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POBREZA NA IMPRENSA

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27.9.23

Quando as ovelhas substituem herbicidas e tratores e ajudam a vender vinho

Margarida Cardoso Jornalista, in Expresso


O Alentejo criou há três anos um selo de produção sustentável. E 28% do vinho produzido na região já tem esta certificação. As ovelhas dão uma ajuda, mas há outros fatores a contribuir para a sustentabilidade da produção de vinho

As ovelhas andam por ali durante meio ano, desde o cair das folhas das videiras, depois das vindimas, até março, quando as folhas novas, tenrinhas, começam a nascer e se tornam uma tentação maior do que a erva. Têm um papel a cumprir na sustentabilidade da vinha: “Temos as nossas ovelhas, mas também vêm da vizinhança. Chegamos a ter duas mil cabeças a pastar aqui, em 133 hectares de vinha. Comem as ervas, estrumam a terra, evitam herbicidas e poupam-nos três passagens de cinco ou seis tratores para limpar o solo”, explica Luís Duarte, enólogo chefe e diretor-geral da Herdade dos Grous, o primeiro produtor de vinho a receber o selo de produção sustentável no Alentejo.

[artigo exclusivo para assinantes]
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 4:00 p.m.
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Labels: Agricultura sustentável-Produção de vinho, Alentejo

25.9.23

Incêndios: Governo apoia apicultores de Aljezur, Monchique e Odemira com 25 mil euros

Agência Lusa, in Observador


O apoio, realçou, vai ser "atribuído aos apicultores cujos apiários foram direta ou indiretamente afetados pelos incêndios que deflagraram, no mês de maio e nos primeiros dias do mês de agosto".


O Governo criou um apoio extraordinário, com uma dotação de 25 mil euros, destinado aos apicultores afetados pelos incêndios ocorridos em maio e agosto deste ano nos concelhos de Aljezur, Monchique e Odemira, foi esta segunda-feira anunciado.

Em comunicado, o gabinete da ministra da Agricultura e da Alimentação, Maria do Céu Antunes, indicou que o despacho normativo que prevê a criação desta ajuda, assinado pela governante, foi esta segunda-feira publicado.

O apoio, realçou, vai ser “atribuído aos apicultores cujos apiários foram direta ou indiretamente afetados pelos incêndios que deflagraram, no mês de maio e nos primeiros dias do mês de agosto deste ano, nos concelhos de Aljezur, Monchique e Odemira”.


Referindo-se aos prejuízos causados pelos incêndios, a tutela assinalou que, além dos bovinos, ovinos e caprinos que “ficaram afetados pela eliminação de pastos usados na sua alimentação”, as abelhas foram igualmente afetadas.


Os fogos “comprometeram também a alimentação das abelhas das explorações apícolas cujos apiários se situam na proximidade das áreas ardidas, privando as abelhas do alimento natural que estas áreas lhes proporcionavam”, sublinhou.

Segundo o ministério, os apicultores devem fazer o pedido de apoio, no prazo máximo de 30 dias úteis após a data de publicação deste despacho, junto da Direção Regional de Agricultura (DRAP) e Pescas territorialmente competente, acompanhado por uma ficha de declaração de prejuízos e pela declaração de existências.

A aprovação da ajuda “depende da verificação administrativa e o pagamento é antecedido de controlo no local dos prejuízos sofridos a efetuar pela DRAP”, acrescentou.

Em 25 de agosto último, a ministra da Agricultura e da Alimentação já tinha anunciado um apoio unitário de 8.400 euros para os agricultores e produtores pecuários de Odemira e de 5.400 euros para os de Aljezur.

O incêndio ocorrido em agosto teve início no dia 5 desse mês, no concelho de Odemira (Beja), tendo sido dado como dominado às 10h15 do dia 9, seis dias depois de ter deflagrado numa área de mato e pinhal na zona de Baiona, na freguesia de São Teotónio.


O fogo chegou a entrar nos concelhos algarvios de Monchique e Aljezur e a área ardida ascende a cerca de 8.400 hectares, num perímetro de 50 quilómetros.

Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 3:19 p.m.
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Labels: Alentejo, Algarve, Governo, Incêndios-Apoio aos agricultores

7.8.23

Alojamentos premiados para descobrir no coração do Baixo Alentejo

in SIC

No coração do Baixo Alentejo, há novidades hoteleiras para explorar, herdades premiadas e apostadas na sustentabilidade para usufruir, com vinhos e experiências memoráveis para todas as idades. Dentro ou fora da cidade, conheça os melhores hotéis de Beja.


Novos projetos, dedicados a crianças ou exclusivos para adultos, herdades que são referência internacional e espaços que prestam homenagem à cultura e tradições do Alentejo integram a oferta hoteleira de Beja, em que o vinho tem presença de destaque.

Dentro ou fora da cidade, siga a rota dos melhores hotéis instalados neste município que é o coração do Baixo Alentejo.
Herdade da Malhadinha Nova

Premiado com uma Chave de Platina pelo Guia Boa Cama boa Mesa 2023 e eleito melhor enoturismo nacional, a Herdade da Malhadinha Nova é uma referência na oferta de alojamentos e experiências no concelho de Beja.

Um espaço dedicado ao bem-estar, cura e descanso, com arquitetura de Manuel Aires Mateus, é o novo marco deste projeto familiar. O recém-inaugurado Spa representa um prolongamento do cenário natural da propriedade, com mais de 450 hectares, situada a meia hora de Beja.

Pensado em conjunto com a renomada chancela açoriana de cosméticos naturais Ignae, materializa o conceito de design biofílico, com elementos que remetem para a Natureza e janelas generosas, quadros vivos da paisagem alentejana.

Aproveite para passear a pé, de bicicleta elétrica, moto4 ou a cavalo. Há piqueniques na vinha, junto à ribeira de Terges e, em época própria, pesca de achigã. Faça uma prova de vinhos na Taberna. Visite a adega e jante no restaurante com consultoria do chef Joachim Koerper.

Fique no Monte da Peceguina, rodeado de vinha, ou nas românticas suítes da Casa das Pedras, com terraços e piscinas privativos. As Casas do Ancoradouro e da Ribeira são ideais para famílias, enquanto a Casa da Artes e Ofícios é o sonho para qualquer apaixonado pelo mundo artístico. A partir de €400.
Aljana Guest House

É um alojamento que convida ao descanso e ao relaxamento. Situado a dois passos do castelo de Beja, é uma surpresa a cada arco centenário que se cruza, com zonas comuns amplas, sugestões de leitura espalhadas pela casa e música ambiente.

No pátio, um jardim criado por uma das proprietárias, arquiteta paisagista, é um pequeno oásis, a admirar enquanto toma o pequeno-almoço, com produtos biológicos trazidos da quinta da família, ou se refresca na pequena piscina.

Pernoite confortavelmente num dos sete quartos da Aljana Guest House. Desde €90.
Rua Dr. Aresta Branco, 1, Beja. Tel. 911881544
Herdade do Vau

Situada em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana e no centro do triângulo dourado formado por Beja, Serpa e Mértola, esta herdade tem uma localização ímpar.

A sala comum é ideal para ler, escrever ou ouvir música, mas também para uma prova de vinhos da quinta, acompanhada de petiscos, junto à lareira alentejana.


A Herdade do Vau dispõe de nove quartos e três apartamentos com kitchenette. Fique pela piscina. Ao pequeno-almoço, prove os produtos da horta. Passeie pela vinha e conheça os antigos moinhos do rio. A partir de €100.
Lugar de Monte do Vau, Quintos. Tel. 911798079
Herdade dos Grous

A paisagem convida a passear a pé e a aproveitar a Natureza, enquanto olha a vinha ou visita os animais da quinta. Pode também usar a bicicleta ou fazer passeios equestres. No restaurante, encontra especialidades da cozinha regional e é-lhe sempre sugerido um vinho produzido na herdade para combinar com cada prato.

Siga até à adega e conheça o método de produção, fazendo uma prova das diferentes referências no bar vínico. Existem muitas espécies de aves para observar, e os grous continuam a sobrevoar estes 1100 hectares.

Por entre a vegetação, há uma sauna escondida. Visite a pequeníssima capela, descanse num dos muitos recantos ou então mergulhe na piscina. Fique num dos 32 quartos e aproveite para desligar de tudo. Tome o pequeno-almoço a contemplar a Natureza. Saboreie as frutas de agricultura biológica.



A Herdade dos Grous foi o primeiro produtor de vinho, em Portugal, a receber o selo de produção sustentável atribuído pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA). Desde €125.
Albernoa. Tel. 284960000
Pousada Convento de Beja

Construída no século XV, a Capela/Sala dos Túmulos é um exemplo maior do período gótico em Portugal. Fica no Convento de São Francisco, hoje pousada.

O restauro dos frescos, que cobrem as abóbadas da Sala do Capítulo, atualmente zona de estar, são maravilhas a contemplar.

No antigo refeitório quinhentista funciona o restaurante. Muitos dos 35 quartos da Pousada Convento de Beja foram adaptados a partir das antigas celas dos monges. Passeie pelo jardim, da autoria do ilustre arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, ideal para pôr a leitura em dia, e usufrua da piscina. A partir de €100.
Rua Dom Nuno Álvares Pereira, Beja. Tel. 284313580

Albernoa. Tel. 284965432
Vila Galé Monte do Vilar

Hotel temático para maiores de 16 anos, o Vila Galé Monte do Vilar está instalado numa imensa herdade nos arredores de Beja. Em ambiente sofisticado, o novo agroturismo – inaugurado em abril - aposta nas atividades ao ar livre e em provas de vinhos, bem como na tranquilidade da ruralidade, complementada por um serviço de massagens.

À envolvente natural de uma herdade de 1620 hectares, feita de vinha, olival e árvores de fruto, junta-se a produção de vinho e azeite e a criação de cavalos lusitanos. Oferece 12 quartos, dos quais quatro são suítes.


Os alojamentos são temáticos, prestando homenagem aos principais monumentos do Alentejo. Desde €150.
Herdade da Figueirinha - Santa Vitória, Beja. Tel. 284240030
Vila Galé Nep Kids

É a grande novidade deste verão. “Destina-se exclusivamente a famílias com filhos pequenos que procurem muita animação, atividades e entretenimento”. Com 80 quartos, dos quais 64 com capacidade para dois adultos e duas crianças, o novo hotel é um verdadeiro parque de diversões, “onde os adultos só poderão entrar quando acompanhados por crianças”.

