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7.9.23

Cáritas. Números da pobreza em Portugal são "assustadores"

in RR

Rita Valadas alerta que instituição tinha famílias doadoras que agora precisam de ajuda.
A presidente da Cáritas portuguesa, Rita Valadas, considera assustadores os números divulgados, esta quarta-feira, pelo primeiro Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade. Em declarações à Renascença, Valadas explica que os números agora conhecidos são inéditos e que há cada vez mais pessoas em situação de pobreza.

"Não é de estranhar que as pessoas que começaram - já há muito tempo e com crises sucessivas - a encontrar soluções alternativas para cortar tudo quanto podiam cheguem a este ponto. É assustador porque, de acordo com o estudo, 50% das pessoas não têm capacidade para pagar as suas despesas mensais. Nós, neste momento, estamos a falar de 50%. Nós nunca falamos de 50% de pessoas em situação de pobreza", alerta.

A presidente da Cáritas realça que os indicadores presentes no Barómetro revelam "pessoas que têm vindo a ver a sua capacidade de reagir a estas crises sucessivas, aos encontrões que levam na capacidade de usar o seu rendimento para pagar despesas que são, cada vez mais, de primeira necessidade. E são novas, não são as mesmas pessoas", esclarece.

Os dados do barómetro revelam que quase metade dos europeus desistiram de aquecer as suas casas no inverno, devido a uma situação económica difícil. Por outro lado, os países onde se sentem mais dificuldades também são mais solidários. É o caso de Portugal, onde 84% dos inquiridos mostra-se disponível para ajudar pessoas que vivem na pobreza. Rita Valadas lembra o período de pandemia, onde a solidariedade dos portugueses foi fundamental no apoio às dificuldades sentidas.

"Nós somos um país absolutamente fantástico no que diz respeito à solidariedade. Durante o tempo de pandemia houve um aumento de solidariedade que foi importantíssimo, porque o setor solidário foi inquestionável no apoio e na resolução das situações mais difíceis."
"Tínhamos famílias que eram doadoras e que estão, neste momento, a passar dificuldades"

A presidente da Cáritas distingue as estatísticas da realidade que diz ver na rua. Designando-se "técnica do terreno", considera que, "se olharmos só para os números, se calhar conseguimos fazer uma estatística bonita". "Mas eu sou técnica do terreno e as pessoas não saíram da situação".

Rita Valadas esclarece que o setor social não está a ser capaz de retirar as pessoas da situação de pobreza.

"Tristemente - eu gostava muito de não ter que dizer isto, mas o que nós estamos a falar são pessoas de quem o setor solidário cuida, não retirando da pobreza porque não conseguimos sair da emergência."

A dirigente dá o exemplo da campanha "inverter a curva da pobreza", que a organização humanitária lançou em 2020 e mantém a decorrer, que ficou "muito àquem das necessidades".

Valadas alerta, ainda, que o estrangulamento financeiro das pessoas está a comprometer as doações e a dificultar o trabalho do setor solidário.

"Os donativos já vêm sendo cada vez menores. Nós temos famílias que eram doadoras e que estão, neste momento, a passar dificuldades, para as quais nós tivemos de encontrar soluções, porque elas próprias também estão em situação de risco", remata.

10.5.23

Emprego não protege famílias vulneráveis da pobreza, diz Cáritas

in Observador


"Os bons resultados do país ainda não têm consequências na vida das pessoas. E ainda não há nada que nos diga que isso vai melhorar", sublinhou Rita Valadas.


O emprego não protege as famílias muito vulneráveis da pobreza, alertou esta terça-feira a presidente da Cáritas Portuguesa, revelando um aumento “quase permanente” de pedidos de ajuda desde a crise pandémica.

“Infelizmente, o emprego deixou de ser uma garantia. O emprego, para as famílias muito vulneráveis, não salvaguarda as pessoas da situação de pobreza. (…) As pessoas têm um rendimento que sobe pouco e têm encargos que sobem muito”, disse Rita Valadas.

Em declarações à Lusa por telefone, a presidente da Cáritas Portuguesa adiantou que a organização da Igreja Católica para a caridade social tem tido “um aumento quase permanente do número de pedidos de ajuda” desde a pandemia, agravado pela guerra na Ucrânia e pela subida do custo de vida.

Rita Valadas explicou que se trata de uma “evidência inultrapassável” e que os apoios “não conseguem garantir o equilíbrio” orçamental das famílias, alertando também para a situação dos imigrantes.


“As pessoas vêm com expectativas de vida (…) que não encontram, porque nós [em Portugal] não temos como oferecer a garantia do equilíbrio socioeconómico das famílias. Por isso, elas estão a recorrer à Cáritas, nalguns casos alterando completamente a configuração da vulnerabilidade social que existe no território”, realçou.

Rita Valadas exemplificou com Beja, “uma cidade que não tinha muitas situações de sem abrigo” e que viu quintuplicar o número de pessoas a dormir na rua devido à imigração.

Apoiando as famílias que se encontram “na linha mais baixa da situação socioeconómica”, a Cáritas Portuguesa ajuda as mais vulneráveis com alimentação, vestuário e auxílio psicológico.

A presidente da Cáritas alertou ainda para o previsível agravamento da situação de pobreza das famílias nos próximos meses, avisando que “não há como não acontecer”.

“Os bons resultados do país ainda não têm consequências na vida das pessoas. (…) E ainda não há nada que nos diga que isso vai melhorar”, sublinhou.

“Os custos da alimentação e dos bens essenciais não baixaram e, por enquanto, ainda que os cabazes possam baixar um bocadinho [de preço], não sei se isso vai fazer muita diferença na vida das famílias, porque os outros custos aumentam todos. O equilíbrio, no fim do dia, é tudo para a menor capacidade e não o maior bem-estar”, acrescentou.

18.1.23

Comissão Justiça e Paz. “A economia, a empresa e o trabalho devem servir as pessoas, não o contrário”

Ângela Roque, in RR

Conferência anual promove diálogo entre trabalhadores e empresários cristãos sobre a importância de “salários justos” no combate à pobreza. Encontro, dia 21 janeiro, terminará com a apresentação de um manifesto.

“Salários justos contra a pobreza” é o tema da conferência anual da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP). A iniciativa realiza-se em parceria com a Cáritas Portuguesa, a Liga Operária Católica – Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC-MTC), a Juventude Operária Católica, a ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores), a ACR (Ação Católica Rural) e o Metanoia –Movimento Católico de Profissionais.

De acordo com a nota enviada à Renascença pela CNJP, a conferência pretende “destacar a importância deste diálogo entre trabalhadores e empresários cristãos na abordagem desta temática”, e mesmo “sem pretender uma completa sintonia quanto a medidas concretas”, considera “da maior relevância os princípios da doutrina social da Igreja”, que podem inspirar a reflexão e traduzir-se em “algumas formas de consenso”.

Entre esses princípios, recorda a nota, está o que defende o “primado da pessoa”, segundo o qual “a economia, a empresa e o trabalho devem servir as pessoas, e não o contrário”, sendo que “a justiça do salário não decorre necessariamente do consentimento das partes e das regras do mercado”.

A CNJP lembra, ainda, que “no combate à pobreza, é fundamental a criação de empregos justamente remunerados, mais do que a atribuição de subsídios estatais”, mas que no atual contexto “é sabido que o salário de muitos trabalhadores portugueses não lhes permite superar a pobreza. Alterar esta situação deverá ser um verdadeiro desígnio nacional que mobilize a sociedade civil e as autoridades políticas”.

“De empresários e trabalhadores são exigidos esforços no sentido da melhoria da produtividade e da formação profissional. Mas, a valorização dos salários também depende de uma mais justa repartição de rendimentos, da atribuição de uma maior parcela desses rendimentos aos do trabalho”, indica a mesma nota, sublinhando que o objetivo da Comissão Nacional Justiça e Paz, e das restantes organizações parceiras, com esta iniciativa é “apelar à realização desse desígnio nacional”.

De acordo com o programa divulgado, a abertura da conferência será feita por D. José Traquina, bispo de Santarém e responsável pela Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, e pelo presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, Pedro Vaz Patto.

José António Pereirinha, da Universidade de Lisboa, tem a seu cargo a intervenção inicial, sobre o “Rendimento Condigno em Portugal”. Segue-se a apresentação, pela Cáritas Portuguesa, do relatório ‘Cáritas Cares 2022’, sobre mercados de trabalho inclusivos. Américo Monteiro, da JOC – MTC, Gabriel Esteves, da JOC, e João Pedro Tavares, da ACEGE, falarão depois sobre “Salários justos contra a pobreza”, tema do manifesto que será apresentado no final do encontro.

A conferência anual da CNJP está marcada para o próximo sábado, 21 de janeiro, no Centro Cultural Franciscano, no Largo da Luz, em Lisboa.


2.12.22

Vila Real. Pedidos de apoio para pagar renda de casa ou medicamentos aumentam

por Lusa, in RR

São as famílias "de classe média baixa que, de repente, deixaram de conseguir fazer face às despesas" e famílias de estrangeiros, migrantes e refugiados, que mais solicitam ajuda.Os pedidos para apoio ao pagamento de rendas, medicamentos ou faturas de luz e gás aumentaram neste último semestre de 2022 em Vila Real, devido ao agravamento do custo de vida, segundo a Câmara e a Cáritas.

Cristina Melo, 46 anos, é uma das beneficiárias do programa de apoio ao arrendamento concedido pelo município. "É uma ajuda de 95 euros, que faz muita diferença para um salário de 730 euros", afirmou, especificando que a renda de casa é de cerca de 300 euros.

Contou que a sua situação económica ficou ainda mais difícil devido ao aumento generalizado dos preços e das despesas. Para ajudar, para além do trabalho como administrativa, trabalha ainda em "part-time" ao fim de semana.

Tem uma filha, já licenciada, mas a quem ainda dá uma ajuda, e tem também a mãe a viver consigo.

"Não sobra dinheiro. É ir às compras, marcas branca e trazer o essencial e nada mais. É mesmo tentar gerir para que ele (dinheiro) chegue até ao fim do mês", referiu.

A vereadora do pelouro da Ação Social, Mara Minhava, disse que quem tem recorrido à câmara são famílias "de classe média baixa que, de repente, deixaram de conseguir fazer face às despesas".

Pessoas empregadas, mas que por causa da inflação, do aumento dos preços e da perda do poder de compra estão a ter dificuldade em fazer face às despesas.

De acordo com a vereadora, o município está a ajudar atualmente 120 famílias com esta medida de apoio ao arrendamento e, segundo anunciou, o programa vai ser reforçado em mais cerca de "10% a 20%" em 2023.

Mara Minhava afirmou que também vai ser reforçado o financiamento do Fundo de Emergência Social Municipal, que permite um apoio financeiro excecional e temporário a agregados familiares carenciados, em emergência social grave, designadamente no âmbito da habitação, carência alimentar, dos cuidados de saúde e do apoio à educação das crianças e jovens.

"É para situações emergentes, que as pessoas não estão a contar. Por exemplo, uma criança que parte os óculos e os pais não conseguem pagar", exemplificou.

Estas duas medidas são, segundo a responsável, as que estão a ter mais procura.
Pedidos de ajuda estão a aumentar

"A situação está a agravar-se", afirmou Carlos Martins da Cáritas Diocesana de Vila Real, que especificou que os pedidos de ajuda estão a aumentar e, ao mesmo tempo, há também uma maior dificuldade por parte dos doadores.

