Mostrar mensagens com a etiqueta Igreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Igreja. Mostrar todas as mensagens

1.8.23

Portugueses face à religião: católicos, mas pouco

Natália Faria, in Público online

Os portugueses habituaram-se a dizer de si próprios que são católicos: 80% declararam-se como tal nos Censos, mas os praticantes são uma minoria. Retrato de um país e da sua Igreja à beira da JMJ.

Se nos focarmos apenas nos números, a conclusão imediata será que a Igreja Católica em Portugal está bem de saúde e recomenda-se. Afinal, segundo os Censos de 2021, 80,2% da população portuguesa declara-se católica. E nem sequer se viu no mais recente recenseamento da população efeitos da propalada erosão da pertença católica, porquanto em 2011 a proporção dos que se declaravam católicos era de uns ligeiramente acima 81%. Mas os números também enganam e, como enfatizou ao PÚBLICO a teóloga Teresa Toldy, não é preciso deslocarmo-nos às igrejas cada vez mais vazias na hora da missa para percebermos tratar-se de um catolicismo herdado ou cultural.

“As pessoas dizem-se católicas, mas depois, quando vai ver quantas delas frequentam a igreja e cumprem os rituais e estão envolvidas em paróquias ou movimentos, observa uma disparidade brutal entre aquilo que se declara e o que se faz”, aponta a docente da Universidade Fernando Pessoa.

Pouco impressionada com o aparente fervor católico que reduz a 14% os portugueses que se declaram sem religião, ainda segundo os últimos Censos, Teresa Toldy recorda outros estudos que denotam a pouca correspondência entre a autodesignação como católico e o quotidiano concreto das pessoas. “Num estudo em que se perguntava, por exemplo, se consideravam que o facto de serem católicas tinha alguma coisa que ver com o pagamento de impostos, as pessoas respondiam maioritariamente que não”, descreve a teóloga. E conclui de forma lapidar: “A esmagadora maioria dos que se dizem católicos em Portugal não conhece sequer a doutrina social da Igreja.”




A discrepância entre o que se diz e o que se faz está também patente no estudo que, em Julho, o Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa (UCP) apresentou e que concluía que 56% dos jovens entre os 14 e os 30 anos de idade se dizem religiosos (católicos, maioritariamente), mas apenas um terço são praticantes, numa dissonância justificada maioritariamente pela discordância face a normas da prática religiosa. Fará sentido recordar aqui que, no ano passado, 60,2% dos bebés nasceram fora do casamento – 16,9% sem coabitação dos pais –, o que ilustra bem a perda de influência da Igreja enquanto instância norteadora dos comportamentos, nomeadamente ao nível da moral sexual e familiar.

Voltando aos Censos, os 80% de católicos ali apontados não andam também distantes dos 79,5% católicos que tinham sido referenciados em 2011, num estudo sobre identidades religiosas em Portugal feito pelo Centro de Estudos de Religiões e Culturas da UCP, a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Em 1999, um estudo similar fixava em 86,9% a proporção de católicos na sociedade portuguesa e, concomitantemente, a percentagem de pessoas sem qualquer religião tinha aumentado de 8,2% para 14,2%, entre 1999 e 2011.

Em 2018, um estudo similar, mas circunscrito à Área Metropolitana de Lisboa (AML), reduzia os católicos a 54,9% dos inquiridos, numa quebra da hegemonia católica decorrente da estabilização das minorias religiosas, como os budistas e os muçulmanos, mas que dificilmente é extrapolável para outras zonas do país – à excepção talvez do Algarve – por se tratar de um fenómeno que acompanha a população imigrante em redor da capital do país. Seja como for, na AML os crentes sem religião tinham aumentado para os 13,1%, muito acima dos 4,6% apontados no referido estudo nacional de 2011.

Em Portugal, descontada a emotividade inicial que levou alguns católicos a requererem a desvinculação formal da Igreja pelo modo como o clero se comportou face ao flagelo dos abusos sexuais, não existem estudos que permitam medir o impacto que a divulgação do relatório Dar Voz ao Silêncio teve, entretanto, no sentido de pertença católica. Uma sondagem de Julho do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1 mostrou que 68% dos inquiridos acreditam que a imagem da Igreja piorou no último ano, sem permitir, contudo, grandes extrapolações.

Mas pode-se admitir, como faz o antropólogo Alfredo Teixeira, em entrevista ao PÚBLICO publicada no passado domingo, que a estimativa de que pelo menos 4815 crianças foram alvo de abusos às mãos do clero português entre 1950 e a actualidade teve um duplo efeito. “É expectável que as pessoas mais distanciadas reforcem o seu descrédito face instituição”, começou por dizer aquele investigador, para concluir que “no universo dos católicos mais empenhados, ou dos católicos mais próximos das dinâmicas comunitárias e institucionais, o acontecimento foi sobretudo aproveitado para introduzir na própria Igreja uma pressão para a mudança”.

Essa reivindicação de uma Igreja mais próxima da abertura preconizada pelo Papa Francisco está bem patente na síntese que o presidente da CEP, D. José Ornelas, levou, em Fevereiro, à assembleia continental europeia do sínodo dos bispos e onde os católicos portugueses reclamaram uma Igreja mais capaz de acolher os novos figurinos familiares, de garantir a participação das mulheres em “igualdade de oportunidades”, de ponderar a ordenação de homens casados e de adaptar a linguagem litúrgica aos tempos actuais, entre outras mudanças.

Mas o presidente da CEP “não é o chefe dos bispos portugueses”, como recorda Teresa Toldy. E entre estes não faltou quem apontasse como pouco fidedigno o tom progressista das conclusões levadas por D. José Ornelas a Praga, na República Checa. É que, “tal como na insistência em desocultar a dimensão dos abusos sexuais, o presidente da CEP tende a estar pouco acompanhado no seu esforço de mudança”, considera a teóloga, cuja esperança reside na expectável renovação dos bispos à frente das dioceses. “Vários dos actuais bispos estão a atingir o limite de idade e, portanto, vão ter de sair. E o que se espera é que os novos bispos que venham a ser nomeados sejam mais abertos e que deles possa advir um maior apoio ao esforço de renovação”, acrescenta.

Além de Setúbal, que aguarda há mais de um ano e meio pela nomeação de um novo bispo, as dioceses de Guarda e Beja também vão ficar sem bispo, no primeiro caso porque D. Manuel Felício já completou 75 anos e pediu a resignação e, no segundo, porque D. João Marcos tem problemas de saúde. O cardeal-patriarca D. Manuel Clemente deverá ser substituído ainda este ano e os bispos Antonino Dias (Portalegre) e Manuel Quintas (Algarve) atingirão igualmente a idade máxima que os obriga a pedir a resignação – 75 anos – este ano e no início do próximo.
JMJ não pode ser “esponja”

Enquanto estas mudanças não ocorrem, recupere-se o que dizia o relatório da comissão liderada por Pedro Strecht sobre os bispos que compõem a elite da Igreja Católica portuguesa: são um corpo envelhecido – a média etária é de 67 anos –, com origens humildes e rurais, provenientes quase todos de “famílias tradicionais com princípios morais vigorosos”. Na maior parte dos casos, a descolagem do meio social de origem fez-se por via da entrada precoce no seminário, onde cresceram sob o jugo de uma disciplina rígida imposta por uma hierarquia muito vincada e fechados ao exterior, ainda segundo o relatório.

“Isto ajudará a explicar que tantos dos bispos portugueses vivam um bocadinho fora do mundo e com dificuldades em ouvir os outros. Aliás, um dos aspectos que me parecem graves no funcionamento da Igreja portuguesa é a dificuldade que muitas pessoas sentem em falar com o seu bispo, em fazerem-se ouvir, muito por causa desta ideia de que o clero tem de ensinar o povo”, lamenta Toldy.

Um clero cada vez mais rarefeito e envelhecido e uma dinâmica pastoral estagnada são outros dos “pecados” que Teresa Toldy aponta à Igreja Católica portuguesa. Diz-se esperançada que, daqui a alguns meses, não seja forçada a acrescentar um outro pecado a esta lista: “Espero que a JMJ não seja entendida pela Igreja Católica em Portugal como uma espécie de passar de esponja sobre um ano terrível e sirva de desculpa para se deixar de falar dos abusos sexuais.”

19.7.23

Igreja/Portugal: «É preciso flexibilidade para deixar os jovens fazer, errar e avançar» – Cáritas Jovem de Leiria (c/vídeo)

in Agência ECCLESIA

D. José Traquina diz que Igreja não pode ter «medo de trabalhar com os jovens»


Leiria, 18 jul 2023 (Ecclesia) – João Barreiro, do projeto «Explica-me» da Cáritas Jovem de Leiria, diz que é importante dar espaço aos jovens para a falha, sendo este um caminho construtor de compromisso com a realidade.

“Há muita tendência para que os adultos pensem, com facilidade, que algo que os jovens propõem não vai funcionar. O caminho não pode ser esse: há que experimentar. Às vezes é preciso dizer que não e balizar, mas é necessária flexibilidade para a falha, deixar fazer, ver o que corre bem e mal e avançar”, pede o jovem de Leiria, ligado à instituição de ação social da Igreja católica.

No podcast «O Amor que Transforma», da Cáritas portuguesa e da Agência ECCLESIA, João Barreiro indica que foi a possibilidade de experimentar e entender, desde cedo pelo seu percurso no Corpo Nacional de Escutas que o ser Igreja implicava um compromisso social, que o ligou à Cáritas, envolvendo jovens na ação social.

O projeto «Explica-me» junta voluntários e famílias identificadas pela Cáritas, cujos filhos têm insuficiência escolar ou deficit de acompanhamento e junto dos jovens obtêm explicações.

“A tónica que sublinhamos é não ser um centro de explicações, mas que haja uma relação entre o jovem e o explicador. Só criando relação e espírito de comunidade se consegue avançar”, precisa.

Hoje, João Barreiro dá conta que os seus amigos e as relações mais fortes que tem foram construídas nos projetos da Cáritas de Leiria e fala na importância de importância de ouvir os jovens.

“Chegou uma pessoa para fazer voluntariado na Cáritas mas a única coisa que eu tinha para ela fazer era dobrar roupa. Isso não é algo chamativo, não vai criar compromisso. Por isso é importante ouvi-los para com a sua vontade e capacidades ajudar a resolver e ajudar quem precisa”, recorda.

D. José Traquina, presidente da Comissão Episcopal Pastoral Social e Mobilidade Humana, diz que a Igreja não pode ter “medo de trabalhar com os jovens” e gostaria que a realidade juvenil da Cáritas de Leiria fosse estendida a outras geografias.

“Não fica bem aos adultos na Igreja que tenham medo da participação dos jovens. Espero que esta experiência de Leiria seja motivadora para a Cáritas em Portugal: que seja uma possibilidade em aberto que possam ter um núcleo juvenil onde o jovem tenha autonomia e protagonismo. Porque se eu o chamar para ele fazer o que eu quero, não serve”, traduz.

O bispo de Santarém indica ser necessário um “grande apelo à consciência” para que se passe “da capacidade de ver, de analisar a realidade humana” para uma missão pessoal: “Perguntarmo-nos que missão temos perante isto?”

“A fé cristã deve traduzir-se em missão e vocação. Desejo que os jovens sejam generosos na sua capacidade de ler a vida à luz da mensagem cristã, perceber o tanto que há para fazer e qual o seu lugar”, convida.

