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4.3.22

“Se interviermos na infância há uma grande chance de a criança não ser um adulto obeso”

Ana Maia, in Público on-line

Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Rito, investigadora do Insa, diz que a literacia junto das famílias e das crianças em idades precoces tem sido um dos factores chaves para mudar estilos de vida. E serão esses que poderão evitar que crianças obesas se tornem adultos obesos.

Esta sexta-feira assinala-se o Dia Mundial de Combate à Obesidade. Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Rito, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) fala do trabalho que Portugal tem feito e que numa década permitiu reduzir a prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil. Mas ainda há muito a fazer, refere, temendo os efeitos que a pandemia possa ter tido nas famílias com menores condições socioeconómicas. A também directora do Centro de Estudos e Investigação em Dinâmicas Sociais e Saúde diz que a literacia junto das famílias e das crianças em idades precoces tem sido um dos factores chaves para mudar estilos de vida. E serão esses que poderão evitar que crianças obesas se tornem adultos obesos.

Entre 2008 e 2019, segundo os últimos dados do Cosi - sistema de vigilância nutricional infantil integrado no estudo Childhood Obesity Surveillance Initiative da OMS/Europa, coordenado pelo Insa -, Portugal reduziu a prevalência de excesso de peso e de obesidade infantil. Tem dados mais recentes?
Conseguimos no espaço de uma década reduzir 8,2 pontos percentuais em termos de excesso de peso e obesidade. Portugal foi dos países que se situou bem na Europa, não só em termos de promoção da saúde infantil, mas de prevenção de doença. Não temos mais dados, porque as rondas são feitas a cada três anos. Estamos no momento a avaliar cerca de 8 mil crianças nesta sexta ronda do Cosi Portugal. O Insa, como centro colaborativo para a nutrição infantil da OMS Europa, lidera também um estudo sobre o impacto da pandemia nos estilos de vida e no estado nutricional da criança. Certamente estes dois anos de pandemia terão tido algum impacto, ainda que não tão directamente no estado nutricional, em termos de práticas alimentares e de estilos de vida. Estamos a realizar este estudo com outros 27 países da Europa.

Na fase inicial do Cosi éramos o segundo país europeu com maior prevalência de excesso de peso e obesidade. Onde nos coloca a redução que aconteceu?
Neste momento, a meio da tabela. Estamos muito a par da média europeia. Mas estamos ainda muito longe dos que têm menos prevalência de excesso de peso e obesidade infantil, nomeadamente os países do Norte da Europa e da Ásia Central. Estudámos quais as variáveis que terão tido mais impacto nesta redução, sem dúvida foi a educação e a formação da mãe. As mães de 2019 são seguramente mais informadas que as mães de 2008 por todo este investimento que houve de traduzir o que é a ciência.

Mas ainda há uma enorme dificuldade em perceber se os produtos à venda são bons ou não em termos nutricionais. O que deve se feito?
Este trabalho só se consegue com um esforço conjunto. Se há organismos como o Insa, a DGS, e outros, que têm vindo a fazer um esforço para haver um diálogo maior com a indústria, para que esta aposte na reformulação dos seus produtos alimentares, é necessário que nutricionistas e outros profissionais sejam capazes de aumentar a literacia das pessoas que vão ler os rótulos. Depois é preciso ensinar a mãe, o pai, a criança, o adolescente quando chegar a um supermercado a perguntar o que hei-de escolher. Continuo a escolher os mesmos produtos, sabendo que estes alimentos têm menos açúcar, ou altero os hábitos alimentares? Acho que há muito a fazer no sentido de aumentar a literacia das pessoas para saberem o que estão a escolher.

Temos de ensinar estas crianças e famílias a mudar os seus hábitos alimentares. Depois, numa estratégia um pouco mais adulta, perceber que há uma série de produtos alimentares que podem preferir, mas que não devem consumir

Como é que isso se faz?
Com uma promoção, em primeiro lugar, de produtos no seu formato natural. É ir primeiro a uma bancada de frutos, de legumes. Esses [produtos] serão a base da sua alimentação. Naturalmente, olhar para uma roda dos alimentos e perceber onde estão os alimentos que são importantes para a nossa alimentação. A seguir, é conseguimos explicar à criança nestes ambientes escolares que trocar um produto embalado por um outro tipo de lanche mais saudável é completamente diferente em termos de aporte de açúcar e de gordura. Temos de ensinar estas crianças e famílias a mudar os seus hábitos alimentares. Depois, numa estratégia um pouco mais adulta, perceber que há uma série de produtos alimentares que podem preferir, mas que não devem consumir.

Portugal tem implementado várias medidas. Há o imposto criado sobre as bebidas açucaradas e um trabalho com a indústria para a reformulação de vários produtos. Devemos criar mais impostos ou o caminho é mais pelo diálogo?
A minha opinião é que o caminho é pelo diálogo. O imposto sobre as bebidas açucaradas foi criado em 2017, após termos conhecido em 2016 os dados do Cosi Portugal que mostrou que as crianças faziam um consumo acima dos 60% de refrigerantes açucarados e houve a necessidade de criar uma medida. É esta dinâmica que se faz. Nós mostramos os dados, onde estão os erros, e as entidades competentes, os decisores políticos, conseguem transformar isto numa acção política, naquilo que tem vindo a ser o diálogo com a indústria para a melhoria dos perfis nutricionais. Portugal tem sido exemplar nessa matéria. Há muitos outros países da Europa que não têm feito caminho algum, até mesmo pela pressão da indústria.

Há uma meta do que deveria ser o valor máximo de excesso de peso e obesidade?
O objectivo é sempre zero, é não termos obesidade ou excesso de peso. Isto só funciona por esta plataforma de gentes co-responsáveis por esta matéria. É a responsabilidade dos média, dos decisores políticos, dos investigadores que continuam a produzir dados actuais para que se faça algo em respostas. São programas a nível local, regional e nacional de combate à obesidade infantil, com os municípios à cabeça. Tudo o que se faz a nível local é muito importante, porque ninguém conhece melhor as suas comunidades do que os que vivem nelas.

Antes da pandemia falou-se muito de ambientes saudáveis nas cidades, com mais espaços verdes e melhor oferta alimentar. Abandonou-se esta ideia?
Houve uma aposta enorme ao nível dos espaços exteriores, que eram os espaços onde se podia conviver abertamente na altura em que vivemos mais sob as restrições da pandemia. A aposta das cidades nessa matéria continuou a existir. Talvez não se tenha falado tanto nisso.

Então a pandemia trouxe esse ponto positivo, que foi valorizar esses espaços.
Não tenho dúvidas. Por um lado, a pandemia melhorou os estilos de vida das pessoas que tinham melhores condições socioeconómicas. Essa utilização dos espaços exteriores, aumento da actividade física, o facto de cozinharem em casa, foi tudo um aspecto muito positivo. Mas piorou muito a das pessoas que estão no outro lado, pessoas que perderam brutalmente as suas condições económicas ao fim do mês. A preocupação não era tornarem-se mais saudáveis, era de alguma forma sobreviver a esta pandemia. A obesidade reside muito neste lado do espectro. É aqui que esperamos os piores resultados e temo que possa ter-se agravado a este nível. É aqui que a sociedade tem de reagir, ajudar estas famílias a superar aquilo que foi o impacto da pandemia nestes últimos dois anos.

Uma das preocupações com a obesidade infantil é a continuidade deste problema na vida adulta. Há alguma ideia de qual a percentagem de crianças com excesso de peso ou obesidade que se transformam em adultos com excesso de peso ou obesidade?
Ia dizer a maioria. É por isso que a nossa intervenção é o mais precoce possível, é antes da puberdade que devemos agir. Se essa intervenção for feita nessas idades, há uma grande chance desta criança não ser um adulto obeso no futuro. Se esta intervenção não existir, a grande probabilidade é que de facto grande parte desta população infantil com obesidade ou com excesso de peso perpetue esse seu estado nutricional, a sua obesidade, até à idade adulta. Depois depende muito de cada pessoa, da forma como cada um conhece a doença e o que a afecta ou não. Falamos mais disto em 2021 do que em 2005 e portanto é muito provável que qualquer pessoa já tenha ouvido falar das questões da obesidade e que uma criança com mais peso não é uma criança saudável.

Acho que a cada ano estamos melhor do que no anterior em termos de atenção à obesidade, que não deve de todo sair da agenda política de nenhum país, porque ainda nenhum conseguiu alcançar aquele objectivo zero

Os médicos também estão mais atentos ao problema?
Não tenha dúvidas. Estamos todos alinhados nessa matéria. Há um diálogo maior, há uma intervenção multidisciplinar que tem de ser feita e que acho que cada vez mais existe ao nível das unidades de saúde. Acho que a cada ano estamos melhor do que no anterior em termos de atenção à obesidade, que não deve de todo sair da agenda política de nenhum país, porque ainda nenhum conseguiu alcançar aquele objectivo zero. Temos todos de aprender uns com os outros e perceber como reagirmos, em cada país, às questões relacionadas com a obesidade, principalmente quando sabemos que muito provavelmente foi agravada nestes últimos dois anos.

Falta criar medicamentos para o tratamento do excesso de peso e obesidade ou para a área infantil isso não faz sentido?
Não faz sentido algum. A questão de medicalizarmos numa abordagem de obesidade infantil não existe. E muito menos cirurgia bariátrica. Não falta nada. O que falta é o aumento da literacia das famílias, olharem para os seus filhos e perceberem que eles têm uma doença quando têm obesidade. A infância é a altura ideal para se tratar a obesidade, porque é nessa altura que a criança está a prender, está mais apta para receber novas orientações, está mais atenta e ao mesmo tempo tem a seu favor o crescimento. Com o seu crescimento consegue de alguma forma ir ajudando na correcção da obesidade. Até aos 18 anos a obesidade é prevenível e tratável, no sentido de ser corrigida com uma mudança de estilos de vida. Queremos uma criança que abrace a sua vida futura de uma forma muito mais saudável.

