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8.9.23

“A Buganvília” depende de “caridade para se manter aberta e dar resposta às 25 crianças que acolhe”

in Rádio Voz da Planície

O Centro de Acolhimento “A Buganvília”, em Beja, promoveu uma jornada de voluntariado para pintar o exterior das suas instalações e conseguiu 15 pessoas para ajudar nesta missão, que decorre até amanhã, 8 de setembro. O presidente da Direção diz que “é um desafio manter a instituição aberta pois o que se recebe da Segurança Social não chega para pagar os custos com o pessoal”.

Na Jornada de Voluntariado, “A Buganvília” conseguiu 15 inscrições e têm sido estas pessoas que têm estado a ajudar, desde a passada segunda-feira, 4, na intervenção que o edifício precisa para se manter.

Luís Amaro, presidente da Direção, explicou à Voz da Planície que “não vai ser possível terminar o trabalho como estava previsto nesta sexta-feira, 8,” e que “é preciso deixar claro que os apoios que a instituição recebe da Segurança Social não chegam para cobrir os custos com o pessoal daí ser preciso recorrer à ajuda da comunidade, nomeadamente na intervenção estrutural que o edifício precisa”.

LUÍS AMARO REVELA QUE HÁ 15 VOLUNTÁRIOS A AJUDAR NA PINTURA DAS INSTALAÇÕES E AGRADECE O SEU CONTRIBUTO

“A Buganvília” é um centro de acolhimento que visa prestar atendimento urgente e transitório às crianças em situação de perigo decorrente de maus tratos, abandono, negligência ou outros fatores. Isto significa que são enviadas para esta instituição as crianças nestas circunstâncias da sua vida e indicadas por Tribunal.

Luís Amaro realçou à nossa rádio que “A Buganvília” está “sempre no limite máximo”, ou seja, a dar resposta a “25 crianças com as quais deve trabalhar o regresso a casa ou então, no caso de não ser possível, ajudá-las a fazer o seu percurso, deixando que permaneçam institucionalizadas até que precisem”.

LUÍS AMARO EXPLICA QUE "A BUGANVÍLIA" ESTÁ NO SEU LIMITE MÁXIMO POIS ESTÁ A ACOLHER 25 CRIANÇAS EM RISCO

Há sete anos que a Direção presidida por Luís Amaro está em funções e que tem esta instituição a enfrentar “grandes dificuldades financeiras, o que tem tornado impossível cumprir os compromissos assumidos com fornecedores e Estado”.

“A verba que o Centro recebe para desenvolver a sua missão não é suficiente para o essencial, pelo que precisa de apoio da sociedade civil para manter esta casa a funcionar”, frisou o presidente da Direção de “A Buganvília”.

Esclareceu, também, Luís Amaro que “há uma diretiva europeia que determina o encaminhamento de crianças em risco para famílias de acolhimento”, mas no caso “do distrito de Beja há zero famílias de acolhimento e por isso mesmo é tão importante manter uma instituição como esta de portas abertas, até porque é a única deste território com este tipo de resposta”.

Posto isto, o presidente da Direção de “A Buganvília” realçou que “a instituição tem apelado a quem tutela estas resposta a aumentar os apoios” e como esse contributo tarda “está dependente da caridade para continuar a sua missão”. Isto significa, disse, que “A Buganvília” está “a reinventar-se e a apostar em iniciativas que ponham, de alguma forma, a comunidade a contribuir, como foi o caso desta ação que visa a manutenção e pintura do edifício”.

Em novembro deste ano, “A Buganvília” celebra 25 anos de existência e está a preparar, mais uma vez, uma iniciativa para “angariação de fundos extraordinários”. Luís Amaro assegurou que a mesma será divulgada em breve.


LUÍS AMARO ESCLARECE QUE A INSTITUIÇÃO PRECISA DE MAIS APOIOS DA TUTELA E QUE É A ÚNICA NO DISTRITO A DAR ESTA RESPOSTA

22.8.23

Famílias ciganas de Beja vivem em barracas, mas animais dispõem de novas instalações

Carlos Dias, in Público


Autarca de Beja critica visitas de membros do Governo às famílias ciganas, alegando que as deslocações criam expectativas que ao fim de algum tempo se desvanecem.


Bairro das Pedreiras, em Beja. O que se observa no dia-a-dia da comunidade cigana é em tudo idêntico ao que se observa nos campos de refugiados na Grécia, Itália e França: um amontoado de 80 barracas e de 50 casas insalubres e exíguas, lixo acumulado, ervas e matos secos (o habitat ideal onde se multiplicam cobras e ratos), tudo isto acrescido de um calor tórrido, sufocante (38º no último domingo), a falta de água — quando o principal uso previsto na lei é o consumo humano —, que se traduz num prolongado caos social. Cerca de um milhar de pessoas, entre as quais mais de 200 crianças, estão forçadas a viver num “gueto” em condições infra-humanas desde 2005. São refugiados no país onde nasceram perante o alheamento dos autarcas do Baixo Alentejo e de sucessivos governos.

A realidade acabada de descrever contrasta com as condições proporcionadas a cerca de 200 cães e 160 gatos após a requalificação do Canil-Gatil de Beja inaugurado em Dezembro passado. Com a melhoria das condições de acolhimento os animais, as instalações disponibilizam “40 novas boxes para cães, uma nova zona de recreio, duas áreas de armazenamento e lavandaria, um espaço de quarentena e um parque para treinos de perícia e obediência, orientados para a diminuição do stress e a melhoria do comportamento dos animais.”

O canil-gatil que acolhe os cães e gatos dos concelhos de Aljustrel, Almodôvar, Alvito, Barrancos, Beja, Castro Verde, Moura, Mourão, Ourique, Reguengos de Monsaraz, Serpa e Vidigueira faculta “quatro tratadores de animais, uma auxiliar de veterinária, um treinador e 12 médicos veterinários municipais”. Este projecto exigiu um investimento de 350 mil euros. Marcelo Guerreiro, presidente do conselho de administração da Resialentejo, organismo que acolhe o Canil-Gatil de Beja no aterro intermunicipal, realçou, durante a inauguração do novo equipamento, que este “responde às necessidades de acolhimento de cães e gatos abandonados ou a necessitar de cuidados especiais no quadro da legislação em vigor.”

Famílias ciganas de Beja vivem em barracas, mas animais dispõem de novas instalações
Marcelo Guerreiro, que também é presidente da Câmara de Ourique, referiu ainda que a iniciativa dos autarcas satisfaz as necessidades de acolhimento, “mas será sempre insuficiente se não existir uma maior consciência cívica”. A decisão de requalificar o Canil-Gatil de Beja, que esteve instalado quase duas décadas paredes meias com o Bairro das Pedreiras, vem colmatar as consequências da negligência dos que abandonam os animais porque vão de férias ou porque se fartam deles. Uma preocupação que tarda em estender-se aos humanos ali ao lado.


Um gueto

Conhecedores dos graves problemas sociais que persistem no Bairro das Pedreiras, e se estende a quase todo o distrito de Beja, os autarcas que integram a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL) e o Governo central tardam em consensualizar um modo de atenuar um flagelo social com projecção internacional, e que já conduziu à condenação do Estado português, em Junho de 2011, por violação da Carta Social Europeia.

Em 2010, a alta-comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, comentou ao PÚBLICO a solução encontrada para alojar as famílias ciganas: “Não foi feliz e acabou por criar um gueto” concluiu.


O projecto que a Câmara de Beja aprovou no início do novo milénio concebia habitações designadas “evolutivas”, em tudo semelhantes ao modelo seguido nos parques nómadas espanhóis. Cada casa tem uma sala comum, uma cozinha e um quarto, mas a estrutura deveria estar preparada para receber novos módulos, à medida que o agregado familiar for crescendo.


Posteriormente, em Outubro de 2005, a autarquia fez questão de assumir que o parque não seria evolutivo “nem permitidas seriam construções anexas de qualquer espécie.”