A lista de atrações e equipamentos dedicados aos mais novos parece não ter fim: carrossel, trampolins, parede de escalada, slide, pista de condução, sala de cinema e sala de jogos e até uma zona de graffiti.



Terá também campos de padel, de beach ténis e multiusos. Conte ainda com piscinas e parque aquático. O Vila Galé Nep Kids oferece 80 quartos familiares, com capacidade para dois adultos e duas crianças, alguns com beliches e escorrega. A partir de €210.
Herdade da Figueirinha - Santa Vitória, Beja. Tel. 212460650

Acompanhe oBoa Cama Boa Mesa na SIC Notícias, no site doExpresso e ainda no Facebook, no Instagram e no Twitter.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 9:15 a.m.
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Labels: Alentejo, Alojamentos, Boa Cama Boa Mesa, Hotelaria-Férias

13.6.23

Carlos Pinto de Sá: "Alentejo vai perder, nas próximas décadas, entre 28% a 40% da água"

Francisco Almeida Fernandes, in DN


O presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central pede mais apoio do Estado aos municípios para a resposta às alterações climáticas. Já há 14 concelhos com planos locais de mitigação.
m entrevista ao DN, o presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central (CIMAC) fala sobre os desafios que os municípios da região enfrentam na resposta às alterações climáticas. Através do projeto Adapta.Local.CIMAC, apoiado com 191 mil euros dos EEA Grants, a instituição conseguiu definir medidas de mitigação adaptadas a cada concelho. Com os planos concluídos, Carlos Pinto de Sá pede agora mais apoio financeiro do Estado central e mais recursos humanos para executar as estratégias.

Como é que surge o projeto Adapta.Local.CIMAC?

O projeto surge na sequência de um conjunto de anteriores projetos e posições da CIMAC de preocupação com as questões das alterações climáticas e da necessidade de estudar formas de nos adaptar a essas alterações climáticas. Recordo que estamos no Alentejo, uma região que tem problemas graves ao nível dessas alterações climáticas, em particular se tivermos em conta o problema da escassez de água. Há estudos que apontam para a possibilidade de o Alentejo perder nas próximas décadas entre 28% a 40% dos seus recursos de água. É por isso que surge esta ideia de sistematizar e olhar o futuro a médio prazo para podermos preparar os municípios e a sua intervenção na adaptação às alterações climáticas. Foi possível propor, no âmbito da CIMAC, aos 14 municípios do Alentejo Central, um projeto comum que permitisse responder a estas preocupações e depois traduzir essas medidas na atividade diária e nos planos estratégicos dos municípios.

O projeto conta com apoio técnico para desenhar as diferentes estratégias?

Foi feita uma candidatura a um concurso apoiado pelos EEA Grants e a CIMAC viu aprovada esta candidatura, que tem como parceiros, além dos técnicos dos municípios, o CEDRU - Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urbano e o operador dinamarquês International Development Norway, que trabalha com as questões climáticas e tem uma experiência significativa nesta matéria. Portanto, é nesta perspetiva de responder de uma forma sustentada que se avançou para os 14 planos de adaptação. Estes planos estão interligados e sustentados no Plano Intermunicipal de Adaptação de Alterações Climáticas.

Que tipo de medidas estão incluídas nestes planos? São dirigidos a setores e atividades específicas?


Em primeiro lugar, identificaram-se as principais prioridades relativamente às alterações climáticas. O que vamos ter aqui no Alentejo e no Sul de Portugal é uma tendência para que o deserto avance do Norte de África para o Sul da Europa, o que significa que vamos passar a ter um clima diferente, com muito menos períodos de chuva, em que a chuva aparecerá muito mais concentrada e em que o volume será significativamente maior por causa dessa concentração. Temos de ter atenção, por exemplo, à agricultura que aqui no nosso território é quem mais água gasta, cerca de 80% da água. Mas também para os próprios municípios, no sentido de poderem preparar a adaptação das suas redes de água e saneamento. A rede de água precisa ser remodelada e temos de obter financiamento para essas requalificações. A rede de saneamento também precisa ser intervencionada para se adaptar às chuvas muito concentradas que vamos ter. Precisamos também de adaptar os instrumentos de planeamento, como os Planos Diretores Municipais, no sentido de poderem responder a estas preocupações.

A cooperação entre municípios para atingir este objetivo comum também é uma das conquistas neste processo...


Este é um exemplo de cooperação entre municípios. Esta é uma área em que é particularmente necessária a cooperação de todas as entidades, não apenas do Estado Central, do Estado Regional ou do Estado Local. Estou a falar também das empresas, ou seja, estes planos não podem ser apenas municipais, têm de ser planos mais alargados e que tenham por base também essa cooperação. Isto é essencial, até porque as alterações climáticas não olham para os ciclos políticos.

A falta de financiamento e de recursos humanos nas autarquias são desafios à implementação destes planos municipais?

Podemos ter um bom plano, mas se não for concretizado não vale de nada. Infelizmente, em Portugal temos muitos exemplos dessa situação e, em particular, no Alentejo. Recordo vários anúncios de planos estratégicos para o desenvolvimento do Alentejo que ficaram na gaveta e apenas pelo anúncio. Tendo o plano, precisamos, em primeiro lugar, de ter estruturas dentro dos municípios que assegurem a sua execução. Isso significa ter recursos humanos qualificados e meios financeiros para os executar. A questão do financiamento é absolutamente essencial e tem de haver uma decisão nacional sobre estas matérias. Aliás, em rigor, este problema é um problema nacional, que tem de ser articulado ao nível nacional e local, no qual o governo tem, obviamente, um papel absolutamente determinante na execução destes planos.

Uma das características deste projeto é o envolvimento das comunidades no processo com reuniões locais. Será para manter?

Diria que é obrigatório, porque é necessário sensibilizar as populações e, naturalmente, devemos começar pelas escolas. Costumamos dizer que de pequenino é que se torce o pepino. Vamos ter de ter alterações nos comportamentos da população, nas nossas casas, nas empresas e nos padrões de consumo. É importante também ouvir as populações sobre o problema da mobilidade, por exemplo. Uma das principais causas das alterações climáticas tem a ver com as emissões do transporte rodoviário. É, portanto, necessário reduzir essas emissões, substituindo automóveis de combustão por automóveis mais amigos do ambiente. Mas temos de alterar o uso do automóvel e o comportamento. Por exemplo, no centro histórico de Évora não vai ser possível termos o volume de veículos que temos, vamos ter de reduzir substancialmente, ter outros hábitos de mobilidade, nomeadamente andar a pé, de bicicleta ou em transporte público. E isso faz-se envolvendo a população, porque não é de um dia para o outro que se conseguem essas alterações.

O Plano Ferroviário Nacional pode ter um papel importante nessa transição?

O Alentejo tem sido muito penalizado pelo desinvestimento na ferrovia, mas diria que o país todo, durante décadas, não cuidou do transporte ferroviário e desinvestiu, em particular no transporte de mercadorias. Os mármores aqui da zona de Estremoz, Vila Viçosa ou Borba podiam perfeitamente ter sido transportados por ferrovia. Houve, de facto, um desinvestimento na ferrovia, que me parece inqualificável, mas também algo que surpreende, porque a ferrovia oferece, sobretudo do ponto de vista do transporte de mercadorias, vantagens muito significativas. No Alentejo, a situação é ainda mais grave porque houve um conjunto de linhas que foram fechadas, não houve alternativas a essas linhas e, no Plano Ferroviário Nacional, o que está previsto para o Alentejo é, a nosso ver, manifestamente pouco. A CIMAC já se pronunciou sobre isso, chamando a atenção para a necessidade de reforçar e concretizar os investimentos na ferrovia aqui no Alentejo. No caso do Alentejo Central, vamos ser atravessados pela linha que vai de Sines a Évora e depois a Espanha. É claro que não deve servir apenas o porto de Sines e tem de servir também os territórios que atravessa. E, por isso, naturalmente, precisamos ter aqui pontos de ligação à ferrovia de mercadorias.

Deverá incluir também o transporte de passageiros?

Sim, a rede ferroviária pode ser utilizada não apenas para mercadorias, mas em simultâneo para passageiros. E essa é outra aposta que é importante. É verdade que o Plano Ferroviário Nacional aponta o que pretende fazer, mas não fala em prazos nem em financiamento. Ficamos sempre aqui um pouco na dúvida se é mais um plano que ficará no papel. Mas continuaremos a insistir nesta necessidade, que também terá impactos positivos na questão do clima.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 8:51 a.m.
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Labels: Alentejo, Ambiente, CIMAC-Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central, Seca

15.5.23

Seca: a “maior catástrofe de sempre” já está à nossa espera na bacia do Sado

Carlos Dias (texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público


Espera-se o pior na produção de cereais e na pecuária. Os animais não têm alimento e os produtores pecuários já enfrentam a escassez de água. As searas estão perdidas. Nem a palha se aproveita.


Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.

Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.

Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.

É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.

Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.

No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.

Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.

O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.

Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz

Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.

Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.

Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.

Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.

“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral


De 30 para dois fardos de forragem por hectare

O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”

A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”

Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.

Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”

Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"

Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

Barragens no vermelho

Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.

Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.


O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.

Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”

O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.

“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.

Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.

Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 10:53 a.m.
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Labels: Agricultura, Água, Alentejo, Ambiente, Barragens, Dados do SNIRH-Serviço Nacional de Recursos Hídricos, fotoreportagem, Seca

14.4.23

Tráfico de pessoas em Portugal ligado ao trabalho agrícola sazonal no Alentejo e Oeste

Por Lusa, in Rádio Pax



O tráfico de pessoas em Portugal, que está a aumentar, está ligado ao trabalho em campanhas sazonais agrícolas em locais de difícil acesso no interior alentejano e na zona oeste, o que dificulta a fiscalização, segundo um relatório.


A caracterização do tráfico de pessoas em Portugal consta do Relatório Anual de Segurança (RASI) de 2022, que dá conta de um aumento do número de presumíveis vítimas sinalizadas para 378, mais 60 do que em 2021.

