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22.8.23

Pobreza energética e saúde: um alerta faça calor ou frio

 Tiago Correia, opinião, in SIC



Opinião de Tiago Correia. No momento em que Portugal enfrenta uma nova vaga de calor, interessa recordar que o aumento da temperatura ambiente e dos oceanos está ligado a fenómenos naturais extremos – secas, ventos e chuvas – mais frequentes e em mais zonas do planeta.


Julho terá sido o mês mais quente desde que há registos e acredita-se que é preciso recuar 120.000 anos para encontrar temperaturas iguais. No momento em que Portugal enfrenta uma nova vaga de calor, interessa recordar que o aumento da temperatura ambiente e dos oceanos está ligado a fenómenos naturais extremos – secas, ventos e chuvas – mais frequentes e em mais zonas do planeta.


As implicações para a vida humana são muitas, entre as quais a escassez de água potável e de alimentos, mas também os efeitos da fuga em massa de populações ou o aumento do preço de recursos naturais. O certo é que tudo isto implicará mudanças na geopolítica internacional e no modo de vida a que nos habituámos.

Olhando para a sociedade portuguesa, fica-se com a ideia de que estes assuntos continuam a merecer uma preocupação oscilante, a que apelidei efeito boomerang. Ou seja, que falta uma consciência permanente sobre o problema, o qual apenas ganha relevância quando se sente na pele o calor ou frio extremos, a falta de água, a destruição de colheitas, os incêndios ou enxurradas.

A nível político, é justo dizer que governos e autarquias têm aumentado a agenda ambiental e ecológica, em grande medida devido às autoridades europeias, mas um problema de base mantém-se: a pobreza energética.

Pobreza energética significa a incapacidade financeira das famílias para aquecerem ou arrefecerem as suas habitações. Dizendo de outra forma: as pessoas vivem com frio e calor por falta de dinheiro. Os dados sobre Portugal são bem conhecidos e preocupam. O país é quinto da UE em maior risco de pobreza energética: entre 1,8 milhões a 3 milhões de pessoas, das quais mais de 660 mil vivem em situação severa (quando a despesa com energia supera 10% do rendimento disponível).

Apesar da ação política, o facto de o ponto de partida ser tão negativo e do fenómeno estar relacionado com problemas estruturais da sociedade portuguesa, incluindo baixos rendimentos, baixa qualidade do parque habitacional e vulnerabilidades sociais das famílias, importa manter o assunto na agenda mediática com o objetivo de garantir a mobilização política e da sociedade.

Mostrar os efeitos da pobreza energética na saúde das populações é uma forma de contribuir para este alerta. Segundo a evidência científica disponível, as pessoas nesta situação apresentam:

- maiores gastos com cuidados de saúde ou maior carga de doença quando não têm forma de cobrir esses gastos;

- menor esperança de vida;

- maior probabilidade de aumentar os picos de mortalidade excessiva no inverno e verão;

- maior risco de sedentarismo e consumo de substâncias aditivas;

- piores avaliações sobre a perceção de saúde e bem-estar, fatores de stress e saúde mental (crianças incluídas);

- mais doenças cardiovasculares, respiratórias, artrite, inflamações e quedas


Estes dados são de particular importância porque mostram que campanhas de sensibilização em momentos de frio ou calor têm eficácia limitada. Não se trata de pôr em causa a comunicação das autoridades de saúde, mas sim mostrar que, em certa medida, isso conta pouco perante a pobreza energética.

Estudos europeus mostram que as pessoas têm iniciativa de procurar informações sobre o que fazer perante situações climatéricas extremas, sobretudo aquelas que sabem que têm vulnerabilidades associadas à idade ou certas doenças. O que acaba por acontecer é que os comportamentos nem sempre acompanham esse conhecimento devido à falta de recursos. É este o problema a resolver.

20.7.23

Comité Económico e Social da União Europeia pede aos 27 medidas contra pobreza energética

in Porto Canal

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) apelou esta quarta-feira aos 27 Estados-membros da União Europeia (UE) que adotem medidas para combater a pobreza energética e proteger os cidadãos mais vulneráveis.

Num texto adotado na terceira conferência anual sobre pobreza energética do CESE, é destacado que “aproximadamente 42 milhões de pessoas – 9,3% dos cidadãos da UE – não conseguiram manter as suas casas adequadamente quentes em 2022”.

O comité propõe que os 27 adotem medidas para, nomeadamente, estabelecer mecanismos de controlo da inflação e reformar o mercado de eletricidade. A redução do consumo energético, um maior investimento nas renováveis e a melhoria da eficiência energética das casas estão também entre as recomendações do CESE.

Citando dados do Eurostat, o Comité Económico e Social Europeu assinala que a situação se agravou no ano passado face a 2020 e 2021, quando a pobreza energética afetou, respetivamente, 8,0% e 6,9% da população europeia, indicando como causas a subida dos preços da energia para máximos históricos no segundo semestre de 2021, agravada pela da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022.

O CESE destaca ainda a necessidade de reduzir o consumo de energia e acelerar a transição para a infraestrutura renovável, de modo a reduzir a dependência energética da União Europeia.

19.7.23

Novo apoio à eficiência energética das casas dá 100 milhões de euros

Por Lusa,  in Idealista


O Governo anunciou esta terça-feira, dia 18 de julho, um novo programa de apoio à eficiência energética dos edifícios residenciais, com dotação total de 100 milhões de euros, para financiar a 85% a substituição de janelas e instalação de painéis fotovoltaicos, entre outros.

“Gostava de anunciar que se inicia, com a publicação do respetivo aviso, um novo programa de apoio à eficiência energética dos edifícios residenciais, dedicado às famílias. O Programa de Apoio Edifícios Residenciais + Sustentáveis 2023, o programa 3C 2023, terá uma dotação total de 100 milhões de euros e, este primeiro aviso, mobilizará 30 milhões de euros, para candidaturas a submeter até 31 de outubro”, avançou o ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, que está a ser ouvido no parlamento, em audição regimental na comissão de Ambiente e Energia.

Segundo o governante, este aviso vai financiar a 85% a substituição de janelas, a instalação de painéis fotovoltaicos e isolamentos de base natural, entre outros, tendo sido definida uma majoração geográfica para famílias residentes fora dos distritos de Lisboa e do Porto.


Adicionalmente, só serão considerados elegíveis imóveis de habitação permanente.

Duarte Cordeiro sublinhou que o anterior aviso no mesmo âmbito contou com cerca de 71.000 candidaturas elegíveis e apoios de 122 milhões de euros, “tendo contribuído para evitar a emissão de 38.000 toneladas de dióxido de carbono, acrescentado 152 Megawatts (MW) de capacidade de produção de energia renovável e poupado 486 Megawatts-hora (MWh) de consumo anual”.


O ministro do Ambiente registou o balanço positivo dos preços da energia, apontando os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística, que deram conta de que os produtos energéticos tiveram uma queda homóloga de 18,77%, contribuindo para a desaceleração da inflação no país. Em maio, os produtos energéticos já tinham tido uma descida de 15,47%.

Edifícios localizados fora dos distritos de Lisboa e do Porto têm majoração de 10% no apoio à eficência energética

De acordo com o aviso de abertura de concurso publicado na página do Fundo Ambiental na internet, podem ser apoiadas intervenções de substituição de janelas não eficientes por janelas eficientes, de classe energética igual a A+, a aplicação ou substituição de isolamento térmico em coberturas, paredes ou pavimentos, sistemas de aquecimento e/ou arrefecimento ambiente e de águas quentes sanitárias (AQS) que recorram a energia renovável, de classe energética A+ ou superior, a instalação de sistemas fotovoltaicos e outros equipamentos de produção de energia renovável para autoconsumo com ou sem armazenamento e ainda intervenções que visem a eficiência hídrica.


De acordo com o aviso de abertura de concurso publicado na página do Fundo Ambiental na internet, podem ser apoiadas intervenções de substituição de janelas não eficientes por janelas eficientes, de classe energética igual a A+, a aplicação ou substituição de isolamento térmico em coberturas, paredes ou pavimentos, sistemas de aquecimento e/ou arrefecimento ambiente e de águas quentes sanitárias (AQS) que recorram a energia renovável, de classe energética A+ ou superior, a instalação de sistemas fotovoltaicos e outros equipamentos de produção de energia renovável para autoconsumo com ou sem armazenamento e ainda intervenções que visem a eficiência hídrica.


Cada beneficiário está limitado a um incentivo total máximo de 7.500 euros, por edifício unifamiliar ou fração autónoma, descontando-se os montantes apoiados na segunda fase do anterior Programa de Apoio a Edifícios mais Sustentáveis.

Adicionalmente, conforme referido pelo ministro, as candidaturas relativas a edifícios localizados fora dos distritos de Lisboa e Porto têm uma majoração de 10% no limite máximo de incentivo por tipologia de intervenção.

Segundo o aviso, caso o montante apoiado por beneficiário neste primeiro aviso seja igual ou superior a 5.000 euros, o candidato tem obrigatoriamente de apresentar o certificado energético do imóvel intervencionado, antes e após execução.

O Fundo Ambiental disponibiliza toda a informação sobre as condições do apoio aqui.

7.7.23

POBREZA ENERGÉTICA: ENERGIA E (DES)CONFORTO DO SETOR DOMÉSTICO

Posted by Isabel Sarmento, Opinião/Análise, in Edifícios e Energia


Artigo publicado originalmente na edição de Março/Abril de 2023 da Edifícios e Energia

A pobreza energética dá uma dimensão da “não-capacidade” das famílias para manterem a sua casa adequadamente aquecida. Nunca o tema, como hoje, teve a importância devida. Infelizmente, todos os anos, em Portugal, os meios de comunicação social noticiam que, devido a ocorrências relacionadas com chaminés, lareiras e braseiras, morrem pessoas numa tentativa de sobreviver ao frio que se faz sentir no interior das suas habitações. Vários fatores contribuem para esta dramática situação:

• Fraco desempenho térmico e energético das habitações;

• Baixo rendimento das famílias;

• Elevado custo da energia;

• Desigualdade no acesso à energia;

• Baixa literacia energética.

Ao estar, agora e bem, a pobreza energética na ordem do dia, parece-me interessante olhar para alguns indicadores, a partir dos dados que são divulgados e que nos podem fazer refletir sobre o muito que há a fazer para a mitigação do problema.

A vertente social da sustentabilidade pressupõe assegurar, ou pelo menos melhorar, a qualidade de vida das populações. E melhorar a qualidade de vida das pessoas é, também, garantir-lhes conforto e que esta melhoria seja feita em segurança.




Figura 1 – População portuguesa que vive em situação de pobreza energética e outros. Fonte: Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2021-2050.



A Agência Internacional de Energia estima que cerca de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem em situação de pobreza energética, sendo que, na União Europeia, esse valor varia entre 50 e 125 milhões de pessoas. Isto é, entre 11 % e 28 % dos europeus vivem em pobreza energética.

Já em Portugal, estima-se que haja entre 1,9 a três milhões de pessoas em pobreza energética, ainda que em diferentes patamares (Figura 1). Daí resulta que, pelo menos, entre 20 a 30 % dos portugueses vivem em situação de desconforto, o que revela a importância da Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2021-2050, ao estabelecer objetivos e estratégias com vista a mitigar a atual realidade.

A Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2021-2050 assenta em:

• reforço da eficiência energética das habitações;

• promoção de mecanismos de proteção e apoio ao consumidor;

• reforço das dinâmicas de informação;

• promoção de e apoio a projetos piloto com caráter inovador e à adoção de novas tecnologias.