20.10.20

65% das crianças com obesidade em Portugal sofrem de bullying escolar

 in Público on-line

Uma em cada cinco crianças com obesidade em Portugal foi vítima pela primeira vez de um ataque de cyberbullying nas redes sociais durante os meses de confinamento e ensino à distância.

Sessenta e cinco por cento das crianças com obesidade em Portugal sofrem de bullying escolar, segundo uma sondagem divulgada esta terça-feira, que aponta para um agravamento da situação devido ao confinamento provocado pela pandemia de covid-19.

A sondagem divulgada a propósito do Dia Mundial do Combate ao Bullying, pela Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI), indica também que uma em cada cinco crianças com obesidade em Portugal foi vítima pela primeira vez de um ataque de cyberbullying nas redes sociais durante os meses de confinamento e ensino à distância.

Insultos, alcunhas e comentários inapropriados foram os principais actos discriminatórios cometidos contra crianças com excesso de peso na faixa etária entre os 6 e os 14 anos. Os episódios de bullying reportados foram, segundo a sondagem, na maioria realizados por colegas da mesma turma (47%), seguindo-se situações com alunos de outras turmas da escola (40%) e ainda ocorrências com professores ou pessoal não docente (13%).

A maioria dos 512 encarregados de educação inquiridos revelou já ter tido que lidar com pelo menos um episódio de bullying escolar ou preconceito relacionado com o peso da criança, nos últimos dois anos lectivos. A APCOI adianta que a situação foi agravada pela pandemia da covid-19.

Para alertar sobre os efeitos do bullying, da discriminação e do estigma associados à obesidade, a APCOI juntou-se à Coligação Europeia de Associação de Pessoas com Obesidade (ECPO) na campanha “People First #LivingWithObesity”, que inclui o lançamento de um spot de vídeo, infográficos educativos e ainda um webinar ao vivo em simultâneo em todos os países.

“A APCOI aceitou o convite para participar nesta campanha europeia com o objectivo de pôr fim ao sofrimento não só das crianças, mas de todas as pessoas que em qualquer idade podem desenvolver esta doença crónica e não podem continuar a ser vítimas de estigma e de preconceito”, destaca o presidente da APCOI numa nota. Mário Silva sublinha que a mensagem da campanha é simples: “não há pessoas obesas, há pessoas que têm uma doença: obesidade”.

25.5.20

A luta inadiável contra a obesidade em tempo de pandemia

in DN

Nuno Miguel Santos chegou a pesar 270 Kg e teve de esperar quase dois meses para ser operado. Ansiedade, depressão e desespero fazem parte do dia a dia destes doentes.

O Dia Nacional de Luta contra a Obesidade é este sábado assinalado, num tempo em que a pandemia de covid-19 obrigou à suspensão de muitas cirurgias consideradas inadiáveis e ao confinamento da população, sinónimo para muitos de aumento de peso.

Foi o caso de Nuno Miguel Santos, de 35 anos, que começou a ser seguido no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, há cerca de seis meses. Com 270 quilogramas no arranque deste acompanhamento hospitalar, o assistente comercial de call center foi finalmente sujeito a uma cirurgia bariátrica na última quarta-feira, quando pesava 214 quilogramas, depois de quase dois meses de espera imposta pela pandemia do novo coronavírus.

"Não basta a cirurgia, é precisa força de vontade. Era para ter feito a cirurgia em março ou no início de abril, porque já andava com muita dificuldade com as muletas e era só mesmo para ir à casa de banho. Isso também me obrigou a ter de me aguentar", conta à Lusa Nuno Miguel Santos, que sempre teve um historial de excesso de peso e já era acompanhado noutra unidade hospitalar há cinco anos sem resultados visíveis.

A espiral de obesidade tornou-se irreversível a partir de 2014, quando começou a ter ataques de ansiedade. Ato contínuo, uma depressão atirou-o para o "fundo de um poço", onde já não queria mais estar com os amigos ou ter o prazer de cozinhar para a família. E nem o facto de ter uma mãe que também é médica conseguiu evitar a chegada a um ponto de não retorno, apesar de todos os esforços em sentido contrário.

"Não tinha mais a que me agarrar, por isso agarrei-me à comida. Desta vez, o clique foi mesmo ter ficado o Natal e a passagem de ano em casa, sem conseguir estar com os meus amigos ou a minha família. Passei-os a chorar", recorda, acrescentando: "Percebi que tinha mesmo de fazer [a cirurgia], senão ia morrer. E eu gosto de viver. O que posso dizer é que estou preparado para levar isto até ao fim. Ainda não acabou, mas vou conseguir".
67% da população portuguesa tem sobrepeso ou obesidade

No Hospital da Cruz Vermelha (HCV) encontrou o apoio do médico Rodrigo Oliveira, diretor do serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, e da respetiva equipa. Com mais de 7000 doentes com obesidade operados ao longo da carreira, o cirurgião, de 50 anos, destaca o caso de Nuno por se situar numa categoria de "super obeso", pouco comum em Portugal.

"O Nuno estava praticamente no momento de ser operado quando apareceu a pandemia e foi interrompido quando precisava de continuar o tratamento. Mesmo com este cenário da covid-19, ele é um doente de alto risco e precisava de continuar. Podia perder o 'timing', voltar a engordar e todo aquele tratamento de seis meses podia ser perdido", observa o clínico, que conduziu a cirurgia ao longo de quase duas horas, juntamente com dois anestesistas, uma assistente e três enfermeiros.

O caso de Nuno Santos é um exemplo extremo de um retrato da população portuguesa, em que 67% tem sobrepeso ou obesidade, "ou seja, vive em risco de desenvolver várias patologias, como diabetes, hipertensão ou enfarte agudo do miocárdio", sustenta Rodrigo Oliveira, que aponta ainda a obesidade -- diagnosticada quando o índice de massa corporal é superior a 30 - como "epicentro das principais doenças do mundo" e como fator de risco determinante para o óbito na covid-19.

"O principal fator que leva à morte no doente com infeção pela covid-19 é a obesidade. Há um estudo americano com 5.000 doentes que mostra que a cada 10 doentes que morreram pela covid-19 na Europa, sete eram obesos. Várias pesquisas estão a avançar com o intuito de identificar porque é que no doente obeso a doença foi tão grave e identificámos um fator inflamatório: a interleucina-6", explica.

Sublinhando a complexidade de uma doença que "passa por todos os órgãos do corpo humano e todas as especialidades médicas", o cirurgião, natural do Rio de Janeiro, lamenta ainda o "tabu" que diz existir na sociedade em relação à obesidade e a resistência política para ver como uma prioridade médica uma patologia que já figura na lista de doenças da Organização Mundial de Saúde desde 1980.

"A maior fila de espera no Serviço Nacional de Saúde é hoje para a cirurgia de obesidade. É muito impactante uma paragem destas nestes doentes. Se nesta pandemia os não obesos já engordam um bocadinho, imagine um doente obeso", afirma Rodrigo Oliveira, deixando um alerta: "Portugal é o quinto país do mundo com mais obesos per capita. A abordagem tem de mudar muito."

4.5.20

Pandemia faz disparar insegurança alimentar e agrava risco de obesidade

in Expresso

A perda repentina de poder de compra afeta um número considerável de famílias

pandemia de covid-19 está a ter um forte impacto na segurança alimentar dos portugueses, devido à falta de dinheiro para comprar alimentos, e a agravar o risco de obesidade, por causa do confinamento, destacaram duas especialistas.

"O impacto da pandemia não se irá fazer sentir, já está a fazer-se sentir. No último mês e meio, a insegurança alimentar cresceu muito em Portugal", alertou Ana Vizinho, da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), durante uma sessão do ciclo virtual conversas à mesa, dedicada ao tema "Emergências em saúde, alimentação e vulnerabilidade".

Segundo a responsável, a resposta ao surto do novo coronavírus está a ser "um desafio", já que, de um dia para o outro, muitas pessoas perderam parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, como os trabalhadores em 'lay-off', os que ficaram desempregados e os que trabalhavam na economia informal.

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"Houve um grande acréscimo de pedidos, uma vez que, além das pessoas que já eram apoiadas, agora há um novo perfil de pessoas a pedir apoio. E ainda há as que não estão a pedir apoios, mas que estão com um menor acesso à diversidade alimentar por falta de recursos financeiros", sublinhou Ana Vizinho.

Por seu turno, Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, apontou para o provável aumento do número de pessoas com doenças nutricionais crónicas e obesidade.

"Quase seis em cada 10 portugueses tem obesidade ou pré obesidade. Entre os idosos, o número cresce para oito em cada 10. E o impacto da situação de contingência provocada pela pandemia pode aumentar esta taxa, que já é muito elevada", sublinhou.

A perda repentina de poder de compra leva Joana Sousa a antecipar que 10% das famílias portuguesas passem por uma situação de insegurança alimentar.

"Há cada vez mais pessoas com dificuldades para comprar alimentos suficientes, e diversificados, para toda a família, por falta de recursos financeiros. A pandemia irá agravar as desigualdades em Portugal", vincou.

A especialista assinalou também que, nesta altura, a resposta política visa sobretudo o apoio à economia, deixando de lado as medidas necessárias para salvaguardar a segurança alimentar da população.

