Marta Leite Ferreira, in Público
Director-geral da OMS decretou em conferência de imprensa que a covid-19 deixou de ser considerada uma emergência sanitária global. Nível máximo de alerta estava activo desde 30 de Janeiro de 2020.
Mil, cento e cinquenta (1150) dias depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado a covid-19 uma pandemia, chega outro anúncio histórico: a doença provocada pelo SARS-CoV-2 deixou esta sexta-feira de ser considerada uma emergência sanitária global.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, confirmou que aceitou a recomendação do comité de emergência para baixar o nível de alarme: "É com grande esperança que declaro o fim da covid-19 como uma emergência de saúde global." E prosseguiu: "Ontem [quinta-feira], o comité de emergência reuniu-se pela 15.ª vez e recomendou-me que declarasse o fim da emergência global. Eu aceitei esse conselho."
Desde que o coronavírus foi detectado na cidade chinesa de Wuhan até agora, a covid-19 já foi responsável pela morte de cerca de sete milhões de pessoas em todo o mundo, quase 27 mil das quais em Portugal. O nível máximo de alarme em torno da covid-19 foi decretado pela primeira vez a 30 de Janeiro de 2020, há 1191 dias. A 11 de Março desse ano foi, então, considerada uma pandemia.
Nesse dia, as autoridades portuguesas registavam um total de 59 casos confirmados de infecção desde o dia 2 de Março. Agora, e de acordo com as informações mais recentes da Direcção-Geral da Saúde (DGS), são já perto de 5,6 milhões os casos diagnosticados com o SARS-CoV-2, que durante muito tempo era conhecido sobretudo como "novo coronavírus". A sua disseminação condenou a população portuguesa (e de milhões de pessoas por todo o mundo) ao confinamento domiciliário em vários períodos até 2022.
As escolas encerraram, as ruas ficaram desertas e os profissionais de saúde enfrentaram provações históricas para atenderem aos milhares de casos internados que acorriam aos hospitais em todo o mundo. Nos piores momentos da pandemia, o país assistiu à morte de centenas de pessoas por dia à conta da covid-19 enquanto se habituava às novas rotinas (muitas delas já abandonadas): era preciso usar máscaras, realizar testes rápidos antes de se aceder a restaurantes e manter o isolamento sempre que havia um contacto de risco.
Até agora, a covid-19 era considerada uma "emergência sanitária global" (o nível de alerta máximo emitido pela OMS) por tratar-se de um evento extraordinário, representar um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional e requerer uma resposta internacional coordenada.
Mas o Comité de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional concluiu, numa sessão deliberativa esta quinta-feira, que a covid-19 já não pode ser considerada "um evento incomum ou inesperado", mesmo tendo em consideração que o vírus continua a evoluir e a circular. Por isso, já não obedece aos parâmetros para ser classificada como emergência sanitária global.
Na conferência de imprensa, Tedros Adhanom Ghebreyesus adiantou que a pandemia está "em tendência de queda, com a imunidade da população a aumentar devido à vacinação e infecção, a mortalidade a diminuir e a pressão sobre os sistemas de saúde a decrescer". Num comunicado publicado entretanto pela OMS, a organização considerou que "está na hora de fazer a transição para a gestão de longo prazo da pandemia" porque "a covid-19 é agora um problema de saúde estabelecido e contínuo".
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5.5.23
29.8.22
Governo aprova fim de máscaras nos transportes públicos (incluindo aviões) e farmácias
Liliana Borges, in Público on-line
Nos hospitais e lares o uso da máscara continuará a ser obrigatório. O executivo aprovou também uma declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela pelo período de um ano.
O uso obrigatório de máscara em transportes públicos irá terminar, anunciou o Governo esta quinta-feira, no final de uma reunião do Conselho de Ministros. Segundo a ministra da Saúde, Marta Temido, há uma “tendência estável de casos” covid-19 e condições para acabar com as máscaras em autocarros, comboios, táxis, TVDE (Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de Plataforma Electrónica) ou aviões. A utilização de máscara deixará também de ser obrigatória em farmácias. Nos hospitais e lares o uso continuará a ser obrigatório.
O fim do uso obrigatório de máscara entrará em vigor após publicação em Diário da República.
O comunicado divulgado pelo executivo no final da reunião do Governo explica que “com o intuito de proteger quem se encontre em situação de maior vulnerabilidade, o uso de máscaras ou viseiras mantém-se obrigatório em estabelecimentos e serviços de saúde, e em estruturas residenciais ou de acolhimento ou serviços de apoio domiciliário para populações vulneráveis, pessoas idosas ou pessoas com deficiência, bem como unidades de cuidados continuados integrados da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados”.
O mesmo comunicado acrescenta que tendo em conta o “desenvolvimento positivo da situação epidemiológica, considera-se oportuno avançar na eliminação de mais medidas restritivas, assegurando sempre a proporcionalidade destas às circunstâncias da infecção que se verificam em cada momento e independentemente da necessidade da sua modelação futura, designadamente em função da sazonalidade”.
O Conselho de Ministros aprovou também a prorrogação da declaração da situação de alerta em todo o território nacional continental, no âmbito da pandemia da covid-19, a qual se manterá em vigor até às 23h59 do dia 30 de Setembro de 2022.
Vacina de reforço arranca no dia 5
Em resposta aos jornalistas, a ministra da Saúde anunciou que a vacinação de reforço contra a covid-19 e contra a gripe sazonal arranca a 5 de Setembro. Marta Temido detalhou ainda que só no dia 2 de Setembro é que haverá a apresentação da estratégia de reforço de vacinação contra a covid-19, um dia depois de a Agência Europeia de Medicamentos emitir um parecer a propósito utilização de vacinas combinadas contra a covid-19 e a gripe.
A expectativa do Governo é que Portugal comece a receber os primeiros lotes durante essa semana. “Estamos a trabalhar nesse contexto e no sentido de que a resposta seja sobretudo destinada à protecção da população mais vulnerável, num contexto em que antecipamos um aumento da procura dos serviços de saúde”, disse.
A ministra da Saúde garantiu ainda que o Governo está a trabalhar “com os seus serviços e com os seus grupos técnicos” para que a resposta dos serviços de saúde, nomeadamente na ginecologia/obstetrícia possa ser “redesenhada”. O Governo espera ter resultados “no início de Outubro” para discutir a reorganização das maternidades.
Situação de calamidade na serra da Estrela durará um ano
No mesmo encontro semanal do Conselho de Ministros foi ainda aprovada a declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela. Em declarações aos jornalistas, a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, detalhou que a situação de calamidade nesta região durará um ano.
“A situação de calamidade que aqui é aprovada prende-se com um conjunto de necessidades específicas e de segurança naquele parque natural e não se confundem com medidas de apoio aos territórios afectados”, justificou Mariana Vieira da Silva.
Segundo a ministra da Presidência, o levantamento que será feito no terreno e nas áreas afectadas “inclui não apenas os municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, mas também todos os restantes concelhos do país que tenham uma área ardida igual ou superior a 4500 hectares ou 10% da sua área durante este ano de 2022”. com David Santiago
Nos hospitais e lares o uso da máscara continuará a ser obrigatório. O executivo aprovou também uma declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela pelo período de um ano.
O uso obrigatório de máscara em transportes públicos irá terminar, anunciou o Governo esta quinta-feira, no final de uma reunião do Conselho de Ministros. Segundo a ministra da Saúde, Marta Temido, há uma “tendência estável de casos” covid-19 e condições para acabar com as máscaras em autocarros, comboios, táxis, TVDE (Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de Plataforma Electrónica) ou aviões. A utilização de máscara deixará também de ser obrigatória em farmácias. Nos hospitais e lares o uso continuará a ser obrigatório.
O fim do uso obrigatório de máscara entrará em vigor após publicação em Diário da República.
O comunicado divulgado pelo executivo no final da reunião do Governo explica que “com o intuito de proteger quem se encontre em situação de maior vulnerabilidade, o uso de máscaras ou viseiras mantém-se obrigatório em estabelecimentos e serviços de saúde, e em estruturas residenciais ou de acolhimento ou serviços de apoio domiciliário para populações vulneráveis, pessoas idosas ou pessoas com deficiência, bem como unidades de cuidados continuados integrados da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados”.
O mesmo comunicado acrescenta que tendo em conta o “desenvolvimento positivo da situação epidemiológica, considera-se oportuno avançar na eliminação de mais medidas restritivas, assegurando sempre a proporcionalidade destas às circunstâncias da infecção que se verificam em cada momento e independentemente da necessidade da sua modelação futura, designadamente em função da sazonalidade”.
O Conselho de Ministros aprovou também a prorrogação da declaração da situação de alerta em todo o território nacional continental, no âmbito da pandemia da covid-19, a qual se manterá em vigor até às 23h59 do dia 30 de Setembro de 2022.
Vacina de reforço arranca no dia 5
Em resposta aos jornalistas, a ministra da Saúde anunciou que a vacinação de reforço contra a covid-19 e contra a gripe sazonal arranca a 5 de Setembro. Marta Temido detalhou ainda que só no dia 2 de Setembro é que haverá a apresentação da estratégia de reforço de vacinação contra a covid-19, um dia depois de a Agência Europeia de Medicamentos emitir um parecer a propósito utilização de vacinas combinadas contra a covid-19 e a gripe.
A expectativa do Governo é que Portugal comece a receber os primeiros lotes durante essa semana. “Estamos a trabalhar nesse contexto e no sentido de que a resposta seja sobretudo destinada à protecção da população mais vulnerável, num contexto em que antecipamos um aumento da procura dos serviços de saúde”, disse.
A ministra da Saúde garantiu ainda que o Governo está a trabalhar “com os seus serviços e com os seus grupos técnicos” para que a resposta dos serviços de saúde, nomeadamente na ginecologia/obstetrícia possa ser “redesenhada”. O Governo espera ter resultados “no início de Outubro” para discutir a reorganização das maternidades.
Situação de calamidade na serra da Estrela durará um ano
No mesmo encontro semanal do Conselho de Ministros foi ainda aprovada a declaração de situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela. Em declarações aos jornalistas, a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, detalhou que a situação de calamidade nesta região durará um ano.
“A situação de calamidade que aqui é aprovada prende-se com um conjunto de necessidades específicas e de segurança naquele parque natural e não se confundem com medidas de apoio aos territórios afectados”, justificou Mariana Vieira da Silva.
Segundo a ministra da Presidência, o levantamento que será feito no terreno e nas áreas afectadas “inclui não apenas os municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, mas também todos os restantes concelhos do país que tenham uma área ardida igual ou superior a 4500 hectares ou 10% da sua área durante este ano de 2022”. com David Santiago
4.3.22
“Se interviermos na infância há uma grande chance de a criança não ser um adulto obeso”
Ana Maia, in Público on-line
Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Rito, investigadora do Insa, diz que a literacia junto das famílias e das crianças em idades precoces tem sido um dos factores chaves para mudar estilos de vida. E serão esses que poderão evitar que crianças obesas se tornem adultos obesos.
Esta sexta-feira assinala-se o Dia Mundial de Combate à Obesidade. Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Rito, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) fala do trabalho que Portugal tem feito e que numa década permitiu reduzir a prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil. Mas ainda há muito a fazer, refere, temendo os efeitos que a pandemia possa ter tido nas famílias com menores condições socioeconómicas. A também directora do Centro de Estudos e Investigação em Dinâmicas Sociais e Saúde diz que a literacia junto das famílias e das crianças em idades precoces tem sido um dos factores chaves para mudar estilos de vida. E serão esses que poderão evitar que crianças obesas se tornem adultos obesos.
Entre 2008 e 2019, segundo os últimos dados do Cosi - sistema de vigilância nutricional infantil integrado no estudo Childhood Obesity Surveillance Initiative da OMS/Europa, coordenado pelo Insa -, Portugal reduziu a prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil. Tem dados mais recentes?
Conseguimos no espaço de uma década reduzir 8,2 pontos percentuais em termos de excesso de peso e obesidade. Portugal foi dos países que se situou bem na Europa, não só em termos de promoção da saúde infantil, mas de prevenção de doença. Não temos mais dados, porque as rondas são feitas a cada três anos. Estamos no momento a avaliar cerca de 8 mil crianças nesta sexta ronda do Cosi Portugal. O Insa, como centro colaborativo para a nutrição infantil da OMS Europa, lidera também um estudo sobre o impacto da pandemia nos estilos de vida e no estado nutricional da criança. Certamente estes dois anos de pandemia terão tido algum impacto, ainda que não tão directamente no estado nutricional, em termos de práticas alimentares e de estilos de vida. Estamos a realizar este estudo com outros 27 países da Europa.
Na fase inicial do Cosi éramos o segundo país europeu com maior prevalência de excesso de peso e obesidade. Onde nos coloca a redução que aconteceu?
Neste momento, a meio da tabela. Estamos muito a par da média europeia. Mas estamos ainda muito longe dos que têm menos prevalência de excesso de peso e obesidade infantil, nomeadamente os países do Norte da Europa e da Ásia Central. Estudámos quais as variáveis que terão tido mais impacto nesta redução, sem dúvida foi a educação e a formação da mãe. As mães de 2019 são seguramente mais informadas que as mães de 2008 por todo este investimento que houve de traduzir o que é a ciência.
Mas ainda há uma enorme dificuldade em perceber se os produtos à venda são bons ou não em termos nutricionais. O que deve se feito?
Este trabalho só se consegue com um esforço conjunto. Se há organismos como o Insa, a DGS, e outros, que têm vindo a fazer um esforço para haver um diálogo maior com a indústria, para que esta aposte na reformulação dos seus produtos alimentares, é necessário que nutricionistas e outros profissionais sejam capazes de aumentar a literacia das pessoas que vão ler os rótulos. Depois é preciso ensinar a mãe, o pai, a criança, o adolescente quando chegar a um supermercado a perguntar o que hei-de escolher. Continuo a escolher os mesmos produtos, sabendo que estes alimentos têm menos açúcar, ou altero os hábitos alimentares? Acho que há muito a fazer no sentido de aumentar a literacia das pessoas para saberem o que estão a escolher.
Temos de ensinar estas crianças e famílias a mudar os seus hábitos alimentares. Depois, numa estratégia um pouco mais adulta, perceber que há uma série de produtos alimentares que podem preferir, mas que não devem consumir
Como é que isso se faz?
Com uma promoção, em primeiro lugar, de produtos no seu formato natural. É ir primeiro a uma bancada de frutos, de legumes. Esses [produtos] serão a base da sua alimentação. Naturalmente, olhar para uma roda dos alimentos e perceber onde estão os alimentos que são importantes para a nossa alimentação. A seguir, é conseguimos explicar à criança nestes ambientes escolares que trocar um produto embalado por um outro tipo de lanche mais saudável é completamente diferente em termos de aporte de açúcar e de gordura. Temos de ensinar estas crianças e famílias a mudar os seus hábitos alimentares. Depois, numa estratégia um pouco mais adulta, perceber que há uma série de produtos alimentares que podem preferir, mas que não devem consumir.
Portugal tem implementado várias medidas. Há o imposto criado sobre as bebidas açucaradas e um trabalho com a indústria para a reformulação de vários produtos. Devemos criar mais impostos ou o caminho é mais pelo diálogo?
A minha opinião é que o caminho é pelo diálogo. O imposto sobre as bebidas açucaradas foi criado em 2017, após termos conhecido em 2016 os dados do Cosi Portugal que mostrou que as crianças faziam um consumo acima dos 60% de refrigerantes açucarados e houve a necessidade de criar uma medida. É esta dinâmica que se faz. Nós mostramos os dados, onde estão os erros, e as entidades competentes, os decisores políticos, conseguem transformar isto numa acção política, naquilo que tem vindo a ser o diálogo com a indústria para a melhoria dos perfis nutricionais. Portugal tem sido exemplar nessa matéria. Há muitos outros países da Europa que não têm feito caminho algum, até mesmo pela pressão da indústria.
Há uma meta do que deveria ser o valor máximo de excesso de peso e obesidade?
O objectivo é sempre zero, é não termos obesidade ou excesso de peso. Isto só funciona por esta plataforma de gentes co-responsáveis por esta matéria. É a responsabilidade dos média, dos decisores políticos, dos investigadores que continuam a produzir dados actuais para que se faça algo em respostas. São programas a nível local, regional e nacional de combate à obesidade infantil, com os municípios à cabeça. Tudo o que se faz a nível local é muito importante, porque ninguém conhece melhor as suas comunidades do que os que vivem nelas.
Antes da pandemia falou-se muito de ambientes saudáveis nas cidades, com mais espaços verdes e melhor oferta alimentar. Abandonou-se esta ideia?
Houve uma aposta enorme ao nível dos espaços exteriores, que eram os espaços onde se podia conviver abertamente na altura em que vivemos mais sob as restrições da pandemia. A aposta das cidades nessa matéria continuou a existir. Talvez não se tenha falado tanto nisso.
Então a pandemia trouxe esse ponto positivo, que foi valorizar esses espaços.
Não tenho dúvidas. Por um lado, a pandemia melhorou os estilos de vida das pessoas que tinham melhores condições socioeconómicas. Essa utilização dos espaços exteriores, aumento da actividade física, o facto de cozinharem em casa, foi tudo um aspecto muito positivo. Mas piorou muito a das pessoas que estão no outro lado, pessoas que perderam brutalmente as suas condições económicas ao fim do mês. A preocupação não era tornarem-se mais saudáveis, era de alguma forma sobreviver a esta pandemia. A obesidade reside muito neste lado do espectro. É aqui que esperamos os piores resultados e temo que possa ter-se agravado a este nível. É aqui que a sociedade tem de reagir, ajudar estas famílias a superar aquilo que foi o impacto da pandemia nestes últimos dois anos.
Uma das preocupações com a obesidade infantil é a continuidade deste problema na vida adulta. Há alguma ideia de qual a percentagem de crianças com excesso de peso ou obesidade que se transformam em adultos com excesso de peso ou obesidade?
Ia dizer a maioria. É por isso que a nossa intervenção é o mais precoce possível, é antes da puberdade que devemos agir. Se essa intervenção for feita nessas idades, há uma grande chance desta criança não ser um adulto obeso no futuro. Se esta intervenção não existir, a grande probabilidade é que de facto grande parte desta população infantil com obesidade ou com excesso de peso perpetue esse seu estado nutricional, a sua obesidade, até à idade adulta. Depois depende muito de cada pessoa, da forma como cada um conhece a doença e o que a afecta ou não. Falamos mais disto em 2021 do que em 2005 e portanto é muito provável que qualquer pessoa já tenha ouvido falar das questões da obesidade e que uma criança com mais peso não é uma criança saudável.
Acho que a cada ano estamos melhor do que no anterior em termos de atenção à obesidade, que não deve de todo sair da agenda política de nenhum país, porque ainda nenhum conseguiu alcançar aquele objectivo zero
Os médicos também estão mais atentos ao problema?
Não tenha dúvidas. Estamos todos alinhados nessa matéria. Há um diálogo maior, há uma intervenção multidisciplinar que tem de ser feita e que acho que cada vez mais existe ao nível das unidades de saúde. Acho que a cada ano estamos melhor do que no anterior em termos de atenção à obesidade, que não deve de todo sair da agenda política de nenhum país, porque ainda nenhum conseguiu alcançar aquele objectivo zero. Temos todos de aprender uns com os outros e perceber como reagirmos, em cada país, às questões relacionadas com a obesidade, principalmente quando sabemos que muito provavelmente foi agravada nestes últimos dois anos.
Falta criar medicamentos para o tratamento do excesso de peso e obesidade ou para a área infantil isso não faz sentido?
Não faz sentido algum. A questão de medicalizarmos numa abordagem de obesidade infantil não existe. E muito menos cirurgia bariátrica. Não falta nada. O que falta é o aumento da literacia das famílias, olharem para os seus filhos e perceberem que eles têm uma doença quando têm obesidade. A infância é a altura ideal para se tratar a obesidade, porque é nessa altura que a criança está a prender, está mais apta para receber novas orientações, está mais atenta e ao mesmo tempo tem a seu favor o crescimento. Com o seu crescimento consegue de alguma forma ir ajudando na correcção da obesidade. Até aos 18 anos a obesidade é prevenível e tratável, no sentido de ser corrigida com uma mudança de estilos de vida. Queremos uma criança que abrace a sua vida futura de uma forma muito mais saudável.
Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Rito, investigadora do Insa, diz que a literacia junto das famílias e das crianças em idades precoces tem sido um dos factores chaves para mudar estilos de vida. E serão esses que poderão evitar que crianças obesas se tornem adultos obesos.
Esta sexta-feira assinala-se o Dia Mundial de Combate à Obesidade. Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Rito, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) fala do trabalho que Portugal tem feito e que numa década permitiu reduzir a prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil. Mas ainda há muito a fazer, refere, temendo os efeitos que a pandemia possa ter tido nas famílias com menores condições socioeconómicas. A também directora do Centro de Estudos e Investigação em Dinâmicas Sociais e Saúde diz que a literacia junto das famílias e das crianças em idades precoces tem sido um dos factores chaves para mudar estilos de vida. E serão esses que poderão evitar que crianças obesas se tornem adultos obesos.
Entre 2008 e 2019, segundo os últimos dados do Cosi - sistema de vigilância nutricional infantil integrado no estudo Childhood Obesity Surveillance Initiative da OMS/Europa, coordenado pelo Insa -, Portugal reduziu a prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil. Tem dados mais recentes?