O responsável entende ser necessário “cuidar da identidade da Cáritas como organização” propondo uma “espiritualidade da ação” ao invés do que chama “assistencialismo cuja ação se esgota em si mesmo e desaparece”, reconhecendo ainda que o trabalho é valorizado com a experiência dos mais velhos e a inovação dos mais novos.

No podcast «O Amor que transforma» D. José Traquina e João Barreiro recordam o processo de crescimento na fé e a forma como descobriram o seu compromisso na Igreja.

LS

2.5.23

“Trabalhar com agressores sexuais é prevenir reincidência e é proteger crianças”

Natália Faria, in Público online

Rute Agulhas, psicóloga à frente do Grupo Vita, criado para coordenar a resposta da Igreja aos abusos sexuais, lembra que é preciso ajudar agressores para evitar recidivas e proteger outras crianças.

A partir do dia 22 de Maio, as vítimas de abusos sexuais no contexto da Igreja Católica em Portugal terão uma linha telefónica (91 509 0000) e um e-mail (geral@grupovita.pt) para apresentar denúncias e pedir ajuda. Além de custear o tratamento psicoterapêutico de vítimas e familiares, a Igreja poderá ajudar as famílias a encontrar emprego e casa, nos casos em que a mudança seja necessária para escapar ao estigma. Rute Agulhas, à frente do Grupo Vita, criado para coordenar a resposta da Igreja ao flagelo, conta que em três anos o grupo deixe de existir, conquanto consiga a Igreja até lá assimilar as melhores práticas de actuação e resposta a estes casos.

Como vai funcionar na prática o Grupo Vita perante denúncias quer de vítimas, quer de agressores?
A nossa ideia é, a partir do dia 22 de Maio, abrirmos os canais de entrada, que neste momento são o email (geral@grupovita.pt) e o telemóvel (91 509 0000). A curto prazo, queremos estabelecer parcerias com serviços de proximidade, como juntas de freguesia, centros de dia, equipas de apoio à família, de apoio domiciliário, Cruz Vermelha, Segurança Social e algumas IPSS que têm uma relação próxima com pessoas que estão em casa, que podem não saber ler ou escrever, e que por isso têm mais dificuldade de acesso a estes meios. O objectivo nesta primeira fase é dar a conhecer o grupo e as respostas que podemos oferecer. Os contactos via e-mail ou telefone vão ser sempre acolhidos por um dos seis elementos deste grupo executivo – vamo-nos organizando à vez – e tentaremos, com um guião de atendimento e um protocolo de avaliação do risco, perceber se estamos perante uma pessoa que tem que ser atendida no dia ou encaminhada para uma urgência, porque pode estar descompensada ou ter ideação suicida, ou se é alguém que pode esperar uns dias por uma avaliação mais detalhada. Feita esta primeira avaliação, é marcado um atendimento idealmente presencial. Se for em Lisboa, será um dos quatro elementos executivos que estão em Lisboa; se for no Porto, será um dos restantes dois colegas. Nas restantes zonas do país, ou a pessoa se desloca até nós ou vamos nós ter com a pessoa.

No Porto e em Lisboa, esse atendimento presencial será feito onde?
Estamos ainda a definir os locais. Queremos que sejam locais neutros, descaracterizados, onde as pessoas se sintam confortáveis. A pessoa pode não se sentir à vontade num local demasiado próximo da Igreja, por exemplo. Se forem pessoas de mais longe, podemos fazer um atendimento online, dependerá sempre da pessoa que está do outro lado. Idealmente, o atendimento será feito por dois elementos do grupo executivo, para podermos cruzar o olhar. Neste atendimento, o grande objectivo é avaliar quais são as necessidades da pessoa: se é apoio psicológico, se é um encaminhamento para psiquiatria, ou um apoio mais social.

O apoio social poderá abranger que dimensões?
Desde logo, as famílias das vítimas também podem precisar de ser apoiadas. Às vezes, temos uma mãe deprimidíssima porque o filho foi abusado, um irmão que nem percebe bem o que se passa e que, de repente, vê a vida toda virada do avesso, porque toda a dinâmica familiar mudou. E as respostas serão sempre em função das necessidades. Às vezes, pode ser preciso ajudar as pessoas a mudarem de zona geográfica e a encontrar casa e emprego, sobretudo se forem pessoas mais indiferenciadas. Eu já acompanhei várias famílias de aldeias muito pequenas do Alentejo que queriam mudar de terra porque havia todo aquele estigma associado ao abuso. Mudar de terra quando somos diferenciados e temos dinheiro é uma coisa; quando se não o é, pode ser muito difícil. Nestes casos, é preciso este apoio social.

Ao nível do apoio no tratamento psicoterapêutico, que respostas contam ter?
Um dos objectivos de curto prazo é começar a identificar os psiquiatras, pedopsiquiatras e psicólogos que poderão vir a integrar a bolsa de profissionais aos quais será garantida formação e supervisão para poderem trabalhar com as pessoas. Claro que a pessoa tem sempre a liberdade de escolher por quem quer ser acompanhada, mas queremos ter uma reposta mais estruturada para oferecer, também porque sabemos que os profissionais com experiência e com formação específica nesta área não são assim tantos. Agora, isto não se consegue num mês ou dois.

Não é urgente, atendendo a que o barulho mediático em torno dos abusos sexuais na Igreja pode ter agudizado o trauma de muitas destas vítimas?
Até termos esta bolsa pronta, temos de ir à procura, caso a caso. Se aparecer alguém que vive em Aveiro, vamos tentar perceber que serviços existem naquela zona geográfica, que profissionais a nível privado poderão assegurar o acompanhamento. Imagine que há um psicólogo nessa zona geográfica que se diz disponível, mas que pede alguma ajuda ou alguma supervisão. Este grupo disponibilizará essa supervisão. Vamos tentar acelerar este processo, para termos estes profissionais identificados e formados o mais cedo possível. Isto não implica que não possamos disponibilizar toda a ajuda com os profissionais que até lá forem sendo identificados. Se a resposta for encontrada num serviço privado, porque sabemos que os serviços públicos são muito escassos, os custos são sempre suportados pela Igreja.

Existe alguma tensão com a comissão independente quanto à melhor solução para o acompanhamento psicoterapêutico, nomeadamente porque descartaram a sugestão de criação de uma “via verde” no SNS para o atendimento destas vítimas?
Não há tensão nenhuma, o que há é formas de pensar diferentes. A outra comissão, na pessoa do professor Daniel Sampaio, terá feito esse contacto com o SNS e terá recebido uma resposta positiva. Fomos informados disso, já fizemos contactos com o SNS e estamos a aguardar resposta para saber mais em detalhe qual seria este tipo de priorização. Mas, em abstracto, e salientando que ainda estamos à espera de mais informação por parte do responsável da área da saúde mental do SNS, pensamos que priorizar estas vítimas em detrimento de todos os outros milhares de pessoas que estão em lista de espera para uma consulta é uma injustiça social. Efectivamente, estas vítimas têm muito direito e muita necessidade de ajuda, tal como todas as outras pessoas que também são vítimas e que estão deprimidas, ansiosas, enfim.

Não receia que seja difícil superar a desconfiança que as vítimas possam ter relativamente a um grupo que, apesar de isento e autónomo, como sublinharam, funciona em articulação directa com as estruturas da Igreja?
Nós não temos de reportar à Igreja, teremos autonomia total em todas as decisões que tomarmos. Mas acreditamos que este deverá ser um grupo temporário, de transição, isto é, não pretendemos que o Grupo Vita exista durante 20 anos. Existem estruturas já criadas, nomeadamente as comissões diocesanas de protecção de menores, e nos próprios institutos religiosos, alguns dos quais têm já respostas muito consolidadas e muito pensadas, nomeadamente os jesuítas. Mas percebemos que neste momento as pessoas ainda olhem com alguma desconfiança para essas respostas, por serem vistas como estando muito próximas da Igreja.

E, no rescaldo do relatório da comissão independente, concluiu-se que ainda faz sentido um grupo como o nosso, independente e autónomo, que acolha e que dê respostas. Mas o objectivo é que este grupo traga respostas, capacite, crie recursos, e que depois deixe de ser necessário porque essas respostas consolidaram-se dentro da Igreja. Estamos, portanto, a falar de um período de transição, em que vamos tentar demonstrar que as pessoas podem confiar em nós, mas também podem confiar nas entidades que estamos a capacitar. E, naturalmente, isto só pode acontecer se trabalharmos de forma articulada com estas entidades. Se nos fecharmos numa bolha, não evoluímos. E penso que dois anos e meio a três anos será o tempo necessário para fazer este trabalho de formação e capacitação.
"Em momento algum senti que da parte da Igreja houvesse alguma tentativa de condicionar ou de sugestionar. Se o sentisse, não aceitaria coordenar este grupo."

Não há neste momento razão para que alguém que foi vítima de um abuso sexual dentro da Igreja desconfie da capacidade desta em actuar e reagir de forma consequente?
Eu acho que não há motivo para isso. Mas também percebo que são séculos e séculos de história que não se apagam assim de um dia para o outro. O processo de confiança é algo que demora tempo. É preciso convívio, interacção e garantir que aquilo que é dito é coerente com aquilo que se faz. Percebo isso. Mas é importante que se perceba que nos está a ser dada total autonomia. Em momento algum senti que da parte da Igreja houvesse alguma tentativa de condicionar ou de sugestionar. Se o sentisse, não aceitaria coordenar este grupo.

Não receia que esta vontade de encarar o problema que parte da Conferência Episcopal Portuguesa vá encontrando resistências, à medida que vai descendo ao nível das dioceses e das paróquias?
Eu acho que qualquer processo de mudança se depara com algumas resistências, a todos os níveis na nossa sociedade. Antecipo isso, porque temos a noção de que a Igreja é um universo enorme, composto por diferentes sensibilidades. Vamos procurar articular-nos com todas as entidades, das dioceses aos institutos religiosos, passando pela equipa nacional de coordenação, liderada pelo doutor José Souto Moura, e pelas próprias comissões diocesanas. Algumas destas comissões diocesanas têm estado a fazer um trabalho muito interessante, outras nem tanto. Vamos tentar perceber o que é que já está feito, o que pode ser aproveitado e o que pode ser melhorado, para tentar uniformizar os procedimentos e capacitar de igual forma todos os elementos que podem ter mais ou menos experiência nesta área.

Porque é que enfatizaram tanto a necessidade de trabalhar também com os agressores sexuais?
Porque trabalhar com agressores ou possíveis agressores é prevenir reincidência, é proteger crianças e é prevenir futuras situações de abuso. Já vi centenas ou milhares de vítimas de abuso sexual ao longo da vida e há um denominador comum à maior parte das vítimas: a preocupação de aquilo acontecer a mais alguém. As vítimas têm esta capacidade empática. Portanto, quero acreditar que as vítimas que nos ouvem consigam perceber que a intervenção junto dos agressores visa evitar que mais alguém passe pelo sofrimento que elas viveram. De outro modo, como protegemos as crianças? É mesmo importante lembrarmo-nos que trabalhar com agressores sexuais é prevenir reincidência e é proteger crianças.

