Mostrar mensagens com a etiqueta Seca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Seca. Mostrar todas as mensagens

28.8.23

Produtores de gado reduzem animais para fazer face à crise

Glória Lopes, in JN

A subida dos custos de produção deixou os produtores de gado transmontanos numa situação aflitiva e muitos estão a reduzir o número de animais nas explorações para aguentar a crise.


O aumento dos preços da alimentação, decorrentes da carência no mercado e de dois anos de seca, criaram problemas transversais a todas as raças, principalmente as autóctones, como a de bovinos de raça Mirandela, a de ovinos Churra da Terra Quente e a Cabra Serrana, entre outras.


No caso dos bovinos de raça Mirandesa muitos criadores já começaram a vender animais, para baixar o efetivo nas explorações. “Dois anos maus, com seca e de má produção de forragens, deixou os produtores de gado com problemas. Este ano não há falta de água para os animais beberem, mas devido à seca as forragens não cresceram, porque as sementeiras de outono e inverno tiveram um ano mau”, explicou Válter Raposo, secretário técnico da Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa.

O preço da palha este ano está a cerca de 20 cêntimos/fardo quando nos anos anteriores era vendida a quatro ou cinco cêntimos. Ainda assim, há produtores que já comparam palha a 80 cêntimos o fardo. “Não há onde comprar porque os principais fornecedores são espanhóis e não tem stock, pois também tiveram maus anos agrícolas”, acrescentou Válter Raposo.


Os criadores pedem mais ajudas à produção. “Com a mudança do Quadro Comunitário de Apoio as ajudas pouco aumentaram. Só subiram 10 euros nas agroambientais, que nem paga os custos de produção”, deu conta o secretário técnico da associação.

A redução do efetivo põe em causa a raça autóctone que ainda é considerada em risco de extinção. “O efetivo andava na casa dos cinco mil, mas já reduziu bastante. Os criadores optaram por retirar animais. Nestes últimos dois anos tem havido pouca recria e o efetivo tem diminuído. Em vez de um produtor ter 60 animais passou a ter 40”, referiu Válter Raposo.


O cenário pode agravar-se porque nos últimos dois meses os criadores têm contado com as forragens da campanha agrícola deste ano e que deviam ser para consumo no inverno. “Ficam sem armazenamento para o tempo frio”, observou o responsável.


Os agricultores dizem que a carne de bovinos de raça Mirandesa se vende bem, mas que o preço é baixo face aos gastos para a produzir. “Seria necessário que o preço da carne subisse. Neste momento os agricultores estão em grandes dificuldades porque gastam muito para criar os animais”, admitiu Licínio Martins, produtor de gado.


Também na Terra Quente os pastores estão a optar por ter menos ovelhas. Prevê-se que esta raça perca 15% do efetivo a curto prazo. Atualmente conta com cerca de 11.800 fêmeas. “Esta raça autóctone alimenta-se nas pastagens, mas por causa da seca há menos alimento”, referiu uma fonte da Associação Nacional de Criadores de Ovino de Raça Churra da Terra Quente (ANCOTEQ), em Torre de Moncorvo.

A falta de pastos obriga os pastores a comprar forragens, o que representa mais um encargo nas explorações.

26.6.23

Portugal vai receber 11 milhões para apoios a agricultores

in RR

Comissão Europeia vai distribuir um total de 330 milhões de euros pelos Estados-membros.

A Comissão Europeia propôs um apoio de 11 milhões de euros para os agricultores em Portugal, de um total de 330 milhões de euros para 22 Estados-membros da União Europeia (UE) afetados por fenómenos climáticos adversos, como seca.

“A Comissão propõe a mobilização de financiamento comunitário adicional para os agricultores da UE afetados por fenómenos climáticos adversos, custos elevados dos fatores de produção e diversas questões relacionadas com o mercado e o comércio”, anuncia a instituição numa nota à imprensa, esta segunda-feira.

Ao todo, o novo pacote de apoio (que é mobilizado com base numa reserva de crise) consistirá em 330 milhões de euros para 22 Estados-membros e, desta verba, cerca de 11,6 milhões de euros dizem respeito a Portugal e à sua situação de seca.

“Os agricultores da UE da Bélgica, República Checa, Dinamarca, Alemanha, Estónia, Irlanda, Grécia, Espanha, França, Croácia, Itália, Chipre, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Áustria, Portugal, Eslovénia, Finlândia e Suécia beneficiarão deste apoio excecional de 330 milhões de euros do orçamento da Política Agrícola Comum”, explica o executivo comunitário.

Caberá às autoridades nacionais distribuir estas verbas “diretamente aos agricultores para os compensar pelas perdas económicas devidas às perturbações do mercado, às consequências dos elevados preços dos fatores de produção e da rápida descida dos preços dos produtos agrícolas e, se for caso disso, pelos prejuízos causados pelos recentes fenómenos climáticos, particularmente graves na Península Ibérica”, indica a instituição.

Além disso, “os países podem complementar este apoio da UE até 200% com fundos nacionais”, adianta.

A proposta surge depois de os Estados-membros terem partilhado com Bruxelas as suas avaliações das dificuldades enfrentadas pelos respetivos setores agrícolas.

Por se tratar de uma reserva de crise, a medida será votada pelos países na próxima reunião do comité para a organização comum dos mercados agrícolas.

Também hoje, no Conselho de Agricultura, os ministros da UE aprovaram um pacote de apoio de 100 milhões de euros para os agricultores da Bulgária, Hungria, Polónia, Roménia e Eslováquia, com base numa outra proposta de Bruxelas.

“Várias outras medidas, incluindo a possibilidade de pagamentos antecipados mais elevados, deverão apoiar os agricultores afetados por fenómenos climáticos adversos”, de acordo com a Comissão Europeia.

O setor agrícola tem estado sob pressão desde a pandemia de covid-19 e o aumento dos preços da energia e dos fatores de produção agrícola, como os fertilizantes, na sequência da invasão russa da Ucrânia, cenário ao qual se tem juntado a severa seca na Península Ibérica.

13.6.23

Carlos Pinto de Sá: "Alentejo vai perder, nas próximas décadas, entre 28% a 40% da água"

Francisco Almeida Fernandes, in DN


O presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central pede mais apoio do Estado aos municípios para a resposta às alterações climáticas. Já há 14 concelhos com planos locais de mitigação.
m entrevista ao DN, o presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central (CIMAC) fala sobre os desafios que os municípios da região enfrentam na resposta às alterações climáticas. Através do projeto Adapta.Local.CIMAC, apoiado com 191 mil euros dos EEA Grants, a instituição conseguiu definir medidas de mitigação adaptadas a cada concelho. Com os planos concluídos, Carlos Pinto de Sá pede agora mais apoio financeiro do Estado central e mais recursos humanos para executar as estratégias.

Como é que surge o projeto Adapta.Local.CIMAC?

O projeto surge na sequência de um conjunto de anteriores projetos e posições da CIMAC de preocupação com as questões das alterações climáticas e da necessidade de estudar formas de nos adaptar a essas alterações climáticas. Recordo que estamos no Alentejo, uma região que tem problemas graves ao nível dessas alterações climáticas, em particular se tivermos em conta o problema da escassez de água. Há estudos que apontam para a possibilidade de o Alentejo perder nas próximas décadas entre 28% a 40% dos seus recursos de água. É por isso que surge esta ideia de sistematizar e olhar o futuro a médio prazo para podermos preparar os municípios e a sua intervenção na adaptação às alterações climáticas. Foi possível propor, no âmbito da CIMAC, aos 14 municípios do Alentejo Central, um projeto comum que permitisse responder a estas preocupações e depois traduzir essas medidas na atividade diária e nos planos estratégicos dos municípios.

O projeto conta com apoio técnico para desenhar as diferentes estratégias?

Foi feita uma candidatura a um concurso apoiado pelos EEA Grants e a CIMAC viu aprovada esta candidatura, que tem como parceiros, além dos técnicos dos municípios, o CEDRU - Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urbano e o operador dinamarquês International Development Norway, que trabalha com as questões climáticas e tem uma experiência significativa nesta matéria. Portanto, é nesta perspetiva de responder de uma forma sustentada que se avançou para os 14 planos de adaptação. Estes planos estão interligados e sustentados no Plano Intermunicipal de Adaptação de Alterações Climáticas.

Que tipo de medidas estão incluídas nestes planos? São dirigidos a setores e atividades específicas?


Em primeiro lugar, identificaram-se as principais prioridades relativamente às alterações climáticas. O que vamos ter aqui no Alentejo e no Sul de Portugal é uma tendência para que o deserto avance do Norte de África para o Sul da Europa, o que significa que vamos passar a ter um clima diferente, com muito menos períodos de chuva, em que a chuva aparecerá muito mais concentrada e em que o volume será significativamente maior por causa dessa concentração. Temos de ter atenção, por exemplo, à agricultura que aqui no nosso território é quem mais água gasta, cerca de 80% da água. Mas também para os próprios municípios, no sentido de poderem preparar a adaptação das suas redes de água e saneamento. A rede de água precisa ser remodelada e temos de obter financiamento para essas requalificações. A rede de saneamento também precisa ser intervencionada para se adaptar às chuvas muito concentradas que vamos ter. Precisamos também de adaptar os instrumentos de planeamento, como os Planos Diretores Municipais, no sentido de poderem responder a estas preocupações.

A cooperação entre municípios para atingir este objetivo comum também é uma das conquistas neste processo...


Este é um exemplo de cooperação entre municípios. Esta é uma área em que é particularmente necessária a cooperação de todas as entidades, não apenas do Estado Central, do Estado Regional ou do Estado Local. Estou a falar também das empresas, ou seja, estes planos não podem ser apenas municipais, têm de ser planos mais alargados e que tenham por base também essa cooperação. Isto é essencial, até porque as alterações climáticas não olham para os ciclos políticos.

A falta de financiamento e de recursos humanos nas autarquias são desafios à implementação destes planos municipais?

Podemos ter um bom plano, mas se não for concretizado não vale de nada. Infelizmente, em Portugal temos muitos exemplos dessa situação e, em particular, no Alentejo. Recordo vários anúncios de planos estratégicos para o desenvolvimento do Alentejo que ficaram na gaveta e apenas pelo anúncio. Tendo o plano, precisamos, em primeiro lugar, de ter estruturas dentro dos municípios que assegurem a sua execução. Isso significa ter recursos humanos qualificados e meios financeiros para os executar. A questão do financiamento é absolutamente essencial e tem de haver uma decisão nacional sobre estas matérias. Aliás, em rigor, este problema é um problema nacional, que tem de ser articulado ao nível nacional e local, no qual o governo tem, obviamente, um papel absolutamente determinante na execução destes planos.

