a sua tarefa”, e não deixa de ser verdade (foi mais um momento bom para a nossa auto-estima de organizadores), mas quem também a superou foi Francisco.

Religião à parte, com palavras directas e empáticas, o Sumo Pontífice partilhou lições de vida que servem jovens, menos jovens, chefes de família, ateus, fiéis e até responsáveis políticos internacionais. E, nesse sentido, tentou espalhar sementes de bom senso e de proximidade (não exclusivas da Igreja), mostrando por que razão é uma figura tão consensual, próxima e diferente de outros protagonistas religiosos.


Pediu desculpa às vítimas de abusos sexuais; falou sobre a importância de ouvir e de fazer perguntas (“ser descontente é um bom antídoto contra a presunção da auto-suficiência e o narcisismo”); dedicou uns minutos às “injustiças planetárias, guerras, crises climáticas e migratórias”; lamentou a “falta corajosa de rotas de paz” e não esqueceu questões actuais como a saúde mental e as redes sociais.

O mundo virtual, que preocupa tantos educadores, foi um dos pontos em que o Papa Francisco mais insistiu: “O teu nome é conhecido, aparece nas redes sociais, é processado por algoritmos que lhe associam gostos e preferências. Mas tudo isso não interpela a tua singularidade, mas a tua utilidade para pesquisas de mercado.” Uma lição simples e importante.


Ao Ocidente em geral e à Europa em particular, deixou vários alertas sobre “o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios”, fazendo, ainda assim, a apologia da vida, contra o aborto e a eutanásia — como seria de esperar.


As alegorias sobre inclusão que dirigiu à Igreja são transversais e servem para “todos, todos, todos” (como foi repetindo), noutras religiões, noutros países, noutras áreas de saber. “Ninguém fica de fora, ninguém está a mais. Há espaço para todos. Assim como somos. Todos.”


Não é preciso ser fanático de futebol para perceber como o Euro e o Mundial são eventos com uma energia mobilizadora para o país anfitrião. Assim como não é preciso ser crente para reconhecer que também foi isso que aconteceu com a Jornada Mundial da Juventude, e ainda bem.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]

JMJ 2023: Via-Sacra refletiu sobre «os problemas do mundo atual» – Diana Teixeira

in Agência Ecclesia

Guerra, desemprego, solidão, dependência digital, perseguição religiosa e alterações climáticas, foram algumas das preocupações


Lisboa, 04 ago 2023 (Ecclesia) – O Papa Francisco presidiu hoje à Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023, na Colina do Encontro, onde ao longo de 14 estações refletiram e rezaram sobre preocupações como a guerra, desemprego, solidão, dependência digital, perseguição religiosa e alterações climáticas.

“Acredito que todos os temas são importantes porque enquanto jovens também somos protagonistas das mudanças sociais. Somos protagonistas das transformações e da melhoria do mundo. Então, todos esses temas por mais que alguns sejam difíceis de ser tratados são importantes, são relevantes para a nossa formação humana, espiritual mas também e social”, disse Chaiane Marcante, 28 anos, da Juventude Scalabriniana de Rio Grande do Sul, Brasil, à Agência ECCLESIA.

As reflexões da Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023 foram apresentadas por jovens dos cinco continentes, e para Adélio Moreira, têm muita importância porque “não é só o Papa que preocupa mas a Igreja toda”.

“E a Igreja somos todos nós. Não só os padres, mas jovens, adultos. Se é uma Igreja aberta para o mundo tem de ser uma Igreja aberta para os problemas que o mundo tem, todos esses problemas têm de nos importar porque é o que está no Evangelho. A Igreja tem de estar pronta enfrentar esses problemas”, desenvolveu o elemento do Grupo de Jovens ‘Alegria de Viver’, de Barcelos.

Ao longo de 14 estações, os peregrinos da primeira edição da Jornada Mundial da Juventude em Portugal refletiram sobre temas como a guerra, desemprego, solidão e saúde mental, dependência digital, perseguição religiosa e alterações climáticas.

“Enquanto grupo de jovens falamos muitas vezes disso, que a Igreja não é só ler mas aquilo que nós lemos a maioria das vezes tem de se ver refletido e é nestes momentos que podemos refletir, pensar, e acima de tudo pensar como podemos agir melhor no futuro”, explicou Mafalda Velho, de Alfena.

Segundo a entrevistada, a partir do tema da dependência digital e das redes sociais, disse que os membros do Grupo de Jovens Jesus Cristo, de Alfena, na Diocese do Porto, durante a Jornada têm “mexido muito menos vezes no telemóvel, porque não há tempo”.

“Há tanto para fazer que não perdemos tempo em estar sozinhos, temos amigos, temos com quem estar e gostávamos que isso pudesse passar a ser algo do dia-a-dia e não só nas Jornadas. Por isso, nada melhor do que a Via-Sacra para refletir e pensar como tornar isto no futuro”, desenvolveu Mafalda Velho.

O Papa Francisco evocou hoje em Lisboa as “lágrimas” das novas gerações, falando durante a Via-Sacra da JMJ 2023, no Parque Eduardo VII, perante uma multidão estimada em 800 mil pessoas.

“É muito importante que a Igreja, em união com o povo, sabendo das dificuldades de cada cultura e de cada raça, juntos é uma só Igreja a rezar pelo bem-estar da humanidade. É muito importante, colocar as nossas preocupações a Deus, naquilo que necessitamos e almejamos”, a irmã Elisa Caculo, angolana de 25 anos, da Congregação Jesus, Maria, José.

CB/OC

4.8.23

Centenas de famílias beneficiam de refeições que sobram da JMJ

in SIC


Recolha começou na sexta-feira e, entre almoços e jantares, a Refood já distribuiu mais de 500 refeições por dia. Até domingo, estima-se que cerca de 400 famílias possam beneficiar destas refeições.