As 50 habitações do bairro onde estarão a viver, neste momento, cerca de 500 pessoas têm todas a mesma configuração e o mesmo número de divisões: um quarto, uma casa de banho e uma sala. É neste espaço com cerca de 50 metros quadrados de área que se amontoam agregados familiares com oito, nove e até 12 elementos. No único quarto que as casas dispõem, são inúmeros os exemplos observados pelo PÚBLICO de “camas” amontoadas — um eufemismo para os cobertores que, à noite, são estendidos no chão.


Mónica da Silva Reis, residente no Bairro das Pedreiras, explicou ao PÚBLICO por que cresceu o número de barracas: “As casas estão cheias e os filhos têm de vir cá para fora.”

Deste equipamento (parque nómada) faz parte um espaço com cerca de um hectare destinado a acolher, temporariamente, as famílias nómadas que andam em itinerância pelo Alentejo. Com o decorrer dos anos, este modelo de integração foi completamente desvirtuado e transformado num permanente foco de conflitos de difícil gestão para Câmara de Beja, que acabou por perder o controlo da situação com a instalação progressiva de barracas.

Algumas das famílias são descendentes das que vivem nas casas construídas pelo município de Beja e que registam altas taxas de natalidade. Os fogos construídos depressa se revelaram exíguos com o crescimento do agregado familiar.


O parque nómada, projectado para ter ligações eléctricas, instalações sanitárias, água canalizada, sistemas de iluminação, recolha de lixos, e espaço para as suas tendas, animais e viaturas, e uma vedação para separar as famílias nómadas das que tinham optado pela sedentarização, ficou pelo caminho e o crescimento exponencial de residentes no Bairro das Pedreiras faz com que o ambiente se torne explosivo.

“Comparação injusta”

“É completamente injusto que se façam comparações entre o que se investe num canil-gatil e os bairros sociais.” A afirmação foi proferida por Paulo Arsénio, presidente da Câmara de Beja quando questionado pelo PÚBLICO sobre a falta de resposta dos autarcas que integram a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL) para minorar as condições degradantes em que está alojada a comunidade cigana no Bairro das Pedreiras.

O autarca justifica a requalificação no canil-gatil argumentando que a nova legislação aprovada há dois anos “não permite eutanasiar os animais”, constrangimento que obriga à criação de espaços cada vez maiores “por não haver lugar para tantos cães e gatos”. Uma situação que considera “complicada”, sobretudo para os gatos, por se “reproduzirem de uma maneira intensa.”


Mas no Bairro das Pedreiras o problema permanece sem solução. Conhecedores desta realidade, os autarcas e sucessivos Governos tardam em consensualizar um modo de atenuar um flagelo social com projecção internacional, e que já conduziu à condenação do Estado português, em Junho de 2011, por violação da Carta Social Europeia.

O autarca garante que a câmara “tenta promover a integração da comunidade através do ensino e da aprendizagem, através da escolarização para os menores”, acrescentando ainda que há uma “proximidade” entre a autarquia os residentes no bairro, mas há problemas que persistem: “Entendemos que a comunidade, através da integração laboral e outras, tem de assumir uma palavra própria para a sua integração.”

Contudo, “não está na perspectiva do município construir um bairro para substituir as barracas que existem no bairro”, sublinha Paulo Arsénio, endereçando a resposta a este problema ao Governo central, alegando que a autarquia não tem meios para alojar as famílias ciganas, que se concentram em Beja vindos dos mais variados pontos do Alentejo e até de fora da região, na expectativa de poder receber uma casa.

O autarca mostra-se desagradado com a recente visita da secretária de Estado da Igualdade e Migrações, Isabel Almeida Rodrigues, ao Bairro das Pedreiras, visita essa que não teve a presença de representantes autárquicos. Os secretários de Estado ou ministros que se desloquem ao bairro “têm de ser muito cautelosos com as visitas que fazem”, adverte o autarca de Beja, frisando que as deslocações “podem ser entendidas para conhecer a realidade, mas acabam por criar expectativas e, ao fim de algum tempo, essas expectativas esvaziam-se”, conclui o autarca de Beja.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes]


20.7.23

Banco Alimentar de Beja procura voluntários

in Rádio Pax


O Banco Alimentar Contra a Fome, em Beja, está a procurar voluntários que façam a separação de papel.

Nesta altura do ano as escolas entregam ao Banco Alimentar várias toneladas de livros escolares sem reutilização que serão encaminhados para reciclagem, ao abrigo da campanha que permite trocar papel por alimentos.

A preparação de uma quantidade tão grande de papel para transporte exige a ajuda dos voluntários.

José Tadeu Freitas, Presidente do Banco Alimentar em Beja, apela aos jovens em férias escolares que disponibilizem um pouco do seu tempo para ajudar na separação de papel.

12.7.23

400 mil idosos em risco de pobreza em Portugal. Com pensões abaixo de 554 euros mensais

in Rádio Voz da Planície


Mais de 400 mil idosos vivem em risco de pobreza em Portugal, com um máximo de 551 euros por mês, ou seja, abaixo do limiar no nosso País que é de 554 euros mensais. No distrito de Beja, o "envelhecimento da população é devastador e as pensões estão muito abaixo do limiar determinado", diz o comentador para a área social, Miguel Bento.


Os dados que foram revelados ontem, 11 de julho - Dia Mundial da população - dizem, pela Pordata, também, que para 90 por cento das pessoas com 65 ou mais anos, a reforma ou pensão é a principal fonte de rendimento. Nesta faixa etária, nove por cento permanecem no mercado de trabalho, sendo que 240 mil pessoas trabalham ou ocupam-se na agricultura.

Os dados reunidos pela base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostram que há mais de 500 mil idosos a viverem sós.

Sobre estes dados, o comentador da Voz da Planície para a área social, Miguel Bento, frisou que "o distrito de Beja tem muitos idosos sem dinheiro para pagarem as suas necessidades básicas - saúde, alimentação, saneamento, eletricidade - por receberem pensões muito abaixo do limiar determinado para Portugal".

Acrescenta Miguel Bento que "esta situação acontece, principalmente, porque muitos idosos, particularmente as mulheres que são mais pobres do que os homens na velhice, não tiveram carreiras contributivas longas e noutros casos são pessoas que trabalharam na agricultura e que não tiveram descontos feitos, na altura devida para a segurança social".


Em 2001, o número de pessoas com 65 ou mais anos ultrapassou o número de crianças e jovens com menos de 15 anos. Atualmente, há quase duas vezes mais seniores do que crianças e jovens em Portugal. Em cada 100 residentes no País, 13 são crianças ou jovens com menos de 15 anos, 63 são pessoas em idade ativa (15-64 anos) e 24 têm 65 ou mais anos.

Para além destes dados, a Pordata revelou no dia de ontem, 11 de julho, igualmente, que o número de pessoas a atingir os cem anos aumentou 77 por cento na última década em Portugal, para quase três mil cidadãos centenários no ano passado.

Em 2022, viviam em Portugal duas mil e 940 pessoas com 100 anos ou mais, contra mil e 658 em 2012, indicam números da base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O comentador da área social, Miguel Bento, esclareceu que "estas revelações não são novidade em Portugal e que estão relacionados com diversos fatores, entre eles o aumento da esperança média de vida e o regresso de muitos que emigraram nas décadas de 60/70 do século XX e que regressaram a Portugal na velhice".

Miguel Bento disse, ainda, que "no Alentejo, a taxa de envelhecimento é devastadora, particularmente, nalguns concelhos do distrito de Beja". E que "a situação no País e distrito não é mais grave devido à imigração pois muitos dos nascimentos registados nos últimos anos são de mulheres que vieram para Portugal em idade fértil".


A inversão da pirâmide demográfica é considerada um dos maiores desafios do século XXI na generalidade dos países europeus e, também em Portugal, onde o peso da população idosa duplicou nos últimos 36 anos. Segundo a Pordata, 24 por cento da população portuguesa tem hoje 65 anos ou mais.



“O futuro das economias e sociedades europeias depende da forma como se enfrentará esta questão no curto prazo, importando, por isso, analisar esta tendência e, também, as condições em que a população mais idosa vive atualmente”, sublinha a análise da Pordata aos dados estatísticos.Dos 10,4 milhões de pessoas que vivem em Portugal, 2,5 milhões têm 65 anos ou mais, estando as mulheres em maioria (57 por cento).