Uma das características deste projeto é o envolvimento das comunidades no processo com reuniões locais. Será para manter?

Diria que é obrigatório, porque é necessário sensibilizar as populações e, naturalmente, devemos começar pelas escolas. Costumamos dizer que de pequenino é que se torce o pepino. Vamos ter de ter alterações nos comportamentos da população, nas nossas casas, nas empresas e nos padrões de consumo. É importante também ouvir as populações sobre o problema da mobilidade, por exemplo. Uma das principais causas das alterações climáticas tem a ver com as emissões do transporte rodoviário. É, portanto, necessário reduzir essas emissões, substituindo automóveis de combustão por automóveis mais amigos do ambiente. Mas temos de alterar o uso do automóvel e o comportamento. Por exemplo, no centro histórico de Évora não vai ser possível termos o volume de veículos que temos, vamos ter de reduzir substancialmente, ter outros hábitos de mobilidade, nomeadamente andar a pé, de bicicleta ou em transporte público. E isso faz-se envolvendo a população, porque não é de um dia para o outro que se conseguem essas alterações.

O Plano Ferroviário Nacional pode ter um papel importante nessa transição?

O Alentejo tem sido muito penalizado pelo desinvestimento na ferrovia, mas diria que o país todo, durante décadas, não cuidou do transporte ferroviário e desinvestiu, em particular no transporte de mercadorias. Os mármores aqui da zona de Estremoz, Vila Viçosa ou Borba podiam perfeitamente ter sido transportados por ferrovia. Houve, de facto, um desinvestimento na ferrovia, que me parece inqualificável, mas também algo que surpreende, porque a ferrovia oferece, sobretudo do ponto de vista do transporte de mercadorias, vantagens muito significativas. No Alentejo, a situação é ainda mais grave porque houve um conjunto de linhas que foram fechadas, não houve alternativas a essas linhas e, no Plano Ferroviário Nacional, o que está previsto para o Alentejo é, a nosso ver, manifestamente pouco. A CIMAC já se pronunciou sobre isso, chamando a atenção para a necessidade de reforçar e concretizar os investimentos na ferrovia aqui no Alentejo. No caso do Alentejo Central, vamos ser atravessados pela linha que vai de Sines a Évora e depois a Espanha. É claro que não deve servir apenas o porto de Sines e tem de servir também os territórios que atravessa. E, por isso, naturalmente, precisamos ter aqui pontos de ligação à ferrovia de mercadorias.

Deverá incluir também o transporte de passageiros?

Sim, a rede ferroviária pode ser utilizada não apenas para mercadorias, mas em simultâneo para passageiros. E essa é outra aposta que é importante. É verdade que o Plano Ferroviário Nacional aponta o que pretende fazer, mas não fala em prazos nem em financiamento. Ficamos sempre aqui um pouco na dúvida se é mais um plano que ficará no papel. Mas continuaremos a insistir nesta necessidade, que também terá impactos positivos na questão do clima.

22.5.23

A seca prolongada na Europa já chegou, décadas antes do previsto

Bloomberg, in Público online

A Europa aqueceu mais rápido do que o resto do mundo e o sector agrícola é o mais afectado. Medidas para combater a seca são debatidas em Espanha, mas desagradam a agricultores e conservadores.

Uma rede de poços escavados na Idade Média permite aos agricultores da aldeia de Letur, no Sul de Espanha, cultivar oliveiras, tomates e cebolas numa das regiões mais áridas da Europa. Agora, a seca, que se alastra por todo o continente, ameaça até mesmo este antigo oásis.

Um complexo sistema tem mantido a terra da aldeia húmida e fresca ao longo de guerras, invasões estrangeiras e desastres naturais. Mas os 200 agricultores que dele dependem começam a preocupar-se pela primeira vez, à medida que os níveis de água em múltiplas e gigantescas barragens espanholas descem para mínimos sem precedentes e os canais construídos nos anos 70, que transformaram a região circundante numa potência agrícola, começam a secar.

Se a seca se prolongar por muito mais tempo, Luis López, um olivicultor de 43 anos, receia que as explorações industriais vizinhas, que utilizam o moderno sistema de irrigação para cultivar culturas com grande consumo de água, como a alface e a melancia, comecem a explorar as reservas preservadas de Letur.

“Sinto-me como se fôssemos a última aldeia gaulesa da banda desenhada Astérix”, diz López, referindo-se à saga de ficção sobre a aldeia que resiste à ocupação dos romanos. “Preocupa-me que, quando eles ficarem sem água, venham buscar a nossa.”

A seca só vai intensificar esta batalha pela água. Alfonso Sánchez, professor de matemática e ambientalista

A Espanha, uma região desértica da União Europeia, sofre com a seca mais severamente e por mais tempo do que outras grandes economias da UE. A sua proximidade com África coloca-a directamente no caminho das correntes de ar quente que se dirigem a norte, vindas do deserto do Sara.

Mas o calor não abranda em Espanha; o tempo mais quente e seco torna-se a norma em toda a Europa. A batalha da água que se trava em Letur é um presságio de conflitos que se vão desenrolar noutros locais e o que quer que aconteça à indústria agrícola espanhola — uma das principais fontes de abastecimento dos seus vizinhos — será sentido em toda a região.

“A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência”, defende Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique do Mónaco. “Torna-se também um problema financeiro, porque é preciso gastar mais dinheiro na procura de alimentos.”
O sector agrícola é um dos mais afectados

Os anos seguidos de seca podem ser devastadores, pois sectores como a agricultura não têm tempo para recuperar, pelo que os impactos se acumulam estação após estação, crescendo exponencialmente. A produção espanhola de azeite — que representa 45% da oferta mundial — deverá reduzir-se para mais da metade nesta estação, enquanto a de cereais como o trigo e a cevada cairá até 60%, segundo Gabriel Trenzado, director das Cooperativas Agro-alimentares de Espanha, um grupo da indústria agrícola.

A situação ainda não é tão grave noutras partes da UE, onde a previsão oficial é de que a colheita de cereais, no seu conjunto, recupere cerca de 7% em relação à época passada. A precipitação em França, o principal produtor de cereais da União, melhorou desde o período de seca do Inverno, e as classificações das culturas para a colheita de trigo de 2023 são as mais elevadas para esta altura em mais de uma década. Em algumas zonas, a chuva é excessiva, acarretando um atraso nas plantações de cevada e de beterraba-sacarina em partes da Alemanha devido ao mês de Março mais chuvoso desde 2001.

A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência. Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique de Monaco.

Os agricultores da região não têm de enfrentar apenas a seca, mas também um clima menos previsível. Em 2022, a Espanha viveu uma onda de calor semelhante à que assolou o país em Abril deste ano, até que a tempestade Ciril provocou uma descida invulgar das temperaturas, levando a perdas de milhões de euros por parte dos produtores de frutos e nozes. “O facto de haver seca não significa que não chova, significa que as chuvas, por vezes, chegam em alturas inesperadas”, disse Trenzado. “Tudo é muito sensível.”

Os preparativos da Europa para um futuro mais seco esforçam-se para acompanhar o ritmo das rápidas mudanças climáticas. O continente aqueceu quase duas vezes mais depressa do que o resto do mundo nas últimas três décadas, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e o impacto económico tem sido significativo.

A interrupção da passagem de mercadoria devido aos rios estarem nos níveis mais baixos de sempre causou perdas de milhares de milhões de euros. Além disso, também prejudicou a produção de electricidade a partir de centrais hidroeléctricas e nucleares, agravando a escassez de energia causada pela invasão russa na Ucrânia e contribuindo para a pior crise de custo de vida que a Europa enfrentou nas últimas gerações. As quebras nas colheitas provocadas pela seca podem ainda contribuir para a subida dos preços dos alimentos.

A diminuição do escoamento para os lagos e mares da Europa também agrava os riscos ambientais, aumentando a temperatura da água e prejudicando os ecossistemas, segundo o programa europeu Copernicus Climate Change Service (C3S). E há ainda a maior probabilidade de incêndios florestais, que, no ano passado, queimaram paisagens europeias com dimensões três vezes maior do que o Luxemburgo.

É o segundo ano consecutivo de condições extremamente secas e quentes no Sudoeste da Europa, impulsionadas por uma onda de calor antes do Verão que começou três meses mais cedo do que o habitual. A Espanha acaba de registar o mês de Abril mais quente e mais seco da história.

Por outro lado, a neve acumulada nos Alpes, uma das principais fontes de água para França e Itália, é a mais baixa em mais de uma década, agravando anos de chuvas e queda de neve abaixo da média. Mais a norte, a Alemanha e o Reino Unido registaram anomalias pluviométricas tão graves como as de Espanha.

As alterações climáticas correspondem a projecções científicas de menos precipitação e temperaturas mais elevadas na Europa num planeta mais quente, declarou Andrea Toreti, investigador sénior do Centro de Investigação Comum (JRC, na sigla em inglês) da União Europeia, um órgão científico independente que aconselha as autoridades da UE. Mas a ocorrência regular deste nível de seca era prevista ocorrer só em 2043. “Se nada for feito, prevemos que este evento possa ocorrer quase todos os anos”, disse.

Em Itália, onde a escassez de água afecta a região agrícola mais produtiva do país, a crise tornou-se uma prioridade governamental gerida por uma unidade especial liderada pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini. A França, que este ano sofreu o mais longo período de Inverno sem chuva de que há registo, estabeleceu um novo objectivo para reduzir o consumo de água em 10% até ao final desta década.

“A seca do ano passado foi excepcional em comparação com o que já vivemos, mas não será excepcional em comparação com o que viveremos”, disse o Presidente francês Emmanuel Macron num discurso em Março. “Ninguém está a dizer que esta situação vai melhorar.”
Agricultores e políticos discordam das medidas adoptadas pelo Governo

O Governo espanhol tem-se esforçado por encontrar soluções. Apesar de ter gastado milhares de milhões para melhorar o seu sistema de gestão da água, os reservatórios espanhóis ainda têm cerca de metade da sua capacidade. Numa recente reunião de emergência do Conselho de Ministros, as autoridades deram luz verde a um pacote de 2,2 mil milhões de euros que inclui reduções fiscais e ajuda aos agricultores, a juntar às medidas já anunciadas que custarão 22 mil milhões de euros.

