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8.8.23

Origem dos fogos. "É a atividade humana, muitas vezes por descuido, às vezes má intenção"

in RTP

O professor universitário Domingos Xavier Viegas recusou esta terça-feira a ideia, em entrevista à RTP3, de que os fogos de verão sejam inevitáveis. O especialista em incêndios florestais argumentou que "não são as altas temperaturas que produzem os fogos. Em geral é a atividade humana, muitas vezes por descuido, às vezes por má intenção".
"Os fogos são facilitados pela existência destas altas temperaturas, das baixas humidades do ar, que fazem com que a vegetação seque e fique mais propícia a que entre em ignição", ressalvou Xavier Viegas.

"Temos que ter ainda mais cuidado. Infelizmente, vemos que não é isso que acontece. Muitas vezes, as pessoas fazem atividades que pensam que não vão ter qualquer consequência e causam estes focos de incêndio", enfatizou o perito.

10.7.23

Quer apadrinhar uma oliveira abandonada? Há um projecto para recuperar estas árvores

Amanda Faria, in Público

O projecto Apadrinha uma Oliveira chegou a Portugal, com o objectivo de recuperar 10 mil oliveiras – e cada padrinho também recebe azeite. E há uma oliveira com mais de mil anos.


Já pensou baptizar uma árvore centenária com um nome à sua escolha para ajudar na sua preservação? É este o objectivo do projecto Apadrinha uma Oliveira, lançado recentemente em Abrantes, região conhecida pela tradição do olival em Portugal. O objectivo da iniciativa é recuperar oliveiras com centenas – e até milhares – de anos através de um programa de apadrinhamento. Além da conservação, os padrinhos e madrinhas recebem dois litros de azeite da sua oliveira e contribuem para a criação de 27 postos de trabalho no município.

O projecto desembarcou recentemente em Santarém, inspirado pelo enorme sucesso da sua versão espanhola, o Apadrina un Olivo, em Oliete, na região de Teruel. O director-executivo deste projecto em Portugal, João Rijo, disse ao Azul que a decisão de importar a ideia foi “orgânica”, impulsionada pela preocupação com o crescente abandono dos olivais no país.

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“Queremos envolver os portugueses na protecção e conservação do seu património natural e cultural”, afirmou João Rijo. A escolha de Abrantes como local para avançar com a recuperação das árvores deu-se devido a esta região ter as oliveiras mais antigas em território nacional, diz, e de ter mais de 200.000 hectares de olivais abandonados, o equivalente a 2800 campos de futebol. “Decidimos agir e lutar para proteger e cuidar destas oliveiras antigas com o apoio da sociedade e do patrocinador”, acrescentou o director. Tanto a iniciativa espanhola como a portuguesa têm a empresa Endesa como principal patrocinador.​

[...]

O abandono dos olivais aconteceu devido à falta de substituição geracional nos campos por desinteresse ou falta de recursos financeiros, baixa rentabilidade económica quando comparada com outras áreas e o êxodo rural. No entanto, a preservação das oliveiras é essencial para atenuar os riscos de incêndios, fortalecer o ecossistema e promover o desenvolvimento económico local quando as árvores voltarem a ser produtivas. A associação também refere que as oliveiras nos ajudaram “a sobreviver durante muitos séculos” e que também é importante recuperá-las por serem um “símbolo de identidade” português.

A iniciativa visa criar até 27 postos de trabalho em Abrantes para fazer a manutenção das oliveiras. “Começámos por criar um grupo de trabalhadores no terreno, que são responsáveis e especialistas na recuperação do olival, e podem realizar os cuidados necessários para trazê-lo de volta à vida”, explica o responsável João Rijo. Além disso, a associação contratará uma equipa para produzir o azeite e outra para gerir o projecto e as visitas dos padrinhos e madrinhas. Assim, além da preservação e conservação das árvores, o desenvolvimento económico e social também é estimulado.

Para apadrinhar uma oliveira, basta aceder ao site da organização, escolher através das fotografias aquela de que mais gostar, pagar uma contribuição anual de 60 euros e atribuir-lhe um nome. João Rijo conta ao Azul que o projecto encoraja a nomeação da árvore, pois “é essencial poder representar ou simbolizar na oliveira a pessoa que se deseja homenagear.” Os padrinhos ou madrinhas recebem fotos do desenvolvimento da árvore apadrinhada e podem visitá-la fisicamente. Após a colheita, recebem dois litros de azeite das oliveiras recuperadas pelo projecto em garrafas desenhadas por um artista.

Texto editado por Claudia Carvalho Silva

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

5.7.23

Música, cães, bolas: saiba o que não pode fazer na praia

in SIC

No verão, os areais enchem-se de gente e a convivência de muitas pessoas, num mesmo local, requer regras. Para não ser apanhado desprevenido, veja alguns exemplos do que não é permitido fazer na praia (ou em certas zonas da praia).

Ir à praia é uma das atividades prediletas para muitos, em especial durante o verão. Esta é a estação em que os areais se enchem de gente e a convivência de muitos, num mesmo local, requer regras. Há atividades, como ouvir música alta ou jogar à bola, que são proibidas em certas áreas, mas que em geral são toleradas. No entanto, se alguém se sentir incomodado deve contactar a Polícia Marítima e pode ser aplicada uma multa. Para não ser apanhado desprevenido, veja alguns exemplos do que não é permitido fazer na praia.Ouvir música alta

A Autoridade Marítima Nacional (AMN) informou esta semana que o uso de colunas de som portáteis que possam incomodar "está interdito" nas praias. A proibição, enquadrada na lei das contraordenações ambientais, consta no Edital de Praia 2023.

Assim, é proibida a “utilização de equipamentos sonoros e desenvolvimento de atividades geradoras de ruído que, nos termos da lei, possam causar incomodidade”. A interdição vigora em praias marítimas sob jurisdição da Autoridade Marítima Nacional. Se as pessoas se sentirem incomodadas, devem contactar o comando local da Polícia Marítima da área.Acampar e dormir na praia

Para quem é adepto de fazer uma sesta na praia, a situação é tranquila, desde que o sono seja antes de o Sol se pôr. Dormir na praia é interdito à noite, assim como é proibido acampar na praia de dia de noite.

Só nas áreas reservadas para o efeito e devidamente sinalizadas é que é permitido instalar a tenda. O Edital de Praia 2023 diz mesmo que é proibido “acampar fora dos parques de campismo”. A contraordenação é punível com coima de 30 a 100 euros.

Passear o cão

A circulação e permanência de animais fora das zonas autorizadas é proibida, “exceto cães de assistência treinados ou em fase de treino, devidamente certificados, para acompanhar, conduzir e auxiliar pessoas com deficiência”, refere o Edital de Praia.

Contudo, há algumas praias onde é permitido passear o cão. Nesses casos, a permissão de entrada dos animais de companhia está devidamente sinalizada. Ainda assim, os animais devem fazer-se acompanhar de trela e açaime e os donos são obrigados a encarregar-se da limpeza de dejetos, tal como acontece noutros espaços públicos.

As praias não concessionadas podem, normalmente, ser frequentadas por cães durante todo o ano, desde que não haja sinalização da câmara municipal com indicação em contrário.Fogueiras, churrascos e fumar

Fazer fogueiras ou acender um fogareiro para um churrasco são atividades apenas permitidas em locais autorizados, como por exemplo parques de campismo ou as áreas identificadas para piqueniques, sujeitos à atribuição de licença por parte das autoridades municipais. As praias estão, assim, fora dos locais onde é permitido fazer fogo.

Em relação a fumar na praia, a nova lei do tabaco prevê essa proibição, mas que poderá não acontecer em todos os areais, uma vez que são os concessionários têm o poder de decisão.

Além disso, não haverá ainda interdições ao tabaco na praia no verão de 2023, uma que a proposta de lei aprovada em Conselho de Ministros prevê que a nova legislação entre em vigor a 23 de outubro deste ano.


Jogar à bola ou raquetes

Praticar desporto na praia é habitual, seja um jogo com raquetes, futebol ou voleibol. Contudo, estão interditos os “jogos de bola ou similares fora das áreas afetas a esses fins”, refere o Edita de Praia.

Esta proibição em determinadas áreas de praia está relacionada com a segurança dos banhistas que geralmente até toleram bem a prática destas atividades desportivas na praia. Ainda assim, caso se sintam incomodados, podem alertar a Polícia Marítima e estão previstas coimas que podem ir dos 30 aos 100 euros.


Surf, kitesurf, windsurf

Atividades de praia por excelência, estão no entanto limitadas a certas áreas, à semelhança como acontece com os jogos de bola e raquetes.

Segundo o Edital de Praia 2023, é proibida “a prática de surf, kitesurf, windsurf e outras atividades desportivas passíveis de constituir perigo à integridade física dos banhistas, em áreas reservadas a banhistas”.

Neste caso a multa poderá variar entre 55 e 550 euros.


Topless e nudismo

O nudismo pode ser considerado crime de importunação sexual, pelo que só pode ser praticado nas praias autorizadas. Existem algumas em Portugal, fora dessas áreas é interdito.

O topless não é ilegal e a pratica está generalizada. Contudo, se alguém que esteja na praia se sentir incomodado com isso, a situação pode dar lugar a banhista receba uma recomendação das autoridades.