Centenas de famílias vão beneficiar das refeições que sobram durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). A organização garante que nada se perde.

A recolha de refeições começou na sexta-feira e, entre almoços e jantares, a Refood já distribuiu mais de 500 refeições por dia.

Até domingo, o último dia do evento, estima-se que cerca de 400 famílias possam beneficiar destas refeições.

"Bebam água!": Papa diz que ter "nojo" da pobreza leva a uma vida "destilada"

Por Lusa, in SIC

O chefe da Igreja Católica encontrou-se com os representantes de alguns centros de assistência sócio-caritativa no Centro Paroquial de Serafina, uma visita muito esperada pelo cónego Francisco Crespo, responsável pelo centro social.

O Papa Francisco pediu esta sexta-feira a responsáveis de instituições sócio-caritativas da Igreja que se questionem se têm nojo da pobreza, desafiando-os a sujar as mãos.

"Tenho nojo da pobreza, da pobreza dos outros?", perguntou Francisco, no encontro com representantes de centros de assistência sócio-caritativa, no Centro Social Paroquial São Vicente de Paulo, na Serafina, em Lisboa, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Improvisando na intervenção, feita em espanhol, o líder da Igreja Católica salientou a importância de concretizar a ação caritativa.


"Não há amor abstrato, não existe. O amor platónico está na órbita, não está na realidade", referiu, para destacar o "amor concreto, esse que suja as mãos".

Francisco perguntou mesmo se, quando dão a mão a uma pessoa necessitada, doente ou marginal, a lavam de seguida, para não ficarem contagiadas.

O líder da Igreja Católica criticou depois as "vidas destiladas e inúteis que passam pela vida sem deixar marca, porque a sua vida não tem peso".


"Mas aqui temos uma realidade que deixa marca, uma realidade de tantos anos, de tantos anos" que deixa inspiração, declarou, considerando que não poderia existir uma JMJ "sem ter em conta esta realidade".

Segundo Francisco, "isto também é juventude no sentido em que gera vida nova continuamente", pois ao sujarem as mãos com a miséria dos outros, os responsáveis estão a gerar inspiração e vida.

Agradecendo o trabalho das instituições sócio-caritativas da Igreja, pediu que sigam em frente e não desanimem.

"E se desanimarem, tomem um copo de água e sigam em frente", acrescentou, provocando uma gargalhada na assistência.

A outra jornada dos voluntários internacionais: “A vida não tem sentido se você não vive para o outro

Cristiana Faria Moreira (Texto) e Matilde Fieschi (Fotografia), in Público

É a oitava JMJ de Formelisa, a primeira de Laura e Estefania. Vêm de 140 países, percorrem milhares de kms para ajudar. Deixam a casa, o emprego. O que os move? “Estamos aqui para servir”


á algo de maior que move Anton, que vem de um lugar onde pouco se fala e se conhece o que é isto da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). “Eu sou cristão e a maioria da Palestina é muçulmana.” E é por isso que este palestiniano de 29 anos faz questão de estar pela terceira vez numa JMJ. “Quero passar a mensagem de que os palestinianos estão aqui. Quero que todos saibam o que se passa na Palestina e que ali há cristãos. Nós amamos a paz. O nosso problema não são os judeus ou os muçulmanos. O nosso problema é a ocupação de Palestina. Queremos enviar uma mensagem: ajudem-nos a fazer a paz.”


Esta é uma das missões que trouxe Anton Shomali a Lisboa. Mas os mais de quatro mil quilómetros que o jovem palestiniano percorreu para chegar a Lisboa têm ainda o propósito de prestar cuidados de saúde aos milhares de peregrinos que ali estão.

Além de professor universitário na área da joalharia, Anton é também paramédico da selecção palestiniana de basquetebol, por isso inscreveu-se para dar apoio na área da saúde. O voluntariado sempre esteve na sua vida. Na Palestina, em Belém, a sua terra natal, trabalha com grupos de jovens, com a Cruz Vermelha, e é escuteiro. Por isso, não podia faltar, já depois de em 2019, no Panamá, ter tido uma experiência inesquecível. “Quando pensamos em 1,6 milhões de pessoas a rezar num lugar... Além disso é uma festa. É o amor e a alegria de sermos 194 países num só país”, diz o jovem sob o sol forte do início da tarde numa das tendas médicas que estão colocadas no Terreiro do Paço.

Anton é um dos 24 mil voluntários vindos de 140 países de todas as partes do mundo. Vestem a camisola amarela — e vestem mesmo a camisola. Percorrem milhares de quilómetros. Deixam as suas casas por uns dias – meses até – para ajudar a preparar a JMJ, para torná-la realidade. Muitas vezes, nem conseguem estar nos eventos principais, mas garantem estar a viver "uma outra jornada". São voluntários internacionais. O que os move? “Estamos aqui para servir.​”

Há muitos repetentes, mas também estreantes como as colombianas Laura e Estefania, que acabam de terminar o turno, depois de terem estado a ajudar na logística para aceder aos confessionários do Parque do Perdão, instalados nos jardins de Belém.

“Nunca tinha ido a uma JMJ e tinha muita vontade de a viver e de ver o Papa. Como voluntária pareceu-me uma experiência diferente para poder servir todos os peregrinos. Espero aproximar-me um bocadinho mais de Deus”, diz Laura Ávila, estudante de Medicina de 23 anos. Apesar de não ser católica, Estefania Padrón, de 24, quis “arriscar-se no voluntariado”. “Eu sou fá número um do voluntariado. Tira-me da minha zona de conforto”, diz a jovem, de bandeira da Colômbia às costas.

"Os frutos da jornada"

Formelisa Aguirre Chavarria é, provavelmente, uma das primeiras voluntárias a trabalhar na JMJ de Lisboa. Tudo começou pouco depois de, em 2019, no seu país, o Panamá, ter sido anunciado que a próxima jornada seria acolhida na capital portuguesa.

