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1.3.21

“Comem cinco, seis pães. As pessoas chegam mesmo esfomeadas” ao pequeno-almoço de “O pão de Lázaro”

Olímpia Mairos, in RR

A resposta social criada a pensar nos sem-abrigo da cidade de Braga é atualmente procurada por outras pessoas que, face à pandemia de Covid-19, ficaram desprotegidas. A procura do pequeno-almoço disparou nos últimos tempos.

Com a pandemia e o aumento da pobreza, está a crescer o número de pessoas que recorrem ao pequeno-almoço “Pão de Lázaro”. A procura já duplicou, situando-se nesta altura nas 22 refeições por dia. A iniciativa da Associação Hospitalária de S. Lázaro surgiu de um desafio lançado pelo arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, para dar resposta ao sem abrigo da cidade, mas, atualmente, é procurada também por outras pessoas.

“Neste momento, a Associação Hospitalar de São Lázaro está a dar o pequeno-almoço ao dobro das pessoas que era habitual e está também a fazer pequenas refeições para as pessoas poderem levar para casa e comerem durante o dia. Porque, de facto, essas pessoas que vivem na rua e da rua, neste momento, são uma grande franja de pessoas que estão desprotegidas”, conta à Renascença o coordenador do voluntariado, Jorge Teixeira.

Se antes as pessoas chegavam ao espaço onde o pequeno-almoço é servido diariamente, junto à Igreja dos Terceiros, à procura de um conforto matinal, atualmente chegam “com fome”.

“Antigamente, antes deste confinamento, as pessoas comiam um pão, dois pães com leite. Neste momento, as pessoas chegam mesmo esfomeadas, comem cinco pães, seis pães, comem o que lhes apetecer”, afirma Jorge Teixeira, acrescentando que “nota-se que já não é só aquele conforto matinal que as pessoas vão buscar, neste momento, as mesmas pessoas vão lá para matar a fome”.

O pequeno-almoço solidário conta com leite simples ou com cevada, cevada, pão com manteiga, compotas, marmelada, bolos e fruta.

“E quem procura esta resposta social?”, questionamos.

“Há de tudo. Há pessoas que vivem na rua, há pessoas que vivem em casas abandonadas e têm algum tipo de abrigo, há pessoas que vivem em quartos alugados, que tem alguns rendimentos, a maior parte deles tem o Rendimento Social de Inserção, que é muito pequeno, mas dá para alugar um quarto, mas, depois, não têm como passar o resto do dia, não têm dinheiro suficiente para as refeições e vão-se socorrendo das instituições de solidariedade”, afirma Jorge Teixeira, acrescentando que também estão a ser procurados por “bastante imigrantes”, realidade que não se verificava.

O coordenador do voluntariado da Associação Hospitalária de S. Lázaro observa que tem crescido sobretudo o número de pessoas que, apesar de terem um teto, não têm trabalho fixo e “vivem um bocadinho da solidariedade, da esmola”.

“E são precisamente essas pessoas que hoje estão a passar bastante mal, porque, com tudo fechado, não há igrejas abertas, não há pessoas a circular, portanto aquela pequena quantia de dinheiro que conseguiam através da esmola, através do arrumar do carro, de pequenos recados que faziam nas ruas, neste momento, essas pessoas estão sem qualquer tipo de rendimentos e não têm como comer”, alerta.

Por iniciativa do grupo de voluntários, constituído por 25 elementos, também está a ser providenciada roupa e agasalhos.

“Foi uma iniciativa dos nossos voluntários que começaram a fazer uma recolha de roupa e cobertores, sacos-cama e as pessoas ficam muito comovidas, porque estavam com dificuldade em arranjar roupa, porque agora está tudo fechado e as instituições, também, muitas vezes, estão a funcionar com as limitações desta pandemia, e, então, as pessoas viram que era possível levar um cobertor ou o saco-cama, levar um agasalho e estamos a manter esse tipo de iniciativa”, refere Jorge Teixeira.

A Associação também entrega máscaras, porque, às vezes, “aparecem com máscaras muito sujas, muito velhas”, álcool gel e o que eles vão precisando no dia-a-dia e que nós possamos, dentro das nossas limitações, oferecer”, acrescenta o responsável pelo voluntariado.

O pequeno-almoço é assegurado com a ajuda de empresas que fornecem géneros alimentares e de alguns particulares, onde se incluem os próprios voluntários da Associação Hospitalária de S. Lázaro.