Deixar lixo na areia

Por último, mas não menos importante. Apesar de óbvia, esta regra parece ser muitas vezes esquecida. A desculpa de que não há recipientes de lixo não serve para o deixar na areia.

A penalização mínima para quem deixar lixo fora dos contentores próprios para o efeito é de 55 euros. Existe também, em alguns casos, a proibição de utilizar embalagens de vidro no areal.

22.6.23

Energias renováveis: Portugal é um país de prioridades trocadas?

História de José Gomes Ferreira, in Expresso

Enquanto milhares de milhões dos fundos comunitários são canalizados para os poderosos interesses da energia, o Governo toma decisões de milhares de milhões de euros que vão condicionar o futuro do país durante várias gerações. Esta semana no Negócios da Semana em podcast a análise de Luís Todo Bom, engenheiro e antigo secretário de Estado da Indústria e Energia, Pedro Amaral Jorge, engenheiro e presidente da APREN, e João Joanaz de Melo, professor do Ambiente e investigador do CENSE. Oiça aqui o programa de José Gomes Ferreira

Enquanto andamos todos entretidos a discutir o folclore da política, o Governo toma decisões de milhares de milhões de euros que vão condicionar o futuro do país durante várias gerações, sem praticamente nenhuma discussão pública. E enquanto milhares de milhões dos fundos comunitários são canalizados para os poderosos interesses da energia, o Ministério e a Agência do Ambiente impedem a aprovação de pequenas barragens e até charcas para rega numa altura em que mais de metade do país enfrenta uma grave seca. Luís Todo Bom, engenheiro e antigo secretário de Estado da Indústria e Energia, Pedro Amaral Jorge, engenheiro e presidente da APREN, e João Joanaz de Melo, professor do Ambiente e investigador do CENSE, são os convidados de José Gomes Ferreira no Negócios da Semana.

Negócios da Semana é um programa de José Gomes Ferreira. Os termos e realidades da Economia nacional e internacional explicados todas as semanas na SIC Notícias. Passa na televisão quarta-feira, às 23h, e é publicado em podcast na quinta. Ouça mais episódios:

19.6.23

As alterações climáticas e a pobreza

 in Notícias de Aveiro


No passado dia 3 de junho foi levado a efeito, pelo movimento Fórum Cidadania de Aveiro uma tertúlia, que teve como principal finalidade refletir sobre o impacto das alterações climáticas na pobreza em Portugal e no mundo. Pensou-se ainda sobre as profissões que irão desparecer, a breve e a longo prazo, como consequência da alteração do mundo do trabalho. Os oradores convidados, Professor Doutor Carlos Borrego e Professora Doutora Marlene Amorim, de uma forma simples, acessível e simultaneamente magistral, desafiaram os presentes a pensar sobre as questões sociais que já estão a despontar e que surgirão no futuro, fruto das revoluções que estamos a viver.

Por Beatriz Tomé Dias dos Reis *

O Professor Carlos Borrego exortou-nos a pensar criticamente sobre o modo como podemos proteger o nosso planeta (que é afinal a nossa casa), assumindo gestos simples mas que se forem uma prática de todos, terão grande projeção no nosso planeta. Temos apenas duas estações do ano, tendo-se dissipado a existência de estações do ano mais temperadas, a primavera e o outono. Ou faz chuva (muitas vezes torrencial) e frio, ou então, calor e seca extrema. A subida da temperatura é uma realidade que não podemos escamotear. Está aí. Não se trata já de alguns cientistas pessimistas que auguram o pior, mas um facto incontestável. E o mar, essa riqueza imensa e fantástica que nos alimenta (o corpo e a alma), cujas águas vão subir consideravelmente em poucos anos, se nada fizermos…

O aumento exponencial do consumo de energia é mais um facto incontestável. O crescimento da população mundial foi assombroso nas últimas décadas, o que leva a colocar em causa a sustentabilidade do planeta. Há que tomar medidas preventivas, com a máxima urgência, de modo a possibilitar que a nossa casa continue a albergar as gerações vindouras, com o mesmo conforto que nos foi cedido.

13.6.23

Carlos Pinto de Sá: "Alentejo vai perder, nas próximas décadas, entre 28% a 40% da água"

Francisco Almeida Fernandes, in DN


O presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central pede mais apoio do Estado aos municípios para a resposta às alterações climáticas. Já há 14 concelhos com planos locais de mitigação.
m entrevista ao DN, o presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central (CIMAC) fala sobre os desafios que os municípios da região enfrentam na resposta às alterações climáticas. Através do projeto Adapta.Local.CIMAC, apoiado com 191 mil euros dos EEA Grants, a instituição conseguiu definir medidas de mitigação adaptadas a cada concelho. Com os planos concluídos, Carlos Pinto de Sá pede agora mais apoio financeiro do Estado central e mais recursos humanos para executar as estratégias.

Como é que surge o projeto Adapta.Local.CIMAC?

O projeto surge na sequência de um conjunto de anteriores projetos e posições da CIMAC de preocupação com as questões das alterações climáticas e da necessidade de estudar formas de nos adaptar a essas alterações climáticas. Recordo que estamos no Alentejo, uma região que tem problemas graves ao nível dessas alterações climáticas, em particular se tivermos em conta o problema da escassez de água. Há estudos que apontam para a possibilidade de o Alentejo perder nas próximas décadas entre 28% a 40% dos seus recursos de água. É por isso que surge esta ideia de sistematizar e olhar o futuro a médio prazo para podermos preparar os municípios e a sua intervenção na adaptação às alterações climáticas. Foi possível propor, no âmbito da CIMAC, aos 14 municípios do Alentejo Central, um projeto comum que permitisse responder a estas preocupações e depois traduzir essas medidas na atividade diária e nos planos estratégicos dos municípios.

O projeto conta com apoio técnico para desenhar as diferentes estratégias?

Foi feita uma candidatura a um concurso apoiado pelos EEA Grants e a CIMAC viu aprovada esta candidatura, que tem como parceiros, além dos técnicos dos municípios, o CEDRU - Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urbano e o operador dinamarquês International Development Norway, que trabalha com as questões climáticas e tem uma experiência significativa nesta matéria. Portanto, é nesta perspetiva de responder de uma forma sustentada que se avançou para os 14 planos de adaptação. Estes planos estão interligados e sustentados no Plano Intermunicipal de Adaptação de Alterações Climáticas.

Que tipo de medidas estão incluídas nestes planos? São dirigidos a setores e atividades específicas?


Em primeiro lugar, identificaram-se as principais prioridades relativamente às alterações climáticas. O que vamos ter aqui no Alentejo e no Sul de Portugal é uma tendência para que o deserto avance do Norte de África para o Sul da Europa, o que significa que vamos passar a ter um clima diferente, com muito menos períodos de chuva, em que a chuva aparecerá muito mais concentrada e em que o volume será significativamente maior por causa dessa concentração. Temos de ter atenção, por exemplo, à agricultura que aqui no nosso território é quem mais água gasta, cerca de 80% da água. Mas também para os próprios municípios, no sentido de poderem preparar a adaptação das suas redes de água e saneamento. A rede de água precisa ser remodelada e temos de obter financiamento para essas requalificações. A rede de saneamento também precisa ser intervencionada para se adaptar às chuvas muito concentradas que vamos ter. Precisamos também de adaptar os instrumentos de planeamento, como os Planos Diretores Municipais, no sentido de poderem responder a estas preocupações.

A cooperação entre municípios para atingir este objetivo comum também é uma das conquistas neste processo...


Este é um exemplo de cooperação entre municípios. Esta é uma área em que é particularmente necessária a cooperação de todas as entidades, não apenas do Estado Central, do Estado Regional ou do Estado Local. Estou a falar também das empresas, ou seja, estes planos não podem ser apenas municipais, têm de ser planos mais alargados e que tenham por base também essa cooperação. Isto é essencial, até porque as alterações climáticas não olham para os ciclos políticos.

A falta de financiamento e de recursos humanos nas autarquias são desafios à implementação destes planos municipais?

Podemos ter um bom plano, mas se não for concretizado não vale de nada. Infelizmente, em Portugal temos muitos exemplos dessa situação e, em particular, no Alentejo. Recordo vários anúncios de planos estratégicos para o desenvolvimento do Alentejo que ficaram na gaveta e apenas pelo anúncio. Tendo o plano, precisamos, em primeiro lugar, de ter estruturas dentro dos municípios que assegurem a sua execução. Isso significa ter recursos humanos qualificados e meios financeiros para os executar. A questão do financiamento é absolutamente essencial e tem de haver uma decisão nacional sobre estas matérias. Aliás, em rigor, este problema é um problema nacional, que tem de ser articulado ao nível nacional e local, no qual o governo tem, obviamente, um papel absolutamente determinante na execução destes planos.

Uma das características deste projeto é o envolvimento das comunidades no processo com reuniões locais. Será para manter?

Diria que é obrigatório, porque é necessário sensibilizar as populações e, naturalmente, devemos começar pelas escolas. Costumamos dizer que de pequenino é que se torce o pepino. Vamos ter de ter alterações nos comportamentos da população, nas nossas casas, nas empresas e nos padrões de consumo. É importante também ouvir as populações sobre o problema da mobilidade, por exemplo. Uma das principais causas das alterações climáticas tem a ver com as emissões do transporte rodoviário. É, portanto, necessário reduzir essas emissões, substituindo automóveis de combustão por automóveis mais amigos do ambiente. Mas temos de alterar o uso do automóvel e o comportamento. Por exemplo, no centro histórico de Évora não vai ser possível termos o volume de veículos que temos, vamos ter de reduzir substancialmente, ter outros hábitos de mobilidade, nomeadamente andar a pé, de bicicleta ou em transporte público. E isso faz-se envolvendo a população, porque não é de um dia para o outro que se conseguem essas alterações.

