Mostrar mensagens com a etiqueta Crise coronvírus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crise coronvírus. Mostrar todas as mensagens

19.10.21

DOIS MILHÕES DE PORTUGUESES EM RISCO DE POBREZA

in tvi24

Há dois milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão social. Destes, a maioria vive com menos de 540 euros por mês. Os dados foram revelados neste Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

Caso os apoios sociais fossem retirados, cerca de dois milhões de duzentos mil portugueses estariam nesta situação.


6.7.21

Risco de pobreza entre crianças e trabalhadores aumentou no ano passado em Portugal

Margarida Peixoto, in Negócios on-line

Por toda a Europa os governos aprovaram medidas para atenuar o impacto da crise nos trabalhadores. Mas em Portugal, ainda assim, o risco de pobreza de quem está em idade ativa aumentou.






Foto: Paulo Calado 1/5
Terminado o confinamento geral, muitas pessoas começam a regressar aos seus locais de trabalho.



Em Portugal, a população em risco de pobreza aumentou nas faixas etárias até aos 65 anos em 2020, ano marcado pela pandemia de covid-19. A conclusão resulta das estatísticas experimentais do Eurostat, publicadas esta segunda-feira, 5 de julho, que mostram como as medidas adotadas pelos governos para amparar as famílias durante a crise atenuaram os seus efeitos, mas não na totalidade.

"No que diz respeito à população em idade ativa (18-64 anos), a taxa de risco de pobreza mostra um aumento moderado para cerca de metade dos Estados-membros, que é significativo em Portugal, Grécia, Espanha, Irlanda, Eslovénia, Áustria e Suécia", lê-se no artigo publicado pelo Eurostat.


PUB

Como os dados são ainda provisórios, o organismo de estatística publica apenas intervalos de variação esperada, fazendo uma apreciação qualitativa sobre o que deverá ter acontecido. No caso português, esse intervalo varia entre uma redução de cerca de 0,5% na taxa de pobreza, na melhor das hipóteses, e um aumento de cerca de 1%, no caso mais grave, pelo que o Eurostat conclui que nesta faixa etária o risco de pobreza terá subido, face a 2019.

Olhando para a população até aos 18 anos, a conclusão para Portugal é semelhante, com a probabilidade de uma degradação das condições de vida a marcar a leitura dos números. O intervalo de variação para esta faixa etária vai de uma estabilização, a um aumento de cerca de 2%.



Ainda assim, no conjunto da população em Portugal o risco de pobreza deverá ter estabilizado em 2020. Isto acontece porque no caso da população idosa é estimada uma redução desta taxa, em torno dos 2%.

Na média da União Europeia, a taxa de risco de pobreza manteve-se inalterada, mas o artigo do Eurostat reconhece uma forte heterogeneidade nos dados, seja entre países, seja entre os diferentes segmentos da população. Na média dos Estados-membros, sobressai uma redução da taxa de risco de pobreza entre a população acima dos 65 anos, menos afetada pelos impactos da crise no emprego.

Medidas de apoio atenuam impacto da crise

Os dados do Eurostat mostram ainda que as medidas de apoio adotadas pela generalidade dos Estados-membros ao longo do ano passado conseguiram, de facto, atenuar o impacto da crise nos rendimentos da população. Esse efeito de correção foi maior nas populações mais pobres, que também sofreram uma perda de rendimentos do trabalho superior.

"Estimamos que a perda de rendimento no emprego mediano se tenha situado em torno de 7,2% a nível da União Europeia, devido sobretudo a um aumento sem precedentes do número de trabalhadores fora do seu trabalho ou com horas reduzidas", conclui o Eurostat, frisando que estas perdas são distribuídas de forma bastante desigual entre os países e também entre os diferentes segmentos da população.

Porém, os dados "também mostram que as perdas nos rendimentos são aliviadas, em grande medida, pelos benefícios e impostos, em particular, os mecanismos de apoio ao emprego implementados pelos governos nacionais para enfrentar os desafios económicos fruto da covid-19", acrescentam os peritos.

