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7.8.23

As lições do Papa, religião à parte

Sónia Sapage, opinião, in Público



No final da missa de Envio, a ministra Ana Catarina Mendes disse que “Portugal superou a sua tarefa”, e não deixa de ser verdade, mas quem também a superou foi Francisco.

A visita do Papa Francisco a Portugal foi mais do que a passagem do líder da Igreja Católica pelo nosso país: foi a visita comovente e calorosa de um chefe de Estado que foi seguido e ouvido com uma atenção peculiar e que teve um tempo de antena muito além do habitual.


No final da missa de Envio, a ministra Ana Catarina Mendes disse que "Portugal superou a sua tarefa”, e não deixa de ser verdade (foi mais um momento bom para a nossa auto-estima de organizadores), mas quem também a superou foi Francisco.

Religião à parte, com palavras directas e empáticas, o Sumo Pontífice partilhou lições de vida que servem jovens, menos jovens, chefes de família, ateus, fiéis e até responsáveis políticos internacionais. E, nesse sentido, tentou espalhar sementes de bom senso e de proximidade (não exclusivas da Igreja), mostrando por que razão é uma figura tão consensual, próxima e diferente de outros protagonistas religiosos.


Pediu desculpa às vítimas de abusos sexuais; falou sobre a importância de ouvir e de fazer perguntas (“ser descontente é um bom antídoto contra a presunção da auto-suficiência e o narcisismo”); dedicou uns minutos às “injustiças planetárias, guerras, crises climáticas e migratórias”; lamentou a “falta corajosa de rotas de paz” e não esqueceu questões actuais como a saúde mental e as redes sociais.

O mundo virtual, que preocupa tantos educadores, foi um dos pontos em que o Papa Francisco mais insistiu: “O teu nome é conhecido, aparece nas redes sociais, é processado por algoritmos que lhe associam gostos e preferências. Mas tudo isso não interpela a tua singularidade, mas a tua utilidade para pesquisas de mercado.” Uma lição simples e importante.


Ao Ocidente em geral e à Europa em particular, deixou vários alertas sobre “o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios”, fazendo, ainda assim, a apologia da vida, contra o aborto e a eutanásia — como seria de esperar.


As alegorias sobre inclusão que dirigiu à Igreja são transversais e servem para “todos, todos, todos” (como foi repetindo), noutras religiões, noutros países, noutras áreas de saber. “Ninguém fica de fora, ninguém está a mais. Há espaço para todos. Assim como somos. Todos.”


Não é preciso ser fanático de futebol para perceber como o Euro e o Mundial são eventos com uma energia mobilizadora para o país anfitrião. Assim como não é preciso ser crente para reconhecer que também foi isso que aconteceu com a Jornada Mundial da Juventude, e ainda bem.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]

4.8.23

Papa pede a instituições de caridade que não tenham nojo da pobreza

 in DN

O quarto dia da Jornada Mundial da Juventude é marcada pela participação do Papa Francisco, como peregrino, na Via-Sacra, em Lisboa.

O Papa Francisco pediu hoje a responsáveis de instituições sócio-caritativas da Igreja que se questionem se têm nojo da pobreza, desafiando-os a sujar as mãos.

"Tenho nojo da pobreza, da pobreza dos outros?", perguntou Francisco, no encontro com representantes de centros de assistência sócio-caritativa, no Centro Social Paroquial São Vicente de Paulo, na Serafina, em Lisboa, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Improvisando na intervenção, feita em espanhol, o líder da Igreja Católica salientou a importância de concretizar a ação caritativa.

"Não há amor abstrato, não existe. O amor platónico está na órbita, não está na realidade", referiu, para destacar o "amor concreto, esse que suja as mãos".

Francisco perguntou mesmo se, quando dão a mão a uma pessoa necessitada, doente ou marginal, a lavam de seguida, para não ficarem contagiadas.

O líder da Igreja Católica criticou depois as "vidas destiladas e inúteis que passam pela vida sem deixar marca, porque a sua vida não tem peso".

"Mas aqui temos uma realidade que deixa marca, uma realidade de tantos anos, de tantos anos" que deixa inspiração, declarou, considerando que não poderia existir uma JMJ "sem ter em conta esta realidade".

Segundo Francisco, "isto também é juventude no sentido em que gera vida nova continuamente", pois ao sujarem as mãos com a miséria dos outros, os responsáveis estão a gerar inspiração e vida.

Agradecendo o trabalho das instituições sócio-caritativas da Igreja, pediu que sigam em frente e não desanimem.

"E se desanimarem, tomem um copo de água e sigam em frente", acrescentou, provocando uma gargalhada na assistência.

Lusa

2.8.23

Mais de 200 pessoas contribuíram para cartazes que lembram abusos sexuais na Igreja

Ana Isabel Ribeiro e Samuel Santos, in Público online

Os cartazes foram instalados em Loures, Algés e na Alameda, em Lisboa, depois de uma recolha de fundos que superou as expectativas.

Lisboa acordou com três cartazes que lembram as conclusões do relatório sobre os abusos sexuais de crianças na Igreja Católica, uma crítica ao "silêncio ensurdecedor" quanto a este assunto durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

A ideia surgiu na quarta-feira passada, 26 de Julho, enquanto se ultimavam os preparativos para o encontro de jovens católicos. “Desde que saiu o relatório da comissão independente (ICAR) que me sinto revoltada com esta questão. Apesar de a jornada estar a acontecer e haver uma espécie de lavagem de imagem da igreja católica, nós não esquecemos as vítimas”, começa por explicar Telma Tavares, designer e autora dos cartazes.

As imagens, mais tarde convertidas em outdoors gigantes, foram a forma que encontrou para não deixar o tema cair em esquecimento e homenagear as vítimas. Partilhou-as no Twitter e encontrou o apoio de várias pessoas que se juntaram ao projecto This Is Our Memorial ("este é o nosso memorial", em português). No início, pensou que as ilustrações ficariam apenas nas redes sociais ou, quem sabe, estampadas em t-shirts até Bruno Rodrigues, outro membro da iniciativa cidadã que começou no Twitter, ter sugerido fazer um crowdfunding para “criar um cartaz e afixá-lo na 2ª circular”, recorda Telma Tavares.

Os outdoors foram instalados depois de duas campanhasde angariação de fundos organizadas por um grupo de cidadãos. Ainda que a ideia fosse juntar verbas para afixar um outdoor, a primeira campanha, iniciada a 27 de Julho, superou a meta dos 950 euros. Em menos de um dia, 216 pessoas ajudaram a angariar 2226 euros. Assim, foi lançado um segundo crowfunding, a 29 de Julho, para acumular mais 700 euros e preparar a afixação de um terceiro cartaz. Uma vez mais, o objectivo foi superado, com 77 pessoas a doarem, no total, 760 euros.
Os cartazes com as cores da JMJ – vermelho, verde e amarelo - foram afixados em Loures, Algés e na Alameda com o número de crianças que membros da igreja abusaram sexualmente, segundo a comissão independente (ICAR) que investigou os casos. Cada ponto vermelho representa uma pessoa. A mensagem está em inglês para que todos os peregrinos a consigam perceber: "Mais de 4800 crianças" foram abusadas por elementos da igreja, lê-se.

Esta manhã foram vistos elementos da Polícia Municipal de Lisboa junto aos cartazes instalados pela iniciativa cidadã This Is Our Memorial. Sobre esta questão, a PSP admitiu que, para este dia, tem outras prioridades e remeteu mais esclarecimentos para a câmara. Ao P3, fonte da PSP acrescentou ainda que "a opinião pública é livre" e, uma vez que os cartazes "não instigam à violência", será apenas verificado o cumprimento dos "formalismos de pagamento e comunicação" à Câmara Municipal de Lisboa, processos inscritos na legislação municipal.

Telma Tavares reforça que os cartazes são mensagens políticas e, como tal, não precisam de licença. Mesmo assim, e como o grupo receava que fossem removidos, contactaram a autarquia de Lisboa dia 31 de Julho a fim de pedir autorização, mas a resposta continua pendente. A par disto, preencheram questionários de licenças online mas, na opinião da designer, “não estavam preparados para pedidos particulares”.

O projecto This Is Our Memorial, um grupo de cidadãos que se diz "com diversos credos", critica as indecisões sobre o memorial em homenagem às vítimas de abuso sexual. "As declarações públicas de elementos envolvidos na organização da JMJ, e até do Presidente da República, vão desde a minimização das vítimas até ao assumir do 'desconforto' com a ideia de um memorial", lê-se no site.

“É uma forma de trazer tudo ao de cima e lembrar isso neste período em que há muita visibilidade na igreja católica portuguesa devido a este evento internacional. Queremos que os peregrinos vejam o que se passa em Portugal há vários anos e que nada mudou”, acrescenta Telma Tavares.
Fornecedor recusou fazer cartaz “anti-religioso"

Apesar da rápida adesão à recolha de fundos, o grupo teve dificuldade em encontrar empresas dispostas a fazer os cartazes. Os fornecedores teriam de estar sediados nos três locais onde decorre a JMJ, uma vez que iriam colocar os cartazes na madrugada desta quarta-feira. Conseguiram que duas empresas aceitassem o trabalho, mas, no final, apenas uma “cumpriu a palavra até ao fim”.

“Houve outro fornecedor que, na sexta-feira, aceitou a adjudicação do trabalho, colocou em produção, mas na segunda-feira ao final do dia recusou-se a fazer os cartazes porque a mensagem estava em inglês e disse que isso era ilegal, o que é mentira. É possível ter cartazes em inglês desde que o público-alvo seja estrangeiro, o que é o caso”, explica Telma Tavares, acrescentando que consultou advogados a propósito do comentário do dono da empresa cujo nome prefere não revelar.

No entanto, este não foi o único motivo de recusa. Segundo a mesma, o fornecedor disse ainda que o cartaz era “anti-religioso” e que ia contra os estatutos da empresa. A par disto, afirmou que não tinha disponibilidade para executar o trabalho, uma vez que a equipa estava de férias.

“Acabou por boicotar o cartaz de Loures, mas acabamos por arranjar outro e ter um cartaz perto do tribunal”, adianta. O local, revela, foi estrategicamente escolhido para assinalar "crimes que ficaram por julgar".

