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1.8.23

Portugueses face à religião: católicos, mas pouco

Natália Faria, in Público online

Os portugueses habituaram-se a dizer de si próprios que são católicos: 80% declararam-se como tal nos Censos, mas os praticantes são uma minoria. Retrato de um país e da sua Igreja à beira da JMJ.

Se nos focarmos apenas nos números, a conclusão imediata será que a Igreja Católica em Portugal está bem de saúde e recomenda-se. Afinal, segundo os Censos de 2021, 80,2% da população portuguesa declara-se católica. E nem sequer se viu no mais recente recenseamento da população efeitos da propalada erosão da pertença católica, porquanto em 2011 a proporção dos que se declaravam católicos era de uns ligeiramente acima 81%. Mas os números também enganam e, como enfatizou ao PÚBLICO a teóloga Teresa Toldy, não é preciso deslocarmo-nos às igrejas cada vez mais vazias na hora da missa para percebermos tratar-se de um catolicismo herdado ou cultural.

“As pessoas dizem-se católicas, mas depois, quando vai ver quantas delas frequentam a igreja e cumprem os rituais e estão envolvidas em paróquias ou movimentos, observa uma disparidade brutal entre aquilo que se declara e o que se faz”, aponta a docente da Universidade Fernando Pessoa.

Pouco impressionada com o aparente fervor católico que reduz a 14% os portugueses que se declaram sem religião, ainda segundo os últimos Censos, Teresa Toldy recorda outros estudos que denotam a pouca correspondência entre a autodesignação como católico e o quotidiano concreto das pessoas. “Num estudo em que se perguntava, por exemplo, se consideravam que o facto de serem católicas tinha alguma coisa que ver com o pagamento de impostos, as pessoas respondiam maioritariamente que não”, descreve a teóloga. E conclui de forma lapidar: “A esmagadora maioria dos que se dizem católicos em Portugal não conhece sequer a doutrina social da Igreja.”




A discrepância entre o que se diz e o que se faz está também patente no estudo que, em Julho, o Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa (UCP) apresentou e que concluía que 56% dos jovens entre os 14 e os 30 anos de idade se dizem religiosos (católicos, maioritariamente), mas apenas um terço são praticantes, numa dissonância justificada maioritariamente pela discordância face a normas da prática religiosa. Fará sentido recordar aqui que, no ano passado, 60,2% dos bebés nasceram fora do casamento – 16,9% sem coabitação dos pais –, o que ilustra bem a perda de influência da Igreja enquanto instância norteadora dos comportamentos, nomeadamente ao nível da moral sexual e familiar.

Voltando aos Censos, os 80% de católicos ali apontados não andam também distantes dos 79,5% católicos que tinham sido referenciados em 2011, num estudo sobre identidades religiosas em Portugal feito pelo Centro de Estudos de Religiões e Culturas da UCP, a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Em 1999, um estudo similar fixava em 86,9% a proporção de católicos na sociedade portuguesa e, concomitantemente, a percentagem de pessoas sem qualquer religião tinha aumentado de 8,2% para 14,2%, entre 1999 e 2011.

Em 2018, um estudo similar, mas circunscrito à Área Metropolitana de Lisboa (AML), reduzia os católicos a 54,9% dos inquiridos, numa quebra da hegemonia católica decorrente da estabilização das minorias religiosas, como os budistas e os muçulmanos, mas que dificilmente é extrapolável para outras zonas do país – à excepção talvez do Algarve – por se tratar de um fenómeno que acompanha a população imigrante em redor da capital do país. Seja como for, na AML os crentes sem religião tinham aumentado para os 13,1%, muito acima dos 4,6% apontados no referido estudo nacional de 2011.

Em Portugal, descontada a emotividade inicial que levou alguns católicos a requererem a desvinculação formal da Igreja pelo modo como o clero se comportou face ao flagelo dos abusos sexuais, não existem estudos que permitam medir o impacto que a divulgação do relatório Dar Voz ao Silêncio teve, entretanto, no sentido de pertença católica. Uma sondagem de Julho do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1 mostrou que 68% dos inquiridos acreditam que a imagem da Igreja piorou no último ano, sem permitir, contudo, grandes extrapolações.