O mais controverso é o facto de o Governo espanhol limitar a quantidade de água utilizada na irrigação das culturas. A medida enfureceu os agricultores e encorajou os políticos conservadores antes das eleições autárquicas do final do mês, vistas como um termómetro para as perspectivas do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, que procura a reeleição em Dezembro. Sánchez, que tem insistido em medidas mais fortes para combater as alterações climáticas, também entrou em conflito com os legisladores de direita que pretendem alargar os direitos à água dos agricultores numa das zonas húmidas mais protegidas da Europa, localizada no Sul de Espanha.

Sánchez reconheceu não haver uma resposta fácil. “O debate em torno da seca vai estar no centro do debate político e territorial do nosso país nos próximos anos”, disse aos deputados em Abril.

A competição pelo acesso à água em Espanha já está a colocar vários grupos uns contra os outros: grandes empresas agrícolas e pequenos agricultores, activistas ambientais e lobistas empresariais, políticos locais e o Governo central.

As tensões estão à vista em Almería, uma província que regista regularmente as temperaturas mais elevadas da Europa. A terra costumava ser tão seca e árida que ali foram filmados filmes de Western, como O Bom, o Mau e o Vilão, protagonizado por Clint Eastwood. Tudo mudou em 1979, quando o Governo construiu cerca de 300 quilómetros de canais e gasodutos — conhecidos como transvase Tejo-Segura — que trouxeram água da planície central para o deserto do Sul.

Mais de quatro décadas depois, a terra fértil de Almería abriga tantas estufas que o “mar de coberturas de plástico” pode ser visto do espaço. Tornou-se o coração do sector espanhol de frutas e legumes frescos, que movimenta 18 mil milhões de euros. Durante todo o ano, as explorações agrícolas fornecem frutos que necessitam de água em abundância para crescer, como as laranjas e os limões, às cadeias de supermercados de toda a Europa.

Mas esta proeza da engenharia não protegeu o abastecimento de água da região da seca crescente. Em Pulpí, uma cidade de Almería, as grandes explorações agrícolas tiveram de reduzir as áreas cultivadas, comprar água a outras cidades e arrendar terras mais a norte com acesso à água suficiente para manter a produção. Há dois anos, a Barragem de Negratin, que fornece o maior volume da água de Pulpí, teve de parar de bombear devido à descida do nível da água.

Os produtores de alimentos de Pulpí reagiram ferozmente ao plano do Governo espanhol de limitar a água retirada do transvase Tejo-Segura. “Sem água, Almería vai regredir décadas”, declarou José Caparrós, executivo de uma grande quinta, que pertence a um grupo responsável por gerir sistema de irrigação da cidade. “Precisamos de opções para ter acesso à água e alimentar o país.”

A reacção estendeu-se a toda cadeia alimentar espanhola — que engloba as zonas do Sudeste de Almería, Valência e Múrcia — com um grupo de pressão a afirmar que as restrições podem custar à indústria cerca de 6 mil milhões de euros e 15.000 postos de trabalho.

Alguns políticos aproveitaram o descontentamento nas suas campanhas para as eleições locais de 28 de Maio. Ximo Puig, presidente de Valência e membro do partido socialista de Sánchez, discordou abertamente do Governo central a respeito do plano de restrição do acesso à água. Em vez disso, repetiu a retórica dos candidatos da oposição que também tentam conquistar os votos dos agricultores. A vitória destes candidatos pode aumentar a resistência às políticas ambientais e de conservação da água de Sánchez antes das eleições gerais de Dezembro.
A luta para evitar novos poços ilegais

Alfonso Sánchez, um professor de Matemática do liceu que se tornou ambientalista e que vive em Múrcia, viu como a agricultura em grande escala — possibilitada pela captação de água subterrânea e de rios próximos — remodelou a sua cidade natal, Caravaca de la Cruz. Na década de 1990, centenas de pequenos agricultores não tiveram outra opção senão vender as suas terras a grandes empresas ou juntar-se a elas na produção de culturas que necessitam de muita água. Anos de agricultura mecanizada reduziram os recursos hídricos em até 60% na região, de acordo com um relatório do grupo verde de Sánchez.

Em vez de mudarem as suas práticas e de se adaptarem às condições mais secas dos últimos anos, muitos agricultores abriram poços ilegais para explorar água subterrânea. A Greenpeace estima que existam mais de um milhão de poços não autorizados em Espanha, utilizados principalmente para irrigar as culturas. Sánchez está a trabalhar para evitar que surjam mais, mas teme que a situação só piore à medida que a água se torna menos disponível. “Estamos a nadar contra a corrente”, salientou. “A seca só vai intensificar esta batalha pela água.”

15.5.23

Seca: a “maior catástrofe de sempre” já está à nossa espera na bacia do Sado

Carlos Dias (texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público


Espera-se o pior na produção de cereais e na pecuária. Os animais não têm alimento e os produtores pecuários já enfrentam a escassez de água. As searas estão perdidas. Nem a palha se aproveita.


Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.

Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.

Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.

É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.

Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.

No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.

Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.

O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.

Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz

Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.

Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.

Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.

Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.

“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral


De 30 para dois fardos de forragem por hectare

O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”

A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”

Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.

Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”

Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"

Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

Barragens no vermelho

Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.

Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.


O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.

Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”

O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.

“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.

Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.

Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.

11.5.23

Para já, ministro do Ambiente diz que não vai limitar uso de água nas nossas casas

por Lusa, in Público


No Sul de França, a proibição de piscinas, rega e lavagem de carros entrou em vigor a 10 de Maio. Por cá, o ministro Duarte Cordeiro diz que ainda não é necessário impor “uma cultura de proibição”.


O ministro do Ambiente e da Acção Climática, Duarte Cordeiro, descartou, para já, a adopção de medidas proibitivas relativamente ao consumo de água, como por exemplo para piscinas, face à situação de seca que se vive sobretudo no sul do país.

"Não vale a pena estarmos a introduzir uma cultura de proibição quando ela, neste momento, ainda não é necessária. Quando ela é necessária, nós não hesitamos, como aconteceu quando limitámos, por exemplo, em determinadas barragens da zona Monte da Rocha, ou a decisão que foi tomada pela ministra da Agricultura, de limitar novas culturas na zona do [rio] Mira", disse aos jornalistas, no Porto, Duarte Cordeiro, à margem do lançamento do concurso público para a construção da Linha Rubi do metro.

O ministro tinha sido questionado acerca de eventuais proibições, por exemplo, em piscinas privadas e, anteriormente, sobre medidas excepcionais tomadas na sequência da situação de seca sobretudo no sul do país, cuja declaração foi feita na segunda-feira.

A venda de piscinas de jardim vai ser proibida numa região do sul de França devido ao agravamento da escassez de água. Em declarações à rádio RTL, o ministro francês da Transição Ecológica, Christophe Béchu, disse que os Pirenéus Orientais, que fazem fronteira com a Catalunha espanhola, serão oficialmente declarados em situação de "crise" de seca a partir de 10 de Maio. "A proibição de lavar os carros, regar os jardins e encher as piscinas será igualmente aplicada a partir da mesma data", acrescentou.

"Já foram tomadas algumas medidas excepcionais", disse, após ter sido convocada uma comissão interministerial de seca "no final do mês de Abril" referiu Duarte Cordeiro aos jornalistas. Segundo o ministro, nessa reunião foram identificadas as zonas mais críticas: a do Barlavento algarvio e a zona do litoral alentejano, "nomeadamente a zona do [rio] Mira, associada à barragem de Santa Clara".

"Há restrições que nós aplicámos relativamente a um conjunto de barragens, quer no Alentejo quer na zona do Barlavento, e há restrições de novas culturas para a zona do Mira, porque neste momento temos que captar a água a uma cota abaixo daquilo que é a cota a que habitualmente vamos buscar água", explicou, referindo-se à medida tomada pela ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes.

Duarte Cordeiro relembrou ainda que actualmente, "na generalidade do país, neste momento, o país tem mais água disponível do que tinha no ano passado", com um nível médio de 80% de água nas albufeiras.

"Neste momento temos uma situação assimétrica, nalgumas zonas do país não antecipamos que tenhamos, neste momento, um problema de abastecimento de água. Temos duas zonas do país, litoral alentejano e a zona do Barlavento, em que tivemos que aplicar medidas para gerir de forma racional os recursos que temos disponíveis", explicou.

A situação de seca meteorológica agravou-se em Portugal continental no mês de Abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, segundo o IPMA.

Na segunda-feira, a ministra da Agricultura e Alimentação, Maria do Céu Antunes, informou ter assinado o despacho que reconhece a situação de seca em 40% do território nacional, no sul do país.

Lusa/Fim

8.5.23

Portugal “não tem estratégia para a água”, mas usa-a “à vontadinha”

Andréia Azevedo Soares, in Público online

Portugal possui uma comissão para a seca que se reuniu 13 vezes em seis anos. Em plena crise climática, especialistas defendem medidas estruturais (e não reactivas) de combate à escassez da água.

Foto Portugal tem de pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a cultivar o que tem cultivado.

Portugal possui uma Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca que organizou 13 reuniões em seis anos. Face à seca extrema que o Sul do país atravessa, este grupo de decisores políticos reuniu-se há duas semanas e reagiu anunciando medidas como a proibição de novas estufas no Alentejo. Em tempos de crise climática, os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO frisam que está na hora de medidas “estruturais” – e não “reactivas” – de combate à escassez da água.

“Comissões destas são criadas para resolver emergências. Quando as emergências passam a ser um novo normal, temos de fazer outra coisa, deve haver uma adaptação. Não podemos tratar emergências anuais como se fossem emergências que acontecem a cada década. A única certeza que temos é a de que vamos ter secas mais frequentes. Como tal, temos de ter planos de contingência para abastecimento público, temos de adoptar medidas estruturantes como a mudança de legislação e do preço da água”, defende Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica.

Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero, também defende “mudanças estruturais” que permitam ao país gerir estrategicamente a água. “Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum”, diz o professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

O presidente da Zero recorda que, no século XXI, em plena crise climática, Portugal “não tem uma estratégia para a água”. “Tínhamos um plano [o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água (PNUEA)] que deveria estar em vigor entre 2012 e 2020, mas que foi abandonado a partir de 2015. Desde então, estamos um pouco a funcionar em função das necessidades, sem estratégia”, lamenta Francisco Ferreira numa conversa telefónica com o PÚBLICO.

Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum. Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero e professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa

A Resolução do Conselho de Ministros n.º 80/2017, que prevê a criação da comissão, estipula que uma das funções do grupo de trabalho é precisamente a promoção da “implementação das medidas preconizadas pelo Programa para o Uso Eficiente da Água [PNUEA] que podem ser executadas de imediato e preparar as medidas a adoptar a médio e longo prazo, numa perspectiva de preparação para uma maior resiliência a eventos de seca”.

Contudo, como pode uma comissão zelar pela implantação de medidas de um documento que nem sequer está actualizado? O PNUEA disponível hoje estipula limites para o desperdício de água para cada sector especificamente para o período 2012-2020. Além de desactualizado, o programa criado em 2005 não pôde ainda ser avaliado quanto à sua eficácia. Os resultados oficiais deste programa de combate ao desperdício de água nunca chegaram a ser tornados públicos, continuando inexplicavelmente na gaveta, segundo o jornal Eco.

“É chegado o momento de aplicar, sem hesitações, as medidas previstas no PNUEA, cuja actualização, do seu Plano de Implementação 2012-2020, nunca foi colocada em prática”, recordava Rui Godinho, presidente do conselho directivo da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, num artigo de opinião publicado em 2022.

Medidas reactivas ou estruturais?

A comissão da seca existe desde o dia 7 de Junho de 2017, um ano que foi marcado por uma seca “gravíssima”. Ficou óbvio então que eventos climáticos extremos seriam cada vez mais intensos e frequentes devido à mudança do clima e que, por isso, seria necessária a existência de uma comissão de carácter “permanente” que não tivesse uma função meramente “reactiva”. Esta comissão é constituída por membros do Governo responsáveis por diferentes áreas, incluindo o ambiente, a agricultura, as florestas e o desenvolvimento rural, além de várias outras entidades, consoante a gravidade da situação.

“A incerteza e imprevisibilidade da seca e dos seus impactos justificam que se dedique uma atenção permanente a este fenómeno e não apenas uma actuação reactiva a situações extremas”, lê-se no texto da resolução n.º 80/2017 publicada em Diário da República.

A geógrafa Maria José Roxo, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, acredita que, nos últimos anos, os decisores políticos limitaram-se a reagir. “Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no terreno. Sou uma geógrafa de campo, isto custa-me muito”, confessa a investigadora numa conversa telefónica com o PÚBLICO.

Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no terreno. Maria José Roxo, geógrafa e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

A mais recente reunião da comissão para a seca realizou-se no dia 21 de Abril, tendo sido o primeiro encontro de 2023. Após o encontro, os ministérios do Ambiente e da Agricultura anunciaram a manutenção de medidas para poupar água, anunciando outras como suspensão de novas estufas no Sudoeste alentejano e a interdição do uso da água para a rega nalguns pontos do país onde há défice hídrico.

São medidas que respondem à seca prolongada que o Sul do país testemunha? “É óbvio que não são medidas suficientes”, avalia Maria José Roxo. Para a geógrafa, esta questão da água “tem de ser um assunto contínuo”. “Aquilo que conhecemos do ponto de vista científico é que isto constitui uma realidade para continuar. Não se podem interromper as campanhas [de sensibilização], temos de melhorar as infra-estruturas de regadio, combater os desperdícios nas redes. Não podemos estar sempre a reagir”, reforça.

Joaquim Poças Martins, por sua vez, recorda que, como estamos diante de um fenómeno global de mudança do clima, temos de nos “preparar para um novo normal”. E o que é essa nova normalidade? “São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca”, diz o especialista em gestão hídrica, para quem uma comissão dedicada à seca acabaria por ser “um trabalho a tempo inteiro”. “Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca”, refere o docente da FEUP.

Os dados do mais recente Relatório de Monitorização Agro-meteorológica e Hidrológica, feito pelo grupo de trabalho que presta assessoria técnica à comissão, sublinham “casos críticos no país”, como a barragem de Bravura (Aproveitamento Hidroagrícola do Alvor) e do Arade (Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão). Na primeira, as reservas de águas estão destinadas “exclusivamente para abastecimento público”, o que compromete “irremediavelmente” o sector agrícola. Já no Arade, é compulsória a adopção do plano de contingência para situações de seca.
Que caminhos a seguir?

Não fazendo o elogio de medidas reactivas, que estratégias preconizam então os especialistas? Poças Martins explica que as soluções precisam de ser estudadas, e também que é preciso ver como outros países gerem a pouca água que têm. Há exemplos de nações mais prósperas do que Portugal, mas com menos recursos hidrológicos, garante o especialista. O segredo está na gestão da água: adopção de sistemas de rega gota a gota, por exemplo, ou a introdução de taxas moderadoras de consumo.

“Vejamos o caso de Israel: é um país mais seco do que o nosso, mas que não está a sofrer com falta de água. E os agricultores em Israel ganham mais dinheiro do que os portugueses. Não foi sempre assim. Nos anos 90, na sequência de problemas graves, adoptaram uma série de políticas públicas, incluindo a nacionalização da água. A água em Israel pertence ao Estado – quem capta a água tem de medir [o consumo] e pagar. Em Portugal, [água para a agricultura] quase não se mede nem se paga”, explica Joaquim Poças Martins.

O especialista em gestão hídrica refere que usamos a água subterrânea “à vontadinha” – e que, em bom rigor, não devia ser assim, deveriam ter uma licença, “mas a maioria não tem e, mesmo com licença, não paga”. Como a água para fins agrícolas em Portugal é “quase de graça”, argumenta Poças Martins, os agricultores não têm incentivos para poupar água. É na agricultura que temos de prestar atenção quando falamos de recursos hídricos, pois é também no sector onde se verifica uma gigantesca fatia do consumo.

“A água dos poços aqui custa zero e lá 60 cêntimos por metro cúbico. Israel reutiliza toda a água residual e paga ainda 30 cêntimos o metro cúbico. Em Portugal, a reutilização de água residual é quase zero porque o agricultor tem água no poço. Desperdiçamos um volume de águas residuais, distribuído ao longo do país, que equivale a uma barragem inteira do Alqueva. Isto permitiria ter muito menos escassez, mas não estamos a usar – são recursos que vão parar ao mar”, lamenta Poças Martins.

Barragens cheias de sedimentos

A água que desperdiçamos todos os dias também desespera Maria José Roxo. A geógrafa não compreende como os decisores não aproveitaram o período de seca para remover os sedimentos das albufeiras, permitindo assim que as barragens armazenassem uma maior quantidade da água que caiu do céu no fim de 2022 e no início de 2023.

“A preservação da água tem muito a ver com a preservação do recurso solo. Preciso de solo para ter água potável e preciso de ter cobertura do solo para ter boa água nas barragens. O que aconteceu com as grandes chuvadas de Dezembro, e do início de Janeiro, foram águas que levaram toneladas de sedimentos para as barragens, colmatando-as. Estas barragens deveriam ter sido limpas. Perdemos uma oportunidade única de remover estes sedimentos. Essa água toda foi desperdiçada”, afirma Maria José Roxo.

Outro caminho que os especialistas consideram premente é o que passa por repensar as culturas que queremos ter no país e, fazendo contas, definir os grandes investimentos em que queremos apostar. Desejamos mais barragens? Queremos construir unidades de dessalinização? Para servir quais culturas? E a que custo ambiental? Tudo isso tem de ser ponderado em função de uma aposta estratégica.

São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca (...) Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca. Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica

“Sabemos quais são as nossas prioridades, mas temos de planificar os investimentos. Se eu for para uma determinada cultura que consome demasiada água, tenho de pensar se compensa o investimento no regadio, por exemplo – há um limite para a subsidiação. Precisamos não só de sentar e analisar o custo e o benefício em relação às opções tomadas, mas também apostar fortemente numa maior eficiência hídrica”, alerta Francisco Ferreira.

Para o ambientalista, a construção de unidades de dessalinização – como a que foi anunciada para o litoral alentejano – deve ser vista como “um investimento de último recurso”. Já Poças Martins pensa que a criação de novas barragens – hipótese admitida pela tutela do ambiente e da acção climática – deve ser encarada com igual cautela, seja pelo custo, seja pelo impacto ambiental.

“Portugal tem de pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a cultivar o que tem cultivado, como tem cultivado. Há agricultores que pedem mais barragens, ou que se traga água do Norte para o Sul, do ponto de vista económico e ambiental não funciona. Não faz qualquer sentido fazer um transvase do Norte para o Sul [a chamada auto-estrada da água], no meu ponto de vista. Quanto às barragens, é preciso ver quem as paga. Já temos bastantes barragens. Acho mais sensato primeiro usar bem a água que temos e depois pensar como conseguimos mais”, conclui o professor da Faculdade de Engenharia do Porto.

15.11.22

Portugal pode sofrer problemas de comida devido à seca e já é dos piores na pobreza energética

Luís Reis Ribeiro, in Dinheiro Vivo

Bruxelas. Portugal ainda não entra em recessão no ano que vem, mas leva com o maior balde de água fria: ritmo da economia é o que mais cai na Europa entre 2022 e 2023.

A crise da energia e a inflação estão a colocar a economia portuguesa num ponto perigoso: o país já é um dos mais afetados da Europa pelo risco de pobreza energética, indicou ontem a Comissão Europeia (CE).

Mas em cima disto há um problema latente e grave a formar-se: devido à incerteza global e a um fenómeno "específico" que afeta a Península Ibérica, a seca, Portugal pode sofrer "repercussões prolongadas no abastecimento alimentar", alerta a CE no capítulo dedicado à economia portuguesa.

Ontem, sexta-feira 11, a Comissão apresentou as novas previsões de outono e o quadro é mau, seja para Portugal, seja para os restantes países da União Europeia (UE).

O caso de Portugal, uma economia que se destacou até 2019 pelo forte crescimento, boa parte dele puxado por um setor turístico muito forte, depois interrompido pela pandemia, voltou a crescer muito em 2022, mas por um motivo menos bom: a inflação insuflou a faturação das empresas e a receita fiscal.

Mas em 2023 a maior parte desse efeito deve desaparecer, colocando a economia numa rota da estagnação.