Apesar do esforço para alertar para a situação, os promotores da iniciativa lembram que "nada poderá reparar a experiência e a vida" das vítimas. Por isso, reforçam, assumem a missão de "denunciar o silêncio ensurdecedor". No site do This Is Our Memorial também são disponibilizados os contactos de várias associações de apoio a vítimas de abuso sexual.

“Acho que há aqui muita gente que, tal como nós, está revoltada por não ter acontecido justiça. Parece que os membros da igreja são intocáveis. Queremos lembrar que estas vítimas existem, que não tiveram indemnizações, não tiveram um memorial, o que é extremamente injusto e estamos a fazer isto por elas”, conclui Telma Tavares.
Durante a semana em Lisboa, o Papa Francisco irá reunir-se com vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica. O pontífice aterrou em Portugal na manhã desta quarta-feira.

25.7.23

A gendarmerie e a Guarda Suíça já estão em Portugal a rever os caminhos do Papa. Missão: salvaguardar a segurança no contacto com jovens

Hugo Franco, in Expresso

Durante a JMJ serão cerca de trinta os operacionais da gendarmerie do Vaticano e da Guarda Suíça em redor do Sumo Pontífice. Estes operacionais já estiveram por duas vezes em Portugal este ano. Existe uma especial preocupação com o contacto direto do Papa Francisco com a população nas viagens ao estrangeiro. Lisboa não será exceção


Alguns dos operacionais do Vaticano que fazem parte da segurança do Papa Francisco aterraram em Lisboa, no passado domingo, uma semana antes do Sumo Pontífice. A missão destes elementos é a de preparar a passagem por Lisboa do representante máximo da Igreja católica na Jornada Mundial da Juventude (JMJ).


De acordo com fonte próxima da organização do evento, o corpo de segurança do Papa contará durante a JMJ com cerca de trinta elementos, compostos pela gendarmerie do Vaticano e pela guarda suíça.

De acordo com o Omnes, um jornal católico, a gendarmerie do Vaticano é uma força policial militarizada.Trata-se de uma divisão especial de vigilância de cerca de 150 membros, que é responsável pelas funções de ordem pública do Papa, pela segurança do Estado da Cidade do Vaticano, tendo também o papel da polícia judiciária.

Já a Guarda Suíça é um corpo militar responsável pela segurança do Papa e da Santa Sé. Organicamente é um exército - o mais pequeno do mundo - com pouco mais de 100 membros cuja missão é a de proteger especificamente o Palácio Apostólico e o Santo Padre. Habitualmente usam um uniforme colorido, mas em missões no estrangeiro podem optar por vestes mais discretas.

O Expresso sabe que os operacionais que já se encontram em Portugal vão rever todos os trajetos e locais onde vai estar o Papa Francisco durante a JMJ. Esta não é a primeira vez que se encontram no nosso país. A segurança do Papa já viajou para Lisboa por duas vezes este ano: em fevereiro e em maio.

Também as viaturas que serão usadas pela comitiva do Papa já estão em solo português.
A DOR DE CABEÇA DA SEGURANÇA

Os homens que guardam o Papa conhecem bem as suas características e hábitos sempre que viajam para o estrangeiro. “O Papa Francisco gosta de contactar diretamente com as pessoas dos países que visita e não se limita a acenar ao longe através do Papamóvel. Isso é uma dor de cabeça permanente para quem faz a sua segurança”, confidencia uma fonte conhecedora do processo.

Uma vez que a JMJ vai trazer milhares de jovens de todo o mundo, será “altamente provável” que o Sumo Pontífice queira falar diretamente com os mais novos e ouvir o que têm a dizer. “Isso será um fator adicional de risco de segurança”, conclui a mesma fonte.

Está previsto que o Papa Francisco viaje para Lisboa no dia 2 de agosto. A saída está agendada para o dia 6 desse mês. Durante a estadia, o Santo Padre irá estar em Lisboa e também em Fátima.

Do programa já conhecido, o Papa participará, a 3 de agosto, à tarde, no Parque Eduardo VII, à cerimónia do Acolhimento dos peregrinos. No dia seguinte, presidirá, também no Parque Eduardo VII, à Via Sacra, enquanto no sábado, além da manhã, em Fátima, estará no fim da tarde, início da noite, no Parque Tejo, para o início da vigília dos jovens.

17.7.23

Papa quer desfavorecidos na linha da frente da JMJ. Padre Agostinho Moreira diz que revela "projeto fraterno"

Por Ana Maria Ramos com Cátia Carmo, in TSF

O papa quer os jovens mais desfavorecidos na linha da frente dos eventos da Jornada Mundial da Juventude. Algo que, para o padre Agostinho Moreira, presidente da EAPN Portugal (Rede Europeia Anti-Pobreza), é mais do que revelar a prioridade multicultural.

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"É importante perceber que os critérios do reino de Deus não são os critérios do reino deste mundo. Uma vez que este papa tem dado, e bem, a prioridade da atenção aos pobres para afirmar que o ser humano é portador, todo ele, igualmente da mesma dignidade. Penso que é um sinal dado, mundialmente, a todos os pobres do mundo, de um projeto, uma sociedade que nasce no projeto de Deus, um projeto fraterno de dar prioridade àqueles que são vítimas da injustiça ou do desrespeito pela sua dignidade", explicou Agostinho Moreira.

Em dia de se celebrar a Tomada de Bastilha, símbolo da revolução francesa e de luta pelos princípios da liberdade, fraternidade e igualdade, este responsável pela Rede Europeia Anti-Pobreza em Portugal defende que é urgente definir a fraternidade entre os povos como prioridade.

"É dar a prioridade àqueles que, por razões socioeconómicas, não têm acesso a viver ao nível das outras culturas, das outras sociedades na construção da fraternidade. Aqui o objetivo para mim, na minha leitura, é dizer que precisamos de construir a fraternidade entre os povos e, por isso, dar a mão e a atenção àqueles que são mais vítimas, mais afastados dessa possibilidade", sublinhou o padre.

Para este responsável é urgente recentrar a prioridade no ser humano e não o lucro, tal como revela o próprio relatório da ONU, que mostra que, nos últimos três anos, com a pandemia, inflação e a guerra, cerca de 165 milhões de pessoas entraram na pobreza.

"A riqueza cada vez está nas mãos de menos pessoas e, portanto, a classe média começa a ser a mais fustigada, a mais castigada e com uma tendência a diminuir e quase desaparecer. Isto nota-se a nível do capitalismo liberal, o capitalismo selvagem, onde, de facto, estas grandes bolsas económicas vão acumulando os bens e, portanto, aquela máxima que se dizia noutros tempos que desde que houvesse desenvolvimento, depois os pobres desapareciam, não faz sentido, estamos a verificar o contrário. Penso que este sistema está a ser a causa desta desta situação e é necessário repensar e corrigir o sistema porque está a levar a assimetrias tão grandes es desequilíbrios onde as pessoas não conseguem viver, nem se conseguem realizar, não conseguem ser felizes porque não têm acesso à vida da minoria, que são os mais ricos", acrescentou.

Ouça as declarações do padre Agostinho Moreira [clicando aqui]

Mais de um milhão de pessoas são esperadas em Lisboa para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), com o Papa Francisco, de 01 a 06 de agosto.

O papa, primeiro a inscrever-se na JMJ, chega a Lisboa no dia 02 de agosto, tendo prevista uma visita de duas horas ao Santuário de Fátima no dia 05 para rezar pela paz e pelo fim da guerra na Ucrânia.

Considerado o maior acontecimento da Igreja Católica, a jornada nasceu por iniciativa do papa João Paulo II, após o sucesso de um encontro com jovens em 1985, em Roma, no Ano Internacional da Juventude.

As principais cerimónias da jornada decorrem no Parque Tejo, a norte do Parque das Nações, na margem ribeirinha do Tejo, em terrenos dos concelhos de Lisboa e Loures, e no Parque Eduardo VII, no centro da capital.

22.5.23

“Obrigar os padres a mentir sobre a sua vida sexual é uma forma de maus tratos”

Natália Faria, in Público online

O sociólogo italiano Marco Marzano diz que os seminários são “os locais onde os futuros padres aprendem a mentir” sobre a sua vida sexual. E explica por que não abdica a Igreja do celibato obrigatório

Por que razão é o celibato obrigatório dos padres uma questão tão estrutural na Igreja Católica? O que é que tem de mudar nos seminários, essas “fábricas” de “homens de Deus”, onde os padres aprendem a fingir que não têm vida sexual? Quantos vivem realmente de forma casta? E porque é que a Igreja receia ver entrar em colapso todo o seu edifício, se aceitar abdicar do celibato obrigatório? Algumas respostas a estas questões estão contidas no livro A Casta dos Castos – Os Padres, o Sexo e o Amor, da autoria do sociólogo italiano Marco Marzano que acabou de ser lançada pela editora Zigurate, depois de ter sido publicado em Itália e traduzido posteriormente para francês e para polaco. Ao longo de 176 páginas, o professor de Sociologia na Universidade de Bérgamo recolhe depoimentos de psicólogos, padres, ex-padres e mulheres que tiveram relações com padres para analisar a fundo as razões estruturais que alimentam os comportamentos sexuais desviantes de muitos clérigos. E conclui que, tanto como os padres abusadores, é a cultura clerical que deveria ser chamada a tribunal.

Porque é que a Igreja continua a defender com unhas e dentes o princípio organizacional do celibato eclesiástico obrigatório?
O celibato obrigatório foi introduzido na Idade Média e, ao longo do tempo, tornou-se na característica mais importante da organização católica, o seu principal princípio organizacional. A Igreja Católica é dominada e governada por padres do sexo masculino numa lógica fortemente hierarquizada e todos eles são supostamente castos. Este é o principal critério para organizar a instituição. O celibato surge hoje como aquilo que separa os clérigos das pessoas normais.

É uma suposta confirmação da superioridade dos padres relativamente à massa de pessoas normais?
Exactamente. Perante os crentes, eles apresentam-se como alguém superior, alguém que é capaz de evitar toda a actividade sexual. Eles pretendem não ter qualquer vida sexual como os restantes mortais, que se debatem com a sua vida amorosa, os seus casos. Dito de outro modo, apresentam-se como uma espécie de semideuses, alguém que está algures entre Deus e as pessoas normais. A lógica é que eles se sacrificam pela salvação do resto dos mortais. Claro que isso não é verdade. De todo.

