Mariana Oliveira, in Público on-line
Em 2020, grupo Germano de Sousa passou dos seis milhões de lucro para mais de 23, enquanto o de Joaquim Chaves aumentou resultados líquidos de um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros em 2019 para 11,6 milhões no ano passado. Synlab apresenta prejuízos de milhões há cinco anos seguidos e Unilabs ainda não entregou as contas.
As grandes redes de laboratórios privados do país melhoraram as contas com a pandemia e, pelo menos duas, viram os lucros disparar, chegando a quadruplicar no ano passado os resultados líquidos face a 2019. No sector e, independentemente da dimensão, a maioria parece ter lucrado com o novo coronavírus. Apesar de terem sofrido com o primeiro confinamento que fechou muitos postos de colheitas devido a uma redução abrupta da procura das análises clínicas habituais, os laboratórios conseguiram compensar as perdas com os testes para detectar a infecção pelo novo coronavírus.
Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, 87 laboratórios privados realizaram 6,5 milhões de testes moleculares até ao final de Agosto e integram o grupo de 1246 entidades privadas que realizou 3,7 milhões de testes rápidos de antigénio. Aqui, incluem-se não apenas laboratórios, mas também clínicas e farmácias.
Das quatro maiores redes de laboratórios privados do país — a Germano de Sousa, a Joaquim Chaves, a Unilabs e a Synlab —, a Germano de Sousa foi a que registou um lucro mais elevado. O resultado líquido passou de pouco mais de seis milhões de euros em 2019 para quase 23,3 milhões de euros no ano passado, ou seja, um acréscimo de 286% face ao ano anterior. E tal já entra em consideração com o brutal aumento de impostos, praticamente na mesma proporção (passou de dois milhões de euros para 7,7 milhões). Curioso é que o volume de negócios não cresceu na mesma proporção, tendo passado de 35,6 milhões para 74,4 milhões. Conclusão: a margem de lucro aumentou muito face a 2019.
Apesar de o grupo Germano de Sousa ter sido o que apresentou os lucros mais elevados, a rede de Joaquim Chaves foi a que mais viu crescer os resultados líquidos. Em 2019, o lucro tinha ficado um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros, tendo subido até aos 11,6 milhões no ano passado, o que representa um aumento de 319%. Também neste grupo o volume de negócios cresceu numa proporção muito menor (42%), passando de 40,7 milhões para 57,7 milhões.
No grupo Joaquim Chaves Saúde foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. “O grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia"
Mais difícil é analisar os resultados do grupo Synlab, uma multinacional presente em 36 países que se apresenta como líder na prestação de serviços de diagnóstico médico e de análises clínicas laboratoriais na Europa. Com uma estrutura empresarial complexa, que ninguém do grupo esteve disponível para clarificar, a Synlabhealth Portugal apresentou prejuízos no nosso país nos últimos cinco anos, com resultados negativos que variaram entre 5,5 milhões (2017) e os 13,8 milhões (2019). Em 2020, registou um prejuízo de 7,6 milhões de euros (44%) abaixo do contabilizado no ano anterior. O ano passado o resultado operacional chegou a ficar em terreno positivo (quase 27 mil euros), mas os nove milhões gastos com juros empurraram a empresa para os prejuízos.
Já a Unilabs, outra multinacional presente em 16 países e com sede na Suíça, ainda não apresentou as contas, apesar de o prazo legal para entregar a declaração anual da Informação Empresarial Simplificada ter terminado a 30 de Julho. Contactada pelo PÚBLICO, fonte oficial da Unilabs adiantou que as contas das empresas do grupo “serão depositadas brevemente'’.
“Relativamente ao exercício de 2020, verificou-se um muito ligeiro crescimento das receitas consolidadas do grupo, que teve, no entanto, uma quebra acima de dois dígitos percentuais nos seus resultados no ano transacto”, refere a mesma fonte. Tal, pode estar relacionado com o facto de o negócio do grupo abarcar outras áreas além das análises clínicas, áreas essas como a imagiologia, que sofreram quebras acentuadas na procura, fruto da concentração do SNS no combate à pandemia.
O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”
Uma análise sectorial da Informa D&B, uma firma especializada na recolha de informação de empresas, que avaliou 187 laboratórios de análises clínicas, conclui que em média este tipo de sociedades aumentou o volume de negócio 11,3% entre 2019 e 2020. No entanto, dá conta que os lucros médios subiram de forma bem mais significativa (113%), para quase 321 mil euros. A análise inclui duas grandes empresas, três médias, 23 pequenas e 159 micro, que empregam em média 19 pessoas.
O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”. “Comecei a comprar a 90 euros o kit [testes PCR], que agora custam entre 20 a 30 euros”, afirmou. Foi necessário investir em equipamento, como por exemplo “extractores de RNA” e montar uma “plataforma de biologia molecular”. “Comprei cinco extractores que custaram 150 mil euros cada. Passada esta onda [diz que chegou a fazer entre 13 a 15 mil testes PCR por dia e agora faz entre dois a três mil], não tenho quem me fique com isto. E tive que contratar muitas equipas.”
Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano. Grande parte dos lucros, adianta, investiu na comprar de um grande edifício no Pólo Tecnológico de Lisboa, ao lado das actuais instalações que projecta expandir.
Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano
Numa resposta escrita enviada ao PÚBLICO, o grupo Joaquim Chaves Saúde (JCS), que reúne clínicas médicas, oncologia, radiologia, medicina nuclear e análises clínicas, dá conta que em 2020, parte das suas operações foram “severamente abaladas pela pandemia”, com quedas de actividade muito significativas. “À semelhança de outros sectores de actividade na área da saúde, críticos durante esta fase, o grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia”.
Para isso, diz o grupo JCS, foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. Além de toda a capacidade tecnológica instalada, foi fundamental a resiliência, adaptação e colaboração da equipa para a dimensão da operação implementada, em tempo recorde, para responder à procura e necessidades das várias entidades. “Paralelamente ao aumento dos nossos resultados líquidos, houve um investimento do grupo superior em 37% face ao período homólogo”, nota-se na resposta, que também adianta que o grupo conta com mais 22% dos colaboradores nos laboratórios, comparativamente a 2019, num total de 2.500 pessoas em todo o grupo. Com Alexandra Campos
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6.9.21
15.7.21
Cientistas corrigem história do primeiro surto de covid-19 em Portugal
Andrea Cunha Freitas, in Público on-line
Afinal, o caso de Lousada estava mal contado. As análises às sequências genéticas do vírus que infectou várias pessoas contam uma história diferente da que ouvimos em 2020 e reforçam a importância de seguir este rasto para travar uma cadeia de transmissão.
Já passámos por muitas coisas e várias vagas desde aquele que terá sido o primeiro surto de covid-19 detectado em Portugal, numa fábrica de calçado em Lousada, no distrito do Porto. Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto e do Hospital de S. João conseguiu fazer uma reconstituição do caso que começou no fim de Fevereiro de 2020. O artigo científico publicado este mês apresenta uma nova versão da história, sublinhando a importância de seguir o rasto do vírus para travar uma cadeia de transmissão. Terá sido um oportuno excesso de zelo, mais ou menos às cegas, que evitou um pior desfecho.
O surto de covid-19 em Lousada terá sido o primeiro a ser detectado em Portugal, mas não teve consequências dramáticas. Mais de 50 pessoas foram infectadas mas foi possível isolar os casos, impedindo uma disseminação que podia obviamente ter sido mais grave e ter corrido muito mal. No entanto, na verdade o “travão” colocado neste surto foi resultado de uma série de medidas restritivas e preventivas adoptadas de forma generalizada sem que se soubesse com precisão o que estava ali acontecer. Ou seja, o plano de prevenção resultou porque apontou para todos os possíveis alvos, isolando os casos positivos detectados.
Num exercício quase forense, os cientistas conseguiram agora fazer a reconstituição deste episódio importante da pandemia a nível nacional. O trabalho foi o resultado de uma parceria que juntou os investigadores do I3S à equipa clínica do hospital de S. João, no Porto, coordenada pela infecciologista Margarida Tavares. Segundo explica ao PÚBLICO Luísa Pereira, geneticista do i3S e que coordenou este trabalho ao longo de vários meses, as análises de sequenciação do vírus reescrevem várias partes da história sobre o surto na fábrica de calçado em Lousada. O artigo foi publicado este mês de Junho na revista Viruses, do grupo suíço MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute).
Duas viagens, quatro pessoas e dois grandes almoços
Primeiro dado a corrigir no estranho caso da fábrica de calçado em Lousada: não houve uma viagem a Itália com dois elementos desta empresa. Foram duas viagens e em cada uma delas foram (e voltaram, claro) duas pessoas. Numa primeira viagem, entre 16 e 18 de Fevereiro, viajou o dono da fábrica com um cunhado. Na viagem seguinte, realizada entre 19 a 21 de Fevereiro, deslocaram-se também a Itália para outra feira de calçado um outro cunhado (que em 2020 foi identificado como paciente zero do surto em Lousada, porque foi o primeiro a ser diagnosticado) e o filho do dono da fábrica que também trabalha para a empresa.
Segundo dado a corrigir: não houve um, mas dois grandes almoços de família no mesmo dia de 25 de Fevereiro, terça-feira de Carnaval, e que acabaram por servir para alastrar ainda mais a infecção. Num dos encontros juntaram-se 26 pessoas e no outro 21.
A versão que surgiu na altura consistia no relato de apenas uma viagem de duas pessoas da fábrica, sendo que um desses viajantes teria voltado infectado e depois disseminado o vírus entre os trabalhadores da empresa e familiares, num almoço de família. Mas o rasto genético do vírus conta uma história diferente.
A pessoa que inicialmente foi identificada como o paciente zero deste surto, o cunhado que embarcou na segunda viagem, não estava infectada com a mesma variante do vírus encontrada nos outros casos diagnosticados nos dias seguintes na fábrica, na família e até entre os amigos.
“O ‘acusado’ não infectou ninguém, uma vez que nenhuma das outras pessoas tinha a mesma variante do vírus. Percebemos que quatro pessoas que trabalhavam na fábrica, e têm uma relação familiar, foram em duas viagens desfasadas mas muito próximas a duas feiras a Milão, em Itália”, confirma a geneticista.
Qualquer um dos outros três viajantes pode ter sido o paciente zero. Não se sabe ao certo quem. Luísa Pereira refere que “o mais provável” é que tenha sido o dono da fábrica que se sabe que ficou infectado com uma sequência do vírus que coincide com a maioria das outras que foram depois diagnosticadas, mas não é possível descartar as outras duas pessoas, uma vez que não foram recolhidas amostras desses indivíduos. Uma coisa é certa: as diferenças nas sequências genéticas do vírus que andou por ali a circular não permitem admitir sequer a hipótese de se tratar do mesmo vírus com uma ligeira mutação. “São dois ramos distintos”, insiste Luísa Pereira. Nas 23 sequências genéticas isoladas e analisadas, existia apenas uma que pertencia a um ramo do vírus SARS CoV-2 e todas as outras eram de um outro ramo.
Mas o que interessa, afinal, saber se foi um ou outro? A verdade é que o vírus se espalhou primeiro na fábrica e depois nas famílias e até em alguns círculos de amigos. O interesse dos investigadores é fácil de perceber, afinal estes foram os primeiros casos a surgir no país. A equipa clínica do Hospital de S. João tinha acesso a uma grande cadeia de transmissão do vírus localizada e que, só por isso, importava estudar.
O trabalho parte da identificação de uma pessoa responsável pela disseminação da infecção em ambiente de trabalho e familiar. Isto, lembra Luísa Pereira, aconteceu numa altura em que as autoridades de saúde recomendavam o isolamento e internamento hospitalar de qualquer caso positivo. “Muitas destas pessoas foram internadas e não porque estavam realmente doentes [com sintomas], mas apenas porque eram essas as indicações”, confirma a geneticista.
