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31.7.23

Nove menores retirados da academia Bsports mantêm-se em instituições portuguesas

Marina Oliveira, in Público online

Outros 27 menores já regressaram aos países de origem. Por cá, continuam 47 jovens adultos considerados vítimas de tráfico de pessoas. Um mês após a operação do SEF, número de vítimas subiu para 94.

Nove menores retirados da academia Bsports mantêm-se em instituições portuguesas
Dos 36 menores estrangeiros retirados da academia de futebol BSports, em Riba d’Ave, em meados de Junho, e identificados como vítimas de tráfico de pessoas, nove ainda permanecem em instituições de acolhimento portuguesas. Os restantes 27 já regressaram aos países de origem acompanhados pelos pais ou por tutores legais.

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"Muito talento"

A coordenadora refere que, deste rol de 44 jovens adultos, apenas sete regressaram aos países de origem. Os outros 37 permanecem em Portugal, onde estão a tentar construir o seu futuro. “Estão a surgir algumas possibilidades de clubes de futebol nos seus países de origem, por isso, é possível que alguns regressem a casa”, revela Marta Pereira. Os jovens são oriundos maioritariamente da América Latina, nomeadamente do Brasil, Colômbia e México.

A coordenadora das equipas multidisciplinares de apoio às vítimas de tráfico afirma que não está a ser fácil concretizar os desejos destes jovens, que ainda têm esperança de singrar no mundo do futebol. “Continuamos à procura de soluções no mundo do futebol. Muitos deles têm muito talento”, acredita a técnica.

Não é estranho que assim seja. A BSports vendeu-lhes um sonho e agora sentem-se defraudados. Num vídeo que ainda continua no canal da academia, na Internet, vende-se que este é o "maior projecto de formação de futebol do mundo" e, num outro, a "porta de entrada para a elite do futebol europeu". Associa-se a marca a grandes nomes portugueses do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo ou José Mourinho, e anuncia-se uma “formação integral única e pioneira”, que compatibiliza o ensino regular com a formação desportiva.

Não há dúvida de que essa parte não passava de ficção, porque tudo indica que os alunos, com idades entre os 13 e os 23 anos, não frequentavam a escola. Havia aulas assistidas de forma aleatória pelos jovens, como revelou um ex-professor da academia ao PÚBLICO.

As “infra-estruturas de elite” de que se gabava a BSports afinal implicavam que os jovens, que viviam em camaratas que chegavam a ter 12 camas, tivessem de percorrer cerca de 500 metros para chegar a um dos seis chuveiros existentes para as dezenas de atletas, como mostrou a TVI numa reportagem. Isso obrigava a que o banho fosse sujeito a hora marcada. Para quem estava nas camaratas, ir à casa de banho obrigava a uma descida de dois andares.

Questionada pelo PÚBLICO, Marta Pereira referiu que, apesar da grande repercussão mediática do caso, nenhuma organização ligada ao futebol – seja a Federação Portuguesa de Futebol, seja a Liga Portuguesa de Futebol Profissional ou até algum dos principais clubes portugueses – se ofereceu para ajudar a encontrar um futuro para estes jovens, parte dos quais se mantém à guarda do Estado português juntos numa estrutura cedida para esse efeito, onde são asseguradas as suas necessidades básicas. Tem cabido em grande parte ao relator nacional para o tráfico de seres humanos fazer contactos para tentar encontrar soluções.

Contactada pelo PÚBLICO, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Vila Nova de Famalicão não respondeu a nenhuma das perguntas feitas, remetendo para o Ministério Público (MP). O PÚBLICO já antes tinha enviado uma série de perguntas sobre este caso à Procuradoria-Geral da República, que, no entanto, não disponibilizou qualquer informação sobre o destino das vítimas de tráfico envolvidas neste caso.

“O inquérito encontra-se em investigação e sujeito a segredo de justiça, não sendo possível, neste momento, prestar informação mais circunstanciada”, justificou o MP.

Já o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que investiga este caso a pedido do MP, adiantou que até agora, no âmbito da Operação El Dourado, “foram sinalizadas 94 vítimas de tráfico de seres humanos, das quais 36 menores”. Confirmou ainda que até esta semana tinham sido “constituídos arguidos três cidadãos e cinco sociedades”. Trata-se do ex-presidente da Assembleia Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional Mário Costa, que dirigia a academia, do seu pai e de um primo destes.


[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes, aqui]

24.7.23

Recusada a entrada a 65 pessoas desde a reposição do controlo de fronteiras

Por Lusa, in TSF

Desde sábado foram controladas 13.461 pessoas nas fronteiras terrestres e 149.838 passageiros nas fronteiras aéreas.

As autoridades portuguesas controlaram mais de 163 mil pessoas no primeiro fim de semana de reposição do controlo documental nas fronteiras no âmbito da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), tendo impedido a entrada no país de 65 pessoas.

O controlo documental nas fronteiras aéreas, marítimas e terrestres no âmbito da JMJ entrou em vigor no sábado e está a ser feito de forma seletiva e direcionado com base em informações e análise de risco.

De acordo com o balanço operacional feito esta segunda-feira, em comunicado, pelo Sistema de Segurança Interna, nos primeiros dois dias foram controladas 13.461 pessoas nas fronteiras terrestres e 149.838 passageiros nas fronteiras aéreas.



No âmbito da operação, foi recusada a entrada a 65 pessoas, das quais 52 tentavam chegar a Portugal por via terrestre e 13 por via aérea.

Nas fronteiras aéreas, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras controlou 885 voos, a esmagadora maioria com origem fora do Espaço Schengen, fez duas detenções, por fraude documental, e aplicou medidas cautelares em 41 casos.

Com 27 ações de fiscalização ao longo do dia, que envolveram um efetivo de 289 agentes, a Guarda Nacional República (GNR) identificou 25 contraordenações no controlo de fronteiras terrestres, dois crimes, fez três apreensões e deteve uma pessoa.

A informação divulgada esta segunda-feira indica ainda que a GNR controlou no fim de semana 2380 viaturas, dois comboios e sete embarcações.

Já o SEF, nas fronteiras terrestres, verificou 2122 viaturas e 7392 cidadãos, tendo em dois casos aplicado medidas cautelares.

A reposição de controlos documentais nas fronteiras permanecerá ativa até às 00h00 horas de 7 de agosto e acontece "a título excecional de forma a acautelar eventuais ameaças à ordem pública e à segurança interna", segundo uma resolução do Governo.

O controlo de fronteiras no âmbito da JMJ, evento que vai decorrer em Lisboa entre 1 e 6 de agosto e contará com a presença do Papa Francisco, está a cargo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), com a assistência da Polícia de Segurança Pública (PSP) e GNR, além da eventual colaboração de autoridades de outros países.

21.7.23

Imigrantes podem renovar automaticamente autorizações de residência

Por Lusa, in RR


Medida aplica-se às cerca de 84 mil autorizações de residência que caducam até 30 de setembro.


Os cerca de 84 mil cidadãos estrangeiros com autorizações de residência em Portugal que caducam até 30 de setembro podem a partir desta sexta-feira renová-las automaticamente no portal do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).


Em comunicado, o SEF refere que as autorizações de residência que caducam no trimestre subsequente podem ser renovadas automaticamente sem necessidade de deslocação presencial a um balcão de atendimento, bastando apenas ao cidadão aceder à “área pessoal” do portal do SEF na “renovação automática”.

Segundo o SEF, esta modalidade existe desde julho de 2020 e já foram realizadas cerca de 300 mil renovações automáticas.


O SEF precisa que a funcionalidade encontra-se disponível para o período até 30 de setembro de 2023, com um universo estimado de 84 mil cidadãos estrangeiros, já residentes, como possíveis beneficiários.

“O SEF tem vindo a adotar medidas, na sequência de legislação aprovada, com vista à recuperação de pendências e à eficiência na gestão documental de cidadãos estrangeiros”, indica ainda aquele serviço de segurança.