Até porque alguns dos agressores foram antes vítimas e, por outro lado, não basta aplicar a alguém que cometeu um abuso sexual uma pena para impedir a reincidência.
Pois não. E atenção que isto não é uma desculpabilização do comportamento. As pessoas têm de ser responsabilizadas, quer do ponto de vista canónico, quer do ponto de vista penal. Este acompanhamento é paralelo e visa prevenir a recidiva. Nós sabemos que a taxa de reincidência é elevada neste tipo de crime. E sabemos também que quem ainda não cometeu, mas não tem ajuda de lado algum, vem a cometer. Lembro-me de um agressor que acompanhei há uns anos e que pensava nisso desde os seus 12, 13, 14 anos. Essa pessoa nunca teve coragem de falar com ninguém, nem sequer sabia onde, quando e como podia pedir ajuda, e foi aguentando até que, aos 19 anos de idade, passou ao acto e abusou de não sei quantas crianças. Nós temos de pensar nisto, nomeadamente porque o prognóstico de mudança é muito melhor nos jovens, nos quais este comportamento não está ainda cristalizado.

E a sociedade não tem respostas para isto?
Não tem e não podemos esquecer que esta é uma área muito estigmatizada. Uma coisa é um jovem dizer que às vezes lhe passa pela cabeça fumar um charro e outra é dizer que lhe passa pela cabeça ter relações sexuais com uma criança. Portanto, o problema não é assumido dessa forma. Há um estigma, uma vergonha, um tabu. E, quando isto é vivido em silêncio, a passagem ao acto é mais fácil.

Quais antevê como as maiores dificuldades no trabalho que se propõe coordenar?
Acho que a maior dificuldade pode estar precisamente relacionada com o trabalho com os agressores ou potenciais agressores, porque isso é abrir uma caixa de Pandora; é entrarmos num caminho onde de uma forma tão explícita ainda não se entrou em Portugal.

Mas antevê dificuldades na reabilitação dos agressores ou na eventual pouca receptividade em submeterem-se a um tratamento?
Para haver um processo terapêutico, a pessoa tem de reconhecer o comportamento, ou pelo menos as fantasias e os pensamentos que tem a esse nível. E, sendo um tema ainda tão tabu – assim como a sexualidade em geral é ainda um tema tabu em Portugal –, torna-se muito difícil falar sobre isso na perspectiva de quem perpetrou ou pode vir a perpetrar o comportamento. Acho por isso que a maior dificuldade será conquistarmos a confiança destas pessoas, fazendo-as acreditar que podem vir ter connosco e que estamos aqui para as ajudar, independentemente do que possa acontecer no processo judicial ou canónico.

O que vai constar do manual de prevenção que vão difundir junto das instituições da Igreja?
O manual de prevenção está pensado no âmbito daquele conjunto de materiais de apoio (em texto, em áudio, em língua gestual, em vídeo…), por via dos quais queremos aumentar a literacia das pessoas sobre este tema, relativamente ao qual há muitas falsas crenças e muitas ideias erradas que é preciso desconstruir, e que serão agregados no site www.grupovita.pt. O manual vai sistematizar esta problemática dos abusos, explicando o que é, quais são os factores de risco e os protectores, e apresentar estratégias práticas para minimizar o risco e aumentar a protecção, em contextos de grupo ou mais individualizados. Imagine um grupo de escuteiros que vai acampar: vamos pensar quais poderão ser os cuidados da parte dos adultos, do ponto de vista até da estruturação do ambiente. Isto é algo que começamos a ver, por exemplo, no contexto do desporto, para onde foi feito um manual de prevenção da violência, por mim e pela minha colega Joana Alexandre, onde existe a figura dos “guardiões”.

No contexto da Igreja, que sugestões práticas poderão dar, nomeadamente quanto aos confessionários ou aos seminários?
Em contexto de seminário ou de acampamento, é possível apontar as situações que devem ser evitadas, bem como determinado tipo de toques ou de contacto físico. O contacto físico também não deve ser diabolizado, porque as crianças e os jovens e os adultos precisam disso. Na ginástica ou na patinagem, por exemplo, o contacto físico entre o treinador e o atleta tem necessariamente de acontecer para corrigir movimentos. Mas, no contexto da Igreja, podemos pensar na questão dos abraços, de pegar a criança ao colo, na questão dos beijos e em que circunstâncias é que isso pode ser encarado de uma forma ou de outra. Não vamos determinar a proibição de tocar em crianças, porque estas precisam do calor humano, do toque e do conforto, mas vamos tentar definir alguns limites e explicar o que são factores de risco.

E quanto ao programa de prevenção primária?
Nós sabemos que, além de todas as acções que os adultos possam pôr em marcha, é importante trabalhar directamente com as crianças, transmitindo-lhes alguns conhecimentos e algumas competências. Em Portugal, já desenvolvemos dois programas para serem aplicados em contexto educativo para crianças em idade pré-escolar e em idade escolar. E há temas e estratégias e metodologias que são transversais a qualquer contexto. Mas, em função do contexto, também há especificidades. Na Igreja, o que propomos é desenvolver um conjunto de materiais e de metodologias que vão ser trabalhadas com as crianças. A ideia não é que sejamos nós a trabalhar com as crianças: vamos é formar os adultos (os professores nos colégios, os catequistas, pessoas dos grupos de jovens…) para que estes possam depois trabalhar com as crianças. Isto porque o que a literatura nos diz de forma clara é que estes programas são mais eficazes quando são dinamizados por um adulto significativo da criança. Eu não sou significativa para um grupo de crianças da catequese, mas o catequista é.

E estamos sempre a falar de coisas como ensinar à criança a capacidade de denunciar ou reportar aquilo que sente desconfortável?
Estamos a falar de temas como o corpo, os toques, os segredos, as emoções, o dizer não e o dizer sim, o pedir ajuda. O grande objectivo é que a criança consiga perceber esta realidade (e sempre com materiais adequados às idades, sem linguagem sexual explícita, o que, às vezes, é o receio dos adultos), aprendendo o que é o abuso, o que é adequado ou não, e ensinando-a a pedir ajuda. Não é pôr a tónica da prevenção da criança, mas empoderá-la e dar-lhe ferramentas, competências e conhecimentos. Aqui temos de ter presente que ter conhecimentos não significa ter competências. Por exemplo: toda a gente sabe que sem preservativo se engravida ou se apanham doenças sexualmente transmissíveis. E continuamos a ter uma taxa enorme de miúdos que têm relações sexuais desprotegidas. Há falta de conhecimento? Não, não há. Os miúdos sabem isto de trás para a frente. Mas, depois, isto não se traduz em comportamento. Alguma coisa está a falhar. Portanto, não basta dizer aos miúdos o que é o abuso e que tenham cuidado. Nós temos de trabalhar competências para que estes conhecimentos se traduzam em comportamentos.

O Governo já se predispôs a promover um estudo semelhante ao feito pela comissão independente a pedido da Igreja, mas alargado à sociedade, mais concretamente aos espaços de socialização das crianças. Poderá haver alguma articulação com o vosso trabalho?
Eu acho muito pertinente este estudo porque as informações que temos sobre o abuso sexual de crianças em Portugal são muito escassas. Temos apenas os dados do RASI [Relatório Anual de Segurança Interna], que são muito vagos. E, para além da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, será muito importante envolver também a Polícia Judiciária nesse estudo. Naturalmente que, se houver alguma possibilidade de articulação e isso for uma mais-valia, estamos totalmente disponíveis. Mas acho que é um passo muito importante a ser dado em Portugal, porque os dados do RASI não nos dizem quase nada. Sabemos as idades, o sexo, o tipo de relação, e mesmo assim as categorias que aparecem são vagas. Por exemplo, sabemos da literatura que, dos oito anos de idade para a frente, o risco tende a aumentar para as meninas e a diminuir para os rapazes, mas não sabemos se é isso que acontece também em Portugal, porque isso implica uma análise estatística dos dados que não é feita no RASI. E, hoje em dia, sobretudo depois da pandemia, temos também um acréscimo bastante significativo dos abusos via online. Toda esta realidade dos chats online e dos jogos também exige ser estudada de uma forma mais aprofundada.

28.3.23

Igreja: os abusos têm dois mil anos

Henrique Raposo, opinião, in Expresso

Perante a dura realidade dos abusos, muitos católicos continuam em negação; uns dizem que é uma cabala, outros argumentam que os abusos são uma consequência da degradação moral do século XX. Lamento, mas isto não começou no nosso tempo. Como mostra o jornalista João Francisco Gomes no livro “Roma, temos um problema” (Tinta-da-China), a história dos abusos de crianças dentro da Igreja tem dois mil anos

Para se perceber a revolução moral que foi o cristianismo, temos primeiro de perceber como é que era a moral pagã. Algumas séries ajudam-nos nesse trabalho, “Vikings” e “Rome”, por exemplo. Não gostei por aí além de “Rome” do ponto de vista dramático, mas pode ser uma boa aula de História. Ali vemos duas marcas culturais pagãs que depois são negadas pelo advento do cristianismo, o suicídio enquanto honra e o sexo enquanto coisa, um bem transacionável como qualquer outro, independentemente do género ou idade. A sexualização dos menores não era um pecado.

Ora, uma das mensagens revolucionárias de Jesus é mesmo a centralidade que Ele dá às crianças, ao respeito que é preciso ter pelos mais pequenos, algo que muito simplesmente não existia no mundo pagão – pelo menos na escala que se criou após o cristianismo. Pode argumentar-se que foi o cristianismo que concebeu a “infância” enquanto espaço sagrado de proteção contra um mundo pagão que não sacralizava a criança e o bebé.

É por tudo isto que os abusos na Igreja são tão devastadores, porque vemos o catolicismo a perder no seu campo de batalha; estas crianças foram e são abusadas no espaço que à partida deveria ser de total proteção; os autoproclamadores criadores e defensores da "infância" não conseguiram proteger aquelas crianças. É por esta razão que os abusos na Igreja são mais graves do que os abusos em qualquer outra instituição.

Pois bem, perante a dura realidade dos abusos, muitos católicos continuam em negação; uns dizem que é uma cabala, outros argumentam que os abusos são uma consequência da degradação moral do século XX. Lamento, mas isto não começou no nosso tempo. Como mostra o jornalista João Francisco Gomes no livro “Roma, temos um problema” (Tinta-da-China), a história dos abusos de crianças dentro da Igreja tem 2 mil anos, começou logo no século I. Ao longo dos séculos, podemos assistir a uma luta interna entre aqueles que queriam esconder (os vencedores) e aqueles que queriam combater o abuso e a ocultação do mesmo (os derrotados).

Portanto, voltamos sempre ao mesmo: a visão pecaminosa e artificial que a Igreja criou sobre o sexo desde o início. E, se o celibato por si só não explica abusos, também é verdade que o celibato obrigatório é “uma das múltiplas expressões de uma forte política de controlo e repressão sexual levada a cabo pela hierarquia cristã desde o primeiro século, que criou uma atmosfera de secretismo à volta da questão do sexo e que contribuiu para a difusão de práticas sexuais marginais e ocultas entre membros do clero” - conclui João Francisco Gomes.

Se a Igreja fez do sexo algo maldito e pecaminoso, não pode ser surpresa vermos tantos membros do clero a cair na tentação do sexo enquanto algo pecaminoso, secreto, maldito e em direta contradição com os textos que inventaram a infância, os evangelhos - uma contradição com 2 mil anos, e não apenas com umas décadas, como pretendem muitos católicos.