O Plano Ferroviário Nacional pode ter um papel importante nessa transição?

O Alentejo tem sido muito penalizado pelo desinvestimento na ferrovia, mas diria que o país todo, durante décadas, não cuidou do transporte ferroviário e desinvestiu, em particular no transporte de mercadorias. Os mármores aqui da zona de Estremoz, Vila Viçosa ou Borba podiam perfeitamente ter sido transportados por ferrovia. Houve, de facto, um desinvestimento na ferrovia, que me parece inqualificável, mas também algo que surpreende, porque a ferrovia oferece, sobretudo do ponto de vista do transporte de mercadorias, vantagens muito significativas. No Alentejo, a situação é ainda mais grave porque houve um conjunto de linhas que foram fechadas, não houve alternativas a essas linhas e, no Plano Ferroviário Nacional, o que está previsto para o Alentejo é, a nosso ver, manifestamente pouco. A CIMAC já se pronunciou sobre isso, chamando a atenção para a necessidade de reforçar e concretizar os investimentos na ferrovia aqui no Alentejo. No caso do Alentejo Central, vamos ser atravessados pela linha que vai de Sines a Évora e depois a Espanha. É claro que não deve servir apenas o porto de Sines e tem de servir também os territórios que atravessa. E, por isso, naturalmente, precisamos ter aqui pontos de ligação à ferrovia de mercadorias.

Deverá incluir também o transporte de passageiros?

Sim, a rede ferroviária pode ser utilizada não apenas para mercadorias, mas em simultâneo para passageiros. E essa é outra aposta que é importante. É verdade que o Plano Ferroviário Nacional aponta o que pretende fazer, mas não fala em prazos nem em financiamento. Ficamos sempre aqui um pouco na dúvida se é mais um plano que ficará no papel. Mas continuaremos a insistir nesta necessidade, que também terá impactos positivos na questão do clima.

9.6.23

Portugueses comem demasiado peixe? Quercus diz que sim e quer reduzir consumo

SIC Notícias e Lusa, in SIC

Organização ambientalista defende que o aumento crescente da procura de proteínas provenientes do mar, juntamente com "práticas de pesca insustentáveis" e os efeitos das alterações climáticas, estão a agravar a acidificação dos oceanos.

A Quercus considerou esta quinta-feira que há um consumo excessivo de peixe em Portugal, com os portugueses a comerem mais de 150 gramas por dia, o que representa 2,5 vezes mais do que a média da União Europeia.

De acordo com os dados disponíveis em 2020, citados pela associação, cada português consumiu em média 59,9 Kg de peixe.

Em comunicado divulgado por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos, a organização ambientalista defendeu que o aumento crescente da procura de proteínas provenientes do mar, juntamente com "práticas de pesca insustentáveis" e os efeitos das alterações climáticas estão a agravar a acidificação dos oceanos.

"Nos últimos 200 anos, o oceano absorveu cerca de 30% do total das emissões de CO2, alterou a produção de carbonato de cálcio nas águas oceânicas, perturbando assim o ciclo carbonato-silicato que causou este fenómeno da diminuição progressiva do pH da água", lê-se no documento.

Entre as espécies mais afetadas estão o caranguejo, as lagostas, as amêijoas, os mexilhões, as ostras, os ouriços-do-mar, os corais e as lulas.

"A sobrepesca, os métodos de pesca destrutivos e a destruição do habitat são as principais preocupações que precisam de atenção urgente. Se não forem abordadas, essas práticas podem esgotar populações de peixes, perturbar os ecossistemas marinhos e comprometer a subsistência daqueles que dependem da pesca como principal fonte de rendimento", sustenta a Quercus, ao propor a confeção de pratos com uma dose mais reduzida de peixe e o uso de espécies mais abundantes, mas também o consumo de algas.

"A transição alimentar para a utilização de fontes de proteína à base de plantas é também uma opção de cada vez mais pessoas, havendo ainda um caminho a percorrer de educação alimentar, na valorização da ampla gama de opções nutritivas para pessoas que procuram reduzir o consumo de peixe, assim como outros produtos de origem animal", afirma a associação.

6.6.23

Banhos curtos, reutilizar, usar transportes públicos, menos carne e mais vegetais: os conselhos da Zero para o Dia Mundial do Ambiente

Carla Tomás, in Expresso


Perante o cenário atual que se vive no país e no mundo, a associação ambientalista ZERO apela “à ação dos cidadãos” em cinco áreas prioritárias para colocar o país nos carris da sustentabilidade ambiental e acelerar a marcha

Nos últimos 50 anos “apenas cerca de um décimo das centenas de metas globais nas áreas do ambiente e desenvolvimento sustentável acordadas pelos países foram alcançadas ou tiveram um progresso significativo”, alerta a associação ambientalista Zero. Ao mesmo tempo, lembra que “o uso de recursos naturais mais do que triplicou” e as desigualdades sociais acentuaram-se, deixando “a metade mais pobre da população global com apenas 2% da riqueza global total, enquanto os 10% mais ricos possuem 76% de toda a riqueza” e são os responsáveis por mais da metade do total de emissões de carbono.

É com esta introdução que, este domingo, a Zero apela à “ação para inverter o rumo e garantir que todos poderemos viver em boas condições num futuro próximo”. Fá-lo na véspera do Dia Mundial do Ambiente, criado na Conferência de Estocolmo de 1972, lembrando que a janela de oportunidades está a esgotar-se. E deixa dicas para o que cada pessoa pode fazer em cinco áreas.
ACELERAR A REDUÇÃO DE EMISSÕES

Portugal conseguiu reduzir em 34% as emissões de gases de efeito de estufa entre 2005 e 2021, o que deixa o país no pelotão da frente da União Europeia a 27. Porém, para os ambientalistas, é preciso acelerar o passo e quase duplicar a redução anual média de emissões, dos atuais menos 2,6% ao ano para menos 4% ao ano. A Zero diz que só acelerando é que Portugal conseguirá cumprir a meta de redução de menos 55% de emissões face a 2005 até 2030 e, assim, cumprir a Lei de Bases do Clima. E uma vez que o setor dos transportes tem estado “em contramão”, segundo a Zero — representa 28% das emissões e teve um aumento de 7,3% entre 2020 e 2021—, os ambientalistas apelam a que se reduza o uso do transporte rodoviário individual e se usem mais os transportes públicos ou os modos suaves.
SER EFICIENTE NO USO DA ÁGUA

Com mais de um terço do país em seca severa e extrema - um cenário que tende a agravar-se e a ser mais frequente no futuro -, a Zero sugere que maior eficiência no uso da água a começar pela toma de duches curtos, “tendo presente que a cada minuto um banho gasta cerca de oito a dez litros de água em média.
PARAR COM O “USAR E DEITAR FORA”

Cada português produz 1,4 kg de lixo por dia, o que dá 511 kg por ano e coloca os portugueses entre os que mais lixo produzem e menos reciclam (a taxa de circularidade dos materiais anda nos 2,2%). Por isso, a Zero sugere que “se mude o paradigma de ‘usar e deitar fora’, assente na incineração e deposição em aterro (para onde vão mais de 50% dos resíduos) e se aposte na reutilização, na troca, na reparação e na compra em segunda mão.
COMPRAR PRODUTOS LOCAIS E NÃO DESPERDIÇAR ALIMENTOS

Com o setor agrícola nacional a aumentar o seu peso nas emissões nacionais de gases de efeito de estufa desde 2016 (mais de 12% do total em 2020), a Zero aponta para a necessidade de “travar a expansão da agricultura industrial, focada na produção para exportação e com base em monoculturas totalmente dependentes de rega”. Os ambientalistas frisam que este tipo de produção e ocupação dos solos está a “acelerar o desaparecimento da biodiversidade e de paisagens de alto valor natural”. E aconselham: optem por “produtos da época, produzidos localmente através de práticas agroecológicas” e evitem o desperdício alimentar.
ALIMENTAÇÃO MAIS SAUDÁVEL

A Zero também olha para a balança alimentar nacional e verifica que “cada português consome cerca de três vezes a proteína animal sugerida na roda dos alimentos”. O conselho é apostar numa balança alimentar mais equilibrada onde os vegetais pesam metade, as leguminosas um quarto, e as frutas dois terços. E sublinham que “tal tem um impacto significativo na nossa saúde, mas também no ambiente”.

2.6.23

Atum enlatado: uma iguaria que pode ter um preço humano elevado, acusa relatório

Amanda Faria, in Público


Relatório denuncia casos de tráfico humano e trabalho forçado na indústria pesqueira na Ásia e América do Sul. A produção de atum enlatado sem transparência pode ter um custo social elevado.


consumo de pescado é uma prática comum e quotidiana na Europa, e Portugal é um dos maiores consumidores de peixe. O atum está entre um dos preferidos pelos Estados-membros da União Europeia, seja fresco, congelado ou enlatado. A escolha pode ser justificada pelo sabor, pelo valor nutricional, por ser prático ou, muitas vezes, pelo preço acessível. No entanto, com que custo social é que este produto chega à mesa de milhares de consumidores?

