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29.5.23

Crise, lucro e falta de ética

 Paula Ferreira, opinião, in JN



Durante a leitura dos jornais de fim de semana deparo com um título que diz "Se os gestores fossem movidos por valores éticos não teríamos a crise que vivemos hoje". E à cabeça vêm-me de imediato as últimas contas dos bancos portugueses, resultados que nos mostram o imenso paradoxo que são os tempos que vivemos.

As últimas contas, apresentadas a meio do mês, revelam que "os seis maiores bancos portugueses registaram lucros de 617,4 milhões de euros", no primeiro trimestre, mais do que duplicando os resultados quando comparados com os 303,7 milhões atingidos entre janeiro e março de 2021. Temos ouvido e, sobretudo, temos sentido, estar a viver, outra vez, em crise. Será? Não há como negá-lo. A nossa crise é a riqueza do setor financeiro. E isso é dramático.

Numa altura em que muitos de nós não sabem onde mais cortar para chegar ao fim do mês sem se endividarem ou sem terem de entregar a casa ao banco por não conseguirem responder à subida da prestação provocada pelo aumento das taxas de juro, os bancos anunciam com orgulho lucros mais que milionários, fruto da total insensibilidade em relação aos seus clientes, revelando um comportamento agiota, apenas. É das dificuldades dos portugueses que resulta o bom desempenho da banca. Tal e qual o título com que esbarrei na leitura dos jornais do fim de semana. Agiotas como são, nem sequer refletiram a subida das taxas de juro nos depósitos que os portugueses lhes confiam. E embora os gestores contestem a imoralidade destes lucros, alegando que em Portugal há uma aversão ao lucro e é isso que explica os baixos salários, os números que nos chegam da Europa bastam para desmentir esse argumento. Portugal foi o país europeu em que a margem financeira mais aumentou. E nem por isso os nossos salários cresceram.



Editora-executiva-adjunta

21.11.22

Como "Sobreviver à inflação"? Deco propõe 26 medidas para ajudar famílias a evitar rutura financeira





Associação de defesa do consumidor vai enviar pacote ao Governo e aos grupos parlamentares. "Desde setembro a esta parte estamos a verificar que as famílias estão a conseguir suportar estas primeiras revisões do crédito", alerta Natália Nunes.

A Deco vai propor ao Governo 26 medidas para evitar que famílias entrem em rutura financeira numa altura em que, devido à subida dos preços e juros, cada vez mais receiam não conseguir acomodar a próxima revisão do empréstimo.

Do pacote intitulado "Sobreviver à inflação", que vai ser enviado ao Executivo e aos grupos parlamentares, fazem parte a isenção temporária do IVA de produtos alimentares e a criação de uma comissão de acompanhamento da evolução dos preços de bens cuja taxa de IVA seja alvo de alteração.

Ainda na vertente fiscal, defende-se a criação de um incentivo à poupança, a garantia da dedução em sede de IRS dos juros com o crédito à habitação (para todos os contratos) ou o alargamento da isenção do IMI (de três para cinco anos, no temporário e alargamento das condições da isenção permanente), com a coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da Deco, Natália Nunes, a sublinhar a importância de estas medidas serem ainda incluídas no Orçamento do Estado para 2023 (OE2023).

Natália Nunes precisou que o objetivo é "ajudar a manter o orçamento numa situação positiva", evitado que as famílias entrem uma situação de rutura e mantenham a capacidade de pagar a sua fatura de serviços públicos essenciais ou a prestação do empréstimo da casa.

O pacote de propostas - que inclui algumas que a Deco já tinha apresentado - foi delineado também para dar resposta à tipologia de situações e de pedidos de informação que nos últimos meses começou a chegar ao GPF.

"Desde setembro a esta parte estamos a verificar que as famílias estão a conseguir suportar estas primeiras revisões do crédito, mas manifestam grande preocupação com as próximas revisões e anteveem que nas próximas revisões vão ter alguma ou muita dificuldade em pagar", precisou Natália Nunes.
Refeição gratuitas nas escolas, limites às comissões bancárias entre as 26 medidas

Em causa estão famílias de baixos ou médios rendimentos, algumas sem créditos ou com empréstimos com uma taxa de esforço muito reduzida, e também famílias com uma taxa de esforço acima dos 35% que no atual contexto de inflação elevada (traduzida na conta da energia, combustíveis, alimentação ou prestação da casa) estão apreensivas com o futuro e que precisam de algum apoio que mitigue esta situação.

"Entendemos que estas famílias devem ter ajudas além das que já foram consagradas este ano" diz a coordenadora do GPF, notando que os dados que vão sendo divulgados mostram que as pessoas "vão continuar confrontadas com aumentos de preços e a expectativa é que os rendimentos não acompanhem a inflação", sendo "necessário dar garantias de acesso aos bens e serviços e essenciais".

Entre as 26 medidas inclui-se o alargamento das refeições escolares gratuitas, a imposição de limites nas comissões bancárias evitando um aumento de preços da banca, a aplicação de uma taxa reduzida de IVA em todas as componentes da fatura da eletricidade, gás, água, saneamento, resíduos e comunicações, ou aplicação da taxa reduzida de IVA ao gás GPL engarrafado.

A Deco defende ainda a proibição do aumento das mensalidades das comunicações eletrónicas em 2023, a proibição do aumento das tarifas de utilização das vias concessionadas, o alargamento da tarifa social na água, ou o alargamento do sistema de apoio ao sobre-endividamento ao sistema judicial.

A Deco considera também essencial a criação de legislação que reforce a transparência e a obrigação de informação ao consumidor em produtos alvo de reduflação ou que a referida comissão de fiscalização e acompanhamento da evolução dos preços de produtos com alteração de IVA atue no sentido de prevenir práticas empresariais que lesem os consumidores neste contexto de inflação elevada.

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25.3.21

Pandemia. Os números dramáticos da pobreza e desigualdades na Europa

in DN

Mais de 13 milhões de pobres na Alemanha, 825.000 pessoas assistidas em Espanha encontram-se numa em situação de pobreza grave e em França a pandemia criou mais de um milhão de pobres - são alguns exemplos da dimensão do impacto económico provocado pela covid-19

A crise económica desencadeada pela pandemia de covid-19 está a provocar o agravamento das desigualdades na Europa, com estudos e relatórios a demonstrarem a dimensão dessa realidade

Na Alemanha, sem que se conheçam ainda números oficiais, um relatório que vai ser apresentado em breve pelas autoridades revela que a pandemia "vai acelerar mais a tendência de desigualdade".

Em Espanha, várias organizações não-governamentais e organizações sociais reconhecem que a doença covid-19 está a provocar um aumento das desigualdades entre ricos e pobres, além do aumento do número de pessoas sem meios para subsistir.

Em França, o aumento da taxa de desemprego é um dos índices que contribui para este diagnóstico, a que se junta o acréscimo de 10% de franceses que passou a receber o equivalente ao rendimento social de inserção em 2020.

Na Bélgica, quase uma em cada quatro pessoas não consegue fazer face a uma despesa imprevista, segundo dados para 2020 publicados em janeiro pelo instituto de estatística belga Stabel.

Finalmente, no Reino Unido, segundo a Fundação Joseph Rowntree, antes da pandemia 14,5 milhões de pessoas já viviam na pobreza, o que equivale a mais de 20%.

Fatores como despedimentos, redução de salários e inflação como resultado da pandemia colocaram mais cerca de 700 mil pessoas nesta situação, de acordo com análises do Instituto Legatum, um 'think tank' com sede em Londres.
Alemanha com 13 milhões de pobres

Ainda não são conhecidos os números oficiais, mas a Paritätischer Wohlfahrtsverband (Associação de Paridade e Bem-Estar) acredita que a pandemia de covid-19 "vai acelerar mais a tendência de desigualdade".

Segundo dados revelados no final do ano passado, e relativos a 2019, aquela associação admite que mais de 13 milhões de pessoas na Alemanha viviam em pobreza, elevando a percentagem para 15,9%, a mais alta verificada desde a reunificação do país, em 1990.

"A pobreza e a riqueza estão a crescer e a solidificar-se. O chamado 'meio' está a encolher, a mobilidade social está a diminuir a desigualdade a aumentar", lê-se na página oficial da Paritätischer Wohlfahrtsverband, acrescentando que "a situação dos desempregados piorou drasticamente".

Um relatório preliminar, que deverá ser em breve apresentado pelo governo, sustenta que, financeiramente, a crise provocada pela pandemia de covid-19 está a afetar a franja da população com rendimentos mais baixos, beneficiando quem já recebe bons ordenados.


Contas feitas pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung indicam que, se a população for dividida em cinco partes, 30% do grupo mais baixo já enfrentou problemas para pagar despesas correntes.

Também no mercado do trabalho, a pandemia está a afetar a franja da população com qualificações mais baixas, sendo esses os que correm maior risco de perder o emprego.

"Os grandes desafios de integrar os desempregados de longa duração e as pessoas que chegaram à Alemanha nos últimos anos possivelmente também se intensificaram", revela a análise preliminar do governo.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Económica da Alemanha, mais de 870 mil trabalhos a tempo parcial, pagos a 450 euros, desapareceram no último ano, fazendo com que o número seja o mais baixo desde 2004.

As mais afetadas são, sobretudo, as mulheres. Um quarto dos empregados nesta modalidade tem, pelo menos, 60 anos, e 91% não frequentou o ensino superior.

Bélgica: 10% com rendimento global diminuído

Um total de 23,4% dos belgas não consegue fazer face a uma despesa imprevista e 10% da população viu o seu rendimento global diminuir em 2020, face a 2019, sendo que 5,7% da população ficou sem capacidade financeira de pagar as contas a tempo, 2,1% deixaram de ter Internet em casa e 4,5% não conseguem suportar os custos de aquecer a casa.

Fazer uma refeição de carne ou peixe dia sim, dia não deixou de ser acessível a 3,5% dos belgas e 13,4% tiveram que interromper uma atividade de lazer.

Quanto ao setor empresarial, segundo dados de fevereiro do Governo federal, as agências de viagens perderam 31% de atividade, o setor das artes e espetáculos 22%, o da restauração 13%, as profissões de contacto não médicas (cabeleiros, estética, entre outras atividades) tiveram perdas de 10% e o dos transportes e logística de 6%.

No que respeita ao regime de desemprego técnico ('lay-off'), em vigor desde fevereiro de 2020, o setor da restauração é o que tem mais peso (13,7%), seguindo-se o dos serviços relacionados com edifícios e paisagens (11,7%) e o comércio de retalho (5,6%).
Espanha com 10,9 milhões de pobres

A Cáritas Espanha sublinha que "o drama das famílias sem qualquer rendimento continua a aumentar" e avança que apoia, "por causa da pandemia, 500.000 novas pessoas".


Esta organização não-governamental (ONG) católica afirma que mais de 825.000 pessoas assistidas em Espanha encontram-se numa situação de pobreza grave, ou seja, que têm menos de 370 euros por mês, no caso de uma pessoa, ou 776 euros, no caso de famílias com dois adultos e duas crianças.

Mais, há várias destas famílias que, mesmo que alguns dos seus membros estejam a trabalhar, não conseguem escapar à exclusão social, um número que estima em quase metade desses agregados familiares e que sobe para 60% quando o emprego é informal.

De acordo com esta instituição, a forte dependência da economia informal e do emprego no setor da limpeza informal fechou o acesso de muitos às medidas de apoio dos programas de 'lay-off' e outras medidas de proteção social.

