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8.9.23

“As elites políticas não ouvem o povo, e o populismo ouve”

Por Cristina Margato (entrevista a Gilles Lipovtsky),  in Expresso

Autor do clássico “A Era do Vazio”, ensaio sobre o individualismo, o filósofo francês fala sobre como o “be yourself” e a procura de autenticidade está a mudar profundamente a sociedade e o sistema político

No início dos anos 80, Gilles Lipovetsky teve uma intuição. A palavra é dele. Escreveu “A Era do Vazio” (Edições 70), livro que era já um ensaio sobre o individualismo contemporâneo, numa época em que ainda não existiam selfies nem redes sociais. Lê-lo passadas quatro décadas não é um desperdício de tempo. Está lá tudo o que veio a existir de uma forma exacerbada neste nosso tempo e que levou ao que o filósofo chama de radicalização do princípio da autenticidade, do be yourself, bem presente até no discurso religioso católico. As raízes desta forma de estar, a que corresponde uma “revolução antropológica”, são antigas e devem ser procuradas no século XVIII, desde que Rousseau, Emerson, Nietzsche e todos os outros que se seguiram vieram dizer “não à razão e sim a mim mesmo, à minha subjetividade e à minha singularidade”. Aí nasce aquilo que Lipovetsky chama de individualismo de singularidade, ou individualismo ‘singularista’. É todo um programa individual de emancipação (em qualquer idade) que visa o bem-estar da pessoa, a sua liberdade, o seu interesse próprio — produzindo ondas de choque que agitam o sistema político. A conversa com Lipovetsky teve lugar na Embaixada francesa, em março de 2023, a propósito do lançamento de “A Sagração da Autenticidade” (Edições 70), o seu último livro.

Como surgiu a ideia, o conceito de autenticidade?

Dois fenómenos conduziram-me a esta ideia. O primeiro resulta da observação. A autenticidade está em todo o lado, da decoração à moda, ao turismo. Procura-se o autêntico e o rústico. Tudo é autêntico: uns óculos, um queijo ou um destino de viagem... O segundo fenómeno passa pelo facto de esse ideal de autenticidade individual estar a mudar-nos de forma profunda, a transformar o modo como vivemos a nossa vida, como vivemos em democracia e como concebemos o futuro. O ideal de autenticidade corresponde ao princípio que diz: “Sê tu mesmo, obedece ao teu coração, aos teus sentimentos, aos teus desejos, e não ao exterior.” Esta ética e este princípio são excecionais na nossa História. Nenhuma civilização, desde o Paleolítico até hoje, seguiu esta ética. Até agora, e em todas as civilizações anteriores, devíamos viver segundo a tradição, obedientes aos mandamentos de Deus, ao modelo de Jesus e ao dos nossos antepassados; ou seja, a algo exterior a nós. Mesmo os filósofos gregos, que inventaram a filosofia e a sabedoria, defendiam a obediência à razão universal, à razão do mundo. O século XVIII veio dizer não à razão e sim “a mim mesmo”, à minha subjetividade e à minha singularidade. Nessa altura, nasce aquilo a que se pode chamar individualismo de singularidade, ou individualismo ‘singularista’. O que corresponde, de certa forma, ao que Rousseau inventa ao dizer que todos somos diferentes e que devemos viver a nossa vida consoante o nosso ser e não através do que nos é imposto, usando a nossa consciência para julgar o bem e o mal. Para Rousseau, o homem é bom, tem um bom coração. Mas a sociedade, enquanto camisa de forças, com as suas normas, hábitos e convenções, é má. É a sociedade que distorce o homem, que o leva a mentir a si próprio, a viver com falsas necessidades de luxo, para corresponder a uma imagem que não está de acordo com o verdadeiro ser. Para Rousseau, o conformismo é o mal absoluto. E é evidente que Rousseau não está só. Ao longo do século XIX, Emerson, John Stuart Mill, Nietzsche vão colocar o indivíduo contra a sociedade e as suas convenções. O que é imoral a partir daí é ir contra a natureza. Vivemos a radicalização do princípio da autenticidade. À exceção dos fundamentalistas islâmicos, todos reclamam o princípio da autenticidade individual.

Assistimos a uma autodeterminação individual, depois da consolidação do princípio do Estado-nação?

Sim. É necessário dizer que a autodeterminação ganhou uma esfera de existência em cada um. Cada um é reconhecido como presidente do governo de si próprio. E o be yourself não nasce do nada, tem uma história, e os filósofos, por vezes, deixam essa história de lado. É um erro. Eles dizem que o be yourself é um princípio absoluto, mas, na verdade, esse princípio absoluto vai mudando ao longo da História, de Rousseau até Sartre. O princípio da autonomia e da autenticidade começou por ser limitado, deixando as mulheres de fora, circunscritas à casa e aos filhos. É importante levar isso em conta, porque, durante dois séculos, o princípio da autonomia individual defendido pelos intelectuais, homens das letras e espíritos progressistas deixou de fora as mulheres, os jovens, os gays, as lésbicas e todos os LGBTQ. Não se reivindicava a autenticidade destes, porque a consideravam uma perversão. Uma mulher que não quisesse ter e criar filhos seria considerada uma desnaturada. Agora, já não há limites. As mulheres conquistaram o poder sobre elas mesmas. Podem aceder a meios tradicionalmente masculinos, às altas esferas da política, casar ou não, ter crianças ou não. É um princípio consensual da nossa cultura. A minha tia, por exemplo, casou com quem os meus avós decidiram, contra a sua vontade. Hoje, no Ocidente, isso seria impensável e insuportável. Seria um ato bárbaro. Os pais deixam que os filhos decidam sobre a sua vida. O princípio do be yourself impôs-se e está a ser cumprido também pelas pessoas LGBTQ. Há uma explosão do princípio da autenticidade...

Não sou pela cultura de cancelamento. Devemos apreciar e valorizar os criadores mesmo quando estes têm ideias diferentes das nossas”

Freud disse que a descoberta de Copérnico, de que o Sol não anda à volta da Terra, abre uma ferida no ser humano. Ele percebe que já não está no centro, e isso remete-o à sua insignificância...

Conheço bem esse texto, é um belo texto. Freud fala no orgulho humano ferido. Durante muito tempo, o homem esteve no centro da Terra. A partir de certa altura é parte do Universo e mais tarde, com Darwin, descende do chimpanzé. A psicanálise e a descoberta do inconsciente dizem ao homem que ele já nem senhor de si é.

Poder-se-á falar num “renascimento” do homem enquanto centro do mundo?

Sim. De facto, com a generalização do princípio da autenticidade individual, singular, todos podem ter orgulho, alcançar a felicidade, mas também experimentar a dificuldade de se construir a si mesmo. Há na ética da autenticidade qualquer coisa de conquistador, cada um deve conquistar-se a si próprio, deve tornar-se no que é, como diria Nietzsche. E este é um princípio válido para todos, mesmo para as crianças. Os pais não querem constranger os filhos. A mim, ninguém me perguntava o que queria comer ou vestir, qual era o meu desejo... Hoje, o desejo de autonomia é legítimo. O princípio da autenticidade não é apenas a tese deste meu livro. É algo que mudou a nossa relação com o mundo e connosco próprios. É um agente produtor.

Uma revolução?

Sim, completamente. É uma revolução antropológica.

A força dos ucranianos nesta guerra pode vir dessa vontade de pertencer a este novo mundo, por oposição ao russo, que ainda pertence ao mundo antigo?

É importante que me coloque essa questão, porque ela permite corrigir uma imagem muito pessimista do hiperindividualismo contemporâneo. Os intelectuais e filósofos que evocam o individualismo tendem a apontar apenas os malefícios. E, de facto, eles existem. Mas nem tudo é negativo. Nem sempre o individualismo destrói o altruísmo e a virtude e faz com que o indivíduo só pense no seu benefício. O que está a acontecer na Ucrânia é muito importante. Os ucranianos têm os mesmos desejos e comportamentos hiperindividualistas, querem viver bem, comer bem, fazer turismo, ser sexualmente livres e ser eles mesmos, como nós. Mas, face à invasão russa, reagem coletivamente e lutam. Têm coragem democrática. Na verdade, as pessoas não são mais egoístas do que já foram no passado. Temos de olhar para o trabalho das associações, organizações não-governamentais que não perseguem o lucro e que querem ajudar os outros e com as quais as pessoas se comprometem — porque querem fazer o bem, ser útil aos outros. Isso dá-lhes uma felicidade que o mercado e o consumo não lhes podem dar.

Já não é o individualismo de “A Era do Vazio”. Quais são os riscos graves do hiperindividualismo...

Queria começar por dizer que, no início dos anos 80, quando escrevi “A Era do Vazio”, tive a intuição de estarmos perante um novo individualismo. A evolução que o mundo tomou confirmou essa intuição, e o narcisismo não pára de se desenvolver. Rousseau inventou a autobiografia, sem, contudo, avançar tantos detalhes quanto o narcisismo digital das selfies avança. Hoje, as pessoas colocam-se num palco como se fossem estrelas e falam e partilham o que fazem e o que acontece na vida delas de modo permanente. Dito isto, o maior perigo que vejo no hiper­individualismo é o da forma como se estabelece a relação das pessoas com a política. Interessa-me e preocupa-me o modo como os cidadãos colocam o bem-estar individual, a vida privada, à frente da vida pública social. Uma grande proporção não vai votar porque é domingo, o tempo está bom e é melhor ir nadar... Há uma despolitização e um desinteresse preocupantes. O mesmo acontece na educação, e é grave. Deu-se nos últimos 20 anos uma verdadeira revolução. Nos anos 50 e 60 era a autoridade dos pais e a obediência dos filhos que estava primeiro. A partir do Maio de 68 dá-se uma inversão — passa-se a escutar as crianças. A criança é o rei. Nem tudo está mal, porque é bom escutar as crianças. Penso que neste momento já estamos muito longe do liberalismo educativo. Os pais agem com medo de perder o amor dos filhos. Não lhes querem dizer não, com receio de que os filhos não os amem. E isso dá muitos maus resultados ao nível psiquiátrico.

O pior efeito é ao nível mental?

Sim, o ideal da autenticidade não pode ser um princípio educativo forte. Educar não é ouvir a criança e fazer tudo o que ela quer, educar é, como disse Freud, contrariar, constranger. As crian­ças têm de aprender a respeitar os outros, a seguir as regras, a escutar, repetir, aprender... E aprender é sair de si próprio. O mérito da cultura está em extrair a criança do que é. Não é agradável repetir exercícios, mas como se aprende a tocar piano se não o fizer? Esses princípios educativos antigos foram deitados fora, e isso não é bom. Temos de defender que é preciso manter algum controlo, alguma disciplina, e ensinar que há regras, porque os adultos sabem coisas que as crianças não sabem.

Há a ideia de que ao procurar-se a autenticidade se vai alcançar a felicidade. No entanto, não é assim...

Tem razão. Hoje, os coachers e as psicoterapias e todas as escolas de desenvolvimento pessoal dão-lhe a promessa de felicidade. A felicidade não aparece na primeira fase da autenticidade. Ralph Waldo Emerson, Rousseau, Heidegger, Sartre não têm uma única palavra para a felicidade. Eles não falam de felicidade, mas de dignidade, de ética, de compromisso. Em Heidegger, por exemplo, é a morte, o trágico e heroico que aparece e que corresponde a uma autenticidade heroica. Deu-se uma viragem, e nós vivemos no tempo da autenticidade hedonista, dos vendedores de felicidade, do mercantilismo, e há muita ilusão. Para a felicidade não existe uma única solução, mas várias. E o que acontece é que as pessoas acreditam que pode existir uma solução.

Antes existia uma estrutura face à qual se desenvolvia a hipocrisia. Na era da autenticidade e da liberdade temos a angústia dos órfãos...