11.7.23

Há 7802 pedidos de “vistos gold” à espera de aprovação

Luís Villalobos e Rafaela Burd Relvas, in Público


Com as mudanças na lei a caminho, há ainda uma longa lista de processos por apreciar, e a taxa de recusa ronda os 4%. Governo queria travão a 16 Fevereiro mas passou para entrada em vigor do diploma.

Numa altura em que a legislação sobre a concessão de “vistos gold” vai apertar, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) tem ainda uma longa lista de processos por apreciar. De acordo com as informações prestadas ao PÚBLICO por fonte oficial do SEF, há neste momento 21.364 pedidos relacionados com o regime de Autorização de Residência para Investimento (ARI, vulgarmente conhecidos como “vistos gold”) em fase de pré-análise, e o número poderá ainda crescer.

“Deste total, 7802 referem-se a pedidos de cidadãos estrangeiros investidores e 13.562 traduzem-se em pedidos de cidadãos estrangeiros que pretendem beneficiar deste regime através do reagrupamento familiar”, adiantou a mesma fonte.

Inicialmente, no âmbito do pacote Mais Habitação que está agora em discussão no Parlamento, o executivo socialista queria que já não pudessem ser atribuídos novos destes vistos a partir do passado dia 16 de Fevereiro, data em que foi apresentado o pacote, na sequência de uma reunião do Conselho de Ministros. Mas, depois, acabou por recuar, colocando o “ponto final” no actual regime a partir da entrada em vigor do diploma.

Para se ter uma ideia da dimensão dos números em apreciação pelo SEF, no passado mês de Junho foram concedidos 179 “vistos gold”, com destaque para os investimentos imobiliários (114) e para países como EUA (47 vistos), Reino Unido (26) e China (17). A estes, somam-se 192 autorizações de residência ligadas a familiares reagrupados.

Já desde o início deste regime, destinado a cidadãos extracomunitários, em Outubro de 2012, e até Junho deste ano, foram concedidos 12.396 “vistos gold”, num investimento total de 7157 milhões de euros (cabendo a primazia à China, com 5366 vistos, seguindo-se o Brasil, com 1229, e os EUA, com 713), com 20.000 familiares reagrupados. A compra de imóveis foi a principal razão para a concessão dos “vistos gold”, com 11.181 ARI (90% do total) destinados a essa modalidade.

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Tendo em conta que, depois de aprovado no Parlamento, o diploma ainda terá de ser promulgado pelo Presidente da República e, por fim, publicado em Diário da República, é provável que a nova lei só entre em vigor apenas em Agosto. Assim, até lá, os novos pedidos de “vistos gold” que ainda venham a ser submetidos continuarão a poder ser aprovados.

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6.7.23

Três anos após morte de Ihor, boa parte das mudanças anunciadas para centro do SEF está por aplicar

Daniela Carmo, in Público online

Mecanismo Nacional de Prevenção, ligado à Provedora de Justiça, viu que não há “botões de pânico” e videovigilância em todas as salas de entrevista do espaço em Lisboa, como foi decidido após a morte.

O centro do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) do Aeroporto de Lisboa continua a funcionar com uma "parte substancial das novas regras" por aplicar. O alerta é feito no relatório anual (relativo a 2022) do Mecanismo Nacional de Prevenção (MNP), ligado à provedora de Justiça, divulgado esta terça-feira, que dá conta de que mais de três anos depois da morte do cidadão ucraniano Ilhor Homeniuk (em Março de 2020) no Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária no Aeroporto de Lisboa (EECIT-L), encerrado dias depois para reabilitação e reaberto em Agosto desse ano, há ainda caminho por trilhar na garantia das condições necessárias à detenção de cidadãos estrangeiros.

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27.6.23

SEF desmantelou grupo criminoso em Barcelos por auxílio à imigração ilegal

Por Lusa, in Público online

A operação, que contou com a colaboração da Polícia Judiciária, culminou com a detenção de cinco cidadãos portugueses.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) desmantelou esta segunda-feira, em Barcelos, uma organização criminosa transnacional por "fortes indícios" dos crimes de auxílio à imigração ilegal e angariação de mão-de-obra estrangeira ilegal, anunciou aquela força.

Em comunicado, o SEF acrescenta que em causa estão também crimes de falsificação de documentos, falsidade informática e branqueamento.

A operação, que contou com a colaboração da Polícia Judiciária, culminou com a detenção de cinco cidadãos portugueses.

"Este grupo criminoso recrutou directamente nos países de origem, em bolsas de imigração ilegal em território nacional e em outros países Schengen (predominantemente em Espanha e França), mais de 300 trabalhadores estrangeiros, originários do continente sul-americano, para laborar em obras públicas, obras de construção civil e fábricas de componentes de construção dispersas pelo espaço comunitário europeu", acrescenta o comunicado.

Segundo o SEF, aqueles cidadãos estrangeiros, "em circunstâncias de especial vulnerabilidade e com expectativas de recorrerem a mecanismos legais de regularização extraordinária, representam um avultado somatório de contribuições fiscais e sociais não declaradas, imposição de taxas e custos por equipamento, transporte e legalização documental".

"Para camuflar a actividade ilícita, o grupo criminoso montou uma rede de sociedades fachada com relevância fiscal e jurídica em Portugal e em França e opera inúmeras contas bancárias tituladas por figuras testa de ferro", lê-se ainda no comunicado.

Na Operação Ephemero, refere ainda, foi dado cumprimento a cinco mandados de detenção e a 16 mandados judiciais a residências e empresas em Portugal e em França.

No decorrer da operação foram apreendidos telemóveis, material informático, documentação relacionada com as empresas, documentos de identificação, viaturas de alta cilindrada, bens de luxo e mais de meio milhão de euros em numerário.

Participaram 90 inspectores do SEF e 10 da PJ.

26.6.23

Quase 800 mil estrangeiros vivem em Portugal e 30% são brasileiros

Lusa, in Público online

No final de 2022, viviam em Portugal 239.744 brasileiros. Seguem-se cidadãos do Reino Unido e de Cabo Verde, de acordo com relatório do SEF.

A população estrangeira residente em Portugal aumentou em 2022 pelo sétimo ano consecutivo, totalizando 781.915 cidadãos, mantendo-se a comunidade brasileira como a mais representativa e a que mais cresceu, revelou esta sexta-feira o SEF.

"Em 2022 verificou-se pelo sétimo ano consecutivo, um acréscimo da população estrangeira residente, com um aumento de 11,9% face a 2021, totalizando 781.915 cidadãos estrangeiros titulares de autorização de residência", refere o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA), a que agência Lusa teve acesso por ocasião do aniversário do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Segundo o SEF, os brasileiros mantêm-se como a principal comunidade estrangeira residente no país, representando no ano passado 30,7% do total, e foi também a comunidade oriunda do Brasil a que mais cresceu em 2022 (17,1%) face a 2021, ao totalizarem 239.744.

O RIFA precisa que o Reino Unido mantém a posição em relação a 2021 com um crescimento de 5,8%, sendo a segunda nacionalidade estrangeira mais representativa em Portugal.

"O crescimento sustentado dos cidadãos estrangeiros, oriundos dos países da União Europeia, confirmam o particular impacto dos factores de atractividade já apontados em anos anteriores, como a percepção de Portugal como país seguro, bem como as vantagens fiscais decorrentes do regime para o residente não habitual", precisa o relatório, que destaca os imigrantes oriundos de Angola, que sobem três posições ocupando agora o sexto lugar com uma subida de 23,1%, e da Índia, que é agora a quarta comunidade mais representativa.

A Roménia e China saíram do grupo das dez nacionalidades mais representativas em Portugal.

No final de 2022, viviam em Portugal 239.744 brasileiros, seguido dos cidadãos do Reino Unido (45.218), de Cabo Verde (36.748), Índia (35.416), Itália (34.039), Angola (31.761), França (27.512), Ucrânia (25.445), Nepal (23.839) e Guiné-Bissau (23.737).