Mas pode-se admitir, como faz o antropólogo Alfredo Teixeira, em entrevista ao PÚBLICO publicada no passado domingo, que a estimativa de que pelo menos 4815 crianças foram alvo de abusos às mãos do clero português entre 1950 e a actualidade teve um duplo efeito. “É expectável que as pessoas mais distanciadas reforcem o seu descrédito face instituição”, começou por dizer aquele investigador, para concluir que “no universo dos católicos mais empenhados, ou dos católicos mais próximos das dinâmicas comunitárias e institucionais, o acontecimento foi sobretudo aproveitado para introduzir na própria Igreja uma pressão para a mudança”.

Essa reivindicação de uma Igreja mais próxima da abertura preconizada pelo Papa Francisco está bem patente na síntese que o presidente da CEP, D. José Ornelas, levou, em Fevereiro, à assembleia continental europeia do sínodo dos bispos e onde os católicos portugueses reclamaram uma Igreja mais capaz de acolher os novos figurinos familiares, de garantir a participação das mulheres em “igualdade de oportunidades”, de ponderar a ordenação de homens casados e de adaptar a linguagem litúrgica aos tempos actuais, entre outras mudanças.

Mas o presidente da CEP “não é o chefe dos bispos portugueses”, como recorda Teresa Toldy. E entre estes não faltou quem apontasse como pouco fidedigno o tom progressista das conclusões levadas por D. José Ornelas a Praga, na República Checa. É que, “tal como na insistência em desocultar a dimensão dos abusos sexuais, o presidente da CEP tende a estar pouco acompanhado no seu esforço de mudança”, considera a teóloga, cuja esperança reside na expectável renovação dos bispos à frente das dioceses. “Vários dos actuais bispos estão a atingir o limite de idade e, portanto, vão ter de sair. E o que se espera é que os novos bispos que venham a ser nomeados sejam mais abertos e que deles possa advir um maior apoio ao esforço de renovação”, acrescenta.

Além de Setúbal, que aguarda há mais de um ano e meio pela nomeação de um novo bispo, as dioceses de Guarda e Beja também vão ficar sem bispo, no primeiro caso porque D. Manuel Felício já completou 75 anos e pediu a resignação e, no segundo, porque D. João Marcos tem problemas de saúde. O cardeal-patriarca D. Manuel Clemente deverá ser substituído ainda este ano e os bispos Antonino Dias (Portalegre) e Manuel Quintas (Algarve) atingirão igualmente a idade máxima que os obriga a pedir a resignação – 75 anos – este ano e no início do próximo.
JMJ não pode ser “esponja”

Enquanto estas mudanças não ocorrem, recupere-se o que dizia o relatório da comissão liderada por Pedro Strecht sobre os bispos que compõem a elite da Igreja Católica portuguesa: são um corpo envelhecido – a média etária é de 67 anos –, com origens humildes e rurais, provenientes quase todos de “famílias tradicionais com princípios morais vigorosos”. Na maior parte dos casos, a descolagem do meio social de origem fez-se por via da entrada precoce no seminário, onde cresceram sob o jugo de uma disciplina rígida imposta por uma hierarquia muito vincada e fechados ao exterior, ainda segundo o relatório.

“Isto ajudará a explicar que tantos dos bispos portugueses vivam um bocadinho fora do mundo e com dificuldades em ouvir os outros. Aliás, um dos aspectos que me parecem graves no funcionamento da Igreja portuguesa é a dificuldade que muitas pessoas sentem em falar com o seu bispo, em fazerem-se ouvir, muito por causa desta ideia de que o clero tem de ensinar o povo”, lamenta Toldy.

Um clero cada vez mais rarefeito e envelhecido e uma dinâmica pastoral estagnada são outros dos “pecados” que Teresa Toldy aponta à Igreja Católica portuguesa. Diz-se esperançada que, daqui a alguns meses, não seja forçada a acrescentar um outro pecado a esta lista: “Espero que a JMJ não seja entendida pela Igreja Católica em Portugal como uma espécie de passar de esponja sobre um ano terrível e sirva de desculpa para se deixar de falar dos abusos sexuais.”