Segundo esta lógica, assumir que os padres não conseguem, afinal, controlar os seus instintos sexuais impediria que continuassem a apresentar-se como membros de uma raça superior?
Provavelmente é isso que receiam o Papa e outros membros do topo da hierárquica católica. Têm medo de que, se renunciar ao celibato obrigatório, a Igreja perca o seu esplendor, o seu sentido de superioridade; deixe, no fundo, de funcionar como um instrumento de salvação da humanidade. É precisamente porque tem medo de perder o seu carácter sagrado que a Igreja Católica recusa a mudança. E penso que muito dificilmente a Igreja deixará cair o celibato obrigatório para os seus funcionários, porque o celibato está também ligado ao exercício de poder da organização sobre os seus padres: ao controlar a sua sexualidade, a Igreja consegue controlá-los mais facilmente, consegue, por exemplo, mudá-los de paróquia.
Os padres apresentam-se como uma espécie de semideuses, alguém que está algures entre Deus e as pessoas normais. A lógica é que eles se sacrificam pela salvação do resto dos mortais

Porque é que aponta o celibato como a principal causa da violência e dos abusos sexuais cometidos por clérigos?
Claro que não há uma correlação directa entre o celibato e os abusos sexuais, até porque mais de 90% dos padres não são abusadores. Mas penso que o celibato obrigatório contribui para as causas estruturais do abuso sexual. Basta lembrarmo-nos de que a maior parte dos padres, em consequência da formação que recebem no seminário, chegam aos 40 anos de idade sexualmente imaturos, quase infantis. E sabemos que a imaturidade sexual leva a cometer abusos sexuais.

Outra coisa é a solidão que é imposta aos padres. A maior parte vive vidas solitárias. Mesmo que tenham muitos relacionamentos sexuais, continuam muito solitários, o que também contribui para a desregulação sexual. Outra coisa que concorre para o favorecimento dos abusos é a familiaridade com o secretismo. A cultura clerical é fortemente marcada pelo secretismo que facilita o abuso sexual.

Portanto, não digo que haja uma relação directa entre o celibato obrigatório e os abusos sexuais, mas há claramente uma influência nada negligenciável, ainda mais porque o abuso sexual não é composto apenas por violação e violência. Cerca de 90% do abuso sexual é feito por toques, masturbação, coisas que não implicam necessariamente a penetração ou a violência física. E tudo isto é muito compatível com a forma como a Igreja encara a sexualidade, infelizmente. Penso que, se a Igreja abolisse o celibato obrigatório, assistiríamos a um declínio nos episódios de abuso sexual.

O retrato que traça dos seminários é devastador. Compara-os a “salas de treino” para a violência sexual e cita psicólogos que dizem que a Igreja é um extraordinário elevador social para pessoas medíocres...
Isso resulta do que os psicólogos que entrevistei – alguns dos quais padres e orientadores de seminários – descrevem. São eles que concluem que a maior parte dos seminaristas são pessoas muito frágeis e inseguras que procuram na Igreja Católica uma organização que lhes dê estabilidade e segurança. Os seminários funcionam como uma “instituição total”, que controla todos os aspectos da vida de quem os frequenta, e penso que não será necessário, para formar um novo padre, pô-lo numa espécie de prisão durante seis anos, separado do resto do mundo. Nos moldes actuais, os seminários são os locais onde os futuros padres aprendem a mentir, a encobrir os seus sentimentos verdadeiros, a sua orientação sexual e a sua identidade. Nos seminários, eles aprendem a como enganar a Igreja.
A hipocrisia é estrutural e endémica. A maior parte dos padres tem uma vida sexual, às vezes muito intensa

Não é algo redutora essa caracterização genérica dos seminaristas como rapazes que perderam o rumo e procuram desesperadamente alguma segurança existencial?
Não são todos assim, alguns seminaristas são pessoas com uma personalidade forte. Mas lembre-se de que me limitei a reproduzir o que vários psicólogos me disseram durante a entrevista para o livro. Um tinha trabalhado como orientador num seminário, portanto, é uma realidade que ele conhece bem. Nalguns casos, são psicólogos que também são padres. E provavelmente esta realidade está a agravar-se, porque o número de candidatos a seminaristas tem vindo a reduzir-se drasticamente, pelo que a Igreja Católica não escolhe nem expulsa seminaristas, tende antes a fazer um esforço para não perder ninguém.

Sustenta que enquanto no seminário a Igreja controla totalmente todos os aspectos da vida dos futuros padres, adiando o desenvolvimento de uma personalidade adulta, quando os seminaristas são disseminados pelas paróquias, a vigilância eclesial outrora tão invasiva desaparece quase por completo. Que problemas é que isto levanta?
Quando saem para as comunidades, muitos vivenciam um trauma, porque passam de um cenário em que são totalmente controlados e as suas vidas são totalmente organizadas por outra pessoa, como se fossem crianças num jardim-infantil, para uma situação em que usufruem de uma enorme liberdade. Para alguns deles, isto é um trauma. E em muitos casos a reacção é passarem a ter o maior número de relações que lhes é possível. A maior parte deles chega a esta fase sem as ferramentas que lhes permitiriam manter a sua sexualidade sob controlo. Eu fiquei impressionado pelo número de parceiros sexuais que alguns dos padres e ex-padres que entrevistei tiveram. É impressionante. Não é assim em todos os casos, mas em muitos casos isto decorre da imaturidade sexual. O que a Igreja lhes diz é: “Agora és adulto, deves saber comportar-te, nós deixaremos de te controlar”. Consequentemente, muitos desenvolvem uma vida dupla: uma pública e outra secreta.

Isto não configura uma espécie de maus tratos? Porque a Igreja esmaga e anula dimensões importantes da vida dos seus seminaristas...
Sim, é um tratamento cruel que visa apenas o interesse da organização. E é aí que está o verdadeiro sacrifício dos “funcionários” da Igreja. Não é deixar de “ter sexo”, é não poder revelar que o tem, falar sobre ele, vivê-lo de uma forma saudável. Todos construímos as nossas relações familiares e amorosas e os padres estão impedidos de o fazer. E, sim, é uma forma de crueldade praticada para defender os interesses da organização. Os padres recebem tudo (um salário, alimentação, alojamento e uma vida tranquila e com imensas facilidades), mas, em troca, têm de manter a sua vida interior totalmente secreta, ficam obrigados a parecer uma pessoa casta e assexuada. E obrigar os padres a mentir sobre a sua vida sexual é uma forma de maus tratos, efectivamente, e não muito diferente das que vivenciam nos seminários, que são instituições totais, tal como o Exército, os hospitais, as prisões. A lógica é a mesma em todas estas instituições: a organização primeiro.

Porque é que entende que o encobrimento sistemático de padres abusadores é uma espécie de emanação da própria cultura organizacional da Igreja que indirectamente favorece a prática dos abusos?
Quando os bispos e outros responsáveis hierárquicos católicos encobrem os abusos, a primeira preocupação deles é não manchar a imagem pública da organização e só depois proteger as pessoas pelas quais são responsáveis. Provavelmente, isto vai acabar, porque se tornou evidente que a Igreja Católica está a arriscar muitíssimo se persistir no encobrimento. Mas, mesmo que os bispos deixem de encobrir os padres abusadores, eles vão continuar a cometer estes crimes.

Não resolveremos estes problemas, mesmo com a maior colaboração da Igreja, porque a verdadeira causa disto não está apenas nas pessoas (claro que está também nas pessoas porque volto a lembrar que nem todos os padres são abusadores), mas a origem destes abusos é, em muitos casos, estrutural, isto é, a razão profunda pela qual muitos padres cometem estes crimes emana deste secretismo, do segredo e da hipocrisia que a Igreja impõe em torno do sexo.

A hipocrisia é estrutural e endémica. A maior parte dos padres tem uma vida sexual, às vezes muito intensa, com muitos encontros e muitas relações, é, aliás, uma vida sexual bastante desordenada, mas eles são obrigados a fingir que não têm, negam-no totalmente. Portanto, o valor da hipocrisia é das coisas mais importantes que eles aprendem nos seminários. Não é que eles não possam “ter sexo”, a questão é que são ensinados e obrigados a mentir sobre isso e a manter a sua vida sexual completamente subterrânea.
O Papa Francisco confirmou há vários anos, num discurso vertido depois para um documento oficial, que o acesso aos sacramentos católicos devia ser negado aos homossexuais. Ora, as estruturas da Igreja Católica estão cheias de gays, são imensos, e, portanto, declara-se uma coisa e pratica-se o seu contrário.
É por isso que conclui que, tanto como os padres abusivos, é a cultura clerical que deveria ser apresentada perante os tribunais?
Exacto. Não nego que haja responsabilidades individuais, e não nego que os padres abusadores devem ser levados a tribunal, mas, se queremos resolver este problema, temos de mudar a regra do celibato obrigatório.

Não é exagerado pensar-se que o fim do celibato obrigatório iria provocar o colapso da Igreja Católica?
É nisso que o Papa e muitos outros responsáveis hierárquicos de topo da igreja Católica acreditam. É esse é o grande receio deles. Se eles abolissem o celibato obrigatório, teriam de mudar tudo: deixariam de poder negar o acesso das mulheres, teriam de transformar completamente a Igreja Católica…. Seria uma mudança equiparável à encetada pela Reforma Protestante de 1517, de Martinho Lutero. Todo o edifício está construído sobre o princípio do celibato obrigatório; se tirar essa pedra, o edifício entrará em colapso, segundo eles.

Não acha que essa mudança é inescapável ainda no decurso das nossas vidas?
Não. Não há razão para a Igreja Católica se prestar a essa mudança e não há nenhuma espécie de movimento forte que a reclame. Se eles não querem mudar e não estão a ser forçados a mudar, porque haveriam de mudar? O Papa Francisco teve a oportunidade perfeita para iniciar essa mudança durante o Sínodo da Amazónia, mas ele optou aí por recusar a ordenação de homens casados como forma de responder à falta de padres naquela região do mundo. Ele disse, aliás, que nunca o faria, mesmo naquela situação peculiar em que não há padres suficientes e em que há distâncias gigantescas entre paróquias. Ele disse que não, alegando que a Igreja não está preparada para isso. E eu entendo, apesar de não concordar.