Assim, a análise às amostras que foi possível recolher e preservar revelou que ali existiram dois ramos distintos da infecção. A pessoa identificada como paciente zero tem uma variante do vírus que é diferente de todos os outros. As peças do puzzle só começaram a encaixar depois de muitas perguntas. Primeiro, soube-se que esse paciente não foi sozinho, depois que tinham existido duas viagens na mesma altura com outras duas pessoas ligadas à mesma empresa e, por fim, que tinham ocorrido afinal dois almoços de família no mesmo dia.
“As pessoas quando entrevistadas pelos médicos ou técnicos de saúde não se lembram de tudo – não é por mal. E o modo como se faz as perguntas direcciona muito as respostas”, justifica Luísa Pereira, sublinhando o papel da infecciologista Margarida Tavares que conseguiu obter muitos dados importantes junto de uma “aliada” que pertence à família afectada e que ajudou os cientistas fornecendo preciosos detalhes em falta.
De uma ponta até outra e outra foi possível reescrever esta história. Com um considerável grau de detalhe que mostrou, por exemplo, que uma das pessoas infectadas neste surto era a manicure de uma das mulheres mais velhas da família e que esta manicure, por sua vez, também infectou o marido. O puzzle dos cientistas numera as várias pessoas infectadas e segue-lhes o rasto, distinguindo os saltos do vírus com cores num gráfico que mostra a complicada teia de relações e contactos entre os quatro viajantes, os trabalhadores da fábrica, as famílias, os dois grandes almoços e os amigos. Como se estivéssemos a assistir a um policial em que seguimos o rasto de quem esteve com quem, onde, como e quando e o que aconteceu depois. Um policial sem grande suspense dado que já sabemos desde o início que o único culpado é mesmo o vírus.
A lição e a sorte de ser o primeiro
O facto de termos um ramo do vírus que só infectou uma pessoa e outro que infectou várias, pode significar alguma coisa sobre o agente infeccioso? Uma versão pode ser mais contagiosa do que outra? Luísa Pereira não arrisca uma resposta definitiva e reconhece que há várias hipóteses. Talvez, sugere, o tal indivíduo que tinha uma variante do vírus que não foi encontrada em mais nenhuma outra pessoa (analisada) tivesse uma carga viral mais baixa. Talvez esta pessoa tenha tido algum comportamento que evitou a sua disseminação. Talvez exista outra qualquer explicação para isso. Não se sabe.
Sabe-se que as duas sequências estavam a circular na altura e eram as duas comuns, esclarece a geneticista. Das poucas certezas que restam para memória futura é que a pessoa que foi na altura identificada como o paciente zero não o era. Não podia ser.
“A sequenciação é muito importante para ter toda a informação” sobre a viagem de um vírus e, consequentemente, para a conseguir travar. Por ter sido um dos primeiros surtos, a cadeia de transmissão acabou por ser atacada em várias frentes e evitou consequências mais graves. Mas foi uma estratégia às cegas em que todos lucraram com um excesso de zelo que impôs uma série de medidas que nas fases seguintes da pandemia (com um elevado número de casos diagnosticados) não seria possível. Isolar e até internar todos os casos positivos independentemente da gravidade dos sintomas da doença não é sequer uma hipótese hoje.
Por isso, fica a lição. Tudo acabou bem porque ainda tudo estava a começar e houve excesso de zelo, mas o ideal é que seja possível ter rapidamente este tipo de dados para agir de forma também rápida e certeira. “Agora sabemos que estas informações complementares de sequenciação são muito úteis e se forem feitas rapidamente serão muito mais úteis no terreno”, diz Luísa Pereira.
Por teimosia, rigor ou pela necessidade de saber que faz parte de fazer ciência, a equipa fez questão de tirar o estranho caso do surto na fábrica de Lousada a limpo. As análises e sequências já estavam feitas desde o ano passado e o artigo estava pronto a publicar no início deste ano, mas como as revistas foram atingidas por uma verdadeira avalanche de trabalhos sobre este vírus e sobre a doença que provoca, o esclarecimento do caso do primeiro surto de covid-19 em Portugal teve de esperar. Até agora.
Afinal, o caso de Lousada estava mal contado. As análises às sequências genéticas do vírus que infectou várias pessoas contam uma história diferente da que ouvimos em 2020 e reforçam a importância de seguir este rasto para travar uma cadeia de transmissão.
Já passámos por muitas coisas e várias vagas desde aquele que terá sido o primeiro surto de covid-19 detectado em Portugal, numa fábrica de calçado em Lousada, no distrito do Porto. Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto e do Hospital de S. João conseguiu fazer uma reconstituição do caso que começou no fim de Fevereiro de 2020. O artigo científico publicado este mês apresenta uma nova versão da história, sublinhando a importância de seguir o rasto do vírus para travar uma cadeia de transmissão. Terá sido um oportuno excesso de zelo, mais ou menos às cegas, que evitou um pior desfecho.
O surto de covid-19 em Lousada terá sido o primeiro a ser detectado em Portugal, mas não teve consequências dramáticas. Mais de 50 pessoas foram infectadas mas foi possível isolar os casos, impedindo uma disseminação que podia obviamente ter sido mais grave e ter corrido muito mal. No entanto, na verdade o “travão” colocado neste surto foi resultado de uma série de medidas restritivas e preventivas adoptadas de forma generalizada sem que se soubesse com precisão o que estava ali acontecer. Ou seja, o plano de prevenção resultou porque apontou para todos os possíveis alvos, isolando os casos positivos detectados.
Num exercício quase forense, os cientistas conseguiram agora fazer a reconstituição deste episódio importante da pandemia a nível nacional. O trabalho foi o resultado de uma parceria que juntou os investigadores do I3S à equipa clínica do hospital de S. João, no Porto, coordenada pela infecciologista Margarida Tavares. Segundo explica ao PÚBLICO Luísa Pereira, geneticista do i3S e que coordenou este trabalho ao longo de vários meses, as análises de sequenciação do vírus reescrevem várias partes da história sobre o surto na fábrica de calçado em Lousada. O artigo foi publicado este mês de Junho na revista Viruses, do grupo suíço MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute).
Duas viagens, quatro pessoas e dois grandes almoços
Primeiro dado a corrigir no estranho caso da fábrica de calçado em Lousada: não houve uma viagem a Itália com dois elementos desta empresa. Foram duas viagens e em cada uma delas foram (e voltaram, claro) duas pessoas. Numa primeira viagem, entre 16 e 18 de Fevereiro, viajou o dono da fábrica com um cunhado. Na viagem seguinte, realizada entre 19 a 21 de Fevereiro, deslocaram-se também a Itália para outra feira de calçado um outro cunhado (que em 2020 foi identificado como paciente zero do surto em Lousada, porque foi o primeiro a ser diagnosticado) e o filho do dono da fábrica que também trabalha para a empresa.
Segundo dado a corrigir: não houve um, mas dois grandes almoços de família no mesmo dia de 25 de Fevereiro, terça-feira de Carnaval, e que acabaram por servir para alastrar ainda mais a infecção. Num dos encontros juntaram-se 26 pessoas e no outro 21.
A versão que surgiu na altura consistia no relato de apenas uma viagem de duas pessoas da fábrica, sendo que um desses viajantes teria voltado infectado e depois disseminado o vírus entre os trabalhadores da empresa e familiares, num almoço de família. Mas o rasto genético do vírus conta uma história diferente.
A pessoa que inicialmente foi identificada como o paciente zero deste surto, o cunhado que embarcou na segunda viagem, não estava infectada com a mesma variante do vírus encontrada nos outros casos diagnosticados nos dias seguintes na fábrica, na família e até entre os amigos.
“O ‘acusado’ não infectou ninguém, uma vez que nenhuma das outras pessoas tinha a mesma variante do vírus. Percebemos que quatro pessoas que trabalhavam na fábrica, e têm uma relação familiar, foram em duas viagens desfasadas mas muito próximas a duas feiras a Milão, em Itália”, confirma a geneticista.
Qualquer um dos outros três viajantes pode ter sido o paciente zero. Não se sabe ao certo quem. Luísa Pereira refere que “o mais provável” é que tenha sido o dono da fábrica que se sabe que ficou infectado com uma sequência do vírus que coincide com a maioria das outras que foram depois diagnosticadas, mas não é possível descartar as outras duas pessoas, uma vez que não foram recolhidas amostras desses indivíduos. Uma coisa é certa: as diferenças nas sequências genéticas do vírus que andou por ali a circular não permitem admitir sequer a hipótese de se tratar do mesmo vírus com uma ligeira mutação. “São dois ramos distintos”, insiste Luísa Pereira. Nas 23 sequências genéticas isoladas e analisadas, existia apenas uma que pertencia a um ramo do vírus SARS CoV-2 e todas as outras eram de um outro ramo.
Mas o que interessa, afinal, saber se foi um ou outro? A verdade é que o vírus se espalhou primeiro na fábrica e depois nas famílias e até em alguns círculos de amigos. O interesse dos investigadores é fácil de perceber, afinal estes foram os primeiros casos a surgir no país. A equipa clínica do Hospital de S. João tinha acesso a uma grande cadeia de transmissão do vírus localizada e que, só por isso, importava estudar.
O trabalho parte da identificação de uma pessoa responsável pela disseminação da infecção em ambiente de trabalho e familiar. Isto, lembra Luísa Pereira, aconteceu numa altura em que as autoridades de saúde recomendavam o isolamento e internamento hospitalar de qualquer caso positivo. “Muitas destas pessoas foram internadas e não porque estavam realmente doentes [com sintomas], mas apenas porque eram essas as indicações”, confirma a geneticista.
Assim, a análise às amostras que foi possível recolher e preservar revelou que ali existiram dois ramos distintos da infecção. A pessoa identificada como paciente zero tem uma variante do vírus que é diferente de todos os outros. As peças do puzzle só começaram a encaixar depois de muitas perguntas. Primeiro, soube-se que esse paciente não foi sozinho, depois que tinham existido duas viagens na mesma altura com outras duas pessoas ligadas à mesma empresa e, por fim, que tinham ocorrido afinal dois almoços de família no mesmo dia.
“As pessoas quando entrevistadas pelos médicos ou técnicos de saúde não se lembram de tudo – não é por mal. E o modo como se faz as perguntas direcciona muito as respostas”, justifica Luísa Pereira, sublinhando o papel da infecciologista Margarida Tavares que conseguiu obter muitos dados importantes junto de uma “aliada” que pertence à família afectada e que ajudou os cientistas fornecendo preciosos detalhes em falta.
De uma ponta até outra e outra foi possível reescrever esta história. Com um considerável grau de detalhe que mostrou, por exemplo, que uma das pessoas infectadas neste surto era a manicure de uma das mulheres mais velhas da família e que esta manicure, por sua vez, também infectou o marido. O puzzle dos cientistas numera as várias pessoas infectadas e segue-lhes o rasto, distinguindo os saltos do vírus com cores num gráfico que mostra a complicada teia de relações e contactos entre os quatro viajantes, os trabalhadores da fábrica, as famílias, os dois grandes almoços e os amigos. Como se estivéssemos a assistir a um policial em que seguimos o rasto de quem esteve com quem, onde, como e quando e o que aconteceu depois. Um policial sem grande suspense dado que já sabemos desde o início que o único culpado é mesmo o vírus.
A lição e a sorte de ser o primeiro
O facto de termos um ramo do vírus que só infectou uma pessoa e outro que infectou várias, pode significar alguma coisa sobre o agente infeccioso? Uma versão pode ser mais contagiosa do que outra? Luísa Pereira não arrisca uma resposta definitiva e reconhece que há várias hipóteses. Talvez, sugere, o tal indivíduo que tinha uma variante do vírus que não foi encontrada em mais nenhuma outra pessoa (analisada) tivesse uma carga viral mais baixa. Talvez esta pessoa tenha tido algum comportamento que evitou a sua disseminação. Talvez exista outra qualquer explicação para isso. Não se sabe.