14.7.23

Vem aí o Papa, escondam os pobres

Carmo Afonso, opinião, in Público online

A vinda deste Papa a Lisboa deveria ser uma boa notícia para quem vive em tendas nas ruas. Mas desenganem-se. Estão destinados a ser obliterados do espaço público e agora com hora marcada.

Aproxima-se a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e parece que tudo o que tem que ver com o evento tem o potencial de ser notícia e não por boas razões. Existe animosidade em relação à sua realização e isto é um facto. A confusão entre o que diz respeito à Igreja mas que acaba por ser assumido pelo Estado não é pacífica. Os custos astronómicos que têm vindo a público também não ajudam e o transtorno que se antecipa na vida das pessoas também não.

Já aqui escrevi em defesa do cristianismo e da sua importância histórica enquanto legado marcado pela defesa do coletivo e dos mais fracos num mundo impregnado de visões políticas individualistas e de correntes espirituais irritantes e adaptadas a todos os gostos. Digo mais: a doutrina cristã é inultrapassável. A mensagem que é atribuída a Jesus Cristo no Novo Testamento é absolutamente digna de ser difundida. O bem comum, a partilha e a distribuição da riqueza são a base dos ensinamentos de Cristo. E terá passado à prática. Fez-se acompanhar dos mais pobres, dos leprosos, de uma mulher que foi prostituta, e deixou estipulado que seria difícil aos ricos entrar no reino de Deus. Também expulsou comerciantes das imediações de um templo e não terá sido macio nessa diligência. É uma história, acredita nela quem quer ou consegue, mas temos de reconhecer que é uma boa história.

Alguém disse que um dos grandes problemas da humanidade é a má interpretação. Quem o disse estava carregado de razão. E o Vaticano tem sido, ao longo dos séculos, um grande exemplo de má interpretação de um texto. Não perceberam nada. Mas justiça deve ser feita e deve reconhecer-se que o Papa Francisco é a exceção. Nunca um Papa pareceu tão alinhado com a doutrina inicial e nunca a Igreja tinha feito um esforço tão assinalável de se aproximar do progressismo. A par desse esforço, há o de retomar a ligação aos mais desprotegidos, ou seja, aos mais pobres.

Existem duas Igrejas: a do Papa Francisco e uma velha Igreja bafienta e conservadora. A do Papa Francisco terá as suas falhas, mas a outra é insuportável. Neste período de preparação da JMJ ficou bem à vista qual dessas correntes da Igreja prevalece em Portugal.

A fome costuma juntar-se com a vontade de comer e em Lisboa foi assim. Este executivo camarário tem demonstrado um perfeito entendimento, e cumplicidade, com esta lógica obsoleta. O último caso é o tratamento que está a ser dado às pessoas sem-abrigo.
A grande virtude deste executivo é a gestão da sua imagem. Priorizam a estratégia de comunicação em relação ao trabalho camarário. Repara quem quiser observar

Já se sabia que a política do executivo em relação a estas pessoas é a de as retirar do centro da cidade e deslocá-las para albergues localizados em bairros sociais, como o Bairro Bensaúde. A novidade aqui é a pressa em retirar estas pessoas das ruas a tempo da JMJ. Isto está a ser feito em colaboração com organizações católicas como a “Comunidade Vida e Paz”. É isso que diz um comunicado desta instituição, que é público. As pessoas sem-abrigo foram informadas de uma “ação concentrada na Avenida Almirante Reis e na Rua Regueirão dos Anjos que visa uma limpeza das tendas existentes e demais pertences”. O comunicado esclarece ainda que isto é feito no âmbito do protocolo celebrado com a CML. Muitas pessoas sem-abrigo relatam o dia 30 de julho como sendo a data limite que lhes foi dada para, “de livre vontade”, procederem a essa remoção.

A grande virtude deste executivo é a gestão da sua imagem. Priorizam a estratégia de comunicação em relação ao trabalho camarário. Repara quem quiser observar. Um talento declarado para se escaparem entre os pingos da chuva. É o que está a acontecer em relação à situação das pessoas sem-abrigo. Já sacudiram a água do capote e tentam distanciar-se daquilo que é da sua responsabilidade, deixando a “Comunidade Vida e Paz” e outras organizações católicas a justificarem-se sozinhas por esforços que fizeram em concertação com a CML.