No caso de Portugal, não se identifica uma quebra muito significativa nos rendimentos do emprego, por comparação com os outros países. Ainda assim, esta perda poderá ter atingido os 5%, tendo depois sido minorada para cerca de 2,5% através das medidas de apoio adotadas pelo governo.



12.4.21

Banco de Bens para apoiar quem mais precisa em Matosinhos

 in JN

A MatosinhosHabit, empresa municipal responsável pelo parque habitacional de Matosinhos, criou o Banco de Bens, "que vai disponibilizar às famílias e instituições mais vulneráveis do concelho equipamentos novos ou reutilizáveis e que foram doados por empresas ou particulares". Mobiliário, eletrodomésticos, brinquedos, cadeiras de rodas ou bengalas são alguns dos artigos em causa.

"Esta iniciativa pretende acima de tudo, não só ajudar quem mais precisa, mas também fazer a diferença na vida de pessoas e associações locais atenuando as dificuldades que enfrentam", sublinha Tiago Maia, administrador da MatosinhosHabit.

Em comunicado, a empresa municipal acrescenta que "o Banco de Bens pretende também promover o trabalho em rede, estimular a economia circular e fomentar a solidariedade".

Além de ajudar a população mais carenciada, o projeto incentiva o reaproveitamento de materiais, "investindo, desta forma, numa comunidade mais saudável e sustentável".

"O nosso intuito é que consigamos assim abarcar áreas de apoio à população idosa e cidadãos portadores de deficiência ou incapacidade, criando mais um recurso disponível. Por outro lado, é igualmente importante frisar que o Banco de Bens tem também um lado de responsabilidade social, solidariedade e voluntariado que queremos fomentar, estimulando a participação ativa da nossa comunidade", assinala Tiago Maia.

"Disponível para os residentes em Matosinhos e instituições com sede no concelho, o Banco de Bens acolhe bens novos ou passíveis de reutilização, designadamente mobiliário, utilidades para a casa e utensílios de cozinha, equipamentos elétricos e eletrónicos, eletrodomésticos, pequenos aparelhos, brinquedos e artigos de puericultura e ajudas técnicas (camas articuladas, cadeiras de rodas, cadeiras sanitárias, bengalas, andarilhos, tripés, entre outras)", resume a empresa municipal.

22.2.21

Saudades da luta de classes

António Barreto, opinião, in Público on-line

Os espectros que actualmente ameaçam a paz em Portugal, os vultos que rondam as ruas e os campos são as causas erradas. Não a pandemia, não a desigualdade, não a pobreza, não a incerteza económica e social, mas sim o fascismo e o antifascismo, o racismo e o anti-racismo.

A pandemia e os seus efeitos, assim como os processos de combate, a organização dos serviços e a eficácia das medidas tomadas, ocupam os nossos dias, os jornais, as redes e o espaço público. É normal. Fala-se de mais e surgem multidões com uma competência médica e cientifica inesperada. Tanta gente tem tantas opiniões definitivas sobre estes assuntos! Mesmo nestas circunstâncias é razoável que o tema seja a principal preocupação de todos, pessoas, organizações e jornais. Ainda por cima, com a acumulação de incerteza, de ineficiência e de erros, é compreensível que quase não se discuta outra coisa.

Mesmo assim, vivemos tempos em que novas polémicas se instalam, desenvolvem e sobem de tom. Ou antes, velhos preconceitos e antigas irracionalidades renascem. Fascismo e antifascismo, racismo e anti-racismo, antigas rivalidades, estão de novo presentes. Mesmo estando hoje desadequados à sociedade portuguesa, absolutamente fora de tempo e questão, sendo indignos disfarces para outras lutas e infames pretextos para envenenar as relações sociais e políticas, estes dilemas ocupam o espaço que deveria ser de razão e liberdade. Há fascistas em Portugal? Certamente. De todas as condições. Há racistas em Portugal? Não há dúvidas. De todas as cores. Devem a democracia, a razão e a liberdade combater essas pessoas e esses valores? Seguramente e sem hesitação. Mas o que fazem os que se classificam como antifascistas e anti-racistas é tão nefasto à liberdade quanto os adversários. A peste não se combate com a cólera.