O reforço da eficiência energética das habitações pressupõe, desde logo, a melhoria da qualidade térmica da envolvente do parque residencial, que, de um modo geral, é antigo e de fraca qualidade térmica. Tendo por base o Inquérito ao Consumo de Energia no Sector Doméstico (ICESD 2020), realizado pelo Instituto Nacional de Estatística, conclui-se que (Figura 2):

• 55 % do parque construído, correspondente a 290 km² de habitação, não foi objeto de qualquer requisito térmico à sua envolvente, já que foi construído antes da publicação do primeiro RCCTE [Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios – Decreto de Lei n.º 40/1990, de 6 de Fevereiro];

• 100 % do parque construído, equivalente a 529 km² de habitação, não cumprirá com o requisito NZEB [edifícios de habitação de necessidades quase nulas de energia], um dos objetivos da Estratégia de Longo Prazo de Renovação de Edifícios (ELPRE).

O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) destina à promoção da eficiência energética de edifícios, nos próximos cinco anos, 300 milhões de euros (Investimento TC-C13-i01). Se, em termos absolutos, este valor parece muito, já em termos relativos resulta em:

• 1,94 euros /m², para 53,6 % de área do parque construído até 1990, provavelmente, aquele que está afeto aos três milhões da população com algum grau de pobreza energética;

• 1,65 euros /m², considerando 50 % da área do edificado habitacional prevista a ser renovada até 2030 no âmbito da ELPRE;

• 0,62 euros /m², tomando em consideração o parque construído até 2005; ou

• 0,57 euros /m², tomando em consideração o parque construído até 2021 (até esta data, não há NZEB).




Figura 2 – Estado do parque edificado português. Fonte: Dados ICESD 2020 (adaptação)


Analisando estas possibilidades, o valor do PRR para a eficiência energética de edifícios parece, de todo, insuficiente, em qualquer dos cenários! Ainda mais, tomando em conta, apenas, a reabilitação da envolvente. Mas a eficiência energética das habitações pressupõe, também, reabilitar ou, até, dotar as habitações de sistemas de aquecimento energeticamente eficientes e em linha com a tão ambicionada descarbonização dos edifícios.

Apesar de o aquecimento ambiente estar presente na quase totalidade das habitações portuguesas, dificilmente tal significa estar em conforto térmico, como, facilmente, se pode depreender pelo tipo de sistemas em aquecimento que equipam os alojamentos (Figura 3).

Efetivamente, apenas 16,6 % dos alojamentos terão, à partida, garantia de conforto em todos os seus espaços, ao serem dotados de um sistema de aquecimento centralizado. Os demais 83 % são caraterizados por possuírem sistemas individuais que garantirão apenas algum conforto no espaço onde se localizam. Alojamentos haverá que nada terão e o arrefecimento ambiente, quando assegurado, é 60 % promovido por ventoinhas.

Ainda de acordo com os dados ICDES 2020, 81,2 % da energia para aquecimento é biomassa, da qual 92 % é lenha e apenas 18,8 % da energia para aquecimento tem origem fóssil. Disto resulta que 75 % do aquecimento ambiente dos alojamentos em Portugal é assegurado por lenha (o que nos leva ao início deste texto) e apenas 2,7 % do aquecimento ambiente é assegurado por gás natural.

Por seu lado, o Roteiro para a Neutralidade Carbónica proposto para Portugal, com vista à transição energética, tem como meta atingir essa neutralidade em 2050. No caso do setor residencial, aquela neutralidade tem como objetivos:

• a eletrificação dos sistemas de aquecimento e arrefecimento;

• a redução do consumo energético;

• a redução das emissões de gases com efeito de estufa.




Figura 3 – Alojamentos em Portugal com sistema de aquecimento ambiente por tipo. Fonte: Dados ICESD 2020.

Há muito a reabilitar no setor doméstico: não só na envolvente dos edifícios, mas, também, ao nível dos sistemas de aquecimento e arrefecimento ambiente que os equipam ou que os alojamentos, maioritariamente, não detêm. Pelo que dúvidas quanto à suficiência do valor estabelecido à promoção da eficiência energética de edifícios residenciais, tomando em consideração apenas a sua envolvente, se existirem, desvanecem quando avaliamos as necessidades de intervenção ao nível dos sistemas de aquecimento ambiente – já para não falar dos sistemas de produção de água quente sanitária!

Mas, tomando como fundamental a reabilitação energética dos edifícios, importa perceber o peso do custo da energia no rendimento das famílias. Tendo, ainda, por base o ICESD 2020, a despesa média anual em energia por alojamento ascendia, a preços de 2020, a 1 080 euros, o que, em função da atividade profissional, rondava entre 1 e 1,4 vezes o rendimento mensal de um trabalhador por conta de outrem, valores que, necessariamente, já foram ultrapassados, com a atualização em alta dos preços da energia e a estagnação dos ordenados. Tal representa um elevado esforço financeiro àqueles que poucos recursos têm.

“Em suma, não bastará reabilitar energeticamente o edificado residencial. Há que garantir acesso às melhores fontes de energia e a custos comportáveis para as famílias. As famílias portuguesas “vivem em ausência de conforto”, de facto, e não só nas suas casas!”

Dessa despesa, 25 % (ICESD 2020) é associada ao aquecimento ambiente, ainda que, como já concluído, o conforto não seja assegurado será, antes, para garantir um mínimo que permita a sobrevivência. Ora, a ser assim, o reabilitar só por si, ainda que reduza a despesa energética para uma situação de conforto pleno e melhore significativamente o conforto das habitações, poderá não ser suficiente. A realidade é que a fatura energética dos agregados familiares terá tendência a aumentar se se pretender o pleno conforto, o que será incomportável.

A desigualdade no acesso a fontes de energia é, também, um problema, já que apenas 27,9 % dos alojamentos têm acesso a gás natural, enquanto 99,7 % dos alojamentos têm acesso a eletricidade.

Em suma, não bastará reabilitar energeticamente o edificado residencial. Há que garantir acesso às melhores fontes de energia e a custos comportáveis para as famílias. As famílias portuguesas “vivem em ausência de conforto”, de facto, e não só nas suas casas!

A realidade do desconforto em Portugal é bem mais alargada. É recorrente lermos manchetes a referirem que “crianças levam mantas para a escola para enganar o frio” (Lusa, 22 de janeiro de 2022) ou “julgamentos a decorrer ao frio em tribunal (…)” (Jornal da tarde, RTP, 15 de janeiro de 2023). Ou seja, o próprio Estado, a quem cabe a responsabilidade social de assegurar a qualidade de vida das populações, também não garante o conforto em muitos dos seus edifícios.


As conclusões expressas são da responsabilidade dos autores.

4.7.23

Vice-presidente Pedro Cardoso em seminário sobre pobreza energética

in MundialFm


O vice-presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, Pedro Cardoso, participou no seminário “Das futuras casas e comunidades energeticamente autónomas à pobreza energética: os fundos do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] como estratégia de combate à pobreza energética”, organizado pela EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza, em parceria com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

O autarca integrou o painel “O PRR e a aposta no combate à pobreza energética: o estado da arte?”, juntamente com a vereadora da Câmara Municipal de Foz Côa, Ana Filipe, e Filipe Araújo, vice-presidente da Câmara Municipal do Porto.

“A pobreza energética é uma matéria que deve preocupar os decisores políticos, porquanto afeta a qualidade de vida das pessoas. Diminuir as diferenças de acesso à energia deveria ser uma prioridade”, entende o vice-presidente do Município de Cantanhede, Pedro Cardoso, que elogia iniciativas que debatem aquele que “é dos problemas mais prementes das sociedades atuais”.

O objetivo do encontro foi debater a implementação do PRR em diferentes territórios, destacando as potencialidades e as dificuldades sentidas até ao momento com este instrumento financeiro, mas também debater soluções alternativas para promover a sua boa execução até 2026, tendo como pano de fundo a relevância desta temática no combate aos fenómenos de pobreza e exclusão social.

Do programa constaram ainda intervenções sobre “A primeira casa modular em madeira energeticamente autónoma em Portugal”, “O futuro das comunidades autónomas de energia”, “Energias sustentáveis: o poder das pessoas” e “O PRR e a aposta no combate à pobreza energética”.

23.6.23

Casa gelada no Inverno e um forno no Verão? Há um serviço gratuito que pode ajudar

Aline Flor, in Público online

Projecto da Coopérnico oferece um serviço ao domicílio para fazer o diagnóstico de eficiência energética – que tem impacto tanto no Inverno como no Verão.

Temperaturas sobem a partir do meio da semana e podem chegar aos 42ºC

Casa gelada no Inverno e um forno no Verão? Portugal ainda deixa muito a desejar quando o tema é eficiência energética e foi por isso que a Coopérnico – Cooperativa de Desenvolvimento Sustentável se juntou à aliança europeia Powerpoor para criar uma rede de “mentores de energia” com formação para fazer diagnósticos ao domicílio.

Quando o assunto é eficiência energética, “as pessoas não sabem por onde começar”, descreve a arquitecta Catarina Pereira, membro da equipa técnica da Coopérnico responsável pelo projecto. No âmbito do Powerpoor, cerca de 400 pessoas foram formadas desde 2021, por todo o país, para este serviço gratuito de aconselhamento energético.

Nestes dois anos, a Coopérnico organizou em média uma visita por semana, mas há potencial para mais. As visitas dos “mentores de energia” são por norma presenciais mas, caso não haja um membro da rede por perto, também podem ser feitas via Zoom.

“Cada casa é um caso”, nota Catarina Pereira, e por isso é preciso um olhar treinado para procurar pistas e pontos de fuga que expliquem alguns desajustes nas contas de energia. Estas visitas abrem espaço para as pessoas colocarem questões, mesmo as mais básicas. “Quando saímos da casa, sentimos que ajudámos a pessoa”, garante a arquitecta.

Literacia energética

Como funcionam as visitas? O primeiro passo é ter à mão as facturas da electricidade e do gás. Um dos grandes objectivos do projecto Powerpoor é “promover a literacia energética”, pelo que os “mentores de energia” podem ajudar a compreender a factura de energia, “às vezes um pouco abstracta”.

Um dos problemas habituais é que a potência contratada pode não ser a mais adequada: por exemplo, há muitas pessoas que vivem sozinhas com uma potência contratada de 6,9kVA, quando uma potência de 4,6kVA pode “chegar perfeitamente” para uma família de quatro pessoas. O mesmo vale para as tarifas desadequadas aos perfis de consumo.

Catarina Pereira nota também o receio de muitas pessoas de mudar de comercializador, uma temática “um pouco opaca”. “Há quase uma sobreinformação sobre comercializadoras, de forma agressiva e contínua a promover serviços e produtos”, descreve a arquitecta, que nota que no meio de tanta informação as pessoas sentem falta de alguma orientação para fazer a escolha certa.

O passo seguinte é observar os pontos fracos do consumo da energia. A utilização de electrodomésticos antigos, pouco eficientes – frigoríficos com borrachas que já não vedam, arcas antigas –, é um dos sugadouros habituais de energia, além dos omnipresentes aparelhos ligados 24 horas por dia (“o modo de espera consome, mesmo que seja residual”, relembra a técnica da Coopérnico). Para analisar situações como a dos termoacumuladores (cilindros), o olhar mais apurado dos voluntários da Coopérnico pode ser uma boa ajuda.

Isolamento

Quando as casas estão muito frias (ou quentes) e as contas demasiado altas, antes de pensar em sistemas de climatização ou em soluções como a instalação de painéis fotovoltaicos, é preciso resolver o problema seguinte: o isolamento térmico.

“Para tornar cada casa mais confortável, o isolamento térmico das paredes é fundamental”, sublinha a arquitecta. “Paredes, pavimentos e coberturas são a primeira coisa em que devemos apostar.”
Para tornar cada casa mais confortável, o isolamento térmico das paredes é fundamental. Paredes, pavimentos e coberturas são a primeira coisa em que devemos apostar.

