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14.7.23

Estudantes com origem na imigração têm pais mais escolarizados

Clara Viana, in Público online

Estudo mostra que, embora tenham uma maior proporção de pais com o ensino superior, também contam com mais beneficiários de apoios do Estado.

É uma das surpresas propiciadas pelo primeiro retrato detalhado sobre os alunos com origem imigrante, que deverá ser lançado esta semana pelo Observatório das Desigualdades. Ao contrário do que se poderia supor pelos estereótipos dominantes, os alunos com origem na imigração têm pais mais escolarizados do que os seus colegas autóctones, ou seja, que nasceram em Portugal e os progenitores também.

[...]

No estudo destaca-se ainda que houve “um aumento dos beneficiários da ASE entre 2012/2013 e 2015/2016”, coincidente com os anos da crise económica, tendo ocorrido uma “redução generalizada em 2019/2020”. Tanto no que respeita aos alunos com pais estrangeiros como aos nacionais. Mas há excepções: entre os alunos de origem venezuelana e chinesa registou-se um aumento. Já a diminuição mais expressiva ocorreu nos de origem nepalesa, moldava e brasileira.


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6.7.23

Três anos após morte de Ihor, boa parte das mudanças anunciadas para centro do SEF está por aplicar

Daniela Carmo, in Público online

Mecanismo Nacional de Prevenção, ligado à Provedora de Justiça, viu que não há “botões de pânico” e videovigilância em todas as salas de entrevista do espaço em Lisboa, como foi decidido após a morte.

O centro do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) do Aeroporto de Lisboa continua a funcionar com uma "parte substancial das novas regras" por aplicar. O alerta é feito no relatório anual (relativo a 2022) do Mecanismo Nacional de Prevenção (MNP), ligado à provedora de Justiça, divulgado esta terça-feira, que dá conta de que mais de três anos depois da morte do cidadão ucraniano Ilhor Homeniuk (em Março de 2020) no Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária no Aeroporto de Lisboa (EECIT-L), encerrado dias depois para reabilitação e reaberto em Agosto desse ano, há ainda caminho por trilhar na garantia das condições necessárias à detenção de cidadãos estrangeiros.

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27.6.23

SEF desmantelou grupo criminoso em Barcelos por auxílio à imigração ilegal

Por Lusa, in Público online

A operação, que contou com a colaboração da Polícia Judiciária, culminou com a detenção de cinco cidadãos portugueses.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) desmantelou esta segunda-feira, em Barcelos, uma organização criminosa transnacional por "fortes indícios" dos crimes de auxílio à imigração ilegal e angariação de mão-de-obra estrangeira ilegal, anunciou aquela força.

Em comunicado, o SEF acrescenta que em causa estão também crimes de falsificação de documentos, falsidade informática e branqueamento.

A operação, que contou com a colaboração da Polícia Judiciária, culminou com a detenção de cinco cidadãos portugueses.

"Este grupo criminoso recrutou directamente nos países de origem, em bolsas de imigração ilegal em território nacional e em outros países Schengen (predominantemente em Espanha e França), mais de 300 trabalhadores estrangeiros, originários do continente sul-americano, para laborar em obras públicas, obras de construção civil e fábricas de componentes de construção dispersas pelo espaço comunitário europeu", acrescenta o comunicado.

Segundo o SEF, aqueles cidadãos estrangeiros, "em circunstâncias de especial vulnerabilidade e com expectativas de recorrerem a mecanismos legais de regularização extraordinária, representam um avultado somatório de contribuições fiscais e sociais não declaradas, imposição de taxas e custos por equipamento, transporte e legalização documental".

"Para camuflar a actividade ilícita, o grupo criminoso montou uma rede de sociedades fachada com relevância fiscal e jurídica em Portugal e em França e opera inúmeras contas bancárias tituladas por figuras testa de ferro", lê-se ainda no comunicado.

Na Operação Ephemero, refere ainda, foi dado cumprimento a cinco mandados de detenção e a 16 mandados judiciais a residências e empresas em Portugal e em França.

No decorrer da operação foram apreendidos telemóveis, material informático, documentação relacionada com as empresas, documentos de identificação, viaturas de alta cilindrada, bens de luxo e mais de meio milhão de euros em numerário.

Participaram 90 inspectores do SEF e 10 da PJ.

26.6.23

Quase 800 mil estrangeiros vivem em Portugal e 30% são brasileiros

Lusa, in Público online

No final de 2022, viviam em Portugal 239.744 brasileiros. Seguem-se cidadãos do Reino Unido e de Cabo Verde, de acordo com relatório do SEF.

A população estrangeira residente em Portugal aumentou em 2022 pelo sétimo ano consecutivo, totalizando 781.915 cidadãos, mantendo-se a comunidade brasileira como a mais representativa e a que mais cresceu, revelou esta sexta-feira o SEF.

"Em 2022 verificou-se pelo sétimo ano consecutivo, um acréscimo da população estrangeira residente, com um aumento de 11,9% face a 2021, totalizando 781.915 cidadãos estrangeiros titulares de autorização de residência", refere o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA), a que agência Lusa teve acesso por ocasião do aniversário do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Segundo o SEF, os brasileiros mantêm-se como a principal comunidade estrangeira residente no país, representando no ano passado 30,7% do total, e foi também a comunidade oriunda do Brasil a que mais cresceu em 2022 (17,1%) face a 2021, ao totalizarem 239.744.

O RIFA precisa que o Reino Unido mantém a posição em relação a 2021 com um crescimento de 5,8%, sendo a segunda nacionalidade estrangeira mais representativa em Portugal.

"O crescimento sustentado dos cidadãos estrangeiros, oriundos dos países da União Europeia, confirmam o particular impacto dos factores de atractividade já apontados em anos anteriores, como a percepção de Portugal como país seguro, bem como as vantagens fiscais decorrentes do regime para o residente não habitual", precisa o relatório, que destaca os imigrantes oriundos de Angola, que sobem três posições ocupando agora o sexto lugar com uma subida de 23,1%, e da Índia, que é agora a quarta comunidade mais representativa.

A Roménia e China saíram do grupo das dez nacionalidades mais representativas em Portugal.

No final de 2022, viviam em Portugal 239.744 brasileiros, seguido dos cidadãos do Reino Unido (45.218), de Cabo Verde (36.748), Índia (35.416), Itália (34.039), Angola (31.761), França (27.512), Ucrânia (25.445), Nepal (23.839) e Guiné-Bissau (23.737).

O SEF dá também conta que Portugal, foi em 2022, o país de destino de 44.519 cidadãos ucranianos fugidos da guerra e a quem o Estado português concedeu protecção temporária.

Os imigrantes residem sobretudo no litoral, sendo que cerca de 65% estão registados nos distritos de Lisboa, Faro e Setúbal, totalizando 512.141 cidadãos residentes, enquanto em 2021 eram 466.779.

O relatório realça os aumentos para os distritos de Bragança, que vinha a descer desde 2020 e, Viana do Castelo, precisando que sete dos dez concelhos com maior número de cidadãos estrangeiros registados pertencem à área metropolitana de Lisboa.

No que diz respeito ao fluxo migratório, o SEF avança que se quebrou a tendência de descida, que ocorria desde 2020, com 143.081 novos títulos emitidos, representando um aumento de 28,5% face ano anterior, quando foram atribuídos 111.311 novos títulos.

Também a maior parte dos novos títulos foram atribuídos a brasileiros (43.313), seguindo-se os indianos (7.414) e Itália (6.977), Angola (6.939) e Bangladesh (6.153).

"Os motivos mais relevantes na concessão de novos títulos de residência foram a actividade profissional (51.525) e o reagrupamento familiar (27.054)", lê-se no RIFA.

22.6.23

Lixo, baratas e quartos com nove camas. Migrantes pagavam entre 270 e 320 euros

Cristiana Faria Moreira (Texto) e Rui Gaudêncio (Fotografia , in Público

Migrantes são sobretudo casais que vêm à procura de melhor vida. Vêm aliciados por redes criminosas de captura ilícita, comércio e tráfico internacional de bivalves. Viviam em condições deploráveis

[Artigo exclusivo para assinantes]

15.6.23

Portugal com mais população pelo quarto ano consecutivo. Imigração justifica aumento

Daniela Carmo, in Público

Portugal tinha no último dia de 2022 uma população residente de 10.467.366 pessoas. Número médio de filhos por mulher em idade fértil aumentou para 1,43 filhos.

É o quarto ano consecutivo que a população residente em Portugal aumenta, refere o Instituto Nacional de Estatística (INE) no boletim Estimativas da População Residente em Portugal 2022, divulgado nesta quinta-feira. Este resultado deve-se à imigração, que permitiu compensar o saldo natural negativo do país. O índice de envelhecimento também cresceu: por cada 100 jovens há agora 185,6 idosos no país.


Segundo as estatísticas agora divulgadas, Portugal tinha no último dia de 2022 uma população residente de 10.467.366 pessoas. Feitas as contas, são mais 46.249 pessoas que em 2021. De acordo com o INE, o acréscimo populacional em 2022 resultou de um saldo migratório de 86.889 pessoas (72.040 em 2021), que compensou o saldo natural negativo (número de óbitos superior ao de nados-vivos) de -40.640.

A subida correspondeu a uma taxa de crescimento efectivo de 0,44% (0,26% no ano anterior). A população residente tem vindo a aumentar desde 2019, em contraciclo face à tendência de decréscimo populacional verificada entre 2010 e 2018.

Este é também o sexto ano seguido em que o saldo migratório é positivo, ou seja, em que o número de imigrantes é superior ao de emigrantes. "Em 2022, estimou-se um total de 117.843 imigrantes permanentes (97.119 em 2021) e de 30.954 emigrantes permanentes (25.079 em 2021)", descreve o INE.

A partir de 2013, com excepção de 2020 devido às restrições a que a pandemia de covid-19 obrigou, "assistiu-se a um forte acréscimo do número de pessoas que entraram em Portugal para residir por um período igual ou superior a um ano (imigrantes permanentes)".

Índice de fecundidade a aumentar e mães mais novas

Também o número médio de filhos por mulher em idade fértil (o Índice Sintético de Fecundidade, ISF, que vai dos 15 aos 49 anos) aumentou, de 1,35 filhos em 2021 para 1,43 filhos no ano passado.