O relatório Canned Brutality: Human rights abuses in the tuna industry (Violência em lata: os abusos de direitos humanos na indústria do atum, numa tradução livre) publicado recentemente pela Bloom Association – uma organização não-governamental dedicada à protecção da biodiversidade marinha – em colaboração com a International Human Rights Clinic da Harvard Law School, denuncia graves infracções dos direitos humanos contra os trabalhadores na produção do atum enlatado. O documento tem como foco os países asiáticos em que a situação é mais alarmante, especialmente Taiwan, Filipinas e Tailândia.

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31.5.23

Sacos de plástico ultraleves para pão, fruta e legumes vão passar a ser pagos nos supermercados

in ECO


Os sacos de plástico ultraleves que são usados para o pão, fruta e legumes vão passar a ser pagos pelos clientes nos supermercados, mercearias e noutros espaços comerciais. A lei que proíbe o uso destes sacos deveria entrar em vigor esta quinta-feira, 1 de junho, mas o Governo preferiu alterar a norma e avançar para a cobrança, avança o Jornal de Notícias na edição desta quarta-feira.

“No futuro, deverá ser privilegiada a utilização de sacos próprios ou alternativas reutilizáveis. A utilização de sacos muito leves ficará sujeita ao pagamento de uma contribuição à semelhança dos sacos de plástico leves”, explicou o Ministério do Ambiente e da Ação Climática (MAAC). Com esta alteração, o Governo considera que está “a ir ao encontro das normais europeias”.

O Ministério tutelado por Duarte Cordeiro não adiantou, contudo, qual o valor que passará a ser pago, nem quando é que a cobrança vai entrar em vigor.

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30.5.23

Reciclagem não é solução para o plástico: é preciso mudar do descartável para o reutilizável

Por Lusa, in Público


As embalagens são responsáveis por 40% de todo o plástico na União Europeia e os resíduos vão aumentar. Peritos dizem que é preciso reutilizar mais e mais.

A redução da poluição por plástico só será possível com a adopção em massa de sistemas de reutilização, indica um estudo divulgado esta terça-feira, que rejeita a reciclagem como solução.

O estudo foi publicado pelo Centro de Política Global de Plásticos, da Universidade de Portsmouth, Reino Unido, numa colaboração com o movimento "Break Free From Plastic", e surge numa altura em que o tema do plástico está em debate na ONU.


Esta semana, desde segunda e até sexta-feira, realiza-se na UNESCO a segunda sessão do Comité Intergovernamental de Negociação sobre Poluição Plástica, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e por França.

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29.5.23

“Se os gestores fossem movidos por valores, não teríamos a crise que enfrentamos hoje”

Rafaela Burd Relvas e Matilde Fieschi, in Público


Mohan Mohan, antigo gestor e responsável pelo lançamento da Procter & Gamble em Portugal, defende que “a melhor forma de acabar com más práticas de gestão é mudar os comportamentos e incutir valores”.

Mohan Mohan aterrou em Portugal em 1989 e foi responsável pelo lançamento da Procter & Gamble (P&G), empresa na qual trabalhou durante quase três décadas e para a qual contratou os actuais gestores de algumas das maiores empresas portuguesas. O presidente da TAP, Luís Rodrigues, o presidente da Vodafone Portugal, Luís Lopes, Paula Panarra e Sofia Tenreiro, ambas antigas directoras-gerais da Microsoft, são alguns dos nomes que, nos seus primeiros empregos, passaram pelas suas mãos.

Hoje, o antigo gestor dedica-se a fazer voluntariado em universidades, onde aconselha jovens sobre rumos de carreira, e a viajar. Acredita que as crises no sector financeiro (passadas ou actuais) acontecem, sobretudo, por práticas de má gestão. E aos novos gestores não tem dúvidas sobre o que dizer: “Sempre que fizerem alguma coisa, perguntem a vocês próprios: ‘A minha avó vai ficar feliz quando lhe contar que foi isto que fiz, ou vai ficar envergonhada?’”

Qual a sua relação com Portugal?
Nasci e fui criado na Índia e, em 1968, consegui uma bolsa para ir estudar para os Estados Unidos. Três anos depois, consegui um emprego na P&G, onde comecei a minha carreira, em Genebra. Em 1989, foi-me pedido que viesse para Portugal. Vim para o Porto, onde comprámos uma pequena empresa chamada Neo Blanc, e, mais tarde, começámos operações em Lisboa. Cinco anos depois, tínhamos construído uma organização cheia de jovens portugueses e alguns expatriados. Senti-me muito sortudo de ter sido enviado para Portugal.

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26.5.23

As crises financeiras da crise climática: quando o risco se torna a certeza

João Camargo, opinião,  in Expresso



A perda de recursos e territórios hoje já não é uma visão do futuro, mas da atualidade e do passado recente. Se olharmos para os últimos dois anos, o pós-pandemia revela um desdobramento acelerado da crise climática em sucessivas crises financeiras. A queda de rentabilidade global do capitalismo continua, com custos crescentes e rendimentos decrescentes e a crise climática já é e tornar-se-á cada vez mais o principal factor da atual e das futuras crises financeiras


Os recentes lucros das grandes empresas multinacionais em 2022 poderiam parecer indicar uma reversão da tendência histórica para a queda global de lucros das últimas décadas, mas são apenas um soluço. Resultam de um assalto em grande escala permitido pelos governos a quem controla os principais monopólios do capital global.


A espiral inflacionista em que ainda vivemos foi espoletada pela opção das empresas petrolíferas de usarem o monopólio sobre o sistema energético para compensarem as quedas de lucros durante os lockdowns do Covid. Isto ocorre depois de décadas em que viciaram a economia em combustíveis fósseis numa aliança com o mainstream político, com a complacência e por vezes até acordo de partidos verdes e de esquerda. No entanto, todos os acordos sociais foram rasgados e agora só sobra a barbárie. Em cima deste assalto produzido pelo imposição de preços altos sem paralelo - e a economia política de hoje é principalmente preços fixados arbitrariamente pelos donos dos fluxos de capital, energia e materiais do sistema -, outros desequilíbrios fora do controlo da elite já estão a manifestar-se.


Em 2022, o Paquistão foi submerso pelas maiores cheias da sua história, tendo um terço do país ficado debaixo de água, com mais de 33 milhões de pessoas deslocadas para outros locais e outros países. O Paquistão é (era) um dos maiores produtores mundiais de algodão e de têxteis. Os preços dos têxteis, de quase toda a espécie de roupas, dispararam. Partes do Paquistão continuam debaixo de água. Várias das pessoas que foram deslocadas não voltarão para onde estavam. A probabilidade de mega-monções voltarem a acontecer nos próximos anos é elevada. A onda de calor que neste momento devasta o continente asiático fez, em plenos meses de temperaturas moderadas como Março ou Abril, baterem-se recordes na China, Índia, Bangladesh, Tailândia, Vietname e Laos, entre outros, acima dos 43ºC e até dos 45ºC. Muita produção neste países, se não foi parada, foi atrasada ou reduzida. Esta onda calor coincide com territórios de elevada humidade, pelo que mortes em grande escala já se verificam (diretamente pelo calor e indiretamente com pessoas com dificuldades de saúde, muito jovens ou idosas).

A abundância da produção de algodão e de têxteis a nível global foi comprimida, os preços aumentaram e, necessariamente, não será possível voltarmos aos níveis anteriores sem novas disrupções.


As colheitas de milho, trigo e arroz foram afetadas pela seca nos Estados Unidos, na Europa e na China. Na Califórnia plantou-se a menor área de arroz desde os anos 50 do século passado e a colheita será cerca de metade do que num ano “normal”. Nos Estados Unidos, a colheita de trigo de inverno caiu 25%. A disrupção do fluxo de cereais no Mar Negro por causa da invasão russa da Ucrânia acrescentou sobre esta diminuição drástica da oferta ainda maior disrupção, aumentando ainda mais os preços globais de cereais, de pão, de massas. Parte da produção poderia recuperar em 2023 se não vivermos um verão escaldante no Hemisfério Norte, mas até agora a seca histórica no continente euro-asiático e na América do Norte continua. A agricultura na mega-artificializada pradaria plástica do Sul de Espanha sofre quedas drásticas de produção e faz disparar o preço dos legumes e vegetais em toda a Europa. O Alqueva e a absurda quantidade de culturas irracionais altamente dependentes de água praticadas no Alentejo está no limite da viabilidade, consumindo água que não regressará.


Apesar de termos vivido a pior seca na Europa desde o século XVI e a pior seca da história da China em 2022, este foi um ano em que o fenómeno climatológico La Niña contribui para uma redução global da temperatura. Em 2023 tal não vai acontecer, e provavelmente durante o ano o El Niño formar-se-á no Oceano Pacífico, levando a um aumento global da temperatura.


Já vivemos noutro planeta e não naquele onde foram criadas todas as relações de exploração, as instituições e o sistema bancário e financeiro que consolidaram o capitalismo.