Num inquérito feito pela ONG Save the Children junto das famílias, é relatada a necessidade "muito elevada" de bancos alimentares e apoio financeiro para sobreviver, e muitas deles destacam que as cantinas escolares são a única possibilidade para os seus filhos receberem uma dieta equilibrada.

Por seu lado, a ONG Oxfam Intermón alertava em janeiro último, no seu relatório anual, que o impacto da covid-19 em Espanha poderia levar mais um milhão de pessoas abaixo do limiar da pobreza - dos quais 790.000 em situação de pobreza severa -, passando o número total para 10,9 milhões.

O estudo sobre a desigualdade sublinha que, com a crise "sem precedentes" gerada pela doença, as pessoas numa situação de pobreza severa (com menos do equivalente a 16 euros por dia) poderiam atingir 5,1 milhões em Espanha, um país que tem um total de 47 milhões de habitantes.

A percentagem dos que vivem abaixo deste limiar passou de 9,2% antes da pandemia de covid-19 para 10,86%, enquanto a taxa de pobreza relativa (estimada em 24 euros por dia) aumentou de 20,7% para 22,9%.
França com mais um milhão de pobres

Em outubro de 2020 várias associações de solidariedade em França, entre elas a Fundação Abbé Pierre, Médicos do Mundo ou Secours Catholique declararam que a pandemia de covid-19 no país criou mais de um milhão de pobres, maioritariamente trabalhadores precários, trabalhadores independentes e ainda estudantes.

Além do crescimento da taxa de desemprego, outro indicador demonstrativo do aumento da pobreza, é a ajuda alimentar.

Em 2020, a estrutura de bancos alimentares francesa aumentou em 25% a sua distribuição um pouco por todo o país. Também a conhecida associação Restos du Coeur duplicou o número de refeições em muitas cidades gaulesas.

O barómetro da pobreza, desenvolvido no fim do ano de 2020 pela empresa Ipsos em parceria com a associação Secours Sociale, 43% dos inquiridos afirmaram ter perdido fontes de rendimento por causa da pandemia.

Este inquérito mostrou ainda que os franceses consideram atualmente que mesmo com o salário mínimo a tempo inteiro (1.219 euros) não é possível para uma pessoa sozinha viver acima do limiar da pobreza.
Reino Unido: minorias étnicas e mulheres os mais atingidos

Muitos dos grupos mais vulneráveis já tinham dificuldade em se manter à tona e foram também esses que sofreram mais com o impacto económicos e de saúde da pandemia covid-19.

Os mais atingidos foram trabalhadores a tempo parcial e trabalhadores com salários baixos ou de setores particularmente afetados, como a restauração e comércio, famílias negras, asiáticas ou de outras minorias étnicas, pais solteiros, principalmente mulheres, e residentes em áreas do Reino Unido onde já existiam níveis mais altos de desemprego, pobreza e privação.

O Governo respondeu com uma série de apoios temporários, tendo o mais importante sido o aumento em 20 libras (23 euros) por semana do subsídio de subsistência (Universal Credit), num total de 1.040 libras por ano. O fim do bónus em outubro vai empurrar meio milhão de pessoas, incluindo 200 mil crianças, para a pobreza, estima a Fundação Joseph Rowntree

26.2.21

https://www.publico.pt/2021/02/26/p3/noticia/tribunal-direitos-humanos-mantem-prioridade-caso-jovens-portugueses-33-paises-1952121

in RR

INE agrava prestação da economia portuguesa no último semestre do ano passado. Procura interna caiu quase 5% em 2020 e exportações mais de 18%.

O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 7,6% em 2020, registando a contração "mais intensa" da atual série de Contas Nacionais do INE, e recuou 6,1% no quarto trimestre, divulgou esta sexta-feira o instituto estatístico.

Nas Contas Nacionais Trimestrais agora reveladas, o INE manteve a variação anual em volume do PIB publicada na estimativa rápida do passado dia 2, mas reviu em baixa, de -5,9% para -6,1%, a taxa de variação homóloga do PIB do quarto trimestre de 2020.

Também revistos foram os resultados provisórios de 2019, tendo o INE efetuado uma revisão em alta de 0,3 pontos percentuais das taxas de variação em volume e em valor do PIB, para 2,5% e 4,3%, respetivamente, em relação às estimativas que tinham sido publicas em 23 de setembro passado, e revisto em +0,3 pontos percentuais as taxas de variação homóloga no terceiro e quarto trimestres de 2019.

Segundo o INE, "em 2020 o PIB registou uma taxa de variação de -7,6% em volume, após um aumento de 2,5% em 2019", sendo esta contração "a mais intensa na atual série de Contas Nacionais, refletindo o efeito negativo extraordinário da pandemia covid-19 na atividade económica".

O Governo apontava para uma contração económica ainda mais acentuada, de 8,5%, enquanto a Comissão Europeia e o Conselho das Finanças Públicas esperavam uma queda de 9,3% do PIB, estando o Fundo Monetário Internacional mais pessimista (-10,0%).

Já o Banco de Portugal (BdP) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) apontavam para uma queda do PIB de 8,1% e 8,4%, respetivamente.
Procura interna cai quase 5%, exportações mais de 18%

De acordo com o INE, "a procura interna foi particularmente afetada" em 2020, registando uma redução de 4,7% em termos reais (após ter aumentado 2,8% no ano anterior), passando de um contributo para a variação anual do PIB de +2,8 pontos percentuais em 2019 para -4,6 pontos percentuais em 2020".

Já o consumo privado (Despesas de Consumo Final das Famílias Residentes e das Instituições Sem Fim Lucrativo ao Serviço das Famílias) registou uma variação de -5,9%, em termos reais, e o Investimento diminuiu 4,9% (variações de 2,6% e 5,4%, respetivamente, em 2019).

Também a procura externa líquida acentuou o contributo negativo em 2020 (-3,0 pontos percentuais, contra -0,3 pontos percentuais em 2019), "refletindo sobretudo a diminuição sem precedente das exportações de turismo".

"As exportações de bens e serviços em volume registaram uma redução de 18,6% em 2020 (crescimento de 3,9% em 2019), destacando-se o impacto da forte redução das exportações de serviços (-34,0%), associada, em grande parte, à quebra sem precedente no turismo", refere o INE, acrescentando que "a componente de bens apresentou uma diminuição de 11,4% em 2020, após o aumento de 3,3% no ano anterior".

Menor foi a contração das importações de bens e serviços, que recuaram 12,0% (aumento de 4,7% em 2019), com as importações de bens a diminuírem 10,3% e a componente de serviços a recuar 20,3% (+4,0% e +8,4% em 2019, respetivamente).

Em 2020, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) a preços base registou uma taxa de variação de -6,4% em volume, após ter aumentado 2,4% em 2019, com o VAB dos ramos "comércio e reparação de veículos" e "alojamento e restauração" a diminuir "de forma expressiva" (-12,7%) e a apresentar o contributo mais negativo (-2,2 pontos percentuais) para a variação do VAB total (incluindo impostos líquidos de subsídios).

O emprego (medido em número de indivíduos), para o conjunto dos ramos de atividade, diminuiu 1,7% em 2020, após ter aumentado 0,8% no ano anterior.

Em termos nominais, o PIB diminuiu 5,3% em 2020 (aumento de 4,3% em 2019), situando-se em cerca de 202.700 milhões de euros.

No que diz respeito ao quarto trimestre de 2020, o PIB registou uma contração homóloga de 6,1%, uma taxa inferior em 0,4 pontos percentuais aos -5,7% do trimestre anterior. .

Em termos nominais, o PIB diminuiu 4,1% no quarto trimestre de 2020 face ao mesmo período de 2019 (-4,0% no trimestre precedente).

O INE refere que o contributo da procura interna para a variação homóloga do PIB foi menos negativo no quarto trimestre, passando de -3,5 pontos percentuais no terceiro trimestre para -2,7 pontos percentuais.

"Esta evolução foi determinada em larga medida, pela contração menos pronunciada do investimento, que se situou em -0,3% em volume no quarto trimestre (-7,2% no trimestre anterior), enquanto o consumo privado diminuiu de forma mais intensa, registando uma variação de -4,8% (-4,1% no terceiro trimestre)", explica.

O consumo público registou um crescimento homólogo de 3,1% em termos reais no último trimestre de 2020, acelerando ligeiramente face ao observado no trimestre anterior (variação de 2,8%), e a procura externa líquida apresentou um contributo de -3,5 pontos percentuais para a variação homóloga do PIB (-2,1 pontos percentuais no trimestre anterior).

As exportações de bens e serviços passaram de uma variação homóloga de -15,9% em termos reais no terceiro trimestre para -14,1%, enquanto as importações recuaram 6,5% no quarto trimestre, após uma variação de -11,0% no trimestre anterior.

No quarto trimestre de 2020, em termos reais, o VAB a preços base registou uma variação homóloga de -4,0% (-4,6% no trimestre anterior) e o emprego (medido em número de indivíduos e ajustado de sazonalidade) diminuiu 0,6%, após uma redução de 2,5% no trimestre anterior.

Na comparação em cadeia, com o trimestre anterior, o PIB aumentou 0,2% em termos reais, "após o expressivo crescimento registado no terceiro trimestre (+13,3%), que se seguiu à contração sem precedente da atividade económica no segundo trimestre (-13,9%) causada pelos efeitos da pandemia covid-19".

O INE atribui este crescimento em cadeia do PIB no último trimestre do ano ao "contributo positivo da procura interna, uma vez que o contributo da procura externa foi aproximadamente nulo".

Quando comparado com o terceiro trimestre de 2020, o investimento total aumentou 2,2% (variação em cadeia de 6,2% no trimestre anterior), verificando-se um contributo da variação de existências para a variação em cadeia do PIB de 0,5 pontos percentuais no quarto trimestre (-0,6 pontos percentuais no período anterior) e um decréscimo da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) de 0,2% (+9,7% no terceiro trimestre).

Comparativamente com o trimestre anterior, as exportações totais aumentaram 6,2% em termos reais, após o crescimento de 39,8% registado no terceiro trimestre, verificando-se uma variação em cadeia de 4,0% na componente de bens e de 13,6% na de serviços.

A variação em cadeia das importações totais passou de 27,2% no terceiro trimestre para 6,0%, tendo as componentes de bens e de serviços aumentado 4,0% e 18,0%, respetivamente.

CGTP faz balanço das medidas e considera "urgente outro rumo para o país"

in o Observador

São necessárias medidas urgentes de apoio aos trabalhadores e famílias, e um outro rumo para o país, onde a valorização do trabalho e dos trabalhadores seja um dos eixos centrais, afirma a CGTP.

A CGTP fez esta quarta-feira um balanço das medidas adotadas pelo Governo desde o início do surto de Covid-19 em Portugal, há quase um ano, defendendo que “é urgente outro rumo para o país” onde os trabalhadores sejam valorizados.

São necessárias medidas urgentes de apoio aos trabalhadores e famílias, é urgente um outro rumo para o país, onde a valorização do trabalho e dos trabalhadores seja um dos eixos centrais”, afirma a CGTP em comunicado, apelando à participação na jornada nacional de luta da intersindical que se realiza na quinta-feira sob o lema “Salários, Emprego, Direitos – Confiança, Determinação e Luta por um Portugal com Futuro!”.