Conseguimos no espaço de uma década reduzir 8,2 pontos percentuais em termos de excesso de peso e obesidade. Portugal foi dos países que se situou bem na Europa, não só em termos de promoção da saúde infantil, mas de prevenção de doença. Não temos mais dados, porque as rondas são feitas a cada três anos. Estamos no momento a avaliar cerca de 8 mil crianças nesta sexta ronda do Cosi Portugal. O Insa, como centro colaborativo para a nutrição infantil da OMS Europa, lidera também um estudo sobre o impacto da pandemia nos estilos de vida e no estado nutricional da criança. Certamente estes dois anos de pandemia terão tido algum impacto, ainda que não tão directamente no estado nutricional, em termos de práticas alimentares e de estilos de vida. Estamos a realizar este estudo com outros 27 países da Europa.
Na fase inicial do Cosi éramos o segundo país europeu com maior prevalência de excesso de peso e obesidade. Onde nos coloca a redução que aconteceu?
Neste momento, a meio da tabela. Estamos muito a par da média europeia. Mas estamos ainda muito longe dos que têm menos prevalência de excesso de peso e obesidade infantil, nomeadamente os países do Norte da Europa e da Ásia Central. Estudámos quais as variáveis que terão tido mais impacto nesta redução, sem dúvida foi a educação e a formação da mãe. As mães de 2019 são seguramente mais informadas que as mães de 2008 por todo este investimento que houve de traduzir o que é a ciência.
Mas ainda há uma enorme dificuldade em perceber se os produtos à venda são bons ou não em termos nutricionais. O que deve se feito?
Este trabalho só se consegue com um esforço conjunto. Se há organismos como o Insa, a DGS, e outros, que têm vindo a fazer um esforço para haver um diálogo maior com a indústria, para que esta aposte na reformulação dos seus produtos alimentares, é necessário que nutricionistas e outros profissionais sejam capazes de aumentar a literacia das pessoas que vão ler os rótulos. Depois é preciso ensinar a mãe, o pai, a criança, o adolescente quando chegar a um supermercado a perguntar o que hei-de escolher. Continuo a escolher os mesmos produtos, sabendo que estes alimentos têm menos açúcar, ou altero os hábitos alimentares? Acho que há muito a fazer no sentido de aumentar a literacia das pessoas para saberem o que estão a escolher.
Temos de ensinar estas crianças e famílias a mudar os seus hábitos alimentares. Depois, numa estratégia um pouco mais adulta, perceber que há uma série de produtos alimentares que podem preferir, mas que não devem consumir
Como é que isso se faz?
Com uma promoção, em primeiro lugar, de produtos no seu formato natural. É ir primeiro a uma bancada de frutos, de legumes. Esses [produtos] serão a base da sua alimentação. Naturalmente, olhar para uma roda dos alimentos e perceber onde estão os alimentos que são importantes para a nossa alimentação. A seguir, é conseguimos explicar à criança nestes ambientes escolares que trocar um produto embalado por um outro tipo de lanche mais saudável é completamente diferente em termos de aporte de açúcar e de gordura. Temos de ensinar estas crianças e famílias a mudar os seus hábitos alimentares. Depois, numa estratégia um pouco mais adulta, perceber que há uma série de produtos alimentares que podem preferir, mas que não devem consumir.
Portugal tem implementado várias medidas. Há o imposto criado sobre as bebidas açucaradas e um trabalho com a indústria para a reformulação de vários produtos. Devemos criar mais impostos ou o caminho é mais pelo diálogo?
A minha opinião é que o caminho é pelo diálogo. O imposto sobre as bebidas açucaradas foi criado em 2017, após termos conhecido em 2016 os dados do Cosi Portugal que mostrou que as crianças faziam um consumo acima dos 60% de refrigerantes açucarados e houve a necessidade de criar uma medida. É esta dinâmica que se faz. Nós mostramos os dados, onde estão os erros, e as entidades competentes, os decisores políticos, conseguem transformar isto numa acção política, naquilo que tem vindo a ser o diálogo com a indústria para a melhoria dos perfis nutricionais. Portugal tem sido exemplar nessa matéria. Há muitos outros países da Europa que não têm feito caminho algum, até mesmo pela pressão da indústria.
Há uma meta do que deveria ser o valor máximo de excesso de peso e obesidade?
O objectivo é sempre zero, é não termos obesidade ou excesso de peso. Isto só funciona por esta plataforma de gentes co-responsáveis por esta matéria. É a responsabilidade dos média, dos decisores políticos, dos investigadores que continuam a produzir dados actuais para que se faça algo em respostas. São programas a nível local, regional e nacional de combate à obesidade infantil, com os municípios à cabeça. Tudo o que se faz a nível local é muito importante, porque ninguém conhece melhor as suas comunidades do que os que vivem nelas.
Antes da pandemia falou-se muito de ambientes saudáveis nas cidades, com mais espaços verdes e melhor oferta alimentar. Abandonou-se esta ideia?
Houve uma aposta enorme ao nível dos espaços exteriores, que eram os espaços onde se podia conviver abertamente na altura em que vivemos mais sob as restrições da pandemia. A aposta das cidades nessa matéria continuou a existir. Talvez não se tenha falado tanto nisso.
Então a pandemia trouxe esse ponto positivo, que foi valorizar esses espaços.
Não tenho dúvidas. Por um lado, a pandemia melhorou os estilos de vida das pessoas que tinham melhores condições socioeconómicas. Essa utilização dos espaços exteriores, aumento da actividade física, o facto de cozinharem em casa, foi tudo um aspecto muito positivo. Mas piorou muito a das pessoas que estão no outro lado, pessoas que perderam brutalmente as suas condições económicas ao fim do mês. A preocupação não era tornarem-se mais saudáveis, era de alguma forma sobreviver a esta pandemia. A obesidade reside muito neste lado do espectro. É aqui que esperamos os piores resultados e temo que possa ter-se agravado a este nível. É aqui que a sociedade tem de reagir, ajudar estas famílias a superar aquilo que foi o impacto da pandemia nestes últimos dois anos.
Uma das preocupações com a obesidade infantil é a continuidade deste problema na vida adulta. Há alguma ideia de qual a percentagem de crianças com excesso de peso ou obesidade que se transformam em adultos com excesso de peso ou obesidade?
Ia dizer a maioria. É por isso que a nossa intervenção é o mais precoce possível, é antes da puberdade que devemos agir. Se essa intervenção for feita nessas idades, há uma grande chance desta criança não ser um adulto obeso no futuro. Se esta intervenção não existir, a grande probabilidade é que de facto grande parte desta população infantil com obesidade ou com excesso de peso perpetue esse seu estado nutricional, a sua obesidade, até à idade adulta. Depois depende muito de cada pessoa, da forma como cada um conhece a doença e o que a afecta ou não. Falamos mais disto em 2021 do que em 2005 e portanto é muito provável que qualquer pessoa já tenha ouvido falar das questões da obesidade e que uma criança com mais peso não é uma criança saudável.
Acho que a cada ano estamos melhor do que no anterior em termos de atenção à obesidade, que não deve de todo sair da agenda política de nenhum país, porque ainda nenhum conseguiu alcançar aquele objectivo zero
Os médicos também estão mais atentos ao problema?
Não tenha dúvidas. Estamos todos alinhados nessa matéria. Há um diálogo maior, há uma intervenção multidisciplinar que tem de ser feita e que acho que cada vez mais existe ao nível das unidades de saúde. Acho que a cada ano estamos melhor do que no anterior em termos de atenção à obesidade, que não deve de todo sair da agenda política de nenhum país, porque ainda nenhum conseguiu alcançar aquele objectivo zero. Temos todos de aprender uns com os outros e perceber como reagirmos, em cada país, às questões relacionadas com a obesidade, principalmente quando sabemos que muito provavelmente foi agravada nestes últimos dois anos.
Falta criar medicamentos para o tratamento do excesso de peso e obesidade ou para a área infantil isso não faz sentido?
Não faz sentido algum. A questão de medicalizarmos numa abordagem de obesidade infantil não existe. E muito menos cirurgia bariátrica. Não falta nada. O que falta é o aumento da literacia das famílias, olharem para os seus filhos e perceberem que eles têm uma doença quando têm obesidade. A infância é a altura ideal para se tratar a obesidade, porque é nessa altura que a criança está a prender, está mais apta para receber novas orientações, está mais atenta e ao mesmo tempo tem a seu favor o crescimento. Com o seu crescimento consegue de alguma forma ir ajudando na correcção da obesidade. Até aos 18 anos a obesidade é prevenível e tratável, no sentido de ser corrigida com uma mudança de estilos de vida. Queremos uma criança que abrace a sua vida futura de uma forma muito mais saudável.
25.1.22
Escolas públicas não garantem aulas online a todos os alunos isolados
Patrícia Carvalho, in Público on-line
Nem todas as escolas oferecem a possibilidade de os alunos assistirem às aulas online. Líder dos directores de estabelecimentos de ensino públicos desvaloriza e diz que essa não é a única forma de os estudantes acompanharem as matérias
Com dois filhos a frequentarem diferentes anos do 1.º ciclo, numa escola de Lisboa, Nuno Januário encontra energia para se rir da situação actual das crianças, em isolamento e impedidas de se deslocarem à escola por a mãe estar infectada com covid. “Um deles, no 4.º ano, está a ter aulas por Zoom, o mais novo, que está no 2.º ano e anda na mesma escola, não, porque apesar da boa vontade, a escola não tem Internet que funcione no pavilhão onde ele tem aulas”, conta ao telefone. Não é caso único.
Nuno Januário salvaguarda que, apesar desta discrepância, os filhos estão a conseguir acompanhar as aulas, graças às “professoras fantásticas” que ambos têm, mas diz que não pode deixar de chamar a atenção para o que diz ser “o ridículo da situação”. E salvaguarda que, no caso da criança mais nova, a quem é enviado um plano de trabalho diário, para compensar a ausência das aulas, o tempo só não é dado por perdido porque há um acompanhamento permanente por parte da mãe.
Para Carmo Teixeira, com duas filhas a frequentar diferentes níveis de ensino — uma está no 1.º ano a outra no 6.º, em duas escolas do mesmo agrupamento do Porto —, a relação das crianças com as aulas por estes dias também está a ser complicada. Ela e a filha mais nova estão infectadas com covid, a filha mais velha não, mas também não pode ir à escola, por viverem todas juntas. Nenhuma está a ter aulas online. Rita, a mais velha, vai-se desenrascando com os resumos que “alguns” professores enviam do que vão dando nas aulas e com o material que vai sendo colocado na plataforma Classroom. Mas, apesar de o isolamento estar reduzido a sete dias, já percebeu que vai ter de fazer um esforço extra para não ficar para trás. “Os testes estão a aproximar-se. Tenho um de Português no dia 2 de Fevereiro e tenho imensa matéria de gramática que não estou a entender muito bem. Vou ter mesmo de aproveitar as últimas aulas”, diz a aluna, que espera regressar à escola nesta quinta-feira.
Para a irmã mais nova, ainda a aprender as primeiras letras, as coisas são um pouco mais complexas. Carmo Teixeira diz que é suposto a professora deixar na portaria algumas fichas para a criança ir praticando, mas como está infectada, a mãe da menina não as foi levantar, e – admite – com os sintomas com que ambas estão a lidar, não se sente capaz de dar o acompanhamento de que a menina precisaria. “Prefiro que ela não tenha aulas à distância, até porque, com as dores musculares que tenho tido, e a ter de garantir refeições e impedir que o caos se instale em casa, não me sentiria em condições de estar a garantir que ela estava atenta às aulas e a cumprir horários e respectivos trabalhos de casa”, admite. As perdas, contudo, são claras. “Fico com pena, porque ela estava num momento importante, a começar a ler, e, para mais, na aula tem-se avançado nas letras do abecedário. Ela está a perder isso”, diz.
Jorge Ascenção, da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), diz que no primeiro período lhe chegaram mais queixas relacionadas com este tema do que agora, e que, sempre que isso acontece, tentam resolver o problema, nomeadamente através de um contacto directo com as escolas. “São casos relacionados com questões diferentes, por vezes por as condições técnicas não serem as melhores. Mas com os alunos em casa, o que está previsto é que possam assistir remotamente às aulas, e é isso que faz sentido. E os alunos já terão todos computador, portanto, havendo os meios, é uma questão de as escolas e os professores se organizarem”, diz.
O responsável da Confap realça que “o que se espera é que, quando um aluno vai para casa em isolamento, não fique desligado”, e deixa um apelo para que as escolas façam um esforço extra no sentido de garantir o acesso às aulas online. “A autonomia é muito bonita, mas é preciso ser responsável e às vezes parece existir alguma dificuldade [por parte das escolas] em fazer um esforço adicional. Esta situação [de necessidade de isolamento] é um constrangimento, claro, mas há que minimizar o impacto”, defende.
Já Filinto Lima, que preside à Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, desvaloriza a ausência de disponibilização de aulas online por parte de alguns estabelecimentos de ensino. “Cada escola tem, por causa da pandemia, o seu plano de ensino à distância. E ele não se resume às aulas online. Pode ser o uso frequente da Classroom, pode ser a visualização, complementar, de episódios do Ensino em Casa [telescola], e há outras estratégias que cada escola desenvolve, tendo em conta os conteúdos programáticos”, argumenta.
Para o também professor, “está-se a cair muito no erro de pensar que, se o computador estiver virado para o quadro e o professor a escrever aí a matéria, esse é o único método, o salvador da pátria”. E isso não é assim, defende. “O ensino à distância é muito redutor, mas se a escola tiver o computador virado para o quadro, os pais ficam mais satisfeitos, quando deviam dar mais valor à plataforma Classroom, às aulas assíncronas, que podem ser gravadas, e a outros métodos recomendados pelos professores”, diz.
O líder dos responsáveis pelas escolas públicas admite que a situação pode ser mais complexa para alguns níveis de ensino do que para outros, mas acredita que o segredo não está no acesso, ou não, às aulas online: “Em qualquer situação, [o ensino] terá mais sucesso se lá em casa tivermos pais que ajudem, sobretudo nas idades mais jovens. Ter um pai que possa acompanhar o aluno no seu estudo pode ser a chave do sucesso.”
Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério da Educação afirma que não recebeu quaisquer queixas relacionadas com esta questão, lembrando que as escolas devem dar resposta aos alunos que se encontrem em isolamento, de acordo com os planos que estabeleceram para o efeito no âmbito da pandemia.
Com 16 anos e a frequentar o 10.º numa escola da ilha Terceira, nos Açores, Matilde Silva vai estudando pelo material que alguns poucos professores enviam, mas percebe que os dias de isolamento – primeiro por a avó ter testado positivo, depois por ela mesma ter confirmado que estava também infectada – representarão muito trabalho extra. “A professora de Inglês mandou trabalhos, a de Físico-Química deu uma ficha, mais nenhum enviou nada. E faltei a testes que tinha”, lamenta-se. O regresso está marcado para esta terça-feira.
Nem todas as escolas oferecem a possibilidade de os alunos assistirem às aulas online. Líder dos directores de estabelecimentos de ensino públicos desvaloriza e diz que essa não é a única forma de os estudantes acompanharem as matérias
Com dois filhos a frequentarem diferentes anos do 1.º ciclo, numa escola de Lisboa, Nuno Januário encontra energia para se rir da situação actual das crianças, em isolamento e impedidas de se deslocarem à escola por a mãe estar infectada com covid. “Um deles, no 4.º ano, está a ter aulas por Zoom, o mais novo, que está no 2.º ano e anda na mesma escola, não, porque apesar da boa vontade, a escola não tem Internet que funcione no pavilhão onde ele tem aulas”, conta ao telefone. Não é caso único.
Nuno Januário salvaguarda que, apesar desta discrepância, os filhos estão a conseguir acompanhar as aulas, graças às “professoras fantásticas” que ambos têm, mas diz que não pode deixar de chamar a atenção para o que diz ser “o ridículo da situação”. E salvaguarda que, no caso da criança mais nova, a quem é enviado um plano de trabalho diário, para compensar a ausência das aulas, o tempo só não é dado por perdido porque há um acompanhamento permanente por parte da mãe.
Para Carmo Teixeira, com duas filhas a frequentar diferentes níveis de ensino — uma está no 1.º ano a outra no 6.º, em duas escolas do mesmo agrupamento do Porto —, a relação das crianças com as aulas por estes dias também está a ser complicada. Ela e a filha mais nova estão infectadas com covid, a filha mais velha não, mas também não pode ir à escola, por viverem todas juntas. Nenhuma está a ter aulas online. Rita, a mais velha, vai-se desenrascando com os resumos que “alguns” professores enviam do que vão dando nas aulas e com o material que vai sendo colocado na plataforma Classroom. Mas, apesar de o isolamento estar reduzido a sete dias, já percebeu que vai ter de fazer um esforço extra para não ficar para trás. “Os testes estão a aproximar-se. Tenho um de Português no dia 2 de Fevereiro e tenho imensa matéria de gramática que não estou a entender muito bem. Vou ter mesmo de aproveitar as últimas aulas”, diz a aluna, que espera regressar à escola nesta quinta-feira.
Para a irmã mais nova, ainda a aprender as primeiras letras, as coisas são um pouco mais complexas. Carmo Teixeira diz que é suposto a professora deixar na portaria algumas fichas para a criança ir praticando, mas como está infectada, a mãe da menina não as foi levantar, e – admite – com os sintomas com que ambas estão a lidar, não se sente capaz de dar o acompanhamento de que a menina precisaria. “Prefiro que ela não tenha aulas à distância, até porque, com as dores musculares que tenho tido, e a ter de garantir refeições e impedir que o caos se instale em casa, não me sentiria em condições de estar a garantir que ela estava atenta às aulas e a cumprir horários e respectivos trabalhos de casa”, admite. As perdas, contudo, são claras. “Fico com pena, porque ela estava num momento importante, a começar a ler, e, para mais, na aula tem-se avançado nas letras do abecedário. Ela está a perder isso”, diz.
Jorge Ascenção, da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), diz que no primeiro período lhe chegaram mais queixas relacionadas com este tema do que agora, e que, sempre que isso acontece, tentam resolver o problema, nomeadamente através de um contacto directo com as escolas. “São casos relacionados com questões diferentes, por vezes por as condições técnicas não serem as melhores. Mas com os alunos em casa, o que está previsto é que possam assistir remotamente às aulas, e é isso que faz sentido. E os alunos já terão todos computador, portanto, havendo os meios, é uma questão de as escolas e os professores se organizarem”, diz.
O responsável da Confap realça que “o que se espera é que, quando um aluno vai para casa em isolamento, não fique desligado”, e deixa um apelo para que as escolas façam um esforço extra no sentido de garantir o acesso às aulas online. “A autonomia é muito bonita, mas é preciso ser responsável e às vezes parece existir alguma dificuldade [por parte das escolas] em fazer um esforço adicional. Esta situação [de necessidade de isolamento] é um constrangimento, claro, mas há que minimizar o impacto”, defende.
Já Filinto Lima, que preside à Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, desvaloriza a ausência de disponibilização de aulas online por parte de alguns estabelecimentos de ensino. “Cada escola tem, por causa da pandemia, o seu plano de ensino à distância. E ele não se resume às aulas online. Pode ser o uso frequente da Classroom, pode ser a visualização, complementar, de episódios do Ensino em Casa [telescola], e há outras estratégias que cada escola desenvolve, tendo em conta os conteúdos programáticos”, argumenta.
Para o também professor, “está-se a cair muito no erro de pensar que, se o computador estiver virado para o quadro e o professor a escrever aí a matéria, esse é o único método, o salvador da pátria”. E isso não é assim, defende. “O ensino à distância é muito redutor, mas se a escola tiver o computador virado para o quadro, os pais ficam mais satisfeitos, quando deviam dar mais valor à plataforma Classroom, às aulas assíncronas, que podem ser gravadas, e a outros métodos recomendados pelos professores”, diz.
O líder dos responsáveis pelas escolas públicas admite que a situação pode ser mais complexa para alguns níveis de ensino do que para outros, mas acredita que o segredo não está no acesso, ou não, às aulas online: “Em qualquer situação, [o ensino] terá mais sucesso se lá em casa tivermos pais que ajudem, sobretudo nas idades mais jovens. Ter um pai que possa acompanhar o aluno no seu estudo pode ser a chave do sucesso.”
Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério da Educação afirma que não recebeu quaisquer queixas relacionadas com esta questão, lembrando que as escolas devem dar resposta aos alunos que se encontrem em isolamento, de acordo com os planos que estabeleceram para o efeito no âmbito da pandemia.
Com 16 anos e a frequentar o 10.º numa escola da ilha Terceira, nos Açores, Matilde Silva vai estudando pelo material que alguns poucos professores enviam, mas percebe que os dias de isolamento – primeiro por a avó ter testado positivo, depois por ela mesma ter confirmado que estava também infectada – representarão muito trabalho extra. “A professora de Inglês mandou trabalhos, a de Físico-Química deu uma ficha, mais nenhum enviou nada. E faltei a testes que tinha”, lamenta-se. O regresso está marcado para esta terça-feira.
Número de sem-abrigo estabiliza depois de 2020 "dramático"
in o Observador
O número de pessoas em situação de sem-abrigo estabilizou e voltou ao registado antes da pandemia. Dados são de várias organizações, que se queixam de um ano de 2020 "dramático".
O número de pessoas em situação de sem-abrigo estabilizou e voltou ao registado antes da pandemia. A garantia foi adiantada à Lusa por várias organizações, depois de um ano de 2020 “dramático” em que os pedidos de ajuda se multiplicaram, sobretudo de famílias.
O diretor-geral do Centro de Acolhimento de Sem-Abrigo (CASA) admitiu à Lusa que nos últimos dois anos houve um aumento em cerca de 40% do número de pessoas que foram pedir ajuda à associação, sobretudo famílias, uma percentagem que chegou aos 75% entre as pessoas sem-abrigo.
