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13.6.22

Parlamento Europeu pronto para apoiar plano de corte de emissões para pôr fim à dependência energética da Rússia

Rita Siza, in Público

Pacote legislativo “Fit for 55” foi desenhado para assegurar que a UE atinge a neutralidade climática, mas com a guerra na Ucrânia ganhou uma nova dimensão geopolítica.

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia veio dar um novo impulso político para a aprovação dos planos para a substituição do uso de combustíveis fósseis pelas energias renováveis e limpas que a União Europeia já tinha posto em marcha para reduzir as emissões de CO2 em pelo menos 55% até ao fim desta década, e atingir a neutralidade climática em 2050, que foram fixadas em lei durante a presidência portuguesa do Conselho da UE.

“É o único caminho para travar o aumento acelerado da temperatura na nossa casa comum, o planeta terra”, argumentou o eurodeputado socialista, Manuel Pizarro, numa intervenção durante o debate de mais de cinco horas no plenário de Estrasburgo das primeiras oito das 13 propostas do vasto pacote legislativo conhecido pelo nome de “Fit for 55”, que serão votadas (e na ausência de uma surpresa de última hora, aprovadas) pelo Parlamento Europeu, esta quarta-feira.

A urgência da transição energética, em resposta ao desafio geopolítico representado pela agressão da Rússia, ficou patente nas sucessivas declarações dos eurodeputados, que salientaram a necessidade de “fazer ajustamentos” e de “acelerar” as medidas que vão permitir pôr fim à dependência energética da Rússia. “Nesta hora difícil de guerra na Europa, deve-se contribuir para a nossa autonomia estratégica, e maior eficiência energética e maior uso de energias renováveis significam menor dependência de combustíveis fósseis”, observou Manuel Pizarro.


A proposta de fixação de novos standards para as emissões automóveis, que na prática determina o fim dos motores de combustão, é a que desperta mais interesse do público, mas entre os textos legislativos há outros com um impacto mais significativo no mercado europeu do carbono, nomeadamente a reforma do sistema de comércio de licenças de emissões (ETS, na sigla em inglês), que prevê o seu alargamento ao sector da aviação e do transporte marítimo — que como assinalou o eurodeputado alemão do Partido Popular Europeu, Peter Liese, “queima os combustíveis mais poluentes” mas até agora não estava sujeito às regras que se aplicam aos sectores da energia e electricidade.

“Com este pacote, estamos a quadruplicar os nossos esforços, e inclusive a ir mais longe do que isso, pois o nosso objectivo é conseguir reduzir mais de 60% das nossas emissões em oito anos”, apontou, referindo-se à meta da revisão do funcionamento do ETS e também à criação de um novo sistema paralelo para os edifícios e o transporte rodoviário.

Neste caso, a proposta do Parlamento Europeu é substancialmente diferente daquela que a Comissão apresentou: os eurodeputados isentam os consumidores individuais de aquecimento ou de gasolina do pagamento da taxa sobre o carbono, e deixam nas mãos dos Estados-membros a responsabilidade de introduzir as medidas necessárias para a redução da pegada carbónica da construção e do tráfego rodoviário, também no âmbito do regulamento que fixa a “partilha de esforço” para a redução das emissões em todos os sectores de actividade.

Liese, que foi o relator da proposta para a reforma do ETS, lembrou que no dia em que a Comissão apresentou o pacote global do “Fit for 55”, mais de 130 pessoas morreram afogadas em cheias de proporções inéditas que atingiram a Alemanha e a Bélgica. “Estamos a ser confrontados com secas extremas e com vagas de calor, Estamos a ver pessoas a sofrer e a morrer no centro da Europa”, disse, sublinhando que “o aquecimento global não é um problema de pequenas ilhas e de ursos polares, é um problema de todos, que será impossível de resolver se não agirmos já”.

Uma das acções mais imediatas — com um reflexo muito visível no quotidiano dos europeus — passa pela redução das emissões que resultam do transporte rodoviário, e que representam 20% do total da UE. Para isso, o Parlamento Europeu propõe fixar novos standards para as emissões automóveis em 2025 e 2030, e proibir o lançamento no mercado de veículos que emitam CO2 e outros poluentes a partir de 2035.

