Mostrar mensagens com a etiqueta EAPN Portugal - Pe . Jardim. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta EAPN Portugal - Pe . Jardim. Mostrar todas as mensagens

5.1.23

Ministério da Habitação "é aposta numa sociedade mais digna e inclusiva", diz Rede Europeia Anti-Pobreza

Sérgio Costa, in RR

Criação do ministério traduz um reconhecimento da "atenção necessária" para a "libertação de uma parte da sociedade portuguesa de situações de miséria", realça o padre Jardim Moreira.

A Rede Europeia Anti-Pobreza (REAPN) considera que o aparecimento de um Ministério da Habitação é um passo importante rumo à dignificação e inclusão da sociedade portuguesa, sublinha

Em declarações à Renascença, o presidente da REAPN, o padre Jardim Moreira, salienta que a habitação é "um dos pilares fundamentais para atacar a pobreza nas suas causas". "É um ponto fundamental para resolver a falta de condições de higiene, de saúde e de autoestima", refere o presidente da EAPN Portugal.

"Muita gente, particularmente entre grupos étnicos, precisa de ter água, luz e aquecimento."

Segundo Jardim Moreira, as famílias mais pobres vivem em "casas desadequadas e sem condições", num momento em que é "fundamental cuidar" da habitação em Portugal. "E é grave, porque não há gente para a construção."

Nesse sentido, o presidente da EAPN Portugal vê no novo ministério da Habitação um reocnhecimento da necessidade de apoiar "uma parte da sociedade portuguesa" para a qual a "habitação é essencial para a sua dignificação, para a sua libertação das situações de miséria em que vivem e para a inclusão de muita gente que vive em barracas".

Até ao momento, Jardim Moreira considera que as políticas de habitação têm falhado no país. "Tem havido aqui e acolá, geralmente através de municípios e através de fundos nacionais, mas a verdade é que o inquérito [que] foi feito aos municípios mostrou a quantidade de milhares de pessoas que não tinham casa digna, aquecimento, ou higiene."

O setor tem sentido "novas dificuldades, que não eram previsíveis há uns anos e que neste momento se acumulam". E o padre acredita que a situação "tem piorado, de algum modo".

"Muita gente não tem dinheiro para pagar a renda, não tem dinheiro para pagar casas novas e vão-se sujeitando a situações cada vez mais difíceis."

A tónica colocada na habitação "é uma aposta que se torna muito importante para a construção de uma sociedade mais digna e mais inclusiva", remata o presidente da EAPN Portugal.

6.10.22

"Falta ousadia" no Governo para enfrentar aumento de pessoas em situação de sem-abrigo

Pedro Mesquita, in RR

O padre Jardim Moreira lamenta que as entidades públicas "ainda não tenham assimilado o problema", porque para elas é "um assunto marginal".

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), em Portugal, considera que "falta ousadia" ao Governo para enfrentar o aumento de pessoas em situação de sem-abrigo que se tem registado.

Entre dezembro de 2020 e dezembro de 2021, o número de pessoas em situação de sem-abrigo aumentou, havendo mais 140 pessoas. São contas do Núcleo de Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo, no Porto.

À Renascença, o padre Agostinho Jardim Moreira diz que a estratégia de combate a estes números falha à escala dos municípios e também do poder central.

"Tem tido a vontade de dar uma resposta política, que não fique mal na fotografia, mas os resultados não têm sido tão visíveis quanto isso. Era preciso uma estratégia e uma política para erradicar a pobreza", apela.

E entre os sinais de uma falta de vontade política, o padre Jardim Moreira dá um exemplo: Continua por nomear a comissão de acompanhamento da Estratégia de combate à Pobreza, há muito aprovada.

"Não há vontade política de enfrentar como deve ser enfrentado o problema. Tem havido respostas pontuais, mas não são assumidas por quem deve de o fazer", critica.

O padre Jardim Moreira lamenta que as entidades públicas "ainda não tenham assimilado o problema", porque para elas é "um assunto marginal".

O presidente da EAPN rejeita que a ação social "seja para os padres".

"É preciso que se deixe de pensar isso. A resposta social cabe, em primeiro, ao poder público", conclui

12.8.22

Reforço abono de família. Padre Agostinho Jardim Moreira defende mais apoios na saúde e educação

Antena 1

O abono de família para as crianças do 1.º e 2º escalões vai passar a ter um valor mínimo de 600 euros por ano e por cada filho.
O padre Agostinho Jardim Moreira, da Rede Europeia Anti-Pobreza, ouvido esta quinta-feira pela Antena 1, considerou que estes apoios estão no caminho certo e surgem na altura mais adequada.