“Apareceram pessoas com características novas, muito mais estrangeiros, pessoas que trabalhavam na hotelaria, por exemplo, e que ficaram desprovidas de apoios e foram à procura de ajuda noutros locais”, contou Nuno Jardim, recordando que pela mesma altura houve também mais pedidos de ajuda da parte de reclusos.
De acordo com o responsável, estas pessoas viviam em situações de habitação precária, que em alguns casos podem ser considerados “sem-abrigo com teto”, uma vez que não estão institucionalizados, estão numa casa ou num quarto, mas “muitas vezes é o mesmo que estar na rua porque não tem as condições para poderem ter uma vida minimamente digna”.
Já no que diz respeito às famílias que pediram ajuda ao CASA, Nuno Jardim disse que se tratou de situações em que as pessoas ficaram sem emprego, por exemplo, que, muitas das vezes, já era precário, viram-se sem apoio e precisaram de pedir ajuda, sobretudo ao nível da alimentação ou do pagamento de despesas fixas, como a água, luz ou renda de casa.
“Que vieram muitas pessoas para a rua buscar alimentos, sim. Buscar apoio, sim. Procurar as associações, sim. Para além do normal”, sublinhou, acrescentando que esta é uma situação que se manteve ao longo dos dois anos.
Para o diretor-geral do CASA, o evoluir da situação irá depender do que “o país consiga fazer em termos socioeconómicos e não da pandemia”, adiantando que a organização apoia atualmente cerca de sete mil pessoas em todo o país, 2.500 das quais em situação de sem-abrigo.
Lembrou que se trata de um problema complexo, que não se consegue resolver com uma resposta rápida, apesar de admitir que a Estratégia Nacional tem funcionado.
Por outro lado, Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade (LBV), afirmou que o número de pessoas em situação de sem-abrigo apoiado por esta instituição se manteve mais ou menos constante nos últimos dois, três anos, ao contrário do número de famílias que procurou a organização por precisar de uma ajuda imediata, sobretudo ao nível alimentar.
De acordo com a assistente, “houve um aumento muito, muito grande” de pedidos de ajuda por parte de famílias, frisando que a associação chega a receber entre três a quatro pedidos por dia, que muitas vezes querem também ajuda para as despesas fixas, uma situação que se tem vindo a agravar desde o inicio de 2020.
Para a responsável, a pandemia foi também a culpada pelo aumento de pessoas sem-abrigo na mesma altura, quando o país se viu obrigado ao confinamento, a economia fechou e muitas pessoas que já estavam em situação de vulnerabilidade e em precariedade laboral acabaram numa situação de sem-abrigo.
A diretora-geral da Comunidade Vida e Paz partilha desta opinião e disse também que o número de pessoas sem-abrigo rondará atualmente o mesmo que se registava antes da pandemia, uma vez que aumentou nos primeiros meses de 2020, mas depois diminuiu graças a todas as respostas criadas.
“Neste momento podemos falar que estamos quase como no início em termos de pessoas que apoiamos e acompanhamos”, adiantou Renata Alves.
De acordo com a responsável, no início da pandemia houve um “grande aumento de pedidos de ajuda”, entre as pessoas que encontravam na rua, as pessoas que tinham recaídas ao nível dos consumos, mas também famílias em situação de grande vulnerabilidade social.
Nessa altura, por volta de final de março de 2020, a associação passou “a distribuir nas ruas 800 ceias, e o número normal era de cerca de 420 antes da pandemia porque havia muita carência por parte das pessoas sem-abrigo e de outras como refugiados, reclusos, ou pessoas que vieram à procura de melhores oportunidades na cidade de Lisboa e que isso depois não aconteceu”.
Dois anos depois, referiu Renata Alves, constata-se o regresso a uma realidade mais próxima do que se vivia antes da pandemia, tendo em conta que a Comunidade Vida e Paz distribui atualmente entre 420 e 460 ceias por dia.
“Deveu-se muito ao facto de terem sido criadas outras estruturas, o próprio Estado criou outras alternativas como os apartamentos partilhados e a ‘housing first’ e permitiu às pessoas [sem-abrigo] terem uma resposta para a sua integração social”, apontou.
Apontou também como preponderante o facto de muitos municípios terem criado soluções temporárias para retirar as pessoas sem-abrigo da rua, tendo em conta a situação pandemia e de saúde pública.
Este facto em particular é apontando por Gonçalo Santos, diretor técnico da CAIS, como uma das possíveis razões para que em determinadas zonas da cidade de Lisboa sejam visíveis mais pessoas a viver na rua, entendendo que esse fenómeno só por si não é indicativo de que o número de pessoas sem-abrigo tenha aumentado.
Gonçalo Santos explicou que, depois de terem encerrados as respostas temporárias para abrigar as pessoas sem-abrigo no início da pandemia, umas foram encaminhadas para outras respostas, outras não quiseram e voltaram a dormir na rua.
Nas palavras do diretor técnico da CAIS, “2020 foi efetivamente dramático” e a realidade não ficou igual com o impacto da pandemia, mas sublinhou que “não haverá mais pessoas em situação de sem-abrigo em Lisboa”.
Defendeu ainda que a estratégia nacional tem funcionado e tem trazido mais recursos no combate a este fenómeno e na integração das pessoas sem-abrigo.
Coordenador da Estratégia para Sem-Abrigo acredita numa inversão do problema
O coordenador da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) acredita numa inversão no número de pessoas nesta condição “mais tarde ou mais cedo”, mas recusa contabilizações antes de ter os dados de 2021.
Em declarações à agência Lusa, Henrique Joaquim admitiu que o problema não está resolvido e é complexo, mas, com base nos dados estatísticos mais recentes, o aumento de vagas em projetos ‘housing first’ ou apartamentos partilhados e o reforço das equipas de intervenção local, acredita que a tendência será para uma diminuição do número de pessoas.
“São indicadores que nos mostram que mais cedo ou mais tarde, e talvez mais cedo do que tarde, vamos ter uma tendência de inversão, mas consistente”, defendeu.
Os dados oficiais, que reportam ainda a 2020, indicam 8.107 pessoas na condição de sem-abrigo em Portugal e, segundo o coordenador da ENIPSSA, esta contabilização não trouxe nenhuma variável nova, antes reforçou as características já conhecidas, ou seja, concentração nas duas grandes áreas metropolitanas (Lisboa e Porto), em centros urbanos do litoral, mas também em municípios do Algarve, maioritariamente homens em idade ativa.
De acordo com Henrique Joaquim, o trabalho de recolha para 2021 começa agora a ser feito, o que o leva a dizer que é muito prematuro fazer qualquer tipo de previsão sobre a evolução do problema “porque seria impreciso de certeza absoluta”.
“Precisamos efetivamente de olhar e ter os dados de 2021 e só em função disso falar com mais rigor da pandemia como causa num movimento qualquer que ele seja do fenómeno”, defendeu.
Ainda assim afirmou que os dados recolhidos não vão no sentido de um aumento exponencial do número de pessoas sem-abrigo em 2021, apesar de admitir que possam não refletir ainda o impacto da pandemia e da crise económica provocada pela covid-19.
Segundo o responsável, na sequência da pandemia houve pessoas que ficaram na situação de sem-abrigo temporariamente porque tinham um perfil específico, normalmente ligadas a setores de atividade como a hotelaria e o turismo, com trabalhos precários e condições de habitação também precárias.
“Essas assim que tiveram oportunidade de emprego saíram da condição de sem-abrigo”, sublinhou.
Por outro lado, defendeu que é também preciso “ter cautela” com outro sintoma, em que “muitas pessoas pediram apoio alimentar e associaram logo a pessoas sem-abrigo, mas felizmente não foi verdade”.
“Eram pessoas com necessidades, mas não estavam na carência de habitação”, sublinhou.
Lembrou também que é preciso igualmente “ter muita cautela” em relação ao aparecimento de pessoas a viver na rua em determinados locais, “porque há zonas em que é sazonal”, salientando que uma das características do fenómeno é a mobilidade e que “isso também se verifica a nível micro em alguns territórios”.
“Neste momento, conscientemente, ninguém tem, e de forma racional, dados para dizer nem uma coisa nem outra [que o fenómeno aumentou ou diminuiu]”, defendeu Henrique Joaquim.
Destacou, por outro lado, que o relatório de 2020 já mostra como na área metropolitana de Lisboa tem havido um investimento nas respostas estruturais de habitação, o que levou a que haja menos pessoas sem teto, apesar de ainda continuarem a ser consideradas sem-abrigo, uma evolução que também está a acontecer noutras zonas do país.
Henrique Joaquim sublinhou que as metas podem ser ajustadas, mas os objetivos não serão alterados, destacando que a meta passa por ter entre 1.000 e 1.100 vagas protocoladas para pessoas sem-abrigo em soluções ‘housing first’ ou habitação partilhada e que neste momento se está a meio dessa meta.
Segundo o responsável, entre os projetos protocolos há uma taxa de ocupação de 80%, com cerca de 500 pessoas sem-abrigo neste tipo de respostas, dispersas pelo país.
Por outro lado, apontou que tem havido um reforço das equipas de intervenção local, para que todas as pessoas tenham um técnico gestor, e adiantou que há núcleos locais que dão conta de que a meta já está nos 100%.
Disse ainda que continuam a ser reforçados os apoios a projetos que garantam a integração das pessoas sem-abrigo, nomeadamente no mercado de trabalho.
O número de pessoas em situação de sem-abrigo estabilizou e voltou ao registado antes da pandemia. Dados são de várias organizações, que se queixam de um ano de 2020 "dramático".
O número de pessoas em situação de sem-abrigo estabilizou e voltou ao registado antes da pandemia. A garantia foi adiantada à Lusa por várias organizações, depois de um ano de 2020 “dramático” em que os pedidos de ajuda se multiplicaram, sobretudo de famílias.
O diretor-geral do Centro de Acolhimento de Sem-Abrigo (CASA) admitiu à Lusa que nos últimos dois anos houve um aumento em cerca de 40% do número de pessoas que foram pedir ajuda à associação, sobretudo famílias, uma percentagem que chegou aos 75% entre as pessoas sem-abrigo.
“Apareceram pessoas com características novas, muito mais estrangeiros, pessoas que trabalhavam na hotelaria, por exemplo, e que ficaram desprovidas de apoios e foram à procura de ajuda noutros locais”, contou Nuno Jardim, recordando que pela mesma altura houve também mais pedidos de ajuda da parte de reclusos.
De acordo com o responsável, estas pessoas viviam em situações de habitação precária, que em alguns casos podem ser considerados “sem-abrigo com teto”, uma vez que não estão institucionalizados, estão numa casa ou num quarto, mas “muitas vezes é o mesmo que estar na rua porque não tem as condições para poderem ter uma vida minimamente digna”.
Já no que diz respeito às famílias que pediram ajuda ao CASA, Nuno Jardim disse que se tratou de situações em que as pessoas ficaram sem emprego, por exemplo, que, muitas das vezes, já era precário, viram-se sem apoio e precisaram de pedir ajuda, sobretudo ao nível da alimentação ou do pagamento de despesas fixas, como a água, luz ou renda de casa.
“Que vieram muitas pessoas para a rua buscar alimentos, sim. Buscar apoio, sim. Procurar as associações, sim. Para além do normal”, sublinhou, acrescentando que esta é uma situação que se manteve ao longo dos dois anos.
Para o diretor-geral do CASA, o evoluir da situação irá depender do que “o país consiga fazer em termos socioeconómicos e não da pandemia”, adiantando que a organização apoia atualmente cerca de sete mil pessoas em todo o país, 2.500 das quais em situação de sem-abrigo.
Lembrou que se trata de um problema complexo, que não se consegue resolver com uma resposta rápida, apesar de admitir que a Estratégia Nacional tem funcionado.
Por outro lado, Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade (LBV), afirmou que o número de pessoas em situação de sem-abrigo apoiado por esta instituição se manteve mais ou menos constante nos últimos dois, três anos, ao contrário do número de famílias que procurou a organização por precisar de uma ajuda imediata, sobretudo ao nível alimentar.
De acordo com a assistente, “houve um aumento muito, muito grande” de pedidos de ajuda por parte de famílias, frisando que a associação chega a receber entre três a quatro pedidos por dia, que muitas vezes querem também ajuda para as despesas fixas, uma situação que se tem vindo a agravar desde o inicio de 2020.
Para a responsável, a pandemia foi também a culpada pelo aumento de pessoas sem-abrigo na mesma altura, quando o país se viu obrigado ao confinamento, a economia fechou e muitas pessoas que já estavam em situação de vulnerabilidade e em precariedade laboral acabaram numa situação de sem-abrigo.
A diretora-geral da Comunidade Vida e Paz partilha desta opinião e disse também que o número de pessoas sem-abrigo rondará atualmente o mesmo que se registava antes da pandemia, uma vez que aumentou nos primeiros meses de 2020, mas depois diminuiu graças a todas as respostas criadas.
“Neste momento podemos falar que estamos quase como no início em termos de pessoas que apoiamos e acompanhamos”, adiantou Renata Alves.
De acordo com a responsável, no início da pandemia houve um “grande aumento de pedidos de ajuda”, entre as pessoas que encontravam na rua, as pessoas que tinham recaídas ao nível dos consumos, mas também famílias em situação de grande vulnerabilidade social.
Nessa altura, por volta de final de março de 2020, a associação passou “a distribuir nas ruas 800 ceias, e o número normal era de cerca de 420 antes da pandemia porque havia muita carência por parte das pessoas sem-abrigo e de outras como refugiados, reclusos, ou pessoas que vieram à procura de melhores oportunidades na cidade de Lisboa e que isso depois não aconteceu”.
Dois anos depois, referiu Renata Alves, constata-se o regresso a uma realidade mais próxima do que se vivia antes da pandemia, tendo em conta que a Comunidade Vida e Paz distribui atualmente entre 420 e 460 ceias por dia.
“Deveu-se muito ao facto de terem sido criadas outras estruturas, o próprio Estado criou outras alternativas como os apartamentos partilhados e a ‘housing first’ e permitiu às pessoas [sem-abrigo] terem uma resposta para a sua integração social”, apontou.
Apontou também como preponderante o facto de muitos municípios terem criado soluções temporárias para retirar as pessoas sem-abrigo da rua, tendo em conta a situação pandemia e de saúde pública.
Este facto em particular é apontando por Gonçalo Santos, diretor técnico da CAIS, como uma das possíveis razões para que em determinadas zonas da cidade de Lisboa sejam visíveis mais pessoas a viver na rua, entendendo que esse fenómeno só por si não é indicativo de que o número de pessoas sem-abrigo tenha aumentado.
Gonçalo Santos explicou que, depois de terem encerrados as respostas temporárias para abrigar as pessoas sem-abrigo no início da pandemia, umas foram encaminhadas para outras respostas, outras não quiseram e voltaram a dormir na rua.
Nas palavras do diretor técnico da CAIS, “2020 foi efetivamente dramático” e a realidade não ficou igual com o impacto da pandemia, mas sublinhou que “não haverá mais pessoas em situação de sem-abrigo em Lisboa”.
Defendeu ainda que a estratégia nacional tem funcionado e tem trazido mais recursos no combate a este fenómeno e na integração das pessoas sem-abrigo.
Coordenador da Estratégia para Sem-Abrigo acredita numa inversão do problema
O coordenador da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) acredita numa inversão no número de pessoas nesta condição “mais tarde ou mais cedo”, mas recusa contabilizações antes de ter os dados de 2021.
Em declarações à agência Lusa, Henrique Joaquim admitiu que o problema não está resolvido e é complexo, mas, com base nos dados estatísticos mais recentes, o aumento de vagas em projetos ‘housing first’ ou apartamentos partilhados e o reforço das equipas de intervenção local, acredita que a tendência será para uma diminuição do número de pessoas.
“São indicadores que nos mostram que mais cedo ou mais tarde, e talvez mais cedo do que tarde, vamos ter uma tendência de inversão, mas consistente”, defendeu.
Os dados oficiais, que reportam ainda a 2020, indicam 8.107 pessoas na condição de sem-abrigo em Portugal e, segundo o coordenador da ENIPSSA, esta contabilização não trouxe nenhuma variável nova, antes reforçou as características já conhecidas, ou seja, concentração nas duas grandes áreas metropolitanas (Lisboa e Porto), em centros urbanos do litoral, mas também em municípios do Algarve, maioritariamente homens em idade ativa.
De acordo com Henrique Joaquim, o trabalho de recolha para 2021 começa agora a ser feito, o que o leva a dizer que é muito prematuro fazer qualquer tipo de previsão sobre a evolução do problema “porque seria impreciso de certeza absoluta”.
“Precisamos efetivamente de olhar e ter os dados de 2021 e só em função disso falar com mais rigor da pandemia como causa num movimento qualquer que ele seja do fenómeno”, defendeu.
Ainda assim afirmou que os dados recolhidos não vão no sentido de um aumento exponencial do número de pessoas sem-abrigo em 2021, apesar de admitir que possam não refletir ainda o impacto da pandemia e da crise económica provocada pela covid-19.
Segundo o responsável, na sequência da pandemia houve pessoas que ficaram na situação de sem-abrigo temporariamente porque tinham um perfil específico, normalmente ligadas a setores de atividade como a hotelaria e o turismo, com trabalhos precários e condições de habitação também precárias.
“Essas assim que tiveram oportunidade de emprego saíram da condição de sem-abrigo”, sublinhou.
Por outro lado, defendeu que é também preciso “ter cautela” com outro sintoma, em que “muitas pessoas pediram apoio alimentar e associaram logo a pessoas sem-abrigo, mas felizmente não foi verdade”.
“Eram pessoas com necessidades, mas não estavam na carência de habitação”, sublinhou.
Lembrou também que é preciso igualmente “ter muita cautela” em relação ao aparecimento de pessoas a viver na rua em determinados locais, “porque há zonas em que é sazonal”, salientando que uma das características do fenómeno é a mobilidade e que “isso também se verifica a nível micro em alguns territórios”.
“Neste momento, conscientemente, ninguém tem, e de forma racional, dados para dizer nem uma coisa nem outra [que o fenómeno aumentou ou diminuiu]”, defendeu Henrique Joaquim.
Destacou, por outro lado, que o relatório de 2020 já mostra como na área metropolitana de Lisboa tem havido um investimento nas respostas estruturais de habitação, o que levou a que haja menos pessoas sem teto, apesar de ainda continuarem a ser consideradas sem-abrigo, uma evolução que também está a acontecer noutras zonas do país.
Henrique Joaquim sublinhou que as metas podem ser ajustadas, mas os objetivos não serão alterados, destacando que a meta passa por ter entre 1.000 e 1.100 vagas protocoladas para pessoas sem-abrigo em soluções ‘housing first’ ou habitação partilhada e que neste momento se está a meio dessa meta.
Segundo o responsável, entre os projetos protocolos há uma taxa de ocupação de 80%, com cerca de 500 pessoas sem-abrigo neste tipo de respostas, dispersas pelo país.
Por outro lado, apontou que tem havido um reforço das equipas de intervenção local, para que todas as pessoas tenham um técnico gestor, e adiantou que há núcleos locais que dão conta de que a meta já está nos 100%.
Disse ainda que continuam a ser reforçados os apoios a projetos que garantam a integração das pessoas sem-abrigo, nomeadamente no mercado de trabalho.
12.1.22
Descida na idade da reforma antecipa cenário de falta de professores
Samuel Silva, in Público on-line
Será preciso contratar perto de 3600 docentes em 2023/24, mais 800 do que o previsto no estudo apresentado pelo Ministério da Educação em Novembro. O total de professores necessários na próxima década não sofre, porém, mexidas. Com o fim da pandemia, a idade da aposentação deverá voltar aos valores habituais.
A descida na idade da reforma, provocada pela mortalidade em excesso associada à pandemia, vai antecipar o cenário de falta de professores com que o país terá de lidar na próxima década. Em 2023/24, será necessário recrutar cerca de 3600 docentes, mais 800 do que o inicialmente previsto no estudo de diagnóstico que o Ministério da Educação (ME) encomendou a investigadores da Universidade Nova de Lisboa. No entanto, o número de professores necessário até 2030/31 não sofre alterações.
As contas do PÚBLICO têm como ponto de partida o “Estudo de diagnóstico de necessidades docentes de 2021 a 2030”, feito por investigadores da Universidade Nova de Lisboa, que foi apresentado em Novembro. Os números foram validados por Luís Catela Nunes e Pedro Freitas, que integraram essa equipa de especialistas.
Com o excesso de mortalidade associado à pandemia, a esperança de vida recuou entre 2019 e 2021 e a idade da reforma acompanha esta evolução, passando dos 66 anos e sete meses exigidos em 2022, para os 66 anos e quatro meses em 2023. Este efeito da pandemia pode prolongar-se pelos anos seguintes, com um recuo da idade da reforma também em 2024.
Esta estimativa tem, por isso, em consideração um impacto da redução da idade da reforma durante dois anos — assumindo que, com o final da pandemia, o indicador regressará aos valores habituais antes da covid-19.
Assim sendo, será necessário recrutar, em 2023/24, mais 808 professores do que o estimado no estudo apresentado há dois meses. Isto é, serão precisos 3602 novos docentes, em vez dos 2794 previstos. O efeito prolonga-se, embora com menos impacto, em 2024/25, havendo um acréscimo de 22 profissionais — totalizando 3252 contratações.