Sabe-se que as duas sequências estavam a circular na altura e eram as duas comuns, esclarece a geneticista. Das poucas certezas que restam para memória futura é que a pessoa que foi na altura identificada como o paciente zero não o era. Não podia ser.
“A sequenciação é muito importante para ter toda a informação” sobre a viagem de um vírus e, consequentemente, para a conseguir travar. Por ter sido um dos primeiros surtos, a cadeia de transmissão acabou por ser atacada em várias frentes e evitou consequências mais graves. Mas foi uma estratégia às cegas em que todos lucraram com um excesso de zelo que impôs uma série de medidas que nas fases seguintes da pandemia (com um elevado número de casos diagnosticados) não seria possível. Isolar e até internar todos os casos positivos independentemente da gravidade dos sintomas da doença não é sequer uma hipótese hoje.
Por isso, fica a lição. Tudo acabou bem porque ainda tudo estava a começar e houve excesso de zelo, mas o ideal é que seja possível ter rapidamente este tipo de dados para agir de forma também rápida e certeira. “Agora sabemos que estas informações complementares de sequenciação são muito úteis e se forem feitas rapidamente serão muito mais úteis no terreno”, diz Luísa Pereira.
Por teimosia, rigor ou pela necessidade de saber que faz parte de fazer ciência, a equipa fez questão de tirar o estranho caso do surto na fábrica de Lousada a limpo. As análises e sequências já estavam feitas desde o ano passado e o artigo estava pronto a publicar no início deste ano, mas como as revistas foram atingidas por uma verdadeira avalanche de trabalhos sobre este vírus e sobre a doença que provoca, o esclarecimento do caso do primeiro surto de covid-19 em Portugal teve de esperar. Até agora.
15.3.21
Um ano sem pôr um pé no centro de actividades. “Vamos receber pessoas muito diferentes daquelas que conhecíamos”
Ana Cristina Pereira, in Público on-line
Há pessoas com deficiência intelectual que não vão ao centro de actividades ocupacionais desde Março por viverem num lar ou por opção de familiares, que ficam horrorizados só de as imaginar numa enfermaria sem ninguém que as compreenda. No dia 5 de Abril, reabrem os equipamentos sociais para pessoas com deficiência, mas ninguém é como antes.
No princípio, Lurdes Santos até perdia o sono. E se a filha apanhasse covid-19? “Não fala. Usa língua gestual portuguesa. Eu entendo-a bem, mas as outras pessoas não a entendem. Terem de a levar para um hospital e eu não poder estar com ela…”
Daniela não está na sala de terceiro andar que partilha com o pai e com a mãe. A rapariga, de 34 anos, está no quarto a ouvir música. Por instantes, aumenta o volume. “Creio que o amor é a maior/Maior riqueza/ É tudo o que eu tenho pra te dar/Minha certeza.” Trio Odemira.
Deixou de ir ao centro de actividades ocupacionais (CAO) no dia 6 de Março de 2020. Uma semana antes de o Conselho de Ministros aprovar as medidas extraordinárias que incluíam a suspensão das actividades com presença nos equipamentos sociais de apoio à deficiência.
“No início custou-lhe”, diz a mãe. Não percebia por que não haveria de sair de casa, de ir ao CAO, de andar a cavalo, de estar com os avós, os padrinhos ou a tia. Enfiava-se no quarto a ouvir música. “Ela é dada ao sentimento e ao amor. Ia dar com ela a chorar. Dizia-me que estava com saudades do amiguinho, o namorado.”
Falou-lhe no coronavírus. “As televisões estavam sempre a dar a mesma coisa. Ela foi ouvindo falar em internados e em mortos. Ficou com medo de ir à rua. Só passados dois meses de estarmos em casa é que a consegui meter no carro para dar uma volta, mas não quis sair.” É um desafio conduzi-la à dose certa de medo – a que protege sem paralisar.
Quando o Governo ordenou a reabertura dos CAO, pouco a pouco, a partir de 18 de Maio, Lurdes preferiu manter a filha em casa. “Não foi por falta de confiança”, esclarece. O marido, José Santos, até é tesoureiro da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) do Porto. “Sei que as regras são cumpridas, mas torna-se difícil criar distanciamento. E há pais que trabalham e não têm hipótese de ficar com os filhos, têm de os levar para lá. Eu, pronto, estou em casa… E tenho receio. Tenho muito receio que a Daniela apanhe covid.”
Negociar com as famílias
O primeiro grande confinamento foi uma aprendizagem para todos. As organizações trataram de redireccionar parte dos serviços que prestavam nos CAO para dentro de cada casa. Puseram as equipas em contacto telefónico com as famílias para as orientar.
Teresa Guimarães, presidente da APPACDM do Porto, viu o futuro. “Pode ser muito pesado”, alertava, então. “Temos mães sozinhas que vão entrar numa fase de desgaste grande. Estamos preparados para prestar apoio domiciliário, mas é preciso que as famílias queiram. E muitas não querem. Têm medo que o vírus lhes entre pela porta dentro.”
O desconfinamento obrigou a reajustes. Para respeitar as regras da Direcção Geral de Saúde (DGS), os CAO reduziram a lotação. Era preciso ouvir as famílias. Preferiam horário reduzido ou rotatividade? Decidiu-se atribuir tempo inteiro a quem estava em situação de exclusão ou tinha os pais a trabalhar. Os outros alternariam.
Nem todas as famílias tiveram escolha. Algumas viram-se forçadas a vencer o medo, como a família de Pedro Viana, com síndrome de Wolf-Hirschhorn, uma doença raríssima que o faz precisar de ajuda para quase tudo. No princípio, “dormia mal, andava agitado, agressivo”. Depois, lá acalmou. Mas carecia de atenção permanente. Já nem comia sozinho. E Rosário, a mãe, sentia-se exausta. Viúva, com o outro filho a estudar, tinha de voltar a limpar casas alheias.
Os residentes em lares também não puderam escolher. Por ordem da DGS, aos “utentes que frequentem, em simultâneo, as respostas sociais CAO e Lar Residencial, devem ser asseguradas as actividades no próprio Lar, sob orientações técnicas dos profissionais afectos ao CAO”.
O relatório Deficiência e covid-19 em Portugal, do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, já indiciava que muita gente nunca voltou ao CAO. Só a APPACDM do Porto tem 164 pessoas inscritas nos seus quatro centros e, dessas, 47 não entram num CAO há um ano por estarem em lar e 22 em casa. Em Outubro, outras 12 deixaram de aparecer.
De acordo com o Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, até agora foram infectados nos CAO 113 profissionais e 161 utentes, 11 dos quais acabaram por morrer. Teresa Guimarães conta nos CAO da sua associação um caso isolado e, mesmo assim, continua a observar uma “grande preocupação” entre os pais. E se apanham covid? E se precisam de internamento hospitalar? “Muitos não falam, falam pouco ou falam mal. As pessoas da saúde não os compreendem. Muitos pais vivem angustiados com isto.”
Realidade que se repete aqui e ali
Relatos em tudo idênticos podem ser ouvidos noutras partes do país. Em Santarém, por exemplo, cerca de três dezenas de pais preferiram manter os filhos em casa desde Março.
O próprio presidente da APPACDM de Santarém, Luís Amaral, não leva a filha ao CAO há um ano. “O contacto físico é muito difícil de evitar. Precisa de ajuda para tomar banho, vestir-se, comer. É muito carinhosa.” Como a mulher está em casa, assumiu o papel de cuidadora a tempo inteiro. “A minha filha tem 40 anos, mas é como se tivesse três. Fala de uma maneira que nós entendemos, mas ninguém mais entende.”
“Há pais que não quiseram que os filhos voltassem para os protegerem e há pais que não quiseram que os filhos voltassem para se protegerem a si próprios, porque têm idades avançadas e doenças graves”, resume Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra. Das 240 pessoas inscritas nos quatro CAO daquela instituição, há 45 que não aparecem há um ano por estarem em lares e 11 em casa.
A mesma dirigente tinha voltado a levar o seu filho, com trissomia 21, ao CAO e deixou de o fazer quando o número de infecções começou a subir. Horroriza-a a ideia de o rapaz ser internado numa enfermaria de doentes covid. Como se sentiria num sítio estranho, sozinho, sem ninguém que o compreendesse, com sintomas graves, sujeito a tratamentos que provocam desconforto?
Não é uma hipótese teórica. “Tivemos casos destes”, concede. “O internamento de pessoas com deficiência intelectual [em contexto covid] é de uma violência indescritível.” A pandemia mostra como o Sistema Nacional de Saúde ainda lida mal com a diversidade funcional. “Era bom que os hospitais estivessem preparados para acolher estas pessoas com dignidades, mas não é isso que acontece”, lamenta. “Há a preocupação de pôr rampas, elevadores, solos mais tácteis, mas não há acessibilidade ao nível da comunicação. E muitas vezes falta formação para médicos e enfermeiros lidarem com este tipo de pessoas, que, vendo-se sem referências, sem ninguém que as compreenda, ficam com medo, tornam-se agressivas. É preciso estabilizá-las.”
No entender de Helena Albuquerque, que também preside à Humanitas – Federação Portuguesa para a Deficiência Mental, este retrato deveria bastar para incluir todas as pessoas com deficiência intelectual, e não só as pessoas com trissomia 21, no grupo prioritário para a vacina. Nada aponta nesse sentido. O Instituto de Segurança Social está a enviar emails às instituições que gerem CAO a solicitar apenas listas de funcionários para os integrar no plano de vacinação.
Paula Campos Pinto, coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, não conhece exemplos de países que tenham colocado todas as pessoas com deficiência intelectual na lista de grupos prioritários para vacinação. Conhece, sim, países que as colocaram no grupo preterido para tratamento de covid-19. “Estamos num quadro em que as vacinas escasseiam. O critério de salvar vidas deve imperar”, diz, lembrando que nisso tem insistido o coordenador do grupo de trabalho.
Quem trabalha e mora nos lares residenciais integra a lista de grupos prioritários. No Lar Montes Claros, em Coimbra, os dias de vacinação foram uma alegria. “Gostámos muito”, diz Maria José Ramalhete, uma de dez residentes. “Batemos palmas. Rimos. Para nós foi importante para não apanhar o vírus.”
No princípio, a mulher, de 56 anos, até achou piada ao confinamento. Entretinha-se a fazer renda, a meter a louça na máquina, a cantar e a dançar, a fazer exercício físico e relaxamento. Não tardou a ansiar pelo regresso aos dias de antes. “Tenho saudades dos meus irmãos, dos meus colegas do CAO, da ginástica, da natação.”
Apesar dos mil cuidados e da muita reza, houve surtos em vários lares. De acordo com a tutela, até agora foram infectados 594 utentes e 370 profissionais. Morreram 45 residentes.
No Lar de São Silvestre, que também faz parte da APPACDM de Coimbra, o drama ocorreu em Janeiro: 16 dos 17 residentes apanharam covid, quatro tiveram de ser internados, um morreu.
“Eu ainda julguei que não tinha nada”, recorda Hélia Maia, de 31 anos. Só lhe faltava o paladar. Ficou duas semanas confinada num quarto grande com outras seis raparigas, uma aparelhagem de som e alguns jogos. “Um forrobodó o dia todo!” Já passou, mas não se sente como nova. “Como nova, não.” Percebe-se com menos força. A fisioterapia já foi reforçada. Agora, é contar os dias até à normalidade possível. “Senão a gente dá em maluca!”
Não vê a avó, que vive no Entroncamento, desde Dezembro de 2019. “Para ela é um stress”, diz. “Na primeira vaga, ela queria vir buscar-me. Por causa do vírus, não fui.” Tem saudades dela. Tem saudades da família de acolhimento com quem viveu quando foi retirada à família biológica. E tem saudades do namorado, que costumava ver no CAO na Associação de Paralisia Cerebral. Manda-lhe recados por uma funcionária que é amiga de uma funcionária do lar em que ele reside. Encolhe-se na cadeira a rir só de falar nele.