O SEF dá também conta que Portugal, foi em 2022, o país de destino de 44.519 cidadãos ucranianos fugidos da guerra e a quem o Estado português concedeu protecção temporária.

Os imigrantes residem sobretudo no litoral, sendo que cerca de 65% estão registados nos distritos de Lisboa, Faro e Setúbal, totalizando 512.141 cidadãos residentes, enquanto em 2021 eram 466.779.

O relatório realça os aumentos para os distritos de Bragança, que vinha a descer desde 2020 e, Viana do Castelo, precisando que sete dos dez concelhos com maior número de cidadãos estrangeiros registados pertencem à área metropolitana de Lisboa.

No que diz respeito ao fluxo migratório, o SEF avança que se quebrou a tendência de descida, que ocorria desde 2020, com 143.081 novos títulos emitidos, representando um aumento de 28,5% face ano anterior, quando foram atribuídos 111.311 novos títulos.

Também a maior parte dos novos títulos foram atribuídos a brasileiros (43.313), seguindo-se os indianos (7.414) e Itália (6.977), Angola (6.939) e Bangladesh (6.153).

"Os motivos mais relevantes na concessão de novos títulos de residência foram a actividade profissional (51.525) e o reagrupamento familiar (27.054)", lê-se no RIFA.

22.6.23

Lixo, baratas e quartos com nove camas. Migrantes pagavam entre 270 e 320 euros

Cristiana Faria Moreira (Texto) e Rui Gaudêncio (Fotografia , in Público

Migrantes são sobretudo casais que vêm à procura de melhor vida. Vêm aliciados por redes criminosas de captura ilícita, comércio e tráfico internacional de bivalves. Viviam em condições deploráveis

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13.6.23

Aliciados pelo sucesso no futebol, menores terão acabado nas malhas do tráfico de pessoas

Mariana Oliveira, in Público


Buscas realizadas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras decorreram em academia de futebol em Riba d’Ave e em casa do presidente da Assembleia Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

A forma como cerca de quatro dezenas de menores estrangeiros que estão ilegalmente em Portugal chegaram ao país alegadamente para jogar futebol e o que desde então lhes aconteceu estão a ser investigados pelo Ministério Público, que suspeita da existência de tráfico de pessoas.

Pelo menos parte dos menores estão em Portugal sem a devida autorização dos pais, como é obrigatório para todos com menos de 18 anos.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) realizou diversas buscas esta segunda-feira centradas na Bsports Academy, uma academia de futebol localizada em Riba d'Ave, em Vila Nova de Famalicão, gerida por dois empresários.

Numa apresentação da academia, disponível num canal da Bsports na Internet, diz-se que este é o "maior projecto de formação de futebol do planeta" e a "porta de entrada para a elite do futebol europeu". E associa-se a marca a grandes nomes portugueses do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo ou José Mourinho, sem nunca se dizer explicitamente que estes estão de algum modo ligados à academia. Dizem ter criado o "primeiro curso certificado para um jogador de futebol".

Garantem ter infra-estruturas "do mais alto nível", mostrando imagens de um complexo desportivo moderno com vários edifícios, onde existem camaratas, salas de aulas, sala de convívio, cantina, um pavilhão, dois campos de futebol relvados, ginásio e até um estúdio de TV. A Bsports alega ainda ter academias em 34 outros países. No fim de cada página da apresentação surge um símbolo onde se lê “entidade certificada pela DGERT, a Direcção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho”, e ainda o logótipo do Governo português, com a inscrição "Trabalho, Solidariedade e Segurança Social".

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5.6.23

Perto de quatro mil refugiados ucranianos deixaram Portugal

in JN


O número de refugiados ucranianos em Portugal continua a diminuir, tendo perto de quatro mil deixado o país nos últimos dois meses, indicou esta segunda-feira o SEF, avançando que atualmente são 56 528 os títulos concedidos a pessoas que fugiram da guerra.


Num balanço feito hoje sobre as proteções temporárias concedidas a ucranianos e a estrangeiros que fugiram da Ucrânia, o Serviço de Estrangeiros e Fronteira indica que atualmente são detentores daquele título em Portugal 56.528 pessoas, 33.949 das quais mulheres e 22.579 homens.

No início de maio, o SEF avançou à Lusa que cerca de 2.000 ucranianos tinham pedido o cancelamento dos pedidos de proteção temporária. Na altura totalizavam 58.191 e com os números hoje apresentados são menos 1.663 os títulos concedidos, passando para 56.528.

Além dos pedidos de cancelamentos dos títulos, há também ucranianos que não estão a renovar as proteções temporárias, que inicialmente tinham a duração de um ano e entretanto caducaram.

Em maio, o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, Pavlo Sadokha, disse que muitos ucranianos, sobretudo mulheres e crianças, não conseguindo "estar longe da família", regressam à Ucrânia porque "têm mais confiança", existindo ainda outros casos que estão a deixar Portugal por dificuldade em encontrar uma habitação, devido aos elevados custos do arrendamento, ou preferem ir para outros países, como Alemanha e Suíça, em busca de "melhores condições" de vida.

De acordo com aquele serviço de segurança, Lisboa continua a ser o município com mais proteções temporárias concedidas, 11.096, seguido de Cascais, com 3.845, Porto, com 2.683, Sintra, com 1.952, e Albufeira, com 1.465.

Em relação aos menores, o SEF adianta que foram contabilizadas 14.249 proteções temporárias do total de 56.528.

O SEF indica ainda que comunicou ao Ministério Público (MP) a situação de 739 menores ucranianos que chegaram a Portugal sem os pais ou representantes legais, casos em que se considera não haver "perigo atual ou iminente".

Nestas situações - na maioria dos casos a criança chegou a Portugal com um familiar -, o caso é comunicado ao MP para nomeação de um representante legal e eventual promoção de processo de proteção ao menor.

O SEF comunicou também à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens a situação de 15 menores que chegaram a Portugal não acompanhadas, mas com outra pessoa que não os pais ou representante legal comprovado, representando estes casos "perigo atual ou iminente".

17.5.23

Intérpretes, mediadores e mais formação: Livro Branco dos imigrantes e refugiados leva a novas recomendações

 Patrícia Carvalho, in Público online

O lançamento em papel do Livro Branco 2022 foi acompanhado de mesas de discussão que lançaram novas recomendações, agora compiladas pelo JRS.

O lançamento do Livro Branco sobre os direitos das pessoas imigrantes e refugidas em 2022 na sua edição impressa foi, pela primeira vez, acompanhado de um conjunto de grupos de discussão, de diferentes instituições ligadas ao tema, que trouxeram para cima da mesa mais recomendações do que as que já constavam daquele documento produzido pelo Serviço Jesuíta a Refugiados (JRS, na sigla inglesa). Depois de conhecido em versão digital, em Dezembro, o Livro Branco foi lançado em papel em Março e a JRS editou agora um pequeno livro de instruções, com os resultados das recomendações que saíram desta operação de lançamento com características inéditas.

“O Livro Branco é suposto ser um ponto de partida para uma discussão e este evento de lançamento foi diferente do habitual, mais participativo, para que as pessoas pudessem completar o nosso livro com sugestões e recomendações que tivessem. Nunca antes tínhamos tido um momento de discussão em grupo deste tipo e o resultado foi um conjunto de recomendações que tomamos como muito pertinentes. E é isso mesmo que pretendemos: uma construção, um trabalho em rede para melhorarmos o acolhimento de imigrantes e refugiados”, diz Carmo Belford, da equipa coordenadora do Livro Branco 2022.