A proposta reuniu uma curta maioria na sua aprovação em comissão, e a votação em plenário deverá ser novamente à justa. Mas o seu relator, o holandês Jan Huitema, do grupo liberal Renovar a Europa, está confiante que será aprovada, dados os “benefícios” para o ambiente e para o consumidor, em termos de custos. “Neste momento, já é muito mais barato abastecer um veículo eléctrico do que um carro a gasolina, e também os custos de manutenção são mais baixos”, notou.

Para já, ainda é mais caro comprar um carro eléctrico do que um carro a gasolina ou diesel, mas a expectativa de Huitema é que esse “problema” fique resolvido com a aprovação da lei, que não só estimulará a inovação dos construtores automóveis, “que terão mais clareza para poder produzir carros de emissões zero melhores e mais baratos”, como ainda abrirá espaço para um mercado de segunda mão. “Estes veículos vão deixar de ser apenas para os ricos e vão passar a estar disponíveis para toda a gente”, acredita.

A criação de um novo Mecanismo de Ajustamento de Carbono nas Fronteiras (que ficou conhecido como CBAM) é importante como medida ambiental, mas foi também reclamada pelos eurodeputados como um novo recurso próprio do orçamento comunitário: será uma das novas fontes de receita que permitirá aos 27 sustentar os pagamentos dos empréstimos contraídos para constituir o fundo de recuperação “Próxima Geração UE”, no valor de 750 mil milhões de euros.

O eurodeputado do PS, Carlos Zorrinho, que foi o relator sombra da proposta, descreveu o CBAM como um “instrumento fundamental para promover e apoiar a agenda de descarbonização da indústria europeia, incentivando em simultâneo dinâmicas de transformação e inovação que a conduzam a patamares mais elevados de sustentabilidade e competitividade”. Zorrinho espera que a introdução do CBAM “permita ainda incentivar a adopção de boas práticas ambientais noutras zonas do globo”.

Novo fundo elogiado

Também com repercussões orçamentais, a proposta para a criação de um novo Fundo Social de Acção Climática foi genericamente elogiada pelos eurodeputados, que introduziram na legislação novas definições de pobreza energética ou de mobilidade, para facilitar a distribuição das verbas aos grupos mais vulneráveis à subida dos preços da energia ou às deficiências das redes de transportes públicos. “Com este fundo, milhões de euros de investimentos vão chegar aos cidadãos de toda a Europa que estão confrontados com os desafios das alterações climáticas e com o esforço de reduzir as emissões e de acabarmos com a dependência da Rússia”, salientou o relator David Casa, do PPE.

Porém, os parlamentares defenderam um envelope financeiro superior aos 70 mil milhões de euros previstos pela Comissão. “A transição [energética] pode no imediato afectar negativamente a vida de muitas famílias e muitas empresas, é essencial por isso criar o Fundo Social para a Acção Climática, apoiando financeiramente as famílias e o seu consumo energético, diminuindo os gastos com o transporte público e ajudando as PME. Precisamos que esse fundo tenha uma muito maior dotação financeira, porque a transição climática tem que ser socialmente justa”, afirmou Manuel Pizarro.

A comunista Sandra Pereira também considerou que o valor proposto para o novo fundo é “claramente insuficiente”. A eurodeputada contestou a “metodologia de cálculo da dotação financeira, que prejudica singularmente um Estado-membro: Portugal, que é o único país cujo rendimento nacional bruto per capita é inferior a 90% da média da UE, que terá uma alocação da percentagem total do fundo inferior percentagem da respectiva população no conjunto dos 27. É uma discriminação injustificável que urge corrigir”, reclamou.

A contrastar com o apoio da larga maioria do Parlamento Europeu ao “Fit for 55”, destacou-se a bancada da extrema-direita, que rejeitou todas as propostas apresentadas pela Comissão Europeia e vai votar contra todos os textos acordados pelos eurodeputados nas diferentes comissões.

Já o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), dominado pelos polacos do PiS, diz que concorda com o objectivo da transição energética mas opõe-se às propostas do “Fit for 55” que, nas palavras da eurodepurada Beata Szydlo, “implica enormes custos sociais e económicos”. “Precisamos de reformar o sector da energia, mas este plano só vai aprofundar a pobreza energética e reduzir a competitividade das nossas empresas. Não devemos avançar com medidas que vão além das nossas capacidades, tendo em conta o actual contexto de guerra na Ucrânia”, entende.