No documento, a CGTP lembra que em 2 de março foi anunciado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, tendo sido decretado em 18 de março o estado de emergência e o primeiro confinamento, “com consequências graves e ainda não completamente calculadas na vida dos trabalhadores e das populações e na situação económica e social do país”.

Passado praticamente um ano, estamos de novo em estado de emergência (o 11.º desde que a pandemia começou) e o país está mais uma vez com milhares de empresas encerradas, inúmeras atividades suspensas, todos os estabelecimentos de ensino fechados, o ensino à distância a ser novamente uma realidade e milhares de trabalhadores em casa, em teletrabalho, em ‘lay-off’ ou a prestar assistência aos filhos menores, com um novo lote de consequências negativas imediatas e de forte impacto futuro”, destaca a intersindical.

Para a CGTP, a resposta dada pelo Governo “ficou muito aquém do possível e do necessário” levando “muitos milhares” de pessoas para o desemprego, sobretudo trabalhadores precários, apesar das proibições de despedimento associadas a medidas de apoio a empresas, um cenário que, segundo afirma, deverá continuar a aumentar devido ao novo confinamento.

Desde o início que se verificou um grande desequilíbrio e clara desproporção entre as medidas e os recursos postos à disposição das empresas e as medidas tomadas para apoiar os trabalhadores e as famílias, com a agravante de se ter verificado um favorecimento das grandes empresas”, sublinha a intersindical.

A CGTP considera que as condições de acesso das empresas aos apoios públicos “foram sempre pouco exigentes” e, apesar de serem atribuídos “sob a capa de apoios à manutenção do emprego”, a verdade é que “a exigência em termos de manutenção de postos de trabalho foi sempre muito débil”.

As condições de trabalho “também se agravaram profundamente”, diz a central sindical, referindo o caso dos trabalhadores essenciais ou dos que foram colocados em regime de teletrabalho “sem qualquer preparação e sem as necessárias condições” e a suportar os custos acrescidos com energia, comunicações e consumíveis.

A privacidade das famílias foi comprometida, quer porque o simples facto de trabalhar em casa pode revelar-se invasivo, quer porque muitos empregadores não hesitam em usar dissimuladamente meios de controlo ilícitos”, afirma a central sindical, sublinhando que “o tempo de trabalho aumentou e misturou-se com o tempo livre, afetando o descanso dos trabalhadores”.

A CGTP valoriza alguns avanços nas medidas, como o pagamento do subsídio de doença a 100% em caso de Covid-19 durante 28 dias ou o lay-off com remuneração a 100%, mas vinca que “há muito que pode ser feito, muitas medidas a concretizar, para melhorar a proteção dos trabalhadores e das famílias em tempo de pandemia”.

Os avanços alcançados são ainda muito insuficientes face à situação em que o país se encontra”, defende a intersindical.

Entre as medidas, a CGTP defende a prorrogação em 2021 dos subsídios de desemprego e social de desemprego que cessaram ainda em 2020, a redução do período de garantia para acesso ao subsídio de desemprego ou a fixação do valor do apoio excecional à família em 100% da remuneração de referência.

15.2.21

Amordaçados pela vergonha, há cada vez mais "novos pobres"

Fábio Monteiro, in RR

Todas as semanas, chegam novas pessoas abalroadas pela crise pandémica às ruas. Muitos ainda resistiram durante os primeiros meses, mas agora ficaram sem nada. Envergonhados, procuram ajuda, “não fazem a menor ideia como o sistema funciona” e não querem viver de “caridadezinha”, conta Natália Abrunhosa, coordenadora do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) no Porto. Rede Europeia Anti-Pobreza admite “crescimento exponencial" da pobreza. De artistas a empregadas de limpeza e até advogados, todos caíram ou estão prestes a cair num fosso de exclusão social.

A pobreza é para 21,6% dos portugueses o mesmo que um fosso sem rede é para um equilibrista: um risco com o qual são obrigados a conviver. Ao percorrer a corda bamba, o artista sabe que uma rajada de vento mais forte pode desequilibrá-lo, porventura fazê-lo cair; e apesar da componente performativa, onde o medo pode ser disfarçado, escapar à queda nunca deixa de ser a primeira prioridade que tem em mente.

Um em cada cinco portugueses vive com esta pressão; debaixo dos pés, têm o fosso da pobreza e da exclusão social, segundo dados do Eurostat relativos a 2019, divulgados em outubro do ano passado. E se este número causa vertigens, é de sublinhar que não contabiliza ainda os efeitos do furacão chamado pandemia.

O cenário agora será muito mais crítico; há muitos “novos pobres” em Portugal que ainda não aparecem nas estatísticas. De acordo com um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgado esta semana, por causa da Covid-19 mais de 100 milhões de pessoas foram empurradas para uma situação de extrema pobreza em 2020 e 270 milhões de pessoas passam fome.

Carla, 44 anos, é divorciada e tem um filho adolescente. Perdeu o equilíbrio, tombou, está apenas agarrada por uma mão à corda. E o vórtice da pobreza não lhe é estranho. Foi apenas há alguns anos que conseguiu escapar-lhe. “Já tinha tudo certinho, contas, trabalho, etc. Foi horrível ter de ficar fechada e tudo isso… é reviver memórias antigas.” Até março de 2020, tinha dois empregos. Era ajudante numa instituição de solidariedade social e, para complementar, ainda fazia horas numa empresa de limpezas. Agora, sobrou-lhe apenas o primeiro; depende de ajudas da família para pagar a renda de casa, teve de procurar ajuda psicológica.

Numa situação igualmente sensível está também Filipe. O homem de 37 anos é solteiro e trabalhador independente. Tem formação em teatro e trabalha, em regime de part-time, numa escola profissional. A Covid-19 fê-lo tropeçar. “No início de março, tinha uma série de projetos na área artística e também na formação e tudo parou. Financeiramente houve um grande buraco, criei uma expectativa de receber ‘X’ dinheiro e tudo desaparece.” Durante o verão do ano passado, não teve qualquer rendimento. Sobrevive com meio salário das aulas.

Cidália, de 46 anos, já só tem dois dedos a segurá-la à corda. Era empregada de limpeza, maioritariamente em escritórios. Com o teletrabalho a tornar-se moda e necessidade, perdeu muitos dos seus clientes. O marido, que trabalhava como cozinheiro, também veio para casa. O único rendimento que sobrou à família, por momentos, foi o do filho mais velho. Foi necessário negociar com o senhorio a renda de casa. “Toda a bolsa de poupanças, que estávamos a conseguir ter, foi-se e ainda temos uma caução relativamente à renda para repor”.

Filipa, 28 anos, é solteira e tem dois filhos – um com dois anos e outro com 10 meses. Trabalhava como empregada de balcão numa pastelaria. Estava de licença de maternidade quando os primeiros casos do novo coronavírus foram diagnosticados no país.

Em junho, a jovem mãe contava regressar ao trabalho, mas isso já não aconteceu. “Quando contactei a entidade empregadora, fui informada que ele não tinha dinheiro para me pagar e tinha lá uma pessoa a trabalhar com ele, mas só a fazer as horas de maior afluência e que para me pagar a mim o tempo inteiro não tinha capacidade para me pagar o ordenado. E então houve supressão do posto de trabalho por carência económica.” A única razão pela qual não caiu é o subsídio de desemprego que recebe da Segurança Social.

Joana é advogada, trabalhadora independente. Tinha avenças com alguns clientes. Sempre que ia de férias, viajava para fora de país; vivia desafogadamente. “Tinha boas roupas, boa vida, bom carro.” Logo após o primeiro confinamento, entre março e maio do ano passado, foi vender roupas para arranjar algum dinheiro. Com o passar dos meses, a situação só se agravou. Não fosse a ajuda da família, estava no fosso.

O silêncio dos novos pobres

Joana (nome fictício) é amiga de Natália Abrunhosa, coordenadora do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) no Porto. Foi ela que contou à Renascença a história da advogada. Pessoas como a Joana “não vão ter connosco [CASA], na sua grande maioria, mas algumas vão. Esta grande maioria vai tentando pedir ajuda à família”, diz. Aliás, Natália só soube da situação “desesperada” de Joana por uma amiga em comum. Porquê? “Vergonha”.

Natália é voluntária no CASA desde 2012, mas os últimos dez meses não têm qualquer comparação possível, garante. “Foi um ano absolutamente assustador.” O número de refeições servidas por semana triplicou: passou de 200 para 600. Houve uma explosão de “novos pobres”, novos rostos a pedir ajuda alimentar – e não só - que continuam a surgir semana após semana.

Os ditos “novos pobres” aparecem desorientados. Procuram ajuda e “não fazem a menor ideia como o sistema funciona”. “São pessoas novas, pessoas que até agora se foram aguentando, mas que agora, nesta segunda fase do confinamento, ficaram sem nada. Voltaram a fechar mais estabelecimentos, voltaram a despedir mais pessoas”, conta Natália.

Para ilustrar do que fala, a voluntária conta uma história: há alguns meses, foi contactada via telemóvel por “um senhor muito bem vestido”, que na fotografia aparecia de “fato e gravata”. O homem, na casa dos 40 anos, morava no centro do Porto e era comissionista para uma operadora de telecomunicações, fazia a chamada venda porta à porta. “Com a questão da pandemia, naturalmente, ninguém abre a porta a ninguém, e não é uma prioridade estar ali a falar com uma pessoa que não se conhece de lado nenhum.” E assim ficou sem emprego – tal como milhares de portugueses.

Enquanto “foi tendo uma almofadinha financeira”, o homem foi-se inscrever no Centro de Emprego, pediu ajuda na Junta de Freguesia. Mas a ajuda não chegou no imediato. “É preciso analisar, é preciso verificar a veracidade das coisas que o senhor diz. Conclusão: ele ficou, durante algum tempo, sem ter absolutamente nada em casa para comer. Foi comendo o que tinha, foi-se orientado, mas chegou a um ponto em que não tinha nada. Tinha tudo vazio.” Só aí pediu ajuda ao CASA.

O homem na história de Natália não é alguém que quer “viver da caridadezinha”, “ele quer ser independente como sempre foi”. “É uma pessoa que tinha a sua vida organizada e, de repente, nem sabe sequer se vai ter que entregar a casa onde mora. Isto é a realidade de muitos, muitos, muitos portugueses neste momento”, nota Natália.
"Crescimento exponencial"

Os sinais para futuro não são bons. A crise pandémica que começou por ter uma natureza sanitária, mas neste momento é também uma “profunda crise económica e social”, sublinha Sandra Araújo, diretora executiva da EAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza em Portugal.

A taxa de desemprego no último trimestre de 2020 estava nos 7,1%, enquanto no período homólogo em 2019 era de 6,7%. Em dezembro do ano passado, mais de 402 mil portugueses estavam inscritos no IEFP, um aumento de quase 30% face ao mesmo mês em 2019.

Segundo os “Números da Pandemia”, um conjunto de indicadores estatísticos compilados pela Pordata, o “sentimento económico” em Portugal das empresas caiu de forma acentuada: da 5.ª posição em 2019 para o 20.º lugar no ano passado. Este índice, que varia entre 0 e 120, atingiu em maio de 2020 o pior registo de sempre (66,2), sendo que a anterior pior marca havia sido 76,2 em abril de 2009. Para já, estes números apontam pelo menos uma coisa: vai demorar tempo até haver uma nova onda criação de postos de trabalho.