“Este peso superior do sexo feminino cresce à medida que a idade aumenta: as mulheres representam 62 por cento do total da população com 80 ou mais anos”, lê-se num documento divulgado pela plataforma.

No mais recente Censos (2021), foram registadas 46 mil pessoas estrangeiras com 65 ou mais anos em Portugal. “Na última década, o número de estrangeiros nesta faixa etária mais do que duplicou (em 2011 eram 20 mil), sendo 67 por cento são europeus, sobretudo do Reino Unido (19 por cento); França (12 por cento) e Itália (7 por cento)”, observou a Pordata. Entre os não europeus, destacam-se os brasileiros (11 por cento).

“O aumento do interesse por Portugal junto da população sénior impacta igualmente os números da imigração: Em 2021 entraram no país 23 mil pessoas nesta faixa etária, o equivalente a 23 por cento do total de imigrantes”, destacaram os peritos que compilaram os dados.

Portugal era, em 2022, o segundo país da União Europeia com maior proporção de pessoas com 65 ou mais anos (23,7 por cento), a seguir a Itália (23,8 por cento). A média europeia era de 21,1 por cento no ano passado. A população sénior ultrapassou a de crianças e jovens no virar do milénio.

O índice de envelhecimento em Portugal revela que há 184 pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 jovens. Em todos os municípios do País, com exceção de Lagoa e Ribeira Grande, nos Açores, o número de idosos é superior ao número de jovens.

29.5.23

Combate às situações de sem-abrigo passa pela prevenção, diz coordenador nacional

Por Lusa, in Rádio Voz da Planície


O coordenador da Estratégia Nacional para os Sem-Abrigo, Henrique Joaquim, assumiu que o futuro de Portugal no combate a estas situações passa pela prevenção, pois as causas já são conhecidas. Este responsável está hoje na capital de distrito, na criação de um núcleo para dar resposta a estas pessoas no concelho, o NPISA - Beja.


“De futuro temos de investir numa abordagem mais preventiva. Hoje conhecemos as causas, portanto, temos de começar a tomar medidas para combater essas causas, ou seja, não estarmos sempre à espera para resolver o problema, temos de tentar antecipar o problema”, defendeu Henrique Joaquim, coordenador da Estratégia Nacional para Sem-Abrigo em Portugal 2017-2023.

“Recebemos muitas sinalizações de cidadãos comuns, o que significa que estamos muito mais despertos hoje e todos muito mais conscientes para fazer alguma coisa para que não haja mais pessoas nesta condição”, disse.

Questionado sobre a avaliação que faz da estratégia nacional que termina este ano, Henrique Joaquim considerou ser um “marco” Portugal estar entre os 10 ou 12 países da União Europeia com uma estratégia nacional para os sem-abrigo.

“O facto de Portugal ter uma estratégia – em 27 estados-membros nós somos dos 10 ou 12 países que têm uma estratégia nacional, portanto não é um instrumento ainda disseminado em toda a Europa, e temo-lo desde 2017. Acho que isso foi um marco e isso tem-nos permitido pôr o tema na agenda. Hoje é muito mais frequente falarmos, discutirmos, criticarmos se há ou não há medidas, porque efetivamente tentámos ter ações concretas com as pessoas”.

Segundo Henrique Joaquim, nos últimos dois anos e em contexto de pandemia Portugal alterou “a lógica da intervenção”.

“Hoje estamos muito mais focados em tirar as pessoas da rua e colocarmos em casas o mais rápido possível e depois fazer a integração social. Quando há dois ou três anos não era essa a lógica de intervenção e isso permitiu-nos ter os números já consolidados até 2021. Desde 2018 tínhamos mais de mil pessoas tiradas dessa condição e socialmente integradas, portanto, eu estou em crer que seguindo esse caminho, obviamente com melhorias a ser implementadas, estaremos numa estratégia adequada para combater este problema”, explicou.

27.4.23

Seminário Internacional sobre pobreza e desigualdades, hoje em Beja

in A Planície



A EAPN Portugal – Rede Europeia Anti-Pobreza realiza hoje, dia 27, o Seminário Internacional com o tema “Pobreza e desigualdades – Que exigências para a acção social?”, marcado para as 09h30 no Auditório da Escola Superior de Educação de Beja.


Em formato presencial e online, o encontro é composto por duas mesas redondas de conversa, a primeira às 10h00, em que se debruça sobre o caminho percorrido e desafios actuais da Acção Social, seguido de debate. A segunda, depois do almoço, 14h30, interpela a missão dos modelos e se servem o desenvolvimento de pessoas e comunidades, seguido de questões entre convidados.


O responsável do Núcleo Distrital de Beja da EAPN, João Martins, pretende que haja respostas a esta problemática. “As questões da pobreza são transversais à sociedade, há sempre novos pobres, novos factores de pobreza e devido à pandemia e à guerra, surge este momento de reflexão para se perceber em que medida é que a Acção Social se tem de adequar a novos fenómenos de pobreza”.


A organização acrescentou que é importante “promover uma reflexão multidimensional e interdisciplinar sobre a Acção Social no contexto actual e o seu contributo na afirmação e concretização dos direitos dos cidadãos”.
O Seminário Internacional da EAPN Portugal tem como destinatários profissionais da área da intervenção social, docentes, estudantes e comunidade em geral.
Hoje, são debatidas em Beja as problemáticas relacionadas com a pobreza, onde se pretende responder às desigualdades das comunidades.

31.3.23

Cáritas de Beja faz apresentação pública da performance “Conexões”

in Rádio Voz da Planície

Praça da República recebe, esta quinta-feira, 30, a partir das 17h30, uma mostra pública do resultado do primeiro laboratório de expressão artística, que contou com a participação de pessoas em situação de sem abrigo.

O laboratório, que se realizou no âmbito do projeto "Estou Tão Perto Que Não Me Vês", da Cáritas Diocesana de Beja, foi dinamizado pela Associação Chamadarte e contou com a participação de um grupo de timorenses em situação de sem abrigo acompanhados. “Conexões” é o título de uma performance que resulta do trabalho desenvolvido nesse laboratório de expressões artísticas, pretendendo a Cáritas “provocar uma reflexão, a partir da arte, sobre o modo como os grupos mais desfavorecidos, em particular como as pessoas em situação de sem abrigo vêm a rua”.

A direção artística é de Klemente Tsamba, e assistência criativa de Alberto Magassela e Venâncio Calisto.

27.3.23

Esdime promove alimentação sustentável e de base local em cantinas do distrito de Beja

Agência Lusa,  in Rádio Voz da Planície

O distrito de Beja recebe, desde ontem, um projeto que visa a promoção de uma alimentação “sustentável, saudável e tendencialmente de base local” nas cantinas escolares e sociais da região, promovido pela cooperativa Esdime.

De acordo com a Lusa, o projeto “TerrAlimenta” vai ser promovido, ao longo dos próximos 18 meses, por esta cooperativa sediada em Messejana, no concelho de Aljustrel, sendo financiado através do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2020.

“Este projeto tem a ideia de fazer a transição para um sistema alimentar territorializado, tentando contribuir ao máximo para a soberania alimentar da região com base numa alimentação saudável, sustentável e baseada na dieta mediterrânica”, explicou à agência Lusa Marta Cortegano, coordenadora da iniciativa.

O “TerrAlimenta” é dinamizado pela Esdime em parceria com o Alentejo XXI, Terras Dentro, Rota do Guadiana e Terras do Baixo Guadiana, a quem se juntou a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL), a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo (DRAPAL) e as associações Terra Sintrópica e In Loco.

Segundo Marta Cortegano, a iniciativa vai incidir nas cantinas de escolas e instituições sociais do distrito, pretendendo ser “muito útil quer aos consumidores, quer aos produtores locais”.

“A nossa população mais vulnerável são as crianças e os idosos, portanto, se tivermos como parceiros principais as cantinas, é uma forma muito interessante de contribuirmos para a soberania alimentar”, explicou.