Ontem, sobre Portugal, a CE ainda disse que se pode esperar uma retoma na segunda metade de 2023, mas que no ambiente atual de guerra, inflação e enorme incerteza, isso pode não se concretizar.

Para já, o cenário central é que Portugal, depois de um crescimento anómalo em pleno ano de crise energética (puxado num primeiro momento pela inflação muito alta), que a CE estima possa chegar a 6,6% (melhor até do que a estimativa do governo, que é de 6,5% de expansão real da economia em 2022), o país deve travar a fundo.

A previsão de crescimento avançada agora por Bruxelas relativa a 2023 é de 0,7%, quase metade do que diz o governo (1,3%) na proposta de Orçamento do Estado do ano que vem (OE2023).

O maior balde de água fria no crescimento

Cálculos do Dinheiro Vivo com base nas novas previsões da Comissão mostram que Portugal não entra ainda em recessão, mas terá o maior balde de água fria no crescimento: a taxa de expansão da economia é a que mais vai cair na Europa entre o valor obtido em 2022 e o previsto em 2023: é um arrefecimento de 5,9 pontos percentuais, o maior da UE.

Eslovénia, Hungria, Grécia e Croácia também vão sentir bastante a travagem das suas economias (um abatimento de 5 pontos percentuais na taxa de crescimento verificada este ano), mas não tanto quanto Portugal.

Fora estes cinco casos de arrefecimento súbito em 2023, há já países que devem entrar em recessão: é o caso da enorme Alemanha, a maior economia da UE, da Suécia e da Letónia.

Problemas de comida e pobreza na energia

Mas um dos pontos mais raros no diagnóstico divulgado ontem é mesmo a menção a problemas prolongados na oferta de produtos alimentares em Portugal, muito por causa da seca, algo que pode prejudicar ainda mais a economia a prazo.

"Os riscos para as perspetivas de crescimento de Portugal permanecem significativamente do lado negativo à luz do ambiente global incerto e dos riscos específicos do país relacionados com a grave seca na Península Ibérica, que podem ter repercussões prolongadas no abastecimento alimentar doméstico", atira a Comissão.

Ou seja, a seca que leva a maus anos agrícolas em Portugal e Espanha (país que fornece abundantemente Portugal com bens alimentares, por exemplo) pode conduzir a um aumento dos custos destes bens importados. Mais valor em importações significa menos PIB, logo, menos crescimento real. É essa a ideia.



Excerto da análise a Portugal nas previsões económicas de outono, 11/nov/2022

© Comissão Europeia

Em cima disto, um novo tipo de pobreza que foi relevado pela inflação e a guerra. Segundo um estudo incluído nas novas previsões, Bruxelas indica que Portugal está em quinto lugar no ranking do risco de pobreza energética. Piores do que Portugal estão Lituânia, Croácia, Letónia e Roménia.

A CE define risco de pobreza energética sempre que a fatura da luz e restantes formas de energia levam 30% ou mais do orçamento familiar, algo que se transforma num problema grave a partir do momento em que as famílias deixam de conseguir pagar as contas e começam a atrasar pagamentos. Que, como sabemos, pode levar a anulação de contratos.

Esse é o ponto crítico definido no estudo. Em Portugal, cerca de 10% da população já estará nesta situação limite de pobreza energética. É cerca de um milhão de pessoas, basicamente. A percentagem é a quinta maior da Europa.

A CE faz uma projeção das condições atuais e conclui que, se nada for feito ou se alterar, a inflação e a debilidade da economia podem empurrar mais 5% da população para uma situação limiar de pobreza energética.

A Lituânia, um dos países mais vulneráveis e dependentes da energia da Rússia (assim como muitos Estados do leste europeu), pode vir a ter 35% da população em risco de pobreza energética se a situação atual não desanuviar. É o pior caso projetado no estudo.

Pobreza energética em % da população que vive no limite financeiro para conseguir pagar as contas

© Comissão Europeia

A CE diz que o efeito do aumento dos preços da energia pode criar pobreza energética, que é quando "as famílias não têm acesso aos serviços energéticos essenciais", estando previsto um "aumento da pobreza energética como resultado do aumento do custo de vida". Ou seja, há famílias que estão ou vão sentir "um aumento da dificuldade financeira devido ao aumento dos preços da energia".

Sobre o caso português, o comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, em resposta a uma pergunta da Lusa, disse reconhecer "o impacto substancial [dos apoios do governo a famílias e empresas] e penso que é importante abordar os riscos de pobreza energética, que, naturalmente, existem para vários Estados-membros".

"Não é fácil [acabar com apoios], mas é o nosso apelo", diz Gentiloni

Mas acrescentou logo que "o que sempre pedimos é que estas medidas sejam tão temporárias e direcionadas quanto possível; sabemos que não é fácil, mas é o nosso apelo", atirou o italiano.

A Comissão deixou ainda outros sinais. Por exemplo, a inflação prevista para este ano e o próximo em Portugal vai ser claramente mais elevada do que dizem governo e ministro das Finanças no OE2023.

Ou seja, a destruição do poder de compra das famílias portuguesas deve ser mais agressiva do que se anda a dizer, na leitura da CE.

O agravamento dos preços (inflação) deste ano deve disparar até uns históricos 8% e no ano que vem a inflação ainda se mantém muito elevada, suavizando apenas para 5,8%. Fernando Medina, no OE2023 entregue há cerca de um mês, previu uma inflação de 7,4% em 2022 e de apenas 4% em 2023.

Além disso, há a sombra da subida dos juros. Bruxelas teme que a inflação possa chegar a 6,1% em 2023, ou seja, mais do triplo do objetivo do BCE (2%), o que deve acelerar ainda mais as taxas de juro.

20.10.22

Situação da fome no mundo em 2022 é "sombria"

Por Lusa, in RR

Quatro dos cinco países com níveis alarmantes de fome estão situados no continente africano, nomeadamente o Chade, República Centro-Africana, República Democrática do Congo e Madagáscar, segundo o Índice Global da Fome (IGF).

"Sombria" é como o Índice Global da Fome 2022 classifica a situação da fome no mundo, agravada pelas últimas crises e pelas atualmente em curso: impacto da pandemia de Covid-19, guerra na Ucrânia e alterações climáticas.

“Como mostra o Índice Global da Fome (IGF) de 2022, a situação global da fome é sombria. A sobreposição das crises que o mundo enfrenta está a revelar as falhas dos sistemas alimentares, dos globais aos locais, e a realçar a vulnerabilidade das populações de todo o mundo em relação à fome”, lê-se no seu mais recente relatório, hoje divulgado.

No documento, o IGF denuncia que “a percentagem de pessoas sem acesso regular a calorias suficientes está a aumentar”, em relação aos “cerca de 828 milhões de pessoas subalimentadas em 2021, o que representa uma inversão de mais de uma década de progresso no combate à fome”, devido a “uma onda de crises”.

Situação tende a piorar

O estudo prevê que “a situação é suscetível de piorar perante a atual onda de crises globais sobrepostas – conflito, alterações climáticas e repercussões económicas da pandemia de covid-19 – todas elas poderosas potenciadoras de fome”.

“A guerra na Ucrânia veio aumentar ainda mais os preços globais dos alimentos, de combustíveis e fertilizantes e tem o potencial de agravar ainda mais a fome em 2023 e nos anos seguintes”, sustentam os especialistas responsáveis pela elaboração do índice, considerando que “estas crises vêm juntar-se a fatores subjacentes, tais como pobreza, desigualdade, governação inadequada, fracas infraestruturas e baixa produtividade agrícola, que contribuem para a fome e vulnerabilidade crónicas”.

“A nível mundial e em muitos países e regiões, os atuais sistemas alimentares são inadequados para enfrentar estes desafios e acabar com a fome”, vaticinam.

Segundo os especialistas, “sem uma mudança significativa”, existe um potencial de agravamento da situação já em 2023, não se prevendo que o mundo no seu conjunto consiga atingir um nível baixo de fome até 2030, como previsto nas metas definidas na chamada Agenda 2030 (traçada pela ONU e composta por 17 grandes objetivos de desenvolvimento sustentável).

O IGF apresenta uma escala de gravidade da fome que inclui os níveis “baixo, moderado, grave, alarmante e extremamente alarmante”.

Sem melhorias até 2030

De acordo com o estudo, “a fome elevada persiste em demasiadas regiões”, os níveis de população que se encontram subnutridos estão a aumentar e não se prevê qualquer melhoria até 2030.

O sul da Ásia é a região que apresenta os valores mais elevados e a África subsaariana a segunda região com os níveis de fome mais graves, com a subalimentação e a taxa de mortalidade infantil “mais altas do que qualquer outra região do mundo”, nos termos do relatório, que considera que também em regiões como a África oriental, a Ásia ocidental e o norte de África “os valores são preocupantes”.

O sul asiático é também a região com maior taxa de atraso no crescimento infantil (raquitismo) e, “de longe, a maior taxa de emaciação infantil do que qualquer outra região do mundo”.

Emaciação infantil significa percentagem de crianças com menos de cinco anos com baixo peso para a sua altura, o que é reflexo de subnutrição aguda, explica o IGF no relatório, apontando este como um dos quatro indicadores em que se baseia como instrumento “para medir e acompanhar de forma abrangente a fome a nível global, regional e nacional ao longo dos últimos anos e décadas”.

Os outros três indicadores que utiliza na sua fórmula para captar “a natureza multidimensional da fome” são a subalimentação, o atraso no crescimento infantil (que reflete subnutrição crónica) e a taxa de mortalidade infantil de crianças com menos de cinco anos.
Cinco países em nível alarmante

Os especialistas apontam para que cinco países do mundo estejam num nível alarmante — quatro deles africanos e o Iémen, um país em guerra civil desde 2014, que provocou, segundo a ONU, “a pior crise humanitária do mundo” e que, em outubro de 2020, a edição anual do IGF incluía já entre os países com níveis de fome alarmantes.

Além disso, o IGF coloca quatro países num nível provisoriamente alarmante — mais três países africanos e a Síria, também palco de uma guerra civil desde 2011 – e 35 países num nível grave de fome (a maioria dos quais também africanos, além de Timor-Leste, Haiti, Índia e Paquistão, Papua-Nova Guiné, Coreia do Norte e Afeganistão, onde os talibãs retomaram o poder há pouco mais de um ano e que enfrenta uma grave crise económica).