A vinda deste Papa a Lisboa deveria ser uma boa notícia para quem vive em tendas nas ruas. Seria de esperar que, como fez na Hungria e no próprio Vaticano, lhes desse destaque e visibilidade. Mas desenganem-se. Estão destinados a ser obliterados do espaço público e agora com hora marcada. Se deixarem de os ver, acreditam que não existem.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


3.5.23

Presidente da Conferência Episcopal defende mudanças no processo de escolha de bispos

Por Lusa, in Expresso



“Não é aceitável” ter dioceses há mais de um ano sem bispo, diz José Ornelas, que aponta o Sínodo e a Jornada Mundial da Juventude como próximos desafios do seu novo mandato


O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que o processo para a nomeação de bispos “não está a funcionar” e “não é aceitável” a existência de dioceses sem bispo em Portugal há mais de um ano. “Acho que este processo que nós temos não está a funcionar. Nós termos duas dioceses neste momento que há um ano e tal estão sem bispo, uma já quase há um ano e meio. Isto não é aceitável, a meu ver”, diz José Ornelas em entrevista conjunta à agência Lusa e à agência Ecclesia, defendendo a necessidade de “agilizar e tornar mais participativo” o processo de eleição dos bispos.

Setúbal e Bragança-Miranda estão a aguardar a nomeação de novos bispos, depois de José Ornelas ter transitado para Leiria e José Cordeiro para Braga, respetivamente.

Dizendo não dispor de elementos que lhe permitam confirmar informações que dão conta de alegadas recusas por parte de alguns padres para serem elevados ao episcopado, acredita, porém, que não será esse o motivo para os atrasos nas nomeações. “Não creio, porque daquilo que sei, algumas [situações] têm durado demasiado tempo para serem enviados os processos”, afirma, admitindo que alguma coisa poderá ser alterada no âmbito do Sínodo que a Igreja está a viver até 2024.

“Eu penso que sim, que algumas coisas podem mudar. Neste momento já há uma grande participação em termos de consulta de pessoas, de leigos, padres, bispos. Mas isto, a meu ver, pode ser organizado de outra forma, agilizando melhor e tornando mais rápido e eficiente o processo de escolha”, diz José Ornelas, admitindo que os padres possam ter dúvidas em aceitar o cargo. Segundo o presidente da CEP, “é um discernimento que se tem de fazer, um discernimento na disponibilidade”.

Reeleito neste mês de abril para um segundo mandato à frente da CEP, José Ornelas reconhece que o último ano “foi um ano desafiador, que exigiu tempo e muitos contactos”. “Mas, isto, acho que vale a pena. Quer dizer, a gente está aí. Se há problemas, é preciso enfrentá-los e pronto”, diz o prelado, justificando a disponibilidade para novo mandato, depois de ter colocado a si próprio a possibilidade de indisponibilidade.

PRÓXIMOS DESAFIOS: SÍNODO E JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

Quanto aos desafios que tem pela frente na CEP, reconhece, desde logo, a necessidade de “trabalhar mais em rede”. “Estamos bem convencidos disto, que este caminho de sinodalidade que estamos a fazer em toda a Igreja, a partir da base, das paróquias, das dioceses, dos continentes e da Igreja toda, evidentemente [que] nas conferências episcopais deve-se sentir mais. Mesmo ao nível da Igreja, da própria organização da Igreja – isto para falar em macro, em geral – há [necessidade de] alterações no Direito canónico que permitam mais isso”, diz o prelado.

Segundo o também bispo de Leiria-Fátima, “há um grupo de canonistas que estão a seguir o Sínodo e a apontar, das sugestões que vão sendo feitas, quais as alterações que se devem fazer no próprio Direito”. “Por exemplo, eu nomeei uma senhora como a chanceler da Diocese. Normalmente, o chanceler, em órgãos específicos da diocese, devia estar lá, mas depois, se diz que devem ser padres, já não dá para [a] pôr lá à face do Direito. Pode-se sempre pedir a exceção a Roma. Mas, isto significa que o Direito também tem de acompanhar e promover aquilo que já está acontecendo”, acrescenta.