9.3.22

Governo lança plataforma para quem chega da Ucrânia e para quem quer ajudar. SEF aceitou 4039 pedidos de protecção

Joana Gorjão Henriques, in Público on-line

Governo lança plataforma para quem chega da Ucrânia e para quem quer ajudar. SEF aceitou 4039 pedidos de protecção

Plataforma tem perguntas e respostas sobre várias áreas, da documentação aos transportes, passando pela saúde e educação, tanto para quem quer vir como para quem quer ajudar.

Desde que há duas semanas começou a invasão russa à Ucrânia, todos os dias surgem notícias com novos apoios em Portugal a refugiados: autarquias que se disponibilizam a resgatar pessoas levando autocarros, gente da sociedade civil que oferece casa, apoios governamentais à legalização, à saúde e ao emprego.

São dezenas as acções anunciadas. Para juntar todas essas respostas, o Governo acaba de lançar a plataforma Portugal for Ukraine, disponível no endereço PortugalforUkraine.gov.pt, que congrega “todas as respostas e acções em curso, tendo em vista o apoio a pessoas deslocadas da Ucrânia, dentro e fora de Portugal”. Do envio de apoio humanitário à “integração e acolhimento” em Portugal, são várias as informações disponíveis, numa espécie de manual que tem contactos que disponibilizam apoio para quem vem para Portugal no que respeita ao transporte, documentação, emprego e formação, educação, saúde e habitação.

Dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras mostram que já foram aceites 4039 pedidos de protecção por causa da guerra, a maioria de ucranianos.

A plataforma inclui ainda questões para quem quer apoiar quem foge da guerra nas várias áreas, da habitação ao emprego.

Saí da Ucrânia e preciso de transporte para vir para Portugal, quem devo contactar? Cheguei a Portugal sem recursos e ainda não tenho emprego, não tenho meios para pagar habitação, onde posso solicitar apoio? A que cuidados de saúde tenho direito? Tenho alojamento disponível e quero disponibilizar apoio, quem devo contactar? Preciso de inscrever os meus filhos na escola, é possível fazê-lo de imediato?

Estas são algumas das várias questões da secção de perguntas frequentes — muitas delas dão resposta ou reenviam para o email de contacto sosucrania@acm.gov.pt. Estão divididas em capítulos: saída da Ucrânia; documentação – título de protecção temporária; emprego; aprendizagem da Língua Portuguesa; saúde; alojamento/habitação; apoio social; associações representativas de pessoas ucranianas; educação; voluntariado; tradução.

O comunicado informa que a plataforma vai permitir a consulta das várias iniciativas do Governo com responsabilidade na área de “acolhimento e integração”. Por enquanto, ainda só está disponível em português e inglês, mas deve, “nos próximos dias”, “existir igualmente uma versão em ucraniano”.

Da sociedade civil surgiu logo dias depois do início da guerra a plataforma We help Ukraine, criada por impulso de um casal, Kateryna Shepeliuk, 31 anos, e David Carvalhão, 43, com ajuda de Hugo Sousa, e que faz matching entre procura e oferta de ajudas.

28.2.22

Preço do gás natural sobe 26% e petróleo agrava valorização

Rosa Soares e com agências, in Público on-line

Os contratos de futuros do Brent segue a subir 5,03%, para quase 103 dólares por barril. E as bolsas europeias voltaram a negociar em queda.

A subida dos preços de energia é uma das consequências directas para a economia europeia decorrentes da invasão russa na Ucrânia e das sanções impostas à Rússia pela União Europeia e outros países.

O gás natural TTF (Title Transfer Facility) para entrega em Março subiu, esta segunda-feira, 26% para 115 euros por megawatt/hora (MWh). O preço do gás natural havia disparado 30% na sequência dos desenvolvimentos iniciais na fronteira ucraniana e esta valorização acentuada explica-se pelo facto de a Rússia ser o principal exportador de gás natural da Europa.