O documento, aprovado pelo Conselho Superior de Segurança Interna e entregue na Assembleia da República, refere que o tráfico de pessoas continua a estar “muito ligado a angariação e recrutamento para trabalho em campanhas sazonais, como apanha da azeitona, castanha, frutos ou produtos hortícolas” e as vítimas são levadas para os locais das explorações agrícolas, onde passam a trabalhar e a residir e a depender “totalmente da vontade dos empregadores”.

As vítimas, que possuem “escassos recursos económicos” e se encontram “em estado de vulnerabilidade”, são colocadas a trabalhar geralmente em locais situados no interior alentejano ou na zona oeste do país, “com difíceis condições de acesso, dificultando a fiscalização”.

O RASI sublinha que tem vindo a ser exposto um esquema de exploração laboral relacionada com cidadãos moldavos, uma vez que os titulares de passaporte biométrico estão isentos de obrigatoriedade de vistos para fins de turismo.

O documento relembra também o caso dos cidadãos de Timor-Leste que chegaram ao país na segunda metade de 2022 para encontrarem trabalho em Portugal ou conseguirem entrar no Reino Unido, mas grande parte dos timorenses não conseguiu alcançar aqueles objetivos, acabando por ficar em situações de “extrema vulnerabilidade e com a necessidade urgente de apoio por diversas instituições nacionais de solidariedade social”.

De acordo com o RASI, no ano passado foram sinalizados 378 presumíveis vítimas de tráfico de seres humanos, mais 60 do que em 2021, continuando Portugal a manter-se como país de destino.

Apesar de não existirem vítimas confirmadas no contexto da guerra na Ucrânia, tendo em conta o risco global de um possível acréscimo de presumíveis vítimas de tráfico de seres humanos, encontram-se registadas nove sinalizações que se reportam a presumíveis vítimas, maioritariamente ucranianas, em alegada exploração laboral.

A maioria das presumíveis vítimas de tráfico de seres humanos sinalizadas em 2022 era para fins de exploração laboral, principalmente no setor agrícola, mas também no futebol e em servidão doméstica.

O documento refere ainda que no ano passado foram sinalizados 26 menores, valor igual ao registado em 2021, e 329 adultos, mais 56 do que em 2021, além de 11 portugueses identificados no estrangeiro que alegadamente foram vítimas de tráfico de pessoas.

A maioria das presumíveis vítimas sinalizadas em Portugal são homens, com uma média de idades de 32 anos, oriundos do Nepal, Índia, Marrocos, Argélia, Brasil e Roménia.

Rádio Pax / Lusa
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Labels: Alentejo, AR, Combate ao tráfico de seres Humanos, Exploração laboral, Portugal, RASI-Relatório Anual de Segurança, Trabalho agrícola-Campanhas sazonais

2.12.22

Uma casa de banho para 70 pessoas: imigrantes viviam “em condições deploráveis”

Joana Gorjão Henriques e Mariana Oliveira, in Público

Entre os cidadãos resgatados, havia quem ganhasse entre 5 e 10 euros por semana e tivesse de mendigar, conta fonte ligada ao processo.

Mais de 70 pessoas a dormir num alojamento com uma única casa de banho, colchões nas próprias casas de banho, colchões amontoados em várias divisões; algumas pessoas a ganhar entre 5 e 10 euros por semana, que eram forçadas a mendigar para conseguirem sobreviver.

Esta é a descrição feita ao PÚBLICO por uma fonte próxima do processo sobre a situação dos trabalhadores imigrantes resgatados esta quarta-feira no Alentejo, em várias localidades – uma operação da Polícia Judiciária, no âmbito de um inquérito do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, que envolveu 400 operacionais.

Segundo o PÚBLICO apurou, quando era necessário, os membros da rede recorreriam à ameaça física e psicológica tanto dos trabalhadores que exploravam em Portugal, como das suas famílias, que se encontravam nos respectivos países de origem, fazendo os imigrantes viver num permanente clima de medo e terror. Por vezes, a intimidação era feita com armas de fogo e os mais contestatários eram forçados a mendigar para sobreviver.​

Fonte próxima do processo sublinhou que a prioridade foi realojar estes cidadãos, alegadas vítimas nepalesas, moldavas, timorenses, romenas e ucranianas, entre outras nacionalidades. Uma outra fonte adiantou, contudo, que a maior parte dos cerca de 200 imigrantes explorados optou por permanecer no Alentejo e continuar a trabalhar nas propriedades agrícolas onde já prestavam serviços. É que quem os explorava eram os intermediários, agora detidos, e não os empregadores finais.

Os imigrantes estavam nas mãos de uma rede em que a cúpula era uma estrutura familiar, de origem romena, que contava com cidadãos de outras nacionalidades, incluindo, pelo menos, meia dúzia de portugueses com posições menos importantes. Alguns são encarregados de explorações agrícolas que receberiam contrapartidas para, na selecção da mão-de-obra, dar preferência aos imigrantes explorados por esta rede, o que permitiria aos suspeitos receberem os montantes a que os trabalhadores teriam direito.

Deste rol, faz ainda parte uma solicitadora, com escritório em Cuba, que teria a função de criar as empresas de fachada usadas para formalizar os alegados serviços às explorações agrícolas e de falsificar documentos, quando tal era necessário.

Os líderes desta alegada associação criminosa seriam um casal romeno, na casa dos 30 anos, que chefiavam uma estrutura hierarquizada, em que os diversos elementos tinham tarefas bem distribuídas, ganhando consoante o nível de responsabilidades que assumiam. Uns eram responsáveis pela angariação das vítimas e pelo seu transporte para Portugal, outros controlavam os imigrantes nas explorações agrícolas, outros davam o nome para constituir as empresas usadas nos esquemas.

A investigação, aberta em Janeiro deste ano, apurou que os imigrantes pagavam para vir de transportes terrestres para Portugal. Uma das fontes referiu que os valores cobrados variavam – houve quem pagasse 700 euros e quem desembolsasse 2500 euros –, mas ainda não foi apurado se essa diferença tinha que ver com a nacionalidade ou com a rota.

A investigação não irá ouvir todas as vítimas. Para já, no âmbito dos mandados de busca – que, segundo a Polícia Judiciária, foram 65, além da detenção de 36 homens e mulheres –, foram apreendidos alguns documentos de identificação de trabalhadores que estavam nas mãos dos suspeitos, armas, ouro e milhares de euros em dinheiro. Os detidos serão apresentados esta quinta-feira à tarde no Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, onde serão interrogados pelo juiz Carlos Alexandre, que lhes aplicará as respectivas medidas de coacção.

Em relação às alegadas vítimas, algumas tinham contrato de trabalho, mas o documento não corresponderia à realidade, acrescentou uma das fontes ouvidas pelo PÚBLICO.

Apoios a alojamento prioritário

Segundo o comunicado enviado pela PJ, os suspeitos têm entre 22 e 58 anos, são de nacionalidade estrangeira e portuguesa, e estão “fortemente indiciados pela prática de crimes de associação criminosa, de tráfico de pessoas, de branqueamento de capitais, de falsificação de documentos, entre outros”.

Em Beja, no parque urbano da cidade, foram instalados contentores para receber os imigrantes e montaram-se tendas da Polícia Judiciária.

Os imigrantes estão a ser apoiados por cinco equipas multissectoriais, compostas por elementos de áreas diferentes: além da PJ, a Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), Instituto de Segurança Social, Alto Comissariado para as Migrações e equipa especialista em tráfico de seres humanos, geridas pela Associação de Planeamento Familiar (APF), disse ao PÚBLICO Manuel Albano, o relator nacional para o tráfico de seres humanos, responsável também pela APF.

O relator sublinhou ainda que “houve uma cooperação com todas as organizações de apoio social para garantir um conjunto de direitos a estas pessoas”. As entidades estão a “procurar as melhores soluções, nomeadamente a nível de apoio no alojamento, deslocação, comunicação e suporte”, disse Manuel Albano, que não especificou detalhes sobre os locais para onde vão ser encaminhadas as vítimas, pois tal poderia colocar em causa a investigação.

Esta não foi a primeira operação desta envergadura na qual participaram as equipas multidisciplinares, refere Manuel Albano, lembrando uma operação em 2018 com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) no Alentejo em que foram encontradas cerca de 200 pessoas e, dessas, cerca de 30 identificadas como vítimas de tráfico.

No terreno, as organizações como Solidariedade Imigrante, em Beja, lembram que esta situação “não é novidade”: “Andamos a denunciar isto há anos, toda a gente no terreno sabe destas situações”, diz Alberto Matos. Isaurindo Oliveira, presidente da Cáritas de Beja, lembra o mesmo. “Dá-me ideia de que as pessoas andam distraídas. São problemas que existem todos os dias” e que são denunciados às autoridades, afirma.

A Cáritas já atendeu mais de mil pessoas este ano e por vezes – não sabe especificar em quantos casos – detectam “problemas associados” como “pessoas que são aldrabadas, com contratos que falham, e sujeitas a mecanismos para sacar dinheiro por tudo e mais alguma coisa”, diz. “Há um problema muito grande com a habitação – muitas pessoas vivem em situações miseráveis. Vamos entrar num período crítico, entre Janeiro e Abril, em que os contratos são interrompidos e as pessoas são confrontadas com dificuldades.” Muitas ficam sem abrigo, como a Cáritas já registou. Com Carlos Dias
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 12:18 p.m.
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Labels: Alentejo, Escravatura, Migrantes, PJ-Departamento de Investigação e Ação Penal Lisboa, Resgate

21.11.22

Número de pessoas sem-abrigo triplica em Beja, migrantes engrossam grupo

Rosário Silva, in RR

Desde o início do ano que a Cáritas da Diocese de Beja tem no terreno o projeto “Estou Tão Perto que Não Me Vês”. Há uma equipa que anda pelas ruas e um espaço de portas abertas para assegurar as necessidades básicas destas pessoas.

Migrantes timorenses engrossaram contingente de sem-abrigo. Foto: Nuno Veiga/Lusa

A Cáritas de Beja está preocupada com o aumento significativo de sem-abrigo na cidade. Em dois anos, triplicou o número de pessoas nessa situação.