Quando as coisas correm mal, mesmo muito mal, o pior vem ao de cima. Os espectros que actualmente ameaçam a paz em Portugal, os vultos que rondam as ruas e os campos são as causas erradas. Não a pandemia, não a desigualdade, não a pobreza, não a incerteza económica e social, mas sim o fascismo e o antifascismo, o racismo e o anti-racismo.

Em tempos de crise, há quem culpe os estrangeiros. É sempre assim, há séculos. Doença ou greve, fuga de capital ou conspiração, terrorismo ou desordem, tudo vem com os estrangeiros. Porque eles tomam conta dos nossos empregos, casam com as nossas mulheres, ficam com os nossos homens, ocupam as nossas casas, trazem valores deles para as nossas escolas, não respeitam as nossas tradições nem as nossas leis. São estrangeiros e abusam da nossa hospitalidade. Aprenderam a viver à custa dos subsídios do Estado, não pagam impostos, só têm direitos, não querem ter deveres. Se não se sentem bem, deveriam ir-se embora. Para o seu país.

E depois há os que além de serem estrangeiros são negros, amarelos ou castanhos. Asiáticos ou ameríndios. Árabes ou chineses. Sem falar nos judeus e nos muçulmanos. São duplamente nocivos. Não respeitam as nossas tradições e querem impor as deles. Desprezam as nossas leis e querem forçar as suas regras. Com os seus deuses, as suas comidas, as suas famílias, as suas regras de casamento e educação, não fazem esforços para se integrar. Forjam casamentos contratados, vendem crianças e adolescentes, trocam pessoas por fortunas, tratam mal os animais, vivem fechados nas suas comunidades, só tratam dos seus e sujam o espaço público de todos e o nosso em particular. Oprimem os seus e não querem saber da democracia.

Somos nós os europeus verdadeiros, senhores de um passado, mestres da descoberta. Filhos e herdeiros de uma longa história, de uma velha tradição, não podemos deixar que nos destruam costumes, regras e crenças. Fomos generosos a ponto de deixar entrar estrangeiros, minorias, negros e árabes, mas eles não se querem integrar nem respeitar as nossas leis. Por isso temos de restaurar a nossa pátria, reconsiderar as nossas tradições e exigir respeito, sem o que terão de ir embora, até porque muitos vieram com mentira, não são refugiados, não são exilados e não são perseguidos. Uns procuram trabalho, outros nem sequer, entregam-se a actividades ilegais, a comércio ilícitos, conspurcam as ruas e as instituições. Não é verdade que somos todos iguais. Quem não está bem que se retire. Não sou racista. Até tenho amigos pretos.

É por isso que combatemos os “supremacistas” brancos. Nós, portugueses de outra etnia, imigrados, minoritários, africanos, estrangeiros, brancos solidários com as minorias e que denunciamos a superioridade dos brancos, dos antigos colonialistas, dos esclavagistas e dos nostálgicos do fascismo. São esses brancos que nos exploram, abusam das nossas mulheres, tentam vender-nos droga, não nos pagam a horas e quando pagam são salários de miséria. Não nos admitem nas suas escolas nem nos seus hospitais, não cuidam dos nossos velhos, pagam mal as pensões e quando as coisas não correm bem para eles, por causa deles, a primeira coisa que lhes ocorre é dizer-nos “vão-se embora”. Nem sequer percebem que muitos de nós, cada vez mais, nascemos aqui. Por isso, exigimos medidas contra os racistas, contra os que, no espaço público, alimentam o ódio contra os estrangeiros, querem restaurar as glórias do colonialismo, a força dos conquistadores, os direitos ilimitados dos brancos e dos poderosos sobre os trabalhadores. Exigimos que nos devolvam o património que nos roubaram durante séculos. E que a história seja expurgada do racismo e do colonialismo.