Sim, de facto. É complicado, não só devido à autenticidade. Existem outros fatores para a existência desse sentimento. As pessoas têm medo de perder o trabalho, as mulheres sofrem de assédio, e daí o movimento Me Too, e isso não decorre da autenticidade. Uma pessoa até pode ser autêntica, mas o cônjuge não é, e até se pode ir embora, os filhos são autênticos, mas não têm bons resultados na escola, e etc. Depois há a guerra, a crise climática, o desconhecido... Pode-se estar em casa e de repente um furacão destrói-a. Há uma ansiedade ecológica. O medo e a ansie­dade são constantes. Vivemos numa cultura de medo, de insegurança global. Não se pode comer isto e aquilo. É a gordura, o açúcar... Respiro o sufi­ciente? E a poluição? E as ameaças terroristas? Os islamitas? O meu trabalho vai acabar? E a globalização? A incerteza é constante, também nas relações humanas. O indivíduo constrói a sua identidade num mundo incerto, e essa incerteza gera uma ansiedade geral. Antes podíamos divorciar-nos, mas agora tudo pode acontecer a qualquer momento. Havia regras, mesmo que não as conseguíssemos cumprir. E agora? Antigamente aos 75 anos preparava-se a morte, agora o marido pode chegar a casa e dizer à mulher: “Encontrei uma jovem formidável e vou de férias para a Grécia com ela!” Nota-se uma obsessão estética nas mulheres, ao ponto de fazerem cirurgias estéticas aos 18 anos, como acontece, por exemplo, no Brasil. Acredito que para fazer face a isto é fundamental apostar na educação. Se me perguntar se a educação dá felicidade, direi que não dá. Mas dá possibilidades de construirmos uma vida, de nos reciclarmos e de nos adaptarmos a um mundo que está em constante mudança. E com uma educação mais cultural, mesmo que a educação não dê felicidade, dará alguns momentos de felicidade, que não são momentos de consumo. Caso contrário, a vida não é mais do que produzir e consumir. O consumo tomou demasiado espaço na sociedade e não dá felicidade. Não é a mesma coisa quando as pessoas se juntam para cantar em coro, ou tocam piano com os amigos, ou ouvem música. Essa é uma felicidade que se aprende na escola, em crian­ça, e que será formidável ao longo da nossa vida. Devíamos ter uma educação mais global que permitisse aos seres humanos equilibrar os excessos do produtivismo e do consumismo. Há anos que não sou um crítico radical do consumismo, porque o consumismo também traz coisas importantes. Os intelectuais denunciam o consumismo, mas consomem como os outros, há muita hipocrisia nesse tipo de pensamento. Tenho amigos que são contra o consumismo e depois têm uma segunda casa, vão de férias para a Venezuela, visitam os Estados Unidos, conduzem um Audi. É fácil dizer que se é contra o consumismo. Acredito que o consumo não é um ideal que se deva colocar na cabeça das crianças. Devemos retomar o que os filósofos gregos nos ensinaram, a sabedoria deles, e delimitar os limites. Devemos desenvolver uma cultura de autolimites. Para muitos, se não se puder ir de férias ou jantar fora, parece que a vida desaparece. Compreendo que se possa pensar assim, mas é excessivo. Penso que devemos trabalhar para reabilitar os limites e não acredito na moral. Acredito na paixão, no desejo, por isso devemos procurar que as nossas paixões e desejos sejam outros. Se tiver outras coisas na vida, talvez não fique tão triste por não poder ir de férias para a Grécia. Sou contra a moralização. Penso que, durante a crise de covid, as pessoas que tinham uma riqueza cultural aceitaram melhor os limites. Não devemos ser escravos de qualquer coisa que nos é exterior.

Disse que tem de se aceitar os homens como são...

Sim, penso que tem de se aceitar o homem como ele é e não se sonhar com uma Humanidade sábia. E isto não significa que devemos aceitar tudo, significa que não devemos sonhar com uma Humanidade sábia em que bastaria dizer que algo não é bom e que é preciso mudar para as pessoas mudarem. Isso não se irá passar. A crise climática é um bom exemplo disso. Greta Thunberg diz que é horrível andar de avião, que não devemos comer carne ou aquecer a casa, o que está correto do ponto de vista dos princípios. Mas é uma ilusão pensar que o desejo de consumo vai mudar. Cada um de nós aspira a uma vida melhor, e isso é próprio do homem moderno. As pessoas até podem fazer esforços, mas não vão fazer a mudança necessária. Essa é uma falsa imagem do ser humano. Não podemos pedir a total transformação do homem. Fazê-lo é ter uma imagem falsa do que é o homem. Veja o que aconteceu depois da covid: os aeroportos estão cheios. O homem moderno adora viajar. Veja os chineses. Acredita que não vão querer apanhar os aviões? É preciso desenvolver a inteligência, mobilizar politicamente, mas quem irá resolver estas questões é a ciên­cia, não é a “autenticidade”. É preciso desenvolver as energias adequadas. Quem vai resolver esta questão é a ciência, a técnica, os financiamentos. Os Estados devem assumir a responsabilidade com planos de financiamento para ajudar o desenvolvimento sustentável de energia limpa. Temos de regulamentar, criar impostos. Pensar que o mundo vai mudar porque o homem vai mudar é um mito. Não acredito nisso. Mas acredito que a aventura tecnocientífica do homem vai continuar e que é a única solução, embora tenhamos de perceber quais são as ameaças que isso nos coloca. Sem desenvolvimento, sem inovação da ciência e da técnica, sem investimento na pesquisa não haverá solução. Tem de haver também compromisso e regras.

O que pensa de Elon Musk?

Não gosto de julgar as pessoas. É um formidável homem de negócios, mas não é só um visionário, quando tomou o controlo do Twitter fê-lo como ideia política, e depois tem toda a loucura californiana. Queremos ser imortais? Eu não sou contra a tecnologia, mas o ‘transumanismo’, a ideia de vida que nos querem propor, é um pesadelo. A juventude eterna a que ele quer chegar é uma coisa terrível. Toda uma vida obcecada pelo controlo de tudo o que se come e se faz. Penso que a sabedoria está em sabermos que podemos progredir, sem dúvida, continuar atraentes, como acontece com as mulheres que têm hoje 50 ou 60 anos, mas em nome do futuro não vamos sacrificar a felicidade do presente.

Annie Ernaux, ganhando o Nobel, transforma-se num bom exemplo desta tendência para a autenticidade?

Penso que todos os grandes escritores, e não apenas Annie Ernaux, são autênticos. Porque todos os grandes escritores são singulares. Se copiam, já não são grandes escritores. A invenção de um estilo é uma forma de autenticidade, porque durante séculos as formas de cultura não foram singulares. Não havia singularidade, seguiam-se os rituais, respeitava-se a tradição. No mundo moderno, um criador tem de ter essa singularidade, caso contrário é um artista comercial.

Como Ernaux faz biografia pura, não está mais próxima da autenticidade?

Desde “Confissões”, de Rousseau, que existe biografia, e essa é uma forma de autenticidade, ainda que nem tudo seja autêntico. Desse ponto de vista, parece-me que Ernaux é autêntica. Mas ela também está próxima de Mélenchon, que é um populista, e isso faz com que ela me pareça conformista, embora isso não diminua o seu mérito enquanto escritora. É como Houellebecq. Ele exagera muito, mas é um escritor formidável, apesar de não partilhar a visão dele. Não sou woke, não sou pela cultura de cancelamento. É muito perigoso o que se está a passar com o movimento woke. Penso que devemos apreciar e valorizar os criadores mesmo quando estes têm ideias diferentes das nossas. O que o movimento woke quer é eliminar Houellebecq.

Vamos ser capazes de fazer face aos populismos e à extrema-direita?

Não sei... Na política, as previsões, em particular dos intelectuais, são desastrosas. A inteligência política dos intelectuais é bem menor do que a de muitas pessoas. Serei muito prudente. Na vida moderna é extremamente perigoso fazer prognósticos ou diagnósticos. Vou usar um exemplo simples. Há 20 ou 30 anos seria impensável que Le Pen ia chegar ao poder e agora já não é. A vida política no mundo moderno está sujeita a mudanças bruscas. Há um risco, de facto. Não é só para nos assustar, é real. Mesmo assim, na Itália isso mudou. Na França parece improvável, mas é algo em que já se pode pensar. Os governantes atuais têm de ouvir a sociedade civil, caso contrário vão alimentar esses movimentos populistas.

Não está a acontecer na França, com os protestos contra o aumento da idade de reforma...

Não. Mesmo que as medidas do Governo possam ser certas, chegam tarde. Os riscos políticos são grandes porque os governos não ouviram a sociedade civil e os populistas ouvem. As elites políticas atuais não ouvem o povo, e o populismo ouve o povo. Isso reforça as possibilidades de sucesso do populismo. É de facto um grande problema. A medida implica trabalhar mais porque se tem uma maior esperança de vida, mas politicamente é perigosa.

E os discursos identitários são perigosos no contexto do populismo?

Não sou favorável aos discursos identitários, porque fecham os indivíduos no coletivo, e são particularmente perigosos por exemplo para as jovens de meios muçulmanos. Há uma primazia do coletivo sobre o indivíduo. Devemos defender a autenticidade individual, o princípio da subjetividade, a liberdade individual. Os movimentos identitários constituem uma ameaça contra as mulheres. Elas são as primeiras vítimas. Há uns anos, as mulheres não usavam véu como hoje, agora têm receio do julgamento da coletividade. A grandeza da modernidade é a invenção da liberdade e da autenticidade individual. Depois podemos ter afinidades eletivas. A república deve defender os interesses de todos.

1.9.23

Museus e monumentos gratuitos ao domingo e feriado para residentes a partir desta sexta-feira

Por Lusa, in Expresso

Até hoje, as entradas nos Museus, Monumentos e Palácios sob dependência da Direção-Geral do património Cultural eram gratuitas apenas até às 14h00

As entradas em museus, monumentos e palácios tutelados pelo Estado vão passar a ser gratuitas aos domingos e feriados para os cidadãos residentes em Portugal a partir desta sexta-feira, dia de entrada em vigor do novo regulamento.

O regulamento atualiza também os valores de ingresso nestes espaços dependentes da Direção-Geral do património Cultural (DGPC), de acordo com o despacho do Governo publicado a 4 de agosto em Diário da República.

No documento, o Governo justificou a atualização do regulamento em vigor desde 2014 com o “crescimento da atividade turística, em função da qual se diversificou a oferta cultural nos últimos anos, quer da introdução do canal de venda online, com a aquisição, em 2021, do novo sistema de bilhética”.

Até hoje, as entradas nos Museus, Monumentos e Palácios sob dependência da DGPC eram gratuitas aos domingos e feriados apenas até às 14h00 para todos os visitantes.

A gratuitidade de acesso aos museus, monumentos e palácios em geral (e não apenas ao domingo e feriado) também abrange crianças e jovens até aos 12 anos, visitantes em situação de desemprego residentes na União Europeia, investigadores, profissionais de museologia e/ou património, conservadores e restauradores, desde que em exercício de funções, professores e alunos de qualquer grau de ensino superior, incluindo Universidades Sénior e instituições de formação profissional credenciados em visita de estudo, e grupos com comprovada carência económica.

Neste acesso gratuito – cuja reestruturação teve em conta “o princípio basilar do acesso universal à cultura”, segundo o despacho do Governo – continuam a estar contemplados, entre outros, os antigos combatentes, visitantes com incapacidade comprovada igual ou superior a 60%, profissionais de turismo ou da comunicação social, incluindo as novas plataformas digitais, desde que credenciados e em exercício de funções, visitantes em eventos corporativos ou situações ocasionais.

Quantos aos descontos, mantêm-se os 50% para visitantes com idade igual ou superior a 65 anos, o mesmo para jovens entre os 13 e os 24 anos, e “famílias, desde que constituídas, pelo menos, por dois elementos, sendo um deles adulto e outro menor”, além dos protocolos.

Globalmente, o novo Regulamento Geral de Bilhética e Acesso aos museus, monumentos e palácios da DGPC faz alguns ajustamentos, nomeadamente quanto às tabelas relativas às visitas guiadas e aos parâmetros das isenções e descontos, normas e tabelas aplicáveis às visitas guiadas, tendo em conta a sua especificidade.