A outra jornada dos voluntários internacionais: “A vida não tem sentido se você não vive para o outro”


"Seis meses depois [da JMJ do Panamá] comecei a estar com os irmãos de Portugal, a partilhar um pouco de toda a experiência que tivemos. Depois veio a pandemia. Reuníamo-nos virtualmente, partilhávamos toda a informação, as alegrias, o que se podia, o que não se podia. Era muito, muito bonito", conta esta professora universitária de 46 anos.

É a sua oitava jornada. A primeira, em Roma, foi como peregrina. Desde então, envolveu-se na organização, conheceu "todas as facetas". "O facto de ver tantas pessoas de tantas partes do mundo a partilhar a mesma fé toca-me. Isso deixa-me motivada, muito motivada." E fá-la trabalhar para que cada edição seja uma realidade. "É um trabalho muito, muito cansativo. Há muitas coisas para pensar. É um acumular de coisas, mas no final é muito bonito. Não é somente um evento, como se pensa, mas de dentro da jornada saem os frutos", partilha.

Emociona-se ao ver as ruas de Lisboa cheias de jovens, de vida e de cor. "Acho que isso é uma das coisas que mais se impregna. Sente-se um ambiente diferente, totalmente diferente."

Formelisa é uma entre os 27 voluntários internacionais de longa duração que são acolhidos por Ana João e Maciel Filipe no enorme e belíssimo Convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete (ou Recolhimento do Grilo), no Beato, que se tornou lar para pessoas do Brasil, do México, do Panamá, de Itália e de França, da Guatemala ou da Venezuela. É ali que alguns dos voluntários internacionais que chegam meses mais cedo para preparar a JMJ são acolhidos.

“A vida não tem sentido se você não vive para o outro, se não ajuda o próximo. Esse é o meu propósito: vir cá ajudar para que outras pessoas sintam o que eu senti”, diz Guilherme Coutinho, de 35 anos, brasileiro de Uberlândia, que participa na quarta jornada.

A primeira foi em casa, no Rio de Janeiro, um momento especial na sua vida. “Eu nunca tinha saído do Brasil até àquele instante. Ver praticamente cinco milhões de pessoas unidas por um propósito, que é levar a mensagem de Cristo, para mim foi um diferencial.”

A partir daí quis fazer a diferença em todas as jornadas. Foi voluntário na Polónia e no Panamá, mas sempre experiências curtas. Até que decidiu que em Lisboa seria diferente. Chegou há quase dois meses para a ajudar a construir a app que guia os milhares de peregrinos que estão na capital.


“Têm sido os melhores dias da minha vida. A primeira experiência de viver em comunidade, de estar junto com pessoas totalmente diferentes, com culturas e criação diferente”, diz o informático.

Por ali, as antigas celas do convento setecentista, que sobreviveu ao terramoto de 1755, foram limpas e transformadas em quartos. Vivem ali em comunidade, jantam e rezam juntos, divertem-se

“Aqui é um pouco diferente. Em casa, às vezes deixamos a meia jogada e a meia no outro dia não está lá. Mas aqui não. Sujou tem que lavar, desarrumou tem que arrumar. Há várias coisas que vão mudando o nosso comportamento, que agregam na nossa vida. O que a gente aprende aqui, o respeito pelo limite do outro, é uma experiência incrível, interessante, intensa, mas também difícil”, partilha o informático.


Ser voluntário, como eles admitem, é duro. “Se você me perguntar se eu conheço Lisboa, eu não conheço”, confessa Guilherme, que divide o seu dia entre o trabalho remoto para uma empresa americana com as tarefas da JMJ.

“Eu faço horário dos Estados Unidos. O meu trabalho aqui normalmente começava às 8h até 14h, 15h. Depois até às 23h continuava o meu trabalho para a empresa”, conta o voluntário. "E às 2h me levanto para rezar o terço."

Uma outra jornada

Ser voluntário, sobretudo quem não está escalado para estar nos locais dos eventos, pode também ser algo frustrante. Eles ajudam a tornar os eventos uma realidade, a garantir que a informação chega, que a app funciona, que nas redes sociais há informação publicada em várias línguas, que os jornalistas têm a informação na sua língua. Mas isso implica que muitas vezes não consigam estar nos eventos e apenas os acompanhem à distância.

“Eu não estou vivendo o que os peregrinos estão vivendo. Mas não viver os eventos não quer dizer que a gente não viva a jornada. A nossa jornada é um pouco maior do que só os eventos”, diz Guilherme.

Wender Batista não esconde essa tristeza. “Eu vivi três jornadas como peregrino e eu gosto de estar no meio da confusão, de levantar bandeira.” Para este brasileiro de Minas Gerais de 31 anos estar em frente a um computador a assistir a tudo, entristece-o por momentos, mas logo chega o sentimento de missão.

“É muito gratificante entender que eu estou fazendo parte daquilo de alguma maneira, através do meu trabalho”, diz Wender, que é publicitário e está na equipa de design gráfico da JMJ. Como durante a missa de abertura da JMJ, presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, em que a sua equipa teve de traduzir uma frase em 20 idiomas.

“Me jogaram para fazer um post em coreano. Tive que ir do lado de uma voluntária coreana para não colocar os elementos errados. E eu não falo muito bem inglês, estava nervoso, mas aí depois eu entendi que a jornada precisa chegar também na Coreia, assim como precisa chegar em árabe, em polaco, em todas essas línguas”, observa o voluntário. “Mesmo que a gente não vivencie tudo aquilo, a gente está proporcionando a jornada para pessoas que também não estão aqui. E isso ajuda a confortar um pouco também.”