“A redução da idade da aposentação num certo ano irá levar a uma antecipação de algumas das aposentações que normalmente ocorreriam apenas no ano seguinte”, explica Luís Catela Nunes, da Universidade Nova de Lisboa. “A consequência óbvia é que haverá também uma antecipação das necessidades de recrutamento de novos docentes.”
Isto é, depois de um aumento das necessidades de recrutamento 2023/24 e 2024/25, haverá um recuo nas contratações previstas no estudo para 2025/26. Serão agora precisos 2486 docentes nesse ano lectivo, menos 830 do que o inicialmente estimado.
Estas contas não usam o modelo do estudo. A estimativa é feita contabilizando uma redução de três meses na idade de aposentação, que equivale a um quarto de um ano. Ou seja, são antecipadas 25% das necessidades dos dois anos em que a diminuição da idade da reforma tem impacto nas aposentações dos professores.
A redução da idade da aposentação num certo ano irá levar a uma antecipação de algumas das aposentações que normalmente ocorreriam apenas no ano seguinte” Luís Catela Nunes, da Universidade Nova de Lisboa
Pode, por isso, haver algumas variações quantitativas, mas “em termos qualitativos chegar-se-ia à mesma conclusão”, aponta Catela Nunes. Isto é, “a redução da idade da aposentação leva a uma antecipação no tempo das necessidades de recrutamento de novos docentes criando por isso um pico de necessidades mais cedo do que estava projectado”.
Contratar 34 mil numa década
Esperando-se um regresso ao cenário “normal” depois da pandemia, a redução da idade de aposentação não muda a contabilidade final apresentada pelos especialistas da Universidade Nova de Lisboa. Ou seja, até 2030 continuará a ser preciso contratar mais de 34 mil professores para o ensino público.
O impacto das mexidas na idade da reforma “não é muito significativo” nas aposentações de professores, avalia o secretário-geral da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Mário Nogueira. O dirigente sindical até espera efeitos menos pronunciados do que os estimados pelo PÚBLICO. Isto porque os docentes que estão perto dos 66 anos cumprem outros pressupostos, como o facto de terem já atingido os 40 anos de serviço, que lhes permitem reformar-se antes da idade legal. “São pessoas que entraram ao serviço no final da década de 1970 e inícios dos anos 1980, alguns com 19 ou 20 anos”, explica Nogueira.
O estudo encomendado pelo ME tem em consideração um cenário em que todos os docentes se aposentam aos 66 anos, dado que esta é a idade na qual a maioria dos professores termina a sua carreira.
Mantém-se, no entanto, “o problema de fundo” que é “complicado” de solucionar, prossegue Mário Nogueira: a falta de docentes tenderá a agravar-se e a tornar mais urgente o recrutamento de mais profissionais. O secretário-geral da Fenprof acredita mesmo que os 34 mil professores necessários estimados pelos especialistas da Universidade Nova de Lisboa pode ser “um número simpático”. “Em anos anteriores, tem havido mais 15 a 20% de aposentações do que o esperado, em virtude das reformas antecipadas de alguns colegas”, explica. “Estão tão cansados que não se importam de ter alguma penalização.”
O problema de falta de docentes tem-se agudizado e marcou o 1.º período deste ano lectivo. Antes das férias de Natal, ainda havia cerca de 10 mil alunos sem aulas, segundo a estimativa da Fenprof.
A gravidade do cenário actual faz com que o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, tenha uma perspectiva pessimista: “Não há tempo para resolver hoje os problemas que vamos enfrentar dentro de dois ou três anos.” O país devia, sim, “parar para pensar e resolver o problema de médio prazo”, que, a seu ver, prende-se com a atracção de estudantes para os cursos que dão acesso à docência.
O número de estudantes inscritos em cursos superiores de Educação caiu cerca de 70% desde o início do século. A tendência histórica tem tido uma ligeira inversão nos últimos anos, mas que ainda não é suficiente para compensar esta quebra de duas décadas. “A profissão não é atractiva para os jovens. Enquanto assim for, não vamos resolver o problema”, entende Pereira.
Será preciso contratar perto de 3600 docentes em 2023/24, mais 800 do que o previsto no estudo apresentado pelo Ministério da Educação em Novembro. O total de professores necessários na próxima década não sofre, porém, mexidas. Com o fim da pandemia, a idade da aposentação deverá voltar aos valores habituais.
A descida na idade da reforma, provocada pela mortalidade em excesso associada à pandemia, vai antecipar o cenário de falta de professores com que o país terá de lidar na próxima década. Em 2023/24, será necessário recrutar cerca de 3600 docentes, mais 800 do que o inicialmente previsto no estudo de diagnóstico que o Ministério da Educação (ME) encomendou a investigadores da Universidade Nova de Lisboa. No entanto, o número de professores necessário até 2030/31 não sofre alterações.
As contas do PÚBLICO têm como ponto de partida o “Estudo de diagnóstico de necessidades docentes de 2021 a 2030”, feito por investigadores da Universidade Nova de Lisboa, que foi apresentado em Novembro. Os números foram validados por Luís Catela Nunes e Pedro Freitas, que integraram essa equipa de especialistas.
Com o excesso de mortalidade associado à pandemia, a esperança de vida recuou entre 2019 e 2021 e a idade da reforma acompanha esta evolução, passando dos 66 anos e sete meses exigidos em 2022, para os 66 anos e quatro meses em 2023. Este efeito da pandemia pode prolongar-se pelos anos seguintes, com um recuo da idade da reforma também em 2024.
Esta estimativa tem, por isso, em consideração um impacto da redução da idade da reforma durante dois anos — assumindo que, com o final da pandemia, o indicador regressará aos valores habituais antes da covid-19.
Assim sendo, será necessário recrutar, em 2023/24, mais 808 professores do que o estimado no estudo apresentado há dois meses. Isto é, serão precisos 3602 novos docentes, em vez dos 2794 previstos. O efeito prolonga-se, embora com menos impacto, em 2024/25, havendo um acréscimo de 22 profissionais — totalizando 3252 contratações.
“A redução da idade da aposentação num certo ano irá levar a uma antecipação de algumas das aposentações que normalmente ocorreriam apenas no ano seguinte”, explica Luís Catela Nunes, da Universidade Nova de Lisboa. “A consequência óbvia é que haverá também uma antecipação das necessidades de recrutamento de novos docentes.”
Isto é, depois de um aumento das necessidades de recrutamento 2023/24 e 2024/25, haverá um recuo nas contratações previstas no estudo para 2025/26. Serão agora precisos 2486 docentes nesse ano lectivo, menos 830 do que o inicialmente estimado.
Estas contas não usam o modelo do estudo. A estimativa é feita contabilizando uma redução de três meses na idade de aposentação, que equivale a um quarto de um ano. Ou seja, são antecipadas 25% das necessidades dos dois anos em que a diminuição da idade da reforma tem impacto nas aposentações dos professores.
A redução da idade da aposentação num certo ano irá levar a uma antecipação de algumas das aposentações que normalmente ocorreriam apenas no ano seguinte” Luís Catela Nunes, da Universidade Nova de Lisboa
Pode, por isso, haver algumas variações quantitativas, mas “em termos qualitativos chegar-se-ia à mesma conclusão”, aponta Catela Nunes. Isto é, “a redução da idade da aposentação leva a uma antecipação no tempo das necessidades de recrutamento de novos docentes criando por isso um pico de necessidades mais cedo do que estava projectado”.
Contratar 34 mil numa década
Esperando-se um regresso ao cenário “normal” depois da pandemia, a redução da idade de aposentação não muda a contabilidade final apresentada pelos especialistas da Universidade Nova de Lisboa. Ou seja, até 2030 continuará a ser preciso contratar mais de 34 mil professores para o ensino público.
O impacto das mexidas na idade da reforma “não é muito significativo” nas aposentações de professores, avalia o secretário-geral da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Mário Nogueira. O dirigente sindical até espera efeitos menos pronunciados do que os estimados pelo PÚBLICO. Isto porque os docentes que estão perto dos 66 anos cumprem outros pressupostos, como o facto de terem já atingido os 40 anos de serviço, que lhes permitem reformar-se antes da idade legal. “São pessoas que entraram ao serviço no final da década de 1970 e inícios dos anos 1980, alguns com 19 ou 20 anos”, explica Nogueira.
O estudo encomendado pelo ME tem em consideração um cenário em que todos os docentes se aposentam aos 66 anos, dado que esta é a idade na qual a maioria dos professores termina a sua carreira.
Mantém-se, no entanto, “o problema de fundo” que é “complicado” de solucionar, prossegue Mário Nogueira: a falta de docentes tenderá a agravar-se e a tornar mais urgente o recrutamento de mais profissionais. O secretário-geral da Fenprof acredita mesmo que os 34 mil professores necessários estimados pelos especialistas da Universidade Nova de Lisboa pode ser “um número simpático”. “Em anos anteriores, tem havido mais 15 a 20% de aposentações do que o esperado, em virtude das reformas antecipadas de alguns colegas”, explica. “Estão tão cansados que não se importam de ter alguma penalização.”
O problema de falta de docentes tem-se agudizado e marcou o 1.º período deste ano lectivo. Antes das férias de Natal, ainda havia cerca de 10 mil alunos sem aulas, segundo a estimativa da Fenprof.
A gravidade do cenário actual faz com que o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, tenha uma perspectiva pessimista: “Não há tempo para resolver hoje os problemas que vamos enfrentar dentro de dois ou três anos.” O país devia, sim, “parar para pensar e resolver o problema de médio prazo”, que, a seu ver, prende-se com a atracção de estudantes para os cursos que dão acesso à docência.
O número de estudantes inscritos em cursos superiores de Educação caiu cerca de 70% desde o início do século. A tendência histórica tem tido uma ligeira inversão nos últimos anos, mas que ainda não é suficiente para compensar esta quebra de duas décadas. “A profissão não é atractiva para os jovens. Enquanto assim for, não vamos resolver o problema”, entende Pereira.
18.11.21
Covid-19: estudo encontrou o medo e a solidão em oito milhões de chamadas telefónicas
Andrea Cunha Freitas, in Público on-line
Investigação sobre saúde mental conclui que as chamadas para linhas de apoio atingiram o pico seis semanas após o surto inicial da pandemia, excedendo os níveis pré-pandémicos em 35%.
Cientistas analisaram oito milhões de chamadas recebidas em 23 linhas de apoio de 14 países europeus, incluindo Portugal, e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano.,Cientistas analisaram oito milhões de chamadas recebidas em 23 linhas de apoio de 14 países europeus, incluindo Portugal, e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano.
O trabalho publicado esta quarta-feira na revista Nature envolveu a análise de oito milhões de chamadas recebidas em 23 linhas de apoio de 14 países europeus, incluindo a SOS Voz Amiga, em Portugal, e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano. Os investigadores confirmaram um aumento das chamadas logo após a primeira onda da covid-19 e concluíram que esta sobrecarga de pedidos de ajuda foi motivada sobretudo pelo medo (incluindo o medo da infecção) e pela solidão. Mais do que exacerbar velhas ansiedades e angústias, a pandemia substituiu-as.
Concluir que houve um aumento de chamadas para as linhas de apoio durante a pandemia é algo que parece pouco surpreendente, mas os investigadores do artigo publicado agora na Nature foram um pouco mais longe do que isso. Tentaram perceber o que é que este aumento e, mais precisamente, o que é que estas chamadas diziam sobre a saúde mental pública durante a crise que mexeu com o mundo todo.
“As chamadas da linha de ajuda aumentaram durante a pandemia, e este aumento foi motivado principalmente por preocupações ligadas à pandemia (como o medo de infecção e a solidão). Em contrapartida, em média, a quota de chamadas devido a outras formas de angústia, incluindo suicídio, violência e dependência, diminuiu”, constatam.
Os problemas de relacionamento, problemas económicos, violência e a ideação de suicídio não desapareceram, mas eram menos prevalecentes do que antes da pandemia. E o padrão, dizem ainda os autores do trabalho, surgiu durante a primeira onda da pandemia, mas continuou durante as subsequentes ondas de covid-19. Um novo anormal.
O alívio no apoio financeiro
Numa análise ainda mais fina, os investigadores também viram que temas directamente ligados à pandemia terão substituído, em vez de exacerbar, as ansiedades que existiam antes. Mais: o número de chamadas relacionadas com o suicídio aumentou em momentos em que foram adoptadas medidas de isolamento mais rigorosas.
A esta improvável coincidência soma-se ainda o facto de os pedidos de ajuda diminuírem quando eram anunciadas medidas de apoio financeiro. “Isto sugere que o alívio financeiro pode aliviar o sofrimento desencadeado por medidas de lockdown”, concluem os autores que nas conclusões do artigo esclarecem ainda que “pagamentos de compensação a trabalhadores e empresas afectados economicamente pela covid-19, que eram concebidos para preservar a procura e a capacidade produtiva, têm benefícios em aliviar a angústia e as preocupações com a saúde mental”.
Os cientistas que analisaram mais de oito milhões de chamadas para linhas de apoio justificam que esta análise aos dados das linhas de apoio são um complemento importante para juntar às “abordagens empíricas existentes”, baseadas em inquéritos, administrativos e clínicos, bem como em outro tipo de informações como estatísticas de suicídios, admissões em centros de tratamento ou mesmo o rasto das pesquisas realizadas na Internet. A equipa garante ainda que “a estrutura do painel de dados permitiu estimar modelos multivariados” que fazem com que seja possível separar os efeitos da própria pandemia dos do rigor das medidas restritivas e das medidas políticas de apoio aos rendimentos da população.
A investigação não oferece nenhuma análise específica sobre o local de origem das chamadas, nem faz nenhum tipo de comparação entre os vários países que fazem parte do trabalho. Refere-se apenas que foram analisadas 23 linhas de apoio de 14 países europeus e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano. Nos agradecimentos é possível perceber que, entre outras linhas de outras nações, foram usados os dados da linha SOS Voz Amiga, em Portugal.
“Os dados de SOS Voz Amiga estão incluídos apenas na análise subjacente sobre o volume de chamadas. Embora também registem alguns detalhes sobre as características e questões da pessoa que faz a chamada, a cobertura não foi suficientemente consistente para ser incluída nas outras análises”, refere ao PÚBLICO Valentin Klotzbücher, um dos autores do artigo.
Forças e limitações
“Baseámo-nos em dados de chamadas para linhas de apoio internacionais para lançar luz sobre uma estatística desconhecida da política pandémica: preocupações de saúde mental e angústia da população”, resumem os investigadores.
Mas se, por um lado, apresentam as vantagens desta relevante fonte de informação que se deve juntar a outros dados para a análise da saúde mental pública, por outro, os autores também reconhecem as suas limitações. “A contagem das chamadas pode ser influenciada não só pela procura, mas também pela oferta, uma vez que as limitações de capacidade de resposta podem levar os operadores a deixar algumas chamadas não atendidas”, referem. Ou seja, o registo de um menor número de chamadas atendidas pode não reflectir uma redução do número de chamadas realizadas.
Ainda assim, isso não afectaria as conclusões a retirar sobre os motivos que levam as pessoas a procurar ajuda, argumentam os investigadores. “Como as chamadas não são pré-seleccionadas, é pouco provável que as limitações afectem as análises da composição das chamadas em termos de assuntos ou características das pessoas que faz a chamada”, sustentam.
Valentin Klotzbücher acrescenta que o trabalho inclui alguns detalhes “sobre a composição das pessoas que telefonam para as linhas de ajuda” e exemplifica: “Para as pessoas com menos de 30 anos, encontramos um aumento das chamadas relacionadas com a saúde física e – para as mulheres jovens – também com a violência.”
Outra das limitações do estudo será deixar de fora uma população muito frágil que também pode terá sido afectada pela pandemia e que não recorre a estas linhas de apoio: as crianças. Confrontado com essa lacuna e questionado sobre os próximos passos da investigação, Valentin Klotzbücher dá uma só resposta para as duas questões: “No futuro, estamos de facto a planear olhar mais de perto para o efeito de medidas específicas (tais como o encerramento de escolas) nas crianças. A linha alemã de ajuda às crianças e jovens Nummer gegen Kummer oferece informação particularmente rica sobre este grupo, no entanto ainda estamos a analisar os dados e não posso dizer-vos mais nada ainda.”
Este estudo na Nature pode ainda abrir a porta para uma arriscada extrapolação de algumas conclusões sobre o estado da saúde mental pública a partir de um grupo de pessoas que não é possível caracterizar em termos de estatuto sociodemográfico, saúde, profissão, nacionalidade e outros factores. Porém, mesmo admitindo espaço para essas reservas, os cientistas argumentam que os trabalhadores destas linhas de apoio confirmam que a população que normalmente faz estas chamadas “inclui os membros mais vulneráveis da sociedade”. E são esses, sublinham, que representam “a população de maior interesse num estudo sobre a angústia e as preocupações com a saúde mental”.
Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal
SOS Voz Amiga
(entre as 16 e as 24h00)
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60
Telefone da Amizade
22 832 35 35
Escutar - Voz de Apoio – Gaia
22 550 60 70
SOS Estudante
(20h00 à 1h00)
969 554 545
Vozes Amigas de Esperança
(20h00 às 23h00)
22 208 07 07
Centro Internet Segura
800 21 90 90
Conversa Amiga
808 237 327
210 027 159
Telefone da Esperança
222 030 707
Investigação sobre saúde mental conclui que as chamadas para linhas de apoio atingiram o pico seis semanas após o surto inicial da pandemia, excedendo os níveis pré-pandémicos em 35%.
Cientistas analisaram oito milhões de chamadas recebidas em 23 linhas de apoio de 14 países europeus, incluindo Portugal, e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano.,Cientistas analisaram oito milhões de chamadas recebidas em 23 linhas de apoio de 14 países europeus, incluindo Portugal, e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano.
O trabalho publicado esta quarta-feira na revista Nature envolveu a análise de oito milhões de chamadas recebidas em 23 linhas de apoio de 14 países europeus, incluindo a SOS Voz Amiga, em Portugal, e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano. Os investigadores confirmaram um aumento das chamadas logo após a primeira onda da covid-19 e concluíram que esta sobrecarga de pedidos de ajuda foi motivada sobretudo pelo medo (incluindo o medo da infecção) e pela solidão. Mais do que exacerbar velhas ansiedades e angústias, a pandemia substituiu-as.
Concluir que houve um aumento de chamadas para as linhas de apoio durante a pandemia é algo que parece pouco surpreendente, mas os investigadores do artigo publicado agora na Nature foram um pouco mais longe do que isso. Tentaram perceber o que é que este aumento e, mais precisamente, o que é que estas chamadas diziam sobre a saúde mental pública durante a crise que mexeu com o mundo todo.
“As chamadas da linha de ajuda aumentaram durante a pandemia, e este aumento foi motivado principalmente por preocupações ligadas à pandemia (como o medo de infecção e a solidão). Em contrapartida, em média, a quota de chamadas devido a outras formas de angústia, incluindo suicídio, violência e dependência, diminuiu”, constatam.
Os problemas de relacionamento, problemas económicos, violência e a ideação de suicídio não desapareceram, mas eram menos prevalecentes do que antes da pandemia. E o padrão, dizem ainda os autores do trabalho, surgiu durante a primeira onda da pandemia, mas continuou durante as subsequentes ondas de covid-19. Um novo anormal.
O alívio no apoio financeiro
Numa análise ainda mais fina, os investigadores também viram que temas directamente ligados à pandemia terão substituído, em vez de exacerbar, as ansiedades que existiam antes. Mais: o número de chamadas relacionadas com o suicídio aumentou em momentos em que foram adoptadas medidas de isolamento mais rigorosas.
A esta improvável coincidência soma-se ainda o facto de os pedidos de ajuda diminuírem quando eram anunciadas medidas de apoio financeiro. “Isto sugere que o alívio financeiro pode aliviar o sofrimento desencadeado por medidas de lockdown”, concluem os autores que nas conclusões do artigo esclarecem ainda que “pagamentos de compensação a trabalhadores e empresas afectados economicamente pela covid-19, que eram concebidos para preservar a procura e a capacidade produtiva, têm benefícios em aliviar a angústia e as preocupações com a saúde mental”.
Os cientistas que analisaram mais de oito milhões de chamadas para linhas de apoio justificam que esta análise aos dados das linhas de apoio são um complemento importante para juntar às “abordagens empíricas existentes”, baseadas em inquéritos, administrativos e clínicos, bem como em outro tipo de informações como estatísticas de suicídios, admissões em centros de tratamento ou mesmo o rasto das pesquisas realizadas na Internet. A equipa garante ainda que “a estrutura do painel de dados permitiu estimar modelos multivariados” que fazem com que seja possível separar os efeitos da própria pandemia dos do rigor das medidas restritivas e das medidas políticas de apoio aos rendimentos da população.
A investigação não oferece nenhuma análise específica sobre o local de origem das chamadas, nem faz nenhum tipo de comparação entre os vários países que fazem parte do trabalho. Refere-se apenas que foram analisadas 23 linhas de apoio de 14 países europeus e ainda os EUA, China, Hong Kong, Israel e Líbano. Nos agradecimentos é possível perceber que, entre outras linhas de outras nações, foram usados os dados da linha SOS Voz Amiga, em Portugal.
“Os dados de SOS Voz Amiga estão incluídos apenas na análise subjacente sobre o volume de chamadas. Embora também registem alguns detalhes sobre as características e questões da pessoa que faz a chamada, a cobertura não foi suficientemente consistente para ser incluída nas outras análises”, refere ao PÚBLICO Valentin Klotzbücher, um dos autores do artigo.
Forças e limitações
“Baseámo-nos em dados de chamadas para linhas de apoio internacionais para lançar luz sobre uma estatística desconhecida da política pandémica: preocupações de saúde mental e angústia da população”, resumem os investigadores.