"Destaca-se a mobilização da sociedade civil para promover a ajuda alimentar aos mais carenciados", afirmou.

Na iniciativa promovida pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e por parceiros do projeto Alimentação é Direito, também foi oradora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que fez o ponto de situação do impacto da pandemia no Brasil.

"Há uma franja grande da população brasileira, de milhões de pessoas, que viviam do trabalho individual, e que já estavam em situação de pobreza e ultra pobreza, e, agora, estão na miséria extrema e [a passar] fome", salientou, criticando as políticas seguidas nos últimos anos, no período pós-Dilma Rousseff, que deixaram muitas famílias "completamente desprotegidas".

De acordo com a perita, desde "o golpe parlamentar que levou à saída de Dilma e à entrada de Temer, e, depois, de Bolsonaro", a rede de apoio alimentar à população "sofreu um retrocesso profundo", devido ao desmantelamento das instituições e do fim do financiamento às equipas".

Por isso, considerou que "a pandemia chegou ao Brasil num momento em que o tecido social está muito vulnerabilizado e a sofrer os efeitos da política ultra liberal, que implica o 'desapoderamento' da política social".

Como é que a pandemia está a afetar os sistemas alimentares?

por Inês Moreira Santos, in RTP

A pandemia da Covid-19 já infetou mais de três milhões de pessoas em todo o mundo, condicionando as populações e afetando as economias mundiais. Além dos efeitos epidemiológicos, sociais e económicos, esta crise global tem exposto a fragilidade dos sistemas alimentares e a vulnerabilidade das cadeias de valor globais.

O debate não é recente: a alimentação e a nutrição têm um impacto na nossa saúde. Mas num contexto de crise a nível mundial, como o atual, esta é uma questão que tem ganho mais relevo com a abordagem dos sistemas alimentares globais, a sua organização e o tipo de alimentos que disponibiliza às populações.

Os sistemas globais alimentares estão a ser visivelmente afetados com os efeitos da Covid-19 nas sociedades, e os mais carenciados são as principais vítimas desta pandemia. É necessário que haja respostas e atuação por parte dos governos, mas também da sociedade civil, para promover sistemas alimentares sustentáveis.

A pandemia fez abrandar a economia a nível mundial e, consequentemente, levou à redução de rendimentos e à perda de empregos, afetando o poder de compra, o acesso aos alimentos e até a disponibilidade alimentar no mercado. Isto "é um problema emergente", na opinião de Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, que participou no webinar "Emergências na saúde, alimentação e vulnerabilidade", na quinta-feira.

Na sessão online, organizada pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e Desenvolvimento, a nutricionista realçou que ainda antes da pandemia, já existiam desigualdades económicas e a nível alimentar em Portugal.

Cerca de 10,1 por cento das famílias portuguesas "experiementavam insegurança alimentar", isto é, dificuldade em "fornecer alimentos suficientes a toda a família, por falta de recursos financeiros". E pelo menos 2,6 por cento revelavam experimentar "insegurança alimentar moderada ou grave", tendo que alterar "hábitos alimentares habituais" e reduzir o consumo de alimentos.

Há ainda as famílias com rendimentos próximos ao salário mínimo nacional em que "a realidade de insegurança alimentar é significativamente mais elevada e mais severa". O que preocupa a nutricionista é que a pandemia vai agravar as desigualdades já existentes em Portugal.

"Este é que é o grande problema: o aumento da desigualdade que vai existir em Portugal relativamente à situação alimentar", lamentou Joana Sousa.
Segurança alimentar - direito a uma alimentação saudável

Existem medidas e apoios diversos - como por exemplo, o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas e a Rede de Emergência Alimentar do Banco Alimentar - mas as medidas políticas em curso, em pleno contexto pandémico, de apoio à economia, não priorizam o "direito a uma alimentação saudável, equilibrada e adequeada".

Embora não existam medidas políticas delineadas para as questões de segurança alimentar em Portugal, Joana Sousa lembrou o papel fundamental e a mobilização da sociedade civil na promoção e no auxílio alimentar dos mais carenciados, principalmente nas últimas semanas.

"O impacto de atuação tem sido privilegiado, exclusivamente, pela sociedade civil no sentido de potenciar e promover o auxílio aos que estão mais desfavorecidos", enalteceu.

Urge o combate à pobreza extrema e à insegurança alimentar moderada e grave, situações já existentes em Portugal mas que "perante a conjuntura atual vai agravar esta realidade no país", relembra a nutricionista.

Neste sentido, e considerando o agravamento das desigualdades, a Ordem dos Nutricionistas privilegia a elaboração de uma Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que assegure uma abordagem holística daquilo que é o direito a uma alimentação adequada, "reforçando o envolvimento de todos e em todos os domínios, ou seja, na globalidade do sistema alimentar", como a melhoria das práticas ambientais, económicas e sociais na agricultura e nos sistemas alimentares gerais.

É necessário, acrescentou a nutricionista, uma "melhor rentabilização de recursos".

Os efeitos da pandemia na alimentação, no entanto, não passam apenas pelos impactos na economia e na disponibilidade de alimentos, mas também na saúde da população que pode ficar gravemente deteriorada após a pandemia.

Considerando o contexto pandémico, "o confinamento a que fomos sujeitos, a alteração de comportamentos – quer do ponto de vista de saúde alimentar, quer do ponto de gasto energético – e os indicadores de excesso moderado a elevado de peso" em Portugal, a nutricionista não tem dúvidas de que se vai "incrementar significativamente esta realidade, potenciando o fator de risco também associado à insegurança alimentar e à implicação na saúde".

A nutricionista alertou, assim, que as necessidades nutricionais e a insegurança alimentar são uma realidade e que se agravam quando associadas às "doenças crónicas não transmissíveis", como a obesidade ou a diabetes, por exemplo.

O foco neste momento é a prevenção e o tratamento da Covid-19, mas é necessário não descurar deste problema. Aliás, "a promoção da saúde é tão importante como o tratamento da doença".
"Está a haver um aumento significativo da prevalência destes indicadores a nível da população, dado as alterações de comportamentos que todos fomos obrigados a adotar, nestes últimos tempos".

É necessário, por isso, colmatar as desigualdades socioeconómicas, assim como as condições de acesso aos cuidados de saúde, a alimentação e nutrição. Uma das soluções apontadas pela convidada do webinar foi o aumento da ação de profissionais.

"É fundamental o papel de um nutricionista escolar, de nutricionistas na realidade de uma autarquia, do poder local, porque o que existe a nível nacional é muito escasso para o que é a real necessidade".

Para a Ordem dos Nutricionistas, é importante não desvalorizar "a alimentação da população em geral em tempo de isolamento".

A saúde mental, por exemplo, "tem um impacto relevante nos comportamentos alimentares e nas opões e escolhas alimentares, e com aquele sentimento da compensação", esclareceu Joana Sousa.

"A verdade é que podemos estar numa fase de alteração de padrão e comportamento alimentar com um risco elevado para a saúde da população em geral".

Recorde-se que pessoas portadoras de doenças crónicas, geralmente, são mais suscetíveis a infeções, sendo consideradas grupo de risco para a Covid-19.
Soluções para a economia e a alimentação

Mesmo em contexto pandémico, o problema não é apenas a falta de alimento, mas sim de nutrição adequada.

A criação de parcerias entre entidades - como pequenos agricultores e mercados locais, por exemplo - e a seleção preferencial de alimentos de produção local e de cadeia curta são algumas das medidas propostas, como critérios de qualidade alimentar, pela Ordem dos Nutricionistas, no sentido de erradicar a pobreza, colmatar as desigualdades socioeconómicas e promover uma alimentação saudável.

O aumento das desigualdades e dos casos de pobreza, anunciadas pela chegada da pandemia e o abrandamento económico, pode potenciar a vulnerabilidade das populações a doenças relacionadas com a alimentação e até a possíveis pandemias futuras.

O surto do novo coronavírus em Portugal "já está" a agravar as desigualdades socioeconómicas em Portugal, na opinião de Ana Vizinho da Rede Europeia Anti-pobreza - EAPN, também oradora da webinar, promovida no âmbito do projeto Alimentação é Direito, da ACTUAR.

"Num mês e meio, houve muita coisa que mudou e, no ponto de vista alimentar, mudou drasticamente", afirmou, acrescentando que "a insegurança alimentar e a carência alimentar aumentaram imenso".

Não se sabe ao certo quantas famílias em Portugal já estão a ser severamente afetadas, mas desde que foi lançada a campanha da Rede de Emergência Alimentar do Banco Alimentar já foram contabilizados "cerca de 55 mil pedidos a nível nacional".

No Banco Alimentar, "as equipas de apoio integraram, num mês e meio, mais 100 pessoas" e aumentaram a distribuição de mais refeições diárias.

Também o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) prevê que, até agosto, o número de pessoas carenciadas a necessitar de auxílio passe de 60 mil para 90 mil, considerando a "identificação das necessidades".

E estes casos recentes, que começam a aumentar, são "pessoas que estão em lay-off, pessoas que ficaram desempregadas", assim como pessoas sem "vínculos laborais" ou com trabalhos temporários que, numa situação de pandemia, "ficaram sem rendimento, praticamente, de um dia para o outro".

Mas as carências que levam mais pessoas a procurar ajuda não são apenas alimentares. "Estão a surgir várias necessidades do ponto de vista do fornecimento de água", tanto para consumo como para uso na higiene, esclareceu Ana Vizinho.

A verdade é que muitos estabelecimentos de restauração forneciam água, por exemplo, a populações que viviam na rua. Agora, com o encerramento destes, estas pessoas ficaram ainda mais carenciadas.