O inquérito de caracterização desta população, de 2020, publicado no portal da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), revelava que a grande maioria se concentra na Área Metropolitana de Lisboa (AML), contudo por 100 mil habitantes, a situação mais preocupante é no Alentejo, nos concelhos de Alvito e Beja.

Só no concelho de Beja, com base nos atendimentos dos diferentes serviços internos da Cáritas, foram sinalizadas um total de 88 pessoas em situação de sem-abrigo, em 2020, número que este ano mais do que triplicou para 279.

“Se nos reportarmos a 2020, tendo por base os atendimentos da Caritas, foram sinalizadas 88 pessoas e, neste momento, já temos 279”, confirma, à Renascença Maria do Carmo Gonçalves, responsável pelo projeto “Estou Tão Perto que Não Me Vês” da Cáritas bejense.

O projeto começou em janeiro deste ano para se prolongar, pelo menos, até dezembro de 2023, com a finalidade de atender, acompanhar e integrar pessoas em situação de vulnerabilidade ou de risco e em situação de sem-abrigo no concelho alentejano.

Esta população, maioritariamente do género masculino e com uma média de idade a rondar os 45 anos, tem associadas várias problemáticas, tais como desemprego de longa duração, consumos aditivos, problemas ao nível da saúde mental e alcoolismo. Juntam-se os migrantes, que vieram à procura de trabalho, mas acabaram por ser explorados ou enganados. São de diferentes nacionalidades, com destaque para os timorenses que, ainda assim, foram já realojados.

“São de diversas nacionalidades. Temos, por exemplo, marroquinos, indianos, nepaleses, moldavos, mas a prevalência, sim, são pessoas de Timor”, esclarece a responsável.

Cáritas tem equipa de rua e espaço de porta aberta

Totalmente desprotegidos, os migrantes acabam a deambular pelas ruas da cidade, à espera da ajuda que chega das instituições de solidariedade social, como a Cáritas bejense.

No âmbito do projeto “Estou Tão Perto que Não Me Vês”, foi criada uma equipa de rua que, tal como o nome indica, tem como missão prestar apoios às pessoas que se encontram na rua, promovendo diversas campanhas de prevenção contra os incêndios, vagas de frio e de calor, identificando problemas de saúde e comportamentos aditivos, além de realizar o acompanhamento aos diversos serviços em caso de necessidade.

Foi também criado um “Drop In”, situado na Casa do Estudante, o espaço “estórias”, dotado de equipamentos e recursos que permitem às pessoas em situação de sem-abrigo receber apoio ao nível da alimentação, higiene e tratamento das roupas, medicação assistida e cuidados de saúde primários. No mesmo local, é prestado apoio psicológico e social.

Maria do Carmo Gonçalves assume que todos os recursos da Cáritas são poucos para fazer face às necessidades, mais ainda quando o número de pessoas que requerem ajuda aumentou.

No terreno, elege a falta de habitação como uma das maiores dificuldades no trabalho de intervenção. “A falta de habitação social e de centros de abrigo temporário, ou de emergência, tão necessários para quem está na rua, com diversas problemáticas associadas, são dificuldades que encontramos quando intervimos junto destas pessoas”, alude a técnica de ação social.

E a pouco menos de dois meses de 2023, que se espera muito difícil, as perspetivas não são nada animadoras.

“Estes aumentos de preços, o aumento das rendas, a inexistência de casas para alugar, o aumento das que existem, parece-nos que o crescimento da pobreza vai ser uma realidade. Nós acompanhamos com preocupação a situação de centenas de pessoas que vivem nas ruas de Beja e tememos também o despejo de pessoas idosas, sem recursos”, constata a mesma responsável.

Grupos vulneráveis devem ser “prioridade nacional”

Para refletir em torno dos desafios que se colocam à sociedade, sobretudo ao nível dos organismos públicos, para responder à realidade das pessoas em situação de sem-abrigo no concelho de Beja, a Cáritas diocesana promove esta quinta-feira, 17 de novembro, uma conferência sobre a temática.

“Pelo contexto de vida a que estão sujeitas, as pessoas em situação de sem-abrigo são uma população vulnerável com condições precárias e a quem muitas vezes o acesso a vários serviços públicos e apoios sociais existentes se torna bastante difícil, fazendo com que seja necessária uma intervenção articulada junto desta população-alvo, assegurando a informação clara dos seus direitos e a um atendimento personalizado para que tenham acesso aos mesmos”, lê-se na nota de apresentação do encontro.

Os promotores consideram que todos os grupos vulneráveis, onde se incluem as pessoas em situação de sem-abrigo, “devem representar uma prioridade de intervenção política nacional”, assumindo particular importância “no quadro da descentralização de competências para os municípios, sobretudo na área social”.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 2:57 p.m.
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Labels: Alentejo, Beja, Cáritas, Combate à pobreza, EAPN Portugal, Migrantes, Pobreza, Sem abrigo

2.9.22

AMCAL leva projeto «vai de centro ao centro» a vários locais do Alentejo

in Sul Informação

A Associação de Municípios do Alentejo Central (AMCAL) vai levar a Alvito, Cuba, Portel, Viana do Alentejo e Vidigueira o projeto “Vai de centro ao centro”, durante o mês de Setembro.

O projeto é desenvolvido no plano artístico pela “Chão Nosso”, cooperativa cultural com sede em Beringel, protagonizado por Ana Santos, Celina da Piedade e Cristina Taquelim, e pretende ser mais «uma ferramenta para promoção do envelhecimento ativo e uma procura de religar o tempo, a memória e as comunidades», refere a AMCAL em nota.

A iniciativa é financiada pela AMCAL, no âmbito da intervenção na área da Cultura e Património.
Programa:

1 de Setembro: Alvito – 18h30 no Largo da Biblioteca
15 de Setembro: Viana do Alentejo – 18h30 na Biblioteca
22 de Setembro: Cuba – 21h00 na Biblioteca
28 de Setembro: Vidigueira – 18h30 na Biblioteca
29 de Setembro: Portel – Auditório (horário a definir)
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 1:24 p.m.
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Labels: Alentejo, AMCAL, Envelhcimento ativo

6.5.22

Novo caso de exploração de migrantes no Alentejo

 Alexandra Sofia Costa in RTP

https://www.rtp.pt/noticias/politica/novo-caso-de-exploracao-de-migrantes-no-alentejo_a1403244


Novo caso de exploração de migrantes no Alentejo


Cinco pessoas foram acusadas de exploração de migrantes na zona de Serpa, no Alentejo. Os suspeitos foram identificados após uma investigação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, no ano passado, que constatou a prática de abusos sobre trabalhadores de explorações agrícolas.


Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 2:02 p.m.
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Labels: Agricultura, Alentejo, Exploração, Guerra na Ucrânia, Investigação SEF, Migrantes

19.4.22

Beja. Situação de seca "melhorou" mas prejuízos são "irrecuperáveis"

 in Sapo

Em Beja, as chuvas de março não conseguiram melhorar a situação de seca na região. “O que choveu foi pouco para repor as pastagens”.

As últimas chuvas ajudaram mas não chegam. “É evidente que melhorou um pouco. Há mesmo zonas, no sul do distrito de Beja, com solos mais fracos, em que estas chuvas provocaram logo escorrimentos e encheram pequenas charcas e barragens utilizadas para o abeberamento do gado”. Quem o defende é Rui Garrido, presidente da Associação de Agricultores do Sul, admitindo que a situação de seca “melhorou um pouco” no distrito de Beja mas os prejuízos “são irrecuperáveis”.

“Quando choveu, havia já prejuízos provocados pela seca que são irrecuperáveis, quer nas pastagens/forragens, quer nos cereais, quer nas oleaginosas de outono/inverno, como a colza”, disse numa entrevista concedida ao gabinete de imprensa da edição deste ano da Ovibeja, enviada à Lusa.

Na entrevista o responsável diz ainda que “o facto de as temperaturas também não terem sido muito altas, também foi positivo” para a melhoria da situação de seca naquela região. Só que “o que choveu foi pouco para repor as pastagens”.

Recorde-se que, tal como o i tinha avançado, a situação de seca desagravou-se significativamente com a chuva de março, deixando de haver zonas do país em seca extrema, o cenário que se vivia no fim de fevereiro em mais de 60% do território nacional. O balanço foi feito ao i pelo vice-presidente da Agência Portuguesa do Ambiente.

“Estamos mais tranquilos mas temos de continuar vigilantes, economizar água e tornarmo-nos mais eficientes. Se há algo que sabemos é que o futuro nos reserva menos água”, sublinhou José Pimenta Machado, aludindo às análises que dão conta de um aumento dos anos secos em Portugal nas últimas décadas.

As chuvas de abril podem vir a permitir chegar ao verão numa situação mais confortável, admitiu Pimenta Machado, mas insistiu que, apesar da melhoria, a adaptação à seca e economia da água continuam a manter-se como preocupações.

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, março foi o sexto mês mais chuvoso desde 2000, com o valor médio da quantidade de precipitação (102,5 milímetros) superior ao valor normal 1971-2000.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 8:55 a.m.
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Labels: Alentejo, Alterações climáticas, Seca

2.3.22

“Há redes mafiosas que têm o objectivo de explorar o trabalhador em Portugal”

Ana Dias Cordeiro ( texto) e Daniel Rocha ( fotografia), in Publico on-line

Carlos Graça, director da unidade da ACT que fiscaliza o trabalho agrícola na zona de Odemira, diz que os fenómenos de exploração laboral agravados pela entrada em cena das empresas intermediárias, prestadoras de serviço, estão presentes em muitas outras partes do país.

Na unidade da ACT do Litoral e Baixo Alentejo, que dirige, tem uma equipa de 15 inspectores. Como são realizadas as inspecções?
De várias formas e em várias perspectivas. O concelho de Odemira é o maior do país mas estes fenómenos circunscrevem-se a três freguesias do concelho. Temos fenómenos idênticos em todo o distrito de Beja, em toda a zona de intervenção da Unidade Local do Litoral e Baixo Alentejo, porque mesmo em Tróia, Alcácer do Sal, existem estes mesmos fenómenos. A única diferença é a concentração. Em Odemira temos uma concentração que chegará a atingir 15 mil pessoas. Em regra, não desencadeamos acções com cariz mais musculado, verificador da conformidade sem desenvolvermos acções com cariz pedagógico, informador, e isso foi feito, nos últimos anos. Em 2021, a inspecção desenvolveu uma acção pedagógica, no âmbito da pandemia. Mas em Maio, como uma parte significativa não estava a cumprir, começámos a desenvolver uma actuação muito mais objectiva. Em articulação com o SEF, a GNR, o Ministério da Saúde, a Segurança Social e, outras vezes, o ACT sozinho. Passámos a desenvolver uma acção de verificação e de controlo muito mais efectiva.