Mas se, por um lado, apresentam as vantagens desta relevante fonte de informação que se deve juntar a outros dados para a análise da saúde mental pública, por outro, os autores também reconhecem as suas limitações. “A contagem das chamadas pode ser influenciada não só pela procura, mas também pela oferta, uma vez que as limitações de capacidade de resposta podem levar os operadores a deixar algumas chamadas não atendidas”, referem. Ou seja, o registo de um menor número de chamadas atendidas pode não reflectir uma redução do número de chamadas realizadas.
Ainda assim, isso não afectaria as conclusões a retirar sobre os motivos que levam as pessoas a procurar ajuda, argumentam os investigadores. “Como as chamadas não são pré-seleccionadas, é pouco provável que as limitações afectem as análises da composição das chamadas em termos de assuntos ou características das pessoas que faz a chamada”, sustentam.
Valentin Klotzbücher acrescenta que o trabalho inclui alguns detalhes “sobre a composição das pessoas que telefonam para as linhas de ajuda” e exemplifica: “Para as pessoas com menos de 30 anos, encontramos um aumento das chamadas relacionadas com a saúde física e – para as mulheres jovens – também com a violência.”
Outra das limitações do estudo será deixar de fora uma população muito frágil que também pode terá sido afectada pela pandemia e que não recorre a estas linhas de apoio: as crianças. Confrontado com essa lacuna e questionado sobre os próximos passos da investigação, Valentin Klotzbücher dá uma só resposta para as duas questões: “No futuro, estamos de facto a planear olhar mais de perto para o efeito de medidas específicas (tais como o encerramento de escolas) nas crianças. A linha alemã de ajuda às crianças e jovens Nummer gegen Kummer oferece informação particularmente rica sobre este grupo, no entanto ainda estamos a analisar os dados e não posso dizer-vos mais nada ainda.”
Este estudo na Nature pode ainda abrir a porta para uma arriscada extrapolação de algumas conclusões sobre o estado da saúde mental pública a partir de um grupo de pessoas que não é possível caracterizar em termos de estatuto sociodemográfico, saúde, profissão, nacionalidade e outros factores. Porém, mesmo admitindo espaço para essas reservas, os cientistas argumentam que os trabalhadores destas linhas de apoio confirmam que a população que normalmente faz estas chamadas “inclui os membros mais vulneráveis da sociedade”. E são esses, sublinham, que representam “a população de maior interesse num estudo sobre a angústia e as preocupações com a saúde mental”.
Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal
SOS Voz Amiga
(entre as 16 e as 24h00)
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60
Telefone da Amizade
22 832 35 35
Escutar - Voz de Apoio – Gaia
22 550 60 70
SOS Estudante
(20h00 à 1h00)
969 554 545
Vozes Amigas de Esperança
(20h00 às 23h00)
22 208 07 07
Centro Internet Segura
800 21 90 90
Conversa Amiga
808 237 327
210 027 159
Telefone da Esperança
222 030 707
15.9.21
Igreja despeja idosos para vender ilha do Porto a investidor
André Borges Vieira e Paulo Pimenta, in Público on-line
Só um inquilino permanecerá no conjunto habitacional. Diocese do Porto diz agora estar a encontrar soluções com o actual proprietário. Porém, o novo senhorio desmente.
Aos 69 anos, ao fim de 34 anos a morar na Ilha da Oliveira, às portas do centro do Porto, Maria Luísa foi surpreendida com uma ordem de despejo. O remetente da carta era o proprietário do conjunto de casas, até há cinco meses: a Diocese do Porto. Nas linhas que davam conta da não renovação do contrato não existia qualquer explicação para a saída forçada, nem lá constava qualquer solução para o problema de habitação que agora enfrenta. Só ficou a saber que, até Março de 2022, a sua casa tinha de estar desocupada. Entretanto, as nove fracções do conjunto habitacional já foram vendidas, em Abril, a um investidor do sector imobiliário. Mas a esta inquilina ou aos outros que ainda resistem continua a não lhes ter sido apresentada qualquer solução. A diocese diz estar a trabalhar nesse assunto com o actual proprietário. Porém, o novo senhorio desmente. Quando o contrato acabar, os moradores não têm para onde ir viver.
Há cerca de um ano, Maria Luísa e os vizinhos estranharam as sucessivas visitas feitas à ilha por parte de membros da diocese que se faziam acompanhar de “outras pessoas”. “Vinham todas as semanas”, recorda. A dada altura, terá interpelado um responsável pela instituição. “Perguntei se estavam a pensar vender a ilha”, conta. A resposta, diz, deixou-a mais descansada: “Disseram que só iam vender a casa da frente, que já está desocupada desde que vim para aqui. Garantiram-me que não iam vender as outras e disseram para ficar tranquila”.
A ilha, situada numa perpendicular da rua Serpa Pinto, na zona da Ramada Alta, é composta por nove casas. Mas uma delas, a que está virada para a rua, está entaipada há vários anos. As outras oito estiveram durante muito tempo habitadas. De há uns anos para cá só estavam seis.
Maria Luísa fala com o PÚBLICO frente à casa dois, a primeira que se encontra depois de se atravessar um corredor que começa no portão e termina num pátio. Essa fracção ficou vazia desde que a antiga moradora faleceu. “Muitas vezes quando a diocese vinha cá abriam esta casa para mostrá-la”, adianta. Ainda assim, tanto ela como os outros moradores deram um passo de fé para acreditarem nas palavras da entidade ligada à Igreja.
Porém, em Fevereiro deste ano, recebeu da Ecclesialis Gestão Diocesana Unipessoal, Lda, uma carta que dava conta de que o contrato de arrendamento não seria renovado. Teria, então, de abandonar a casa até Março de 2022. A outra vizinha foi dado o mesmo prazo. Outros dois tiveram de sair em Agosto. “Uma senhora que morava ao lado voltou para a terra dela. O outro casal foi para a casa dos pais, que também moram na ilha”, afirma.
Há apenas uma família que não recebeu carta com aviso de despejo, por terem contrato de arrendamento celebrado há 36 anos. Mas se Maria Luísa vive na mesma ilha há 34 anos, porque é que terá um destino diferente? “Há uns anos mudei para a casa 3 porque na minha chovia”, conta. Em 2018, quando fez a mudança, ter-lhe-á sido dito que teria de celebrar novo contrato. Por isso, “como não é um contrato antigo”, tem de sair.
A inquilina diz nunca ter existido nenhuma conversa promovida pela diocese para informar os moradores sobre os planos de venda. Os inquilinos só ficaram a saber que a ilha seria vendida depois de receberem, em Março, uma carta que dava conta do nome de um investidor interessado na compra pelo valor de 135 mil euros. No mesmo documento dava-se o direito de preferência aos inquilinos, que não tinham “condições financeiras” para adquirir o imóvel.
Chocada com a Igreja
“Fiquei chocada quando tomei conhecimento. Não contava com uma coisa dessas por ser uma diocese. Para nós foi um choque. Não contava que nos fizessem isso por ser propriedade da Igreja”, conta. “Ainda por cima, ainda não arranjei casa”, sublinha.
A moradora já tentou acesso a habitação social, recorrendo à empresa municipal Domus Social. “A resposta que tive foi de que não tinha pontos suficientes”. Não conseguiu. Por isso, tentou candidatar-se ao apoio ao arrendamento. “O meu nome não foi sorteado”, diz. Da diocese garante nunca lhe ter chegado qualquer notícia sobre possíveis ajudas. Actualmente, o que sabe é que em Março de 2022 tem de sair.
Já procurou no mercado de arrendamento, mas, a inquilina que vive sozinha, diz não conseguir encontrar casa que possa pagar. De reforma, depois de ter trabalhado mais de quarenta anos, recebe 465 euros. “Com água, luz e comida, como é que posso viver?”, questiona. A renda que pagava rondava os 120 euros. “Não me importava de negociar com o novo senhorio”, atira.
Isabel Conceição, de 72 anos, a única inquilina que não recebeu carta que dava conta da intenção de não renovação de contrato, não se conforma com a situação dos vizinhos. Nesse grupo de pessoas que recebeu ordem de marcha para fora do conjunto habitacional está a sua filha. Até há bem pouco tempo vivia apenas com o marido numa casa onde investiu “muito dinheiro” em obras. Como o contrato da filha terminou em Agosto, abriu-lhe a porta de casa para a partilhar também com o genro e com os netos. “Os dois quartos do piso de cima transformei-os em três”, conta. O sofá da sala também está a servir da cama para um dos netos.
Ao longo dos anos, diz que todas as obras feitas nas casas foram pagas pelos inquilinos, à excepção da ligação ao saneamento básico. Agora, sendo a única inquilina que vai poder permanecer na ilha espera que o dinheiro que investiu não tenha sido em vão. “O novo proprietário perguntou se queria uma indemnização para sair. Mas disse-lhe que não”, afirma. Ainda assim diz não temer essa possibilidade porque lhe foi garantido pelo mesmo que isso não iria acontecer. “Não tenho nada contra o novo senhorio, mas sim contra a diocese”.
Ao PÚBLICO, depois de contactada e de algumas questões terem sido enviadas por e-mail, a Diocese do Porto diz que a ilha apresenta “muito más condições de habitação”, “sub-humanas e insalubres, pondo em causa a saúde pública e das pessoas que lá residem”. Por isso, considerou que a melhor via passava pela venda do imóvel, sem que tivesse encontrado primeiro uma solução para os moradores. “A diocese do Porto visou garantir o bem-estar das pessoas ao alienar aquela ilha”, lê-se.
Contudo, agora, depois de ter vendido estas habitações, adianta estar a dialogar com o novo proprietário e com os serviços centrais de gestão do património diocesano para arranjar soluções para estes inquilinos, referindo existirem apartamentos dos quais são proprietários em processo de requalificação e restauro, destinados a este tipo de “emergências”. Pergunta-se quantos fogos destes existem e quantos estão ocupados. Mas, a resposta que chegou não esclareceu essa dúvida.
Já o actual proprietário, um investidor de Fafe com outros negócios no Porto, mas apenas este com a diocese, é peremptório: “Desde a assinatura do contrato de compra e venda nunca mais falei com a diocese”. Com o inquilino que permanecerá na ilha, compromete-se a cumprir o que foi assumido com o mesmo. “Não vou fazer a vida negra a ninguém, pelo contrário”, assegura. Os planos que tem, diz, passam por arrendamento a longo prazo, depois de fazer obras. Não descarta renegociar contratos com moradores, porém, sublinha: “A diocese vendeu-me o imóvel com a garantia de que existia apenas um inquilino.”
Só um inquilino permanecerá no conjunto habitacional. Diocese do Porto diz agora estar a encontrar soluções com o actual proprietário. Porém, o novo senhorio desmente.
Aos 69 anos, ao fim de 34 anos a morar na Ilha da Oliveira, às portas do centro do Porto, Maria Luísa foi surpreendida com uma ordem de despejo. O remetente da carta era o proprietário do conjunto de casas, até há cinco meses: a Diocese do Porto. Nas linhas que davam conta da não renovação do contrato não existia qualquer explicação para a saída forçada, nem lá constava qualquer solução para o problema de habitação que agora enfrenta. Só ficou a saber que, até Março de 2022, a sua casa tinha de estar desocupada. Entretanto, as nove fracções do conjunto habitacional já foram vendidas, em Abril, a um investidor do sector imobiliário. Mas a esta inquilina ou aos outros que ainda resistem continua a não lhes ter sido apresentada qualquer solução. A diocese diz estar a trabalhar nesse assunto com o actual proprietário. Porém, o novo senhorio desmente. Quando o contrato acabar, os moradores não têm para onde ir viver.
Há cerca de um ano, Maria Luísa e os vizinhos estranharam as sucessivas visitas feitas à ilha por parte de membros da diocese que se faziam acompanhar de “outras pessoas”. “Vinham todas as semanas”, recorda. A dada altura, terá interpelado um responsável pela instituição. “Perguntei se estavam a pensar vender a ilha”, conta. A resposta, diz, deixou-a mais descansada: “Disseram que só iam vender a casa da frente, que já está desocupada desde que vim para aqui. Garantiram-me que não iam vender as outras e disseram para ficar tranquila”.
A ilha, situada numa perpendicular da rua Serpa Pinto, na zona da Ramada Alta, é composta por nove casas. Mas uma delas, a que está virada para a rua, está entaipada há vários anos. As outras oito estiveram durante muito tempo habitadas. De há uns anos para cá só estavam seis.
Maria Luísa fala com o PÚBLICO frente à casa dois, a primeira que se encontra depois de se atravessar um corredor que começa no portão e termina num pátio. Essa fracção ficou vazia desde que a antiga moradora faleceu. “Muitas vezes quando a diocese vinha cá abriam esta casa para mostrá-la”, adianta. Ainda assim, tanto ela como os outros moradores deram um passo de fé para acreditarem nas palavras da entidade ligada à Igreja.
Porém, em Fevereiro deste ano, recebeu da Ecclesialis Gestão Diocesana Unipessoal, Lda, uma carta que dava conta de que o contrato de arrendamento não seria renovado. Teria, então, de abandonar a casa até Março de 2022. A outra vizinha foi dado o mesmo prazo. Outros dois tiveram de sair em Agosto. “Uma senhora que morava ao lado voltou para a terra dela. O outro casal foi para a casa dos pais, que também moram na ilha”, afirma.
Há apenas uma família que não recebeu carta com aviso de despejo, por terem contrato de arrendamento celebrado há 36 anos. Mas se Maria Luísa vive na mesma ilha há 34 anos, porque é que terá um destino diferente? “Há uns anos mudei para a casa 3 porque na minha chovia”, conta. Em 2018, quando fez a mudança, ter-lhe-á sido dito que teria de celebrar novo contrato. Por isso, “como não é um contrato antigo”, tem de sair.
A inquilina diz nunca ter existido nenhuma conversa promovida pela diocese para informar os moradores sobre os planos de venda. Os inquilinos só ficaram a saber que a ilha seria vendida depois de receberem, em Março, uma carta que dava conta do nome de um investidor interessado na compra pelo valor de 135 mil euros. No mesmo documento dava-se o direito de preferência aos inquilinos, que não tinham “condições financeiras” para adquirir o imóvel.
Chocada com a Igreja
“Fiquei chocada quando tomei conhecimento. Não contava com uma coisa dessas por ser uma diocese. Para nós foi um choque. Não contava que nos fizessem isso por ser propriedade da Igreja”, conta. “Ainda por cima, ainda não arranjei casa”, sublinha.
A moradora já tentou acesso a habitação social, recorrendo à empresa municipal Domus Social. “A resposta que tive foi de que não tinha pontos suficientes”. Não conseguiu. Por isso, tentou candidatar-se ao apoio ao arrendamento. “O meu nome não foi sorteado”, diz. Da diocese garante nunca lhe ter chegado qualquer notícia sobre possíveis ajudas. Actualmente, o que sabe é que em Março de 2022 tem de sair.
Já procurou no mercado de arrendamento, mas, a inquilina que vive sozinha, diz não conseguir encontrar casa que possa pagar. De reforma, depois de ter trabalhado mais de quarenta anos, recebe 465 euros. “Com água, luz e comida, como é que posso viver?”, questiona. A renda que pagava rondava os 120 euros. “Não me importava de negociar com o novo senhorio”, atira.
Isabel Conceição, de 72 anos, a única inquilina que não recebeu carta que dava conta da intenção de não renovação de contrato, não se conforma com a situação dos vizinhos. Nesse grupo de pessoas que recebeu ordem de marcha para fora do conjunto habitacional está a sua filha. Até há bem pouco tempo vivia apenas com o marido numa casa onde investiu “muito dinheiro” em obras. Como o contrato da filha terminou em Agosto, abriu-lhe a porta de casa para a partilhar também com o genro e com os netos. “Os dois quartos do piso de cima transformei-os em três”, conta. O sofá da sala também está a servir da cama para um dos netos.
Ao longo dos anos, diz que todas as obras feitas nas casas foram pagas pelos inquilinos, à excepção da ligação ao saneamento básico. Agora, sendo a única inquilina que vai poder permanecer na ilha espera que o dinheiro que investiu não tenha sido em vão. “O novo proprietário perguntou se queria uma indemnização para sair. Mas disse-lhe que não”, afirma. Ainda assim diz não temer essa possibilidade porque lhe foi garantido pelo mesmo que isso não iria acontecer. “Não tenho nada contra o novo senhorio, mas sim contra a diocese”.
Ao PÚBLICO, depois de contactada e de algumas questões terem sido enviadas por e-mail, a Diocese do Porto diz que a ilha apresenta “muito más condições de habitação”, “sub-humanas e insalubres, pondo em causa a saúde pública e das pessoas que lá residem”. Por isso, considerou que a melhor via passava pela venda do imóvel, sem que tivesse encontrado primeiro uma solução para os moradores. “A diocese do Porto visou garantir o bem-estar das pessoas ao alienar aquela ilha”, lê-se.
Contudo, agora, depois de ter vendido estas habitações, adianta estar a dialogar com o novo proprietário e com os serviços centrais de gestão do património diocesano para arranjar soluções para estes inquilinos, referindo existirem apartamentos dos quais são proprietários em processo de requalificação e restauro, destinados a este tipo de “emergências”. Pergunta-se quantos fogos destes existem e quantos estão ocupados. Mas, a resposta que chegou não esclareceu essa dúvida.
Já o actual proprietário, um investidor de Fafe com outros negócios no Porto, mas apenas este com a diocese, é peremptório: “Desde a assinatura do contrato de compra e venda nunca mais falei com a diocese”. Com o inquilino que permanecerá na ilha, compromete-se a cumprir o que foi assumido com o mesmo. “Não vou fazer a vida negra a ninguém, pelo contrário”, assegura. Os planos que tem, diz, passam por arrendamento a longo prazo, depois de fazer obras. Não descarta renegociar contratos com moradores, porém, sublinha: “A diocese vendeu-me o imóvel com a garantia de que existia apenas um inquilino.”
6.9.21
Pandemia rendeu a alguns dos grandes laboratórios de análises lucros quatro vezes superiores aos de 2019
Mariana Oliveira, in Público on-line
Em 2020, grupo Germano de Sousa passou dos seis milhões de lucro para mais de 23, enquanto o de Joaquim Chaves aumentou resultados líquidos de um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros em 2019 para 11,6 milhões no ano passado. Synlab apresenta prejuízos de milhões há cinco anos seguidos e Unilabs ainda não entregou as contas.
As grandes redes de laboratórios privados do país melhoraram as contas com a pandemia e, pelo menos duas, viram os lucros disparar, chegando a quadruplicar no ano passado os resultados líquidos face a 2019. No sector e, independentemente da dimensão, a maioria parece ter lucrado com o novo coronavírus. Apesar de terem sofrido com o primeiro confinamento que fechou muitos postos de colheitas devido a uma redução abrupta da procura das análises clínicas habituais, os laboratórios conseguiram compensar as perdas com os testes para detectar a infecção pelo novo coronavírus.
Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, 87 laboratórios privados realizaram 6,5 milhões de testes moleculares até ao final de Agosto e integram o grupo de 1246 entidades privadas que realizou 3,7 milhões de testes rápidos de antigénio. Aqui, incluem-se não apenas laboratórios, mas também clínicas e farmácias.
Das quatro maiores redes de laboratórios privados do país — a Germano de Sousa, a Joaquim Chaves, a Unilabs e a Synlab —, a Germano de Sousa foi a que registou um lucro mais elevado. O resultado líquido passou de pouco mais de seis milhões de euros em 2019 para quase 23,3 milhões de euros no ano passado, ou seja, um acréscimo de 286% face ao ano anterior. E tal já entra em consideração com o brutal aumento de impostos, praticamente na mesma proporção (passou de dois milhões de euros para 7,7 milhões). Curioso é que o volume de negócios não cresceu na mesma proporção, tendo passado de 35,6 milhões para 74,4 milhões. Conclusão: a margem de lucro aumentou muito face a 2019.
Apesar de o grupo Germano de Sousa ter sido o que apresentou os lucros mais elevados, a rede de Joaquim Chaves foi a que mais viu crescer os resultados líquidos. Em 2019, o lucro tinha ficado um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros, tendo subido até aos 11,6 milhões no ano passado, o que representa um aumento de 319%. Também neste grupo o volume de negócios cresceu numa proporção muito menor (42%), passando de 40,7 milhões para 57,7 milhões.
No grupo Joaquim Chaves Saúde foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. “O grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia"
Mais difícil é analisar os resultados do grupo Synlab, uma multinacional presente em 36 países que se apresenta como líder na prestação de serviços de diagnóstico médico e de análises clínicas laboratoriais na Europa. Com uma estrutura empresarial complexa, que ninguém do grupo esteve disponível para clarificar, a Synlabhealth Portugal apresentou prejuízos no nosso país nos últimos cinco anos, com resultados negativos que variaram entre 5,5 milhões (2017) e os 13,8 milhões (2019). Em 2020, registou um prejuízo de 7,6 milhões de euros (44%) abaixo do contabilizado no ano anterior. O ano passado o resultado operacional chegou a ficar em terreno positivo (quase 27 mil euros), mas os nove milhões gastos com juros empurraram a empresa para os prejuízos.
Já a Unilabs, outra multinacional presente em 16 países e com sede na Suíça, ainda não apresentou as contas, apesar de o prazo legal para entregar a declaração anual da Informação Empresarial Simplificada ter terminado a 30 de Julho. Contactada pelo PÚBLICO, fonte oficial da Unilabs adiantou que as contas das empresas do grupo “serão depositadas brevemente'’.