As possíveis soluções apontadas no relatório passam pela transformação dos sistemas alimentares, bem como pela importância do papel que os Governos locais desempenham nestas regiões.

“Num sistema alimentar global que ficou aquém do fim sustentável da fome, é importante olhar para a governação dos sistemas alimentares a nível local, onde os cidadãos estão a encontrar formas inovadoras de responsabilizar os decisores pela resolução do problema da insegurança alimentar e nutricional”, refere uma das especialistas, Danielle Resnick, num ensaio incluído no relatório do IGF deste ano.

“Embora a transformação dos sistemas alimentares requeira, em última análise, intervenções a múltiplos níveis, justifica-se uma maior concentração na governação local dos sistemas alimentares”, porque “as práticas de gestão dos recursos naturais, os métodos agrícolas e pecuários e as preferências alimentares assentam frequentemente nas tradições culturais locais, experiências históricas, e condições agroecológicas”, defende Resnick.

Para o relatório do Índice Global de Fome de 2022, foram avaliados dados de 136 países. De entre estes, havia dados suficientes para calcular a pontuação de IGF de 2022 e classificar 121 países (a título de comparação, foram classificados 116 países no relatório de 2021), refere ainda o documento.
Quatro dos cinco países com níveis alarmantes de fome em África

Quatro dos cinco países com níveis alarmantes de fome estão situados no continente africano, nomeadamente o Chade, República Centro-Africana, República Democrática do Congo e Madagáscar, segundo o Índice Global da Fome (IGF), divulgado esta quinta-feira.

O documento, elaborado anualmente pelas organizações não-governamentais (ONG) Welthungerhilfe e Concern Worldwide para analisar o estado da fome no mundo, revela que o Iémen (Médio Oriente) também obtém este nível alarmante de fome.

De acordo com o IGF de 2022, a que a agência Lusa teve acesso, apresentam níveis de fome previsivelmente alarmantes o Burundi, a Somália, o Sudão do Sul, os três situados no continente africano, e a Síria.

África subsaariana e sul da Ásia à frente

O relatório, intitulado “Transformação dos sistemas alimentares e governação local”, indica que a África subsaariana e o sul da Ásia são as regiões com os níveis mais elevados de fome e as mais vulneráveis a crises futuras. Contudo, nestas regiões os avanços na luta contra a fome encontram-se estagnados.

Em termos gerais, os autores referem que “o progresso global contra a fome estagnou em larga medida nos últimos anos”.

A pontuação do IGF para o mundo em 2022 é considerada moderada - 18,2, o que “revela apenas um ligeiro declínio em relação à pontuação de 19,1 em 2014”.

“A prevalência da subalimentação mostra que a percentagem de pessoas que não têm acesso regular a calorias suficientes está a aumentar”, com cerca de 828 milhões de pessoas subalimentadas em 2021, o que representa uma inversão de mais de uma década de progresso no combate à fome”, lê-se no documento.
Situação mundial da fome é “sombria e lúgubre”

O IGF identificou 49 países com um nível de fome baixo, moderado em 36 países, grave em 35 países, alarmante em nove países. A escala da fome não aponta nenhum estado com um nível extremamente alarmante.

Os autores advertem: “Sem uma mudança significativa, não se prevê que o mundo no seu conjunto, nem cerca de 46 países, possam atingir mesmo um nível baixo de fome até 2030”.

Um baixo nível de fome até 2030 é o objetivo global de erradicação da fome, um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda de 2030 estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A África subsaariana é a segunda região do mundo com a segunda maior pontuação de IGF, atrás da Ásia Meridional. Nesta região do continente africano, a prevalência da subnutrição e a taxa de mortalidade infantil são mais elevados do que em qualquer outra região do mundo, com os conflitos que se registam a serem determinantes para a insegurança alimentar em muitos dos seus países, como o Burkina Faso, Camarões, República Centro-Africana (RCA), Chade, República Democrática do Congo (RDCongo), Etiópia, Mali, Níger, Nigéria, Ruanda, Somália, Sudão do Sul e Uganda.

“A região é também singularmente vulnerável à variabilidade e ao impacto das alterações climáticas, dada a sua elevada taxa de pobreza e dependência de atividades dependentes dos recursos naturais, como a agricultura, a pesca e a pecuária”, refere-se.

Crises expõem as fraquezas nos sistemas alimentares

As fortes chuvas que levam a inundações, o aumento da frequência de secas e a desertificação podem reduzir ainda mais a produção alimentar e aumentar a insegurança alimentar na região.

Na África Oriental, a Etiópia, o Quénia e a Somália estão a sofrer umas das secas mais graves dos últimos 40 anos, que ameaça a sobrevivência de milhões de pessoas.

Segundo o relatório, o Iémen, com 45,1 (alarmante) no IGF, tem a pontuação mais alta de todos os países. A segunda pontuação mais alta (44) foi atribuída à RCA (alarmante).

Na República Centro-Africana, 52,2% da população está subnutrida - a taxa mais alta identificada no relatório deste ano.

Os autores concluíram que a situação mundial da fome é “sombria e lúgubre”.

“As crises sobrepostas que o mundo enfrenta estão a expor as fraquezas nos sistemas alimentares, desde o global até ao local, e expondo a vulnerabilidade das populações de todo o mundo à fome”, apontam.

Segundo o documento, “a ameaça de fome paira mais uma vez no Corno de África e os fundos humanitários continuam a ser insuficientes para chegar a todos os necessitados”.


3.8.22

Consumo diário de energia aumentou 7,2% em julho e bateu recordes no verão

in Expresso

As temperaturas elevadas levaram o consumo de energia elétrica em Portugal a subir 7,2% em julho e a atingir o valor mais elevado de sempre no verão no dia 13 de julho

O consumo de energia elétrica em Portugal subiu 7,2% em julho em relação ao período homólogo, devido às temperaturas elevadas, tendo atingido, no dia 13, o valor mais elevado de sempre no verão, segundo dados da REN.

Assim, de acordo com a informação divulgada pela REN - Redes Energéticas Nacionais, o “consumo de energia elétrica em Portugal aumentou 7,2% no mês de julho, face ao período homólogo, impulsionado pelas temperaturas acima dos valores normais que se fizeram sentir”.

Paralelamente, “no dia 13, uma quarta-feira, registou-se mesmo o consumo diário mais elevado de sempre em Portugal em período de verão, 163,5 GWh [gigawatts-hora], ultrapassando o anterior máximo, registado em 2010”, destacou.

De acordo com os mesmos dados, “com correção dos efeitos de temperatura e número de dias úteis registou-se um crescimento homólogo mensal de 4,9%”, indicou a REN.

De acordo com a empresa, “nos primeiros sete meses do ano, o consumo cresceu, face ao mesmo período do ano anterior, 3,5%, ou 3,3% com correção da temperatura e dias úteis”.

Por sua vez, “o regime hidroelétrico continua seco, com um índice de produtibilidade de 0,30 (média histórica de 1)”, indicou, mas alertando que este valor tem “pouco significado porque se trata de um período do ano em que as afluências são praticamente nulas”.


Já “o regime eólico ficou também abaixo dos valores médios, registando 0,88 (média histórica de 1), enquanto nas fotovoltaicas foi mais favorável com 1,08 (média histórica de 1)”.

Segundo a REN, “a produção renovável abasteceu 36% do consumo, a produção não renovável 35%, enquanto os restantes 29% corresponderam a energia importada”.

No período de “janeiro a julho o índice de produtibilidade hidroelétrica registou 0,34 (média histórica de 1), o de produtibilidade eólica 0,94 e o de produtibilidade solar 1,10” sendo que “a produção renovável abasteceu 46% do consumo, repartida pela eólica com 24%, hidroelétrica com 10%, biomassa com 7% e fotovoltaica com 5%”, tendo a produção a gás natural abastecido 32% do consumo e os restantes 22% corresponderam a energia importada.

Por sua vez, “o mercado de gás natural voltou a registar uma evolução mensal homóloga positiva, 5,4%, devido ao comportamento do segmento de produção de energia elétrica que cresceu 38%”, mas “no segmento convencional mantém-se a tendência de quebra, com uma variação mensal homóloga negativa de 14,8%”.

Entre janeiro e julho, “o consumo de gás natural está praticamente em linha com o verificado no mesmo período do ano anterior, registando uma queda marginal de 0,3%, resultado de uma quebra de 21% no segmento convencional e de um crescimento de 47% no segmento de produção de energia elétrica”, disse a REN.

A empresa recordou que o “aprovisionamento do sistema nacional” se mantém “quase integralmente a partir do terminal de GNL de Sines”.

13.7.22

Medidas para travar a seca em Portugal são “paliativas”

Cláudia Carvalho Silva, in Público

Há anos que a seca assombra o território português e a realidade é só uma: continuará a acontecer e serão mais prolongadas e intensas. Para a combater, há que pensar com tempo e não agir de forma “reactiva”, dizem os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO. Os desperdícios são muitos e há que saber gerir a água, nunca esquecendo que se trata de um bem escasso.

As imagens já corriam e assustavam. O pior confirmou-se quando o Governo decidiu suspender a produção de energia hidroeléctrica em algumas barragens do país. Sem chuva e com pouca água nessas barragens, Portugal voltou a encarar um problema que não é de agora – e que continuará a ser um problema no futuro: a seca. Mas estas medidas, diz a geógrafa Maria José Roxo, são “paliativas”. “Aquilo que nós sempre fazemos e parece que não aprendemos nada com o passado é termos atitudes reactivas. Estamos sempre a reagir ao prejuízo”, comenta, em conversa com o PÚBLICO.

“As secas têm vindo a ser tratadas muitas vezes como se tratou o terramoto de 1755, como se fosse uma coisa esporádica que não acontece mais”, compara também o engenheiro Joaquim Poças Martins, especialista em Hidráulica. Concorda com a suspensão da actividade hidroeléctrica para garantir água para consumo humano, mas acredita que é necessário olhar para a escassez de água de forma diferente. “Vêm aí mais secas, mais severas e mais prolongadas. Essa é a única certeza que temos; portanto, temos de nos adaptar a isso”, vaticina o antigo secretário de Estado do Ambiente.

A parte menos má desta falta de água – e que pode fazer com que não olhemos para as notícias com a gravidade que deveríamos olhar – é que “esta seca não chega à torneira das pessoas”, analisa Poças Martins. Mas já atinge os agricultores e a produção eléctrica.