O responsável disse que se nota um aumento das solicitações no último semestre de 2022, o que considera ser uma consequência do aumento generalizado dos preços e do agravamento da situação socioeconómica do país.

Este ano, 95 famílias já recorreram aos apoios pontuais e urgentes da instituição, para pagamento de faturas de água, luz, gás, medicação ou rendas.

"Os maiores pedidos neste momento são para medicação", afirmou Carlos Martins.

De acordo com o responsável, desde o início do ano chegaram à instituição 30 pedidos de ajuda para o pagamento de uma renda, tendo a Cáritas conseguido dar resposta a 14. A maior parte dos pedidos (19) foram feitos já neste último semestre de 2022.

A Cáritas atribui ainda vales para aquisição de bens essenciais a 71 agregados familiares.

Carlos Martins destacou ainda o aumento dos pedidos de apoio por parte de famílias de estrangeiros, migrantes e refugiados.

No primeiro semestre, a instituição atendeu 93 famílias de outras nacionalidades e, no segundo semestre, já foram atendidas 131 famílias, maioritariamente provenientes do Brasil (109), mas também Angola, Argélia, Cabo Verde, Marrocos, Nigéria, Ucrânia e Venezuela.

Os estrangeiros pedem ajuda para o pagamento de, por exemplo, faturas, medicação, bens alimentares e ainda roupas quentes para o inverno (cobertores, lençóis).

21.11.22

Número de pessoas sem-abrigo triplica em Beja, migrantes engrossam grupo

Rosário Silva, in RR

Desde o início do ano que a Cáritas da Diocese de Beja tem no terreno o projeto “Estou Tão Perto que Não Me Vês”. Há uma equipa que anda pelas ruas e um espaço de portas abertas para assegurar as necessidades básicas destas pessoas.

Migrantes timorenses engrossaram contingente de sem-abrigo. Foto: Nuno Veiga/Lusa

A Cáritas de Beja está preocupada com o aumento significativo de sem-abrigo na cidade. Em dois anos, triplicou o número de pessoas nessa situação.

O inquérito de caracterização desta população, de 2020, publicado no portal da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), revelava que a grande maioria se concentra na Área Metropolitana de Lisboa (AML), contudo por 100 mil habitantes, a situação mais preocupante é no Alentejo, nos concelhos de Alvito e Beja.

Só no concelho de Beja, com base nos atendimentos dos diferentes serviços internos da Cáritas, foram sinalizadas um total de 88 pessoas em situação de sem-abrigo, em 2020, número que este ano mais do que triplicou para 279.

“Se nos reportarmos a 2020, tendo por base os atendimentos da Caritas, foram sinalizadas 88 pessoas e, neste momento, já temos 279”, confirma, à Renascença Maria do Carmo Gonçalves, responsável pelo projeto “Estou Tão Perto que Não Me Vês” da Cáritas bejense.

O projeto começou em janeiro deste ano para se prolongar, pelo menos, até dezembro de 2023, com a finalidade de atender, acompanhar e integrar pessoas em situação de vulnerabilidade ou de risco e em situação de sem-abrigo no concelho alentejano.

Esta população, maioritariamente do género masculino e com uma média de idade a rondar os 45 anos, tem associadas várias problemáticas, tais como desemprego de longa duração, consumos aditivos, problemas ao nível da saúde mental e alcoolismo. Juntam-se os migrantes, que vieram à procura de trabalho, mas acabaram por ser explorados ou enganados. São de diferentes nacionalidades, com destaque para os timorenses que, ainda assim, foram já realojados.

“São de diversas nacionalidades. Temos, por exemplo, marroquinos, indianos, nepaleses, moldavos, mas a prevalência, sim, são pessoas de Timor”, esclarece a responsável.

Cáritas tem equipa de rua e espaço de porta aberta

Totalmente desprotegidos, os migrantes acabam a deambular pelas ruas da cidade, à espera da ajuda que chega das instituições de solidariedade social, como a Cáritas bejense.

No âmbito do projeto “Estou Tão Perto que Não Me Vês”, foi criada uma equipa de rua que, tal como o nome indica, tem como missão prestar apoios às pessoas que se encontram na rua, promovendo diversas campanhas de prevenção contra os incêndios, vagas de frio e de calor, identificando problemas de saúde e comportamentos aditivos, além de realizar o acompanhamento aos diversos serviços em caso de necessidade.

Foi também criado um “Drop In”, situado na Casa do Estudante, o espaço “estórias”, dotado de equipamentos e recursos que permitem às pessoas em situação de sem-abrigo receber apoio ao nível da alimentação, higiene e tratamento das roupas, medicação assistida e cuidados de saúde primários. No mesmo local, é prestado apoio psicológico e social.

Maria do Carmo Gonçalves assume que todos os recursos da Cáritas são poucos para fazer face às necessidades, mais ainda quando o número de pessoas que requerem ajuda aumentou.

No terreno, elege a falta de habitação como uma das maiores dificuldades no trabalho de intervenção. “A falta de habitação social e de centros de abrigo temporário, ou de emergência, tão necessários para quem está na rua, com diversas problemáticas associadas, são dificuldades que encontramos quando intervimos junto destas pessoas”, alude a técnica de ação social.

E a pouco menos de dois meses de 2023, que se espera muito difícil, as perspetivas não são nada animadoras.

“Estes aumentos de preços, o aumento das rendas, a inexistência de casas para alugar, o aumento das que existem, parece-nos que o crescimento da pobreza vai ser uma realidade. Nós acompanhamos com preocupação a situação de centenas de pessoas que vivem nas ruas de Beja e tememos também o despejo de pessoas idosas, sem recursos”, constata a mesma responsável.

Grupos vulneráveis devem ser “prioridade nacional”

Para refletir em torno dos desafios que se colocam à sociedade, sobretudo ao nível dos organismos públicos, para responder à realidade das pessoas em situação de sem-abrigo no concelho de Beja, a Cáritas diocesana promove esta quinta-feira, 17 de novembro, uma conferência sobre a temática.

“Pelo contexto de vida a que estão sujeitas, as pessoas em situação de sem-abrigo são uma população vulnerável com condições precárias e a quem muitas vezes o acesso a vários serviços públicos e apoios sociais existentes se torna bastante difícil, fazendo com que seja necessária uma intervenção articulada junto desta população-alvo, assegurando a informação clara dos seus direitos e a um atendimento personalizado para que tenham acesso aos mesmos”, lê-se na nota de apresentação do encontro.

Os promotores consideram que todos os grupos vulneráveis, onde se incluem as pessoas em situação de sem-abrigo, “devem representar uma prioridade de intervenção política nacional”, assumindo particular importância “no quadro da descentralização de competências para os municípios, sobretudo na área social”.

2.11.22

Pobreza. Classe média procura ajuda devido a aumento do custo de vida

in Sábado

A presidente da Cáritas, Rita Valadas, aponta que situação ocorre uma vez que "o rendimento dá cada vez para menos coisas".

O aumento do custo de vida está a provocar uma maior pressão junto das instituições de apoio alimentar como a Cáritas, que ajudam cada vez mais pessoas com emprego, mas cujo salário deixou de chegar para as despesas.

A presidente da Cáritas, Rita Valadas, disse à Lusa que a ajuda está a ser procurada por pessoas de classe média e média-baixa, uma vez que "o rendimento dá cada vez para menos coisas".

Rita Valadas afirmou que esta é uma crise que se caracteriza por "um aumento brutal do custo de vida" e que tem sentido um acréscimo das dificuldades para dar resposta às solicitações.

É que, aos novos casos, juntam-se os que já eram anteriormente acompanhados desde a pandemia e que não conseguiram deixar de viver sem este apoio.

"As pessoas que se aproximaram de nós devido à pandemia não chegaram a conseguir autonomizar-se, porque, quando estavam a conseguir reprogramar a sua vida, veem-se confrontadas com a dificuldade decorrente do aumento do custo de vida, das taxas de juro, e não têm condições para fazer essa retoma", explicou Rita Valadas.

A presidente da Cáritas lembrou ainda que no período da crise social motivada pela pandemia, existiam moratórias e o ‘lay-off’, ao contrário das atuais "situações avulsas [como o pagamento único de 125 euros], que não resolvem a situação das pessoas senão pontualmente".

Quem está mais próximo de se aproximar do limiar da pobreza é quem fica em maior risco de ter de recorrer a este tipo de apoios, concluiu.

"Quando o rendimento se altera, altera-se o risco, mas, quando a esse risco se acrescenta uma pressão do custo médio de subsistência, as dificuldades afetam pessoas que estão deste risco para baixo e o que antes um salário mínimo dava para pagar, hoje não dá, e os custos estão a subir e não sabemos quando vão parar", sublinhou Rita Valadas.

Os que "batem à porta" da Cáritas, organização que trabalha em rede pelo país, têm dificuldades em pagar a renda de casa, a prestação da casa, a luz, a água ou outras contas importantes e na iminência de ficar sem esses serviços ou sem abrigo.

"Depois, a situação agudiza-se e traz outras necessidades", acrescentou a presidente da organização, que distribui alimentação e também outros tipos de ajuda.

Primeiro, elencou, as pessoas começam por deixar de comprar determinados produtos que não são de primeira necessidade, depois passam a comprar marcas brancas, até que chegam ao momento em que, mesmo fazendo os cortes possíveis, "não têm como comprar o básico".

Além das famílias, as instituições que fornecem alimentos no seu espaço ou ao domicílio "também estão a sofrer uma pressão enorme com o aumento dos custos dos bens", referiu.

Rita Valadas mencionou a rede alargada pelo país e exortou quem quiser dar o seu contributo a procurar a Cáritas, as paróquias ou dioceses, que têm as suas estruturas de apoio, distribuição, respostas sociais e conseguem fazê-lo "em proximidade".

A Cáritas apoiou no ano passado 120 mil pessoas, a pandemia levou a um aumento de "18 mil famílias a mais" e Rita Valadas estimou que este ano já tenha sido prestado auxílio a mais 20 mil pessoas, entre as quais muitas estrangeiras, sublinhou.

Aumento do custo de vida faz crescer pedidos de ajuda

in DN

Rita Valadas, presidente da Cáritas, revela que a ajuda está a ser procurada por pessoas de classe média e média-baixa, sobretudo porque o rendimento "dá cada vez para menos coisas".

O aumento do custo de vida está a provocar uma maior pressão junto das instituições de apoio alimentar como a Cáritas, que ajudam cada vez mais pessoas com emprego, mas cujo salário deixou de chegar para as despesas.

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A presidente da Cáritas, Rita Valadas, disse à Lusa que a ajuda está a ser procurada por pessoas de classe média e média-baixa, uma vez que "o rendimento dá cada vez para menos coisas".

Rita Valadas afirmou que esta é uma crise que se caracteriza por "um aumento brutal do custo de vida" e que tem sentido um acréscimo das dificuldades para dar resposta às solicitações.

É que, aos novos casos, juntam-se os que já eram anteriormente acompanhados desde a pandemia e que não conseguiram deixar de viver sem este apoio.

"As pessoas que se aproximaram de nós devido à pandemia não chegaram a conseguir autonomizar-se, porque, quando estavam a conseguir reprogramar a sua vida, veem-se confrontadas com a dificuldade decorrente do aumento do custo de vida, das taxas de juro, e não têm condições para fazer essa retoma", explicou Rita Valadas.