Ajustaram-se e extinguiram-se algumas tipologias de bilhetes-circuito, cujo preçário se mantinha inalterado desde 2014, segundo o documento.

Entre outras alterações, há a criação de uma tabela de preços própria para as exposições temporárias e foi feita a fusão, numa única tipologia, dos bilhetes com desconto de Cartão Jovem e Cartão de Estudante e dos bilhetes Família e Família Numerosa, segundo o despacho assinado a 27 de julho pelo ministro das Finanças, Fernando Medina, e pelo ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva.

De acordo com os dados estatísticos da DGPC, em 2022, os museus, monumentos e palácios nacionais somaram 3,3 milhões de visitantes, o que representou uma recuperação de quase dois milhões de entradas face às perdas durante a pandemia da covid-19.

No entanto, os números ficaram aquém dos cerca de quatro a cinco milhões, atingidos antes da pandemia, entre 2017 e 2019.

31.8.23

s portugueses estão a ler mais e isso deve-se aos jovens: são eles quem mais compra livros em Portugal

Tiago Serra Cunha Jornalista, in Expresso



Menos de dois terços dos portugueses compraram livros no último ano, indica um novo estudo, mas os números estão a subir, principalmente por conta dos jovens, que continuam a impulsionar o setor. Apesar dos indicadores positivos, Portugal mantém-se como o país que menos lê na Europa — ainda assim, os dados permitem “esperança no futuro”, acredita a APEL

Há mais livros a ser comprados em Portugal e os jovens estão a ser os principais responsáveis pelo facto. São melhorias face à tendência negativa apresentada pelos últimos dados sobre o setor, revelam os números de um novo estudo promovido pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e realizado pela GfK. Os dados sobre o “Mercado do Livro e Hábitos de Compra em Portugal”, foram divulgados esta quinta-feira na abertura do Book 2.0, descrito como o maior evento de discussão do futuro dos livros em Portugal e na Europa.


Os números divulgados pela APEL indicam que 62% dos inquiridos compraram livros no último ano — o que corresponde a menos de dois terços dos portugueses. Destes, 70% afirmaram que compraram o mesmo total ou mais livros do que no ano anterior, revelando uma ligeira mudança de hábitos dos portugueses em relação à literatura nos últimos anos: o Inquérito às Práticas Culturais, realizado em 2020 pelo Instituto de Ciências Sociais, indicava que 61% dos portugueses não tinham lido qualquer livro nesse último ano.

Comparando os dados atuais com aqueles pré-pandemia, 68% dos compradores afirmam ter comprado o mesmo número (40%) ou até mais livros (28%).

Os jovens são quem está a impulsionar o setor. Os inquiridos entre os 15 e os 34 anos dizem continuar a ter o hábito de comprar livros, sendo quem mais comprou no último ano (28% do total). Em 2022, as compras pela camada mais jovem subiram 44% face ao período pré-pandemia.

Números que comprovam os dados já avançados pelo Expresso, também da GfK, que indicavam que o mercado livreiro atingiu em 2022 o maior volume de faturação desde que os dados começaram a ser auditados, há 15 anos — e foi mesmo o que mais cresceu na Europa no ano passado — graças às camadas mais jovens, quem mais lê no país.

As comunidades de leitores que foram surgindo em redes como o Instagram ou o TikTok foram alavancando o setor. “Talvez se chegue agora aos livros de forma diferente, por exemplo através das redes sociais, mas a verdade é que a compra, leitura e partilha de livros é agora muito comum entre os jovens, o que é extremamente positivo para o futuro da leitura”, diz o presidente da APEL, Pedro Sobral, sobre esta tendência, citado em comunicado.


Para impulsionar estes números, estão a ser pensadas iniciativas como o cheque-livro, plano de consolidação dos hábitos de leitura desenvolvido pelo ministério da Cultura em conjunto com a APEL.

O Governo quer para pôr os mais novos a ler, ao dar a cada jovem que tenha 18 anos feitos em 2023 a “experiência” de “escolher e comprar” pelo menos um livro (o valor final está ainda por revelar). Há também múltiplos projetos a serem levados a cabo por leitores e criadores de conteúdo na internet, de forma a divulgar o que se publica em Portugal.

O ROMANCE DOMINA UM MERCADO ONDE O LIVRO FÍSICO CONTINUA A REINAR

O romance continua a ser o género literário preferido de quem compra livros (69%), seguindo-se o romance histórico (52%). Os livros infantojuvenis continuam a alimentar 50% das compras efetuadas — este segmento foi o que mais vendeu e, dos 15 livros de ficção de maior sucesso em 2022, 10 são populares entre adolescentes e jovens adultos, tinha noticiado o Expresso.

Os livros físicos continuam a dominar, apesar da prevalência das redes sociais para a sua recomendação. Este é o formato privilegiado por quem compra livros, correspondendo a 99% das compras efetuadas, sobretudo, também, em livrarias e lojas físicas (88%). O digital, no entanto, ganha algum terreno: 8% dos leitores compram livros digitais; 39% compram livros - físicos ou digitais - em lojas online.

CLASSES MAIS BAIXAS CONTINUAM COM BAIXO ACESSO A LIVROS

Os números não são todos positivos. Segundo mostram os dados da GfK, as maiores quebras de compra de livros registadas no último ano registaram-se no Porto (-14%), no Litoral (-10%) e no Interior (-10%). 26% destas quebras verificam-se nas classes sociais mais baixas (classes C e D).

Por outro lado, é nos lares com um status social mais elevado (classes A e B) que são comprados mais livros (42%).

O presidente da APEL refere mesmo, em comunicado, que Portugal mantém-se, apesar de todos os indicadores positivos, o “país com os índices de leitura mais baixos da Europa”. No entanto, Pedro Sobral deposita esperança nos indicadores em subida: “estes números trazem-nos esperança no futuro, fazem-nos acreditar que é possível mudar hábitos para as gerações futuras”, diz, referindo que “o aumento da leitura deve ser transversal a todo o país, independentemente da classe económica ou da região do país, por isso democratizar o acesso ao livro deve ser um imperativo nacional”.

MERCADO VALEU 175 MILHÕES EM 2022

No ano passado, o mercado livreiro português valeu cerca de 175 milhões de euros, com um total de 21.115 livros lançados. É dominado por quatro grupos de livrarias em rede, que detêm 80 lojas, “nove retalhistas multiproduto, correspondentes a 1.200 pontos de venda; oito grupos de grande distribuição, com 1.800 pontos de venda, e quatro livrarias únicas”.

O estudo sobre o “Mercado do Livro e Hábitos de Compra em Portugal” foi realizado pela GfK entre os dias 18 de julho e 10 de agosto de 2023 e conta com uma amostra constituída por 1001 pessoas.

7.8.23

O meu bacalhau é melhor do que o teu: Ílhavo celebra história e gastronomia em festival de entrada livre

BCBM, in Expresso

Entre 9 e 13 de agosto, Ílhavo assume o estatuo de capital do bacalhau. O festival anual, com entrada gratuita, conta com 10 tasquinhas e dois bares de petiscos, que apresentam o fiel amigo nas mais diversas confeções. A “Corrida Mais Louca da Ria” promete gargalhadas a todos os visitantes

A promessa é simples: durante cinco dias, celebrar a boa gastronomia, em particular, o bacalhau. Assim tendo sido e assim será entre os dias 9 e 13 de agosto durante o Festival do Bacalhau, que tem o Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré, como palco principal. Considerado o mais importante evento de Ílhavo, o Festival do Bacalhau tem entrada livre e um vasto programa de iniciativas, que junta gastronomia, showcookings, música ao vivo, jogos, oficinas, workshops, visitas guiadas, carrosséis de madeira, animação de jardim e atividades náuticas, com destaque para a sempre divertida “Corrida Mais Louca da Ria”, que leva para a água embarcações originais, com a garantia de muitas gargalhadas.


A estrela do festival é, no entanto, o bacalhau e a história e tradições associadas. Conte, por isso, com muitas receitas que vão ser preparadas por 10 associações locais, que nas respetivas tasquinhas, confecionam variados pratos do “fiel amigo”, a que se juntam dois bares de petiscos. Além disso, o Pão de Vale de Ílhavo e o espumante da Rota da Bairrada também vão ter espaço próprio no recinto. No Pavilhão Âncora, realizam-se, ao longo da iniciativa, 16 showcookings, que têm sempre o bacalhau como ingrediente principal. É neste local que, no domingo, dia 13 de agosto, decorre o sempre disputado concurso “O meu bacalhau é melhor do que o teu”. Durante o festival é ainda possível assistir a diversos artesãos locais a trabalharem “sempre com o mar como inspiração”.


De manhã à noite, o Jardim Oudinot terá sempre animação para toda a família, entre jogos, oficinas, carrosséis de madeira, animação de jardim e atividades náuticas, entre canoagem e stand-up paddle, na ria de Aveiro. No Navio Santo André há novas exposições para ver (“Mar Oceano: as campanhas de bacalhoeiras de Mário Ruivo” e “Redes de Emalhar”) e visitas orientadas, às 19h00, por antigos tripulantes (um por cada dia), que recordam aventuras em alto mar. A par da gastronomia, o festival enche-se de música com concertos todas as noites, às 22h00, no palco Estibordo: José Malhoa (9 de agosto), Anjos (10 de agosto), David Carreira (11 de agosto), Agir (12 de agosto) e Sara Correia (13 de agosto).

Conheça AQUI o programa completo do Festival do Bacalhau de Ílhavo

3.8.23

The Otolith Group em Lisboa: “As pessoas negras construíram a Europa”

José  Marmeleira, in Público

Com exposição no espaço Hangar, em Lisboa, duo britânico continua a interrogar a imagem da descolonização e a libertar o imaginário do horizonte imperial do capitalismo.

A Sphere of Water Orbiting a Star (2023) é o título da exposição que o duo e casal britânico The Otolith Group apresenta, até 23 de Setembro, no espaço lisboeta de artes Hangar, com curadoria de Margarida Mendes. Não é a primeira vez que Kodwo Eshun e Anjalika Sagar, que desde 2002 assinam com o nome Otolith Group, expõem em Portugal – recorde-se, por exemplo, a individual realizada em 2015 no Museu de Serralves –, mas há dois elementos que tornam singular este A Sphere of Water Orbiting a Star: trata-se da primeira individual em Lisboa e consiste numa reflexão poética e radical sobre o racismo, o capitalismo e a descolonização.

Há duas décadas que Kodwo Eshun e Anjalika Sagar, activistas, artistas, críticos e teóricos, fazem da arte contemporânea um campo de investigação e produção baseada na imagem em movimento, na ficção e na crítica. É neste quadro que surgem as referências ao fascinante mundo subaquático conhecido como Drexciya, criado pelo homónimo duo de música tecno. Antes de darmos a palavra à dupla, vale a pena descrever a instalação que dá o nome à exposição.

Na sala do espaço Hangar, no bairro da Graça, estão dois ecrãs. No da esquerda, vemos imagens de vagas marítimas de um azul escuro, quase enegrecido, sob o qual julgamos ouvir algo mais do que o marulhar das ondas. No da direita, ouvimos uma conversa entre Kodwo Eshun e Remnant of a Hydrogen Element (pseudónimo de Gerald Donald, uma das metades dos Drexciya). Falam devagar sobre um fantástico mundo subaquático, mas é Eshun quem faz as perguntas: o artista quer conhecer esse universo ficcional que, em termos temporais e espaciais, não parece assim tão fantástico ou distante. Palavras como tráfico, escravos, mulheres e crianças negras lançadas vivas ou mortas ao oceano vão assomando da conversa, enquanto, do outro lado, a água continua a cair.