Os mentores da Coopérnico olham para as habitações “com olhos de tirar dali informação necessária” e apontam, sempre que possível, “soluções de baixo valor”: calafetagem das janelas (“em borracha, não em espuma”), rolos de areia nas portas, comprar escovinhas para minimizar a entrada de frio.

A aposta no isolamento pode passar por materiais como lã de rocha, soluções em cortiça ou XPS – mas qualquer um destes produtos tem de ter uma espessura adequada, nota Catarina Pereira, pelo que é boa ideia ouvir uma opinião informada antes de escolher.

Há ainda a “praga” das varandas convertidas em marquises. “As paredes de uma varanda são de um tijolo pouco espesso, com paredes simples, que tiveram como finalidade proteger a varanda” – mas não a casa. No Inverno entra demasiado frio; no Verão, como o espaço é envidraçado, há o problema do sobreaquecimento. O mesmo cuidado é preciso ao olhar para garagens e arrecadações, que “sugam o calor”.

Por fim, a questão da ventilação, que tem de ser controlada para não deixar escapar energia, mas tem de ser suficiente para não deixar acumular humidade (outro dos “sintomas” de pobreza energética).

Para algumas destas intervenções, há já apoios do Estado, que podem ser obtidos para obras tanto a nível da habitação como do condomínio, privilegiando a utilização de isolamentos térmicos ecológicos.
Apoios para painéis

Sendo a Coopérnico uma cooperativa de energias renováveis, também há alguma ajuda para decidir se vale a pena avançar, por exemplo, para a instalação de painéis fotovoltaicos?

Catarina Pereira sublinha que a prioridade do Powerpoor é resolver os problemas de eficiência energética, já que não faz sentido, por exemplo, “instalar um painel fotovoltaico para produzir energia se depois não há capacidade de a conter”. Mas é possível, sim, pedir uma ajuda para descodificar as opções nesse sentido – por exemplo, calcular os painéis fotovoltaicos para alimentar um edifício, dando o exemplo do apoio técnico que a Copérnico está a dar a uma comunidade de energia renovável em Telheiras.

Esta opção pode ser, aliás, uma solução a considerar em bairros sociais, onde a produção de energia para autoconsumo pode ajudar a aliviar os gastos de famílias com menos rendimentos.

Tendo em conta que a pobreza energética afecta as famílias não apenas do ponto de vista económico, mas também de saúde e bem-estar, Catarina Pereira considera que seria um investimento certeiro a formação gratuita dos técnicos entre as equipas de acção social das juntas de freguesia e câmaras municipais, ou mesmo associações de moradores, centros paroquiais ou IPSS, em contacto directo com famílias com dificuldades económicas que dependem de apoios do Estado e vivem em condições extremamente precárias.

A prioridade do Powerpoor é resolver os problemas de eficiência energética, já que não faz sentido, por exemplo, instalar um painel fotovoltaico para produzir energia se depois não há capacidade de a conter.

Os convites foram enviados, mas foram poucas as respostas recebidas das instituições contactadas para participar na formação destes “mentores de energia”. Ainda há tempo para isso, mas talvez menos do que se esperaria. O projecto Powerpoor deverá terminar oficialmente no final do Verão, mas a Coopérnico e os outros parceiros internacionais estão à procura de alternativas para continuar o serviço.

7.6.23

Perto de 675 milhões de pessoas em todo o mundo vivem sem eletricidade

Cláudia Páscoa, in Lusa



Perto de 675 milhões de pessoas em todo o mundo vivem sem eletricidade, a grande maioria das quais na África subsariana, de acordo com um relatório publicado terça-feira por várias organizações, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Banco Mundial (BM).

De acordo com o relatório, o mundo não está no bom caminho para cumprir o objetivo de desenvolvimento sustentável, adotado pelos Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, de garantir energia limpa e acessível para todos até 2030.

O mundo está a enfrentar "um recente abrandamento do ritmo global de eletrificação", afirmou o vice-presidente do Banco Mundial, Guangzhe Chen, em comunicado.

E embora o número de pessoas que vivem sem eletricidade tenha diminuído quase para metade na última década, 675 milhões de pessoas continuavam sem tê-la em 2021.

Cerca de 80% delas vivem na África subsaariana, onde a falta de acesso à eletricidade se manteve quase idêntica à situação em 2010.


"Embora a transição para as energias limpas esteja a progredir mais rapidamente do que muitos esperam, ainda há muito a fazer para proporcionar um acesso sustentável, seguro e a preços acessíveis a serviços energéticos modernos aos milhares de milhões de pessoas que deles estão privadas", sublinhou o diretor executivo da Agência Internacional da Energia, Fatih Birol, na declaração conjunta.

Foram feitos progressos em certas frentes, como o aumento da utilização de energias renováveis no setor da eletricidade, mas não são suficientes para atingir os objetivos da ONU.

Ao citar dados da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA), o relatório mostra também que os fluxos financeiros públicos internacionais para as energias limpas nos países de baixo e médio rendimento diminuíram desde antes da pandemia de covid-19.

De acordo com o relatório, a dívida crescente e o aumento dos preços da energia diminuem as perspetivas de alcançar o acesso universal a cozinha e eletricidade limpas.

De acordo com as projeções atuais, 1,9 mil milhões de pessoas não terão acesso a métodos de cozinha limpos e 660 milhões não terão acesso à eletricidade em 2030 sem novas medidas.

Segundo a OMS, 3,2 milhões de pessoas morrem todos os anos de doenças causadas pela utilização de combustíveis e tecnologias poluentes.

CP // RBF

Lusa/fim


13.4.23

Pobreza energética: há portugueses que passam frio para conseguir pagar as contas

in SIC


Com a subida dos preços da energia, aquecer a casa tornou-se ainda mais difícil. Quase 90% dos inquiridos num estudo diz passar frio no inverno e calor no verão. A falta de isolamento nas habitações é um dos principais problemas


A maioria dos portugueses continua a passar frio dentro de casa. Admite que, este ano, foi mais difícil de suportar o inverno devido ao aumento do custo da energia. As conclusões são de um estudo realizado, nos últimos dois meses, pelo Portal da Construção Sustentável.

O estudo, feito online, contou com participantes de todo o país. O objetivo é avaliar o desconforto térmico dos portugueses dentro de casa. Dos 1.225 inquiridos, quase 90% diz passar frio no inverno e calor no verão. A falta de isolamento nas habitações é um dos principais problemas.

Este ano, muitas famílias sentiram-se mesmo obrigadas a desligar o aquecimento nos dias mais frios para poupar nos gastos da energia. As conclusões do estudo preocupam, mas não surpreendem os especialistas que pedem há muito ao Governo um maior apoio para a construção sustentável.

Segundo a Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate a este problema, há entre um e dois milhões de portugueses a viver em situação de pobreza energética.

27.2.23

Programa de combate à pobreza energética "muito aquém" das metas - Comissão

Por Lusa, in Notícias online

O programa Vale Eficiência, para combater a pobreza energética das habitações, apenas atribuiu 11% dos incentivos previstos até final de 2022, estando "muito aquém" das metas definidas no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

O alerta consta do relatório de 2022 da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR (CNA-PRR) hoje divulgado e que recomenda a "adoção urgente das soluções" para aumentar a execução desse programa destinado a apoiar famílias economicamente vulneráveis até 2025.

"O incentivo Vale Eficiência tem ficado muito aquém da expectativa, colocando em dúvida a meta final de 100.000 vales em 2025. Em 2022 foram atribuídos quase 11.000 vales, tendo sido utilizados apenas 5.098", refere o documento.

Até ao final de 2022 foram submetidas 17.873 candidaturas de famílias e atribuídos 10.985 vales, ou seja, cerca de 11% da meta prevista, mas apenas foram utilizados na prática 5.080 vales.

"Existem 4.383 de candidaturas não elegíveis, ou seja, um quarto das candidaturas submetidas, interessando saber quais as causas da não-elegibilidade para identificar as mais frequentes e avaliar alterações que possam evitar casos futuros de não-elegibilidade", salienta a comissão.

Do total de vales atribuídos, a maioria foram para os distritos do Porto e Lisboa (37%), seguindo-se Braga (10,6%), Setúbal (8,4%) e Aveiro (7%), com os restantes distritos com uma adesão muito baixa, o que faz "antecipar um desconhecimento da medida e ou iliteracia na preparação da candidatura".

Perante estes números, a CNA-PRR recomenda, entre outras medidas, que o Governo avalie a possibilidade de alargar o Vale Eficiência a arrendatários, uma vez há uma elevada probabilidade de as pessoas que estão integradas em tarifa social estarem em casa arrendada

"Dada a baixa execução deste incentivo e o impacto potencial que pode desempenhar na redução da pobreza energética em Portugal, deve ser conferido caráter de urgência e dedicação permanente à sua resolução", sublinha também a comissão.

Quanto à medida Eficiência Energética em Edifícios Residenciais, também prevista no PRR, o relatório adianta que em 2022 estiveram abertos avisos que mereceram uma "elevada adesão por parte das famílias", o que determinou um reforço de dotação deste incentivo que agora totaliza 135 milhões de euros.

Até final de 2022, foram recebidas 106.131 candidaturas e pagas 70.261, num total de 122,5 milhões de euros, ou seja, 91% do valor disponível, "tendo as metas previstas para 2025 já sido largamente ultrapassadas", indica ainda a comissão.

O montante total do PRR (16.644 milhões de euros), gerido pela Estrutura de Missão Recuperar Portugal, está dividido pelas suas três dimensões estruturantes -- resiliência (11.125 milhões de euros), transição climática (3.059 milhões de euros) e transição digital (2.460 milhões de euros).

Da dotação total, cerca de 13.900 milhões de euros correspondem a subvenções e 2.700 milhões de euros a empréstimos.

As três dimensões do plano apresentam uma taxa de contratação de 100%.

Este plano, que tem um período de execução até 2026, pretende implementar um conjunto de reformas e investimentos, tendo em vista a recuperação do crescimento económico.

Além de ter o objetivo de reparar os danos provocados pela covid-19, o PRR tem ainda o propósito de apoiar investimentos e gerar emprego.

10.2.23

A pobreza energética não é irreversível

Basílio Simões, opinião, in Dinheiro Vivo

Provavelmente, está a ler este texto em casa, com algum tipo de aquecimento ligado, para estar confortável, nestes dias em que o sol se põe mais cedo e a temperatura começa a descer. No entanto, milhões de pessoas, em Portugal e na Europa, não têm a possibilidade de o fazer, porque continuam a viver numa situação de pobreza energética. E o futuro não nos permite grandes otimismos: o aumento dos custos da energia e a inflação vão agudizar o problema. Mas a pobreza energética não é irreversível.

A União Europeia renova, a cada ano, alertas sobre a pobreza energética. De acordo com dados do Eurostat, cerca de 35 milhões de pessoas - ou seja, aproximadamente 8% da população - não conseguiam manter as habitações adequadamente aquecidas. O impacto social, e na saúde da população, desta realidade é avassalador, com consequências sobre dezenas de milhões de europeus. Neste inverno, devido ao aumento da inflação e à crise do preço do gás e da eletricidade, muitos mais vão sentir frio e ter pela frente decisões complexas, como escolher entre aquecer a casa ou despesas igualmente básicas, da alimentação à compra de roupa.

Como fazer face a este problema? A qualidade de construção e o isolamento das habitações, em muitos casos, não ajuda. Por outro lado, ainda há muitos equipamentos pouco eficientes que continuam a ser utilizados, com muitos custos e poucos ou nenhuns resultados.