A presidente da Cáritas lembrou ainda que no período da crise social motivada pela pandemia, existiam moratórias e o 'lay-off', ao contrário das atuais "situações avulsas [como o pagamento único de 125 euros], que não resolvem a situação das pessoas senão pontualmente".

Quem está mais próximo de se aproximar do limiar da pobreza é quem fica em maior risco de ter de recorrer a este tipo de apoios, concluiu.

"Quando o rendimento se altera, altera-se o risco, mas, quando a esse risco se acrescenta uma pressão do custo médio de subsistência, as dificuldades afetam pessoas que estão deste risco para baixo e o que antes um salário mínimo dava para pagar, hoje não dá, e os custos estão a subir e não sabemos quando vão parar", sublinhou Rita Valadas.

Os que "batem à porta" da Cáritas, organização que trabalha em rede pelo país, têm dificuldades em pagar a renda de casa, a prestação da casa, a luz, a água ou outras contas importantes e na iminência de ficar sem esses serviços ou sem abrigo.

"Depois, a situação agudiza-se e traz outras necessidades", acrescentou a presidente da organização, que distribui alimentação e também outros tipos de ajuda.

Primeiro, elencou, as pessoas começam por deixar de comprar determinados produtos que não são de primeira necessidade, depois passam a comprar marcas brancas, até que chegam ao momento em que, mesmo fazendo os cortes possíveis, "não têm como comprar o básico".

Além das famílias, as instituições que fornecem alimentos no seu espaço ou ao domicílio "também estão a sofrer uma pressão enorme com o aumento dos custos dos bens", referiu.

Rita Valadas mencionou a rede alargada pelo país e exortou quem quiser dar o seu contributo a procurar a Cáritas, as paróquias ou dioceses, que têm as suas estruturas de apoio, distribuição, respostas sociais e conseguem fazê-lo "em proximidade".

A Cáritas apoiou no ano passado 120 mil pessoas, a pandemia levou a um aumento de "18 mil famílias a mais" e Rita Valadas estimou que este ano já tenha sido prestado auxílio a mais 20 mil pessoas, entre as quais muitas estrangeiras, sublinhou.
O que se sabe do impacto da crise em Portugal

Quase um terço da população portuguesa vivia em risco de pobreza em 2021, um número que já refletia alguns efeitos da pandemia da covid-19, mas não da atual crise financeira.

Nos últimos meses, e na sequência da guerra na Ucrânia, o aumento dos preços foi uma constante em vários setores. Este mês, a inflação em Portugal atingiu o valor mais alto desde há 30 anos (subiu para 10,2%), com impacto na vida da população.

Quase um quarto da população em risco de pobreza em 2021
Os dados oficiais mais recentes sobre pobreza em Portugal reportam a 2021. Nesse ano, a taxa de risco de pobreza ou exclusão social aumentou cerca de 12% face ao ano anterior para 22,4%.

Com quase um quarto da população portuguesa em risco de pobreza, 2021 registou o maior aumento anual do risco de pobreza em Portugal desde 2005, de acordo com o Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza, e a oitava taxa mais alta entre os países da União Europeia.

Mesmo após as transferências sociais, a taxa de risco de pobreza fixou-se nos 18,4% no ano passado, sendo a situação mais grave nas regiões autónomas dos Açores e Madeira, no Norte e Algarve.

Privação material e social atingiu 13,5% da população
Além do risco de pobreza, medido com base nos rendimentos individuais, as dificuldades económicas das famílias refletem-se também na taxa de privação material e social que, em 2021, atingiu 13,5% da população, a sétima mais elevada da União Europeia.

Para 6% dos residentes em Portugal, a situação foi de privação severa, o que significa que não tiveram capacidade de suportar mais de quatro em nove encargos, que incluem o pagamento de rendas ou empréstimos, férias fora de casa, uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias, despesas inesperadas, telefone, televisão a cores, uma máquina de lavar, um carro e manter a casa adequadamente aquecida.

Antecipando os efeitos da inflação, o Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza alerta que, apesar de não se assistir a uma perda de rendimentos por parte da população portuguesa, os dados de 2022 deverão revelar a perda de poder de compra que atinge quer a população em emprego, quer a população sem emprego.

Idosos, desempregados e famílias monoparentais são os mais vulneráveis
A pobreza e a privação material e social afetam, sobretudo, a população mais idosa, desempregados e as famílias monoparentais.

De acordo com o relatório do Observatório Nacional da Luta Contra a Pobreza, divulgado em 17 de outubro, cerca de 25% das pessoas com mais de 65 anos de idade encontravam-se em risco de pobreza no ano passado e 17,6% viviam em privação material e social.

A pobreza afetava 60,4% da população desempregada, sendo que 33% encontrava-se em situação de privação. No caso das famílias monoparentais, as taxas de risco de pobreza e de privação material foram de 38,2% e 20,5%, respetivamente.

Dados do Eurostat divulgados na quinta-feira indicam que, no ano passado, 22,9% das crianças portuguesas com menos de 18 anos viviam em situação de pobreza, um valor abaixo da média da União Europeia (24,4%).

Inflação no valor mais alto em 30 anos
A taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor terá aumentado para 10,2% em outubro, face aos 9,28% de setembro, atingindo o máximo desde maio de 1992, segundo a estimativa rápida divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística na sexta-feira.

Já em setembro a inflação tinha atingido um máximo em quase 30 anos, com a variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor a fixar-se em 9,3%, a mais elevada desde outubro de 1992.

O aumento dos preços tem-se feito sentir, sobretudo, no setor energético, habitação e alimentação. Por exemplo, segundo estimativas do Banco de Portugal, o custo de um cabaz básico de bens alimentares subiu 15% entre outubro de 2021 e agosto deste ano, com alguns produtos a dispararem 20%.

Consequências da inflação são mais severas para quem tem menos rendimentos
Os portugueses que recebem o salário mínimo têm atualmente menos 65 euros de poder de compra do que há um ano devido à inflação, segundo dados da Portada, que indicam ainda que as pessoas que recebem pensões mínimas de velhice e invalidez ficam, na prática, com menos 25,9 euros de poder de compra do que há um ano.

Já o Banco de Portugal alertou, no início do mês, que a inflação tem consequências mais severas para as famílias de menores rendimentos do que as de rendimento mais elevado, porque para as primeiras a inflação sente-se, sobretudo, no preço de bens essenciais.

Medidas de apoio às famílias incluem pagamento extraordinário de 125 euros
Em setembro, o primeiro-ministro anunciou que os contribuintes com rendimento mensal até 2.700 euros iriam receber um pagamento extraordinário de 125 euros, sendo este valor atribuído por pessoa, e um subsídio de 50 euros por dependente.

Foi uma das medidas excecionais do Governo de apoio às famílias para mitigar os efeitos da inflação e que inclui o pagamento aos pensionistas de 14 meses e meio de pensões, em vez dos habituais 14 meses.

Para as crianças, o Governo tinha anunciado ainda em outubro do ano passado um complemento ao abono de família, destinado a 150 crianças e jovens com menos de 18 anos que vivem em situação de pobreza extrema. A Garantia para a Infância começou a ser paga em setembro.

Mais de 108 mil pessoas recebem ajuda alimentar
Atualmente, mais de 108 mil pessoas beneficiam do cabaz alimentar do Programa de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas, que chegou a 134 mil pessoas desde janeiro deste ano.

No final do mês de setembro, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social anunciou que está em curso a implementação de um novo modelo de apoio às pessoas mais carenciadas, que passará a ser feito através de cartão.

Além deste programa do Governo, as pessoas procuram apoio nas instituições sociais que fazem cada vez mais pedidos ao Banco Alimentar para conseguirem apoiar o número crescente de famílias que pedem ajuda, segundo a presidente, Isabel Jonet.

8.6.22

Portugal: Presidente da Cáritas destaca preocupação com problema da solidão dos idosos (c/vídeo)

in Ecclesia

«Há pessoas que estão isoladas e não sofrem de solidão, e há pessoas que sofrem de solidão e não estão isoladas» – Rita Valadas

Lisboa, 02 jun 2022 (Ecclesia) – A presidente da Cáritas Portuguesa afirmou que a questão da solidão dos idosos “é uma das mais preocupantes”, para a instituição e a nível da sociedade nacional.

“A solidão é um sentimento muito pessoal, é um desalento da sua situação pessoal, do não terem a oportunidade de ter uma conversa, de ter alguma pessoa de referência emocional”, precisou Rita Valadas, em declarações à Agência ECCLESIA.

A responsável afirmou que “não bastam” as respostas sociais para este problema, mas importa que estas situações “sejam identificadas e essa proximidade e capilaridade da rede Cáritas” permite que possam perceber essa situação, “quase fazendo radar e tentando acompanhar em cada uma a sua necessidade”.

“Ao contrário do que se pensa, esta situação não é só dos idosos, é também das crianças e jovens. O que ficou muito visível neste momento da pandemia”, realçou.

A entrevistada explicou que há pessoas que “estão isoladas e não sofrem de solidão” e há quem sofra de solidão “e não estão isoladas”, e sublinhou que “este tempo de pandemia agravou muito esta situação”.

Entre 25 e 27 de maio, a Rádio Renascença promoveu a iniciativa solidária ‘Três Por Todos’, que recolheu donativos para projetos que a Cáritas desenvolve com a população sénior.

9.5.22

Capital de distrito prepara-se para receber famílias ucranianas

Ana E. de Freitas, in Voz da Planície

A Câmara Municipal de Beja está a concertar estratégia com entidades locais, com intervenção na área da migração, no sentido de criar as condições necessárias, e adequadas, ao acolhimento de famílias e pessoas provenientes da Ucrânia, revela o município.
“Entre o grupo de refugiados que se encontra referenciado para acolhimento estão cerca de 30 famílias, constituídas sobretudo por mulheres e crianças”, é sublinhado também.

Este acolhimento, que será realizado ao abrigo do programa Porta de Entrada, conta com a colaboração do Instituto da Habitação e Recuperação Urbana (IHR); da Câmara Municipal de Beja; do Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e de duas unidades hoteleiras do concelho. O acompanhamento será assegurado por técnicos do município e do Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes (CNAIM), em colaboração com a Cáritas, Associação ESTAR e através do recurso a equipas multidisciplinares no âmbito de projetos a decorrer, é referido igualmente.

A alimentação será articulada com a Associação Estar através do projeto Marmita e da disponibilização de alguns bens básicos de primeira necessidade, tal como roupas e produtos de higiene. A Cáritas Diocesana de Beja também entra com o programa POPMC e a cantina social.

O emprego é outro fator que preocupa o município e está a articular-se na procura ativa de emprego com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), é dito ainda.


28.4.22

Caritas alerta que "trabalho já não é uma garantia para escapar à pobreza" no Luxemburgo

Tiago Rodrigues, in Contacto

A poucos dias do Dia do Trabalhador, que se assinala este domingo, 1 de maio, a Caritas Luxemburgo publicou um comunicado sobre os "trabalhadores pobres", alertando que "o trabalho já não é uma garantia para escapar à pobreza" no país. A associação pede a implementação de políticas que garantam aos trabalhadores um rendimento que lhes permita viver com dignidade.