Mas esta ocultação que pende sobre a vida sexual dos padres católicos é sustentável e culturalmente aceitável nos dias que correm?
Desde logo, livros como o meu seriam impensáveis há 20 ou 30 anos. E, provavelmente, nas nossas sociedades democráticas, tornar-se-á muito mais difícil manter esta vida escondida e continuar a abafar a publicação das várias notícias sobre o comportamento sexual dos padres. Por isso, diria que se vai tornar difícil manter esta verdade escondida.

O Papa vem defendendo uma política de “total transparência” em relação aos abusos…
Isso são palavras, meras palavras. Por exemplo, o Papa Francisco confirmou há vários anos, num discurso vertido depois para um documento oficial, que o acesso aos sacramentos católicos deveria ser negado aos homossexuais. Ora, as estruturas da Igreja Católica estão cheias de gays, são imensos, e, portanto, declara-se uma coisa e pratica-se o seu contrário, pelo que a transparência de que falam não é possível. Porque os padres são seres humanos, eles têm desejo sexual, querem ser amados, “ter sexo”, tal como os restantes seres humanos. Não há qualquer diferença. E ser casto, renunciar à vida sexual e amorosa, não é algo que possa ser ensinado.

Como vê a Igreja Católica daqui a dez ou 20 anos?
Penso que a Igreja estará bastante bem, para ser honesto. Claro que está a sofrer e a ser afectada pela secularização no Ocidente, e por isso está a perder algum do seu poder e dos seus crentes, provavelmente menos que os anglicanos e os protestantes, mas isso não é verdade noutras partes do mundo. Em África e na Ásia, a Igreja Católica está a crescer. Por isso, penso que não mudará grande coisa em duas décadas.

Mas a Igreja não está a perder a sua credibilidade por causa da crise desencadeada pelos abusos sexuais de menores?
Penso que sobreviverá, porque eles vão deixar de encobrir os padres que cometem abusos, pelo menos em Itália, onde os bispos estão a dizer aos seus padres que não os protegerão mais se eles cometerem estes crimes. Portanto, os padres estão a ser aconselhados a ter cuidado porque, se forem apanhados, a Igreja não permanecerá do lado deles. E com isto a Igreja está, de certa maneira, a tentar auto-ilibar-se destes comportamentos. Não penso que a Igreja esteja acabada, ela continua viva e continua a ser uma das organizações mais poderosas a nível mundial, em todos os campos, do económico ao político. Por isso, a Igreja irá sobreviver.

Vejo que está muito céptico quanto à possibilidade de o Papa Francisco mudar alguma coisa no comportamento e na doutrina da Igreja...
Não o vejo realmente interessado em mudar as coisas. Escrevi outro livro sobre isso, chamado La Chiesa Immobile. Francesco e la Rivoluzione Mancata, onde defendo que ele não é revolucionário. Como poderia um Papa ser revolucionário? Ele está empenhado em manter a instituição. Vejamos a questão da homossexualidade: se a Igreja reconhecesse a possibilidade de acesso aos sacramentos, essa mudança seria provavelmente bem acolhida no Ocidente, mas levantaria inúmeros problemas em África ou na Ásia e mesmo nalgumas partes da América. É um equilíbrio muito delicado. Quando se muda algo, arrisca-se o colapso. Eu, pessoalmente, ficaria feliz com mudanças neste campo, mas não acredito que tal vá acontecer.



11.11.22

A igreja tem de dar mais poder às mulheres

Henrique Raposo, opinião, in RR 



É uma questão de justiça e até de sobrevivência. E um país mariano como Portugal devia estar na vanguarda dessa ideia.O Papa Francisco disse há dias que as mulheres fazem sempre tudo bem na igreja. A citação direta é esta: “sempre que uma mulher vem fazer uma coisa ao Vaticano, as coisas ficam melhores”. Se me permitem, este é um novo mote para uma velha obsessão aqui de casa: a igreja tem de dar mais poder e destaque às mulheres. É uma questão de justiça e até de sobrevivência.

Comecemos pela justiça.

As mulheres são a coluna da igreja. Sem o exército de mulheres, a igreja não funcionava, não havia catequese, não havia centros de dia para jovens e idosos, não havia missa, não havia voluntariado. O dia-a-dia da igreja é mantido por mulheres e raparigas. As mulheres são o proletariado da igreja que faz o trabalho de sapa para quem está em cima, os homens, o clero, padres e bispos. A injustiça é tão evidente e confrangedora que por vezes é mesmo difícil estarmos na igreja, é mesmo impossível, senão impossível, levar duas raparigas à igreja, isto é, para um espaço onde só os homens têm poder apesar do trabalho permanente de mulheres.

As mulheres têm de ter mais poder na igreja e um país mariano como Portugal devia estar na vanguarda dessa ideia. Maria e Madalena são apóstolos fundamentais, Maria é a luz no início perante Gabriel e, no fim, é ela quem arregimenta os apóstolos amedrontados. E quem é que vê pela primeira vez a Verdade ressuscitada para depois anunciá-la ao mundo? Madalena.

Sim, o clero devia estar aberto a mulheres.

Muitos vão dizer que este meu argumento é uma mera cedência ao ar do tempo. Em relação a isto, há que dizer três coisas. Primeira: às vezes o ar do tempo exterior à igreja está mais certo do que o ar que se respira na igreja. Querem um exemplo? Foi a cristandade não católica que liderou a luta contra o fim da escravatura no século XIX. Segunda, a igreja também cede ao ar do tempo. A ideia de que os padres não podem casar é uma imposição da idade média, não é uma imposição do Evangelho. Aliás, a partir do Evangelho, fica claro que os pastores da igreja devem ser homens com família. Terceira: qual é o salto mais arriscado? Dizer que os padres têm de ser celibatários quando não existe nada na Bíblia inteira que indique isso ou dizer que as mulheres podem aceder ao sacerdócio quando o texto sagrado está marcado pela presença marcante de mulheres, a começar em Maria?

Falta a questão da sobrevivência.

Sem mais poder e destaque feminino, parece-me impossível a sobrevivência da igreja no mundo ocidental deste século. A igreja não poderá ser a igreja de sempre se não mudar neste aspeto. Na idade média, fez sentido impor o celibato dos padres por uma série de razões. No século XXI, faz sentido abrir o sacerdócio às mulheres por uma série de razões que são auto-evidentes para quem vive aqui e agora e, já agora, para quem lê a Bíblia.

29.7.22

Caro D. Manuel Clemente: pedofilia não é só pecado. É crime

João Miguel Tavares, opinião, in Público

O Papa Francisco já explicou isto mil vezes. A Igreja portuguesa, pelos vistos, continua a não querer perceber.

Se a ocultação de centenas de milhares de casos de pedofilia por parte da Igreja não for a maior barbaridade cometida ao longo da sua História (a competição é forte), é com certeza uma das maiores. A Igreja permitiu a destruição da vida de crianças inocentes e das suas famílias, denegou-lhes justiça, ocultou os crimes dos seus sacerdotes, promoveu a prática continuada desses crimes ao deslocar os padres pedófilos para outras paróquias, cobriu tudo com um repugnante manto de silêncio, colocou a reputação da hierarquia à frente do sofrimento dos mais fracos, afastou do seu seio os justos para proteger os ímpios, cuspiu em cada palavra do mesmo Evangelho que jurou seguir.

Não é coisa pouca. Bento XVI começou a dar os primeiros passos, ainda tímidos, para corrigir a situação. O Papa Francisco tem sido bastante mais resoluto: assumiu tudo, pediu perdão vezes sem conta, impôs a criação de comissões independentes para avaliar a escala do drama da pedofilia ao nível local, tomou medidas efectivas para ajudar a purificar o ambiente da Igreja – só que, infelizmente, continua a ser muito difícil enfiar as suas ideias na cabeça de todos os padres e de todos os bispos, pois, como o próprio Papa já explicou, é tarefa hercúlea remover o clericalismo da Igreja – essa perversão estrutural que é sempre um sintoma de falta de humanidade. Nas suas sábias palavras, “sob qualquer rigidez há sempre podridão”.

Ponham podridão nisso. Veja-se o caso agora noticiado pelo Observador: tanto D. José Policarpo, no final dos anos 90 (por queixa da mãe da vítima), como D. Manuel Clemente, já depois de 2019 (por queixa da própria vítima), tiveram conhecimento de uma acusação de abusos sexuais de uma criança de 11 anos, ocorrida no início da década de 90, por parte de um jovem padre. Esse padre foi afastado das actividades paroquiais por D. José Policarpo apenas em 2002, para logo ser colocado numa capelania onde voltou a ter contacto com jovens, sem que nem o antigo nem o actual cardeal-patriarca tenham apresentado queixa à polícia.

Embora este caso em concreto esteja por esta altura prescrito, é muito pouco compreensível que D. Manuel Clemente continue a refugiar-se em respostas evasivas, tanto mais que, como explica o pedopsiquiatra Pedro Strecht no artigo, “há um alto risco de prossecução do mesmo crime, porque os abusadores, uma vez abusando, têm grande probabilidade de o continuar a fazer”. Ora, quando o Observador tentou saber mais pormenores sobre a actuação da Igreja, foi “informado telefonicamente pelo gabinete de imprensa do Patriarcado que D. Manuel Clemente não pretendia dar mais respostas ao jornal”. Quanto às respostas que deu, elas não descansam ninguém: segundo o Patriarcado, terá sido a vítima a não querer divulgar o caso, já que a sua intenção foi apenas garantir “que não se voltasse a repetir”.

A sério? Esta ausência de explicações é um pecado capital – chama-se soberba, e é o oposto da humildade. Há um duplo problema naquele raciocínio: 1) Ninguém percebeu, até agora, que raio fez a Igreja para impedir “que não se voltasse a repetir”. 2) Não compete à Igreja substituir-se às autoridades civis e ao Ministério Público. A pedofilia não é apenas um pecado – é também um crime. A Igreja pode ocupar-se do primeiro, mas é à Justiça, e só à Justiça, que compete avaliar o segundo. O Papa Francisco já explicou isto mil vezes. A Igreja portuguesa, pelos vistos, continua a não querer perceber.