Não parece haver forma de não perder. Quem mora nos lares ficou privado da vida social, mas vai tendo apoio técnico, foi fazendo as suas terapias. Quem ficou em casa, vai tendo vida familiar, mas ficou privado da ajuda especializada. “A interrupção de terapias e de actividades, por um período que se tem prolongado desta forma, tem consequências”, sublinha Paula Campos Pinto.
“Acho que este isolamento é necessário para evitar a propagação do vírus, mas a população que vamos ter depois da pandemia não será igual à que tínhamos antes”, comenta Helena Albuquerque. “É uma população mais apática, que perdeu capacidades em idades em que as perdas são difíceis de reverter. Estamos a falar de uma população adulta, alguma já em idade avançada.”
“Vamos receber pessoas muito diferentes daquelas que conhecíamos”, concorda Teresa Guimarães. “As pessoas que estão em casa há um ano ou há meio ano podem ter a saúde mental fragilizada pelo isolamento, pela ansiedade de apanhar o vírus, mas também a saúde física, por este sedentarismo em que ficaram.” E isso não se resolverá por si. “Temos de nos reinventar. Temos de pensar em novas respostas, novas formas de apoiar as pessoas.”
Preparar o regresso
No quarto de Daniela, a música volta a subir de volume. “Ninguém na rua, na noite fria,/só eu e o luar/Voltava a casa,/quando vi que havia/luz num velho bar/Não hesitei, fazia frio e nele entrei.” Roberto Leal.
É um quarto pequeno decorado em tom rosa bebé, flores, borboletas, princesas do universo Disney – a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela. Na mesa-de-cabeceira, na secretária e no armário, aparelhagens compradas em várias épocas. Nas gavetas, caixas de CD.
No princípio, Lurdes sentia-se capaz de tudo. Arrumou gavetas. Experimentou receitas. Comprou um tapete para fazer exercícios físicos com a filha. “Com o tempo, ela cansou-se. Até eu!” No CAO, Daniela tinha terapia ocupacional, mas também fisioterapia, hidroterapia, hipoterapia, terapia assistida por cães. “Passava de umas actividades para as outras. Aqui, é tudo repetitivo.”
“Vamos fazer uns jogos”, desafia a mãe. Daniela anui, mas “quer fazer tudo muito depressa”. Prefere estar ali, no quarto, a ouvir música, a ver revistas, a desenhar ou a pintar. “Está um bocadinho assim.”
Até o sono de Daniela se descontrolou. “É uma das piores coisas”, suspira Lurdes. “Sempre gostou da noite. Se pudesse, passeava à noite, ia a festas à noite. Aproveita para estar levantada até tarde. Ouve música baixinho. Dorme a manhã toda, se eu a deixar!”
Várias vezes durante a noite, Lurdes levanta-se e vai vê-la. “Estou sempre a dormir e a acordar, a dormir e a acordar.” Tem receio que ela se levante e vá sentar-se à secretária. “Não veste roupão, apanha frio.” Ou que volte para a cama e não se agasalhe.
Nasceu com uma translocação cromossómica. “Já teve mais autonomia”, diz a mãe. “Já estava a perder o andar. Agora, como está mais parada, mais ainda! Anda pior!” No desconfinamento, conduzia-a até algum espaço verde para caminhar. “Ela gosta!” No confinamento, só andam por ali, à volta de casa. Comprou-lhe uma pequena bicicleta elíptica, mas não vê motivação.
No dia 5 de Abril, reabrem os equipamentos sociais para pessoas com deficiência. “Desta vez, acho eu vou perder o medo e mandá-la para a associação, mesmo sem estar vacinada.” Lurdes disse a José: ‘Vamos ter de preparar o coraçãozinho para conseguir mandar a Daniela. Eles têm todos os cuidados e mais alguns. Ela tem de ir. Até para regular o sono.’”
No CAO, que Daniela frequenta desde os 11 anos, há um trabalho individualizado. Cada um tem um plano traçado para estimular o seu desenvolvimento. E os técnicos têm estratégias para motivar.
Tudo o que podia fazer, Lurdes fez. Para poupar a filha à covid-19, negligenciou até os cuidados de que precisa. “Estou com muita dificuldade em ler. Era para ser operada aos olhos e não fui. Tive medo de apanhar covid e de passar à Daniela. Remarquei para Maio a consulta.” Não pode continuar a adiar a sua vida. Nem a da filha. Também ela tem de encontrar a dose certa de medo.
Há pessoas com deficiência intelectual que não vão ao centro de actividades ocupacionais desde Março por viverem num lar ou por opção de familiares, que ficam horrorizados só de as imaginar numa enfermaria sem ninguém que as compreenda. No dia 5 de Abril, reabrem os equipamentos sociais para pessoas com deficiência, mas ninguém é como antes.
No princípio, Lurdes Santos até perdia o sono. E se a filha apanhasse covid-19? “Não fala. Usa língua gestual portuguesa. Eu entendo-a bem, mas as outras pessoas não a entendem. Terem de a levar para um hospital e eu não poder estar com ela…”
Daniela não está na sala de terceiro andar que partilha com o pai e com a mãe. A rapariga, de 34 anos, está no quarto a ouvir música. Por instantes, aumenta o volume. “Creio que o amor é a maior/Maior riqueza/ É tudo o que eu tenho pra te dar/Minha certeza.” Trio Odemira.
Deixou de ir ao centro de actividades ocupacionais (CAO) no dia 6 de Março de 2020. Uma semana antes de o Conselho de Ministros aprovar as medidas extraordinárias que incluíam a suspensão das actividades com presença nos equipamentos sociais de apoio à deficiência.
“No início custou-lhe”, diz a mãe. Não percebia por que não haveria de sair de casa, de ir ao CAO, de andar a cavalo, de estar com os avós, os padrinhos ou a tia. Enfiava-se no quarto a ouvir música. “Ela é dada ao sentimento e ao amor. Ia dar com ela a chorar. Dizia-me que estava com saudades do amiguinho, o namorado.”
Falou-lhe no coronavírus. “As televisões estavam sempre a dar a mesma coisa. Ela foi ouvindo falar em internados e em mortos. Ficou com medo de ir à rua. Só passados dois meses de estarmos em casa é que a consegui meter no carro para dar uma volta, mas não quis sair.” É um desafio conduzi-la à dose certa de medo – a que protege sem paralisar.
Quando o Governo ordenou a reabertura dos CAO, pouco a pouco, a partir de 18 de Maio, Lurdes preferiu manter a filha em casa. “Não foi por falta de confiança”, esclarece. O marido, José Santos, até é tesoureiro da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) do Porto. “Sei que as regras são cumpridas, mas torna-se difícil criar distanciamento. E há pais que trabalham e não têm hipótese de ficar com os filhos, têm de os levar para lá. Eu, pronto, estou em casa… E tenho receio. Tenho muito receio que a Daniela apanhe covid.”
Negociar com as famílias
O primeiro grande confinamento foi uma aprendizagem para todos. As organizações trataram de redireccionar parte dos serviços que prestavam nos CAO para dentro de cada casa. Puseram as equipas em contacto telefónico com as famílias para as orientar.
Teresa Guimarães, presidente da APPACDM do Porto, viu o futuro. “Pode ser muito pesado”, alertava, então. “Temos mães sozinhas que vão entrar numa fase de desgaste grande. Estamos preparados para prestar apoio domiciliário, mas é preciso que as famílias queiram. E muitas não querem. Têm medo que o vírus lhes entre pela porta dentro.”
O desconfinamento obrigou a reajustes. Para respeitar as regras da Direcção Geral de Saúde (DGS), os CAO reduziram a lotação. Era preciso ouvir as famílias. Preferiam horário reduzido ou rotatividade? Decidiu-se atribuir tempo inteiro a quem estava em situação de exclusão ou tinha os pais a trabalhar. Os outros alternariam.
Nem todas as famílias tiveram escolha. Algumas viram-se forçadas a vencer o medo, como a família de Pedro Viana, com síndrome de Wolf-Hirschhorn, uma doença raríssima que o faz precisar de ajuda para quase tudo. No princípio, “dormia mal, andava agitado, agressivo”. Depois, lá acalmou. Mas carecia de atenção permanente. Já nem comia sozinho. E Rosário, a mãe, sentia-se exausta. Viúva, com o outro filho a estudar, tinha de voltar a limpar casas alheias.
Os residentes em lares também não puderam escolher. Por ordem da DGS, aos “utentes que frequentem, em simultâneo, as respostas sociais CAO e Lar Residencial, devem ser asseguradas as actividades no próprio Lar, sob orientações técnicas dos profissionais afectos ao CAO”.
O relatório Deficiência e covid-19 em Portugal, do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, já indiciava que muita gente nunca voltou ao CAO. Só a APPACDM do Porto tem 164 pessoas inscritas nos seus quatro centros e, dessas, 47 não entram num CAO há um ano por estarem em lar e 22 em casa. Em Outubro, outras 12 deixaram de aparecer.
De acordo com o Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, até agora foram infectados nos CAO 113 profissionais e 161 utentes, 11 dos quais acabaram por morrer. Teresa Guimarães conta nos CAO da sua associação um caso isolado e, mesmo assim, continua a observar uma “grande preocupação” entre os pais. E se apanham covid? E se precisam de internamento hospitalar? “Muitos não falam, falam pouco ou falam mal. As pessoas da saúde não os compreendem. Muitos pais vivem angustiados com isto.”
Realidade que se repete aqui e ali
Relatos em tudo idênticos podem ser ouvidos noutras partes do país. Em Santarém, por exemplo, cerca de três dezenas de pais preferiram manter os filhos em casa desde Março.
O próprio presidente da APPACDM de Santarém, Luís Amaral, não leva a filha ao CAO há um ano. “O contacto físico é muito difícil de evitar. Precisa de ajuda para tomar banho, vestir-se, comer. É muito carinhosa.” Como a mulher está em casa, assumiu o papel de cuidadora a tempo inteiro. “A minha filha tem 40 anos, mas é como se tivesse três. Fala de uma maneira que nós entendemos, mas ninguém mais entende.”
“Há pais que não quiseram que os filhos voltassem para os protegerem e há pais que não quiseram que os filhos voltassem para se protegerem a si próprios, porque têm idades avançadas e doenças graves”, resume Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra. Das 240 pessoas inscritas nos quatro CAO daquela instituição, há 45 que não aparecem há um ano por estarem em lares e 11 em casa.
A mesma dirigente tinha voltado a levar o seu filho, com trissomia 21, ao CAO e deixou de o fazer quando o número de infecções começou a subir. Horroriza-a a ideia de o rapaz ser internado numa enfermaria de doentes covid. Como se sentiria num sítio estranho, sozinho, sem ninguém que o compreendesse, com sintomas graves, sujeito a tratamentos que provocam desconforto?
Não é uma hipótese teórica. “Tivemos casos destes”, concede. “O internamento de pessoas com deficiência intelectual [em contexto covid] é de uma violência indescritível.” A pandemia mostra como o Sistema Nacional de Saúde ainda lida mal com a diversidade funcional. “Era bom que os hospitais estivessem preparados para acolher estas pessoas com dignidades, mas não é isso que acontece”, lamenta. “Há a preocupação de pôr rampas, elevadores, solos mais tácteis, mas não há acessibilidade ao nível da comunicação. E muitas vezes falta formação para médicos e enfermeiros lidarem com este tipo de pessoas, que, vendo-se sem referências, sem ninguém que as compreenda, ficam com medo, tornam-se agressivas. É preciso estabilizá-las.”
No entender de Helena Albuquerque, que também preside à Humanitas – Federação Portuguesa para a Deficiência Mental, este retrato deveria bastar para incluir todas as pessoas com deficiência intelectual, e não só as pessoas com trissomia 21, no grupo prioritário para a vacina. Nada aponta nesse sentido. O Instituto de Segurança Social está a enviar emails às instituições que gerem CAO a solicitar apenas listas de funcionários para os integrar no plano de vacinação.