Outro desafio próximo é a Jornada Mundial da Juventude, marcada para os dias 1 a 6 de agosto. O bispo José Ornelas destaca o esforço “muito interessante, dentro da Igreja e fora dela”, para a preparação da JMJ, nomeadamente a “articulação com autoridades, instituições, processos em curso, não só da logística, mas muito mais, de interesse, de motivação de pessoas”.

“Isto é para mim o que é mais válido, o que está a acontecer, porque implica pessoas. Depois, basta que não entre toda a gente na ressaca do pós [jornada]”, pois “isto criou um movimento” de apelo aos jovens, para que “saiam do sofá, das comodidades, do individualizar e criar cada um o seu caminho, a sua igreja e o seu grupo, para estar em ligação com outros”, diz o também bispo de Leiria-Fátima, defendendo que “esta é a cultura que é preciso que passe para a Igreja, particularmente na nossa juventude, mas passe também para o mundo”.

José Ornelas exemplifica ainda com a “estrutura” que está a ser criada em paróquias que não tinham grupo de jovens e agora têm. “Se nós conseguirmos manter esta rede capilar de jovens e manter os jovens dentro do seu núcleo, isto para mim é uma rede fundamental e luminosa”, sublinha.

Quando se encontrar com o Papa Francisco, em Lisboa e em Fátima, onde também é esperado, José Ornelas “gostaria de lhe pedir que continuasse o seu ministério, como tem sido, como ele tem feito, porque tem sido um Papa que tem inspirado muito os nossos jovens, apesar da sua idade, mas tem apresentado caminhos novos para a sua Igreja”.

“Quando a gente pensa que a Igreja, a Igreja institucional, é pesada e monótona e os profetas são aqueles que estão um bocado mais à margem, tem verdade, tudo isso. Mas, um Papa como este foi um profeta, o Papa João Paulo II, sem dúvida, foi um profeta no meio da Igreja. Mudou tantas coisas. E, portanto, estes papas tiveram uma dimensão profética muito grande de mudança e é esta mudança que está em curso, que é preciso confirmar e fazer com que tenha resiliência na Igreja para a sua continuação”, afirma.

Além da JMJ, também Fátima é uma das preocupações do presidente da CEP, desde logo porque é o bispo titular do território onde se encontra o santuário mariano. Admitindo que o santuário “tem uma dinâmica que está em constante transformação, para encontrar respostas novas para tempos novos”, Ornelas diz ainda não se sentir “confortável” para dizer qual a linha a seguir [está à frente de Leiria-Fátima apenas há pouco mais de um ano], mas não hesita em apontar como importante que, tendo em conta a canonização de Francisco e Jacinta, em 2017, e o processo em curso relativo à Irmã Lúcia, que “Fátima deve focalizar, não simplesmente de um ponto de vista de reflexão e espiritual, mas também muito de ação concreta, a atenção aos mais pequenos, concretamente às crianças”.

“Quando a gente vê que no mundo morrem todos os dias muitas crianças, em números horrorosos, de fome, de crianças que são usadas a todos os níveis, de crianças que não têm escola, isto não pode passar ao lado do Santuário”, defende o bispo, lembrando que “Maria veio precisamente para estas crianças”.

“Fátima tem de ser isto, para que não corra o risco, como santuário, de ser um nicho onde se vai fazer devoções e depois se volta e tudo continua na mesma. Mas que seja algo que mexa com as pessoas, e a função dos santuários é precisamente essa. E dada a projeção internacional que tem, o santuário pode fazer a diferença”, acrescenta o presidente da CEP, para quem “o santuário é uma bênção para aquela diocese, do ponto de vista espiritual, de dinâmica de vida para mais novos e mais velhos, da própria projeção da diocese e abertura de caminhos”.

O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, foi nos últimos dias reconduzido cargo, para novo período de cinco anos. O sacerdote é reitor do maior santuário do país desde 2011, ano em que substituiu no cargo Virgílio Antunes, então nomeado bispo de Coimbra.