Considera ainda que estes apoios devem ser complementados com medidas também nas áreas da saúde e da educação.

6.7.22

Padre Jardim Moreira: “Sem apoios sociais, risco de pobreza estaria nos 43%”

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), padre Jardim Moreira, diz, em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, que a realidade da pobreza em Portugal "é bastante mais sombria" do que aquela que os números nos revelam.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), padre Jardim Moreira, diz que a realidade da pobreza em Portugal "é bastante mais sombria" do que aquela que os números nos revelam.

Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, o padre Jardim Moreira garante que o risco de pobreza aumentou com a pandemia e está agora a acentuar-se com a guerra. O responsável adianta um número: 43% seria o risco de pobreza em Portugal, se não houvesse apoios sociais.

"Em Portugal, ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza”, lembra o sacerdote, apontando que “não se investe na transformação da situação das pessoas em pobreza”.

“O dinheiro que se gasta aos milhões não tem um resultado prático na libertação da pobreza”, sublinha.

O padre Jardim Moreira diz ter medo que a “mudança estrutural” que a estratégia nacional de combate à pobreza obriga possa não avançar porque “o problema da guerra atrapalha a vida do governo e se calhar a manta é pequena para cobrir todas as necessidades”.

Ainda assim, o responsável promete continuar a insistir para que “essa rutura” avance e diz ter no Presidente da República um aliado na defesa da concretização do plano, um agente de pressão quando disse “é preciso decidir já”.

Noutro plano, Jardim Moreira admite a possibilidade de a REAP se tornar parceiro social a breve prazo porque “existe acordo” e para que isso possa acontecer “falta mudar a lei”.

Na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, revelada na terça-feira, o Papa deixou uma exclamação: "Quantos pobres gera a insensatez da guerra!" Na sua opinião, era importante o Papa sublinhar esta relação entre a guerra e o aumento da pobreza?

É natural e é conveniente que o diga porque a guerra é uma violência contra o ser humano. É um desrespeito pelos direitos e pela dignidade do outro. É insensibilidade à vida, aos afetos, à justiça e à equidade. Portanto, há um ataque direto e absurdo na guerra contra o ser humano para o destruir. É o pior e o maior pecado, o maior ataque à humanidade. Porque é a morte querida, voluntária e bem estruturada.

"A pobreza é uma injustiça, uma forma de corroer a democracia"

Penso que o Papa, como referiu na sua introdução, diz coisas muito sérias e importantes, que eu retomava. Porque o Papa insiste que estamos numa sociedade que se caracteriza pela proposta da felicidade no possuir, no ter, no lucro. E o Evangelho não propõe isso. Nomeadamente no Sermão da Montanha, nas Bem-aventuranças diz-nos que a felicidade está no ser. Eu acho que é esta luta hoje entre o ser e o ter que nós assistimos, nomeadamente aqui na Europa, com o sistema capitalista a enveredar lucro, enquanto a Igreja propõe a felicidade sem o lucro ou sem o objetivo de viver pelo lucro, mas sim, a viver na bem-aventurança da pobreza. Isto é, usando os bens, mas sem serem o objetivo da sua existência.

Essa é uma temática que nós vamos desenvolver daqui a pouco, porque ela é, basicamente ,uma das dimensões que está desenvolvida nesta mensagem para o Dia Mundial dos Pobres. A outra, que por onde tínhamos começado, tem a ver com esta questão da guerra e do seu impacto nas populações mais vulneráveis. O Papa tem insistido muito na questão do apoio solidário, mas alerta para dificuldades no acolhimento e, sobretudo, para a possibilidade de se perder a motivação inicial.

E esta é a pergunta: existe o risco de se começar a ver a guerra como algo ordinário e acostumarmo-nos a este sofrimento?