“Há imensas pessoas que passam todos os dias para deixar um pacote de bolachas ou alguma fruta, queijo. E é com essas dádivas anónimas que temos conseguido. A associação não tem fontes de rendimento e temos conseguido fazer face a este aumento da procura dos pequenos-almoços”, conta Jorge Teixeira, que aproveita para “agradecer a tantas pessoas que anonimamente têm passado na associação e têm deixado os seus géneros”, para conseguirem “responder cabalmente a esta alta procura”.

O “Pão de Lázaro” está de portas abertas de domingo a domingo, entre as 8h00 e as 9h30, para ajudar não só os sem-abrigo como também pessoas que estão a atravessar dificuldades.
Ouça aqui a reportagem

10.2.21

Arcebispo de Braga deteta "nova forma de pobreza constituída por casais jovens"

Henrique Cunha, in RR

D. Jorge Ortiga diz que há "pessoas ameaçadas de despejo” que estão a recorrer à Caritas e às paróquias para “não se tornarem pessoas sem-abrigo”.

O arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, revela a existência de um “aumento de pedidos para pagamento de rendas” de pessoas que “deixaram de trabalhar por causa da pandemia”.

D. Jorge Ortiga diz à Renascença que a situação social se tem vindo a agravar por causa do desemprego, que, em muitos casos, atinge famílias inteiras.

O arcebispo fala de uma nova categoria de pobreza, constituída sobretudo por casais jovens. “Nós temos no nosso programa pastoral a indicação para estar atentos a novas formas de pobreza. E parece-me que está aí patente na sociedade uma nova forma de pobreza que é constituída pelos casais relativamente jovens, que estavam devidamente estabelecidos na sua vida, com o seu trabalho, com os seus sonhos com os seus projetos.”

“De um momento para o outro - quer um quer outro - ficaram sem trabalho, às vezes ligados a pequenos negócios familiares, alguns ligados ao turismo ou à restauração, e que agora se encontram numa situação onde lhes falta essencialmente o indispensável”, exemplifica D. Jorge.

O arcebispo de Braga revela que “as pessoas são ameaçadas de despejo” e que estão a recorrer à Caritas e às paróquias para “não se tornarem pessoas sem-abrigo”.

D. Jorge fala de “um problema que é tradicional e que está a sentir-se com mais acuidade, que é a questão das rendas”.

“Se as pessoas não recebem, não têm possibilidade de pagar as rendas de suas casas, e os caseiros ameaçam com o facto de ficarem sem a casa”, relata o arcebispo, ao mesmo tempo que revela que “o recurso é recorrer à Caritas, recorrer às paróquias, recorrer a qualquer pessoas para que possam não sair de sua casa, para que não passem a sem pessoas sem-abrigo".

D. Jorge Ortiga considera muito importante “tomar consciência do que está a acontecer e responsabilizar as entidades oficiais” como primeiros responsáveis pela resolução dos problemas.

“Não vou alarmar, não estamos em tempos de alarmismos, mas, antes pelo contrário, é uma oportunidade para tomarmos consciência daquilo que nós devemos fazer, e como devemos agir”, sublinha.

Para o prelado, é importante estar atento porque dessa forma vamos “resolvendo aquilo que podemos resolver, procurando responsabilizar as entidades oficiais porque também elas têm uma tarefa, são eles os primeiros responsáveis”.

D. Jorge considera importante “comprometer as nossas paroquias para primeiro responder aos problemas concretos e também para ir de encontro às causas para que essas causas não estejam também a gerar novas situações de pobreza”.

O arcebispo de Braga não nega algumas dificuldades e revela alguma falta de “suporte económico para responder às situações de carência” até porque a pandemia também está a afetar a frequência às eucaristias, “onde a Igreja vai angariando fundos para depois partilhar”.

D. Jorge recorda que, por exemplo, “na Quaresma, nós temos o chamado contributo penitencial, ou renuncia quaresmal que consiste na renúncia dos cristãos de alguma coisa que seja supérflua para poderem partilhar”.

"Os nossos cristãos sabem como isso se desenvolve, mas agora não vão às eucaristias, não tem oportunidade de pôr em comum aquilo que teriam muito gosto em o fazer, e como consequência não vamos ter um suporte económico para responder a algumas carências e a algumas necessidades que começam a ser prementes."

Estas declarações do arcebispo de Braga à Renascença foram feitas à margem de uma conferência de apresentação do espólio musical do padre Manuel Faria Borda, adquirido pela Arquidiocese a um alfarrabista de Esposende e que irá fazer parte do arquivo que a Arquidiocese se prepara para construir “logo que a pandemia o permita”.