Contudo, a responsável da EAPN salientou que há entidades, como o Banco Alimentar e "as cantinas socias", que estão a tentar dar resposta a todos os casos identificados. Também as escolas estão a fornecer refeições, lembra, "para os alunos dos escalões mais baixos" até ao Ensino Secundário.

Elogiando a atuação de diversas autarquias, Ana Vizinho frisa que as câmaras têm assegurado a resposta aos mais carenciados através de "diferentes sistemas de apoio". "Uns fornecem cabazes, outros fornecem vales para compras".
Mais apoios "não significa mais comida"

A questão, no entanto, não é apenas a garantia da resposta às carências alimentares, mas também o tipo de produtos alimentares distribuídos.

Na POAPMC "existe uma lista de 25 produtos que são mensalmente distribuídos pelas famílias apoiadas e que estão pensados no ponto de vista da alimentação saudável, das necessidades nutricionais e da faixa etária". Neste momento, não estão a ser garantidos todos os produtos da lista, "há algumas falhas", mas "há preocupações que permanecem".

Já em bancos alimentares, em algumas regiões já só há, "praticamente, massa e arroz para dar". Com o aumento de pedidos e a necessidade de distribuir a mais famílias carenciadas, "a questão da variedade e da qualidade dos produtos acaba por ser uma questão se coloca a seguir, não no imediato", explica Ana Vizinho.

"As organizações estão, neste momento, sobretudo com muita dificuldade em conseguir chegar a todas as famílias".
"E existem ainda pessoas que não estão a pedir nem a receber apoio alimentar, mas a sua contração orçamental é também uma contração alimentar".
De uma coisa Ana Vizinho tem a certeza: com a pandemia surgiram mais pessoas a necessitar de apoio, mas também "surgiram algumas respostas que não existiam, embora isso não signifique que haja mais comida".

Há ainda uma questão que, a maioria destas entidades, não consegue garantir: a variedade, o as necessidades nutricionais e a opção de escolha.

Estas organizações "não permitem nem garantem a escolha de produtos". Isto é, "não há soberania na escolha". Apenas nos cabazes distribuídos pelas autarquias, que identificam quais os produtos de que as pessoas precisam e "quais gostaria de receber", ou quando distribuídos os vales de compras.

Mesmo antes da pandemia, não existia "propriamente uma política alimentar em Portugal, muito menos direcionada para as pessoas em situação de vulnerabilidade". Mas em situações de emergência, como a que vivemos, há "uma acentuação" destes problemas, mas a "uma escala muito maior".
Fraca nutrição potencia mais doenças

Os efeitos na economia e na alimentação também se fazem sentir noutras regiões do mundo. Na verdade a dificuldade de acesso aos produtos alimentares e a variedade nutricional são apenas uma pequena parte do problema, segundo a coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, Elizabetta Recine.

"O pico do iceberg deste processo são as doenças crónicas, degenerativas e a obesidade", afirmou na sua intervenção no webinar.

Neste momento, a preocupação "é que a abordagem sistémica se foque mais numa visão nutricional, na produção de nutrientes e não apenas na produção de comida".

"A pandemia atingiu o Brasil num momento em que se vivia um acelerado crescimento da pobreza e da extrema pobreza, com filas enormes nos programas de transferência de renda e a pandemia trouxe mais desemprego e subemprego. Ou seja, a Covid-19 chegou com um tecido social muito vulnerabilizado e uma política económica extremamente liberal".

Num contexto social como o brasileiro, com a chegada da pandemia impôs-se a necessidade de responder às carências de muitas famílias. Muitas crianças garantiam parte da sua alimentação na escola, mas foi necessário redefinir a agenda do programa de Segurança Alimentar e Nutricional, como "uma adaptação do Programa Nacional de Alimentação Escolar".

Nesse sentido, o orçamento destinado à alimentação escolar tem sido aplicado "na compra de alimentos para as famílias ou na entrega de vouchers para que as famílias possam adquirir alimentos", uma vez que as escolas estão encerradas em todo o país.

O maior problema, na sua opinião, é que "há uma tendência para o aumento das compras de alimentos não-saudáveis”, quando as famílias usam os vouchers nos grandes supermercados.

A Sociedade Civil brasileira, no entanto, propôs o investimento do Governo para a "intensificação da compra na Agricultura Familiar e que esta seja destina a diferentes programas públicos, como bancos alimentares".

A ACTUAR, com o projeto Alimentação é Direito - cofinanciado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Bissaya Barreto - tem como objetivo criar literacia sobre o tema do direito a uma alimentação adequada em Portugal. A sessão "Emergências na saúde, alimentação e vulnerabilidade" está integrada num ciclo de "Conversas à Mesa" com temas adaptados ao contexto da pandemia da Covid-19.

Em Portugal, já existe um Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que prevê a intrevenção de várias entidades, mas a sociedade civil "não participa formalmente", lamenta Joana Dias coordenadora da ACTUAR.

Por isso, e "numa tentativa de estimular o dialogo entre diferentes atores da sociedade civil envolvidos nestas temáticas", estes espaços de conversação visam a reflexão crítica e a "articulação entre os diferentes intervenientes".

Pandemia faz disparar insegurança alimentar e agrava risco de obesidade

Por Notícias ao Minuto

A pandemia de covid-19 está a ter um forte impacto na segurança alimentar dos portugueses, devido à falta de dinheiro para comprar alimentos, e a agravar o risco de obesidade, por causa do confinamento, destacaram hoje duas especialistas.

"O impacto da pandemia não se irá fazer sentir, já está a fazer-se sentir. No último mês e meio, a insegurança alimentar cresceu muito em Portugal", alertou Ana Vizinho, da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), durante uma sessão do ciclo virtual conversas à mesa, dedicada ao tema "Emergências em saúde, alimentação e vulnerabilidade".

Segundo a responsável, a resposta ao surto do novo coronavírus está a ser "um desafio", já que, de um dia para o outro, muitas pessoas perderam parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, como os trabalhadores em 'lay-off', os que ficaram desempregados e os que trabalhavam na economia informal.

"Houve um grande acréscimo de pedidos, uma vez que, além das pessoas que já eram apoiadas, agora há um novo perfil de pessoas a pedir apoio. E ainda há as que não estão a pedir apoios, mas que estão com um menor acesso à diversidade alimentar por falta de recursos financeiros", sublinhou Ana Vizinho.

Por seu turno, Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, apontou para o provável aumento do número de pessoas com doenças nutricionais crónicas e obesidade.

"Quase seis em cada 10 portugueses tem obesidade ou pré obesidade. Entre os idosos, o número cresce para oito em cada 10. E o impacto da situação de contingência provocada pela pandemia pode aumentar esta taxa, que já é muito elevada", sublinhou.

A perda repentina de poder de compra leva Joana Sousa a antecipar que 10% das famílias portuguesas passem por uma situação de insegurança alimentar.

"Há cada vez mais pessoas com dificuldades para comprar alimentos suficientes, e diversificados, para toda a família, por falta de recursos financeiros. A pandemia irá agravar as desigualdades em Portugal", vincou.

A especialista assinalou também que, nesta altura, a resposta política visa sobretudo o apoio à economia, deixando de lado as medidas necessárias para salvaguardar a segurança alimentar da população.

"Destaca-se a mobilização da sociedade civil para promover a ajuda alimentar aos mais carenciados", afirmou.

Na iniciativa promovida pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e por parceiros do projeto Alimentação é Direito, também foi oradora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que fez o ponto de situação do impacto da pandemia no Brasil.

"Há uma franja grande da população brasileira, de milhões de pessoas, que viviam do trabalho individual, e que já estavam em situação de pobreza e ultra pobreza, e, agora, estão na miséria extrema e [a passar] fome", salientou, criticando as políticas seguidas nos últimos anos, no período pós-Dilma Rousseff, que deixaram muitas famílias "completamente desprotegidas".

De acordo com a perita, desde "o golpe parlamentar que levou à saída de Dilma e à entrada de Temer, e, depois, de Bolsonaro", a rede de apoio alimentar à população "sofreu um retrocesso profundo", devido ao desmantelamento das instituições e do fim do financiamento às equipas".

Por isso, considerou que "a pandemia chegou ao Brasil num momento em que o tecido social está muito vulnerabilizado e a sofrer os efeitos da política ultra liberal, que implica o 'desapoderamento' da política social".

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 227 mil mortos e infetou quase 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Cerca de 908 mil doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 989 pessoas das 25.045 confirmadas como infetadas, e há 1.519 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.



18.9.18

OMS. Tabaco, álcool e obesidade dificultam progressos de saúde na Europa

in RR

Na região europeia, as pessoas vivem em média mais um ano do que viviam há cinco anos, no entanto, "os fatores relacionados ao estilo de vida que afetam a mortalidade".

O alerta é lançado no Relatório de Saúde Europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS): o tabaco, o álcool, o excesso de peso, a obesidade e baixas coberturas vacinais estão a dificultar o progresso em alguns países europeus e podem reverter os ganhos alcançados no aumento da esperança de vida.

O texto destaca a continuação do aumento da esperança de vida na região europeia, a redução da mortalidade prematura e o facto de alguns países europeus registarem os maiores níveis de "satisfação com a vida".
No entanto, "discrepâncias significativas entre países em vários indicadores-chave e a incapacidade de travar ou reverter substancialmente os efeitos negativos do tabagismo, do consumo de álcool, do excesso de peso e obesidade, e as baixas taxas de vacinação constituem causas para uma preocupação real", sublinha.