A principal prioridade do Governo agora é precisamente garantir que “não falta água nas torneiras dos portugueses”, tem dito o ministro do Ambiente e Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes. Mesmo que não chovesse nos próximos dois anos – “algo impensável”, diz –, haveria garantia de água para consumo humano durante esse período.

Vêm aí mais secas, mais severas e mais prolongadas. Essa é a única certeza que temos, portanto temos de nos adaptar a isso

Depois de ter apresentado uma série de medidas para combater a seca em 2018, o ministro afirmou que foi feito um investimento de 500 milhões de euros na renovação dos sistemas de abastecimento de água para diminuir as perdas nas condutas e que tem de haver “práticas agrícolas consentâneas com a disponibilidade de água”. Certo, diz, é que “não podemos contar com a água que não temos”. O que mais pode, então, ser feito?

Não há uma solução – há muitas

A estratégia de Portugal para combater a seca e a falta de água é sempre reactiva, critica a professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa, Maria José Roxo, especialista em Seca e Desertificação. É por aí que se tem de começar: pensar com tempo, “falar antes de as coisas acontecerem” e haver preparação para as evitar, com uma “visão integrada”. Mas “não há uma só solução – há muitas”.

Que medidas poderiam ser tomadas em concreto? Maria José Roxo começa por elencar “medidas mais estruturais”: limpar as barragens, rever sistemas de distribuição de água que estão danificados, “muitos deles no perímetro do Alqueva”, aumentar a capacidade de armazenamento de água, pensar numa agricultura de irrigação mais eficiente na utilização de água.

“Sabemos que os desperdícios são muitos e vamos ser realistas: vamos ter de começar a dizer as coisas tal como elas são, custe o que custar.” Há também que avaliar quais as barragens do país mais assoreadas, com mais materiais depositados, e retirar sedimentos, avaliando o uso do solo e a quantidade de materiais causados por incêndios que podem ir parar às barragens, diz Maria José Roxo. “A limpeza das barragens em 2017 teria sido crucial, até porque depois tivemos anos razoavelmente húmidos”, acredita a académica.

1931

Este é o sexto Janeiro mais seco desde 1931 e o segundo mais seco desde 2000


Outra possibilidade é recuperar as águas da chuva através de “um conhecimento tradicional antigo e modernizá-lo e torná-lo eficiente”. Além disso, há que ter em conta as características do território e da geografia. “Uma medida implementada no Norte do país pode ser um desastre brutal no Sul do país e vice-versa.” As campanhas de sensibilização também são importantes, ainda que aconteçam de forma “esporádica” – o que não ajuda a ver-se a água como um bem escasso, quando parece estar sempre disponível de forma barata.

Manuela Moreira da Silva, investigadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, alerta que os usos não-potáveis “correspondem à maior parte da água que o país consome”, como a rega, usos industriais ou a lavagem de carros, espaços públicos, bocas-de-incêndio e afins. Ainda que a precipitação média tenda a diminuir nos próximos anos, haverá também mais fenómenos de precipitação intensa – as alterações climáticas causam, aliás, uma maior frequência destes eventos extremos. Assim, “será da maior relevância começarmos a captar e armazenar esta água da chuva para posterior utilização”, defende a investigadora e professora no Instituto Superior de Engenharia da Universidade do Algarve.

Sabemos que os desperdícios são muitos e vamos ser realistas: vamos ter de começar a dizer as coisas tal como elas são, custe o que custar Maria José Roxo

E dá o exemplo de um recurso desperdiçado: “Portugal trata actualmente mais de 92% das suas águas residuais urbanas em ETAR, que foram construídas e optimizadas durante os últimos 30 anos, mas reutiliza menos de 2% desses efluentes tratados”. Há também lamas nestas ETAR urbanas que poderão ser “excelentes fontes de fósforo para culturas agrícolas”.

O Ministério do Ambiente e da Acção Climática diz ao PÚBLICO que estão em curso no Algarve projectos para melhorar o tratamento das águas residuais para reutilização (em rega de campos agrícolas ou campos de golfe, por exemplo) para “dotar a região de maior resiliência a fenómenos de escassez de água” e que está em curso a elaboração de planos de gestão de seca para o continente.

Sabendo-se que episódios de seca acontecerão com mais frequência, é “essencial arranjarmos estratégias mais globais, soluções mais duradouras que nos permitam lidar com os fenómenos das alterações climáticas”, acredita Catarina Miranda, coordenadora do projecto Rios Livres, do GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente). A ambientalista acredita que “apostar em alternativas com grande dependência dos recursos hídricos, como as barragens hidroeléctricas e de regadio”, não é a solução, pois só “estimulam o uso de um bem que nós não temos: a água”.

Usar menos água, repensar as formas de agricultura e promover o uso eficiente de água é o caminho a seguir. Outra alternativa pode até ser menos evidente: aumentar a eficiência energética nas casas, por exemplo, permitiria reduzir o gasto de água nas barragens para produção de energia, já que grande parte da energia provém das barragens. Outra é encontrar estratégias que “promovam uma agricultura mais sustentável e menos dependente de barragens de regadio”, com culturas adaptadas ao clima e às regiões. A construção de mais barragens destas, argumenta, poderá levar a ainda mais consumo de água.

Há também que “remover as barragens e barreiras que estão obsoletas”, quando Portugal “está a promover a estratégia contrária, que é uma pressão enorme para construção de barragens de regadio”. “Estamos a andar para trás”, considera Catarina Miranda. A construção da Barragem do Pisão “é um exemplo claro de como o Governo não está a seguir o caminho correcto para a mitigação da seca”.

As barragens podem ser úteis tanto em situações de seca como em situação de cheias e “têm de fazer parte da solução: elas já lá estão, então vamos utilizá-las bem – e vamos cuidar delas”, refere a geógrafa Maria José Roxo. “Tem é de haver uma gestão verdadeiramente eficaz”, havendo manutenção dos canais de rega, uma maior monitorização e cuidado com os solos nas redondezas das barragens.

Joaquim Poças Martins acredita que a construção de mais barragens não é solução. “Não há espaço para elas – e não interessa fazer barragens se elas depois ficam vazias. Fazer barragens não resolve o problema, é preciso ter água...”

No fundo, resume, há três soluções na lista: a dessalinização​, a reutilização de águas e uma boa gestão da água. Mas, ressalva, “não se poupa aquilo que não se mede nem se paga”. Há grandes desperdícios na distribuição e na agricultura, e a solução passa por “responsabilizar o consumo dos utilizadores pelo bem que estão a utilizar, e assim gerem-no bem”, considera. “Temos um discurso de escassez, mas temos uma prática de não valorizar. Como é que se valoriza? Em euros, em cêntimos...”

Na agricultura, que usa cerca de 70% da água em Portugal, a seca pode ser grave sobretudo nos agricultores “que plantam não tendo a certeza de que vão ter água suficiente”. Aí, poderá ser necessário envolver as universidades para que haja uma mudança nas culturas escolhidas: “Nos sítios em que há menos água, há culturas que têm de ser abandonadas.” Regar milho em Agosto, no Alentejo, por aspersão, por exemplo, “é um desperdício de água”.

Seca dura e durará

Com Fevereiro a adivinhar-se seco e sem grande chuva, a preocupação aumenta. As alterações climáticas estão em jogo na equipa adversária, mas “ninguém toma atenção àquilo que os cientistas dizem”, lamenta a especialista Maria José Roxo.

Os dados dizem-nos que a seca meteorológica – causada pela falta de chuva – se “mantém e agravou” no território continental no final de Janeiro de 2022, segundo os números mais recentes do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Todo o território português está em seca: 11,5% em seca extrema, 34,2% em seca severa, 53,7% em seca moderada e 0,6% em seca fraca. O mês de Janeiro foi o sexto mais seco desde 1931 e o segundo mais seco desde 2000 – só ultrapassado pelo ano de seca de 2005.

A falta de chuva tem reflexos na quantidade de água que o país consegue reter com as suas barragens: segundo os dados do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH), no último dia de Janeiro havia 15 albufeiras com disponibilidades inferiores a 40% do volume total. Em comparação com o mês anterior (final de 2021), houve uma descida do volume armazenado em dez bacias hidrográficas.

Maria José Roxo teme que, assim que chover, os ânimos se acalmem e volte tudo ao mesmo. “Quando começar a chover, vamos ficar todos tranquilos. Já choveu. Para o ano, volta-se a não se ter feito nada do ponto de vista estrutural e até de divulgação, de chamar à atenção da população.”

Por agora, segundo o Ministério do Ambiente, não há receio de que faltem recursos para consumo humano. Mas as previsões sobre o que aí vem são menos optimistas. Um relatório apresentado no final de 2021 indica que, nos últimos 20 anos, a disponibilidade de água em Portugal se reduziu cerca de 20% – e os cenários para o futuro são “preocupantes”.

15.6.22

“Queremos uma agricultura que dê resposta ao mercado, que contribua para a segurança alimentar e que crie rendimento para as famílias”

António Monteiro, in Expresso das Ilhas

Com as medidas de desconfinamento as Festas do Município e de Santo António das Pombas iniciadas no dia 2 de Maio decorrem este ano num ambiente mais descontraído, ainda que sem o brilho das festividades anteriores à pandemia. “Não vai haver actividades tão fortes como em outros tempos, mas já é um começo”, relativiza António Aleixo.

Em conversa com o Expresso das Ilhas o edil paulense fala dos efeitos dos quatro anos de seca e da pandemia no município, elenca as medidas do governo e da autarquia para debelar a crise e regozija-se com o lançamento do concurso internacional para a requalificação da orla marítima da Cidade das Pombas até agora uma das grandes preocupações dos moradores da urbe.

Santo Antão enfrenta quatro anos de seca consecutivos, sendo a de 2022 a mais difícil de todos. Qual tem sido o efeito no município?

Realmente o ano de 2022 tem sido difícil se tivermos em consideração a alta taxa de desemprego que ainda perdura, sobretudo entre a camada jovem. Tivemos todo aquele tempo de pandemia em que a economia estava parada, com o desemprego aumentando. Isso preocupou-nos muito e continuamos preocupados com toda esta situação. Portanto, temos que resolver este problema, a Câmara Municipal (CM) com os seus parceiros, neste caso o governo. Claro que há boas perspectivas para o ano de 2022, não apenas através da CM com todos os seus projectos, mas também em parceria com o governo para mudar aquilo que nós entendemos que pode ser mudado, pois mesmo nesta situação de seca e de pandemia há coisas que nós podemos fazer.