O pequeno livro de instruções agora conhecido junta, por isso, algumas recomendações àquelas que já tinham sido inseridas pelo próprio JRS na edição relativa ao ano passado, a 3.ª desde que avançaram com a publicação do Livro Branco. Transversal a todos os grupos de discussão que congregaram cerca de 70 pessoas em torno de diferentes temas foi a constatação da “necessidade de contratação de intérpretes e mediadores socioculturais, bem como a formação contínua em Direitos Humanos, Asilo e Imigração dos profissionais da respectiva área”.

Os grupos discutiram as alterações à Lei de Estrangeiros, a detenção administrativa de cidadãos estrangeiros e os obstáculos nos processos de regularização e obtenção de asilo, além dos problemas no acesso à saúde, justiça, habitação, educação e a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Este processo foi, aliás, um dos pontos mais criticados pelo JRS no Livro Branco 2022, por causa da falta de informação sobre como tudo se iria processar e as condições que serão dadas aos novos organismos que o deverão substituir. Desde Dezembro, quando foi lançada a versão online da obra, até agora, Carmo Belford reconhece que houve algumas evoluções positivas, no que à operacionalidade do SEF diz respeito. “Uma das recomendações que deixávamos era que houvesse uma regularização extraordinária das pessoas que estavam à espera há muito tempo e, felizmente, foi algo que se concretizou”, diz.

Mas muito há ainda por fazer e a esperança do JRS é que as entidades responsáveis, incluindo o Governo, acolham agora as sugestões expressas por profissionais de diferentes sectores, associações, partidos políticos e instituições de ensino.

Carmo Bedford surpreendeu-se, por exemplo, com as “várias sugestões para flexibilizar o apoio judiciário”, deixadas por representantes da Ordem dos Advogados ou com a “frustração” de vários participantes da área da Saúde, impedidos de marcar consultas a alguns migrantes por causa de questões informáticas. Um problema que decorre do facto de o sistema informático usado neste serviços não ter incorporado a informação que os documentos que conferem o acesso à saúde, mesmo que contenham uma validade caducada, estão formalmente válidos, já que foram prorrogados até ao final de 2023, devido, precisamente, à dificuldade do SEF em dar resposta aos pedidos pendentes.

Entre as muitas outras recomendações que constam do pequeno livro de instruções a que foi dado o título Construir a integração: Por onde começar?, estão, por exemplo, a atribuição automática de NISS, NIF e NUSNS aos requerentes de asilo (à semelhança do que já acontece a quem tem visto de residência ou para procura de trabalho); a clarificação dos procedimentos relativos ao reagrupamento familiar; a atribuição de vistos humanitários (para requerentes de protecção internacional que tenham entrado de forma irregular no país); a abolição de detenções por razões meramente administrativas; a revisão dos critérios de acesso aos programas de habitação ou a criação de um estudo de protecção à vítima de denunciantes de tráfico humano, para que não corra o risco de ser deportada, uma “firewall da Justiça que previna a dupla vitimização”, refere-se.

No caso da extinção do SEF, pede-se mais participação civil e mais transparência no processo de criação da Agência Portuguesa para a Migração e Asilo (APMA), mais formação e fiscalização para combater “a violência, a xenofobia e o racismo policial” e uma maior participação do Governo na integração da população migrante.

Com a extinção do SEF agora prevista para daqui a seis meses, Carmo Belford entende este livro de recomendações surge na hora certa, já que este “é o momento oportuno para o Governo e a sociedade civil trabalharem em conjunto para melhorar os procedimentos que até agora têm dificultado a vida das pessoas que acolhemos em Portugal”.

9.5.23

Número de refugiados ucranianos diminui em Portugal

Por Lusa, in Público


Cerca de 2000 ucranianos pediram o cancelamento dos pedidos de protecção temporária.


O número de protecções temporárias concedidas por Portugal a pessoas que fugiram da guerra da Ucrânia tem vindo a diminuir nas últimas semanas, tendo cerca de 2000 ucranianos pedido para cancelar este título, revelou nesta segunda-feira o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Fonte do SEF indicou à Lusa que cerca de 2000 ucranianos pediram o cancelamento dos pedidos de protecção temporária que formalizaram junto do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.


Além dos pedidos de cancelamentos dos títulos, há também ucranianos que não estão a renovar as protecções temporárias, que inicialmente tinham a duração de um ano e entretanto caducaram.

A mesma fonte indicou que o SEF desconhece quais os motivos para o cancelamento das protecções temporárias ou para a não renovação dos títulos, afirmando que os ucranianos não justificam.

O último balanço feito hoje pelo SEF refere que Portugal concedeu 58.191 protecções temporárias a pessoas que fugiram da Ucrânia desde o início da guerra, a 24 de Fevereiro, 34.344 das quais a mulheres e 23.847 homens.

De acordo com aquele serviço de segurança, Lisboa continua a ser o município com mais protecções temporárias concedidas, 11.858, seguido de Cascais, com 3834, Porto, com 2893, Sintra, com 1986, e Albufeira, com 1465.

Em relação aos menores, o SEF adianta que foram contabilizadas 14.221 protecções temporárias do total de 58.191.

O SEF indica ainda que comunicou ao Ministério Público (MP) a situação de 739 menores ucranianos que chegaram a Portugal sem os pais ou representantes legais, casos em que se considera não haver "perigo actual ou iminente".

Nestas situações — na maioria dos casos a criança chegou a Portugal com um familiar —, o caso é comunicado ao MP para nomeação de um representante legal e eventual promoção de processo de protecção ao menor.

O SEF comunicou também à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens a situação de 15 menores que chegaram a Portugal não acompanhadas, mas com outra pessoa que não os pais ou representante legal comprovado, representando estes casos "perigo actual ou iminente".

A ofensiva militar lançada em 24 de Fevereiro de 2022 pela Rússia na Ucrânia causou até agora a fuga de mais de 14,6 milhões de pessoas — 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 8,1 milhões para países europeus —, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Pelo menos 18 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento.

A ONU apresentou como confirmados desde o início da guerra 8709 civis mortos e 14.666 feridos, sublinhando que estes números estão muito aquém dos reais.

21.4.23

Imigrantes podem renovar 'online' autorizações de residência



Os cerca de 25 mil estrangeiros residentes em Portugal cujas autorizações de residência caduquem até 30 de junho podem renovar o documento automaticamente através da página do SEF na Internet, indicou hoje aquele serviço de segurança.


Em comunicado, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) refere que os cerca de 25 mil estrangeiros podem renovar automaticamente as autorizações de residência (AR) na funcionalidade de Renovação Automática, disponível na "Área Pessoal" do portal.

O SEF refere que a funcionalidade de Renovação Automática insere-se no âmbito da simplificação de procedimentos e não existe a necessidade de deslocação presencial a um balcão de atendimento, estando garantido "o cumprimento das regras de segurança e mitigação das consequências que resultaram da situação de emergência sanitária".


Esta medida de renovar automaticamente as autorizações de residência, que têm a duração de dois anos, surgiu em julho de 2020 devido à pandemia de covid-19, tendo sido realizadas mais de 200.000 renovações automáticas.

"O serviço tem vindo a adotar medidas excecionais, com vista à recuperação de pendências e à eficiência na gestão documental de cidadãos estrangeiros, na sequência do despacho nº 5793-A/2020 de 22 de maio de 2020, que determinou a implementação de um procedimento simplificado de instrução dos pedidos de concessão de autorização de residência", precisa o comunicado.

O SEF indica ainda que, entre as iniciativas para mitigar as consequências que resultaram da pandemia, a renovação automática de autorização de residência é a que tem tido o maior impacto e permitido "a recuperação das pendências e um ganho de eficiência na gestão documental de cidadãos estrangeiros".

"Precisamos de ter acesso à base de dados do SEF sobre o auxílio à imigração"

Céu Neves, in DN



A vice-diretora da PJ e diretora da Unidade Nacional Contra o Terrorismo, defende mais operacionais e meios na investigação, até porque já sente o efeito do fim da autoridade das fronteiras. Entende que as empresas deviam ser mais responsáveis.