"Em 2022, nasceram 83.671 nados-vivos de mães residentes em Portugal, mais 5,1% do que em 2021 (79.582), contribuindo para o aumento da taxa bruta de natalidade, que passou de 7,6, em 2021, para 8,0 nados-vivos por mil habitantes em 2022", referem as estatísticas hoje divulgadas.

É ainda de notar que em 2022, contrariamente ao aumento a que se assistiu nos últimos anos, as idades médias das mulheres ao nascimento de um filho e do primeiro filho diminuíram. Ou seja, a idade média das mulheres ao nascimento de um filho foi de 31,7 anos, menos 0,1 anos que no ano anterior. Já a idade média das mulheres ao nascimento do primeiro filho foi de 30,3 anos, registando-se a mesma diferença em relação a 2021.

Portugal com mais população pelo quarto ano consecutivo. Imigração justifica aumento
Já o envelhecimento, à semelhança de anos anteriores, continuou a acentuar-se em Portugal. Em 2022, o índice de envelhecimento, que compara a população com 65 e mais anos (população idosa) com a população dos zero aos 14 anos (população jovem), ascendeu aos 185,6 idosos por cada 100 jovens (181,3 em 2021).

Entre 2011 e 2022, a proporção de jovens decresceu de 15,0% para 12,9% da população residente total. E a proporção de pessoas em idade activa (população dos 15 aos 64 anos de idade) também diminuiu de 65,8% para 63,1%, verificando-se simultaneamente o aumento da percentagem de idosos de 19,2% para 24,0%.

Quanto à idade mediana da população, que corresponde à idade que divide a população em dois grupos de igual dimensão, passou de 46,7 anos em 2021 para 47,0 anos em 2022. Em relação a 2011, quando este indicador se fixava nos 42,2 anos, o aumento da idade mediana da população é de 4,8 anos.





17.5.23

Intérpretes, mediadores e mais formação: Livro Branco dos imigrantes e refugiados leva a novas recomendações

 Patrícia Carvalho, in Público online

O lançamento em papel do Livro Branco 2022 foi acompanhado de mesas de discussão que lançaram novas recomendações, agora compiladas pelo JRS.

O lançamento do Livro Branco sobre os direitos das pessoas imigrantes e refugidas em 2022 na sua edição impressa foi, pela primeira vez, acompanhado de um conjunto de grupos de discussão, de diferentes instituições ligadas ao tema, que trouxeram para cima da mesa mais recomendações do que as que já constavam daquele documento produzido pelo Serviço Jesuíta a Refugiados (JRS, na sigla inglesa). Depois de conhecido em versão digital, em Dezembro, o Livro Branco foi lançado em papel em Março e a JRS editou agora um pequeno livro de instruções, com os resultados das recomendações que saíram desta operação de lançamento com características inéditas.

“O Livro Branco é suposto ser um ponto de partida para uma discussão e este evento de lançamento foi diferente do habitual, mais participativo, para que as pessoas pudessem completar o nosso livro com sugestões e recomendações que tivessem. Nunca antes tínhamos tido um momento de discussão em grupo deste tipo e o resultado foi um conjunto de recomendações que tomamos como muito pertinentes. E é isso mesmo que pretendemos: uma construção, um trabalho em rede para melhorarmos o acolhimento de imigrantes e refugiados”, diz Carmo Belford, da equipa coordenadora do Livro Branco 2022.


O pequeno livro de instruções agora conhecido junta, por isso, algumas recomendações àquelas que já tinham sido inseridas pelo próprio JRS na edição relativa ao ano passado, a 3.ª desde que avançaram com a publicação do Livro Branco. Transversal a todos os grupos de discussão que congregaram cerca de 70 pessoas em torno de diferentes temas foi a constatação da “necessidade de contratação de intérpretes e mediadores socioculturais, bem como a formação contínua em Direitos Humanos, Asilo e Imigração dos profissionais da respectiva área”.

Os grupos discutiram as alterações à Lei de Estrangeiros, a detenção administrativa de cidadãos estrangeiros e os obstáculos nos processos de regularização e obtenção de asilo, além dos problemas no acesso à saúde, justiça, habitação, educação e a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Este processo foi, aliás, um dos pontos mais criticados pelo JRS no Livro Branco 2022, por causa da falta de informação sobre como tudo se iria processar e as condições que serão dadas aos novos organismos que o deverão substituir. Desde Dezembro, quando foi lançada a versão online da obra, até agora, Carmo Belford reconhece que houve algumas evoluções positivas, no que à operacionalidade do SEF diz respeito. “Uma das recomendações que deixávamos era que houvesse uma regularização extraordinária das pessoas que estavam à espera há muito tempo e, felizmente, foi algo que se concretizou”, diz.

Mas muito há ainda por fazer e a esperança do JRS é que as entidades responsáveis, incluindo o Governo, acolham agora as sugestões expressas por profissionais de diferentes sectores, associações, partidos políticos e instituições de ensino.

Carmo Bedford surpreendeu-se, por exemplo, com as “várias sugestões para flexibilizar o apoio judiciário”, deixadas por representantes da Ordem dos Advogados ou com a “frustração” de vários participantes da área da Saúde, impedidos de marcar consultas a alguns migrantes por causa de questões informáticas. Um problema que decorre do facto de o sistema informático usado neste serviços não ter incorporado a informação que os documentos que conferem o acesso à saúde, mesmo que contenham uma validade caducada, estão formalmente válidos, já que foram prorrogados até ao final de 2023, devido, precisamente, à dificuldade do SEF em dar resposta aos pedidos pendentes.

Entre as muitas outras recomendações que constam do pequeno livro de instruções a que foi dado o título Construir a integração: Por onde começar?, estão, por exemplo, a atribuição automática de NISS, NIF e NUSNS aos requerentes de asilo (à semelhança do que já acontece a quem tem visto de residência ou para procura de trabalho); a clarificação dos procedimentos relativos ao reagrupamento familiar; a atribuição de vistos humanitários (para requerentes de protecção internacional que tenham entrado de forma irregular no país); a abolição de detenções por razões meramente administrativas; a revisão dos critérios de acesso aos programas de habitação ou a criação de um estudo de protecção à vítima de denunciantes de tráfico humano, para que não corra o risco de ser deportada, uma “firewall da Justiça que previna a dupla vitimização”, refere-se.

No caso da extinção do SEF, pede-se mais participação civil e mais transparência no processo de criação da Agência Portuguesa para a Migração e Asilo (APMA), mais formação e fiscalização para combater “a violência, a xenofobia e o racismo policial” e uma maior participação do Governo na integração da população migrante.

Com a extinção do SEF agora prevista para daqui a seis meses, Carmo Belford entende este livro de recomendações surge na hora certa, já que este “é o momento oportuno para o Governo e a sociedade civil trabalharem em conjunto para melhorar os procedimentos que até agora têm dificultado a vida das pessoas que acolhemos em Portugal”.

17.4.23

Multiplicam-se os esquemas para tirar proveito de imigrantes

Ana Cristina Pereira, in Público online

Aproveitamento pode começar no país de origem ou em Portugal. Evelin pagou 180 euros para ter o NIF.

Evelin Santos não vai desistir da manifestação de interesse que apresentou no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e pedir um certificado de autorização de residência Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), como milhares fizeram no último mês. “Vou esperar. Dizem que isso é só para facturar, que nem todos os países estão cientes.”

O receio da jovem de 29 anos vem-lhe da experiência. Já se sentiu alvo de burlas várias vezes desde que aterrou no aeroporto internacional de Lisboa com a irmã, três anos mais nova, no final de 2021.

Enquanto brasileiras, bastava-lhes o carimbo no passaporte para permanecerem 90 dias como turistas em Portugal. Para ficar a viver e a trabalhar, porém, teriam de se inscrever nas Finanças e na Segurança Social, de abrir actividade como trabalhadoras independentes ou de arranjar contrato de trabalho e de ir ao SEF manifestar interesse em obter autorização de residência.

Começando pelas Finanças, precisavam de um representante fiscal, que podia ser um cidadão português ou estrangeiro com autorização de residência. “A gente não conhecia ninguém”, recorda. Indicaram-lhe uma pessoa que “ajudava quem estava nessa situação”. “Ela disse que era advogada. Cada uma pagou 180 euros.”

A irmã, Brenda, corrobora a história: “No começo, pensei que estava super em conta, porque não tínhamos noção dos valores [praticados]; depois, vimos que tínhamos sido quase assaltadas.”

Ainda há pouco, um amigo de ambas, Kauan Santana, de 27 anos, e o companheiro, de 37, chegados a Aveiro com um visto de procura de trabalho, pagaram 30 euros cada a um homem que desempenhou o papel de representante fiscal. Diz o rapaz que o homem estava perto do balcão do SEF e que lhe foi indicado pela própria funcionária.

É um esquema comum. Ao trabalhar para a associação Renovar a Mouraria, que dirige o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes Lisboa-Mouraria, a jurista brasileira Larissa Nicolosi tem conhecido muitos imigrantes que pagaram para obter o NIF. E o problema não é só o valor. “O representante fiscal recebe a chave de acesso às Finanças. Tem acesso a dados pessoais. Se depois não fornecer esses dados, a pessoa não sabe onde estão. E tem dificuldade em pedir nova senha.”

Também é frequente haver quem faça negócio com a necessidade de apresentar um atestado de residência ao SEF. “As coisas estão feitas de forma inadequada”, considera Timóteo Macedo, da Associação Solidariedade Imigrante. “Não devia ser preciso um atestado de residência da junta de freguesia para fazer uma manifestação de interesse [de autorização de residência]. A pessoa acaba de chegar, não tem duas testemunhas. As máfias aproveitam-se. Vêem as pessoas desesperadas e cobram dinheiro para assinar um papel.”

O funcionamento do SEF não ajuda. “As pessoas ligam 400, 500, 600 vezes e não conseguem fazer agendamento no SEF”, torna Larissa Nicolosi. “A forma como o SEF comunica é através de posts no Facebook: diz quantas vagas abriu e para que tipo de autorização de residência.” Há grupos organizados que estão atentos e apanham boa parte delas para vender. Na sua opinião, “o facto de no site do SEF nem haver informação de que não há vagas é falta de transparência”. E “a falta de transparência põe os imigrantes numa situação de maior vulnerabilidade, de maior dependência de outras pessoas.” “Quando a informação não chega de forma eficiente, há pessoas que se aproveitam.”