Paula Campos Pinto, coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, não conhece exemplos de países que tenham colocado todas as pessoas com deficiência intelectual na lista de grupos prioritários para vacinação. Conhece, sim, países que as colocaram no grupo preterido para tratamento de covid-19. “Estamos num quadro em que as vacinas escasseiam. O critério de salvar vidas deve imperar”, diz, lembrando que nisso tem insistido o coordenador do grupo de trabalho.
Quem trabalha e mora nos lares residenciais integra a lista de grupos prioritários. No Lar Montes Claros, em Coimbra, os dias de vacinação foram uma alegria. “Gostámos muito”, diz Maria José Ramalhete, uma de dez residentes. “Batemos palmas. Rimos. Para nós foi importante para não apanhar o vírus.”
No princípio, a mulher, de 56 anos, até achou piada ao confinamento. Entretinha-se a fazer renda, a meter a louça na máquina, a cantar e a dançar, a fazer exercício físico e relaxamento. Não tardou a ansiar pelo regresso aos dias de antes. “Tenho saudades dos meus irmãos, dos meus colegas do CAO, da ginástica, da natação.”
Apesar dos mil cuidados e da muita reza, houve surtos em vários lares. De acordo com a tutela, até agora foram infectados 594 utentes e 370 profissionais. Morreram 45 residentes.
No Lar de São Silvestre, que também faz parte da APPACDM de Coimbra, o drama ocorreu em Janeiro: 16 dos 17 residentes apanharam covid, quatro tiveram de ser internados, um morreu.
“Eu ainda julguei que não tinha nada”, recorda Hélia Maia, de 31 anos. Só lhe faltava o paladar. Ficou duas semanas confinada num quarto grande com outras seis raparigas, uma aparelhagem de som e alguns jogos. “Um forrobodó o dia todo!” Já passou, mas não se sente como nova. “Como nova, não.” Percebe-se com menos força. A fisioterapia já foi reforçada. Agora, é contar os dias até à normalidade possível. “Senão a gente dá em maluca!”
Não vê a avó, que vive no Entroncamento, desde Dezembro de 2019. “Para ela é um stress”, diz. “Na primeira vaga, ela queria vir buscar-me. Por causa do vírus, não fui.” Tem saudades dela. Tem saudades da família de acolhimento com quem viveu quando foi retirada à família biológica. E tem saudades do namorado, que costumava ver no CAO na Associação de Paralisia Cerebral. Manda-lhe recados por uma funcionária que é amiga de uma funcionária do lar em que ele reside. Encolhe-se na cadeira a rir só de falar nele.
Não parece haver forma de não perder. Quem mora nos lares ficou privado da vida social, mas vai tendo apoio técnico, foi fazendo as suas terapias. Quem ficou em casa, vai tendo vida familiar, mas ficou privado da ajuda especializada. “A interrupção de terapias e de actividades, por um período que se tem prolongado desta forma, tem consequências”, sublinha Paula Campos Pinto.
“Acho que este isolamento é necessário para evitar a propagação do vírus, mas a população que vamos ter depois da pandemia não será igual à que tínhamos antes”, comenta Helena Albuquerque. “É uma população mais apática, que perdeu capacidades em idades em que as perdas são difíceis de reverter. Estamos a falar de uma população adulta, alguma já em idade avançada.”
“Vamos receber pessoas muito diferentes daquelas que conhecíamos”, concorda Teresa Guimarães. “As pessoas que estão em casa há um ano ou há meio ano podem ter a saúde mental fragilizada pelo isolamento, pela ansiedade de apanhar o vírus, mas também a saúde física, por este sedentarismo em que ficaram.” E isso não se resolverá por si. “Temos de nos reinventar. Temos de pensar em novas respostas, novas formas de apoiar as pessoas.”
Preparar o regresso
No quarto de Daniela, a música volta a subir de volume. “Ninguém na rua, na noite fria,/só eu e o luar/Voltava a casa,/quando vi que havia/luz num velho bar/Não hesitei, fazia frio e nele entrei.” Roberto Leal.
É um quarto pequeno decorado em tom rosa bebé, flores, borboletas, princesas do universo Disney – a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela. Na mesa-de-cabeceira, na secretária e no armário, aparelhagens compradas em várias épocas. Nas gavetas, caixas de CD.
No princípio, Lurdes sentia-se capaz de tudo. Arrumou gavetas. Experimentou receitas. Comprou um tapete para fazer exercícios físicos com a filha. “Com o tempo, ela cansou-se. Até eu!” No CAO, Daniela tinha terapia ocupacional, mas também fisioterapia, hidroterapia, hipoterapia, terapia assistida por cães. “Passava de umas actividades para as outras. Aqui, é tudo repetitivo.”
“Vamos fazer uns jogos”, desafia a mãe. Daniela anui, mas “quer fazer tudo muito depressa”. Prefere estar ali, no quarto, a ouvir música, a ver revistas, a desenhar ou a pintar. “Está um bocadinho assim.”
Até o sono de Daniela se descontrolou. “É uma das piores coisas”, suspira Lurdes. “Sempre gostou da noite. Se pudesse, passeava à noite, ia a festas à noite. Aproveita para estar levantada até tarde. Ouve música baixinho. Dorme a manhã toda, se eu a deixar!”
Várias vezes durante a noite, Lurdes levanta-se e vai vê-la. “Estou sempre a dormir e a acordar, a dormir e a acordar.” Tem receio que ela se levante e vá sentar-se à secretária. “Não veste roupão, apanha frio.” Ou que volte para a cama e não se agasalhe.
Nasceu com uma translocação cromossómica. “Já teve mais autonomia”, diz a mãe. “Já estava a perder o andar. Agora, como está mais parada, mais ainda! Anda pior!” No desconfinamento, conduzia-a até algum espaço verde para caminhar. “Ela gosta!” No confinamento, só andam por ali, à volta de casa. Comprou-lhe uma pequena bicicleta elíptica, mas não vê motivação.
No dia 5 de Abril, reabrem os equipamentos sociais para pessoas com deficiência. “Desta vez, acho eu vou perder o medo e mandá-la para a associação, mesmo sem estar vacinada.” Lurdes disse a José: ‘Vamos ter de preparar o coraçãozinho para conseguir mandar a Daniela. Eles têm todos os cuidados e mais alguns. Ela tem de ir. Até para regular o sono.’”
No CAO, que Daniela frequenta desde os 11 anos, há um trabalho individualizado. Cada um tem um plano traçado para estimular o seu desenvolvimento. E os técnicos têm estratégias para motivar.
Tudo o que podia fazer, Lurdes fez. Para poupar a filha à covid-19, negligenciou até os cuidados de que precisa. “Estou com muita dificuldade em ler. Era para ser operada aos olhos e não fui. Tive medo de apanhar covid e de passar à Daniela. Remarquei para Maio a consulta.” Não pode continuar a adiar a sua vida. Nem a da filha. Também ela tem de encontrar a dose certa de medo.
África em risco de perder anos de luta contra outras epidemias
António Rodrigues, in Público on-line
O objectivo da fome zero em África em 2030 não vai acontecer e a luta contra a malária vai recuar uma década.
África poderá ter aguentado melhor do que se esperava o impacto da covid-19, mesmo tendo em conta a actual segunda vaga de infecções que se está a mostrar muito mais letal (2,5%) do que a média mundial (2,2%), segundo o Centro de Controlo de Doenças e Prevenção de Doenças africano. A pandemia enfraqueceu os já frágeis sistemas de saúde, o que poderá atrasar o já demorado processo de vacinação e provocar mazelas na luta contra outras doenças.
Segundo Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente francês François Mitterrand, cuja consultora elaborou o relatório Africa Trend 2021, a pandemia vai fazer recuar uma década a luta contra a malária, acrescentando mais 100 mil mortes por ano a uma doença que já é uma das principais causas de letalidade em África.
“O continente deverá enfrentar surtos de doenças evitáveis pela vacinação, como poliomielite, sarampo e a febre-amarela, porque as campanhas de vacinação das crianças foram interrompidas, especialmente na Nigéria. Os acompanhamentos da tuberculose e do VIH foram quase totalmente abandonados, acrescentando entre 200 mil a 400 mil mortes suplementares em 2020”, explicou Attali à France Info.
O número de mortes de sida recuou em 2020 para níveis de 2008 em África: um milhão de mortos. As outras doenças evitáveis poderão também acrescentar um milhão de mortes em 2021.
O impacto económico no continente foi tremendo e o empobrecimento de populações, já de si a viver com dificuldades sem os constrangimentos da pandemia, tornou-se dramático. A crise da dívida estrangula a actividade dos Estados e ameaça a actividade económica, já de si diminuída pela falta de investimento estrangeiro directo, e na Europa temem-se novas vagas de migrantes desesperados em busca dos empregos que deixaram de existir nos seus países.
A primeira recessão no continente em 25 anos, segundo um relatório da Comissão Económica para África das Nações Unidas divulgado na terça-feira, travou a curva de desenvolvimento e a pobreza subiu pela primeira vez em décadas.
E a capacidade de recuperação do continente está ameaçada pela dificuldade de acesso a vacinas, como alertou a directora executiva do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva: “O insuficiente e tardio fornecimento de vacinas na África subsariana irá prejudicar os esforços para pôr termo à pandemia, não apenas a nível regional, mas também à escala internacional, com repercussões negativas significativas para a situação sanitária, o crescimento e o comércio no resto do mundo”.
Na quarta-feira, Abebe Haile-Gabriel, representante para África da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, constatava o óbvio: o continente não está no caminho certo para atingir o objectivo da fome zero em 2030.
“Os resultados permanecem insatisfatórios e há muitos desafios devido às alterações climáticas, à fraca situação económica e aos impactos negativos da covid-19, assim como à falta de investimentos público”, explicou Haile-Gabriel, citado num comunicado Comissão Económica para África.
Daily Maverick Sizwe, de 15 anos, que com a irmã, Dumisani, de dez, mendigam nas ruas de Joanesburgo, sentem o impacto da pandemia no estômago. “No princípio, os assistentes sociais vinham à nossa casa com comida que nos sustentava durante um mês, mas essas visitas pararam, por isso, agora, temos de pedir nas ruas para, pelo menos, conseguir uma refeição todos os dias”, contava na semana passada ao site sul-africano
Mas pedir esmola tornou-se difícil na África do Sul. “Com as novas restrições da covid-19 em vigor, conseguir uma esmola de um transeunte é um milagre. Muitas vezes vou para a cama com fome”, explica Michael Malatsi de 66 anos.
E se isto acontece num dos mais seguros países em termos alimentares da África subsariana, é fácil imaginar o impacto em nações mais frágeis. “O movimento inicial de restrições (confinamento parcial e completo) imposto pelos países coincidiu com os períodos de plantação (importantes no calendário agrícola) para a maior parte das colheitas básicas na região”, escreveram Ayansina Ayanlade e Maren Radeny na Nature, e “é provável que venha a exacerbar os desafios da segurança alimentar em muitos países”.
O objectivo da fome zero em África em 2030 não vai acontecer e a luta contra a malária vai recuar uma década.
África poderá ter aguentado melhor do que se esperava o impacto da covid-19, mesmo tendo em conta a actual segunda vaga de infecções que se está a mostrar muito mais letal (2,5%) do que a média mundial (2,2%), segundo o Centro de Controlo de Doenças e Prevenção de Doenças africano. A pandemia enfraqueceu os já frágeis sistemas de saúde, o que poderá atrasar o já demorado processo de vacinação e provocar mazelas na luta contra outras doenças.
Segundo Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente francês François Mitterrand, cuja consultora elaborou o relatório Africa Trend 2021, a pandemia vai fazer recuar uma década a luta contra a malária, acrescentando mais 100 mil mortes por ano a uma doença que já é uma das principais causas de letalidade em África.
“O continente deverá enfrentar surtos de doenças evitáveis pela vacinação, como poliomielite, sarampo e a febre-amarela, porque as campanhas de vacinação das crianças foram interrompidas, especialmente na Nigéria. Os acompanhamentos da tuberculose e do VIH foram quase totalmente abandonados, acrescentando entre 200 mil a 400 mil mortes suplementares em 2020”, explicou Attali à France Info.