Para tal, continuou Marta Cortegano, o “TerrAlimenta” será um projeto “iniciador”, através do qual se vai “trabalhar em rede com todos os ‘stakeholders’ [parceiros] que estão ligados à questão da alimentação nas cantinas”.

A coordenadora do projeto acrescentou que, para se conseguir “desenhar” este processo, será feito “um diagnóstico e um levantamento do que é a produção local” e também “do que são as compras em todas as cantinas, para se conseguir redesenhar o seu abastecimento”.

“No final, vai haver esse redesenho do que será um sistema alimentar territorializado”, sublinhou.

Em paralelo, e no âmbito do projeto, serão dinamizadas duas “experiências-piloto”, uma em Mértola e outra em Ourique, “para testar, numa escala mais pequena, o que pode funcionar bem ou não funcionar”.

Com o “TerrAlimenta”, fica-se “a saber exatamente, no total de todas as cantinas, quanto é que se compra na região”, indicou, argumentando que “isso pode levar a que muitos outros pequenos agricultores que queiram participar neste processo da venda para as cantinas se possam organizar”.

O projeto pode mesmo permitir a criação de “uma central de compras direcionada para as cantinas partindo da produção local da região”, através da CIMBAL, acrescentou.

21.3.23

Bispo de Beja pede “perdão” e assume que “não há lugar para abusadores no sacerdócio”

Clara Viana, in Público

Numa entrevista à SIC, a 7 de Março, D. João Marcos admitiu que os padres abusadores podem ser perdoados. Neste sábado, veio dizer que de “nenhum modo” é esse o seu pensamento.

Mais um bispo que pede desculpa por declarações prestadas sobre os abusadores de menores na Igreja Católica. Depois de o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, o ter feito na semana passada, foi agora a vez do bispo de Beja, D. João Marcos, que neste sábado pediu “perdão” por ter admitido que os padres abusadores possam ser perdoados.

Num comunicado enviado à agência Ecclesia, D. João Marcos retracta-se pelas declarações prestadas à SIC no passado dia 7: “Todos somos pecadores, todos somos limitados, todos temos falhas. Esta maneira de abordar não é muito católica. Na Igreja Católica, existe o perdão", disse então, numa entrevista que gerou uma acesa polémica e que, refere agora D. João Marcos, deu a entender que subestima “a enorme gravidade dos abusos sexuais de menores e que o perdão de Deus permite ao abusador retomar a sua vida normal”.

“De nenhum modo é esse o meu pensamento. Compreendo a decepção que provoquei dentro e fora da Igreja e a todos peço perdão”, assume no comunicado divulgado neste sábado. Onde assume também que “os abusos de menores são da máxima gravidade”.

Os seus efeitos são devastadores. Se praticados por homens dedicados a Deus, são ainda mais graves e são blasfémias”, acrescentou. D. João Marcos defendeu, a este respeito, que “não há lugar para os abusadores no sacerdócio” e que “as suspeitas verosímeis” obrigam a tomar medidas que evitem todo o perigo sobre menores, “incluindo o afastamento das tarefas pastorais”. “As pessoas que passaram por uma situação de abuso têm de ser uma prioridade. As suas necessidades de apoio e reparação devem nortear o nosso acompanhamento.”

Na lista que a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja entregou à CEP, a 3 de Março, constarão “nove situações” envolvendo suspeitas de abusos em Beja. Na entrevista à SIC, D. João Marcos disse ainda não ter os nomes porque saiu mais cedo da reunião. Até este sábado, 16 das 20 dioceses existentes já divulgaram publicamente o número de nomes de padres suspeitos de abusos que lhes foram entregues: receberam os nomes de 90 sacerdotes e dois leigos. Destes, já morreram 35. Até agora, só cinco dos padres suspeitos foram afastados de funções.

Numa entrevista ao Expresso, publicada nesta sexta-feira, o presidente da CEP, D. José Ornelas, assumiu que a conferência de imprensa do passado dia 3, em que os bispos portugueses analisaram o relatório final da comissão independente que investigou os casos de abuso sexual de menores no seio da Igreja Católica nacional, “não correu bem”. “Não foi fácil, não foi adequado.” “E eu também não fui feliz”, acrescenta.

Na ocasião, a hierarquia da Igreja não anunciou nenhuma das medidas que eram exigidas por vários sectores católicos: nem afastamento imediato dos padres abusadores e dos bispos que os tenham encoberto nem predisposição para indemnizar financeiramente as vítimas.

Associação humanitária assinala Dia Mundial contra a Discriminação Racial

Vitor Silva, opinião, in Rádio Pax

A Associação Informal “Unidos pelos Direitos Humanos” comemora hoje o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, com o tema “interculturalidade”.

A cerimónia tem lugar durante a tarde na sede da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza, em Beja.

Com esta iniciativa, a Associação pretende apelar a toda a população para que denuncie situações de racismo que venha a testemunhar.

8.3.23

Cinco mulheres falam sobre "problemas" que ainda enfrentam nos dias de hoje


8 de março é Dia Internacional da Mulher e de celebração das suas conquistas. Uma data para refletir, também, acerca do progresso a nível de direitos, assim como honrar a coragem e determinação das mulheres que ajudaram a redefinir a história.

Nascido no virar do século XIX, o Dia Internacional da Mulher começou por estar interligado com os movimentos trabalhistas da Europa e da América do Norte. O primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado nos Estados Unidos da América, a 28 de fevereiro de 1909, em honra da greve das trabalhadoras têxteis nova-iorquinas, em 1908. Posteriormente, o movimento das mulheres rapidamente assumiu uma postura global, sendo atualmente celebrado em quase todo o Mundo.

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu oficialmente este dia, durante o Ano Internacional da Mulher. Dois anos mais tarde, em 1977, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução que proclamava o Dia das Nações Unidas pelos Direitos das Mulheres e da Paz Internacional.

Foi ainda nos anos 1970, em dezembro de 1979, que nasceu a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, geralmente denominada de CEDAW (sigla em inglês). Este documento, que é comummente conhecido como Carta dos Direitos Humanos das Mulheres, vai para lá da "eliminação da discriminação"— todo ele é bastante explícito no seu objetivo de atingir a igualdade de género entre homens e mulheres. Surgiu ainda a necessidade de criar um Comité sobre a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres, um grupo independente de 23 especialistas em direitos da mulheres de todo o Mundo, e que acompanham a implementação da Convenção.

20 anos mais tarde, em 1995, mais de 17 mil delegados e 30 mil ativistas juntaram-se em Pequim, na China, para a 4.ª Conferência Mundial sobre as Mulheres, da qual resultaram a Declaração e a Plataforma de Ação de Pequim. Ainda hoje, este acordo, que definiu as 12 áreas de ação mais importantes para esta luta e que foi assinado por 189 países, é considerado um dos documentos centrais e mais progressivos para o empoderamento das mulheres e raparigas de todo Mundo.

Apesar de todos os avanços relativos aos direitos das mulheres, nenhum país atingiu a igualdade plena entre homens e mulheres. E é destas dificuldades, aos mais variados níveis, que falam as cinco mulheres com quem a Voz da Planície falou nas ruas de Beja.

Começamos com o depoimento de Inês Manguito, que tem 27 anos de idade e que vive e trabalha em Beja.

Inês Manguito realçou que dia da mulher "é sempre" e que celebra o facto de ser mulher sempre que pode. Quanto a desigualdades diz "não somos só desiguais no trabalho". Explica que na profissão que exerce ganha e faz o mesmo que os colegas homens. Mas deixa outras queixas, referindo que "ainda há profissões «de homens» e tem de se terminar com isto, as mulheres podem e quando lá chegam, muitas vezes, são confrontadas com estigma de que conseguiram por «vender o corpo» ou ser bonitas". Revela que foi vítima de "assédio sexual no trabalho", que fez queixa e que "não deu em nada pois em causa estava um homem". Lamenta o sucedido, mas não o facto de ter feito o que deveria pois, tal como frisou, "estava a trabalhar".