Como se faz essa verificação mais efectiva?
Nós direccionamos a actuação para a identificação das pessoas e para a verificação das suas condições de trabalho. Para isso, são necessárias acções conjuntas, nomeadamente com a GNR, com uma actuação muito mais musculada. O campo é todo circunscrito, os trabalhadores são trazidos a um ponto central, onde são identificados comprovadamente através de documentos. Temos a percepção in loco do contacto com os trabalhadores dos problemas que os afectam nas suas relações de trabalho, das suas questões sociais, e de alojamento.

Mas muitas vezes, as inspecções são realizadas sem que os trabalhadores sejam ouvidos. Porquê?
Quando é necessário, os trabalhadores são ouvidos em declarações. Ouvimo-los em declarações.

E confirmam as irregularidades ou têm medo de represálias?
Não temos dúvidas de que os trabalhadores estão muitas vezes condicionados e principalmente os que estão ao serviço de prestadores de serviços, não aqueles que têm contratos directos com as empresas agrícolas. Se não usamos tradutores, é quase impossível, e mesmo quando usamos tradutores, eles fecham-se. A condicionante é constante – até porque as represálias não se exercem só sobre eles. Exercem-se muitas vezes, infelizmente, sobre os familiares que estão no país de origem. Tivemos o caso de uma pessoa que era preciso levar para uma casa-abrigo em Lisboa. Ela estava em risco, mas não queria ir, porque dizia que se fosse embora, iriam matar o pai e a mãe no país de origem. E há uns anos tive conhecimento do caso de um trabalhador a quem ameaçaram matar a filha. E mataram mesmo.

Num caso desses, o que pode fazer a ACT de imediato?
Articula com as forças, com os órgãos de polícia criminal (OPC). A ACT age nos limites das competências que tem. Quando entramos em matéria crime, articulamos com os OPC [GNR, PJ ou outros]. Temos canais privilegiados. Eu dou conhecimento da situação. Isto é uma constante, e não é só em Odemira. Passa-se em todo o Alentejo e transversalmente mesmo em todo o país. Eu já actuei em Santarém e tive casos similares, também no Algarve, em toda a zona costeira a norte de Lisboa, Torres Vedras, e agora até mais a norte, até Bragança. O modus actuandi é o mesmo: atrás e em torno deste processo produtivo, há redes que são autênticas redes mafiosas e que utilizam a mão-de-obra, que trazem para Portugal com fins que não são lícitos e têm o objectivo de explorar o trabalhador. Não é o El Dorado que ele sonhava mas mesmo assim é bom, por ingrato e por quase macabro que seja dizer ainda acaba por ser muito bom para ele, comparativamente à situação que tinha no país de origem.

"Em 2021, a inspecção desenvolveu uma acção pedagógica no âmbito da pandemia. Mas em Maio, como uma parte significativa não estava a cumprir, começámos a desenvolver uma actuação muito mais objectiva."

Qual o tipo de empresa que recorre a esses prestadores de serviços?
Os agricultores muitas vezes têm que recorrer a essas empresas prestadoras de serviços porque não têm alternativas [para continuar a colher o fruto no momento certo em que este está apetecível e para não haver desperdício]. São agricultores com estruturas muito débeis, não têm quase ninguém como trabalhadores directos e contratam, só nas alturas em que precisam, os prestadores de serviços [que lhes colocam os trabalhadores nos campos]. Estas estruturas até aos 10 hectares correspondem a pelo menos 60% do total dos campos. Assim acabam por beneficiar de uma mão-de-obra substancialmente mais barata graças às prestadoras de serviços. Por trás destas, normalmente, estão redes que nem estão no nosso país.

Como é possível actuarem de forma generalizada, como diz, e há tanto tempo em Portugal?
Estas empresas desaparecem e voltam a aparecer com outro nome quando começam a ser investigadas. Acabam por ser extintas administrativamente nas conservatórias nacionais. Desaparecem num dia, porque deixam de operar, mas logo a seguir uma nova empresa é criada com outro nome. São as empresas unipessoais. Por outro lado, antes da alteração à lei da imigração de 2007, com a introdução do artigo 88, os processos de admissão e recrutamento dos trabalhadores estrangeiros eram feitos de uma forma totalmente diferente. Os pedidos eram apresentados através do IEFP [Instituto do Emprego e Formação Profissional], eram tramitados com a nossa articulação e, por conseguinte, as pessoas quando vinham para Portugal já vinham com um visto de trabalho. A alteração teve a melhor das intenções, veio facilitar a regularização desses trabalhadores com base numa norma de excepção – o artigo 88 da lei de estrangeiros. O objectivo é extraordinário, é digno, mas veio facilitar a existência destes prestadores de serviços. O trabalhador acaba por ser legalizado passados três ou quatro anos. E nós precisamos deles. Eles são cruciais para o país. Temos que ter isso presente. E são vítimas de toda uma rede que está por detrás disso.

Os trabalhadores contratados directamente pelas empresas agrícolas também se sentem condicionados quando ouvidos pelos inspectores no âmbito de um processo?
Pode haver casos desses em que os inspectores também têm a percepção de que o trabalhador se sente pressionado mas não tem nada a ver com aquilo que nós sentimos nas empresas intermediárias.​

"Estas estruturas até aos 10 hectares correspondem a pelo menos 60% do total dos campos. Beneficiam de uma mão-de-obra substancialmente mais barata graças às prestadoras de serviços"


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Labels: Agricultura, Alentejo, Imigração, Odemira, Trabalho

22.2.22

Imigrantes nas estufas do Alentejo assumem luta por trabalho mais digno

Ana Dias Cordeiro (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia), in Público on-line

As más condições de trabalho nas explorações agrícolas em Odemira não são uma novidade . “A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram pedir explicações à administração, no fim da jornada de trabalho. Foram em grupo, ordeiramente, num movimento espontâneo”, diz Alberto Matos, da Solidariedade Imigrante “Isto cria pressão.”

Estar vigilante tornou-se parte da natureza —​ e da condição — de Birat Khatri. Cinco anos a trabalhar nas estufas da empresa Sudoberry, no litoral alentejano, mostraram a este nepalês de 32 anos que há várias formas de silenciar os imigrantes que chegam desejosos de trabalho a Portugal, mas sem nenhum conhecimento da língua, das leis do trabalho ou dos seus direitos individuais.

São formas difusas de intimidação; e de tal forma enraizadas que, só muito recentemente, Birat começou a fazer-lhes face. Passam-se meses, ou anos, em que não se ouve uma queixa.

Em 2021, as más condições em que imigrantes trabalhavam ou estavam alojados, nas próprias instalações de algumas grandes empresas, motivaram reacções quando um surto de covid-19 entre os trabalhadores trouxe a realidade laboral em Odemira para as primeiras páginas dos jornais.

Neste mês, foi diferente. As queixas fizeram-se ouvir pelos próprios trabalhadores. “O copo encheu”, como dirá o representante da Solidariedade Imigrante em Beja, Alberto Matos, que conheceu Birat esta semana.

No dia 11 de Janeiro, no final da jornada de trabalho, Birat Khatri e largas dezenas de trabalhadores dirigiram-se aos escritórios da empresa para falar com a administração. O movimento ganhou força pela visibilidade dada por uma reportagem da SIC (a estação que esteve no local refere 300 manifestantes).

Ao falarem para a câmara, tanto Birat como a Pramila Bamjan, de 35 anos, tornaram a sua revolta pública e, sem medo, colocaram as suas queixas na agenda da Sudoberry, no centro das preocupações da associação Solidariedade Imigrante e no foco das prioridades da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). De forma assertiva, denunciaram o contrato “pouco transparente” o que, quanto a eles, abre a porta a abusos.

Nesse protesto pacífico, em movimento compacto, quiseram perguntar por que motivo, para as mesmas horas de trabalho, receberam uma menor quantia no mês de Janeiro; entre 200 e 400 euros a menos consoante os casos.

Um imposto sem explicação

Birat, Pramila, Robin Thapa e Urmila Bamjan contam que a empresa justificou com algo que estaria fora do seu alcance: a suposta aplicação de um imposto novo decidido pelo Governo português, dizem ao PÚBLICO. “Foi isso que nos foi transmitido”, insiste Birat. “Mas nós não sabemos se isso é verdade, não sabemos de que imposto se trata, continuamos à espera de uma explicação”, completa Pramila.

Para Alberto Matos, dirigente da Associação Solidariedade Imigrante e representante desta associação de defesa dos direitos dos imigrantes na delegação em Beja, “este foi mais um problema de uma situação sistemática” criada por “abusos sobre os direitos dos trabalhadores que esta e outras empresas consideram estar na sua dependência”.

“A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram ao escritório da administração, pedir explicações, no fim da jornada de trabalho. Foram em grupo, ordeiramente, num movimento espontâneo”, diz Alberto Matos. “Isto cria pressão.”

A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram ao escritório da administração, pedir explicações, no fim da jornada de trabalho. Foram em grupo, ordeiramente, num movimento espontâneo Alberto Matos, Solidariedade Imigrante

“É importante sermos nós a luta pelos nossos direitos”, diz ao PÚBLICO Pramila Bamjan, de 35 anos. Também por isso, a sua irmã mais velha Urmila Bamjan e o amigo Robin Thapa juntaram-se neste projecto. “Nesta luta, devemos ser como uma família”, acrescenta. São queixas por “excesso de horas de trabalho sem contrapartidas financeiras”, “com pausa de apenas 30 minutos” em cada jornada completa de trabalho.