Seja no inverno ou no verão, urge combater a pobreza energética, através da promoção de boas práticas de consumo e conforto térmico em casa. A crescente eletrificação das nossas vidas, com veículos elétricos, sistemas de ar condicionado, sistemas de aquecimento e de arrefecimento de águas quentes sanitárias baseados em bombas de calor, termoacumuladores, e outros, são cada vez mais centrais na satisfação das nossas necessidades mais básicas, e ainda bem que assim é pois são escolhas efetivamente mais eficientes, com óbvios benefícios para a nossa carteira e para o planeta.

Mas como integrar tudo isto numa lógica ambiental, usando energia limpa e, sobretudo, produzida localmente para minimizar perdas? A resposta está na produção descentralizada, nomeadamente com a utilização sistemática dos telhados para produção fotovoltaica e nas Comunidades de Energia Renovável (CER), que possibilitam aos seus membros serem produtores e, ao mesmo tempo, consumidores e comercializadores de energia, sendo ressarcidos e remunerados pelo serviço providenciado ao partilharem os seus excedentes com os vizinhos que não disponham de telhados para satisfazer as suas necessidades de consumo.

Ainda há um longo caminho pela frente para democratizar esta que é já uma realidade, mas ainda apenas para alguns. Desde logo, necessitaremos de redes elétricas robustas e digitalizadas, de contadores (efetivamente) inteligentes, que forneçam dados de telecontagem (de produção e/ou consumo), em tempo real, e de sistemas interoperáveis, onde seja possível combinar as plataformas existentes no mercado com os sistemas dos operadores. No fundo, é preciso ter uma gestão otimizada dos recursos energéticos disponíveis.

Um interessante relatório da Associação ZERO, intitulado Economia de Bem-Estar - Uma Visão para Portugal em 2040, dedica uma parte às questões de energia, edifícios e mobilidade. A promoção das CER é central numa estratégia que tem por base quatro P: "propósito" para proporcionar bem-estar humano e ecológico, "prevenção" de falhas, "pré-distribuição" de uma economia focada em providenciar os resultados que as pessoas e o planeta precisam e "pessoas" empoderadas, que possam estar envolvidas nas decisões e na definição das agendas.

Também o sistema energético precisa de ser democratizado. A transição energética pressupõe a participação ativa de todos. As CER possibilitam esta participação e esta democratização, garantindo que cidadãos, empresas e instituições, públicas ou privadas, possam produzir, consumir, armazenar, vender e partilhar a energia produzida de base renovável.

As CER serão, assim, a par com as melhorias a nível do isolamento térmico das casas, uma das principais vias para o combate à pobreza energética, ao trazerem a produção de energia limpa e barata para junto de quem mais necessita dela e tem poucos meios para a adquirir.

Basílio Simões, vice-chairman e cofundador da Cleanwatts


1.2.23

“Indicadores a seguir com atenção”: portugueses estão com maiores dificuldades em manter a casa aquecida ou fazer refeições de carne e peixe

Raquel Albuquerque, in Expresso

O INE mostra que aumentou a percentagem da população com dificuldade em aquecer a casa e em comer carne ou peixe de dois em dois dias. Também se nota um agravamento das condições das casas e a habitação é uma das áreas que mais vão contribuir para um aumento da pobreza das famílias nos próximos tempos, alerta o economista Carlos Farinha Rodrigues

Ainda são poucos os dados estatísticos sobre as condições de vida dos portugueses em 2022, um ano muito marcado pela inflação, mas o Instituto Nacional de Estatística (INE) aponta para um aumento da percentagem da população que não consegue manter a casa aquecida adequadamente nem garantir uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias por não ter dinheiro suficiente. E embora estes indicadores ainda só reflitam a situação das famílias no primeiro semestre do ano, já dão sinais de algum agravamento das suas condições de vida.

“Já foram parcialmente apanhados nestes indicadores alguns efeitos da inflação e do preço da energia. Claramente, são indicadores para seguir com muita atenção porque podem dar informação muito relevante sobre as condições de vida atuais dos portugueses”, afirma o economista Carlos Farinha Rodrigues, especialista em matéria de pobreza e desigualdades.

Os dados do INE, divulgados na passada sexta-feira, mostram que um cada seis portugueses tem dificuldade em manter a casa aquecida (17,5%), tendo a percentagem subido face aos 16,4% de 2021. Já a incapacidade para ter uma refeição de carne, peixe ou equivalente vegetariano pelo menos de dois em dois dias abrange agora 3% da população (2,4% em 2021).

No ano passado, também aumentou a proporção da população pobre que vivia sem casa de banho (duche, banheira e retrete), passando de 0,7% para 1,3%. Essa evolução reflete uma “inversão de sentido” da tendência de melhoria dessas condições, segundo o INE, e chama a atenção para o problema da habitação em Portugal.

“Indiscutivelmente, nos próximos tempos, as questões da habitação vão ter cada vez mais um papel negativo na determinação da situação de pobreza das famílias”, frisa Farinha Rodrigues, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). “Continuamos a ter problemas de falta de rendimentos, mas as condições de vida das famílias também são determinadas pelo acesso a bens e serviços de primeira necessidade, como a habitação.”

Apesar de as dificuldades terem aumentado nestas áreas, há outros aspetos onde não se verificaram agravamentos na incapacidade financeira das famílias, levando a que, globalmente, o indicador da privação material não tenha aumentado entre 2021 e 2022, com base na informação recolhida pelo INE junto dos portugueses entre abril e julho de 2022.
POBREZA RECUOU EM 2021

Os dados que foram divulgados na semana passada sobre a pobreza referem-se ainda ao ano de 2021, refletindo uma “melhoria generalizada” dos indicadores. Foi possível recuperar a trajetória positiva que se registava antes da pandemia, uma vez que a população em risco de pobreza recuou de 18,4% em 2020 para 16,4% em 2021. Apesar de ficar ainda ligeiramente acima do que se registava em 2019 (16,2%), há sinais de que se retomou a situação anterior.

“Faço uma avaliação extremamente positiva que confirma a excecionalidade do ano de 2020. Temos praticamente todos os indicadores de pobreza e exclusão social a diminuírem, aproximando-se muito de 2019, que foi o ano com os valores mais baixos de sempre nos indicadores de pobreza. E isso é extremamente positivo”, sublinha o especialista.

Cobertores, aquecedor, o marido e um gato: Helena combate assim o frio num bairro social do Porto

Ana La-Salete Silva , in Público

Apesar das melhorias criadas pela requalificação dos bairros sociais do Porto, o frio parece atravessar paredes, revela o trabalho não feito e que ameaça fazer subir a factura da electricidade.

A imagem de Constância Sandeares por trás do balcão da pequena mercearia que gere no Bairro do Falcão, no Porto, é como casa para muitos dos que ali habitam. Com um xaile quente sobre as costas, recebe como família cada cliente que a visita. Ali, tudo é som: as conversas, a caixa registadora, os pedidos de ovos “bem grandes” e o roçar de casacos que podiam facilmente ser descritos com a mesma expressão e que sinalizam o frio dos últimos dias. Com vários distritos sob aviso amarelo por todo o país, as baixas temperaturas vão prolongar-se durante toda a semana e, num país onde a pobreza energética das casas é uma das piores da União Europeia, nem o sol impede o frio de ser o assunto de todas as conversas de circunstância.

Interrompida de vez em quando pelos vizinhos e clientes da mercearia, Constância, de 60 anos, fala da requalificação dos bairros sociais. Na casa onde vive desde que se lembra de ser gente, foram colocadas novas portas e janelas há cerca de cinco anos, mas as promessas de um lar mais isolado do frio não se cumpriram. Para a família de Constância, “as condições são as mesmas a nível de temperatura” e, nos últimos dias, o frio parece atravessar paredes.

Muitas vezes, Constância e o marido fazem melhorias habitacionais por conta própria e a ocasional pintura ou nova mobília são projectos pessoais que permitem que a casa fique mais sua – mas não vai além disso. Sistemas de aquecimento, isolamento ou ar condicionado são impensáveis, quando ambos os elementos do casal ganham o salário mínimo.

E para combater o desconforto do Inverno? “Ligamos o aquecedor, pomos mais um cobertor na cama, mais um casaquinho quentinho”, diz Constância Sandeares, utilizando o xaile para abraçar o próprio corpo, num movimento que repete várias vezes durante toda a conversa com o PÚBLICO. “É assim que se vai superando. A tremer, mas lá terá de ser.”

Ainda assim, a factura da luz “é caríssima”, pelo que o aquecedor é reservado apenas para os dias de muito frio, para evitar que aumentos inesperados tenham “um bocadinho” de impacto no orçamento familiar. “Ou um “bocadão”, remata, acrescentado que, nesse caso, sem apoios sociais para a tarifa da luz, teria de poupar em bens essenciais como a alimentação.

“Ter mais conforto vai custar uma pipa de massa”

Alguns metros da mercearia da dona Constância, também Helena Cardoso, sentada na sala do bloco sete do Falcão, fala dos impactos de ligar o aquecedor na factura da electricidade que lhe cai na caixa de correio. Revela que, apesar das baixas temperaturas registadas esta semana, mantém “alguma cautela” e evita usar o aparelho.

“Não vamos estar a ligar a torto e a direito, porque as facturas da luz são uma coisa doida. Com a inflação, é um Deus nos acuda! Nós sabemos que, devido ao disparar do preço da energia eléctrica, estarmos a ligar aquecimento para ter mais conforto vai custar uma pipa de massa”, afirma Lena, como é apelidada pelos vizinhos.

O seu apartamento também foi sujeito a obra, e a substituição de portas, janelas e varandas revelou-se uma mais-valia no isolamento da casa. Num sítio onde “era tudo em madeira e estava podre”, as melhorias são evidentes. “Antigamente, na varanda, tínhamos uma porta com uma abertura em baixo e tínhamos de colocar lá um cobertor ou coisa parecida, porque o frio entrava. Na casa de banho, era um terror para tomar banho”, relata.

Actualmente, tomar banho já não é um terror, mas cozinhar passou a sê-lo. Estar na cozinha é uma missão impossível devido ao “frio medonho” que, exagera, parece ser capaz de transformar qualquer pessoa num “bloco de gelo”. Isso deve-se sobretudo à marquise que foi instalada na divisão aquando da requalificação e cujo bom aspecto esconde aquele que, para Helena Cardoso, é o maior problema da sua casa ao nível da temperatura.

Durmo acompanhada com o marido e, em último caso, a gata vai lá dar uma ajudinha! Helena Cardoso

Além de isolar pouco a divisão – ao contrário das portas e janelas novas noutros pontos da casa, elogiadas pela residente –, a nova área é adornada por um laminado na parte exterior que, devido à sua inclinação para dentro, faz com que a água da chuva escorra e vá parar ao chão de casa. Na altura, Lena questionou um dos empreiteiros que trabalharam na nova marquise sobre este pormenor e ele respondeu-lhe que a posição das lâminas permitiria que o sol entrasse. “Por mim tudo bem, eu quero o sol a entrar. O que eu não queria era que entrasse o resto: a chuva, o vento, o pó…”, comenta.

Nas restantes regiões da casa, a sensação de calor e aconchego é evidente, pelo que Helena não tem motivos para se queixar e considera-se uma sortuda, porque “há pessoas a viver em condições piores”. À noite, os cobertores e a companhia do marido e da gata malhada são suficientes para poupar na factura da luz e aquecer o corpo – e o coração. “Durmo acompanhada com o marido e, em último caso, a gata vai lá dar uma ajudinha! Ficamos assim quentinhos”, brinca, entre gargalhadas.