Os pedidos de novas autorizações de residência CPLP não escapam a estes esquemas. “Muitas pessoas não têm computador, não têm literacia digital, algumas nem sabem ler”, observa Ana Mansoa, directora executiva do Centro Padre Alves Correia, entidade responsável por um Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes Lisboa-Estrela.

Às vezes, o aproveitamento começa ainda no país de origem, sublinha Ana Mansoa. Conhece imigrantes que pagaram avultadas quantias a outros já residentes para lhes tratarem dos documentos e da habitação ainda antes de embarcar. E imigrantes que ficaram a pagar uma percentagem do seu salário.
Salário por pagar

“Às vezes, as pessoas não sabem onde procurar informação correcta”, comenta Bruno Gutman, advogado luso-brasileiro especializado em imigração. “Hoje, na Internet é fácil divulgar qualquer coisa.”

Já denunciou à Ordem dos Advogados diversas pessoas. “Tem muita gente na Internet que não é advogada e fica falando de lei de imigração. Não tem conhecimento e fica na Internet dando informação desencontrada. Conheço pessoas que vendem e-books sobre como imigrar para Portugal, como tirar o NIF, o NISS, o número de utente do SNS. Essas pessoas vendem esses serviços. Estão a praticar procuradoria ilícita. Isso é crime.”

Alguns têm protagonizado autênticas burlas. Pela Internet já circula até um falso email sobre as novas autorizações de residência CPLP. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) até publicou um alerta na sua página na rede social Facebook: “Alertamos para a circulação de falsos emails, alegadamente gerados pelo Portal CPLP para efeitos de registo e emissão de autorização de residência.”

Evelin e a Brenda estão até hoje sem saber exactamente qual a verdadeira qualificação da mulher que cobrou 180 euros a cada uma para requerer o NIF e queria cobrar outros 100 para tratar da manifestação de interesse. “Nem sei se ela é advogada”, diz Evelin. “Primeiro, ela atendeu a gente numa sala de um prédio. No outro dia que a gente foi lá, ela estava num salão de beleza. Então não sei o que ela é.”

Todo o dinheiro lhes fazia falta. As suas irmãs vieram de Santos, litoral de São Paulo, à procura de uma vida melhor. “Está ficando muito perigoso.” Venderam as suas coisas e meteram-se num avião. “A gente não veio com muito dinheiro. A gente queria trabalhar logo.”

Uma tormenta o primeiro trabalho, numa lavandaria. “A gente não tinha o número da Segurança Social. A gente não tinha contrato.” “Fiquei três meses”, conta Evelin. “O dono chegou a me pagar. O terceiro mês é que não pagou. A minha irmã ficou 45 dias e ele não pagou. Ele pagou-me e eu perguntei. ‘E a minha irmã?’ E ele falou: ‘Ai não, já paguei você, é na mesma casa.’ Eu não podia ficar num lugar onde ele escolhia quem pagava.”

Agora, têm NIF, NISS, número de utente do SNS e contrato de trabalho. Brenda trabalha numa cantina e Evelin numa sex shop. “Agora, tudo está óptimo”, diz Brenda. “A gente gosta bastante do país”, torna Evelin. “A segurança é uma das coisas que a gente mais gosta. A gente veio com o intuito de trabalhar e ir para outro país, mas a gente gostou e ficou, apesar de o aluguer ser bem caro.” Muitos não ficam, voltam a fazer as malas e partem para outros países.

Qual a diferença entre cartão de residência e certificado CPLP?

A proposta parece irrecusável para quem espera há anos pela autorização de residência por via dos artigos comuns. Inscrevendo-se e pagando 15 euros, o mesmo custo do cartão de cidadão, os imigrantes da CPLP podem obter autorização de residência em 72 horas.

Antecipando o desmantelamento do SEF, a 13 de Março foi lançada a plataforma on-line autorização de residência CPLP. No afã de despachar pendências, podem aceder cerca de 150 mil cidadãos da CPLP que apresentaram manifestação de interesse em 2021 e 2022. O mesmo podem fazer cidadãos da CPLP que obtiveram um visto consular no país de origem de 31 de Outubro para cá.

Até 12 de Abril, o SEF emitiu 103.572 referências de pagamento, tendo já concedido 93.209 autorizações. Os brasileiros protagonizam o grosso dos pedidos (86,5%), seguidos de muito longe pelos angolanos (3,8) e pelos são-tomenses (3%).

Não é automático, como se diz. São consultadas bases de dados para verificar se não há motivo de recusa. Até agora, segundo o SEF, “foram detectados 6.043 alertas, que obrigaram a uma consulta mais detalhada para aferir, ou não, a atribuição de uma autorização de residência CPLP”.

Mas nem todos os que têm processos pendentes irão avançar. Bruno Gutman, advogado luso-brasileiro especializado em imigração, conhece várias pessoas que preferem esperar pelo resultado da manifestação de interesse. À evidente vantagem da rapidez contrapõem o que percebem como desvantagens diversas.

Através da manifestação de interesse, recebem um cartão de identificação. Através do Portal Autorização de Residência CPLP, uma folha que devem imprimir e que devem apresentar sempre acompanhado do passaporte. O cartão é válido por cinco anos e o certificado por um ano, renovável por períodos de dois anos.

Não é só isso. Quem tem autorização de residência em Portugal pode circular pelos países do Espaço Schengen. O cartão de autorização de residência é reconhecido e aceite pelas autoridades fronteiriças de qualquer Estado-membro. “A ‘declaração’ de residência CPLP não é um documento padronizado na UE”, salienta Bruno Gutman. “Aqui está a dúvida. Não está esclarecido se vai ser possível circular no Espaço Schengen.”

Poderá estabelecer-se um paralelo com o regime de protecção temporária criado para cidadãos da Ucrânia, que inclui título de residência temporária, número de identificação fiscal (NIF), um número de identificação da Segurança Social (NISS), um úmero de utente do Serviço Nacional de Saúde. Portugal teve de comunicar aos outros Estados-membros a validade daquele título de residência, já atribuído a cerca de 59 mil pessoas. Até agora, não fez o mesmo com a declaração CPLP. Ana Cristina Pereira

31.3.23

Portugal está a ser usado como plataforma de auxílio à imigração ilegal

Sónia Trigueirão, in Público online

Detenções por fraude documental aumentaram 123% e há solicitadores e advogados envolvidos neste crime, segundo dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2022.

Portugal está a ser usado como plataforma de auxílio à imigração ilegal, as detenções por fraude documental aumentaram 123% em 2022 e constata-se o envolvimento de solicitadores e advogados na obtenção fraudulenta da documentação de suporte para a renovação de títulos de residência.

Os dados são do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2022 que descreve o crescimento destes fenómenos que estão a ser levados a cabo por “grupos criminosos organizados que, a troco de avultadas quantias monetárias, se disponibilizam a facilitar tanto o transporte destes cidadãos para o território nacional como a documentação necessária para o efeito”.

Segundo o RASI, o que está a acontecer é que há nacionais de países terceiros que residem e trabalham noutros Estados-membros em situação ilegal que se deslocam a Portugal para regularizar ou renovar a sua situação documental com recurso a documentação falsa ou falsificada. Uma vez obtido o estatuto de residente em Portugal, regressam ao outro Estado-membro da União Europeia.

Aliás, sublinha o documento, no âmbito de diversos inquéritos, já investigados e em investigação, foi possível perceber que, em várias situações, estes imigrantes conseguiram obter e renovar títulos de residência portugueses através de sociedades comerciais com sede em Portugal, criadas exclusivamente para esse efeito. Estas sociedades, sem actividade comercial, dedicam-se apenas a vender contratos de trabalho aos imigrantes.
 


Os principais documentos objecto de fraude são os contratos de trabalho, atestados de residência, certificados de registo criminal, atestados médicos e declarações de matrícula no ensino superior.

A respeito dos atestados de residência, o RASI revela que foram detectados documentos emitidos indevidamente a favor de cidadãos que não residem sequer em Portugal e que se deslocam às juntas de freguesia acompanhados por testemunhas que falsamente atestam as suas moradas.

Numa outra vertente, há imigrantes que solicitam a lojistas de uma determinada área onde se encontram temporariamente a viver para atestarem a sua residência num determinado domicílio, fazendo uso da figura do trabalho sazonal para justificar a sua frequente ausência da zona e garantindo desta feita um endereço fixo.

Outra situação que foi detectada envolve a emissão de centenas de atestados de residência a favor de cidadãos estrangeiros, a grande maioria de origem indostânica, emitidos num período curto e indexados a uma mesma habitação/fracção de um edifício, tendo para tal sido intermediados por terceira pessoa.

Sobre as declarações de matrícula no ensino superior, relata o RASI que é um “modus operandi que pressupõe a intervenção de um ou vários suspeitos em território nacional que preenchem os formulários de inscrição na universidade, instruem os cidadãos acerca da postura e discurso na passagem da fronteira, efectuam a marcação no sistema de agendamento do SEF relativo à emissão do título de residência para frequência do ensino superior e ainda facilitam a obtenção de comprovativos de estadas em hotéis”.

O RASI alerta ainda para outra situação: casos de obtenção fraudulenta da nacionalidade portuguesa por parte de cidadãos alegadamente originários dos antigos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu. De acordo com o documento, inicialmente a fraude traduzia-se, maioritariamente, na falsificação de certidões de nascimento por meio da utilização de falsos vínculos familiares. Actualmente verifica-se que estão a ser utilizados passaportes indianos falsificados, cujos dados correspondem a processos de nacionalidade concluídos, com o respectivo assento de nascimento já transcrito para o ordenamento jurídico português.

E este já deixou de ser um fenómeno circunscrito a cidadãos da Índia. As autoridades já detectaram cidadãos do Bangladesh, do Paquistão, dos Emirados Árabes Unidos e da Tanzânia que obtiveram documentação indiana de forma fraudulenta, para depois tentarem obter a nacionalidade portuguesa.

Destaca-se ainda um fenómeno migratório timorense que se manifestou com mais intensidade na segunda metade de 2022. Como estão isentos da obrigatoriedade de visto para entrar e permanecer em Portugal para efeito de estadas de curta duração, recorrem a este expediente para entrar na União Europeia e a partir daqui viajarem para o Reino Unido.