Susana Fernandes também falou com a Voz da Planície. Professora de profissão, e a exercer em Beja, tem 45 anos de idade.

Susana Fernandes frisou que "é bom valorizar esta data, especialmente numa atualidade onde a violência contra as mulheres continua a ser praticada e a aumentar". Relevou que "é preciso estar-se alerta" nesta matéria.

Deixou, igualmente, uma mensagem a todas as mulheres, pediu que continuem a "manifestar-se e a lutar pelos seus direitos. Todos são iguais".

Soraia Tavares, de 28 anos de idade, trabalha em Beja e vive na cidade. E confessou à nossa rádio estar a passar por um "situação pessoal complicada devido a um processo de separação".

Deixou no seu depoimento "as dificuldades que as mulheres ainda hoje sentem quando há separações. No tratar os filhos continua a ideia de que é a mulher que deve ficar em casa com eles e impedida muitas vezes até de sair para tomar um café com as amigas".

Deixou claro que celebra "todos os anos o Dia Internacional da Mulher". E que "os pais têm de estar presentes na vida dos filhos tal como as mulheres. Separam-se mas não deixam de ser pais".

Maria Rodrigues, tem 53 anos de idade e vive em Beja. Trouxe para esta conversa a propósito do Dia Internacional da Mulher, alguns dos "lados fundamentais que muitas vezes não se valorizam como deveriam".

Falou sobre o ser "mãe e tomar conta da família a tempo inteiro", assim como as dificuldades em se conciliar "tudo isto com a vida profissional".

Salientando que "dia das mulheres é todos os dias", fez questão de realçar que "ser mulher tão bonito como complicado".

No final deixou o registo de que "todas as mulheres são guerreiras".

Fernanda Raposo, tem 40 anos e vive, assim como trabalha, na capital de distrito.

Começou por dizer que "aos poucos as mulheres vão conseguindo os seus objetivos, mas há matérias onde ainda estamos longe dos homens, como é o caso dos salários".

"As oportunidades no trabalho também ainda não são iguais para homens e mulheres", frisou, deixando, contudo, o comentário de que "lá chegarão".

No final exortou "todas as mulheres a lutarem pelos seus direitos", recordando que "este, o direto de lutar sempre, assim como outros, ninguém pode tirar".



Habitação: propostas do Governo desconhecidas pela maioria dos jovens

in Rádio Voz da Planície

A Voz da Planície dá início hoje a um conjunto de notícias, com diversas abordagens, sobre a temática da habitação. Nesta segunda-feira, a nossa rádio saiu à rua e foi ouvir os jovens sobre as propostas anunciadas pelo Governo.

Intervir para aumentar a oferta de imóveis que podem ser utilizados para fins de habitação, simplificar os processos de licenciamento, assegurar que há mais casas no mercado de arrendamento, combater a especulação imobiliária e apoiar as famílias, quer no contrato de arrendamento, quer no crédito à habitação, são os objetivos identificados pela tutela sobre as medidas que revelou recentemente.

Recordamos que António Costa acenou, ainda, com a possibilidade do Governo recorrer ao "arrendamento compulsivo" de fogos vazios, passando o Estado a cobrir o pagamento de uma parte das respetivas rendas.

No caso do arrendamento compulsivo das casas que estejam devolutas, o Governo adiantou que serão colocadas no mercado, com rendas acessíveis, através de concursos públicos.
Voz da Planície falou com quatro jovens que trabalham e vivem em Beja. Estão em faixas etárias em que já pensam nas questões da habitação e neste âmbito ouvimos as suas expetativas, os problemas que enfrentam e acima de tudo que desconhecem, em matéria de apoios ao arrendamento e aquisição de habitação, as propostas do Governo.
Nuno Silva tem 36 anos, vive e trabalha em Beja. Foi claro quando referiu que só “conseguiu arrendar casa com a ajuda de amigos”, reconhecendo que “esta oferta em Beja é reduzida e difícil de encontrar”.

Sabe que existem apoios para o arrendamento, mas reclamou que “muitas destas ajudas acabam nos 35 anos”. Neste âmbito frisou que já é “velho para estes apoios” e que “não tendo ainda a vida estabilizada, comprar não é para já uma possibilidade”. Quanto às medidas divulgadas, recentemente, pelo Governo, sublinhou que as desconhece, embora seja uma pessoa atenta às notícias.

Rui Ávila tem 27 anos, é farmacêutico e trabalha em Beja. Vive há “dois anos num quarto perto do local do emprego” e assegura que “não pensa, para já, em adquirir casa para habitação”.

Quanto às medidas divulgadas pelo Governo, foi claro quando referiu que as desconhecia.
Vera Brito tem 32 anos, vive em Beja, mas trabalha em Ferreira do Alentejo. Vive numa casa arrendada e comprar está “fora dos seus horizontes”. Queixou-se das “dificuldades que existem em encontrar uma casa para arrendar” na cidade. Sobre as medidas de apoio ao arrendamento, confessou “não conhecer”. Disse, contudo, que iria ficar atenta.

Cristina Silva tem 30 anos e vive em Beja. O agregado familiar que integra é composto por cinco pessoas e a habitação é arrendada. “Os preços elevados para arrendar” e “as dificuldades encontradas junto das instituições bancárias para comprar” foram apontados como entraves sérios nesta matéria. Depois desta conversa com a nossa rádio ficou alerta para as novidades.

Amanhã, e nos próximos dias, esta vai ser uma matéria para continuar a analisar aqui na Voz da Planície.

Recordamos, entretanto, que as medidas apresentadas pelo Governo são discutidas durante um mês, publicamente, prevendo-se a sua ratificação formal para o Conselho de Ministros de 16 de março.

As propostas, segundo o primeiro-ministro, atingem “os mais carenciados, os jovens e as famílias de classe média”.

3.3.23

Beja promove formação em animação com idosos

in Rádio Pax

O Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza realiza nesta segunda e terça-feira uma ação de formação sobre “Animação Sociocultural com Idosos”.

Desta forma pretende “definir o conceito de Animação no que concerne às diferentes áreas de intervenção”.

De acordo com o Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza, “as instituições que trabalham com população idosa, só conseguem atualmente oferecer-se como instituição de referência se se apresentarem com objetivos definidos, que visem as necessidades dos seus atuais e futuros utilizadores”.

A formação está a cargo de João Barata Lima Fernandes, Licenciado e Mestre em Psicologia, Docente no ISPA e Formador Sénior na área da Gerontologia.

Esta iniciativa é direcionada a dirigentes, diretores técnicos e técnicos de entidades públicas e privadas, Instituições Particulares de Solidariedade Social, Organizações Não-Governamentais e Misericórdias.

14.2.23

EAPN de Beja: Gestão e desafio das Migrações com novas medidas

 in A Planície

Segundo a EAPN – Rede Europeia Anti-Probreza de Beja, Portugal encontra-se a executar o Plano Nacional de Implementação do Pacto Global para as Migrações (PNI PGM), desde 21 de agosto de 2019.

No âmbito dos trabalhos do International Migration Review Forum (Fórum Internacional de Avaliação das Migrações) que decorreu na sede das Nações Unidas em Maio de 2022, o nosso país assumiu o compromisso de rever o Plano e de adaptar as suas políticas públicas na gestão das migrações e dos desafios que as dinâmicas e realidades internacionais e nacionais exigem.

Deste modo, está em curso um processo de revisão das medidas do documento e para o qual estão a contribuir as entidades envolvidas, também com a sociedade civil na
definição de medidas que contribuam para a melhoria das políticas de
acolhimento e integração de migrantes.


Até 15 de Fevereiro pode contribuir com o envio de propostas de medidas para o endereço de email pnipgm@acm.gov.pt

6.2.23

Rede Anti-Pobreza de Beja tem “grandes desafios” para concretizar este ano

 

in  Rádio A Planície

O Governo português já definiu a Estratégia nacional contra a pobreza para 2023, coordenada por Sandra Araújo, que trabalhou mais de 30 anos na EAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza.