Também as cotações do petróleo estão em forte subida e nem o arranque de negociações para a paz está a travar a subida. Depois de uma subida de 4%, o Brent, a referência para a Europa, subia 5% às 11h20, para 102,90 dólares por barril, o que corresponde a um máximo desde 2012. Já o crude WTI, que é referência para os Estados Unidos, também seguia a agravar a subida para 5%, negociando nos 96,20 dólares.

As bolsas europeias continuam a negociar em queda, com as maiores desvalorizações a acontecer na praça de Paris (-2,86%), mas também na alemã (-2,20%), ou na de Londres (-1,1%).

A bolsa de Lisboa apresenta a menor queda europeia, a cair 0,17%, depois de ter iniciado a sessão a perde 1,7%.

A queda das bolsas europeias é explicada pela exposição de alguns bancos europeus à Rússia, pelo impacto da retirada de bancos russos do sistema Swift, plataforma electrónica de transacções financeiras mundiais, e ainda na sequência dos problemas de bancos russos presentes na Europa.

O Banco Central Europeu (BCE) alertou, nesta segunda-feira, que o Sberbank Europe, uma unidade do Grupo Sberbank SBER.MM da Rússia, e duas outras subsidiárias sob sua supervisão, “estão falidas ou na iminência de falir”.

Também a Autoridade do Mercado Financeiro da Áustria avançou com medidas em relação ao Sberbank Europ, nomeadamente a limitação de levantamentos a 100 euros por dia, por cliente, e ainda a suspensão de transferência e pagamentos.

A Deutsche Boerse, a gestora da bolsa alemã, anunciou a suspensão da negociação de vários títulos de empresas russas com efeito imediato, entre eles o VTB Bank VTBR.MM e o Sberbank.

Na Rússia, a Bolsa de Valores de Moscovo não abriu e assim se manterá ao longo do dia de hoje, anunciou o banco central do país, admitindo que os mercados de acções, derivados e cambial possam reabrir esta terça-feira, 1 de Março.

25.2.22

“Nós, ucranianos, temos de manter as portas abertas. Vamos pedir aos portugueses que também o façam”

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Padre ortodoxo Ivan Buhakov desdobra-se em contactos com padres católicos, que já estão a fazer um levantamento de espaços. Dá o exemplo de seminários e santas casas da misericórdia. Julga que será preciso envolver também famílias que possam acolher refugiados nas suas casas ou emprestar segundas casas

O padre ortodoxo Ivan Buhakov esteve esta quinta-feira duas vezes a protestar em frente ao Consulado da Rússia no Porto contra a invasão da Ucrânia. E estará esta sexta-feira outra vez, em frente à Câmara do Porto. “Queremos chamar a atenção de todos. O que se está a passar é uma surpresa grande, uma surpresa feia.”

Congratula-se com a atitude do Governo português, que depressa se mostrou solidário com os ucranianos. “Contarão com toda a nossa solidariedade”, disse o primeiro-ministro António Costa. “Têm sido muito bem-vindos a Portugal. E a sua família, amigos e conhecidos que queiram procurar a segurança e o destino para dar continuidade às suas vidas são também muito bem-vindos.

Desde que a guerra rebentou, na madrugada de quinta-feira, há gente a dirigir-se para as fronteiras terrestres da Ucrânia com a União Europeia. “Vai chegar muita mais gente aqui”, prevê Buhakov. “Nós, ucranianos, temos de manter as nossas portas abertas. Vamos pedir aos portugueses que também o façam.”

“Vamos precisar de muita coisa. Ambulâncias, medicamentos, comida, dinheiro” Padre ortodoxo Ivan Buhakov

Desdobra-se em contactos com padres católicos, que já estão a fazer um levantamento de espaços. Dá o exemplo de seminários e santas casas da misericórdia. Julga que será preciso envolver também famílias, que possam acolham refugiados nas suas casas ou emprestar segundas casas. Ainda antes, urge organizar meios de transporte para ir às fronteiras resgatar pessoas que estão a cruzá-las.

A guerra, para Buhakov, é muito concreta. É natural de Ternopil, uma cidade do oeste da Ucrânia, às margens do rio Seret. A mãe e a irmã, que é professora, já lá estavam. O cunhado e a sobrinha, porém, encontravam-se em Kiev. Puseram-se em fuga, de carro, às 8h e ao cair da noite ainda não tinham chegado a casa.

