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7.9.23

Sem poupar e a cortar despesas. Um retrato da pobreza e precariedade em Portugal

João Pedro Quesado, in RR

Oito por cento dos portugueses inquiridos dizem que chegam ao fim do mês sem dinheiro. Mudar os comportamentos é a solução de muitos para combater a crise, mas isso leva a evitar refeições ou optar por não aquecer a casa quando têm frio.

Mais de seis em cada 10 portugueses não têm possibilidade de poupar dinheiro ao fim do mês, uma situação semelhante à da Roménia e que é pior apenas na Sérvia, na Moldávia e na Grécia. Esta é uma das conclusões do Barómetro Europeu sobre a Pobreza e Precariedade, lançado esta quarta-feira, que aponta que o salário de metade dos portugueses não cobre as despesas.

Portugal foi incluído na segunda edição deste estudo, uma sondagem da Ipsos realizada para a Secours Populaire Français, uma organização não-governamental que retrata uma situação social preocupante em dez países europeus - Alemanha, França, Grécia, Itália, Moldávia, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia e Sérvia.

A dificuldade em poupar dinheiro ao fim do mês anda de mão dada com o sentimento de que os salários não chegam para as despesas mensais. Entre os portugueses inquiridos, 8% não consegue chegar ao fim do mês sem ficar sem dinheiro. Têm cada vez mais dificuldades em chegar ao fim do mês e têm medo de cair na precariedade – onde 2% dos portugueses já estão.

Mas a precariedade pode ser mais abrangente do que simplesmente ter dinheiro suficiente para chegar ao fim do mês. Quando questionados sobre a situação financeira atual, 35% dos portugueses dizem que estão numa situação precária, e que uma despesa inesperada pode desequilibrar a balança.

A somar a isto, 40% dos portugueses sentem-se em risco alto de entrar numa situação de insegurança financeira nos próximos meses – um sentimento semelhante - em proporção - às populações francesa e alemã.

Assim, os portugueses, como os restantes europeus, estão preocupados com a sua capacidade de lidar com a inflação nos produtos alimentares (69%), manter um padrão de vida “decente” depois da reforma (64%) e lidar com despesas inesperadas (67%).

Metade dos portugueses também estão preocupados com a capacidade de pagar as contas todos os meses.

Portugueses cortam nas despesas para sobreviver

Em resposta a uma situação em que 35% dos portugueses consideram que o seu poder de compra diminuiu bastante e 88% apontam o aumento de preços como principal razão, os comportamentos também se alteram.

Nos últimos seis meses, 48% dos portugueses já viveram situações como optar por não aquecer a casa, desistir de tratar um problema de saúde, saltar refeições e pedir dinheiro emprestado.

Em Portugal, 12% dos pais de crianças e jovens até aos 18 anos também dizem que já tiveram dificuldades em corresponder às necessidades básicas das crianças, como a alimentação, a saúde, as despesas escolares e comprar roupa.

Mais de um quarto dos pais - 27% - diz ainda que nem sempre comem o suficiente para poder alimentar os filhos, enquanto 28% dos portugueses deixaram de fazer três refeições por dia pelo menos algumas vezes.

93% dos portugueses inquiridos dizem que procuram sempre preços baixos e descontos quando fazem as compras. 11% pede o apoio de organização como a Cáritas para a alimentação.

30.5.23

“É preciso travar o círculo vicioso da pobreza infantil”, alerta Rede Europeia

Henrique Cunha, in RR

Em 2020 “o risco de pobreza nos menores de 18 anos era de 20,4%, ou seja, uma em cada quatro criança eram pobres”.

Na contagem decrescente para a celebração do Dia Mundial da Criança, a Rede Europeia de Luta contra a Pobreza (EAPN) alerta para a necessidade de se investir “na prevenção ao nível da saúde e da educação”.

Em entrevista à Renascença, Fátima Veiga, sociologia e responsável pelo gabinete de investigação e projetos da EAPN admite que os indicadores deste ano em relação à pobreza infantil “possam ser mais negativos por força da pandemia, e da crise financeira”.

De acordo com esta especialista na área da pobreza infantil, em 2020 “o risco de pobreza nos menores de 18 anos era de 20,4%, ou seja, uma em cada quatro criança eram pobres”. Os números baixaram em 2021 para os 18,5%, mas a descida "muito provavelmente tem a ver com os apoios que o Estado foi realizando junto das famílias por via sobretudo do abono de família".

Fátima Veiga diz que a redução “não é significativa” e que ocorre “num período que não envolve ainda a guerra, a crise inflacionária e os aumentos do custo da energia e dos bens alimentares”. Neste contexto, Fátima Veiga admite que "os dados deste ano serão provavelmente piores".

A especialista em pobreza infantil defende que é necessário “investir na prevenção ao nível da saúde e da educação, e numa política de distribuição de rendimentos mais igualitária porque a pandemia provou-nos que as crianças nas escolas não estão todas ao mesmo nível”. “Até podem ter um computador, mas podem não ter luz em casa, ou um quarto para estudar ou uma divisão sem barulho”, esclarece.

Fátima Veiga sublinha que todas estas diferenças são prejudiciais “ao normal desenvolvimento da criança”, pelo que é decisivo “apostar em políticas que possam travar o círculo da pobreza”.

10.1.23

Falta de habitação e baixos salários entre os seis maiores problemas a chegar às instituições

Raquel Albuquerque, in Expresso

Mais de 20% das famílias que pediram ajuda à Deco este ano ganham menos do que o salário mínimo. Quase 70% trabalham
As carências sociais de migrantes e de estudantes universitários estão entre os seis maiores problemas a chegar às instituições. A falta de habitação e os baixos salários, transversais a todo o país, são considerados os mais difíceis de resolver.

RENDAS INACESSÍVEIS

Faltam casas, não há habitação social, as rendas não são compatíveis com os salários e a sobrelotação está a tornar-se mais frequente, dizem as instituições sociais. As dificuldades não estão só nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto, mas em muitos outros pontos do país, como Faro, Beja, Castelo Branco, Coimbra ou Portalegre. “Existe pouca habitação social e é muito difícil arrendar. Um T2 ronda os €700 na cidade de Faro, e isso é um salário mínimo”, resume Ana Sofia Pereira, da Cáritas do Algarve. Em Setúbal, a pandemia aumentou o número de sem-abrigo, o que levou a instituição a arrendar apartamentos partilhados, através de um protocolo com a Segurança Social, para acomodar cerca de 15 pessoas que ficaram sem casa. As autarquias também não conseguem dar resposta aos pedidos de apoio das famílias, incluindo de migrantes que chegam como resposta à falta de mão de obra em áreas como a agricultura.

MIGRANTES COM CARÊNCIAS SOCIAIS

As instituições descrevem um crescimento gradual do número de migrantes a pedirem apoio, tanto por falta de habitação como por terem rendimentos instáveis e insuficientes para as despesas. Em Beja, o aumento do fluxo migratório é visível. “O acréscimo já não tem a ver com a pandemia, é mesmo uma nova realidade. Inicialmente, os migrantes vinham de forma temporária, com contratações sazonais. Mas o aumento da área agrícola no Alentejo, com maior exigência de mão de obra, gerou fluxos permanentes ao longo de todo o ano”, explica Teresa Martins, do Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes ­(CLAIM) de Beja. A outros pontos do país, como Coimbra, chegam também cada vez mais famílias oriundas de países africanos e do Brasil. “Temos tido muita procura de famílias com filhos que chegam para trabalhar e trazem algumas poupanças. Empregam-se na restauração, limpezas ou construção civil, mas o que ganham não chega e a certa altura ficam completamente desprotegidas”, relata Ana Paula Cordeiro, da Cáritas de Coimbra. Em Viana do Castelo, por exemplo, aumentam os pedidos de famílias oriundas do Brasil, Cabo Verde e São Tomé.

ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS SEM BOLSA

Um dos grupos a que as instituições sociais tiveram de prestar apoio nos dois últimos anos foram os estudantes universitários, sobretudo oriundos de países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), em locais distintos como Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Guarda ou Faro. Logo no início da pandemia, chegaram diretamente ao Banco Alimentar de Castelo Branco pedidos de quase 100 alunos que tinham ficado sem nada. “Uns têm bolsas dos seus países de origem, outros nem isso têm e vivem com muitas dificuldades, inteiramente dependentes de trabalhos temporários ou em part-time, muitas vezes de forma precária e irregular. Na pandemia ficaram privados desses rendimentos e tiveram de pedir ajuda para comer, pagar renda ou propinas. Houve mesmo situações de fome, porque tiveram vergonha de pedir apoio”, relata Cristina Figueiredo, da Cáritas de Bragança. Ainda hoje as instituições continuam a ­apoiar alguns destes estudantes universitários.

RENDIMENTOS INSUFICIENTES PARA O BÁSICO

Quase dois terços do apoio dado pela Cáritas nestes dois anos destinaram-se a pagar rendas. E 26% do montante atribuído pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa às famílias em 2021 também foi aplicado em rendas, quartos e pensões. Consultas médicas e medicação são outras das despesas básicas que nem todas as famílias conseguem pagar, incluin­do idosos com pensões baixas. A pandemia fez disparar em 33% o número de beneficiários do programa Abem, que se destina a pagar medicamentos prescritos a quem não os consegue comprar. O projeto da Associação Dignitude abrange agora 28 mil pessoas e a grande maioria deixava de pagar outras despesas para poder comprar os medicamentos. Os transportes são outro problema. Em Viseu, que assistiu a um alívio das dificuldades em 2021, a realidade parece estar agora a agravar-se. “As pessoas retomaram os seus empregos, mas nota-se um aumento do custo de vida, por exemplo nos transportes. As que trabalham a uma certa distância de casa são obrigadas a usar carro, porque a rede de transportes públicos não permite equilibrar horários. E as que fazem uma centena de quilómetros diariamente dificilmente conseguem agora suportar a despesa”, afirma Felisberto Marques, diretor da Cáritas de Viseu. “Além disso, vemos aumentar os pedidos de ajuda com rendas, medicamentos, luz e gás.”

CONTAS POR PAGAR E ENDIVIDAMENTO

Para muitas famílias, a pandemia deixou um peso acrescido: despesas por pagar. Há quem tenha já pedido planos de fracionamento de dívidas, como rendas ou contas da luz e telecomunicações em atraso, juntando agora a prestação em atraso às despesas correntes. “Basta pensar como é que um reformado com €400 de pensão consegue pagar a renda, os medicamentos, luz, água e gás, além das compras no supermercado”, lembra Natália Nunes, diretora do Gabinete de Proteção Financeira da Deco, que apoia pessoas endividadas. Quase 70% das famílias que recorreram aos serviços este ano estão a trabalhar. “E mais de 20% têm rendimentos até ao salário mínimo nacional, ou seja, menos de €705.” O principal motivo para as dificuldades atuais destas famílias é a diminuição de rendimentos, “seja de trabalho informal que deixou de existir, das horas extraordinárias que não foram recuperadas ou dos negócios que encerraram e que não só deixaram de ser fonte de rendimento como agora significam um aumento de dívidas”, descreve a especialista da Deco.

POBREZA PERSISTENTE

De crise em crise, há sempre uma franja da população que não recupera, dependendo de ­apoios sociais para subsistir. Todas as instituições lidam com esse lado persistente da pobreza, que exige uma atenção particular, frisa Ana Soeiro, da Cáritas de Beja. “Era preciso trabalhar as competências pessoais e sociais destas pessoas para lhes permitir quebrar o ciclo e ver a vida por outro prisma.”





21.11.22

Como "Sobreviver à inflação"? Deco propõe 26 medidas para ajudar famílias a evitar rutura financeira





Associação de defesa do consumidor vai enviar pacote ao Governo e aos grupos parlamentares. "Desde setembro a esta parte estamos a verificar que as famílias estão a conseguir suportar estas primeiras revisões do crédito", alerta Natália Nunes.

A Deco vai propor ao Governo 26 medidas para evitar que famílias entrem em rutura financeira numa altura em que, devido à subida dos preços e juros, cada vez mais receiam não conseguir acomodar a próxima revisão do empréstimo.

Do pacote intitulado "Sobreviver à inflação", que vai ser enviado ao Executivo e aos grupos parlamentares, fazem parte a isenção temporária do IVA de produtos alimentares e a criação de uma comissão de acompanhamento da evolução dos preços de bens cuja taxa de IVA seja alvo de alteração.

Ainda na vertente fiscal, defende-se a criação de um incentivo à poupança, a garantia da dedução em sede de IRS dos juros com o crédito à habitação (para todos os contratos) ou o alargamento da isenção do IMI (de três para cinco anos, no temporário e alargamento das condições da isenção permanente), com a coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da Deco, Natália Nunes, a sublinhar a importância de estas medidas serem ainda incluídas no Orçamento do Estado para 2023 (OE2023).

Natália Nunes precisou que o objetivo é "ajudar a manter o orçamento numa situação positiva", evitado que as famílias entrem uma situação de rutura e mantenham a capacidade de pagar a sua fatura de serviços públicos essenciais ou a prestação do empréstimo da casa.

O pacote de propostas - que inclui algumas que a Deco já tinha apresentado - foi delineado também para dar resposta à tipologia de situações e de pedidos de informação que nos últimos meses começou a chegar ao GPF.

"Desde setembro a esta parte estamos a verificar que as famílias estão a conseguir suportar estas primeiras revisões do crédito, mas manifestam grande preocupação com as próximas revisões e anteveem que nas próximas revisões vão ter alguma ou muita dificuldade em pagar", precisou Natália Nunes.
Refeição gratuitas nas escolas, limites às comissões bancárias entre as 26 medidas

Em causa estão famílias de baixos ou médios rendimentos, algumas sem créditos ou com empréstimos com uma taxa de esforço muito reduzida, e também famílias com uma taxa de esforço acima dos 35% que no atual contexto de inflação elevada (traduzida na conta da energia, combustíveis, alimentação ou prestação da casa) estão apreensivas com o futuro e que precisam de algum apoio que mitigue esta situação.

"Entendemos que estas famílias devem ter ajudas além das que já foram consagradas este ano" diz a coordenadora do GPF, notando que os dados que vão sendo divulgados mostram que as pessoas "vão continuar confrontadas com aumentos de preços e a expectativa é que os rendimentos não acompanhem a inflação", sendo "necessário dar garantias de acesso aos bens e serviços e essenciais".

Entre as 26 medidas inclui-se o alargamento das refeições escolares gratuitas, a imposição de limites nas comissões bancárias evitando um aumento de preços da banca, a aplicação de uma taxa reduzida de IVA em todas as componentes da fatura da eletricidade, gás, água, saneamento, resíduos e comunicações, ou aplicação da taxa reduzida de IVA ao gás GPL engarrafado.