“Relativamente ao exercício de 2020, verificou-se um muito ligeiro crescimento das receitas consolidadas do grupo, que teve, no entanto, uma quebra acima de dois dígitos percentuais nos seus resultados no ano transacto”, refere a mesma fonte. Tal, pode estar relacionado com o facto de o negócio do grupo abarcar outras áreas além das análises clínicas, áreas essas como a imagiologia, que sofreram quebras acentuadas na procura, fruto da concentração do SNS no combate à pandemia.
O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”
Uma análise sectorial da Informa D&B, uma firma especializada na recolha de informação de empresas, que avaliou 187 laboratórios de análises clínicas, conclui que em média este tipo de sociedades aumentou o volume de negócio 11,3% entre 2019 e 2020. No entanto, dá conta que os lucros médios subiram de forma bem mais significativa (113%), para quase 321 mil euros. A análise inclui duas grandes empresas, três médias, 23 pequenas e 159 micro, que empregam em média 19 pessoas.
O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”. “Comecei a comprar a 90 euros o kit [testes PCR], que agora custam entre 20 a 30 euros”, afirmou. Foi necessário investir em equipamento, como por exemplo “extractores de RNA” e montar uma “plataforma de biologia molecular”. “Comprei cinco extractores que custaram 150 mil euros cada. Passada esta onda [diz que chegou a fazer entre 13 a 15 mil testes PCR por dia e agora faz entre dois a três mil], não tenho quem me fique com isto. E tive que contratar muitas equipas.”
Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano. Grande parte dos lucros, adianta, investiu na comprar de um grande edifício no Pólo Tecnológico de Lisboa, ao lado das actuais instalações que projecta expandir.
Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano
Numa resposta escrita enviada ao PÚBLICO, o grupo Joaquim Chaves Saúde (JCS), que reúne clínicas médicas, oncologia, radiologia, medicina nuclear e análises clínicas, dá conta que em 2020, parte das suas operações foram “severamente abaladas pela pandemia”, com quedas de actividade muito significativas. “À semelhança de outros sectores de actividade na área da saúde, críticos durante esta fase, o grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia”.
Para isso, diz o grupo JCS, foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. Além de toda a capacidade tecnológica instalada, foi fundamental a resiliência, adaptação e colaboração da equipa para a dimensão da operação implementada, em tempo recorde, para responder à procura e necessidades das várias entidades. “Paralelamente ao aumento dos nossos resultados líquidos, houve um investimento do grupo superior em 37% face ao período homólogo”, nota-se na resposta, que também adianta que o grupo conta com mais 22% dos colaboradores nos laboratórios, comparativamente a 2019, num total de 2.500 pessoas em todo o grupo. Com Alexandra Campos
Em 2020, grupo Germano de Sousa passou dos seis milhões de lucro para mais de 23, enquanto o de Joaquim Chaves aumentou resultados líquidos de um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros em 2019 para 11,6 milhões no ano passado. Synlab apresenta prejuízos de milhões há cinco anos seguidos e Unilabs ainda não entregou as contas.
As grandes redes de laboratórios privados do país melhoraram as contas com a pandemia e, pelo menos duas, viram os lucros disparar, chegando a quadruplicar no ano passado os resultados líquidos face a 2019. No sector e, independentemente da dimensão, a maioria parece ter lucrado com o novo coronavírus. Apesar de terem sofrido com o primeiro confinamento que fechou muitos postos de colheitas devido a uma redução abrupta da procura das análises clínicas habituais, os laboratórios conseguiram compensar as perdas com os testes para detectar a infecção pelo novo coronavírus.
Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, 87 laboratórios privados realizaram 6,5 milhões de testes moleculares até ao final de Agosto e integram o grupo de 1246 entidades privadas que realizou 3,7 milhões de testes rápidos de antigénio. Aqui, incluem-se não apenas laboratórios, mas também clínicas e farmácias.
Das quatro maiores redes de laboratórios privados do país — a Germano de Sousa, a Joaquim Chaves, a Unilabs e a Synlab —, a Germano de Sousa foi a que registou um lucro mais elevado. O resultado líquido passou de pouco mais de seis milhões de euros em 2019 para quase 23,3 milhões de euros no ano passado, ou seja, um acréscimo de 286% face ao ano anterior. E tal já entra em consideração com o brutal aumento de impostos, praticamente na mesma proporção (passou de dois milhões de euros para 7,7 milhões). Curioso é que o volume de negócios não cresceu na mesma proporção, tendo passado de 35,6 milhões para 74,4 milhões. Conclusão: a margem de lucro aumentou muito face a 2019.
Apesar de o grupo Germano de Sousa ter sido o que apresentou os lucros mais elevados, a rede de Joaquim Chaves foi a que mais viu crescer os resultados líquidos. Em 2019, o lucro tinha ficado um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros, tendo subido até aos 11,6 milhões no ano passado, o que representa um aumento de 319%. Também neste grupo o volume de negócios cresceu numa proporção muito menor (42%), passando de 40,7 milhões para 57,7 milhões.
No grupo Joaquim Chaves Saúde foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. “O grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia"
Mais difícil é analisar os resultados do grupo Synlab, uma multinacional presente em 36 países que se apresenta como líder na prestação de serviços de diagnóstico médico e de análises clínicas laboratoriais na Europa. Com uma estrutura empresarial complexa, que ninguém do grupo esteve disponível para clarificar, a Synlabhealth Portugal apresentou prejuízos no nosso país nos últimos cinco anos, com resultados negativos que variaram entre 5,5 milhões (2017) e os 13,8 milhões (2019). Em 2020, registou um prejuízo de 7,6 milhões de euros (44%) abaixo do contabilizado no ano anterior. O ano passado o resultado operacional chegou a ficar em terreno positivo (quase 27 mil euros), mas os nove milhões gastos com juros empurraram a empresa para os prejuízos.
Já a Unilabs, outra multinacional presente em 16 países e com sede na Suíça, ainda não apresentou as contas, apesar de o prazo legal para entregar a declaração anual da Informação Empresarial Simplificada ter terminado a 30 de Julho. Contactada pelo PÚBLICO, fonte oficial da Unilabs adiantou que as contas das empresas do grupo “serão depositadas brevemente'’.
“Relativamente ao exercício de 2020, verificou-se um muito ligeiro crescimento das receitas consolidadas do grupo, que teve, no entanto, uma quebra acima de dois dígitos percentuais nos seus resultados no ano transacto”, refere a mesma fonte. Tal, pode estar relacionado com o facto de o negócio do grupo abarcar outras áreas além das análises clínicas, áreas essas como a imagiologia, que sofreram quebras acentuadas na procura, fruto da concentração do SNS no combate à pandemia.
O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”
Uma análise sectorial da Informa D&B, uma firma especializada na recolha de informação de empresas, que avaliou 187 laboratórios de análises clínicas, conclui que em média este tipo de sociedades aumentou o volume de negócio 11,3% entre 2019 e 2020. No entanto, dá conta que os lucros médios subiram de forma bem mais significativa (113%), para quase 321 mil euros. A análise inclui duas grandes empresas, três médias, 23 pequenas e 159 micro, que empregam em média 19 pessoas.
O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”. “Comecei a comprar a 90 euros o kit [testes PCR], que agora custam entre 20 a 30 euros”, afirmou. Foi necessário investir em equipamento, como por exemplo “extractores de RNA” e montar uma “plataforma de biologia molecular”. “Comprei cinco extractores que custaram 150 mil euros cada. Passada esta onda [diz que chegou a fazer entre 13 a 15 mil testes PCR por dia e agora faz entre dois a três mil], não tenho quem me fique com isto. E tive que contratar muitas equipas.”
Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano. Grande parte dos lucros, adianta, investiu na comprar de um grande edifício no Pólo Tecnológico de Lisboa, ao lado das actuais instalações que projecta expandir.
Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano
Numa resposta escrita enviada ao PÚBLICO, o grupo Joaquim Chaves Saúde (JCS), que reúne clínicas médicas, oncologia, radiologia, medicina nuclear e análises clínicas, dá conta que em 2020, parte das suas operações foram “severamente abaladas pela pandemia”, com quedas de actividade muito significativas. “À semelhança de outros sectores de actividade na área da saúde, críticos durante esta fase, o grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia”.
Para isso, diz o grupo JCS, foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. Além de toda a capacidade tecnológica instalada, foi fundamental a resiliência, adaptação e colaboração da equipa para a dimensão da operação implementada, em tempo recorde, para responder à procura e necessidades das várias entidades. “Paralelamente ao aumento dos nossos resultados líquidos, houve um investimento do grupo superior em 37% face ao período homólogo”, nota-se na resposta, que também adianta que o grupo conta com mais 22% dos colaboradores nos laboratórios, comparativamente a 2019, num total de 2.500 pessoas em todo o grupo. Com Alexandra Campos
2.9.21
269 municípios pediram apoio do fundo europeu destinado às medidas anti-covid
Patrícia Carvalho, in Público on-line
87% dos municípios portugueses candidataram-se ao FSUE, com despesas globais que chegam aos 65,7 milhões de euros. Primeiros pagamentos devem ser feitos em Outubro.
Do total de municípios portugueses, 269 candidataram-se aos apoios do Fundo de Solidariedade da União Europeia (FSUE), criado para ajudar com as despesas directamente relacionadas com o combate à pandemia e que em Portugal o Governo decidiu que seria usado exclusivamente pelas autarquias. Foram apresentadas despesas no valor global de 65,7 milhões de euros, para uma dotação disponível de 55,5 milhões do FSUE. O Ministério do Planeamento prevê fazer os primeiros pagamentos em Outubro.
Em causa estavam despesas realizadas entre 13 de Março e 12 de Julho que estivessem relacionadas com a assistência à população afectada pela covid-19 (incluindo médica), a prevenção, vigilância ou controlo da pandemia e o combate aos riscos graves de saúde pública ou a atenuação do seu impacto. Os municípios poderiam assim candidatar-se a ver comparticipadas, por exemplo, as despesas feitas com a aquisição de equipamentos e dispositivos médicos ou com a instalação de hospitais de campanha.
O PÚBLICO questionou o Ministério do Planeamento sobre o valor solicitado por cada município e qual o fim a que se destinava, mas a resposta chegou sob a forma de um comunicado com indicação sobre o número geral de municípios que se candidatou ao FSUE por regiões e o valor global solicitado em cada uma dessas zonas.
Zona Centro com mais candidaturas
A Área Metropolitana de Lisboa, com 18 candidaturas, no valor global de 19,1 milhões de euros, representando 29% dos custos apresentados, foi a região com mais verba solicitada. Mas o Centro, com 90 candidaturas, aparece como a região com mais municípios a pedirem o apoio de emergência, ainda que em termos financeiros fique apenas no 3.º lugar: 16,6 milhões (25% dos custos apresentados). Em segundo lugar, em número de candidaturas (79) e em verba solicitada (quase 17 milhões) está a região Norte, com custos apresentados que representam 26% do total.
As restantes candidaturas surgiram do Alentejo (54, para cerca de seis milhões de euros), Algarve (14, para 5,8 milhões), Açores (10 municípios pediram um apoio de 623 mil euros) e Madeira (quatro municípios e 397 mil euros solicitados). O comunicado do gabinete do ministro Nelson de Souza salienta que 87% dos municípios nacionais concorreram ao FSUE, o que representa uma “elevada adesão”, e com um valor total solicitado que se adequa às verbas disponibilizadas pelo fundo de emergência.
O prazo para as candidaturas ao FSUE terminou no final de Agosto. Os pedidos apresentados pelos municípios deverão ser agora analisados e o ministério conta ter “as primeiras decisões” sobre a atribuição dos apoios durante o mês de Outubro, altura em que deverão ser feitos os primeiros pagamentos.
As regras do fundo europeu definiam que o apoio a ser prestado ao abrigo desta medida de emergência corresponde a 100% da despesa elegível, até ao limite máximo de 150 mil euros por candidatura. Valores superiores a esse só seriam contemplados caso sobrasse verba, depois de serem garantidos aqueles casos.
87% dos municípios portugueses candidataram-se ao FSUE, com despesas globais que chegam aos 65,7 milhões de euros. Primeiros pagamentos devem ser feitos em Outubro.
Do total de municípios portugueses, 269 candidataram-se aos apoios do Fundo de Solidariedade da União Europeia (FSUE), criado para ajudar com as despesas directamente relacionadas com o combate à pandemia e que em Portugal o Governo decidiu que seria usado exclusivamente pelas autarquias. Foram apresentadas despesas no valor global de 65,7 milhões de euros, para uma dotação disponível de 55,5 milhões do FSUE. O Ministério do Planeamento prevê fazer os primeiros pagamentos em Outubro.
Em causa estavam despesas realizadas entre 13 de Março e 12 de Julho que estivessem relacionadas com a assistência à população afectada pela covid-19 (incluindo médica), a prevenção, vigilância ou controlo da pandemia e o combate aos riscos graves de saúde pública ou a atenuação do seu impacto. Os municípios poderiam assim candidatar-se a ver comparticipadas, por exemplo, as despesas feitas com a aquisição de equipamentos e dispositivos médicos ou com a instalação de hospitais de campanha.
O PÚBLICO questionou o Ministério do Planeamento sobre o valor solicitado por cada município e qual o fim a que se destinava, mas a resposta chegou sob a forma de um comunicado com indicação sobre o número geral de municípios que se candidatou ao FSUE por regiões e o valor global solicitado em cada uma dessas zonas.
Zona Centro com mais candidaturas
A Área Metropolitana de Lisboa, com 18 candidaturas, no valor global de 19,1 milhões de euros, representando 29% dos custos apresentados, foi a região com mais verba solicitada. Mas o Centro, com 90 candidaturas, aparece como a região com mais municípios a pedirem o apoio de emergência, ainda que em termos financeiros fique apenas no 3.º lugar: 16,6 milhões (25% dos custos apresentados). Em segundo lugar, em número de candidaturas (79) e em verba solicitada (quase 17 milhões) está a região Norte, com custos apresentados que representam 26% do total.
As restantes candidaturas surgiram do Alentejo (54, para cerca de seis milhões de euros), Algarve (14, para 5,8 milhões), Açores (10 municípios pediram um apoio de 623 mil euros) e Madeira (quatro municípios e 397 mil euros solicitados). O comunicado do gabinete do ministro Nelson de Souza salienta que 87% dos municípios nacionais concorreram ao FSUE, o que representa uma “elevada adesão”, e com um valor total solicitado que se adequa às verbas disponibilizadas pelo fundo de emergência.
O prazo para as candidaturas ao FSUE terminou no final de Agosto. Os pedidos apresentados pelos municípios deverão ser agora analisados e o ministério conta ter “as primeiras decisões” sobre a atribuição dos apoios durante o mês de Outubro, altura em que deverão ser feitos os primeiros pagamentos.
As regras do fundo europeu definiam que o apoio a ser prestado ao abrigo desta medida de emergência corresponde a 100% da despesa elegível, até ao limite máximo de 150 mil euros por candidatura. Valores superiores a esse só seriam contemplados caso sobrasse verba, depois de serem garantidos aqueles casos.
1.9.21
Pandemia do Norte, pandemia do Sul: as várias divisões da Europa que a covid mostrou
Maria João Guimarães, in Público on-line
Relatório do ECFR alerta para consequências do modo como cada país viveu a pandemia, e também para a diferenças dentro dos próprios países.
Em alguns países da Europa, a maioria viveu a pandemia da covid-19 com dificuldade, doenças graves, mortes de familiares ou amigos, e angústia económica. Outros não foram assim tão afectados. A diferença é clara entre os países do Sul e Leste europeu, por um lado, e da Europa Ocidental e do Norte, por outro, diz um relatório apoiado pela sondagem do European Council on Foreign Relations (ECFR), feita em 12 Estados-membros da União Europeia.
A divisão em relação ao que a pandemia provocou não é só geográfica, mas também geracional. Os jovens sentem-se mais afectados pela pandemia. E tendem a atribuir mais responsabilidades a terceiros por ela.
Estas são as duas grandes conclusões do relatório de Ivan Krastev e Mark Leonard, do ECFR, intitulado Europe’s invisible Divides: How covid-19 is polarising European politics (Divisões invisíveis da Europa: como a covid-19 está a polarizar a política europeia). Os dois especialistas em política externa sugerem que estas diferenças marcadas no modo como foi vivida a pandemia podem ter implicações duradouras em vários projectos centrais para a União Europeia: a liberdade de circulação, o futuro do plano de recuperação pan-europeu do bloco, e as suas relações com o resto do mundo (por exemplo com a diplomacia das vacinas), ou ajuda externa.
A maioria dos europeus (54%) sente que não foi “de todo” afectada pela pandemia do novo coronavírus, mas a média esconde as diferenças. Por exemplo, 72% dos dinamarqueses ou 65% dos alemães não foram “de todo” afectados pela covid-19, enquanto 61% dos inquiridos portugueses foram (31% apontaram consequências apenas económicas, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
Os autores classificaram como preocupante o fosso geracional que a sondagem revelou. Quase dois terços (64%) das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos não sentiram que a crise as tenha afectado pessoalmente, enquanto a maioria dos menores de 30 anos (57%) disse ter tido problemas (económicos ou de saúde) por causa da pandemia.
A ideia de liberdade é também responsável por mais uma divisão. Questionados sobre quão livres se sentiam hoje, e quão livres se sentiam antes da pandemia, 22% disseram sentir-se livres hoje, e 64% antes da pandemia – ao contrário, 27% dos inquiridos disseram não se sentir livres (e apenas 7% disseram que não se sentiam livres há dois anos). Os autores afirmam que a questão pode ter relevância política quando muitos partidos ao centro têm defendido acção do governo e muitos populistas se tornaram libertários. Hungria e Espanha têm a maior percentagem de inquiridos que se sentem livres (41% e 31%), enquanto a Alemanha regista a maior percentagem dos que não se sentem livres, 49% – um caso interessante porque apesar de várias restrições, o confinamento no país (embora diferente em cada estado federado) não foi tão estrito como em outros.
Quanto à responsabilização pelo impacto que a crise tem, e pelos limites à liberdade, o relatório diz que há pessoas a apontar em várias direcções, mas que se notam dois grupos distintos entre quem tem um culpado definido. Num dos grupos, 43% dos que indicam um culpado, diz que a ameaça à liberdade vem sobretudo de governos e instituições, da China à Comissão Europeia, passando pelas multinacionais, ou pelo seu próprio governo. Noutro grupo, 48% de quem indica um culpado, acha que a ameaça vem do comportamento individual das outras pessoas (que não seguem as regras, que regressam de viagens por exemplo): Países Baixos (67%), Áustria (62%) e Portugal (61%) são aqueles em que esta perspectiva é maioritária.
O relatório divide os inquiridos em três grupos em relação ao que acham que são os motivos dos confinamentos. Os que confiam acham que a razão é limitar a disseminação do vírus, os acusadores acham que a maior motivação é dar ao Governo controlo sobre o público, e os desconfiados pensam que a razão é fazer crer que o governo está a controlar a situação.
A maioria dos inquiridos pertence ao grupo dos que confiam (64%), enquanto 19% são desconfiados e 17% acusadores. Há grandes diferenças em alguns países, como a Polónia, o único em que os que confiam são uma minoria (38%), seguindo-se com números baixos a Bulgária (50%) e França (56%). Inversamente, estes países têm um grande número quer de desconfiados (34% na Polónia, 24% na Bulgária) e de acusadores (cerca de um quarto na Bulgária, Polónia e França).

Quem confia que o motivo foi impedir a circulação do vírus tende a ser quem foi afectado por doença ou morte de familiar, e ainda quem não foi afectado de nenhum modo. Na maioria dos países os que foram afectados apenas economicamente pela covid-19 são os que mais mostram cepticismo sobre as intenções do Governo – com excepções na Dinamarca, Portugal e Suécia.
O relatório termina com a ideia de que três países podem estar a emergir como arquétipos para a política pós-pandémica: Alemanha, Polónia, e França.
A Polónia é um exemplo de uma “democracia polarizada”, dizem os autores do relatório. A crise aumentou a divisão que já existia entre grupos. O país é que o tem a maior percentagem de inquiridos a achar que o Governo está a usar as restrições da pandemia para criar ilusão de controlo ou como justificação para controlo. E também que o Governo e outras instituições são responsáveis pelo impacto da pandemia nas suas vidas.
Já na Alemanha, uma “democracia de consenso”, não há oposição pública às restrições nem desconfiança sobre os seus motivos. “Mas o consenso superficial esconde grandes níveis de descontentamento”, dizem os autores: uma grande parte da população não se sente livre.
Finalmente, em França, na “democracia não-binária”, os principais partidos mudaram de modo marcado a sua filosofia política: o partido do Presidente Emmanuel Macron teve uma acção de intervenção e 89% dos seus apoiantes, que são sobretudo liberais, disseram que as restrições não foram suficientemente estritas. Ao contrário, apoiantes de Marine Le Pen, em geral mais autoritários, acham que não devia ter havido tantas restrições.
Ivan Krastev e Mark Leonard deixam uma nota de alerta: a próxima fase da crise pode levar a mais divisões tanto dentro dos países como entre os vários países europeus, que viveram a pandemia de modo muito diferente. Em termos de perspectiva futura, os autores chamam a atenção para a diferença que pode ser mais problemática: a divisão entre gerações. “Os governos por toda a Europa fizeram bem em salvar as vidas dos mais velhos”, escreveram os autores. “Mas chegou a altura de se focarem nos problemas dos mais novos.”