Para combater o aumento da inflação, os bancos centrais e os batalhões de economistas formadas nas escolas de capitalismo suicida escolheram fazer aquilo que aprenderam: aumentar as taxas de juros, para tirar dinheiro da economia e fazê-la comprimir. Quem tinha um empréstimo viu o seu valor aumentar, enquanto os preços de todos os bens aumentavam também. As empresas que tinham empréstimos - todas, portanto - viram os seus custos de funcionamento aumentarem, o que aumentará a compressão salarial, levando eventualmente a despedimentos e, em alguns casos, a bancarrotas.


O Silicon Valley Bank nos Estados Unidos faliu por causa da subida das taxas de juro, porque era um banco especializado em dívida, com grande quantidade de investimento em títulos de tesouro de longo prazo do governo americano, considerados provavelmente o investimento mais seguro da economia mundial.


O que aconteceu com o Silicon Valley Bank e com outros repetir-se-á no futuro. O contágio a outros bancos será cada vez mais frequente e, com preços mais altos, acontecerá por outros meios. O endividamento das famílias está a aumentar para combater os preços elevados. Como os raros aumentos salariais que ocorrem são abaixo da inflação, só para manter níveis de vida similares aos anteriores o nível de endividamento está a subir. Como a probabilidade do preço dos combustíveis fósseis controlados por multinacionais privadas baixar significativamente é muito reduzida e como as catástrofes climáticas como as secas, as cheias e os incêndios florestais estão a tirar a capacidade geral de produção de bens e serviços à escala global, a crise climática continuará a exprimir-se diretamente como uma crise de custo de vida.

A subida do nível das taxas de juros aumentou ainda mais na dívida pública dos países mais pobres, sobrecarregados por juros de dívidas históricas, a fatura do Covid-19, os preços de todos os bens inflacionados e os crescentes fenómenos climáticos extremos. Os países do Sul Global que seguiram as ordens das instituições internacionais financeiras e de crédito (em particular o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional) tornaram-se importadores de comida e abandonaram à sua sorte camponeses e pequenos produtores locais em favor das multinacionais do agronegócio. Tornaram-se maioritariamente dependentes da importação de comida que era “barata” mas já não é nem voltará a ser. Em mercados liberalizados os estados já têm de adquirir e distribuir comida, aumentando dívidas públicas, tendo de contrair novos empréstimos e deixando de pagar outros. A fatura do neocolonialismo nunca pára de chegar e com a crise climática agrava-se.


As dívidas crescentes vão, em quantidades cada vez mais maiores, não ser pagas. Isto significa mais dívida pública, mais dívida privada e também mais bancos a falirem. Mas talvez seja possível cobrir isto tudo com seguros, não?

Os prémios de seguro globais estão em ascensão porque o risco está a deixar de ser risco para passar a ser certeza. A estreita relação da banca com os seguros garante que cada catástrofe climática é também uma crise financeira. E, considerando que o risco está a transformar-se ou a aproximar-se de uma certeza em muitos casos, há cada vez mais seguradoras a recusarem assegurar investimentos, projetos industriais, construção em zonas perigosas, colheitas em zonas de risco de inundação ou seca, e os próprios seguros gerais sobre prédios, transportes e outras áreas. Recusam-se porque o seu negócio é fazer lucro e porque a anterior distribuição vantajosa de risco já não se verifica. Todos os riscos são muito maiores e o risco de grandes catástrofes climática é generalizado. Mesmo quando as seguradoras não se recusam a fazer os seguros, aumentam os prémios e portanto tanto pessoas como empresas estão a pagar mais para ter seguros (muitos deles obrigatórios e diretamente associados a créditos). Se considerarmos uma zona como o Paquistão, que está ano sim, ano não, debaixo de água, ou um estado como a Califórnia, uma das mais importantes áreas agrícolas dos Estados Unidos, que neste momento tem incêndios anuais a devastar permanentemente vastas áreas e até cidades, que companhias de seguro poderão alguma vez assegurar todos os danos provocados? Nenhumas.

Quem pagará estes desastres? As pessoas desses países através do Estado, o último garante. Isto acontecerá com países ou territórios onde o Estado é rico, como a Califórnia. Em casos como Paquistão, a resposta é que ninguém pagará esses desastres na sua totalidade. Os estados, para pagarem essas catástrofes produzidas pela indústria fóssil, terão de endividar-se mais, aumentar impostos ou desviar receitas de atividades como Educação ou Saúde para recuperação - em capitalismo podemos dar como certo que o financiamento do aparato repressivo, a polícia e os exércitos, não será tocado, em particular porque o descontentamento social não tem como não aumentar.

O aumento do custo de vida já é uma consequência da crise climática e os preços altos são e continuarão a ser impostos às pessoas porque a oferta geral de bens e produtos está em queda. Todas as debilidades já existentes antes - fracos sistemas de saúde, monopólios energéticos, parque habitacional indisponível, mal construído, turistificação de cidades, falta de transportes públicos de qualidade, trabalho precário de massas - serão exacerbadas. Os sistemas de saúde ficam à beira do colapso, as pessoas não conseguem pagar rendas, não se conseguem deslocar para trabalhar sem custos exorbitantes, deixam de pagar contas e dívidas. E os bancos ameaçam, despejam, processam, mas não há dinheiro para salvá-los: crise financeira. Não pagando as pessoas diretamente, pagam os Estados, novamente o último garante do sistema financeiro, reduzindo serviços públicos e capacidade social, aumentando dívidas públicas e sendo pressionados a vender activos públicos e hipotecar o futuro.


E dir-nos-ão sempre que é necessário salvar a banca, porque senão toda a economia colapsa. Garantirão o colapso da sociedade para salvar a banca, uma vez mais. No entanto esta não é igual às crises financeiras anteriores.

Os modelos económicos e financeiros não estão desenhados para a crise climática. Basta olhar para o prémio Nobel da Economia de 2018, William Nordhaus, para percebermos isso. Os seus modelos, considerando o custo-benefício abstracto, dizem que poderíamos permitir um aumento de temperatura global até aos 4ºC. É insano. E é com base em cálculos destes que inúmeras propostas políticas são construídas, com o apoio das petrolíferas. Neste momento, temos um aumento global de temperatura de 1,1 a 1,3ºC e já há escassez de recursos e produtos à escala global. Mais um grau e não só não haverá remotamente a quantidade de produtos necessários para manter milhares de milhões de pessoas, como não existirá comércio international como algo previsível ou estável.

A maneira exacta como as crises financeiras da crise climática se desenrolarão é tão diversa e múltipla como a economia capitalista: bancarrotas por causa dos preços altos ou das taxas de juros, crises imobiliárias, crises monetárias quando um país fica de baixo de água, crises de dívida quando a produção nacional e a receita fiscal caem ou é preciso salvar bancos, empresas ou seguradoras, ativos encalhados quando um governo decide apostar num projeto falhado e absurdo - não podemos deixar de apontar aqui a estupidez do projeto de um novo Aeroporto em Lisboa, da cascata de barragens para fazer um “Alqueva do Tejo”, dos milhares de projetos imbecis que pululam na imprensa nacional e internacional todos os dias.


Nenhum governo do mundo está a fazer ou sequer a planear os cortes de emissões necessários para travar o aumento de temperatura abaixo dos 1.5ºC, o que pode acontecer nos próximos 4 anos. 2022 foi o ano com mais emissões de gases com efeito de estufa alguma vez registado, e bateu o recorde de 2021. Nos últimos 30 anos as emissões de gases com efeito de estufa só pararam de aumentar na crise financeira em 2008 e na pandemia de 2020.


Com um aumento de temperatura global de 1,1ºC a 1,3ºC já estamos numa crise financeira geral de falta de rendimento geral do capitalismo, apesar da propaganda neoliberal de que vivemos no melhor de todos os mundos. A qualidade de vida está em regressão por todo o mundo por causa da crise climática e do sistema em que vivemos, que recusa-se a resolvê-la. Os investimentos rentáveis das últimas sete décadas já não existem. É por isso que vemos tanta excitação e propaganda com inteligência artificial, criptomoedas e outros ativos intangíveis. São a procura pelo rendimento que hoje tem de se basear essencialmente na alienação e em produtos cuja verificabilidade é baixa. O tempo em que investir em cimento, carros, fábricas, estradas e construção eram garantias de lucro (mesmo que intermediado e favorecido pelo Estado, com base na ideia de crescimento e rentabilidade futura garantida) acabou.


Por outro lado, a alienação é generalizada entre a população e portanto torna-se muito difícil traduzir que as crises financeiras em que o capitalismo sempre viveu agora também têm uma ligação umbilical à crise climática. É na base dessa compreensão que se podem e devem fazer algumas das alianças anti-sistémicas essenciais a uma ruptura política.



A crise climática será a mãe de todas as crises financeiras, porque é a crise fundamental da espécie humana e irá repercutir-se em todos os sistemas humanos. A preponderância do mundo financeiro nas nossas sociedades significa que também será muito por aí que veremos o mundo a arder, económica e politicamente.



A escolha de desenhar programas políticos que abandonam a necessidade do encerrar com urgência a indústria fóssil ou que baseiam a solução da crise em aumentos de salários que não impliquem nenhuma redistribuição fundamental de poder são propostas quase tão alienadas como as propostas da elite capitalista.