Apesar de não conhecer o último relatório da OCDE, Sandra diz que todos os estudos que tem lido, tal como os dados que vão sendo compilados pela EAPN, traçam um cenário negro. “É de facto espectável que haja um crescimento exponencial nesta área da pobreza, da exclusão social.” As organizações que estão no terreno – como é o CASA - não trazem boas novas. “Tem havido um aumento enorme de pessoas em situação de sem-abrigo.”

No final do ano passado, a Rede Europeia Anti-Pobreza compilou em livro uma série de testemunhos de portugueses a passar dificuldades, nos quais se incluem as histórias de Carla, Filipa, Filipe e Cidália.

Uma mordaça chamada vergonha

No Ocidente, na Europa, talvez associemos mais a fome a África, às imagens do abutre e da criança subnutrida, do que àquela com que nos cruzamos muitas vezes na rua. Ou ao vizinho do prédio, o rosto que vemos diariamente, mas cujas dificuldades são imaginárias. Onze meses passados desde o começo da pandemia em Portugal, talvez se perceba melhor o sucesso de iniciativas como a Caixa Solidária.

Em março do ano passado, Nuno Botelho foi logo confrontado com a existência dos “novos pobres”. O fotojornalista, que mora em Carcavelos, estava como milhares de portugueses em casa e queria fazer algo para ajudar quem estivesse a passar dificuldades. Ainda hesitou, mas optou por agir localmente: pôs uma caixa na rua com bens alimentares e anunciou a localização nas redes sociais – uma ação que acabou por “viralizar” e dar corpo à Caixa Solidária. As regras eram simples: quem precisasse podia ir levar; quem tivesse a mais, quisesse oferecer, podia deixar.

“No início até estava um bocado coiso. Estava a pensar pôr a caixa fora daqui, porque é um bairro residencial de moradias. Pensei que não ia ter muito sucesso, que ninguém ia pegar naquilo. Enganei-me redondamente”, conta.

O fotojornalista – que já esteve 15 anos a recibos verdes – percebeu assim “a quantidade pessoas que não estão referenciadas”. E que novos ou velhos pobres, ambos estão amordaçados pela vergonha. “Pobreza envergonhada, as pessoas têm medo de pedir ajuda. Há muita gente a recibos verdes que veio para casa. A malta do cinema, dos espetáculos, do som, da luz. Foram os primeiros a ir para casa com zero”, diz.

O facto de o processo da Caixa Solidária acontecer de forma anónima, sem rostos à mistura, não passou despercebido a Nuno Botelho. Ele pôs-se no lugar dessa pessoa. Por isso, na Caixa Solidária, qualquer um pode ir buscar bens sem ter de dizer a ninguém: sou pobre. “Até porque é 24 horas por dia.”
O por fazer

A Rede Europeia Anti-Pobreza trabalha com um conceito alargado de pobreza. É uma “condição humana” que tem uma “dimensão económica”, mas que tem também outras extensões importantes, nota a diretora Sandra Araújo. O que é o caso da participação cívica. “As pessoas que estão nestas situações de grande vulnerabilidade ficam, muitas vezes, incapacitadas, não têm espaço de participação, não participam enquanto cidadãos na vida social e cívica”, nota.

Falar de pobreza não é simples. O tema surge sempre em contextos de situações limite - alguém que já está a passar fome ou já é sem-abrigo -, não nos estádios intermédios em que a qualidade de vida se vai degradando. Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), diz que a pobreza é uma questão que “nunca foi abordada seriamente em Portugal”.

“Repentinamente em Portugal, sem ter havido uma mudança, passou-se de povo de pobres a um povo de ricos, como é considerada a União Europeia. Mas Portugal não fez essa passagem. Nós continuamos a ser um país onde de facto há muita pobreza”, explica.

Para encarar o problema, é preciso “um programa assumido”, “um desígnio nacional” que considere “além das desigualdades sociais também as desigualdades territoriais”, e que discuta a questão da “remuneração insuficiente”. “Nós temos muita gente em Portugal cujo rendimento do trabalho não é suficiente para as despesas”, avisa.

Até lá, muitos portugueses continuarão a ter o fosso da pobreza sempre debaixo dos pés.

12.2.21

Amordaçados pela vergonha, há cada vez mais "novos pobres"

Fábio Monteiro, in RR

Todas as semanas, chegam novas pessoas abalroadas pela crise pandémica às ruas. Muitos ainda resistiram durante os primeiros meses, mas agora ficaram sem nada. Envergonhados, procuram ajuda, “não fazem a menor ideia como o sistema funciona” e não querem viver de “caridadezinha”, conta Natália Abrunhosa, coordenadora do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) no Porto. Rede Europeia Anti-Pobreza admite “crescimento exponencial" da pobreza. De artistas a empregadas de limpeza e até advogados, todos caíram ou estão prestes a cair num fosso de exclusão social.

A pobreza é para 21,6% dos portugueses o mesmo que um fosso sem rede é para um equilibrista: um risco com o qual são obrigados a conviver. Ao percorrer a corda bamba, o artista sabe que uma rajada de vento mais forte pode desequilibrá-lo, porventura fazê-lo cair; e apesar da componente performativa, onde o medo pode ser disfarçado, escapar à queda nunca deixa de ser a primeira prioridade que tem em mente.

Um em cada cinco portugueses vive com esta pressão; debaixo dos pés, têm o fosso da pobreza e da exclusão social, segundo dados do Eurostat relativos a 2019, divulgados em outubro do ano passado. E se este número causa vertigens, é de sublinhar que não contabiliza ainda os efeitos do furacão chamado pandemia.

O cenário agora será muito mais crítico; há muitos “novos pobres” em Portugal que ainda não aparecem nas estatísticas. De acordo com um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgado esta semana, por causa da Covid-19 mais de 100 milhões de pessoas foram empurradas para uma situação de extrema pobreza em 2020 e 270 milhões de pessoas passam fome.

Carla, 44 anos, é divorciada e tem um filho adolescente. Perdeu o equilíbrio, tombou, está apenas agarrada por uma mão à corda. E o vórtice da pobreza não lhe é estranho. Foi apenas há alguns anos que conseguiu escapar-lhe. “Já tinha tudo certinho, contas, trabalho, etc. Foi horrível ter de ficar fechada e tudo isso… é reviver memórias antigas.” Até março de 2020, tinha dois empregos. Era ajudante numa instituição de solidariedade social e, para complementar, ainda fazia horas numa empresa de limpezas. Agora, sobrou-lhe apenas o primeiro; depende de ajudas da família para pagar a renda de casa, teve de procurar ajuda psicológica.

Numa situação igualmente sensível está também Filipe. O homem de 37 anos é solteiro e trabalhador independente. Tem formação em teatro e trabalha, em regime de part-time, numa escola profissional. A Covid-19 fê-lo tropeçar. “No início de março, tinha uma série de projetos na área artística e também na formação e tudo parou. Financeiramente houve um grande buraco, criei uma expectativa de receber ‘X’ dinheiro e tudo desaparece.” Durante o verão do ano passado, não teve qualquer rendimento. Sobrevive com meio salário das aulas.

Cidália, de 46 anos, já só tem dois dedos a segurá-la à corda. Era empregada de limpeza, maioritariamente em escritórios. Com o teletrabalho a tornar-se moda e necessidade, perdeu muitos dos seus clientes. O marido, que trabalhava como cozinheiro, também veio para casa. O único rendimento que sobrou à família, por momentos, foi o do filho mais velho. Foi necessário negociar com o senhorio a renda de casa. “Toda a bolsa de poupanças, que estávamos a conseguir ter, foi-se e ainda temos uma caução relativamente à renda para repor”.

Filipa, 28 anos, é solteira e tem dois filhos – um com dois anos e outro com 10 meses. Trabalhava como empregada de balcão numa pastelaria. Estava de licença de maternidade quando os primeiros casos do novo coronavírus foram diagnosticados no país.

Em junho, a jovem mãe contava regressar ao trabalho, mas isso já não aconteceu. “Quando contactei a entidade empregadora, fui informada que ele não tinha dinheiro para me pagar e tinha lá uma pessoa a trabalhar com ele, mas só a fazer as horas de maior afluência e que para me pagar a mim o tempo inteiro não tinha capacidade para me pagar o ordenado. E então houve supressão do posto de trabalho por carência económica.” A única razão pela qual não caiu é o subsídio de desemprego que recebe da Segurança Social.

Joana é advogada, trabalhadora independente. Tinha avenças com alguns clientes. Sempre que ia de férias, viajava para fora de país; vivia desafogadamente. “Tinha boas roupas, boa vida, bom carro.” Logo após o primeiro confinamento, entre março e maio do ano passado, foi vender roupas para arranjar algum dinheiro. Com o passar dos meses, a situação só se agravou. Não fosse a ajuda da família, estava no fosso.

O silêncio dos novos pobres

Joana (nome fictício) é amiga de Natália Abrunhosa, coordenadora do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) no Porto. Foi ela que contou à Renascença a história da advogada. Pessoas como a Joana “não vão ter connosco [CASA], na sua grande maioria, mas algumas vão. Esta grande maioria vai tentando pedir ajuda à família”, diz. Aliás, Natália só soube da situação “desesperada” de Joana por uma amiga em comum. Porquê? “Vergonha”.

Natália é voluntária no CASA desde 2012, mas os últimos dez meses não têm qualquer comparação possível, garante. “Foi um ano absolutamente assustador.” O número de refeições servidas por semana triplicou: passou de 200 para 600. Houve uma explosão de “novos pobres”, novos rostos a pedir ajuda alimentar – e não só - que continuam a surgir semana após semana.

Os ditos “novos pobres” aparecem desorientados. Procuram ajuda e “não fazem a menor ideia como o sistema funciona”. “São pessoas novas, pessoas que até agora se foram aguentando, mas que agora, nesta segunda fase do confinamento, ficaram sem nada. Voltaram a fechar mais estabelecimentos, voltaram a despedir mais pessoas”, conta Natália.

Para ilustrar do que fala, a voluntária conta uma história: há alguns meses, foi contactada via telemóvel por “um senhor muito bem vestido”, que na fotografia aparecia de “fato e gravata”. O homem, na casa dos 40 anos, morava no centro do Porto e era comissionista para uma operadora de telecomunicações, fazia a chamada venda porta à porta. “Com a questão da pandemia, naturalmente, ninguém abre a porta a ninguém, e não é uma prioridade estar ali a falar com uma pessoa que não se conhece de lado nenhum.” E assim ficou sem emprego – tal como milhares de portugueses.

Enquanto “foi tendo uma almofadinha financeira”, o homem foi-se inscrever no Centro de Emprego, pediu ajuda na Junta de Freguesia. Mas a ajuda não chegou no imediato. “É preciso analisar, é preciso verificar a veracidade das coisas que o senhor diz. Conclusão: ele ficou, durante algum tempo, sem ter absolutamente nada em casa para comer. Foi comendo o que tinha, foi-se orientado, mas chegou a um ponto em que não tinha nada. Tinha tudo vazio.” Só aí pediu ajuda ao CASA.

O homem na história de Natália não é alguém que quer “viver da caridadezinha”, “ele quer ser independente como sempre foi”. “É uma pessoa que tinha a sua vida organizada e, de repente, nem sabe sequer se vai ter que entregar a casa onde mora. Isto é a realidade de muitos, muitos, muitos portugueses neste momento”, nota Natália.
"Crescimento exponencial"

Os sinais para futuro não são bons. A crise pandémica que começou por ter uma natureza sanitária, mas neste momento é também uma “profunda crise económica e social”, sublinha Sandra Araújo, diretora executiva da EAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza em Portugal.