“Se todas as pessoas tivessem o que nós temos, já era bom”

No Bairro do Cerco do Porto, os frutos das obras de requalificação já se estão a colher e, um pouco por toda a parte, os que aí habitam comentam as melhorias que sentiram na temperatura das casas, que estão, agora, mais isoladas. Interrupções causadas pela pandemia de covid-19 atrasaram o processo, pelo que alguns blocos – menos de dez – estão ainda por reabilitar.

Rosa Santos, de 58 anos, vive numa das casas que ainda não foram alvo de requalificação, mas mal pode esperar que a empreitada “que está ali ao lado” lhe bata à porta. “As pessoas dizem que as casas ficam muito confortáveis. Tenho uma vizinha que diz que a casa é quentinha e que, agora, nem precisa de ligar o aquecedor”, comenta.

Uma pessoa que só conseguia sair da cama para se sentar no sofá tinha de ter aquecimento em casa. Rosa Santos

Para já, o aquecedor continua ligado na casa de Rosa. Com algum frio e humidade nas divisões que estão em maior contacto com a rua, está habituada a pagar mais por electricidade durante o Inverno. A vida assim o exigiu: durante seis anos, cuidou do pai, que estava doente, naquela mesma casa e, entre o bem-estar dele e poupar na conta da luz, a escolha era óbvia.

“Nessa altura, tínhamos o aquecedor ligado dia e noite, portanto já estávamos habituados a pagar facturas altas. Uma pessoa que só conseguia sair da cama para se sentar no sofá tinha de ter aquecimento em casa”, observa.

Ter de gerir o orçamento familiar nesse contexto contribui para que Rosa fale tão naturalmente dos seus truques para poupar dinheiro. Quando necessário, optar pelas refeições caseiras, aproveitar as promoções e comprar menos parecem ser a chave para a sobrevivência. “Não nos falta pão na mesa. Se não der para comprar um bife de 100 gramas, dá para um de 50”, explica. Apesar de esperar grandes melhorias com as obras que, brevemente, chegarão ao seu bloco, o pequeno apartamento é um sítio onde gosta de estar. “Eu acho que, se todas as pessoas que precisam tivessem o que nós temos, já era bom”, conclui.

Texto editado por Andrea Cunha Freitas

ZERO critica demora da Estratégia para Combate à Pobreza Energética

Por Antena 1, in RTP

Tarda em sair do papel a Estratégia Nacional para o Combate à Pobreza Energética. A estimativa é de que existam cerca de três milhões de habitantes com dificuldades para manter as casas aquecidas. Sendo que quase 700 mil vivem em pobreza energética severa.Francisco Ferreira, da associação ambientalista ZERO, critica a demora na implementação desta estratégia, que reentra em consulta pública depois de uma primeira fase, há já 20 meses.

O ambientalista considera que os vales eficiência com o valor médio de 1.300 euros para distribuir a estas famílias são insuficientes.

Com a Estratégia Nacional para o Combate à Pobreza Energética, o Governo quer passar de quase 17,5 para dez por cento a percentagem de portugueses que não conseguem aquecer as casas.


25.1.23

Há pelo menos 660 mil pessoas em pobreza energética severa

Ana Brito, in Público online

Até 2030, Estratégia Nacional de Combate à Pobreza Energética quer reduzir de 17,4% para 10% a percentagem de portugueses sem dinheiro para aquecer a casa no Inverno.

Portugal tem entre 660 a 680 mil pessoas que vivem numa situação de pobreza energética severa, o que significa que pertencem a “agregados familiares em situação de pobreza cuja despesa com energia representa +10% do total de rendimentos” e que acumulam a “situação de pobreza monetária ou económica” com a impossibilidade de manterem as suas casas em condições de conforto térmico.

O número surge na Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2022-2050 (ENLPCPE 2022-2050), que o Governo colocou recentemente em consulta pública (até 3 de Março) e que entende ser “consensual considerar que a franja da população que se encontra em situação de pobreza monetária se encontra também em situação de pobreza energética”.

Garantir maior conforto nas habitações, mais rendimento disponível e melhor qualidade de vida e saúde para as famílias e indivíduos em situação de pobreza energética são os principais objectivos desta estratégia, que se assume estar interligada com outra estratégia nacional, a Estratégia de Longo Prazo para a Renovação dos Edifícios (ELPRE), que ambiciona dotar o país de um “parque de edifícios descarbonizado e de elevada eficiência energética” (partindo de um cenário em que quase 70% dos edifícios tem classe de eficiência C ou abaixo disso).

Segundo o documento colocado em consulta pública pelo Ministério do Ambiente e da Acção Climática (MAAC), a pobreza energética afecta entre 1,8 milhões a três milhões de portugueses, consoante o critério de avaliação seja as condições de vida dos agregados familiares (se têm ou não capacidade “para manter a casa adequadamente aquecida” — e estima-se que em 17,4% dos agregados isso não seja possível) ou o peso da factura energética nos rendimentos (pelo menos três milhões de pessoas pertencem a agregados familiares em que a factura energética consome um décimo do orçamento).

Daí que o documento considere que é possível “graduar a pobreza energética de acordo com a sua severidade” para “criar as melhores respostas devidamente adaptadas ao público-alvo”, considerando que cerca de 660 a 680 mil vivem situações mais dramáticas e “entre 1,1 a 2,3 milhões de pessoas [vivem] em situação de pobreza energética moderada”.

A pobreza energética, que afecta em larga escala as famílias monoparentais e os idosos, é “uma forma distinta de pobreza que está associada a uma série de consequências adversas em relação à saúde e ao bem-estar dos indivíduos, como problemas respiratórios, cardíacos e de saúde mental, devido à falta de condições habitacionais e de rendimento”.

Ao facto de não conseguir manter uma temperatura adequada em casa, junta-se o “stress resultante da incerteza de conseguir suportar os custos de bens essenciais”, lê-se no documento, que recorda os dados de 2019 do Eurostat, que apontam para que 26,6% da população em agregados constituídos por apenas um adulto “não tenham capacidade para manter a casa suficientemente aquecida”, o mesmo acontecendo com 23,3% dos agregados compostos por um adulto com crianças a cargo.
Apoio ao preço

“Quanto mais severo for o caso de pobreza energética, maiores as consequências”, daí que, entre as medidas previstas para mitigar a situação, persistam os “mecanismos de apoio ao preço”, como as tarifas sociais de electricidade e gás, que continuarão a ser utilizadas, de forma a “alcançar reduções nos encargos com os consumos de energia, permitindo assim um aumento no rendimento disponível das famílias”.

A atribuição de vales a famílias vulneráveis para melhorar a eficiência energética das habitações continua na agenda pelo menos até 2025, bem como a atribuição de apoios, incluindo “apoios não reembolsáveis” a proprietários e arrendatários para intervenções como o isolamento térmico ou a “substituição e/ou adopção de equipamentos e sistemas energeticamente eficientes, promovendo a electrificação dos consumos”.

Outra prioridade é garantir o acesso das famílias em situação de pobreza “a novas formas de produção de energia”, como o autoconsumo e as comunidades de energia renovável (CER), incluindo a criação de “estímulos e incentivos aos promotores” para que desenvolvam estes projectos.

Entre outras medidas, a estratégia em consulta pública também admite a possibilidade de “criação de mecanismo(s) de apoio extraordinário(s) à factura da energia direccionado às famílias em situação de pobreza energética, especificamente para fazer face à ocorrência de fenómenos adversos e extremos (ex.: vaga de frio; vaga de calor)”.

São situações que “provocam um aumento significativo das necessidades energéticas com vista à obtenção de conforto térmico”.

O desenvolvimento de “estratégias locais” de combate à pobreza energética, nomeadamente com a articulação com municípios e agências regionais de energia, é outro dos caminhos defendidos, bem como a criação de incentivos fiscais para acções comprovadas de melhoria no desempenho energético da habitação.
Menor peso da energia no rendimento

Se as várias medidas forem postas em prática e funcionarem, daqui até 2050 há vários “objectivos indicativos” que a estratégia prevê atingir.

Uma das metas visa que a população a viver em agregados sem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida recue dos 17,4% de 2020 (segundo o INE) para 10% em 2030, 5% em 2040 e menos de 1% em 2050.

Se se estima que existam hoje três milhões de pessoas em agregados que despendem 10% dos rendimentos em despesas energéticas (dados de 2016, do INE), o total deverá cair para 700 mil em 2030, 250 mil em 2040 e zero pessoas em 2050.

A percentagem de população que vive actualmente em habitações com problemas de infiltrações, humidade ou pavimentos, paredes, janelas ou telhados apodrecidos deverá descer dos 24,4% (dados de 2019, do Eurostat) para 20% em 2030, 10% em 2040 e menos de 5 % em 2050.

Além disso, o Governo espera também que diminua o número de pessoas que não vivem em casas “confortavelmente frescas durante o Verão” dos 35,7% (dados de 2012, do Eurostat), para 20% em 2030, 10% em 2040 e menos de 5% em 2050.

5.1.23

Ministério da Habitação "é aposta numa sociedade mais digna e inclusiva", diz Rede Europeia Anti-Pobreza

Sérgio Costa, in RR

Criação do ministério traduz um reconhecimento da "atenção necessária" para a "libertação de uma parte da sociedade portuguesa de situações de miséria", realça o padre Jardim Moreira.

A Rede Europeia Anti-Pobreza (REAPN) considera que o aparecimento de um Ministério da Habitação é um passo importante rumo à dignificação e inclusão da sociedade portuguesa, sublinha

Em declarações à Renascença, o presidente da REAPN, o padre Jardim Moreira, salienta que a habitação é "um dos pilares fundamentais para atacar a pobreza nas suas causas". "É um ponto fundamental para resolver a falta de condições de higiene, de saúde e de autoestima", refere o presidente da EAPN Portugal.

"Muita gente, particularmente entre grupos étnicos, precisa de ter água, luz e aquecimento."

Segundo Jardim Moreira, as famílias mais pobres vivem em "casas desadequadas e sem condições", num momento em que é "fundamental cuidar" da habitação em Portugal. "E é grave, porque não há gente para a construção."

Nesse sentido, o presidente da EAPN Portugal vê no novo ministério da Habitação um reocnhecimento da necessidade de apoiar "uma parte da sociedade portuguesa" para a qual a "habitação é essencial para a sua dignificação, para a sua libertação das situações de miséria em que vivem e para a inclusão de muita gente que vive em barracas".

Até ao momento, Jardim Moreira considera que as políticas de habitação têm falhado no país. "Tem havido aqui e acolá, geralmente através de municípios e através de fundos nacionais, mas a verdade é que o inquérito [que] foi feito aos municípios mostrou a quantidade de milhares de pessoas que não tinham casa digna, aquecimento, ou higiene."

O setor tem sentido "novas dificuldades, que não eram previsíveis há uns anos e que neste momento se acumulam". E o padre acredita que a situação "tem piorado, de algum modo".

"Muita gente não tem dinheiro para pagar a renda, não tem dinheiro para pagar casas novas e vão-se sujeitando a situações cada vez mais difíceis."

A tónica colocada na habitação "é uma aposta que se torna muito importante para a construção de uma sociedade mais digna e mais inclusiva", remata o presidente da EAPN Portugal.

19.12.22

Como Portugal está a fintar a crise energética

Miguel Prado, in Expresso

A Europa ainda não sabe como vai gerir os próximos invernos, consumado o divórcio do gás russo. Portugal não passou incólume, mas também não viveu o drama de outros parceiros europeus. As renováveis estão a revelar-se como um seguro contra a volatilidade de preço. E o país tem uma enxurrada de grandes projetos fotovoltaicos a nascer. Serão a chave para trancar futuras crises energéticas do lado de lá do nosso quintal?