Portugal: inquiridos confiam no Governo e culpam comportamento individuais
Portugal destaca-se por estar no topo de países em que mais pessoas se sentiram afectadas pela pandemia: 61% dos inquiridos portugueses afirmam ter enfrentado desafios pessoais (31% económicos, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
O país está ainda entre os que mais confiam na motivação das medidas de confinamento, em 4.º lugar com 71% – logo a seguir à Dinamarca (77%), Suécia (76%, o país destacou-se por ter menos medidas mas ainda assim teve restrições, incluindo algumas bastantes estritas nos lares de idosos), e Países Baixos (76%).
Portugal está em quarto lugar entre os países que pensam que as restrições impostas foram proporcionais, embora já com uma maioria mais pequena, de 56% (o mesmo que a Bulgária e atrás da Dinamarca e da Hungria, onde 62% e 71% dos inquiridos acharam as medidas certas). Por outro lado, há uma percentagem muito significativa – 32% – que consideram que as medidas não foram suficientemente estritas – e o país está ainda entre os três com menos inquiridos a acharem que foram demasiado estritas (12%, atrás da Hungria, 9%, e Suécia, 6%).
Portugal é ainda um dos países que culpa claramente indivíduos pela crise da covid – 57% –, enquanto 37% culpam instituições ou governos, incluindo o do próprio país.
Relatório do ECFR alerta para consequências do modo como cada país viveu a pandemia, e também para a diferenças dentro dos próprios países.
Em alguns países da Europa, a maioria viveu a pandemia da covid-19 com dificuldade, doenças graves, mortes de familiares ou amigos, e angústia económica. Outros não foram assim tão afectados. A diferença é clara entre os países do Sul e Leste europeu, por um lado, e da Europa Ocidental e do Norte, por outro, diz um relatório apoiado pela sondagem do European Council on Foreign Relations (ECFR), feita em 12 Estados-membros da União Europeia.
A divisão em relação ao que a pandemia provocou não é só geográfica, mas também geracional. Os jovens sentem-se mais afectados pela pandemia. E tendem a atribuir mais responsabilidades a terceiros por ela.
Estas são as duas grandes conclusões do relatório de Ivan Krastev e Mark Leonard, do ECFR, intitulado Europe’s invisible Divides: How covid-19 is polarising European politics (Divisões invisíveis da Europa: como a covid-19 está a polarizar a política europeia). Os dois especialistas em política externa sugerem que estas diferenças marcadas no modo como foi vivida a pandemia podem ter implicações duradouras em vários projectos centrais para a União Europeia: a liberdade de circulação, o futuro do plano de recuperação pan-europeu do bloco, e as suas relações com o resto do mundo (por exemplo com a diplomacia das vacinas), ou ajuda externa.
A maioria dos europeus (54%) sente que não foi “de todo” afectada pela pandemia do novo coronavírus, mas a média esconde as diferenças. Por exemplo, 72% dos dinamarqueses ou 65% dos alemães não foram “de todo” afectados pela covid-19, enquanto 61% dos inquiridos portugueses foram (31% apontaram consequências apenas económicas, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
Os autores classificaram como preocupante o fosso geracional que a sondagem revelou. Quase dois terços (64%) das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos não sentiram que a crise as tenha afectado pessoalmente, enquanto a maioria dos menores de 30 anos (57%) disse ter tido problemas (económicos ou de saúde) por causa da pandemia.
A ideia de liberdade é também responsável por mais uma divisão. Questionados sobre quão livres se sentiam hoje, e quão livres se sentiam antes da pandemia, 22% disseram sentir-se livres hoje, e 64% antes da pandemia – ao contrário, 27% dos inquiridos disseram não se sentir livres (e apenas 7% disseram que não se sentiam livres há dois anos). Os autores afirmam que a questão pode ter relevância política quando muitos partidos ao centro têm defendido acção do governo e muitos populistas se tornaram libertários. Hungria e Espanha têm a maior percentagem de inquiridos que se sentem livres (41% e 31%), enquanto a Alemanha regista a maior percentagem dos que não se sentem livres, 49% – um caso interessante porque apesar de várias restrições, o confinamento no país (embora diferente em cada estado federado) não foi tão estrito como em outros.
Quanto à responsabilização pelo impacto que a crise tem, e pelos limites à liberdade, o relatório diz que há pessoas a apontar em várias direcções, mas que se notam dois grupos distintos entre quem tem um culpado definido. Num dos grupos, 43% dos que indicam um culpado, diz que a ameaça à liberdade vem sobretudo de governos e instituições, da China à Comissão Europeia, passando pelas multinacionais, ou pelo seu próprio governo. Noutro grupo, 48% de quem indica um culpado, acha que a ameaça vem do comportamento individual das outras pessoas (que não seguem as regras, que regressam de viagens por exemplo): Países Baixos (67%), Áustria (62%) e Portugal (61%) são aqueles em que esta perspectiva é maioritária.
O relatório divide os inquiridos em três grupos em relação ao que acham que são os motivos dos confinamentos. Os que confiam acham que a razão é limitar a disseminação do vírus, os acusadores acham que a maior motivação é dar ao Governo controlo sobre o público, e os desconfiados pensam que a razão é fazer crer que o governo está a controlar a situação.
A maioria dos inquiridos pertence ao grupo dos que confiam (64%), enquanto 19% são desconfiados e 17% acusadores. Há grandes diferenças em alguns países, como a Polónia, o único em que os que confiam são uma minoria (38%), seguindo-se com números baixos a Bulgária (50%) e França (56%). Inversamente, estes países têm um grande número quer de desconfiados (34% na Polónia, 24% na Bulgária) e de acusadores (cerca de um quarto na Bulgária, Polónia e França).
Quem confia que o motivo foi impedir a circulação do vírus tende a ser quem foi afectado por doença ou morte de familiar, e ainda quem não foi afectado de nenhum modo. Na maioria dos países os que foram afectados apenas economicamente pela covid-19 são os que mais mostram cepticismo sobre as intenções do Governo – com excepções na Dinamarca, Portugal e Suécia.
O relatório termina com a ideia de que três países podem estar a emergir como arquétipos para a política pós-pandémica: Alemanha, Polónia, e França.
A Polónia é um exemplo de uma “democracia polarizada”, dizem os autores do relatório. A crise aumentou a divisão que já existia entre grupos. O país é que o tem a maior percentagem de inquiridos a achar que o Governo está a usar as restrições da pandemia para criar ilusão de controlo ou como justificação para controlo. E também que o Governo e outras instituições são responsáveis pelo impacto da pandemia nas suas vidas.
Já na Alemanha, uma “democracia de consenso”, não há oposição pública às restrições nem desconfiança sobre os seus motivos. “Mas o consenso superficial esconde grandes níveis de descontentamento”, dizem os autores: uma grande parte da população não se sente livre.
Finalmente, em França, na “democracia não-binária”, os principais partidos mudaram de modo marcado a sua filosofia política: o partido do Presidente Emmanuel Macron teve uma acção de intervenção e 89% dos seus apoiantes, que são sobretudo liberais, disseram que as restrições não foram suficientemente estritas. Ao contrário, apoiantes de Marine Le Pen, em geral mais autoritários, acham que não devia ter havido tantas restrições.
Ivan Krastev e Mark Leonard deixam uma nota de alerta: a próxima fase da crise pode levar a mais divisões tanto dentro dos países como entre os vários países europeus, que viveram a pandemia de modo muito diferente. Em termos de perspectiva futura, os autores chamam a atenção para a diferença que pode ser mais problemática: a divisão entre gerações. “Os governos por toda a Europa fizeram bem em salvar as vidas dos mais velhos”, escreveram os autores. “Mas chegou a altura de se focarem nos problemas dos mais novos.”
Portugal: inquiridos confiam no Governo e culpam comportamento individuais
Portugal destaca-se por estar no topo de países em que mais pessoas se sentiram afectadas pela pandemia: 61% dos inquiridos portugueses afirmam ter enfrentado desafios pessoais (31% económicos, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
O país está ainda entre os que mais confiam na motivação das medidas de confinamento, em 4.º lugar com 71% – logo a seguir à Dinamarca (77%), Suécia (76%, o país destacou-se por ter menos medidas mas ainda assim teve restrições, incluindo algumas bastantes estritas nos lares de idosos), e Países Baixos (76%).
Portugal está em quarto lugar entre os países que pensam que as restrições impostas foram proporcionais, embora já com uma maioria mais pequena, de 56% (o mesmo que a Bulgária e atrás da Dinamarca e da Hungria, onde 62% e 71% dos inquiridos acharam as medidas certas). Por outro lado, há uma percentagem muito significativa – 32% – que consideram que as medidas não foram suficientemente estritas – e o país está ainda entre os três com menos inquiridos a acharem que foram demasiado estritas (12%, atrás da Hungria, 9%, e Suécia, 6%).
Portugal é ainda um dos países que culpa claramente indivíduos pela crise da covid – 57% –, enquanto 37% culpam instituições ou governos, incluindo o do próprio país.
31.8.21
Pandemia fez cair a natalidade especialmente em Itália, Hungria, Espanha e Portugal
in Público on-line
Estudo de universidade italiana analisou a evolução da natalidade em 22 países e concluiu que em sete deles a natalidade diminuiu para lá do que era previsível.
A pandemia tem sido acompanhada por uma queda significativa nas taxas de natalidade bruta em países de alto rendimento, com declínios particularmente acentuados no sul da Europa: Itália (-9,1%), Espanha (-8,4%) e Portugal (-6,6%). Esta é a principal conclusão de um estudo conduzido pela Universidade Bocconi de Itália e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, utilizando modelos numéricos e analisando dados de 22 países.
As pandemias são um motor fundamental das mudanças nas populações, afectando tanto a mortalidade como as taxas de natalidade.
A maior pandemia do século passado, a chamada gripe espanhola (1918-1919), fez com que as taxas de natalidade nos Estados Unidos baixassem de 23 por 1000 habitantes em 1918 para 20 por 1000 em 1919 (-13%). Efeitos comparáveis foram observados em países como Reino Unido, Índia, Japão e Noruega.
Os dados preliminares do estudo italiano sugerem agora que a pandemia de covid-19 diminuiu a taxa de natalidade nos países de alto rendimento.
Para avaliar melhor o efeito desta doença, os autores do estudo recolheram dados mensais de Janeiro de 2016 a Março de 2021 de um total de 22 países de elevado rendimento. Após vários cálculos comparativos, os cientistas utilizaram modelos para contabilizar a sazonalidade e as tendências a longo prazo.
Ao aplicar e aperfeiçoar os modelos, os dados mostram que a pandemia foi acompanhada por um declínio significativo nas taxas de natalidade bruta para além do previsto pelas tendências do passado em sete dos 22 países considerados.
Assim, as taxas de natalidade bruta caíram 8,5% na Hungria, 9,1% em Itália, 8,4% em Espanha e 6,6% em Portugal. Além disso, Bélgica, Áustria e Singapura também mostraram um declínio significativo nas taxas de natalidade bruta, de acordo com esta análise.
Contudo, os autores sublinham que os dados disponíveis apenas fornecem informações sobre a primeira vaga e, portanto, “apenas dão uma ideia do declínio global durante a pandemia”.
Os dados fornecem informações sobre várias fases da primeira vaga e indicam que em alguns países, como França e Espanha, foi observada uma recuperação nas taxas de natalidade em Março de 2021, quando comparadas com as de Junho de 2020.
Para estes países, o mês de Junho de 2020 marcou o ponto em que a primeira vaga da pandemia diminuiu, podendo assim reflectir uma inversão.
De acordo com os autores, os resultados revelam o impacto da pandemia na dinâmica populacional e podem ter implicações políticas nos cuidados infantis, na habitação e no mercado de trabalho.
Estudo de universidade italiana analisou a evolução da natalidade em 22 países e concluiu que em sete deles a natalidade diminuiu para lá do que era previsível.
A pandemia tem sido acompanhada por uma queda significativa nas taxas de natalidade bruta em países de alto rendimento, com declínios particularmente acentuados no sul da Europa: Itália (-9,1%), Espanha (-8,4%) e Portugal (-6,6%). Esta é a principal conclusão de um estudo conduzido pela Universidade Bocconi de Itália e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, utilizando modelos numéricos e analisando dados de 22 países.
As pandemias são um motor fundamental das mudanças nas populações, afectando tanto a mortalidade como as taxas de natalidade.
A maior pandemia do século passado, a chamada gripe espanhola (1918-1919), fez com que as taxas de natalidade nos Estados Unidos baixassem de 23 por 1000 habitantes em 1918 para 20 por 1000 em 1919 (-13%). Efeitos comparáveis foram observados em países como Reino Unido, Índia, Japão e Noruega.
Os dados preliminares do estudo italiano sugerem agora que a pandemia de covid-19 diminuiu a taxa de natalidade nos países de alto rendimento.
Para avaliar melhor o efeito desta doença, os autores do estudo recolheram dados mensais de Janeiro de 2016 a Março de 2021 de um total de 22 países de elevado rendimento. Após vários cálculos comparativos, os cientistas utilizaram modelos para contabilizar a sazonalidade e as tendências a longo prazo.
Ao aplicar e aperfeiçoar os modelos, os dados mostram que a pandemia foi acompanhada por um declínio significativo nas taxas de natalidade bruta para além do previsto pelas tendências do passado em sete dos 22 países considerados.
Assim, as taxas de natalidade bruta caíram 8,5% na Hungria, 9,1% em Itália, 8,4% em Espanha e 6,6% em Portugal. Além disso, Bélgica, Áustria e Singapura também mostraram um declínio significativo nas taxas de natalidade bruta, de acordo com esta análise.
Contudo, os autores sublinham que os dados disponíveis apenas fornecem informações sobre a primeira vaga e, portanto, “apenas dão uma ideia do declínio global durante a pandemia”.
Os dados fornecem informações sobre várias fases da primeira vaga e indicam que em alguns países, como França e Espanha, foi observada uma recuperação nas taxas de natalidade em Março de 2021, quando comparadas com as de Junho de 2020.
Para estes países, o mês de Junho de 2020 marcou o ponto em que a primeira vaga da pandemia diminuiu, podendo assim reflectir uma inversão.
De acordo com os autores, os resultados revelam o impacto da pandemia na dinâmica populacional e podem ter implicações políticas nos cuidados infantis, na habitação e no mercado de trabalho.
11.8.21
Trabalhadores da hotelaria pedem contratação colectiva e dizem que pandemia “não é desculpa”
in Público on-line
Trabalhadores do sector concentraram-se esta terça-feira em frente à sede da AHRESP, em Lisboa.
Mais de uma centena de trabalhadores do sector da hotelaria e turismo concentrou-se hoje em frente à sede da AHRESP, em Lisboa, para reivindicar a contratação colectiva, considerando que a pandemia “não é desculpa” para perder direitos.
“Temos aqui trabalhadores concentrados de norte a sul do país, fomos apresentar uma moção com as principais reivindicações do sector, que são muitas, nomeadamente a contratação colectiva”, disse aos jornalistas a coordenadora da Federação dos Sindicatos de Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal (FESAHT), Maria das Dores Gomes.
Concentrados em frente à sede da associação da hotelaria, restauração e similares de Portugal (AHRESP), em Lisboa, os trabalhadores consideraram “fundamental” que a associação empresarial “responda relativamente todos os contratos colectivos de trabalho”.
Segundo Maria das Dores Gomes, “os trabalhadores hoje ganham praticamente o salário mínimo nacional, e portanto é fundamental a contratação colectiva”.
Questionada acerca dos efeitos da pandemia de covid-19 no sector, a dirigente sindical considerou que “não é desculpa, porque houve anos e anos, cerca de sete e oito anos, em que a hotelaria esteve, de facto, em alta, com lucros fabulosos, e aí os trabalhadores não viram as suas condições de vida melhoradas”.
Durante a pandemia, “boa parte das empresas tiveram direito a apoio do Estado, apoios esses com dinheiros públicos”, sinalizando que devido a isso, para a FESAHT, “não foram penalizadas”.
“Estão a ser postos em causa os principais direitos dos trabalhadores, nomeadamente o direito às férias, à conciliação entre a família e o trabalho, uma grande parte das empresas está a impor o banco de horas, portanto neste momento os sindicatos estão muito atentos”, vincou a responsável sindical.
Maria das Dores Gomes denunciou ainda que neste momento as empresas dos vários sectores abrangidos pela FESAHT “vão buscar os estagiários, pagam-lhes apenas o subsídio de alimentação -- nalguns casos, noutros nem isso -- e portanto têm trabalhadores à borla”, falando até em “escravatura”.
“Não é atractivo também para os jovens, porque não estão a ser acompanhados por um profissional. São lançados aos “leões”, como nós costumamos dizer. São estagiários e estão a substituir trabalhadores efectivos. Consideramos que isto é, de facto, um abuso por parte das empresas”, salientou.
A FESAHT entregou à AHRESP uma moção reivindicativa e “pedidos de reuniões ainda para este mês”, segundo Maria das Dores Gomes, devido à questão ser “muito urgente”.
Os trabalhadores em protesto marcharam depois até ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, com o objectivo de entregar a moção e solicitar uma reunião com a ministra Ana Mendes Godinho.
Na moção, a que a Lusa teve acesso, os trabalhadores exigem a “reabertura imediata de todas as empresas e estabelecimentos”, a “reposição de todos os direitos dos trabalhadores retirados desde o início da pandemia”, o “pagamento dos salários em atraso” e a “integração nos quadros de todos os trabalhadores despedidos”.
É ainda exigido “respeito pelos direitos dos trabalhadores”, a “negociação da contratação colectiva”, o “aumento salarial mínimo de 90 euros para todos os trabalhadores” e a “anulação de todas as restrições e condicionalismos desnecessários”.
Trabalhadores do sector concentraram-se esta terça-feira em frente à sede da AHRESP, em Lisboa.
Mais de uma centena de trabalhadores do sector da hotelaria e turismo concentrou-se hoje em frente à sede da AHRESP, em Lisboa, para reivindicar a contratação colectiva, considerando que a pandemia “não é desculpa” para perder direitos.
“Temos aqui trabalhadores concentrados de norte a sul do país, fomos apresentar uma moção com as principais reivindicações do sector, que são muitas, nomeadamente a contratação colectiva”, disse aos jornalistas a coordenadora da Federação dos Sindicatos de Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal (FESAHT), Maria das Dores Gomes.
Concentrados em frente à sede da associação da hotelaria, restauração e similares de Portugal (AHRESP), em Lisboa, os trabalhadores consideraram “fundamental” que a associação empresarial “responda relativamente todos os contratos colectivos de trabalho”.
Segundo Maria das Dores Gomes, “os trabalhadores hoje ganham praticamente o salário mínimo nacional, e portanto é fundamental a contratação colectiva”.
Questionada acerca dos efeitos da pandemia de covid-19 no sector, a dirigente sindical considerou que “não é desculpa, porque houve anos e anos, cerca de sete e oito anos, em que a hotelaria esteve, de facto, em alta, com lucros fabulosos, e aí os trabalhadores não viram as suas condições de vida melhoradas”.
Durante a pandemia, “boa parte das empresas tiveram direito a apoio do Estado, apoios esses com dinheiros públicos”, sinalizando que devido a isso, para a FESAHT, “não foram penalizadas”.
“Estão a ser postos em causa os principais direitos dos trabalhadores, nomeadamente o direito às férias, à conciliação entre a família e o trabalho, uma grande parte das empresas está a impor o banco de horas, portanto neste momento os sindicatos estão muito atentos”, vincou a responsável sindical.
Maria das Dores Gomes denunciou ainda que neste momento as empresas dos vários sectores abrangidos pela FESAHT “vão buscar os estagiários, pagam-lhes apenas o subsídio de alimentação -- nalguns casos, noutros nem isso -- e portanto têm trabalhadores à borla”, falando até em “escravatura”.
“Não é atractivo também para os jovens, porque não estão a ser acompanhados por um profissional. São lançados aos “leões”, como nós costumamos dizer. São estagiários e estão a substituir trabalhadores efectivos. Consideramos que isto é, de facto, um abuso por parte das empresas”, salientou.
A FESAHT entregou à AHRESP uma moção reivindicativa e “pedidos de reuniões ainda para este mês”, segundo Maria das Dores Gomes, devido à questão ser “muito urgente”.
Os trabalhadores em protesto marcharam depois até ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, com o objectivo de entregar a moção e solicitar uma reunião com a ministra Ana Mendes Godinho.
Na moção, a que a Lusa teve acesso, os trabalhadores exigem a “reabertura imediata de todas as empresas e estabelecimentos”, a “reposição de todos os direitos dos trabalhadores retirados desde o início da pandemia”, o “pagamento dos salários em atraso” e a “integração nos quadros de todos os trabalhadores despedidos”.
É ainda exigido “respeito pelos direitos dos trabalhadores”, a “negociação da contratação colectiva”, o “aumento salarial mínimo de 90 euros para todos os trabalhadores” e a “anulação de todas as restrições e condicionalismos desnecessários”.
30.7.21
Valor do crédito em moratória desce para 37,5 mil milhões em Junho
in Público on-line
No final de Junho, os empréstimos de particulares abrangidos por moratórias eram de 14,4 mil milhões de euros
O montante global de empréstimos abrangidos por moratórias era de 37.500 milhões de euros no final de Junho, menos 1000 milhões do que em Maio, divulgou hoje o Banco de Portugal (BdP).
De acordo com as estatísticas das moratórias de crédito, publicadas pelo banco central, “no final de Junho de 2021, o montante global de empréstimos abrangidos por moratórias era de 37.500 milhões de euros, menos 1000 milhões do que em Maio”.
O BdP explicou que esta variação “resulta do decréscimo tanto dos empréstimos concedidos a particulares como a sociedades não financeiras, que diminuíram 0,3 e 0,6 mil milhões de euros, respectivamente”.