Para Wender, esta é a quarta JMJ, depois do Rio, Cracóvia e Panamá. Está em Lisboa há dois meses. Passou por um processo de entrevistas e selecção. Chegou “de olhos vendados”, um pouco assustado com a ideia de ficar num convento. Mas rapidamente esses medos caíram por terra ao conhecer aquele espaço. “Eu mudei de casa, de país, de trabalho de uma semana para a outra. Um dia eu estava no Brasil, no meu trabalho com a minha família e no outro dia eu estava em Portugal, trabalhando em outro lugar, morando num lugar totalmente diferente. Cheguei sem conhecer ninguém.”

Na próxima semana, será altura do regresso e de retomar o trabalho que ficou suspenso durante estes meses para se dedicar totalmente à JMJ. “Vou reconstruir aquilo que eu deixei para trás, mas não me arrependo em nenhum momento, porque o crescimento aqui como pessoa, como cristão, como profissional foi muito grande”, assume o voluntário.

O regresso ao Brasil também será um recomeço para Isaac Silva, de 22 anos. É a terceira jornada, a primeira como voluntário. No Panamá, tinha pensado que não viria a esta, que esse dinheiro seria necessário para ajudar a cuidar dos irmãos. Mas uma bolsa apareceu, possibilitando-o vir para Lisboa.

Despediu-se da empresa em que trabalhava e chegou há dois meses para dar apoio no contact center, ou seja, a responder às dúvidas que os peregrinos colocam por telefone ou por email. Também para ele esta jornada é diferente, vivida de um lugar novo. "Eu estou na jornada, mas ao mesmo tempo parece que eu não estou. Como eu já fui peregrino, dá aquele sabor de querer estar no meio também. E aí, depois, tem que ter esse entendimento de que nós estamos aqui para servir”, diz.


As "diferentes partes do corpo" da JMJ

Pierre Jeanson, tradutor francês de 34 anos, partilha o sentimento, mas sabe que a recompensa virá. “Gosto muito do meu trabalho, mas lembro-me que também tive essa impressão na JMJ de Madrid. Quando nos encontramos com o Papa Bento XVI, ele disse 'muito obrigado, queridos voluntários, por tudo o que fizeram. Sei que vocês não puderam viver a JMJ de forma muito intensa a nível espiritual, mas o Senhor vai dar frutos'. E o primeiro fruto era estar ali a ver o Papa de muito perto”, recorda Pierre.

Não é a primeira vez que o francês é voluntário. Já o foi em Madrid a dar indicações no metro aos peregrinos. E ainda hoje mantém contacto com outros voluntários. “Isso é muito rico.”

Em Lisboa é um dos tradutores, já que a JMJ tem cinco línguas oficiais, ainda que muitas mais se falem por estes dias na capital. Por isso, além da parte espiritual, é também uma oportunidade para evoluir em termos profissionais. “Estou a aprender português desde há uns anos e quero praticar, melhorar. E também o encontro com Cristo, o encontro com os demais, com a Igreja Católica. Estou muito contente por poder ver o Papa Francisco”, diz Pierre.

No domingo, será o dia para isso acontecer mais de perto, já que terão também o seu momento com o Papa, numa cerimónia que encerrará a JMJ, no Passeio Marítimo de Algés.

Será o momento para "as diferentes partes do corpo da JMJ", como diz Pierre, se juntarem. “A jornada precisa de cada competência, e isto é muito interessante porque ninguém é inferior, ninguém é superior. Toda a gente é necessária.”

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]



3.8.23

"Procurai e arriscais": Papa desafia os jovens a serem “protagonistas da mudança”

Filipa Traqueia, in SIC

Perante os desafios da atualidade - da guerra na Ucrânia às alterações climáticas - o Papa Francisco apelou ao milhares a que deixassem "o conforto pessoal" em busca de uma sociedade melhor.


O Papa Francisco discursou, esta quinta-feira, na Universidade Católica de Lisboa. Apelou aos cinco mil jovens que tivessem coragem para “deixar o conforto pessoal” e sejam “protagonistas da mudança”. Destacou a importância do conhecimento para criar uma sociedade melhor e pediu medidas concretas para “cuidar da casa comum”


“Estar insatisfeito é um bom antídoto contra a presunção de autossuficiência e narcisismo. Ser incompleto completa a nossa condição de peregrino", disse o Papa Francisco, sublinhando que "estamos no mundo, mas não somos o mundo. Somos chamados a algo mais”.

O Sumo Pontífice alertou ainda os jovens para não se deixarem levar pelas “respostas fáceis que anestesiam”, numa referência à utilização excessiva do digital e dos “ecrãs”.


“Procurai e arriscais. Neste momento histórico, os desafios são enormes e os gemidos dolorosos”, prosseguiu, referindo-se à guerra na Ucrânia.

O Papa Francisco afirmou que estamos a viver uma “terceira guerra mundial aos bocados”, mas ressalvou que não se trata "uma agonia, mas num parto” - ou seja, não é o final, mas o início. Para o líder da igreja católica, falta “coragem para pensar” de forma diferente e os jovens devem ser “protagonistas” desta mudança.


“Tende a coragem de substituir os medos pelos sonhos, não sejam administradores de medos, mas empreendedores de sonhos."


“Se o conhecimento não for acolhido como responsabilidade, torna-se estéril”

O Papa Francisco admitiu ter sido inspirado pelo discurso da reitora da Universidade da Católica de Lisboa e destacou que a Universidade “não existe para se preservar como instituição”, mas sim para “responder com coragem aos desafios do presente e do futuro”.


“A autopreservação é uma tentação, é um reflexo condicionado pelo medo que nos faz olhar para o futuro de forma distorcida”, afirma o Papa

Francisco considera um “desperdício pensar numa universidade que se comprometeu a formar as novas gerações como apenas um utensílio para perpetuar o sistema elitista e desigual do mundo, com um ensino superior que continua ser um privilégio de poucos"


“Se o conhecimento não for acolhido como responsabilidade, torna-se estéril”, prossegue, sublinhando que quem “não se esforça por restituir o que beneficiou” é porque “não compreendeu profundamente o que lhe foi oferecido”.