Outros mundos, com a ficção sónica

A exposição que o Otolith Group traz a Lisboa está em diálogo permanente com a história e o trabalho do duo de Detroit formado por James Stinson e Gerald Donald. No vídeo, a relação com o imaginário e a música dos Drexciya (embora não a oiçamos) é central ao tema de trabalho. “Kodwo foi o primeiro crítico a escrever um ensaio sobre o universo estético, político e musical dos Drexciya”, revela-nos Anjalika Sagar. “Publicou um ensaio na [revista de música] The Wire e dedicou-lhes vários textos no seu livro More Brilliant Than the Sun: Adventures in Sonic Fiction [1998].”

A morte rodeia a vida negra na América, sempre rodeou. E a música dos Drexciya tratava de criar impulsos, ritmos, energias, fluxos que não objectificavam as pessoas negras. Não eram afro-futuristas, mas afro-pessimistas que tentavam criar um mundo abstracto a partir do qual pudessem imaginar, conceber e realizar outro tipo de vida

Anjalika Sagar

O interesse do artista levá-lo-ia, em 2010, a Detroit, para conhecer o membro sobrevivente dos Drexciya. “O James Stinson morrera em 2002 e fui à cidade”, conta-nos agora. “Entrevistei o Gerald Donald durante três ou quatro dias e usámos algum desse material no vídeo Hyrda Decapita [pode ser visto às quintas-feiras, às 19h, no Hangar]. Agora regressámos a essa entrevista e aos Drexciya e fizemos um novo trabalho sonoro com o compositor e designer de som Taylor Friedman. Não trouxemos o som tecno dos Drexciya de volta, mas, se quiser, a sua ficção sónica, sonora, científica. Aquilo que consideramos ser a construção ou criação de mundos que os Drexciya nos deixaram.”
The Otolith Group em Lisboa: “As pessoas negras construíram a Europa”

No Hangar, os visitantes podem consultar uma selecção de discos do duo musical, bem como imagens, textos teóricos e ficcionais que contextualizam a exposição e a relação entre o Otolith Group e os Drexciya. “Podemos dizer que fomos inspirados por eles”, admite Kodwo Eshun. “Movemo-nos no mundo da arte, da teoria e do discurso e, de certa maneira, apropriamo-nos de ideias, de pensamentos de que gostamos. Gerald Donald é muito bom a construir mundos ficcionais a partir das ideias contidas nas suas canções. De cada título, ele extrapola para um sistema cósmico, com outras condições planetárias, um mundo subaquático diferente do terrestre. É como um escritor de ficção científica ou ficção especulativa. É único nisso, porque o faz a partir da música. Uso muito o termo ficção sónica para designar o trabalho dele, pois consegue reunir a uma organização do som a própria ficção científica.”


Som, há som na Hangar, mas – e já o dissemos antes – não o da música tecno. Aproveitamos o passado de Kodwo Eshun enquanto crítico musical para lhe perguntar: o que o atrai no tecno? "Agradam-me os seus aspectos impopulares”, responde. “Enquanto a cultura popular gira à volta do hip-hop, o tecno permanece uma cultura impopular. Por exemplo, não é muito popular no top 40 ou no interior dos Estados Unidos, não está na imprensa, não vemos músicos [do tecno] a comentarem os seus discos. É uma cultura local e intensa que, mediante o seu poder electrónico, cria veículos para a imaginação de mundos.”

Mas que mundo são esses? E, sendo especulativos, o que nos podem dizer de certas realidades históricas? “Há outro pano de fundo para este trabalho que é o capitalismo racial, o modo como o racismo é subjacente a todas as formas de capitalismo”, comenta Anjalika Sagar. “Os Drexciya vieram de Detroit, onde imaginaram um mundo com a sua música abstracta, uma música que resistia, pela sua estética, à música que objectificava as pessoas negras. Do fundo das vidas negras, através das narrativas que produziam nos seus álbuns conceptuais, inventaram um mundo diferente. Ressoava na música que fizeram uma forma estética resistente à captura pelo capitalismo. A morte rodeia a vida negra na América, sempre rodeou. E a música dos Drexciya tratava de criar impulsos, ritmos, energias, fluxos que não objectificavam as pessoas negras. Não eram afro-futuristas, mas afro-pessimistas que tentavam criar um mundo abstracto a partir do qual pudessem imaginar, conceber e realizar outro tipo de vida.”


Uma vida contra e longe do terror e da violência do imperialismo e do colonialismo. Nas palavras de Margarida Mendes, que podemos ler na folha de sala, essa vida seria a de uma civilização subaquática na qual os rexciyans mutantes respirariam água: “Nascidos das escravas africanas que seguiam a bordo de navios negreiros em direcção à América e que foram lançadas ao mar, esses novos seres propunham uma alternativa a um modo de vida sequestrado.”

Uma descolonização total exige a revolução de todas as formas de cultura, de política, de economia, de guerra. Não creio que isso se tenha verificado em Portugal. É o que me dizem os meus amigos portugueses

Kodwo Eshun


Portugal, "um Estado imperial”

Com o Tejo ao fundo, em plena Lisboa, interrogamos o duo sobre o significado de expor numa cidade que foi a capital de um império colonial. “Portugal foi, talvez seja ainda, um Estado imperial”, replica Kodwo Eshun, num tom suave. “Porque a questão é: até que ponto os antigos impérios de facto se descolonizaram? Não tenho a certeza de que o tenham feito. Creio que os antigos impérios se declararam formalmente como não o sendo, mas em termos de conhecimento, educação, cultura, economia, finanças ou direito continuam a sê-lo. Diria, por isso, que uma descolonização completa também não aconteceu em Portugal. De modo nenhum. Pelo contrário. Afinal, a transferência política do poder não é uma descolonização total. Uma descolonização total exige a revolução de todas as formas de cultura, de política, de economia, de guerra. Não creio que isso se tenha verificado em Portugal. É o que me dizem os meus amigos portugueses.”


O artista faz uma pausa, antes de retomar o seu pensamento. “A história depois do colonialismo é diferente em cada país, mas há continuidades ao longo do continente. Portugal é um dos impérios que têm muito para responder sobre os crimes contra a humanidade. Nós trabalhamos sobre os crimes britânicos contra a humanidade e, nesse aspecto, somos aliados de pessoas como a Margarida Mendes, que trabalha as mesmas questões de outras maneiras. Enquanto Otolith Group pretendemos interrogar a aparência ou a imagem da descolonização e libertar certos imaginários de um horizonte imperialista e capitalista que tende a dominar e absorver as aspirações e os desejos das pessoas negras e dos europeus negros cujo trabalho, cuja energia e cujas vidas construíram a Europa." E continua: "Porque não há dúvida sobre isto: as pessoas negras construíram a Europa. Infelizmente, ainda não vejo curadores e artistas suficientes em posições de influência na cultura. Se já demos alguns passos, precisamos de ir mais longe e mais depressa. O nosso papel é encorajá-lo.”

Conseguirá o Otolith Group imaginar um momento, no futuro, onde isso acontecerá? “Não. Somos muito pessimistas. Sempre fomos. Especialmente depois do 11 de Setembro [de 2001]. Não creio que possamos ver esse cenário no nosso tempo de vida. Mas fazemos o que podemos no campo onde estamos, com os amigos e camaradas que também fazem o possível onde estão. Por isso, estamos aqui para dar apoio à Margarida [Mendes] naquilo que consideramos ser uma geografia comum de luta.”

De fora, insistem, fica a expressão política das identidades que consideram estranhas, e até contrárias, à sua posição. “O capitalismo racista produz categorias que as pessoas desempenham e criticamos essa política, sobretudo agora, quando essas categorias nos são impostas”, sublinha Anjalika Sagar.

Perceptível para quem entra na exposição continua a ser um modo poético de pensar as questões mencionadas. “Tenho muita raiva, fúria, pessimismo, mas, quando fazemos arte, a questão é de forma, não de expressão”, frisa Kodwo Eshun. “Não quero exprimir a minha raiva, mas encontrar uma forma de linguagem que crie um espaço para um encontro sensorial e somático. Há muitos passos entre a raiva que sinto todos os dias e o encontro com o trabalho. Quero que seja oblíquo, que tenha uma certa opacidade, um tipo de hermetismo. Não tornamos as coisas fáceis para os espectadores ou para nós. E isso é, em si mesmo, um gesto político.”
[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]






31.7.23

UNESCO vota Gulbenkian como Património Mundial e alargamento em Guimarães

Por Lusa,  in Notícias ao Minuto


O Comité do Património Mundial da UNESCO vai votar, em setembro, a classificação dos jardins e do edifício da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e o alargamento da área classificada de Guimarães, anunciou hoje a organização das Nações Unidas.

m comunicado, a Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), revelou que o Comité do Património Mundial se vai reunir em Riade, na Arábia Saudita, entre 10 e 25 de setembro para analisar 53 candidaturas, algumas das quais não puderam ser votadas no ano passado.

Entre estas inclui-se a proposta de classificação dos jardins e do edifício da Gulbenkian, um conjunto com "um caráter único de valor universal excecional, amplamente reconhecido e apoiado por intelectuais, especialistas e artistas de renome mundial", como se pode ler na justificação do valor universal da candidatura.

"Desenhado entre 1959 e 1969 pelos arquitetos Alberto Pessoa (1919-1985), Pedro Cid (1925-1983) e Ruy Jervis d'Athouguia (1917-2006), com os arquitetos paisagistas António Vianna Barreto (1924-2013) e Gonçalo Ribeiro Telles (1922-2020), o edifício sede e parque contribuíram para a afirmação da modernidade no mundial, combinando vários aspetos de criatividade e inovação do génio humano", pode ler-se no texto da lista indicativa, onde a candidatura foi incluída em 2016.


Já em relação a Guimarães, cuja candidatura para ampliação da área classificada passou a integrar a lista indicativa também em 2016, a Câmara Municipal propôs "duplicar a área classificada, inscrevendo a Zona de Couros na lista indicativa para obter o estatuto de Património da Humanidade", como se podia ler num comunicado da autarquia de 2015.

"No caso de a candidatura ser bem-sucedida, a área de proteção passará a ser cinco vezes superior à atual, criando-se uma zona tampão desde o topo da montanha da Penha, onde nasce a ribeira de Couros, à Veiga de Creixomil, foz de cursos de água", acrescentava o texto.

O Centro Histórico de Guimarães está classificado como Património Mundial desde 2001.

28.7.23

Inteligência artificial. Os artistas portugueses e as máquinas a imaginar juntos

Mariana Duarte,  in Público


Das artes visuais à música, do cinema à performance, a IA ganha força nas artes portuguesas. Aponta caminhos aos criadores. “As novas experiências são muito estranhas, até deixarem de o ser.”


Em 2003, o artista português Leonel Moura escreveu um manifesto em que afirmava que as máquinas podiam fazer arte. “Na altura fui muito criticado. Vários artistas disseram que eu era louco, que nada disso ia acontecer”, recorda este pioneiro na aplicação da robótica e da inteligência artificial (IA) nas artes. Olhar presciente que se tornou presente, prelúdio de um futuro que ainda está só no começo, mas que já está, avassaladoramente, em todo o lado.


A IA chegou em força às artes visuais, à música, à performance, ao cinema, à literatura, ao design, com uma série de ferramentas que têm permitido aos artistas criar em colaboração com as máquinas, ampliando “as suas possibilidades criativas e estimulando novas formas de expressão”, diz Inês Cardoso, mais conhecida por Carincur, artista multidisciplinar de 30 anos que opera nas intersecções entre música, performance, instalação e tecnologia.


“O interessante no que estamos a viver é que a IA, que agora se chama generativa – porque tem capacidade de gerar coisas que não existiam antes, tem esse aspecto de novidade e criatividade –, entrou no campo artístico e está a provocar uma mudança na história da arte”, observa Leonel Moura, 74 anos. Na década de 90 já fazia experiências com IA (mas que “nada tinha a ver” com a de hoje), concebendo, em 2001, o primeiro dos seus muitos robôs pintores. “A evolução da ciência, da tecnologia e da automação sempre teve implicações nas artes.”