18.7.22

Papa Francisco, um corajoso defensor da paz

Lourenço Pereira Coutinho, opinião, in Expresso

No campo de batalha, como no diplomático, a guerra que resultou da invasão russa está sem fim à vista. Conseguiria a lógica altruísta de Francisco desarmar Putin, sentá-lo com Zelensky à mesa das negociações e fazer prevalecer a sensatez e o humanismo?

Para o Papa Francisco, construir a paz é um ato de coragem. A ideia faz parte do titulo do seu ultimo livro (“Contra a guerra, a coragem de construir a paz”), publicado já depois da invasão da Ucrânia pela Rússia. É uma afirmação forte, pois desconstrói o simplismo que, invariavelmente, emparelha “guerra” com “coragem” e “paz” com “cedência”. O Papa vai mais longe, considerando a guerra “um sacrilégio” que vítima sobretudo “inocentes”, esquece a “incomensurável dignidade da vida humana” e atenta “contra a beleza da criação”. Nesta linha, todas as guerras são injustificáveis.

Ao longo da História, vários Papas estiveram no epicentro de guerras (por exemplo, as que resultaram da longa rivalidade entre “guelfos” e “gibelinos” durante a Idade Média), outros condenaram-nas (o Papa Francisco faz referência às condenações que João XXIII, Paulo VI e João Paulo II fizeram da guerra), mas não conheço critica papal ao tema tão incisiva quanto a de Francisco. Que não abdica de apontar o dedo e dar recados. Sobretudo para os “poderosos” que procuram alargar a sua preponderância e olham o mundo como “um tabuleiro de xadrez”, apostando “na lógica diabólica e perversa das armas” para servir os seus “interesses.” É neste contexto que se inserem não só a “violenta agressão à Ucrânia”, que o Papa condena com todas as letras, como, também, conflitos mais distantes mas não menos brutais, que por vezes assumem “a fisionomia de verdadeiras guerras por procuração”. Nenhuma potência fica bem nesta fotografia.

Numa imagem redutora, o Papa pensa com a lógica de um jesuíta e atua com o altruísmo de um franciscano. No entanto, o seu pacifismo, com raízes fundas na essência do cristianismo primitivo, tem um lado utópico, o que não é necessariamente negativo. Isto porque o “tabuleiro de xadrez” não vai desaparecer da História e dificilmente deixará de ser jogado por “poderosos”. A defesa é um direito e um dever dos Estados, pelo que a dissuasão é pois imprescindível como forma de anular ambições ilegítimas e só é eficaz com recurso às armas.

Por certo que o Papa Francisco o sabe como, também, sabe que o ser humano tem um lado intrinsecamente bélico. Mas, mais uma vez com uma admirável simplicidade lógica, o Papa reconstrói-o com pragmatismo. Este devia ser canalizado para que todos combatam em conjunto “as verdadeiras batalhas da civilização”: contra a “fome”, “epidemias”, “pobreza” e “escravidão dos nossos dias”. Tal só será possível caso o dinheiro destinado às armas seja aplicado nestas batalhas. Como bom negociador, o Papa pede o quase impossível para procurar obter o fundamental.

Pode este defensor da paz servir de mediador ao atual conflito na Ucrânia? O Papa acha que sim, sublinhando que a “Santa Sé está disposta a fazer tudo para se colocar ao serviço desta paz”. Eu também acho que sim, e desde o princípio. Há potências, como os Estados Unidos, interessadas em que a guerra dure, o que se perspetiva como provável; outras que esperam enigmaticamente pelo tempo de tirar partido da situação, como a China; outras, ainda, que procuram chamar a si o estatuto de negociador para obter vantagens, como a Turquia.

“Contra a guerra, a coragem de construir a paz” foi publicado pouco depois do início da invasão da Ucrânia. Esta tem resultado inúmeras atrocidades e provocado sofrimento infinito. No campo de batalha, como no diplomático, a guerra que resultou da invasão russa está sem fim à vista. Conseguiria a lógica altruísta de Francisco desarmar Putin, sentá-lo com Zelensky à mesa das negociações e fazer prevalecer a sensatez e o humanismo? Poucos pensam que sim, mas basta o Papa continuar a acreditar para que tal venha a ser possível.

13.7.22

Papa diz que mundo está a viver uma III Guerra Mundial "aos bocadinhos"

 in Expresso das Ilhas


O papa Francisco avisou na segunda-feira que o mundo está a viver uma III Guerra Mundial "aos bocadinhos", lembrando que durante anos se têm registado "guerras selvagens de destruição", como a que vitima a Ucrânia.

"Há anos que vivemos a Terceira Guerra Mundial aos bocadinhos, em capítulos, com guerras por todo o lado, embora a guerra na Ucrânia nos toque mais de perto", sublinhou numa entrevista em língua espanhola à plataforma de 'streaming' ViX da 'Noticias Univision 24/7'.

O Papa falou sobre a pandemia de covid-19, a guerra na Europa, escândalos de abuso de crianças na Igreja Católica, aborto, sem se esquivar também a responder a perguntas sobre a sua saúde e rumores de uma possível renúncia.

O sumo pontífice, de 85 anos, falou desde o drama no Iémen e na Síria, à vida encurtada de 30.000 soldados, até aos jovens que morreram no desembarque nas praias da Normandia e aos conflitos bélicos "que são impostos" e que mostram se perdeu "a consciência da guerra".

E, ainda assim, apesar das tragédias, "a humanidade continua a fabricar armas", lamentou, acrescentando que a guerra "escraviza", desumaniza, e que, segundo o catecismo católico, "a utilização e posse de armas nucleares é imoral".

Sobre a invasão russa da Ucrânia, Francisco disse que prefere falar mais sobre as vítimas do que dos agressores, "do país que é atacado".

Sobre os rumores relacionados com o seu estado de saúde e uma possível demissão, foi claro: "Não tenho qualquer intenção de me demitir. De momento, não", afirmou na entrevista de mais de duas horas, transmitida na TelevisaUnivision.

O líder da Igreja Católica reconheceu que sempre pensou que o seu tempo no Vaticano seria breve, mas que sem dar por isso "já passaram nove anos", disse o pontífice.

"Se eu vir que não posso, ou que estou a sofrer ou que sou um obstáculo", espero "ajuda" para tomar a decisão de me reformar, disse. E manifestou a sua "grande simpatia" pela "bondade" do papa Bento XVI, que renunciou em 2013, e leva uma vida, adiantou, de retiro, leitura, estudo e escrita, aos 95 anos.

Francisco revelou que, quando chegar o dia da sua reforma, preferiria ser considerado um simples bispo emérito de Roma do que papa emérito e dedicar o seu tempo à confissão dos fiéis e à prática da caridade e à visita aos doentes em alguma paróquia italiana.

"Se sobreviver depois de renunciar, gostaria de fazer algo deste tipo: confessar e ir ver os doentes", frisou.

Por outro lado, voltou a afirmar, de forma contundente, a sua condenação do aborto, defendendo que há "dados científicos" que provam que, "um mês após a conceção, o ADN do feto já está presente e os órgãos estão alinhados, há vida humana".

Por isso, questionou, "será correto eliminar uma vida humana?".

Quanto à posição favorável do Presidente norte-americano, Joe Biden, católico, sobre a proteção do direito ao aborto, Francisco salientou que "deixa isso" à sua "consciência". E acrescentou: "Deixe-o falar com o seu pastor sobre esta incoerência".

Sobre os escândalos de abuso sexual infantil, garantiu que "hoje em dia a Igreja tornou-se cada vez mais consciente". E prometeu: "Não vamos ser cúmplices" nestes crimes.

15.11.21

Dia Mundial dos Pobres

Rita Valadas, opinião, in TSF

A Igreja católica assinala hoje, pelo quinto ano, o Dia Mundial dos Pobres sob o mote "Pobres sempre os tendes convosco". O Papa Francisco apresenta esta intenção como um desafio a que a Igreja tome a iniciativa de se aproximar e de "encontrar" os pobres onde estão. "Não podemos ficar à espera que batam à nossa porta; é urgente ir ter com eles" mesmo quando se escondem. É um repto contra a indiferença, um combate ao conformismo na desigualdade, um incentivo a favor da proximidade e de um estar alerta a favor dos mais vulneráveis.

Sinto que talvez ainda não tenhamos todos entendido a profundidade da provocação. Devo confessar que eu ainda estou nessa etapa prévia de entender o desafio do Papa ao assinalar este dia e até a mensagem com que se assinala.

O que significa dizer-se que "pobres sempre os teremos connosco"? A frase é do próprio Jesus, em duas ocasiões, e sempre numa perspetiva alerta para a situação do vulnerável. Colocar este dia no calendário da Igreja e, em consequência, da sociedade é sem dúvida notável, mas parece-me que importa ir mais longe.

Este dia terá de ser mais do que mensagens escritas ou vídeos publicados nas redes sociais ainda que tudo isso seja importante. O que falta é o dia seguinte.

Não faltam dias e ocasiões para assinalar isto e aquilo, mas estes dias não podem ser só efemérides que proporcionam a realização de iniciativas e atividades que, isoladamente colocam em evidência a pobreza, a situação em que vivem os pobres ou as causa que a provocam. Este dia terá de ser mais do que mensagens escritas ou vídeos publicados nas redes sociais ainda que tudo isso seja importante. O que falta é o dia seguinte.

Na Cáritas procuramos transformar esse "dia seguinte" em dias presentes e pela proximidade da nossa rede e do trabalho que realizamos, estamos presentes na vida de muitas pessoas que, pelos mais variados motivos, procuram a nossa ajuda.

A luta contra a pobreza, o estar ao lado dos pobres, é um trabalho diário, a várias mãos, com vários instrumentos, de várias origens. Não podemos continuar a querer encontrar soluções milagrosas construídas em ficheiros de Excel.

Não acreditamos na "pobreza estatística" que sobe e desce, estica e encolhe, segundo a leitura que se quer fazer dos dados. A luta contra a pobreza, o estar ao lado dos pobres, é um trabalho diário, a várias mãos, com vários instrumentos, de várias origens. Não podemos continuar a querer encontrar soluções milagrosas construídas em ficheiros de Excel.