A contínua apresentação nas fronteiras, por parte de cidadãos timorenses, de documentação fraudulenta originou a participação às entidades judiciais de diversos processos-crime relacionados com a eventual prática do crime de auxílio à imigração ilegal. De sublinhar também situações em que timorenses vieram para Portugal com a promessa de um trabalho e que acabaram nas ruas de Lisboa sem nada.
Casamentos de conveniência

A estas situações acresce uma outra que preocupa as autoridades. Há cidadãos portugueses que aceitam celebrar casamentos de conveniência a troco de valores que vão dos 500 aos três mil euros.

“Celebrado o casamento de conveniência, os cidadãos nacionais viajam com os seus alegados cônjuges (ou apenas munidos dos passaportes dos nubentes) para os países onde se pretendem estabelecer e aí os mesmos solicitam um título de residência na qualidade de familiares de cidadãos da União”, lê-se no RASI, que sublinha que “não são raros os casos em que [cidadãos portugueses] se encontram envolvidos em mais do que um casamento de conveniência com nacionais de países terceiros”.

No âmbito da criminalidade relacionada com o tráfico de pessoas, revela o RASI que foram instaurados 126 processos de inquérito, constituídos 78 arguidos e efectuadas 40 detenções.

Sublinha o mesmo documento que este crime continua a estar muito ligado à angariação e ao recrutamento para trabalho em campanhas sazonais, como as da apanha da azeitona, castanha, frutos ou produtos hortícolas.

As vítimas são levadas para “os locais das explorações agrícolas onde passam a trabalhar e a residir, passando a depender totalmente da 'vontade' dos empregadores”. Estas pessoas “possuem escassos recursos económicos e, devido a vários factores, encontram-se em estado de vulnerabilidade e são colocados a trabalhar, geralmente, em locais situados no interior alentejano ou na zona oeste do país, com difíceis condições de acesso, dificultando a fiscalização”. Chegam sobretudo de países como Marrocos, Argélia, Senegal, Nepal, Índia e Paquistão.

20.2.23

Governo recusa imigração "à la carte" ou regresso às quotas

Inês Malhado, in JN

Ana Catarina Mendes revela que já foram registadas cerca de 140 mil manifestações de interesse no novo visto de trabalho

A ministra-adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, defendeu, este sábado, que a construção de "uma sociedade decente" que saiba acolher e integrar os migrantes não é compatível com uma política "à la carte" ou com a criação de quotas para a entrada de migrantes no país, criticando as declarações recentes do líder do PSD, Luís Montenegro, e do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas.

"Rejeitamos e rejeitaremos sempre uma imigração proposta agora pelo líder do PSD que é a migração 'à la carte' ou proposta pelo engenheiro Carlos Moedas, que é voltarmos às quotas", salientou Ana Catarina Mendes numa iniciativa do PS dedicada às migrações que decorreu no Largo do Rato, em Lisboa.

Na sessão de encerramento do Fórum das Migrações, organizado pelo PS e dedicado ao tema "Defender as Pessoas, Responder com Inclusão e Solidariedade", a dirigente lembrou que o Governo eliminou as quotas na última revisão à Lei de Estrangeiros por acreditar que "Portugal não é o orgulhosamente sós, mas orgulhosamente nós", fazendo alusão ao lema utilizado por Salazar durante a colonização portuguesa em África.

Quanto ao novo visto que permite aos migrantes terem um estado regularizado enquanto procuram trabalho por um período de seis meses, podendo desde logo estar acompanhados pela família, a ministra avança que já foram registadas cerca de 140 mil manifestações de interesse.

Ana Catarina Mendes lembrou ainda que os imigrantes vindos dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) vão beneficiar de um estatuto de proteção até um ano que lhes permitirá aceder diretamente ao número da Segurança Social, de contribuinte e de utente de saúde. A ministra disse que continuam pendentes 150 mil pedidos da CPLP que serão agora objeto desta proteção temporária, ao abrigo na nova operação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), apontando que em 2024 a sua situação deverá ficar regularizada.

Salientou ainda que só se combate as imigrações ilegais se forem criados canais como estes. "O Estado tem de facilitar o acesso à documentação essencial. Com isto é mais um degrau na escada de uma sociedade decente e de uma boa integração dos nossos migrantes", advertiu. A proposta já tinha sido avançada esta manhã pelo ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, no mesmo fórum.

"No último ano, entraram em Portugal 13 vezes mais refugiados do que os que aqui chegaram nos últimos cinco anos", afirmou Ana Catarina Mendes, salientando ainda que as características destes fluxos migratórios são agora diferentes. Até ao final do 1.º semestre do ano, o Governo espera construir mais dois centros de acolhimento e capacitação de migrantes, um em Lisboa e outro em Torres Novas, reafirmou.

Papel dos municípios

Lembrando "tragédias" que aconteceram recentemente, como o incêndio que deflagrou, no início do mês, num prédio sobrelotado com imigrantes no Bairro da Mouraria, em Lisboa, vitimando duas pessoas, a ministra alertou que as câmaras municipais devem ter um papel na fiscalização das habitações.

Em relação à restruturação do SEF, a ministra insistiu que criação da nova Agência Portuguesa para as Migrações visa melhorar o acolhimento de quem chega a Portugal, garantindo-lhes com uma maior celeridade o acesso aos documentos necessários para permanecerem no país, bem como se integrarem no mercado de trabalho.

"Há duas maneiras de olhar para a integração de migrantes na sociedade: ou se escolhe a via solidária, da inclusão e da solidariedade e da igualdade de oportunidades, e essa é aquela que é a visão do Partido Socialista, ou se escolhe a forma egoísta e individualista de quem ergue muros. E essa é mesmo a forma mais à direita", lançou.

Ana Catarina Mendes reforçou que o partido rejeita "qualquer tipo de discriminação a qualquer cidadão estrangeiro em Portugal" e que repudia "qualquer manifestação de violência, como a que foi recentemente conhecida", fazendo alusão aos casos de agressão de imigrantes das comunidades indianas e nepalesas em Olhão. No decorrer das investigações destes casos, a PSP já identificou 11 suspeitos e deteve três jovens de 16 anos.

Recorde-se que, no início da semana, Marcelo Rebelo de Sousa pediu "bom senso" ao líder do PSD e ao autarca lisboeta quanto a um "tema tão sensível" como o dos imigrantes, lembrando que "estas pessoas são vítimas, em muitos casos, de redes de utilização de seres humanos". Para o Presidente da República, as "declarações muito emocionais feitas em cima de casos correm o risco de ser irracionais".

16.3.22

Portugal nas rotas migratórias com uma das leis mais avançadas em termos humanitários


Cidadãos oriundos do Nepal com “estatuto de residente” tiveram aumento de 183% em três anos.

Portugal tem uma posição de plataforma giratória ao nível das migrações e uma das mais avançadas legislações da Europa, em termos humanitários, o que contribui para atrair imigrantes, segundo investigadores da Universidade de Lisboa (UL) contactados pela Lusa.

De acordo com Lucinda Fonseca, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, a pandemia de covid-19 tornou “muitíssimo mais difícil” o processo de regularização e emprego, mas no sistema educativo é notória a presença de crianças nepalesas nos últimos anos.

“É outra forma de se detectarem. De acordo com a lei portuguesa, mesmo que estejam em situação de indocumentados, eles têm de ser aceites no sistema de ensino e portanto nota-se um grande crescimento”, referiu a docente e investigadora.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os cidadãos oriundos do Nepal com “estatuto de residente” passaram de 7.435 em 2017 para 21.013 em 2020 (+183%), não havendo ainda dados disponíveis para 2021, nem para os primeiros meses deste ano nesta fonte.

Em 2010, havia apenas 796 nepaleses com estatuto de residente em Portugal. Também do Bangladesh e da Índia tem havido um crescimento contínuo.

A diversidade de fluxos migratórios hoje em dia é “efectivamente muito maior do que era no passado”, reconheceu Lucinda Fonseca, atribuindo o fenómeno ao acesso à informação, nomeadamente através das redes sociais, e à formação de redes de recrutamento, “não necessariamente ilegais”, embora haja um problema de exploração a combater.

“Tem-se falado muito no caso de Odemira, mas há outras áreas do Alentejo onde isso acontece, em que cada vez mais o recrutamento de mão-de-obra se faz por essa via, onde já estão alguns imigrantes estabelecidos que fazem essa ligação com outros países”, apontou a professora catedrática.

“Hoje temos um processo de recrutamento que é muito mais complexo e que se baseia numa organização que nada tem a ver com aquilo que acontecia no passado e, portanto, as pessoas vêm cada vez de mais longe”, observou Lucinda Fonseca, que estudou as primeiras vagas de imigração indiana para Portugal.

Segundo a investigadora, Portugal está numa trajectória de entrada para outros países. Mas mesmo que não seja o destino final desejado, a decisão pode ser alterada a meio do processo migratório, em função das condições de sobrevivência que os imigrantes encontrarem no país.

O inverso também funciona, na opinião do geógrafo Jorge Malheiros, segundo o qual Portugal tem uma legislação, em termos de regularização, “das mais avançadas da Europa, do ponto de vista humanitário”.

Especialista em Geografia Humana, Jorge Malheiros apontou três factores que estão a contribuir para a actual vaga de imigração, começando pelo facto de Portugal ter actividades económicas que vão recrutar directamente pessoas à Ásia do sul, como a agricultura, “através de determinadas redes vão recrutar ao Nepal e à índia”.

O desenvolvimento de negócios por imigrantes já instalados, das mercearias aos restaurantes, tem vingado na sociedade portuguesa e atraído outros cidadãos da mesma origem, num efeito multiplicador, assinalou Jorge Malheiros.

Para o investigador, a imigração para Portugal desde 2015-2016 tem sido marcada pelos antípodas: de um lado cidadãos comunitários que se instalam com proveitos fiscais e capacidade económica e do outro a imigração do sul da Ásia.

“Após 2015, temos uma imigração de cidadãos europeus, de outros países da União Europeia (...) assistimos a um crescimento do número de franceses, britânicos, nórdicos (vários), italianos, (muitos)”, exemplificou.