O quotidiano de Nuno Santos Silva, 36 anos, é um trabalho repartido entre o ar puro do Alentejo e um pequeno escritório num contentor instalado no meio de uma central solar. Não é uma central qualquer. A Ourika foi a primeira fotovoltaica de larga escala a entrar em operação em Portugal sem qualquer subsidiação. Fruto de um investimento de €35 milhões, foi inaugurada em 2018, ocupando cerca de 100 hectares em Ourique. Pertence hoje à seguradora alemã Allianz, que nos últimos anos decidiu apostar em ativos de energias renováveis, uma fonte de rendimento de longo prazo com relativa previsibilidade: enquanto houver sol, há eletrões que rendem cifrões. E é Nuno quem diariamente se desloca à central, como supervisor da manutenção. O funcionário da Prosolia, a empresa luso-espanhola que desenvolveu este empreendimento, acompanha o empreendimento desde 2018. Antes vivia em Castro Verde e trabalhava na Somincor. É uma história, entre tantas outras, de uma geração de engenheiros a viver do impulso que as renováveis tiveram em Portugal nos últimos anos. Esta vaga de investimentos que promete continuar. E é uma peça-chave para a resiliência do país num quadro de profunda insegurança que a Europa vai vivendo no domínio energético.

Numa sexta-feira solarenga de novembro Nuno Santos Silva explica-nos que as centrais fotovoltaicas precisarão sempre de intervenção humana. “Temos vários tipos de manutenção corretiva e preventiva. O painel solar tem uma degradação que pode ser causada por sombras, com falhas de energia. E há ratos que roem cabos. Mas eles já cá estavam. Nós é que viemos para cá ocupar o seu espaço”, aponta. Ratos, coelhos, cobras e ovelhas são visitantes habituais de uma central que ocasionalmente também recebe visitas de estudo. A central Ourika só emprega três pessoas em permanência, mas as operações de manutenção ao longo do ano envolvem mais 30 a 40 pessoas, de diferentes empresas.

Esta corrida ao ouro, se assim se pode chamar à febre pelo licenciamento de grandes fotovoltaicas, está a gerar novas fontes de rendimento para quem tem terrenos disponíveis para arrendamentos de longo prazo com promotores fotovoltaicos, dispostos a pagar em torno de €1000 anuais por hectare. E Nuno Santos Silva assegura que não falta quem ande à procura de fazer negócio com os seus terrenos, para aí instalar parques solares. “Recebo uns 10 a 12 telefonemas por semana”, conta-nos o responsável da Prosolia em Ourique, que também acompanhou um outro projeto de larga escala, em Alcoutim, no Algarve, que permitiu ao proprietário de um restaurante local fazer centenas de refeições diárias para os trabalhadores da central e faturar mais em dois anos de construção do empreendimento do que em 20 anos de trabalho na Suíça.

Percorremos os caminhos que atravessam a central solar, passamos pelas ruínas de um antigo moinho e chegamos a um pequeno edifício junto ao transformador do empreendimento, uma enorme máquina que ainda leva a marca Efacec, uma referência na indústria nacional que vem enfrentando ao longo dos últimos anos profundas dificuldades. São 13h, a temperatura exterior é de 21 graus, a superfície dos módulos fotovoltaicos está a 39, mostram os ecrãs que Nuno Santos Silva vai monitorizando. Cada megawatt hora (MWh) a mais de eletricidade solar é um MWh a menos de eletricidade gerada a partir da queima de gás natural. E isso pode fazer alguma diferença numa Europa que luta para assegurar o aquecimento dos próximos invernos, livre de gás russo. A crise energética foi exacerbada pela guerra na Ucrânia. Mas começou bem antes da invasão.

COMO COMEÇOU A CRISE

Quando, em fevereiro deste ano, a Rússia invadiu a Ucrânia, o contrato de referência de gás natural na Europa, o holandês TTF (sigla para Title Transfer Facility), rondava os €90 por MWh. A cotação disparou com a guerra, e em agosto chegou a quase €350 por MWh. Desde então, o preço do gás aliviou. Mas a verdade é que bem antes do início da guerra já o preço do gás tinha iniciado uma escalada. Transacionado a menos de €20 até maio de 2021, o gás natural viu a cotação subir a partir do verão, atingindo um pico de mais de €130 por MWh a 22 de dezembro de 2021.

Esta subida teve consequências nefastas. Contagiou os preços grossistas da eletricidade (já que boa parte dela é produzida em centrais alimentadas a gás) e penalizou uma longa lista de indústrias fortemente dependentes do gás. Também atingiu muitas famílias, mas com efeitos mitigados por algumas medidas adotadas pelo Governo ao longo do último ano.

Numa análise publicada em janeiro deste ano, o investigador Mike Fulwood, do Oxford Institute for Energy Studies, lembra que na primavera de 2021 a Europa ainda tinha reservas de gás natural ligeiramente acima do habitual no período pré-pandemia. Mas no verão a produção europeia de gás baixou e as importações da Rússia também. Isso levou o Velho Continente a importar mais da Argélia, Irão e Azerbaijão. Só que não era só a Europa à procura de gás: China, Japão e Coreia do Sul, à procura de acautelar o inverno seguinte, e países como Brasil e Chile, a braços com uma quebra da produção hídrica, também estavam fortemente importadores de gás, impulsionando o seu preço. A análise de Mike Fulwood nota ainda que os dados disponíveis indiciam que no final de 2021 a Gazprom estava a reter volumes de gás por razões geopolíticas (pressionando a Comissão Europeia a aprovar o gasoduto Nord Stream 2) ou para manter os preços elevados. “A crise energética agudizou-se na Europa depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia, mas já estava em formação há algum tempo, devido ao subinvestimento em projetos de petróleo e gás devido às preocupações climáticas. A pandemia de covid-19, com níveis de investimento e de atividade mais baixos, acelerou o declínio, e a invasão russa da Ucrânia amplificou o choque do lado da oferta”, afirma ao Expresso o presidente executivo da Galp, Andy Brown.

Quase metade da produção elétrica em Portugal ainda tem um sistema de preços garantidos. Abrange energia eólica, solar e outras fontes limpas


Ainda hoje, quando nos preparamos para entrar em 2023, “o mercado do gás todo ele está curto”, frisa Nuno Ribeiro da Silva. O professor do ISEG acredita que “há condições para 2023 ser menos penalizador do que tem sido este ano” e não vê razão para “estamos a pôr um sinal de alarme para o inverno de 2023/2024”. Mas a situação da Europa é ainda frágil. “Houve realmente uma reação bastante empenhada que permitiu à Europa ter um reforço de stocks, o que é um ponto positivo”, contextualiza o especialista, ressalvando, contudo, que o facto de as reservas europeias de gás estarem hoje a mais de 90% não é uma garantia de que tudo correrá bem no próximo ano, até porque em alguns países a capacidade de armazenamento cobre o consumo de apenas um mês. Com tanques momentaneamente cheios, e sem capacidade de receber mais gás nos poucos terminais existentes, a cotação da energia transportada pelos navios metaneiros baixou. “Esta situação vai alterar-se quando for necessário encher outra vez o armazenamento”, alerta Jorge Vasconcelos, antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos e fundador da consultora New Energy Solutions.

De resto, o aperto não ocorreu só no gás natural. Os combustíveis rodoviários também encareceram com a retoma da procura depois da forte contração da pandemia. A guerra na Ucrânia acentuou as incertezas. O gasóleo passou a ser mais caro que a gasolina. Isso deveu-se ao facto de a Europa, que é em termos líquidos importadora de gasóleo, se ter visto obrigada a encontrar outras fontes de fornecimento para reduzir a sua dependência da Rússia. E com uma capacidade de refinação menor do que era há uns anos, a Europa viu subir as cotações das matérias-primas. As margens de refinação alcançaram patamares inéditos. E contribuíram, juntamente com preços elevados do crude, que a generalidade das petrolíferas obtivesse, sobretudo no primeiro semestre, lucros muito maiores que os dos anos anteriores. E com isso a Comissão Europeia lançou o chamado windfall tax (imposto sobre os lucros excessivos, ou inesperados, ou caídos do céu, da indústria dos combustíveis fósseis). Entre as empresas alvo desse novo imposto, temporário, está a Galp, cujo lucro ascendeu a €608 milhões até setembro, mais 86% do que no ano passado. A maior parcela desses ganhos vem da exploração e produção de petróleo (sobretudo no Brasil).

UM NOVO CONTEXTO TAMBÉM PARA AS EMPRESAS DE ENERGIA

“Na Galp, tivemos de encontrar rapidamente novas opções de aprovisionamento para alguns dos produtos que alimentam a nossa refinaria, e tivemos que reconfigurar completamente a nossa rede de hedgings financeiros para um mundo de intensa volatilidade. Tivemos igualmente de adotar medidas de apoio aos nossos clientes nestes tempos difíceis”, sublinha o presidente-executivo da empresa. “Esta crise veio confirmar que a nova ordem mundial que se tem vindo a construir exige precisamente o tipo de investimentos com os quais a Galp está comprometida, nas energias renováveis, no hidrogénio, na cadeia de valor das baterias de lítio e na inovação, continuando ao mesmo tempo a desenvolver os projetos tradicionais de petróleo e gás que ainda são essenciais para manter o mundo em movimento”, nota Andy Brown.

Na concorrente EDP, a crise energética também teve o seu impacto. O presidente-executivo da EDP, Miguel Stilwell de Andrade, diz ao Expresso que a gestão da empresa se confrontou com desafios “a diversos níveis. Tornou-se ainda mais crítico assegurar a disponibilidade dos nossos ativos, seja de geração ou distribuição, para garantir a segurança do abastecimento, numa altura em que algumas fontes energéticas estão limitadas”, aponta. Os impactos nas cadeias de abastecimento obrigaram a uma “gestão atenta” do plano de investimento, e a escalada de preços levou a empresa a procurar “mitigar esses impactos nos clientes”, ao mesmo tempo que tentava lidar com a “incerteza regulatória”. Segundo Stilwell, a EDP também reforçou os sistemas de cibersegurança.

E também para pequenos comercializadores de energia esta crise foi um desafio. Pedro Morais Leitão lidera, a partir de Viseu, a Luzboa, um fornecedor de eletricidade com cerca de 5 mil clientes. “Quando começou a crise energética começámos a sentir ansiedade numa faixa de consumo. Perdemos imensos clientes, quer na tarifa fixa, quer na tarifa indexada [aos preços grossistas], porque se gerou um pânico generalizado sobre o preço de mercado”, recorda o gestor. E Pedro Morais Leitão lamenta que o custo do mecanismo ibérico não esteja a ser cobrado aos consumidores do mercado regulado, porque "isso está a viciar o mercado e a fazer com que o custo do ajuste por kWh não diminua mais rapidamente". Este mecanismo foi criado por Portugal e Espanha para reduzir o efeito de contágio das cotações do gás natural no preço grossista da eletricidade, diminuindo os ganhos de diversos produtores de eletricidade estavam a ter à boleia da escalada do gás, mesmo sem recorrerem ao gás (como é o caso das hidroelétricas). Esse mecanismo contempla uma compensação às centrais a gás, mas é suportada pelos consumidores de eletricidade, mas não todos: os clientes com tarifas reguladas não foram chamados a pagar o ajuste, ficando numa posição de vantagem face às faturas praticadas no mercado liberalizado. Este mecanismo é uma parte da explicação de como a Península Ibérica conseguiu, no curto prazo, amenizar o disparo dos preços da eletricidade, evitando um impacto tão dramático da crise energética no consumidor final como o que se verificou noutros países do centro e norte da Europa. Para a Luzboa, a gestão da crise começou logo em outubro do ano passado. “Renegociámos contratos, porque estávamos a comprar eletricidade mais cara do que a que estávamos a vender”, explica Pedro Morais Leitão. O gestor admite que houve casos de atrasos de pagamento. “Tivemos que fazer muito esforço de tesouraria, mas fomos sempre solidários com os nossos clientes”, assegura o fundador da empresa.