"As taxas de vacinação das crianças estão, em geral, a melhorar em toda a Europa, mas os recentes surtos de sarampo e rubéola em alguns países estão a comprometer a capacidade da região de eliminar estas doenças", adverte o relatório que analisa as tendências significativas na saúde pública e os comportamentos sociais que impulsionam a saúde e o bem-estar em toda a região europeia, que engloba 53 países.

Publicado a cada três anos, o relatório mostra que "a maioria dos países europeus tomou medidas significativas para atingir os objetivos chave estabelecidos pela saúde 2020, contribuindo assim para a prossecução dos objetivos de desenvolvimento sustentável relacionados com a saúde da agenda 2030", mas também demonstra que "o progresso é desigual, tanto dentro como entre países, entre os sexos e através das gerações", afirma a diretora regional da OMS, Zsuzsanna Jakab, em comunicado.

Na região europeia, as pessoas vivem em média mais um ano do que viviam há cinco anos. Contudo, há ainda 11,5 anos de diferença entre os países com a maior e a menor esperança de vida.

O relatório assinala os "grandes progressos" alcançados na redução das mortes por todas as causas, em todas as idades, desde o início do milénio, com uma redução de cerca de 25% em 15 anos.

"Globalmente, a Europa está a ultrapassar o objetivo de reduzir as mortes prematuras pelas quatro principais doenças não transmissíveis (doenças cardiovasculares, cancro, diabetes mellitus e doenças respiratórias crónicas) em 1,5% anualmente até 2020", com os últimos dados a apontar para uma descida, em média, de 2% por ano.

Estilo de vida e a mortalidade
No entanto, "os fatores relacionados ao estilo de vida que afetam a mortalidade por estas causas permanecem uma grande preocupação e podem retardar ou mesmo reverter os ganhos na esperança de vida se não forem controlados", alerta.

"As taxas de tabagismo são as mais altas do mundo, com uma em cada três pessoas com mais de 15 anos a fumar", assim como o consumo de álcool em adultos, que é "o mais alto do mundo", com os níveis de consumo a variarem entre os países, oscilando de um a 15 litros per capita a cada ano, numa altura em que o consumo está em "declínio global".

O relatório destaca ainda que mais de metade da população tem peso a mais e que "as tendências para o excesso de peso e a obesidade em adultos estão em curva ascendente na maior parte da Europa, com variações consideráveis entre os países".

As mortes por causas externas de lesão ou intoxicação diminuíram progressivamente em cerca de 40% em cinco anos, sendo três vezes superiores nos homens.

"A maioria dos países europeus está a demonstrar um verdadeiro empenho em melhorar a saúde das suas populações, definindo metas, adotando estratégias e medindo progressos", como ficou demonstrado num inquérito realizado em 2016, ao qual responderam 88% dos países.

Segundo o inquérito, 42 dos 53 países tinham estratégias em vigor para abordar as desigualdades em comparação com apenas 29 países em 2010.

O relatório é lançado dias antes da reunião anual do Comité Regional da OMS para a Europa, que decorrerá entre 17 e 20 de setembro em Roma, Itália.

Nos dados por países que estão disponíveis no site da OMS, Portugal tem bons indicadores na redução da mortalidade prematura, na esperança de vida à nascença e na vacinação, mas quanto ao excesso de peso e ao consumo de álcool os indicadores não são tão positivos.

12.9.18

Tabaco, álcool e obesidade ameaçam progressos de saúde na Europa

in JN

Relatório da OMS fala em "preocupação real"

O tabaco, o álcool, o excesso de peso, a obesidade e baixas coberturas vacinais estão a dificultar o progresso em alguns países europeus e podem reverter os ganhos alcançados no aumento da esperança de vida, adverte a OMS.

O alerta é lançado no Relatório de Saúde Europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado esta quarta-feira, que destaca a continuação do aumento da esperança de vida na região europeia, a redução da mortalidade prematura e o facto de alguns países europeus registarem os maiores níveis de "satisfação com a vida".

No entanto, "discrepâncias significativas entre países em vários indicadores-chave e a incapacidade de travar ou reverter substancialmente os efeitos negativos do tabagismo, do consumo de álcool, do excesso de peso e obesidade, e as baixas taxas de vacinação constituem causas para uma preocupação real", sublinha.

"As taxas de vacinação das crianças estão, em geral, a melhorar em toda a Europa, mas os recentes surtos de sarampo e rubéola em alguns países estão a comprometer a capacidade da região de eliminar estas doenças", adverte o relatório que analisa as tendências significativas na saúde pública e os comportamentos sociais que impulsionam a saúde e o bem-estar em toda a região europeia, que engloba 53 países.

Publicado a cada três anos, o relatório mostra que "a maioria dos países europeus tomou medidas significativas para atingir os objetivos chave estabelecidos pela saúde 2020, contribuindo assim para a prossecução dos objetivos de desenvolvimento sustentável relacionados com a saúde da agenda 2030", mas também demonstra que "o progresso é desigual, tanto dentro como entre países, entre os sexos e através das gerações", afirma a diretora regional da OMS, Zsuzsanna Jakab, em comunicado.

Portugal deu passos certos na luta contra tabaco mas é preciso mais

Na região europeia, as pessoas vivem em média mais um ano do que viviam há cinco anos. Contudo, há ainda 11,5 anos de diferença entre os países com a maior e a menor esperança de vida.

O relatório assinala os "grandes progressos" alcançados na redução das mortes por todas as causas, em todas as idades, desde o início do milénio, com uma redução de cerca de 25% em 15 anos.

"Globalmente, a Europa está a ultrapassar o objetivo de reduzir as mortes prematuras pelas quatro principais doenças não transmissíveis (doenças cardiovasculares, cancro, diabetes mellitus e doenças respiratórias crónicas) em 1,5% anualmente até 2020", com os últimos dados a apontar para uma descida, em média, de 2% por ano.

No entanto, "os fatores relacionados ao estilo de vida que afetam a mortalidade por estas causas permanecem uma grande preocupação e podem retardar ou mesmo reverter os ganhos na esperança de vida se não forem controlados", alerta.

"As taxas de tabagismo são as mais altas do mundo, com uma em cada três pessoas com mais de 15 anos a fumar", assim como o consumo de álcool em adultos, que é "o mais alto do mundo", com os níveis de consumo a variarem entre os países, oscilando de um a 15 litros per capita a cada ano, numa altura em que o consumo está em "declínio global".
O relatório destaca ainda que mais de metade da população tem peso a mais e que "as tendências para o excesso de peso e a obesidade em adultos estão em curva ascendente na maior parte da Europa, com variações consideráveis entre os países".

As mortes por causas externas de lesão ou intoxicação diminuíram progressivamente em cerca de 40% em cinco anos, sendo três vezes superiores nos homens.
"A maioria dos países europeus está a demonstrar um verdadeiro empenho em melhorar a saúde das suas populações, definindo metas, adotando estratégias e medindo progressos", como ficou demonstrado num inquérito realizado em 2016, ao qual responderam 88% dos países.

Segundo o inquérito, 42 dos 53 países tinham estratégias em vigor para abordar as desigualdades em comparação com apenas 29 países em 2010.

O relatório é lançado dias antes da reunião anual do Comité Regional da OMS para a Europa, que decorrerá entre 17 e 20 de setembro em Roma, Itália.

Portugal
Nos dados por países que estão disponíveis no site da OMS, Portugal tem bons indicadores na redução da mortalidade prematura, na esperança de vida à nascença e na vacinação, mas quanto ao excesso de peso e ao consumo de álcool os indicadores não são tão positivos.
Grande parte dos dados são referentes a 2014 e 2015, mas Portugal situa-se acima da média dos 53 países da região europeia da OMS quanto à esperança de vida à nascença, com 81,39 anos em 2014, quando a média da região se situava nos 77,83.

Quanto à redução da mortalidade prematura, Portugal apresenta uma taxa de mortalidade prematura por todas as causas menor do que a média dos 53 países analisados. Em Portugal a o rácio era de 32,5 por 100 mil habitantes, enquanto a média era de 49,93, segundo dados de 2014.
No consumo de tabaco, Portugal apresentava uma prevalência de 22,6%, menor do que os quase 30% da média da região. Contudo, neste indicador, os dados apresentados são referentes a 2013.
Já no que respeita ao consumo de álcool, Portugal está acima da média dos 53 países. Quanto ao excesso de peso, Portugal mostra-se alinhado com a média, com uma prevalência de excesso de peso superior a 57%, segundo dados de 2016.

31.5.16

Radiografia à saúde. Dois terços dos portugueses são obesos

In "Rádio Renascença"

Primeiro inquérito à saúde com exame físico revela grande prevalência das doenças crónicas, como a hipertensão, a diabetes e a obesidade. Cerca de um terço dos homens consome bebidas alcoólicas em excesso e um em cada quatro é fumador.

Dois terços dos adultos portugueses têm excesso de peso e há uma grande prevalência de doenças crónicas como hipertensão e diabetes em Portugal. Problemas identificados no primeiro inquérito à saúde dos portugueses em resultado de exames físicos.

De acordo com os dados apurados, o estado de saúde da população portuguesa entre os 25 e os 74 anos de idade, em 2015, caracterizava-se por uma "elevada prevalência de algumas doenças crónicas", como a hipertensão arterial, a obesidade e a diabetes.

O estudo abordou também o consumo das bebidas alcoólicas: cerca de um terço (33,8%) da população masculina referiu consumo perigoso de álcool (“binge drinking”), valor muito superior ao do sexo feminino (5,3%).