Tem também crescido, frisou, um movimento específico, com tendência para aumentar: o de refugiados. “Faz parte da mudança nestes últimos tempos, nos últimos quatro, cinco anos, uma maior presença e com mais visibilidade de pessoas a beneficiarem de protecção internacional”, indicou o investigador, sublinhando que a guerra na Ucrânia vai acentuar este panorama.

2.3.22

“Há redes mafiosas que têm o objectivo de explorar o trabalhador em Portugal”

Ana Dias Cordeiro ( texto) e Daniel Rocha ( fotografia), in Publico on-line

Carlos Graça, director da unidade da ACT que fiscaliza o trabalho agrícola na zona de Odemira, diz que os fenómenos de exploração laboral agravados pela entrada em cena das empresas intermediárias, prestadoras de serviço, estão presentes em muitas outras partes do país.

Na unidade da ACT do Litoral e Baixo Alentejo, que dirige, tem uma equipa de 15 inspectores. Como são realizadas as inspecções?
De várias formas e em várias perspectivas. O concelho de Odemira é o maior do país mas estes fenómenos circunscrevem-se a três freguesias do concelho. Temos fenómenos idênticos em todo o distrito de Beja, em toda a zona de intervenção da Unidade Local do Litoral e Baixo Alentejo, porque mesmo em Tróia, Alcácer do Sal, existem estes mesmos fenómenos. A única diferença é a concentração. Em Odemira temos uma concentração que chegará a atingir 15 mil pessoas. Em regra, não desencadeamos acções com cariz mais musculado, verificador da conformidade sem desenvolvermos acções com cariz pedagógico, informador, e isso foi feito, nos últimos anos. Em 2021, a inspecção desenvolveu uma acção pedagógica, no âmbito da pandemia. Mas em Maio, como uma parte significativa não estava a cumprir, começámos a desenvolver uma actuação muito mais objectiva. Em articulação com o SEF, a GNR, o Ministério da Saúde, a Segurança Social e, outras vezes, o ACT sozinho. Passámos a desenvolver uma acção de verificação e de controlo muito mais efectiva.

Como se faz essa verificação mais efectiva?
Nós direccionamos a actuação para a identificação das pessoas e para a verificação das suas condições de trabalho. Para isso, são necessárias acções conjuntas, nomeadamente com a GNR, com uma actuação muito mais musculada. O campo é todo circunscrito, os trabalhadores são trazidos a um ponto central, onde são identificados comprovadamente através de documentos. Temos a percepção in loco do contacto com os trabalhadores dos problemas que os afectam nas suas relações de trabalho, das suas questões sociais, e de alojamento.

Mas muitas vezes, as inspecções são realizadas sem que os trabalhadores sejam ouvidos. Porquê?
Quando é necessário, os trabalhadores são ouvidos em declarações. Ouvimo-los em declarações.

E confirmam as irregularidades ou têm medo de represálias?
Não temos dúvidas de que os trabalhadores estão muitas vezes condicionados e principalmente os que estão ao serviço de prestadores de serviços, não aqueles que têm contratos directos com as empresas agrícolas. Se não usamos tradutores, é quase impossível, e mesmo quando usamos tradutores, eles fecham-se. A condicionante é constante – até porque as represálias não se exercem só sobre eles. Exercem-se muitas vezes, infelizmente, sobre os familiares que estão no país de origem. Tivemos o caso de uma pessoa que era preciso levar para uma casa-abrigo em Lisboa. Ela estava em risco, mas não queria ir, porque dizia que se fosse embora, iriam matar o pai e a mãe no país de origem. E há uns anos tive conhecimento do caso de um trabalhador a quem ameaçaram matar a filha. E mataram mesmo.

Num caso desses, o que pode fazer a ACT de imediato?
Articula com as forças, com os órgãos de polícia criminal (OPC). A ACT age nos limites das competências que tem. Quando entramos em matéria crime, articulamos com os OPC [GNR, PJ ou outros]. Temos canais privilegiados. Eu dou conhecimento da situação. Isto é uma constante, e não é só em Odemira. Passa-se em todo o Alentejo e transversalmente mesmo em todo o país. Eu já actuei em Santarém e tive casos similares, também no Algarve, em toda a zona costeira a norte de Lisboa, Torres Vedras, e agora até mais a norte, até Bragança. O modus actuandi é o mesmo: atrás e em torno deste processo produtivo, há redes que são autênticas redes mafiosas e que utilizam a mão-de-obra, que trazem para Portugal com fins que não são lícitos e têm o objectivo de explorar o trabalhador. Não é o El Dorado que ele sonhava mas mesmo assim é bom, por ingrato e por quase macabro que seja dizer ainda acaba por ser muito bom para ele, comparativamente à situação que tinha no país de origem.

"Em 2021, a inspecção desenvolveu uma acção pedagógica no âmbito da pandemia. Mas em Maio, como uma parte significativa não estava a cumprir, começámos a desenvolver uma actuação muito mais objectiva."

Qual o tipo de empresa que recorre a esses prestadores de serviços?
Os agricultores muitas vezes têm que recorrer a essas empresas prestadoras de serviços porque não têm alternativas [para continuar a colher o fruto no momento certo em que este está apetecível e para não haver desperdício]. São agricultores com estruturas muito débeis, não têm quase ninguém como trabalhadores directos e contratam, só nas alturas em que precisam, os prestadores de serviços [que lhes colocam os trabalhadores nos campos]. Estas estruturas até aos 10 hectares correspondem a pelo menos 60% do total dos campos. Assim acabam por beneficiar de uma mão-de-obra substancialmente mais barata graças às prestadoras de serviços. Por trás destas, normalmente, estão redes que nem estão no nosso país.

Como é possível actuarem de forma generalizada, como diz, e há tanto tempo em Portugal?
Estas empresas desaparecem e voltam a aparecer com outro nome quando começam a ser investigadas. Acabam por ser extintas administrativamente nas conservatórias nacionais. Desaparecem num dia, porque deixam de operar, mas logo a seguir uma nova empresa é criada com outro nome. São as empresas unipessoais. Por outro lado, antes da alteração à lei da imigração de 2007, com a introdução do artigo 88, os processos de admissão e recrutamento dos trabalhadores estrangeiros eram feitos de uma forma totalmente diferente. Os pedidos eram apresentados através do IEFP [Instituto do Emprego e Formação Profissional], eram tramitados com a nossa articulação e, por conseguinte, as pessoas quando vinham para Portugal já vinham com um visto de trabalho. A alteração teve a melhor das intenções, veio facilitar a regularização desses trabalhadores com base numa norma de excepção – o artigo 88 da lei de estrangeiros. O objectivo é extraordinário, é digno, mas veio facilitar a existência destes prestadores de serviços. O trabalhador acaba por ser legalizado passados três ou quatro anos. E nós precisamos deles. Eles são cruciais para o país. Temos que ter isso presente. E são vítimas de toda uma rede que está por detrás disso.

Os trabalhadores contratados directamente pelas empresas agrícolas também se sentem condicionados quando ouvidos pelos inspectores no âmbito de um processo?
Pode haver casos desses em que os inspectores também têm a percepção de que o trabalhador se sente pressionado mas não tem nada a ver com aquilo que nós sentimos nas empresas intermediárias.​

"Estas estruturas até aos 10 hectares correspondem a pelo menos 60% do total dos campos. Beneficiam de uma mão-de-obra substancialmente mais barata graças às prestadoras de serviços"


25.2.22

“Nós, ucranianos, temos de manter as portas abertas. Vamos pedir aos portugueses que também o façam”

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Padre ortodoxo Ivan Buhakov desdobra-se em contactos com padres católicos, que já estão a fazer um levantamento de espaços. Dá o exemplo de seminários e santas casas da misericórdia. Julga que será preciso envolver também famílias que possam acolher refugiados nas suas casas ou emprestar segundas casas

O padre ortodoxo Ivan Buhakov esteve esta quinta-feira duas vezes a protestar em frente ao Consulado da Rússia no Porto contra a invasão da Ucrânia. E estará esta sexta-feira outra vez, em frente à Câmara do Porto. “Queremos chamar a atenção de todos. O que se está a passar é uma surpresa grande, uma surpresa feia.”

Congratula-se com a atitude do Governo português, que depressa se mostrou solidário com os ucranianos. “Contarão com toda a nossa solidariedade”, disse o primeiro-ministro António Costa. “Têm sido muito bem-vindos a Portugal. E a sua família, amigos e conhecidos que queiram procurar a segurança e o destino para dar continuidade às suas vidas são também muito bem-vindos.

Desde que a guerra rebentou, na madrugada de quinta-feira, há gente a dirigir-se para as fronteiras terrestres da Ucrânia com a União Europeia. “Vai chegar muita mais gente aqui”, prevê Buhakov. “Nós, ucranianos, temos de manter as nossas portas abertas. Vamos pedir aos portugueses que também o façam.”

“Vamos precisar de muita coisa. Ambulâncias, medicamentos, comida, dinheiro” Padre ortodoxo Ivan Buhakov

Desdobra-se em contactos com padres católicos, que já estão a fazer um levantamento de espaços. Dá o exemplo de seminários e santas casas da misericórdia. Julga que será preciso envolver também famílias, que possam acolham refugiados nas suas casas ou emprestar segundas casas. Ainda antes, urge organizar meios de transporte para ir às fronteiras resgatar pessoas que estão a cruzá-las.

A guerra, para Buhakov, é muito concreta. É natural de Ternopil, uma cidade do oeste da Ucrânia, às margens do rio Seret. A mãe e a irmã, que é professora, já lá estavam. O cunhado e a sobrinha, porém, encontravam-se em Kiev. Puseram-se em fuga, de carro, às 8h e ao cair da noite ainda não tinham chegado a casa.

O cunhado e a sobrinha estariam bloqueados na estrada. A irmã evitava telefonar-lhes para que não ficassem sem bateria. Ao ir para a segunda manifestação de quinta-feira, Buhakov questionava-se se estariam bem ou entre os feridos ou mortos de que se falava nas notícias. Haveriam de entrar em casa, sãos e salvos, às 5h desta sexta-feira.
“Estamos muito preocupados”

“Estamos muito preocupados”, confessava o padre. “Vladimir Putin quer destruir tudo. Parece que quer acabar com os ucranianos. Há receio de que tome conta da produção de electricidade. Podem deixar o país sem luz.”