O número de mortes de sida recuou em 2020 para níveis de 2008 em África: um milhão de mortos. As outras doenças evitáveis poderão também acrescentar um milhão de mortes em 2021.
O impacto económico no continente foi tremendo e o empobrecimento de populações, já de si a viver com dificuldades sem os constrangimentos da pandemia, tornou-se dramático. A crise da dívida estrangula a actividade dos Estados e ameaça a actividade económica, já de si diminuída pela falta de investimento estrangeiro directo, e na Europa temem-se novas vagas de migrantes desesperados em busca dos empregos que deixaram de existir nos seus países.
A primeira recessão no continente em 25 anos, segundo um relatório da Comissão Económica para África das Nações Unidas divulgado na terça-feira, travou a curva de desenvolvimento e a pobreza subiu pela primeira vez em décadas.
E a capacidade de recuperação do continente está ameaçada pela dificuldade de acesso a vacinas, como alertou a directora executiva do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva: “O insuficiente e tardio fornecimento de vacinas na África subsariana irá prejudicar os esforços para pôr termo à pandemia, não apenas a nível regional, mas também à escala internacional, com repercussões negativas significativas para a situação sanitária, o crescimento e o comércio no resto do mundo”.
Na quarta-feira, Abebe Haile-Gabriel, representante para África da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, constatava o óbvio: o continente não está no caminho certo para atingir o objectivo da fome zero em 2030.
“Os resultados permanecem insatisfatórios e há muitos desafios devido às alterações climáticas, à fraca situação económica e aos impactos negativos da covid-19, assim como à falta de investimentos público”, explicou Haile-Gabriel, citado num comunicado Comissão Económica para África.
Daily Maverick Sizwe, de 15 anos, que com a irmã, Dumisani, de dez, mendigam nas ruas de Joanesburgo, sentem o impacto da pandemia no estômago. “No princípio, os assistentes sociais vinham à nossa casa com comida que nos sustentava durante um mês, mas essas visitas pararam, por isso, agora, temos de pedir nas ruas para, pelo menos, conseguir uma refeição todos os dias”, contava na semana passada ao site sul-africano
Mas pedir esmola tornou-se difícil na África do Sul. “Com as novas restrições da covid-19 em vigor, conseguir uma esmola de um transeunte é um milagre. Muitas vezes vou para a cama com fome”, explica Michael Malatsi de 66 anos.
E se isto acontece num dos mais seguros países em termos alimentares da África subsariana, é fácil imaginar o impacto em nações mais frágeis. “O movimento inicial de restrições (confinamento parcial e completo) imposto pelos países coincidiu com os períodos de plantação (importantes no calendário agrícola) para a maior parte das colheitas básicas na região”, escreveram Ayansina Ayanlade e Maren Radeny na Nature, e “é provável que venha a exacerbar os desafios da segurança alimentar em muitos países”.
18.9.20
O que vai acontecer quando a gripe encontrar a covid?
Andrea Cunha Freitas, in Público on-line
O Inverno traz a época de gripe para se juntar à pandemia da covid-19 e traz também uma série de dúvidas sobre a possível interacção destes dois vírus. No entanto, já se sabe que a vacina da gripe e as medidas que todos estamos a cumprir para o controlo da covid-19 podem atenuar o impacto desta combinação pouco saudável.
Os cientistas já inventaram uma nova palavra para o novo medo: “twindemic”. O momento em que a época da gripe encontra a pandemia da covid-19 tem sido muito discutido entre os especialistas. É preciso antecipar, na medida do possível, como será a interacção entre estes dois vírus respiratórios para prevenir uma sobrecarga nos hospitais e cuidados de saúde primários. Ainda que se espere que as medidas em vigor por causa da covid-19 – máscaras, higiene e distanciamento – e a vacina disponível para a gripe ajudem a atenuar a época de gripe neste Inverno, há outros possíveis problemas como o “dilema do diagnóstico” que se prevê com doenças que têm muitos sintomas em comum.
Anda por aí a circular uma tabela de sintomas que pretende ajudar o cidadão comum a distinguir os sintomas da covid, da gripe e da constipação. No entanto, a esmagadora maioria dos cientistas não subscreve este autodiagnóstico. Em caso de sintomas – por mais ligeiros que pareçam ser – a melhor opção é mesmo consultar um médico. Será o médico que vai ter de lidar com este “dilema do diagnóstico” e a tarefa adivinha-se muito difícil. Há sintomas comuns entre as várias doenças respiratórias que podem surgir neste Inverno e, por vezes, a mesma doença pode manifestar-se de forma diferente nas pessoas. Então, como facilitar o diagnóstico?
“Muitas manifestações clínicas da covid-19 são comuns a outras infecções respiratórias como a gripe. Os testes moleculares para diagnóstico de SARS-CoV-2 permitem distinguir os casos que são efectivamente covida-19”, esclarece o imunologista Luís Graça, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Segundo explica, “o diagnóstico molecular de infecção por SARS-CoV-2 (para diagnóstico de covid-19) não tem reactividade cruzada com influenza (vírus da gripe)”. O teste, adianta ainda, consiste na detecção de dois segmentos genéticos que são específicos do coronavírus, e o controlo é um segmento genético humano (que deverá ser positivo em todas as pessoas). “O teste é positivo quando se detecta a presença dos dois segmentos genéticos do vírus. É inconclusivo quando apenas um dos segmentos é amplificado, ou quando o controlo positivo (o segmento humano) não é detectado. Não havendo sobreposição entre as sequências genéticas do SARS-CoV-2 e do vírus da influenza, o teste não será positivo em infecções com o vírus da gripe”, acrescenta, sublinhando que “os testes de diagnóstico são fiáveis nestas circunstâncias”.
O exemplo do Sul com menos gripe
Para os que vivem no hemisfério norte a época de gripe está a ficar cada vez mais próxima no calendário e, por isso, coloca-se a questão: o que é que isso significa para a covid-19? Há muitas dúvidas. A co-infecção é possível ou provável? A interacção entre estes dois vírus será marcada por uma cooperação ou competição? A gripe aliada à covid-19 pode agravar os sintomas? Muitas das questões ainda não têm resposta mas há algumas coisas que são mais ou menos previsíveis.
Uma das perspectivas que parece mais ou menos consensual tem a ver com o efeito que as medidas que estão a ser tomadas para a covid-19 e que afectam o nosso dia-a-dia vão ter na gripe, esperando-se que também diminuam o número de casos nesta frente. “É altamente provável que teremos um número de casos de gripe muito inferior ao habitual. Os dados dos países do hemisfério sul, que estão agora a terminar o Inverno, tiveram uma quebra do número de casos de gripe como nunca foi visto”, confirma Luís Graça ao PÚBLICO. Um estudo publicado na Lancet em Abril já concluía que as medidas de saúde pública introduzidas em Hong Kong para conter o coronavírus levaram a um declínio na actividade da gripe. “Em Março, no início da época da gripe no hemisfério sul (Outono) assim que foram implementadas as medidas para prevenir a transmissão de SARS-CoV-2 as infecções com gripe também praticamente desapareceram. Isto mostra que as medidas de higiene, distanciamento social, máscaras, têm um impacto também em outras infecções, nomeadamente na gripe”, refere o cientista do Instituto de Medicina Molecular que coordena o laboratório de investigação em Imunologia Celular.
Outro dos aspectos que é subscrito pela maioria dos especialistas está relacionado com uma diferença crucial no combate a estes dois vírus: é que se ainda não temos vacina para a covid-19, a vacina para a influenza existe e, mesmo que não garanta 100% de protecção, isso já fará toda a diferença. Ou seja, é importante que a população – sobretudo os grupos de risco – esteja vacinada contra a gripe. Não é esperado que haja protecção cruzada: os vírus são muito diferentes. Inclusivamente o vírus da gripe é suficientemente diferente de ano para ano para que a imunidade que adquirimos a um vírus da gripe não seja protectora quando surge um novo vírus no ano seguinte.
Sobre as probabilidades de uma pessoa ser infectada pelos dois vírus há várias ideias diferentes. A interacção entre diferentes vírus é muito complexa de estudar, por vários motivos mas sobretudo porque depende de muitas variáveis, desde o momento da infecção e da co-infecção (qual é que chega primeiro) até às características da “vítima” que é infectada. Por vezes, os vírus cooperam, outras vezes, os vírus competem entre si. Não se sabe ainda o que vai acontecer no contexto covid-19 e gripe ou de outros vírus respiratórios.
A co-infecção é possível?
Sabe-se que embora o coronavírus e influenza possam causar alguns dos mesmos sintomas – como febre, tosse e fadiga – os agentes patogénicos usam diferentes receptores nas células para obter acesso aos nossos corpos, ou seja, os dois podem entrar no nosso organismo. Um estudo com cerca de 1200 pacientes, feito no Norte da Califórnia e publicado na JAMA em Abril, concluiu que uma em cada cinco pessoas com diagnóstico de covid-19 estava co-infectada com outro vírus respiratório. Outro vírus não significa necessariamente a gripe, pois há outros vírus respiratórios (e mesmo outros coronavírus) que circulam nesta altura do ano. Ainda assim, o risco de co-infecção da covid e gripe é considerado muito baixo pela maioria dos especialistas. “Estão descritos casos de co-infecção de covid-19, na sua maioria com outros microrganismos diferentes do vírus da gripe — embora os casos descritos de co-infecção com o vírus da gripe sejam raros. Havendo uma baixa incidência de casos de gripe na comunidade (como tem sido observado no hemisfério sul), torna menos provável essas situações de co-infecção”, explica Luís Graça.
Mas se alguém for infectado com gripe ou covid-19, e uma vez que ambos afectam o sistema respiratório e tecidos comuns, será de esperar algum tipo de protecção cruzada? Não, responde Luís Graça. “Os vírus são muito diferentes. Inclusivamente o vírus da gripe é suficientemente diferente de ano para ano para que a imunidade que adquirimos a um vírus da gripe não seja protectora quando surge um novo vírus no ano seguinte”, esclarece. Mesmo sobre uma hipótese de o nosso sistema imunitário responder melhor ou pior (com uma manifestação mais severa da doença) a um dos vírus depois de ter sido confrontado com outro, não será de esperar algum tipo de influência. “Devido às diferenças entre os dois vírus, a resposta que nos torna imunes a uma reinfecção pelo vírus da gripe não nos protege do vírus que causa a COVID-19, e vice-versa. Deste modo a resposta protectora não será especialmente afectada”, afirma o imunologista.
Evitar a sobrecarga
Os cientistas têm seguido o rasto das epidemias ao longo de décadas e já perceberam que os surtos de vírus respiratórios não atingem o seu pico durante o mesmo período. Por outro lado, a gripe tem um ciclo mais rápido do que a covid-19. A época deverá começar nas últimas semanas de Dezembro e durar cerca de dois meses. A principal preocupação nessa altura – apesar de tudo apontar para números da gripe bastante inferiores aos registados nos anos anteriores, pelos motivos já apontados – é evitar a sobrecarga dos serviços de saúde.
Mas uma vez que há mais população susceptível, o SARS-CoV-2 será mais transmissível do que a gripe? “Mais uma vez, podemos aprender com o que se tem passado no hemisfério sul. Nesses países em que houve SARS-CoV-2 e vírus da gripe em circulação, as medidas de prevenção da transmissão tiveram um impacto comparativamente maior no vírus da gripe. A mortalidade por gripe nesses países foi este ano extremamente baixa”, constata Luís Graça.
Entre os mais optimistas, que esperam que a gripe passe despercebida este ano, e os mais pessimistas que temem uma “twindemic” com a união da pandemia aos outros vírus que circulam no Inverno, há espaço sobretudo para algumas dúvidas e poucas certezas. Acima de todas as incógnitas, destaca-se o conselho dos especialistas para que os grupos mais vulneráveis se protejam, para que ninguém desvalorize sintomas e para que todos adoptem as medidas impostas para o controlo da covid-19.