O combate à pobreza faz-se quando houver interdependência entre as várias políticas sociais, o concurso dos vários setores e quando houver partilha de meios e recursos. Quando sentirmos a pobreza como um problema que é de todos. Quando deixarmos de olhar para o pobre e para a sua situação com resignação. Os pobres são sempre um vago "eles". O nosso trabalho é evitar que as famílias entrem em situação de pobreza. É aí que encontramos o foco do nosso trabalho.

Não posso deixar hoje de assinalar o início da campanha 10 Milhões de Estrelas - Um Gesto pela Paz. Uma iniciativa da Cáritas, que simbolicamente se materializa na venda de uma pequena vela, mas que tem um significado muito maior do que isso. Neste tempo que vem aí, de vivência do Natal, desejamos que em cada vela, simbolicamente cada português, e por isso os 10 Milhões, possam fazer o seu compromisso com a Paz.

A paz é tantas coisas .... É desde logo sorrir para o vizinho, dar a vez numa fila de trânsito, ou no supermercado, fazer um telefonema, uma visita... a paz global só será possível se houver gestos concretos de paz na vida de cada um... Podem parecer gestos pequenos, quase insignificantes, mas "Há gestos que constroem"..

Que a V. estrela acompanhe os V. "gestos pela paz".


Feliz domingo.

1.10.21

COP26: Papa apoia luta das novas gerações, alertando para pobreza energética

in Agência Ecclesia

Cidade do Vaticano, 29 set 2021 (Ecclesia) – O Papa manifestou hoje o seu apoio às novas gerações, na luta contra as alterações climáticas, numa mensagem em que aponta preocupações para a COP26, que se realiza em novembro na cidade de Glasgow, Escócia.

“Através de ideias e projetos comuns, podem ser encontradas soluções que superem a pobreza energética e que coloquem o cuidado dos bens comuns no centro das políticas nacionais e internacionais, favorecendo a produção sustentável, a economia circular, a agregação de recursos energéticos, a partilha das tecnologias adequadas”, sustentou Francisco, numa intervenção em vídeo para um seminário sobre a promoção da educação sustentável do ‘Youth4Climate’, em Milão.

A intervenção pediu “decisões sábias” para que todos possam aproveitar as “muitas experiências adquiridas nos últimos anos”, promovendo “uma cultura do cuidado, uma cultura da partilha responsável”.

“Quero agradecer-lhes pelos sonhos e projetos de bem que têm e pelo facto de se importarem tanto com as relações humanas e como com o cuidado do meio ambiente. Obrigado. É uma preocupação que faz bem a todos”, disse aos jovens participantes.


Encorajo-os a unir forças através de uma ampla aliança educativa para formar gerações de bons, maduros, capazes de superar as fragmentações e reconstruir o tecido das relações, de modo que possamos chegar a uma humanidade mais fraterna”.

O Papa evocou Pacto Global pela Educação lançado no Vaticano, em 2019, para dar “respostas partilhadas à mudança histórica que a humanidade está a experimentar e que a pandemia tornou ainda mais evidente”.

“As soluções técnicas e políticas não são suficientes, se não estiverem amparadas pela responsabilidade de cada integrante e por um processo educativo que favoreça um modelo cultural de desenvolvimento e sustentabilidade voltado para a fraternidade e a aliança entre o ser humano com o meio ambiente”, apontou.

Francisco defendeu a necessidade de existir “harmonia entre as pessoas, homens e mulheres, e o meio ambiente”.

“Não somos inimigos, não somos indiferentes. Fazemos parte dessa harmonia cósmica”, prosseguiu.

O Papa já manifestou a sua intenção de participar na conferência mundial da ONU sobre alterações climáticas (COP26).

OC

14.9.21

Papa abraça comunidade cigana. “Precisamos de passar dos preconceitos ao diálogo”

in RR

Os “frutos aparecem” nos locais onde se dá “atenção à pessoa, onde existe trabalho pastoral, onde há paciência e ações concretas”, disse Francisco num encontro realizado numa zona pobre da cidade de Košice.

É preciso deixar os preconceitos de lado e passar ao diálogo e à integração, defendeu esta terça-feira o Papa Francisco durante um encontro com a comunidade cigana da Eslováquia.

“Digo-vo-lo do coração – sede bem-vindos! Senti-vos sempre de casa na Igreja e nunca tenhais medo de habitar nela. Que ninguém vos afaste, a vós ou a qualquer outra pessoa, da Igreja”, declarou o Papa no Bairro Luník IX, na cidade de Košice.

Os ciganos, ou romani, são uma minoria que compõe cerca de 2% da população da Eslováquia e, tal como em muitos outros países europeus, têm sido vítimas de discriminação ao longo das décadas, tendo problemas de integração social.

Francisco foi ao encontro desta comunidade e apelou ao fim dos preconceitos que marginalizam e excluem pessoas da sociedade.

“Quantas vezes os juízos não passam realmente de preconceitos, quantas vezes adjetivamos! Deste modo desfiguramos com as palavras a beleza dos filhos de Deus, que são nossos irmãos. Não se pode reduzir a realidade do outro aos próprios modelos pré-concebidos, não se podem rotular as pessoas. Antes de mais nada, para conhecê-los verdadeiramente, é preciso reconhecê-los: reconhecer que cada um traz em si a beleza incancelável de filho de Deus, no qual se espelha o Criador,”

O Papa reconhece que os romani, muitas vezes ao longo da história, foram “objeto de preconceitos e juízos cruéis, estereótipos discriminatórios, palavras e gestos difamatórios”.

“Com isso, todos ficamos mais pobres, pobres em humanidade. O que precisamos para recuperar a dignidade é passar dos preconceitos ao diálogo, dos fechamentos à integração”, defende.

Para Francisco, os “frutos aparecem” nos locais onde se dá “atenção à pessoa, onde existe trabalho pastoral, onde há paciência e ações concretas”.

Os resultados não são imediatos e é preciso tempo, sublinha, “mas eles aparecem”.

“Juízos e preconceitos só aumentam as distâncias. Contrastes e palavras duras não ajudam. Colocar as pessoas em guetos não resolve nada. Quando se cultiva o fechamento, mais cedo ou mais tarde acaba por explodir a raiva. O caminho para uma convivência pacífica é a integração”, sublinha o Papa.

O dia do Papa termina com um encontro com jovens no Estádio Lokomotiva, ainda em Košice, depois do qual segue de novo para Bratislava.

Francisco termina a sua viagem à Eslováquia na quarta-feira com uma missa no Santuário Nacional de Šaštin, antes de partir de volta para Roma, onde chega às 14h30, hora de Portugal continental.
TÓPICOS

15.6.21

“Há pobrezas dos ricos que podem ser curadas pela riqueza dos pobres”

Aura Miguel, in RR

Bergoglio, que escolheu o nome de Francisco para sensibilizar a Igreja para a realidade dos pobres, instituiu esta data que se assinala a 14 de novembro.

O Papa publicou uma mensagem para o V Dia Mundial dos Pobres onde alerta para consequências da pandemia, pede nova abordagem na luta contra a pobreza e reforça as críticas ao sistema financeiro.

Na mensagem publicada em várias línguas pode ler-se que “os pobres não são pessoas «externas» à comunidade, mas irmãos e irmãs cujo sofrimento se partilha, para abrandar o seu mal e a marginalização, a fim de lhes ser devolvida a dignidade perdida e garantida a necessária inclusão social".

Francisco distingue entre “um gesto de beneficência, que pressupõe um benfeitor e um beneficiado” e a partilha que gera fraternidade. “A esmola é ocasional, ao passo que a partilha é duradoura. A primeira corre o risco de gratificar quem a dá e humilhar quem a recebe, enquanto a segunda reforça a solidariedade e cria as premissas necessárias para se alcançar a justiça”.

Valoriza “muitos exemplos de Santos e Santas que fizeram da partilha com os pobres o seu projeto de vida” e aponta como modelo dos nossos tempos o Padre Damião de Veuster, apóstolo dos leprosos. Este santo belga foi viver com os leprosos para a ilha de Molokai, “fez-se médico e enfermeiro, sem se preocupar com os riscos que corria, levando a luz do amor àquela «colónia de morte», como era designada a ilha” e acabou por morrer contagiado com lepra. “O seu testemunho é muito atual nestes nossos dias, marcados pela pandemia de coronavírus”, acrescenta o Papa, certo de que "a graça de Deus continua em ação no coração de muitas pessoas que, sem dar nas vistas, se gastam concretamente partilhando a sorte dos mais pobres”.
Pandemia e novas formas de pobreza

Francisco preocupa-se com o ganhar terreno da “conceção segundo a qual os pobres não só são responsáveis pela sua condição, mas constituem também um peso intolerável para um sistema económico que coloca no centro o interesse dalgumas categorias privilegiadas”. E denuncia os mercados que criam “armadilhas novas da miséria e da exclusão, produzidas por agentes económicos e financeiros sem escrúpulos, desprovidos de sentido humanitário e responsabilidade social”.

Além disso, “no ano passado, veio juntar-se outra praga que multiplicou ainda mais o número dos pobres: a pandemia. Esta continua a bater à porta de milhões de pessoas e, mesmo quando não traz consigo o sofrimento e a morte, todavia é portadora de pobreza”, reconhece o Papa. “Os pobres têm aumentado desmesuradamente e o mesmo, infelizmente, continuará a verificar-se ainda nos próximos meses. Alguns países estão a sofrer gravíssimas consequências devido à pandemia, a ponto de as pessoas mais vulneráveis se encontrarem privadas de bens de primeira necessidade. As longas filas diante das cantinas para os pobres são o sinal palpável deste agravamento”.

Francisco quer “soluções mais idóneas para combater o vírus a nível mundial, sem olhar a interesses de parte” e considera “urgente dar respostas concretas a quantos padecem o desemprego, que atinge de maneira dramática tantos pais de família, mulheres e jovens”.

Para combater estes flagelos, o Papa pede uma conversão nos hábitos de vida individualista, lembra que “a pobreza não é fruto do destino, é consequência do egoísmo” e propõe novos ”processos de desenvolvimento onde se valorizem as capacidades de todos”. Ou seja, “há muitas pobrezas dos «ricos» que poderiam ser curadas pela riqueza dos «pobres», bastando para isso encontrarem-se e conhecerem-se. Ninguém é tão pobre que não possa dar algo de si na reciprocidade”, escreve Francisco.