Acho que podemos olhar para a guerra neste momento como um jogo de forças políticas e de interesse de blocos, onde as pessoas passam a ser apenas marionetas. Se morrem mais ou menos 100, não é importante. O que importa é a predominância da minha vontade, do meu objetivo político estratégico. Por isso, a guerra pode durar mais um ano porque isso não importa. O que importa é que as forças militares tenham poder bastante para dizimar também os soldados russos e fazer recuar toda a grande metralha do exército russo. Isto é, o importante é repelir a ameaça do inimigo. E não importa, neste momento, quem é que vai sofrer para pagar esta guerra. Eu penso que há aqui um discurso que está a ser elaborado, que me parece que foge à realidade, porque penso que, como estamos num tempo em que a verdade só existe a 50%, a gente passa a não saber aonde está a verdade toda. E nunca está de lado nenhum, pelos vistos, pois assim acontece em tempo de guerra.

Mas esse arrastar não poderá também, de alguma forma, tornar banal a referência à guerra?

Ela tornou se banal porque se torna secundária.

Essa secundarização pode também deixar para trás as pessoas que estão a sofrer?

Necessariamente, ficam. Porque o objetivo não é cuidar das pessoas. O objetivo é defender ideologias e forças políticas e estratégicas. Neste momento, não está ainda definido como vai terminar esta guerra na constituição dos blocos que vão provocar uma nova geografia do planeta, mas as grandes potências, como é que elas se vão delimitar? E quem é que vai ser amigo ou inimigo de quem? E este ajustamento vai demorar algum tempo a fazer-se e os ucranianos são apenas o pivô de uma discussão que não vai parar tão cedo, certamente. Porque as razões tornaram-se globais e tornaram-se planetárias e, portanto, a circunstância local já não é a mais importante. São as razões globais e interblocos no planeta.

"Reduzir a luta contra a pobreza apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro não chega"

As pessoas que nos estão a ouvir percebem que há consequências globais porque, depois da pandemia, esta guerra trouxe aumentos significativos de preço e a vescassez de alguns alimentos. Para Portugal, esta espécie de tempestade perfeita está a ter já algum reflexo nos índices de pobreza?

Necessariamente já teve e vai ter mais. Já vinha da pandemia em que houve um aumento substancial e já estávamos com 23% da população pobre. Ou, melhor, em risco de pobreza, sabendo que este número corresponde ao número após a transferência das prestações sociais. Sem as prestações sociais íamos para 43%. Quer dizer que a realidade nacional é bastante mais sombria do que aquela que normalmente corre. A gente tem de perceber que a realidade social portuguesa não tem qualidade de vida. Vive na subsidiodependência, por mais que se queira encobrir. Mas é uma forma de manter a pobreza em Portugal e não de tirar os portugueses das suas incapacidades, relacionadas com a qualidade ou com as oportunidades de acesso à vida, aos instrumentos de desenvolvimento e à inclusão das pessoas.

Nessa perspetiva, a aposta no aumento do salário mínimo pode ajudar a ser solução ou é também necessário apostar, como muitos defendem, num aumento do salário médio?

A solução não está em atirar dinheiro para os problemas. Essa é uma situação política tradicional e assistencialista que não tem resolvido nem vai resolver. Porque é preciso trabalhar com as pessoas para que elas saiam pela sua capacidade e pelo seu desenvolvimento integral da situação em que vivem. Eu penso que é necessário - e se calhar nós os cristãos - temos de o afirmar muito claramente que a pobreza não é só comer e dormir. Nós somos um todo antropológico, uma unidade antropológica. Nós somos um espírito e a pobreza passa pelo desenvolvimento integral de todas estas capacidades emoções, inteligência, vontade, afeto, família, comunhão, sem as quais nós não somos pessoas. E portanto, reduzir a luta contra a pobreza apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro não chega. É reduzir a pessoa à baixa condição de animal, ou pouco menos

Tem falado, nomeadamente na questão da educação, que é fundamental?

Mas temos de dizer que educação não é igual a informação. A educação, no meu entender, é desenvolver todas as potencialidades humanas, de modo que a pessoa seja desenvolvida na sua integralidade. E, por isso, nós, os cristãos, temos o dever de insistir que a luta contra a pobreza é pela dignidade da pessoa toda.

"Em Portugal, ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza"

Nesse contexto, pergunto-lhe, em relação à estratégia de combate à pobreza, que ajudou também a definir e que já foi publicada há cerca de meio ano, o que é que esses alertas podem ajudar para ser colocada em prática uma estratégia que funcione?