Os trabalhadores sentem-se igualmente injustiçados por nunca lhes ter sido explicado como são contabilizadas as horas; e quando calculados os totais, não percebem por que são retiradas quantias (apresentadas como subsídios de vários tipos) aos 6,22 euros que o trabalhador julgava ser o valor líquido a receber por hora. Enquanto descrevem a situação, comprovam o que dizem mostrando os recibos de vencimento.

“Não podemos confiar em ninguém”, diz outro trabalhador que pede para não ser identificado. “São eles que decidem se nós temos trabalho ou não, e eu preciso deste trabalho. Viemos para trabalhar e trabalhamos para ganhar dinheiro. O problema é vermos o total do vencimento reduzido sem qualquer explicação, como aconteceu em Janeiro. Sentimos que não querem saber de nós.”
Mais depressa, mais depressa

O contrato prevê um horário flexível, em que o trabalhador é convocado de véspera. Da mesma forma, pode ser dispensado, se a mensagem pretendida pelo patrão for de penalização ou intimidação. Além de tudo isto, aquilo que mais perturba alguns dos manifestantes do dia 11 de Fevereiro, em frente à própria empresa, é “a permanente pressão psicológica”.

“Querem que a gente ande cada vez mais depressa, a colher as bagas com movimentos dos braços sem parar. Estão em cima de nós, a gritar: ‘Mais depressa, mais depressa’”, diz Robin Thapa, também nepalês, disposto a protestar.

“É muito duro. Estamos a trabalhar num ambiente quente, dentro das estufas, e só podemos beber a água que trazemos de casa. Às vezes por mais de oito ou 10 horas”, diz Pramila. “Se bebemos toda a que trazemos, pedimos, mas eles não nos dão, recusam. Se protestamos, chegam a mandar-nos para casa”, salienta Pramila. “A pressão psicológica faz-nos mal.”

Quem não cumpre o objectivo de encher um determinado número de caixas numa hora, ou percorrer uma determinada distância nesse mesmo intervalo, sem deixar uma só baga na árvore, é dispensado para o resto do dia, e no seguinte, segundo os testemunhos de vários trabalhadores. “Alguns colegas têm medo de falar, mas eu não aceito estas condições, não tenho medo de falar. Sei que posso perder o trabalho”, continua Pramila.

Birat identifica uma dependência, mas nos dois sentidos. “A empresa precisa de nós. Os portugueses não aceitam estes trabalhos, nem a maioria dos imigrantes.”

De acordo com os dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, conhecidos ontem, no ano passado foram atribuídas autorizações de residência sobretudo a cidadãos indianos, brasileiros, nepaleses, italianos, franceses e alemães. Além disso, os nepaleses e os indianos surgem em segundo e terceiro lugares, logo a seguir aos brasileiros, na lista das nacionalidades com mais autorizações de residência para exercício da actividade profissional.

Num dos contratos assinados pelo empregado e empregador, e que o PÚBLICO leu, está expresso que, no caso de trabalho acima do máximo diário de oito horas, “o trabalhador terá direito a compensação”. As horas extras são apresentadas como “eventual trabalho prestado em acréscimo”, e que essa compensação pode ser na forma de uma redução de trabalho ou “mediante o pagamento em dinheiro” das horas extra.

Oportunidade para juntar dinheiro

Estar na apanha da fruta dez ou 12 horas seguidas, na época alta entre Março e Julho, pode ser visto por alguns como algo positivo, uma forma de juntar mais dinheiro em pouco tempo, para enviar para a família no Nepal ou na Índia, ou para garantir meios para os meses de Inverno em que não há muito — ou mesmo nenhum — trabalho. São os meses de Outubro a Dezembro.

“Alguns não se queixam que são demasiadas horas porque provavelmente estão nessa lógica de ganhar mais dinheiro. O que não pode acontecer é que, nessas circunstâncias, o trabalho não seja mais bem pago”, diz Alberto Matos.

Pramila vem de Sarlahi, no Nepal, já trabalhou na Holanda, e reconhece aqui “um tratamento inaceitável”. Além das horas extraordinárias e dos feriados pagos de forma não diferenciada, lamenta a situação de um colega que quando partiu o braço a trabalhar, a empresa não accionou o seguro por acidente de trabalho; antes, exortou-o a apresentar a situação como um acidente doméstico, obrigando-o a meter uma baixa.

Os objectivos definidos pela empresa são conhecidos de todos mas, por vezes, impossíveis, de cumprir. E não constam dos contratos lidos pelo PÚBLICO, como está previsto na lei. Na época alta da framboesa, quem não colhe pelo menos cinco quilos deste fruto em cada hora, é dispensado no momento, fica com a jornada de trabalho reduzida a uma hora, ou poucas mais, faz o percurso de vários quilómetros a pé para casa, e não é chamado a trabalhar no dia seguinte. Quem completa o dia, tem transporte para casa.
Empresa indisponível

Contactada pelo PÚBLICO, a Sudoberry não esclareceu as dúvidas sobre a quantia retirada aos trabalhadores em Janeiro nem se queixas de pressão psicológica se justificam. A directora dos Recursos Humanos, Mónica Rosendo, não respondeu às perguntas colocadas por escrito e transmitiu não estar disponível por se encontrar em reunião, tanto pelo telefone como num contacto presencial.

Os trabalhadores andam durante anos a pagar os milhares de euros cobrados por quem os trouxe para Portugal aliciando-os com supostas condições de trabalho favoráveis. E as ameaças são reais. É-lhes incutido o medo de falar Alberto Matos, Solidariedade Imigrante

A Sudoberry tem mais de 500 trabalhadores (que chegam aos mil na época alta da Primavera e Verão) e dispõe de dezenas de hectares de plantações. No Alentejo, há pelo menos 130 campos agrícolas, o que justifica que todos os dias esteja no terreno uma equipa da Autoridade para as Condições de Trabalho. A ACT já abriu um processo de averiguações a esta empresa, como já fez no passado a outras.

No centro de São Teotónio, numa conversa informal sobre as condições de trabalho, “Routine Stars” surge como um exemplo de uma agência de emprego temporário a que alguns prefeririam não estar ligados.

Em silêncio, um jovem de nacionalidade indiana, há pouco tempo em Portugal, escreve o nome numa folha, indica Malavado como local da empresa, e não responde a mais nenhuma pergunta. Com um sorriso aberto, nega ter medo de falar. “Não, não, não”, diz em inglês antes de abandonar a conversa para não mais voltar.

Na Internet, esta agência não tem registo de morada. Mas em Malavado, é fácil encontrar a casa com tectos baixos, os vidros de trás partidos, e um pátio, a que todos chamam “o escritório da Routine Stars”, embora sem qualquer indicação.

Aqui, não há qualquer escritório, mas vivem nove pessoas em dois quartos e nenhumas condições de higiene ou conforto. Na mesma aldeia mas numa grande vivenda, vive o dono da “Routine Stars”. Diz o nome — Tilak — mas não o apelido e esquiva-se a perguntas sobre a actividade da firma com vários anos.

Garante que, com ele (que diz estar em Portugal há 20 anos), ninguém foi trazido do Nepal, da Índia ou do Paquistão. “Os meus trabalhadores encontraram-me aqui.” Só trata da regularização dos documentos no SEF, quando os trabalhadores não podem e não cobra nada por isso. Apresenta-se como alguém que ajuda os seus contratados, pagando renda e alimentação, quando eles são dispensados de um dia para o outro.
Gabinetes de apoio

Sabita Karki foi dispensada de um dia para o outro, ao fim de três meses de trabalho. Pensava ter um horizonte, não colhendo fruta por estar grávida, mas empacotando-a — foi o que fez nos últimos meses. Sabita e o marido, Hum Bahadur, estão por isso no Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) de São Teotónio, onde já vieram várias vezes, para pedir aconselhamento.

Este é um dos 120 gabinetes em todo o país pertencentes ao Alto Comissariado para as Migrações, mas “um dos que não têm apoio jurídico”, diz a responsável Tânia Guerreiro. “Quando nos surgem estes casos, encaminhamos directamente para a ACT [Autoridade para as Condições do Trabalho].”

Algumas empresas de emprego temporário funcionam de forma totalmente ilegal e são “as mais ameaçadoras” perante o trabalhador por quem a empresa produtora não se responsabiliza, diz Alberto Matos.

“Nos intermediários, os chamados prestadores de serviços, a situação é pesada”, acrescenta. “Os trabalhadores andam durante anos a pagar os milhares de euros cobrados por quem os trouxe para Portugal aliciando-os com supostas condições de trabalho favoráveis. E as ameaças são reais. É-lhes incutido o medo de falar.”

Com supostas ligações a redes criminosas em países do Sudeste Asiático, continua o representante em Beja da Solidariedade Imigrante, algumas dessas agências mantêm-se m Portugal “para garantir que o dinheiro é cobrado”.

Na Sudoberry, a realidade é distinta, e a contratação é feita directamente com o trabalhador, na maioria dos casos, sobretudo desde que a ACT há uns anos impôs essa condição.

Mesmo assim, quando se pergunta a um dos contratados para colher framboesas, pensando que vinha para uma das melhores na zona em matéria de cumprimento dos direitos laborais, diz: “Nesta empresa? Nunca nada vai melhorar.”

Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 11:52 a.m.
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Labels: Agricultura, Alentejo, Imigração, Odemira, SEF, Trabalho, Trabalho digno

Associação Salvador combate a exclusão social com autarquias do Alentejo

A Planície

O projecto “+Acesso Para Todos – Por Comunidades mais Inclusivas”, da Associação Salvador, lançado recentemente em 15 autarquias de Portugal, tem como finalidade contribuir para um país com mais acessibilidades e uma sociedade mais inclusiva.

A iniciativa, dirigida a pessoas com mobilidade reduzida e também às autarquias, estabelecimentos comerciais e empresas, assim como às camadas mais jovens da sociedade, abrange no Alentejo, três concelhos do distrito de Beja, como Ourique, Almodôvar e Castro Verde.

Das diversas actividades previstas, destacam-se a criação de um Manual de Boas Práticas de Acessibilidades e de Um Selo de Acessibilidades.