A mensagem também se dirige aos governos e instituições mundiais que "precisam de perfilhar um modelo social clarividente, capaz de enfrentar as novas formas de pobreza que invadem o mundo e marcarão de maneira decisiva as próximas décadas”. Com um alerta especial: “Se os pobres são colocados à margem, como se fossem os culpados da sua condição, então o próprio conceito de democracia é posto em crise e fracassa toda e qualquer política social”, avisa o Santo Padre.

9.12.20

A economia de Francisco contra a economia que mata

José Manuel Pureza, opinião, in Visão

Para Francisco, são dois os resultados desta (des)ordem. O primeiro é a exclusão de grandes massas humanas, atiradas existencialmente para becos sem saída. O segundo é a crise ecológica, que atenta contra a nossa casa comum

Quando a hegemonia de uma visão das coisas é totalmente sólida, todos os discursos contra-hegemónicos parecem angelicamente idealistas ou diabolicamente irresponsáveis.

As últimas décadas assistiram à entronização da hegemonia da perspetiva neoliberal sobre a economia. Essa entronização foi um projeto político bem urdido, ligando a condução das políticas económicas liberalizadoras à produção de discurso académico e de senso comum que lhes deu uma marca de irrefutabilidade poderosíssima. Fórmulas de óbvia natureza ideológica – como a superioridade do privado sobre o público, a minimalização da regulação laboral ou ambiental ou a máxima liberdade de atuação do sistema financeiro – foram assumidas como axiomas sem contestação possível.

A disputa dessa hegemonia teve nos movimentos sociais alterglobalização os seus primeiros intérpretes fortes. A contraposição do mundo de Porto Alegre ao mundo de Davos foi o rosto inicial dessa disputa. Mas a desaceleração dos fóruns sociais e o evidente desequilíbrio entre as instâncias produtoras de discurso neoliberal e as produtoras de discurso alternativo – desde redes de universidades a fazedores de opinião e de agenda mediática – mantiveram a hegemonia neoliberal sem lesões maiores.

Nos últimos anos, tem-se acentuado a importância de um novo sujeito nessa disputa. Surpreendente, talvez. E talvez com condições acrescidas para o sucesso na legitimação de alternativas ao credo neoliberal. Esse sujeito é a Igreja Católica. Como todos os atores sociais, a Igreja é heterogénea: nela convivem instâncias de reprodução de elites animadas pelo credo neoliberal – como algumas universidades católicas – e críticos dessa hegemonia e fautores de pensamento alternativo. Francisco, o Papa, situa-se claramente deste último lado.

Francisco denuncia a “economia que mata” e a antropologia individualista que a anima. O “fetichismo do dinheiro”, a “ditadura de uma economia sem rosto”, as “ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira” fazem instaurar “uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras”. Para Francisco, são dois os resultados desta (des)ordem. O primeiro é a exclusão de grandes massas humanas, atiradas existencialmente para becos sem saída: “Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas de uma realidade nova (…), pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está [na sociedade] mas fora. Os excluídos não são ‘explorados’, mas ‘resíduos’, ‘sobras’”. O segundo é a crise ecológica, que atenta contra a nossa casa comum: regida pela economia que mata e indiferente à dívida ecológica dos países ricos para com os países pobres, “a Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”.

Francisco assume toda a responsabilidade de ser sujeito da luta contra a hegemonia do pensamento e da prática neoliberais: “O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja.”

O recente encontro de 2 000 jovens de 155 países, promovido pelo Papa para pensar “modelos de desenvolvimento, progresso e sustentabilidade em que as pessoas, especialmente os excluídos (incluindo a nossa Irmã Terra) não serão mais uma presença nominal, técnica ou funcional”, mas sim “protagonistas das suas próprias vidas e de toda a construção da sociedade”, acentua esta intervenção da Igreja na disputa da hegemonia. Combater a economia que mata com a economia do bem comum para cuidar da casa comum – eis uma tensão essencial dos dias que estamos a viver.

17.11.20

Solidariedade: Presidente da OIKOS destaca mudança de paradigma sobre a pobreza promovida pelo Papa

in Agência Ecclesia

Lisboa, 16 nov 2020 (Ecclesia) – O presidente da OIKOS – Cooperação e Desenvolvimento disse à Agência ECCLESIA que o Papa Francisco tem ajudado a uma mudança de paradigma em relação à pobreza, procurando que o centro das atenções seja “olhar para o pobre”.

João José Fernandes, entrevistado hoje no programa ECCLESIA (RTP2) lamentou que as sociedades ocidentais tenham formado as pessoas para “desviar o olhar e ficar indiferentes ao pobre”, o que levou o Papa a insistir na tecla da “luta contra a indiferença”.

O presidente da OIKOS – uma organização que trabalha na promoção das pessoas e no combate à pobreza – reconheceu que olhar para a pobreza na perspetiva dos decisores públicos “perde em relação ao olhar para a riqueza, para o crescimento económico e para o aumento das exportações”.

“E depois lá ficam alguns milhões de euros para o combate à pobreza”, observou.

A entrevista abordou a mensagem de Francisco para o IV Dia Mundial dos Pobres, que a Igreja Católica celebrou este domingo, realçando que é “preciso conhecer as pessoas para as ajudar”.

O Papa, acrescenta João José Fernandes, pede que os mais pobres participem no “desenho das políticas públicas e nas ações concretas na erradicação da pobreza”.

O responsável espera que a comissão de estratégia para combater a pobreza, criada no final de outubro, promova “ações concretas com as pessoas mais vulneráveis”.

“Todas as representações do pobre deviam estar presentes” nestas reflexões, solicitou o presidente da OIKOS.

Para o entrevistado, “escutar os pobres faz toda a diferença”.

As pessoas “não necessitam apenas de se alimentar, mas de confraternizar e de se sentirem dignas”, sublinhou.

João José Fernandes assinala que trabalhar na área social é “difícil”, especialmente nos momentos atuais, e pode “haver a tendência para as pessoas se fecharem num gabinete”,

“Não basta fazer programas pastorais e sociais”, mas é “fundamental falar e trabalhar com o pobre”, insiste.

Para o responsável, na concretização dos projetos é fundamental “dialogar com as pessoas” e na “forma como estes se desenham”, para que todos se sintam participantes.

PR/LFS/OC

22.10.20

Papa dá mais um passo na defesa das uniões homossexuais. Não é novo, mas o modo como o fez é inédito

Rosa Pedro Lima, in Expresso

Não é novidade o apelo de Francisco à integração dos homossexuais na vida da Igreja. "Quem sou eu para julgar'", disse o Papa, logo no arranque do seu pontificado. Mas, agora, e perante o fogo cruzado da ala mais conservadora, que o acusa de promover o lóbi gay, Francisco não hesitou e defendeu mesmo uma lei civil que enquadre as uniões entre pessoas do mesmo sexo. E isso, sim, é um facto inédito.

A frase é curta e muito simples. Mas, o facto de ter sido proferida pelo Papa Francisco, por um lado, e de se referir aos homossexuais, por outro, deu motivo para manchetes em todo o mundo. Pouco importa que as declarações do Papa tenham sido feitas num longo documentário, onde também se falou de pobreza, da atual pandemia, do racismo, dos casos de abusos sexuais, das guerras e das perseguições a minorias. E, claro, da crise dos refugiados, um tema omnipresente no atual pontificado.

"Os homossexuais são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser expulso ou ter uma vida miserável por causa disso", acrescentou o Papa, citado pela agência católica de informação. E a verdade é que esta primeira parte da intervenção de Francisco nem sequer é uma novidade. Em 2013, de regresso da sua primeira grande viagem, feita ao Rio de Janeiro, Francisco aproveitou o voo para Roma para enfrentar o tema dos homossexuais na Igreja. "Quem sou eu para julgar a consciência de um gay perante Deus?", disse na altura.

E, de então para cá, o mote do Papa sobre esta matéria passou a ser sempre este: a Igreja tem de incluir, em vez de excluir, pelo que deve fazer todos os esforços para integrar os fiéis, venham eles de onde vierem.

Em 2014, o tema dos homossexuais fez mesmo parte da agenda do Sínodo para a Família, mas depois de várias polémicas e da revisão de uma proposta mais vanguardista que defendia que "a Igreja deve reconhecer os dons e as qualidades que os homossexuais podem oferecer à comunidade cristã", o Vaticano acabou por consagrar como princípio o acolhimento dos homossexuais "com respeito e delicadeza” na atividade da Igreja.

Mesmo que tímido, este foi um passo em frente na Igreja, cujo catecismo continua a considerar os "atos homossexuais" como "contrários à lei natural".

Francisco fez questão de prosseguir no seu caminho. "Não tem um coração humano" quem condicionar o acesso à Igreja a partir da orientação sexual de cada um disse, no ano passado. "Dar mais importância ao adjetivo [homossexual] que ao nome [homem], não é bom. Somos todos seres humanos e temos dignidade. Não interessa quem se é, ou como se vive a vida – não se perde a dignidade", afirmou o Papa.

CHUVA DE CRÍTICAS

O Papa Francisco até já celebrou missas para prostitutos (gays ou transsexuais) e admitiu no seu círculo de contactos alguns casais homossexuais, entre os quais um do seus antigos alunos, Yayo Grassi, que, com o seu companheiro, chegou mesmo a ser recebido na embaixada do Vaticano em Washington, na altura da visita Papal aos Estados Unidos, realizada em 2015.

A abertura do Papa para o tema da homossexualidade, assim como a tentativa de integrar os católicos divorciados na vida da Igreja, são dois dos principais 'pecados' apontados pela linha mais conservadora da Igreja e que motivam as mais duras críticas a este Pontificado.

No ano passado, dois cardeais apresentaram mesmo uma carta aberta contra o que classificavam de "praga da agenda homossexual" que, alegadamente, passou a dominar o Vaticano e que era "promovida por redes organizadas e protegida por um clima de cumplicidade e uma conspiração de silêncio".

Os cardeais Burke e Brandmuller pediram já a excomunhão de Francisco e são pródigos em divulgar uma espécie de 'lista negra' atualizada dos gays nomeados por Francisco para os mais altos cargos da Santa Sé.