Para o Papa, o estudo não é “uma licença para construir o bem-estar pessoal”, mas sim “um mandato para se dedicar a uma sociedade mais justa e inclusiva, isto é, mais avançada”.

No seu discurso, o Sumo Pontífice citou uma entrevista de Sophia de Mello Breyner Andersen, onde poeta portuguesa disse querer a justiça social e Portugal e a diminuição da diferença entre ricos e pobres.


“Em nome do progresso já se abriu caminho a muito retrocesso”

A questão ambiental também foi abordada pelo Papa Francisco no seu discurso. O Sumo Pontífice defendeu que é preciso ação concreta e não apenas "simples medidas paliativas ou compromissos ambíguos”.


“Devemos reconhecer a urgência dramática de cuidar da casa comum. Isto não pode ser feito sem uma conversão do coração e uma mudança da visão antropológica que está na base da economia e da politica”, afirmou.

O Papa Francisco sublinhou ainda a “necessidade de redefinir o que chamamos progresso e evolução”, acrescentando que, “em nome do progresso já se abriu caminho a muito retrocesso”.

Dirigindo-se aos jovens, deixou um apelo: “Vós sois a geração que pode vencer este desafio e tendes todos os instrumentos científicos e tecnológicos mais avançado, mas por favor não vos deixei cair na cilada de visões parciais."

O Sumo Pontífice destacou a necessidade abrir a igreja cristã a todos, afirmando que “o cristianismo não pode ser uma fortaleza cercada de muros, que ergue baluartes contra o mundo”.


“O contributo feminino é indispensável”

O papel da mulher na economia foi também referido pelo Papa Francisco, no âmbito do anúncio do nome dado à nova cátedra da Universidade Católica - que passou a ser dedicada a Francisco e Clara. O Sumo Pontífice sublinha que “o contributo feminino é indispensável”.


“No consciente coletivo, quantas vezes acontece pensar que a mulher é um ser de segunda, que é secundária em vez de titular? O contributo feminino é indispensável”, afirma, acrescentando que na Bíblia, "a economia familiar está em grande parte nas mãos da mulher".

Francisco sublinha que a “sabedoria” da mulher torna-a “governante da casa, que não tem como benefício imediato, mas beneficia do bem estar físico e espiritual de todos”.

Deixou ainda críticas ao “mercado selvagem e da especulação”, apelando aos jovens que, através dos estudos económicos, possam “devolver à economia a dignidade que lhe compete".

2.8.23

Papa pede à Europa que acabe com “mortandades no mar e berços vazios”

Natália Faria, in Público

Pouco depois de ter aterrado em Lisboa, Francisco pediu à Europa que recupere o seu papel de negociadora de paz, capaz de extinguir os conflitos. E voltou a criticar “deriva totalitarista”.


De cadeira de rodas e ar envelhecido, mas nem por isso menos acutilante, o Papa Francisco usou o seu primeiro discurso em solo português, onde veio presidir à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), para criticar as hesitações da “velha Europa”, que se tem mostrado incapaz de acabar com “o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios”.


Naquele que foi o primeiro dos vários discursos esperados até ao fim da JMJ, no Centro Cultural de Belém, onde se reuniram várias autoridades, Francisco começou por enfatizar o carácter multiétnico da cidade, que descreveu como “cidade do encontro que abraça vários povos e culturas” para depois, e recuperando os princípios plasmados no Tratado de Lisboa, em 2007, criticar aquilo que disse ser a falta de capacidade “e, muitas vezes, de vontade” dos protagonistas políticos de enfrentarem desafios como “as injustiças planetárias, as guerras, as crises climáticas e migratórias”.

“O mundo tem necessidade da Europa, da Europa verdadeira: precisa do seu papel de construtora de pontes e de pacificadora do Leste europeu, no Mediterrâneo, na África e no Médio Oriente”, considerou o Papa argentino, num desafio a que a Europa recupere o seu papel numa “diplomacia de paz que extinga os conflitos e acalme as tensões”. E questionou: “Olhando com grande afecto para a Europa, no espírito de diálogo que a caracteriza, apetece perguntar-lhe: Para onde navegas, se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo?"

Apontando de seguida o dedo às “derivas totalitaristas” que “usam e descartam” a vida humana, Francisco recuperou a oposição ao aborto e à eutanásia: “Penso em tantas crianças não-nascidas e idosos abandonados a si mesmos.”. Voltando a perguntar: “Para onde navegais, Europa, com o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios? Para onde ides se, perante o tormento de viver, vos limitais a oferecer remédios rápidos e errados como o fácil acesso à morte, solução cómoda que parece doce, mas na realidade é mais amarga que as águas do mar.”

Preocupação com os jovens

Focando-se depois nos protagonistas da JMJ — os jovens —, Francisco saudou os que saem à rua “não para gritar a sua raiva”, mas para “partilhar a esperança do Evangelho”. “Se em muitos lugares se respira hoje um clima de protesto e insatisfação, terreno fértil para populismos e conspirações, a Jornada Mundial da Juventude é ocasião para construir juntos”, considerou, lançando-se de seguida na questão da emergência climática.


“Estamos a transformar as grandes reservas da vida em lixeiras de plástico”, voltou a lembrar, para sublinhar que não devia ser esse o legado que os países deixam aos seus jovens, já suficientemente “desanimados” com vários problemas. “A falta de trabalho, os ritmos frenéticos em que se vêem imersos, o aumento do custo de vida, a dificuldade de encontrar uma casa e, ainda mais preocupante, o medo de constituir família e trazer filhos ao mundo”, enumerou o jesuíta, atento à “triste fase descendente da crise demográfica”.

Dirigindo-se aos políticos, Francisco lembrou o que pode a “boa política”. “Não é chamada a conservar o poder, mas a dar às pessoas a possibilidade de esperar. É chamada, hoje mais do que nunca, a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas, mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos”, alertou, para entre referências ao sentimento de saudade português e citações de José Saramago, enfatizar a importância de construir comunidades e trabalhar pelo bem comum”.