Este tipo de consumo é mais prevalente no grupo etário mais jovem e vai diminuindo com a idade.

As regiões do Alentejo e a Região Autónoma da Madeira revelaram as prevalências mais elevadas em qualquer dos sexos.

O Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF) foi promovido e desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), em parceria com o Instituto Norueguês de Saúde Pública e com as administrações regionais de saúde do continente e das regiões autónomas dos Açores e da Madeira.

Os indicadores apurados referem-se à população com idades entre os 25 e os 74 anos, tendo contado com a participação de 4.911 pessoas que realizaram, para o efeito, um exame físico, colheita de sangue e entrevista.
Em geral, o INSEF revela uma elevada prevalência de hipertensão arterial, obesidade e diabetes, bem como altos níveis de sedentarismo, de consumo de bebidas alcoólicas e exposição ao fumo do tabaco.

Mulheres com mais escolaridade fumam mais

Mais de um quarto dos homens intervenientes no estudo (28,3%) consumiam tabaco, diariamente ou ocasionalmente. Na população feminina, a percentagem baixa para os 16,4%.

Mas, nas mulheres, o consumo de tabaco aumenta com a escolaridade, enquanto nos homens era mais prevalente nos grupos com escolaridade intermédia, independentemente da idade.
Os desempregados revelaram prevalências mais elevadas em qualquer dos sexos (43% nos homens e 27% nas mulheres).

Quanto à exposição ambiental ao fumo do tabaco, afectava 12,8,% da população e era mais frequente entre os homens na Região Autónoma dos Açores, na população com segundo ou terceiro ciclo do básico e nos desempregados.

Dois terços da população é sedentária
A investigação adianta que o sedentarismo nos tempos livres afectava, em 2015, 44,8% da população, com maiores prevalências nas mulheres.
Também mais afectado é o grupo etário entre os 55 e os 64 anos (46,9%), a Região Autónoma dos Açores (52,5%), a população com menor escolaridade (51,6%) e a população desempregada (46,9%).
O coordenador do estudo, Carlos Dias, considera que o inquérito confirma alguns indicadores preocupantes e mostra "algumas necessidades em saúde que certamente irão ser levadas em consideração pelos serviços públicos".
A radiografia revela ainda que o país não é todo igual nas matérias abordadas, o que "é uma vantagem", na opinião do coordenador.

6.5.15

Saber comer é pura informação

Por: Célia Rosa, in Notícias Megazine

E se o seu organismo não reconhecer aquilo que você come como um alimento? Defende-se, inflama-se, fica doente. É o que fazem muitos dos produtos que levamos à boca. Cristina Sales, médica e especialista em alimentação, garante que na origem da maioria das doenças que afetam o homem do século xxi está o que comemos e o modo como o fazemos. É que os alimentos são veículos de comunicação: dizem às células como devem comportar-se.

Precisamos de mudar a forma como nos alimentamos?
É obrigatório que o façamos porque a alimentação que a população dos países ocidentais, incluindo Portugal, passou a fazer nos últimos cinquenta anos é o que está na origem da maior parte das doenças endócrinas, metabólicas, autoimunes, degenerativas e alérgicas. As novas epidemias devem-se sobretudo aos estilos de vida e à alimentação que fazemos desde o pós-guerra.

A alimentação é decisiva para a saúde e o bem-estar mas está a provocar doenças e a aumentar a mortalidade precoce?
A geração dos nossos filhos terá uma esperança de vida mais reduzida do que a nossa por causa dos estilos de vida e da alimentação. Primeiro, os produtos altamente processados pela indústria alimentar conduzem a uma desnutrição em nutrientes fundamentais e ingerimos uma grande quantidade de calorias vazias. Segundo, são muito diferentes dos alimentos originais e o organismo não sabe lidar com eles, não os reconhece como alimentos. Depois, há uma sobrecarga tóxica inerente à alimentação que provém dos agroquímicos (da produção), dos conservantes, corantes e adoçantes que são adicionados para preservar os produtos durante mais tempo e para os manter bonitinhos.

São alimentos para ver…
Os produtos que nos chegam ao prato foram feitos para vender e não para comer. Não têm nada que ver com os alimentos que ingerimos e que nos fizeram viver e sobreviver ao longo de milhões de anos. Esta mudança ocorreu tão depressa que o organismo não está adaptado para gerir, digerir e assimilar estes produtos, pelo contrário, vê-os como substâncias estranhas e reage, inflamando-se.

Como é que podemos livrar-nos dessa teia?
As escolhas alimentares são condicionadas pela publicidade, as pessoas não são ensinadas a escolher. Quem é que é ensinado a consumir maçãs ou laranjas? Ninguém. A informação que passa de forma subliminar através dos anúncios da TV e dos jornais é que se deve beber sumo de maçã e de laranja. Mas se alguém ler os rótulos das embalagens verifica que contém imenso açúcar, frutose, acidificantes, etc., e o que falta é a maçã e a laranja. É preciso informar, ensinar e consciencializar a população.

A atitude da indústria alimentar tem de mudar?
No global sim, mas também depende do que a indústria faz. A conservação de alimentos através da congelação, por exemplo, é perfeita. Os legumes congelados são uma ótima opção, por vezes mais económica, e chegam ao consumidor mais frescos e com mais nutrientes do que os que são mantidos durante cinco ou seis dias nas cadeias de distribuição. Já quando falamos de alimentos que têm de levar uma quantidade enorme de aditivos para serem consumidos – é o caso das carnes de muito má qualidade e dos aproveitamentos que se fazem dos restos dos mariscos – é diferente. Sempre que tivermos de dobrar a língua muitas vezes para conseguir ler o que está escrito nos rótulos é porque não é comida. Não compre. Será qualquer coisa que do ponto de vista nutricional, químico e metabólico está muito longe do alimento original.

Está a falar de alimentos que duram ad eternum?
Por exemplo. Como é que duram? Fizeram-se estudos com hambúrgueres e batatas fritas – uns feitos em casa, com carne picada, e batatas que foram descascadas, outros com produtos processados e embalados – e verificou-se que ao fim de trinta ou quarenta dias alguns hambúrgueres se mantinham iguaizinhos. Não se degradaram, ao contrário dos que foram feitos em casa, que estavam estragados três dias depois. Ora alguém acha que uma coisa daquelas pode ser comida?

Quando ingerimos produtos desse tipo como é que o organismo reage?
Defende-se e inflama-se ou agarra naquelas coisas que não considera importantes e arruma-as nos depósitos de lixo, que são as células gordas. Estas, além de serem o nosso reservatório de energia, são também o depósito de substâncias tóxicas que o organismo não metaboliza ou não utiliza para impedir que entrem nos circuitos mais nobres. Esta acumulação de lixo cria bloqueios bioquímicos e alterações metabólicas que impedem as células de trabalhar em condições. Hoje ninguém sabe que consequências é que isto tem para o cérebro e o sistema imunitário e para o bom trabalho hepático e digestivo. Os circuitos da toxicidade são cruzados – se uma pessoa come de vez em quando um gelado, um iogurte, umas bolachas ou um sumo que tem um determinado corante é uma coisa, mas se o faz com regularidade, ao fim de seis meses já ultrapassou as doses suportáveis e entra em sobrecarga tóxica.

E o que é que acontece?
Veja-se o ácido fosfórico, um aditivo que está presente em alimentos de consumo diário, como os cereais de pequeno-almoço e os refrigerantes. Quem ingere estes produtos todos os dias, além de ficar com o sistema acidificado e perder cálcio (uma compensação do organismo que depois predispõe à osteoporose), também fica numa excitação – o ácido fosfórico é um estimulante cerebral e é óbvio que uma criança que de manhã come um prato de cereais chega à escola e não para quieta. O ácido fosfórico altera o comportamento e em determinadas concentrações é neurotóxico.

Como é que os alimentos atuam no organismo?
Os alimentos servem para construir tecido, osso, órgãos, etc., e para nos darem energia, mas o que as ciências da nutrição têm vindo a mostrar é que os alimentos são essencialmente moduladores do comportamento celular – são informadores das células, dizem-lhes como devem funcionar. Imagine que tem um prato com uma determinada quantidade de proteínas (peixe ou carne) e outra de hidratos de carbono. Só a proporção entre a quantidade de carne e batatas ingeridas vai informar o organismo da necessidade de produzir uma hormona ou outra, neste caso insulina (que é a hormona do armazenamento) ou glucagon (a hormona do desarmazenamento).

Explique lá melhor…
Se comer mais proteínas do que hidratos de carbono vai produzir mais glucagon e induzir o metabolismo a ir buscar gordura acumulada para disponibilizar às células, ou seja, vai desarmazenar. Mas se comer mais arroz, massa ou batatas vai dar uma ordem em sentido contrário, vai dizer que é precisa mais insulina e vai acumular gordura.

Mas se as pessoas forem ativas podem queimar essa energia…
Isso é outra coisa, o que importa reter é que na proporção hidratos de carbono/proteínas a quantidade de açúcar que chega aos sensores do tubo digestivo aciona imediatamente uma ordem de libertação de glucagon ou de insulina. Se a indicação é libertar glucagon, o organismo vai usar a gordura acumulada, se a ordem for para libertar insulina, o organismo vai armazenar gordura. Isto é pura informação.