Quais são as áreas da Unidade Nacional Contra o Terrorismo?
Temos três secções de investigação: uma de combate ao terrorismo e duas dedicadas ao chamado banditismo, que investiga não só as matérias do tráfico humano, auxílio à imigração ilegal, mas também tráfico de armas, assaltos à mão armada, etc. Com a extinção do SEF, não podemos deixar de caminhar no sentido de criar uma unidade específica para estas matérias relacionadas com a imigração.


Houve contactos dos responsáveis das duas estruturas?


Não.

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6.4.23

Ucrânia. Portugal concedeu mais de 59 mil protecções temporárias desde o início da guerra

Por Lusa, in Público

Lisboa continua a ser o município com mais protecções concedidas, um total de 12 mil, seguido de Cascais, Porto, Sintra e Albufeira. Foram contabilizadas 14 mil protecções temporárias de menores.

Portugal concedeu mais de 59 mil protecções temporárias a pessoas que fugiram da Ucrânia desde o início da guerra, anunciou esta segunda-feira o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Segundo o SEF, Portugal atribuiu protecção a 59.078 pessoas (34.448 mulheres e 24.630 homens).​ Lisboa continua a ser o município com mais protecções temporárias concedidas, 12.570, seguido de Cascais, com 3798, Porto, com 3042, Sintra, com 1997, e Albufeira, com 1457.

Em relação aos menores, a entidade que decide a entrada e permanência de estrangeiros em Portugal adianta que foram contabilizadas 14.190 protecções temporárias. O SEF indica também que comunicou ao Ministério Público (MP) a situação de 737 menores que chegaram ao território português não acompanhados ou acompanhados por pessoas que não eram os seus pais ou representantes legais, mas "sem perigo actual ou iminente".

Nestes casos, é comunicado ao MP para nomeação de um representante legal e eventual promoção de processo de protecção ao menor.

O SEF comunicou também à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) a situação de 15 menores que chegaram a Portugal não acompanhadas, com outra pessoa que não os pais ou representante legal comprovado, "mas em perigo actual ou iminente para a vida ou grave comprometimento da integridade física ou psíquica da criança ou jovem".

No último balanço, feito a 20 de Fevereiro, o serviço de segurança referia que tinham sido emitidos 58.043 certificados de concessão de autorização de residência ao abrigo do regime de protecção temporária, um documento que contém os números de utente do Serviço Nacional de Saúde (SNS), segurança social e identificação fiscal e que é necessário para os refugiados começarem a trabalhar e acederem a apoios.

O pedido de protecção temporária a Portugal pode ser feito através da plataforma online criada pelo SEF, disponível em três línguas, não sendo necessário os adultos recorrerem aos balcões do serviço. No entanto, no caso dos menores, é obrigatória a deslocação a um balcão do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para que seja confirmada a identidade e filiação.

As protecções temporárias atribuídas em Portugal aos refugiados ucranianos de forma automática têm a validade de um ano e podem ser prorrogadas duas vezes por um período de seis meses.

27.3.23

Vistos na CPLP geram inquietação entre migrantes

João Carlos, in Notícias Online

A decisão do Governo de Lisboa em facilitar os vistos de entrada e legalização dos cidadãos dos demais países de língua portuguesa criou muitas expetativas e encontrou grande afluência no registo online.

Na primeira semana após o início do processo de legalização,da autorização de residência houve um grande afluxo de imigrantes dos países africanos lusófonos à plataforma online do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Até esta terça-feira (21.03), os pedidos de autorização de residência já tinham ultrapassado os 85 mil, depois da entrada em funcionamento do portal do SEF, de acordo com o Ministério da Administração Interna (MAI).

Daqueles pedidos, o SEF emitiu mais de 74 mil documentos com referência para pagamento das autorizações de residência – indica uma nota oficial do MAI a que a DW teve acesso.

Falta de informação

Mas, muitos cidadãos oriundos de África sem informações sobre o acordo de mobilidade e o processo para a obtenção de autorização de residência dizem-se desnorteados porque não conseguem aceder ao site do SEF. É o caso de Miksaica Neto, jovem são-tomense recém-chegada a Portugal, que teve de recorrer à ajuda da Associação Solidariedade Imigrante para conseguir obter a sua manifestação de interesse.

"Ainda não consegui entrar no site”, lamentou Miksaica. Quando a DW falou a jovem, esta ainda aguardava pela carta de manifestação de interesse "então, quando [tiver o documento] vou ver qual é o procedimento que tenho que seguir para dar entrada às coisas [o processo no SEF]”, contou.

A jovem são-tomense, que foi para estudar e trabalhar em Portugal, está entre os imigrantes que se socorrem a associações e gabinetes de advogados para contornarem os constrangimentos no acesso ao portal, resultantes do aumento substancial do tráfego na rede SEF.

Despero e medo

cidadãos oriundosdos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que, ao abrigo do acordo de mobilidade, conseguiram os respetivos certificados, nomeadamente para estudo e intercâmbio na área do ensino, ou ainda de férias e em busca de assistência médica. Mas para muitos com expetativa de emigrar, o sistema não está a corresponder, adverte Indira Fernando.

Indira Fernando, advogada que tem auxiliado cidadãos em situação irregular, diz que ainda há ambiguidades e falta de informação por parte das autoridades oficiais. Por um lado, existem os vistos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), válidos por um ano ao abrigo do acordo de mobilidade e, por outro, está aberto o processo de legalização para aqueles que já fizeram a sua manifestação de interesse até 31 de dezembro de 2022.

Segundo a jurista angolana "as pessoas foram surpreendidas com o modo de efetivação deste processo e pouco foi dito”, lamenta Indira, justificando que "as pessoas nunca sabem o que têm de fazer face a todas as burocracias por que têm de passar”.

Houve casos de imigrantes que, ávidos de obterem uma autorização de residência, que cancelaram as suas manifestações de interesse depois do anúncio da entrada em vigor dos vistos CPLP,adianta Indira Fernando.

"Mas depois quando voltaram para o portal para concluir o processo e poderem extrair a documentação para fazer o pagamento nas 48 horas necessárias e terem o tal certificado de mobilidade, a plataforma deu erro. Então, acabou por acontecer que algumas dessas pessoas perderam as suas manifestações de interesse. Não conseguiram voltar a aceder ao portal”, relata Indira Fernando.

Estes problemas geraram incertezas e frustração, confere a advogada, que dá conta de vários relatos de imigrantes nessa situação.

"Infelizmente, para eles foi uma maçã amarga essa estrutura estabelecida pelo SEF. São inúmeros os receios apresentados”, conta Indira acrescentando "eu própria tive o relato de um constituinte que apareceu bastante desesperado porque cancelou a manifestação de interesse, mas não conseguiu concluir o processo na plataforma e agora está sem saber o que fazer”, lamenta.

Processos pendentes
Timóteo Macedo, dirigente da Associação Solidariedade Imigrante, insiste que há muita falta de informação para um processo que "caiu de para-quedas”. Ele lida com vários casos e afirma que se instalou um clima de aflição entre os imigrantes da CPLP.

"Um imigrante que esteja há dois, três anos, à espera de ser regularizado, agarra-se à qualquer coisa. E agarra-se a esse processo de papel da folha A4, válido por um ano, sem saber o que é que vem depois”, conta Macedo, para quem o Estado português devia atender e resolver estes problemas pendentes de legalização de forma célere, evitando acrescentar mais burocracia.

"Uma vez que é o Estado o violador da lei, digamos assim, que já devia os ter regularizado e não o fez, deveria ser atribuída a todos uma autorização de residência de plástico [cartão PVC]”, sublinha Macedo.

Por desespero, acrescenta Timóteo Macedo, a maioria dos imigrantes vai optar por obter o certificado da CPLP, quando, de acordo com o dirigente associativo, é mais vantajoso ter um título de residência válido por dois anos para aqueles que têm uma situação laboral estável.
SEF reconhece os constrangimentos

Entretanto, logo após a abertura do processo na plataforma digital, o SEF emitiu uma nota a lamentar os "eventuais constrangimentos” face à grande afluência ao novo portal CPLP”. E refere que a elevada procura pode provocar dificuldades pontuais de acesso ao portal.