Temos de puxar o travão de emergência para travar o caos. O movimento pela justiça climática propõe-se realizar essa tarefa histórica porque é um movimento deste tempo, do tempo em que estamos numa locomotiva desenfreada rumo ao caos. O que vai acontecer a seguir? A seguir a travarmos o comboio descontrolado? Toda a confusão necessária a reconstruir sistemas sociais e produtivos de maneira diferente e divergente da maneira monopolistica, concentrada, alienada e destruidora como as elites construíram o capitalismo. O que vai acontecer se não travarmos o comboio? O colapso de todos os sistemas que permitiram a existência de civilização humana nos últimos 12 mil anos. Não vamos por aí. Seremos o travão de emergência que o nosso tempo exige.

25.5.23

Precisamos de cidades mais sustentáveis para melhorar saúde e clima

Erdal Sabri Ergen, opinião, in Público


Embora as zonas urbanas ocupem uns escassos 2% do território mundial, produzem 70% das emissões globais de gases com efeito de estufa e consomem 78% da energia mundial.


As cidades devem estar no centro de qualquer visão realista sobre a sustentabilidade. Embora as zonas urbanas ocupem uns escassos 2% do território mundial, produzem 70% das emissões globais de gases com efeito de estufa e consomem 78% da energia mundial. As nossas cidades têm de facto uma enorme pegada ecológica.

Para os habitantes da bacia do Mediterrâneo, este facto é particularmente desconcertante. Para além de ser uma região particularmente vulnerável às alterações climáticas, tem também uma das maiores taxas de urbanização do mundo. As cidades da região mediterrânica estão perigosamente expostas aos impactos das alterações climáticas, incluindo desafios como a escassez de água, as secas, os incêndios florestais e as ondas de calor (AEA, 2012). Além disso, estão também a enfrentar as ameaças crescentes da subida do nível do mar, de inundações costeiras e de tempestades (UN-Habitat, 2018).


Dados científicos serão essenciais para os planeadores urbanos de todo o Mediterrâneo, se quiserem enfrentar eficazmente os desafios mais importantes


É por esta razão que a União para o Mediterrâneo (UpM) tem apelado constantemente à cooperação internacional para impulsionar o desenvolvimento sustentável, com um compromisso a longo prazo para garantir que as zonas urbanas estão no centro da agenda de acção da região. Perspectivando o futuro, os Estados-Membros da UpM têm planos ambiciosos para fazer avançar a sua Agenda Urbana, comum e específica, para promover o desenvolvimento urbano sustentável na região. A medição dos progressos será fundamental e, como parte do Plano de Acção Estratégico para o Desenvolvimento Urbano 2040, a UpM está a estabelecer indicadores para monitorizar e comunicar os progressos alcançados envolvendo todas as partes interessadas. Especialmente à medida que repensamos as nossas cidades pós-COVID-19, as respostas estratégicas eficazes e conjuntas são mais cruciais do que nunca.

E não se trata apenas de ajudar o planeta e as pessoas no longo prazo – como se isso não fosse suficiente. Há benefícios mais imediatos no desenvolvimento urbano sustentável. Por exemplo, a ISGlobal estima que as cidades da Europa poderiam evitar até 43.000 mortes prematuras por ano se seguissem as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o acesso a espaços verdes. Dados científicos semelhantes serão essenciais para os planeadores urbanos de todo o Mediterrâneo, se quiserem enfrentar eficazmente os desafios mais importantes.


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24.5.23

Seca: Produção alimentar ameaçada e Portugal pede medidas a Bruxelas (C/ÁUDIO E VÍDEO)

Pedro Emídeo, in Lusa


*** Serviços de áudio e vídeo disponíveis em www.lusa.pt ***


Lisboa, 24 mai 2023 (Lusa) – A ministra da Agricultura assegurou hoje, em Lisboa, que a produção alimentar está ameaçada em vários Estados-membros, inclusive Portugal, e anunciou que vai pedir a Bruxelas medidas estruturais.

“Está inscrito na ordem de trabalhos do conselho Agrifish, que se vai realizar na terça-feira, onde França, Espanha e Itália subscreveram o nosso pedido […}, de um sinal claro da preocupação em relação à utilização da água enquanto recurso fundamental para a produção de alimentos, sendo que esta está ameaçada em Portugal, Espanha e outros Estados-membros”, afirmou Maria do Céu Antunes, em Lisboa, numa conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo espanhol.


Conforme precisou a governante, o que vai ser discutido é a necessidade de “medidas concretas de apoio aos agricultores”, nomeadamente ao setor pecuário, que “não desvirtuem o mercado interno”.

A ministra da Agricultura esteve hoje reunida com o seu homólogo espanhol, Luís Planas Puchades, para analisar questões como a seca na Europa e as prioridades espanholas durante a presidência do Conselho Europeu.

PE // EA

Lusa/Fim

22.5.23

A seca prolongada na Europa já chegou, décadas antes do previsto

Bloomberg, in Público online

A Europa aqueceu mais rápido do que o resto do mundo e o sector agrícola é o mais afectado. Medidas para combater a seca são debatidas em Espanha, mas desagradam a agricultores e conservadores.

Uma rede de poços escavados na Idade Média permite aos agricultores da aldeia de Letur, no Sul de Espanha, cultivar oliveiras, tomates e cebolas numa das regiões mais áridas da Europa. Agora, a seca, que se alastra por todo o continente, ameaça até mesmo este antigo oásis.

Um complexo sistema tem mantido a terra da aldeia húmida e fresca ao longo de guerras, invasões estrangeiras e desastres naturais. Mas os 200 agricultores que dele dependem começam a preocupar-se pela primeira vez, à medida que os níveis de água em múltiplas e gigantescas barragens espanholas descem para mínimos sem precedentes e os canais construídos nos anos 70, que transformaram a região circundante numa potência agrícola, começam a secar.

Se a seca se prolongar por muito mais tempo, Luis López, um olivicultor de 43 anos, receia que as explorações industriais vizinhas, que utilizam o moderno sistema de irrigação para cultivar culturas com grande consumo de água, como a alface e a melancia, comecem a explorar as reservas preservadas de Letur.

“Sinto-me como se fôssemos a última aldeia gaulesa da banda desenhada Astérix”, diz López, referindo-se à saga de ficção sobre a aldeia que resiste à ocupação dos romanos. “Preocupa-me que, quando eles ficarem sem água, venham buscar a nossa.”

A seca só vai intensificar esta batalha pela água. Alfonso Sánchez, professor de matemática e ambientalista

A Espanha, uma região desértica da União Europeia, sofre com a seca mais severamente e por mais tempo do que outras grandes economias da UE. A sua proximidade com África coloca-a directamente no caminho das correntes de ar quente que se dirigem a norte, vindas do deserto do Sara.

Mas o calor não abranda em Espanha; o tempo mais quente e seco torna-se a norma em toda a Europa. A batalha da água que se trava em Letur é um presságio de conflitos que se vão desenrolar noutros locais e o que quer que aconteça à indústria agrícola espanhola — uma das principais fontes de abastecimento dos seus vizinhos — será sentido em toda a região.

“A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência”, defende Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique do Mónaco. “Torna-se também um problema financeiro, porque é preciso gastar mais dinheiro na procura de alimentos.”
O sector agrícola é um dos mais afectados

Os anos seguidos de seca podem ser devastadores, pois sectores como a agricultura não têm tempo para recuperar, pelo que os impactos se acumulam estação após estação, crescendo exponencialmente. A produção espanhola de azeite — que representa 45% da oferta mundial — deverá reduzir-se para mais da metade nesta estação, enquanto a de cereais como o trigo e a cevada cairá até 60%, segundo Gabriel Trenzado, director das Cooperativas Agro-alimentares de Espanha, um grupo da indústria agrícola.

A situação ainda não é tão grave noutras partes da UE, onde a previsão oficial é de que a colheita de cereais, no seu conjunto, recupere cerca de 7% em relação à época passada. A precipitação em França, o principal produtor de cereais da União, melhorou desde o período de seca do Inverno, e as classificações das culturas para a colheita de trigo de 2023 são as mais elevadas para esta altura em mais de uma década. Em algumas zonas, a chuva é excessiva, acarretando um atraso nas plantações de cevada e de beterraba-sacarina em partes da Alemanha devido ao mês de Março mais chuvoso desde 2001.

A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência. Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique de Monaco.

Os agricultores da região não têm de enfrentar apenas a seca, mas também um clima menos previsível. Em 2022, a Espanha viveu uma onda de calor semelhante à que assolou o país em Abril deste ano, até que a tempestade Ciril provocou uma descida invulgar das temperaturas, levando a perdas de milhões de euros por parte dos produtores de frutos e nozes. “O facto de haver seca não significa que não chova, significa que as chuvas, por vezes, chegam em alturas inesperadas”, disse Trenzado. “Tudo é muito sensível.”

Os preparativos da Europa para um futuro mais seco esforçam-se para acompanhar o ritmo das rápidas mudanças climáticas. O continente aqueceu quase duas vezes mais depressa do que o resto do mundo nas últimas três décadas, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e o impacto económico tem sido significativo.

A interrupção da passagem de mercadoria devido aos rios estarem nos níveis mais baixos de sempre causou perdas de milhares de milhões de euros. Além disso, também prejudicou a produção de electricidade a partir de centrais hidroeléctricas e nucleares, agravando a escassez de energia causada pela invasão russa na Ucrânia e contribuindo para a pior crise de custo de vida que a Europa enfrentou nas últimas gerações. As quebras nas colheitas provocadas pela seca podem ainda contribuir para a subida dos preços dos alimentos.