O que eu penso é que está neste momento em cima da mesa, se não estará na gaveta, mas tenho medo porque ela é uma rutura. Ela pressupõe para ser aplicada uma certa rutura de mentalidades e de políticas e de políticas sociais do Estado. Porque nós sabemos que as políticas sociais, desde o 25 de Abril, têm mantido a pobreza neste nível de 20%, 18% 22%., e não sai daqui. Quer dizer que em Portugal ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza. Quer dizer que o dinheiro que se gasta aos milhões e milhões não tem um resultado prático na libertação de ninguém da pobreza a curto prazo. E, portanto, só uma mudança estratégica supõe uma mudança ideológica, e uma mudança política e de conceitos e de valores e é uma mudança estrutural. E não sei neste conjunto (cenário) que não favorece com mais este problema da guerra, o problema da inflação, o problema do aumento das fontes energéticas, isto vai atrapalhar mais a vida do governo, para poder governar isso tudo não é. Se calhar a manta é pequena para cobrir todas as necessidades. E eu tenho insistido, e estamos a insistir. O Presidente da República há dias dizia que é preciso decidir já. "É preciso decidir já". E eu não sei se teve alguém que ouvisse.

Isso foi uma forma de pressionar o Governo?

Exatamente. Foi assim que eu o entendi. O Governo estava presente, pois esteve presente no nosso congresso o primeiro-ministro, esteve presente a ministra do Trabalho, esteve presente o presidente da Assembleia da República e o ministro da Administração Interna também esteve. Há aqui uma série de circunstâncias que favorecem esta integração e esta aplicação da estratégia. Foi-nos comunicada a estrutura da equipa que vai implementar a estratégia. Agora, está no papel é preciso que passe à prática...

Está pessimista?

Eu não estou pessimista. Eu acho que as situações se complicaram e neste momento é preciso também dar força ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente, antes que passe a hora de as aplicar.

Mas sente que da parte do Governo existe vontade política para avançar?

Pelo menos nos discursos, sim. Agora, as circunstâncias estão a alterar-se um bocado e podem criar problemas. Esta mudança exige clarividência e exige vontade política, e exige uma mudança estratégica que é também estrutural na vida e na governação do país.

Mas é necessário, de facto, alterar alguma coisa, até porque, de acordo com aquilo que vem dizendo ao longo da nossa conversa, é que todas as intervenções ou todas as estratégias de combate à pobreza, na realidade foram um fracasso.

Elas não têm sido um sucesso, não. Não têm sido sucesso porque nem o número altera nem a família sai da pobreza. É uma questão de inteligência e até uma questão prática de evitar, porque são milhões que se gastam por ano, desde o rendimento mínimo de inserção a todos os subsídios. Já é um caudal razoável de dinheiro e, para quem está a ver desse lado, é um dinheiro que não vai ter fruto, não vai ter resultado, vai alimentar a situação, mas não a transforma.

As pessoas que nascem hoje com rendimento mínimo já pensam que isto é um modo de vida nacional? Por quê? Porque não se investe na transformação da situação das pessoas em pobreza.

É preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indivíduo - o avô, a criança… a verdade é que ninguém existe fora de uma família, boa ou má. Para nós, a intervenção da pobreza tem de ser diretamente dirigida à família, no seu todo, ao seu agregado.

Desde a habitação à saúde, a educação ou a cultura. Tudo isso é necessário para que a pessoa saia da pobreza.

Temos um provérbio, que diz “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. É preciso uma aldeia e mais alguém para tirar uma família da pobreza. O problema é igual: a sua educação e a sua inserção.

"É preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indivíduo (…) ninguém existe fora de uma família, boa ou má. A intervenção na pobreza tem de ser diretamente dirigida à família."

No último dos quatro seminários do Congresso "Diálogos sobre a Pobreza", que a EAPN promoveu, disse que Portugal tem uma rara oportunidade - e penso que estava a referir se também à chamada "bazuca" - de aliar a recuperação económica ao combate à pobreza. É efetivamente o momento de criar uma sociedade mais inclusiva e mais justa?

Estamos convencidos que pode ser e deveria ser. A abundância deste dinheiro todo - não só da "bazuca", mas também dos fundos comunitários - deveria ser canalizada para a mudança da sociedade e das causas que geram este problema que já é endémico em Portugal.

Há um programa que está em curso, de construção de casas para 60 mil famílias. Dizem que já não chega, mas é por aí. Outra questão é apostar no ser humano desde o seu primeiro momento - já vamos na creche e jardim de infância gratuitos, porque é fundamental, mas é preciso que haja capacidade de os acolher e que haja vontade de lá pôr as crianças. Acompanhar os pais e as mães.