23.2.23

Abusos sexuais na Igreja: comissão cessou funções, mas queixas continuam a chegar

Natália Faria, in Público online

Aos ex-membros da comissão continuam a chegar denúncias, apesar de já não estarem em funções. Para que não caiam em saco roto, apelam à criação urgente de um novo canal de atendimento às vítimas.

O inquérito criado para preenchimento pelas vítimas já não está disponível desde que, no passado dia 13, a comissão independente incumbida de fazer o levantamento retrospectivo dos abusos sexuais de crianças às mãos de membros da Igreja Católica cessou funções. Mas, desde então, os seis membros da comissão ainda não pararam de receber denúncias relativas a novos casos de abusos.

“É urgente que o Governo ou a Igreja abram uma nova linha para que as pessoas possam testemunhar”, apelou o psiquiatra Daniel Sampaio, considerando que era expectável que, uma vez apresentado o relatório, mais pessoas surgissem a querer testemunhar. “Estávamos à espera disso, mas as nossas funções terminaram”, enfatizou o ex-membro da comissão, cujo estudo estimou em pelo menos 4815 as crianças que, numa estimativa conservadora, foram abusadas por padres e outros membros da Igreja desde 1950 até à actualidade.

“Na rua, ao telemóvel que funcionou para a comissão, até para os locais e emails de trabalho dos ex-membros da comissão têm chegado testemunhos no pós-relatório”, confirmou o ex-coordenador da comissão, Pedro Strecht, para insistir na urgência de a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), ou alguém em seu lugar, avançar com a criação de uma nova comissão capaz de “assegurar um canal de comunicação aberto à recepção de denúncias ou testemunhos de abusos sexuais de crianças por membros da Igreja católica portuguesa”, tal como se lê na primeira das dezenas de recomendações deixadas no relatório sobre os abusos.

A ideia de criar uma nova comissão com psicólogos, assistentes sociais, terapeutas familiares, psiquiatras, juristas e sociólogos, entre outros, visa fundamentalmente garantir que haja uma instância externa à Igreja capaz de validar os testemunhos que forem chegando e de posteriormente os remeter ao Ministério Público (MP) ou “às estruturas de investigação e julgamento da própria Igreja”, ainda segundo o relatório.

À nova comissão caberia ainda "propor as soluções a adoptar, nomeadamente quanto ao tipo de medidas a aplicar ao infractor, à eventual indemnização a atribuir às pessoas vítimas e ao acompanhamento de que estas mostrassem carecer”, precisa ainda o relatório.

Do lado da Igreja, nenhuma decisão deverá ser tomada antes de 3 de Março, dia em que haverá uma assembleia plenária extraordinária dos bispos portugueses exclusivamente dedicada a discutir as conclusões do relatório. “Nessa altura será possível apontar medidas concretas a desenvolver”, como afiançou o presidente da CEP, D. José Ornelas, nas declarações prestadas logo após a divulgação do documento.

Além do encontro presencial com os bispos, os ex-membros da comissão independente irão na tarde desse mesmo dia encontrar-se com as ministras da Justiça e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, num encontro pedido pelo primeiro-ministro, António Costa, para quem há claramente “um conjunto de lições” a retirar do relatório.

O alargamento da possibilidade de apresentação de queixa até a vítima perfazer os 30 anos de idade (23 anos, actualmente) é uma das propostas em cima da mesa, a par da possibilidade de se realizar um estudo similar ao promovido pela Igreja mas alargado à sociedade em geral, abarcando mais concretamente os principais espaços de socialização das crianças.
Bispos já conhecem os padres abusadores no activo

O dia 3 de Março será também o dia em que a comissão fará chegar aos bispos portugueses, bem como ao MP, a lista com mais de 100 nomes de membros da Igreja que continuam no activo, apesar de terem sido apontados como autores dos crimes de abuso sexual de menores.

Mas Daniel Sampaio vai adiantando que a Igreja não precisa de esperar por essa lista para começar a actuar. “A lista é apenas uma confirmação, uma revisão dos muitos casos que já são conhecidos dos bispos, isto é, cada bispo de cada diocese já foi confrontado pela equipa de historiadores com uma lista dos padres abusadores no activo”, adiantou.

O psiquiatra refere-se à investigação exploratória que uma equipa de historiadores fez aos arquivos eclesiásticos das diferentes dioceses para, sob coordenação de Francisco Azevedo Mendes, apontar as evidências existentes naqueles arquivos dos casos de abuso sexual de menores por eclesiásticos portugueses entre 1950 e 2022. “Quando os historiadores tiveram acesso aos arquivos, já tinham uma lista de padres abusadores que tinha sido fornecida pelas vítimas à comissão independente. E eles próprios descobriram depois nos arquivos novos padres abusadores. Portanto, a Igreja não tem de esperar por lista nenhuma para começar a actuar”, insiste Sampaio.

Do mesmo modo, o psiquiatra reafirma que é urgente que o Governo encontre dentro do Serviço Nacional de Saúde (SNS) uma forma de dar prioridade às vítimas de abuso sexual que precisem de atendimento psicológico ou psiquiátrico. “As vítimas precisam de ver garantido este apoio psicológico e psiquiátrico e é urgente garantir-lhes um acesso fácil às consultas”, reiterou, repisando os apelos feitos durante a apresentação do relatório, e que já mereceram do ministro da Saúde, Manuel Pizarro, a garantia de que melhorará os cuidados de saúde mental, nomeadamente a todas as vítimas de abuso sexual.

6.2.23

Comissões Diocesanas receberam 26 queixas de abusos sexuais até hoje

Por Lusa, in Público

Número foi avançado a poucos dias de a Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja apresentar o relatório sobre a situação em Portugal.

O ex-procurador-geral da República José Souto Moura revelou este sábado que as Comissões Diocesanas de Protecção de Menores receberam, até hoje, 26 participações de abuso em todo o país.

Segundo o presidente da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas e Castrense de Protecção de Menores e Adultos Vulneráveis, este número permite várias interpretações: “Ter havido 26 casos reais, ter havido mais, mas apenas só 26 [vítimas] terem participado, haver quem tenha comunicado [casos] à Comissão Independente e não tenha querido duplicar as queixas, alguma desconfiança em relação às comissões” da Igreja para lhes fazer chegar as denúncias.

Souto Moura participou no I Encontro Nacional das Comissões Diocesanas e Castrense de Protecção de Menores e Adultos Vulneráveis, em Fátima, que assinala o primeiro aniversário da criação da Equipa de Coordenação.

Assumiu que este é um tempo de “adoptar uma postura de ausência de ambiguidades” e de grande responsabilidade por parte das estruturas da Igreja, tendo sempre presente as palavras do Papa Francisco sobre o abuso sexual no seio do clero: “Um só caso é uma monstruosidade” e deve haver “tolerância zero” em relação a estas situações.

A uma semana de a Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, apresentar o relatório sobre a situação em Portugal, Souto Moura disse que, a partir de agora, “quem fica [no terreno, a ouvir as potenciais vítimas] são as comissões diocesanas”, as quais devem “ser um motor de confiança da Igreja e motivo de credibilidade” para os queixosos.

Na ocasião, o ex-procurador-geral da República deixou um desafio para reflexão, sobre se a questão dos abusos “é ocasional ou sistémica”, ao qual o padre Pereira de Almeida, vice-reitor da Universidade Católica respondeu minutos depois: “Quase parece uma epidemia, mas não é da natureza da Igreja.”

Por sua vez, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, sublinhou que a situação de abusos sexuais na Igreja “é a contradição absoluta em relação ao que é professado na Igreja” e agradeceu aos membros das comissões diocesanas, face à “realidade penosa” com que têm de lidar e para a qual são necessárias “coragem e decisão”.

Relatório terá “consequências operativas”

Quanto ao relatório que a Comissão Independente vai revelar no dia 13 de Fevereiro, a análise que a Igreja vai fazer é no sentido de que haja “consequências operativas”.

No dia 10 de Janeiro, a CEP assegurou estar preparada para “tomar medidas adequadas” que se imponham pelo relatório da Comissão Independente que estuda os casos de abusos na Igreja.

O relatório será apresentado no dia 13 de Fevereiro, em Lisboa, e nesse mesmo dia a Conferência Episcopal emitirá um comunicado com a sua primeira reacção. O documento ser-lhe-á entregue por Pedro Strecht no dia anterior.

Entretanto, para 3 de Março, está já convocada uma Assembleia Plenária do episcopado católico português, para uma análise mais profunda do documento preparado pela Comissão Independente.

A Comissão Independente – que além de Pedro Strecht, integra o psiquiatra Daniel Sampaio, o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, a socióloga Ana Nunes de Almeida, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina Vasconcelos – começou a receber testemunhos no dia 11 de Janeiro de 2022.

Em 11 de Outubro, anunciou que já validara 424 testemunhos, assumindo que a maior parte dos crimes reportados já prescrevera. Dezassete dos casos, contudo, haviam sido já comunicados ao Ministério Público.

1.2.23

Relatório sobre abusos na Igreja pode fazer "estremecer" mas não afetará Jornada da Juventude

Por Lusa, in SIC

O diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil acredita que a divulgação do relatório da Comissão Independente sobre as denúncias de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa não irá afetar a Jornada Mundial da Juventude. Ainda assim, Filipe Diniz, admite que pode abalar a credibilidade da religião católica.

O diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil (DNPJ) acredita que a divulgação do relatório sobre os abusos sexuais do clero em Portugal não afetará a Jornada Mundial da Juventude, mas admite que a situação faz "estremecer" a Igreja.

Para o padre Filipe Diniz, "é de saudar todo o trabalho que tem sido feito" pela Igreja Católica no combate ao problema, sublinhando "a transparência" do processo.

"Se há um criminoso, deve ser julgado (...). E o Papa Francisco tem sublinhado várias vezes a tolerância zero" quanto aos abusos sexuais na Igreja, refere o padre Filipe Diniz, reconhecendo que a Igreja "estremece" com estes casos.

"Mas, se houver verdade, transparência, estamos a ser Igreja. A verdade clarifica. Pode abanar a estrutura (...), as próprias pessoas, a credibilidade, mas se (...) estamos a ser verdadeiros e é a verdade que mostra tudo isso, mostra estas situações, penso que nesse sentido é bom", afirma o sacerdote responsável pela pastoral juvenil da Igreja Católica em Portugal em entrevista à agência Lusa.

Conclusões do relatório da Comissão Independente divulgadas a 13 de fevereiro

Enaltecendo o trabalho das comissões diocesanas de proteção de menores e da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, Filipe Diniz não esconde que a questão dos abusos é "um tema muito sensível", mas faz questão de manifestar a sua confiança em que a "transparência e a verdade" dá à Igreja "força e motivação".

Neste contexto, acredita que a Jornada Mundial da Juventude a realizar em Lisboa, entre 01 e 06 de agosto deste ano, "não será" afetada pelas conclusões do relatório da Comissão Independente a divulgar no próximo dia 13 de fevereiro.

A comissão - que além de Pedro Strecht, integra o psiquiatra Daniel Sampaio, o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, a socióloga Ana Nunes de Almeida, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina Vasconcelos -- começou a receber testemunhos no dia 11 de janeiro de 2022 e, no dia 15, menos de uma semana depois, já validara 102 dessas denúncias.

Meses depois, em 11 de outubro, a Comissão Independente, naquela que foi a sua última comunicação pública de dados, anunciou que já validara 424 testemunhos, assumindo que a maior parte dos crimes reportados já prescrevera. Dezassete dos casos, contudo, haviam sido já comunicados ao Ministério Público.