“A arte sempre existiu numa relação complexa, simbiótica e em contínuo desenvolvimento com as capacidades tecnológicas de uma cultura. Essas capacidades compelem a arte que é produzida e informam a maneira como esta é percepcionada pelo público (...) A inteligência das máquinas vai transformar a sociedade de maneiras que são difíceis de imaginar a partir do ponto de vista actual; num futuro próximo vai expandir o nosso entendimento da realidade e dos nossos processos cognitivos”, resume Blaise Agüera y Arcas, engenheiro de software e designer latino-americano, num texto publicado em Atlas of Anomalous AI (2021), livro que explora a nossa relação com vários sistemas de conhecimento, dos ancestrais aos emergentes, cartografando uma espécie de pré-história da IA.


Ferramentas como o ChatGPT, DALL-E, Midjourney, Stable Diffusion ou Overdub estão na ordem do dia. Gritam novidade, possibilidade, futuro. Mas não serão elas “apenas” uma versão mais avançada e poderosa – para o bem e para o mal – do acto de sonhar, através do qual damos vida a coisas que estão na nossa imaginação, como o homem do conto de Jorge Luis Borges, Ruínas Circulares, que tentou criar outro homem através dos sonhos? Ou da ficção científica e especulativa, como a história dos Oankali, a espécie alienígena com habilidades e tecnologias impressionantes de Dawn (1987), da escritora Octavia E. Butler, ou o país subaquático povoado pelos filhos de mulheres africanas escravizadas, que foram lançadas grávidas para fora dos navios negreiros, imaginado pelo duo de música techno Drexciya?


“Estamos numa fase muito inicial desta tecnologia e ainda não conseguimos antecipar todos os perigos. Mas acredito numa coisa, bonita e positiva, que aconteceu com a introdução e expansão da IA: uma nova consciência colectiva sobre a existência de outros tipos de inteligências, lembrando-nos que há outros mundos que se sobrepõem ao nosso, que convivem com o nosso, que apontam outras visões e formas de pensar, o que é particularmente importante no contexto do Antropoceno e da emergência climática”, considera Joana Pestana, designer, investigadora e professora de 36 anos que desenvolve projectos no cruzamento entre tecnologia, design e novas literacias.

Um deles é Eden X: Estrutura Paradisíaca, Organização sem Centro, co-criado em 2022 com Mariana Pestana e Kevin Gallagher, que faz uso da IA para ensaiar, precisamente, um modelo social em que os recursos naturais seriam autogeridos por comunidades humanas e “mais-que-humanas” (depois da apresentação no festival Jardins Efémeros, em Viseu, o projecto terá uma nova iteração na Porto Design Biennale, a acontecer entre Outubro e Dezembro, desta feita com a IA aliada a outras tecnologias, nomeadamente a sequenciação genética).


O meio acha que a tecnologia é uma coisa do capitalismo e da ciência, e os artistas é que são os humanistas. Um disparate profundo: não há coisa mais humanista do que a tecnologia, desde a Idade da Pedra

Leonel Moura


Também para Carincur, a IA funciona como “um catalisador para uma exploração mais profunda da condição humana” – e “como parte integrante do discurso da performance sobre a natureza da consciência e do eu”, como um prolongamento do corpo e uma extrapolação de binómios como realidade vs. ficção. Odete, artista interdisciplinar de 27 anos que está a recorrer à IA para conceber Artifício, a sua primeira exposição individual numa instituição (inaugura a 10 de Outubro nas Galerias Municipais de Lisboa), encara esta tecnologia como “um método historiográfico”. Como “uma ferramenta de análise da sociedade e da visualidade, dos seus significados e das suas falhas”, dando assim continuidade à “obsessão” da artista “com dimensões espectrais da tecnologia”.


Já Gabriel Abrantes, artista visual e cineasta de 39 anos que sempre esteve atento às potencialidades e aos conflitos das novas tecnologias, explorou a relação entre pintura e IA na sua mais recente exposição individual na galeria Francisco Fino, em Lisboa, Nobody Nowhere, para pensar sobre as repercussões existenciais e sociais, emocionais e criativas “da tecnologia, do mundo digital e da IA naquilo que é a prática artística de um pintor ou de um videoartista”.

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Fascínio/ansiedade/negação

Os artistas portugueses presentes nestas páginas – de diferentes gerações e disciplinas, éticas e práticas – falam-nos sobre as suas experiências com IA e as implicações artísticas, políticas, laborais e filosóficas desta tecnologia “que veio para ficar” e cujo veloz desenvolvimento vai ser “impossível de travar”.

O fascínio pela IA é partilhado. Na maioria dos casos, mistura-se com um sentimento de ansiedade e de perplexidade, de “estranhamento” perante algo que, pelo menos por agora, é impossível de ver e agarrar na sua totalidade. Essas inquietações acabam por ser também um dos ímpetos das criações. Um modo de endereçar e inquirir as limitações, as vertigens e as novas tácticas de existência da tecnologia através da própria tecnologia; uma forma de fabular utopias entre as falhas e as forças.

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Apesar de tudo, ou por causa de tudo, é preciso lembrar que a IA não é uma entidade independente, uma criatura fora do controlo dos humanos. Somos nós que a criamos e/ou alimentamos. “As máquinas precisam de nós, e nós precisamos delas”, refere Leonel Moura. “A IA ainda está num plano colaborativo porque continua a precisar do prompt [instruções textuais dadas por quem utiliza]. Ou seja, o artista tem de escrever alguma coisa para obter alguma coisa.”

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“Mesmo antes da Revolução Industrial, sempre existiram tecnologias que foram mediadas e criadas por nós. E sempre que veio um avanço tecnológico, vieram com ele o medo e a ideia de substituição: perda de emprego, competição com habilidades técnicas, perda de significado e propósito, receio de perder a conexão emocional e a empatia que vêm com as interacções humanas. No entanto, trouxe-nos tantas outras coisas com um valor de expansão”, assevera a artista, assinalando que a IA representa “uma série de possibilidades artísticas transformadoras”.

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A artista nota ainda que a IA lhe permitiu potencializar técnicas "que com um sistema tão precário como o do sector da cultura em Portugal – poucos recursos, pouco tempo de investigação, pouco investimento, equipas reduzidas – seriam impossíveis de concretizar". Além disso, "a transversalidade das disciplinas" fez com que aprofundasse e questionasse "novas práticas e dispositivos de apresentação".


“O mais importante é entender que, embora a automação se tenha tornado cada vez mais parte da produção artística desde antes da imprensa de Gutenberg, este novo conjunto de ferramentas é uma categoria totalmente diferente. A principal diferença agora é que temos muito poder de computação para apoiar-nos em tarefas, disponível para muitas pessoas”, sublinha Mat Dryhurst, artista, pensador e investigador britânico. É um dos principais e mais incansáveis pedagogos sobre o uso de IA e outras tecnologias nas artes, percurso que tem sido feito ao lado da sua companheira, a artista e compositora Holly Herndon.



Segundo Leonel Moura, essa desmultiplicação da IA tem deixado “o meio artístico em pânico”, tanto em Portugal como lá fora, porque este “não soube reagir”. Está em negação, declara, e “por isso vai ficar desfeito”. “O meio acha que a tecnologia é uma coisa do capitalismo e da ciência, e os artistas é que são os humanistas. Um disparate profundo, pois não há coisa mais humanista do que a tecnologia, desde a Idade da Pedra. Ela ajuda sobretudo os humanos.”


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“A banalidade de um mundo 100% digital”

Tanto para Leonel Moura como para Mat Dryhurst (sendo o britânico menos cáustico que o português), o que está em causa é uma nova etapa na história da arte, que obrigará a novos pactos sociais e ao desenho de uma nova economia capaz de acompanhar, ou pelo menos de não perder tanto o fio à meada, uma tecnologia em constante mutação. “Há uma tendência lamentável para se ver a arte como algo fixo. Não acho que a história da arte reflicta isso. A nossa definição de distinção artística está sempre a mudar e continuará a mudar”, observa Dryhurst.


Não tenho dúvidas de que a Netflix vai produzir guiões e fazer filmes com IA, pois é um processo mais industrial e onde a parte social e de culto de personalidade é menos forte do que no mundo das artes (...) Os actores estarão a salvo, mas com os guionistas é complicado

Gabriel Abrantes


“As ferramentas de IA serão integradas nas práticas artísticas. Algumas pessoas vão usá-las como meio principal, outras como meio secundário, outras vão evitá-las.” O artista e investigador reconhece que há certas profissões no ecossistema cultural que poderão estar em risco, mas não se alinha com visões apocalípticas. “A IA não pode substituir o papel do artista, pois a arte cumpre um papel social complexo. Se as pessoas dizem que a IA substituirá os artistas, questiono o quanto percebem elas de arte. É claro que a introdução de novas e poderosas ferramentas terá um impacto significativo na economia das artes, isso é inevitável, e novos tipos de práticas artísticas surgirão daí.”


“É importante lembrar que a expressão artística humana continua a ter um valor inestimável”, reforça Carincur. “Nós seguimos os humanos e aspiramos a ser humanos. Vamos continuar a querer saber o que os artistas pensam e como pensam. Pode haver muita excitação inicial com um romance produzido pelo GPT-4 [o mais recente modelo do ChatGPT, da OpenAI], mas essa novidade vai desgastar-se rapidamente”, acrescenta Mat Dryhurst.

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Afinal, as insuficiências humanas são também o que nos fazem relacionar com a arte e os artistas. “Muito do seu valor está no prazer da criação de um discurso estético, político e pessoal em interacção com o mundo social”, aponta Abrantes, para quem o uso de imagens produzidas com o DALL-E, uma ferramenta ainda com uma linguagem “limitada” e uniformizada, serviu também “como um comentário sobre o que seria a banalidade de um mundo 100% digital”.


No entanto, o artista e cineasta acredita que num certo flanco do cinema o cenário “é muito diferente” das artes visuais. “Não tenho dúvidas de que a Netflix vai produzir guiões e fazer filmes com IA, pois é um processo mais industrial e onde a parte social e de culto de personalidade é menos forte do que no mundo das artes”, afirma. “Os actores estarão a salvo, não nos interessa assim tanto ver avatares digitais, mas com os guionistas é complicado: não há um culto de personalidade associado a estes profissionais e é um trabalho que pode ser feito remotamente”, analisa o criador, que tem usado o ChatGPT regularmente não como “output criativo”, mas para utilizações “mais mundanas, e reflexões pessoais e sentimentais”.

“Considero muito acertadas as actuais greves e reivindicações dos guionistas nos EUA, apesar de, infelizmente, achar que vão ter muito pouco sucesso, porque infelizmente todos os exemplos históricos que temos de sindicatos que lutaram contra a inovação tecnológica para proteger trabalhadores nunca tiveram grande eficácia.”


“Considero muito acertadas as actuais greves e reivindicações dos guionistas nos EUA, apesar de, infelizmente, achar que vão ter muito pouco sucesso, porque infelizmente todos os exemplos históricos que temos de sindicatos que lutaram contra a inovação tecnológica para proteger trabalhadores nunca tiveram grande eficácia.”


Tal molda necessariamente o modo como se utiliza e interpreta a tecnologia. Vemos isso em Odete, cuja abordagem à IA é mais um capítulo da sua investigação assente num método de “arqueologia paranóica” e numa historiografia especulativa que conspira contra a escrita hegemónica da história, procurando inscrever nela corpos, práticas e epistemologias que foram obliteradas. “O que me interessou foi olhar para a IA como se fosse uma espécie de arquivo performativo. Não é um arquivo da humanidade, estanque, não é uma sala em que tu entras e procuras, mas um arquivo que vai sendo alimentado e que está constantemente a ‘performar’ os seus significados e suas constantes alterações”, explica a artista.