Sabemos que a pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina. As mães solteiras, que são em grande número, em Portugal, neste momento criam problemas muito singulares e graves de pobreza, por causa da sua condição. Olhar só para as mães solteiras com olhar de piedade, não basta: é preciso um olhar de justiça e de responsabilidade para com quem gera um filho.

Há quem critique o facto de o Governo e o Estado arcarem com a maior parte da fatia da "bazuca". Isto é motivo de preocupação?
Nestas circunstâncias, tem de ser, não há outra forma, até porque nós não temos em Portugal uma tradição de responsabilidade social na solução dos problemas. Somos herdeiros de uma mentalidade de 40 anos de certa ditadura, com toda a centralização do poder. Mas a verdade é que ele também continua a ser centralizado e temos um Governo muito centralizador de tudo, em Lisboa.

A transferência de competências está agora em cima da mesa, por causa da luta pela questão das verbas, mas eu penso que, mais do que verbas, não está a ser refletida toda a competência que é preciso ter em conta numa transferência de responsabilidade, nas pessoas. A transferência das competências tem, ou deve ter, como objetivo melhorar a possibilidade de acesso aos serviços e a serviços de qualidade.

Estamos a ver neste momento, por exemplo, que na Saúde isso não acontece e só os pobres é que ficam aflitos, os ricos vão para o privado.

Uma das questões que o Papa levantou na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres foi que “a pobreza”. O padre Jardim Moreira também a usou, no colóquio da Gulbenkian. A sociedade ainda não tem consciência dos custos pessoais e coletivos deste problema?

Temos a mesma leitura evangélica, o Espírito Santo é o mesmo. O que é importante dizer é que não é só a economia que mata, mas a pobreza mata, porque as condições de vida são degradantes: a falta de saúde, a falta de higiene, falta de trabalho, a falta de dinheiro, a falta de esperança, de autoestima levam a que a pessoa definhe.

Falava com alguém que um jovem de 58 anos morreu na rua. Por que é que morreu na rua? Abandonou a família, a mulher, deixou de ter cama, deixou de ter comida, alcoolizava-se e em poucos anos morreu. A pobreza leva à morte? Se não tem medicamentos, morre; se não tem o que comer, morre; se não tem higiene, se tem feridas, morre. A morte pode ser mais lenta, mas morre de qualquer forma.

É necessário assumir que somos também coniventes no assassinato, de alguma maneira, daqueles que morrem nesta situação. A sociedade acha que não, porque quer culpabilizar os pobres, diz que são pobres por decisão própria. Terão posteriormente alguma colaboração nessa responsabilidade, mas a verdade é que caíram nesta situação porque são vítimas da injustiça e vítimas de uma situação de desigualdade que os torna assim.

"A pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina (…) Olhar só para as mães solteiras com olhar de piedade, não basta: é preciso um olhar de justiça e de responsabilidade para com quem gera um filho"

A Rede Europeia Anti-Pobreza tem 30 anos de existência num trabalho que é reconhecido como essencial, para destacar o combate à pobreza como uma prioridade O que falta para que este seja o verdadeiro desígnio dos governantes?

Bom, os 30 anos foram necessários para que pudesse ser acreditado em Portugal que há pobres e que a pobreza é uma injustiça, uma forma de corroer a democracia e impedir o desenvolvimento de uma sociedade global. Estes 30 anos foram o momento para podermos atingir as mesas, o Governo, a Assembleia da República, para que este problema fosse aceite como problema nacional. O que falta agora é aceitar que a Rede seja um parceiro de diálogo.

Francisco Assis, presidente do CES, está empenhado em que nós participemos no Conselho Económico e Social, considerando que essa é uma das facetas indispensáveis para conjugar as políticas nacionais. Falamos também com o primeiro-ministro, estão todos de acordo em mudar a lei para que isso possa acontecer.

A Rede, entrando como um verdadeiro parceiro do Governo, poderá então influenciar e apontar os caminhos que são corretos - ou que parecem mais corretos, devem ser sempre avaliados -, de mudanças adequadas para que a luta contra a pobreza seja eficaz.

A breve prazo teremos a Rede Europeia na concertação social?

Penso que sim, está prometido que sim.