No comunicado, a Caritas começa por assinalar que "cada vez mais trabalhadores ativos enfrentam dificuldades financeiras e o trabalho já não é uma garantia para escapar à pobreza" no Luxemburgo, que é o segundo país europeu com maior risco de pobreza no trabalho na UE, a seguir à Roménia.

A organização nota ainda que este risco "tem vindo a aumentar nos últimos anos". Em 2020, por exemplo, a percentagem de trabalhadores que pertencem a uma família que vive abaixo do limiar de pobreza era de 11,9%, em comparação com 9,3% em 2007.

"A ligeira diminuição em relação a 2019 (12,1%) pode ser explicada pelas numerosas garantias que o Estado tinha posto em prática durante a pandemia da covid-19", refere a Caritas.

O fenómeno dos 'trabalhadores pobres', também conhecido como 'pobreza no trabalho', refere-se a pessoas cujo rendimento mensal bruto é inferior a 60% do rendimento mediano, apesar de terem emprego. "Note-se que os trabalhadores fronteiriços não estão incluídos nas estatísticas, apesar de representarem 45,2% do emprego remunerado no Luxemburgo", esclareceu a organização no comunicado.

Risco de pobreza é maior para estrangeiros

Em 2020, 17,4% da população do Luxemburgo (103.929 pessoas) viviam abaixo do limiar do risco de pobreza, com uma taxa de risco de pobreza de 30,7% entre os 18-24 anos, em comparação com 7,3% para as pessoas com 65 e mais anos, aponta a Caritas.

Este risco é ainda maior para os imigrantes: "As disparidades de pobreza entre nacionais e estrangeiros continuam a ser significativas: em 2020, a taxa de risco de pobreza dos estrangeiros a viver no Luxemburgo era o dobro da dos nacionais (23% contra 10,6%)", acrescenta.

A associação refere também que os agregados familiares dependentes de um único rendimento estão "sistematicamente mais expostos ao risco de pobreza". Além disso, a pobreza no trabalho "é mais prevalente" em certos setores económicos, especialmente aqueles com salários baixos.

De realçar que o trabalho a tempo parcial ou contratos a termo certo também aumentam o risco de pobreza no trabalho. "De facto, quase um em cada dois trabalhadores que trabalham a tempo parcial com um contrato a termo certo está em situação de pobreza no trabalho (48,5%)", aponta a Caritas.

Famílias monoparentais, nacionais não luxemburgueses, trabalhadores pouco qualificados em setores com salários baixos, trabalhadores com contratos temporários ou a tempo parcial (ou ambos) "têm todos um risco mais elevado de pobreza no trabalho".
Mais difícil para pagar casa

Outro problema apontado pela organização é a subida dos preços das casas no Luxemburgo, sendo que "as pessoas em situação de pobreza no trabalho estão também mais expostas aos custos de habitação".

"Para o período 2010 a 2019, as rendas anunciadas mostram um crescimento de 47,4% para os apartamentos e 31,3% para as casas. Os preços de venda, por outro lado, aumentaram durante o mesmo período cerca de 65% para as habitações existentes e quase 62% para as novas habitações", recorda a Caritas.

De acordo com o Instituto de Investigação Sócio-Económica do Luxemburgo (LISER), em 2019, mais de um terço dos inquilinos utilizou mais de 40% dos seus rendimentos para pagar renda e aquecimento. Em 2016, esta percentagem era ainda de 25%. As famílias inquilinas do primeiro quintil do nível de vida (os 20% das famílias com os rendimentos mais baixos) têm uma taxa de esforço habitacional de 50%.
Medidas políticas para combater pobreza no trabalho

A Caritas Luxemburgo apela assim aos decisores políticos para que tomem medidas que "assegurem uma distribuição mais equilibrada do rendimento", lembrando que não existem políticas específicas para combater a pobreza no trabalho. "O salário social mínimo não é suficientemente elevado para tirar as pessoas da pobreza. O mesmo pode ser dito do rendimento mínimo garantido - o rendimento de inclusão social (REVIS)", critica.

A associação considera que, embora o salário mínimo seja muito elevado em termos comparativos e absolutos na Europa, "o seu nível está quase no limiar da pobreza no Luxemburgo". "Em 2019, o salário social mínimo não qualificado era de 2.071,10 euros, mas o orçamento de referência (o orçamento de que uma pessoa precisa para viver uma vida decente e socialmente inclusiva no Luxemburgo) era de 2.115 euros".

Para a Caritas, o orçamento de referência deve ser a base para determinar o nível do salário social mínimo. "Um único adulto só conseguirá sobreviver se o salário social mínimo for superior ao limiar de pobreza, bem como o orçamento de referência. O orçamento de referência deve ser calculado e atualizado regularmente", assinalou a organização.
Ajustar a tabela fiscal ao custo de vida

No comunicado, refere-se ainda que, durante os últimos 15 anos, os abonos de família não foram adaptados à evolução dos preços. "Como resultado, as famílias com crianças viram o seu poder de compra diminuir", lamentou a Caritas, afirmando que é "necessário um mecanismo regular de ajustamento do custo de vida para outros subsídios, tais como o subsídio de custo de vida e o subsídio de renda".

Para a Caritas, a fim de alcançar uma maior justiça social, é necessária uma "reforma fiscal baseada numa redistribuição social real". Para isso, a associação sugere que seja realizado um estudo aprofundado sobre a melhoria da atual redistribuição, a fim de eliminar as numerosas desigualdades existentes, como, por exemplo, o facto de os salários serem tributados a 100% e os rendimentos do capital a 50%.

A associação relembra que a tabela fiscal não foi adaptada à evolução do custo de vida desde 2009 e apela à introdução de um mecanismo para adaptar periodicamente a tabela fiscal. "Além disso, o imposto sobre o rendimento deve ser reduzido nos parênteses inferiores da escala e aumentado nos parênteses superiores, e devem ser acrescentados parênteses adicionais no topo", explica.

"O sistema fiscal deve ser concebido para isentar sistematicamente os pobres do pagamento de rendimentos e outros impostos, na medida do possível", lê-se ainda. "Quer uma pessoa viva sozinha, em coabitação, numa união civil ou casada, não deve fazer qualquer diferença em termos de tributação. O critério de diferenciação deve ser se existem ou não crianças no agregado familiar, de modo a beneficiar de uma classe fiscal 2".
Pessoas devem ser capazes de viver do trabalho

A organização nota também que seria benéfica uma reforma na formação profissional, para a tornar "mais relevante na prática" e encorajar "a aprendizagem ao longo da vida". "Alargar a gama de cursos de formação com um catálogo em várias línguas e visando uma língua específica para um ciclo de formação (em vez de duas ou mais línguas) também ajudaria".

Por fim, conclui a Caritas, deve ser feito "um esforço contínuo para melhorar a conciliação da vida profissional, familiar e privada, a fim de oferecer a todos a possibilidade de ganhar a vida através do trabalho, podendo ao mesmo tempo assumir responsabilidades familiares, participar na vida comunitária e contribuir para o bem-estar social".

A ideia de que "qualquer trabalho é melhor do que nenhum trabalho" deve ser contrariada pela proposta de que "as pessoas que trabalham devem ser capazes de viver disso", termina o comunicado.


19.4.22

Impacto do aumento de preços ainda não se reflecte nos pedidos de ajuda alimentar

Daniela Carmo, in Público on-line

“Temos tido muitas queixas de que está cada vez mais difícil, mas não registamos crescimento no número de pedidos de ajuda directa das pessoas. Contudo, penso que isso ainda virá”, acredita Isabel Jonet, do Banco Alimentar.

O aumento dos preços e do custo de vida em Portugal ainda não se reflecte nos pedidos de ajuda a instituições de apoio como o Banco Alimentar ou a Cáritas Portuguesa. Ao PÚBLICO, as presidentes das duas direcções garantem que apesar de ainda não ter existido um aumento de pessoas em situação de vulnerabilidade a ter de recorrer a programas de ajuda alimentar é de esperar que a procura suba.

Rita Valadas, presidente da Cáritas, explica que apesar de o custo de vida estar a aumentar, o impacto ainda é algo recente. “Acho que ninguém pode ter estes números ainda, só tivemos três meses do ano e só vamos poder contabilizar reflexos mais à frente porque a factura está a aumentar agora”, desenvolve.

Também Isabel Jonet, do Banco Alimentar contra a Fome, diz que “ainda não houve um aumento dos pedidos de ajuda”. “Temos tido muitas queixas de que está cada vez mais difícil, mas não registamos crescimento no número de pedidos de ajuda directa das pessoas. Contudo, penso que isso ainda virá”, acrescenta. A presidente do Banco Alimentar lembra ainda a medida do Governo de atribuir o apoio extraordinário de 60 euros para mitigar o aumento dos preços dos alimentos como uma das possíveis razões para que ainda não haja um reflexo visível.

Para Rita Valadas, os portugueses vão começar a sentir estes efeitos, provavelmente, só no fim deste mês. “Recorrem ao apoio quando têm a falência do primeiro mês e isso ainda não teve tempo para acontecer.”

A dirigente da Cáritas traça ainda um cenário “preocupante” que se verifica no país: “O que era claro para nós é que estaria estimado um decréscimo do número de famílias que apoiamos vítimas da pandemia, porque haveria alguma retoma. Mas isso não aconteceu, as famílias continuam a precisar de apoio”.

Esta realidade é, por isso, preocupante na medida em que a pandemia de covid-19 fez com que cerca de 22 mil pessoas, que não eram apoiadas pela Cáritas, tivessem de recorrer ao apoio da rede. E não saíram. Isso significa que juntar a este número acrescido de apoios novos pedidos de ajuda pode representar um factor de pressão para a associação.

“Não há um alívio das situações que vinham da pandemia e aquilo que nós tememos é que se juntem estas situações às que vão começar a sentir [um aumento] na sua factura mensal.”

Apoio depende da solidariedade de todos

Até onde se pode, então, esticar? Rita Valadas não se compromete com um número e recorda que o trabalho da Cáritas depende da solidariedade de todos. “Obviamente que, se for necessário, se virmos que não temos recursos, utilizaremos a nossa ferramenta habitual que é fazer uma campanha explicando às pessoas para que é que ela é. Entre isto e as almofadas que o Estado terá certamente que equacionar para estas pessoas, havemos de ser capazes”, completa.

Até ao momento, aquilo que tanto a presidente da Cáritas como Isabel Jonet reportam são as queixas, quase desabafos, de pessoas assustadas e com medo. “As pessoas estão muito conscientes da crise que está a acontecer e que vai acontecer e têm muito receio disso. Procuram-nos para conversar, para saber o que podem fazer, muito mais do que já a pedir ajuda por ausência de recursos”, reitera Rita Valadas.

Para Isabel Jonet, os pedidos de ajuda não se comparam ao aumento que foi registado com a pandemia. “Não é significativo, não tem nada a ver com a altura da ‘covid’. Neste momento também temos algumas instituições que estão a apoiar ucranianos mas o aumento de pedidos não é significativo.”
Banco alimentar com 21 balcões

O Banco Alimentar tem 21 balcões em todo o país e apoia 2600 instituições que chegam a 400 mil pessoas todos os dias. “Sabemos exactamente quem são as pessoas que apoiamos e sabemos também que em Portugal há um milhão de pessoas que vivem com menos de 250 euros por mês, a maioria das quais são idosos com baixas pensões de reforma”, sublinha Isabel Jonet.