A taxa de desemprego no último trimestre de 2020 estava nos 7,1%, enquanto no período homólogo em 2019 era de 6,7%. Em dezembro do ano passado, mais de 402 mil portugueses estavam inscritos no IEFP, um aumento de quase 30% face ao mesmo mês em 2019.

Segundo os “Números da Pandemia”, um conjunto de indicadores estatísticos compilados pela Pordata, o “sentimento económico” em Portugal das empresas caiu de forma acentuada: da 5.ª posição em 2019 para o 20.º lugar no ano passado. Este índice, que varia entre 0 e 120, atingiu em maio de 2020 o pior registo de sempre (66,2), sendo que a anterior pior marca havia sido 76,2 em abril de 2009. Para já, estes números apontam pelo menos uma coisa: vai demorar tempo até haver uma nova onda criação de postos de trabalho.

Apesar de não conhecer o último relatório da OCDE, Sandra diz que todos os estudos que tem lido, tal como os dados que vão sendo compilados pela EAPN, traçam um cenário negro. “É de facto espectável que haja um crescimento exponencial nesta área da pobreza, da exclusão social.” As organizações que estão no terreno – como é o CASA - não trazem boas novas. “Tem havido um aumento enorme de pessoas em situação de sem-abrigo.”

No final do ano passado, a Rede Europeia Anti-Pobreza compilou em livro uma série de testemunhos de portugueses a passar dificuldades, nos quais se incluem as histórias de Carla, Filipa, Filipe e Cidália.

Uma mordaça chamada vergonha

No Ocidente, na Europa, talvez associemos mais a fome a África, às imagens do abutre e da criança subnutrida, do que àquela com que nos cruzamos muitas vezes na rua. Ou ao vizinho do prédio, o rosto que vemos diariamente, mas cujas dificuldades são imaginárias. Onze meses passados desde o começo da pandemia em Portugal, talvez se perceba melhor o sucesso de iniciativas como a Caixa Solidária.

Em março do ano passado, Nuno Botelho foi logo confrontado com a existência dos “novos pobres”. O fotojornalista, que mora em Carcavelos, estava como milhares de portugueses em casa e queria fazer algo para ajudar quem estivesse a passar dificuldades. Ainda hesitou, mas optou por agir localmente: pôs uma caixa na rua com bens alimentares e anunciou a localização nas redes sociais – uma ação que acabou por “viralizar” e dar corpo à Caixa Solidária. As regras eram simples: quem precisasse podia ir levar; quem tivesse a mais, quisesse oferecer, podia deixar.

“No início até estava um bocado coiso. Estava a pensar pôr a caixa fora daqui, porque é um bairro residencial de moradias. Pensei que não ia ter muito sucesso, que ninguém ia pegar naquilo. Enganei-me redondamente”, conta.

O fotojornalista – que já esteve 15 anos a recibos verdes – percebeu assim “a quantidade pessoas que não estão referenciadas”. E que novos ou velhos pobres, ambos estão amordaçados pela vergonha. “Pobreza envergonhada, as pessoas têm medo de pedir ajuda. Há muita gente a recibos verdes que veio para casa. A malta do cinema, dos espetáculos, do som, da luz. Foram os primeiros a ir para casa com zero”, diz.

O facto de o processo da Caixa Solidária acontecer de forma anónima, sem rostos à mistura, não passou despercebido a Nuno Botelho. Ele pôs-se no lugar dessa pessoa. Por isso, na Caixa Solidária, qualquer um pode ir buscar bens sem ter de dizer a ninguém: sou pobre. “Até porque é 24 horas por dia.”

O por fazer

A Rede Europeia Anti-Pobreza trabalha com um conceito alargado de pobreza. É uma “condição humana” que tem uma “dimensão económica”, mas que tem também outras extensões importantes, nota a diretora Sandra Araújo. O que é o caso da participação cívica. “As pessoas que estão nestas situações de grande vulnerabilidade ficam, muitas vezes, incapacitadas, não têm espaço de participação, não participam enquanto cidadãos na vida social e cívica”, nota.

Falar de pobreza não é simples. O tema surge sempre em contextos de situações limite - alguém que já está a passar fome ou já é sem-abrigo -, não nos estádios intermédios em que a qualidade de vida se vai degradando. Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), diz que a pobreza é uma questão que “nunca foi abordada seriamente em Portugal”.

“Repentinamente em Portugal, sem ter havido uma mudança, passou-se de povo de pobres a um povo de ricos, como é considerada a União Europeia. Mas Portugal não fez essa passagem. Nós continuamos a ser um país onde de facto há muita pobreza”, explica.

Para encarar o problema, é preciso “um programa assumido”, “um desígnio nacional” que considere “além das desigualdades sociais também as desigualdades territoriais”, e que discuta a questão da “remuneração insuficiente”. “Nós temos muita gente em Portugal cujo rendimento do trabalho não é suficiente para as despesas”, avisa.

Até lá, muitos portugueses continuarão a ter o fosso da pobreza sempre debaixo dos pés.

10.2.21

Arcebispo de Braga deteta "nova forma de pobreza constituída por casais jovens"

Henrique Cunha, in RR

D. Jorge Ortiga diz que há "pessoas ameaçadas de despejo” que estão a recorrer à Caritas e às paróquias para “não se tornarem pessoas sem-abrigo”.

O arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, revela a existência de um “aumento de pedidos para pagamento de rendas” de pessoas que “deixaram de trabalhar por causa da pandemia”.

D. Jorge Ortiga diz à Renascença que a situação social se tem vindo a agravar por causa do desemprego, que, em muitos casos, atinge famílias inteiras.

O arcebispo fala de uma nova categoria de pobreza, constituída sobretudo por casais jovens. “Nós temos no nosso programa pastoral a indicação para estar atentos a novas formas de pobreza. E parece-me que está aí patente na sociedade uma nova forma de pobreza que é constituída pelos casais relativamente jovens, que estavam devidamente estabelecidos na sua vida, com o seu trabalho, com os seus sonhos com os seus projetos.”

“De um momento para o outro - quer um quer outro - ficaram sem trabalho, às vezes ligados a pequenos negócios familiares, alguns ligados ao turismo ou à restauração, e que agora se encontram numa situação onde lhes falta essencialmente o indispensável”, exemplifica D. Jorge.

O arcebispo de Braga revela que “as pessoas são ameaçadas de despejo” e que estão a recorrer à Caritas e às paróquias para “não se tornarem pessoas sem-abrigo”.

D. Jorge fala de “um problema que é tradicional e que está a sentir-se com mais acuidade, que é a questão das rendas”.

“Se as pessoas não recebem, não têm possibilidade de pagar as rendas de suas casas, e os caseiros ameaçam com o facto de ficarem sem a casa”, relata o arcebispo, ao mesmo tempo que revela que “o recurso é recorrer à Caritas, recorrer às paróquias, recorrer a qualquer pessoas para que possam não sair de sua casa, para que não passem a sem pessoas sem-abrigo".

D. Jorge Ortiga considera muito importante “tomar consciência do que está a acontecer e responsabilizar as entidades oficiais” como primeiros responsáveis pela resolução dos problemas.

“Não vou alarmar, não estamos em tempos de alarmismos, mas, antes pelo contrário, é uma oportunidade para tomarmos consciência daquilo que nós devemos fazer, e como devemos agir”, sublinha.

Para o prelado, é importante estar atento porque dessa forma vamos “resolvendo aquilo que podemos resolver, procurando responsabilizar as entidades oficiais porque também elas têm uma tarefa, são eles os primeiros responsáveis”.

D. Jorge considera importante “comprometer as nossas paroquias para primeiro responder aos problemas concretos e também para ir de encontro às causas para que essas causas não estejam também a gerar novas situações de pobreza”.

O arcebispo de Braga não nega algumas dificuldades e revela alguma falta de “suporte económico para responder às situações de carência” até porque a pandemia também está a afetar a frequência às eucaristias, “onde a Igreja vai angariando fundos para depois partilhar”.

D. Jorge recorda que, por exemplo, “na Quaresma, nós temos o chamado contributo penitencial, ou renuncia quaresmal que consiste na renúncia dos cristãos de alguma coisa que seja supérflua para poderem partilhar”.

"Os nossos cristãos sabem como isso se desenvolve, mas agora não vão às eucaristias, não tem oportunidade de pôr em comum aquilo que teriam muito gosto em o fazer, e como consequência não vamos ter um suporte económico para responder a algumas carências e a algumas necessidades que começam a ser prementes."

Estas declarações do arcebispo de Braga à Renascença foram feitas à margem de uma conferência de apresentação do espólio musical do padre Manuel Faria Borda, adquirido pela Arquidiocese a um alfarrabista de Esposende e que irá fazer parte do arquivo que a Arquidiocese se prepara para construir “logo que a pandemia o permita”.




28.1.21

Professora lança refeições a 1,46 euros para crianças e jovens em confinamento

 Liliana Carona, in RR

Sopa, prato principal, salada e uma fruta é o que compõe a refeição. “As crianças estão a adorar, gostam da minha cozinha”, diz a cozinheira Ana Maria. A ideia partiu de Laura Costa, uma professora que também decidiu distribuir porta-a-porta um kit com atividades de desenvolvimento cognitivo.

Em tempos de confinamento obrigatório e com a maioria dos pais em teletrabalho, uma professora de Vila Nova de Tazem, na Serra da Estrela, lançou uma iniciativa que permite a todas as crianças e jovens daquela localidade terem uma refeição ao mesmo preço da cantina escolar.

No restaurante “Frango da Vila”, Ana Maria acabou de servir mais um prato. Está quente e acabado de colocar num recipiente próprio o empadão de carne feito por esta cozinheira de 48 anos para as crianças e jovens em idade escolar.

“Ainda aqui tenho um bocadinho de empadão de carne e sopa de feijão com repolho. Já foi quase tudo. Desde as 9h da manhã que estou a cozinhar”, mostra, apressando-se a explicar que adequou o menu, ao palato dos mais novos.

A refeição é composta por sopa, prato principal, salada e uma fruta. A ementa teve de ser reformulada para agradar aos mais novos.

“As crianças estão a adorar, gostam da minha cozinha. Esta semana, tentei adequar a ementa às crianças, por exemplo, massa branca com costeleta, arroz de tomate com filetes, e sexta vão ser panados”, desvenda sobre a iniciativa que começou em Vila Nova de Tazem, mas já se estendeu a outras freguesias do concelho de Gouveia.

Seja qual for o prato, o preço é o de uma refeição escolar – ou seja, 1,46€ para todas as crianças e jovens em idade escolar, sem exceções.

Foi a professora de Matemática e responsável da Associação Reencontro e restaurante solidário “Frango da Vila”, de 53 anos que teve a ideia. E explica porquê: “Temos as crianças em casa, com o teletrabalho, as coisas ficam complicadas”.

“No concelho de Gouveia, a Câmara Municipal está a fornecer as refeições aos alunos dos escalões A e B, mas nós não quisemos olhar a escalões e queremos ajudar a desanuviar o ambiente em casa. Não é fácil conciliar a vida familiar com a vida profissional e os pais foram apanhados desprevenidos”, diz ainda Laura Costa.

Serafim Manuel, de 45 anos, pai de quatro filhos, começou a recorrer ao novo serviço de refeições. “Eu acho uma excelente iniciativa. Eu estou em lay-off, trabalhava numa empresa nova que abriu em Viseu e que vendia materiais de construção e assim é como se mantivesse a rotina escolar”, salienta.