Com o Ministério também estamos já como parceiros. O primeiro-ministro aceitou reunir frequentemente connosco, o Presidente procura também ver se conseguimos manter este diálogo de topo, no sentido de pressionar, para que a pessoa humana em Portugal mereça a atenção de todos, que cada um seja motivo suficiente para mudar as políticas.

Passa por aí, então, a criação desse verdadeiro desígnio?

Eu penso que sim, porque de palavras e discursos já chega. Não basta iludir o problema com palmadinhas nas costas, de vez em quando. Esta, para mim, foi a razão do Congresso: manifestarmos cientificamente as nossas opiniões, que não são ideológicas, mas que são científicas, analisadas objetivamente, procurando ver quais são as respostas adequadas, a partir de um diálogo muito franco e muito transparente, com todo o nível de poder.

"Acho que as situações se complicaram e neste momento é preciso também dar força ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente"

SAIBA MAIS
Da pobreza a uma comunidade escolar atípica. Chumbos e abandono preocupam no Algarve
Portugal tem “rara oportunidade” de aliar recuperação económica e combate à pobreza
"Pobreza não é fatalismo". 62% dos alunos carenciados acabam secundário sem chumbar
Dia da energia. Combate à pobreza energética lidera apelos da Zero
Guerra na Ucrânia vai empurrar mais quatro milhões de africanos para a pobreza extrema

 

17.2.22

Guerra de concorrência deixa famílias carenciadas sem comida. Segurança Social admite falhas

Por Cristina Lai Men com Carolina Quaresma, in TSF

Não é a primeira vez que os cabazes têm cortes. O Ministério da Segurança Social, que faz a gestão do programa operacional de apoio às pessoas mais carenciadas, admite falhas na entrega de alguns produtos, mas garante que o problema deverá começar a ser resolvido já este mês.

O programa é co-financiado por fundos comunitários

Há famílias carenciadas que têm cada vez menos comida no prato. São pessoas que recebem apoio do programa operacional de apoio às pessoas mais carenciadas, criado para combater a pobreza e exclusão social. O Jornal de Notícias (JN) denuncia, esta segunda-feira, que uma guerra de concorrência está a prejudicar estas famílias.

Todos os meses recebem um cabaz com 25 alimentos, mas desde setembro muitos cabazes deixaram de ter leite, arroz, peixe congelado, atum, azeite e bolachas Maria. E, em alguns cabazes, os produtos que são entregues, vêm em menor quantidade. O JN ouve várias famílias carenciadas e assistentes sociais.

Uma assistente em Setúbal conta que o leite é o alimento que faz mais falta, porque há muitas famílias com crianças. O programa operacional de apoio às pessoas mais carenciadas ajuda 120 mil pessoas. Não é a primeira vez que os cabazes têm cortes. Já aconteceu em 2019, altura em que o Tribunal de Contas alertou para uma baixa taxa de execução do programa: apenas 32%.

O Ministério da Segurança Social, que faz a gestão do programa, admite falhas na entrega de determinados produtos, mas acrescenta que alguns serão distribuídos ainda este mês. O Ministério avança com três explicações para os cortes: primeiro, a impugnação dos concursos públicos para a compra dos alimentos; segundo, a demora na análise da emissão dos pareceres técnicos da ASAE e, finalmente, as exigências da União Europeia no que toca a este tipo de concursos.

O programa, que começou em Portugal em 2014, é cofinanciado por fundos comunitários.

O Governo garante que não estão a ser entregues produtos estragados ou fora de validade e revela que, até junho, vão ser feitas mais de 60 operações para verificar a qualidade dos cabazes alimentares distribuídos a estas famílias carenciadas.
"Processo sujeito a muita burocracia." Rede europeia anti-pobreza não está surpreendida com as falhas

Ouvido pela TSF, o padre Jardim Moreira, presidente da rede europeia antipobreza, confessa que não está surpreendido com as falhas nos cabazes às pessoas mais necessitadas. Afinal, o processo tem burocracia a mais.

"É um processo que está sujeito a muita questão burocrática", considera, referindo que "isso vem dar razão" à proposta da rede europeia antipobreza que pretendia entregar às pessoas um cartão magnético para que pudessem ir ao mercado e "satisfazer as suas necessidades". "As pessoas merecem este cuidado."