O Inverno traz a época de gripe para se juntar à pandemia da covid-19 e traz também uma série de dúvidas sobre a possível interacção destes dois vírus. No entanto, já se sabe que a vacina da gripe e as medidas que todos estamos a cumprir para o controlo da covid-19 podem atenuar o impacto desta combinação pouco saudável.
Os cientistas já inventaram uma nova palavra para o novo medo: “twindemic”. O momento em que a época da gripe encontra a pandemia da covid-19 tem sido muito discutido entre os especialistas. É preciso antecipar, na medida do possível, como será a interacção entre estes dois vírus respiratórios para prevenir uma sobrecarga nos hospitais e cuidados de saúde primários. Ainda que se espere que as medidas em vigor por causa da covid-19 – máscaras, higiene e distanciamento – e a vacina disponível para a gripe ajudem a atenuar a época de gripe neste Inverno, há outros possíveis problemas como o “dilema do diagnóstico” que se prevê com doenças que têm muitos sintomas em comum.
Anda por aí a circular uma tabela de sintomas que pretende ajudar o cidadão comum a distinguir os sintomas da covid, da gripe e da constipação. No entanto, a esmagadora maioria dos cientistas não subscreve este autodiagnóstico. Em caso de sintomas – por mais ligeiros que pareçam ser – a melhor opção é mesmo consultar um médico. Será o médico que vai ter de lidar com este “dilema do diagnóstico” e a tarefa adivinha-se muito difícil. Há sintomas comuns entre as várias doenças respiratórias que podem surgir neste Inverno e, por vezes, a mesma doença pode manifestar-se de forma diferente nas pessoas. Então, como facilitar o diagnóstico?
“Muitas manifestações clínicas da covid-19 são comuns a outras infecções respiratórias como a gripe. Os testes moleculares para diagnóstico de SARS-CoV-2 permitem distinguir os casos que são efectivamente covida-19”, esclarece o imunologista Luís Graça, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Segundo explica, “o diagnóstico molecular de infecção por SARS-CoV-2 (para diagnóstico de covid-19) não tem reactividade cruzada com influenza (vírus da gripe)”. O teste, adianta ainda, consiste na detecção de dois segmentos genéticos que são específicos do coronavírus, e o controlo é um segmento genético humano (que deverá ser positivo em todas as pessoas). “O teste é positivo quando se detecta a presença dos dois segmentos genéticos do vírus. É inconclusivo quando apenas um dos segmentos é amplificado, ou quando o controlo positivo (o segmento humano) não é detectado. Não havendo sobreposição entre as sequências genéticas do SARS-CoV-2 e do vírus da influenza, o teste não será positivo em infecções com o vírus da gripe”, acrescenta, sublinhando que “os testes de diagnóstico são fiáveis nestas circunstâncias”.
O exemplo do Sul com menos gripe
Para os que vivem no hemisfério norte a época de gripe está a ficar cada vez mais próxima no calendário e, por isso, coloca-se a questão: o que é que isso significa para a covid-19? Há muitas dúvidas. A co-infecção é possível ou provável? A interacção entre estes dois vírus será marcada por uma cooperação ou competição? A gripe aliada à covid-19 pode agravar os sintomas? Muitas das questões ainda não têm resposta mas há algumas coisas que são mais ou menos previsíveis.
Uma das perspectivas que parece mais ou menos consensual tem a ver com o efeito que as medidas que estão a ser tomadas para a covid-19 e que afectam o nosso dia-a-dia vão ter na gripe, esperando-se que também diminuam o número de casos nesta frente. “É altamente provável que teremos um número de casos de gripe muito inferior ao habitual. Os dados dos países do hemisfério sul, que estão agora a terminar o Inverno, tiveram uma quebra do número de casos de gripe como nunca foi visto”, confirma Luís Graça ao PÚBLICO. Um estudo publicado na Lancet em Abril já concluía que as medidas de saúde pública introduzidas em Hong Kong para conter o coronavírus levaram a um declínio na actividade da gripe. “Em Março, no início da época da gripe no hemisfério sul (Outono) assim que foram implementadas as medidas para prevenir a transmissão de SARS-CoV-2 as infecções com gripe também praticamente desapareceram. Isto mostra que as medidas de higiene, distanciamento social, máscaras, têm um impacto também em outras infecções, nomeadamente na gripe”, refere o cientista do Instituto de Medicina Molecular que coordena o laboratório de investigação em Imunologia Celular.
Outro dos aspectos que é subscrito pela maioria dos especialistas está relacionado com uma diferença crucial no combate a estes dois vírus: é que se ainda não temos vacina para a covid-19, a vacina para a influenza existe e, mesmo que não garanta 100% de protecção, isso já fará toda a diferença. Ou seja, é importante que a população – sobretudo os grupos de risco – esteja vacinada contra a gripe. Não é esperado que haja protecção cruzada: os vírus são muito diferentes. Inclusivamente o vírus da gripe é suficientemente diferente de ano para ano para que a imunidade que adquirimos a um vírus da gripe não seja protectora quando surge um novo vírus no ano seguinte.
Sobre as probabilidades de uma pessoa ser infectada pelos dois vírus há várias ideias diferentes. A interacção entre diferentes vírus é muito complexa de estudar, por vários motivos mas sobretudo porque depende de muitas variáveis, desde o momento da infecção e da co-infecção (qual é que chega primeiro) até às características da “vítima” que é infectada. Por vezes, os vírus cooperam, outras vezes, os vírus competem entre si. Não se sabe ainda o que vai acontecer no contexto covid-19 e gripe ou de outros vírus respiratórios.
A co-infecção é possível?
Sabe-se que embora o coronavírus e influenza possam causar alguns dos mesmos sintomas – como febre, tosse e fadiga – os agentes patogénicos usam diferentes receptores nas células para obter acesso aos nossos corpos, ou seja, os dois podem entrar no nosso organismo. Um estudo com cerca de 1200 pacientes, feito no Norte da Califórnia e publicado na JAMA em Abril, concluiu que uma em cada cinco pessoas com diagnóstico de covid-19 estava co-infectada com outro vírus respiratório. Outro vírus não significa necessariamente a gripe, pois há outros vírus respiratórios (e mesmo outros coronavírus) que circulam nesta altura do ano. Ainda assim, o risco de co-infecção da covid e gripe é considerado muito baixo pela maioria dos especialistas. “Estão descritos casos de co-infecção de covid-19, na sua maioria com outros microrganismos diferentes do vírus da gripe — embora os casos descritos de co-infecção com o vírus da gripe sejam raros. Havendo uma baixa incidência de casos de gripe na comunidade (como tem sido observado no hemisfério sul), torna menos provável essas situações de co-infecção”, explica Luís Graça.
Evitar a sobrecarga
Os cientistas têm seguido o rasto das epidemias ao longo de décadas e já perceberam que os surtos de vírus respiratórios não atingem o seu pico durante o mesmo período. Por outro lado, a gripe tem um ciclo mais rápido do que a covid-19. A época deverá começar nas últimas semanas de Dezembro e durar cerca de dois meses. A principal preocupação nessa altura – apesar de tudo apontar para números da gripe bastante inferiores aos registados nos anos anteriores, pelos motivos já apontados – é evitar a sobrecarga dos serviços de saúde.
Mas uma vez que há mais população susceptível, o SARS-CoV-2 será mais transmissível do que a gripe? “Mais uma vez, podemos aprender com o que se tem passado no hemisfério sul. Nesses países em que houve SARS-CoV-2 e vírus da gripe em circulação, as medidas de prevenção da transmissão tiveram um impacto comparativamente maior no vírus da gripe. A mortalidade por gripe nesses países foi este ano extremamente baixa”, constata Luís Graça.
Entre os mais optimistas, que esperam que a gripe passe despercebida este ano, e os mais pessimistas que temem uma “twindemic” com a união da pandemia aos outros vírus que circulam no Inverno, há espaço sobretudo para algumas dúvidas e poucas certezas. Acima de todas as incógnitas, destaca-se o conselho dos especialistas para que os grupos mais vulneráveis se protejam, para que ninguém desvalorize sintomas e para que todos adoptem as medidas impostas para o controlo da covid-19.
28.7.15
Quase 5900 doentes já fizeram os novos tratamentos para a hepatite C
Romana Borja-Santos, in Público on-line
Dia Mundial das Hepatites assinala-se nesta terça-feira, quase seis meses depois do acordo assinado pelo Ministério da Saúde para tratar todos os doentes com hepatite C. Fomos saber como está Paulo e conhecer João.
Paulo Oliveira ainda está a fazer o tratamento, mas as análises já são negativas Nuno Ferreira Santos
O dia 6 de Fevereiro de 2015 vai ficar para sempre na memória de Paulo Oliveira, mas não apaga o ano de sofrimento e de espera. Foi nesse dia que o Ministério da Saúde assinou com o laboratório norte-americano Gilead um acordo para tratar todos os portugueses com hepatite C. Até essa altura o preço pedido pela farmacêutica impedia que o novo medicamento fosse dado em larga escala e as negociações arrastaram-se quase um ano. Durante esse período, o fármaco foi reservado para os casos de risco de vida. “A minha cirrose ainda não é suficientemente má”, referiu Paulo numa entrevista ao PÚBLICO, publicada em Janeiro, quando aguardava por uma solução. Agora, com o acordo, já faz parte dos 5870 doentes que receberam autorização em 2015 para começar os tratamentos com os novos medicamentos.
Desde Janeiro e até ao final de Julho, “foram autorizados no total 5870 tratamentos para a hepatite C, dos quais 5420 com os medicamentos Sofosbuvir ou Ledipasvir + Sofosbuvir”, ambos da Gilead, segundo os dados enviados ao PÚBLICO pela Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed). Os que não recebem estes fármacos são tratados com medicamentos inovadores equivalentes que outras farmacêuticas, no âmbito de ensaios, disponibilizaram gratuitamente ao SNS. “Cerca de 3000 tratamentos encontram-se a decorrer, a grande maioria com os dois medicamentos supra mencionados”, acrescentou o Infarmed. Outros já terminaram visto que há casos em que só são necessárias 12 semanas. A esmagadora maioria destas autorizações aconteceram a partir de 6 de Fevereiro.
Paulo Oliveira foi buscar o seu tratamento no início de Maio, mas só termina em Outubro, devido à cirrose causada pelo vírus e ao facto de as tentativas com os medicamentos mais antigos terem falhado. Espera conseguir esquecer o passado. “Com hepatite C, no meu caso, um dia normal de trabalho fica reduzido a quatro horas, porque nas primeiras, até eu conseguir arrancar, sinto-me completamente esgotado. Ter hepatite C é como carregar um telemóvel durante três dias e a bateria ir-se numa hora”, relatava em Janeiro. Agora, as primeiras análises de Paulo vieram negativas, mas ainda é cedo para falar em cura. Está a recuperar, mas o tratamento ainda dificulta que consiga trabalhar normalmente e o desemprego atravessou-se no seu caminho. “O balanço tem sido positivo por parte de todos, mas ainda é cedo para gritarmos vitória, pois ainda estamos quase todos a fazer tratamento”, explica.
Do lado oficial a resposta é a mesma: “Ainda não há resultados quanto aos tratamentos bem-sucedidos, atendendo à conclusão recente dos mesmos”, adiantou o Infarmed. O acordo – que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, definiu como “histórico” – previa numa das suas cláusulas que o Serviço Nacional de Saúde só suportasse os custos dos tratamentos que curassem os doentes, uma vez que os ensaios clínicos prometiam resultados próximos dos 100%. A ideia era tratar os cerca de 13 mil doentes identificados em três anos, com uma capacidade anual de 5000 tratamentos, mas o ritmo está a ser superior. O preço final nunca foi divulgado, até porque a confidencialidade era uma das exigências do laboratório. Mas sabe-se que inicialmente chegaram a ser pedidos perto de 48 mil euros e que o preço para Portugal terá ficado pelos 20 mil euros, abaixo do de Espanha, logo depois do debate ter sido acelerado com a morte de uma mulher que esperava pelo medicamento e com um doente a interromper Macedo na Assembleia da República.