A Deco defende ainda a proibição do aumento das mensalidades das comunicações eletrónicas em 2023, a proibição do aumento das tarifas de utilização das vias concessionadas, o alargamento da tarifa social na água, ou o alargamento do sistema de apoio ao sobre-endividamento ao sistema judicial.

A Deco considera também essencial a criação de legislação que reforce a transparência e a obrigação de informação ao consumidor em produtos alvo de reduflação ou que a referida comissão de fiscalização e acompanhamento da evolução dos preços de produtos com alteração de IVA atue no sentido de prevenir práticas empresariais que lesem os consumidores neste contexto de inflação elevada.

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23.2.22

Uma em cada 10 crianças deixou de poder ter atividades extra em 2021

in RR

Segundo o INE, foi diminuindo a possibilidade das crianças de comprar roupa ou conviver com amigos fora da escola. No início de 2021, havia quase 1,5 milhões de crianças com menos de 16 anos.

A privação material e social atingiu 10,7% das crianças em Portugal no ano passado, revela o Instituto Nacional de Estatística (INE) nesta terça-feira.

Para a população em geral, este indicador é de 13,5%, segundo a mesma fonte, que publicou os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento.

As dificuldades económicas destes agregados impedem que 15,5% das crianças tenham possibilidade de passar férias fora de casa pelo menos uma semana por ano.

De acordo com o INE, 9,7% das crianças fica igualmente fora da participação regular numa atividade extracurricular ou de lazer.

Há ainda uma percentagem de 6,6% que não pode participar em viagens e atividades escolares não gratuitas.

Os dados indicam que 4,3% das crianças nesta situação não têm possibilidade de substituição de roupa usada por alguma roupa nova.

As condições das famílias impedem também que 1,6% dos menores possa "celebrar em ocasiões especiais" e que 1,5% tenha a possibilidade de convidar amigos de vez em quando para brincarem e comerem juntos.

Rede Europeia Anti-Pobreza alerta para o "colapso" de muitas famílias



O INE apurou ainda que mais de metade dos adultos com filhos menores fora do agregado tinha idades dos 40 aos 44 anos (29,1%) e dos 45 aos 49 anos (23,1%). Cerca de 93,8% eram homens. A maioria dos filhos menores fora do agregado tinha entre 10 e 13 anos (29,0%) e entre 14 e 17 anos (31,2%).

"Apesar das restrições associadas à pandemia de Covid-19, 41,6% referiram ter partilhado presencialmente tempo com os filhos fora do agregado todas as semanas, por exemplo, em refeições, brincadeiras, trabalhos de casa, passeios, conversas, deslocações casa/escola, e 15,9% todos os dias", segundo a informação divulgada pelo Instituto.

Cerca de 42,3% referiu ter contactado os filhos fora do agregado todos os dias através do telefone, videochamada ou redes sociais, enquanto 32,1% o fez todas as semanas.

De acordo com o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, existiam quase 1,5 milhões de crianças com menos de 16 anos no início de 2021, a maioria em famílias compostas por dois adultos e uma criança dependente (20,3%) ou por dois adultos e duas crianças dependentes (32,4%).


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2.8.21

Rita Valadas: “A crise social ainda não chegou”

  e 

A presidente da direcção da Cáritas Portuguesa avisa que a crise social ainda está para chegar e, assumindo o seu receio pela gestão dos milhões do Plano de Recuperação e Resiliência, avisa que distribuir dinheiro não resolve as situações de pobreza.

A crise social que irá emergir desta pandemia tem vindo a ser adiada por força das moratórias e dos apoios ao layoff simplificado, avisa a presidente da direcção da Cáritas Portuguesa. E porque a pobreza não se resolve atirando-lhe com milhões em cima, Rita Valadas defende a criação de medidas ajustadas às necessidades de cada família e de cada território e que o Rendimento Social de Inserção deve sair da alçada exclusiva da Segurança Social para passar a ser uma medida interministerial.

Como avalia o risco de agravamento da pobreza em Portugal ao longo de 2021 e nos tempos que se seguem?
É uma fonte mais de dúvidas do que certezas, até porque as estatísticas e os estudos contradizem-se entre si e eu tenho duas perspectivas: uma perspectiva que advém dos dados do Eurostat, que referem que houve uma relativa estabilização do risco de pobreza ao longo de 2020, e depois tenho a percepção do território que mostra um agravamento das situações e que nos aparecem muitas famílias que não recorriam à Cáritas e que precisam agora da nossa ajuda. Algumas dessas famílias elas próprias ajudavam outras, o que é um bocadinho assustador, mas corresponde à realidade em que famílias de classe média se vêem agora.

Qual foi o tipo de apoio mais procurado?
Para além do apoio alimentar normal, que mantivemos exactamente igual, reforçámos o sistema de vales de bens essenciais, que podem ser descontados tanto em bens alimentares como em outros bens essenciais, e houve aqui um grande incremento. E depois, nos apoios económicos, o maior pedido foi para apoios à renda de casa. O pânico de ficar sem casa é muito real e muitas pessoas que viram o seu rendimento baixar deixaram de ter condições para resolver esse problema.

A diminuição de rendimentos nestas famílias de classe média decorre de que factor?
São aquelas famílias que viviam, por exemplo, de pequenos negócios, ou que estavam dependentes do turismo e restauração, cujos negócios foram suspensos. Isto começou logo em Abril de 2020, nessa altura já estávamos a ter pedidos, e continua até hoje, tanto que este programa, que supostamente ia ter três meses, ainda está activo e ainda estará, porque creio que a crise social ainda não chegou. Esta crise sanitária teve algumas almofadas fortes, mas que não resolvem os problemas.

As moratórias?


E o layoff. Há várias empresas que só vão perceber se conseguem fazer a retoma no momento em que as coisas estiverem mais normalizadas. Nessa altura, vão perceber se podem manter o número de empregos ou se vão ter que passar a recrutar menos pessoas.

Por isso diz que a crise ainda não chegou?

Sim, porque o tempo da crise social é sempre diferente do tempo da crise económica. A situação das pessoas só começa a ser visivelmente crítica quando as empresas que lhes pagam o salário não conseguem manter o emprego. E só quando o subsídio de desemprego acaba, sem que a economia tenha feito uma retoma, é que as pessoas caem em crise.

A taxa de risco de pobreza em Portugal estava nos 16,2% em 2019. Corremos o risco de voltar aos 19,5% de 2013 e 2014?
É possível que isso aconteça, mas não tenho condições de adivinhar o que aí vem. Se conseguirmos fazer uma retoma segura, se utilizarmos os recursos que aí vêm com muito propósito e muita intenção, talvez consigamos que as pessoas não caiam no desemprego.

Não é com medidas iguais para todos que se luta contra a pobreza

O que quer dizer com uma “retoma segura”?
Significa que vamos ter que avaliar as necessidades e as potencialidades dos territórios. Nós somos um país pobre, mas não temos uma pobreza igual em todo o lado. Há pessoas em zonas rurais que têm pensões de duzentos euros e que conseguem aforrar. Se vivermos em Lisboa, duzentos euros não chegam para ninguém sobreviver. Portanto, não é com medidas iguais para todos que se luta contra a pobreza (e, ainda por cima, dizemos lutar contra a pobreza em vez de erradicar a pobreza, isto é, partimos derrotados) e essa é uma luta desigual, se não tivermos muita consciência do que é que se passa no terreno.