“Isso tornou-se interessante quando comecei a usar a IA para brincar com ideias do passado. Por exemplo, pedi ao DALL-E para me dar uma pintura a óleo do barroco europeu que retratasse uma comunidade de mulheres trans a experimentar perfumes num laboratório cheio de cores. Comecei a criar estas especulações históricas, a usar a AI para produzir estética do passado, para eu brincar com a própria fiabilidade e as ausências do arquivo.” Há, nesse sentido, uma espécie de ajuste de contas, uma utopia, “uma possibilidade de sonhar”.

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É como quando estamos a subir uma montanha e só vemos um bocado do que vai aparecer. Há momentos que são de encantamento e há outros que nos assustamJoana Pestana


Ao mesmo tempo, o projecto permite um questionamento ético “do que é a corporalidade” da IA. “A IA só existe porque há uma série de explorações de materiais do planeta que permitem que se criem máquinas que sustentam esta tecnologia”, aponta Odete. E isso leva-nos novamente à pré-história da IA. “A narrativa da exposição é também sobre a IA ser uma tecnologia que resulta de uma mais básica, que é o fogo. Os humanos descobriram o fogo, conseguiram dobrar metais com ele, a partir dos metais conseguiram fazer armas, fazer guerras, fazer jóias; a tecnologia avança, surgem os computadores, até que se conseguiu a desmaterialização de uma consciência onde pairam vários fantasmas e espectros dentro do algoritmo, como as personagens trans que a IA me devolveu.”


Neste trabalho ainda em andamento, Odete conseguiu identificar falhas e limitações nas representações “da sexualidade, de certos tipos de violência, como a escravatura, e de certos corpos”. “Quando eu queria produzir personagens trans, a IA tinha sempre uma obsessão com androginia – dava-me uma mulher com barba, ou um homem com saia. A percepção da IA de uma pessoa trans é gender trouble.” O que se tornou num tópico de reflexão “curioso”.


[...]Regulamentar estraga “receita secreta”

Dizíamos, no início desta conversa (que já vai longa e particularmente extenuante para a escriba: nada nestes quase 30 mil caracteres foi produzido com a ajuda do ChatGPT), que a IA é uma ferramenta criada, alimentada e operada por humanos. Mas é uma humanidade parcial, ainda sem controlo real da coisa (se é que alguma vez irá tê-lo).

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“A Meredith Whittaker, CEO da Signal Foundation, diz que a IA é um derivado da vigilância porque depende dos megadados, da extracção de dados. Ou seja, está vinculada à existência de uma rede de observação permanente”, contextualiza Joana Pestana. A vigilância foi, aliás, o ponto de partida da designer para chegar à IA.


“Tem muito a ver com o momento em que eu estou em Londres a fazer o meu projecto final de mestrado, em 2014, no rescaldo do caso Edward Snowden. A minha investigação foi muito inspirada por toda a discussão de então sobre privacidade, dados pessoais e vigilância”, recorda a investigadora e professora sediada no Porto. Este trabalho acabou por conduzir ao desenvolvimento de outros projectos, entre eles a curadoria e co-curadoria de duas exposições entre 2020 e 2021 – respectivamente, Scrolling the Arcane, onde a IA já estava presente, e Omnisciência: Estratégias de Fractura e Fuga – que se debruçaram sobre “a temática da vigilância e os estados de ansiedade, de impotência e de desconhecimento perante a complexidade tecnológica que se tinha vindo a erguer à nossa volta”.


A priori há uma série de práticas que são excluídas porque depende sempre de quem alimenta a IA. Por mais que pareça uma perspectiva universalizante do mundo, nunca o é. Quando uso o DALL-E,

entristece-me não saber quem alimentou e como alimentou. Devia haver transparência

Odete


No ano passado, com Eden X, Joana Pestana fez uso da IA de forma mais directa. “O projecto consistia na criação de uma plataforma online de discussão, que ensaiava um modelo de gestão descentralizado. O objectivo era o desenho de um jardim a partir dessa conversa. Depois houve uma instalação física em Viseu, no âmbito do festival Jardins Efémeros.” Este debate envolveu artistas e investigadores de várias áreas (Joana Rafael, Miguel Teodoro, Patrícia Portela, entre outros), mas também entidades “mais-que-humanas” co-criadas pelo artista luso-venezuelano Nestor Pestana com o ChatGPT-3. Uma delas, o Vento, foi gerada com recurso a textos do povo indígena Selk'nam.

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“Temos feito muito para consciencializar os artistas sobre como o seu trabalho é usado na IA, fornecendo-lhes meios para que estes possam optar por participar ou não participar [o chamado opt-in e op-out] nas bases de dados e entregando essas solicitações às empresas de IA e às plataformas que hospedam conjuntos de dados”, explica Dryhurst.

“Se o nosso padrão for adoptado de forma mais ampla, poderá ser o fundamento para construir algo. Nunca será perfeito, mas achamos que a nossa abordagem pode funcionar na maioria dos ambientes comerciais. Temos defendido esses tipos de direitos de dados há dez anos.” Até ao momento, conseguiram ajudar a retirar 1,4 mil milhões de imagens e a resposta da indústria “tem sido muito positiva”, assinala o artista. “Estamos a abrir caminho e a estabelecer o opt-out como conceito. Vai demorar a espalhar-se.”


Para Dryhurst, mudar o facto de “o trabalho dos artistas não ter sido levado em consideração no treino das bases de dados e no desenvolvimento destes modelos”, nem no desenho de uma nova economia, depende também dos criadores. Joana Pestana sublinha a importância de as entidades governamentais desenharem legislação para “estabelecer limites nas questões de legitimidade e consentimento”, sem “o lobby das entidades corporativas”, mas lembra que a história “não dá grande esperança” nesse sentido. De resto, concorda com o colega britânico quanto “à tomada de responsabilidade” por parte de artistas e designers.


“Temos de pensar sobre como podemos reivindicar um uso crítico desta tecnologia. Assim como um arquitecto sabe em que moldes foi extraído o mármore que utiliza num projecto, nós também não deveríamos ser alheios ao material com o qual estamos a trabalhar” – até porque a possibilidade de as ferramentas de IA emularem cada vez mais linguagens, seja de autores emergentes ou estabelecidos, mortos ou vivos, será cada vez maior “e mais capitalizável” por empresas.

Desmistificar

Este processo de responsabilização implica, por um lado, que os artistas e designers não se alienem dos seus meios de produção, seguindo a velhinha máxima de Marx. “Temos de perceber como podemos construir, ou contribuir para construir, os nossos modelos de treino, de forma a não sermos demovidos de grande parte do processo criativo", assevera Joana Pestana. “A introdução da IA no terreno do design de comunicação, e também do design de produto, acelerou um afastamento que já estava em curso, desde a Revolução Industrial, em relação aos processos, aos modos de produção e de fabricação dos produtos.”

Por outro lado, é necessário deixar de “mistificar” esta tecnologia. “Falar destes sistemas como se fossem magia e como se as máquinas fossem independentes” resulta também numa perda cada vez maior do controlo sobre os processos criativos, nota a designer e investigadora. E serve para alimentar o ruído, o pânico e o desconhecimento em torno da IA. Pestana diz que “é urgente” uma maior literacia sobre este assunto.

“Nós não podemos abster-nos de compreender o que é isto, porque se não tivermos essa literacia podemos, sem querer, reforçar um discurso em que nós não acreditamos, que pode ser um discurso hegemónico vinculado a figuras de poder antidemocráticas, a monopólios e actividades corporativas com as quais nem concordamos. Temos de saber examinar aquilo que cada training set [conjunto de dados usados para treinar um sistema IA] promove ou discrimina, aprova ou rejeita, torna visível ou invisível. Ao utilizar a IA, estamos a contribuir para um discurso cultural contínuo sobre a IA.”


o fundo, cabe aos artistas, e a toda a gente, olhar para a IA não apenas como um recurso tecnológico e criativo, mas como uma peça já totalmente inescapável do “tecido cultural, político, social e económico”. O resto, dos possíveis apocalipses aos muito aguardados saltos da humanidade, ou tudo o que está pelo meio, só o tempo dirá – o que, pela velocidade da coisa, pode ser já amanhã. Terminemos com o optimismo de Mat & Holly: “As novas experiências são muito estranhas, até deixarem de o ser.”

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

21.7.23

Os velhos mitos morrem. As cidades e os livros não

Luciana Leiderfarb Jornalista, in Expresso

E de repente acordamos um dia de manhã - uma manhã comum, ventosa, quente – e um velho mito morreu. Um mito daqueles enraizados na linguagem, o inventor da “insustentável leveza” em geral, que tantos bons títulos deu ao jornalismo. A insustentável leveza não era coisa leve, nem nada que se parecesse. No baile de máscaras da escrita, um título pode esconder frases como esta, e logo no início da leitura: “Parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi-me com algumas das suas fotografias; faziam-me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazis; mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há de voltar? Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.”

O autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, que atravessou a II Guerra Mundial numa Checoslováquia ocupada pelos nazis, que viu o seu país a ser tomado pelos soviéticos em 1948 e assistiu ao esmagamento armado da Primavera de Praga em 1968, que se exilou em França, em 1975, e foi privado da sua nacionalidade checa em 1979; esse autor, que leu os sinais de uma Europa em falência identitária, que escreveu filosofia incrustada como pedras preciosas nos seus romances, chegou aos 94 anos para observar, desde a sua casa em Paris, mais uma guerra europeia, a guerra que não ia acontecer porque a paz (qual paz? onde?) se instalara no continente há mais de 70 anos. Na semana em que morreu, o opúsculo “Um Ocidente Sequestrado ou a tragédia da Europa Central” - um artigo publicado em 1983 no “Le Débat” - saía pela D. Quixote em Portugal, pela primeira vez, incluindo também um discurso de Kundera perante o Congresso dos Escritores da Checoslováquia, em 1967, intitulado “A Literatura e as Pequenas Nações”.

Lemos: “Em 1983, no mês de setembro, o diretor da agência de imprensa da Hungria, alguns minutos antes de o seu gabinete ter sido arrasado pela artilharia, enviou por telex para o mundo inteiro uma mensagem desesperada sobre a ofensiva russa, lançada nessa manhã contra Budapeste. O despacho terminava com estas palavras: ‘Morremos pela Hungria e pela Europa.’ Que queria dizer essa frase? Ela queria certamente dizer que os tanques russos punham em perigo a Hungria, e com ela a Europa. (…) Ele estava pronto a morrer para que a Hungria se mantivesse Hungria e se mantivesse Europa. (…) No momento em que a Hungria já não seja Europa, isto é, Ocidente, ela será ejetada para fora do seu próprio destino, para fora da sua própria história; ela perderá a essência mesma da sua identidade.” É só mudar o contexto. Quem não considere estas palavras perigosa e premonitoriamente atuais não vive neste mundo e nesta Europa.

Talvez seja isso o que garante a permanência na História: ser capaz de, de algum modo, a antecipar. Por vezes, o gesto de antecipação radica no estudo aprofundado dos fundamentos que nos sustentam. As fundações, o chão. José Mattoso não combinou com Kundera morrer na mesma semana, mas é o que aconteceu. O historiador de 90 anos, que há muitos sofria da doença de Parkinson, deixou-nos um sábado, nasceu em 1933, foi durante duas décadas monge beneditino, depois professor universitário, grande medievalista que resumia a História como “o movimento da humanidade sujeita ao tempo”. Tive a sorte de me dar a última entrevista, em 2021, por escrito, que a fala já não tinha a fluidez de outrora, vinte perguntas às quais respondeu com a maior generosidade sobre um livro seu acabado de lançar, “A História Contemplativa” (Temas e Debates), onde fala das suas orientações como historiador e, entre muitas outras coisas, distingue a História vivida da escrita: “O que o homem fez desapareceu com o tempo, mas foi re-presentado, isto é, ‘tornado presente’ pelo que contou, pelo que escreveu e pelo que criou.”