Susana Matos, 42 anos e dois filhos também considera a iniciativa importante para não sair do ritmo da escola e também porque o confinamento exige uma ajuda extra.

“Normalmente, só vão aos carenciados, mas hoje em dia todos precisam de um apoio e quando eu soube, fiquei surpreendida pelo preço de uma senha”, reconhece.

“É de elogiar esta professora: faz mais do que lhe compete, interessa-se por alunos que nem são dela”, sublinha a encarregada de educação.

Elogios feitos pelos pais a uma professora que se lembrou de apoiar todas as crianças e jovens em idade escolar, com refeições, em regime de takeaway ao preço das servidas na cantina.

De momento, beneficiam do serviço 13 crianças. Aos interessados do concelho de Gouveia neste serviço, basta ligar, dar o nome da criança ou jovem, o número do cartão escolar bem como o nome do jardim de infância/escola que se encontra a frequentar.

Aconchegado o estômago, a professora decidiu ainda distribuir por mais de duas centenas de famílias, porta-a-porta, um kit com atividades de desenvolvimento cognitivo e promoção da consciência leitora, com o material necessário à concretização de diversas atividades lúdico-pedagógicas.

10.12.20

Comissão Nacional Justiça e Paz pede mudanças económicas para travar situações de miséria

Henrique Cunha, in RR

O organismo católico “apela aos responsáveis políticos e aos diversos decisores económicos que considerem sempre o bem comum e a dignidade da pessoa humana nestes tempos pandémicos que atravessamos”.

Numa nota publicada neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Comissão Nacional Justiça e Paz junta a “sua voz ao movimento global surgido na sequência do encontro de Assis que debateu a ‘Economia de Francisco’” e que visa dar uma nova alma à economia, partindo dos jovens e integrando todos num “novo barco económico”.

Nesse sentido, “apela aos responsáveis políticos e aos diversos decisores económicos, que considerem sempre o bem comum e a dignidade da pessoa humana nestes tempos pandémicos que atravessamos. Que as limitações económicas e financeiras não promovam situações de miséria. Que haja criatividade na repartição dos esforços, e coragem para atravessar este ‘deserto’ juntos, evitando sucumbir à tentação de aproveitamento da crise para “reestruturações” que descartem as pessoas”.

Na nota, a Comissão Nacional Justiça e Paz lembra que promoveu, há dias, uma conferência online sobre a “Economia de Francisco” – evento internacional promovido pelo Papa Francisco e alusivo a São Francisco realizado duas semanas antes, também online, a partir de Assis.

Nessa conferência, incluíram-se testemunhos de três jovens diretamente envolvidos na participação portuguesa (Rita Monteiro, Marta Bicho e Francisco Maia), a que se seguiu um diálogo com Luigino Bruni, diretor científico do evento.

Desses três testemunhos, a Comissão destaca o de Rita Monteiro: “é urgente trabalhar melhor, de forma mais equilibrada e focada, que haja trabalho para todos”, mas também “que todos sejam cuidadores”. “Para isso é preciso tempo; o mundo do trabalho pode aprender muito com o mundo do cuidado”.

A nota destaca depois a mensagem que o Papa deixou no final do encontro de Assis, em que Francisco, ao dirigir-se aos jovens, afirma ser urgente “reconhecer responsavelmente que o atual sistema mundial é insustentável de vários pontos de vista” e que “é indispensável uma mudança dos estilos de vida, dos modelos de produção e de consumo, das estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades”.

Pobreza. Governo cria comissão para elaborar estratégia de combate


Ouvido pela Renascença, o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz sublinha a importância da mensagem saída do encontro de Assis. Pedro Vaz Patto reafirma ser necessário “pôr termo aos paraísos fiscais, porque nos roubam o presente e o futuro – expressão que consta do apelo final do encontro ‘Economia de Francisco’”.

Vaz Patto afirma que “alguns mecanismos que regem a economia presentemente contribuem para o acentuar da desigualdade”, designadamente “há estudos que comprovam que as existências destes paraísos fiscais fazem com que as grandes empresas com maiores lucros acabem por pagar menos do que pagam pequenas e médias empresas”.

“E este é um aspeto da injustiça do sistema que é denunciado neste apelo final do encontro de Assis”, reforça o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.

13.7.20

Marcelo Rebelo de Sousa avisa que crise económica e social "pode ir até 2022 ou 2023"

Maria Barbosa, in o Observador

Em Coimbra, serviu refeições aos mais afetados pela crise económica provocada pela Covid-19 e avisou que "ninguém sabe até onde vai a crise", antecipando que se possa estender "até 2022 ou 2023

À porta da Associação das Cozinhas Económicas, na Baixa de Coimbra, onde esteve a distribuir refeições aos que ali ocorrem porque viram a pobreza agudizar-se com a pandemia, Marcelo Rebelo de Sousa quis deixar claro aos portugueses que a crise económica e social é profunda, não tem fim à vista e pode estender-se “até 2022 e 2023”. Impressionado com o número de pessoas que passaram pelo refeitório social, falou dos novos sem-abrigo, portugueses e emigrantes que até há bem pouco tempo conseguiam subsistir, e que agora “têm teto mas já não têm dinheiro”. “É gente muito nova, trabalhadores precários, estudantes e até classe média”.

Uma combinação letal que empurra as previsões económicas e financeiras da segunda metade deste ano, para níveis “piores do que se pensava”. Mais um alerta de Marcelo Rebelo de Sousa que, em relação à meta do défice para 2020 – que foi revista pelo Ministro das Finanças, João Leão, para os 7% – disse traduzir “a crise brutal que já começámos a viver e vamos viver”.

O discurso pôs fim às dúvidas que esta crise é passageira mas as questões à volta da sua reeleição permanecem: “Sou Presidente da República e não candidato presidencial. Vou continuar assim até ao final de novembro, e depois logo verei o que faço”, acrescentando, ainda, que até à convocação das eleições, o que os portugueses querem é um Presidente que acompanhe a pandemia, “porque é isso que os preocupa”, assim como a crise económica e social, “e não um candidato presidencial”. E dessa forma, relativizou o facto da mais recente sondagem presidencial atribuir 65% dos votos.

Sobre a situação epidemiológica no país, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que há evoluções diversas nas sociedades, “umas que apresentam números que lhes permite, de forma unilateral, impor limites à entrada e saída dos seus nacionais em visitas ao estrangeiro” – e outras, como é o caso da portuguesa, optam por não “retaliar”, porque “toda esta situação muda muito, não vale a pena olhar para realidade de forma estática”.

Assumiu, no entanto, que há um surto localizado na periferia de Lisboa, mas “nem cobre a maioria dos concelhos na Grande Lisboa” e, também, não tem “provocado stress no SNS”.

16.6.20

A bem da saúde de todos, contributo no combate à pobreza

Miguel Gouveia e Inês Teixeira, in o Observador

No atual contexto da pandemia Covid-19 e do seu impacto económico e social, assistimos a situações de carência económica de muitas famílias, com dificuldades de acesso a bens essenciais como os medicamentos, que podem agravar problema já existente em Portugal.

Apesar de alguma melhoria nos últimos anos, 21,6% da população em Portugal encontra-se em situação de pobreza ou exclusão social, de acordo com os últimos dados de 2018.

Estatísticas internacionais da OCDE e da União Europeia evidenciam que temos necessidades não satisfeitas de cuidados de saúde (39,8%) acima da média (26,5%), sobretudo por motivos financeiros. Acrescem dados internacionais que colocam o nosso país com um nível elevado de copagamentos e dificuldades no acesso aos medicamentos, especificamente para os doentes mais carenciados (1 em 10 portugueses não adquirem medicamentos prescritos devido ao custo).

Foi para mitigar este drama que nasceu o Programa abem, lançado pela Associação Dignitude em 2016, um projeto solidário que apoia os grupos mais desfavorecidos da população, através de cofinanciamento na aquisição de medicamentos prescritos nas farmácias comunitárias.

O Programa assenta numa parceria inovadora de instituições do sector social, com o sector da saúde e a Administração local e é já de âmbito nacional. Qualquer pessoa em situação de carência pode ser referenciada, tendo acesso ao Cartão abem, para poder adquirir gratuitamente os medicamentos prescritos.

Desde a sua criação e até ao final de dezembro de 2019 o programa cofinanciou 419 mil medicamentos (73% para o sistema nervoso, aparelho cardiovascular e diabetes), apoiando 6.669 famílias e mais de 12 mil beneficiários (35% idosos, 13% crianças e adolescentes, e 58% do género feminino), em todo o país.

O caminho de aprofundamento e alargamento desta rede baseia-se, igualmente, em princípios de rigor e transparência, sustentados em evidência. Neste contexto, um consórcio de três centros de investigação (1) foi desafiado a estudar o impacto do programa, avaliando os ganhos no bem-estar dos beneficiários.

A convenção seguida em ciências sociais define como situações de pobreza aquelas em que uma pessoa tenha um rendimento abaixo de um limiar crítico, a linha de pobreza. O Eurostat, define como linha de pobreza um valor correspondente a 60% do rendimento mediano. Quanto mais abaixo desta linha uma pessoa estiver, maior é a gravidade da sua situação de pobreza, sendo que há duas medidas estatísticas diferentes desta gravidade: intensidade e severidade da pobreza.

Valorizando monetariamente os benefícios concedidos pelo programa, o consórcio estimou um impacto substancial na redução da gravidade da pobreza na população apoiada, com uma diminuição média de 3,4% na intensidade da pobreza e de 5,6% na sua severidade. Isto significa que, o financiamento dos pagamentos dos doentes na aquisição de medicamentos representou um aumento do poder de compra que diminuiu a distância a que se encontram do limiar da pobreza, reduzindo o seu nível de gravidade. Este impacto, sentido na população participante no programa, está na mesma ordem de grandeza dos efeitos na população em geral de grandes alterações nas políticas sociais, como é o caso das várias mudanças ocorridas desde 2010 no rendimento social de inserção ou no abono de família.

Adicionalmente, o programa evitou que, em média, 7,5% dos utilizadores tivessem despesas catastróficas em medicamentos. Este indicador de proteção financeira, proposto pela Organização Mundial de Saúde, considera que pagamentos diretos em saúde são catastróficos quando superam 10% do rendimento disponível do agregado familiar. Há mesmo casos em que foram evitadas despesas causadoras de miséria (situação de pessoas que nem sequer tinham rendimentos suficientes para cobrir as despesas de alimentação).

Os resultados evidenciam um aumento de beneficiários apoiados e crescente ajuda financeira, sugerindo uma melhoria no acesso desta população aos medicamentos. Este apoio constitui, assim, um reforço solidário das políticas sociais e de inclusão em Portugal, procurando aproveitar o papel ativo da rede de proximidade de farmacêuticos para reduzir as privações em saúde.

Por fim, considerando a conjuntura que vivemos torna-se mais premente este apoio, sendo importante continuar a investigação, explorando impactos nos ganhos em saúde, que ajudem a corroborar o real valor de iniciativas solidárias, a bem de uma sociedade mais inclusiva.