Esta vai ser uma quarta-feira longa para o Papa, que aterrou em Figo Maduro às 9h40. Durante o voo, num Airbus A329 da ITA Airways, Francisco, que vai alternando entre a bengala e a cadeira de rodas, dissera-se esperançado de que sairá “rejuvenescido” desta jornada. Cansado sairá, seguramente. Mal aterrou, o jesuíta seguiu para o Palácio de Belém, em cujo livro de honra se descreveu como “peregrino da esperança”, não se sabendo se reparou ou não nos cartazes contra os abusos na Igreja que foram colocados durante a noite na Alameda, Algés e Loures. Os cartazes, financiados através de uma campanha de crowfunding, pretendiam quebrar o “silêncio ensurdecedor” quanto a este assunto durante a JMJ. Em cada um deles lê-se que mais de 4800 crianças foram abusadas por elementos da Igreja.


[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

26.7.23

Jornada Mundial da Juventude sugere aos peregrinos serem vegetarianos para compensar viagem de avião

Pedro Sousa Carvalho Jornalista, in Expresso

Os peregrinos que virão a Lisboa para a Jornada Mundial da Juventude vão ter acesso a uma aplicação com uma calculadora que mede a sua pegada carbónica. A organização publicou um manual onde recomenda formas de compensar a poluição provocada pela viagem a Lisboa. Ao Expresso SER, o presidente da Novo Verde e ERP Portugal explica como é que vai funcionar a calculadora


Em abril, o Comité Organizador Local da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) juntou-se às câmaras municipais de Lisboa e Loures e a várias outras organizações para assinar uma carta onde se comprometeram a “fazer da sustentabilidade um objetivo central da organização da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023”. Essa carta é inspirada na encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’, um texto de 2015 onde o Papa Francisco fez um apelo para que a humanidade consiga travar a degradação ambiental e as alterações climáticas e onde fez um levantamento exaustivo daquilo que está a acontecer à “nossa casa comum”: a poluição, as mudanças climáticas, o tema da água, a perda da biodiversidade, a fraqueza das reações e a deterioração da qualidade de vida humana.

Uma das ações previstas para ajudar a minimizar a pegada carbónica deste evento, – onde o Papa Francisco será a figura principal, – passa pela disponibilização de uma calculadora que ajuda a medir a pegada carbónica da viagem e estadia em Lisboa, sugerindo formas de compensação para mitigar o impacto ambiental do evento. A JMJ pode trazer a Lisboa cerca de um milhão de visitantes nas primeiras duas semanas de agosto.

Esta calculadora foi desenvolvida pela ERP Portugal/Novo Verde, um dos subscritores da carta de compromisso, e integra a aplicação de telemóvel da JMJ. “Fomos convidados a participar no grupo de sustentabilidade da Fundação JMJ que trabalhou, ao longo do último ano, com o objetivo de colocar a sustentabilidade como preocupação central na organização do evento. Tendo como premissa o cuidado com a ‘Casa Comum’, plasmado no pedido que o próprio Papa Francisco nos endereçou, a ERP Portugal e a Novo Verde disponibilizaram-se prontamente para a execução e oferta desta ferramenta”, explicou ao Expresso SER Ricardo Neto, presidente da Novo Verde e ERP Portugal (ver perguntas e respostas em baixo).

Juntamente com a calculadora, a ERP Portugal/Novo Verde também desenvolveu um “Manual do Peregrino” “com recomendações de comportamento” que pretendem ajudar a minimizar a pegada ambiental de cada participante na JMJ. Este manual começa por reconhecer o impacto que estas jornadas vão ter no ambiente: “A JMJ, como qualquer outro encontro desta dimensão, tem um impacto no planeta e os peregrinos participantes têm uma contribuição significativa”. E dá o exemplo de uma viagem de avião de ida e volta entre Atenas e Lisboa que gera 1746 kgCO2e (quilogramas de dióxido de carbono equivalente). Esta pegada de carbono, segundo as contas da organização, corresponde a:

1) Aproximadamente 55 anos de banhos diários (considerando uma duração de banho diário entre 5 a 10 minutos e o valor correspondente de 32,85 kgCO2e/ano);

2) A cerca de meio ano de dieta omnívora (considerando um elevado consumo de carne, de 3285 kgCO2e/pessoa/ano);

3) E, finalmente, a aproximadamente 20 iPhone 12 Pro Max.

“As viagens dos participantes em eventos, principalmente de avião, são de facto impactantes”, conclui o “Manual do Peregrino”.

COMO MITIGAR A VIAGEM DE AVIÃO?

Neste exemplo de uma viagem de ida e volta entre Atenas e Lisboa para participar na JMJ, a organização afirma que que “é possível compensar essas emissões mesmo após a JMJ”. E como é que se faz isso? O “Manual do Peregrino” deixa três sugestões:

1) A primeira sugestão é realizar a viagem casa-trabalho de comboio ao invés de carro pessoal durante dois anos, para um percurso de 10km (para estes cálculos a empresa usou fatores de emissão de comboio de 0,0235 kgCO2e/pessoa/km e de carro de 0,1815 kgCO2e/pessoa/km, duas viagens casa-trabalho de 10km/dia e 251 dias de trabalho/ano).

2) A segunda sugestão é aceitar o desafio de “ser vegetariano durante um ano” (para estas cálculos considerou-se uma redução das emissões de uma dieta omnívora, com elevado consumo de carne, de 3285kg CO2e/pessoa/ano para uma dieta vegetariana, de 1700kg CO2e/ pessoa/ano).

3) Finalmente, para compensar a totalidade das emissões da viagem, o manual recomenda “apoiar programas de conservação de árvores durante um ano, correspondente a 65 árvores (assume que cada árvore capta um valor médio de carbono de 26,6kgCO2e/árvore/ano)”.