Somos, portanto, escrita. É ela que resguarda o que sabemos de nós. E as histórias pessoais não deixam de ser História, assim, com H grande. Em 1975, quando Milan Kundera se mudava para França e José Mattoso se adaptava à vida laica, ingressando como professor auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, num outro hemisfério Jorge Luís Borges publicava “O Livro de Areia” e iniciava uma série de viagens ao lado de María Kodama, então a sua secretária. Ela compilou os pequenos textos que o autor argentino escrevia ao longo dessas visitas de cego, impressões sem olhos, ou melhor, sentidas a partir dos olhos de Kodama, que fotografava e descrevia para Borges fundir isso com o material da sua própria memória, com a literatura mítica que tanto apreciava, com poemas e versos, e as referências do seu próprio mapa interno e literário. “Atlas”, que sai agora pela Quetzal, é o resultado desses exercícios de viajante, e foi o último livro que o escritor publicou. Ele, que gostava de fazer os seus prólogos, disse naquele que abre o volume: “Não há um só homem que não seja um descobridor. Começa por descobrir o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tal letras do alfabeto; passa pelos rostos, os mapas, os animais e os astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da sua própria ignorância.” E assim, foram a Roma, a Dublin, a Istambul, à Califórnia, a Veneza, a Atenas, a Genebra, a Lugano, aos bairros de Buenos Aires (claro), à vila uruguaio-portuguesa de Colónia do Sacramento.
Alguns lugares são simplesmente – complexamente, na verdade – ficcionais: “Na minha vida sempre houve tigres. Tão entrelaçada está a leitura com outros hábitos dos meus dias que não se verdadeiramente se o meu primeiro tigre foi o de uma gravura ou esse, já morto, cujo obstinado ir e vir pela jaula eu seguia, enfeitiçado, do outro lado das barras de ferro. (…) A esses tigres da vista e do verbo acrescentei outro que me foi mostrado pelo nosso amigo Cuttini, no curioso jardim zoológico cujo nome é Mundo Animal e que se abstém de prisões. Esse último tigre é de carne e osso. Com evidente e assustada felicidade cheguei a esse tigre, cuja língua me lambeu a cara, cujas garras indiferentes ou carinhosas se demoraram na minha cabeça e que, ao contrário dos seus precursores, cheirava e pesava. Não direi que esse tigre que me espantou é mais real do que as formas de um sonho, mas quero agradecer aqui ao nosso amigo esse tigre de carne e osso que os meus sentidos percecionaram essa manhã e cuja imagem regressa como regressam os tigres dos livros.”

E depois, há outras viagens, as dos antepassados. Os lugares de onde viemos. “Uma Pequena Cidade na Ucrânia”, editado pela Temas e Debates, é o livro de um historiador obcecado. Bernard Wasserstein, londrino que nasceu em 1948, professor na Universidade de Chicago, agarrou um dia numa cidade como um biólogo observa demoradamente uma molécula através do microscópio, e transformou-a em objeto de estudo. Tentou elaborar um dicionário biográfico de todas as pessoas que viveram em Krakowiec, e claro que não o conseguiu (era o esperado), embora a sua listagem atingisse o número monumental de 17 mil entradas, algumas, como diz o autor, nomes quase esbatidos, outras “histórias de vida que podem ser reconstruídas minuciosamente”. O livro não é esta listagem; não é, aliás, uma listagem. É uma espécie de ‘autobiografia’ daquela cidade ucraniana (que foi também polaca), um “espreitar pelo buraco” da fechadura – pelo crivo da sua história familiar e o ângulo que só ela lhe oferece - que pretende “observar e compreender como algumas das grandes forças que determinaram o nosso tempo puderam afetar as pessoas comuns”. Na história de uma pequena cidade, cujo nome se modificou algumas vezes, dependendo de quem estivesse no poder, pode encontrar-se a história de uma parte do continente europeu, mais próxima de Kundera do que de Mattoso, e bastante menos longínqua de Borges do que aquilo que parece.

OUTROS LIVROS POR ARRUMAR




FICÇÃO

“A Guerra Prometida”, de Marco Pacheco (Gradiva)

Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2022, de autor açoriano nascido em São Jorge e diretor criativo de uma agência de publicidade, o romance passa-se em Portugal, na Primeira República, e começa assim: “Alguns meses depois da pomposa inauguração do bairro operário Grandella, os garbosos edifícios neoclássicos onde funcionavam a escola e a creche para os residentes eram tudo o que aqui havia de elegante.”

“Vínculos Ferozes”, de Vivian Gornick (D. Quixote)

O “NYT” qualificou-o de melhor livro de memórias dos últimos 50 anos: “Gornick observa sem pestanejar tudo o que é esquivo, difícil, estranho e irresolúvel nela e nos outros – a solidão, a malícia sexual e a devoradora proximidade claustral de mães e filhas.” Nascida em Nova Iorque em 1935, a autora é ensaísta e jornalista, tendo dado voz ao ativismo feminista no jornal “The Village Voice”, no “NYT” e na “The Nation”.

“A Casa e o Mundo”, de Rabindranath Tagore (E-Primatur)

Do Nobel da Literatura indiano (o primeiro escritor não europeu galardoado), uma das suas obras-primas, traduzida diretamente do original bengali, há meio século ausente das livrarias portuguesas. Este romance épico foi publicado em 1916 e tem um carácter inovador, na medida em que coloca uma mulher como protagonista.

“Pingue-Pongue no Terraço”, de Luís Serra (Companhia das Ilhas)

Neste sétimo livro do autor nascido em Évora, em 1970, lemos: “não é um caminho / é uma cicatriz”. Em 2009, o crítico António Guerreiro traçou o retrato desta voz: “Estamos perante uma poesia que recusa a lógica discursiva. Todo o seu trabalho insiste no outro lado: nos jogos de sentido, nas ligações inusitadas, nos sentidos imagéticos que explodem por concentração vocabular e através da exploração de absurdos semânticos.”

“E Então, Lembro-me", de Catarina Costa (Guerra & Paz)

Depois de, há um ano, ter dado à estampa “Periferia” - que venceu o VII Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal -, surge agora este romance distópico escrito pela autora de Coimbra e narrado na primeira pessoa.

“O Quartel ou As Bochechas do General” de A.M. Pires Cabral (Tinta-da-China)

De um escritor premiado, nomeadamente em 2022 com o Prémio Ruy Belo, que já produziu vários romances e livros de contos e poemas - “Caderneta de Lembranças”, “Feliciano” ou “Frentes do Fogo” - mais uma obra que começa assim: “Contado não se acredita. Eis o que dizemos quando queremos pôr em evidência determinado sucesso em termos de inverosimilhança ou imprevisibilidade. Eu cedi ao impulso — ou talvez à tentação — de dizer exatamente o mesmo a abrir esta história, julgando que a encarecia, quando na verdade — vejo‑o agora — a estou a apoucar. O enredo do conto é de tal modo inabitual e inesperado que ninguém vai acreditar. Mas ainda bem que assim é, porque no dia em que os Leitores acreditarem numa história que eu conte é porque a mesma é frouxa — e eu quero que as histórias que conto sejam tudo menos frouxas.”

NÃO-FICÇÃO

“O Ódio a Si Mesmo”, de Alain de Botton (D. Quixote)

Pequeno volume no qual o autor e filósofo do quotidiano investiga o fenómeno do ‘ódio a si mesmo’, de onde vem, para que serve, como o superar. “Na origem de muitas doenças mentais está um elemento que não estamos habituados a ter em conta por si só como um fator da nossa infelicidade: o ódio a si mesmo. (…) O ódio a si mesmo é o fruto amargo de uma ideia enraizada de como deveríamos ser.”

“Terra Queimada”, de Jonathan Crary (Antígona)

O subtítulo do livro é: “Da era digital do mundo pós-capitalista”. Este ensaio de 2022 é demolidor no modo como o autor tece uma crítica da digitalização do mundo, concluindo: “Se é possível um futuro habitável e comum no nosso planeta, esse futuro será offline, dissociado dos sistemas e da atividade do capitalismo 24/7, que destroem o mundo.”

“Micromegas”, de Voltaire (Tinta-da-China)

No posfácio deste pequeno ensaio, Rui Tavares explica tratar-se de “um bom resumo da postura filosófica de Voltaire e talvez um dos manifestos mais claros e desenvoltos do seu pluralismo cético”. Às tantas, acrescenta: “É por isso que escrever pouco foi, para Voltaire, uma maneira de dizer mais.”

“Rita Lee: Outra Autobiografia”, de Rita Lee (Contraponto)

Segundo relato na primeira pessoa da artista e mãe do rock brasileiro, falecida este ano. Termina assim: “Hoje, já velhinha, está careta, tem pouquíssimos amigos humanos e mora numa casinha no meio do mato com seus bichos e suas plantas e é feliz para sempre. Fora o resto. The end.”

“História Global da Alimentação Portuguesa”, de José Eduardo Franco e Isabel Drumond Braga (Temas e Debates)

Um livro que revisita os hábitos alimentares nacionais do ponto de vista das suas interconexões e influências - as recebidas e as oferecidas -, tendo a globalização como chave hermenêutica. O volume tem 101 capítulos, nos quais escrevem 69 investigadores. E sobre o quê? Sobre o pão, o mel, o bacalhau, o queijo, a encenação à mesa, as especiarias, a comida portuguesa no Brasil ou nos textos de Gil Vicente, os gelados, a cerveja, o bolo Jesuíta, a ‘fruta feia’, o azeite, entre outros.

25.5.23

A Feira do Livro de Lisboa quer piscar o olho aos nativos digitais

Isabel Coutinho, in Público


No Parque Eduardo VII começa esta quinta-feira a 93.ª festa do livro. Portugueses já não compram livros só para oferecer, editores apostam na geração de bookstagrammers e booktokers.


Uma audiolivraria no espaço do grupo LeYa que funciona por QR code. Zonas de leitura com bancos de madeira no espaço do grupo Porto Editora com possibilidade de se descarregar o quiz literário Universo dos Livros, de Ana Aragão, também através de um QR code. Um selo nos livros do grupo Penguin Random House para que a geração dos book influencers consiga encontrar facilmente as obras em voga nas redes sociais. E a participação pela primeira vez da editora Zigurate, de Carlos Vaz Marques, que nasceu há menos de um ano, com um pavilhão próprio. Estas são algumas das novidades da Feira do Livro de Lisboa que regressa esta quinta-feira ao Parque Eduardo VII, onde ficará até ao dia 11 de Junho, organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa.

Depois de três anos fora do seu calendário habitual, a feira regressa com 139 participantes, cerca de 980 chancelas, e os mesmos 340 pavilhões da edição anterior. Ocupará o espaço habitual – a preparação da Jornada Mundial da Juventude naquela zona impediu o aumento do número de pavilhões nesta 93.ª edição – mas mudará de horário, encerrando mais cedo (de segunda a quinta-feira, e aos domingos e feriados, fecha às 22h; à sexta-feira, vésperas de feriado e sábados fecha às 23h). Neste primeiro sábado, por causa dos possíveis festejos do vencedor da Liga Portugal de futebol profissional, encerra às 17h.

Há de novo uma preocupação com a sustentabilidade, que já existiu no ano passado quando foram inaugurados novos pavilhões. “Quisemos reforçar essa ideia", diz Ana Rita Bessa, CEO do grupo Leya, adiantando duas iniciativas que "ilustram o que o sector pode fazer para se reposicionar". Uma das paredes da Praça Leya vai ter 56 audiolivros em destaque, explica, e chamará a atenção "para as vantagens da leitura em áudio: não gasta papel e é uma forma de ‘leitura’ que pode ser realizada em simultâneo com outras actividades, como cozinhar, andar a pé, ir para o trabalho". Esses audiolivros, acrescenta, terão associado um QR code com 20% de desconto se forem descarregados durante o tempo da feira.

Entre os audiolivros seleccionados para esta promoção há autores portugueses e estrangeiros, livros temáticos, por exemplo, relacionados com as alterações climáticas, e também novidades. “Vamos ter uma enorme variedade também para mostrar que os audiolivros são uma tendência internacional e que em Portugal também a trabalhamos.” Os leitores fazem a leitura do QR code com o telemóvel e entram numa página onde podem efectuar a compra.