Já a Cáritas ressalva que os números “são sempre menos do que a realidade” e que este tipo de instituições não resolve os problemas das vidas destas pessoas, mas que actuam, antes, “apenas ao nível básico, no sustento de vida diário”. E aí, Rita Valadas tem a esperança de fazer cumprir a missão nestes tempos mais críticos. Por ano, a associação chega, em média, a 120 mil pessoas e com a pandemia chegaram mais 22 mil pedidos de ajuda.

Contactadas pelo PÚBLICO, também a Comunidade Vida e Paz e a Rede Europeia Anti-Pobreza reportaram ainda não notar uma subida nos apoios que prestam. O PÚBLICO questionou também o Governo sobre qual a evolução dos auxílios prestados pelo Programa Operacional de Apoio Às Pessoas Mais Carenciadas e pela Rede de Emergência Alimentar durante este ano, mas não obteve uma resposta em tempo útil.


14.3.22

Impacto do aumento dos preços nas famílias pobres preocupa instituições de solidariedade

Samuel Silva, in Público on-line

Mais de 30% das famílias não tem capacidade para assegurar uma despesa inesperada. O impacto da escalada dos preços será “mais grave nas famílias com filhos”, alerta especialista em pobreza infantil.

O aumento do custo dos bens de primeira necessidade pode empurrar muitas famílias para lá do limiar da pobreza. A preocupação é manifestada por especialistas e responsáveis de instituições que apoiam pessoas carenciadas, face à escalada dos preços, resultado de factores como a seca, o aumento dos custos da energia e a guerra na Ucrânia.

Os produtores do sector alimentar antecipam um aumento de 20% a 30% de preço de alguns produtos essenciais nos próximos dias. A situação vai criar “maiores dificuldades para as pessoas que estão mais próximas do limiar da pobreza”, avalia Amélia Bastos, professora Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa. Os dados mais recentes, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no final do ano, revelam que 18,4% da população nacional vive abaixo a linha de pobreza — que ficou fixado nos 554 euros de rendimento mensal em 2021.

O impacto da escalada dos preços será “mais grave nas famílias com filhos”, alerta Amélia Bastos. As maiores preocupações são com as famílias numerosas (29% dos agregados com dois adultos e três ou mais crianças estão abaixo do limiar da pobreza) e as famílias monoparentais, nas quais este indicador sobe para 30%.

Apesar de, na sexta-feira, o Ministério da Agricultura ter garantido que “não há, à data, qualquer motivo que faça antever a possibilidade de escassez de alimentos”, o Governo admitiu, no entanto, que relativamente aos preços dos produtos alimentares, “verifica-se uma tendência de aumento em toda a União Europeia”.

A evolução da situação está a ser seguida pelo Grupo de Acompanhamento e Avaliação das Condições de Abastecimento de Bens nos Sectores Agro-alimentar e do Retalho em Virtude das Dinâmicas de Mercado, onde estão representados os sectores produtivos, industriais e de distribuição. Este organismo volta a analisar a situação no dia 21 de Março e, durante a próxima semana, haverá reuniões preparatórias.

O aumento dos preços pode criar “novos pobres” em “muitas famílias que vivem naquele franja em que já não têm direito a apoios sociais”, concorda também a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet. De acordo com a instituição, 4% da população nacional recebe regularmente comida que vem de um dos 21 bancos alimentares.

Há “milhares de famílias” que vivem com os orçamentos “completamente esticados e não têm folga para acomodar qualquer alteração”, continua Jonet. Os dados do INE revelam que 31,1% das famílias não têm capacidade para assegurar o pagamento imediato de uma despesa inesperada. “Dez euros a mais podem ser um drama”, avisa a presidente do Banco Alimentar.

Segundo os mesmos dados oficiais, 2,4% da população não tinha em 2021 capacidade financeira para ter uma refeição de carne ou de peixe (ou equivalente vegetariano), (…) de dois em dois dias. Face ao aumento dos preços, as famílias “vão ter que cortar nos produtos alimentares”.

Cáritas vai prolongar, para além de Abril, o programa Inverter a Curva da Pobreza em Portugal, lançado há dois anos

A Cáritas Portuguesa também se prepara para um aumento do número de pessoas a quem terá que prestar auxílio, revela a presidente, Rita Valadas, nomeadamente famílias que já recebem “apoio pontual, mas que terão necessidade de um apoio regular”.

A instituição vai prolongar, para além de Abril, o programa Inverter a Curva da Pobreza em Portugal, lançado há dois anos, em resposta à crise social motivada pela pandemia de covid-19. “Pensávamos que estávamos a sair da crise, mas estamos final perante uma situação ainda mais complexa”, desabafa.

A conjuntura pode também afectar as próprias instituições de solidariedade que não só “vão ter que suportar o aumento de preços”, como temem uma redução dos donativos que recebem regularmente e do qual depende boa parte do seu trabalho, alerta Rita Valadas.

Se houver “menos excedentes” tanto nos produtores, como nos retalhistas, também haverá “menos alimentos” nos bancos alimentares, reconhece Isabel Jonet, embora “não preveja” que isso aconteça “no imediato.”


24.2.22

Mercado de trabalho “insuficientemente inclusivo”, alerta Cáritas Europa

Ângela Roque, in RR

​Relatório Europeu sobre a Pobreza 2021 mostra que a pandemia agravou a situação de quem já estava em risco de exclusão antes. Cá, como no resto dos países, os migrantes, as mulheres, os jovens trabalhadores, as pessoas com deficiência, os ciganos e os prestadores de cuidados são os mais discriminados e explorados, e com salários indignos.

Relatório Cáritas Europa aponta o dedo aos baixos salários em Portugal. Foto Nick Oxford Reuters

“A economia tem de servir as pessoas, não o contrário”, sublinhou esta segunda-feira o presidente da Cáritas Europa, que considera urgente “proteger a dignidade do trabalho, num mercado inclusivo e uma economia centrada no homem".

Michael Landau falava em Bruxelas, durante a apresentação do CARES – Relatório Europeu sobre a Pobreza 2021, que mostra que a pandemia tornou ainda mais difícil a vida de quem já estava desempregado ou pertence a grupos que, nos vários países, são discriminados e explorados. É o caso dos migrantes, das mulheres, dos jovens trabalhadores, dos portadores de deficiência ou os ciganos. Os prestadores de cuidados também aparecem entre os mais explorados, em termos laborais, devido aos baixos salários.

O presidente da Cáritas alertou para a possibilidade das dificuldades continuarem a aumentar, sobretudo para quem já estava antes em situação de vulnerabilidade.

“Precisamos de estar vigilantes e preparados, porque para algumas destas pessoas o pior ainda pode estar para vir, quando as economias que fizeram acabarem, o custo de vida e da energia aumentarem, ou acabar o período de desemprego. Para quem já vinha de um contexto desfavorável, e estava em situação difícil antes da Covid, o desafio ainda é maior”, afirmou, destacando entre os mais vulneráveis os “desempregados de longa duração, os trabalhadores informais e mais velhos”, e “os jovens - que precisam de mais educação e formação para o trabalho. Estão a ser particularmente atingidos pelos efeitos da pandemia".

"Precisamos de estar vigilantes e preparados, porque para algumas destas pessoas o pior ainda pode estar para vir"

Para a Cáritas, na questão dos migrantes não deve ser cada país, por si, a encontrar soluções, a resposta deve ser dada em conjunto pela União Europeia. “É vital providenciar soluções europeias, não apenas nacionais”.

“As Cáritas têm estado focadas em dar resposta às necessidades mais urgentes, que passam quase sempre pelo apoio alimentar, alojamento, pagamentos de rendas e despesas de casa. O que gostaria de sublinhar é que esta ajuda sozinha não será suficiente para garantir a solidariedade que é preciso. As pessoas estão a sofrer, e é preciso garantir-lhes proteção social”, afirmou.

Entre os testemunhos ouvidos esta manhã está o de Gosia Chrysanthou, da Cáritas do Chipre, que partilhou precisamente a experiência que têm tido no acolhimento de migrantes e refugiados que, ou não conseguem trabalho ou são explorados. E defendeu mais fiscalização das empresas e patrões.

“Para promover a inclusão laboral é preciso ter boas práticas e padrões. Todas as formas de discriminação devem ser enfrentadas e combatidas, e as autoridades têm de fiscalizar os patrões e as empresas, tal como fazem com os indocumentados”, defendeu aquela responsável, para quem é fundamental “garantir que o trabalhador não é penalizado se fizer queixa, perdendo o trabalho e o salário, enquanto o patrão continua a explorar outros”.
Portugal: é preciso valorizar quem trabalha no setor social

Gosia Chrysanthou lembrou que “o relatório da Cáritas fala da necessidade de clarificar estes assuntos, que devem ser discutidos não apenas por nós, hoje, mas pelos líderes políticos em Bruxelas, e nas capitais dos vários países, como Nicósia, para garantir que há trabalho seguro, inclusivo e protegido na Europa”.

Na sessão promovida pela Cáritas Europa participou ainda, entre outros responsáveis, Helen Dali, de Malta. A atual Comissária Europeia para a Igualdade comentou os dados do relatório e agradeceu a colaboração das Cáritas, que nos vários países garantem apoio social aos mais vulneráveis. “São essenciais”, sublinhou.

Na parte relativa à situação em Portugal, o relatório da Cáritas Europa considera que, apesar da pandemia ter mostrado como os prestadores de cuidados são indispensáveis, nem o que ganham, nem as condições em que trabalham são correspondentes a esse reconhecimento.

Os prestadores de cuidados, lê-se no documento, são na maioria “não qualificados” e auferem salários muito baixos, o que faz com que muitos deles tenham de ter um segundo trabalho para conseguir pagar contas e pôr comida na mesa. Esta precariedade laboral, sublinha ainda o relatório, impede que tenham depois benefícios sociais completos.

O relatório faz uma segunda recomendação a Portugal, para que crie condições para que os trabalhadores mais vulneráveis possam ter mais garantia de emprego, e um “salário mínimo adequado”, que garanta que se consegue fazer face às despesas diárias.

8.11.21

Quase metade das famílias apoiadas na pandemia nunca tinha pedido ajuda

Ana Lisboa, in RR

A Igreja celebra o 5.º Dia Mundial dos Pobres no próximo domingo, dia 14 de novembro.

Em Portugal há cerca de dois milhões de pessoas em situação de pobreza. O Dia Mundial dos Pobres, assinalado a 14 de novembro, é uma iniciativa do Papa Francisco, que escreveu uma mensagem para esta ocasião que tem como tema "Sempre tereis pobres entre vós".

Nesta mensagem, pede uma "nova abordagem na luta contra a pobreza", lembrando as "consequências sociais e económicas" que a Covid-19 trouxe.

O Santo Padre alerta para um aumento do número de pobres, consequência também provocada pela pandemia. E refere-se à multiplicação de novas formas de pobreza. Questiona ainda discursos políticos que fazem dos pobres "responsáveis pela sua condição" e mesmo um "peso intolerável" para o sistema económico.

Os últimos números da pobreza divulgados revelam que em Portugal há cerca de dois milhões de pobres. A Cáritas Nacional é uma das instituições que apoia as pessoas mais carenciadas.