Com o plano definido, importa agora passar à acção. Para saber qual o ponto de partida da EAPN da capital do Baixo Alentejo, a Planície conversou com um dos responsáveis, João Martins, onde foi assumido que este “é um problema não só do país, mas de todos nós. É preciso procurar a dignidade humana com políticas sociais e maior proximidade do trabalho em rede”. Este é por isso, “um grande desafio que temos em mãos” e a que “ninguém pode ficar indiferente”.

Com uma realidade diferente de distrito para distrito, a rede já identificou os principais problemas que afectam a área de Beja e que contribuem para o aumento das condições de vida as pessoas. Desde logo, “um problema demográfico, o envelhecimento da população, com muitos idosos, muitas vezes isolados. É um distrito onde temos uma comunidade cigana em situação de pobreza e novas questões de integração dos migrantes”.

Outro problema identificado no Alentejo e que não é novidade, é a “capacidade de fixação e atracção de pessoas” para a região, facto que influencia os dados demográficos. Na opinião de João Martins, o projecto de Alqueva, “alavanca inúmeras oportunidades”, mas a dificuldade é “encontrar pessoas para trabalhar”, questões que estão em cima da mesa e que importa agora, “arranjar soluções com propostas concretas”.

A Rede Europeia Anti-Pobreza de Beja está a trabalhar em rede, com a Estratégia nacional de combate a um problema social, que a todos diz respeito.

1.2.23

“Explorados por todos”, os imigrantes encontram refúgio neste bar de Bejas”, os imigrantes encontram refúgio neste bar de Beja

Andreia Friaças,  in Público

Em Beja, Os Infantes tornou-se um abrigo para imigrantes: é aqui que aprendem e ensinam. Há várias histórias por ouvir — desde os caminhos que se fizeram ao luar até às batalhas que enfrentam.

Quando o sol se esconde, vários rapazes caminham até ao coração de Beja. Junto à conhecida Praça da República fica a Rua dos Infantes, uma das poucas que mantêm as suas paredes com cor. Lê-se “Beja, cidade antifascista”, escrito a vermelho, ao lado de um cravo pintado. Uns passos à frente, um corpo feminino desenhado numa porta, vários autocolantes com palavras de oposição ao ódio e à xenofobia.

É nesta rua que encontramos Os Infantes, um conhecido bar de Beja, que abriu portas em 1983. Na década de 1980, serviu de palco a António Variações ou Madredeus — agora, continua a resistir à música comercial. É um espaço para dançar, jogar setas e xadrez, ou simplesmente combater o frio com dois dedos de conversa. Mas é durante o dia que este bar ganha uma nova identidade.

—​ Salaam Aleikum!

Maria dos Santos dá as boas-vindas em árabe. Pelas 18h, começam a chegar os alunos às suas aulas de Português. A maioria são rapazes, do Senegal, fluentes em uolofe, uma das línguas da África Ocidental. Sobem as escadas apressados, deixam as mochilas junto ao palco, e os olhares recaem sobre o quadro, colocado ao lado da máquina das setas. “As aulas são ao sábado, mas mesmo assim eles têm de vir a correr do trabalho”, diz Maria, professora de Português há 21 anos.

Ana Ademar pertence à Ressurrectos, uma associação cultural de Beja que também se dedica à integração e apoio da comunidade imigrante. Em conversa com Patrícia Santos e Ricardo Caseiro, que também fazem parte da associação, surgiu a ideia de avançar com as aulas de árabe e português. E o projecto funciona com a ajuda de todos: Patrícia recolhe as inscrições para as aulas no seu café, a Pracinha, e Ricardo, que trabalha com imigrantes, passa a palavra sobre os cursos.

Ao longo de seis meses, esta turma de 15 alunos aprende Português de forma prática: a ler anúncios de jornal, a explicar sintomas de doenças ou a partilhar opiniões. “Vêm do trabalho suados, cansados, fatigados, mas vêm sempre”, repara a professora. “É que aqui a necessidade de aprender é muito forte.”

“Arrependo-me muito de ter vindo”

Cada aluno guarda em si muitas histórias à espera de serem ouvidas: seja da infância, das dificuldades ou das lutas que continuam a enfrentar. Na última fila da aula, sentam-se Cristina e Nicusor Paraschiv. São de Soveja, uma pequena comuna na região da Moldávia. Cresceram a uma rua de distância e trazem imediatamente à memória os anos de infância em que se encontravam para dar mergulhos no rio ou para fazer bonecos de neve junto às suas casas.

Em criança, Nicusor já trabalhava com os pais a cortar árvores nas florestas. Como o trabalho ficava a mais de 300 quilómetros de casa, tinham uma “casa de madeira" que levavam agarrada ao tractor, de floresta em floresta. "Vivíamos nessa barraca. Fazia muito frio de noite, não tínhamos cozinha nem casa de banho. Fazíamos lume para nos aquecermos e para cozinharmos”, conta Nicusor. "Nessa altura, nem tinha sapatos. O meu pai arranjou-me umas botas, mas de cores diferentes. Uma era vermelha e outra verde. Ficava cheio de vergonha.”

Ao longo dos anos, a vida não melhorou. “Era difícil arranjar trabalho e os que havia eram mal pagos”, diz Nicusor. “Nós queríamos ter uma vida melhor, conseguir sair de casa dos pais. Queríamos construir a nossa própria casa”, acrescenta Cristina, de 33 anos.

Umas mesas à frente, na primeira fila, está sentado Papa Amet. Cresceu numa família de 17 irmãos em Tambacounda, no Senegal. Aos 14 anos saiu da escola e começou a trabalhar como padeiro. “No Senegal, crescemos com a mentalidade de que temos de cuidar da nossa família, temos de assumir a responsabilidade”, conta o senegalês, agora com 36 anos.

Em 2007, partiu em busca do “sonho europeu”. Uma empresa do Senegal precisava de mão-de-obra na Europa e Papa viajou, num grupo de 75 pessoas, até Espanha. “Sonhava muito com a Europa, achava que ia ter uma vida melhor”, confessa. Entretanto, passaram-se 15 anos. “Agora arrependo-me muito de ter vindo.”

“A experiência da minha vida”

A tendência é comum no Alentejo, e Beja não é excepção: nos últimos anos, o número de imigrantes não parou de subir. Em 2021, havia 15.953 imigrantes a viver no distrito — mais do dobro do que em 2015 (7445), segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Muitos vêm de países como a Índia, Senegal, Guiné-Bissau, Cabo Verde ou Timor-Leste. Entre 2020 e 2021, Beja foi a segunda cidade do país a registar uma maior subida de imigrantes residentes (13,2%), a seguir a Viana do Castelo (21,7%).

Muitos vivem em Beja pela necessidade de mão-de-obra das explorações agrícolas, mas chegam sem conhecimento da língua, das condições de trabalho ou dos seus direitos — tornando-se, assim, um grupo vulnerável, afectado pela pobreza, discriminação e exclusão social.

Para contrariar esta situação, Ana Ademar, responsável pelo Os Infantes, quis ceder o seu bar para ajudar a comunidade imigrante — e o primeiro passo foi ensinar a língua portuguesa. Conseguiram o apoio do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), que ficou responsável pela formação, e as aulas arrancaram no ano passado, com esta turma.

“Foi a experiência da minha vida”, começa por dizer a professora Maria dos Santos, que trata carinhosamente os seus alunos por “meus meninos”. “Foi uma lição para mim. Para eles, aprender é uma necessidade premente para se integrarem na sociedade, para comunicarem”, justifica.

Além da aprendizagem, esta turma tornou-se uma rede de entreajuda: ora os alunos levam e partilham sacos de comida, ora a professora faz bolo e chá para as aulas e junta-se às videochamadas que os estudantes fazem com a família. Ao longo do tempo, também foi aprendendo com eles palavras em árabe — seguindo a lição do pedagogo Paulo Freire de que o aprender completa-se com o ensinar.

No entanto, nota que o mais importante é ter empatia para ouvir as dificuldades dos alunos. “As condições em que muitos viviam deixaram-me chocada”, afirma. Um deles, por causa do trabalho excessivo, teve de ser operado ao coração de urgência. “Fiquei tão preocupada”, suspira a professora, que foi a primeira a ir visitá-lo ao hospital.