O cunhado e a sobrinha estariam bloqueados na estrada. A irmã evitava telefonar-lhes para que não ficassem sem bateria. Ao ir para a segunda manifestação de quinta-feira, Buhakov questionava-se se estariam bem ou entre os feridos ou mortos de que se falava nas notícias. Haveriam de entrar em casa, sãos e salvos, às 5h desta sexta-feira.
“Estamos muito preocupados”

“Estamos muito preocupados”, confessava o padre. “Vladimir Putin quer destruir tudo. Parece que quer acabar com os ucranianos. Há receio de que tome conta da produção de electricidade. Podem deixar o país sem luz.”

A manifestação da manhã fora muito improvisada. “Foram umas 20 e tal pessoas. Estava marcada para as 11h. A polícia chamou a atenção porque não havia autorização, mas não mandou ninguém embora. Eu cheguei pelas 12h. Algumas pessoas já se tinham ido embora. Estivemos lá quase até às 13h.”

No novo protesto, agendado para as 18h30 no mesmo local simbólico, na Avenida da Boavista, juntaram-se “umas 200 pessoas”. Mulheres, homens, crianças, com bandeiras e cartazes, a reclamar a paz, a exigir que o Presidente da Federação Russa ordenasse uma retirada, a cantar o hino da Ucrânia.

“Fiz uma homilia, orações, em português e ucraniano”, resumia, já na manhã deesta sexta. Ficou surpreendido com a quantidade de jovens que ali viu. “Há pessoas que vão deixar aqui a emigração e que vão para a guerra. Não podemos deixar que isto aconteça ao país.”

Outros protestos haverá no Porto. O desta sexta-feira, pelas 18h30, será junto à câmara municipal. “Já está marcada para sábado uma missa, numa igreja grande, a Igreja do Marquês, pelas 21h. Vamos juntar portugueses e ucranianos em oração.”

Parece-lhe importante começar a pensar em angariar fundos para ajudar quem vai chegar, mas também quem lá vai continuar. “Vamos precisar de muita coisa. Ambulâncias, medicamentos, comida, dinheiro.” No terreno, já há organizações sem fins lucrativos a agir. Recolhem e distribuem doações, alimentos e suprimentos médicos a ucranianos deslocados dentro do próprio país e apoiam feridos e familiares de mortos, como a Cruz Vermelha, a People in Need e a Sunflower of Peace.

Esta sexta-feira, a família de Buhakov prepara-se para o pior. A irmã está a improvisar um abrigo na garagem para amigos de Kiev. E a fazer comida abundante para e eventualidade de ficarem sem luz. Nem só os combustíveis estão já a ser racionados. “Só pode comprar o pão para o dia. São quatro pães por dia”, exemplifica. O que mais assusta é a possibilidade de ataques aéreos.


ONU estima que 100 mil pessoas terão abandonado as suas casas num só dia

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

Portugal quer garantir condições de acolhimento “à medida que se verifiquem chegadas de cidadãos provenientes” da Ucrânia, disse o gabinete da ministra Vieira da Silva. Uma estratégia comum europeia seria desejável, refere a Plataforma de Apoio aos Refugiados.

Cerca de 100 mil ucranianos deixaram as suas casas só nesta quinta-feira depois da invasão russa, de acordo com uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a Reuters, que cita a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Shabia Mantoo, milhares de ucranianos atravessaram as fronteiras terrestres uma vez que o espaço aéreo foi encerrado para civis.

A Polónia, a Roménia e a Moldávia que terá recebido cerca de duas mil pessoas, segundo a ministra do Interior, são os destinos mais imediatos destas populações em fuga.

Neste contexto, a comissária europeia dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, indicou que Bruxelas está pronto para, se necessário, apoiar os Estados-membros da União Europeia (UE) no acolhimento de refugiados ucranianos. Johansson agradeceu a cinco países (Polónia, República Checa, Roménia, Eslováquia e Hungria) a “vontade de proporcionar protecção imediata”.

Portugal está entre os países que se prontificaram a acolher cidadãos da Ucrânia. Na frente do apoio aos civis e população refugiada, o gabinete de Mariana Vieira da Silva disse que o objectivo era “o de garantir que as condições de acolhimento em Portugal estão preparadas à medida que se verifiquem chegadas de cidadãos provenientes desta zona”.