A manifestação da manhã fora muito improvisada. “Foram umas 20 e tal pessoas. Estava marcada para as 11h. A polícia chamou a atenção porque não havia autorização, mas não mandou ninguém embora. Eu cheguei pelas 12h. Algumas pessoas já se tinham ido embora. Estivemos lá quase até às 13h.”

No novo protesto, agendado para as 18h30 no mesmo local simbólico, na Avenida da Boavista, juntaram-se “umas 200 pessoas”. Mulheres, homens, crianças, com bandeiras e cartazes, a reclamar a paz, a exigir que o Presidente da Federação Russa ordenasse uma retirada, a cantar o hino da Ucrânia.

“Fiz uma homilia, orações, em português e ucraniano”, resumia, já na manhã deesta sexta. Ficou surpreendido com a quantidade de jovens que ali viu. “Há pessoas que vão deixar aqui a emigração e que vão para a guerra. Não podemos deixar que isto aconteça ao país.”

Outros protestos haverá no Porto. O desta sexta-feira, pelas 18h30, será junto à câmara municipal. “Já está marcada para sábado uma missa, numa igreja grande, a Igreja do Marquês, pelas 21h. Vamos juntar portugueses e ucranianos em oração.”

Parece-lhe importante começar a pensar em angariar fundos para ajudar quem vai chegar, mas também quem lá vai continuar. “Vamos precisar de muita coisa. Ambulâncias, medicamentos, comida, dinheiro.” No terreno, já há organizações sem fins lucrativos a agir. Recolhem e distribuem doações, alimentos e suprimentos médicos a ucranianos deslocados dentro do próprio país e apoiam feridos e familiares de mortos, como a Cruz Vermelha, a People in Need e a Sunflower of Peace.

Esta sexta-feira, a família de Buhakov prepara-se para o pior. A irmã está a improvisar um abrigo na garagem para amigos de Kiev. E a fazer comida abundante para e eventualidade de ficarem sem luz. Nem só os combustíveis estão já a ser racionados. “Só pode comprar o pão para o dia. São quatro pães por dia”, exemplifica. O que mais assusta é a possibilidade de ataques aéreos.


22.2.22

Imigrantes nas estufas do Alentejo assumem luta por trabalho mais digno

Ana Dias Cordeiro (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia), in Público on-line

As más condições de trabalho nas explorações agrícolas em Odemira não são uma novidade . “A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram pedir explicações à administração, no fim da jornada de trabalho. Foram em grupo, ordeiramente, num movimento espontâneo”, diz Alberto Matos, da Solidariedade Imigrante “Isto cria pressão.”

Estar vigilante tornou-se parte da natureza —​ e da condição — de Birat Khatri. Cinco anos a trabalhar nas estufas da empresa Sudoberry, no litoral alentejano, mostraram a este nepalês de 32 anos que há várias formas de silenciar os imigrantes que chegam desejosos de trabalho a Portugal, mas sem nenhum conhecimento da língua, das leis do trabalho ou dos seus direitos individuais.

São formas difusas de intimidação; e de tal forma enraizadas que, só muito recentemente, Birat começou a fazer-lhes face. Passam-se meses, ou anos, em que não se ouve uma queixa.

Em 2021, as más condições em que imigrantes trabalhavam ou estavam alojados, nas próprias instalações de algumas grandes empresas, motivaram reacções quando um surto de covid-19 entre os trabalhadores trouxe a realidade laboral em Odemira para as primeiras páginas dos jornais.

Neste mês, foi diferente. As queixas fizeram-se ouvir pelos próprios trabalhadores. “O copo encheu”, como dirá o representante da Solidariedade Imigrante em Beja, Alberto Matos, que conheceu Birat esta semana.

No dia 11 de Janeiro, no final da jornada de trabalho, Birat Khatri e largas dezenas de trabalhadores dirigiram-se aos escritórios da empresa para falar com a administração. O movimento ganhou força pela visibilidade dada por uma reportagem da SIC (a estação que esteve no local refere 300 manifestantes).

Ao falarem para a câmara, tanto Birat como a Pramila Bamjan, de 35 anos, tornaram a sua revolta pública e, sem medo, colocaram as suas queixas na agenda da Sudoberry, no centro das preocupações da associação Solidariedade Imigrante e no foco das prioridades da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). De forma assertiva, denunciaram o contrato “pouco transparente” o que, quanto a eles, abre a porta a abusos.

Nesse protesto pacífico, em movimento compacto, quiseram perguntar por que motivo, para as mesmas horas de trabalho, receberam uma menor quantia no mês de Janeiro; entre 200 e 400 euros a menos consoante os casos.

Um imposto sem explicação

Birat, Pramila, Robin Thapa e Urmila Bamjan contam que a empresa justificou com algo que estaria fora do seu alcance: a suposta aplicação de um imposto novo decidido pelo Governo português, dizem ao PÚBLICO. “Foi isso que nos foi transmitido”, insiste Birat. “Mas nós não sabemos se isso é verdade, não sabemos de que imposto se trata, continuamos à espera de uma explicação”, completa Pramila.

Para Alberto Matos, dirigente da Associação Solidariedade Imigrante e representante desta associação de defesa dos direitos dos imigrantes na delegação em Beja, “este foi mais um problema de uma situação sistemática” criada por “abusos sobre os direitos dos trabalhadores que esta e outras empresas consideram estar na sua dependência”.

“A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram ao escritório da administração, pedir explicações, no fim da jornada de trabalho. Foram em grupo, ordeiramente, num movimento espontâneo”, diz Alberto Matos. “Isto cria pressão.”

A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram ao escritório da administração, pedir explicações, no fim da jornada de trabalho. Foram em grupo, ordeiramente, num movimento espontâneo Alberto Matos, Solidariedade Imigrante

“É importante sermos nós a luta pelos nossos direitos”, diz ao PÚBLICO Pramila Bamjan, de 35 anos. Também por isso, a sua irmã mais velha Urmila Bamjan e o amigo Robin Thapa juntaram-se neste projecto. “Nesta luta, devemos ser como uma família”, acrescenta. São queixas por “excesso de horas de trabalho sem contrapartidas financeiras”, “com pausa de apenas 30 minutos” em cada jornada completa de trabalho.

Os trabalhadores sentem-se igualmente injustiçados por nunca lhes ter sido explicado como são contabilizadas as horas; e quando calculados os totais, não percebem por que são retiradas quantias (apresentadas como subsídios de vários tipos) aos 6,22 euros que o trabalhador julgava ser o valor líquido a receber por hora. Enquanto descrevem a situação, comprovam o que dizem mostrando os recibos de vencimento.

“Não podemos confiar em ninguém”, diz outro trabalhador que pede para não ser identificado. “São eles que decidem se nós temos trabalho ou não, e eu preciso deste trabalho. Viemos para trabalhar e trabalhamos para ganhar dinheiro. O problema é vermos o total do vencimento reduzido sem qualquer explicação, como aconteceu em Janeiro. Sentimos que não querem saber de nós.”
Mais depressa, mais depressa

O contrato prevê um horário flexível, em que o trabalhador é convocado de véspera. Da mesma forma, pode ser dispensado, se a mensagem pretendida pelo patrão for de penalização ou intimidação. Além de tudo isto, aquilo que mais perturba alguns dos manifestantes do dia 11 de Fevereiro, em frente à própria empresa, é “a permanente pressão psicológica”.

“Querem que a gente ande cada vez mais depressa, a colher as bagas com movimentos dos braços sem parar. Estão em cima de nós, a gritar: ‘Mais depressa, mais depressa’”, diz Robin Thapa, também nepalês, disposto a protestar.

“É muito duro. Estamos a trabalhar num ambiente quente, dentro das estufas, e só podemos beber a água que trazemos de casa. Às vezes por mais de oito ou 10 horas”, diz Pramila. “Se bebemos toda a que trazemos, pedimos, mas eles não nos dão, recusam. Se protestamos, chegam a mandar-nos para casa”, salienta Pramila. “A pressão psicológica faz-nos mal.”

Quem não cumpre o objectivo de encher um determinado número de caixas numa hora, ou percorrer uma determinada distância nesse mesmo intervalo, sem deixar uma só baga na árvore, é dispensado para o resto do dia, e no seguinte, segundo os testemunhos de vários trabalhadores. “Alguns colegas têm medo de falar, mas eu não aceito estas condições, não tenho medo de falar. Sei que posso perder o trabalho”, continua Pramila.

Birat identifica uma dependência, mas nos dois sentidos. “A empresa precisa de nós. Os portugueses não aceitam estes trabalhos, nem a maioria dos imigrantes.”

De acordo com os dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, conhecidos ontem, no ano passado foram atribuídas autorizações de residência sobretudo a cidadãos indianos, brasileiros, nepaleses, italianos, franceses e alemães. Além disso, os nepaleses e os indianos surgem em segundo e terceiro lugares, logo a seguir aos brasileiros, na lista das nacionalidades com mais autorizações de residência para exercício da actividade profissional.

Num dos contratos assinados pelo empregado e empregador, e que o PÚBLICO leu, está expresso que, no caso de trabalho acima do máximo diário de oito horas, “o trabalhador terá direito a compensação”. As horas extras são apresentadas como “eventual trabalho prestado em acréscimo”, e que essa compensação pode ser na forma de uma redução de trabalho ou “mediante o pagamento em dinheiro” das horas extra.

Oportunidade para juntar dinheiro

Estar na apanha da fruta dez ou 12 horas seguidas, na época alta entre Março e Julho, pode ser visto por alguns como algo positivo, uma forma de juntar mais dinheiro em pouco tempo, para enviar para a família no Nepal ou na Índia, ou para garantir meios para os meses de Inverno em que não há muito — ou mesmo nenhum — trabalho. São os meses de Outubro a Dezembro.

“Alguns não se queixam que são demasiadas horas porque provavelmente estão nessa lógica de ganhar mais dinheiro. O que não pode acontecer é que, nessas circunstâncias, o trabalho não seja mais bem pago”, diz Alberto Matos.

Pramila vem de Sarlahi, no Nepal, já trabalhou na Holanda, e reconhece aqui “um tratamento inaceitável”. Além das horas extraordinárias e dos feriados pagos de forma não diferenciada, lamenta a situação de um colega que quando partiu o braço a trabalhar, a empresa não accionou o seguro por acidente de trabalho; antes, exortou-o a apresentar a situação como um acidente doméstico, obrigando-o a meter uma baixa.