Uma segunda iniciativa para sensibilizar os leitores para este tema é o projecto Salve um livro infantil, que terá uma zona com centenas de livros infantis em fim de ciclo. “Livros que não podem ir para pontos de venda, porque os retalhistas não os aceitam assim, serão vendidos por preços simbólicos”, acrescenta Ana Rita Bessa. “Livros que custariam 16 euros, vamos vendê-los entre dois a seis euros na lógica de ‘salve este livro’, que ainda merece ser folheado e ser lido” em vez de ser abatido.

“A melhor altura do ano está mesmo, mesmo, mesmo a chegar…”, escreve a editora Guerra e Paz no seu Instagram, a acompanhar uma ilustração com o título "Kit de sobrevivência para a Feira do Livro de Lisboa”. As dicas da editora, que decorou um dos seus pavilhões com a frase “quem censura e proíbe livros mata a própria razão”, aconselham a que se leve para esta edição um totebag resistente, sapatos confortáveis e litros de água; que se faça um planeamento prévio, pois é importante saber que editoras queremos visitar; e que se vá ao evento em excelente companhia e se guardem uns euros para farturas e churros.

“Neste momento, em Portugal, há um interesse crescente na compra de livros para leitura própria, tal como já aconteceu noutros países europeus. Portugal sempre viveu da compra de livros para oferta: mais do que um produto cultural, o livro era uma prenda”, explicou Pedro Sobral, presidente da APEL, na conferência de imprensa de anúncio da feira. “Há um movimento de novos leitores, que têm idades entre os 18 e os 30 anos, uma geração muito alavancada naquilo que se passa nas redes sociais.” Já na Feira do Livro do ano passado os editores notaram a presença de grupos de jovens que sabiam o que queriam comprar e que procuravam livros muito específicos, quer na tradução portuguesa, quer em inglês.

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18.5.23

Ana Rita, André e João tropeçam (mas não caem) na língua portuguesa

Gonçalo Frota, in Público


Ão, em cena até sábado no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, é uma peça musical, com os corpos metidos ao barulho, movida pela linguagem: tão sedutora quanto traiçoeira.


Não deve existir canção em português que não inclua rimas em “ão”. Não deve existir frase que nos saia da boca que não meta lá pelo meio um “ão”. O “ão”, como escreve Fernando Venâncio num livro (Assim Nasceu Uma Língua) que André e. Teodósio partilhou com os seus dois cúmplices em Ão, é um ditongo que se comporta como uma “espécie invasora” na língua portuguesa. Está por todo o lado, contamina todo o discurso, comporta-se como um monarca omnipotente, regozija-se com o facto de não poder ser devidamente pronunciado por qualquer cidadão nascido fora da lusofonia. Se, como se repete no espectáculo em cena no Teatro do Bairro Alto (TBA), em Lisboa, até ao próximo sábado, tropeçamos constantemente em sons que nos ficam colados e nos aprisionam, “ão” é, com toda a certeza, um dos mais insistentes.

Ão tem vários inícios. André e. Teodósio queria “fazer um espectáculo sobre a palavra”, conforme explica ao PÚBLICO. “A palavra não apenas dita, mas também cantada, que fosse o tema da conversa. Da mesma forma que os espectáculos da Praga [Teatro Praga, companhia de que é co-fundador], às vezes, têm por protagonista a arquitectura, o linóleo, o computador ou a própria palavra.”

Ao mesmo tempo, vinha deixando fermentar a vontade de trabalhar com a coreógrafa e bailarina Ana Rita Teodoro e o músico João Neves, reflexo da admiração pelos percursos e pelos imaginários e referenciais dos dois. Era uma vontade que havia de concretizar-se um dia, não necessariamente no mesmo espectáculo. Só que, à medida que começou a pensar neste ditongo como algo musical, e a convencer-se de que podia erguer-se um espectáculo em torno dessa sugestão sonora, os nomes dos dois passaram a coabitar na sua cabeça.

Unidos por “uma ideia de musicalidade”, os três fecharam-se vários dias numa sala a testar os pontos de confluência musicais e a construir, aos poucos, os temas “à [Ryuichi] Sakamoto, à Laurie Anderson, à Meredith Monk, à Sparks, à Meira Asher” que pontuam o espectáculo. No fundo, Ão é como uma investigação à relação de cada um/a com a palavra (dita ou cantada), problematizando a linguagem. Ou seja, escarafunchando naquilo que a linguagem tem de libertador, por permitir a expressão de cada indivíduo/a, mas também de castrador, no que as palavras aprisionam e limitam.

"Ão", o ditongo, é assim um pretexto, uma desculpa para um exercício lúdico em torno da linguagem. Em que as várias línguas se cruzam, podendo escutar-se um “pain au chocolat”, em que a dor é inglesa mas o chocolate é francês, ou em que se pode dizer, sem curto-circuito mental, “I stepped numa carta que me foi enviada with that sound”.

Na verdade, e dadas as muitas citações que atravessam Ão, de excertos musicais de Björk e Chico Buarque ao “metal fundente” de Entre nós e as palavras de Mário Cesariny, a peça vê-se também como uma homenagem à forma como as palavras, vindas da mais diversas fontes, nos ocupam e nos compõem. Daí que Ana Rita Teodoro refira “esta grande evidência, que aparece na peça, de o ‘ão’ estar tão presente no nosso dia-a-dia e nunca darmos de caras com ele de uma forma tão concreta”. Porque não é apenas de um “ão” que se fala, claro, mas de toda uma reflexão acerca “de estar, de pertença, de não pertença, uma junção de referências”.
Bonito e traiçoeiro

Tropeça-se muito no som e nas palavras em Ão. Tropeça-se não para cair, mas porque avançar pela língua e pela construção identitária a isso obriga. O espectáculo deixa-se atravessar por uma duplicidade que é possível sintetizar neste ditongo pelo qual podemos apaixonar-nos ao mesmo tempo que ele nos aprisiona. A peça constrói-se "também a partir dessa ideia, de que um ‘ão’ ou uma língua podem ser tão bonitos quanto traiçoeiros”.

Se tanto se fala em inglês como em português, as palavras coladas umas às outras, é porque o pensamento de Teodósio, o autor do texto, alguém que cresceu nos Estados Unidos antes de regressar a Portugal, funciona assim. Afinal, pelo meio desta plasticidade musical com que o texto vai surgindo, reforçando ou contrariando o que dizem os corpos dos três intérpretes, muitas vezes num estado quase contemplativo de câmara lenta, emergem migalhas ficcionais, autobiográficas, resultantes das leituras de cada um. Sem que haja vontade, em momento algum, de transformar Ão numa “aula de português cantada”. Não há teses linguísticas aqui; há sim, uma apropriação pessoal da língua, respeitando apenas regras próprias.

Para André Teodósio, esta é, no entanto, e apesar da dimensão corporal que Ão também assume, “uma peça sonora”. “Não estamos, mas podíamos estar no escuro, bastaria ouvir apenas ou sentir as frequências do som.” Porque os corpos, conclui, “são estranhos naquele espaço”, naquele “tapete” de frases onde é possível que qualquer um dos três intérpretes, a dado momento, possa tropeçar. Mas há nestes movimentos em palco, que Ana Rita Teodoro compara à empatia que se estabelece num concerto, em que os sons convidam a dançar e a cantar, uma ideia de poderem ser reproduzidos. Afinal, a linguagem é uma ferramenta de comunicação e de chegar ao outro. Falar sozinho é uma outra história. Em Ão, só se tropeça porque os olhos não estão no chão, e sim naquele que se quer alcançar.

3.5.23

Quebrar os muros do Bairro do Cerco do Porto com uma galeria a céu aberto

André Borges Vieira (Texto) e Paulo Pimenta (Fotografia), in Público online

O cineasta/fotógrafo Ricardo Leite trabalhou alguns meses com os moradores do conjunto habitacional camarário. O resultado é uma exposição que durará até que o desgaste do tempo decida que terminou.

O que define o que é ou não é um espaço de exposições poderá ter mais que ver com as obras de arte que estão expostas do que com a natureza do local em si. Foi a seguir à risca esta noção que o cineasta/videógrafo Ricardo Leite, vestindo a sua pele de fotógrafo, partiu para o projecto Cerco de Prata. Durante cerca de um ano, o artista tornou-se presença assídua do Bairro do Cerco do Porto à procura de inspiração e montou lá o seu ateliê e a sua galeria. O resultado artístico deu origem a uma exposição temporária. O objectivo que pretende atingir a longo prazo com o seu trabalho passa por ajudar a mandar abaixo os muros que separam as pessoas que vivem neste e noutros conjuntos habitacionais camarários do resto da cidade.

Desta empreitada nasceu obra materializada em imagens, sobretudo de retratos de alguns moradores do Cerco. Ao produto final chegou-se a partir dos disparos do fotógrafo e de quem quis arriscar pegar numa máquina fotográfica. No final, todos os intervenientes, ou seja, os moradores, deram uma mão para ajudarem a transferir película para tecido e para montar a exposição. O mais importante, considera o autor, foi conseguir criar essa interacção com quem ali vive.

Há cerca de duas semanas fez-se uma festa para a inauguração da exposição. A galeria foi montada no exterior do bairro e usaram-se varais, desta vez não para pôr a roupa lavada a secar, mas sim para expor oito imagens emulsionadas em tecido, cada uma com 1,20 metros por 80 centímetros. À vista ficaram algumas caras de quem habita o Cerco. Algumas das peças ficarão expostas até que o desgaste do tempo decida que a exposição chegou ao fim. Outras, o fotógrafo levou-as consigo. Uma delas entregou-a em mãos a um dos moradores que mais o ajudou na concretização do projecto. Essa estará exposta, mas dentro de quatro paredes.

Ricardo Leite, que também fez parte da equipa do documentário sobre o bairro de São João de Deus, Tarrafal, do realizador Pedro Neves, quando foi para o terreno tinha apenas algumas certezas: “Sabia que queria fotografar lá e expor no mesmo sítio. Queria usar o bairro como galeria”.

Outras motivações também já existiam e tinham uma justificação. “A vontade de fotografar no bairro nasceu por causa da invisibilidade que a maior parte dos bairros, principalmente o do Cerco, tem na cidade”, afirma o fotógrafo, que já conhece bem outros conjuntos habitacionais camarários da cidade.
Estigma existe, mas há liberdade

“O bairro do Cerco é ainda hoje um bairro muito estigmatizado”, diz. A sua própria designação - uma referência à primeira metade do século XIX, quando as tropas absolutistas de D. Miguel cercaram as forças liberais de D. Pedro – ainda parece fazer algum sentido. Segundo o autor do projecto, quem ali mora continua a viver numa espécie de ilha dentro da cidade.

Mas, viver em isolamento, acredita, pode ter algumas vantagens: “Ao mesmo tempo também é um espaço de liberdade. Há crianças a brincar na rua. As crianças vão para a rua porque toda a gente está atenta. Os vizinhos estão a olhar, os vizinhos estão a ver. É um espaço mais ou menos vigiado por eles próprios. É engraçado porque há crianças que saem muitas vezes sozinhas e estão à vontade porque há sempre gente que toma conta delas. Ainda se anda de bicicleta, salta-se à corda e é algo que já não se vê noutras zonas da cidade.” Porém, reconhece, há “quem viva com muitas dificuldades”.

Esse isolamento também serve de motor para aguçar o engenho. Ricardo Leite acredita existir uma motivação extra para que se combata o ócio. “Realmente depois percebo de onde é que vem aquela criatividade toda porque vem dessa necessidade de sobreviver. Sobretudo a comunidade cigana, mas não só, é muito aberta e muito ágil a abraçar coisas novas porque realmente todos os dias têm de inventar novas maneiras de sobreviver. E isso torna-os mais criativos. No geral, os moradores são pessoas muito curiosas e com muita vontade de aprender e de perceber o outro lado. Porque muitas vezes isso lhes é vedado. E este projecto surgiu no sentido de querer abrir um bocadinho mais as fronteiras”, afirma.