O padre Jardim Moreira tem dificuldade em imaginar como vivem estas pessoas. "É um problema de sofrimento que as pessoas têm que enfrentar. É um problema que pode ser dramático na vida das pessoas."

A TSF já tentou contactar o Ministério da Solidariedade, que justificou, em comunicado, o atraso: deve-se, segundo ao Executivo, a "impugnações judiciais interpostas pelos concorrentes, demora na análise da emissão dos pareceres técnicos da ASAE e exigência da União Europeia da tramitação procedimental associada aos concursos".

O programa, que tem contratos individuais de produtos com os fornecedores, deve voltar a ser regularizado ainda em fevereiro. "A situação está a ser gradualmente ultrapassada e alguns produtos vão ser distribuídos ainda este mês", pode ler-se na nota enviada à TSF.

"O Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas foi reforçado em 2020 de forma progressiva para responder à crise pandémica, duplicando a oferta de cabazes de 60 mil para 120 mil beneficiários. Relativamente aos Cartões Eletrónicos Sociais, preveem-se que entrem em funcionamento no quarto trimestre deste ano. Este é um projeto-piloto de um ano que irá coexistir com a modalidade de cabazes alimentares. Durante este projeto-piloto, estima-se que sejam abrangidas 30 mil pessoas."

* Notícia atualizada às 10h10

20.1.22

Risco de pobreza em Portugal atingiu quase dois milhões de pessoas

in Contacto

Pandemia fez aumentar o número de pessoas em risco de pobreza, no país, de 1,7 milhões em 2019 para 1,9 milhões em 2020. Mulheres e idosos foram os mais atingidos.

O risco de pobreza aumentou entre 2019 e 2020, segundo dados provisórios do INE revelados no relatório “Portugal, Balanço Social 2021”, atingindo quase dois milhões de pessoas e com subidas maiores entre mulheres e idosos, mas também nas famílias.

De acordo com a informação do relatório "Portugal, Balanço Social 2021 – Um retrato do país e de um ano de pandemia", apresentado publicamente esta terça, e tendo por base os dados preliminares do Inquérito aos Rendimentos e Condições de Vida (ICOR) que o Instituto Nacional de Estatística (INE) disponibilizou em dezembro de 2021, a taxa de risco de pobreza aumentou dois pontos percentuais (pp) entre 2019 e 2020.

Os dados recolhidos no ICOR têm por base a situação financeira e profissional das famílias portuguesas em 2020, graças aos quais "é possível descrever sumariamente o impacto da pandemia nas condições de vida das famílias", desde logo que a taxa de risco de pobreza após transferências sociais passou de 16,2% em 2019 para 18,4% em 2020.

"O número de pessoas em risco de pobreza aumentou de 1,7 milhões em 2019 para 1,9 milhões em 2020", refere o relatório elaborado pela Nova School of Business & Economics, uma das cinco faculdades da Universidade Nova de Lisboa.

Esta taxa de risco de pobreza aumentou mais entre as mulheres (2,5 pp) e entre as pessoas com mais de 65 anos (2,6 pp), tendo também subido entre todos os tipos de famílias, "especialmente nas famílias com crianças" (2,7 pp).

Dentro das famílias, o maior aumento registou-se nas famílias monoparentais, que sentiu um crescimento de 4,7 pp da pobreza para 30,2% durante o ano de 2020.

Já entre as pessoas desempregadas, a taxa de risco de pobreza atingiu 46,5%, o que representa mais 5,8 pontos percentuais do que em 2019.

Além dos dados preliminares para 2020, o Balanço Social reflete o estado social do país em 2019, ano em que a taxa de risco de pobreza diminuiu 1 pp, para 16,2%, relativamente a 2018, sendo o 5.º ano consecutivo em que este indicador diminui.

"A taxa de risco de pobreza antes de transferências sociais também diminuiu face a 2018, atingindo 42,4%. Tal como em 2018, a taxa de incidência de pobreza é maior entre os desempregados, famílias monoparentais e indivíduos menos escolarizados", lê-se no relatório.

A análise permite ficar a saber que nesse ano a pobreza era mais prevalente entre as pessoas desempregadas (33,3%), as famílias monoparentais (25,5%) e as pessoas com níveis de escolaridade mais baixos (21,9%), sendo que também as mulheres têm maior taxa de risco de pobreza que os homens (16,7% contra 15,6%).