Ana Sofia Ferreira, jurista da associação de defesa de consumidores Deco, indica ao Expresso que este ano até novembro a Deco recebeu 3264 pedidos de apoio e aconselhamento especificamente relacionados com temas de energia, em especial com situações de faturas mais elevadas e questões sobre o mercado regulado. Em 2021, no mesmo período, a Deco tinha registado 2283 pedidos do género. “Verificámos efetivamente um aumento”, afirma a jurista, ressalvando, contudo, que são residuais os episódios que chegam à associação de famílias que não conseguem pagar a conta da luz ou do gás e que são confrontadas com avisos de corte. A mesma responsável concede que Portugal está aparentemente a resistir melhor à crise energética do que outros Estados-membros. “Na Europa há países onde os consumidores estão a sentir esta crise de forma mais acentuada. Então nos mercados com tarifas dinâmicas [que variam dia a dia ou hora a hora] os clientes estão a sentir um impacto brutal, e a mudança para tarifas reguladas não é tão fácil”, afirma. Ana Sofia Ferreira nota ainda que em Portugal “os aumentos [dos preços da energia] são controlados, mas a taxa de esforço é maior”. É que a subida das faturas de eletricidade e gás vem juntar-se ao aumento da prestação da casa e à inflação generalizada dos mais diversos produtos. “Temos famílias em Portugal, incluindo na classe média, em que a margem de manobra na gestão do orçamento familiar é já muito baixa. Há países na Europa que estão pior do que nós, mas as famílias portuguesas estão já muito pressionadas”, constata a jurista da Deco.


Uma das bandeiras do Governo na gestão da crise energética foi a reabertura do mercado regulado do gás natural, permitindo a 1,3 milhões de consumidores fugir aos aumentos de preços anunciados pelos principais fornecedores do mercado liberalizado. No gás de botija vigorou um regime de preços máximos até ao final de outubro. Para as famílias de menores rendimentos foi concedido um prolongamento de quatro meses do apoio mensal de €10 na compra de gás de botija. Na eletricidade o regulador da energia propôs para as tarifas reguladas de 2023 um aumento dos preços finais para clientes domésticos de 1,1% e o maior comercializador do mercado livre, a EDP, anunciou uma atualização de cerca de 3%. Se somados aos que já ocorreram ao longo de 2022, serão aumentos muito aquém dos praticados pelas elétricas pela Europa fora. O que explica isso?

UM MILAGRE NACIONAL?

Dados do Eurostat analisados pela ERSE — Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) indicam que no primeiro semestre deste ano o preço médio da eletricidade na União Europeia para clientes domésticos era 12% superior ao preço médio em Portugal, enquanto o preço médio europeu para clientes industriais era 35% superior ao nacional. As famílias espanholas pagavam mais 38% pela eletricidade que as portuguesas, e as indústrias do país vizinho gastavam mais 48% que as portuguesas. No que toca às famílias, Portugal regista preços ligeiramente acima dos franceses, mas muito abaixo dos praticados em Espanha, Itália e Alemanha, por exemplo.

Os preços médios da eletricidade em Portugal, segundo o Eurostat, baixaram entre 2018 e a primeira metade de 2021, e a partir daí tiveram uma subida, mas bem mais ligeira do que a observada pela média europeia. Em 2023 os preços aos clientes finais em Portugal permanecerão controlados. “Com o decréscimo das tarifas de acesso à rede acreditamos que os nossos clientes poderão ter em janeiro uma agradável surpresa”, admite Pedro Morais Leitão, da Luzboa. De facto, a proposta tarifária da ERSE para 2023 contempla uma queda muito acentuada das tarifas de acesso à rede, que permitirá mitigar a maior parte do acréscimo do custo da eletricidade no mercado grossista.

Este aparente “milagre nacional”, no que respeita à contenção dos preços da eletricidade em clima de crise energética, é em boa medida explicado pelo desenho do nosso mercado. Quase metade da produção elétrica em Portugal ainda tem um sistema de preços garantidos (produção em regime especial, ou PRE), que estão muito abaixo do preço grossista que o regulador da energia projeta para 2023. A referida PRE abrange sobretudo energia eólica, mas também alguma energia solar e outras fontes limpas. “Em vez de um sobrecusto das renováveis, como existiu no passado, temos agora um sobreganho que contribui para uma redução das tarifas e constitui um seguro contra subidas mais expressivas do preço da energia”, nota Miguel Stilwell de Andrade. “Comparando Portugal com outros países, vemos que ao nível da regulação e do impacto dos subsídios a regulação em Portugal foi mais previdente que noutros países”, acrescenta Jorge Vasconcelos. Se no passado as renováveis do regime especial tinham preços garantidos que saíam mais caros do que os ditos “preços de mercado”, em 2021 e 2022 saíram mais baratas que o “mercado”, e tudo indica que em 2023 também mantenham essa vantagem. Quanto aos anos seguintes, há algumas nuvens no horizonte, mas o sol poderá dissipá-las.

SOL PARA TODOS?

Não é só pelo efeito de preço garantido que a incorporação de renováveis na rede elétrica beneficiou, nos últimos dois anos, os consumidores de energia. Há também um efeito de volume: quanto mais eletricidade renovável é injetada na rede, menor é a necessidade de satisfazer o consumo a partir de centrais alimentadas a gás natural (ou a partir de hidroelétricas com armazenamento, que, embora sejam também renováveis, tendem a cobrar preços similares aos das centrais a gás).

Em Portugal a potência fotovoltaica está a crescer de forma pronunciada. Os agentes do setor estão cientes de que esta nova capacidade é apenas parte da equação: o sol só brilha de dia, e à noite o país continuará a precisar de outras fontes, como a hídrica e a eólica e, como solução transitória de backup, as centrais a gás. Em setembro Portugal tinha já 2,4 gigawatts (GW) fotovoltaicos, mais do dobro dos 1,1 GW de final de 2020. E do total instalado no país 757 megawatts (MW), ou 0,75 GW, correspondem a unidades de produção para autoconsumo (UPAC). O negócio do autoconsumo está a avançar em paralelo com o das grandes fotovoltaicas, com o benefício comum de reduzir a necessidade de o sistema elétrico recorrer a centrais termoelétricas. Isso diminui a exposição do país a energia importada e à volatilidade de preços associados a disputas exógenas. O reverso da medalha é que a aposta na energia solar está ancorada numa outra dependência externa perniciosa: a China detém quase 75% da capacidade mundial de fabrico de módulos fotovoltaicos (e a Europa somente 2,8%), e a quota chinesa é ainda maior no que concerne aos componentes desses painéis, segundo dados da Agência Internacional de Energia. Uma dependência que se estende às matérias-primas usadas no fabrico de baterias ou de turbinas eólicas. “É um problema, porque passamos a estar na mão de um fornecedor, que neste momento é um parceiro fiável… mas e se não for?”, alertava há dias o diretor-geral de Energia e Geologia, João Bernardo, numa conferência da Associação Portuguesa de Energia.

Apesar disso, os projetos fotovoltaicos vão sendo construídos. Bom, nem todos. A mesma empresa que inaugurou em 2017 a primeira central solar não subsidiada do país tem em mãos um complicado processo de licenciamento para o que poderá ser a maior fotovoltaica do país, a instalar em Santiago do Cacém. O projeto chama-se THSiS — The Happy Sun is Shining, e a luso-espanhola Prosolia viu a gigante Iberdrola juntar-se ao investimento. Se for em frente, será a primeira central solar com mais de 1 GW de potência. A primeira consulta pública começou em fevereiro de 2021. No final do ano o projeto foi reformulado, para acomodar objeções levantadas pela Agência Portuguesa do Ambiente. Os promotores tiveram, por exemplo, de incluir cortinas arbóreas para que os painéis não fiquem visíveis a partir das habitações que circundam o terreno, ainda que várias dessas moradias tenham elas próprias painéis solares, como o Expresso constatou numa visita ao terreno. Pela sua dimensão, trata-se de um projeto inédito em Portugal. Terá uma área vedada de 1245 hectares, que hoje pertencem a um único proprietário, que aí explora um extenso eucaliptal. O dono desta extensa área já acordou arrendar os terrenos, trocando as receitas da venda da madeira de um milhão de eucaliptos pelas rendas da instalação de 2 milhões de painéis fotovoltaicos.


Quanto mais eletricidade renovável é injetada na rede, menor é a necessidade de satisfazer o consumo a partir de centrais alimentadas a gás natural


Enquanto tenta licenciar a gigacentral de Santiago do Cacém, a mesma Prosolia vem avançando com outros negócios, no segmento do autoconsumo. Um dos mais recentes foi uma instalação fotovoltaica com 3,2 megawatts na fábrica que a Renova tem em Torres Novas. Os painéis solares para já apenas cobrem 4% do consumo global da fábrica. É um primeiro passo, explicou João Andrade Tavares, administrador e acionista da empresa, durante uma visita do Expresso à fabricante de papel higiénico e guardanapos. A energia representa um terço dos custos da Renova (o pessoal pesa 20% na estrutura de custos e o resto são encargos com matérias-primas). Todos os meses a empresa gasta mais de €1 milhão com eletricidade e perto disso com gás natural. A ideia de avançar para o autoconsumo surgiu há cerca de cinco anos, mas a concretização tardou. “Demorou mais tempo do que eu gostaria, mas faz imenso sentido fazer isto e muito mais”, refere o engenheiro, revelando que a Renova já identificou projetos potenciais para instalar até 30 MW de capacidade fotovoltaica. Isso criaria uma potência excedentária face às necessidades da fábrica, mas permitiria, por exemplo, produzir hidrogénio verde para incorporar no gás natural usado no processo industrial da Renova.

João Tavares diz-nos que a Renova beneficiou até hoje de ter 80% do seu consumo elétrico coberto por um contrato de preço fixo, mas esse contrato está a acabar, e no início do novo ano a empresa ficará totalmente exposta ao preço de mercado (exceto nos volumes produzidos pelos painéis solares). “Nos últimos meses tenho tido mais preocupação. Os custos dos nossos produtos dependem disto. Não vivo atormentado com o preço da energia, mas é um ponto importante que é preciso ter em conta”, refere o gestor. Que tem uma outra preocupação: o licenciamento de projetos de autoconsumo. Pedro Pereira da Silva, diretor-geral da Prosolia em Portugal, acompanha-o. “A capacidade da Direção-Geral de Energia e Geologia não acompanha as necessidades das fábricas. O crescimento de pedidos [de ligação de projetos] tem sido exponencial, tal como é exponencial o stresse dos industriais em ter as coisas prontas”, aponta. Este é, aliás, um sentimento dominante no setor da energia. Miguel Stilwell de Andrade, presidente executivo da EDP, avisa que “processos lentos e burocráticos vão continuar a colocar em causa decisões de investimento que podem acelerar a transição e mitigar a volatilidade de preços”. Pedro Morais Leitão, da Luzboa, corrobora que “o mercado do autoconsumo está muito dinâmico” e nota que a sua empresa já compra os excedentes de autoconsumo de quase 2 mil instalações, que vão desde clientes residenciais com 1 kilowatt instalado a empresas com centrais de 1 megawatt na cobertura da fábrica. “Vai continuar a haver uma procura muito grande de soluções de autoconsumo solar”, vaticina. “Estamos realmente a investir no nosso futuro e na independência energética”, acrescenta o gestor. E há uma outra ferramenta para enfrentar o choque de crises como a que a Europa está a viver: a eficiência energética. Ana Sofia Ferreira, da Deco, defende que o Governo vá mais longe em iniciativas como o Vale Eficiência e Edifícios Mais Sustentáveis. Essas duas linhas de apoio a despesas com eficiência energética nas habitações excluem arrendatários, por exemplo. Algo que precisa de ser corrigido, para incentivar quem não tem casa própria a investir e a conseguir reduzir o consumo, sustenta a jurista da Deco.