A instituição recebeu pedidos de famílias que "viviam uma vida equilibrada", mas, de repente, por causa da pandemia, viram-se obrigadas a recorrer a este apoio, "por ausência de rendimento ou redução do seu rendimento, deixaram de ter condições para sustentar a sua família até aos níveis mais básicos", explica a presidente.

Rita Valadas diz que "entre maio de 2020 e outubro de 2021 foram apoiadas mais de 18 mil pessoas, correspondentes a quase sete mil famílias, três mil das quais nunca tinham chegado à Cáritas", ou seja, "quase 50% do número de famílias que nos apareceram neste intervalo, são famílias que eram para nós completamente desconhecidas".

Para esta responsável, é "absolutamente assustador" olhar para os números e perceber "que nós não conseguimos, com todas medidas criadas, resolver este problema".

Por isso, concorda com as declarações do Papa de que deve haver uma nova abordagem no combate à pobreza.

Em seu entender, "temos tentado combater com vários programas, com vários recursos e não temos conseguido. Eu creio que não existe propriamente uma solução que nos indique como fazer, como resolver o problema da pobreza".

Por isso, defende que "o problema deve ser resolvido com o concurso de muitas áreas que nas várias tentativas que fizemos foram desmobilizando de uma maneira ou de outra, porque a pobreza não é um problema social do ponto de vista das prestações. É um problema que tem a ver com a situação de cada pessoa e da sua contingência. E, por isso, precisamos de um olhar de educação, saúde, segurança social, emprego".

É, sobretudo, fundamental ir ao encontro dos pobres, onde eles estão e não ficar à espera que batam à porta das instituições, como defende o Papa.

A presidente da Cáritas Portuguesa partilha da mesma opinião. "É nesta proximidade que conseguimos ler e escutar realmente o que acontece e o que levou as pessoas a esta situação". Rita Valadas sublinha que a "proximidade no olhar e na escuta são indispensáveis ferramentas para combater a pobreza".


18.10.21

Números da pobreza "estão camuflados". Pedidos de ajuda à Cáritas crescem cada vez mais

in TSF

A presidente da Cáritas, Rita Valadas, diz à TSF que os números revelados pela Pordata relativamente à pobreza em Portugal estão "camuflados por medidas que foram assumidas e que protegeram quer as pessoas, quer as empresas, de situação críticas no emprego e nas suas dívidas", no período da pandemia.

A Pordata revela que mais de 1,6 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza

A presidente da Cáritas teme que existam muitas situações de pobreza camuflada em Portugal. Os números divulgados este domingo pela Pordata apontam para um milhão e seiscentos mil portugueses em risco de pobreza.

Rita Valadas recorda, em declarações à TSF, que a Cáritas recebe cada vez mais pedidos de ajuda.

"Aquilo que não acredito é que tenha havido uma variação para baixo numa situação pandémica como a que nós vivemos, porque a pressão sobre os pedidos foi crescente e não decresceu", explica, considerando que "estes números estão almofadados por medidas que foram assumidas e que protegeram quer as pessoas, quer as empresas, de situação críticas no emprego e nas suas dívidas".

A Cáritas teme ainda pelo aumento da pobreza com o fim das medidas extraordinárias e temporárias para apoiar as vítimas da crise, dado que "as pessoas vão voltar a ter despesas com o fim do teletrabalho, como a alimentação fora de casa e os transportes, o que vai corresponder a alguma pressão sobre os orçamentos das famílias".

Rita Valadas lembra as moratórias para pagar empréstimos bancários, referindo que a "realidade do rendimento que as pessoas têm hoje não é igual a 2019".

Rita Valadas teme pelo aumento da pobreza com o fim das medidas de apoio às vitimas da crise pandémica

Mais de 1,6 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza, ou seja, com menos de 540 euros por mês, uma realidade que afeta famílias numerosas, mas também quem vive sozinho, idosos, crianças, estudantes e trabalhadores.

Ter um emprego não é garantia de não se ser pobre e Portugal está, aliás, entre os países da Europa com maior risco de pobreza entre trabalhadores.

Segundo uma análise feita pela Pordata, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), quando se assinala o Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza, em 2020, 9,5% da população empregada em Portugal era considerada pobre, ou seja, vivia com rendimentos inferiores ao limiar da pobreza, que, nesse ano, situava-se nos 540 euros mensais.

Uma situação em que Portugal só é ultrapassado pela Roménia (14,9%), Espanha (11,8%), Alemanha (10,6%), Estónia (10%), Grécia (9,9%), Polónia (9,6%) e Bulgária (9,6%), sendo que em alguns países europeus, no caso a Finlândia e a Bélgica, o risco de pobreza não chega a atingir 5% da população empregada.

1.10.21

GNR, Cáritas e Centro de Emprego juntam-se a núcleo de apoio aos sem-abrigo de Faro

Por Sul Informação 

O Núcleo e Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo de Faro é tido como exemplo de boas práticas

A GNR, a Cáritas Diocesana do Algarve e o Centro de Emprego e Formação Profissional de Faro do IEFP juntaram-se, no passado dia 9 de Setembro, ao Núcleo de Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo (NPISA) de Faro.

Durante a cerimónia de adesão dos novos parceiros, foram apresentadas duas iniciativas que se encontram a funcionar – o projeto TMN – Tua, Minha, Nossa, que está a ser desenvolvido pelo MAPS – Movimento de Apoio à Problemática da SIDA, e tem como objetivo a inserção de pessoas em situação de sem abrigo na sociedade.

Durante o seu ainda curto período de existência, já passaram pelos dois apartamentos partilhados, promovidos por esta iniciativa, um total de 18 utentes, sendo que seis utentes já foram integrados na sociedade.

Quanto ao projeto “Legos”, uma parceria com o GATO, MAPS, CASA, APF, GRATO, tem como objetivo a inserção de pessoas em situação de sem abrigo, em conjunto com a rede de parceiros existente, promover a implementação do modelo de intervenção integrado de todos os agentes que, no respetivo concelho, atuam com e para a população em situação de sem abrigo.

A candidatura em curso refere-se ao projeto “Porta Xis1” apresentado pela associação MAPS -Movimento de Apoio à Problemática da Sida em parceria com o com a Associação Xis – Grupo para a Promoção e Proteção LGBTI e com o Município de Faro.

O objetivo é a celebração de protocolo para o funcionamento de apartamentos partilhados para pessoas LGBTIQ + em situação de sem abrigo.

O Núcleo e Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo de Faro é tido como exemplo de boas práticas no seu funcionamento e intervenção em função da problemática das Pessoas em situação de sem-abrigo.

Rogério Bacalhau, presidente da Câmara de Faro, diz que «este modelo de intervenção visa um acompanhamento de proximidade que assenta numa premissa de qualificação e rentabilização de recursos humanos e financeiros, estando demonstrada a sua importância e utilidade, face aos resultados apresentados».

Com a adesão dos novos parceiros, a rede passa a contar com as seguintes entidades: Município de Faro, União de Freguesias de Faro (Sé e São Pedro), Comando Distrital de Faro – Polícia de Segurança Pública, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – Direção Regional do Algarve
Instituto de Segurança Social, IP- Centro Distrital de Faro, Grupo de Ajuda a Toxicodependentes, Movimento de Apoio à Problemática da Sida, Santa Casa da Misericórdia de Faro, Fábrica da Igreja de São Pedro de Faro, Fábrica da Igreja da Paróquia de São Luís, Centro Hospitalar Universitário do Algarve, Administração Regional de Saúde do Algarve, Centro de Apoio aos Sem-Abrigo, Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação Faro-Loulé, Rede Europeia Anti Pobreza, Cáritas Diocesana do Algarve, Guarda Nacional Republicana de Faro Centro de Emprego e Formação Profissional de Faro do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

2.8.21

Rita Valadas: “A crise social ainda não chegou”

  e 

A presidente da direcção da Cáritas Portuguesa avisa que a crise social ainda está para chegar e, assumindo o seu receio pela gestão dos milhões do Plano de Recuperação e Resiliência, avisa que distribuir dinheiro não resolve as situações de pobreza.

A crise social que irá emergir desta pandemia tem vindo a ser adiada por força das moratórias e dos apoios ao layoff simplificado, avisa a presidente da direcção da Cáritas Portuguesa. E porque a pobreza não se resolve atirando-lhe com milhões em cima, Rita Valadas defende a criação de medidas ajustadas às necessidades de cada família e de cada território e que o Rendimento Social de Inserção deve sair da alçada exclusiva da Segurança Social para passar a ser uma medida interministerial.

Como avalia o risco de agravamento da pobreza em Portugal ao longo de 2021 e nos tempos que se seguem?
É uma fonte mais de dúvidas do que certezas, até porque as estatísticas e os estudos contradizem-se entre si e eu tenho duas perspectivas: uma perspectiva que advém dos dados do Eurostat, que referem que houve uma relativa estabilização do risco de pobreza ao longo de 2020, e depois tenho a percepção do território que mostra um agravamento das situações e que nos aparecem muitas famílias que não recorriam à Cáritas e que precisam agora da nossa ajuda. Algumas dessas famílias elas próprias ajudavam outras, o que é um bocadinho assustador, mas corresponde à realidade em que famílias de classe média se vêem agora.

Qual foi o tipo de apoio mais procurado?
Para além do apoio alimentar normal, que mantivemos exactamente igual, reforçámos o sistema de vales de bens essenciais, que podem ser descontados tanto em bens alimentares como em outros bens essenciais, e houve aqui um grande incremento. E depois, nos apoios económicos, o maior pedido foi para apoios à renda de casa. O pânico de ficar sem casa é muito real e muitas pessoas que viram o seu rendimento baixar deixaram de ter condições para resolver esse problema.

A diminuição de rendimentos nestas famílias de classe média decorre de que factor?
São aquelas famílias que viviam, por exemplo, de pequenos negócios, ou que estavam dependentes do turismo e restauração, cujos negócios foram suspensos. Isto começou logo em Abril de 2020, nessa altura já estávamos a ter pedidos, e continua até hoje, tanto que este programa, que supostamente ia ter três meses, ainda está activo e ainda estará, porque creio que a crise social ainda não chegou. Esta crise sanitária teve algumas almofadas fortes, mas que não resolvem os problemas.

As moratórias?


E o layoff. Há várias empresas que só vão perceber se conseguem fazer a retoma no momento em que as coisas estiverem mais normalizadas. Nessa altura, vão perceber se podem manter o número de empregos ou se vão ter que passar a recrutar menos pessoas.

Por isso diz que a crise ainda não chegou?

Sim, porque o tempo da crise social é sempre diferente do tempo da crise económica. A situação das pessoas só começa a ser visivelmente crítica quando as empresas que lhes pagam o salário não conseguem manter o emprego. E só quando o subsídio de desemprego acaba, sem que a economia tenha feito uma retoma, é que as pessoas caem em crise.

A taxa de risco de pobreza em Portugal estava nos 16,2% em 2019. Corremos o risco de voltar aos 19,5% de 2013 e 2014?
É possível que isso aconteça, mas não tenho condições de adivinhar o que aí vem. Se conseguirmos fazer uma retoma segura, se utilizarmos os recursos que aí vêm com muito propósito e muita intenção, talvez consigamos que as pessoas não caiam no desemprego.