Em respostas ao PÚBLICO, o gabinete da Presidência do Conselho de Ministros informou estar “em curso a elaboração de um mapeamento das disponibilidades de acolhimento existentes e ofertas de emprego” em Portugal, através das entidades de acolhimento. Essa disponibilidade “está em permanente actualização”.

Entre as principais entidades de acolhimento estão o Serviço Jesuíta aos Refugiados e a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR – que reúne várias instituições). Num comunicado conjunto, apelaram à “definição de uma estratégia comum [europeia] de acolhimento, de forma a responder adequadamente à situação de emergência humanitária na Ucrânia”.

As duas organizações esperam da União Europeia (UE) que garanta “uma intervenção rápida no sentido de apoiar os Estados-membros”.

Uma estratégia comum foi encontrada em 2015 quando a guerra na Síria e a situação noutros países em guerra criou uma pressão com a chegada de refugiados à Grécia e à Itália, depois da passagem pela Turquia. Polónia, Eslováquia, Hungria e Roménia fazem fronteira com a Ucrânia e são membros da UE.

A presidente da Comissão Europeia garantiu que a UE está preparada para acolher os ucranianos que fogem do país: “Esperamos que haja o mínimo possível de refugiados, mas estamos totalmente preparados para eles e para garantir que eles estão bem”, disse Ursula von der Leyen.

“Temos trabalhado durante semanas para estarmos preparados para o pior. Chegámos a essa fase de nos prepararmos para potenciais refugiados”, acrescentou.
Apoio no terreno

O começo dos ataques militares em território ucraniano levou organizações não governamentais portuguesas como a Médicos do Mundo (MdM) a iniciar “a realocação da sua equipa internacional e a protecção dos seus colaboradores na Ucrânia”.

Esta organização humanitária, a operar na Ucrânia desde 2015, tem actualmente 100 profissionais no terreno e prevê que as populações das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk enfrentem agora “grandes dificuldades no acesso a cuidados de saúde e a apoio psicológico”.

Nesta região, cerca de um terço da população tem mais de 60 anos, refere a organização em comunicado. São pessoas que “necessitam de monitorização constante e acesso a medicamentos para doenças crónicas”.

A MdM disponibiliza assistência humanitária e serviços de saúde às populações vulneráveis que vivem ao longo da linha de contacto entre Lugansk e Donetsk, no leste da Ucrânia, mas esse trabalho estará de imediato, pelo menos em parte, comprometido: “Agora que as nossas unidades móveis não conseguem operar, a situação tornou-se mais difícil para estas pessoas”, refere o comunicado, indicando que mesmo antes da escalada militar desta quinta-feira, “mais de 850 mil pessoas” já se encontravam “deslocadas no território da Ucrânia”. com Ana Maia

24.2.22

Consumidores de gás natural vão sentir aumento "inevitável" do preço

in TSF

O aumento deve-se à situação na Ucrânia. João Pedro Matos Fernandes explica que uma das formas de se proteger a independência energética é a aposta nas energias renováveis.

ministro do Ambiente disse esta quarta-feira que quem consome diretamente gás natural vai sentir aumento "inevitável" dos preços, devido à situação na Ucrânia, que levou a Alemanha a suspender a certificação do Nord Stream 2, para transporte de gás russo.

"Quem usa diretamente gás natural, vai sentir esse aumento porque é inevitável, Portugal não fixa esse preço, é o preço de uma 'commodity' [matéria-prima], que é fixado a nível mundial", disse aos jornalistas o ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, à margem da conferência final do Projeto E+C -- Economia Mais Circular promovida pela CIP -- Confederação Empresarial de Portugal, no Teatro Thalia, em Lisboa.

Ainda que cerca de 35% da eletricidade em Portugal seja gerada a partir de gás natural, o governante lembrou que se trata de um aumento de preço na origem que não significa um aumento para os consumidores.

"Quem está no mercado regulado não vai sentir esse aumento, mas sobretudo os produtores industriais, apesar do esforço que o Governo fez para que quase não tivesse havido aumentos, reconhecidamente têm contratos mais curtos e, portanto, esse risco [de aumento dos preços] existe", acrescentou o ministro do Ambiente.