A tutela prometeu reforçar o orçamento dos hospitais para aguentarem o aumento da despesa. Aliás, os dados do Infarmed mostram que nos primeiros cinco meses do ano a factura dos hospitais com medicamentos subiu 68 milhões de euros, para 479 milhões, o que representa mais 16,9% – apesar de as quantidades consumidas só terem aumentado 1,3%. Na categoria dos antivíricos (hepatite e VIH/sida) a despesa cresceu 52% em relação ao mesmo período de 2014. Só com a hepatite C o valor disparou em mais 49 milhões de euros.
Paulo Oliveira considera que o seu tratamento chegou demasiado tarde – depois do processo doloroso da morte do pai com um cancro muito agressivo. “O testemunho que vou dar não é muito entusiasmante, pois com a morte do meu pai houve muitos problemas. Claro que recebi o tratamento com agrado, mas não com a felicidade que devia. Chegou tarde e a más horas. O meu pai não estava presente, ele que me deu tanto apoio para conseguir ir à luta”, justifica. Desde a morte do pai que Paulo, com 45 anos, tem tido mais dificuldades em pagar as contas e ajudar a mãe e a mulher. Sente que a saúde se degradou demasiado e que o mercado de trabalho não ajuda. Mesmo assim garante: “Vou em frente e espero um desfecho feliz”.
Mais perto desse final feliz está João. Tem 48 anos e é funcionário público. Foi das poucas centenas de portugueses que conseguiram ter acesso aos tratamentos inovadores antes de Fevereiro. Não esquece a data em que começou os tratamentos: 11 de Dezembro de 2014. E garante que só conseguiu o fármaco, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, porque foi persistente. “Mexi-me. Perguntei, escrevi ao hospital, ao ministro, à administração regional de saúde. Sentia que tinha pouco tempo de vida pela frente. Os outros tratamentos antigos não me fizeram nada. Estava a piorar e na fila para um transplante”, explica. O ano de 2014 foi de “ansiedade” e de internamentos com hemorragias devido a varizes no esófago – um dos efeitos do avanço do vírus da hepatite C.
João já terminou o ciclo de 12 semanas. Meio ano depois do início do caminho as análises continuam negativas. Pouco a pouco ficaram para trás as feridas no corpo, as articulações inchadas e o cansaço excessivo não é tão acentuado. “Sinto-me outra pessoa.” Porém, para trás não ficou ainda o estigma. João não arrisca dar mais dados sobre si, por sentir que, mesmo com o debate e indignação que a hepatite C gerou, “socialmente a doença não é aceite”. Foi inventando justificações ao longo dos anos para os sintomas que a infecção diagnosticada há 20 anos lhe deixou no corpo. A transmissão é feita através de sangue, ou seja, “basicamente de uma eventual transfusão ou de seringas”. A possibilidade de transmissão sexual é diminuta. “É por isso que o estigma é pior do que no VIH”, diz.
Paulo e João fazem (ou faziam) parte dos 13 mil doentes com hepatite C identificados em Portugal. Mas as estimativas apontam para que possam existir pelo menos 50 mil pessoas com a doença, já que é possível permanecer assintomática durante largos anos. Há mesmo quem fale em mais de 100 mil doentes. Tanto os especialistas como as plataformas de doentes, como a SOS Hepatites, têm defendido a realização de um rastreio nacional para todos os que nasceram entre 1950 e 1980.
Entre 1961 e 1974, Portugal teve quase um milhão de pessoas que foram para África, durante o período da Guerra Colonial, e por isso terão corrido um maior risco de exposição ao vírus devido a ferimentos e à falta de condições de tratamento. Foi também altura no país muito marcada pela partilha de seringas. Por isso, a SOS Hepatites, no Dia Mundial das Hepatites, que se assinala no dia 28 de Julho, terça-feira, vai fazer alguns rastreios na Praia de Santo Amaro de Oeiras e sensibilizar a população com a ajuda de figuras públicas com o slogan “Faça o Rastreio. Salve o seu Fígado”.
Dia Mundial das Hepatites assinala-se nesta terça-feira, quase seis meses depois do acordo assinado pelo Ministério da Saúde para tratar todos os doentes com hepatite C. Fomos saber como está Paulo e conhecer João.
Paulo Oliveira ainda está a fazer o tratamento, mas as análises já são negativas Nuno Ferreira Santos
O dia 6 de Fevereiro de 2015 vai ficar para sempre na memória de Paulo Oliveira, mas não apaga o ano de sofrimento e de espera. Foi nesse dia que o Ministério da Saúde assinou com o laboratório norte-americano Gilead um acordo para tratar todos os portugueses com hepatite C. Até essa altura o preço pedido pela farmacêutica impedia que o novo medicamento fosse dado em larga escala e as negociações arrastaram-se quase um ano. Durante esse período, o fármaco foi reservado para os casos de risco de vida. “A minha cirrose ainda não é suficientemente má”, referiu Paulo numa entrevista ao PÚBLICO, publicada em Janeiro, quando aguardava por uma solução. Agora, com o acordo, já faz parte dos 5870 doentes que receberam autorização em 2015 para começar os tratamentos com os novos medicamentos.
Desde Janeiro e até ao final de Julho, “foram autorizados no total 5870 tratamentos para a hepatite C, dos quais 5420 com os medicamentos Sofosbuvir ou Ledipasvir + Sofosbuvir”, ambos da Gilead, segundo os dados enviados ao PÚBLICO pela Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed). Os que não recebem estes fármacos são tratados com medicamentos inovadores equivalentes que outras farmacêuticas, no âmbito de ensaios, disponibilizaram gratuitamente ao SNS. “Cerca de 3000 tratamentos encontram-se a decorrer, a grande maioria com os dois medicamentos supra mencionados”, acrescentou o Infarmed. Outros já terminaram visto que há casos em que só são necessárias 12 semanas. A esmagadora maioria destas autorizações aconteceram a partir de 6 de Fevereiro.
Paulo Oliveira foi buscar o seu tratamento no início de Maio, mas só termina em Outubro, devido à cirrose causada pelo vírus e ao facto de as tentativas com os medicamentos mais antigos terem falhado. Espera conseguir esquecer o passado. “Com hepatite C, no meu caso, um dia normal de trabalho fica reduzido a quatro horas, porque nas primeiras, até eu conseguir arrancar, sinto-me completamente esgotado. Ter hepatite C é como carregar um telemóvel durante três dias e a bateria ir-se numa hora”, relatava em Janeiro. Agora, as primeiras análises de Paulo vieram negativas, mas ainda é cedo para falar em cura. Está a recuperar, mas o tratamento ainda dificulta que consiga trabalhar normalmente e o desemprego atravessou-se no seu caminho. “O balanço tem sido positivo por parte de todos, mas ainda é cedo para gritarmos vitória, pois ainda estamos quase todos a fazer tratamento”, explica.
Do lado oficial a resposta é a mesma: “Ainda não há resultados quanto aos tratamentos bem-sucedidos, atendendo à conclusão recente dos mesmos”, adiantou o Infarmed. O acordo – que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, definiu como “histórico” – previa numa das suas cláusulas que o Serviço Nacional de Saúde só suportasse os custos dos tratamentos que curassem os doentes, uma vez que os ensaios clínicos prometiam resultados próximos dos 100%. A ideia era tratar os cerca de 13 mil doentes identificados em três anos, com uma capacidade anual de 5000 tratamentos, mas o ritmo está a ser superior. O preço final nunca foi divulgado, até porque a confidencialidade era uma das exigências do laboratório. Mas sabe-se que inicialmente chegaram a ser pedidos perto de 48 mil euros e que o preço para Portugal terá ficado pelos 20 mil euros, abaixo do de Espanha, logo depois do debate ter sido acelerado com a morte de uma mulher que esperava pelo medicamento e com um doente a interromper Macedo na Assembleia da República.
A tutela prometeu reforçar o orçamento dos hospitais para aguentarem o aumento da despesa. Aliás, os dados do Infarmed mostram que nos primeiros cinco meses do ano a factura dos hospitais com medicamentos subiu 68 milhões de euros, para 479 milhões, o que representa mais 16,9% – apesar de as quantidades consumidas só terem aumentado 1,3%. Na categoria dos antivíricos (hepatite e VIH/sida) a despesa cresceu 52% em relação ao mesmo período de 2014. Só com a hepatite C o valor disparou em mais 49 milhões de euros.
Paulo Oliveira considera que o seu tratamento chegou demasiado tarde – depois do processo doloroso da morte do pai com um cancro muito agressivo. “O testemunho que vou dar não é muito entusiasmante, pois com a morte do meu pai houve muitos problemas. Claro que recebi o tratamento com agrado, mas não com a felicidade que devia. Chegou tarde e a más horas. O meu pai não estava presente, ele que me deu tanto apoio para conseguir ir à luta”, justifica. Desde a morte do pai que Paulo, com 45 anos, tem tido mais dificuldades em pagar as contas e ajudar a mãe e a mulher. Sente que a saúde se degradou demasiado e que o mercado de trabalho não ajuda. Mesmo assim garante: “Vou em frente e espero um desfecho feliz”.
Mais perto desse final feliz está João. Tem 48 anos e é funcionário público. Foi das poucas centenas de portugueses que conseguiram ter acesso aos tratamentos inovadores antes de Fevereiro. Não esquece a data em que começou os tratamentos: 11 de Dezembro de 2014. E garante que só conseguiu o fármaco, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, porque foi persistente. “Mexi-me. Perguntei, escrevi ao hospital, ao ministro, à administração regional de saúde. Sentia que tinha pouco tempo de vida pela frente. Os outros tratamentos antigos não me fizeram nada. Estava a piorar e na fila para um transplante”, explica. O ano de 2014 foi de “ansiedade” e de internamentos com hemorragias devido a varizes no esófago – um dos efeitos do avanço do vírus da hepatite C.
João já terminou o ciclo de 12 semanas. Meio ano depois do início do caminho as análises continuam negativas. Pouco a pouco ficaram para trás as feridas no corpo, as articulações inchadas e o cansaço excessivo não é tão acentuado. “Sinto-me outra pessoa.” Porém, para trás não ficou ainda o estigma. João não arrisca dar mais dados sobre si, por sentir que, mesmo com o debate e indignação que a hepatite C gerou, “socialmente a doença não é aceite”. Foi inventando justificações ao longo dos anos para os sintomas que a infecção diagnosticada há 20 anos lhe deixou no corpo. A transmissão é feita através de sangue, ou seja, “basicamente de uma eventual transfusão ou de seringas”. A possibilidade de transmissão sexual é diminuta. “É por isso que o estigma é pior do que no VIH”, diz.
Paulo e João fazem (ou faziam) parte dos 13 mil doentes com hepatite C identificados em Portugal. Mas as estimativas apontam para que possam existir pelo menos 50 mil pessoas com a doença, já que é possível permanecer assintomática durante largos anos. Há mesmo quem fale em mais de 100 mil doentes. Tanto os especialistas como as plataformas de doentes, como a SOS Hepatites, têm defendido a realização de um rastreio nacional para todos os que nasceram entre 1950 e 1980.
Entre 1961 e 1974, Portugal teve quase um milhão de pessoas que foram para África, durante o período da Guerra Colonial, e por isso terão corrido um maior risco de exposição ao vírus devido a ferimentos e à falta de condições de tratamento. Foi também altura no país muito marcada pela partilha de seringas. Por isso, a SOS Hepatites, no Dia Mundial das Hepatites, que se assinala no dia 28 de Julho, terça-feira, vai fazer alguns rastreios na Praia de Santo Amaro de Oeiras e sensibilizar a população com a ajuda de figuras públicas com o slogan “Faça o Rastreio. Salve o seu Fígado”.
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