Defende, portanto, medidas diferentes?
Medidas à medida do que as famílias precisam, das suas competências, e do que há no território. Porque há famílias que nem que tenham muito dinheiro vão alguma vez conseguir sair da pobreza. Se tiverem problemas de violência, saúde mental, etc., por muito dinheiro que tenham, não vão conseguir resolver o problema. Portanto, medidas à medida das situações e das oportunidades.

Mas como é que se consegue quebrar esta amarra da pobreza que, em Portugal, é algo que se herda?
Herda-se mesmo e esse é o problema. Até agora, apesar de termos hoje medidas de política social bastante mais intencionais, a verdade é que não conseguimos combater a pobreza. E a alteração da taxa é uma coisa relativamente pouco sentida no terreno: ser 16% ou 19% não é uma diferença que se note muito no terreno.

Não será por causa da lógica assistencialista na luta contra a pobreza que as pessoas, mesmo subindo acima da linha da pobreza, que estava em 2019 nos 540 euros mensais, estão demasiadamente expostas ao risco de voltarem a cair abaixo dessa linha?
Acho que isto não tem nada a ver com assistencialismo. O que as pessoas apontam como assistencialismo (ou caridade, ou o que for que as pessoas queiram utilizar como adjectivo) é um recurso que só pode deixar de existir quando a situação não for crítica. Há dois ritmos de olhar para o problema: um é o ritmo de dar de comer a quem tem fome e o outro é promover, inserir. O Rendimento Social de Inserção, por si só, como o próprio valor de referência que anda à volta dos 200 euros diz, não permite que ninguém mude de situação. Mas também sabemos que foi e tem sido muito importante para algumas situações de pobreza extrema. Mas não tirou ninguém da pobreza. Na génese, a ideia era que houvesse uma contratualização com as pessoas e essa contratualização passava por um investimento transversal a várias áreas governamentais que ia retirar a pessoa da pobreza. Essa intervenção ao nível do projecto de vida e da contratualização da situação é talvez uma falha do sistema porque, como dizia uma técnica da Cáritas que trabalha com o RSI, no último momento, quem está a trabalhar com o RSI é uma técnica sem recursos e uma família sem condições de vida.

No último momento, quem está a trabalhar com o RSI é uma técnica sem recursos e uma família sem condições de vida.

Como é que se garante que o RSI não se limita a aliviar aqui e ali as situações de pobreza, mas que é efectivamente capaz de retirar as pessoas dessa situação?
Este mecanismo devia envolver todas as áreas governamentais e não só uma. Se fizermos depender isto só da Segurança Social, por muito competente e capaz que a rede da Segurança Social seja no país, não consegue chegar às questões da habitação, da saúde, da educação. E sem agir nessas áreas todas não conseguimos tirar [as pessoas da pobreza] e vamos acabar por manter as famílias no mesmo nível do problema.

O RSI devia então sair da alçada exclusiva da Segurança Social e passar a ser interministerial?
Devia ser interministerial, sim. Seja qual for o modelo que queiram adoptar, o investimento tem de ser transversal. Na área da intervenção social, o trabalho em rede é uma necessidade absoluta. E a rede não é feita só por um, nem sequer é manejada só por um. E nós temos dificuldade em fazer rede com propósitos que às vezes podem ser plurianuais e que têm uma dimensão tempo bastante mais rápida do que os ciclos políticos.

O RSI já obriga a que as crianças frequentem a escola e à inscrição dos beneficiários nos centros de emprego. Há outras condições que deviam ser colocadas para garantir a eficácia desta ajuda?
A obrigatoriedade de as crianças frequentarem a escola foi um dos sucessos do RSI. É obrigatório estar registado no centro de emprego, no centro de saúde e frequentar o ensino. E isso fez diferença, mas estamos a falar da obrigatoriedade de cumprimento por parte de quem aufere do RSI. O resto, são caixas dos diversos serviços, que garantem o apoio mas não conversam entre si. Na fase piloto do então Rendimento Mínimo Garantido (RMG), houve um grande investimento nas equipas, nas redes, no investimento com propósito de olhar para cada caso e ver qual era o modelo, mas, por alguma razão, isso foi-se perdendo, até se deixar ficar de facto a intervenção reduzida a um técnico/uma família ou um técnico/um utente. E isso não vai fazer reverter a situação, além de podermos estar a sujeitar uma família a 50 atendimentos em sítios diferentes e eventualmente ao abuso na utilização dos recursos.

Sendo verdade que o RSI só chegou a 5% da população pobre, dever-se-ia alargar a base de elegibilidade do RSI, fazendo aproximar os seus valores da linha da pobreza, como vem defendendo Carlos Farinha Rodrigues?
Eu acho que isto não chega, porque isto não é uma questão de falta de dinheiro. Distribuir dinheiro não resolve as situações de pobreza, porque muitas são bastante mais subliminares do que só o dinheiro e o não poder comprar. Temos problemas de saúde mental graves - se há área que tem de ser chamada a este problema é a saúde mental na comunidade, na proximidade, não é a saúde mental de gabinete e de secretária. Depois temos dependências, problemas legais, problemas de vítimas de violência vária, nomeadamente a doméstica.

Em que é que os milhões do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) devem ser usados para que sirvam para alguma coisa?
Confesso que ainda não consegui ultrapassar o medo que tenho do PRR. Relembro o EQUAL [programa comunitário enquadrado na estratégia europeia de emprego visando as pessoas mais vulneráveis] e a quantidade de investimento na qualificação dos profissionais que se fez: eu hoje, se quiser procurar uma das ferramentas do EQUAL, nem sequer a encontro na Internet, porque as plataformas foram abaixo, etc.. Portanto, nós temos uma habilidade especial para o desperdício. O que é absolutamente contra a perspectiva que se devia ter quando temos tanta pobreza. Vivemos na abundância, temos para tudo, mas depois criamos desperdício sem resolver os problemas. Portanto, somos pobres a viver como ricos e temos pouca atenção às coisas que, se assumíssemos que vivemos numa sociedade escassa, faríamos. Quem percebe a escassez sabe que tem que poupar aqui, guardar ali, não pode deitar fora. E nós temos esta contradição em tudo. E por isso este meu medo do PRR. Acho que devemos todos ter muita consciência da forma como gastamos aquele dinheiro, como se fosse nosso, e de avaliar o impacto de cada medida passo a passo, para ter a certeza que é válida. E se não for, há que, com toda a honestidade e coragem, dizer que não.

Portugal soma quase 10% de trabalhadores pobres. Como é que o Estado devia responder a estas ineficiências do mercado de trabalho?
Se isto acontece, alguma coisa está mal. Acho que há duas áreas em que devíamos investir. Uma é saber como é que se garante um rendimento estável e adequado e um trabalho digno. Como é que dignificamos o trabalho de tal forma que quem trabalha não seja pobre? Pode ser por uma razão de rendimento desadequado, mas porquê? Pode ser porque é uma família extensa, e uma das coisas que um estudo publicado este ano mostra é que, quanto mais crianças existem a cargo, maior é a probabilidade de as famílias caírem na pobreza.

Mas e quais serão as respostas para que deixemos de ter uma percentagem tão significativa de trabalhadores pobres e para responder ao facto de a taxa de risco de pobreza nas famílias com três ou mais crianças a cargo estar quase nos 40%?
Mais uma vez, juntando a escola, juntando a saúde, a Segurança Social e juntando o Instituto de Emprego.