No manual são feitas várias outras sugestões para que os peregrinos tenham uma vida mais próxima daquela que o Papa Francisco pediu na encíclica Laudato Si’, em vários domínios, desde as viagens, mobilidade, estadia, consumo, alimentação e resíduos. Os peregrinos são confrontados com vários números para que possam ter comportamentos mais amigos do ambiente. Por exemplo, lê-se no “Manual do Peregrino” que beber apenas água engarrafada tem um impacto de 234 kgCO2e/ano, ao contrário de beber água apenas da torneira que não tem nenhum impacto. Tomar um banho de imersão corresponde a emitir 949 kgCO2e/ano, valor que compara com os 183 kgCO2e/ano de um duche.
COMO FUNCIONA A CALCULADORA?

A calculadora para medir a pegada carbónica da estadia e das deslocações dos peregrinos vai estar disponível na app oficial da JMJ, “e o peregrino pode quantificar a sua pegada e conhecer outras opções e ações para mitigar as consequências geradas durante a sua participação” no evento. Para saber o valor base da pegada, o peregrino começa por preencher o questionário inicial em: "Descobre a tua pegada de carbono durante a Jornada". Para tal são-lhe solicitados vários dados: a viagem até Lisboa (distância e o transporte usado), o tipo de alojamento, a mobilidade na capital e os recursos “que englobam os padrões de consumo de água, de eletricidade, hábitos alimentares e compras”.

A organização garante que os dados serão “anonimizados” e após preencher o questionário inicial, o peregrino será confrontado com a sua pegada de carbono total que vai aparecer numa escala de cinco níveis de cor (verde escuro, verde claro, amarelo, laranja, e vermelho), que vai deste os 0 kg CO2e até aos 7000 kg CO2e. A cada dia de estadia em Lisboa, o utilizador da app pode responder ao questionário da mitigação, onde terá a oportunidade de indicar o que fez naquele dia pelo planeta. “A cada dia que vais preenchendo o questionário da mitigação, serás notificado da redução de emissões que fizeste naquele dia, face ao valor calculado para ti com base nas respostas ao questionário inicial”, lê-se no manual.

RICARDO NETO EM DISCURSO DIRETO

Em respostas enviadas por escrito ao Expresso SER, Ricardo Neto, presidente da Novo Verde e ERP Portugal, explica como é que vai funcionar esta calculadora e o que é que o grupo de trabalho da JMJ para a área da sustentabilidade está a fazer para mitigar o impacto que este evento terá na cidade e no meio ambiente.

Porque é que tiveram a ideia de lançar esta calculadora?
Fomos convidados a participar no grupo de sustentabilidade da Fundação JMJ que trabalhou, ao longo do último ano, com o objetivo de colocar a sustentabilidade como preocupação central na organização do evento. Tendo como premissa o cuidado com a “Casa Comum”, plasmado no pedido que o próprio Papa Francisco nos endereçou, a ERP Portugal e a Novo Verde disponibilizaram-se prontamente para a execução e oferta desta ferramenta. Com a robustez de experiências anteriores no desenvolvimento de calculadoras desta natureza, e percebendo o inevitável impacto ambiental que um evento desta magnitude tem, este foi um desafio natural e que nos faz todo o sentido.

Como é que vão publicitá-la junto dos peregrinos?
Quer da parte da ERP Portugal/Novo Verde, como da Fundação JMJ, existe um compromisso de incentivar o uso massivo da calculadora de pegada carbónica, onde o peregrino consegue ter a noção clara do seu impacto individual. Tendo em conta a importância desta monitorização, quer a ERP Portugal e a Novo Verde, quer a Fundação JMJ têm um compromisso sério com a divulgação e motivação para a utilização desta ferramenta. Está prevista a divulgação da calculadora de pegada carbónica em todos os canais de comunicação JMJ Lisboa 2023 (incluindo na JMJ TV), bem como a integração desta ferramenta no plano de comunicação digital da ERP Portugal e da Novo Verde.

Como é que funciona esta calculadora?
A calculadora de pegada carbónica tem por base a análise dos seguintes indicadores: viagem, estadia, mobilidade interna e outros recursos. Os peregrinos inscritos (voluntários, ou seja, peregrinos que estão no ativo), clero e media, terão acesso à aplicação da JMJ onde está alojada a calculador. No ato da inscrição, o peregrino recebe um QRCode com acesso à totalidade dos conteúdos da app, de onde faz parte a calculadora. Desta forma e muito facilmente, respondendo a um questionário inicial, é possível aferir o cálculo da sua pegada até ali. À medida que os dias avançam, mediante as suas decisões e atitudes, os peregrinos poderão mitigar a sua pegada inicial, visualizando de uma forma apelativa e através de uma escala de cor, o quão as suas atitudes individuais impactam o global. Existe um questionário diário com uma “check list” cujas respostas são convertidas em unidades de carbono que fazem oscilar a barra de resultados.

Junto com o desenvolvimento desta calculadora de pegada carbónica, foi elaborado um “Manual do Peregrino”, que contém recomendações de comportamento que, ao serem aplicadas, terão impacto nas respostas aos questionários diários e consequentemente diminuição do impacto individual. Estão também presentes neste manual várias medidas de mitigação que podem e devem ser aplicadas, não apenas à semana em que os eventos das JMJ decorrem, mas por estarem traduzidas em quatro línguas e permanecerem acessíveis nos sites da ERP Portugal e Novo Verde, poderão ter efeitos perenes.