(1) Consórcio do CEMBE da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, do CEA da Catolica Lisbon School of Business and Economics e do CEFAR da Associação Nacional das Farmácias

14.2.17

Portugal não pode ser complacente

Marianne Thyssen, in http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/portugal-nao-pode-ser-complacente-5588762.html

O ano de 2016 foi difícil para a Europa. Estamos sob ameaça contínua de ataques terroristas. A cooperação entre os Estados-membros, em matéria de admissão e integração de refugiados, continua desigual. O Reino Unido votou para deixar a União Europeia. O populismo e o extremismo estão a aumentar, questionando a solidariedade europeia que nos trouxe mais de 70 anos de paz e estabilidade. De forma mais aberta e sonora do que nunca, a Europa foi acusada de ser a fonte dos problemas e de não contribuir para soluções para os nossos cidadãos.

Espero que essa corrente se altere em 2017. Temos de aproveitar a oportunidade para pôr em perspetiva o que a Europa conseguiu nas últimas décadas e que futuro pode trazer a todos nós. De todos os continentes do mundo, alcançamos o mais alto nível de prosperidade e proteção social. A economia de mercado social que caracteriza a Europa de hoje trouxe uma combinação única de crescimento económico e progresso social. O mercado único europeu continua a ser a maior economia do mundo e contribuiu para um nível de prosperidade, para a maioria das pessoas, que os Estados-membros nunca teriam conseguido alcançar individualmente. Além disso, a prosperidade é distribuída mais uniformemente do que na maior parte do mundo.

Ainda temos muito trabalho pela frente, para superar as consequências da crise económica que marcou profundamente a coesão social das nossas sociedades. Todavia, há sinais encorajadores que indicam que os esforços estão a dar frutos. O emprego nunca foi tão elevado na Europa, com 232 milhões de europeus com trabalhos remunerados. O desemprego e a pobreza estão em queda. Também em Portugal vejo sinais encorajadores, e espero que esta tendência continue em 2017. Portugal teve o maior crescimento de emprego de todos os países da União Europeia no final do ano passado. O desemprego está a diminuir e o mercado de trabalho continua a recuperar. A desigualdade, a pobreza e a exclusão social estão a tornar-se cada vez menos pronunciadas.

Escusado será dizer que não podemos dar-nos ao luxo de ser complacentes. O emprego está a crescer, mas muitas pessoas continuam sem emprego - não só em Portugal, mas na União como um todo. A evolução tecnológica e a organização do trabalho estão a redefinir as economias e os mercados de trabalho. A globalização está a acentuar estas tendências e a velocidade da mudança está a enervar muitos cidadãos. Se este novo ambiente é uma ameaça ou uma oportunidade, dependerá da nossa capacidade e determinação para nos adaptarmos e inovarmos.

Olho com ansiedade o que está no primeiro plano do meu campo de trabalho em 2017: a Comissão apresentará na primavera a proposta de um Pilar Europeu dos Direitos Sociais. À medida que a Europa prosseguir no caminho da recuperação, este Pilar servirá para nortear a política para mercados de trabalho justos e dinâmicos, nos quais todos terão a oportunidade de utilizar os seus talentos.

Comissária de Emprego, assuntos sociais e inclusão

26.10.15

Crise económica agrava fome no sul de Angola

Kim Thcalyongo, in Voz da América

A situação de crise financeira enfrentada por Angola nos últimos meses está a agravar os problemas da fome e da seca no interior, sobretudo, na parte sul do país.

Crise económica agrava fome no sul de Angola

A propósito da crise económica e financeira experimentada por Angola, o economista Alves da Rocha refere que o país vive um desequilíbrio das receitas para o Orçamento Geral do Estado, onde são notáveis as consequências resultantes da falta de fontes alternativas para responder os actuais desafios, cuja baixa do preço do petróleo no mercado internacional é a principal causa.

O também Director do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola advoga que a ausência de fontes alternativas imediatas rememte o país para uma situação «séria de crise» que vai pedir à maioria da população grandes sacrifícios.

«Como sempre em todas as crises e em todos os países é no elo mais fraco onde as coisas quebram. Estou a referir-me que os grandes sacríficos serão pedidos a maioria da população», frisou.

Os sacrifícios já começaram a ser feitos pelos agricultores da zona dos Gambos, no interior da província da Huíla, conforme reportou o Padre Pio Wakussanga, da Associação Construindo Comunidades.

O sacerdote apontou a emigração dos jovens do Kuvale, Hakavona, Mhambue e Mwila para Luanda, e outras partes do território angolano, a procura de melhores condições de vida, mas o sonho nem sempre é realizado.

Com a instauração da desaceleração da economia, o padre Pio Wakussanga reporta que a problemática da fome persiste na província da Huíla e não reduziu, o que obrigou muitas pessoas recorrer aos frutos silvestres para sua alimentação, em consequência da falta de apoio das autoridades.

As comunidades mais afectadas, segundo o Coordenador da Associação Construindo Comunidades são o Kuvali e Hakavona, do grupo etnolinguístico Herero. «Com a fome vem a desnutrição, vem a subalimentação, vem outros probelmas que ela cria, vem as tensões entre grupos...A fome está a atingir idosos», afirmou.

Vários são os projectos criados pelas autoridades a fim de promover o combate à fome e a pobreza, porém alguns não alcançam o sucesso desejado.

Yuri Chipuio é Director Nacional de Apoio ao Combate á Pobreza do Ministério do Comércio e falou sobre estes projectos que inclui a constituição de lojas e a oferta de kits diversos às populações mais necessitadas do interior.

Em face desta situação económica, o docente universitário Josué Chilundulu defende que seja necessário sair do discurso à prática. Chilundulu advoga a exploração das terras férteis em Angola para além dos recursos marítimos e minérios que na sua visão podem catapultar o país para a melhoria da qualidade de vida.

A aposta num ambiente de negócio que garanta a diversificação da produção nacional é uma das melhores saídas para a situação socio-económica precária que o país experimenta. A este respito, com olhar fixado na necessidade de fomentar o desenvolvimento do tecido social e humano, Josué Chilundulu defende a melhoria dos indicadores sociais.

Para o académico «é muito triste vermos os angolanos a sofrerem com pobreza quando temos capacidade no país para melhorar isto (a situação)».

A solução para crise é «encontrar-se o modelo alternativo de desenvolvimento da nossa economia para além do petróleo», quem assim defende é o economista Alves da Rocha, cuja ideia é partilhada por Josué Chilundulu ao defender que «o país precisa tirar maior partido das suas vantagens económicas».

«Nós temos o Caminho de Ferro de Benguela que dá acesso a zona do Congo Democrático e a uma parte da Zâmbia que não tem mar», disse o docente acrescentando que o país precisa de igual forma “tirar proveito das vantagens dos seus vizinhos”.

A aposta na agricultura familiar, a criação de um banco de dados, a introdução de outras culturas agrícolas são algumas das alternativas recomendadas pelo Coordenador da Associação Construindo Comunidades. «Os apoios chegam atrasados, as sementes que o governo dá chegam atrasadas, não há um banco que diz que nós precisamos de X toneladas de alimentos para dar a X pessoas, de X toneladas de sementes e de que tipo de sementes», lamentou.

21.11.14

Vaticano: Papa defende «iniciativa» para superar crise económica e laboral

in Agência Ecclesia

Francisco diz que é necessário evitar tentações do «assistencialismo» e da «indiferença»

Cidade do Vaticano, 20 nov 2014 (Ecclesia) - O Papa afirmou hoje que a atual crise económica exige “iniciativa” para superar as consequências das dificuldades económicas e do desemprego, evitando as tentações do “assistencialismo” e da “indiferença”.

“É preciso renovar também as relações de trabalho, experimentando novas formas de participação e de responsabilidade dos trabalhadores, inventando novas fórmulas de entrada no mundo do trabalho, criando uma relação solidária entre empresa e território”, assinalou Francisco numa videomensagem divulgada pelo Vaticano.

A intervenção destina-se à abertura da quarta edição do Festival da Doutrina Social da Igreja que decorre até domingo na cidade italiana de Verona.

“A grande tentação é parar para tratar das próprias feridas e encontrar nisso uma desculpa para não ouvir o grito dos pobres e o sofrimento dos que perderam a dignidade de levar para casa o pão, porque perderam o seu trabalho”, advertiu.

O Papa notou que a crise económica e social pode “assustar” ou “desorientar”, levando a pensar que a situação “é tão pesada” que não se pode fazer nada, em vez de assumir a “iniciativa”.

“Tomar a iniciativa significa superar o assistencialismo. Viver este tempo intensamente leva a apostar num futuro diferente e numa forma diferente de resolver os problemas”, sustentou Francisco.

Segundo o Papa, é preciso deixar de pedir “ainda e sempre” soluções ao Estado ou às instituições de assistência para criar “novos processos”.

“Estes novos processos não são o resultado de intervenções técnicas, são o resultado de um amor que, solicitado pelas situações, não se contenta até que invente algo e se transforme em resposta”, precisou.

Neste sentido, Francisco declarou que “tomar a iniciativa” significa “considerar o amor como a verdadeira força de mudança”.

“Amar o seu próprio trabalho, estar presente nas dificuldades e sentir-se envolvido, responder responsavelmente, é ativar o amor que cada um de nós tem no coração”, prosseguiu.

A intervenção frisou a importância de dar resposta a “necessidades reais”, deixando de lado os lugares comuns e superando um sistema que tende a “homologar tudo” e a fazer do dinheiro o “patrão”.

“É preciso um modo novo de ver as coisas. Dou-vos um exemplo: hoje diz-se que muitas coisas não se conseguem fazer porque falta dinheiro, mas há sempre dinheiro para algumas coisas”, observou o Papa, referindo-se depois ao mercado do armamento e às “operações financeiras sem escrúpulos”.

O verdadeiro problema, indicou, não está no dinheiro, mas nas pessoas: “Não podemos pedir ao dinheiro aquilo que só as pessoas podem fazer ou criar”.

Francisco apresentou o exemplo de um pai que constituiu uma cooperativa com jovens portadores da síndrome de Down, como o seu filho, criando as “premissas laborais” que lhes permitiram assegurar uma “sã autonomia”.

O Papa deixou votos de que se consiga criar uma nova “consciência social” para evitar a “indiferença” que torna as pessoas “cegas, surdas e mudas”, fechadas em si mesmas.

OC

13.10.14

Peregrinos com fé e estômagos vazios a caminho de Fátima

Francisco Pedro, in Jornal de Notícias

Há peregrinos a caminho de Fátima a percorrer dezenas de quilómetros por dia com apenas uma refeição no estômago. Alguns, comem uma ou duas peças de fruta. Muitos não pedem comida por vergonha.

A crise económica e o desemprego estão a colocar no caminho de Fátima um novo tipo de peregrinos: os que se fazem ao caminho sem dinheiro no bolso, preparados para percorrer dezenas ou centenas de quilómetros a contar com a benevolência dos voluntários dos postos de atendimento, e os que arriscam trilhar os percursos da fé apenas com um refeição diária, ou com uma ou duas peças de fruta, evitando pedir ajuda alimentar por timidez.

5.5.14

Pobreza infantil em Portugal

in Euronews

A austeridade como resposta a crise é um dos temas incontornáveis das eleições europeias pelos sérios impactos sociais que teve nos paises resgatados pela troika. É o caso de Portugal, onde estamos para falar de pobreza infantil. Será que além da geração perdida de jovens desempregados, a crise também hipotecou a vida de milhões de crianças?

Mais de um terço das crianças portuguesas (28,6%) já estava em risco de pobreza quando o país foi resgatado pela troika em 2011.

Desde essa altura, a austeridade teve um forte impacto na vida dos mais novos: cerca de 500 mil ficaram sem abono de família e 120 mil dependem de ajuda alimentar para escapar à fome.