O projecto, um dos muitos da Associação Salvador, é apoiado pela Portugal Inovação Social, através de fundos da União Europeia.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 11:04 a.m.
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Labels: Alentejo, Associação Salvador, Combate à exclusão, Projecto “+Acesso Para Todos – Por Comunidades mais Inclusivas”

28.1.22

SEF investiga 25 casos de exploração laboral ou contratação ilegal no Alentejo

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

Há menos inquéritos do SEF por esses crimes em todo o Alentejo do que em Maio do ano passado, quando eram 32. Jornal The Guardian escreve que “trabalhadores explorados” em Odemira garantem produção de frutos vermelhos vendidos nos melhores supermercados britânicos.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) tem em curso várias investigações na zona de Odemira, que tiveram na sua origem suspeitas de tráfico de pessoas para exploração laboral ou contratação e auxílio à imigração ilegais.

Porém, nenhuma dessas investigações visa qualquer empresa associada da Lusomorango, uma organização de produtores citada numa notícia do The Guardian em que o jornal inglês relata denúncias de exploração laboral recolhidas em Odemira junto de 40 trabalhadores da Índia e do Nepal.

Na notícia, publicada na terça-feira, o Guardian escreve que esta organização de produtores tem, entre os seus associados, pelo menos duas explorações agrícolas referidas pelos trabalhadores estrangeiros ouvidos.

Em respostas ao PÚBLICO, o SEF diz que “nenhuma das investigações [em curso] surge associada a Sociedade Anónima Lusomorango” e acrescenta que “os trabalhadores estrangeiros referenciados [nas investigações] têm vínculo formal laboral a empresas de trabalho temporário, na sua maioria registadas e geridas por outros cidadãos estrangeiros da mesma origem”.

O que significaria que as empresas agrícolas podem contratar através de empresas de trabalho temporário, sendo estas responsabilizadas pelas condições de trabalho e não as empresas que beneficiam da mão-de-obra.

Neste caso específico, ainda não existem indícios suficientes para a abertura de um inquérito, diz o SEF que garante “estar atento a todas as situações que possam configurar a prática de qualquer crime, determinando [nesses casos] a abertura de inquéritos sempre que reunidos os indícios suficientes”.

Em todo o Alentejo, o SEF tem 25 inquéritos-crime em curso (eram 32 em Maio de 2021); desses, oito estão localizados no município de Odemira, no distrito de Beja. Mas apenas dois são relativos a tráfico de pessoas; os restantes seis são por auxílio à imigração ilegal. Igualmente contactada, fonte oficial da Polícia Judiciária não revela quantas investigações por crimes de auxílio à imigração ilegal ou angariação para tráfico de e exploração tinha em curso nesta zona do Alentejo.
Agências intermediárias

O The Guardian diz que, entre Setembro e Novembro de 2021, ouviu homens e mulheres empregados directamente ou através de agências intermediárias em explorações agrícolas em Odemira que não mudaram de empregador por receio de, com isso, colocarem em risco o pedido de autorização de residência em Portugal.

Segundo a investigação do jornal britânico, os imigrantes que seriam mal pagos ou trabalhariam mais horas do que as legalmente permitidas eram trabalhadores de pelo menos três empresas, cujos nomes não são revelados. Estas empresas fornecem frutos vermelhos para supermercados europeus e alguns dos melhores supermercados britânicos, como o Waitrose ou o Marks&Spencer, refere o jornal.

Contrato colectivo

Contactado pelo PÚBLICO, a propósito desta notícia, José Canelas, director-geral da Lusomorango, garante que “os termos dos valores de vencimento, das horas de trabalho” dos “trabalhadores das empresas que integram a Lusomorango estão estabelecidos no contrato colectivo de trabalho”.

O responsável explica que esse contrato é negociado entre a Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur e o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, Floresta, Pesca, Turismo, Indústria Alimentar, Bebidas e Afins, e que está em vigor desde Setembro de 2021 para todos os trabalhadores do sector na região.

Nas mesmas respostas escritas, acrescenta que, entre os cerca de 40 produtores associados à Lusomorango, os que exportam para o mercado internacional estão obrigados a cumprir “os vários processos de auditoria internos e externos, nacionais e internacionais, a que respondem periodicamente como as auditorias no âmbito da GRASP-Global GAP”, uma organização que fiscaliza as condições de trabalho no sector agrícola.



Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 9:48 a.m.
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Labels: Alentejo, Exploração laboral, Imigração, SEF

4.10.21

Portugal tem cerca de 8200 pessoas em situação de sem-abrigo, mais de metade em Lisboa

Lusa e Daniela Carmo, in Público on-line

A situação mais preocupante é no Alentejo, nos concelhos de Alvito e Beja que têm, respectivamente, 11,35 e 9,72 pessoas por cem mil habitantes em situação de sem-abrigo.

Portugal terá cerca de 8200 pessoas em situação de sem-abrigo, segundo os resultados de um levantamento nacional publicados esta terça-feira que revelam que mais de metade dessa população se concentra na área metropolitana de Lisboa. O número resulta de um levantamento nacional conduzido em 2020 e que permitiu identificar, no total, 8209 pessoas em situação de sem-abrigo.

O inquérito de caracterização desta população, publicado esta terça-feira no portal da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), revela que a grande maioria dessas pessoas se concentra na área metropolitana de Lisboa (AML). Nessa zona, foram contabilizadas 4786 pessoas, o que representa 58,3% do total, seguindo-se a área metropolitana do Porto (AMP) com 1213 pessoas.

Por cem mil habitantes, a situação mais preocupante é no Alentejo, nos concelhos de Alvito e Beja que têm, respectivamente, 11,35 e 9,72 pessoas por cem mil habitantes em situação de sem-abrigo.

Da totalidade das cerca de 8200 pessoas nesta situação, a maioria são homens na faixa etária dos 45 aos 64 anos, sem tecto ou sem casa há até um ano. As principais causas estão associadas a dependência de álcool ou de substâncias psicoactivas (2442), desemprego ou precariedade no trabalho (2347) ou insuficiência financeira associada a outros motivos (2017).

Apesar de ser esta a caracterização genérica da população em situação de sem-abrigo, contabilizaram-se também 734 casais. Na AML, a grande maioria desses casais (339 em 392) não tem casa, mas vive em centros de alojamento temporário, alojamentos específicos para pessoas sem casa ou em quartos pagos pelos serviços sociais ou por outras entidades.

No país, pouco mais de metade das pessoas em situação de sem abrigo vive nestas opções (4789), mas há ainda 3420 sem tecto, que vivem na rua, em abrigos de emergência ou em locais precários. O relatório indica ainda o número de pessoas que deixaram a situação de sem-abrigo e obtiveram uma habitação permanente, e que no ano passado foram 485 casos, mais 39% face a 2019. Na maioria dos casos, a situação de sem abrigo dura até um ano, o que corresponde a 38% das pessoas.

O levantamento dá ainda conta de que para a maioria das pessoas nesta situação (2819) têm como fonte de rendimento o Rendimento Social de Inserção (RSI). Seguindo-se fonte desconhecida (1946 indivíduos), salário ocasional (863), pensões e outras prestações de carácter regular (858), prestações ou dádivas de carácter eventual (618), salário regular (515), outras (416) e subsídio de desemprego (234).

No que respeita ao nível de escolaridade, a nível nacional a maioria das pessoas em situação de sem abrigo tem o 2.º ou 3.º ciclo do ensino básico (32%), uma percentagem de indivíduos muito próxima da dos que têm o 1.º ciclo do ensino básico (31%). É na AML que se verifica o maior número de pessoas com o 2.º ou 3.º ciclo do ensino básico (37%). Já no Alentejo 48% das pessoas nesta situação tem o 1.º ciclo e 19% não tem qualquer tipo de escolaridade.

O levantamento promovido pela ENIPSSA resultou de um inquérito aos 278 municípios de Portugal continental e traduz as 275 respostas obtidas, através da articulação das diferentes instituições com intervenção local. Com uma taxa de resposta de 99%, este é o inquérito mais completo desde 2018 (nesse ano, o mesmo inquérito teve uma taxa de resposta de 9,7% que desceu para 92% em 2019).

Em comunicado, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social refere que se registou um aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo comparativamente ao ano anterior, que justifica com a “melhoria no processo de diagnóstico em todo o país”.

Esse trabalho, continua a tutela, “permite no curto e médio prazo a adopção de estratégias para um acompanhamento mais personalizado e próximo de cada pessoa e, em simultâneo o desenho e adopção de estratégias de prevenção”. “O Governo tem apostado em disponibilizar soluções de habitação para as pessoas em situação de sem-abrigo, numa abordagem que coloca a habitação em primeiro lugar para, a partir daí, trabalhar a respectiva inserção social e autonomia”, acrescenta.

Em Setembro, terminou o prazo do segundo aviso para disponibilização de soluções de habitação Housing First e de apartamentos partilhados, com mais de 600 vagas que acrescem àquelas que já são actualmente disponibilizadas. O objectivo do Governo para 2021 são 1100 vagas.

Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 7:22 p.m.
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Labels: Alentejo, Alvito, Beja, Pobreza, Porto, Portugal, Segurança social, Sem abrigo

6.9.21

“Há falta de água em Santa Clara, mas a uns cortam e a outros deixam aumentar?”

Ana Dias Cordeiro (texto) e Rui Gaudêncio (fotografias), in Público on-line

Num contexto de seca, a Associação dos Beneficiários do Mira foi autorizada a expandir a área elegível para rega dos grandes produtores de uma monocultura intensiva. Passados dois anos, limitou o acesso à água da Barragem de Santa Clara. Ao impor uma tabela por hectare, a decisão afecta mais os pequenos agricultores, obrigados a cortar na sua agricultura de subsistência na campanha de 2021.

A vida dos pequenos agricultores nas terras do rio Mira deu muitas voltas, antes e depois da construção da Barragem de Santa Clara, nos anos 1960, quando a chuva dava à terra o que ela precisava. Mais tarde, quando pela primeira vez conheceram a seca, valeu-lhes aquilo que trazia a barragem. A água era distribuída e paga.

Em retrospectiva, nunca o que mudou foi tão mau como neste ano nesta freguesia do concelho de Odemira. Prova disso é que nunca antes, como agora, tinham deixado de ver o prado infinitamente verde à sua frente. Mesmo no tempo seco.