Que impacto é que esperam que esta ferramenta tenha no comportamento dos peregrinos?
Sabemos que, neste momento, estão mais de 336 mil peregrinos inscritos, e como tal, aguardamos uma adesão significativa ao uso da calculadora. Recordamos que todos tiveram acesso a uma carta de compromisso que sublinhava e apelava para as questões relacionadas com a sustentabilidade. Acreditamos que a sensibilização que terá lugar antes da semana das Jornadas, aos mais de 20.000 voluntários, terá um impacto significativo na mobilização dos restantes peregrinos para o uso desta ferramenta. Nos vários espaços onde decorrerão diversos eventos, os peregrinos terão acesso a comunicação e sensibilização para o preenchimento do questionário diário, e como tal, estamos muito otimistas no que aos resultados diz respeito.

Tem alguma estimativa da pegada carbónica de um evento como o das JMJ, que obriga à deslocação de mais de um milhão de pessoas?
Não. Recordamos que Portugal está a acolher um evento sem precedentes. No entanto, e tendo em conta que a utilização desta nossa ferramenta é pioneira no histórico da Jornadas Mundiais da Juventude, aguardamos com expectativa o nível de adesão à utilização da calculadora que nos ajudará a aferir melhor esse impacto. Contudo, sabemos que o grupo de Sustentabilidade ao qual pertencemos conseguiu, ao longo do último ano, vários compromissos na organização do evento, de forma a diminuir o seu inevitável impacto ambiental.

O que está a organização da JMJ a fazer para minimizar o impacto ambiental deste evento?
A Novo Verde e a ERP Portugal fazem parte do grupo de trabalho multidisciplinar na área da sustentabilidade. Este grupo reúne várias empresas e voluntários que uniram esforços para que vários detalhes fossem tidos em consideração na organização de um evento desta relevância, tais como: desmaterialização da informação dada ao peregrino, garrafas de águas reutilizáveis, colocação de bebedouros, contentorização para a separação dos resíduos adequada ao número de visitantes, bem como, sinalética transversal à multiculturalidade que se viverá nessas semanas.

Outra das medidas de prevenção, recai na seleção de embalagens de alimentação no kit peregrino, sendo estas monomaterial, como forma de facilitar a correta separação e encaminhamento destes resíduos. De sublinhar que o contributo da ERP Portugal e da Novo Verde nestas matérias fica plasmado no manual de pegada de carbono, disponível não apenas para os peregrinos inscritos, mas para todos, dado que irá estar disponível nos websites das entidades gestoras.

24.7.23

JMJ. Hospital de campanha do INEM vai conseguir atender 100 pessoas por dia

Por Lusa, in RR


Dispositivo de emergência médica contará aproximadamente com 500 operacionais para dar resposta ao evento.


O Instituto Nacional de Emergência Médica montou esta segunda-feira no parque Tejo, em Lisboa, um hospital de campanha com capacidade para atender diariamente 100 peregrinos e que funcionará nos últimos dois dias da Jornada Mundial da Juventude.

Os trabalhos de montagem dos Módulos de Emergência Médica do INEM começaram cerca das 9h de hoje e estenderam-se durante a manhã, envolvendo cerca de 10 técnicos da área da logística e técnicos de emergência hospitalar.

Entre as várias unidades hoje montadas estão uma sala de admissão e triagem dos doentes, uma área de ambulatório, uma sala de emergência e outra de pequena cirurgia, ortopedia e raio X, bem como uma área de decisão clínica e um espaço de descanso para os profissionais.


Presente no local dos trabalhos, em frente ao altar-palco onde o Papa Francisco presidirá à missa final do evento, que reunirá cerca de 1,5 milhões de peregrinos em Lisboa, o responsável pela organização da reposta do INEM na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), Ivo Cardoso, explicou que esta estrutura de apoio é uma de quatro: no parque Tejo são duas, uma em Lisboa e outra em Loures; no Parque Eduardo VII há mais uma e em Fátima outra, que já está montada.

A estrutura tem capacidade de apoio em saúde e emergência médica para responder ao que possa acontecer durante os eventos e “tentar evitar que os doentes possam ter que recorrer aos serviços dos hospitais”, explicou Ivo Cardoso.


O objetivo é fazer “uma zona tampão para os hospitais”, disse o enfermeiro, sublinhando que é para isso também que o INEM se tem vindo a preparar, para apoiar o comité organizador local, que tem a responsabilidade de organizar todo o evento, que decorre de 01 a 06 de agosto, e de dar apoio direto aos peregrinos.

Faseadamente, em cada uma destas unidades vão estar sempre cerca de 30 profissionais, nomeadamente médicos, enfermeiros, técnicos de emergência pré-hospitalar e elementos da logística e da informática, sendo que “todos vão ser importantes para o sucesso do tratamento destes doentes”, disse.

Cada unidade terá ainda o apoio de ambulâncias.

No total, o dispositivo, incluindo os parceiros, contará aproximadamente com 500 operacionais para dar resposta ao evento.

Sobre a capacidade de atendimento diário do hospital de campanha, o responsável disse que estes módulos estão habitualmente preparados para atender 100 doentes dia, mas não há nenhum número limite: “Nós atenderemos todas as pessoas que for necessário atender”.

Relativamente aos problemas de saúde que possam surgir, Ivo Cardoso disse que estarão sobretudo relacionadas com o calor, nomeadamente desidratações e insolações, mas assegurou que as unidades estão preparadas para todas as situações de trauma que possam ocorrer ou situações graves que, caso seja necessário, serão encaminhadas para a unidade de saúde adequada para o efeito.

Questionado sobre a falta de operacionais e de meios, Ivo Cardoso explicou que tem vindo a ser preparado “um dispositivo extra” para a Jornada Mundial da Juventude. Desde maio que o INEM tem vindo a fazer um reforço do sistema integrado de emergência médica através de diversos meios com os parceiros, para se reforçar também aquilo que é a resposta do sistema integrado de emergência médica”.

Ivo Cardoso salientou que o INEM conta no seu dispositivo com um conjunto de parceiros, nomeadamente os bombeiros, a Cruz Vermelha Portuguesa e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, para dar esta resposta e apoio na Jornada Mundial da Juventude.