15.2.23

Inspetores do SEF mantêm-se nas fronteiras durante a Jornada Mundial da Juventude

 Por Lusa, in Expresso

Em audição, o ministro da Administração Interna assegurou que os planos de segurança e emergência para a Jornada Mundial da Juventude “estão a correr bem e em tempo”

Os inspetores dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) vão manter-se nas fronteiras durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que se realiza em Lisboa entre 1 e 6 de agosto e terá a presença do papa Francisco. A garantia foi deixada pelo ministro da Administração Interna, esta quarta-feira, durante a audição na comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

Embora seja “um objetivo político” do Executivo concluir até ao final de março o processo legislativo da criação da Agência Portuguesa para as Migrações e Asilo (APMA), que vai ficar com as funções administrativas do SEF, José Luís Carneiro especificou que, durante aquele período, os inspetores que estavam nessas funções vão manter-se nas fronteiras áreas, marítimas e terrestres em conjunto com o efetivo da PSP e GNR que teve, entretanto, formação.

Este esclarecimento do governante surge após dúvidas levantadas sobre a forma como seriam feitos os controlos das fronteiras, após a reestruturação do SEF, durante a JMJ, que vai contar com mais de 1,5 milhões.

Sobre os planos de segurança, o ministro pouco revelou, deixando a garantia que está "a correr bem e em tempo". "Muito do seu conteúdo é matéria reservada. Mas, asseguro-vos, tudo está a correr bem e em tempo", disse José Luis Carneiro aos deputados da comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, adiantando que "foram já realizadas, até ao momento, mais de uma dezena de reuniões, sob a coordenação do Sistema de Segurança Interna, envolvendo as forças e serviços de segurança, emergência e proteção civil e todas as outras entidades envolvidas na organização".

No âmbito da reestruturação do SEF, adiada até à criação da APMA, as competências policiais daquele organismo vão passar para a PSP, GNR e PJ, enquanto as atuais atribuições em matéria administrativa relativamente a cidadãos estrangeiros passam a ser exercidas pela APMA e pelo Instituto dos Registos e do Notariado.

"Estamos em processo muito avançado para cumprir as metas estabelecidas e até ao final de março vamos ter o processo legislativo fechado", precisou o ministro da Administração Interna. José Luís Carneiro sublinhou que, em relação à cooperação policial, as forças e serviços de segurança "estão todas já a trabalhar em conjunto desde dezembro ao abrigo dos acordos policiais".


Segundo o ministro, o SEF está a trabalhar com a PJ no que respeita ao combate à imigração ilegal e tráfico de seres humanos, a PSP está com o SEF nas fronteiras aéreas, como já tinha acontecido no verão.

"Os funcionários afetos às fronteiras estão a trabalhar nas fronteiras, mais os funcionários das forças de segurança", disse, frisando que "as fronteiras nacionais continuam a contar com todos os inspetores e agora reforçados com a PSP e a GNR".

REESTRUTURAÇÃO ATÉ MARÇO É “OBJETIVO POLÍTICO”

Além do Governo estar a ultimar o diploma que criará a futura Agência Portuguesa para as Migrações e Asilo, o governante disse também que o executivo está a terminar a legislação que vai definir as regras no âmbito do processo de transição dos trabalhadores, recursos e património do SEF para as restantes entidades.

O MAI assegurou ainda que o Executivo mantém "o objetivo político" de concluir até ao final de março o processo legislativo da criação da Agência Portuguesa para as Migrações e Asilo (APMA), que vai ficar com as funções administrativas do SEF.

"Mantemos o objetivo político de até ao fim de março ter o processo legislativo concluído. Recordo que hoje é 15 de fevereiro. Se o compromisso foi até ao final de março, temos de aguardar até 31 de março para podermos verificar se o objetivo político é ou não cumprido", disse o ministro da Administração Interna no parlamento.

Segundo José Luís Carneiro, o SEF formou até ao momento 154 efetivos da GNR e 160 elementos da PSP em matéria de controlo de fronteiras, estando ainda por concluir a formação de mais 88 agentes da Polícia de Segurança Pública.
A reestruturação do SEF foi decidida pelo anterior Governo e aprovada na Assembleia da República em novembro de 2021, tendo já sido adiada por duas vezes.