Quem quer perder peso tem de saber isso, certo?
Se a pessoa tiver consciência da informação que dá ao corpo tem muito mais capacidade para o modular. Outro exemplo. A leptina, a hormona que sinaliza o apetite, que depende sobretudo do ritmo solar. Ora, uma pessoa equilibrada, que durma de noite e trabalhe de dia, produz mais leptina de manhã (e tem apetite) e ao fim do dia produz menor quantidade (o apetite diminui). Se uma pessoa comer muito à noite estraga este equilíbrio e a certa altura está sempre com fome porque inutilizou os sensores da leptina. Nós somos mamíferos e de noite, quando dormimos, não precisamos de comer. O nosso corpo tem a sabedoria para sinalizar o apetite em função da hora do dia – comer muito à noite estraga essa sinalização, faz ter apetite a toda a hora.

A alimentação é bioquímica?
Os alimentos são veículos de comunicação. Se fizer uma refeição de gordura saturada – uma sopa com um chouriço e depois um cozido à portuguesa – dá um sinal à cárdia (esfíncter entre o estômago e o esófago) para alargar e é assim que ocorrer o refluxo gastroesofágico e aparece a azia. A gordura saturada é um sinal que se dá à cárdia para se manter aberta. Se no dia seguinte a mesma pessoa só comer azeite ou gorduras de peixe não terá azia. Sabe porquê? É que o azeite ajuda a fechar a cárdia. Este é outro exemplo que ilustra a importância do conhecimento. Pessoas mais esclarecidas fazem escolhas mais acertadas.

A forma como nos alimentamos dita o comportamento das células?
Quando ingeridas, as gorduras saturadas e as gorduras ómega 6 (provenientes essencialmente dos animais e dos cereais, sobretudo da soja) são a estrutura a partir da qual as células fazem substâncias pró-inflamatórias. As gorduras ómega 3 – provenientes das algas e dos peixes – são as que permitem que as células produzam substâncias anti-inflamatórias. Se uma pessoa tem uma doença inflamatória (por exemplo, uma alergia, artrite ou doença autoimune) e come muita gordura saturada, esta vai funcionar como substrato para a fogueira e agravar o processo inflamatório da doença que já tem. Ao contrário, se a pessoa ingerir gorduras ómega 3, vai ser capaz de construir extintores de incêndio para que as suas células produzam anti-inflamatórios.

Há outros exemplos?
Se uma pessoa tem tendência depressiva porque não consegue produzir serotonina em quantidade suficiente, deve comer os alimentos que têm os aminoácidos precursores da serotonina – a carne de peru, por exemplo, é extremamente rica em triptofano, que é um precursor da serotonina. Se a pessoa souber isto, no outono, quando o tempo fica mais escuro, porque é que não há de comer mais carne de peru em vez de carne de vaca?

A alimentação e o processo digestivo podem agravar ou controlar certas doenças?
Sim, se uma pessoa tem uma predisposição genética para a diabetes, Alzheimer, etc., a doença só vai manifestar-se se o gene for ativado. Mas o que as pessoas precisam de saber é que os genes também podem ser desativados – é a modulação genética através da nutrigenética. Como? O que ativa ou suprime a expressão dos genes é a presença de determinados fitoquímicos, substâncias que também se encontram nos alimentos.

Podemos dizer que há alimentos anti-inflamatórios?
Claramente. Os que têm ómega 3 – sardinha, cavala e os peixes das águas frias do Norte. Algumas substâncias vegetais dos legumes (tomate), frutos (quivi) e especiarias (a curcuma, que confere a cor amarela ao caril) também têm efeito modulador de alguns genes pró-inflamatórios. Mas alimentos anti-inflamatórios devem ser consumidos, independentemente de se ter doença ou não. Hoje sabe-se que um cérebro com Alzheimer já está inflamado vinte anos antes da manifestação da doença. Todas as doenças degenerativas começam com processos inflamatórias, as autoimunes também. Não conhecemos é as causas.

Há substâncias que devem mesmo ser eliminadas da alimentação?
Os aditivos químicos. Falo das substâncias químicas que não são alimentos, que são usadas pela indústria alimentar e podem ser geradoras de inflamação em contacto com o organismo. A vida corrente não nos permite evitar todos os aditivos, mas se estivermos despertos para esta realidade teremos mais atenção, faremos escolhas mais saudáveis e ingerimos menores quantidades.

E as gorduras?
As gorduras ómegas 6, que se encontram nas margarinas e nos óleos e que são provenientes da soja, do milho e do amendoim, são claramente pró-inflamatórias. Precisamos de ómega 6 no organismo, mas em quantidades muito reduzidas. O problema é que a cadeia alimentar atual é geradora de uma alimentação extraordinariamente rica em ómega 6 e pobre em ómega 3. Basta pensar que, dantes, as galinhas e as vacas comiam erva, agora comem rações provenientes da soja; os peixes comiam algas, agora comem rações também com soja. Os produtos alimentares que usamos são essencialmente da linha produtora de ómega 6.

Nos supermercados temos centenas de alimentos à escolha. Precisamos de tanta coisa?
Não precisamos de tantos produtos alimentares, necessitamos é de maior diversidade alimentar. Essas centenas ou milhares de produtos que vemos nas prateleiras são provenientes de quatro ou cinco alimentos – cereais, lácteos, açúcares e gorduras – e da indústria de processamento. Se olharmos para a quantidade de legumes, frutos, oleaginosas e peixe que as pessoas comem no dia a dia verificamos que não há variedade alimentar, as pessoas comem quase sempre o mesmo. Já pensou na variedade de saladas que é possível fazer? Mas se perguntar a alguém qual é a que come diz-lhe alface e tomate.

No supermercado fazemos escolhas condicionadas pela publicidade e o marketing. Como podemos fugir a isso?
Só vai mudar com a informação dos cidadãos. Nos países do Norte da Europa, onde a população é muito mais esclarecida, não encontramos nos supermercados esta quantidade enorme de alimentos-lixo – basta verificar que o espaço ocupado por refrigerantes, cereais de pequeno-almoço e óleos alimentares é muito reduzido. Exatamente o oposto do que se passa em Portugal.

A crise económica e as dificuldades das famílias podem piorar ainda mais a alimentação dos portugueses?
Também pode acontecer o contrário. Numa altura em que todos sentimos uma necessidade absoluta de gerir muito bem os orçamentos familiares, devemos fazer listas de compras de forma racional. E antes de comprar certos produtos alimentares, é obrigatório perguntar: «Preciso mesmo disto? Vale a pena? Faz-me ficar mais forte, vital, inteligente? Tem mais nutrientes?» Ocasionalmente, podemos comprar os tais alimentos que não comportam nenhum valor acrescentado mas que agradam ao paladar, mas isso é num dia de festa.

De que produtos podemos e devemos mesmo prescindir quando vamos às compras?
Devemos tirar os refrigerantes, cereais com açúcar, pastelaria, óleos e margarinas – para cozinhar devemos usar o azeite, só azeite. Todos os refrigerantes são um estrago de dinheiro – as pessoas devem beber água. Os cereais com açúcar (os de pequeno-almoço e as bolachas) também são prescindíveis – devemos escolher cereais completos, integrais, que até são mais baratos. Compare-se o preço de uma caixa de cereais de pequeno-almoço com o de um pacote de flocos de aveia, que são altamente nutritivos. A aveia é muito mais barata e muito nutritiva.

Mas comprar carne magra e peixe gordo, frutos e hortaliças é muito mais dispendioso…
Mas há estratégias que podem ser implementadas. Uma é comprar carne de melhor qualidade e comer menos quantidade e menos vezes. É preferível comer carne três vezes por semana em vez de comer carne gorda todos os dias. Além disso, toda a gente ganha se fizer uma alimentação vegetariana dois dias da semana e em vez da carne comer, por exemplo, arroz de feijão ou grão-de-bico com massa. Se se acrescentar hortaliças, ervas aromáticas e azeite, podemos dizer que são refeições perfeitas. Menos carne, mas de melhor qualidade; mais peixe (incluindo cavala e sardinhas, frescas ou em conserva de azeite) e ovos (podem ser consumidos três ou quatro por semana) são opções a privilegiar.

Não retira massa, arroz ou batatas ao seu carrinho de compras?
Não, mas reduzo as quantidades ingeridas. No prato devemos ter pequenas porções de massa, arroz ou batatas e maior quantidade de hortaliças, legumes e leguminosas.

Fala-se muito na responsabilidade social da indústria farmacêutica, que ganha dinheiro à custa do tratamento dos doentes. E quanto à responsabilidade social da indústria alimentar, que ganha dinheiro atirando-nos para a doença?
A indústria alimentar está a fazer maus alimentos, mas a verdade é que as pessoas só compram o que querem. Sei que quanto menor é a informação maior é a permeabilidade ao marketing, mas o caminho também se faz através da informação dos cidadãos e da sua responsabilização. Custa-me imenso ver nas caixas de supermercado que as pessoas aparentemente mais pobres também são as que levam os carrinhos repletos de produtos inúteis e nefastos para a sua saúde. É preciso repensar a política alimentar e inovar.

QUEM É CRISTINA SALES E O QUE É A MEDICINA FUNCIONAL INTEGRATIVA?
A medicina que Cristina Sales exerce dá pelo nome de medicina funcional integrativa – reúne diferentes disciplinas, profissionais e recursos terapêuticos, é centrada na pessoa e procura entender onde estão os desequilíbrios que desencadeiam a doença. Para uns, trata-se de uma abordagem vanguardista, mais adaptada aos pacientes, ao tratamento e controlo das chamadas doenças da civilização. Para outros, a prática médica de Cristina Sales ainda gera alguma desconfiança. Quem não receia são os doentes que a procuram – sobretudo pessoas que vivem com doenças crónicas (alergias, enxaquecas, fadiga crónica, doenças inflamatórias, endócrinas, metabólicas e autoimunes) e que não encontraram resposta satisfatória para os problemas que as afetam. Uma consulta com a médica do Porto dura uma hora e não se marca de um dia para o outro. Porque os pacientes já são muitos e porque as palestras e conferências em que Cristina Sales é oradora convidada também são frequentes.