Aumentar o salário mínimo nacional não seria um primeiro passo?
Não sei se teremos capacidade para isso. Aumentar o nível do salário mínimo nacional seria importante, assim como as pensões muito baixas, mas nós temos que garantir a sustentabilidade das medidas. E não tenho a certeza se conseguimos suportar um aumento do salário mínimo. Em muitas empresas, associações e instituições que sobrevivem de pessoas que ganham o salário mínimo nacional, de cada vez que este aumenta, o sufoco de pagar salários é brutal.

O sector social é um dos sectores em que há mais trabalhadores com o salário mínimo. Não acha possível mudar essa realidade?
Essa situação tem que ser avaliada do ponto de vista da sustentabilidade. Claro que gostaria que o salário mínimo fosse mais alto, mas pode estar a acontecer que uma pessoa está a receber o salário mínimo e não consegue suportar a sua situação familiar porque há outra pessoa desempregada ou porque tem muitas crianças que precisam de determinado tipo de apoios que a família não consegue garantir, razão pela qual não levam os meninos a fazer avaliação precoce e estes chegam depois à escola com problemas de audição ou de visão. Seja qual for a pergunta, a matriz primeira é: em termos de resposta, tem de estar toda a gente junta, e temos que ir até ao limite das nossas possibilidades para garantir um salário digno e um trabalho digno para as pessoas todas.

O abono de família não poderia ser um recurso para obviar à situação das crianças e das famílias com crianças a cargo em situação de pobreza?
Sim, se essa for a solução para que as famílias não caíam nesse nível, sobretudo quanto têm um rendimento que poderia ser suficiente se não fossem as crianças. [O que temos de analisar é] o que é que leva à pobreza de uma determinada família. É ter três crianças e dois salários baixos? É ter três crianças e só um salário? Pode haver várias componentes que concorrem para resolver esta situação e não tem que ser por matriz única. Eu sei que isto é difícil, porque é muito mais fácil criar uma medida que seja universal e igual para todos, mas não há uma família igual à outra nem uma situação de pobreza igual à outra.

Como é que se posiciona perante a discussão sobre a criação de uma retribuição mínima garantida ou rendimento básico incondicional?
É uma coisa que merece a minha maior curiosidade. Tenho muita dificuldade em ver o impacto que isso pode ter. Há experiências destas com imenso sucesso e outras que tiveram que ser abandonadas, mas isso também aconteceu com o Rendimento Mínimo Garantido, com países que começaram com isto antes de nós e que terminaram quando nós estávamos a começar. Mas, aparentemente, seria óptimo, porque nos resolvia uma parte do problema. Se todas as pessoas tivessem um rendimento de referência e esse rendimento permitisse que elas não estivessem numa situação de pobreza, seria óptimo, mas tudo depende das condições que são atribuídas, porque temo que possa haver muitas pessoas que nunca vão procurar um trabalho.

Quando veio o RMG, tivemos uma crise nos primeiros meses com o recrutamento de ajudantes familiares. Porquê? Porque as pessoas tinham crianças e, com o valor do RMG, preferiram ficar em casa a tomar conta das crianças. Não pagando as creches e recebendo aquilo, era mais benéfico ficarem em casa e tomar conta das crianças. Isso depois alterou-se um bocadinho com a obrigatoriedade de as crianças irem para a escola - estas coisas também se vão corrigindo -, mas acho que há cautelas que devemos ter ao pensar uma medida destas. Será interessante ir trabalhar para as obras ou ser um ajudante de geriatria se houver um rendimento desse tipo? Ou nós vamos assumir salários mais baixos que somarão a essa prestação? Tudo depende das condições.

25.3.21

"Não sabemos a dimensão da crise social que aí vem"

Carlos Ferro, in DN

Rita Valadas assumiu a liderança da Cáritas Portuguesa em novembro do ano passado. Foi o regresso a uma instituição onde esteve entre 2006 e 2011. E tal como dessa vez, o país enfrenta uma crise, agora pandémica. Chegar às pessoas e tentar evitar o aumento da pobreza é o grande desafio de uma situação social cuja dimensão ainda não se consegue perceber.

Quando tomou posse [a 15 de novembro do ano passado] disse que este era um serviço às Cáritas Diocesanas. Neste período que vivemos, as responsabilidades de que falou na altura são ainda maiores do que na sua primeira passagem pela direção da Cáritas [2006-2011]?
Eu não sei muito bem medir a proporcionalidade das responsabilidades porque estes lugares para que somos desafiados na vida são de exercício voluntário, mas com uma dimensão de serviço muito responsável. A complexidade deste momento é mais exigente, mas além da responsabilidade pessoal é uma responsabilidade para conseguir encontrar os melhores caminhos para não só sair desta crise como criar resiliência na rede. Da outra vez que estive na Cáritas já foi numa situação de crise, mas foi a anterior, e nessa altura fomos desafiados exatamente para a mesma coisa: criar programas alternativos, uma vez que a situação de crise social que vivíamos era uma crise que ultrapassava as exigências com quem de certa formam a Cáritas já conta. Enquanto agora não.

Há mais responsabilidades agora do que quando esteve na primeira vez na direção da Cáritas?
Agora não sabemos e a responsabilidade está aí, está em tentar encontrar soluções para problemas que não estão dentro da esfera da nossa ação mais normal. Claro que é uma missão, o exercício destes cargos de voluntariado é sempre uma missão, quando temos uma obrigação de acrescentar valor e encontrar soluções para o exército dos mais frágeis.

Esta crise tem uma dimensão diferente. Na anterior podiam estar junto das pessoas, agora há muito mais exigências sanitárias. Como se lida com esta situação?
É mesmo o maior desafio. É que estar mais próxima é o grande trunfo para a ação da Cáritas, não há nenhuma instituição que tenha a nossa capacidade porque nos fazemos próximos ao nível da Igreja, do bairro. É uma proximidade muito grande. Isso é o exercício que é feito pela rede em geral. O exercício desta proximidade é tão complexo para a Cáritas como é para as famílias. Nós temos de encontrar soluções alternativas para chegar aos mais frágeis que conhecemos e que estão no nosso radar, mas também encontrar aqueles que se escondem por trás de alguma vergonha, que estão numa situação para a qual não estavam preparados e aos quais nós também precisamos de dar maior atenção. As pessoas que se confrontam neste momento com esta situação crítica e não estavam para ela preparadas, aliás, ninguém estava, se se escondem são muito mais difíceis de encontrar.

Até porque a maior parte das pessoas ainda não tinha recuperado da crise anterior...
Entre as mesmas pessoas e outras diferentes. Logo que rebentou a crise tivemos um conjunto muito significativo de pessoas ligadas a negócios precários, como restauração, turismo, tuk-tuks em Lisboa, que de um dia para o outro deixaram de ter um sonho para viver um grande pesadelo. Viviam com o sonho de oportunidades do turismo que parecia não ter fim, pois Lisboa e Portugal estavam nas rotas turísticas mais importantes, e de repente foram obrigados a fechar a sua atividade. E esta atividade fazia-se do dia-a-dia e de uma construção ainda. Depois, de repente, não têm futuro, ou pelo menos assim à vista não se sabe o que vai acontecer. Primeiro eram 15 dias, depois quando se começa a perceber que a situação vai demorar muito mais do que isso, não são atividades reabilitáveis, não se faz este tipo de atividades ao postigo, quanto mais em completo confinamento. E essa situação acrescenta às pessoas que ainda estavam a tentar respirar da situação anterior e estariam a compor a sua vida de facto, um grupo enorme de pessoas sem solução perante o sonho que tinham. É também o caso da restauração, cheia de regras e contingências.