“Sem eles, não teríamos vinho nem azeite”

Durante a pandemia, as más condições em que os imigrantes trabalham estiveram debaixo de atenções devido a um surto de covid-19 entre os trabalhadores de Odemira. Mas esta é uma realidade que se mantém e que se estende a vários lugares. Em Portugal, os imigrantes continuam a estar mais representados nos grupos profissionais menos qualificados, mais precários, mais expostos à instabilidade e à possibilidade de acidentes.

No entanto, é cada vez mais gritante a importância que têm para a economia do país — não só pelas suas contribuições (em 2021, os imigrantes contribuíram com 1200 milhões de euros para a Segurança Social), mas também porque, sem eles, vários sectores económicos “não sobreviveriam ou entrariam em colapso”, lê-se no relatório anual do Observatório das Migrações.

A agricultura é um destes sectores. “Temos de perceber que os imigrantes são necessários e importantes. Sem eles, não teríamos vinho nem azeite. Porque nós não queremos ir trabalhar para o campo, é um trabalho muito duro”, defende Ana Ademar.

Eles são explorados por todos. Pelos senhorios, pelas pessoas que os trazem para Beja ou pelas herdades onde trabalham”, acrescenta Ana, que critica a falta de preocupação das herdades em relação às condições de vida dos trabalhadores, escusando-se “por serem contratados através de empresas de trabalho temporário”.

As críticas vêm de todas as frentes. Papa Amet é um dos muitos homens que continuam a trabalhar no campo. No Verão só descansa ao domingo, passando os outros dias na labuta, debaixo de sol, com temperaturas que facilmente ultrapassam os 40 graus. Já no Inverno, a actividade é irregular. “Sempre que chove, não trabalhamos e não recebemos”, exemplifica o senegalês, que nos últimos meses não consegue receber mais de 700 euros.

“Depois de 15 anos na Europa a trabalhar, continuo a não ter vida”, diz. Está sozinho em Beja e nunca viu o seu filho, de 12 anos: “Ele está com a mãe e agora foram para o Brasil. Eu não posso ir lá, não tenho os documentos, não consigo sair e entrar do país. E não consigo que ele venha cá.”

Trabalhar e não ter dinheiro para comer

Mukesh Kumar é outro aluno das aulas de Português. De 38 anos, natural da Índia, é formado em Design Gráfico e foi já há dois anos que fez as malas rumo à Europa para encontrar trabalho na sua área.

Primeiro, mudou-se para a Ucrânia, mas as dificuldades continuaram. Trabalhou na construção civil, a entregar comida de bicicleta e meses depois assistiu ao início dos ataques da Rússia. Tal como milhares de pessoas, Kumar acabou por fugir da guerra: cruzou a fronteira da Polónia, seguiu para a Alemanha, apanhou um comboio para Paris, um autocarro para Espanha, outro para Lisboa e finalmente o comboio para Beja. “Um amigo disse que aqui havia trabalho”, diz Kumar, que chegou à cidade com 20 euros no bolso. Agora, trabalha no grupo Vale de Rosa, através de uma empresa de trabalho temporário.

Moustafa Drame, 28 anos, também deixou o seu país, Senegal, em busca de uma vida melhor. Trabalha na agricultura e, graças às aulas de Português, esforça-se por encontrar palavras que expliquem como este é um trabalho “muito irregular”, recordando a megaoperação, levada a cabo em Novembro, que levou à detenção de 35 pessoas por tráfico humano em rede, que exploravam centenas de imigrantes em Beja.

“Nessa semana, fiquei cinco dias sem trabalhar e sem receber. Como havia mais controlo policial, a empresa disse que queria verificar a documentação e disse para não irmos”, recorda Moustafa, que trabalha nesta empresa de exploração agrícola há mais de um ano. “Nunca sabemos muito bem com que dinheiro chegamos ao final do mês”, reforça.

“Os trabalhadores migrantes podem ter as suas profissões nos seus países, mas aqui só conseguem trabalhar na agricultura”, lamenta Mukesh. “A vida na agricultura é dura. Às vezes não há dinheiro para pagar a renda da casa ou dinheiro para comer”, acrescenta. “É muito difícil”, vai repetindo.

Dividir casa com 20 pessoas

A habitação é outra das batalhas que a população migrante enfrenta: muitos vivem em casas sobrelotadas, precárias e sem infra-estruturas básicas, como água ou luz. No Plano Municipal para a Integração de Migrantes de Beja de 2022, em que foram entrevistados 250 imigrantes, quase metade (44%) diz viver apenas “em parte de casa”, em situação de habitação ou quarto compartilhado.

Nesta cidade, espaços como antigos restaurantes, farmácias, ex-pensões ou armazéns estão a ser arrendados a imigrantes, mesmo que estejam em estado obsoleto ou degradado. No caso de Kumar, divide casa com 20 pessoas — e partilha o quarto com quatro homens. “Não gosto de dividir o meu quarto. Mas sinto-me impotente. Tenho de partilhar”, afirma.

Papa Amet partilha uma história semelhante. Quando chegou à Europa, vivia numa casa antiga, em Espanha, junto ao campo onde trabalhava. Lá moravam 75 pessoas. Agora, em Beja, continua a não conseguir ter o seu próprio quarto. Divide casa com 14 pessoas e paga, por um quarto partilhado, 190 euros de renda. “Não dá para viver em condições”, desabafa.

“É importante trabalharmos esta ideia de que todos podemos aprender uns com os outros”Saeid Shakra, natural da Síria

“Beja é uma cidade pequena: as pessoas, as autoridades sabem quais são os espaços que se estão a aproveitar destes imigrantes”, critica Ana Ademar. “Não podemos olhar mais para o lado.”

Do português para o árabe

A situação da comunidade imigrante em Beja é complexa — mas a ajuda na integração pode vir de todos os lados. “Podemos começar por perceber como os podemos fazer sentir respeitados e valorizados”, defende Ana Ademar.

Para dar o exemplo, neste bar não se aprende apenas Português. Em breve, Saeid Shakra vai começar a dar as suas aulas de Árabe — e, desta vez, são os portugueses que se sentam para aprender. “É importante trabalharmos esta ideia de que todos podemos aprender uns com os outros”, começa por dizer Saeid na companhia do seu filho mais velho, Abdullah, que ajuda o pai a encontrar as palavras em Português.

Saeid é natural de Hamã, uma cidade da Síria “cheia de artistas e poetas”, diz, sorridente. Em criança, o país vivia sob a alçada do regime de Hafez al-Assad, que causou a morte e o desaparecimento de milhares de pessoas — incluindo o seu pai. Em 2015, Saeid, a mãe Enaam, a mulher Batol e os três filhos abandonaram a Síria.

Atravessaram o país a pé, durante mais de cinco horas, pelas montanhas, pelos rios, escondidos da polícia, até chegarem à Turquia. "Caminhávamos só com a luz da lua”, diz Saeid. "Tínhamos de fugir. Vivíamos com medo. Tínhamos dificuldade em ter água para viver, em ter luz, em ter uma casa”, recorda Abdullah, de 22 anos.

Não conheciam Portugal mas, graças a um programa de apoio a refugiados das Nações Unidas, conseguiram apoio para viver em Beja. “Quando fugimos da Síria, combinámos que, para onde quer que fôssemos, iríamos tornar aquela a nossa cidade”, diz Saeid, que encontrou trabalho como auxiliar num centro de paralisia, enquanto Batol trabalha como cozinheira. Os três filhos estão integrados na escola e o mais velho, Abdullah, conseguiu passar no exame de admissão e entrar no curso de Informática no Instituto Politécnico de Beja.

“Beja acolheu-nos e nós queremos retribuir, fazer parte da comunidade”, sublinha Saeid, que começou por organizar um evento, no Centro de Cultura de Beja, para dar a conhecer os pratos típicos da Síria e com aulas de Árabe. “Percebi que havia interesse em aprender. Tive uma aluna que vinha de Sines duas vezes por semana para ter aulas comigo.”