Estes confrontos envenenam a vida política portuguesa. Destroem a inteligência e o sentido de comunidade solidária. Estes episódios fazem-nos ter saudades da luta das classes! Dos tempos em que as lutas se desenrolavam à volta de questões políticas, económicas e sociais de grande importância e de relevo para a direcção de uma sociedade e para a afirmação de um poder! Dos debates em que estavam em causa o poder político, as relações entre o capital e o trabalho, a propriedade dos meios de produção e a repartição do produto e do rendimento. Dos combates em redor da organização do Estado, da defesa nacional, da paz e da guerra e da segurança colectiva. Saudades dos tempos em que se lutava por valores essenciais da política, do trabalho e do emprego, dos direitos dos trabalhadores e dos patrões, das obrigações e dos deveres de cada um e de todos! Saudades das lutas pelos serviços de saúde e de educação e pelos direitos e deveres dos idosos! Dos tempos em que a liberdade e a democracia estavam no centro das discussões e das lutas e não eram consideradas, como hoje, hábitos adquiridos e secundários ao lado da importância decisiva de símbolos, da memória e da culpa.

14.1.21

"Haverá casos de pobreza extrema, fome, gente a ficar sem casa"

Por Notícias ao Minuto

Rui Maria Pêgo acredita que o agravamento das medidas para travar a pandemia vai piorar ainda mais a situação de muitos trabalhadores da cultura.

Horas depois de António Costa ter anunciado as novas medidas para tentar travar o aumento dos casos de Covid-19, Rui Maria Pêgo recorreu às redes sociais para falar sobre o enceramento dos estabelecimentos culturais.

Inicialmente, na publicação que fez na noite desta quarta-feira, o locutor da Rádio Comercial começou por dizer: "Durante seis meses fiz parte de um espectáculo de teatro que levou milhares de pessoas ao teatro em segurança. Fizemos apresentações de noite, à tarde, e até de manhã. As lotações foram reduzidas, os actores testados, as bolhas das pessoas com quem nos cruzávamos regidas de forma espartana. Não houve beijos na boca sem três pensamentos prévios. O 'Avenida Q' ainda assim, no meio de uma pandemia, foi um sucesso".

"E isso deve-se ao comparecimento do público e à argúcia da Força de Produção e, claro, ao nosso trabalho que pôde felizmente acontecer. A emoção e beleza desse momento encheu-nos de alegria, e fez-nos respirar de alívio quando acabou: ninguém doente, nenhum caso entre espectadores", acrescentou, recordando que "os protocolos para ir ver espectáculos em 2020 eram apertados".

"Distância, timings diferentes para sair, desinfeção, e o público irrepreensível a seguir normas. Obrigado. Muitos de vocês viram vários: de teatro, de dança, música, ou de performance", destacou, lamentando de seguida: "Muitas correntes de ar para pensarmos. Ninguém discute a dificuldade do momento que atravessamos, ninguém põe em causa a violência que é transversal a todos, mas a cultura não vale menos do que as cerimónias religiosas, ou do que eventos desportivos. Talvez seja mais perigosa porque nos faz duvidar sobre o que há e o que é, mas é saudável, sempre, porque reflecte o tempo".

"Um país que não se pensa a si mesmo definha, e abre ainda mais auto-estradas para extremismos. Convém lembrar que nenhum dos candidatos presidenciais se debruçou sobre a cultura, esse eterno enteado enfesado escondido na despensa. Soubemos hoje que os espectáculos estão proibidos durante esta fase de confinamento geral. Repito: não houve casos em teatros. Mas haverá casos de pobreza extrema, fome, gente a ficar sem casa, muitas famílias que nem sequer têm caras conhecidas, e que provavelmente não poderão contar com apoios mágicos", escreveu ainda.

Antes de terminar, reforçou: "Não duvido da exigência do momento, não argumento que a cultura vale mais do que os outros sectores que tantos desempregados vão gerar, mas não significa, certamente, menos. Boa sorte a todxs. Dê lá por onde der, havemos de dar a volta".

21.12.20

"No Porto há fome, em muitas casas e na rua". O alerta das paróquias ao Estado e à sociedade

Margarida Cardoso, in Expresso

A Paróquia Nossa Senhora da Conceição é apenas um exemplo do que se está a passar na cidade. Antes da pandemia servia 160 refeições por dia. Agora serve 550. Das 123 mil refeições que serviu desde o início da pandemia, 75 mil foram para crianças com menos de 10 anos

É um apelo inédito da igreja do Porto: "A pandemia levou a fome a muitas casas, para além da rua, e as capacidades das paróquias para acudirem a tanta situação de emergência está a esgotar-se". É assim que os párocos da cidade dão a conhecer a sua preocupação num comunicado que é também um alerta para o Estado e para a sociedade civil porque perceberam que "não poderão ir muito mais além" e "os números dos que procuram comida continuam a aumentar".

A Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Marquês, é apenas um exemplo do que se passa na cidade, mas pode ajudar a compreender a dimensão de um problema que parece crescer como uma bola de neve: em 2019, o grupo de voluntários que aqui trabalha servia, em média 160 refeições por dia, entre as 17h30 e as 20h00. Agora, está a servir 550. "Entre o início da pandemia, em março, e o dia 14 de dezembro, servimos 123.895 refeições. 75.145 foram para crianças com menos de 10 anos", contra o padre Rubens Marques, que lançou o projeto Porta Solidária para responder às necessidade dos que ficaram sem abrigo noutra crise, em 2009, e mesmo assim se surpreende com a forma como vê, agora, a fome alastrar.

"Para além dos sem-abrigo, passamos a ter os reformados que vivem sozinhos, num quarto, e só têm dinheiro para a renda, e temos cada vez mais pessoas aflitas depois de perderam os empregos na pandemia. Em maio, fizemos um inquérito e concluímos que os desempregados eram 52% das pessoas apoiadas na Porta Solidária", refere este padre que tem visto aumentar, também, o número de cidadãos estrangeiros à procura de ajuda, "em especial brasileiros que estavam no sector da restauração ou no turismo".

No verão, "tivemos grande afluência de jovens que trabalhavam em empresas de entrega ao domicílio, personal trainers dos ginásios, esteticistas, mas agora desapareceram porque foram voltando a ter trabalho", refere Rubens Marques consciente de que no trabalho que faz com um grupo de 73 voluntários fixos acaba por ir recebendo o impacto de todas as variações da atividade economica ao longo da crise.

"TODOS OS QUE AQUI VÊM PRECISAM MESMO DE AJUDA"

E todo o trabalho se ressente, também, das regras impostas pelas medidas de segurança. "As pessoas comiam na igreja, agora tudo passa pelo take away, o que exigiu um enorme esforço de adaptação em apenas dois dias em termos de logística, para passar a oferecer o serviço no alpendre, já embalado", comenta.

Tem uma certeza: "Todos os que aqui vêm precisam mesmo de ajuda senão não se sujeitavam a ficar tanto tempo à espera numa fila debaixo de chuva torrencial, como acontece agora, ou sob sol intenso, como aconteceu no verão".

A Paróquia Nossa Senhora da Conceição serviu mais de 7.500 refeições a crianças com menos de 10 anos entre março e 14 de dezembro

Em Campanhã, na zona Oriental do Porto, o seu colega Fernando Milheiro ajuda mensalmente 70 famílias, com cabazes alimentares, a que junta alguns casos em que a própria paróquia paga contas de água e luz. Quem precisa de alimentação diária é encaminhado para o Marquês porque Campanhã não tem estrutura para oferecer esse apoio. "Aqui, o número de famílias apoiadas tem-se mantido estável porque o que fazemos é apoiar quem não tem outro apoio. Quando os casos passam a ser acompanhados por outra entidade, vamos prestar socorro a outros", explica já a preparar a tradição do Natal dos Sós que promove desde 1987 na noite de consoada com o intuito de combater a solidão. Este ano, como as pessoas não podem juntar-se para a ceia em grupo no salão paroquial, haverá ceia distribuída em 21 casas e 70 cabazes especiais de Natal.

"É URGENTE COLOCAR O PROBLEMA DA FOME NA AGENDA"

Um inquérito que juntou 16 das 26 paróquias da cidade apresenta as contas dos apoios prestados para mostrar o que está em causa. Desde março, estas paróquias doaram 665 mil euros para travar a fome e dar outros apoios sociais não institucionais. Em cabazes e alimentos os diferentes grupos paroquiais entregaram 81.330, tendo beneficiado 942 famílias num total de 2.558 pessoas. Em medicamentos, farmácia, rendas de casa, faturas de eletricidade e água somam mais 63.532 euros. Nas refeições oferecidas nas paróquias, o valor ascende a 506.543 euros.