Para o governante, uma das formas de se proteger a independência energética é a aposta nas energias renováveis, lembrando que, em 2021, Portugal conseguiu mais 700 megawatts de energias renováveis, "mais do que aquilo que a central do Pego produzia".

Na terça-feira, a Alemanha tomou medidas para interromper o processo de certificação do gasoduto Nord Stream 2, para distribuição de gás natural russo na Europa.

O executivo alemão está a tomar medidas para responder às ações de Moscovo na Ucrânia e, conforme explicou o chanceler alemão, Olaf Scholz, aos jornalistas "sem aquela certificação, o Nord Stream 2 não pode ser colocado em funcionamento".

A União Europeia (UE) depende fortemente das importações de gás natural, que é o segundo combustível mais utilizado nos 27 Estados-membros, a seguir ao petróleo e derivados, sendo a Rússia o maior exportador.

“Um fracasso para a própria humanidade”, diz bispo das Forças Armadas

 Henrique Cunha

D. Rui Valério acalenta a esperança de que o Papa Francisco possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".

O bispo das Forças Armadas e de Segurança declara "desencanto e desilusão" pelos acontecimentos na Ucrânia.

Em declarações à Renascença, D. Rui Valério diz que esta guerra significa um fracasso para a própria humanidade, e deixa também uma mensagem de esperança e de confiança "no Deus da paz".

“Em primeiro lugar um profundo sentimento de um certo desencanto e até desilusão pelo percurso e pelas novas etapas que estão a ser trilhadas pela humanidade. Quando pensávamos que todos estavam mobilizados pela paz, eis que surge este contraditório que é de certa forma um fracasso para a própria humanidade que não é capaz de viver em harmonia e em concórdia. Mas dito isto é necessário também elevar daqui um profundo grito de esperança e de confiança. De confiança em Deus, no Deus da Paz que é capaz de nos sugerir os caminhos da concórdia que todos nós devemos trilhar”, afirma.

O bispo manifesta, por outro, lado a esperança de que o Papa - "um arauto da paz" - possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".

"Neste momento sintamo-nos juntos ao Papa Francisco que é um obreiro e arauto da paz e da fraternidade para que com o seu exemplo, para que com o seu testemunho e também com a sua intervenção pessoal ele consiga demover os propósitos daqueles que querem fazer a guerra”, pede o prelado.

D. Rui Valério lembra a tradição cristã dos povos, agora, envolvidos no conflito, realçando que estes acontecimentos "nos entristecem o coração" e essa tristeza "adensa-se particularmente no coração do Papa”.

“Não haja dúvidas de que estamos a falar de nações que têm uma tradição cristã. Nações, cujo povo se reconhece nos valores do evangelho, na mensagem de Jesus, da concórdia, da fraternidade. De darmos as mãos para construir o bem. A verdade para construirmos a justiça, para construirmos a paz; e não haja dúvidas que estes acontecimentos a que assistimos em direto nos entristecem profundamente o coração. E essa tristeza adensa-se particularmente no coração do Papa", refere.

Nestas declarações à Renascença, o bispo das Forças Armadas partilha um testemunho pessoal, e que resulta do contato com as chefias militares umas semanas antes dos acontecimentos das últimas horas.

“Eu vou aqui dar este testemunho pessoal. Nas semanas precedentes contactando com as chefias militares eu sempre lhes perguntei, sugeri e questionei qual a nossa postura - e quando digo nossa, digo a nossa de Igreja, a nossa de assistência religiosa - face a todos estes acontecimentos, e de todos eles a primeira resposta que veio foi senhor bispo rezem pela paz.”

“E a oração é uma suplica, um pedido, um confiar na grandeza e nas mãos de um outro aquilo que são os destinos do presente da humanidade, mas é também sinónimo de uma grande confiança. Ao mesmo tempo quero manifestar toda a nossa disponibilidade para que com a nossa presença, com a nossa palavra, com a nossa comunhão e solidariedade estarmos com aqueles que são mobilizados e vão agir em nome da paz. E esses são os nossos fortes, os nossos braços, são os nossos soldados”, conclui.