De acordo com o SEF, o processo de legalização dos que apresentam manifestação de interesse abrange o período de 2021 e 2022, não estando ainda a ser aceites os pedidos de 2023. Entre outras medidas para dar resposta às demandas, o serviço de emigração vai abrir nos próximos dias um grande centro de atendimento em Lisboa.

por:content_author: João Carlos (Lisboa)

Imigrantes da CPLP já podem obter autorização de residência online

Por Lusa, in SIC

Os pedidos podem ser feitos através do Portal da CPLP. Esta medida faz parte do acordo de mobilidade entre os Estados-membros da organização, apresentada pelo SEF.

Os cerca de 150 mil imigrantes dos países lusófonos em Portugal com processos pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) podem a partir de esta segunda-feira obter uma autorização de residência de forma automática através do portal CPLP.

A nova plataforma para obtenção de autorização de residência em Portugal para os cidadãos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) no âmbito do acordo de mobilidade entre os Estados-membros da organização foi apresentada na sexta-feira pelo SEF.

Além dos imigrantes da CPLP com processos pendentes no SEF até dezembro de 2022, também podem obter uma autorização de residência de forma "totalmente automática e online" os cidadãos com vistos CPLP emitidos pelos consulados portugueses após 31 de outubro de 2022, explicou então o diretor nacional do SEF.

Fernando Silva precisou que estes cidadãos podem aceder ao portal CPLP através das páginas da internet do SEF e do ePortugal.gov e pedir a autorização de residência.

O diretor destacou que estas concessões de autorização de residência são "exclusivamente online, sem necessidade de outro tipo de interação com o serviço ou deslocação física a um posto de atendimento".

No entanto, no caso de menores envolvidos no processo de legalização, é necessária a deslocação "em momento posterior a um posto de atendimento do SEF".

Segundo o mesmo responsável, a autorização de residência para os imigrantes da CPLP vai ter um custo de 15 euros e a disponibilização deste documento em modelo eletrónico demorará "em regra 72 horas".

Fernando Silva avançou que, numa segunda fase, este processo será alargado aos cidadãos da CPLP que se encontrem em Portugal e que não tenham ainda efetuado pedido de autorização de residência junto do SEF ou o tenham feito após janeiro de 2023.

O diretor do SEF disse também que, num futuro próximo, o portal CPLP para obtenção de autorizações de residência vai estar apenas disponível em ePortugal.gov .

Os cidadãos da CPLP que a partir agora pretendam vir para Portugal não necessitam de se estabelecer qualquer contacto com o SEF, tendo apenas que se deslocar às representações consulares portuguesas nos países de origem para obter o visto para Portugal.

Além de Portugal, integram a CPLP Cabo Verde, Brasil, Timor-Leste, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

21.3.23

Consulados emitiram quase três mil dos novos vistos de procura de trabalho

Ana Cristina Pereira, in Público

Título criado recentemente ainda é desconhecido de empregadores, que continuam a pedir autorização de residência ou prova de pedido formalizado no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

Fábio Poffo sai nesta terça-feira do Brasil e aterra nesta quarta-feira em Portugal com um visto de procura de trabalho. Não houvesse esta possibilidade, talvez nunca tivesse dado tal passo, mas já perdeu ilusões. “Os meus colegas ainda encontraram dificuldades para conseguir trabalho com esse visto.” Por desconhecimento, empregadores exigem autorização de residência ou manifestação de interesse, isto é, pedido formalizado no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Desde 30 de Outubro, qualquer estrangeiro que queira trabalhar em Portugal pode pedir um visto de procura de trabalho. Tal documento é concedido por 120 dias, prorrogáveis por outros 60, e “autoriza o titular a exercer actividade laboral dependente até ao termo do visto ou até à concessão da autorização de residência”. A emissão já pressupõe um agendamento na autoridade competente para a concessão da autorização de residência.

Quatro meses e meio decorridos desde aquela alteração à lei, de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, os serviços consulares tinham emitido 2865 visto de procura de trabalho. Destacavam-se os cidadãos do Brasil, de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.

Cauã Santana, de 27 anos, e o companheiro, dez anos mais velho, obtiveram vistos desses. Aterraram em Portugal no dia 9 de Fevereiro. “Não queria vir como turista e ficar ilegal. Tem gente que fez isso e ficou esperando um ano e meio, dois anos.” Pensou que com aquele visto não teria problemas. “A gente vai chegar lá e as portas vão se abrir.”

Não tem sido essa a sua experiência em Aveiro. “A gente rodou toda a cidade, zona industrial, restauração.” Perante cada hipótese de emprego, emergia a mesma pergunta: “Tem autorização de residência ou manifestação de interesse?” Tem visto de procura de trabalho. “Eles não conhecem. Isso é desconfortável. Toda a vez que a gente vai numa entrevista, eles olham torto para a gente.”

Paulo Pessoa aterrou em Portugal no dia 1 de Março. Quer ele, que conta 37 anos, quer a esposa, que conta 31, têm enfrentado no Seixal o mesmo problema que Cauã e o companheiro em Aveiro. “As empresas não querem dar contrato sem residência.” Houve um empregador que até assumiu uma atitude agressiva com a mulher. “Não envie currículo se não tem residência!” E precisa de contrato para apresentar no SEF no dia agendado.


Uma outra hipótese se levanta para os cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). No dia 1 de Março, passou a haver um modelo de título administrativo de residência específico. Esse inclui o “visto de estada temporária CPLP” (autorização administrativa até 12 meses), o “visto de residência CPLP” (autorização administrativa destinada a requerer autorização de residência CPLP) e a “autorização de residência CPLP”

Autorização de residência para cidadãos da CPLP

Como o SEF está a ser desmantelado e ainda há cerca de 300 mil processos pendentes, foi criada uma plataforma digital para agilizar procedimentos. O objectivo principal é despachar os cerca de 150 mil pedidos de autorização de residência de cidadãos da CPLP apresentados em 2021 ou 2022. Todavia, os cidadãos da CPLP que desde Novembro entraram em Portugal com o visto de procura de trabalho também podem recorrer a esta plataforma, uma vez que toda a sua documentação já foi verificada pelos serviços consulares.

Logo no primeiro dia, segunda-feira, 13 de Março, Paulo Pessoa e a mulher acederam à plataforma digital. “Li que vão regularizar o pessoal da língua portuguesa. A gente tinha de fazer o cadastro no site e pagar 15 euros. A gente fez o cadastro, imprimiu e está tentando pagar e não consegue.” O SEF recomenda que vá tentando, uma vez que há muita gente a aceder à plataforma. Nos primeiros três dias, deram entrada 42 mil pedidos. Entretanto, Paulo Pessoa começou a trabalhar à experiência, mas não lhe assinam o contrato enquanto não apresentar autorização de residência.

Fábio Poffo vai ouvindo estas histórias. “A gente sabe que não é o melhor salário mínimo da Europa. Não é um país onde se vai para acumular dinheiro, mas a qualidade de vida é melhor [do que no Brasil], o poder de compra é melhor. Tem também a questão cultural. Tem países próximos para visitar. A língua também favorece.”

Quarta-feira, o homem de 35 anos e a esposa de 25 desembarcarão em Lisboa e instalar-se-ão no distrito de Leiria. “Vamos em busca de um trabalho numa fábrica. Vamos ver como está a situação. A gente fez um planejamento a longo prazo. A gente está indo com uma reserva para se manter um tempo.”