"O número mínimo de vítimas será muitíssimo maior do que as quatro centenas e os abusos compreendem todas as formas descritas na lei portuguesa", disse na ocasião Pedro Strecht, remetendo outros dados apenas para o relatório final.

Conferência Episcopal “preparada” para as conclusões do relatório

Entretanto, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) assegura estar preparada para "tomar medidas adequadas" que se imponham pelo relatório, mas recusa apontar uma expectativa sobre os resultados do documento.

Segundo o padre Manuel Barbosa, "a expectativa será de que daí [do estudo] surjam elementos que permitam continuar a tomar medidas, e medidas novas, para que este flagelo, este drama, se erradique da vida da Igreja o mais possível".


2.12.22

A igreja não é uma organização que trata de migrantes ou pobreza, diz cardeal Sarah

in Acidi Digital

Roma, 28 Nov. 22 / 01:00 pm (ACI).- “A Igreja não é uma organização social para responder aos problemas da emigração ou da pobreza”, disse o cardeal Robert Sarah em entrevista à EWTN, grupo de comunicação católica ao qual pertence ACI Digital. “A Igreja tem um propósito divino: salvar o mundo”.

“Se Cristo não habita na Igreja, de forma tangível, visível e sacramental, que boa nova temos para oferecer ao mundo? Qual é o significado da evangelização?”, perguntou o prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. “Quando os cristãos esquecem por que são cristãos, a comunidade entra em declínio. Esquecem o Evangelho e perdem de vista o seu propósito".

Segundo o cardeal, os cristãos no Ocidente não devem considerar a liberdade religiosa e a liberdade de culto garantidas.

“As ameaças contra a liberdade religiosa assumem muitas formas. Inúmeros mártires continuam morrendo pela fé em todo o mundo", disse Sarah. “Não é uma ameaça aberta, nem de ódio à fé”, mas “um preconceito implícito contra o cristianismo”.

Na entrevista, que foi ao ar no programa Vaticano da EWTN ontem (27), o cardeal guineense falou do Livro do Êxodo, que narra as dez pragas, a saída dos hebreus e a destruição do Egito, e disse que tudo isso aconteceu "para que o povo de Deus pudesse ter a liberdade de adorá-lo adequadamente".

Ele também falou sobre seu último livro, “Catecismo da Vida Espiritual”, seu sétimo livro publicado que é uma reflexão aprofundada sobre os sete sacramentos da Igreja Católica e sobre como progredir na vida espiritual.

Um dos temas centrais do livro é a importância da missa e da eucaristia, Sarah disse que “devemos nos reunir para a Santa Missa e receber o Senhor na Eucaristia”.

“Não podemos esquecer isto: a Eucaristia é a fonte e o ápice da vida cristã”, disse

Sobre as restrições do coronavírus, o cardeal disse que “a democracia liberal requer debate, mas a importância de nossa adoração a Deus nunca pode ser esquecida ou negligenciada no decorrer do debate. A democracia liberal não deve esquecer Deus”.

“Uma vida cristã deve ser construída sobre três pilares: a cruz, a hóstia e a Virgem Maria”, disse Sarah. “Estes são os três pilares sobre os quais uma vida cristã deve ser construída”.

O cardeal disse que ser prefeito da Congregação de Culto Divino da Santa Sé o fez compreender a importância da liturgia como um momento grande e único "para encontrar Deus face a face e ser transformado por ele como filho de Deus e como verdadeiro adorador de Deus".

"A liturgia deve ser bela, deve ser sagrada e deve ser silenciosa", disse Sarah.

Ele também alertou para o perigo de transformar a missa em um “espetáculo” ou uma mera reunião de amigos, desviando o foco da adoração a Deus.

“Exortarei a que a liturgia seja cada vez mais sagrada, mais santa, mais silenciosa, porque Deus é silencioso e nos encontramos com Deus em silêncio, em adoração”, disse ele.

“Creio que a formação do povo de Deus na liturgia é muito importante. Podemos mostrar beleza às pessoas, ser reverentes e guardar silêncio na liturgia, o que se aprofunda no nosso encontro com Cristo”, disse ele.

O cardeal também definiu a adoração eucarística silenciosa como uma oportunidade de encontrar Cristo de uma maneira que pode “mudar realmente nossas vidas”.

O cardeal lamentou que “Deus tenha sido esquecido” na sociedade moderna. “Todos vivemos como se Deus não existisse. A confusão reina em todos os lugares. Muitos reduziriam nossas vidas, o próprio significado de nossas vidas, ao individualismo absoluto e à busca de prazeres fugazes".

Para ele, “os cristãos devem responder voltando aos fundamentos da fé. Precisamos de um retiro do mundo, retirar-nos ao deserto, onde possamos voltar a aprender os fundamentos, o básico: o monoteísmo, a revelação de Jesus Cristo, nós e Deus, sua palavra, nosso pecado, nossa dependência e necessidade de sua misericórdia", disse.

O cardeal Sarah disse que Deus, por meio de sua Igreja e dos sacramentos, “nos guia para um relacionamento cada vez mais profundo com ele. E todos nós precisamos redescobrir o seu dom profundo, que é o seu amor”.

Para Sarah, “a fé na presença real de Cristo na Eucaristia é uma das crenças fundamentais da Igreja, sem a qual perde o sentido de sua existência”.

O cardeal Sarah disse que a guerra espiritual é a mesma de sempre, embora muitos bispos e padres tenham parado de lembrar aos católicos sua realidade. "Nossa arma nesta guerra é a palavra de Deus", disse.

“É preciso recorrer a Deus todos os dias, não só para nos consolarmos em meio às adversidades mundanas, mas porque dependemos totalmente dele na luta cósmica. Estamos todos em guerra, quer reconheçamos ou não. É bom que todos tomemos consciência desse fato e nos asseguremos todos os dias de lutar ao lado de Deus”, disse o cardeal

O livro, "Catecismo da vida espiritual", pretende ser uma resposta à "confusão destes dias, fora e também dentro da Igreja", disse.

“Vi a necessidade de representar algumas reflexões sobre nosso progresso espiritual na vida espiritual: o progresso na nossa relação pessoal e íntima com Jesus Cristo”, disse ele.

O cardeal Sarah espera que seu livro responda a "uma profunda necessidade de nosso tempo".

“Cada um de nós deve se esforçar continuamente para se aproximar de Jesus Cristo, para retornar à sua Palavra e à simplicidade da fé em sua autorrevelação. É a simplicidade do deserto, o reconhecimento da nossa dependência de Deus, e o encontro com Ele e com o dom do seu amor e da sua graça, com os quais nos configurou a si mesmo”, concluiu.

11.11.22

A igreja tem de dar mais poder às mulheres

Henrique Raposo, opinião, in RR 



É uma questão de justiça e até de sobrevivência. E um país mariano como Portugal devia estar na vanguarda dessa ideia.O Papa Francisco disse há dias que as mulheres fazem sempre tudo bem na igreja. A citação direta é esta: “sempre que uma mulher vem fazer uma coisa ao Vaticano, as coisas ficam melhores”. Se me permitem, este é um novo mote para uma velha obsessão aqui de casa: a igreja tem de dar mais poder e destaque às mulheres. É uma questão de justiça e até de sobrevivência.

Comecemos pela justiça.

As mulheres são a coluna da igreja. Sem o exército de mulheres, a igreja não funcionava, não havia catequese, não havia centros de dia para jovens e idosos, não havia missa, não havia voluntariado. O dia-a-dia da igreja é mantido por mulheres e raparigas. As mulheres são o proletariado da igreja que faz o trabalho de sapa para quem está em cima, os homens, o clero, padres e bispos. A injustiça é tão evidente e confrangedora que por vezes é mesmo difícil estarmos na igreja, é mesmo impossível, senão impossível, levar duas raparigas à igreja, isto é, para um espaço onde só os homens têm poder apesar do trabalho permanente de mulheres.

As mulheres têm de ter mais poder na igreja e um país mariano como Portugal devia estar na vanguarda dessa ideia. Maria e Madalena são apóstolos fundamentais, Maria é a luz no início perante Gabriel e, no fim, é ela quem arregimenta os apóstolos amedrontados. E quem é que vê pela primeira vez a Verdade ressuscitada para depois anunciá-la ao mundo? Madalena.

Sim, o clero devia estar aberto a mulheres.

Muitos vão dizer que este meu argumento é uma mera cedência ao ar do tempo. Em relação a isto, há que dizer três coisas. Primeira: às vezes o ar do tempo exterior à igreja está mais certo do que o ar que se respira na igreja. Querem um exemplo? Foi a cristandade não católica que liderou a luta contra o fim da escravatura no século XIX. Segunda, a igreja também cede ao ar do tempo. A ideia de que os padres não podem casar é uma imposição da idade média, não é uma imposição do Evangelho. Aliás, a partir do Evangelho, fica claro que os pastores da igreja devem ser homens com família. Terceira: qual é o salto mais arriscado? Dizer que os padres têm de ser celibatários quando não existe nada na Bíblia inteira que indique isso ou dizer que as mulheres podem aceder ao sacerdócio quando o texto sagrado está marcado pela presença marcante de mulheres, a começar em Maria?

Falta a questão da sobrevivência.

Sem mais poder e destaque feminino, parece-me impossível a sobrevivência da igreja no mundo ocidental deste século. A igreja não poderá ser a igreja de sempre se não mudar neste aspeto. Na idade média, fez sentido impor o celibato dos padres por uma série de razões. No século XXI, faz sentido abrir o sacerdócio às mulheres por uma série de razões que são auto-evidentes para quem vive aqui e agora e, já agora, para quem lê a Bíblia.

6.5.22

​Daniel Sampaio pede Igreja e sociedade civil mais “empenhada” no combate aos abusos sexuais

Ana Castarina André, in RR

Em entrevista ao programa Hora da Verdade da Renascença e do Público, o psiquiatra e membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja (CIEAMI), esclarece que a comissão não falou em encobrimento por parte de bispos no ativo, mas em “ocultações” e sublinha a importância de membros da hierarquia pedirem perdão publicamente.

A Comissão Independente foi constituída há quase quatro meses, que balanço faz deste período?

É um balanço de muito trabalho, temos procurado recolher testemunhos e validámos, até ao momento, mais de 300 testemunhos. Necessitamos da comunicação social para que o nosso apelo ao testemunho continue. Temos encontrado uma boa recetividade por parte das instituições que trabalham com crianças e jovens e, de uma forma geral, temos tido também um bom apoio da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Como é sabido, foi a Conferência Episcopal que, em dezembro, nomeou o doutor Pedro Strecht como coordenador e ele depois constitui a equipa. Esse apoio da CEP é fundamental para conseguirmos prosseguir o nosso trabalho.
Sabendo que o método de investigação usado pela comissão independente difere de métodos utilizados noutros países, alguns deles contestados como por exemplo em França, como é que chegaram a este método?

Temos semelhanças com o que se passa noutros países. [O método da comissão] é diferente do de Espanha, por exemplo, em que há uma firma de advogados que faz esse trabalho. Mas na Bélgica, na Irlanda, na França são comissões parecidas com a nossa. Nós preocupamo-nos sobretudo com as vítimas. Como o nosso lema diz, nós queremos dar voz ao silêncio. Queremos que as vítimas testemunhem porque o simples facto de testemunhar constitui uma reparação muito importante para a vítima.