A diminuição do escoamento para os lagos e mares da Europa também agrava os riscos ambientais, aumentando a temperatura da água e prejudicando os ecossistemas, segundo o programa europeu Copernicus Climate Change Service (C3S). E há ainda a maior probabilidade de incêndios florestais, que, no ano passado, queimaram paisagens europeias com dimensões três vezes maior do que o Luxemburgo.

É o segundo ano consecutivo de condições extremamente secas e quentes no Sudoeste da Europa, impulsionadas por uma onda de calor antes do Verão que começou três meses mais cedo do que o habitual. A Espanha acaba de registar o mês de Abril mais quente e mais seco da história.

Por outro lado, a neve acumulada nos Alpes, uma das principais fontes de água para França e Itália, é a mais baixa em mais de uma década, agravando anos de chuvas e queda de neve abaixo da média. Mais a norte, a Alemanha e o Reino Unido registaram anomalias pluviométricas tão graves como as de Espanha.

As alterações climáticas correspondem a projecções científicas de menos precipitação e temperaturas mais elevadas na Europa num planeta mais quente, declarou Andrea Toreti, investigador sénior do Centro de Investigação Comum (JRC, na sigla em inglês) da União Europeia, um órgão científico independente que aconselha as autoridades da UE. Mas a ocorrência regular deste nível de seca era prevista ocorrer só em 2043. “Se nada for feito, prevemos que este evento possa ocorrer quase todos os anos”, disse.

Em Itália, onde a escassez de água afecta a região agrícola mais produtiva do país, a crise tornou-se uma prioridade governamental gerida por uma unidade especial liderada pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini. A França, que este ano sofreu o mais longo período de Inverno sem chuva de que há registo, estabeleceu um novo objectivo para reduzir o consumo de água em 10% até ao final desta década.

“A seca do ano passado foi excepcional em comparação com o que já vivemos, mas não será excepcional em comparação com o que viveremos”, disse o Presidente francês Emmanuel Macron num discurso em Março. “Ninguém está a dizer que esta situação vai melhorar.”
Agricultores e políticos discordam das medidas adoptadas pelo Governo

O Governo espanhol tem-se esforçado por encontrar soluções. Apesar de ter gastado milhares de milhões para melhorar o seu sistema de gestão da água, os reservatórios espanhóis ainda têm cerca de metade da sua capacidade. Numa recente reunião de emergência do Conselho de Ministros, as autoridades deram luz verde a um pacote de 2,2 mil milhões de euros que inclui reduções fiscais e ajuda aos agricultores, a juntar às medidas já anunciadas que custarão 22 mil milhões de euros.

O mais controverso é o facto de o Governo espanhol limitar a quantidade de água utilizada na irrigação das culturas. A medida enfureceu os agricultores e encorajou os políticos conservadores antes das eleições autárquicas do final do mês, vistas como um termómetro para as perspectivas do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, que procura a reeleição em Dezembro. Sánchez, que tem insistido em medidas mais fortes para combater as alterações climáticas, também entrou em conflito com os legisladores de direita que pretendem alargar os direitos à água dos agricultores numa das zonas húmidas mais protegidas da Europa, localizada no Sul de Espanha.

Sánchez reconheceu não haver uma resposta fácil. “O debate em torno da seca vai estar no centro do debate político e territorial do nosso país nos próximos anos”, disse aos deputados em Abril.

A competição pelo acesso à água em Espanha já está a colocar vários grupos uns contra os outros: grandes empresas agrícolas e pequenos agricultores, activistas ambientais e lobistas empresariais, políticos locais e o Governo central.

As tensões estão à vista em Almería, uma província que regista regularmente as temperaturas mais elevadas da Europa. A terra costumava ser tão seca e árida que ali foram filmados filmes de Western, como O Bom, o Mau e o Vilão, protagonizado por Clint Eastwood. Tudo mudou em 1979, quando o Governo construiu cerca de 300 quilómetros de canais e gasodutos — conhecidos como transvase Tejo-Segura — que trouxeram água da planície central para o deserto do Sul.

Mais de quatro décadas depois, a terra fértil de Almería abriga tantas estufas que o “mar de coberturas de plástico” pode ser visto do espaço. Tornou-se o coração do sector espanhol de frutas e legumes frescos, que movimenta 18 mil milhões de euros. Durante todo o ano, as explorações agrícolas fornecem frutos que necessitam de água em abundância para crescer, como as laranjas e os limões, às cadeias de supermercados de toda a Europa.

Mas esta proeza da engenharia não protegeu o abastecimento de água da região da seca crescente. Em Pulpí, uma cidade de Almería, as grandes explorações agrícolas tiveram de reduzir as áreas cultivadas, comprar água a outras cidades e arrendar terras mais a norte com acesso à água suficiente para manter a produção. Há dois anos, a Barragem de Negratin, que fornece o maior volume da água de Pulpí, teve de parar de bombear devido à descida do nível da água.

Os produtores de alimentos de Pulpí reagiram ferozmente ao plano do Governo espanhol de limitar a água retirada do transvase Tejo-Segura. “Sem água, Almería vai regredir décadas”, declarou José Caparrós, executivo de uma grande quinta, que pertence a um grupo responsável por gerir sistema de irrigação da cidade. “Precisamos de opções para ter acesso à água e alimentar o país.”

A reacção estendeu-se a toda cadeia alimentar espanhola — que engloba as zonas do Sudeste de Almería, Valência e Múrcia — com um grupo de pressão a afirmar que as restrições podem custar à indústria cerca de 6 mil milhões de euros e 15.000 postos de trabalho.

Alguns políticos aproveitaram o descontentamento nas suas campanhas para as eleições locais de 28 de Maio. Ximo Puig, presidente de Valência e membro do partido socialista de Sánchez, discordou abertamente do Governo central a respeito do plano de restrição do acesso à água. Em vez disso, repetiu a retórica dos candidatos da oposição que também tentam conquistar os votos dos agricultores. A vitória destes candidatos pode aumentar a resistência às políticas ambientais e de conservação da água de Sánchez antes das eleições gerais de Dezembro.
A luta para evitar novos poços ilegais

Alfonso Sánchez, um professor de Matemática do liceu que se tornou ambientalista e que vive em Múrcia, viu como a agricultura em grande escala — possibilitada pela captação de água subterrânea e de rios próximos — remodelou a sua cidade natal, Caravaca de la Cruz. Na década de 1990, centenas de pequenos agricultores não tiveram outra opção senão vender as suas terras a grandes empresas ou juntar-se a elas na produção de culturas que necessitam de muita água. Anos de agricultura mecanizada reduziram os recursos hídricos em até 60% na região, de acordo com um relatório do grupo verde de Sánchez.

Em vez de mudarem as suas práticas e de se adaptarem às condições mais secas dos últimos anos, muitos agricultores abriram poços ilegais para explorar água subterrânea. A Greenpeace estima que existam mais de um milhão de poços não autorizados em Espanha, utilizados principalmente para irrigar as culturas. Sánchez está a trabalhar para evitar que surjam mais, mas teme que a situação só piore à medida que a água se torna menos disponível. “Estamos a nadar contra a corrente”, salientou. “A seca só vai intensificar esta batalha pela água.”

19.5.23

Portugal tem 89% do seu território em seca

in Jornal Económico



A situação de seca meteorológica agravou-se no nosso País no passado mês de abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, de acordo dados recentemente divulgados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).


Portugal registou em abril um aumento significativo da área e da intensidade em seca meteorológica, sendo especialmente grave a situação dos distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro classificadas nas classes de seca severa a extrema.

No fim do mês passado, 33,2% do território estava em seca moderada, 22% em seca fraca, 19,9% em seca severa, 14,1% em seca extrema e 10,8% normal.

Precisamos de agir

A DECO quer ajudá-lo a poupar água! Partilhamos consigo a campanha informativa ÁGUA COM CONTA E MEDIDA sobre desperdício e uso eficiente da água. É urgente combater a seca severa em Portugal. Use a Água Com Conta e Medida e poupe mais de 120 litros num dia!

Enfrentamos diariamente o flagelo das alterações climáticas, mas continuamos a desperdiçar água, em grande parte por políticas de má gestão deste recurso essencial à vida. Para que a água não falte já amanhã, é urgente que todos os consumidores alterem rotinas, ajustem consumos e adotem comportamentos que permitam, sem perder o seu bem-estar, reduzir os efeitos do período de seca grave que atravessamos.

ÁGUA COM CONTA E MEDIDA destaca ideias para reduzir e poupar de forma fácil e simples.

Na casa de banho

Um banho de imersão pode gastar em média 150 litros de água, prefira um duche rápido de 5 minutos e reduzirá o consumo de água em 90 litros!

Em cada descarga de autoclismo pode gastar até cerca de 15 litros de água. Evite descargas desnecessárias não fazendo da sua sanita um caixote do lixo.

Caso não tenha uma dupla descarga no seu autoclismo, coloque uma garrafa de 1,5 litros, cheia de areia, dentro do depósito da água. Pode diminuir a descarga para 8 litros. Pode ainda regular o parafuso de plástico que comanda a boia. Poupará até 4 litros por descarga completa.