Não é com medidas iguais para todos que se luta contra a pobreza

O que quer dizer com uma “retoma segura”?
Significa que vamos ter que avaliar as necessidades e as potencialidades dos territórios. Nós somos um país pobre, mas não temos uma pobreza igual em todo o lado. Há pessoas em zonas rurais que têm pensões de duzentos euros e que conseguem aforrar. Se vivermos em Lisboa, duzentos euros não chegam para ninguém sobreviver. Portanto, não é com medidas iguais para todos que se luta contra a pobreza (e, ainda por cima, dizemos lutar contra a pobreza em vez de erradicar a pobreza, isto é, partimos derrotados) e essa é uma luta desigual, se não tivermos muita consciência do que é que se passa no terreno.

Defende, portanto, medidas diferentes?
Medidas à medida do que as famílias precisam, das suas competências, e do que há no território. Porque há famílias que nem que tenham muito dinheiro vão alguma vez conseguir sair da pobreza. Se tiverem problemas de violência, saúde mental, etc., por muito dinheiro que tenham, não vão conseguir resolver o problema. Portanto, medidas à medida das situações e das oportunidades.

Mas como é que se consegue quebrar esta amarra da pobreza que, em Portugal, é algo que se herda?
Herda-se mesmo e esse é o problema. Até agora, apesar de termos hoje medidas de política social bastante mais intencionais, a verdade é que não conseguimos combater a pobreza. E a alteração da taxa é uma coisa relativamente pouco sentida no terreno: ser 16% ou 19% não é uma diferença que se note muito no terreno.

Não será por causa da lógica assistencialista na luta contra a pobreza que as pessoas, mesmo subindo acima da linha da pobreza, que estava em 2019 nos 540 euros mensais, estão demasiadamente expostas ao risco de voltarem a cair abaixo dessa linha?
Acho que isto não tem nada a ver com assistencialismo. O que as pessoas apontam como assistencialismo (ou caridade, ou o que for que as pessoas queiram utilizar como adjectivo) é um recurso que só pode deixar de existir quando a situação não for crítica. Há dois ritmos de olhar para o problema: um é o ritmo de dar de comer a quem tem fome e o outro é promover, inserir. O Rendimento Social de Inserção, por si só, como o próprio valor de referência que anda à volta dos 200 euros diz, não permite que ninguém mude de situação. Mas também sabemos que foi e tem sido muito importante para algumas situações de pobreza extrema. Mas não tirou ninguém da pobreza. Na génese, a ideia era que houvesse uma contratualização com as pessoas e essa contratualização passava por um investimento transversal a várias áreas governamentais que ia retirar a pessoa da pobreza. Essa intervenção ao nível do projecto de vida e da contratualização da situação é talvez uma falha do sistema porque, como dizia uma técnica da Cáritas que trabalha com o RSI, no último momento, quem está a trabalhar com o RSI é uma técnica sem recursos e uma família sem condições de vida.

No último momento, quem está a trabalhar com o RSI é uma técnica sem recursos e uma família sem condições de vida.

Como é que se garante que o RSI não se limita a aliviar aqui e ali as situações de pobreza, mas que é efectivamente capaz de retirar as pessoas dessa situação?
Este mecanismo devia envolver todas as áreas governamentais e não só uma. Se fizermos depender isto só da Segurança Social, por muito competente e capaz que a rede da Segurança Social seja no país, não consegue chegar às questões da habitação, da saúde, da educação. E sem agir nessas áreas todas não conseguimos tirar [as pessoas da pobreza] e vamos acabar por manter as famílias no mesmo nível do problema.

O RSI devia então sair da alçada exclusiva da Segurança Social e passar a ser interministerial?
Devia ser interministerial, sim. Seja qual for o modelo que queiram adoptar, o investimento tem de ser transversal. Na área da intervenção social, o trabalho em rede é uma necessidade absoluta. E a rede não é feita só por um, nem sequer é manejada só por um. E nós temos dificuldade em fazer rede com propósitos que às vezes podem ser plurianuais e que têm uma dimensão tempo bastante mais rápida do que os ciclos políticos.

O RSI já obriga a que as crianças frequentem a escola e à inscrição dos beneficiários nos centros de emprego. Há outras condições que deviam ser colocadas para garantir a eficácia desta ajuda?
A obrigatoriedade de as crianças frequentarem a escola foi um dos sucessos do RSI. É obrigatório estar registado no centro de emprego, no centro de saúde e frequentar o ensino. E isso fez diferença, mas estamos a falar da obrigatoriedade de cumprimento por parte de quem aufere do RSI. O resto, são caixas dos diversos serviços, que garantem o apoio mas não conversam entre si. Na fase piloto do então Rendimento Mínimo Garantido (RMG), houve um grande investimento nas equipas, nas redes, no investimento com propósito de olhar para cada caso e ver qual era o modelo, mas, por alguma razão, isso foi-se perdendo, até se deixar ficar de facto a intervenção reduzida a um técnico/uma família ou um técnico/um utente. E isso não vai fazer reverter a situação, além de podermos estar a sujeitar uma família a 50 atendimentos em sítios diferentes e eventualmente ao abuso na utilização dos recursos.

Sendo verdade que o RSI só chegou a 5% da população pobre, dever-se-ia alargar a base de elegibilidade do RSI, fazendo aproximar os seus valores da linha da pobreza, como vem defendendo Carlos Farinha Rodrigues?
Eu acho que isto não chega, porque isto não é uma questão de falta de dinheiro. Distribuir dinheiro não resolve as situações de pobreza, porque muitas são bastante mais subliminares do que só o dinheiro e o não poder comprar. Temos problemas de saúde mental graves - se há área que tem de ser chamada a este problema é a saúde mental na comunidade, na proximidade, não é a saúde mental de gabinete e de secretária. Depois temos dependências, problemas legais, problemas de vítimas de violência vária, nomeadamente a doméstica.

Em que é que os milhões do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) devem ser usados para que sirvam para alguma coisa?
Confesso que ainda não consegui ultrapassar o medo que tenho do PRR. Relembro o EQUAL [programa comunitário enquadrado na estratégia europeia de emprego visando as pessoas mais vulneráveis] e a quantidade de investimento na qualificação dos profissionais que se fez: eu hoje, se quiser procurar uma das ferramentas do EQUAL, nem sequer a encontro na Internet, porque as plataformas foram abaixo, etc.. Portanto, nós temos uma habilidade especial para o desperdício. O que é absolutamente contra a perspectiva que se devia ter quando temos tanta pobreza. Vivemos na abundância, temos para tudo, mas depois criamos desperdício sem resolver os problemas. Portanto, somos pobres a viver como ricos e temos pouca atenção às coisas que, se assumíssemos que vivemos numa sociedade escassa, faríamos. Quem percebe a escassez sabe que tem que poupar aqui, guardar ali, não pode deitar fora. E nós temos esta contradição em tudo. E por isso este meu medo do PRR. Acho que devemos todos ter muita consciência da forma como gastamos aquele dinheiro, como se fosse nosso, e de avaliar o impacto de cada medida passo a passo, para ter a certeza que é válida. E se não for, há que, com toda a honestidade e coragem, dizer que não.

Portugal soma quase 10% de trabalhadores pobres. Como é que o Estado devia responder a estas ineficiências do mercado de trabalho?
Se isto acontece, alguma coisa está mal. Acho que há duas áreas em que devíamos investir. Uma é saber como é que se garante um rendimento estável e adequado e um trabalho digno. Como é que dignificamos o trabalho de tal forma que quem trabalha não seja pobre? Pode ser por uma razão de rendimento desadequado, mas porquê? Pode ser porque é uma família extensa, e uma das coisas que um estudo publicado este ano mostra é que, quanto mais crianças existem a cargo, maior é a probabilidade de as famílias caírem na pobreza.

Mas e quais serão as respostas para que deixemos de ter uma percentagem tão significativa de trabalhadores pobres e para responder ao facto de a taxa de risco de pobreza nas famílias com três ou mais crianças a cargo estar quase nos 40%?
Mais uma vez, juntando a escola, juntando a saúde, a Segurança Social e juntando o Instituto de Emprego.

Aumentar o salário mínimo nacional não seria um primeiro passo?
Não sei se teremos capacidade para isso. Aumentar o nível do salário mínimo nacional seria importante, assim como as pensões muito baixas, mas nós temos que garantir a sustentabilidade das medidas. E não tenho a certeza se conseguimos suportar um aumento do salário mínimo. Em muitas empresas, associações e instituições que sobrevivem de pessoas que ganham o salário mínimo nacional, de cada vez que este aumenta, o sufoco de pagar salários é brutal.

O sector social é um dos sectores em que há mais trabalhadores com o salário mínimo. Não acha possível mudar essa realidade?
Essa situação tem que ser avaliada do ponto de vista da sustentabilidade. Claro que gostaria que o salário mínimo fosse mais alto, mas pode estar a acontecer que uma pessoa está a receber o salário mínimo e não consegue suportar a sua situação familiar porque há outra pessoa desempregada ou porque tem muitas crianças que precisam de determinado tipo de apoios que a família não consegue garantir, razão pela qual não levam os meninos a fazer avaliação precoce e estes chegam depois à escola com problemas de audição ou de visão. Seja qual for a pergunta, a matriz primeira é: em termos de resposta, tem de estar toda a gente junta, e temos que ir até ao limite das nossas possibilidades para garantir um salário digno e um trabalho digno para as pessoas todas.

O abono de família não poderia ser um recurso para obviar à situação das crianças e das famílias com crianças a cargo em situação de pobreza?
Sim, se essa for a solução para que as famílias não caíam nesse nível, sobretudo quanto têm um rendimento que poderia ser suficiente se não fossem as crianças. [O que temos de analisar é] o que é que leva à pobreza de uma determinada família. É ter três crianças e dois salários baixos? É ter três crianças e só um salário? Pode haver várias componentes que concorrem para resolver esta situação e não tem que ser por matriz única. Eu sei que isto é difícil, porque é muito mais fácil criar uma medida que seja universal e igual para todos, mas não há uma família igual à outra nem uma situação de pobreza igual à outra.

Como é que se posiciona perante a discussão sobre a criação de uma retribuição mínima garantida ou rendimento básico incondicional?
É uma coisa que merece a minha maior curiosidade. Tenho muita dificuldade em ver o impacto que isso pode ter. Há experiências destas com imenso sucesso e outras que tiveram que ser abandonadas, mas isso também aconteceu com o Rendimento Mínimo Garantido, com países que começaram com isto antes de nós e que terminaram quando nós estávamos a começar. Mas, aparentemente, seria óptimo, porque nos resolvia uma parte do problema. Se todas as pessoas tivessem um rendimento de referência e esse rendimento permitisse que elas não estivessem numa situação de pobreza, seria óptimo, mas tudo depende das condições que são atribuídas, porque temo que possa haver muitas pessoas que nunca vão procurar um trabalho.

Quando veio o RMG, tivemos uma crise nos primeiros meses com o recrutamento de ajudantes familiares. Porquê? Porque as pessoas tinham crianças e, com o valor do RMG, preferiram ficar em casa a tomar conta das crianças. Não pagando as creches e recebendo aquilo, era mais benéfico ficarem em casa e tomar conta das crianças. Isso depois alterou-se um bocadinho com a obrigatoriedade de as crianças irem para a escola - estas coisas também se vão corrigindo -, mas acho que há cautelas que devemos ter ao pensar uma medida destas. Será interessante ir trabalhar para as obras ou ser um ajudante de geriatria se houver um rendimento desse tipo? Ou nós vamos assumir salários mais baixos que somarão a essa prestação? Tudo depende das condições.