“Queria muito ensinar árabe aos portugueses, é uma língua muito bonita”, acrescenta. Por enquanto, aguarda que mais pessoas se inscrevam nas suas aulas, que irão ser dadas no bar Os Infantes. “Este é o meu grande sonho”, sorri.

“O futuro… fica no futuro”

Ao fim de nove anos em Beja, Nicusor e Cristina já se sentem em casa. Às vezes vão comer ao McDonald’s da cidade ou andar de bicicleta. “Mas não saímos muito, estamos aqui há tanto tempo e mal conhecemos a cidade”, lamenta Cristina. “Estamos sempre ocupados, a trabalhar”, justifica.

Nicusor conseguiu sair da agricultura e trabalha numa empresa de limpeza em Portalegre. Dada a distância, só vai a casa ao fim-de-semana, o que fez com que Cristina deixasse o seu trabalho e ficasse em casa, a cuidar dos seus filhos de dois e dez anos. Ainda assim, nos próximos tempos, gostava de voltar a trabalhar. “Nas limpezas, por exemplo”, afirma.

Mas, com a azáfama do dia-a-dia, ter sonhos ou pensar no futuro é, para muitos, um privilégio. “Aqui não podemos pensar muito no futuro. O futuro… fica no futuro”, diz Kumar, que ainda sonha conseguir um trabalho na sua área, como designer gráfico. Já Moustafa gostava de deixar de trabalhar na apanha e ter formação para conduzir tractores. “Queria arranjar um emprego fora do campo. Ter uma vida digna”, diz. No caso de Papa, sonha ver o filho pela primeira vez. “Eu estou aqui sozinho, não tenho nada, só vivo para trabalhar. Sinto-me triste”, confessa.

Numa cidade que perde, de ano para ano, dezenas de habitantes, receber e integrar a comunidade imigrante não só é uma questão de direitos humanos — é “fundamental para o funcionamento da cidade”, defende Ana Ademar.

“A autarquia tem de agir, mas a comunidade também se pode envolver de várias formas”, considera Ana, recordando o dia em que organizaram sessões de cinema sob o tema da imigração ou quando transmitiram numa tela gigante na Praça da República a final da Taça das Nações Africanas.

N’Os Infantes, a primeira turma chegou à última aula. Fizeram-se aqui novas amizades, houve alunos que até se inscreveram nos clubes de futebol da cidade e certamente “todos ganharam ferramentas para se integrarem melhor”, defende a professora Maria dos Santos. "Os imigrantes são cidadãos de pleno direito. É nosso dever de cidadania integrá-los”, reitera a professora.

Agora, é altura de iniciar uma nova turma de Português, de Árabe... e do que estiver por vir. “Que ameaça pode haver em pessoas que querem ter uma vida melhor?”, questiona Ana Ademar. "Tudo aquilo que podemos aprender uns com os outros…", discorre Ana, que nos desafia com uma pergunta. "Não teremos todos a ganhar?"Texto de Andreia Friaças, leitura de Inês Bernardo e edição de Ana Zayara Coelho.

24.1.23

Há 853 cidadãos da comunidade cigana de Beja que vivem em barracas e tendas

Carlos Dias,  in Público

20.12.22

Cáritas de Beja sinalizou 289 sem-abrigo - 73 portugueses e 216 imigrantes

in Rádio Voz da Planície

São 289, as pessoas em situação de sem-abrigo, sinalizadas pela Cáritas Diocesana de Beja, de janeiro a novembro deste ano. Destas, 73 são portuguesas e 216 imigrantes. Entretanto reuniu-se o Npisa de Beja para dar resposta a esta problemática.

“A larga maioria dos sem-abrigo sinalizados são homens, mas também há mulheres. Os sem-abrigo homens apresentam um perfil de maior solidão, as mulheres, normalmente, têm companheiro, não estando sozinhas em situação de fragilidade. As questões de consumos ou de doença mental contribuem para um maior prolongamento no tempo”, avança o Diário do Alentejo.

Os dados dizem que as pessoas nesta situação têm vindo a aumentar, apesar do Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, realizado pelo Grupo de Trabalho para a Monitorização e Avaliação da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação Sem-Abrigo, referente a 2021, indicar "um decréscimo de cerca de dois por cento em relação ao ano anterior".

A funcionar desde março deste ano, o projeto “Estou Tão Perto que Não me Vês”, da Cáritas Diocesana de Beja, pretende ajudar estas pessoas a sair da situação de "vulnerabilidade, dando-lhes o tempo que é o tempo delas, sensibilizando, em simultâneo, a comunidade para um problema que tanto pode estar à vista de todos, como entre quatro paredes, envergonhado. E dar rosto, e voz, a quem, normalmente, não o tem".

Reuniu-se, entretanto, e pela primeira vez, o Npisa de Beja, no passado dia 6. Câmara, Cáritas, Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), Segurança Social, Centro de Respostas Integradas, Associação Estar, Santa Casa da Misericórdia, Polícia de Segurança Pública (PSP), Guarda Nacional Republicana (GNR), Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA) e Rede Europeia Anti Pobreza debateram, analisaram e avaliaram as principais estratégias do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (Npisa) da cidade.

Segundo Marisa Saturnino, vereadora da Câmara de Beja, a reunião, que deu início ao Npisa, serviu para perceber como se podem “rentabilizar alguns recursos e permitir que a intervenção seja mais eficaz e sem superposição” e avançar-se, “eventualmente, com algumas respostas de urgência, caso haja possibilidades para isso”.

Garante, Marisa Saturnino, que para já não quer “adiantar muito para não criar falsas expetativas relativamente aquilo que pode ou não acontecer”, mas confirma uma nova reunião, em janeiro, para “analisar documentação e implementar protocolos”.

O Npisa é um núcleo de intervenção criado, sempre que a dimensão do fenómeno de pessoas em situação de sem-abrigo o justifica, entre os municípios e as entidades do setor, público e privado, do emprego, segurança social, educação, saúde, justiça, administração interna, obras públicas, ambiente, cidadania e igualdade.

O Npisa visa "conseguir ter um diagnóstico mais fiel da realidade social e, consequentemente, assegurar diferentes tipos de respostas, como equipas de rua diurnas e noturnas, equipas gestoras de caso, espaços de acolhimento diurno e noturno, habitações, cantinas e refeitórios sociais, serviço de medicação", explica, igualmente, o Diário do Alentejo.

19.12.22

Beja debate problemas dos migrantes

in Rádio Pax

Esta quarta-feira fica marcada pelo debate “Migrantes que futuro para o Distrito de Beja”.
Trata-se de uma iniciativa do Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza.

As necessidades crescentes de mão-de-obra trazem à região muitos migrantes.

A Rede Europeia considera que é preciso garantir a dignidade dos migrantes em termos de habitação, salários e contratos de trabalho e combater o tráfico de seres humanos.

Vários especialistas portugueses e espanhóis juntam-se, durante a tarde nas instalações da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL) para debaterem e encontrarem soluções para integração dos migrantes.

João Martins, coordenador do Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza, realça que a situação dos trabalhadores estrangeiros há muito que preocupa a Rede.

2.12.22

Migrações no distrito de Beja hoje em debate na Rede Europeia Anti-Pobreza

in Planície

A reunião online que faz parte da agenda da EAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza para as migrações no distrito de Beja, acontece hoje entre as 15h00 e as 17h00 via Zoom.

A acção resulta do I Seminário de Cooperação e Desenvolvimento Rural realizado pela Fundación CEPAIM, (vocacionada para as dinâmicas sociais relacionadas com a migração e os processos de exclusão social) em 19 e 20 de outubro de 2022, no qual participaram actores da zona transfronteiriça como potenciais promotores de candidaturas a projectos financiados pela União Europeia.

Foi acordada na altura pelos envolvidos, a necessidade de activar o território para uma forte cooperação e promoção do desenvolvimento rural, mediante a construção de uma agenda conjunta da Euro Região AAA (Andaluzia, Algarve e Distrito de Beja), com enfoque particular no tema das migrações. O objectivo é o de criar uma agenda distrital para as migrações integrada numa agenda conjunta da Euro Região Andaluzia, Algarve, Baixo Alentejo.