Por causa das medidas de segurança, a logística do serviço de apoio mudou e as refeições passaram a ser servidas em take away, o que obriga as pessoas que pedem ajuda a esperar muito tempo numa fila

Assim, as paróquias do Porto vêm deixar clara a sua posição e dizer que "o Estado tem que responder ao problema do muito alto desemprego real quando há tantas pequenas empresas a fechar por não poderem aguentar mais". E "é necessário que a sociedade civil colabore no apoio aos que, de repente, se tornaram pobres ou caíram em situação de desespero", acrescentam num comunicado em que não esquecem uma nota "ao grande trabalho realizado pela Câmara Municipal e pelas associações voluntárias que servem alimentação na rua".

"Parece urgente que se reforcem as respostas e seja definido um programa integrado de apoio nesta que é a maior crise das últimas décadas", conclui este apelo.

E porque surgiu este movimento de alerta sem precedentes? "Porque é urgente colocar o problema da fome na agenda dos media e dos políticos", responde Rubens Marques.

10.12.20

Comissão Nacional Justiça e Paz pede mudanças económicas para travar situações de miséria

Henrique Cunha, in RR

O organismo católico “apela aos responsáveis políticos e aos diversos decisores económicos que considerem sempre o bem comum e a dignidade da pessoa humana nestes tempos pandémicos que atravessamos”.

Numa nota publicada neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Comissão Nacional Justiça e Paz junta a “sua voz ao movimento global surgido na sequência do encontro de Assis que debateu a ‘Economia de Francisco’” e que visa dar uma nova alma à economia, partindo dos jovens e integrando todos num “novo barco económico”.

Nesse sentido, “apela aos responsáveis políticos e aos diversos decisores económicos, que considerem sempre o bem comum e a dignidade da pessoa humana nestes tempos pandémicos que atravessamos. Que as limitações económicas e financeiras não promovam situações de miséria. Que haja criatividade na repartição dos esforços, e coragem para atravessar este ‘deserto’ juntos, evitando sucumbir à tentação de aproveitamento da crise para “reestruturações” que descartem as pessoas”.

Na nota, a Comissão Nacional Justiça e Paz lembra que promoveu, há dias, uma conferência online sobre a “Economia de Francisco” – evento internacional promovido pelo Papa Francisco e alusivo a São Francisco realizado duas semanas antes, também online, a partir de Assis.

Nessa conferência, incluíram-se testemunhos de três jovens diretamente envolvidos na participação portuguesa (Rita Monteiro, Marta Bicho e Francisco Maia), a que se seguiu um diálogo com Luigino Bruni, diretor científico do evento.

Desses três testemunhos, a Comissão destaca o de Rita Monteiro: “é urgente trabalhar melhor, de forma mais equilibrada e focada, que haja trabalho para todos”, mas também “que todos sejam cuidadores”. “Para isso é preciso tempo; o mundo do trabalho pode aprender muito com o mundo do cuidado”.

A nota destaca depois a mensagem que o Papa deixou no final do encontro de Assis, em que Francisco, ao dirigir-se aos jovens, afirma ser urgente “reconhecer responsavelmente que o atual sistema mundial é insustentável de vários pontos de vista” e que “é indispensável uma mudança dos estilos de vida, dos modelos de produção e de consumo, das estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades”.

Pobreza. Governo cria comissão para elaborar estratégia de combate


Ouvido pela Renascença, o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz sublinha a importância da mensagem saída do encontro de Assis. Pedro Vaz Patto reafirma ser necessário “pôr termo aos paraísos fiscais, porque nos roubam o presente e o futuro – expressão que consta do apelo final do encontro ‘Economia de Francisco’”.

Vaz Patto afirma que “alguns mecanismos que regem a economia presentemente contribuem para o acentuar da desigualdade”, designadamente “há estudos que comprovam que as existências destes paraísos fiscais fazem com que as grandes empresas com maiores lucros acabem por pagar menos do que pagam pequenas e médias empresas”.

“E este é um aspeto da injustiça do sistema que é denunciado neste apelo final do encontro de Assis”, reforça o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.