22.7.21

“Atirar milhões para cima da mesa esconde, mas não resolve problemas sociais”

Ângela Roque, in RR

A presidente da Cáritas espera que o dinheiro do PRR seja bem aplicado em medidas concretas de combate à pobreza, que tenham em conta o país real. Para Rita Valadas, os apoios dados pelo Governo na pandemia “almofadaram” o impacto da crise, mas não a evitaram, e “o pior ainda não chegou”.


A presidente da Cáritas diz que a crise social ainda não atingiu o pico. Em entrevista à Renascença, a propósito do debate sobre o Estado da Nação desta quarta-feira, Rita Valadas diz que ainda é cedo para avaliar o verdadeiro impacto da pandemia.


A responsável da Cáritas está preocupada com a “incerteza” que se vive, que dificulta planear o futuro. Espera que se aproveite bem o dinheiro do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a que a Cáritas também vai candidatar-se, para continuar a “acudir” aos mais frágeis. E garante que o Estado pode contar com a colaboração das instituições sociais e solidárias, mas tem de trabalhar mais em rede.

O parlamento vai debater o estado da Nação. Como presidente da Cáritas, como é que vê a situação do Estado em termos sociais?

Nós ainda estamos no meio de um enorme furacão. Vivemos uma realidade almofadada por algumas medidas do governo, que naturalmente protegeram o impacto nas empresas e nas pessoas. Nas empresas não temos a certeza se depois de deixarem de ter os suportes que têm neste momento vão ter, ou não, capacidade para fazer retoma. Eu fico sempre muito duvidosa das notícias que vão aparecendo, de que afinal é muito melhor do que se estava a pensar... Eu só sei ler as notícias do território, e ao território ainda não chegou o pior.

Tem essa perceção?

Tenho, porque se as empresas não fizerem retoma não vão conseguir manter o emprego. E ainda assim vamos ter aqui um delay de tempo. As crises sociais normalmente não são ao mesmo tempo das crises económicas, ou as do imobiliário. Neste caso a crise de saúde arrasta a económica e depois arrasta a social, e a social ainda não chegou em toda a sua plenitude.

Mas sabe-se que há um quinto da população portuguesa pobre, e até há um estudo que aponta para 400 mil novos pobres...

Esse dado é de um estudo da Universidade Católica, mas as avaliações e investigações não dão todas os mesmos valores. Por exemplo, os dados do Eurostat não falam em 400 mil novos pobres... Salvaguardado que não sou investigadora, os dados que temos – nós, Cáritas – são os da nossa realidade, e esses para mim são seguros e não se materializam na realidade de haver 400 mil novos pobres.

A Cáritas desenvolveu um programa para a pandemia que é o 'Vamos Inverter a Curva da Pobreza' – isto para além da ação normal da Cáritas, não estamos a falar dos programas que já se desenvolvem sempre e que sempre apoiaram as questões alimentares, as roupas, as famílias, etc. Mas este, o 'Vamos Inverter a Curva da Pobreza', entre 1 de maio de 2020 e 2 de julho de 2021 teve cerca de 16 mil pessoas apoiadas, o que corresponde a cerca de seis mil famílias, e destas há cerca de 2.900 famílias novas, que nunca recorreram à Cáritas.

"Ainda estamos no meio de um enorme furacão. Vivemos uma realidade almofadada por algumas medidas do governo. Ainda não chegou o pior"

Isso a nível nacional?

A nível nacional, e concretamente deste programa. Não estamos a falar do aumento, que também houve, do número de atendimentos em mais 10%, mas que também não é ao nível dos 400 mil mais pobres.

Neste mais de um ano demos apoio financeiro de emergência superior a 203 mil euros a 3.107 pessoas, e com vales de bens essenciais apoiámos 13.567 pessoas (quase cinco mil famílias), no valor de mais de 202 mil euros.

Com o 'Vamos Inverter a Curva da Pobreza' – que é um apoio para as situações que nos parecem diferentes das típicas – já aplicámos quase meio milhão de euros.

Sabemos que há um impacto que fustiga muitas famílias que não eram apoiadas antes por nós, e que as soluções já não podem ser as mesmas, porque muitas são famílias que estão no limitar da pobreza, mas até trabalham, o salário é insuficiente. E isto deve-nos convocar, na perspetiva do debate do estado da Nação! É uma questão crítica.

Ter trabalho não assegura rendimento suficiente.

Não assegura. E as medidas de apoio que existem abaixo do salário mínimo, muito menos: rendimento social de inserção, pensões sociais e afins, são panaceias para situações críticas, mas não são soluções de vida.

Como é que a Cáritas tem conseguido dar resposta? Não está também em dificuldades?

A Cáritas tem vindo a responder às necessidades que vão surgindo. Uma coisa boa que aconteceu na pandemia – se é que podemos dizer isto assim – foi que as pessoas, obrigadas a estar em casa, tiveram tempo para olhar para o que se passa à sua volta e no impacto que isso tem, e mobiliaram-se para apoiar. As empresas também ficaram a conhecer melhor a Cáritas.

Essa tem sido uma das suas apostas, o apoio das empresas. Está a correr bem?

Sim, é extraordinário que muitas, com quem nunca tínhamos colaborado, se aproximem e digam: ‘nós fazemos responsabilidade social e queremos fazer isso convosco’. Não fazemos procura ativa, mas divulgamos o que fazemos e como aplicamos o dinheiro. Vivemos tempos de falta de confiança nos dinheiros que são entregues ou doados, por isso é muito importante que pessoas e empresas saibam exatamente a aplicação que existe.

Temos um boletim de doadores onde são divulgados todos os donativos existentes, e temos um enorme orgulho em identificar o apoio que estamos a receber. Como eu já disse uma vez: a crise não foi de solidariedade, mas é preciso muita solidariedade.

E continuam capilarmente no terreno?

A Cáritas em Portugal é um serviço prestado por 20 dioceses, e a Cáritas Portuguesa é um serviço para estas dioceses. A Cáritas só faz aquilo que é preciso no seu território e que mais ninguém consegue fazer, no sentido de apoiar os mais vulneráveis dos vulneráveis. Mas há todo um trabalho que é feito ao nível do território, cuja avaliação não temos.

Seria importante ter?

Se tivéssemos informação plena de todo o atendimento que se faz, certamente teríamos noção do que é que é pobreza. Sabemos que há idosos em aldeias remotas que conseguem fazer poupança de pensões de 200 euros, e mandar para a família, e sabemos que com 200 euros um idoso na cidade não consegue sobreviver se não tiver outro tipo de apoio. Por isso é que eu digo: é muito importante definir estratégias, mas é preciso que essas estratégias tenham uma leitura da realidade.

Tem havido noção do país real, e dessas nuances e diferenças, quando se elaboram estratégias e políticas públicas?

Ao nível estratégico, da definição de estratégias, não há. Ao nível dos territórios, cada junta de freguesia saberá o que se passa, como cada paróquia sabe.

As instituições de proximidade…

Essas sabem o que se passa lá, têm grande capacidade para resolver as situações de emergência e os problemas dos seus mais próximos, mas não têm a dimensão estratégica. Por isso é que muitas vezes se sente que as estratégias que são criadas não são para os pobres, porque não chega lá. E é esse o meu temor em relação ao PRR.

Ter muitos milhões não significa resolver os problemas. Atirar milhões para cima da mesa esconde os problemas sociais, mas não os resolve. Para quem trabalha próximo, tirar uma pessoa da pobreza é uma grande vitória. Para quem trabalha estratégias, tirar uma pessoa da pobreza nem chega a ser estatística, não tem expressão.

O PRR devia incluir medidas concretas de combate à pobreza e às desigualdades?

Tem de incluir. Espero que aquilo que existe sobre o Plano de Recuperação e Resiliência seja uma perspetiva intencional, a concretização passa por planos mais finos.

"Preocupa-me o desconhecimento permanente em que se vive. Aquilo que eu sinto sempre é que não é possível planear nada neste momento em Portugal"


O governo tem tido em conta o trabalho das instituições sociais e solidárias, como a Cáritas, e as propostas que têm? Essa colaboração devia desenvolver-se mais?

Tem de se desenvolver mais. Somos um país pobre, não somos um país rico, por isso temos todos que juntar esforços e recursos para resolver os problemas.

Trabalhar mais em rede?

Trabalhar mais em rede. Fazer rede, nalguns casos nem existe! Fazer rede, garantir a rede e trabalhar mais. Das experiências que tenho, de passagem por algumas crises, as instituições, se ouvidas, põem tudo em cima da mesa. A questão é que têm de ser ouvidas. E os programas que vierem também têm de ser adaptados às realidades de Portugal. Têm de se definir programas que sejam para resolver os problemas e não para perpetuar a situação que temos, isso é que não pode ser.

A Cáritas também vai ser candidata a beneficiar dos dinheiros do PRR?

Todos temos de ser. Se não é para deixar ninguém de fora, se temos de acudir a todas as pessoas, temos de ter todos os recursos. A Cáritas tem um potencial especial, porque consegue ter um olhar nacional – e até internacional, com a Cáritas Europa e a Cáritas Internacionalis – e agir sobre os territórios. Tudo o que entendermos que pode ser um recurso para desenvolver soluções que resolvam os problemas dos mais vulneráveis, naturalmente vamos aproveitar. O que nós fazemos é quase redistribuição, é juntar as boas vontades às grandes necessidades e proteger os mais frágeis.

As medidas que o governo tomou ao longo deste ano de pandemia foram as suficientes? Ou podia ter-se ido mais longe?

Gostava que se pudesse ter ido mais longe, mas acredito que se tomaram as medidas possíveis. Fizeram muita diferença na vida dos portugueses, mas não resolveram os problemas. A saída das almofadas é que é o problema para mim. Temos de saber sair sem deixar cair as pessoas.

A questão das moratórias é uma preocupação?

É. Numa perspetiva generalista, as medidas que houve foram boas, permitam que muitas pessoas não caíssem rapidamente, mas era preciso que a retoma da economia fosse anterior ao fim das almofadas, só que isso não é possível, porque não se sabe quando a situação vai acabar. Vivemos num equilíbrio extraordinariamente difícil em que temos que utilizar o melhor possível este PRR, e o melhor possível todos os recursos que temos no país, a começar pela proximidade no que diz respeito às famílias.

O que é que a preocupa mais neste momento no país?

Preocupa-me o desconhecimento permanente em que se vive. Na verdade, aquilo que eu sinto sempre é que não é possível planear nada neste momento em Portugal. É preciso ser extraordinariamente flexível, estar muito atento e alerta, porque a cada dia pode-nos ser pedida uma coisa diferente, e isso, para quem tem esta responsabilidade de acudir aos mais frágeis, é extraordinariamente difícil, porque não há forma de priorizar, temos de acudir!

As situações são muito críticas, mas nós percecionamos que podem ser mais. Sabemos que temos rapidamente de entrar numa perspetiva de cuidar das famílias, para que elas possam estar autónomas, e não sabemos como o fazer, porque não sabemos até onde esta crise vai, o que é que mais nos vai ser pedido. Mas temos de começar a ter estas duas perspetivas: não viver constantemente em emergência e, ao mesmo tempo, perceber quais são os pequenos passos que temos de dar na solução de alguma coisa. Mas, a incerteza...eu diria que a incerteza é o que mais me preocupa.