É, certamente, desta ala mais conservadora que se esperam as mais duras reações à nova atitude de Francisco. Mas, por enquanto, só mesmo o público que, esta quarta-feira, pôde assistir ao Festival de Cinema de Roma, teve acesso ao teor integral das palavras do Papa.

O documentário, da autoria do realizador Evgeny Afineevsky, estreou-se naquela festival e tem por base um conjunto de entrevistas ao Papa Francisco e ao seu antecessor, Bento XVI, além de colaboradores da Cúria Romana e familiares do atual pontífice.mos de criar uma lei sobre a união civil".

20.8.20

Sociedade: Papa afirma que é preciso «curar grande vírus» da injustiça social e «essencial encontrar cura» para o coronavírus (c/video)

in Ecclesia

Para Francisco «seria triste» se «prioridade» da vacina para o Covid-19 fosse para «os mais ricos» e «propriedade» de alguma «nação»

Cidade do Vaticano, 19 ago 2020 (Ecclesia) – O Papa Francisco afirmou hoje que o vírus Covid-19, “sem excluir ninguém, encontrou grandes desigualdades e discriminações no seu caminho devastador e aumentou-as”, realçando que para além da cura ao novo coronavírus é preciso “curar” “a injustiça social”.

“Por um lado, é essencial encontrar uma cura para um pequeno mas terrível vírus que põe o mundo inteiro de joelhos. Por outro, temos de curar um grande vírus, o da injustiça social, desigualdade de oportunidades, marginalização e falta de proteção para os mais vulneráveis”, disse na audiência desta quarta-feira no Vaticano.

Na Biblioteca do Palácio Apostólico, o Papa explicou que, “nesta dupla resposta de cura”, “a opção preferencial pelos pobres” é uma escolha que, “segundo o Evangelho, não pode faltar”.

“Não é uma opção política, não é uma ideologia, nem de partido, não. A opção preferencial pelos pobres está no centro do Evangelho. Jesus foi o primeiro a fazê-la. Sendo rico, se fez pobre, para nos enriquecer, fez-se um de nós”, acrescentou.

O Papa Francisco, que continuou a desenvolver o tema da pandemia Covid-19 na sua catequese semanal, começou a audiência a explicar que o coronavírus “acentuou a situação dos pobres e a grande desigualdade que reina no mundo” e o vírus, “sem excluir ninguém, encontrou grandes desigualdades e discriminações no seu caminho devastador e aumentou-as”.

Sobre a expectativa de recomeçar as atividades económicas e voltar à normalidade, o Papa salientou que a “normalidade não deve incluir injustiça social e degradação ambiental”, destacando que a pandemia é uma crise e “de uma crise não se sai iguais, ou melhores ou piores”.

“Nós deveríamos sair melhores; Hoje temos uma oportunidade de construir algo diferente. Por exemplo, podemos fazer crescer uma economia de desenvolvimento integral dos pobres e não de assistencialismo”, explicou.

Francisco observou que “as obras assistenciais são importantes”, dando o exemplo do voluntariado, mas salienta que se devem fazer mais e “resolver os problemas que levam a fazer o assistencialismo”.

“Uma economia que não recorre a remédios que, na realidade, envenenam a sociedade, tais como rendimentos dissociados da criação de empregos dignos. Este tipo de lucro é dissociado da economia real, aquela que deveria beneficiar as pessoas comuns e é também por vezes indiferente aos danos infligidos à casa comum”, desenvolveu.

O Papa realçou que a opção preferencial pelos pobres “dá o estímulo para pensar e conceber” uma economia onde as pessoas, “e especialmente as mais pobres, estejam no centro” e encoraja a “projetar o tratamento dos vírus, privilegiando quem tem mais necessidade”.

“Seria triste se essa vacina contra a Covid-19 fosse dada a prioridade aos mais ricos. Seria triste se esta vacina se tornasse propriedade desta ou daquela nação e não universal para todos. E que escândalo seria se toda a assistência económica que estamos a observar se concentrasse no resgate das indústrias que não contribuem para a inclusão dos excluídos, para a promoção dos últimos, para o bem comum ou para o cuidado da criação”, observou.

Neste contexto, Francisco enumerou “quatro critérios” para ajudar a escolher as indústrias a serem ajudadas: “As que contribuem para a inclusão dos excluídos, para a promoção dos últimos, para o bem comum e com o cuidado da criação”.

“Se o vírus se intensificar novamente num mundo injusto para os pobres e os mais vulneráveis, devemos mudar este mundo; Devemos agir agora para curar as epidemias causadas por pequenos vírus invisíveis, e para curar as que são provocadas pelas grandes e visíveis injustiças sociais”, concluiu o Papa, propondo que “seja feito a partir do amor de Deus, colocando as periferias no centro e os últimos em primeiro lugar”.

CB

13.8.20

Papa alerta para as “patologias sociais” da pandemia

in Publico on-line

Papa Francisco destaca que se os mais frágeis não forem ajudados não será possível curar o mundo.

O Papa Francisco advertiu esta quarta-feira para as “patologias sociais” reveladas pela pandemia e que ameaçam a humanidade, tais como o individualismo, e garantiu que se os mais frágeis não forem ajudados não será possível curar o mundo.

“A pandemia destacou o quão vulneráveis e interligados somos. Se não cuidarmos uns dos outros, começando pelos últimos, os mais afectados, não seremos capazes de curar o mundo”, disse o pontífice no início da audiência geral na Biblioteca do Palácio Apostólico, no Vaticano.

O Papa, que continua a realizar esta audiência no palácio e não na Praça de São Pedro para evitar as multidões de fiéis, destacou que “o novo coronavírus não é a única doença a combater”.

“A pandemia trouxe à luz patologias sociais mais amplas, como uma visão distorcida da pessoa que ignora a sua dignidade. Às vezes olhamos os outros como objectos a serem usados e jogados fora”, lamentou. Essa atitude, na sua opinião, “cega e fomenta uma cultura de desperdício, individualista e agressiva que transforma o ser humano num bem de consumo”.

“Deus não nos criou como objectos, mas como pessoas amadas e capazes de amar, criou-nos à sua imagem e semelhança. Deu-nos uma dignidade única, convidando-nos a viver em comunhão com ele, com os nossos irmãos e irmãs, no respeito por toda a criação, em comunhão, em harmonia, podemos dizer”, disse.

O Papa apelou ao mundo para que viva em “harmonia”, evitando comportamentos individualistas, pois o contrário seria uma concepção “distorcida” do mundo e da vida.

Francisco elogiou “o empenho de muitas pessoas nestes meses, em dar provas do amor humano e cristão”, em ajudar os que estão doentes, “também em risco para a própria saúde” e apelou à preservação dos Direitos do Homem neste contexto, que definiu como “mil pedras no longo e difícil caminho da humanidade”, parafraseando João Paulo II.

“Os direitos não são apenas individuais, mas também sociais. O ser humano, na sua dignidade pessoal, é um ser social criado à imagem de um Deus único. Somos sociais, precisamos viver nesta harmonia social, mas quando há egoísmo o nosso o olhar não vai para a comunidade, mas volta para nós. Isso destrói a harmonia”, concluiu.

6.8.20

"Pandemia desnudou o tanto que nos falta fazer para combater as desigualdades", escrevem bispos portugueses

in RR

Mensagem parte do texto que o Papa Francisco escreveu para o 106.º Dia Mundial do Migrante e Refugiado (27 de setembro), este ano centrado nas “migrações forçadas".

A Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana (CEPSMH), da Igreja Católica em Portugal, publicou uma mensagem em que destaca a necessidade de solidariedade, num momento marcado pela pandemia, que agrava a situação dos migrantes e refugiados.

“A pandemia desnudou o tanto que nos falta fazer para combater as desigualdades, mas sobretudo revelou a capacidade humana de convergir em sociedade, apesar das nossas diferenças. Enquanto Igreja a nossa fé e a nossa esperança recaem sobre o potencial de humanização que nos habita”, refere o texto, enviado esta terça-feira à agência Ecclesia.

A Mensagem da CEPSMH e da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) tem como título ‘Entre a incerteza e a esperança há uma ponte em construção’.

A Igreja Católica em Portugal vai promover de 9 a 16 de agosto a Semana Nacional de Migrações, inspirada pela mensagem do Papa Francisco, ‘Forçados, como Jesus Cristo a Fugir’, procurando apresentar “testemunhos de vida” sobre a realidade das deslocações forçadas, por causa da pobreza ou da guerra.

Durante esta semana decorre ainda a Peregrinação Nacional do Migrante e Refugiado a Fátima, nos dias 12 e 13 de agosto.

A iniciativa, que nasceu há 48 anos, visa “sensibilizar a Igreja, as instituições estatais e a sociedade civil, para os dramas e inquietações” das pessoas em mobilidade.

A CEPSMH e a OCPM vão promover um recolha de testemunhos – vídeos, cartas, depoimentos áudio, fotos – através do endereço eletrónico ocpm@ecclesia.pt, para divulgação nas redes sociais.

"O objetivo é contribuir para que se conheça e compreenda, a fim de não termos medo de nos aproximar e servir, aprendermos a escutar para reconciliar, a fim de juntos partilharmos para crescer, coenvolver migrantes, refugiados autóctones, para promover comunidades mais inclusivas, estimular a colaboração interinstitucional para construir uma sociedade mais coesa, justa e fraterna, com um lugar para todos.”

A mensagem parte do texto que o Papa Francisco escreveu para o 106.º Dia Mundial do Migrante e Refugiado (27 de setembro), que se centra este ano nas “migrações forçadas, as suas causas, os deslocados internos e a cooperação internacional”.

“Queremos muito ir para além do enfoque sobre os deslocados internos, esta é uma oportunidade para ir às periferias sociais e existenciais, e concretizar o que nos permite ser uma sociedade mais capaz de Acolher, Proteger, Promover e Incluir migrantes e refugiados”, aponta a CEPSMH.

Os bispos portugueses recordam, a este respeito, a situação em Cabo Delgado, norte de Moçambique, onde a violência formou “mais de 200 mil pessoas a sair das suas casas”.

“Escutamos os apelos incessantes, da Diocese de Pemba que os acolhe, à solidariedade Internacional e à rápida intervenção das instâncias políticas que tem o poder de travar, o massacre”, alertam os responsáveis católicos.