No caso dos empréstimos concedidos a particulares, a descida verificou-se tanto nos empréstimos à habitação como nas outras finalidades, tendo para isso contribuído o fim, em Junho, das moratórias privadas dos empréstimos concedidos para outras finalidades que não a habitação.
No final de Junho, os empréstimos de particulares abrangidos por moratórias eram de 14.400 milhões de euros, quantificou o BdP.
Já os empréstimos das sociedades não financeiras em moratória diminuíram em todos os sectores de actividade e, no final de Junho, totalizavam 22.300 milhões de euros.
Em Junho existiam 23.800 empresas de sectores mais afectados pela pandemia de covid-19 abrangidas por moratórias e, segundo o BdP, “o montante de empréstimos com pagamento suspenso diminuiu 0,1 mil milhões de euros face a Maio, para 8,4 mil milhões de euros”.
No final de Junho, os empréstimos de particulares abrangidos por moratórias eram de 14,4 mil milhões de euros
O montante global de empréstimos abrangidos por moratórias era de 37.500 milhões de euros no final de Junho, menos 1000 milhões do que em Maio, divulgou hoje o Banco de Portugal (BdP).
De acordo com as estatísticas das moratórias de crédito, publicadas pelo banco central, “no final de Junho de 2021, o montante global de empréstimos abrangidos por moratórias era de 37.500 milhões de euros, menos 1000 milhões do que em Maio”.
O BdP explicou que esta variação “resulta do decréscimo tanto dos empréstimos concedidos a particulares como a sociedades não financeiras, que diminuíram 0,3 e 0,6 mil milhões de euros, respectivamente”.
No caso dos empréstimos concedidos a particulares, a descida verificou-se tanto nos empréstimos à habitação como nas outras finalidades, tendo para isso contribuído o fim, em Junho, das moratórias privadas dos empréstimos concedidos para outras finalidades que não a habitação.
No final de Junho, os empréstimos de particulares abrangidos por moratórias eram de 14.400 milhões de euros, quantificou o BdP.
Já os empréstimos das sociedades não financeiras em moratória diminuíram em todos os sectores de actividade e, no final de Junho, totalizavam 22.300 milhões de euros.
Em Junho existiam 23.800 empresas de sectores mais afectados pela pandemia de covid-19 abrangidas por moratórias e, segundo o BdP, “o montante de empréstimos com pagamento suspenso diminuiu 0,1 mil milhões de euros face a Maio, para 8,4 mil milhões de euros”.
15.7.21
Cientistas corrigem história do primeiro surto de covid-19 em Portugal
Andrea Cunha Freitas, in Público on-line
Afinal, o caso de Lousada estava mal contado. As análises às sequências genéticas do vírus que infectou várias pessoas contam uma história diferente da que ouvimos em 2020 e reforçam a importância de seguir este rasto para travar uma cadeia de transmissão.
Já passámos por muitas coisas e várias vagas desde aquele que terá sido o primeiro surto de covid-19 detectado em Portugal, numa fábrica de calçado em Lousada, no distrito do Porto. Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto e do Hospital de S. João conseguiu fazer uma reconstituição do caso que começou no fim de Fevereiro de 2020. O artigo científico publicado este mês apresenta uma nova versão da história, sublinhando a importância de seguir o rasto do vírus para travar uma cadeia de transmissão. Terá sido um oportuno excesso de zelo, mais ou menos às cegas, que evitou um pior desfecho.
O surto de covid-19 em Lousada terá sido o primeiro a ser detectado em Portugal, mas não teve consequências dramáticas. Mais de 50 pessoas foram infectadas mas foi possível isolar os casos, impedindo uma disseminação que podia obviamente ter sido mais grave e ter corrido muito mal. No entanto, na verdade o “travão” colocado neste surto foi resultado de uma série de medidas restritivas e preventivas adoptadas de forma generalizada sem que se soubesse com precisão o que estava ali acontecer. Ou seja, o plano de prevenção resultou porque apontou para todos os possíveis alvos, isolando os casos positivos detectados.
Num exercício quase forense, os cientistas conseguiram agora fazer a reconstituição deste episódio importante da pandemia a nível nacional. O trabalho foi o resultado de uma parceria que juntou os investigadores do I3S à equipa clínica do hospital de S. João, no Porto, coordenada pela infecciologista Margarida Tavares. Segundo explica ao PÚBLICO Luísa Pereira, geneticista do i3S e que coordenou este trabalho ao longo de vários meses, as análises de sequenciação do vírus reescrevem várias partes da história sobre o surto na fábrica de calçado em Lousada. O artigo foi publicado este mês de Junho na revista Viruses, do grupo suíço MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute).
Duas viagens, quatro pessoas e dois grandes almoços
Primeiro dado a corrigir no estranho caso da fábrica de calçado em Lousada: não houve uma viagem a Itália com dois elementos desta empresa. Foram duas viagens e em cada uma delas foram (e voltaram, claro) duas pessoas. Numa primeira viagem, entre 16 e 18 de Fevereiro, viajou o dono da fábrica com um cunhado. Na viagem seguinte, realizada entre 19 a 21 de Fevereiro, deslocaram-se também a Itália para outra feira de calçado um outro cunhado (que em 2020 foi identificado como paciente zero do surto em Lousada, porque foi o primeiro a ser diagnosticado) e o filho do dono da fábrica que também trabalha para a empresa.
Segundo dado a corrigir: não houve um, mas dois grandes almoços de família no mesmo dia de 25 de Fevereiro, terça-feira de Carnaval, e que acabaram por servir para alastrar ainda mais a infecção. Num dos encontros juntaram-se 26 pessoas e no outro 21.
A versão que surgiu na altura consistia no relato de apenas uma viagem de duas pessoas da fábrica, sendo que um desses viajantes teria voltado infectado e depois disseminado o vírus entre os trabalhadores da empresa e familiares, num almoço de família. Mas o rasto genético do vírus conta uma história diferente.
A pessoa que inicialmente foi identificada como o paciente zero deste surto, o cunhado que embarcou na segunda viagem, não estava infectada com a mesma variante do vírus encontrada nos outros casos diagnosticados nos dias seguintes na fábrica, na família e até entre os amigos.
“O ‘acusado’ não infectou ninguém, uma vez que nenhuma das outras pessoas tinha a mesma variante do vírus. Percebemos que quatro pessoas que trabalhavam na fábrica, e têm uma relação familiar, foram em duas viagens desfasadas mas muito próximas a duas feiras a Milão, em Itália”, confirma a geneticista.
Qualquer um dos outros três viajantes pode ter sido o paciente zero. Não se sabe ao certo quem. Luísa Pereira refere que “o mais provável” é que tenha sido o dono da fábrica que se sabe que ficou infectado com uma sequência do vírus que coincide com a maioria das outras que foram depois diagnosticadas, mas não é possível descartar as outras duas pessoas, uma vez que não foram recolhidas amostras desses indivíduos. Uma coisa é certa: as diferenças nas sequências genéticas do vírus que andou por ali a circular não permitem admitir sequer a hipótese de se tratar do mesmo vírus com uma ligeira mutação. “São dois ramos distintos”, insiste Luísa Pereira. Nas 23 sequências genéticas isoladas e analisadas, existia apenas uma que pertencia a um ramo do vírus SARS CoV-2 e todas as outras eram de um outro ramo.
Mas o que interessa, afinal, saber se foi um ou outro? A verdade é que o vírus se espalhou primeiro na fábrica e depois nas famílias e até em alguns círculos de amigos. O interesse dos investigadores é fácil de perceber, afinal estes foram os primeiros casos a surgir no país. A equipa clínica do Hospital de S. João tinha acesso a uma grande cadeia de transmissão do vírus localizada e que, só por isso, importava estudar.
O trabalho parte da identificação de uma pessoa responsável pela disseminação da infecção em ambiente de trabalho e familiar. Isto, lembra Luísa Pereira, aconteceu numa altura em que as autoridades de saúde recomendavam o isolamento e internamento hospitalar de qualquer caso positivo. “Muitas destas pessoas foram internadas e não porque estavam realmente doentes [com sintomas], mas apenas porque eram essas as indicações”, confirma a geneticista.
Assim, a análise às amostras que foi possível recolher e preservar revelou que ali existiram dois ramos distintos da infecção. A pessoa identificada como paciente zero tem uma variante do vírus que é diferente de todos os outros. As peças do puzzle só começaram a encaixar depois de muitas perguntas. Primeiro, soube-se que esse paciente não foi sozinho, depois que tinham existido duas viagens na mesma altura com outras duas pessoas ligadas à mesma empresa e, por fim, que tinham ocorrido afinal dois almoços de família no mesmo dia.
“As pessoas quando entrevistadas pelos médicos ou técnicos de saúde não se lembram de tudo – não é por mal. E o modo como se faz as perguntas direcciona muito as respostas”, justifica Luísa Pereira, sublinhando o papel da infecciologista Margarida Tavares que conseguiu obter muitos dados importantes junto de uma “aliada” que pertence à família afectada e que ajudou os cientistas fornecendo preciosos detalhes em falta.
De uma ponta até outra e outra foi possível reescrever esta história. Com um considerável grau de detalhe que mostrou, por exemplo, que uma das pessoas infectadas neste surto era a manicure de uma das mulheres mais velhas da família e que esta manicure, por sua vez, também infectou o marido. O puzzle dos cientistas numera as várias pessoas infectadas e segue-lhes o rasto, distinguindo os saltos do vírus com cores num gráfico que mostra a complicada teia de relações e contactos entre os quatro viajantes, os trabalhadores da fábrica, as famílias, os dois grandes almoços e os amigos. Como se estivéssemos a assistir a um policial em que seguimos o rasto de quem esteve com quem, onde, como e quando e o que aconteceu depois. Um policial sem grande suspense dado que já sabemos desde o início que o único culpado é mesmo o vírus.
A lição e a sorte de ser o primeiro
O facto de termos um ramo do vírus que só infectou uma pessoa e outro que infectou várias, pode significar alguma coisa sobre o agente infeccioso? Uma versão pode ser mais contagiosa do que outra? Luísa Pereira não arrisca uma resposta definitiva e reconhece que há várias hipóteses. Talvez, sugere, o tal indivíduo que tinha uma variante do vírus que não foi encontrada em mais nenhuma outra pessoa (analisada) tivesse uma carga viral mais baixa. Talvez esta pessoa tenha tido algum comportamento que evitou a sua disseminação. Talvez exista outra qualquer explicação para isso. Não se sabe.
Sabe-se que as duas sequências estavam a circular na altura e eram as duas comuns, esclarece a geneticista. Das poucas certezas que restam para memória futura é que a pessoa que foi na altura identificada como o paciente zero não o era. Não podia ser.
“A sequenciação é muito importante para ter toda a informação” sobre a viagem de um vírus e, consequentemente, para a conseguir travar. Por ter sido um dos primeiros surtos, a cadeia de transmissão acabou por ser atacada em várias frentes e evitou consequências mais graves. Mas foi uma estratégia às cegas em que todos lucraram com um excesso de zelo que impôs uma série de medidas que nas fases seguintes da pandemia (com um elevado número de casos diagnosticados) não seria possível. Isolar e até internar todos os casos positivos independentemente da gravidade dos sintomas da doença não é sequer uma hipótese hoje.
Por isso, fica a lição. Tudo acabou bem porque ainda tudo estava a começar e houve excesso de zelo, mas o ideal é que seja possível ter rapidamente este tipo de dados para agir de forma também rápida e certeira. “Agora sabemos que estas informações complementares de sequenciação são muito úteis e se forem feitas rapidamente serão muito mais úteis no terreno”, diz Luísa Pereira.
Por teimosia, rigor ou pela necessidade de saber que faz parte de fazer ciência, a equipa fez questão de tirar o estranho caso do surto na fábrica de Lousada a limpo. As análises e sequências já estavam feitas desde o ano passado e o artigo estava pronto a publicar no início deste ano, mas como as revistas foram atingidas por uma verdadeira avalanche de trabalhos sobre este vírus e sobre a doença que provoca, o esclarecimento do caso do primeiro surto de covid-19 em Portugal teve de esperar. Até agora.
Afinal, o caso de Lousada estava mal contado. As análises às sequências genéticas do vírus que infectou várias pessoas contam uma história diferente da que ouvimos em 2020 e reforçam a importância de seguir este rasto para travar uma cadeia de transmissão.
Já passámos por muitas coisas e várias vagas desde aquele que terá sido o primeiro surto de covid-19 detectado em Portugal, numa fábrica de calçado em Lousada, no distrito do Porto. Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto e do Hospital de S. João conseguiu fazer uma reconstituição do caso que começou no fim de Fevereiro de 2020. O artigo científico publicado este mês apresenta uma nova versão da história, sublinhando a importância de seguir o rasto do vírus para travar uma cadeia de transmissão. Terá sido um oportuno excesso de zelo, mais ou menos às cegas, que evitou um pior desfecho.
O surto de covid-19 em Lousada terá sido o primeiro a ser detectado em Portugal, mas não teve consequências dramáticas. Mais de 50 pessoas foram infectadas mas foi possível isolar os casos, impedindo uma disseminação que podia obviamente ter sido mais grave e ter corrido muito mal. No entanto, na verdade o “travão” colocado neste surto foi resultado de uma série de medidas restritivas e preventivas adoptadas de forma generalizada sem que se soubesse com precisão o que estava ali acontecer. Ou seja, o plano de prevenção resultou porque apontou para todos os possíveis alvos, isolando os casos positivos detectados.
Num exercício quase forense, os cientistas conseguiram agora fazer a reconstituição deste episódio importante da pandemia a nível nacional. O trabalho foi o resultado de uma parceria que juntou os investigadores do I3S à equipa clínica do hospital de S. João, no Porto, coordenada pela infecciologista Margarida Tavares. Segundo explica ao PÚBLICO Luísa Pereira, geneticista do i3S e que coordenou este trabalho ao longo de vários meses, as análises de sequenciação do vírus reescrevem várias partes da história sobre o surto na fábrica de calçado em Lousada. O artigo foi publicado este mês de Junho na revista Viruses, do grupo suíço MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute).
Duas viagens, quatro pessoas e dois grandes almoços
Primeiro dado a corrigir no estranho caso da fábrica de calçado em Lousada: não houve uma viagem a Itália com dois elementos desta empresa. Foram duas viagens e em cada uma delas foram (e voltaram, claro) duas pessoas. Numa primeira viagem, entre 16 e 18 de Fevereiro, viajou o dono da fábrica com um cunhado. Na viagem seguinte, realizada entre 19 a 21 de Fevereiro, deslocaram-se também a Itália para outra feira de calçado um outro cunhado (que em 2020 foi identificado como paciente zero do surto em Lousada, porque foi o primeiro a ser diagnosticado) e o filho do dono da fábrica que também trabalha para a empresa.
Segundo dado a corrigir: não houve um, mas dois grandes almoços de família no mesmo dia de 25 de Fevereiro, terça-feira de Carnaval, e que acabaram por servir para alastrar ainda mais a infecção. Num dos encontros juntaram-se 26 pessoas e no outro 21.
A versão que surgiu na altura consistia no relato de apenas uma viagem de duas pessoas da fábrica, sendo que um desses viajantes teria voltado infectado e depois disseminado o vírus entre os trabalhadores da empresa e familiares, num almoço de família. Mas o rasto genético do vírus conta uma história diferente.
A pessoa que inicialmente foi identificada como o paciente zero deste surto, o cunhado que embarcou na segunda viagem, não estava infectada com a mesma variante do vírus encontrada nos outros casos diagnosticados nos dias seguintes na fábrica, na família e até entre os amigos.
“O ‘acusado’ não infectou ninguém, uma vez que nenhuma das outras pessoas tinha a mesma variante do vírus. Percebemos que quatro pessoas que trabalhavam na fábrica, e têm uma relação familiar, foram em duas viagens desfasadas mas muito próximas a duas feiras a Milão, em Itália”, confirma a geneticista.
Qualquer um dos outros três viajantes pode ter sido o paciente zero. Não se sabe ao certo quem. Luísa Pereira refere que “o mais provável” é que tenha sido o dono da fábrica que se sabe que ficou infectado com uma sequência do vírus que coincide com a maioria das outras que foram depois diagnosticadas, mas não é possível descartar as outras duas pessoas, uma vez que não foram recolhidas amostras desses indivíduos. Uma coisa é certa: as diferenças nas sequências genéticas do vírus que andou por ali a circular não permitem admitir sequer a hipótese de se tratar do mesmo vírus com uma ligeira mutação. “São dois ramos distintos”, insiste Luísa Pereira. Nas 23 sequências genéticas isoladas e analisadas, existia apenas uma que pertencia a um ramo do vírus SARS CoV-2 e todas as outras eram de um outro ramo.
Mas o que interessa, afinal, saber se foi um ou outro? A verdade é que o vírus se espalhou primeiro na fábrica e depois nas famílias e até em alguns círculos de amigos. O interesse dos investigadores é fácil de perceber, afinal estes foram os primeiros casos a surgir no país. A equipa clínica do Hospital de S. João tinha acesso a uma grande cadeia de transmissão do vírus localizada e que, só por isso, importava estudar.
O trabalho parte da identificação de uma pessoa responsável pela disseminação da infecção em ambiente de trabalho e familiar. Isto, lembra Luísa Pereira, aconteceu numa altura em que as autoridades de saúde recomendavam o isolamento e internamento hospitalar de qualquer caso positivo. “Muitas destas pessoas foram internadas e não porque estavam realmente doentes [com sintomas], mas apenas porque eram essas as indicações”, confirma a geneticista.
Assim, a análise às amostras que foi possível recolher e preservar revelou que ali existiram dois ramos distintos da infecção. A pessoa identificada como paciente zero tem uma variante do vírus que é diferente de todos os outros. As peças do puzzle só começaram a encaixar depois de muitas perguntas. Primeiro, soube-se que esse paciente não foi sozinho, depois que tinham existido duas viagens na mesma altura com outras duas pessoas ligadas à mesma empresa e, por fim, que tinham ocorrido afinal dois almoços de família no mesmo dia.
“As pessoas quando entrevistadas pelos médicos ou técnicos de saúde não se lembram de tudo – não é por mal. E o modo como se faz as perguntas direcciona muito as respostas”, justifica Luísa Pereira, sublinhando o papel da infecciologista Margarida Tavares que conseguiu obter muitos dados importantes junto de uma “aliada” que pertence à família afectada e que ajudou os cientistas fornecendo preciosos detalhes em falta.
De uma ponta até outra e outra foi possível reescrever esta história. Com um considerável grau de detalhe que mostrou, por exemplo, que uma das pessoas infectadas neste surto era a manicure de uma das mulheres mais velhas da família e que esta manicure, por sua vez, também infectou o marido. O puzzle dos cientistas numera as várias pessoas infectadas e segue-lhes o rasto, distinguindo os saltos do vírus com cores num gráfico que mostra a complicada teia de relações e contactos entre os quatro viajantes, os trabalhadores da fábrica, as famílias, os dois grandes almoços e os amigos. Como se estivéssemos a assistir a um policial em que seguimos o rasto de quem esteve com quem, onde, como e quando e o que aconteceu depois. Um policial sem grande suspense dado que já sabemos desde o início que o único culpado é mesmo o vírus.
A lição e a sorte de ser o primeiro
O facto de termos um ramo do vírus que só infectou uma pessoa e outro que infectou várias, pode significar alguma coisa sobre o agente infeccioso? Uma versão pode ser mais contagiosa do que outra? Luísa Pereira não arrisca uma resposta definitiva e reconhece que há várias hipóteses. Talvez, sugere, o tal indivíduo que tinha uma variante do vírus que não foi encontrada em mais nenhuma outra pessoa (analisada) tivesse uma carga viral mais baixa. Talvez esta pessoa tenha tido algum comportamento que evitou a sua disseminação. Talvez exista outra qualquer explicação para isso. Não se sabe.
Sabe-se que as duas sequências estavam a circular na altura e eram as duas comuns, esclarece a geneticista. Das poucas certezas que restam para memória futura é que a pessoa que foi na altura identificada como o paciente zero não o era. Não podia ser.
“A sequenciação é muito importante para ter toda a informação” sobre a viagem de um vírus e, consequentemente, para a conseguir travar. Por ter sido um dos primeiros surtos, a cadeia de transmissão acabou por ser atacada em várias frentes e evitou consequências mais graves. Mas foi uma estratégia às cegas em que todos lucraram com um excesso de zelo que impôs uma série de medidas que nas fases seguintes da pandemia (com um elevado número de casos diagnosticados) não seria possível. Isolar e até internar todos os casos positivos independentemente da gravidade dos sintomas da doença não é sequer uma hipótese hoje.
Por isso, fica a lição. Tudo acabou bem porque ainda tudo estava a começar e houve excesso de zelo, mas o ideal é que seja possível ter rapidamente este tipo de dados para agir de forma também rápida e certeira. “Agora sabemos que estas informações complementares de sequenciação são muito úteis e se forem feitas rapidamente serão muito mais úteis no terreno”, diz Luísa Pereira.
Por teimosia, rigor ou pela necessidade de saber que faz parte de fazer ciência, a equipa fez questão de tirar o estranho caso do surto na fábrica de Lousada a limpo. As análises e sequências já estavam feitas desde o ano passado e o artigo estava pronto a publicar no início deste ano, mas como as revistas foram atingidas por uma verdadeira avalanche de trabalhos sobre este vírus e sobre a doença que provoca, o esclarecimento do caso do primeiro surto de covid-19 em Portugal teve de esperar. Até agora.
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