Ou seja, a vítima está durante muito tempo envolta na sua culpa, na sua vergonha. Aquilo que pode ter confidenciado a algumas pessoas não foi validado e esse é um aspeto central: a validação que nós fazemos de uma queixa de abuso sexual. Essa queixa muitas vezes não é validada pela família, pelos professores ou pelos amigos.

Estas pessoas estão envoltas num manto de silêncio, de culpa e de vergonha. O simples facto de testemunharem é importante, através do telefone ou através do e-mail e algumas fazem-no presencialmente.

O que pensamos concluir deste estudo é podermos ter uma perspetiva preventiva, podermos recomendar às instituições, que lidem com crianças, medidas no sentido de este comportamento não se repetir. Esse é o estudo fundamental.
Qual é a sua intervenção especificamente atendendo a que é psiquiatra, está mais direcionada para esta área da triagem dos testemunhos?

Não, não sou eu que atendo o telefone. Quem atende o telefone é uma assistente social, membro da comissão, a doutora Filipa Tavares. O meu trabalho é nas reuniões presenciais. Tenho estado em todas as entrevistas presenciais e também nas entrevistas aos senhores bispos. Esse tem sido o meu papel dentro da comissão, além de discutir todas as questões que se levantam porque todos os dias se levantam questões porque praticamente todos os dias há testemunhos e é preciso também dar uma resposta ao enquadramento desses testemunhos.
Quais são as questões mais difíceis de dirimir, já que os testemunhos levantam inúmeras questões que têm a ver com os sítios onde terão ocorrido ou os autores dos crimes?

No fundamento não temos nenhuma dúvida: ninguém inventa as histórias que nos contam. São histórias de grande sofrimento e o nosso inquérito está construído com uma consistência interna que qualquer pessoa que tente preencher o inquérito a brincar, nós percebemos. As perguntas têm uma coerência.

Além disso, a situação é de tal modo difícil para as pessoas falarem que ninguém inventa os pormenores com que o inquérito é feito. É justamente a validação do testemunho que não tem levantado problemas nenhuns.

Há [também] uma questão muito importante que é o apoio às vítimas. A comissão não é uma comissão de saúde mental nem uma linha aberta para as pessoas falarem. Portanto, temos encaminhado algumas pessoas para seguimento psicológico e psiquiátrico. Não encaminhamos, aliás, recomendamos.

Em situações que foram detetadas em que há um padre que cometeu um abuso sexual, em que há indícios por parte da vítima de que tenha sido o padre “x”, há a preocupação de saber onde é que esse padre poderá estar. Porque sabemos que, em muitos casos e à semelhança de outros países, esses padres são transferidos para outras dioceses, para outros locais. E essa é uma preocupação que está entregue ao Ministério Público, que é os casos que estão de alguma forma ativos. Nós podemos ter uma ação também sobre a pessoa que fez o abuso porque isso é preocupante, porque o abuso sexual é compulsivo por parte do abusador. É altamente provável que essa pessoa repita o seu comportamento noutro contexto.

15.9.21

Igreja despeja idosos para vender ilha do Porto a investidor

André Borges Vieira e Paulo Pimenta, in Público on-line

Só um inquilino permanecerá no conjunto habitacional. Diocese do Porto diz agora estar a encontrar soluções com o actual proprietário. Porém, o novo senhorio desmente.

Aos 69 anos, ao fim de 34 anos a morar na Ilha da Oliveira, às portas do centro do Porto, Maria Luísa foi surpreendida com uma ordem de despejo. O remetente da carta era o proprietário do conjunto de casas, até há cinco meses: a Diocese do Porto. Nas linhas que davam conta da não renovação do contrato não existia qualquer explicação para a saída forçada, nem lá constava qualquer solução para o problema de habitação que agora enfrenta. Só ficou a saber que, até Março de 2022, a sua casa tinha de estar desocupada. Entretanto, as nove fracções do conjunto habitacional já foram vendidas, em Abril, a um investidor do sector imobiliário. Mas a esta inquilina ou aos outros que ainda resistem continua a não lhes ter sido apresentada qualquer solução. A diocese diz estar a trabalhar nesse assunto com o actual proprietário. Porém, o novo senhorio desmente. Quando o contrato acabar, os moradores não têm para onde ir viver.

Há cerca de um ano, Maria Luísa e os vizinhos estranharam as sucessivas visitas feitas à ilha por parte de membros da diocese que se faziam acompanhar de “outras pessoas”. “Vinham todas as semanas”, recorda. A dada altura, terá interpelado um responsável pela instituição. “Perguntei se estavam a pensar vender a ilha”, conta. A resposta, diz, deixou-a mais descansada: “Disseram que só iam vender a casa da frente, que já está desocupada desde que vim para aqui. Garantiram-me que não iam vender as outras e disseram para ficar tranquila”.

A ilha, situada numa perpendicular da rua Serpa Pinto, na zona da Ramada Alta, é composta por nove casas. Mas uma delas, a que está virada para a rua, está entaipada há vários anos. As outras oito estiveram durante muito tempo habitadas. De há uns anos para cá só estavam seis.

Maria Luísa fala com o PÚBLICO frente à casa dois, a primeira que se encontra depois de se atravessar um corredor que começa no portão e termina num pátio. Essa fracção ficou vazia desde que a antiga moradora faleceu. “Muitas vezes quando a diocese vinha cá abriam esta casa para mostrá-la”, adianta. Ainda assim, tanto ela como os outros moradores deram um passo de fé para acreditarem nas palavras da entidade ligada à Igreja.

Porém, em Fevereiro deste ano, recebeu da Ecclesialis Gestão Diocesana Unipessoal, Lda, uma carta que dava conta de que o contrato de arrendamento não seria renovado. Teria, então, de abandonar a casa até Março de 2022. A outra vizinha foi dado o mesmo prazo. Outros dois tiveram de sair em Agosto. “Uma senhora que morava ao lado voltou para a terra dela. O outro casal foi para a casa dos pais, que também moram na ilha”, afirma.

Há apenas uma família que não recebeu carta com aviso de despejo, por terem contrato de arrendamento celebrado há 36 anos. Mas se Maria Luísa vive na mesma ilha há 34 anos, porque é que terá um destino diferente? “Há uns anos mudei para a casa 3 porque na minha chovia”, conta. Em 2018, quando fez a mudança, ter-lhe-á sido dito que teria de celebrar novo contrato. Por isso, “como não é um contrato antigo”, tem de sair.

A inquilina diz nunca ter existido nenhuma conversa promovida pela diocese para informar os moradores sobre os planos de venda. Os inquilinos só ficaram a saber que a ilha seria vendida depois de receberem, em Março, uma carta que dava conta do nome de um investidor interessado na compra pelo valor de 135 mil euros. No mesmo documento dava-se o direito de preferência aos inquilinos, que não tinham “condições financeiras” para adquirir o imóvel.

Chocada com a Igreja

“Fiquei chocada quando tomei conhecimento. Não contava com uma coisa dessas por ser uma diocese. Para nós foi um choque. Não contava que nos fizessem isso por ser propriedade da Igreja”, conta. “Ainda por cima, ainda não arranjei casa”, sublinha.

A moradora já tentou acesso a habitação social, recorrendo à empresa municipal Domus Social. “A resposta que tive foi de que não tinha pontos suficientes”. Não conseguiu. Por isso, tentou candidatar-se ao apoio ao arrendamento. “O meu nome não foi sorteado”, diz. Da diocese garante nunca lhe ter chegado qualquer notícia sobre possíveis ajudas. Actualmente, o que sabe é que em Março de 2022 tem de sair.

Já procurou no mercado de arrendamento, mas, a inquilina que vive sozinha, diz não conseguir encontrar casa que possa pagar. De reforma, depois de ter trabalhado mais de quarenta anos, recebe 465 euros. “Com água, luz e comida, como é que posso viver?”, questiona. A renda que pagava rondava os 120 euros. “Não me importava de negociar com o novo senhorio”, atira.

Isabel Conceição, de 72 anos, a única inquilina que não recebeu carta que dava conta da intenção de não renovação de contrato, não se conforma com a situação dos vizinhos. Nesse grupo de pessoas que recebeu ordem de marcha para fora do conjunto habitacional está a sua filha. Até há bem pouco tempo vivia apenas com o marido numa casa onde investiu “muito dinheiro” em obras. Como o contrato da filha terminou em Agosto, abriu-lhe a porta de casa para a partilhar também com o genro e com os netos. “Os dois quartos do piso de cima transformei-os em três”, conta. O sofá da sala também está a servir da cama para um dos netos.

Ao longo dos anos, diz que todas as obras feitas nas casas foram pagas pelos inquilinos, à excepção da ligação ao saneamento básico. Agora, sendo a única inquilina que vai poder permanecer na ilha espera que o dinheiro que investiu não tenha sido em vão. “O novo proprietário perguntou se queria uma indemnização para sair. Mas disse-lhe que não”, afirma. Ainda assim diz não temer essa possibilidade porque lhe foi garantido pelo mesmo que isso não iria acontecer. “Não tenho nada contra o novo senhorio, mas sim contra a diocese”.

Ao PÚBLICO, depois de contactada e de algumas questões terem sido enviadas por e-mail, a Diocese do Porto diz que a ilha apresenta “muito más condições de habitação”, “sub-humanas e insalubres, pondo em causa a saúde pública e das pessoas que lá residem”. Por isso, considerou que a melhor via passava pela venda do imóvel, sem que tivesse encontrado primeiro uma solução para os moradores. “A diocese do Porto visou garantir o bem-estar das pessoas ao alienar aquela ilha”, lê-se.

Contudo, agora, depois de ter vendido estas habitações, adianta estar a dialogar com o novo proprietário e com os serviços centrais de gestão do património diocesano para arranjar soluções para estes inquilinos, referindo existirem apartamentos dos quais são proprietários em processo de requalificação e restauro, destinados a este tipo de “emergências”. Pergunta-se quantos fogos destes existem e quantos estão ocupados. Mas, a resposta que chegou não esclareceu essa dúvida.

Já o actual proprietário, um investidor de Fafe com outros negócios no Porto, mas apenas este com a diocese, é peremptório: “Desde a assinatura do contrato de compra e venda nunca mais falei com a diocese”. Com o inquilino que permanecerá na ilha, compromete-se a cumprir o que foi assumido com o mesmo. “Não vou fazer a vida negra a ninguém, pelo contrário”, assegura. Os planos que tem, diz, passam por arrendamento a longo prazo, depois de fazer obras. Não descarta renegociar contratos com moradores, porém, sublinha: “A diocese vendeu-me o imóvel com a garantia de que existia apenas um inquilino.”


5.7.21

Pobreza em Lisboa. "Diariamente surgem pessoas novas na rua"

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

Renata Alves, diretora da Comunidade Vida e Paz, confirma o aumento das situações de vulnerabilidade. Há mais gente sem teto e mais pedidos de ajuda para comer entre quem até tem casa. A instituição distribui mais de 500 ceias por dia e assegura apoio terapêutico e de saúde aos sem-abrigo. Esta segunda-feira inaugura uma nova resposta social, um alojamento de transição para 40 utentes.