Em Março deste ano, a Associação dos Beneficiários do Mira, que detém a concessão da barragem e gere a distribuição para a rega, impôs um limite da água a que os produtores da região têm direito, limite a partir do qual passam a pagar o triplo do preço por litro. Para os pequenos agricultores os novos preços são incomportáveis. Maria Antónia Cortes, que tem na venda dos Cabazes da Horta a sua renda, abdicou de muito. “Eu deixei de poder fazer as produções que exigem mais água: espinafres, agrião, essas coisas tive de reduzir. Não pude pôr coisas na estufa, porque no Verão a estufa pede sempre mais.”

Agora a estufa parece uma tenda desgarrada pelo vento onde a vegetação que secou preenche o vazio. “Eu tinha árvores, eu tinha pêras, pêros, ameixas, pêssegos, nespereiras, figueiras – basta ver agora como estão secas”, diz, acompanhando o gesto com o olhar em volta.

“Eu tinha tudo isso, para meter nos cabazes. Há coisas que não pude cultivar, não tive rendimento delas. O feijão, este ano, foi por metade. O mesmo aconteceu com a couve que exige mais fresquidão.”

Tomateiros, couves e arrozais

Nas décadas de 60 e 70, houve quem entre os moradores destes montes junto ao Rio Mira se tenha mudado de Monchique para Sabóia e freguesias vizinhas, uns 25 quilómetros acima, e comprado terrenos para a agricultura. Outros, vindos das aldeias próximas, apostaram na diversidade das colheitas em terras onde brotavam mantos de arrozais, ao lado de tomateiros, couves, beterrabas, alfaces e muito mais.

Foi o caso de Maria Antónia que nasceu numa aldeia a 11 quilómetros onde agora vai buscar a água que lhe falta junto à barragem.

“Houve tempo em que toda a gente semeava, estas várzeas todas eram semeadas. Agora não”, diz Maria Antónia Cortes. “Umas pessoas saíram daqui, outras ficam velhas e não podem continuar a trabalhar no campo.”
Sem água potável

Mas nem tudo mudou. Agora, como antes, na sua casa, como em tantas outras nestas colinas e vales, não há água canalizada — nunca foi instalada uma rede pública de abastecimento.

O que não imaginava era chegar para lá dos 70 anos sem saber como dar a beber aos animais, ou ter que inventar, e desistir das sementeiras que mais água consomem.

A decisão de Março foi denunciada pelo movimento Juntos pelo Sudoeste e motivou uma reportagem na revista alemã Der Spiegel, publicada na semana passada, sobre o que esta diz serem as “incongruências” de um modelo que depende de rega em grandes quantidades e que continua a crescer em pleno parque natural do sudoeste alentejano, sem que as autoridades portuguesas intervenham para devolver a água aos pequenos regantes. Tal acontece porque a entidade que administra a água da albufeira do Mira é controlada pelos seus maiores usuários — os grandes proprietários, escreve a revista.

Para dar de beber às vacas, Maria Antónia sai munida de uma bilha de 1000 litros, na carrinha com o marido, duas ou três vezes por semana. Vai até ao terreno da família extrair água do canal com uma mangueira. “É para dar uma gotinha às árvores, para elas não secarem mesmo até ao Inverno.”

A agricultora diz que o corte no abastecimento decidido pela Associação dos Beneficiários do Mira (AB Mira) seria acolhido de outra forma se os grandes produtores das monoculturas intensivas de frutos vermelhos, no litoral, não tivessem tido a possibilidade de aumentar a área de cultivo, tendo acesso a ainda mais água.

“Quando passamos no canal, vemos o canal cheio para empresas que nem portuguesas são”, lança Maria Antónia. “É isso que dói. Não é levarem água para lá. Se têm agricultura lá, é necessário levarem água para lá. Dói é tirarem-nos a nós que não temos grande gasto [na agricultura] comparativamente a essas empresas. Mas somos humanos e precisamos porque a água é um bem essencial.”
Reduzir o consumo

Perante estas queixas, o Ministério da Agricultura remete para o contexto em que “os actuais níveis de água na albufeira impõem prudência nos consumos”. Contactado, o gabinete de imprensa lembra que não é o Governo mas a AB Mira que tem “a responsabilidade de gerir os recursos hídricos disponíveis” porque é quem detém a concessão da exploração da barragem.

E sublinha que tal é feito “respeitando os princípios gerais da equidade e as prioridades estabelecidas na lei: em primeiro lugar, o abastecimento público; em segundo lugar, a rega”. Porém, não tem em conta que para os agricultores a prioridade é a rega, como garantia de sustento — até porque não beneficiam do abastecimento público de água.

Para o uso doméstico, como o banho ou a lavagem da loiça ou da roupa, Maria Antónia tem água na cisterna, que é limpa por um filtro. Para beber, ou compra ou vai à fonte em Monchique com garrafões. “É a única maneira. Não temos água potável aqui, não temos água corrente.”

Como um soberano nestes montes, Mário Rui Guerreiro surge lento no horizonte com o seu rebanho. O pastor de 44 anos intercala as passadas com paragens desatentas para navegar no telemóvel. Mais de uma vez escreveu no Facebook que cortar a água desta forma aos pequenos agricultores “é uma coisa que não devia estar a acontecer” — como de um aviso se tratasse para largarem o seu trabalho ou a sua terra.

Sabe de quem faz das tripas coração. Conhece os cantos ao rio Mira, um dos dois que abastecem a Barragem de Santa Clara, e os charcos onde dá de beber às ovelhas.

Pelo sorriso estampado e a conversa fácil, nada mais parece desejar para lá dos declives vazios entre Sabóia (onde se anseia pela chuva no Inverno) e Santa Clara (onde o rio chegou a ser só lodo e este trazia o peixe já morto, antes de ser resposta água na ribeira).

“O principal problema é o modelo de exploração” agrícola que resulta numa expansão de uma agricultura intensiva “que consome cada vez mais água", diz Diogo Coutinho, coordenador do projecto CLARA (Centro para o Futuro Rural) e membro do grupo SOS Rio Mira, para quem há um uso excessivo de um recurso cada vez mais escasso com o aumento da área admitida pelo Estado para as monoculturas intensivas no Perímetro de Rega do Mira dos municípios de Odemira e Aljezur.

A Associação dos Beneficiários do Mira, dominada por dois ou três grandes produtores, nacionais e estrangeiros, através dos votos enquanto associados, é quem define as regras, no quadro da concessão que detém através do acordo com o Governo. Assim, e pela dimensão que assume, uma pequena minoria de multinacionais impõe a sua vontade a uma grande maioria de pequenos produtores, denuncia.

"Há um desequilíbrio gigantesco”, acrescenta Diogo Coutinho. Lembra que o problema se agravou com a permissão do Governo para triplicar a área de produção intensiva do litoral há dois anos. “Não se expandia a área se houvesse preocupação com a redução da água e o aumento da sua eficiência.”
Plano de contingência

Em situação de seca, a AB Mira acciona o plano de contingência. “As suas regras são as mesmas para os ‘grandes’ e os ‘pequenos’”, diz o Ministério da Agricultura quando confrontado com o que dizem os agricultores da região sobre a disponibilização de água em grandes quantidades para as grandes produções de frutos vermelhos em estufas a perder de vista para os lados de São Teotónio. Também questionada, a AB Mira não respondeu.

O plano de contingência foi apresentado na assembleia geral da AB Mira e aprovado por maioria de votos sustentada nas grandes produtoras, enquanto associadas. E nele, é feita a distinção entre os regantes de pleno direito (agricultores integrados na zona definida no contrato de concessão como o perímetro de rega) e os regantes a título precário.
Taxas agravadas

Com a aprovação do plano para a campanha agrícola deste ano, aos primeiros foi estabelecido um limite de 3500 m3 de água por hectare, acima do qual passam a pagar uma taxa agravada em que, por cada litro a mais, pagam três vezes mais; aos segundos, aplicou-se o mesmo regime, a partir do limite máximo permitido de 1000 m3 por hectare. Tal resulta da necessidade invocada pela AB Mira de, nesta campanha, reduzir para menos de metade a captação máxima de água habitual.

“A gente sabe que a água lá está é pouca, a água para sair de lá tem de ser bombada”, diz José Conceição Manuel ao cair da noite ainda atarefado na horta que quase contorna a casa​. “Nós fomos os principiantes disto, aqueles que puseram isto de pé quando tudo aqui começou. Há falta de água. Mas a uns cortam e a outros dão condições para aumentar? Nós estamos indignados é de ver que para os grandes é [água] à vontadinha.”
Vacas como rainhas

Do cimo do monte onde arranjou condições para criar os filhos, que em adultos deixaram Sabóia, José da Conceição Manuel mostra a área hoje seca que ainda no ano passado se cobria de verde.

“Estou a tratar os animais só a seco ali no curral. No ano passado, estava tudo verde para a frente e ali para cima. As vacas eram umas rainhas, tinham tudo o que queriam”, continua.

“Nós fomos avisados para não semear muito e eles ali — na Zambujeira do Mar ou em São Teotónio — não foram em nada reduzidos. Pelo contrário: as grandes companhias que vêm lá de fora, com aqueles grandes projectos, podem fazer hectares de estufas, à farta, e depois aqui não temos”, diz José Monchiquense, como é conhecido por ser natural de Monchique.

“O que estou a pensar fazer? Nada. É acabar de vender os bichinhos que aí tenho, para não morrerem à fome e pôr-me encostado. Eu já tenho quase 80 anos, também já perco pouco.”
"Ninguém dará"

Quem também já não espera e, pelo contrário, nem se revolta é Manuel Lourenço à beira de completar 88 anos. O seu monte é oposto ao de José Monchiquense, mas fica no cimo, do outro lado da estrada, e só acessível por uma estrada estreita de terra batida.

“Eu tenho de puxar a água da ribeira para aqui, com um motor, mas a ribeira não tem água. Uma gotinha aqui e ali, vai para ali para aquele tanque”, diz apontando, curvado pela idade, no escuro da noite.

“E do tanque vai ali para o lugar de beber, de dar água aos animais.” Manuel Lourenço tem alguma água da barragem para o regadio das plantações mais abaixo, mas não tem para a casa. “Antes tinha porque corria aí na ribeira, agora veio esta seca. Se chover, teremos água e corre tudo bem. Se a chuva não der mais ninguém dará.”

Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 10:48 a.m.
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