Quero acreditar que com o desconfinamento vamos ter uma consciência social diferente

E qual é a situação neste momento? O que enfrenta a Cáritas nestes dias de pandemia?
Não sabemos curar esta doença e também não sabemos curar o problema social que temos em mãos. E ainda não sabemos qual vai ser a dimensão total disto.

Um dos problemas que têm sido detetados é que muitas das pessoas que anteriormente estavam disponíveis para ajudar agora também precisam de ajuda. A rede de apoio também está a desaparecer?
Claro que sim. A rede de ajuda não desapareceu, mas quero acreditar que com o desconfinamento vamos ter uma consciência social diferente. Quero acreditar que as pessoas que ajudavam, estando tão próximas da consciência do que está a ser esta crise, também vão participar na solução dos problemas das pessoas mais vulneráveis e das famílias com mais dificuldades. Mas não sabemos o que vai acontecer. Sabemos é que, pela natureza das coisas, o que vai acontecer é que temos uma crise pandémica que ainda não conseguimos resolver. Veja a situação da vacina da AstraZeneca; é uma angústia permanente [vacina foi dada como segura pela Agência Europeia de Medicamentos na quinta-feira]. As pessoas já estavam para ser vacinadas e a pensar que iam conseguir retomar a sua vida. E ainda não se sabe o que vai acontecer nesta pandemia. É o total desconhecido em termos pandémicos e também da saúde dos portugueses.

Na sua opinião, vem aí mais uma crise para as famílias...
A situação a que obriga esta pandemia - o confinamento para que não haja um maior número de mortes e pessoas com défice de saúde - resulta numa crise económica que ainda está almofadada em algumas medidas do governo, como o lay-off, as moratórias, etc. No momento em que a situação realmente desconfinar e houver a possibilidade de retoma de algumas empresas, vamos perceber quais as que conseguem fazer a retoma e quais as que não. Se houver crise em algumas empresas, é possível que venha aí o desemprego e uma crise social. O desemprego, numa primeira fase, ainda vai poder beneficiar do subsídio. A crise social aparece sempre nisto na cauda, e às vezes escondida, por isso é que às vezes é muito difícil fazer a retoma social. A arrastar os que ficaram para trás.

O que se pode fazer?
Temos de tentar fazer que as pessoas que foram atropeladas por esta crise económica não engrossem o número dos pobres e tentar manter a situação de acompanhamento das pessoas que já eram acompanhadas. E depois, este movimento que temos de começar a fazer com seriedade, que é como conseguimos resiliência, como nos preparamos para crises que, pelos vistos, acabam por ser cada vez mais inesperadas e cada vez mais fortes. Temos de ver como criamos resiliência na rede Cáritas para podermos amparar estas situações.


O desafio é somar, somar, somar a favor dos mais vulneráveis

No meio de todas estas crises, como pode a Cáritas intervir mais e responder a todos esses desafios?
Essa é a minha angústia mais imediata. Foi isso que inspirou um movimento muito grande na rede social da Cáritas, porque nós tínhamos consciência de que tínhamos de trazer todos para bordo, que tínhamos de fazer o contacto com as empresas, mostrar como a rede Cáritas funciona em Portugal e até onde consegue chegar para que as empresas se inspirassem e fizessem este caminho connosco. Este foi mais um ano em que não conseguimos fazer o nosso peditório nacional e tivemos de o fazer online - foi mais um desafio, pois a maior parte das pessoas não está habituada a estes caminhos novos, uma coisa é dar uma moeda numa caixa que diz Cáritas, outra coisa é ter de tomar a iniciativa de ir ao multibanco, utilizar o MB Way ou ir à nossa plataforma e dar apoio. Fomos surpreendidos em toda a linha. Fomos surpreendidos com as pessoas que colaboraram connosco, fomos surpreendidos com os órgãos de comunicação social que fizeram imensas reportagens com as Cáritas Diocesanas e Paroquiais, e acredito que esse movimento não vai acabar, e é muito importante que não acabe para que as pessoas saibam onde podem procurar ajuda, e nós podemos, eventualmente, encontrar soluções para as situações únicas de cada um.


São desafios diários...
O desafio da criatividade é enorme, permanente e no terreno. E também no encorajamento que tivemos das pessoas que nos diziam "continuem", "avancem, vamos também ajudar-vos a encontrar caminho". E, enfim, é entre o desafio, alguma angústia, mas também uma enorme fé que vamos conseguir ultrapassar mais esta crise, mas tem de ser com a ajuda de todos. Não há nenhuma instituição em Portugal que consiga resolver a crise social que temos neste momento. O desafio é somar, somar, somar a favor dos mais vulneráveis.

Que retrato pode fazer dos pedidos que vos chegam: alimentos, ajudar a pagar as contas com que as famílias estão comprometidas, ou tudo isto junto?
É tudo, mas com impactos diferentes. Só para lhe dar uma espécie de fita do tempo, a primeira situação que tivemos de crise foi encontrar equipamentos de proteção individual (EPI) para a rede. As Cáritas Diocesanas não tinham orçamento - aliás, ninguém tinha em Portugal - para comprar a quantidade de EPI que foi necessária, o que, aliás, estourou com o mercado na primeira fase. As pessoas brincam com o papel higiénico, mas não sabem a angústia que é termos de gerir um lar de idosos e ter de oferecer proteção individual a todos os funcionários, no mínimo uma máscara por dia, mas certamente mais do que uma, luvas para trocar quando se tratar cada utente, batas especiais (pois não podem ser as batas que usam nos cuidados do dia-a-dia), lavagem de fardas diária. Foi todo um desafio inicial. A nossa primeira iniciativa foi preparar a rede [da Cáritas] para poder apoiar, senão íamos ter problemas logo ao principio, pois as pessoas ficavam logo todas doentes. As pessoas que apoiam os mais vulneráveis circulam por entre a saúde e a doença.

E a seguir?
A segunda situação foi tentar acompanhar a questão alimentar, e de duas maneiras. Curiosamente, os cabazes são mais fáceis de conseguir em algumas dioceses porque as pessoas têm consciência da crise e esta proximidade com a Cáritas ajuda a rede com donativos de géneros. As pessoas estão na mesma crise e é fácil quando se vai ao supermercado pensar que se pode deixar algo na igreja ou em algum local de recolha de bens. A informação local facilita algumas questões dos cabazes alimentares para famílias vulneráveis. Mas estas famílias, como há bocado dizia, que até nos ajudavam anteriormente, agora precisam de ajuda, têm alguma dificuldade em ir buscar cabazes. O que a Cáritas já tem feito, já na outra crise fez e agora reforçou, é a criação de tickets/vouchers restaurante que servem para usar nos supermercado para comprar alimentos de primeira necessidade. É completamente diferente. A nossa segunda iniciativa foi esta possibilidade de distribuir vouchers a determinadas famílias.

As pessoas estão na mesma crise e é fácil quando se vai ao supermercado pensar que se pode deixar algo na igreja ou em algum local de recolha de bens

Há uma outra iniciativa que a Cáritas tem implementado no terreno e que ajuda as famílias...
Na terceira fase criou-se um programa de intervenção que se chama Inverter a Curva da Pobreza [estratégia aprovada em junho do ano passado]. Começámos a ter situações de pessoas em risco ou com medo de perder a casa por não poderem pagar a renda, a luz, a água ou até as telecomunicações dos miúdos - que precisavam disso para a escola. Ou seja, o que numa situação normal seria visto como um bem de luxo passou a ser um bem de primeira necessidade, e ninguém estava preparado para o enfrentar. De repente, as pessoas ficaram todas em casa e a utilizar internet, mas não tinham condições para isso. Portanto, essa situação também nos apareceu, embora de facto 60% dos pedidos que recebemos tivessem que ver com as rendas de casa. E foi por isso que avançámos com esta situação. Vamos reunir o conselho geral e reavaliar tudo isto para perceber com que outro tipo de medidas vamos avançar.