E haverá pontos positivos na crise energética do último ano e meio? “A perceção de que temos que acelerar as energias alternativas, não só pela urgência inerente às questões climáticas, mas também para que a Europa desenvolva uma independência energética mais forte”, aponta Andy Brown. O CEO da Galp lembra os “objetivos ambiciosos” do pacote RepowerEU, apresentado pela Comissão Europeia. Mas o gestor realça que esta transição não será indolor. Será inevitável pagarmos mais pela energia que consumimos. “Infelizmente, isso é algo a que todos teremos de nos habituar. Temos que mudar completamente o sistema energético, a forma como a energia é produzida (através de renováveis) e a forma como é consumida nos transportes e na indústria. Isto requer um investimento maciço”, frisa Andy Brown. Miguel Stilwell de Andrade concorda. “Esta crise veio tornar ainda mais evidente que a transição energética é fundamental e tem de ser acelerada”, aponta o gestor.

Numa Europa que ainda não sabe o preço a pagar para assegurar os próximos invernos, Portugal parece estar mais preparado para acelerar a incorporação de renováveis na produção elétrica. Mas a eletricidade representa para já apenas um quarto do consumo de energia final no país. Há um longo caminho a percorrer para reduzir a dependência do exterior e a exposição à volatilidade dos mercados internacionais. Mais de 44% do consumo de energia final ainda são produtos do petróleo. E 11% gás natural. A eletrificação de parte desses consumos será um contributo para aumentar a autonomia energética do país. E a produção de combustíveis sintéticos ou gases renováveis, como o hidrogénio verde, será outra via. Para que aconteça precisará de elevados volumes de fontes limpas. Incluindo grandes centrais fotovoltaicas. Portugal já tem o seu lugar ao sol para driblar novas crises energéticas.

21.11.22

Pobreza energética preocupa a Município de Lisboa

por TV Europa

Na reabilitação, os projetos de arquitetura estão a ser aprovados em dois meses e o licenciamento na construção de casas novas está mais célere, indicou a Câmara Municipal de Lisboa. Futura Carta Municipal de Habitação vai combater deficiência energética.

Futura Carta Municipal de Habitação de Lisboa vai focar-se no combate à pobreza energética revelou a vereadora da Habitação, Filipa Roseta.

Dados da Agência de Ambiente e Energia de Lisboa, Lisboa-E-Nova, revelam que a pobreza energética na cidade concentra-se no centro histórico e nas freguesias onde existem mais bairros sociais, zonas em que o número de beneficiários da tarifa social de energia é mais expressivo.

A Carta Municipal de Habitação de Lisboa, que está em desenvolvimento, irá também ter em conta os Direitos Sociais para a política de habitação na cidade. Neste sentido a vereadora com o pelouro, Joana Almeida, referiu na reunião do Conselho Municipal de Habitação de 2022, que “na construção de casas novas foram implementadas medidas para tornar o licenciamento mais célere”, e que na reabilitação de fogos já se estão a “aprovar projetos de arquitetura em dois meses no âmbito do serviço As Minhas Obras”.

Joana Almeida acrescentou ainda que a Câmara Municipal de Lisboa (CML), nas questões da habitação, está focada “em quatro linhas de ação: celeridade, clareza, comunicação e transparência”.

Também no âmbito dos Direitos Sociais a vereadora Sofia Athayde esclareceu que irão aumentar “o número de apartamentos partilhados” e reforçar “as respostas de apoio local”, e anunciou que irão ter início as obras de requalificação do centro de acolhimento do Beato, projeto aprovado para financiamento pelo PRR.

Filipa Roseta referiu que um investimento de 40 milhões de euros na Gebalis irá reabilitar edifícios e casas vazias nos bairros municipais, e assim, afetar 200 casas para as famílias mais pobres da cidade.

A vereadora lembrou que enquanto se avança na cocriação da Carta Municipal de Habitação, o relógio não para e que “entre estudo, projeto, construção e atribuição das casas”, se está “a dinamizar um potencial que a cidade tem de cerca de 9500 fogos”.

A CML assinou o segundo acordo com Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) no âmbito do programa 1.º Direito, para a construção e reabilitação de cerca de 3.450 casas até 2028, sendo 1450 para construção e 2000 para reabilitação. A vereadora lembrou que o tempo deve ser considerado um fator, pelo que “para que isto possa acontecer é preciso ter uma ideia, verba e capacidade de execução”.

15.11.22

Portugal pode sofrer problemas de comida devido à seca e já é dos piores na pobreza energética

Luís Reis Ribeiro, in Dinheiro Vivo

Bruxelas. Portugal ainda não entra em recessão no ano que vem, mas leva com o maior balde de água fria: ritmo da economia é o que mais cai na Europa entre 2022 e 2023.

A crise da energia e a inflação estão a colocar a economia portuguesa num ponto perigoso: o país já é um dos mais afetados da Europa pelo risco de pobreza energética, indicou ontem a Comissão Europeia (CE).

Mas em cima disto há um problema latente e grave a formar-se: devido à incerteza global e a um fenómeno "específico" que afeta a Península Ibérica, a seca, Portugal pode sofrer "repercussões prolongadas no abastecimento alimentar", alerta a CE no capítulo dedicado à economia portuguesa.

Ontem, sexta-feira 11, a Comissão apresentou as novas previsões de outono e o quadro é mau, seja para Portugal, seja para os restantes países da União Europeia (UE).

O caso de Portugal, uma economia que se destacou até 2019 pelo forte crescimento, boa parte dele puxado por um setor turístico muito forte, depois interrompido pela pandemia, voltou a crescer muito em 2022, mas por um motivo menos bom: a inflação insuflou a faturação das empresas e a receita fiscal.

Mas em 2023 a maior parte desse efeito deve desaparecer, colocando a economia numa rota da estagnação.

Ontem, sobre Portugal, a CE ainda disse que se pode esperar uma retoma na segunda metade de 2023, mas que no ambiente atual de guerra, inflação e enorme incerteza, isso pode não se concretizar.

Para já, o cenário central é que Portugal, depois de um crescimento anómalo em pleno ano de crise energética (puxado num primeiro momento pela inflação muito alta), que a CE estima possa chegar a 6,6% (melhor até do que a estimativa do governo, que é de 6,5% de expansão real da economia em 2022), o país deve travar a fundo.

A previsão de crescimento avançada agora por Bruxelas relativa a 2023 é de 0,7%, quase metade do que diz o governo (1,3%) na proposta de Orçamento do Estado do ano que vem (OE2023).

O maior balde de água fria no crescimento

Cálculos do Dinheiro Vivo com base nas novas previsões da Comissão mostram que Portugal não entra ainda em recessão, mas terá o maior balde de água fria no crescimento: a taxa de expansão da economia é a que mais vai cair na Europa entre o valor obtido em 2022 e o previsto em 2023: é um arrefecimento de 5,9 pontos percentuais, o maior da UE.

Eslovénia, Hungria, Grécia e Croácia também vão sentir bastante a travagem das suas economias (um abatimento de 5 pontos percentuais na taxa de crescimento verificada este ano), mas não tanto quanto Portugal.

Fora estes cinco casos de arrefecimento súbito em 2023, há já países que devem entrar em recessão: é o caso da enorme Alemanha, a maior economia da UE, da Suécia e da Letónia.

Problemas de comida e pobreza na energia

Mas um dos pontos mais raros no diagnóstico divulgado ontem é mesmo a menção a problemas prolongados na oferta de produtos alimentares em Portugal, muito por causa da seca, algo que pode prejudicar ainda mais a economia a prazo.

"Os riscos para as perspetivas de crescimento de Portugal permanecem significativamente do lado negativo à luz do ambiente global incerto e dos riscos específicos do país relacionados com a grave seca na Península Ibérica, que podem ter repercussões prolongadas no abastecimento alimentar doméstico", atira a Comissão.

Ou seja, a seca que leva a maus anos agrícolas em Portugal e Espanha (país que fornece abundantemente Portugal com bens alimentares, por exemplo) pode conduzir a um aumento dos custos destes bens importados. Mais valor em importações significa menos PIB, logo, menos crescimento real. É essa a ideia.



Excerto da análise a Portugal nas previsões económicas de outono, 11/nov/2022

© Comissão Europeia

Em cima disto, um novo tipo de pobreza que foi relevado pela inflação e a guerra. Segundo um estudo incluído nas novas previsões, Bruxelas indica que Portugal está em quinto lugar no ranking do risco de pobreza energética. Piores do que Portugal estão Lituânia, Croácia, Letónia e Roménia.

A CE define risco de pobreza energética sempre que a fatura da luz e restantes formas de energia levam 30% ou mais do orçamento familiar, algo que se transforma num problema grave a partir do momento em que as famílias deixam de conseguir pagar as contas e começam a atrasar pagamentos. Que, como sabemos, pode levar a anulação de contratos.

Esse é o ponto crítico definido no estudo. Em Portugal, cerca de 10% da população já estará nesta situação limite de pobreza energética. É cerca de um milhão de pessoas, basicamente. A percentagem é a quinta maior da Europa.

A CE faz uma projeção das condições atuais e conclui que, se nada for feito ou se alterar, a inflação e a debilidade da economia podem empurrar mais 5% da população para uma situação limiar de pobreza energética.

A Lituânia, um dos países mais vulneráveis e dependentes da energia da Rússia (assim como muitos Estados do leste europeu), pode vir a ter 35% da população em risco de pobreza energética se a situação atual não desanuviar. É o pior caso projetado no estudo.

Pobreza energética em % da população que vive no limite financeiro para conseguir pagar as contas

© Comissão Europeia

A CE diz que o efeito do aumento dos preços da energia pode criar pobreza energética, que é quando "as famílias não têm acesso aos serviços energéticos essenciais", estando previsto um "aumento da pobreza energética como resultado do aumento do custo de vida". Ou seja, há famílias que estão ou vão sentir "um aumento da dificuldade financeira devido ao aumento dos preços da energia".

Sobre o caso português, o comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, em resposta a uma pergunta da Lusa, disse reconhecer "o impacto substancial [dos apoios do governo a famílias e empresas] e penso que é importante abordar os riscos de pobreza energética, que, naturalmente, existem para vários Estados-membros".

"Não é fácil [acabar com apoios], mas é o nosso apelo", diz Gentiloni

Mas acrescentou logo que "o que sempre pedimos é que estas medidas sejam tão temporárias e direcionadas quanto possível; sabemos que não é fácil, mas é o nosso apelo", atirou o italiano.

A Comissão deixou ainda outros sinais. Por exemplo, a inflação prevista para este ano e o próximo em Portugal vai ser claramente mais elevada do que dizem governo e ministro das Finanças no OE2023.

Ou seja, a destruição do poder de compra das famílias portuguesas deve ser mais agressiva do que se anda a dizer, na leitura da CE.

O agravamento dos preços (inflação) deste ano deve disparar até uns históricos 8% e no ano que vem a inflação ainda se mantém muito elevada, suavizando apenas para 5,8%. Fernando Medina, no OE2023 entregue há cerca de um mês, previu uma inflação de 7,4% em 2022 e de apenas 4% em 2023.

Além disso, há a sombra da subida dos juros. Bruxelas teme que a inflação possa chegar a 6,1% em 2023, ou seja, mais do triplo do objetivo do BCE (2%), o que deve acelerar ainda mais as taxas de juro.