"As crianças (0 aos 17 anos) e as pessoas mais velhas (mais de 65 anos) têm uma taxa de risco de pobreza superior à média nacional", com 19,1% e 17,5%, respetivamente, em 2019.

No que diz respeito aos idosos, o relatório "Portugal, Balanço Social" aponta que a taxa de risco de pobreza de 17,5% é 2,3 pontos percentuais acima da média nacional e que o valor é ligeiramente superior ao de 2018, quando a taxa de pobreza se ficou nos 17,3%. Quer isto dizer que em 2019, 381 mil idosos eram pobres.

"Como é expectável, o pagamento de pensões reduz a taxa de risco de pobreza deste segmento da população significativamente: para 20%, em 2019". O efeito das restantes transferências é menor, mas ainda assim relevante: entre 2017 e 2019, a taxa de risco de pobreza seria cerca de 1,15 vezes maior do que na ausência destas transferências.
60% das pessoas pobres em 2020 estavam em situação de pobreza persistente

Por outro lado, e relativamente à percentagem de pessoas que está em risco de pobreza de forma persistente, ou seja, no ano em análise e na maioria dos três anos anteriores, a taxa é de 9,8%, o que quer dizer, segundo os investigadores, que "60% das pessoas pobres em 2020 estavam numa situação de pobreza persistente", sendo que destas, "6% nunca saiu da situação de pobreza no período de quatro anos entre 2016 e 2019".

O relatório aponta também que um dos determinantes da pobreza é a relação com o mercado de trabalho, salientando que uma em cada três pessoas desempregadas são pobres, mas também que, em alguns casos, não basta trabalhar para fugir à pobreza, uma vez que uma em cada 10 pessoas empregadas são pobres.

Efetivamente, "40,6% dos indivíduos pobres vivem em agregados onde se trabalha a tempo inteiro".

Segundo o Balanço Social, e apesar de terem sido verificadas melhorias, as famílias pobres são as que têm piores condições habitacionais, têm uma saúde pior (auto-avaliada) e têm mais dificuldade em aceder a cuidados de saúde.

No que diz respeito à desigualdade na distribuição dos rendimentos, fica a saber-se que em 2018, os 25% mais ricos detinham 42% do rendimento do país, um valor que em 2019 sobe para quase 46%.

O retrato social mostra também um país desigual, com a Região Autónoma dos Açores a manter-se como a que onde há maior taxa de risco de pobreza (28,5%), o Algarve e o Norte onde há maior taxa de privação material severa (6,7%) e os salários mais altos concentrados na região litoral, especialmente na área metropolitana de Lisboa, Centro e Norte.

16.7.21

Regresso das barracas em Lisboa é “prova clara” da crise Covid

Hugo Monteiro, Filipe d'Avillez, in RR

O padre Jardim Moreira diz que o país ainda não tem noção da dimensão real do problema provocado pela pandemia a nível social.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza não está surpreendido com o facto de haver mais famílias a viver em barracas na região da Área Metropolitana de Lisboa.

Apesar de não ter dados sobre o fenómeno, o padre Jardim Moreira apela a uma rápida intervenção de Governo e autarquias para reverter a situação.

"Não temos ainda a dimensão real do que possa vir a acontecer. E essa é uma prova clara do que estava já a surgir”, começa por afirmar o sacerdote.

“Precisamos de estar atentos para que este problema seja revertido o mais rapidamente possível, com intervenção de todas as instâncias que têm responsabilidade na vida coletiva. Desde as câmaras, as juntas, as instituições e o Governo. Temos de ter aqui uma atenção, se não caímos aqui numa depressão coletiva. Temos de nos preparar para que as consequências da crise Covid se vão manifestar e avolumar”, diz.

Nestas declarações à Renascença, o padre Jardim Moreira destaca o peso da crise no setor do turismo e no crescimento das situações de pobreza.

“Quem cresceu mais na pobreza não foram os tradicionais. Esses mantiveram, mantêm com mais crise ou menos crise, mais ou menos abundância”, recorda.

“O que veio a complicar foram as 400 mil pessoas que ficaram sem casa ou ficaram sem emprego, as famílias que não têm alimentação e toda esta panóplia que vai criar toda uma dependência e toda uma dificuldade de sustentabilidade, como a que está ligada a muitos empregos que havia no turismo, que eram precários.”

O padre Jardim Moreira conclui então que “se então se não houver uma reviravolta a curto prazo as consequências vão ser de facto gravosas".