Ouça aqui a entrevista a Renata Alves, diretora da Comunidade Justiça e Paz

A Comunidade Vida e Paz (CVP) é uma instituição do Patriarcado de Lisboa que há mais de 30 anos apoia as pessoas em situação de sem-abrigo. Com a ajuda de 600 voluntários, tem Equipas de Rua em mais 100 pontos das cidades de Lisboa e da Amadora, e já alargou a intervenção a Loures e a Odivelas. Diariamente distribui entre 500 a 550 refeições.

“As ceias são uma forma de chegar até às pessoas”, explica a diretora da CVP, Renata Alves, em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia, lembrando que o objetivo último da intervenção que fazem é retirar os sem-abrigo da rua e assegurar a sua reintegração social.

Considera, por isso, muito importante a nova unidade que vão inaugurar esta segunda-feira, 5 de julho, nas Olaias, e que vai funcionar em regime de “alojamento de transição” para cerca de 40 pessoas, que ali vão receber apoio multidisciplinar, para conseguirem refazer a vida.

Renata Alves diz que a ajuda do Papa à população sem-abrigo de Roma é um “estímulo” para quem está no terreno a lutar contra este fenómeno. E vê com bons olhos a recém-criada Plataforma Europeia de Combate à Situação de Sem-Abrigo, aprovada na reta final da presidência portuguesa da União Europeia, e que foi assinada por todos os Estados-membros, por representantes das instituições europeias, organizações da sociedade civil e parceiros sociais.

A ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, afirmou que a Plataforma Europeia de Combate à Situação de Sem-Abrigo representa “um salto de gigante”, no sentido de garantir o acesso de todos à habitação, à saúde e outros direitos. Concorda?

Sem dúvida alguma. De facto, esta iniciativa foi vista por todos os intervenientes nesta área do combate à situação de sem-abrigo como uma mais-valia, ao encontro da inclusão. É isso que se pretende, através da Plataforma podermos criar e ter a partilha de experiências de outros países.

Acaba por ser um comprometimento de todos os responsáveis políticos, organizações, sociedade civil e é, de facto, uma mais-valia, porque podemos até disseminar práticas de outros países, que possam ser de alguma forma introduzidas em Portugal e nos permitam combater a desigualdade e favorecer o respeito pelos direitos das pessoas em situação de sem-abrigo.

"Este problema só pode ser ultrapassado com a intervenção de todos, não só das organizações que lutam diariamente no combate à situação de sem-abrigo"

Falou do compromisso de instituições europeias, governos, sociedade civil, isto dá a dimensão da gravidade do problema? A crise pandémica precipitou de alguma forma esta união de esforços?

Este problema só pode ser ultrapassado com a intervenção de todos, não só das organizações que lutam diariamente no combate à situação de sem-abrigo, mas pelos responsáveis políticos, pelos parceiros sociais e pela sociedade civil. É importante que se perceba que existem deveres enquanto sociedade e enquanto qualquer cidadão comum.

Relativamente à segunda questão, a pandemia veio trazer muito mais pessoas para a situação de sem-abrigo e consideramos que a situação ainda se vai agravar. Deixámos de ter as moratórias ao crédito...

Moratória do crédito ao consumo termina e insolvências de famílias devem disparar

Há dados que mostram que há um agravamento do número pessoas em situação de pobreza extrema, e isso terá consequências...

Temos verificado isso diariamente, através das equipas voluntárias de rua e das equipas técnicas, que o perfil está a alterar-se: para além das pessoas que estão em situação de sem-abrigo, que não têm teto, também existem as pessoas que estão numa situação de grande vulnerabilidade e que vêm até nós procurando ajuda de uma forma diária, e isto acaba por ser assustador. Daí que toda e qualquer medida que possa surgir neste momento seja, de facto, importantíssima.

Por toda a Europa calcula-se que haja 700 mil pessoas em situação de sem-abrigo, o que representa um aumento de 70% em 10 anos. A meta definida para combater este fenómeno é agora 2030. Nove anos é muito ou pouco para este trabalho?

É muito, se pensarmos que as pessoas precisam de sair desta situação, mas também percebo que a pandemia e o agravamento da crise económica e social trouxeram constrangimentos e as metas e objetivos iniciais acabaram por ficar comprometidos. No caso português era retirar as pessoas desta situação até 2023.

Essa meta está definitivamente afastada?

Está sim.

"Para além dos sem-abrigo, também existem as pessoas que estão numa situação de grande vulnerabilidade e que vêm até nós procurando ajuda de uma forma diária, e isto acaba por ser assustador"

E o que é possível fazer no imediato, até tendo em conta esta Plataforma Europeia? Para Portugal o que é que isto vai significar na prática?

Antes disso queria dizer que, como falávamos na questão da vulnerabilidade, percebemos que diariamente surgem pessoas novas na rua. Eu costumo dizer que retiramos uma, duas pessoas por dia, mas nesse mesmo dia retornam, ou aparecem pessoas em situação de sem-abrigo, por isso o desafio é, de facto, muito difícil.

Relativamente àquilo que pode ser feito, e que está a ser feito: é importante salvaguardar que têm existido mais medidas, desde programas municipais a medidas por parte do Governo, no que diz respeito à criação de centros de alojamento temporário de transição, programas de ‘Housing First’, criação de apartamentos partilhados. Estas medidas têm vindo a facilitar, mas por outro lado têm de existir muito mais medidas, porque não são suficientes.

Quem olha de fora para o problema vê que há necessidade de uma resposta de emergência. Com a Plataforma Europeia será possível encontrar soluções mais definitivas?

Sim, esse é o grande objetivo. Contudo, devemos perceber que se conseguirmos colocar as pessoas numa situação transitória, em que exista todo um investimento com o objetivo de estarem o menos tempo possível nestas situações de transição e se possa encontrar uma alternativa para uma situação de alojamento permanente, é isso que se pretende. Mesmo a tipologia ou o enquadramento destes centros também começa a ser diferente, percebemos que funcionam melhor para um menor número de pessoas, para que se possa de alguma forma ir ao encontro de todas as necessidades que as pessoas apresentem, sempre com o objetivo final de traçamos um plano para aquela pessoa.

Também temos de olhar para as problemáticas que as pessoas vão apresentando. Sabemos que as problemáticas dominantes continuam a ser as aditivas, os problemas relacionados com o consumo de álcool e de outras substâncias, e isso pode implicar que durante a estadia num alojamento temporário, a transição possa permitir fazer um trabalho de motivação para que a pessoa possa ir para um tratamento, para se reabilitar.

Por outro lado, existem pessoas que estão numa situação de desemprego e que precisam é de ser ajudadas para conseguir arranjar trabalho.

E há uma situação ainda mais radical, que são as pessoas com problemas de saúde mental.

Temos verificado que tem vindo a aumentar o número de pessoas com problemas ao nível da saúde mental e, aí, o desafio é muito grande, porque, como sabemos, existem poucas respostas nesta área, e é importante que sejam criadas.

O que exigirá decisões e respostas por parte do Estado central. No geral, como é que classifica a colaboração entre o Estado, as autarquias locais e as organizações, como a Comunidade Vida e Paz, que estão no terreno? Há hoje mais sensibilidade para esta questão dos sem-abrigo?

Sim, penso que há sensibilidade e há cooperação, e por isso têm existido bastantes parcerias entre o Estado e as organizações. O caminho terá de ser esse, entre quem define as políticas, mas que as defina com quem está no terreno, com quem tem conhecimento e experiência. Só dessa forma é que considero que pode haver mais sucesso na intervenção com as pessoas em situação de sem-abrigo.

Essa maior sensibilidade também se viu no processo de vacinação contra a Covid 19, por exemplo? Correu como devia?

Inicialmente não. Não posso dizer que correu como devia ter corrido, porque nós até fizemos alguma pressão para que as pessoas em situação de sem-abrigo pudessem ser vacinadas, porque tínhamos conhecimento - não no primeiro confinamento nem na primeira fase da pandemia, mas sobretudo este ano - que as pessoas em situação de sem-abrigo estavam a ser mais afetadas com o vírus, e era importante que pudessem ser vacinadas e que salvaguardássemos a sua saúde. Porque, efetivamente, sem acesso aos sistemas de saúde torna-se muito mais difícil, e temos de olhar por todas essas pessoas que estão numa situação de grande fragilidade e vulnerabilidade.

Já perdi a conta ao número de vezes que o Papa usou, como exemplo de insensibilidade social, as pessoas em situação de sem-abrigo que morrem de frio na rua, é provavelmente o exemplo mais presente nos discursos do Papa Francisco. Falta esta sensibilidade a nível geral para os dramas da rua? Porque falamos de confinamento, mas como é que vai para casa quem não tem casa?

Exato, essa até foi uma frase por nós utilizada para a nossa campanha. Porque, para além das questões do frio, existem outras questões em que as pessoas não são protegidas e a sociedade em geral deveria, de facto, estar mais sensibilizada, mais atenta e, como costumo dizer, não virar a cara para o lado.

Acima de tudo, o compromisso é de todos e deveria ser de todos: a qualquer um pode vir a acontecer uma situação destas… É muito importante que nos consigamos pôr no lugar do outro, perceber todas as dificuldades e a falta de acessos: a falta de respeito pelo direito das pessoas, a falta de dignidade em que muitas vezes as pessoas se encontram é lamentável.

"Tem vindo a aumentar o número de pessoas com problemas de saúde mental e, aí, o desafio é muito grande, porque existem poucas respostas nesta área, e é importante que sejam criadas"

O Papa Francisco tem multiplicado serviços de alojamento, saúde, uma atenção, diria, até invulgar para a posição que ocupa em relação às pessoas sem-abrigo, que se vão aglomerando cada vez mais à volta do Vaticano, por que sabem que ali terão resposta. Isto é um estímulo para quem está no terreno, o exemplo que vem de cima?

Sem dúvida. Muitas das vezes necessitamos mesmo de procurar estímulos e procurar energia para não baixarmos os braços, porque nem sempre temos as respostas que gostaríamos. Sentir que o Papa Francisco está a liderar toda esta problemática, com a sensibilidade que tem, é para qualquer instituição - não apenas religiosa, como é a nossa, mas para qualquer uma – um exemplo e uma grande referência.

A Comunidade Vida e Paz é uma instituição católica do Patriarcado de Lisboa, que há mais de 30 anos se dedica ao apoio de pessoas sem-abrigo, com equipas de rua que distribuem alimentos, mas também atenção e afeto. Quantas pessoas é que estão a apoiar atualmente, onde e com a ajuda de quantos voluntários?

A Comunidade Vida e Paz surgiu por perceber que havia necessidade de intervenção com as pessoas em situação de sem-abrigo e foram criadas as equipas voluntárias de rua, que todos os dias atingem cerca de 100 pontos na cidade de Lisboa, incluindo também a Amadora. São quatro equipas constituídas, neste momento, por quatro a cinco voluntários, porque tivemos de reduzir face à situação pandémica em que nos encontramos, por uma questão de segurança dos próprios.

Continuamos a contar com cerca de 600 voluntários para fazermos, não só esta intervenção, mas tudo o que diz respeito à preparação das ceias que distribuímos diariamente. As ceias são uma forma de chegar até às pessoas. O grande objetivo e a missão da instituição é apostar na relação de confiança para que possamos conseguir provocar a mudança e estimular as pessoas para essa mudança. A ceia acaba por ser algo com que pretendemos chegar até às pessoas, o grande investimento é a relação.