Conforme o acordo de mobilidade, os cidadãos da CPLP ficam dispensados de apresentar seguro de viagem, comprovativo de meios de subsistência e cópia do bilhete de regresso. A sua entrada só pode ser barrada por “necessidade de salvaguarda da ordem, segurança ou saúde pública” ou “por fundadas suspeitas sobre a credibilidade e autenticidade dos documentos”. Têm de ter passaporte válido, certificado de registo criminal emitido no país de origem (e/ou onde tenha morado por mais de um ano), autorização para o SEF consultar o registo criminal português.

O Portal da Queixa deu esta segunda-feira conta de “um aumento significativo de reclamações dirigidas ao SEF”. Nos primeiros 20 dias de Março, somou 447. “Desde o início do ano, a plataforma recebeu 562, um aumento de 282% em relação ao período homólogo.” Principal reclamação? Constrangimentos relacionados com a emissão de título de residência através do novo portal do SEF para cidadãos da CPLP.

Reforço nos serviços consulares

O gabinete de João Gomes Cravinho dá conta de um aumento “significativo” da afluência aos postos consulares. “A recuperação pós-pandémica, o fim dos confinamentos e a retoma das viagens internacionais significaram um natural aumento dos actos consulares praticados.” Além dos pedidos de vários tipos de vistos, os de renovação de passaportes e de cartões do cidadão.

Perante tal cenário, afirma que tem “vindo a proceder a uma adequação de meios, tanto ao nível dos postos diplomáticos quanto dos prestadores de serviços externos que recepcionam os pedidos de visto”. E que “irá reforçar o quadro de pessoal, com especial incidência nos postos dos países membros da CPLP, face ao aumento de actos consulares e emissão de vistos”. “Neste contexto, para 2023, foi autorizada a abertura de procedimentos concursais para a contratação de 28 trabalhadores.”

Questionado sobre como o país está a prevenir a possibilidade de fraude, esclarece que “é assegurada a verificação documental, acautelando a detecção da fraude documental, tendo os funcionários formação para o efeito”. “Quando identificados documentos falsos ou adulterados no decurso da instrução de um pedido de visto, são imediatamente contactadas as autoridades locais a quem compete desencadear as investigações tidas por adequadas.” Para já, “verifica-se uma boa taxa de aceitação, havendo apenas uma pequena percentagem de pedidos recusados”.

1.3.23

Há um ano o mundo nunca mais foi o mesmo

António Cerca Martins, in Diário as Beiras

Foi há um ano que a guerra na Ucrânia começou. A 24 de fevereiro de 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou “operação militar especial” para “desmilitarizar e desnazificar” a Ucrânia.
Desde então, o Mundo mudou. A economia mundial abrandou, as tensões políticas entre os países aumentaram, bem como a tensão militar e nuclear. A Rússia está mais isolada, mas é a Ucrânia que tem um país destruído.

Segundo dados da ONU, a guerra na Ucrânia já vitimou mais de oito mil civis. Donetsk é, por larga margem, a região há um maior número de civis mortos (3.800), seguida por Kharkov (924 mortos) e Kiev e arredores (955 mortos).

O Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, assumiu, no entanto, que “os dados são apenas a ponta do iceberg numa guerra cujo custo para os civis é insuportável”.

Maior crise de refugiados desde a segunda guerra

Não só as vítimas mortais e os feridos sofreram com a guerra. A ONU revelou que, desde a segunda guerra mundial, que não havia uma crise de refugiados com esta escala.
A guerra já forçou mais de oito milhões de pessoas a abandonar a Ucrânia. Houve ainda cinco milhões de pessoas que mudaram de localidade dentro da Ucrânia.
Entre os países que receberam os refugiados da guerra, a Polónia é, segundo a ONU, o país que mais ucranianos acolheu. Estima-se que se fixaram território polaco mais de um milhão de ucranianos.
Também as forças russas afirmam ter recebido “pelo menos” cinco milhões de ucranianos.

56 mil proteções temporárias em Portugal

No início do ano, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) Portugal atribuiu quase 56.600 proteções temporárias a pessoas que fugiram da guerra na Ucrânia. Sendo que cerca de um quarto foram concedidas a menores.

O SEF revela também que comunicou ao Ministério Público a situação de 737 menores ucranianos que chegaram a Portugal sem os pais ou representantes legais.

Economia de rastos

Outro dos efeitos nefastos que a guerra trouxe foi a destruição da economia. Além das cidades destruídas, cujo valor dos danos ascende, segundo a Escola de Economia de Kiev, a 129 mil milhões de euros, o PIB do país diminui, no ano passado, 32 por cento.

O primeiro-ministro ucraniano Denys Shmygal disse, no início de fevereiro, que a guerra causou até agora entre 550 e 690 mil milhões de euros de prejuízos no país.

O resto do mundo também sofreu efeitos colaterais da guerra na Ucrânia.

Os preços dos produtos dos bens de primeira necessidade, tal como a energia, subiram em 2022 como há muito não se via.

As economias dos países também abrandaram e a incerteza no futuro continua.
O Índice de Incerteza Mundial do Fundo Monetário Internacional mostra que, embora os níveis de incerteza a nível global tenham caído em dezembro, permanecem elevados, com a invasão russa da Ucrânia a continuar a ser o fator dominante.

Efeitos políticos

Em termos políticos muitos países entraram em jogo para tentar apaziguar ou resolver a invasão russa.
Na Europa, o conflito suscitou preocupações relativamente à capacidade do continente para se defender, mas os países têm dado apoio militar aos ucranianos. O apoio à Ucrânia tem sido gerido com muito cuidado, face à dependência que há muito existe da energia russa.

Já União Europeia tem condenado a agressão militar da Rússia contra a Ucrânia, tendo não só fornecido dinheiro para fazer face às consequências humanitárias, como sancionou economicamente a Rússia pela invasão.

Os Estados Unidos da América (EUA) têm sido uma posição forte de apoio ao governo ucraniano. No inicio da semana Joe Biden visitou Kiev e Volodymyr Zelensky agradeceu-lhe por liderar o apoio prestado à Ucrânia. Os EUA têm fornecido material bélico aos ucranianos e sancionado economicamente a Rússia.

Em contrapartida, a China tem apoiado a ofensiva russa. O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros afirmou em outubro que a China apoia o lado russo” para “superar as dificuldades e eliminar a interferência externa”.


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28.2.23

“O país tem ofertas de trabalho” e “as instituições estão preparadas” para aumento de imigração regular

Ana Cristina Pereira, in Público

O número está a subir há sete anos. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras contava mais de 757 mil estrangeiros residentes no final do ano. Só em 2022, deferiu 113 mil novas autorizações de residência, às quais terão de se acrescentar os 58 mil ucranianos a quem concedeu protecção temporária. Há ainda 300 mil imigrantes a aguardar pela regularização da sua situação, metade dos quais da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Com o novo regime de imigração, que entrou em vigor em Novembro, qualquer pessoa pode pedir um visto de 120 dias para vir procurar trabalho. Os cidadãos da CPLP vão ter direito a autorização de residência automática de um ano. O ministro da Administração Interna já disse que a plataforma digital que tornará isso possível deve estar pronta até final de Março. Falámos com a alta comissária das Migrações, Sónia Pereira, sobre alguns desafios que esta nova realidade põe.No início da guerra, o ACM criou canais de comunicação próprios para apoiar os refugiados da Ucrânia. Que tipo de situações continuam a chegar a esses canais?
O fluxo de perguntas não é tão intenso como nos primeiros meses, em que havia uma grande preocupação com a vinda. As questões mais recentes têm que ver com a permanência em Portugal – por exemplo, pessoas que aguardam resposta aos pedidos de protecção temporária e situações relacionadas com o acesso a serviços.

Falando com ucranianos, emerge a preocupação com quase dez mil crianças não matriculadas nas escolas portuguesas…
Isso está em grande medida relacionado com a manutenção nas escolas na Ucrânia. Foram feitos vários apelos para que as crianças ucranianas, mesmo tendo essas aulas online, pudessem frequentar escolas portuguesas. Houve flexibilidade por parte do Ministério da Educação para uma frequência de aulas de Língua Portuguesa combinadas com outras disciplinas menos exigentes do ponto de vista académico, como Educação Física. O ministério disponibilizou um folheto em ucraniano.