Os objectivos definidos pela empresa são conhecidos de todos mas, por vezes, impossíveis, de cumprir. E não constam dos contratos lidos pelo PÚBLICO, como está previsto na lei. Na época alta da framboesa, quem não colhe pelo menos cinco quilos deste fruto em cada hora, é dispensado no momento, fica com a jornada de trabalho reduzida a uma hora, ou poucas mais, faz o percurso de vários quilómetros a pé para casa, e não é chamado a trabalhar no dia seguinte. Quem completa o dia, tem transporte para casa.
Empresa indisponível

Contactada pelo PÚBLICO, a Sudoberry não esclareceu as dúvidas sobre a quantia retirada aos trabalhadores em Janeiro nem se queixas de pressão psicológica se justificam. A directora dos Recursos Humanos, Mónica Rosendo, não respondeu às perguntas colocadas por escrito e transmitiu não estar disponível por se encontrar em reunião, tanto pelo telefone como num contacto presencial.

Os trabalhadores andam durante anos a pagar os milhares de euros cobrados por quem os trouxe para Portugal aliciando-os com supostas condições de trabalho favoráveis. E as ameaças são reais. É-lhes incutido o medo de falar Alberto Matos, Solidariedade Imigrante

A Sudoberry tem mais de 500 trabalhadores (que chegam aos mil na época alta da Primavera e Verão) e dispõe de dezenas de hectares de plantações. No Alentejo, há pelo menos 130 campos agrícolas, o que justifica que todos os dias esteja no terreno uma equipa da Autoridade para as Condições de Trabalho. A ACT já abriu um processo de averiguações a esta empresa, como já fez no passado a outras.

No centro de São Teotónio, numa conversa informal sobre as condições de trabalho, “Routine Stars” surge como um exemplo de uma agência de emprego temporário a que alguns prefeririam não estar ligados.

Em silêncio, um jovem de nacionalidade indiana, há pouco tempo em Portugal, escreve o nome numa folha, indica Malavado como local da empresa, e não responde a mais nenhuma pergunta. Com um sorriso aberto, nega ter medo de falar. “Não, não, não”, diz em inglês antes de abandonar a conversa para não mais voltar.

Na Internet, esta agência não tem registo de morada. Mas em Malavado, é fácil encontrar a casa com tectos baixos, os vidros de trás partidos, e um pátio, a que todos chamam “o escritório da Routine Stars”, embora sem qualquer indicação.

Aqui, não há qualquer escritório, mas vivem nove pessoas em dois quartos e nenhumas condições de higiene ou conforto. Na mesma aldeia mas numa grande vivenda, vive o dono da “Routine Stars”. Diz o nome — Tilak — mas não o apelido e esquiva-se a perguntas sobre a actividade da firma com vários anos.

Garante que, com ele (que diz estar em Portugal há 20 anos), ninguém foi trazido do Nepal, da Índia ou do Paquistão. “Os meus trabalhadores encontraram-me aqui.” Só trata da regularização dos documentos no SEF, quando os trabalhadores não podem e não cobra nada por isso. Apresenta-se como alguém que ajuda os seus contratados, pagando renda e alimentação, quando eles são dispensados de um dia para o outro.
Gabinetes de apoio

Sabita Karki foi dispensada de um dia para o outro, ao fim de três meses de trabalho. Pensava ter um horizonte, não colhendo fruta por estar grávida, mas empacotando-a — foi o que fez nos últimos meses. Sabita e o marido, Hum Bahadur, estão por isso no Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) de São Teotónio, onde já vieram várias vezes, para pedir aconselhamento.

Este é um dos 120 gabinetes em todo o país pertencentes ao Alto Comissariado para as Migrações, mas “um dos que não têm apoio jurídico”, diz a responsável Tânia Guerreiro. “Quando nos surgem estes casos, encaminhamos directamente para a ACT [Autoridade para as Condições do Trabalho].”

Algumas empresas de emprego temporário funcionam de forma totalmente ilegal e são “as mais ameaçadoras” perante o trabalhador por quem a empresa produtora não se responsabiliza, diz Alberto Matos.

“Nos intermediários, os chamados prestadores de serviços, a situação é pesada”, acrescenta. “Os trabalhadores andam durante anos a pagar os milhares de euros cobrados por quem os trouxe para Portugal aliciando-os com supostas condições de trabalho favoráveis. E as ameaças são reais. É-lhes incutido o medo de falar.”

Com supostas ligações a redes criminosas em países do Sudeste Asiático, continua o representante em Beja da Solidariedade Imigrante, algumas dessas agências mantêm-se m Portugal “para garantir que o dinheiro é cobrado”.

Na Sudoberry, a realidade é distinta, e a contratação é feita directamente com o trabalhador, na maioria dos casos, sobretudo desde que a ACT há uns anos impôs essa condição.

Mesmo assim, quando se pergunta a um dos contratados para colher framboesas, pensando que vinha para uma das melhores na zona em matéria de cumprimento dos direitos laborais, diz: “Nesta empresa? Nunca nada vai melhorar.”

18.2.22

População estrangeira residente em Portugal aumentou outra vez

in Público on-line

Os brasileiros são os mais numerosos, seguidos dos britânicos, cabo-verdianos e indianos. Há mais de 714 mil estrangeiros a morar em Portugal.

A população estrangeira residente em Portugal aumentou em 2021 pelo sexto ano consecutivo.

Dados provisórios do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) indicam que 714.123 cidadãos estrangeiros residiam no país no final do ano passado, mais 7,8% do que em 2020, quando viviam em território nacional 662.095. O aumento da população estrangeira é um fenómeno que se verifica desde 2016, altura em que viviam no país 397.731 pessoas, tendo quase que duplicado em 2021.


Segundo o SEF, foi em 2019 que se verificou o maior aumento de estrangeiros: 22,9%. As nacionalidades mais representadas são as oriundas do Brasil (209.072), seguido do Reino Unido (42.071), Cabo Verde (35.913), Índia (30.995) e Itália (30.887). Apesar disso, as novas autorizações de residência atribuídas a imigrantes em 2021 diminuíram quase 8% face ao ano anterior.

No ano passado foram atribuídas cerca de 109 mil novas autorizações de residência, enquanto no ano anterior tinham sido concedidas 118.124. O SEF avança que os novos títulos emitidos em 2021 foram sobretudo atribuídos a indianos, brasileiros, nepaleses, italianos, franceses e alemães.

Segundo este serviço de segurança, foram concedidas autorizações de residência para exercício de actividade profissional a 13.027 brasileiros, 5.685 indianos e 1.876 nepaleses. Foram também aprovadas concessões de residência a 5.307 italianos, 4.750 franceses e 3.937 alemães.

No âmbito do reagrupamento familiar foram passadas no ano passado 8.482 autorizações de residência a 8.492 brasileiros, 732 angolanos e 572 indianos.

2.2.22

Imigrantes não conseguem trazer famílias. MNE envia missão especial para a Índia para resolver atrasos na embaixada

Joana Gorjão Henriques, in Público on-line

Aumento de imigração da Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka tornou Nova Deli num “dos dez postos diplomáticos que maior número de vistos emite”, afirma Ministério dos Negócios Estrangeiros. Comunidade pondera ir protestar para as ruas.

Vivem em Portugal, já têm autorização de residência e pedido de reunificação familiar aprovado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) mas não conseguem trazer as suas famílias porque a embaixada portuguesa em Nova Deli não emite os vistos. Há famílias que estão a ficar desesperadas. Estas são queixas feitas ao PÚBLICO por Zuber Ahmed, presidente da Associação do Bangladesh no Barreiro, que estima em cerca de 500 o número de pessoas nesta situação.

Contactado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) admite o atraso e afirma que enviou uma missão especial da Direcção de Serviços de Vistos para a embaixada portuguesa em Nova Deli, que iniciaria funções nesta semana, exactamente por causa disso. Segundo o MNE, esta secção teve uma subida do número de pedidos de visto nos últimos anos​ “fruto do aumento da imigração com origem em países desta região asiática coberta pela Embaixada (Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka)”, sendo hoje um “dos 10 postos diplomáticos que maior número de vistos emite”.


Zuber Ahmed diz que há mesmo cerca de 300 pessoas que estão à espera há quase um ano. “Como residentes as pessoas têm direito a trazer a família. Antes da pandemia este processo demorava uma semana, agora é um ano. Isto causa muitos problemas, algumas famílias separaram-se por causa disto”, comenta por telefone. Zuber Ahmed vive em Portugal há seis anos e já tem a família a viver no Barreiro mas tem recebido muitas queixas da sua comunidade sobretudo desde há mais de um mês.

O MNE diz que espera “que dentro de algumas semanas esteja recuperado o atraso que agora se regista no processamento dos pedidos de visto”, e explica que “esta situação ocorreu a par com a eclosão da pandemia, que acarretou constrangimentos na prestação de serviços públicos, tais como a obrigatoriedade de cumprir confinamentos, isolamentos profilácticos, distanciamento social na organização dos serviços, entre outros, o que gerou prazos mais dilatados para processamento dos pedidos”.

Zuber Ahmed admite que a comunidade vá em protesto para as ruas se a situação não melhorar.

28.1.22

SEF investiga 25 casos de exploração laboral ou contratação ilegal no Alentejo

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

Há menos inquéritos do SEF por esses crimes em todo o Alentejo do que em Maio do ano passado, quando eram 32. Jornal The Guardian escreve que “trabalhadores explorados” em Odemira garantem produção de frutos vermelhos vendidos nos melhores supermercados britânicos.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) tem em curso várias investigações na zona de Odemira, que tiveram na sua origem suspeitas de tráfico de pessoas para exploração laboral ou contratação e auxílio à imigração ilegais.

Porém, nenhuma dessas investigações visa qualquer empresa associada da Lusomorango, uma organização de produtores citada numa notícia do The Guardian em que o jornal inglês relata denúncias de exploração laboral recolhidas em Odemira junto de 40 trabalhadores da Índia e do Nepal.

Na notícia, publicada na terça-feira, o Guardian escreve que esta organização de produtores tem, entre os seus associados, pelo menos duas explorações agrícolas referidas pelos trabalhadores estrangeiros ouvidos.