Feche a torneira enquanto escova os dentes e ensaboa as mãos, por minuto, as poupanças podem chegar aos 12 litros de água.

Providencie a reparação de torneiras que pingam. Uma torneira a pingar de 5 em 5 segundos, num dia, consome 30 litros de água, ao fim de uma semana são 210 litros. Feche bem as torneiras e mantenha a canalização doméstica em bom estado.

Na cozinha

Use as máquinas de lavar loiça e roupa apenas com carga completa, sem recorrer a ciclos com pré-lavagem. Prefira os programas eco e poupa cerca de 20% em água.

Não deixe a água a correr enquanto lava a loiça à mão. Encha uma bacia com água limpa para retirar o detergente da louça lavada.

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No exterior

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15.5.23

Seca: a “maior catástrofe de sempre” já está à nossa espera na bacia do Sado

Carlos Dias (texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público


Espera-se o pior na produção de cereais e na pecuária. Os animais não têm alimento e os produtores pecuários já enfrentam a escassez de água. As searas estão perdidas. Nem a palha se aproveita.


Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.

Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.

Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.

É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.

Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.

No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.

Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.

O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.

Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz

Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.

Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.

Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.

Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.

“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral


De 30 para dois fardos de forragem por hectare

O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”

A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”

Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.

Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”

Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"

Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos

Barragens no vermelho

Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.

Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.


O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.

Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”

O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.

“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.

Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.

Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.

12.5.23

Há praias que encolheram dezenas de metros em Portugal. Outras cresceram

Cláudia Carvalho Silva, in Público


Dados recolhidos por satélite assinalam zonas mais críticas no Algarve e Aveiro, onde as praias reduzem de ano para ano por causa da retenção sedimentar. Mas há outras em que o areal tem crescido.


Há zonas costeiras em Portugal que estão a perder vários metros por ano para o mar: na praia da Cacela Velha, no Algarve, a linha de praia recuou cerca de 4,5 metros por ano (no período de 1995 a 2022), segundo os dados recolhidos por satélite e analisados pelo programa Space for Shore, que conta com a participação de cientistas da Universidade de Aveiro. Outras zonas como a Costa da Caparica e Lagoa de Óbidos também registaram mais de dois metros de recuo por ano. Mas “nem tudo é mau”: o responsável por este projecto em Portugal, Paulo Baganha Baptista, diz ao Azul que várias praias registaram “crescimentos bastante significativos”. Em Tróia, por exemplo, houve ganhos de 13 metros por ano.

As zonas mais críticas em Portugal quanto à erosão costeira estão já bem identificadas: a zona da Costa da Caparica, o troço entre a Lagoa de Óbidos e a praia do Baleal, a zona da praia da Fuseta até à praia da Barra, no Algarve, mas também várias partes do litoral de Aveiro, “nomeadamente a zona de Cortegaça e Furadouro”, explica Paulo Baganha Baptista, que é investigador no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (Cesam), da Universidade de Aveiro. Nessa região, a zona da Vagueira, Praia de Mira e Poço da Cruz estão também entre as regiões mais afectadas pelo recuo da linha de costa

Este cenário de segmentos costeiros vulneráveis acontece num contexto de “meio século de deficiência sedimentar devido às barragens”, refere o investigador – ainda que não seja a única causa. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) refere que existem cerca de 260 grandes barragens nos rios portugueses, que impedem muitos sedimentos e areia de chegar ao litoral. Como consequência, há perdas e ganhos. “Quando há sectores [praias] que estão a ganhar, esse ganho vem de algum lado. E, de uma maneira geral, é isso que está a acontecer”, explica Paulo Baganha Baptista.

Por isso, há casos coincidentes quanto aos recuos e avanços da costa, como se de uma manta curta se tratasse que tapa os ombros e deixa os pés a descoberto: no troço entre a Costa da Caparica e Praia da Mata, há perdas de 2,5 metros por ano a norte e ganhos até 2,5 metros por ano a sul. Entre a praia de Faro e a praia da Barreta, no Algarve, há perdas de até 3,8 metros por ano a oeste e ganhos de até 4,1 metros por ano a este. Em Tróia e na Comporta, “há praias que estão a beneficiar porque há outros sectores que estão a perder sedimentos”. São praias que ficaram mais robustas, apesar de terem como vizinhas outras zonas em situação mais crítica.

O défice sedimentar tem estado a ser resolvido sobretudo com a alimentação artificial das praias com areia, elenca Paulo Baganha Baptista, explicando que se trata da extracção de sedimentos onde eles existem para alimentar as praias em que estão em falta. São processos muito caros e que implicam um investimento contínuo. Só na Costa da Caparica, foram gastos 11 milhões de euros de 2014 até hoje para alimentar de areia as praias, segundo os dados fornecidos pela APA ao PÚBLICO. E é preciso haver ordenamento do território, planos de adaptação e várias soluções para decidir como se reage às alterações da linha de praia.
Satélites com visão mais global

Este programa Space for Shore foi lançado em 2019 pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) e permite monitorizar de forma mais abrangente a erosão costeira a partir do espaço. Mostra que “os satélites nos estão a dar informação útil para conhecermos melhor as regiões costeiras”, refere o responsável português.

O consórcio é liderado pela empresa francesa i-Sea, que fez o convite à Universidade de Aveiro para integrar o projecto. Além de Portugal, fazem também parte dezenas de instituições científicas de França, Alemanha, Grécia, Roménia e Noruega. O investimento foi de quatro milhões de euros e o programa está agora a chegar ao fim. Ao todo, foram analisados mais de 4500 quilómetros de costa na Europa.

No caso português, nem todos os dados foram ainda tratados e a análise não se focou nos arquipélagos. Certo é que a detecção por satélite permite uma cobertura total do território, argumenta Paulo Baganha Baptista, e o objectivo é que, mesmo terminado o projecto, estes programas e algoritmos “fiquem alojados numa plataforma para que qualquer utilizador os possa usar”.

Entre os dados analisados neste projecto Space for Shore, estão indicadores de erosão costeira, que incluem a linha de espraio máximo, a linha de base da duna, a posição da base e da crista de arribas rochosas, assim como dados de batimetria da zona costeira (fundo da praia submersa). A análise teve em conta não somente as praias arenosas, mas também as zonas de arriba.

Grande parte dos dados foi recolhida pelos satélites Sentinel (pertencentes ao programa europeu Copérnico, para observação da Terra), que tendem a passar em cada zona de 15 em 15 dias, menciona Paulo Baganha Baptista. Ainda assim, também foram usados outros tipos de sensores, cruzando outras bases de dados.

A informação recolhida por satélite é mais abrangente e permite traçar um retrato mais fidedigno de todo o território. Esta “visão global” serve de complemento aos mecanismos usados a nível local, que têm “informação muito rica e muito precisa, mas são extremamente localizados”.

Paulo Baganha Baptista refere precisamente que quiseram envolver desde o início “todos os interlocutores costeiros: municípios, portos, áreas com jurisdição litoral”. No fundo, “os utilizadores finais destes produtos”. A erosão costeira é um problema que deve ser pensado a longo prazo e que deveria envolver uma mudança na forma como se olha para o ordenamento do território. Assim, os indicadores de erosão costeira resultantes destes quatro anos de projecto poderiam ajudar já a dar respostas e ajudar nas necessidades de cada região.

Existe uma tendência generalizada de perda sedimentar e há zonas críticas e tem de ser feita uma análise de custo-benefício se realmente vale a pena ou não, caso a caso, manter as populações nos locais onde estão Paulo Baganha Baptista

A intenção é que a informação possa também passar mais facilmente para os decisores políticos. “Com base nessa informação quantitativa, as entidades podem fornecer aos decisores políticos ideias sobre a forma como poderão ser geridas determinadas zonas do território”, comenta o investigador, em conversa com o Azul. “O conhecimento das perdas e dos ganhos ajuda-nos a ter uma visão de conjunto que poderá ser útil depois para a gestão das próprias alimentações artificiais que se podem fazer no futuro”, considera o especialista, formado em Geologia e doutorado em Geociências.
O mar a subir pode empurrar as populações?

Num contexto de crise climática, as alterações climáticas podem agravar estes cenários de erosão costeira causados por défice sedimentar, acredita Paulo Baganha Baptista. Os estudos e os relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) indicam que a subida do nível médio das águas do mar, causada pela expansão térmica dos oceanos (que acontece devido ao aquecimento global) e pelo derretimento das calotas polares e da Gronelândia, continuará a ser uma realidade, mesmo que se abrandem as emissões de gases com efeito de estufa.

Até 2100, segundo os dados do IPCC, o mar pode subir entre 43 e 79 centímetros (no melhor e no pior dos cenários). Mesmo sendo uma subida lenta, também se sabe que as alterações climáticas farão com que haja uma maior frequência e intensidade de fenómenos extremos (como tempestades e inundações), o que deixa as populações costeiras em maior risco.

E é por isso que é importante pensar com minúcia na situação em cada zona. “Existe uma tendência generalizada de perda sedimentar e há zonas críticas e tem de ser feita uma análise de custo-benefício se realmente vale a pena ou não, caso a caso, manter as populações nos locais onde estão e defender esses sectores e ver se o custo dessa manutenção se justificará ao longo de dezenas de anos”, admite Paulo Baganha Baptista. “Ou se, em alternativa, haverá benefício em fazer realojamento dessas mesmas populações noutros locais mais interiores.”