As restrições sanitárias, sobretudo a questão da máscara, que acaba por ser uma barreira física, em termos de imagem e de relação, também coloca dificuldades ao trabalho da assistência na rua?

No início sentimos muito isso, até porque tivemos de dar como prioridade, em março do ano passado, a distribuição da alimentação. Havia muitas pessoas, na altura, a passar fome, porque tinham sido confinadas e não podiam utilizar os mecanismos a que estavam habituadas, nomeadamente arrumar carros, dirigir-se à restauração. Isso fez com que a nossa prioridade fosse a questão da distribuição alimentar.

A preocupação era poder dar uma ceia a todas as pessoas e, na altura, tivemos de duplicar o número de ceias. Distribuíamos cerca de 420, passámos, em duas semanas, para cerca de 800 ceias.

Neste momento, estamos a distribuir entre 500 a 550 ceias por dia, mas o foco - e felizmente, porque outras instituições conseguiram retomar a sua atividade - continua a ser a intervenção junto da pessoa, para que a consigamos retirar da situação de sem-abrigo.

Mas o número de pessoas nesta situação aumentou?

O número aumentou.

E tende a crescer, como referiu, dada a crise e o desemprego?

Sim, dada a crise, essa é a preocupação. Por outro lado, temos em conta os programas que foram criados e as respostas que têm vindo a surgir - visando, de alguma forma, compensar o acréscimo de novas pessoas em situação de sem-abrigo. Mas, o número vai continuar a aumentar.

E a Comunidade Vida e Paz está a pensar em novas respostas?

A Comunidade Vida e Paz vai abrir amanhã (5 de julho) uma nova resposta, que foi um programa lançado pela Câmara Municipal de Lisboa ao qual concorreu e venceu. É a criação de uma comunidade integrativa para pessoas em situação de sem-abrigo. Vai funcionar em regime de alojamento de transição. É uma resposta inovadora, um ponto de viragem. Tendo a Comunidade Vida e Paz tantas respostas no que diz respeito à intervenção de rua, seja técnica, seja com voluntários, às comunidades terapêuticas, às comunidades de inserção, aos cinco apartamentos partilhados, aos seis apartamentos de inserção, esta era uma resposta que faltava.

Vai permitir dar a possibilidade a 40 pessoas em situação de sem-abrigo serem acompanhadas por uma equipa técnica constituída por psicólogos, serviço social, apoio médico, apoio psiquiátrico, apoio judicial, e o objetivo vai ser apostar na reintegração, e encontrar uma alternativa permanente para essas pessoas. Vamos poder receber homens, mulheres, casais, pessoas com animais de estimação, pessoas transgénero. É uma resposta inovadora, não só para a cidade de Lisboa, mas também para a Comunidade Vida e Paz.

"A Comunidade Vida e Paz vai abrir uma nova resposta. É a criação de uma comunidade integrativa para pessoas em situação de sem-abrigo. É uma resposta inovadora, um ponto de viragem"

Onde é que vai funcionar?

Vai funcionar na Quinta do Lavrado, na Olaias.

E é uma resposta diferenciada em relação aos apartamentos? É uma resposta mais próxima, em que acompanham as pessoas no sentido de as conseguir retirar desta situação e refazerem a vida?

O objetivo é retirar da rua, tirar as pessoas da situação de sem-abrigo, e juntamente com elas conseguirmos desenhar um plano para aquela pessoa, para que venha a reintegrar-se na sociedade de uma forma digna. E, para isso, irá contar com todos os serviços que iremos prestar e com uma equipa multidisciplinar.

Como é que qualquer pessoa pode ajudar a Comunidade Vida e Paz?

Tendo em conta que vamos criar esta resposta e que grande parte do investimento vai ser suportado pela Comunidade Vida e Paz - cerca de 35% é que é apoiado pela câmara municipal -, isto vai ter um grande impacto no orçamento da instituição. E por isso estamos a criar uma campanha com o objetivo de benfeitores particulares, empresas que nos queiram apoiar para a concretização e desenvolvimento desta unidade. Basta ir ao nosso site oficial, às nossas redes sociais ou entrar em contacto com a nossa sede para perceberem de que forma é que nos podem apoiar.

22.12.20

Em 2021 “vai haver uma crise de desemprego, de fome, e instabilidade do ponto de vista social”

Natália Faria (Texto) e Paulo Pimenta (Fotografia), in Público

Padre Rubens Marques, 59 anos, é pároco no Marquês, no Porto. E lida com “a grande vaga dos desempregados da pandemia”, num projecto que fornece refeições a quem precisa (e a fila é cada vez maior, diz). “Espero que venha aí um programa estrutural de combate à pobreza.” Este é o seu testemunho.

A minha linguagem não será a mais acertada. Vários colegas descreveriam melhor o impacto da pandemia na vida das pessoas e na sua relação com Deus. Falo apenas daquilo que vejo. E o que vejo todos os dias são pessoas desesperadas, ao frio e à chuva, em filas crescentes para uma refeição. Quando a minha paróquia, da Senhora da Conceição, no Marquês, no centro do Porto, criou o projecto “Porta Solidária”, estávamos vocacionados para os sem-abrigo e preparados para servir 40 refeições. No pico da última crise, em 2013, tínhamos atingido médias diárias de 300 refeições, sobretudo a sem-abrigo e reformados cujas pensões mal chegavam para pagar o quarto, a água e a luz. Desde que esta pandemia começou, logo em Março, os números dispararam para uma média de 550 refeições diárias. Nas filas, vejo jovens ligados à restauração, às esplanadas, que tinham contratos precários ou que não tinham qualquer contrato, e que, de repente, ficaram sem nada. E vejo muita gente ligada ao pequeno comércio dos cabeleireiros, das esteticistas, vejo os personal trainers dos ginásios.

É a grande vaga dos desempregados da pandemia. As filas para o jantar, que começou a ser em regime de take away, porque não tínhamos como garantir o distanciamento entre as pessoas, começam a formar-se por volta das 16h30 ou 17h00. E já aparecem famílias com bebés nos carrinhos. Quem arrasta os filhos atrás de si e se expõe ao frio e à chuva para conseguir uma refeição é porque tem mesmo necessidade disso. Não há aqui oportunismo. Há tempos, apareceu-nos uma família com três filhos, ambos desempregados, e em risco de perderem a casa. Conseguimos criar uma pequena liga de amigos e reunir o dinheiro para lhes pagar a renda.

Estes não são sítios agradáveis para se vir com crianças. Por isso procuramos que quem tenha um fogão possa receber cabazes de comida em casa. Estes cabazes familiares foram uma resposta nova e estamos neste momento a servir 101 famílias por mês de cabazes familiares. São menos 553 pessoas nas filas. E só o conseguimos fazer porque a fila dos apoios também tem aumentado. Até agências de seguros e outras religiões, como os irmãos muçulmanos e judeus, nos têm feito chegar os seus apoios. Está criado um grande desequilíbrio de tesouraria nas paróquias, mas esta crise também tem servido para percebermos como as pessoas podem ser generosas.

Curiosamente, na população que cá vem nunca se fala em casos positivos para a covid-19. Foi uma surpresa. Será porque estão assintomáticas ou então porque não vão fazer o teste. Mas nunca ouvimos falar de alguém que deixou de vir por ter ficado contaminado. A nossa preocupação é garantir que ninguém espera na fila sem máscara. E por isso anda sempre alguém a distribuir uma máscara a quem não a tenha.

Mantivemos a igreja aberta todos os dias, porque as pessoas quando saíam para irem à farmácia ou ao supermercado podiam querer entrar um bocadinho. E entraram sempre muitas pessoas. Creio que precisavam de um espaço sossegado para rezar, para se sentirem protegidas por Deus, ou simplesmente para poderem meditar. As pessoas ficaram mais necessitadas dessa fé. E nunca lhes fechámos as portas.

Muitos terão despertado mais para a relação com Deus. Mas outros mostram-se zangados, sobretudo quando passaram pela situação delicada de terem visto partir um familiar ou amigo com quem não puderam estar, às vezes durante meses. O sacramento da reconciliação (confissão) foi sempre o mais procurado, e tivemos de nos adaptar para o conseguirmos manter. Mudámos para uma sala, ampla e arejada, onde o distanciamento era possível.

Esta pandemia está a gerar muita ansiedade e a espoletar depressões. E o SNS vai ter de abrir as portas dos psicólogos e psiquiatras, porque esta gente não tem dinheiro para pagar ajuda especializada, e estes problemas não podem ficar nas mãos dos padres. A minha formação incluiu três semestres na área da psicologia, mas não me posso atrever a ser psicólogo.

Procuro dar-lhes algum apoio espiritual, que a reconciliação seja um momento de libertação, não uma sala de tortura, mas acontece-me muitas vezes no final incentivar as pessoas a procurarem ajuda técnica, e às vezes química, para conseguirem alcançar de novo a paz interior e o equilíbrio emocional. Ainda há tanto estigma em relação a isto. Procuro desmistificá-lo, lembrar que se trata uma depressão do mesmo modo que uma perna partida. Mas não garanto que o façam. Há casos em que me sinto completamente impotente.

A minha maior tristeza é a ausência junto dos doentes e dos idosos nos lares.

A minha maior tristeza é a ausência junto dos doentes e dos idosos nos lares. Costumava ir mensalmente aos lares de idosos e a casa dos doentes, aos quais garantíamos também a comunhão todas as semanas. Claro que percebo todas as cautelas que têm de haver em relação à transmissão da doença, mas esta impossibilidade de proximidade magoa.

No Natal, para compensar, vamos distribuir uma pen com uma mensagem da paróquia. Vai ser o nosso modo de lhes mostrarmos que continuamos a gostar deles.

Não ter a assembleia da família paroquial reunida aos domingos também foi um desafio. Foi preciso esforçarmo-nos para não desanimarmos. Mas nunca deixei de celebrar a eucaristia, juntamente com três celebrantes, o que me confortou. E acredito que as pessoas passaram a rezar mais em casa, apesar de algumas me terem dito que, quando voltou a ser possível assistir à eucaristia, se sentiam como se estivessem a sair das catacumbas.

O ano de 2021 vai ser um ano muito conturbado do ponto de vista económico e muito provavelmente vai gerar-se muito desemprego, mesmo porque as eventuais ajudas europeias passam sempre por processos burocráticos muito demorados. Vai haver uma crise de desemprego, de fome, e até instabilidade do ponto de vista social. Penso que aqui a prioridade deveria ser capitalizar as pequenas e médias empresas, que constituem uma grande rede de empregabilidade. Mas, no imediato, não vamos ter grandes soluções. E muitos pequenos comerciantes que ainda não fecharam vão fechar.

Espero que venha aí um programa estrutural de combate à pobreza, que se vai agravar ainda mais. As respostas de emergência como a nossa nem deveriam ser necessárias. Não é aceitável termos cidadãos portugueses que não têm o que comer nem casa para morar.

Para a Igreja, o desafio será conseguir transmitir uma mensagem de confiança, de espírito de luta e resiliência. Estamos todos no mesmo barco e temos de ser capazes de cuidarmos uns aos outros. Estou na expectativa de que este distanciamento forçado não tenha agravado o distanciamento das pessoas em relação à Igreja. Vamos ter de ser capazes de convocar as pessoas, de as motivar, não por proselitismo nem para captar sócios, mas para que saibam que Deus não exclui e que está presente. Mesmo numa pandemia.

Texto escrito a partir de uma conversa com Rubens Marques