No Porto, a instituição “Qualificar para Incluir” trabalha com 480 famílias desfavorecidas. Os adultos aprendem a cozinhar, as refeições são servidas a 50 crianças que também têm apoio escolar.

Suade Fati é uma das crianças que recebe ajuda desta instituição. Aos 12 anos, Suade explica que “a mãe só pode comprar um tipo de comida, mas às vezes queremos mais coisas mas a minha mãe não pode comprar. O meu tio ajuda a minha mãe a comprar roupas para nós.”

A menina de doze anos vive com a mãe e o irmão mais novo. Bana Fati tem problemas de saúde, não pode trabalhar. Recebe 215 euros do Rendimenso Social de Inserção e 150 de abono. Mas só de renda paga 300 euros.

Bana garante que “é muito difícil pagar a renda. Muito difícil mesmo e fico com pouco dinheiro para a comida. Se não pagar a renda sou despejada. E para onde vou viver com os meus filhos? Pagar a renda é a minha maior preocupação.”

Entre 2010 e 2012, o governo cortou o Rendimento Social de Inserção a cerca de 50 mil famílias.

Há 65 anos a trabalhar como comerciante, José Marques Junior é testemunha do desespero de muitas pessoas. José diz mesmo que “as famílias novas têm dificuldades. Os empregos não são seguros. Trabalham alguns meses e ficam de novo desempregados.”

Para além dos cortes nos apoios sociais, também o desemprego dos adultos afeta as crianças. Cerca de 800 mil portugueses não têm trabalho, 17% da população ativa. E mais de 85% destes desempregados têm filhos.
Há quem já nem sequer tenha subsídio de desemprego nem Rendimento Social de Inserção.

É o caso da família de Rúben Malhadinha. Aos doze anos já tem propostas a fazer ao governo: “As coisas são caras e deviam baixar de preço. Outras coisas deviam aumentar como o salário mínimo e o Rendimento Social de Inserção.”

Rúben e a irmã de cinco anos vivem com a mãe solteira, desempregada e que recebe 146 euros de apoio escolar e 70 euros de abono. Sobrevivem com a ajuda da avó, que faz limpezas e tenta, com alguma criatividade, pagar as contas e ajudar a família. Elvira Malhadinhas explica: “Num mês pago a luz mas no mês seguinte fico à espera do aviso de corte e paga o serviço de televisão. Às vezes peço dinheiro emprestado à minha irmã para pagar a renda até receber o meu salário no final do mês. Depois pago mas faço este ‘cambaleio’ de um mês para o outro.”

A diretora da instituição “Qualificar para Incluir” defende que Portugal têm de inverter este padrão de empobrecimento nas próximas gerações.
Cidália Queiroz acredita que a política de habitação é um dos fatores desta pobreza: “Há formas de habitação social que são, na minha perspectiva, autênticos atentados contra a humanidade. Há crianças que vivem em lugares onde não é possível crescer, não é possível aprender valores positivos, onde se aprende a ser desviante e onde se aprende a considerar a subcultura desviante como uma coisa normal.”

Nos próximos sete anos Portugal vai receber 1600 milhões de euros do Fundo Social Europeu. Dinheiro que deve ser usado em programas de luta contra a pobreza. Mas esta é apenas uma gota no oceano das necessidades das crianças do país.
“A austeridade conduz a uma negação ou violação dos direitos das crianças”. Esta é a principal conclusão de um relatório da Convenção dos Direitos das Crianças em Portugal do início deste ano. O documento foi elaborado pela a Comissão Portuguesa da UNICEF e nove organizações não governamentais do país.
A euronews entrevistou Madalena Marçal Grilo, diretora da UNICEF Portugal.

Madalena Marçal Grilo, Unicef Portugal:
“Há um fator muito importante e com grande impacto sobre as crianças que é o desemprego. O desemprego é um fator que tem um peso enorme, primeiro pela privação enorme que isso representa para as famílias na diminuição dos rendimentos. Mas também na menor disponibilidade que os pais têm porque estão preocupados, porque têm muitas vezes de procurar formas alternativas e procurar algumas atividades que lhes possam dar algum rendimento.”

Isabel Marques da Silva, euronews:
“Pode estabelecer-se a relação entre o aumento da pobreza em Portugal e este programa de austeridade que o país sofreu nos últimos três anos?”

Madalena Marçal Grilo, Unicef Portugal:
“Digamos que há pobreza material, porque as famílias agora têm menos rendimento disponível, os acessos a prestações sociais também diminuiram como, por exemplo, o abono de família, a ação social escolar, porque se tornaram mais restritos.”

Isabel Marques da Silva, euronews:
“De que maneira é que esta situação têm impacto no futuro das crianças?”

Madalena Marçal Grilo, Unicef Portugal:
“O impacto da pobreza hoje e da diminuição de oportunidades vai refletir-se também no futuro das crianças: na qualidade da educação, na sua capacidade de socialização, de aprendizagem e mais tarde na sua capacidade de produtividade.”

7.8.13

Mães podem tornar-se mais agressivas durante crises económicas

in Público on-line

Estudo revela que mulheres com uma determinada variação genética são mais propensas a bater nos filhos em caso de desemprego ou fraco poder de compra.

Falta de poder económico e desemprego associados a stress pode tornar-se uma fórmula explosiva para algumas mães. A pressão provocada pela crise económica faz aumentar a ansiedade e isso pode reflectir-se na relação que as mães têm com os filhos. Segundo um estudo norte-americano divulgado na segunda-feira, quando a mulher tem uma variação do gene DRD2, as alterações na economia familiar podem despertar uma parentalidade severa, que inclui a punição física e/ou o abuso psicológico da criança.

Na investigação, divulgada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), foram utilizados dados de um estudo nacional que acompanhou 4898 crianças, 1186 das quais nasceram de pais casados e 3712 de pais sem uma relação conjugal oficializada. Esta amostra representa crianças nascidas em 20 grandes cidades norte-americanas entre 1998 e 2000. As mães foram entrevistadas pouco depois do nascimento dos seus filhos, tal como os pais. Os encontros entre a equipa que realizou o estudo iniciado em 1998 e os pais ocorreram quando a criança tinha um, três, cinco e nove anos.

Nas entrevistas realizadas às mães quando as crianças tinham três, cinco e nove anos foi-lhes perguntado se já tinham utilizado uma das dez técnicas de punição, que incluíam palmadas, abanões, gritos ou ameaças verbais, e em que situações. Para cada uma das categorias, as mulheres tiveram de responder quantas vezes tinham recorrido a estas no último ano. No ano nove do estudo, foram ainda recolhidas amostras de saliva das mães para criar uma base de dados de DNA. O objectivo era determinar se existia uma ligação entre o comportamento parental e marcadores genéticos específicos.

Com base no estudo realizado entre 1998 e 2000, uma equipa da Universidade de Nova Iorque, liderada pelo sociólogo Dohoon Lee, revela que situações como a última recessão económica nos Estados Unidos, entre 2007 e 2009, têm um impacto negativo no comportamento das mães, mesmo que estas não tenham sido directamente afectadas. Bastou em alguns casos que se sentissem ameaçadas com dados como o aumento do desemprego na sua cidade.

O estudo liderado por Dohoon Lee sugere que o ambiente em que a mãe vive pode ter um impacto maior no comportamento da mulher e em particular quando é tida em conta a existência de variações genéticas.

Sensíveis a alterações
Estas características foram verificadas em cerca de 50% das mulheres estudadas, todas com um perfil genético específico que as tornou mais sensíveis a alterações na sua vida. Essas variações referem-se ao gene DRD2 e foram associadas a falhas no sistema de dopamina no cérebro. Quando a concentração da dopamina se altera no cérebro, como numa situação de stress, o bom funcionamento deste sistema pode ser posto em causa. A dopamina é essencial para o controlo dos movimentos e regula a agressão e a impulsividade.

Segundo o estudo, para as mulheres que não tinham este perfil genético, as boas e más notícias da economia não afectaram o seu comportamento com os filhos.

Apesar da equipa de Lee sublinhar que as consequências das crises económicas na severidade parental são “modestas mas muito significativas”, indica que se concluiu que “a antecipação de uma adversidade foi mais importante para a severidade parental que a verdadeira exposição” a um problema económico.

O estudo sublinha ainda que algumas pessoas são mais fortes emocionalmente que outras. “Seres humanos com genes sensíveis, como orquídeas, murcham ou morrem em ambientes pobres, mas florescem em ambientes ricos, enquanto flores como as dente-de-leão sobrevivem em ambientes pobres e ricos”, argumentou Irwin Garfinkel, um dos co-autores do estudo e professor na Universidade de Coloumbia.

Outros dos investigadores do estudo, Sara McLanahan, professora de Sociologia na Universidade de Princeton, considera que estes resultados mostram que as “pessoas podem adaptar-se a circunstâncias difíceis quando sabem o que as espera, enquanto é mais difícil de lidar com o medo e a incerteza do futuro ”.

20.6.13

Crise económica não é desculpa para "escândalo" da fome no mundo

in RR

Papa diz ser preciso trabalhar mais em favor dos pobres e dá apoio aos esforços da FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura para combater a fome.

Francisco alertou, na manhã desta quinta-feira, no Vaticano, para o “escândalo” da fome e pediu que a comunidade internacional deixe de usar a crise económica como desculpa para diminuir a ajuda aos mais pobres.

“É bem sabido que a produção actual é suficiente e, no entanto, há milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome: isto constitui é um verdadeiro escândalo”, disse, ao receber em audiência os participantes da 38ª sessão da organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que decorre em Roma até sábado.

Para o Papa, é necessário encontrar formas de evitar que “aumente a diferença” entre quem tem mais e os que têm de conformar-se com “migalhas”, respondendo a uma “exigência de justiça, equidade e respeito por todo o ser humano”.

Francisco deixou votos de que se promova com mais “vigor” uma acção internacional em favor dos pobres que coloque de lado a “desculpa da actual crise global”.

“A pessoa e a dignidade humanas correm o perigo de transformarem numa abstracção perante questões como o uso da força, a guerra, a subnutrição, a marginalização, a violação das liberdades fundamentais ou a especulação financeira”, advertiu.

O Papa lamentou que essa especulação condicione o preço dos alimentos, tratando-os como outra qualquer “mercadoria” e “esquecendo o seu destino primário”. Para Francisco, a dignidade humana não pode ser um mero “anúncio”, mas um dos pilares das “regras partilhadas e estruturas que, superando o pragmatismo ou os meros dados técnicos, sejam capazes de eliminar divisões e superar diferenças existentes”.

A intervenção criticou o que classificou como “interesses económicos míopes” a “lógica do poder de poucos” e a corrupção, que excluem a maioria da população mundial, gerando “pobreza e marginalização”.

“A situação que estamos a viver, ainda que esteja directamente relacionada com factores financeiros e económicos, é também consequência de uma crise de convicções e valores”, destacou o Papa.

As relações internacionais, prosseguiu, devem voltar a ter como referência “os princípios éticos que as regulam” e redescobrir o “autêntico espírito de solidariedade”.

Francisco frisou que uma das primeiras consequências das crises alimentares é a saída das famílias do seu ambiente comunitário, “uma dolorosa separação que não se limita à terra natal, mas que se estende ao âmbito existencial e espiritual”.

O Papa elogiou, a este respeito, a decisão de dedicar o próximo ano à “família rural”.