"Santa Casa da Misericórdia substitui a Segurança Social em Lisboa"

Esteve vários anos na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Como foi a evolução do apoio social na cidade?
Eu tenho mais de 30 anos de intervenção da Santa Casa, sou uma mulher do terreno. Comecei a trabalhar no atendimento social em Setúbal e depois fui para a Santa Casa, onde fiz desenvolvimento comunitário, gestão de respostas sociais, apoios a IPSS... Diria que aquilo em que mais aprofundei o meu conhecimento foi na área do envelhecimento e na emergência social. E depois estive, como costumo dizer, administradora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa durante quatro anos e meio. Naturalmente, são situações completamente diferentes. A Santa Casa substitui a Segurança Social na cidade de Lisboa, tem aqui um papel completamente diferente de uma organização como a Cáritas. Para já, a Cáritas é nacional e a Santa Casa é concelhia; apesar de ter algumas iniciativas fora do concelho, é Lisboa que serve.

Há outra forma de organização e respostas?
Sendo uma organização privada, mas de interesse público, a Santa Casa é uma instituição que tem uma capacidade de alterar respostas, e nos vários desafios que tive na Santa Casa também foi isso que se tentou conseguir, de acordo com a conjuntura do momento. Ao contrário das IPPS e de outras instituições, a Santa Casa em Lisboa não tem obrigação de desenvolver só respostas tipificadas, por isso tem a possibilidade de se adaptar à realidade e desenvolver soluções para trabalhar um pouco na inovação social e encontrar novos caminhos para resolver situações. Não é de todo comparável uma situação com a outra. A intervenção técnica da Santa Casa tem uma proximidade também grande e programas de ação que vão sendo adaptados às situações, mas tem, quer do ponto de vista do orçamento quer em termos de responsabilidades, situações completamente diferentes. A Santa Casa é de facto obrigada a substituir o Estado na cidade de Lisboa.

Situação diferente da que se vive na Cáritas.
A Cáritas fá-lo numa missão robustecida por mais de 1500 colaboradores que tem no país. A Cáritas Portuguesa tem desses trabalhadores mais de 5000 voluntários. É este o "exército" da Cáritas que tem uma intervenção claramente para os mais frágeis e vulneráveis e um olhar para tentar encontrar soluções técnicas para amparar o futuro.

E acaba por substituir alguns dos serviços do Estado...
Não é essa a nossa responsabilidade. A nossa presunção é colocar as pessoas vulneráveis no centro, é ser serviço, não é organizar uma resposta. É pensar naquela pessoa e saber o que a pode ajudar a ter condições de vida. Não é uma prestação de resposta social, que é uma matriz mais organizada, eventualmente despida de um olhar individual e mais para uma oferta de serviços.


"Não sabemos a dimensão da crise social que aí vem"


Rita Valadas assumiu a liderança da Cáritas Portuguesa em novembro do ano passado. Foi o regresso a uma instituição onde esteve entre 2006 e 2011. E tal como dessa vez, o país enfrenta uma crise, agora pandémica. Chegar às pessoas e tentar evitar o aumento da pobreza é o grande desafio de uma situação social cuja dimensão ainda não se consegue perceber.



13.7.20

Marcelo Rebelo de Sousa avisa que crise económica e social "pode ir até 2022 ou 2023"

Maria Barbosa, in o Observador

Em Coimbra, serviu refeições aos mais afetados pela crise económica provocada pela Covid-19 e avisou que "ninguém sabe até onde vai a crise", antecipando que se possa estender "até 2022 ou 2023

À porta da Associação das Cozinhas Económicas, na Baixa de Coimbra, onde esteve a distribuir refeições aos que ali ocorrem porque viram a pobreza agudizar-se com a pandemia, Marcelo Rebelo de Sousa quis deixar claro aos portugueses que a crise económica e social é profunda, não tem fim à vista e pode estender-se “até 2022 e 2023”. Impressionado com o número de pessoas que passaram pelo refeitório social, falou dos novos sem-abrigo, portugueses e emigrantes que até há bem pouco tempo conseguiam subsistir, e que agora “têm teto mas já não têm dinheiro”. “É gente muito nova, trabalhadores precários, estudantes e até classe média”.

Uma combinação letal que empurra as previsões económicas e financeiras da segunda metade deste ano, para níveis “piores do que se pensava”. Mais um alerta de Marcelo Rebelo de Sousa que, em relação à meta do défice para 2020 – que foi revista pelo Ministro das Finanças, João Leão, para os 7% – disse traduzir “a crise brutal que já começámos a viver e vamos viver”.

O discurso pôs fim às dúvidas que esta crise é passageira mas as questões à volta da sua reeleição permanecem: “Sou Presidente da República e não candidato presidencial. Vou continuar assim até ao final de novembro, e depois logo verei o que faço”, acrescentando, ainda, que até à convocação das eleições, o que os portugueses querem é um Presidente que acompanhe a pandemia, “porque é isso que os preocupa”, assim como a crise económica e social, “e não um candidato presidencial”. E dessa forma, relativizou o facto da mais recente sondagem presidencial atribuir 65% dos votos.

Sobre a situação epidemiológica no país, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que há evoluções diversas nas sociedades, “umas que apresentam números que lhes permite, de forma unilateral, impor limites à entrada e saída dos seus nacionais em visitas ao estrangeiro” – e outras, como é o caso da portuguesa, optam por não “retaliar”, porque “toda esta situação muda muito, não vale a pena olhar para realidade de forma estática”.

Assumiu, no entanto, que há um surto localizado na periferia de Lisboa, mas “nem cobre a maioria dos concelhos na Grande Lisboa” e, também, não tem “provocado stress no SNS”.

15.5.20

Portugal vive “crise social”, alerta relatório do terceiro estado de emergência

in Dinheiro Vivo

Encurtamento das cadeias de abastecimento evitou perturbação do fornecimento de alimentos, refere relatório governamental. A seguir Emprego na indústria resiste mais a crises. Nos serviços destrói-se mais

O relatório do terceiro período do estado de emergência destaca a “crise social” em que o país vive devido à atual pandemia de covid-19, tendo sido “inevitáveis” o decréscimo do emprego e a retração da atividade económica.

“Tendo em consideração que este é o último relatório sobre o estado de emergência, entende-se ser pertinente salientar um conjunto de conclusões que espelham a situação económica, durante a totalidade do intervalo de tempo em questão. Em primeiro lugar, realça-se a crise social subsequente à crise sanitária”, precisa o relatório entregue na terça-feira na Assembleia da República.

O documento da Estrutura de Monitorização do Estado de Emergência, coordenada pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, refere, embora os mecanismos implementados pelo Governo “tenham contribuído para minorar as consequências nocivas resultantes, o decréscimo do emprego e a retração da atividade económica foram inevitáveis”.