Que medidas, naquilo que é da responsabilidade da Câmara Municipal, têm sido implementadas para atenuar os efeitos da pandemia e da seca junto das famílias mais afectadas?

Nós temos um grande projecto que é sobre o Fomento da Práticas Agrícolas Sustentáveis, onde nós elegemos um grupo de pequenos agricultores aos quais temos prestado assistência não só na formação, mas também com doação de equipamentos para rega gota-a-gota para os nossos agricultores não ficarem apenas na fabricação do grogue. Isso tem tido um grande impacto não só junto das famílias, mas também na economia de uma forma geral. Este projecto vem contribuir para a melhoria da condição de vida das famílias, para seu empoderamento e para a segurança alimentar, mas também tem uma componente da gestão da água. Para além disso, para dar confiança aos agricultores e produtores, estamos quase a concluir dois entrepostos agrícolas para também darmos uma contribuição naquilo que nós pensamos que deve ser a nossa cadeia de valores em termos agrícolas. Por outro lado, estamos no processo de aprovação do Selo de Garantia do Município do Paul. Isso tudo porque quando falamos em incentivar as pessoas para a agroindústria temos que dar o primeiro passo. Por isso eu acredito que esse projecto Fomento de Práticas Agrícolas Sustentáveis vai ao encontro daquilo que nós queremos e para além disso também os projectos lançados pelo governo nestes últimos dias, nomeadamente para a valorização das Aldeias Rurais, as obras de requalificação e reabilitação vão modificar tudo aquilo que nós pensamos para o município do Paul. Portanto, são projectos que nós acreditamos que vão melhorar todo o tecido económico e social no nosso município. Estou a dizer isso, porque nós já temos garantia de financiamento não só dos projectos de valorização das Aldeias Rurais, de requalificação dos caminhos bem como do projecto de Fomento de Práticas Agrícolas Sustentáveis. Evidentemente que temos também projectos a desenvolver no sector das pescas. Por isso acreditamos que estamos no bom caminho neste sentido.

O que espera do Plano de Retoma do Setor Privado Pós Covid-19 do governo, publicado em Janeiro deste ano?

É evidente que o Plano de Retoma só agora foi apresentado para dar conhecimentos às pessoas não só daquilo que são as oportunidades de financiamento. As pessoas estão optimistas e quando assim é, nós também ficamos satisfeitos, pois acreditamos que vai dar resultados positivos na dinamização da economia e para fixar as pessoas aqui no nosso município. É evidente que isso leva o seu tempo, mesmo nos dois projectos que referi anteriormente, nomeadamente a requalificação dos caminhos e a valorização das aldeias. São projectos com financiamento garantidos, não na totalidade, mas isso já é muito bom para aquilo que nós queremos, que é estarmos preparados para a retoma do turismo porque acreditamos que os municípios de Santo Antão terão uma resposta a dar nesta vertente do turismo através de coisas concretas que já temos garantia que vão acontecer.

Foi anunciado recentemente o arranque do ensino superior em Santo Antão no mês de Setembro, voltado para as Ciências Agrárias. O que significa este alargamento para o município do Paul?

Para nós é uma notícia que acolhemos com grande satisfação, porque acreditamos que muitas pessoas desta ilha que ainda não tiveram oportunidade de estudar, vão poder realizar os seus sonhos, pois nós sabemos o que é que custa a um estudante fora do seu habitat natural viajar para São Vicente, Praia ou para o exterior. É sempre muito mais custoso do que estudar aqui. Portanto, é sempre uma grande notícia e nós estamos satisfeitos, mas é evidente que não queremos que a universidade seja apenas na vertente agrícola, porque não faz muito sentido.

Segundo o governo, corresponde à vocação da ilha.

Pois, é a vocação da ilha, mas queremos muito mais do que sermos apenas uma ilha agrícola. Somos muito mais do que apenas uma ilha agrícola e acho que o tempo vai-nos dar razão. Mas estamos satisfeitos com esta notícia, os estudantes estão optimistas e agora é fazer a nossa parte para podermos dizer que valei a pena ter o ensino superior aqui em Santo Antão.

O alargamento do ensino superior a Santo Antão irá estancar a saída de jovens para outras ilhas?

Bom, nós não somos contra a saída de pessoas, mas queremos também propor alternativas, ou seja, criar mecanismos para reter aqui os jovens no nosso município, ou na ilha, mas os que quiserem sair por outros motivos, tudo bem. Agora, nós temos que nos esforçar cada vez mais para criar condições para que os jovens tenham opções de escolha. Ou seja, quando terminarem uma formação, terem emprego aqui, ou noutro ponto do país. Agora, da forma como estamos aqui ainda não existem alternativas para os jovens. Portanto, a situação é preocupante, mas acreditamos que com o ensino superior aqui, certamente que teremos maiores oportunidades para jovens formados conseguirem emprego aqui e não terão necessidade de sair. É que muitas vezes os jovens saem para estudar no Mindelo ou na Praia e depois surge uma oportunidade de emprego nestas cidades e depois não haverá essa vontade de regressar e assim ficamos cada mais pobres em termos de talentos. Esta fuga de talentos é preocupante para Santo Antão e seus municípios, pois estamos sempre a começar do zero justamente por causa do problema da oportunidade de formação e de emprego.

Segundo os agricultores, a falta de mão-de-obra está a afectar esta actividade sobretudo no tempo de azáguas. Quais as razões desta situação?

A agricultura nos últimos anos tem sido muito pouco cativante para os jovens. É que ainda praticamos uma agricultura do tempo dos nossos avós, ou mesmo bisavós. Aquilo que nós pretendemos é ter uma agricultura cada vez mais industrializada, porque só desta forma é que a economia ganha. É que praticando uma agricultura rudimentar, nós não vamos a lado nenhum. Por isso acreditamos que com o ensino superior poderemos mudar a forma de praticar a agricultura, mesmo também a questão da economia de escala, porque não havendo escala é também difícil. Como disse atrás, o projecto de Fomento de Práticas Agrícolas Sustentáveis vai ao encontro daquilo que nós queremos para a agricultura, apostando na transformação, conversação e embalagem dos produtos, criando assim toda uma logística para que as pessoas possam constatar no terreno que a agricultura está a dar resultados. Porque, caso contrário, vamos continuar com a monocultura da cana-de-açúcar, que, como se costuma dizer, é a lei do menor esforço. Ou seja, se não conseguirmos vender a nossa aguardente ela fica lá conservada no armazém até o dia em que conseguirmos vendê-la. Não é isso o que nós queremos, queremos que o agricultor tenha dinheiro disponível todos os dias. E isso só acontece se formos capazes de industrializar a nossa agricultura para podermos também darmos uma resposta no âmbito da demanda turística. Estamos optimistas quanto ao turismo, mas para isso temos que ter também produtos para colocarmos nos restaurantes, nos hotéis para não ficarmos sempre a importar tudo, quando aqui no nosso município temos potencialidades para enveredarmos para uma agricultura que dê realmente resposta ao mercado, que contribua para a segurança alimentar e que crie rendimento para as famílias.

A aposta na agroindústria seria uma forma inovadora de contornar o embargo, como afirmou a este semanário numa entrevista anterior?

É o que eu tinha dito então: não podemos ficar parados por causa do embargo. Temos que contornar o embargo. E contornar o embargo é apostar cada vez mais forte na agroindústria. E hoje com as oportunidades de financiamento proporcionadas pelo governo estaremos em melhores condições. Ou seja, apostar na agroindústria, aumento da escala, a valorização dos produtos, a conservação, a transformação e os entrepostos agrícolas, o de Janela e o do interior do vale vêm neste momento dar resposta àquilo que queremos que é contornar a praga dos mil pés e mostrar aos agricultores que mesmo com a situação de embargo, nós podemos fazer muito. Mas se ficarmos a escudar-nos com a praga dos mil pés, nós não vamos a lado nenhum.

Em relação à questão da mobilização da água a sua mensagem é para mudar, é para poupar a água. Explique.

De facto, a minha mensagem é para continuarmos a fazer uma melhor gestão da água. Porque é difícil acreditar que um município como Paul tenha problemas com escassez de água principalmente para rega. Em outros municípios que nada produzem em termos de água, estão a tirar melhor proveito, estão a conseguir produzir mais produtos agrícolas que o município do Paul, porque os agricultores insistem na rega por alagamento. Depois de quatro anos de seca não há água para todos desta forma e mais para frente, cada vez com menos chuvas, continuaremos a ter este problema. Portanto, o projecto Práticas Agrícolas Sustentáveis tem também a vertente de sensibilização das pessoas para a poupança de água através do sistema de rega gota-a-gota. Isto é preciso mesmo, porque se não qualquer dia não vamos ter água. Já estamos atrasados, mas ainda vamos a tempo de reverter a situação se tomarmos consciência que é preciso mudar.

A requalificação da orla marítima, por causa da segurança dos moradores da cidade é uma das grandes preocupações dos munícipes. Quando arranca o projecto?

A requalificação da orla marítima é, de facto, uma preocupação. Há bem pucos dias tivemos a notícia de que o governo lançou um concurso técnico internacional para o projecto de requalificação, porque não temos aqui no país técnicos para elaboração do projecto. Portanto, estamos todos satisfeitos com o lançamento do concurso, pois a situação continua preocupante e cada vez mais as casas mesmo na orla marítima estão em perigo de derrocada. Fez-se um trabalho de mitigação, mas isto não é suficiente para resolver o problema. Temos também uma grande preocupação que é o campo de futebol. Neste momento somos o único município que não tem um campo de futebol e isto já começa a ficar preocupante. Temos dialogado com o sr. primeiro-ministro que nos garantiu que vamos juntos dar essa resposta não através da construção de um estádio de raiz, mas através de uma construção faseada que com o tempo irá evoluir para um estádio. Mas neste momento do que nós precisamos são as condições mínimas para a prática do futebol aqui no nosso município, pois neste momento somos obrigados a levar os nossos atletas para Ribeira Grande para treinar e para jugar e é preciso dar essa resposta aqui no nosso município para podermos ter mais oportunidades e mais infraestruturas para ocupação do tempo livre dos jovens.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1071 de 8 de Junho de 2022.