E o ACM?
Organizámos, com a Protecção de Crianças e Jovens, acções de sensibilização para a importância da frequência da escola. Pedimos às associações [de imigrantes] e aos centros locais de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) para estarem atentos às famílias no sentido de identificar se as crianças estavam na escola ucraniana ou não e sinalizar situações de risco. [Nas acções realizadas foi sinalizado apenas um caso de uma criança que não estava em qualquer sistema de ensino.] É preciso acompanhar as famílias nesse processo de adaptação à escola portuguesa, mostrar que há alguma flexibilidade, apesar de a escolaridade ser obrigatória em Portugal. É este trabalho de sensibilização, de informação e de acompanhamento que temos vindo a fazer.

Ainda assim, a inscrição das crianças e jovens nas escolas portuguesas está abaixo do expectável.

Há quem reclame mais apoio nas escolas.
Para haver mais apoio é preciso que cheguem às escolas. E é esse trabalho que é necessário fazer. Sabemos que este ano foi difícil até para as famílias perceberem quais seriam as oportunidades reais de regresso à Ucrânia. Agora, com o prolongar da guerra, é provável que as famílias que estão em Portugal considerem a inscrição das crianças na escola. O Ministério da Educação está consciente da necessidade de reforçar equipas multidisciplinares que possam dar acompanhamento em várias áreas, incluindo psicológico.

Agora, com o prolongar da guerra, é provável que as famílias que estão em Portugal considerem a inscrição das crianças na escola. O Ministério da Educação está consciente da necessidade de reforçar equipas multidisciplinares que possam dar acompanhamento em várias áreas, incluindo psicológico.

Com 58 mil pessoas da Ucrânia a pedir protecção temporária, o que ficou por fazer com os refugiados oriundos de outros países?
São dois processos diferentes. As pessoas vindas da Ucrânia tiveram acesso ao mecanismo de protecção temporária, que não interferiu com os processos de protecção internacional que abrangem outras pessoas. Isso manteve-se a funcionar nos moldes habituais.

O que é que se aprendeu com a experiência ucraniana que possa ser replicado?
O procedimento de comunicação entre as várias áreas. Testou-se com os deslocados da Ucrânia o sistema de articulação entre a área do controlo e gestão de fronteiras e o acesso à Segurança Social, à Saúde, à Autoridade Tributária. Isso é interessante e útil como referência para facilitar outros processos de regularização administrativa.

Há migrantes que recorrem aos CLAIM, porque precisam de apoio jurídico, e são encaminhados para outro lado. Não devia o ACM assumir essa responsabilidade?
Os CLAIM são parcerias que o ACM estabelece com municípios, entidades da sociedade civil, etc. São mais generalistas. Muitas vezes, não têm um nível de especialização jurídica que lhes permita lidar com casos complexos.

Um dos trabalhos realizados ao longo do último ano, ano e meio, foi o reforço da ligação entre os CLAIM e os centros nacionais de Apoio à Integração de Migrantes, CNAIM, onde estão os gabinetes especializados do ACM. Entendemos que é importante haver esse apoio mais constante. Vamos reforçar ainda mais, através do investimento numa plataforma digital que vai permitir muito em breve a realização de vídeo-conferência entre os CLAIM e os nossos gabinetes especializados.

Portugal tem um novo regime de imigração. Há vistos de seis meses para quem quer vir procurar trabalho. E vai haver vistos automáticos de um ano para cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Como é que o ACM se está a preparar para esta nova realidade?
Para além da formação interna aos nossos técnicos para estarem preparados para lidar com esta nova lei, o ACM já iniciou um conjunto de acções de formação/sensibilização destinadas às entidades parceiras, ao Conselho para as Migrações. No fundo, para dar a conhecer as alterações para que estas também possam ser apropriadas pelos diferentes actores que intervêm nesta matéria.

Uma boa parte das situações de exploração resulta da maior vulnerabilidade dos migrantes por não terem enquadramento institucional nos processos migratórios. Havendo um fluxo regular mais estável, é expectável que a actividade das redes que alimenta os fluxos irregulares diminua.

Também estamos a trabalhar de forma mais próxima com a Direcção-Geral de Serviços Consulares e Comunidades Portuguesas, para que possa haver mais transmissão de informação relevante às pessoas que se dirigem às embaixadas para obter vistos, para que saibam à chegada a Portugal que existe um serviço como o ACM, que serviços é que têm, que apoios podem ter em Portugal, para estarem mais informadas e enquadradas no seu processo migratório.

Espera um aumento do fluxo migratório?
Havendo um mecanismo facilitador da migração regular e necessidades no mercado de trabalho em Portugal, é muito expectável que as pessoas que estão nos países de origem com vontade de migrar aproveitem a oportunidade para desenvolver o seu processo migratório de uma forma regular, organizada.

Tem havido inúmeros casos de exploração laboral e habitacional. Como irá o país responder a esse aumento do fluxo migratório?
É um aumento do fluxo nos registos que acompanhamos. Há um conjunto de fluxos que não acompanhamos tanto, porque são menos registados. Uma boa parte das situações de exploração resulta da maior vulnerabilidade dos migrantes por não terem enquadramento institucional nos processos migratórios. Havendo um fluxo regular mais estável, é expectável que a actividade das redes que alimenta os fluxos irregulares diminua.

O país tem ofertas de trabalho e capacidade de acolhimento. As instituições estão preparadas. Têm experiência e robusteceram-se. A rede de apoio cresceu. O IEFP, com este enquadramento, também dá maior apoio na empregabilidade. O que ouvimos, quer dos municípios quer das empresas, é vontade de receber trabalhadores. Havendo esta informação e acompanhamento institucional, o que é expectável é que as pessoas sejam sujeitas a menos situações de exploração.

O acesso à habitação não parece simples…
A questão da habitação é crítica. Tem havido um investimento na identificação de soluções. Há medidas propostas para lidar com a situação. Apesar de essa questão ser transversal, a realidade de cada município é muito diferente. E muitos têm tido a capacidade de mobilizar recursos para reabilitar habitação, para investir em nova habitação, para criar nos seus territórios a habitação necessária ao dinamismo demográfico.

Há um dinamismo associado à criação de habitação, aliada às ofertas de emprego e à necessidade de captar e fixar população, que é diferente do que observamos nos grandes centros urbanos.

Como viu os casos de violência em Olhão?
Com preocupação, mas como casos isolados, que não reflectem nenhuma tendência, nenhum padrão, nada que seja estrutural, que não seja um crime pontual contra pessoas percepcionadas como estando em situação de maior vulnerabilidade, neste caso imigrantes. Não temos nenhum indício de que possa estar em causa algo mais abrangente do que isto. De qualquer modo, é importante estarmos atentos.

Como encara o futuro? Haverá risco de aumento de comportamentos xenófobos, na conjugação de baixos salários, crise da habitação, aumento de fluxo migratório?
Devemos encarar o futuro com base nas respostas que estamos a preparar no presente. Do lado do ACM, criámos mais um CNAIM, continuamos a expandir a rede de CLAIM, reforçámos a linha de atendimento telefónico. Estamos a investir na modernização e digitalização para melhorar os procedimentos de comunicação e de articulação entre as várias áreas. Temos uma dinâmica de trabalho com outras entidades que actuam também junto de migrantes, o que nos permite ter confiança.

No contexto da política migratória, esta nova regularização desde a origem também nos dá confiança neste processo. Temos um plano de combate ao racismo e à discriminação que faz com que as entidades do nosso ecossistema público estejam atentas, implementem medidas, desenvolvam acções, trabalhem connosco nesse âmbito. Portanto, o contexto tem muitos desafios, mas tem também um conjunto de medidas e de respostas que nos dão confiança no trabalho que podemos desenvolver.