Em respostas ao PÚBLICO, o SEF diz que “nenhuma das investigações [em curso] surge associada a Sociedade Anónima Lusomorango” e acrescenta que “os trabalhadores estrangeiros referenciados [nas investigações] têm vínculo formal laboral a empresas de trabalho temporário, na sua maioria registadas e geridas por outros cidadãos estrangeiros da mesma origem”.

O que significaria que as empresas agrícolas podem contratar através de empresas de trabalho temporário, sendo estas responsabilizadas pelas condições de trabalho e não as empresas que beneficiam da mão-de-obra.

Neste caso específico, ainda não existem indícios suficientes para a abertura de um inquérito, diz o SEF que garante “estar atento a todas as situações que possam configurar a prática de qualquer crime, determinando [nesses casos] a abertura de inquéritos sempre que reunidos os indícios suficientes”.

Em todo o Alentejo, o SEF tem 25 inquéritos-crime em curso (eram 32 em Maio de 2021); desses, oito estão localizados no município de Odemira, no distrito de Beja. Mas apenas dois são relativos a tráfico de pessoas; os restantes seis são por auxílio à imigração ilegal. Igualmente contactada, fonte oficial da Polícia Judiciária não revela quantas investigações por crimes de auxílio à imigração ilegal ou angariação para tráfico de e exploração tinha em curso nesta zona do Alentejo.
Agências intermediárias

O The Guardian diz que, entre Setembro e Novembro de 2021, ouviu homens e mulheres empregados directamente ou através de agências intermediárias em explorações agrícolas em Odemira que não mudaram de empregador por receio de, com isso, colocarem em risco o pedido de autorização de residência em Portugal.

Segundo a investigação do jornal britânico, os imigrantes que seriam mal pagos ou trabalhariam mais horas do que as legalmente permitidas eram trabalhadores de pelo menos três empresas, cujos nomes não são revelados. Estas empresas fornecem frutos vermelhos para supermercados europeus e alguns dos melhores supermercados britânicos, como o Waitrose ou o Marks&Spencer, refere o jornal.

Contrato colectivo

Contactado pelo PÚBLICO, a propósito desta notícia, José Canelas, director-geral da Lusomorango, garante que “os termos dos valores de vencimento, das horas de trabalho” dos “trabalhadores das empresas que integram a Lusomorango estão estabelecidos no contrato colectivo de trabalho”.

O responsável explica que esse contrato é negociado entre a Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur e o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, Floresta, Pesca, Turismo, Indústria Alimentar, Bebidas e Afins, e que está em vigor desde Setembro de 2021 para todos os trabalhadores do sector na região.

Nas mesmas respostas escritas, acrescenta que, entre os cerca de 40 produtores associados à Lusomorango, os que exportam para o mercado internacional estão obrigados a cumprir “os vários processos de auditoria internos e externos, nacionais e internacionais, a que respondem periodicamente como as auditorias no âmbito da GRASP-Global GAP”, uma organização que fiscaliza as condições de trabalho no sector agrícola.



28.10.21

Pandemia faz cair fluxos migratórios para o nível mais baixo desde 2003, segundo OCDE

in Público on-line

Pandemia faz cair fluxos migratórios para o nível mais baixo desde 2003, segundo OCDE

Real impacto nas migrações pode representar decréscimo superior a 40%. Todas as categorias de migração permanente recuaram em 2020, com particular destaque para a migração familiar que registou um declínio de mais de 35%.

E 2020 os fluxos migratórios permanentes para os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) diminuíram mais de 30%, para cerca de 3,7 milhões de pessoas, o nível mais baixo desde 2003, revelou hoje a organização internacional.

Estes indicadores constam na edição de 2021 do relatório International Migration Outlook, elaborado pela OCDE, que avalia os desenvolvimentos mais recentes dos movimentos e políticas migratórias em 40 países, incluindo nos 38 Estados (grande parte também membros da União Europeia) que integram esta instituição fundada na década de 1960.

A OCDE foca que as alterações verificadas no campo das migrações foram impulsionadas principalmente pela pandemia da doença covid-19, lembrando que, entre 2020 e o ano em curso, a maioria dos países-membros impuseram restrições de viagens ou reduziram os serviços de imigração para tentar travar a propagação do novo coronavírus.

A organização, que admite que "o real impacto” da pandemia de covid-19 sobre as entradas da chamada migração permanente no espaço OCDE poderá representar um decréscimo superior a 40%, refere que todas as categorias de migração permanente recuaram em 2020, com um particular destaque para a migração familiar que registou um declínio de mais de 35%.

“A migração laboral temporária também diminuiu drasticamente em 2020: a quantidade de trabalhadores sazonais no sector turístico caiu, em média, 58%, e as transferências interempresas 53%, enquanto o fluxo destes trabalhadores na agricultura diminuiu apenas 9%”, de acordo com o documento.

Num olhar mais pormenorizado sobre a União Europeia (UE), a OCDE indica, citando dados preliminares, que os movimentos (migratórios) dentro do espaço comunitário foram ligeiramente menos afectados, com uma diminuição na ordem dos 17%.

Em relação ao número de novos pedidos de asilo apresentados junto de países da OCDE em 2020, o relatório revela uma diminuição de 31%, “a queda mais acentuada desde o fim da crise dos Balcãs no início dos anos 90”.

Pelo segundo ano consecutivo, a Venezuela foi o principal país de origem dos requerentes de asilo, seguido pelo Afeganistão e pela Síria.

O documento destaca ainda o “impacto muito forte” da crise pandémica nos programas de recolocação e reinstalação de refugiados que, entre 2010 e 2019, permitiram que mais de um milhão de pessoas que precisavam de protecção internacional fossem transferidas para um dos 38 países da OCDE.

“Apenas 34.400 refugiados foram reinstalados em 2020, menos dois terços do que em 2019, o número mais baixo de sempre”, refere o documento.


Pandemia levou à queda acentuada de pedidos de asilo nos países da OCDE

in Público on-line

É a queda mais acentuada desde o fim da crise dos Balcãs no início da década de 1990. Número geral permaneceu acima de qualquer ano anterior a 2014, excepto em 1992.

A pandemia covid-19 levou a uma queda acentuada nos pedidos de asilo em todos os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), incluindo em Portugal onde o número de novos requerimentos diminuiu 48,1% em 2020.

Esta é um dos dados hoje divulgados pela edição de 2021 do relatório International Migration Outlook, que analisa os desenvolvimentos recentes nos movimentos e políticas de migração nos países da OCDE.

Na verdade, refere o relatório, o número de novos pedidos de asilo nos países da OCDE caiu 31% em 2020 e chegaram aos 830 mil. "Isto é a queda mais acentuada desde o fim da crise dos Balcãs no início da década de 1990. No entanto, o número geral permaneceu acima de qualquer ano anterior a 2014, excepto em 1992”, refere o documento hoje divulgado.

Entre os principais países destinatários em 2019, foram o Japão (-62%) e a Coreia (-57%) que registaram as quedas mais fortes em 2020. Portugal figura entre os 10 países da OCDE com menos de 100 requerentes de asilo por milhão de habitantes.

Além da Eslovénia, todos os países da Europa Central e Oriental estão neste grupo, bem como a Nova Zelândia, Portugal, Chile e Japão. Em 2020, o número de primeiros requerentes de asilo em Portugal diminuiu em 48,1%, para chegar a cerca de 900.

Das 400 decisões tomadas em 2020, 22,6% foram positivas. O relatório faz ainda referência ao país da OCDE que maior número de pedidos recebeu: os Estados Unidos.

Em 2020, mais de 250 mil pedidos foram feitos às autoridades dos EUA, uma queda de apenas 17% em relação aos 300 mil em 2019. Mais de três quartos dessas solicitações foram feitas por cidadãos da América Latina e países do Caribe, em particular Guatemala (36 mil), Honduras (31 mil), Venezuela e El Salvador (23 mil cada).

Segue-se a Alemanha com 103 mil requerentes de asilo em 2020. Os pedidos de asilo de cidadãos sírios na Alemanha diminuíram apenas ligeiramente (-7%) e os do Afeganistão aumentaram 4%.

A Espanha ficou pela primeira vez entre os três primeiros países de destino da OCDE ao ter recebido mais de 86 mil pedidos de asilo.

Quase nove em cada 10 requerentes de asilo em Espanha são da América Latina e do Caribe, principalmente Venezuela e Colômbia.

Em termos de número de pedidos de asilo, segue-se a França com 82 mil. O relatório revela ainda que seis países tiveram mais de 20 mil pedidos em 2020: México (41.200), a Grécia (37.900), Reino Unido (36.000), Turquia (31.300), Itália (21.200) e a Costa Rica (21.100).

De acordo com o relatório a crise COVID-19 causou também a mais acentuada queda já registada nos fluxos de migração para a OCDE, de mais de 30%. Os fluxos de migração humanitária também foram gravemente afetados, em particular para os Estados Unidos e Canadá.

A OCDE é uma organização internacional composta por 38 países da América do Norte e do Sul, da Europa e da Ásia-Pacífico.

Compõem a organização a Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Japão, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, México, Noruega, Nova Zelândia, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, Chéquia, Suécia, Suíça e Turquia.

8.6.21

Videoconferência sobre “A Imigração – A Experiência da Andaluzia: Reflexões e Ensinamentos”

Ana E. de Freitas, in Rádio Voz da Planície

No âmbito das atividades do Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal é realizada hoje a Oficina de Prática e Conhecimento sobre a problemática da imigração. Partilhar conhecimentos sobre a Fundação CEPAIM enquanto organização independente, coesa e sustentável que dá respostas à dinâmica social relacionada com processos de imigração e exclusão social na Andaluzia é o objetivo.

“Um dos objetivos de intervenção da EAPN Portugal é o de capacitar o tecido sócio institucional nos domínios específicos da luta contra a pobreza e exclusão social” e é neste contexto que realiza, hoje, das 15.00 horas às 17.00 horas, a Videoconferência sobre “A Imigração – A experiência da Andaluzia: Reflexões e Ensinamentos”, com Javier Pérez Cepero |Coordinador Autonómico para Andalucía y Ceuta |Fundación Cepaim, destinada aos profissionais de intervenção social e comunitária e sociedade civil em geral.