29.5.14

Portugal é o terceiro país da Europa ocidental com mais raparigas obesas

in Público on-line

Portugal volta a surgir destacado nos piores lugares da tabela mundial da obesidade e excesso de peso, num estudo feito em 188 países.

Portugal é o terceiro país da Europa ocidental com maior percentagem de raparigas obesas e com excesso de peso e é o quarto da tabela na proporção de mulheres com excesso de peso, indica um estudo publicado pela revista Lancet.

O número de pessoas obesas e com excesso de peso mais do que duplicou nas últimas décadas em todo o mundo: passou de 857 milhões em 1980 para 2,1 mil milhões em 2013. Liderada por Emmanuela Gakidou, do Instituto para a Avaliação e a Métrica da Saúde na Universidade de Washington (EUA), a equipa de investigadores garante ter feito a análise mais exaustiva de sempre, com base em dados recolhidos em estudos, relatórios e na literatura científica sobre a prevalência de excesso de peso e obesidade em 188 países, entre 1980 e 2013. O trabalho permitiu concluir que, neste período, a taxa de adultos obesos e com excesso de peso aumentou 28%, enquanto a das crianças subiu 47%.

Na Europa Ocidental, revelam os dados referentes a 2013, a obesidade e o excesso de peso afectam em média 24,2% dos rapazes até aos 20 anos, 22% das raparigas, 61,3% dos homens e 47,6% das mulheres.

Em Portugal, todas as taxas estão acima da média regional: o excesso de peso afecta 28,7% dos rapazes, 27,1% das raparigas, 63,8% dos homens e 54,6% das mulheres, enquanto a obesidade atinge 8,9% dos rapazes, 10,6% das raparigas, 20,9% dos homens e 23,4% das mulheres. Os dados colocam Portugal como o terceiro país da região com mais raparigas com excesso de peso e o terceiro com mais meninas obesas. Portugal é ainda o sexto país com a maior proporção de rapazes com peso a mais.

Apresentado em Outubro passado, o relatório "Portugal: Alimentação Saudável em Números 2013" já destacava números preocupantes: a obesidade atingia então um milhão de adultos e 3,5 milhões eram pré-obesos, enquanto cerca de 15% das crianças entre os 6 e os 9 anos era obesa e mais de 35% sofria de excesso de peso.

Então, na apresentação do relatório, Pedro Graça, director do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), destacou dados que apontam para uma relação entre o nível económico e a obesidade: os produtos que fornecem muita energia a baixo custo são mais acessíveis e beneficiam de campanhas publicitárias muito fortes, o que acaba por fazer com que cheguem mais facilmente às pessoas mais carenciadas e com menor grau de instrução. Resultado? “Quando o rendimento familiar diminui, aumenta a prevalência da obesidade”.

Voltando ao cenário mundial, os resultados da investigação publicada na Lancet mostram que "os aumentos na prevalência da obesidade têm sido substanciais, generalizados e concentrados num curto período de tempo", alerta Emmanuela Gakidou, citada num comunicado da revista.

Apesar do cenário “preocupante" que estes números traçam, o ritmo de crescimento da epidemia parece ter abrandado nos últimos oito anos nos países desenvolvidos, o que poderá indicar que o pico do problema já foi atingido, ao contrário do que está a acontecer nos países em desenvolvimento. As diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento revelam-se também noutros factores: no mundo desenvolvido os homens têm maiores taxas de obesidade do que as mulheres e nos países em desenvolvimento ocorre o oposto. O maior crescimento nos níveis de excesso de peso e obesidade ocorreu entre 1992 e 2002, sobretudo entre os 20 e os 40 anos.

3.2.14

Portugal está entre países desenvolvidos com menor consumo de fastfood

in Público on-line

As conclusões são da Organização Mundial de Saúde (OMS) que, pela primeira vez, analisa o papel da liberalização dos mercados no consumo de comida rápida.

Portugal, nos países desenvolvidos, está entre aqueles que apresentam menor obesidade e menor consumo de fastfood, segundo um estudo divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que estuda a obesidade, hábitos de consumo e a liberalização comercial de bens alimentares.

Este é o primeiro estudo que investiga o papel da liberalização dos mercados no consumo de comida rápida (fastfood) e no aumento do índice de massa corporal (IMC), incluindo pela primeira vez o número de transações da chamada fastfood.

"Portugal encontra-se entre os países com menores níveis de consumo de comida rápida e com menor IMC", diz o estudo da OMS, que toma por referência dados de 2008, para os diferentes países, altura em que Portugal apresentou o segundo menor número de "transações 'per capita', entre os países seleccionados neste estudo", segundo o professor Roberto De Vogli, da Universidade da Califórnia (UC Davis), principal autor do relatório.

O estudo analisou os dados de 1999 a 2008, de 25 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), com o objetivo de observar o vínculo entre a obesidade e a liberalização do mercado de bens alimentares.

"O nosso estudo indica que todos os países conheceram um aumento no consumo de comidas rápidas e do IMC [dos seus cidadãos], mas os países que desregularam gradualmente e minimamente as suas economias, conheceram um incremento mais lento do consumo de comida rápida e do IMC", disse à Lusa Roberto De Vogli.

No caso de Portugal, a economia, ao longo deste período, esteve ainda protegida em termos de regulação alimentar, o que minimizou o aumento da obesidade e do consumo de fastfood. "Portugal é a quarta economia mais regulada entre os países da OCDE", disse o professor, tendo em conta o período em causa.

Portugal aplicou políticas de mercado mais restritivas, sendo possível estabelecer uma relação com um impacto menor, nos níveis de obesidade, ao contrário de outros países do estudo, dominados por oligopólios alimentares, nos quais as políticas de liberalização, incluem entre outros, menos subsídios agrícolas, menos taxas, menos controlo dos preços e fiscalizações débeis, em termos alimentares.

Roberto De Vogli, em declarações à Lusa, explica, por exemplo, que "Portugal tem um IMC muito inferior aos países anglo-saxónicos, como os Estados Unidos, Canadá e Austrália, com mercados mais desregulados, e onde o consumo de comida rápida e a prevalência da obesidade são superiores". Em Outubro de 2013, o relatório "Portugal: Alimentação Saudável em Números", indicava que 10% da população portuguesa é obesa.

Explorações agrícolas mais pequenas
Por outro lado, as explorações agrícolas em Portugal tendem a ser mais pequenas, sendo geralmente mais saudáveis, em relação aos países com economias dominadas por grandes grupos económicos agroalimentares. "Países com explorações agrícolas de tamanho menor tendem a registar aumentos menores no consumo de comidas rápidas e na obesidade", esclarece o professor Roberto de Vogli.

O investigador adianta, no entanto, que "é preciso mais investigação", para se chegar a uma conclusão efectiva, sobre a relação dos factores, embora tudo indique que "um sistema de agricultura baseado em pequenas explorações e com sectores mais protegidos", em termos de regulação e fiscalização, "possa explicar por que motivo o consumo de comida rápida é baixo em Portugal".

As conclusões gerais deste estudo indicam que existe uma relação directa entre políticas pró-liberalização dos mercados, o aumento de consumo de comida rápida e de obesidade. O estudo apela, por isso, à aplicação de medidas que melhorem a etiquetagem dos alimentos e que limitem a produção e o comércio de alimentos processados, como a chamada fastfood, e a sua publicidade.

26.6.13

Portugueses com menos dinheiro são mais obesos

in Diário de Notícias

As famílias portuguesas com menos rendimentos e menores graus de escolaridade tendem a ter maiores prevalências de obesidade e de diabetes, alertou hoje o diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável.

Pedro Graça baseia-se em estudos feitos em Portugal que diz refletirem resultados muitos semelhantes aos encontrados em outros países europeus e ocidentais.

Uma dessas análises mostra que o risco de ser obeso duplica quando se passa de 10 a 12 anos de escolaridade para até quatro anos de escolaridade.

"A obesidade pode surgir como mais um dos aspetos das desigualdades sociais, com maiores prevalências em populações com maior vulnerabilidade económica. As situações de carência económica podem coexistir com situações de obesidade", adiantou à agência Lusa o nutricionista, que hoje participa no seminário "As desigualdades sociais e o risco de diabetes", que decorre em Lisboa.

O acesso fácil a produtos alimentares baratos que são ricos em energia, mas pobres em nutrientes, contribui para que as famílias com menos recursos façam uma alimentação menos saudável e que mais contribui para o excesso de peso.

Ainda não é claro que a crise económica em Portugal vá agravar os problemas da obesidade, mas é natural que possa vir a acontecer, segundo o coordenador do Programa para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direção-Geral da Saúde.

"Como é que um país se prepara para isto? A maior parte dos países europeus está ainda pouco preparada para um fenómeno, uma crise, desta dimensão e para as suas consequências", reconhece.

Para Pedro Graça, primeiro é necessário informar a população sobre quais os alimentos de base que não podem faltar num cabaz familiar, mesmo num cenário de contenção ou de dificuldade económica.

"É apenas um exemplo, mas a proteína do leite ou dos ovos é mais barata do que a da carne e do peixe", refere o especialista, indicando que é importante que as famílias saibam que tipos de alimentos devem escolher, sobretudo quando têm poucos recursos.

Será particularmente importante, considera o perito, que a informação seja passada de uma forma acessível a pessoas com vários níveis de escolarização e por vários canais de acesso.