O relatório dá conta dos “impactos negativos de curto prazo” que afetaram principalmente um conjunto específico de atividades económicas, designadamente o alojamento e a restauração, o comércio de bens não-alimentares e todos produtores que fornecem estes canais de distribuição. “Ainda que a pandemia tenha interrompido a trajetória virtuosa da economia portuguesa, há que enfatizar o modo como alguns operadores económicos conseguiram adaptar os seus modelos de negócio a tal contexto”, indica, dando como exemplo a digitalização do comércio e o crescimento da procura nas plataformas em linha. Segundo o documento, esta procura estendeu-se às atividades de restauração, “impulsionando a criação de soluções de entrega, assim como de venda para consumo no exterior do espaço comercial”.

Ao longo do estado de emergência verificou-se “o encurtamento das cadeias de abastecimento, o que constitui por si só um fenómeno de territorialização”, contribuindo para “a inexistência de perturbações persistentes” na cadeia de abastecimento, à exceção de casos pontuais, no domínio agroalimentar, durante a última fase do estado de emergência, sublinha. O relatório dá também conta da existência de excedentes de produtos agrícolas. O mesmo documento indica ainda que, a partir da segunda etapa do estado de emergência, o Governo reconheceu a legitimidade de uma intervenção pública em determinadas dinâmicas de mercado.

De acordo com o relatório, em momentos distintos, houve lugar à ação para fixar os limites superiores de preço para certas categorias de GPL engarrafado, estabelecer uma taxa de lucro máxima na comercialização de dispositivos médicos, equipamento de proteção individual, álcool etílico e gel desinfetante cutâneo de base alcoólica. Portugal esteve 45 dias em estado de emergência, entre 19 de março e 02 de maio, para fazer face à covid-19, estando desde 03 de maio em situação de calamidade.

9.4.14

Europa em crise social. A pobreza está também nas respostas

por José Pedro Frazão, in RR

Pedro Santana Lopes e António Vitorino debateram o impacto da crise da zona euro nas sociedades mais atingidas pela austeridade. Deixaram críticas aos modelos de resgate, denunciando falta de sensibilidade das instituições para respostas fulcrais para países fustigados pelo desemprego e pela pobreza. Portugal foi o exemplo debatido.

Longe da vista, longe do coração. Se as políticas sociais são responsabilidade dos estados-membros da União Europeia, Bruxelas não tem ajudado a dar atenção a esta dimensão do Continente. É a tese de António Vitorino, um ex-comissário que diz que "só se consegue sentir o problema da pobreza quando se está próximo das pessoas, dos sentimentos, dos olhos dos que sofrem de facto. E a distância física é fundamental para aliviar a consciência e não colocar a pobreza como a questão central do processo de ajustamento".

António Vitorino leu o relatório da 11.ª avaliação a Portugal e chegou a uma conclusão: "É chocante que não haja uma única vez a palavra ‘pobreza’. É como se a pobreza não existisse na análise da aplicação do ajustamento". Esta ausência revela "uma enorme insensibilidade por parte das instâncias europeias e até uma certa cegueira", defendeu o antigo ministro do PS no programa "Fora da Caixa" da Renascença. "A pobreza não existe só no terceiro mundo, existe na União Europeia."

Pedro Santana Lopes considera que a falta de uma agenda de trabalho no domínio social "é o grande pecado do ajustamento feito até aqui". O provedor da Santa Casa da Misericórdia considera que “o Estado social caiu em vários exageros” ao longo das últimas décadas. No caso português, dá o exemplo do ensino público, “ao permitir o acesso gratuito a famílias de elevados rendimentos e exactamente o mesmo tratamento do que as famílias mais carenciadas”. O social-democrata espera que se caminhe para um “Estado Solidário”, que “diferencia bem as condições sociais das pessoas, não esquece os que estão em condições mais débeis nem os trata de maneira igual aqueles que têm mais rendimentos”.

O mesmo responsável assegura que a realidade que bate à porta das instituições é muito mais complexa do que mostram as estatísticas, nacionais e europeias. "Estes relatórios e indicadores ainda não reflectem o perigo de pobreza e o risco que existe em Portugal. Há muita pobreza disfarçada pelo apoio das famílias. Famílias que estão em situação de pobreza e financiadas por outros familiares, ascendentes, irmãos e até parentes distantes", revela Santana Lopes.

Um exemplo alemão em Portugal
António Vitorino considera que a revisão das funções sociais do Estado “é um debate muito importante” que “ainda não começou a ser feito em Portugal”. Até ao momento, só “foram feitos cortes cegos em função dos grandes volumes de verbas” para as metas do programa da “troika”, sublinha António Vitorino, uma opinião partilhada por Santana Lopes. O antigo comissário adverte que “a retracção do Estado Social não pode ser vista separadamente da luta contra as desigualdades, porque é isso que gera a angústia, para não dizer a revolta”.

A reflexão segue pelas novas formas de relação laboral, em nome da produtividade. O exemplo da Autoeuropa, projecto da alemã Volkswagen em Palmela, é citado por ambos os comentadores e introduzido pelo ex-primeiro-ministro "pela ligação da reformulação dos apoios sociais à melhoria da produtividade". "Todas essas questões têm que estar em cima da mesa para um grande consenso social, que parece quase impossível de alcançar em Portugal. Se há algo que um país ciente da sua situação devia alcançar nos próximos anos era exactamente isto: um grande consenso social em torno de medidas sociais básicas para os sectores mais protegidos ", propõe Santana Lopes.

António Vitorino conclui: "O que é importante é encontrar uma nova forma de entendimento entre os agentes do mundo laboral. A produtividade é uma questão fundamental, mas não se faz com salários baixos”.

O "Fora da Caixa" é um programa da Renascença em parceria com a rede de rádios Euranet Plus.

27.7.13

Crise social leva presos a recusar liberdade

Hugo Franco, in Expresso

Desde 1998 que não havia tantos presos nas cadeias portuguesas: são mais de 14 mil. Juristas, sociólogos e associações de reclusos explicam o fenómeno.

Carlos da Mata assaltou um banco em 2011 porque precisava de um sítio onde dormir José Ventura Carlos da Mata assaltou um banco em 2011 porque precisava de um sítio onde dormir

Há reclusos que preferem continuar a cumprir pena em Regime Aberto para o Exterior do que sair em liberdade condicional. Motivo? Não têm emprego cá fora.

A crise também é culpada por haver menos visitas de familiares aos estabelecimentos prisionais. Muitos não têm dinheiro para os títulos de transporte.

14.3.12

Guterres alerta que Europa arrisca “explosão” social

Por Rita Brandão Guerra, in Público on-line

"Um modelo matemático" que descure a solidariedade, como aquele que a Europa tem adoptado, pode conduzir a uma "explosão" social, alertou nesta quarta-feira António Guterres, em entrevista à Rádio Renascença.

O antigo primeiro-ministro socialista referiu-se à “situação de desemprego particularmente inquietante” que a Europa vive e mostrou-se céptico em “relação a um modelo matemático que tente resolver os problemas de uma economia sem compreender ou sem incluir os dados sociais”, porque é um modelo que se arrisca a uma "explosão”, justificou.

Questionado sobre se acredita no modelo actual de ajuda externa, Guterres criticou “uma lacuna base de solidariedade” entre os Estados-membros da União Europeia.

“O mundo põe as finanças em primeiro lugar, a economia em segundo e o social em terceiro”, disse Guterres, que deu como exemplo o caso do empréstimo grego, criticando decisões que têm sido tomadas “sempre à beira do abismo”.

“Há aqui uma componente de solidariedade que tem faltado e tem faltado precisamente porque não existe uma união política suficientemente forte”, alertou o actual Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados.